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A Iniciação segundo a Alegoria da Caverna de Platão

O desenvolvimento das civilizações sempre esteve acompanhada pela presença das


chamadas escolas de mistérios.

Estas escolas, como são, por exemplo, os órficos ou os mistérios de Elêusis na Grécia
Antiga, os essênios entre os judeus ou o povo sufi entre os árabes, se caracterizaram como
sociedades para o estudo esotérico dos ensinamentos religiosos de seu povo. Buscavam
afastar-se da opinião popular sobre as escrituras e buscando uma interpretação mais autentica,
que contivesse aquilo que Paulo de Tarso chamaria de “o espírito vivificante” por trás da “letra
que mata” (2 Coríntios 3:6).

O que sustenta a transmissão do conhecimento nas escolas de mistério é a iniciação.


Tal fenômeno se processa quando uma pessoa ingressa na busca por sua própria sabedoria para
sob o auxilio e orientação de uma das muitas escolas de mistério que já existiram sob a face da
Terra. O avanço nos processo da iniciação exie que a pessoa possa manter uma certa disciplina
condizente com essa busca. As disciplinas exigidas variam conforme as características da
escola iniciática, como também varia de acordo com os diferentes graus de conhecimento a
que ela pode levar.

É bem conhecida o criteriosíssimo desafio inicial exigido para o ingresso na ordem dos
pitagóricos na Grécia Antiga: 5 anos de inteiro silêncio de palavras, apenas ouvindo e
refletindo.

Desde os mais antigos registros disponíveis na história sabe-se que as iniciações são
acompanhadas por rituais e celebrações próprias. É fato também que a encenação mística não
teria fundamento caso não fosse acompanhada por mudanças especiais no nível de consciência
e no comportamento dos contemplados pela inserção nos mistérios. A iniciação torna-se assim
um modo particular de vida, na qual o objetivo principal é alcançar uma perfeita compreensão
dos mistérios da criação a partir de si mesmo, tanto por meio de investigações misticas quanto
pela ajuda das revelações feitas nos rituais. Trata-se portanto, tanto ritualística quanto
psicologicamente o exercício de compreender e dominar as forças matriciais da criação,
utilizando-as para edificar uma vida superior.

Essa espécie de prodígio espiritual é algo que embora se oculte e se reserve está sempre
às raias da vida religiosa tradicional. Já que a iniciação diz respeito ao esforço de encarnar as
forças vivas da criação seu caráter marcante e desafiador é transformar trevas em luz.
Psicologicamente isso diz respeito a adentrar nas profundas camadas do inconsciente
convertendo-o em consciência, o que pode ser conseguido por meio de constante auto
observação de si mesmo, auto críticas, autoanálises e meditação.

Nas mitologias antigas, absorvidas nos rituais das escolas de mistérios, esse adentrar
desafiador na profunda obscuridade que é matriz da luz é representada de diferentes maneiras.
Umas das mais comuns é a entrada em um lugar subterrâneo. Conta-se, por exemplo, que
Zeus, ao nascer quase foi devorado por seu pai Chronos, não fosse ter sido levado para o fundo
de uma gruta na ilha de Creta e alí alimentado por uma cabra até que se amadurecesse a ponto
de poder enfrentar o reinado dos titãs e desse inicio a uma nova era luminosa. No que se segue
vamos buscar explorar alguns aspectos da iniciação analisando a alegoria da caverna relatada
por Platão no livro VII da República.
Perceber os atributos da iniciação nos diálogos socráticos é particularmente
interessante por se tratar de um filósofo que começou a se distanciar das perguntas metafisicas
sobre os elementos que teriam dado origem à criação (que era o grande tema dos pré-
socráticos, por exemplo). Nesse sentido Sócrates iniciou na filosofia uma investigação de tipo
humanista, buscando muito mais os temas de interesse das relações humanas, como a amizade,
a justiça, o amor, e no caso da República, o problema quanto às leis e os legisladores.
Investigação que se sustenta por meio da clareza conceitual e na analise lógica das situações da
vida. A alegoria da caverna narrada por Platão nos mostra que os preceito s básicos das escolas
de mistérios se transmitem para a idade da razão que está a se principiar em Sócrates, fazendo
com que as chaves do despertar da consciência se transmitam com uma outra roupagem,
guardando as mesmas imagens, porém agora numa chave metafórica. Passemos portanto à
alegoria.

Bucando examinar a natureza da ignorância e do conhecimento humano Sócrates interpela


Glaucon pedindo-o que imagine pessoas que vivessem desde o nascimento em uma caverna.
Vivendo aprisionados, têm seus interesses totalmente voltados para os muros da caverna onde
apenas se veem “sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna” (VII, 515b).
Acostumados a conviver diariamente com tais sombras, naturalmente as tomariam por única
realidade existente.

Esta estranha cena busca descrever a nós mesmos como de partida somos. Vivendo
identificados com a dança das aparências , sempre volúveis, expressas aos nossos sentidos
físicos, nem sempre nos habituamos a refletir sobre sua origem, sua proveniência e
fundamentação, ou, dito em termos filosóficos, qual a essência de seu ser. Normalmente nos
damos por satisfeitos com o fato de que pareçam algo, e sobretudo com que funcionem, isto é,
nos atendam em nossos interesses. Neste parecer esperamos também que sejam consensuais
com a opinião dos demais. Formamos assim uma comunidade de crenças compartilhadas que
se baseiam mais na atribuição de ditas verdades do que no conhecimento direto, na
experimentação prática, refletida e contemplativa. E é por isto que uma das mais constantes
fontes de dor e conflitos é a simples discordância de opinião, que desestabiliza uma psique
quanto mais apegada a crenças sem fundamentos ela está.

Na continuação do diálogo Sócrates indaga como seria se alguém se libertasse das


amarras que os prendem `caverna e subissem à colina para lidar diretamente com as coisas
que, concretamente são as fontes das imagens projetadas. Por certo essa pessoa encontraria
inicialmente uma certa confusão e mesmo atordoamento ao verificar que aquilo a que julgava
real era apenas projeção fantasmática. Essa reflexão nos mostra o caráter lento e gradual da
aquisição da filosofia iniciática. Nas palavras de Sócrates: “e se o mostrassem cada objeto e
perguntassem o que era? Não te parece que teria dificuldade e suporia que os objetos vistos
outrora eram mais reais do que o que vê agora?” (VII, 515e). Certamente titubearia em
abandonar todas as suas crenças antigas. Qual não seria também sua surpresa e o
enriquecimento do seu horizonte se, ao acostumar-se com a luz e os novos objetos que vê,
pudesse subir ainda um pouco mais e perceber o sol, e de que modo de seu movimento se
processam os ciclos a que estamos sujeitos, como o dia e a noite ou as estações do ano. Eis aí
descrito os processos iniciáticos para a obtenção de sabedoria.

Nota-se na alegoria da caverna que não há revelação instantânea da realidade última da vida,
mas uma graduação adaptação às regiões da luz, logrado em um esforço continuo, no qual se
consegue pouco a pouco ir se distanciando de velhos preconceitos e crenças que não condizem
com a observação direta. A alegoria socrática nos indica que existe inclusive diferentes etapas
a se vencer, numa ampliação gradual do nível de compreensão, conforme se explora mais e
mais territórios da realidade, tudo isso alavancado por grandes esforços e uma boa dose de
coragem e ousadia.

O desfecho da alegoria proposta por Sócrates é igualmente intrigante e revelador de aspectos


fundamentais das escolas de mistérios e seus processos de iniciação. Trata-se da necessidade
de cautela ao se transmitir os conhecimentos obtidos e a necessidade de guardar silêncio sobre
muito do que foi obtido alí. O questionamento direto de Socrates à Glaucon não deixa espaço
para dúvida: “E se tivesse essa pessoa de voltar aos prisioneiros e falar sobre as sombras,
acaso isso não provocaria nos outros o riso e o julgariam dizendo que tendo subido ao alto
estragara sua vista, e por isso mesmo não vale a pena tentar a ascensão? E se ainda assim
tentasse libertar um prisioneiro para conduzi-lo ao alto não o matariam se pudessem?” (VII,
517a). Pois não foi exatamente este o fim do próprio Sócrates, Jesus, Krishna e ainda outros
mestres de consciência desperta?

A cautela necessária às escolas de mistérios não se baseiam em mera hipótese, são vastas e
irrefutáveis as tendencias agressivas com que as pessoas comuns normalmente respondem
quando suas crenças são postas em dúvida. As escolas de mistérios autênticas precisam
transmitir as chaves do despertar da consciência em um mundo cheio de pessoa s que odeiam
que alguém não siga os preceitos impostos às massas, além do que mundo este em que são
abundantes os exemplos de sucesso daqueles que semeiam os preconceitos e o medo, enquanto
aqueles que vieram ensinar a humanidade a se libertar da escravidão foram alvos de traição e
um fim trágico.

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