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É evidente que tanto a queda constitui um dos raros defeitos Compras: princípios

do volume relativo das popula- substantivos do livro - é se a e aplicações


ções das regiões norte e central evolução ferroviária se deu atra-
como o cresc imento das regiões vés do emprego de trabalhadores
paulis ta, araraquarense, alta-soro- livres . O autor esclarece que a Por Paul Farrel & Stuart F. Hein-
cabana e noroeste não se deveram Sa n Pau lo Railway foi construída ritz. São Paulo, Editora Atlas,
apenas às migrações internacio- po r obr igação contratual imposta 1972. 536 p. fndice analítico de
na is . Houve, evidentemente, im- pel o Governo, ut ilizando o traba- 14 p. Traduzido por Augusto Reis,
portantes movimentos populacio- lho liv re. Porém nada diz a esse da 5.• edição norte-americana de
nais internos no Brasil e entre as respeito sobre todas as outras Purchasing, principies and appli-
regiões paulistas no período que ferrovias. Ora ,_ ainda que afi rme ' cations. Prentice-Hall, Inc.
vai de 1846 a 1886, quando o vo- à pág ina 107 que "a grande ex·
lume das migrações internaci o- pansão pa u Iista para oeste ( cafe-
nais para São Pau lo ail!da era eira e ferrov iária ), tendo ocorri-
desprezível. A constatação desse do nos fi ns do século passado e
fenômeno coloca uma série de nas duas primeiras décadas do
questões que requerem aná lises sécu lo at ual , livre, portanto, da
mais aprofundadas: qual a pro- con junt ura escravista, tem que
porção de escravos livres na po- ser associada ao movimento ·.mi-
pulação? De onde provinha? Que gratório que marcou a paisagem
tipos de funções econÔmicas de- huma na , soc ial e cu lt ural de nos-
sempenhava? Etc. so Estado ... ", boa parte da rede
Od iiQn Nogueira de Matos su- ferroviária ( 2· 425 km hav ia m si-
gere algumas respostas parciais a do-constr uídos até 1890 ) foi cons-
essas pergu ntas . Ass im; a nalisa n- t ru ída antes da Al::?o lição. É, po r-
do a década de 80-90, af irma à tanto, necessário saber-se q ue t i-·
pági na 7 1: "um impo rtan te e le- po de mão-de-obra foi empregada
to de traba lho predom inava, pois E D ITORA ATLAS S. A.
mento lembra do por Tiw nay no
texto atrás tra nscr ito, veio con- to de traba lho predom inava , po is
tr ibu ir, de ma ne ira acen ,.uada, pa- tal informação viri a colaborar
ra del inear uma nova pa isagem para o es cl arec i m~nto de . ques- Rever este livro em português é
no in terio r pa ulista: a <:o nt rib ui- tões relat"ivas à passagem do sis- voltar ao meu primeiro curso de
ção de mineiros e fll.l minenses os tema escravista para o do traba- compras. Sim, naquela época não
q ua is, em grandes cont in gentes, lho livre. se falava adm inistração de mate-
vieram abr ir fazendas no oes te Porém, essas importantes ques- riais, mas simplesmente compras
pau li sta, que se lhes af igurava tões suger idas . pelo a ufor ultra- e o curso que fiz na Michigan Sta-
um novo Eldorado, terrivel mente passam de mui to os objetivos do te University, sob a competente
contrastante com as reg iões don- livro onde, no primeiro cap ítulo, direção do Prof . Hoagland, tinha
de provinha'm. Rara a cidade do ele expõe o q uadro gera l do siste- como livro-texto o Heinritz. É da-
oeste pa u lista que não t enha ma de com unicações na proví n- q uele tempo o meu permanente
troncos mineiros o u fl uminenses cia ao iniciar-se o sécu lo XIX; in teresse pe la ciência de com-
entre os seus fundadores". O q ue apresenta, em segu ida, traços ge-
pras e cada vez ma is me apro-
não fi ca cl aro no texto - e tal rais da hi stória do café, para , nos
fundei na ap licação da matemáti-
fato não consti tui defeito, por- do is capítu los seguintes, disc uti r
ca que tra nsformou compras nu-
que os objet ivos do livro são ou- ·os primórdios da era ferroviária
tros - é o vo lu me desse contin- e seu desenvo lvimento. Conclui, ma área da pesquisa operacional.
e nfim , o traba lho an alisando as A primeira edição ·do Heinritz
gente e como tal pop ulação se
colocava na economi a: eram pro- inf luências das ferrovias na pa isa- sa i1.1 em 1947. De lá para cá, ca-
prietários ou trabalhadores livres? gem paulista. p ítulos foram acrescidos ao livro, 125
Se eram proprietários~ e mprega· Por essas e outras razões que que se manteve num excelente
va ~ mão-de-obra escrava ou li- aqui não foram apontadas, Café nível de capacitação profissiona l
vre mi abertura dessas frentes e ferrovias constitui fonte indis- dos seus leitores para exercer o
que, como a t.abe la sugere, ocor- pensáve l a qualquer estudioso da árduo trabalho de comprador. O
reu antes da Abol ição? Enfim, o história do Brasil do sécu lo XIX. índice em português mostra co-
que o autor de Café e ferrovias o mo é completo:
suge re é q ue não se tem prestado
a devida atenção às migrações in- 1 . A função compra.
Manoel Tosta Berlinck
ternas e às suas funções no pro-
cesso de desenvolv imento econô- 2 . As compras e a administra-
mico ocorrido em São Paulo, du- ção .
ran te o sécu lo XIX. Outra ques-
tão que não es tá suficientemente 3. A organização para as com-
clara no texto - e, isso sim, pras .

Resenha bibliográfica
4. O pessoal para as compras. ao desenvolvimento matemático e engenheiro de compras é o pri-
mesmo de extensão e profundida- meiro membro do staH a ser dis-
5. A compra da qualidade certa. de do livro - nem no caso do pensado de apertar o parafuso da
lote econômico há propriamente economia; ou melhor, como acon-
6. Padronização. um tratamento à base de cálculo teceu numa empresa nac,ional -
ou de consideraç6es de pesquisa muito lucrativa, por sinal - onde
7. Controle de qualidade, inspe- operacional (cap. 8). O livro é o engenheiro de compras foi con-
ção. descritivo, não dedutivo. siderado dispensável, pois os en-
Inicialmente, elimine-se da con- genheiros dos departamentos e
8. Comprando a q u a n ti d a d e sideração do leitor uma loucura das divisões sabiam especificar.
certa. de preconceito do autor. No capí- Como isso nem sempre é um fato
tulo A ética das compras, na pá- - e nessa empresa a especifica-
9. O controle dos almoxarifados. gina 391, está o seguinte: "São ção lembra um pouco a descri-
práticas condenáveis nas vendas: ção de um lance de futebol, de
1O. Comprando ao preço certo. conluios na apresentação de pro- gol anulado, visto por dois cro-
postas concorrentes. . . o em- nistas de times contrários - a
11 . A seleção da fonte adequada prego de palavras e termos de ne- colaboração com os engei1heiros
de fornecimento. gócios desconhecidos e do sistema é relativa e meio quimérica.
métrico de medidas ... " ( sic). O autor preconiza o treinamen-
12. A pesquisa nas compras. Com absoluta certeza, tal frase to dos compradores por meio de
veio da época da primeira edição rodízio nas seç6es de compras e
13. O planejamento e as previ- (1947) e da segunda ( 1951 ), pois nos fornecedores e por meio de
s6es. hoje o sistema métrico é legal nos cursos especificas de ano para
Estados Unidos, especialmente na ano, para mantê~los bem a par do
14. Orçamento de materiais para indústria química, que está ven. progresso da ciência.
adquirir. dendo seus produtos rotulados A descrição de carreira nas
metricamente desde 1966. Essa compras é prob1emática para o
15. Análise de valores. frase deveria ter sido eliminada Brasil; a observação mostra que,
na tradução, pois o livro não me- dentro de "compras'', o indivíduo
16. As negociaç6es. rece tal disparate. no Brasil sobe com muita veloci-
A enumeração das funções de dade, devido à falta de· matérias- .
17. Fabricar ou comprar. compra e a descrição de cargos primas e de pessoal adequado de
da seção de compras são bem fei- compras; a primeira dá o grau
18. A compra de equipamento tas, com a ressalva de que hoje de dificuldade da função, e a se-
de produção. é difícil encontrar um "diretor de gunda dá o valor por escassez.
compras"; mais comum é um Mas, em seguida, "escapar" da
19. Sistema de compras. "diretor de administração de ma- área de compras é definitivamen-
teriais" ou de "planejamento da te mais difícil no Brasil que nos
20. Diretrizes de compras. produção e compras". Estados Unidos. O capítulo A com-
No capítulo As compras e pra. de qualidade certa é exclusi-
21. A ética das compras. administração torna-se necessário vamente endereçado a quem es-
ressalvar os .problemas diuturnos pecifica e compra, mas peca por
22. Aspectos legais das compras. que aparecem, que não são enu- não definir as compras dentro
merados. O autor é otimista no dos limites de controle de quali-
23. O cancelamento de contra- dade aceitável. Falta· também al-
tos. seu ponto de vista; o leitor, após
25 anos de experiência, negativo guma referência aos excessos ne-
no seu - a cooperação entre cessários na encomenda para re-
24. ·Avaliando o desempenho das compras e engenharia é necessá- ceber o número' desejado de pe-
126 compras. ria, _mas muito difícil, pois há ças de qualidade aceitável.
Estudos de casos. conflitos de interesse que o autor O capítulo ,6, Padronização
não pode, ou não quer, constatar não deveria ter sido traduzido,
Bibliografia. ou c I a r e a r aprofundadamente. mas elaborado no Brasil, pois nós
Realmente, quando escreve que o temos a nossa ABNT, apesar de
"engenheiro de compras é geral- todas as falhas, como organismo
Como é possível verificar pelo mente um assessor de 'estafe' funcionando e cumprindo seu. de-
índice, nada falta nesse livro, e ( ~:~sando uma nacionalização já ver. O capítulo fala em tantas pa-
tal impressão é reforçada pela tratada por mim na análise do lavras, que padronizar é bom,
leitura. i: difícil distinguir capí- livro de Sistemas e métodos de mas nos EUA padronizar é ainda
tulos que se sobressaem e capítu- McDowell de Miranda) assesso- uma coisa pouco difundida fora
los mais fracos. O livro mantém rando principalmente o encarre- dos limites de ramos industriais.
uma uniformidade de qualidade gaâo de compras", o autor e o 1!1suficiente o capítulo sobre
extraordinária. Evidentemente o tradutor esquecem ·que no Brasil controle de qualidade, do ponto
autor se colocou um freio quanto e também nos Estados Unidos o de vista do especialista, engenhei-

Revista de Administração de Empresas


ro ou professor de administração, Como podemos hoje usar o li- O município como sistema
mas suficiente para o comprador, vro de Heinritz? Simplesmente político
ao qua l se destina, afinal. em companhia de outro livro,
O capítulo Comprando a quan- também editado pela Ed. Atlas.
t idade certa faz menção do lote Stockton. Sistemas básicos de Por Ana Maria Brasileiro. Rio de
econômico e depois mostra q ue -controle de estoques. Os dois jun- Janeiro, Fundação Getulio Vargas,
tem outros métodos usados - tos permitem uma cobertura boa 1973. 124 p.
um bom capítulo com um sis- para o professor que se pode de-
tema indubitavelmente válido co- dica r à análise de casos, que são
mo método de apresentação. o 18% do livro em número de pá-
sistema ABC não aparece no lote gi nas. Tais casos, como costuma
econômico, nem no capítulo se- acontecer no Brasil, são forneci-
gu inte, o nono, O controle dos al- dos sem a parte do mestre, que
moxarifados. Por exemplo, nesse de fato é desnecessário para quem
capítulo, na página 179, está a rea lmente for mes_tre, mas existem
determinação do estoque reserva, ou t ros ensinando que não podem
por meio de curva de freqi1ência deixar de usá-lo (a parte do mes-
e suas probab il idades, o que mos- tre) por fal ta de tempo de pre-
tra que o autor" sabe colocar o paro de aula. Aqui , então, vai um
que for necessário, do ponto de apelo para também traduzir e
vista matemático. O interessante vender seletivamente a parte do
é que o autor usa a forma da cur- mestre dos livros traduzidos.
va de distri bu ição· de Poisson pa- Qual seria o. custo por conhe-
ra a determinação das exigências cimento útil' de todos os livros de
do estoque de segurança · ( p. 180, compra atualmente no mercado?
fig . 9-1 ) . Lamento somente a pou- Evidentemente não é possível fa-
ca intensidade dada ao tratamen- zer uma análise de valor de custo O pequeno livro de Ana Maria
to do giro do estoque ( p. 190). por página impressa e, depo[s, Bras ileiro tem como objetivo con-
No capítulo Comprando ao pre- de custo por conhecimento trans- tribuir para o 'conhecimento da
ço certo verifica-se com prazer o mitido. No e ntanto, por ser um realidade brasileira através do es-
uso da curva de aprendizado pa- livro comp leto, mu ito bem apre- tudo do governo local em um
ra a fixação do preço ( p.' 296). sentado, mesmo se algo antiquado País que se encontra em processo
A 'pesquisa da compra é um e com inúmeros ót imos concei- de desenvolvimento.
conceito interessante do autor, in- tos, considero o livro de Heinritz
felizmente não suficiente desen- atualmente uma compra excelen- Na parte 1 - O município co-
volvido. Realmente, desde a aná- te no campo de Iivros de compras mo sistema político - "encon-
lise do valor, que merece um ca- e um volume recomendável para tra-se visão global do município
pítulo à parte, até a pesquisa de todas as bibliotecas de empresas. brasileiro, partindo-se de 1:.1m en-
novas- matérias-primas e produ- o foque jurídico-h istórico para um
tos, o autor dá uma excelente in- estudo sob a ótica sistêmica". A
trodução, mas falta uma análise parte 2 - Os sistemas locais no
mais clara da diferença · da pes- Kurt Ernst Weil
Estado do Rio de Janeiro - ana-
quisa e da anál ise de va lor.
lisa e compara municípios do Es-
O capítulo O planejamento e as
tado do Rio de Janeiro.
previsões está antiquado, pois lá
nada dá conhecimento dos mo- No primeiro capí tu lo, Evolução
dernos métodos estatísticos, co- do governo loca l no Brasil, encon-
mo por exemp·lo, o sistema da tramos um excelente resumo de 127
média m 6 v e I exponencial de como o poder local se comportou
Brown, ou os sistemas ideados desde o século XVI até os dias
por McGee. No capítulo so!:>re or- atuais. Para traçar a perspectiva
çamento fal ta um exemplo nu- histórica de um período que
mérico para que possa ser com- abrange quase 500 anos, a auto-
parada a eficácia do departamen- ra utilizou-se das Constituições
to. ótimo o capítulo Análise de outorgadas e I ou promulgadas
valores. Fabricar ou comprar é
nesse longo intervalo e de traba-
adequadamente tratado. Os ·capí-
lhos de conhecidos cientistas so-
tulos sobre sistemas e d iretrizes
de compras são melhor tratados ciais brasileiros . Podemos notar a
pelo estudo de casos, que são posição singular do município em
juntados em grande número ao nosso País "que tem sido, tradi-
livro e que a judam muito na con- cionalmente, a unidade de gover-
cepção de um curso de compras. no loca l no Brasil, em contraste

Resenha bibliográfica