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TERESA

PEÇA VELÓRIO EM UM ATO

Tião – Pai da defunta


Sebastião – Irmão da defunta
Joaquim – Noivo da defunta
Benício – Padre da cidade
Eudócio – Beato fanático
Bernardo – Delegado da cidade
Senhoras – Coro

CENÁRIO
O cenário deve mimetizar um velório cristão. Vê-se um caixão de madeira na posição
vertical, que se estende do fundo para o proscênio. Dentro deste caixão, deve se
posicionar a atriz que interpretará a defunta, coberta por flores e por um véu branco. Atrás
do caixão, pode-se avistar uma grande cruz. A frente do palco, devem ser colocadas
algumas coroas de flores, indicando a entrada para a sala onde se está velando o corpo
de Teresa. Nos lados do caixão, também podem ser posicionadas algumas flores.

ATO ÚNICO
A cena principal consiste em um velório. Vê-se um caixão posicionado do fundo para o
proscênio, onde descansa Teresa, aparentemente morta. Ao lado esquerdo do caixão,
estão algumas senhoras beatas, que comentam a ação inicial. Ao lado direito, vê-se o
delegado encarregado de investigar a estranha aparente morte de Teresa e, a seu lado,
está Eudócio, religioso fanático da cidade. Atrás do caixão, estão Tião, ao meio, pai de
teresa, Sebastião, do lado direito, seu irmão e Joaquim, ao lado esquerdo, seu noivo, os
três com chapéus na mão.

SENHORA – Ai Jesus! Tão novinha!


SENHORA – Que Deus a tenha!
SENHORA – Hoje, o dia acordou preto...
SENHORA – Uma moça tão bonita!
SENHORA – E vestia um vestidinho tão lindo! Florido, todo azul...
SENHORA – E ninguém soube direito como que morreu, num foi?
SENHORA – O que não se sabe é se ela se jogou...
SENHORA – Ou se atiraram ela da janela!
SENHORA – Que brutalidade!
SENHORA – E tão dizendo por aí, que a menina tava prenha!
TODAS – Ai senhor!
SENHORA – Ai Jesus Cristinho, salva essa menina do Inferno...
SENHORA – Que Deus a tenha!

Tião, permanecendo atrás do caixão, toma a palavra e a cena foca-se nele.

TIÃO – Agradeço a todos que vieram, de muito bom coração, a este velório tão triste, da
minha filhinha que hoje tá subindo pros portões de São Pedro... Ai, minha amada! Que
saudades que o papai vai ter docê! Ela era uma menina tão meiga, gente, vocês
conheciam. Nunca fez mal a uma mosca sequer! Era mocinha direita e honesta.
(Relembrando e rindo-se) Nunca teve jeito pra serviço doméstico, mas também, as moças
de hoje num tavam mais assim né. Não sabia costurar, não sabia cozinhar... Mas não era
ruim, não – nunca negou nada pra ninguém. Um dia, com essa cabeça aí de estudanta,
se engraçou com o Joaquim (grita para Joaquim que está longe) NÉ NÃO QUIM?! (Rindo-
se) Engraçou-se com ele um dia aí que ela fugiu de casa de madrugada e aí ficaram os
dois junto pra sempre. Ai, ai, ai... Vai deixar saudade essa minha filhinha... (põe-se a
rezar)

Foca-se uma vez mais no coro das senhoras, rezando. Elas agora discutem a fala do Pai
da moça, em tom de pudor tanto com o jeito que o Pai proferiu sua fala, como com as
“revelações” sobre a filha.

SENHORA – Num é pra menos que a filha era desse jeito, né.
SENHORA – Com um pai assim sem educação, não era pra menos.
SENHORA – Onde já se viu moça se engraçar com homem assim sem nem casar...
SENHORA – E onde já se viu fugir de casa no meio da noite pra fazer besteira?!
SENHORA – Tal pai, tal filha!
SENHORA – Mas nem no enterro da menina vocês perdoam!
SENHORA – Sem vergohice não tem que ser perdoada não!
SENHORA – Deixa a menina em paz.
SENHORA – Se fosse direita, essa menina num teria sido atirada da janela.
SENHORA – Ninguém sabe se foi mesmo!
SENHORA – Ah, mas pode apostar que foi! E pode apostar que foi culpa desse tal de
Joaquim.
SENHORA – Pra cozinhar a menina não tinha jeito...
SENHORA (gritanto) – MAS PRA SE ENGRAÇAR COM A PIROCA DOS OUTRO, TINHA
NÉ!
TODAS – Shhhhh!
SENHORA – Ai, meu santinho! Deixa a pobre coitada em paz..

(Idem da ação de Tião, agora quem fala é Sebastião.)

SEBASTIÃO – Ai, meu são Cristóvinho! Foi levar a pobre coitada tão cedo?! Mamãe,
papai, porque é que Jesus quis minha irmãzinha logo agora? Pronta pra casar... Com
todo o enxoval preparado, toda a família esperando com uma ansiedade imensa pelo
casamento da menininha... E puf! Se foi... Mas Deus prega umas peças na gente de vez
em quando, né não?! Muito obrigado, viu. Por tudo o que ocê fez por nós, minha maninha.
E obrigado a todos vocês que compareceram do bom coração de vocês aqui no enterro
da Inhazinha. A gente aprecia muito que ocês tiraram tempo do dia de vocês pra vir se
lamentar conosco!
SENHORA – O irmão é bem mais educadinho que aquele bruto do pai da menina.
SENHORA – Pra mim, filho de peixe, peixinho é.
SENHORA – A menina num era lá flor que se cheire também. Outro dia, que eu tava na
praça sentada, passou a menininha toda empiriquitada, toda bonitinha...
SENHORA – Sem-vergonha!
SENHORA – Tava com um vestidinho bonitinho de estampa, toda floridinha – mas que
num chegava nem no joelho direito!
SENHORA – Sem-vergonha!
SENHORA – E com um sapatinho de couro mostrando todo o peito do pé.
SENHORA – Sem-vergonha!
SENHORA – E os cabelos assim, soltos, até o ombro, voando por aí.
SENHORA – SEM-VERGONHA!!!
SENHORA – Passou correndo, toda apressada por mim. Queria chegar n'algum lugar
muito é que depressa.
SENHORA – Tava é apressada pra dar pro namorado, isso sim!
SENHORA – Ai, Jesus!
SENHORA – Num sei. Só sei que voltou depois de umas duas horas – mas daí vestindo
um casaquinho que cobria só os braços...
SENHORA – Mas também, se não tivesse fazendo o frio que tá...
SENHORA – Aposto que essa menina seria capaz de andar de biquini por aí!
SENHORA – Passou por mim de novo, me cumprimentou e saiu em direção à Prefeitura.
SENHORA – Em direção à Prefeitura?
SENHORA – Mas pra onde tinha ido a menina?!
SENHORA – Num sei, gente. E agora sh, que o noivo vai falar!
SENHORA – Ai! Essa vai ser boa!!!

(Acontece com Joaquim o mesmo que aconteceu com Tião e Sebastião. Lamenta-se.)

JOAQUIM – Meu benzinho... (tenta conter o choro durante toda a fala) Você se foi tão
cedinho... A vida foi tão dura com você, meu benzinho... Num se esquece de mim, meu
benzinho. Fala sempre de mim pra São Pedro, tá? Eu vou ficar aqui. Tá? Ai, meu
benzinho... Se tudo tivesse sido tão diferente... Ai, que tristeza! Que angústia! Que
melancolia... Ai, meu Jesusinho... Quanta saudade no meu peito...

(Todo o lamento de Joaquim deve ser bastante cômico, característico do jeito tímido que
se comporta. É interrompido brutalmente pelo delegado, que denota um comportamento
oposto ao de Joaquim – esta quebra também deve causar estranhamento. O delegado é
um homem de poder sobre a cidade, visto que é coronel.)

CORONEL BERNARDO – Tá bem, tá bem! Obrigado pelas belíssimas palavras, seu


Joaquim. Sei que este é um momento muito difícil para os dois rapazes e para o senhor
que aí estão, acompanhando tão tristemente a morte de uma ente tão querida. Todos
aqui, acredito eu, tinham nada menos do que adoração pela moça. Normas da casa, a
procissão para o enterro sairá daqui do Velório Municipal assim que raiar o dia. Peço aos
três, seu Tião, Sebastião e Joaquim, que não deixem, de forma alguma, as redondezas
da cidade.
(O Padre Benício interrompe o discurso do delegado, no sentido de adverti-lo sobre sua
insensibilidade com o momento solene do velório.)

BENÍCIO – Coronel, por favor. O senhor que é um homem honrado deveria entender que
este momento não é o mais apropriado para discursarmos sobre tais assuntos...
BERNARDO – Tenho todo o respeito para com as ordens do senhor, Padre. Mas
enfrentamos aqui a suspeita de um crime...
BENÍCIO – Coronel, as suas investigações podem esperar até amanhã ou depois. O
corpo desta pobre menina, infelizmente, não.
BERNARDO – Ora, padre, enfrentamos aqui uma situação, e seria de muita prudência...
BENÍCIO (interrompe) – Que o senhor calasse-se por ora, Coronel.
BERNARDO – Padre, padre, padre. Não quero mandar o senhor para a delegacia.
BENÍCIO (colérico) – Na Igreja, seu Coronel, mando eu.
EUDÓCIO (idem) – Existem aqueles que não sabem respeitar o nome de Deus!

(Eudócio aponta a cruz para o Coronel, como se quisesse exorcizá-lo. O Coronel,


enraivecido por ver sua autoridade questionada, saca seu revólver e aponta-o para
Eudócio, que permanece segurando firmemente o crucifixo e entoando uma reza
fervorosa. O revólver assusta a todos que estão presentes no velório.)

SENHORA (assustada) – Ai, senhor!


SENHORA (idem) – Meu Jesus!
SENHORA (idem) – Misericórdia!
SENHORA (idem) – Deus é pai!
TIÃO (em desespero e para Joaquim, que parece ter se mantido estático durante todo o
ocorrido) – Joaquim, se mexe homem!
SEBASTIÃO (idem) – Joaquim, faça alguma coisa!
JOAQUIM – Nossa Senhora... Eu? Por que eu...?
TIÃO – Ai, desgraça! Era a sua noiva!
JOAQUIM – Mas também era sua filha...
SEBASTIÃO – E era minha irmã!
TIÃO (olha para Sebastião em desaprovação, vira-se para Joaquim) – Joaquim! Se ocê
num se mexer, eu lhe meto uma bofetada nessa cara, pra ver se ocê acorda pra vida!
JOAQUIM – Tá bem, tá bem... (timidamente, tentando apartar a situação) É... Senhores...
Por favor... Erm... Vocês poderiam...
TIÃO (indignado) – Ohhh Jesus!
BENÍCIO – Eudócio, pode abaixar a cruz.

(Eudócio hesita. Acata a ordem do padre. O coronel permanece com o revólver


apontado.)

CORONEL (abaixando o revólver) – Uma moça morreu nesta cidade e ninguém sabe o
que aconteceu. Se ela se atirou da janela, se foi atirada da janela ou se morreu de
qualquer outra maneira não me importa – a única coisa a se fazer agora é encontrar o
assassino, que pode muito bem estar aqui e que pode muito bem ser um desses três
(irônico) homens.
TIÃO (enraivecido) – Olha só, seu Bernardo, eu sei que o senhor quer aí cumprir seu
serviço e tudo mais, mas me acusar e acusar o meu filho de matar a pobre coitada já é
demais!
CORONEL – O senhor está acusando o noivo, então?
TIÃO – Claro que não, seu Bernardo. Já num deu pra ver que esse aí é a maior mosca
morta da cidade toda?!
CORONEL – Este são os piores! (vai até Joaquim) Seu Joaquim!
JOAQUIM (que estava disperso) – Ahn...?
CORONEL (repreendendo-o) – Isto lá é jeito de se dirigir a um coronel?!
JOAQUIM – Ah, num sei, fale pelo senhor...
CORONEL (saca um bloquinho de anotações e inicia-se um interrogatório, anota, etc) –
Seu Joaquim! Onde o senhor estava na hora do falecimento desta moça?
JOAQUIM – (fala algo inaudível)
CORONEL – Seu Joaquim! Não posso ouvir o senhor.
JOAQUIM – (idem)
CORONEL – Seu Joaquim! Eu não...
TIÃO (a Joaquim, repreende) – Oh diabo! Desembucha!
SEBASTIÃO (idem) – Fala duma vez, homem!
JOAQUIM (em reto-tono) – Eu estava na casa de minha mãe tomando um café e
fazendo-a uma visita.
CORONEL (prossegue anotando) – E qual era a sua relação com a morta?
JOAQUIM – Com a morta eu num tenho nenhuma...
CORONEL – E o que o senhor quer dizer com isso?!
JOAQUIM – Uai, tá morta...
TIÃO (indignado) – Senhor do céu!
SEBASTIÃO (idem) – Ele quer saber qual era a sua relação com a minha irmãzinha.
JOAQUIM (tentando entender) – Quando tava viva ainda?
SEBASTIÃO – Quando tava viva ainda!
JOAQUIM – Ah, daí sim. Viva são outros quinhentos.
CORONEL – E qual era a sua relação com ela, seu Joaquim?
JOAQUIM (sem jeito) – Ah... O senhor sabe, né...
CORONEL – Não sei, não senhor. Se o senhor puder me esclarecer...
JOAQUIM (idem) – Ah... Aquelas coisas...
CORONEL – Seu Joaquim, o que o senhor quer dizer com isso?
JOAQUIM (idem) – Ah, seu Coronel... A gente...
SENHORA (grita) – Eles se engraçavam todo dia na praça e sabe-se lá mais onde!
JOAQUIM (pudorado, tentando cobrir-se com as mãos) – Ai...
CORONEL – Então, era uma relação conjugal...
JOAQUIM – Ah, mais ou menos, né...
CORONEL – E o senhor não chegou a se casar com ela, certo?
JOAQUIM – Num casamo não...
CORONEL – E se noivaram por quê?
JOAQUIM – Uai, porque se os dois quer os dois casa. Ai como os dois queria...
CORONEL – Seu Joaquim! (rindo-se) Estou perguntando se o noivado de vocês tem
alguma relação com este suposto filho que a moça carregava no ventre.
JOAQUIM – Olha, seu Coronel, eu num sabia de filho nenhum...
CORONEL – Uhm... Bom, acho que por ora, é o que eu precisava do senhor.
BENÍCIO – Se o senhor não se importa...
CORONEL (irônico, satisfeito) – De jeito maneira!
(Volta Eudócio trazendo um terço, uma bíblia e um incensário)

BENÍCIO – São poucos aqueles que respeitam de fato a casa do Senhor. Quando o
Senhor abre as portas de Vossa casa, esperamos que se respeitem as vontades Dele.
Hoje, aqui, neste velório, que o Senhor esteja convosco. Não é fácil suportar a dor de
perder alguém tão especial. Desejo que Deus acolha sempre à família tão devota desta
moça. Ao pai, Tião, ao irmão, Sebastião e ao noivo, Joaquim, que o Senhor cuide bem da
filha, irmã e noiva dos senhores. Rezemos uma Ave Maria e um Pai Nosso para
completarmos às nossas preces e orações.

(Neste momento, todos voltam-se para si, de olhos fechados, para ouvir a oração de
Padre Benício, que também estará de olhos fechados. A ação que se segue deve ser
vista pelo público. De dentro do caixão vê-se Teresa mover-se timidamente. Seu braço
cai para fora do caixão e deixa cair o buquê que segurava. Ao final da oração, todos
abrem os olhos. Todos juntos olham para o chão, onde estava o buquê e depois olham
para o caixão e para o braço da moça.)

TIÃO (surpreso) – Mas que diabos é isso?!


SEBASTIÃO (idem) – Jesusinho...
JOAQUIM (idem) – Meu Santo Cristo...
EUDÓCIO – Padre, a morta mexeu-se...
BENÍCIO – Acalme-se, Eudócio... Pode ter acontecido qualquer coisa...
EUDÓCIO – Não devo me acalmar, Padre, e muito menos o senhor, quando vemos o
Capeta tocar a Terra com seus dedos diabólicos!
BENÍCIO – Eudócio, aquiete-se. Não há de ser nada!
EUDÓCIO – Como o senhor pode dizer isso, padre?! Está diante dos seus próprios olhos
e o senhor está negando uma endomoniação dessas?!
BENÍCIO (repreendendo-o) – Eudócio!

(Eudócio, esbravejando, saca a cruz uma vez mais e desta vez pega um recipiente com
água benta. Todos parecem temer a loucura de Eudócio. Ele ajoelha-se diante do caixão
e inicia uma reza fervorosa, em tom de exorcismo.)

EUDÓCIO – Senhor, perdoai a alma dos mortos, livrai-os de todo o mal. Senhor, retirai do
corpo desta menina a maldição, Senhor, livrai todo o espírito das calúnias diabólicas.
(começa a balbuciar uma oração exorcista em latim) Egna terrae, cantate deo, psállite
dómino, tribuite virtutem deo Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica
potestas, omnis incursio infernalis adversarii, etc.
BENÍCIO – Eudócio, pare já com isso!

(Eudócio passa-se por surdo. Todos estão perplexos com a situação. O Coronel saca seu
revólver e aponta-o para a cabeça de Eudócio. O fanático não para com a oração.)
CORONEL (ameaçador) – Jovem, não temos este tempo para gastar...

(Eudócio prossegue com a reza, porém acuado pelo revólver em sua cabeça.)

CORONEL – Precisamos enterrar a menina de uma vez, meu caro, para podermos
prosseguir com as investigações!
(Eudócio diminui a intensidade da reza.)

CORONEL (engata o revólver) – Se o senhor não parar agora...

(Todos estão perplexos. Eudócio para a reza. O Coronel desengata o revólver e guarda-
o.)
SENHORA – Vê se pode ficar pegando em arma desse jeito no velório dos outros!
SENHORA – Sem-vergonhice desse sujeito.
CORONEL BERNARDO – As senhoras disseram alguma coisa?
SENHORA – Nada não...!
SENHORA (desconcertada) – Hehe... O senhor é muito bom, viu, seu Coronel? Ter
punhos de ferro pra manter a ordem num é fácil!
SENHORA (dirigindo-se ao caixão) – Não deve ter havido nada com a defunta!
SENHORA (recolhendo o buquê do chão) – Está mortinha, mortinha!
SENHORA (recolhendo o braço de volta ao caixão) – Onde já se viu morta reviver?!
SENHORA (levantando o braço da morta e deixando-o cair como quem quer provar que
está morta) – Olha só! Mortinha!
SENHORA (repetindo a ação com a cabeça da defunta) – Mortinha, mortinha!
SENHORA – Num poderia estar mais morta!

(Silêncio. Perplexidade geral.)

BENÍCIO – Er... Então devemos dar prosseguimento às nossas orações...


EUDÓCIO – Deveríamos exorcizar este lugar!
BERNARDO (com a mão na arma, que está na bainha) – Benício! Acho melhor o senhor
controlar este seu... (irônico) Coroinha.
BENÍCIO – Eudócio, é melhor você parar por ora...
BERNARDO – Pois bem! Já que tivemos este pequeno interlúdio, sim, suponho que
possamos continuar com as investigações. Que tal? (risos irônicos)
BENÍCIO – O senhor não acha que deveríamos velar o corpo da moça e deixa-la em paz
no dia de seu próprio velório?!
BERNARDO (ignorando-o) – Seu Sebastião!
BENÍCIO (em tom repressor) – Bernardo!
BERNARDO (ignorando-o) – O senhor, por um acaso...
BENÍCIO (em semi fúria) – BERNARDO!
BERNARDO (sacando a arma, sem tirá-la da bainha, para o padre) – O senhor cale este
seu bico! Se o senhor não quiser sair daqui algemado, é melhor o senhor ficar quietinho!
(Irônico) Coisa mais feia desacatar a autoridade, hein Benício!
BENÍCIO – Eu ainda vou viver pra ver o dia em que todos respeitaremos as palavras de
Deus e de seus porta-vozes.
BERNARDO – Seu Sebastião!
SEBASTIÃO – Sim...?

(Bernardo saca o bloquinho de anotações e a caneta)

BERNARDO – O que o senhor sabe sobre o ocorrido?


SEBASTIÃO – Eu num sei nada, não senhor!
BERNARDO – O senhor sabe como sua irmã morreu?
SEBASTIÃO – Não sei... Só sei que quando eu cheguei em casa, a minha maninha... Ai,
coitada! Ela estava caída em baixo da janela do segundo andar de nossa casa,
desfalecida... (choraminga) Morta... Sem vida...
BERNARDO – E foi o senhor quem ocasionou esta morte?
TIÃO – É claro que não! O senhor acha que algum de nós três teria coragem de mata a
filha, a irmã ou a noiva?!
BERNARDO – Não estou fazendo acusações, seu Tião. Este é o procedimento.
TIÃO (para Joaquim) – Ele tá difamando o nome da nossa família e você não faz nada,
né?!
JOAQUIM – Oi...?
TIÃO – E VOCÊ NÃO FAZ NADA, NÉ?!
JOAQUIM – Uai, o senhor quer que eu faça alguma coisa?
TIÃO (para Bernardo) – Aqui, você acha que essa criatura, que esse mosca morta matou
a minha filha?!
JOAQUIM – Oh, seu Tião...
BERNARDO – Posso retirar ele da lista de suspeitos, Tião, mas isto não vai significar
muita coisa. É necessário encontrar um culpado para este crime! O que estou fazendo
aqui, e que o senhor parece ainda não ter compreendido, é buscando provas para
resolver o caso.
TIÃO – Pois pode por aí no seu bloquinho que ninguém daqui é culpado!
BERNARDO (irônico) – Pode deixar, hunf. (ameaçador) Posso prosseguir? (Tião cala-se)
Pois bem, seu Sebastião, onde o senhor estava antes de chegar em casa e ver a sua
irmã morta?
SEBASTIÃO – Eu fui trabalhar durante o dia e deixei ela em casa. No fim do dia, passei
na peixaria pra ajudar meu pai a arrumar as coisas e vim pra casa antes dele. Quando eu
cheguei aqui, vi a menina caída no chão...
BERNARDO – Estava morta já?
SEBASTIÃO – Morta.

(Neste momento, num súbito, a defunta respira como quem está desafogando. Ela deixa
os dois braços caírem para fora do caixão e levanta as duas pernas. Permanece com o
tronco e a cabeça deitados dentro do caixão. A ação toda deve ser conjunta – o
desafogamento, a caída dos braços e o levantar das pernas acontecem ao mesmo tempo.
Todos dentro do velório ficam boquiabertos e sem palavras fitando o ocorrido com a
suposta defunta.)

SENHORA – Senhor...
SENHORA – Jesus...
SENHORA – Cristo...
EUDÓCIO – Eu disse que a moça está assombrada com o espírito do demônio!
SENHORA – Meu Deus!
SENHORA – Meu Santo Antônio!
SENHORA – Minha Nossa Senhora!
EUDÓCIO – Esta mulher precisa ser exorcizada imediatamente!
SENHORA – Amém!
SENHORA – Amém!
SENHORA – Amém!
EUDÓCIO (em fúria) – Não devemos permitir que o demônio invada desta maneira um
santuário de Deus!
BENÍCIO (hesitante) – Eudó... Eudócio, vá... Vá pegar um punhado de... De água benta lá
na Igreja... Sim?
TIÃO – Mas você quer mesmo exorcizar a minha filha, Padre?! Pensei que isso fosse
coisa da cabeça desse louco desse beato! E não do senhor!
BENÍCIO – Eudócio, vá buscar a água. E quanto a você, Tião. Pode ter certeza que eu
sei das coisas do meu ofício.
SEBASTIÃO – Mas é um absurdo querer tirar o demônio de gente morta!
JOAQUIM – Achei que o senhor precisasse de autorização para...
BENÍCIO (certeiro) – Joaquim, cale-se! Ao demônio não importa se esteja vivo ou morto
quem irá possui-lo. Devemos salvar esta pobre criatura das garras do coisa ruim para que
ela possa descansar em paz!
TIÃO (furioso) – Ah! Mas o senhor não vai...!
BENÍCIO (raivoso) – Cale-se! Eudócio, vá buscar a água!

(Eudócio incita sair de cena.)

BERNARDO (saca o revólver; ameaçador) – O coroinha não vai a lugar algum. (Engata a
arma).
BENÍCIO – Nestes assuntos, o senhor não vai me questionar!
BERNARDO – Cale-se, Benício. Aquele que incitar sair deste velório corre o risco de
levar um tiro em cada perna. Não saio desta sala até que tenhamos concluído as
investigações.
BENÍCIO (murmurando) – Filho de uma...
BERNARDO – Seu Benício! Não fica direito prum padre como o senhor falar essas
baboseiras!
BENÍCIO – Escuta, Bernardo. Eu vou te deixar terminar essa joça dessa investigação –
acredito que você só tenha mais o pai para interrogar – e, depois disso, darei
prosseguimento ao velório e ao enterro da pobre da moça sem interrupções, ouviu?
BERNARDO (cínico) – Hum, está bem! Veremos! (volta-se para Tião)
TIÃO – Nem vem, seu Bernardo! Eu num matei coisíssima nenhuma!
BERNARDO – Compreendo, Tião, mas infelizmente este é o procedimento.
TIÃO – Que procedimento, o quê!
BERNARDO – Pois bem, Tião. Onde o senhor estava na hora do ocorrido?
TIÃO – Uai, num tava em lugar nenhum!
BERNARDO – Como assim em lugar nenhum?!
TIÃO (provocativo) – Em ne-nhum lu-gar!
BERNARDO – E o que isso quer dizer, cabra?!
TIÃO – Quer dizer que eu não vou ficar aqui respondendo esse bando de pergunta
estúpida!
BERNARDO – Ora! O senhor não venha me provocar!
TIÃO – To provocando só o que o senhor já começou a provocar! Vê se pode, acusar nós
três de matar a pobrezinha!
BERNARDO – E quem o senhor me sugere acusar, hein, seu Tião?!
TIÃO – Ué, não sei! O delegado aqui é o senhor!
BERNARDO (raivoso) – Onde o senhor estava quando a menina morreu?
TIÃO (raivoso) – Já falei que isto não interessa ao senhor!
BERNARDO – O senhor não vai responder a nenhuma de minhas perguntas?!
TIÃO – Não vou não senhor, muito que obrigado!
BERNARDO (pérfido) – Seria passível de acusar o senhor do próprio assassinato...
TIÃO – Ah! Mas o senhor não faria isto!
BERNARDO – Caso o senhor não me responda as perguntas...
TIÃO – E que provas o senhor tem de que foi de fato um assassinato?!
BERNARDO – Eu num preciso de prova nenhuma não, seu Tião! É só levar o senhor algemado
daqui e dizer que o senhor se recusou a participar da investigação...
TIÃO – Canalha!
BERNARDO – E isto basta pra que todos aceitem o fato de que o senhor é o culpado.
TIÃO – Você não faria isto...
BERNARDO (saca o revolver) – O senhor quer pagar para ver?!
TIÃO (irado) – CRETINO!
BERNARDO (ameaçador) – O senhor me respeite!
SEBASTIÃO – Pois o senhor é um cretino sim! (para Joaquim) Fala alguma coisa homem!
JOAQUIM – Cretino!
TIÃO – Seu canalha filho de uma puta! É isto que o senhor é! Não é delegado, não é detetive! É
um grandessíssimo filho de uma...
BERNARDO (irado) – O senhor não vai calar-se e calar os teus filhos?!
TIÃO – Não vou, não!
BERNARDO (aponta o revólver) – AH! Mas o senhor não quer provar desse remedinho aqui
(indicando o revolver). Ou quer?!
SENHORA – Meu santo cristo!
SENHORA – Deixa o homem em paz!
SENHORA – Mata ele, Bernardo!
SENHORA – Foi desrespeitar os superiores, olha só no que deu!
BERNARDO (grita) – Silêncio senhoras!

O grito de Bernardo causa rebuliço nas senhoras. Este é o início de uma confusão.

SENHORA – Mas que falta de educação!


SENHORA – Olha o jeito com que ele fala com nós!
SENHORA – Senhoras!
SENHORA – Devotas de Deus!
SENHORA – Sem educação!
BERNARDO – Calem-se, todos!
Neste momento inicia-se uma confusão. As senhoras, indignadas, avançam para
Bernardo, chamando-o de sem educação, etc. Tião e Sebastião vociferam coléricos para
Bernardo. Joaquim permanece estático – em momentos, tenta entrar para a briga, mas
falha miseravelmente. Bernardo interrompe a confusão em seu auge.
BERNARDO (apontando a arma para o teto; grita) – SILÊNCIO! (atira)
Logo após se ouvir o tiro, Teresa levanta apenas o tronco do caixão num susto. Todos no
velório assustam-se e juntam-se em um só bloco em um dos lados do palco
BERNARDO (guardando no revólver) – Meu... Deus...
SENHORAS – Jesus...
TIÃO – Senhor...
SEBASTIÃO – Mas que...
JOAQUIM – Milagre!
EUDÓCIO – Milagre coisa nenhuma! É coisa do demônio!
Teresa vira apenas a cabeça para onde está o amontoado de pessoas. Estas assustam-
se novamente e dirigem-se para o outro lado do palco escondendo-se e tapando os olhos.
Do mesmo lado sobra apenas Eudócio. Ouve-se um som de tiro. Eudócio atira em teresa,
que cai para dentro do caixão novamente, desta vez definitivamente morta.
SENHORA – Ai, meu São João do Santo Cristo, que foi isso!?
BERNARDO (notando que o revólver não está mais na bainha) – Meu revólver!
Luz cai num rompante. Sobra apensas um foco em Eudócio, que permanece doentio com
o revólver apontado. A luz deste foco baixa em resistência.

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