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Representação do negro ao longo da escravidão

A dimensão histórica e ideológica do racismo que coloca o negro na condição de inferioridade


compõe diversos aspectos ao longo da história na sociedade brasileira. O trabalho escravo
contribuiu de forma expressiva para construção de um “lugar” para o negro na sociedade. Não
basta, apenas, saber que numa época remota sujeitos de pele negra foram arrancados de suas
terras, escravizados como objetos, torturados e mortos por brancos em favor do imperialismo
econômico europeu. Mas, compreender como a escravidão de pessoas negras no Brasil
produziu um discurso no imaginário social sobre o “lugar” desse sujeito. O mito da democracia
racial, assim como o pacto narcisista dos brancos (branquitude) mantem-se silencioso e
duradouro na conservação dessa estrutura racista em termos de representações nos espaços
de privilégios sociais.

A história nos mostra como o Estado, as instituições religiosas e os senhores de engenho


impunham o negro na condição de subalternidade e como esses trabalhos realizados tornou-
se um imperativo no discurso e no imaginário social. quando o estado precisava de escravos,
alugava-os de particulares para realizar serviços de limpeza urbana, calçamento de rua,
mercados e matadouros públicos. Para propriedade do Estado passavam a ser os escravos
criminosos, condenados à prisão perpetua. Instituições beneficentes como a Santa Casa da
Misericórdia em 1787, utilizava escravos como cozinheiros, serventes e zeladores em
cemitérios.

Esse tipo de relação imposta sob a égide da mão de obra escrava nos dá subsidio para refletir
sobre esse lugar estereotipado do negro na sociedade brasileira. Em função desse passado
histórico, marcado pela desumanização que, como consequência, constitui um obstáculo à
construção da sua subjetividade, o negro tem no seu processo, o desafio de tornarse indivíduo,
sujeito protagonista de sua história. Os negros eram considerados “coisas”, “peças”,
“mercadorias” possuídas por aqueles sujeitos brancos que eram considerados como
indivíduos, pessoas pela sociedade.

Negro e violência

Os números são alarmantes. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.


Grande parte destas mortes são provocadas por agentes do Estado, representados pela Polícia
Militar. Em São Paulo, o número de mortes bateu recorde em 2017, alcançando o maior índice
em 25 anos. Em 2016, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não
negros e, em uma década, entre 2006 e 2016, a taxa de morte de negros cresceu 23,1%. Estes
casos, em sua maioria, não recebem nenhum tipo de investigação e acabam sendo arquivados,
o que movimenta uma teia onde a impunidade é a principal incentivadora de mais crimes.

A morte de jovens negros, pobres e das periferias, principal alvo destas ações, demonstra um
genocídio em curso em todo o país, o que não comove a sociedade, fruto do processo de
desumanização que a população negra enfrenta no Brasil, resquício de séculos de escravidão.
Uma narrativa oficial que legitima estas mortes é a famosa “guerra às drogas”, que banaliza a
morte de corpos negros em favelas e periferias. Tal projeto encontra seu complementar no
sistema penal brasileiro, cuja população carcerária já é a terceira maior do mundo — e
novamente: são corpos negros de homens e mulheres que seguem nas prisões brasileiras.
Diante de tudo isso há o silêncio generalizado da esquerda brasileira, que não pauta o tema da
segurança pública e da violência de Estado em seus debates, enquanto setores conservadores
da sociedade seguem na pregação de que “bandido bom é bandido morto”.

Explicar sobre o caso dos oitenta tiros: o músico Evaldo Manduca foi morto na zona Oeste do Rio
após ter seu veículo confundido com o de criminosos. Foram 80 tiros disparados contra o carro de
Evaldo que carregava o sogro, a mulher e o filho de sete anos. Todos negros. O episódio revoltou a
internet e promoveu debates sobre a questão racial e a PM no Brasil.

Identidade e processo identificatório na mídia brasileira.

Antes de discorrer sobre a inserção do negro na mídia brasileira é necessário apresentar aqui o
conceito de mídia definido por Muniz Sodré (2006) como “um instrumento de direcionamento
ou de criação de subjetividades no homem”

Percebemos uma assimetria de relações identitárias nos espaços midiáticos brasileiros em


relação aos negros e negras no Brasil. Torna-se perceptível essa relação em que nos principais
meios de comunicação de massa as (os) negras (as) ainda continuam sendo associados a
antigos estereótipos como a “mulata 6 sensual”, o “bandido” ou o “negro malandro”; e as
profissões consideradas socialmente inferiores, como empregadas domésticas e jardineiros.

Não é preciso ser especialista para perceber a invisibilidade dos negros e negras na mídia brasileira. Alguma
coisa está errada se a cara pública deste país, majoritariamente negro, é branca, o que colabora para reforçar
uma atitude e um sentimento de auto-desvalorização nos negros. Segundo o IBGE, os negros eram a maioria
da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Não seria justo ter essa porcentagem
de negros na TV brasileira?
O negro ainda não se encontra dignamente nos meios televisivos e sua representatividade é ínfima (4%). As
pessoas negras não se enxergam na propaganda brasileira; poucos anunciantes trazem negros como modelos
em suas campanhas.

As mulheres nas propagandas são majoritariamente jovens, brancas, magras, loira e com cabelos lisos. O
absurdo é que só existem 3% de verdadeiros loiros adultos no mundo. Os negros no Brasil consomem mais
de 1,5 trilhões de reais por ano em produtos. Então por que nunca vemos uma família negra promovendo
margarina. ha muito poucas propagandas de marcas luxuosas onde um negro seja a figura central. Quando
aparecem negros em uma publicidade, sempre é para produtos mais baratos e populares, fortalecendo
mais a segregação.
O negro sempre aparece como coadjuvante, complementando o cenário do branco e nunca como
protagonista.
A publicidade por muito tempo manipulou negros e negras a se colocar nos padrões de beleza branco, fazendo-
os acreditar que se tornariam mais belos se tivessem os cabelos lisos e a
pele mais clara possível; estereotipando assim o negro como feio e o branco belo. 
Já existem produtos voltados para o público negro, mas ainda são poucos ou simplesmente são produtos que
incentivam a descaracterização, como cremes alisantes e clareadores.