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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

Dejanira Kelly
João Gabriel Marcelo Vieira
Mateus Hygor Sampaio
Thaís Lago dos Santos

RESENHA CRÍTICA
O DESIGN BRASILEIRO E SUA RELAÇÃO COM A SOCIEDADE

SALVADOR – BAHIA
2019
MARTINS, Bianca Rêgo Maria. Design da informação de situações de utilidade
pública. Dissertação (Mestrado em Artes e Design)–Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro, Rio de Janeiro, p. 20-39. 2007

O artigo a ser resenhado faz parte da dissertação de mestrado intitulada “Design da


informação de situações de utilidade pública” da autora e Bianca Rêgo Maria Martins,
atualmente Doutora em Design pela PUC-Rio. Tem como capitulo “O Design brasileiro e sua
relação com a sociedade, estando divido em Considerações Preliminares; 2.1 - Comentário
sobre a trajetória do Design Brasileiro; 2.2 – Sobre a formação acadêmica e a prática do
Design; 2.2.1 - Formação Acadêmica; 2.2.2 – A prática profissional. O capitulo é de suma
importância, pois faz o apanhado histórico desde a formação do design no periódo industrial,
passando por sua construção no Brasil até as observações acerca das questões que o envolve
em relação a formação e da possibilidade de acesso que a população tem ao mesmo.
A autora analisa em seu artigo como o design surge num contexto diverso e mutável,
onde estão surgindo e desenvolvendo-se novas tecnologias que impactam a maneira de
perceber a sociedade e como funciona. Algumas vertentes voltam-se à na cultura material,
que reflete aspectos intrínsecos da sociedade de quem cria. Revela aspectos da história do
design e ressalta características da época em que é concebido, atrelando características de
consumo e produção ao mesmo e a responsabilidade de se fazer design.
Nos séculos XVIII e XIX principalmente encontramos no percurso da história
humana, alguns marcos que possibilitaram mudanças significativas no modo de produção, na
maneira de enxergar os recursos para que fossem voltados à produção. a autora entende que
esse período fez com que o ser humano entendesse o mundo como um espaço a ser
conquistado, um ambiente que geraria recursos inesgotáveis para produção. Acerca disso,
Sorano, Silva e Souza (2007), discorrem que durante o marco da revolução industrial existia
uma rachadura entre idealização e produção do produto, culminando numa não contribuição
para a melhora da produção. Nesse impasse surge a Bauhaus, idealizada por Gropius para pôr
fim a tal separação. Certamente as revoluções do século XVIII e XIX provocaram uma
necessidade criativa que apesar de problemática em diversos sentidos, beneficiou a sociedade
de modo a criar um processo mais real, e com verdadeiro sentido.
Do outro lado da moeda e ao mesmo tempo entrelaçado ao processo produtivo,
encontramos um ciclo de consumo, que segundo a autora provocou uma alienação,
culminando numa apropriação do trabalho humano e induzindo, por necessidade, as pessoas a
oferecerem também sua força de trabalho, tornando-se consumidores e associando a maior
parte de suas necessidades ao consumo. O que por sua vez, provocou uma valorização do
individualismo, onde tudo pode ser mediado pelas trocas e consumir começa a significar
comunicar-se, um ciclo que culmina no “fetichismo das mercadorias”, conferindo o poder de
construir identidades às grandes marcas internacionais.
O conceito de fetichismo das mercadorias foi determinado por Marx para apresentar
como os humanos relacionam-se com mercadorias e objetos que passam a adquirir valor
simbólico e não mais é visto como produto. Diante disso surge para o designer uma
responsabilidade social tal que características como satisfação dos desejos de consumo
podem facilmente ser absorvidas pelos mesmos podendo gerar um imediatismo arriscado e o
pensamento simplista de que ‘design se faz na prática’. Enquanto na verdade o design se faz a
partir de pensamentos, conceitos, embasamento, somente para depois ser feito na prática.
Citando Klein (2001), a autora indica que a liberdade dita liberdade, na verdade é tão
imposta de restrições que dificilmente deveria ser usado tal termo para defini-la. O
profissional de design deve provocar a si mesmo uma reflexão para não entregar-se à
armadilha do design livre de valores, que adapta-se totalmente às necessidades dos clientes,
como um fantoche. Apesar de ser possível aplicar à sua prática certo estilo pessoal, é de suma
importância reconhecer a maneira correta de se fazer design, um design real, que leva em
conta questões não apenas superficiais ou gráficas, mas educacionais, informacionais e
outras.
No tópico 2.1 em comentários sobre a trajetória do design brasileiro, a autora tenta
esboçar ainda que não seja uma tarefa fácil, a trajetória do design brasileiro, mas
especificamente o design gráfico. É ressaltado que: “dependendo das diretrizes adotadas é
possível apontar pontos de partidas completamente diferentes” (página 23). Destacamos no
texto que há uma corrente que costuma relacionar o surgimento do design do Brasil com o
modernismo, mas para Cardoso, afirmar que o design surgiu com o modernismo é recusar
que tudo que vejo antes é design. Assim como a autora, acreditamos, que o que houve foi
uma ruptura uma reconfiguração do que era o design, passando assim a receber influências
tanto do modernismo quanto das vanguardas europeias.
Sendo assim, a autora nos apresenta a trajetória do design brasileiros a partir dos anos
50, vale ressaltar que antes dessa década havia sim atividades ligadas ao design , porém não
derivam de matriz estrangeiras , possuíam uma tradição rica, variada e autenticamente
brasileira. Consideramos importante o relato da autora quanto ao discurso do design usados
na década de 50; nessa época o design foi basicamente influenciado pelas mudanças tanto no
cenário nacional quanto no internacional ,tendo em vista que ,foi nessa época que o design
concentrou-se em produtividade, racionalização e padronização, passando a ganhar mais
credibilidade, porém, por outro lado o design adquire o contorno de um fenômeno marginal"
(página 25).
Acreditamos que desde o início do design (se existe de fato um ponto de partida
exato) o design vem sendo modificado, e influenciado pela sociedade ao seu redor ,sendo
possível conhecer como a sociedade de determinada época era ,através das suas obras
gráficas. É importante também levarmos em consideração a década de 60, apresentada pela
autora ,como o momento em que o design se afasta desse modelo anterior, “ficando
internacionalmente melhor reconhecido pela crítica radical a sociedade de consumo”(página
26). Esse foi o primeiro momento que o design passou a questionar essa padronização, esse
modelo de consumo racionalista. Não menos importante somos levados a conhecer o design
da década de 70, argumento por Bonsiepe “que foi nos anos 70 que o tema da tecnologia
apropriada entrou no discurso projetual e pela primeira vez foi criticada a ideia da ” boa
forma ”ou “ bom design” “. (página 27), surge nesse momento um design mais humanista ,
mais voltado as questões importantes da sociedade, capaz de criar produtos não só mais para
nutrir a sociedade consumista , mas para suprir certas carências. “Outra faceta importante da
década de 80 foi o advento das novas tecnologias do dextop publishing”(página 29).foi
apenas na década de 80 que ocorreu o surgimento das novas tecnologias de software , com
isso os layouts ficaram cada vez mais complexos, em camadas, com tipografias diferentes, e a
estética passou a ser um fator determinante do projeto visual.
Outro importante relato da autora que observamos é sobre a década de 90: “Nós anos
90, aparece no cenário global questões relativas a compatibilidade ambiental e ao
desenvolvimento sustentável” (pág 29). Foi nesse momento que começou a discussão sobre a
manutenção e garantia da vida na Terra ,retornou a questão de tecnologia apropriada e a
preocupação com o desenvolvimento sustentável, a partir desse momento em diante o design
já não é só a estética, mas o sustentável , esse conceito que a autora chama de “gestão de
design ”se aprimora até hoje.
Na segunda parte do artigo, a autora discute a questão dos aspectos fundamentais
para a formação acadêmica brasileira em Design ao longo das últimas décadas, com ênfase
à compreensão da formação dos designers brasileiro, analisando seus fundamentos. a
autora já havia discutido em seu artigo Comentários sobre a trajetória do Design brasileiro,
retomando a discussão quanto o histórico do Design Gráfico brasileiro, definido por ele,
uma empreitada complicada. A autora afirma que a transição do método tradicional para a
utilização de novas tecnologias, ou seja, a viragem radical que transplantou a tecnologia de
composição para os computadores e que desempregou milhares de compositores e
modificou consideravelmente a prática do Design Gráfico, não tenha somente a isto, e sim
também, encurtando o tempo de desenvolvimento dos projetos e abrir espaço para novas
áreas de atuação.
Cabe salientar que todo avanço tecnológico traz sempre com ele motivações que
podem ser as mais variadas. Dentre elas, pode-se destacar a redução do esforço humano na
realização de atividades, bem como o aperfeiçoamento do processo de produção e criação.
Com a tecnologia em grande expansão, percebemos a cada dia o surgimento de vários
softwares para produção gráfica e até mesmo mídia digital.
Consequentemente a isso, a autora afirma que diante aos benefícios proporcionados
pela democratização do acesso aos softwares, a formação profissional em Designer
Gráfico teve que se adequar às demandas de ensino de novas ferramentas de trabalho, o
que é consideravelmente certo afirmar, uma vez que, a democratização do acesso dá
espaço aqueles que não possuem conhecimento teórico sobre.
Paula da Cruz Landim – em seu livro Design, empresa, sociedade - esclarece que,
“A democratização do design tornou-se uma realidade que afeta praticamente toda escolha
de consumo. A aceleração da redundância estilística tem feito o designer precisar
constantemente providenciar novos estilos para substituir o existente no mercado.” (p. 23)
É certo afirmar que, hoje, qualquer pessoa pode ter acesso a essas novas
ferramentas a aprender a usá-las, impregnando assim o mercado de trabalho. É importante
pensarmos que, a computação impactou de forma negativa nos trabalhos do design, pois
devido à facilidade de uso que os softwares apresentam, pessoas com ou sem base teórica
e técnica começam a trabalhar neste mercado, culminando com o empobrecimento dos
trabalhos gráficos. Identificado pela autora como uma saturação do mercado de trabalho
onde, “sobra gente com competência para utilizar estas ferramentas da profissão” (p. 31),
porém, evidentemente de acordo com o relato acima, sem nenhum conhecimento dos reais
fundamentos da profissão.
Com estilo claro e objetivo, a autora considera inegável que o perfil profissional do
designer contemporâneo foi marcado pela lendária Bauhaus, escola surgida com ideias que
buscam o dialogar com as relações tensas entre a arte e a tecnologia das máquinas, além de
ser referência na prática pedagógica do design entre teoria e prática na educação artística.
Fica claro, a influência herdada da escola quanto a seus métodos de ensino na organização
de um ciclo básico e a ênfase do contato dos alunos com o mestre das oficinas. Com o
intuito de expor a problemática da afirmativa ‘Design se faz na prática’ defendida por
alguns autores que de fato, renega toda a fundamentação teórica necessária para
desenvolver um projeto de Design, fica claro a perca futura para o Designer quanto a falta
desses fundamentos.
Consideramos importante o relato da autora, onde o mesmo deixa claro que na
prática, muito antes da institucionalização, já costumava desenvolver-se projetos de
Design aqui no Brasil, onde tal oficialização proporcionou um aperfeiçoamento
profissional, esses aos quais foram apoiados em fundamentos teóricos que vem a auxiliar o
aluno recém-formado a dominar toda a complexidade dos saberes necessários à prática do
profissional, o que apresenta um papel importante para a aprendizagem do acadêmico. É
importante pensarmos que as responsabilidades do designer são várias. Incluem não
apenas projetar os componentes do objeto em si, colocando-os juntos de forma apropriada,
mas também serem os intérpretes de nossos sonhos, de nossas aspirações. Necessitando
assim do domínio dos saberes para realização de todas as etapas para desenvolvimento de
um projeto de Design.
De um modo geral, a autora apoia-se em diversos estudiosos para contextualizar o
percurso histórico do ensino do Design e a expansão dos cursos. A pressa em montar os
cursos, partido de decisão controversa é visto de forma certeira pela autora como
prejudicial na composição do corpo docente do Designer.
Em pesquisa realizada em 2003, fica evidente alguns pontos críticos essenciais para
a formação acadêmica brasileira em Design Gráfico, observamos assim, de modo geral, os
processos práticos e certeiros ao estudo teórico que se baseia na fundamentação voltada as
teorias que são essenciais para o currículo acadêmico, sendo a relação dos processos
práticos em detrimento do estudo teórico, essências para as diretrizes que o profissional de
Design Gráfico deve dominar. Torna-se relevante que Design envolve qualquer processo
técnico, teórico e criativo relacionado com a concepção, elaboração e especificação de um
produto. Deve-se considerar importante o estudo das relações psicológicas, ergonômicas e
outros tipos de reação de comportamento que estão presentes na ocasião em que um
usuário interage com um objeto de Design. Dessa forma, contextualizando todas as etapas
e conhecimentos essenciais para o acadêmico de Design no Brasil.
A autora busca finalizar esse capítulo analisando a construção do design,
reconhecendo sua construção e estrutura elitista que vem aos poucos se popularizando e
beneficiando a população de modo geral buscando soluções mais acessíveis na concepção
de produtos/serviços. É perceptível que clientes tendem a contratar tais profissionais já
com uma ideia preconcebida em considerar soluções já aplicadas em países desenvolvidos
como o ideal para ser aplicado a sua realidade, no caso de países de baixo
desenvolvimento, por consequência os projetos tornam-se padronizados, entrando numa
gama do comum, mediano, igual, sem relevância no mercado. Existe a necessidade de se
ter um uso mais consciente das possibilidades que o design possa vir a oferecer, além de
perder o complexo de inferioridade frente aos países desenvolvidos e um planejamento
eficiente que permita tempo ao desenvolvimento do projeto.
A autora abre um diálogo que será discutido posteriormente nos próximos
capitulos, encerrando o artigo sinalizando acerca da amplição na variedade de serviços de
escritório que necessitam do designer e como grandes e pequenas empresas vem lidando
com essas demandas.

ANEXO I
Fontes de pesquisa
LANDIM, P. C. Design. empresa, sociedade. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.
CARVALHO, A.F. Design e Identidade: estudo de casos aplicados no Brasil.
2012. 112f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Design, Programa de PósGraduação em
Design da Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2012.