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CHEGA DE GURUS!

Ninguém sabe ao certo como e quando a onda começou. O fato é


que o mundo corporativo nunca andou tão assolado por uma horda
de gurus que parecem entender de tudo – de marketing a energia
tântrica. Eles chegam de mansinho durante uma burocrática reunião
de negócios, ou de um congresso técnico bem chato, ou de um
workshop patrocinado por alguma empresa que ninguém sabe
direito o que vende. Aí, falam apenas o óbvio ao distinto público
com a propriedade de um especialista. Mesmo assim, estes mágicos
fazem platéias rir e chorar - como se acionassem uma varinha
mágica que manipula emoções públicas. São aplaudidos de pé.
Depois saem de fininho com os bolsos cheios igualmente de dinheiro
e de cartões de visita de potenciais clientes. No dia seguinte, como
fim de efeito da ressaca, as pessoas se perguntam: “o que foi
mesmo que ele disse?”

Quem registrou com muita verve este fenômeno, e que não é


apenas brasileiro, foi o jornalista inglês Francis Wheen. O título de
seu livro na edição brasileira Como a picaretagem conquistou o
mundo (Editora Record) já diz tudo. É uma pena que a expressão
em inglês do título original, “mambo-jambo”, que dá o tom da obra,
não pôde ser aproveitada em português. Quase sempre associada à
música latina e até à comida, tem uma versão menos conhecida,
mas indispensável para entender o mundo contemporâneo de
negócios. Mambo jambo são também as palavras ou atividades
tornadas complicadas desnecessariamente, e até misteriosas, mas
que no fundo não querem dizer absolutamente nada. Soa familiar?
Estamos diariamente cercados por este lero-lero que homenageia o
vazio, um jogo de palavras e idéias que dão importância ao
supérfluo, e situações surrealistas que zombam da nossa
inteligência. O mambo jambo parece demonstrar que a erosão do
bom senso e o festival de banalidades veio para valer, e quase
sempre alavancadas por charlatões e falsos profetas.

Há quem diga que tudo começou em 1982, quando um jovem


consultor administrativo da McKinsey & Co., Thomas J. Peters,
resolveu escrever Em busca da excelência, que procurava identificar
a razão do sucesso das melhores empresas dos Estados Unidos. O
livro vendeu cinco milhões de exemplares. Wheen, que concentra
um capítulo inteiro do livro ao tema gurus, revela que Peters, com o
que faturou, até comprou uma fazenda de 1.300 acres em Vermont,
que além de gado tem até lhamas. No rastro desta mina que
descobriu, seguiram-se vários discípulos com suas obras. Os sete
hábitos das pessoas muito eficazes, de Stephen R. Covey; A quinta
disciplina, de Peter Senge; O gerente minuto, de Kenneth Blanchard
e Spencer Johnson; Desperte o gigante interior, de Anthony
Robbins, são alguns exemplos deste modismo que tomou conta do
mundo corporativo. Embaladas pelo sucesso desta gente, surgiram
também biografias e, praga das pragas, obras que poderiam se
classificar na estranha categoria de “inspiradoras”. Quem não se
lembra do famoso Fernão Capelo Gaivota – a piegas história um
passarinho que quer se exceder através de vôos cada vez mais
altos, uma alegoria boboca ao desenvolvimento pessoal, mas que foi
usado por anos seguidos em dez de cada dez programas
motivacionais de empresas? A leitura destes bestsellers expõe idéias
óbvias ou tolas como “vá fundo e continue a ir fundo”, “transforme
os negativos em positivos”, “um pouquinho de cortesia e atenção
ajudam enormemente”, “o mundo dos negócios é um jogo, por isto
jogue para ganhar”, “quando se é empresário, não se olha para os
dentes de cavalo dado”, “se a oportunidade bate à porta, o
empresário deve estar sempre em casa”, ou “qualquer trabalho
digno de ser feito é digno de ser bem-feito.”

Apesar do caminho aberto, a exploração excessiva esgotou o


assunto. Estava na hora de uma segunda geração de temas. Foi
quando um sujeito chamado Wess Roberts teve a idéia de migrar da
abordagem de liderança para as analogias históricas. Em 1991,
escreveu Os segredos de liderança de Átila, o Huno, que virou livro
de referência para todos os gerentes de nível médio nos Estados
Unidos. Trazia ensinamentos vitais para a sobrevivência corporativa
como “Você deve ter flexibilidade para superar os infortúnios
pessoais, o desânimo, a rejeição e a decepção”. Ou “quando as
conseqüências de seus atos forem terríveis demais para suportar,
procure outra alternativa”. O pioneirismo literário de Roberts foi
seguido por uma enxurrada de obras neste promissor segmento
histórico. Francis Wheen se deu à pachorra de catalogar alguns
destes títulos hilários: Gandhi: o coração de um executivo; Confúcio
na sala de reuniões; Se Aristóteles dirigisse a General Motors; Faça
acontecer: lições de gerenciamento de “Jornada nas estrelas, a
próxima geração”; Elizabeth I, executiva-chefe: lições estratégicas
de liderança da mulher que construiu um império. E, acredite se
quiser: Moisés: executivo-chefe.

Nessa altura dos acontecimentos, estava lançada oficialmente a


prateleira de auto-ajuda das livrarias, e que nunca mais foi embora.
E com ela a segmentação. Na linha do desenvolvimento pessoal,
nasceram títulos como Histórias para abrir o coração, O caminho
menos percorrido, e Homens são de Marte, mulheres são de Vênus.
Até mesmo o misticismo atingiu em cheio o mercado corporativo.
Exemplos desta temática: O executivo místico: ferramentas de
poder mediúnico para o sucesso, de Barrie Dolnick, ou o bestseller
de Paul Zane Pilzer, Deus quer que você enriqueça. Mas há também
a vertente zoológica de pensamento. Ela busca transpor atitudes do
mundo animal para o universo empresarial, com verdadeiras pérolas
que serviram para vender livros como pipoca em porta de escola.
Você pode optar entre Leões não precisam rugir: destaque-se,
enquadre-se e progrida no mundo dos negócios, de Debra Benton;
Nade com os tubarões sem que eles o comam vivo, de Harvey
Mackay, ou Ensinando elefantes a dançar: facilitando a mudança em
sua organização, de James A. Belasco.

Mas no campo de gurus, nada se compara à carreira meteórica do


Dr. Deepack Chopra, um endocrinologista que resolveu abandonar a
carreira para escrever livros místicos, e sobre meditação
transcendental para homens de negócios. É ao contar este case de
sucesso que Francis Wheen reserva o melhor de seu estilo cáustico.
Exatamente em 12 de julho de 1980, Chopra se transformou de
obscuro comerciante de tratamento alternativo à base de ervas em
sábio com direito a reconhecimento internacional. Foi no dia que ele
apareceu no programa da carismática apresentadora americana
Oprah Winfrey para promover seu livro Corpo sem idade, mente
sem fronteiras. Oprah se encantou com ele. Nas 24 horas seguintes,
vendeu 137.000 exemplares, e no fim de semana já contabilizava
400.000 cópias. Desde então, o ex-médico publicou 25 livros e
lançou pelo menos cem fitas de áudio, videoteipes e CD-ROMs. E
para os que buscam uma experiência mais completa de sua filosofia,
ele criou o Centro Chopra de Bem Estar, na Califórnia – que fatura
oito milhões de dólares por ano. Os seus honorários por palestra são
de 25 mil dólares – e certamente a editora terá prazer em oferecer
desconto para a distinta platéia aproveitar a ocasião e comprar toda
a coleção de seus livros. No total, estima-se que o império Chopra
fature algo na casa dos 20 milhões de dólares por ano. Nada mal
para um endocrinologista que se espiritualizou tanto que até se
transformou em guru corporativo.

Chopra, é bom que se diga, não está sozinho. Kenneth Blanchard,


autor de O gerente minuto, ganhou seis milhões de dólares anuais,
entre livros, videoteipes e palestras. Nos anos 90, a evangelização
da “liderança centrada em princípios”, seja lá o que isto quer dizer,
gerou a Stephen Covey uma renda anual de 400 milhões de dólares,
com presença em 40 países e uma equipe de 3 mil funcionários. Já
Anthony Robbins, ex-zelador de escola, aprendeu bem a lição, e
ganhou cerca de 80 milhões de dólares, a maior parte com seus
livros Desperte o gigante interior e Poder sem limites. Na virada do
século, as publicações de auto-ajuda geraram 560 milhões de
dólares anuais nos Estados Unidos. Isto não é nada perto da receita
total da indústria de auto-ajuda no país, que segundo a empresa de
pesquisas Marketdata gera, entre seminários, treinamento pessoal,
CDs a vídeos, nada menos que 2,48 bilhões de dólares.

Mas o que faz gente sofisticada e experimentada como os homens


de negócios perderem tempo para ler e ouvir tantas obviedades?
Alguns CEOs e dirigentes são honestos ao reconhecer que os gurus
têm uma vantagem. Ao misturar charme com pompa e
circunstância, falam de coisas se ditas dentro das empresas
ninguém daria a menor bola. Neste sentido, funcionam como
“barrigas de aluguel” das mensagens corporativas. Francis Wheen
em seu livro é mais cínico. Acha que a filosofia dos gurus é nunca
superestimar a inteligência de sua platéia. Infelizmente, a evidência
parece dar razão a ele. Veja esta lição de bolso de uma obviedade
ululante tirada de Os sete hábitos das pessoas muito eficazes, de
Stephen Covey: “Alguma vez já lhe ocorreu como seria ridículo
tentar dar uma mexida de última hora numa fazenda — esquecer de
plantar na primavera, brincar durante todo o verão e dar uma virada
no outono, para produzir a colheita? A fazenda é um sistema
natural. Há que se pagar o preço e seguir o processo. Você sempre
colhe o que semeia.” Ou esta aqui, de Anthony Robbins, autor de
Poder sem Limites, outro bestseller: “Se alguém faz o melhor bolo
de chocolate do mundo, será que você pode produzir um resultado
da mesma qualidade? É claro que sim, se tiver a receita dessa
pessoa. Se seguir a receita ao pé da letra, você produzirá os
mesmos resultados, mesmo que nunca tenha feito um bolo desses
em toda a sua vida.”

A sorte dos gurus é que o público corporativo tem memória curta.


Tempos depois dos prognósticos e ensinamentos destes oráculos
cotidianos, ou o cara já saiu da empresa, ou se aposentou, ou
mudou de paradigma – só para usar um jargão de moda. Há uma
historinha que ilustra isto bem. Em 1987, cinco anos depois de Tom
Peters lançar Em busca da Excelência, quase todas as empresas
norte-americanas apontadas por ele como “excelentes” estavam em
declínio. Pior: um estudo do Financial Analysts’ Journal constatou
que, enquanto as ações de dois terços das empresas-modelo de
Peters tinham exibido um desempenho precário, ficando abaixo do
índice das quinhentas da Standard & Poor, os papéis de 39
companhias julgadas péssimas pelas seis “medidas de excelência”
do livro superaram as expectativas do mercado no mesmo período.
Pois sabe o que Peters fez? Na maior cara de pau escreveu outra
obra. Só que desta vez defendeu soluções diametralmente opostas.
A tese central de sua nova obra, Prosperando no caos, foi... a
excelência não existe! Virou outro bestseller. No melhor estilo “me
engana que eu gosto”.

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