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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

INTELIGÊNCIA

&
PAZ NA FAMÍLIA:
FALSO ARMISTÍCIO
98 PANCADARIA
I N S I G H T INTELIGÊNCIA
INTELIGÊNCIA

ROBERTO KANT DE LIMA MARIA STELLA AMORIM MARCELO BURGOS


AN T R OP ÓL OG O PE S QUI S ADO RA S O CI Ó L O GO

ABRIL • MAIO • JUNHO 2002 99


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s Juizados Especiais Cri- Na média, o conflito entre conhecidos entre si alcança 82,7%.
minais hoje respondem Essa situação permite admitir que quanto maior a proximi-
por expressiva quantidade dade entre as pessoas, maior potencial de violência se en-
de processos em curso nos contra nas relações, com destaque para cônjuges e afins (in-
tribunais brasileiros, o que cluindo companheiros, amantes e namorados), ou seja, re-
lhes confere a relevante lações que envolvem pessoas do sexo masculino e feminino.
contribuição de alargar o Na média dos dois juizados, conflitos entre cônjuges e afins
acesso da população à es- respondem por 51,9% do total.
fera institucional de administração de conflitos1 . No entan- Ainda que diferenças naturais entre homens e mulhe-
to, tal apreciação, embora correta, decorre de avaliações res possam influenciar o fato de serem aqueles os agresso-
quantitativas (Azevedo, 2000, 2001), que nem sempre per- res típicos nas queixas registradas em delegacias e encami-
mitem perceber aspectos qualitativos, especialmente aque- nhadas aos Juizados Especiais, tradicionais desigualdades
les que se referem ao direito e à justiça neles praticados. de gênero estão claramente presentes nas relações conju-
Com a intenção de oferecer contrapontos à visão quan- gais, sendo mais generalizadas em nossa sociedade. Basta
titativa, este trabalho não descarta dados quantitativos dizer que entrevistas com mulheres que formalizaram quei-
— pois deles se vale — mas concede especial destaque à xa de ameaça ou de agressão recebida do cônjuge revelam
coleta de dados qualitativos sobre os Juizados estudados, que elas nunca registram queixa nas primeiras ocorrências
a fim de dispor de mais elementos que propiciem avalia- e sim depois de serem agredidas várias vezes.
ções com maior refinamento sobre a importância desses Quando são atendidas fora de Delegacia Especializada
órgãos na sociedade brasileira, em especial junto às ca- no Atendimento às Mulheres nem sempre recebem o trata-
madas sem acesso às instâncias oficiais de administração mento adequado pelos funcionários, que tendem a banali-
dos conflitos. O artigo é o resultado de pesquisa empírica zar a violência que sofreram e, às vezes, sequer registram
sobre os Juizados localizados nos municípios da região me- suas queixas. Possivelmente, a desqualificação de queixas
tropolitana do Rio de Janeiro e focaliza o seu papel entre trazidas por mulheres decorra do fato de as delegacias poli-
às comunidades em que atuam, a prática dos operadores ciais terem perdido, com o advento da Lei nº 9.099/95, a
que o integram e a sua articulação no conjunto do sistema tradicional função de controle sobre delitos de “pequeno
judicial criminal brasileiro. potencial ofensivo”. Antes dessa lei, que instituiu os Juiza-
Os conflitos nas relações de intimidade, entre os quais dos, cabia aos delegados administrar os conflitos familiares
avulta a violência doméstica, encontraram abrigo nos Jui- e de vizinhança. Na atualidade, eles perderam essa função,
zados Especiais Criminais, depois da Lei nº 9.099/95, que cabendo-lhes apenas registrar a queixa e encaminhá-la ao
se destinava, originalmente, a administrar querelas consi- Juizado.
deradas de “pequeno potencial ofensivo”, ou seja, malefí- Interessa destacar a situação típica da mulher como prin-
cios cuja pena prevista não atingia mais de um ano de pri- cipal vítima de violência, a qual ocorre sobretudo no âmbito
são. Entretanto, tão logo entraram em funcionamento, os das relações conjugais e afins, conforme demonstra o gráfi-
Juizados foram colonizados pelo conflito de natureza do- co 5. Trata-se aqui de um terreno de direitos, no qual a iso-
méstica. É que a violência em casa considera que as rela- nomia de tratamento concedida a cidadãos juridicamente
ções familiares, sempre vistas com forte componente afeti- iguais deveria prevalecer sobre as diferenças, sejam sociais,
vo, estão contaminadas pela agressão. Aqui, os homens são econômicas, morais, de sexo, de cor, de religião ou outras.
os principais agressores, sendo vítimas as mulheres, como Embora nossos dados reflitam a versão do conflito entre
demonstram os gráficos 1 e 2, que expressam realidades homens e mulheres adultos levada ao Juizado, o cenário
reveladas pelos Juizados estudados. em que ocorre é a família, ambiente responsável pela socia-
Os gráficos 3 e 4 mostram que os dois juizados estuda- lização primária de crianças e jovens, que travam contato
dos são marcados por conflitos envolvendo pessoas próxi- com a violência, muitas vezes desde o berço até o ingresso
mas, com destaque para conflitos domésticos e conjugais. na vida adulta.

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GRÁFICO 1 GRÁFICO 2
SEXO DA VÍTIMA (%) SEXO DO AUTOR (%)

20,1 17,8

79,9 82,2

MASCULINO FEMININO MASCULINO FEMININO

GRÁFICO 3
RELAÇÃO ENTRE AS PARTES, NO JUIZADO (X) (%)

estranhos 25

vizinhança 15,8

parentesco 10,5

conjugal e afins 48,7

GRÁFICO 4
RELAÇÃO ENTRE AS PARTES, NO JUIZADO (Y) (%)

estranhos 9,7

vizinhança 22,2

parentesco 13,1

conjugal e afins 55,1

GRÁFICO 5
SEXO DA VÍTIMA PELO TIPO DE RELAÇÃO

estranhos 8,0%
36,1%
17,7%
vizinhança 26,2%
MASCULINO FEMININO
11,6%
parentesco 16,4%

conjugal e afins 62,7%


21,3%

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Essa visão sugere que a violência doméstica integra o processo e com a produção do bem público (Werneck Vian-
cotidiano da vida familiar desde tempos anteriores aos da- na e outros, 1999).
dos aqui apresentados (2000) e, mesmo, anterior à Lei nº
9.099/95. A novidade é que esta lei, que cria o Juizado Es- sualmente, as partes chegam ao
pecial, contribui para que a violência doméstica seja enca- Juizado encaminhadas pelas Dele-
minhada para uma agência oficial — um tribunal — que se gacias de Polícia, que traduzem o
destina a administrar os conflitos que a ela são expostos. fato social em fato jurídico. Lá o
Embora criado com outras finalidades, o Juizado Especial autor do fato e a vítima participam,
ofereceu espaço estratégico para acolher a denúncia de vio- preliminarmente, de uma audiên-
lência doméstica. Nenhuma outra instituição desfruta de cia de conciliação. Tratando-se de crime de ação penal pú-
posição tão privilegiada para atuar no sentido de mitigar os blica condicionada à representação (como ameaça e lesão
efeitos perversos da violência familiar. corporal leve) ou de crime de ação penal privada (como dano,
adultério e exercício privado das próprias razões), faculta-
AS INOVAÇÕES se às partes a possibilidade de realizarem a composição cí-
A Constituição de 1988 criou os Juizados Especiais Ci- vel, isto é, um acordo negociado, que pode, inclusive, resul-
vis e Criminais, regulamentados pela Lei nº 9.099/95 e in- tar em uma indenização pecuniária à vítima pelo autor do
troduzidos no sistema judiciário brasileiro com o objetivo fato, configurando assim uma notável “civilização” do pro-
de facilitar aos cidadãos brasileiros o acesso à justiça e ao cesso penal.
direito. Ao encerrar ambos os Juizados em uma mesma lei, Na hipótese de haver composição cível, o conciliador faz
o Poder Legislativo subordinou a área cível e a criminal a as partes assinarem um acordo e o juiz declarará extinta a
um único conjunto de princípios norteadores do processo punibilidade, terminando o feito. Caso a composição não seja
legal: oralidade, simplicidade e informalidade, celeridade, possível – ou quando se tratar de crimes de ação penal pú-
economia processual, conciliação e transação. A par desse blica incondicionada — o feito passará à segunda fase da
conjunto de princípios comuns às áreas cível e criminal, a transação penal. Nesta etapa, cabe ao promotor propor ao
Lei nº 9.099 apresentou inovações específicas em cada uma autor do fato a aplicação de pena mais leve, alternativa,
delas. Mas é sobretudo na parte criminal que se observam restritiva de direitos ou pecuniária2 . Se o autor do fato acei-
inovações importantes. tar — e este é o único momento em que esse ritual se asse-
Na verdade, a Constituição de 1988, artigo 98, inciso melha ao do due process, criando uma opção para o acusado
I, já inovara ao inserir na dinâmica dos Juizados Espe- — o juiz pode homologar o acordo, fixando a pena alternati-
ciais as figuras da conciliação e da transação penal, estra- va que, em geral, consiste na prestação de serviços à comu-
nhas à tradição jurídica brasileira, como de resto a dos nidade ou na doação de mercadorias de utilidade para ins-
demais ordenamentos jurídicos dos países ocidentais, que tituições filantrópicas.
seguem a tradição do direito romano, conhecida como a Caso o juiz não aceite a transação, ou o promotor não
civil law tradition. Além disso, a Lei nº 9.099 reserva ao considere cabível para o caso em questão, ou ainda se o autor
juiz a atribuição de dirigir o processo “com ampla liberda- do fato não concordar, passa-se, então, à audiência de instru-
de, para determinar as provas a serem produzidas, para ção e julgamento, esta sim conduzida diretamente pelo juiz e
dar especial valor às regras de experiência comum, dando cujo desfecho é a sentença proferida na ação penal propria-
a cada caso a solução que reputar mais justa e equânime” mente dita. Mas a esmagadora maioria dos conflitos é resol-
(Dinamarco, 1985). Como se vê, também neste item a Lei vida nas etapas de conciliação ou de transação penal.3
nº 9.099 está em dissonância com a tradição jurídica bra-
sileira, prescrevendo um juiz que, bem entendido, afasta- OS CONFLITOS
se do paradigma canônico da civil law tradition, afiguran- Por outro lado, nossos dados não deixam dúvidas quan-
do-se menos como “boca inanimada da lei”, e mais como to ao tipo de conflito administrado pelos Juizados estuda-
um intérprete da lei, comprometido com a efetividade do dos, conforme o gráfico 6. De acordo com a tradução codifi-

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GRÁFICO 6
CARACTERIZAÇÃO DO TIPO DE FATO PELO ARTIGO E CÓDIGO (%)

,6
48
,1
36

2
8,
3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 6 6 6 6 9
0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0,

. P. P. P. P. P. P. P. P. P. P. P. P. P. T . P. P.
P. . C . T
, C LC P D , C , C , C , C , C , C , C , C , C , C LC P , C , C C B , C C B , C ,C
C 2 3 6 7 8 0 1 0 0 5 6 0 , 3 7 9
29 42, 1, 13 13 13 13 13 14 16 18 33 34 58, 14 15 10 16 09, 14 12
7 3 3

GRÁFICO 7
NÍVEL DE INSTRUÇÃO DA VÍTIMA (%)

até o superior 8,4

até o secundário 29,8

até o ginásio 26,1

até o primário 35,8

GRÁFICO 8
NÍVEL DE INSTRUÇÃO DO AUTOR (%)

até o superior 5,5

até o secundário 31,4

até o ginásio 29,4

até o primário 33,7

GRÁFICO 9
RENDA DA VÍTIMA

mais de 5 salários 11,7

de 3 a 5 salários 7,3

de 1 a 3 salários 49,2

até 1 salário 31,8

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cada dos conflitos, predominam duas situações previstas no pendendo do tipo de postura que assume como juiz.
Código Penal: a “lesão corporal leve” (artigo 129), que cor- Nossos dados revelam que se o juiz limitar a sua ação ao
responde a 48,4% do total de conflitos e a “ameaça” (artigo papel de julgador, terá muito pouco a fazer nos Juizados
147), que alcança 36,2% . Especiais, pois menos de 5% dos processos chegam à fase
Quanto ao perfil dos usuários, entre os agressores, 34% de Audiência de Instrução e Julgamento. Mas, se estiver
têm no máximo quatro anos de instrução formal, e cerca de imbuído do papel de administrador de conflitos, o juiz cer-
60% até oito anos; as vítimas têm perfil bastante semelhante tamente terá uma agenda cheia de compromissos, envol-
(gráficos 7 e 8). vendo um trabalho para fora do Juizado, como articulador
Quanto à renda individual, cerca de 70%, tanto dos agres- de redes englobando as instituições judiciárias e a socieda-
sores, quanto das vítimas, ganham até três salários míni- de civil (Werneck Vianna e outros, 1999: 255-256).
mos, como demonstram os gráficos 9 e 10. Outro aspecto que chama a atenção é o alto índice de
Os conflitos administrados pelos Juizados ocorrem basi- desistência das vítimas. Isso significa que o Juizado não
camente em ambiente doméstico, envolvendo quase sem- administra o conflito com eficiência, devolvendo-o às par-
pre homens contra mulheres, ambos pertencentes aos seg- tes para que (não) o resolvam, e o que é pior, aponta que
mentos economicamente desfavorecidos da população (Bur- as instituições não estão em condições de dar respostas
gos, 2001). à situação. Cabe frisar, contudo, que o percentual de de-
sistência apresenta enorme variação. Em um deles, o
onsiderando que os Juizados estuda- índice é superior a 50%, enquanto que no outro não pas-
dos lidam com o mesmo tipo de clien- sa dos 25%.
tela e de conflitos com padrões simila- Essa diferença pode ser facilmente explicada: em um
res, os gráficos adiante indicam que os dos Juizados estudados, adotou-se como prioridade bási-
Juizados estão expostos a variações ca a celeridade, que se reflete na estatística de produção
nas estratégias escolhidas por cada um do tribunal, medida por sua capacidade de encerrar pro-
deles para administrar os litígios. Entretanto, na média dos cessos. Considerando esse tipo de objetivo, a desistência
dados apresentados nos gráficos 11 e 12, apenas 4,6% dos tornou-se obviamente interessante, abreviando todo o
processos são encerrados em audiências de instrução e jul- trabalho necessário para a administração da composição
gamento: 33,2% dos litígios são resolvidos através de com- cível ou da transação penal. A tal ponto radicalizou-se
posição cível, 22,9% por meio de transação penal e nada essa postura que um dos pesquisadores descobriu que
menos que 39,3% pela desistência. juízes eram orientados para abrir a audiência com a se-
Este reduzido número de processos nas Audiências de guinte questão: “a senhora não quer desistir?”. Em se-
Instrução e Julgamento realizadas por juízes mostra que minário realizado com a participação do juiz e do promo-
os conciliadores ocupam o papel principal de administra- tor desse Juizado, essa postura foi explicada como cor-
dores dos conflitos processados pelos Juizados. Os promo- respondendo à rejeição da civilização dos procedimentos
tores também teriam uma importância relativamente alta, criminais. O promotor e a juíza se declararam contrários
mas, pelo menos em um dos casos estudados, o promotor à elaboração de acordos pelos conciliadores sobre assun-
tem funcionado muito mais como um homologador de tran- tos que não poderiam ser passíveis de execução judicial.
sações negociadas diretamente pelos conciliadores. Fica Como não são sentenças, nem transações, esses acordos
claro, portanto, que os juízes atuam menos como julgado- não deveriam ser passíveis de imposição, de “execução”.
res e muito mais como gerentes, responsáveis pelo treina- Viam nisso, inclusive, um suposto perigo de responsabi-
mento e supervisão do trabalho dos conciliadores, defen- lização dos juizados pelo não-cumprimento de acordos
sores públicos e promotores, e pelo controle do funciona- firmados em seu âmbito.
mento do cartório. Na verdade, o próprio princípio da in- Assim, a renúncia esconderia, em alguns casos, uma com-
formalidade parece abrir novas oportunidades de atuação, posição cível informal, que não “pode ser reduzida a ter-
que podem, ou não, ser exploradas pelo magistrado, de- mo”, ou seja, não pode ser formalizada. Esse tipo de acordo

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GRÁFICO 10
RENDA DO AUTOR (%)

mais de 5 salários 15,4

de 3 a 5 salários 18,6

de 1 a 3 salários 47

até 1 salário 19

GRÁFICO 11
DESFECHO DO PROCESSO NO JUIZADO (X) (%)

AIJ 4,1

desistência 56,5

transação 34,7

composição cível 4,8

GRÁFICO 12
DESFECHO DO PROCESSO NO JUIZADO (Y) (%)

AIJ 4,9

desistência 25,8

transação 13,2

composição cível 56

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ocorre entre partes envolvidas em conflitos tipicamente fa- pios que regem a operação de cada parte não se encontram
miliares como, por exemplo, pagamentos de pensão alimen- pela via de mensagens comunicativas portadoras de signi-
tícia, atribuição da guarda dos filhos e respeito do direito ficados universalistas, recebidas, elaboradas e transmiti-
do pai separado da mãe de visitá-los, sucessão de bens, que das, consensualmente, entre os atores que operam em cada
acabam produzindo conflitos de natureza penal considera- um dos subsistemas (Kant de Lima, Amorim e Burgos, 2001).
dos de menos ofensivo. Tais mensagens são endereçadas às posições hierárquicas
sociais dos atores, apropriadas de acordo com os interesses
m outro Juizado constatamos que e representações que desenvolvem no interior de cada sub-
esse tipo de conduta tem sido critica- sistema e a partir da visão que constroem, propiciando dis-
do e, ao contrário, prevalece a orien- tintas representações do sistema judicial criminal. Em face
tação de que os conciliadores evitem de tal circunstância, a comunicação interna entre os atores
a desistência de toda forma. Um ín- participantes do sistema não lhes permite perceber contra-
dice elevado de desistência já seria dições e paradoxos nos discursos e nas práticas que ado-
percebido como um indicador do fracasso relativo do tra- tam, nem construir representações que correspondam ao
balho da instituição, à medida que não teria qualquer re- efetivo sistema. Eis porque a lógica do contraditório4 , que
percussão sobre o conflito e, portanto, sobre a pacificação preside o desenrolar do processo, se expande e contamina
das relações de violência, o que estaria contrariando, se- os diálogos sobre o sistema e dentro dele, oferecendo-se como
gundo a compreensão ali reinante, um dos objetivos maio- véu que encobre a lógica da desigualdade estruturada na
res do Juizado Especial. pirâmide social, sobreposta a ideais e a teorias e a doutri-
nas da igualdade.
AS DÚVIDAS Tal quadro não apenas é paradoxal, mas fere os princí-
A transação penal e a utilização das penas alternativas pios mais elementares da ética social, pois o sistema de
também têm gerado muitas dúvidas quanto à sua eficácia. justiça criminal brasileiro não é explicitado como está con-
O pagamento de cestas básicas ou a doação de mercadorias figurado na realidade. Os silêncios, as omissões e os álibis
a instituições de caridade tem sido a forma mais usada de encobrem as feias “verdades reais” que produz. Mais do
pena alternativa. Tal prática acabou provocando comentá- que isso, a comunicação e a argumentação (Apel,1985)
rio maldoso entre os inimigos do Juizado: “agora, um tapa entre seus agentes e entre estes e a população que a ele
na cara (lesão corporal leve) custa um salário mínimo, pago recorre, descartam a necessária formação de amplos con-
em forma de cobertor e agasalho”. Vale notar, incidental- sensos sobre regras universais e sobre procedimentos que
mente, que esse comentário deixa bem claro quais os limi- as garantam.
tes da “civilização” do direito penal e de como ele reage so- Por atuarem no nível da sociedade local, os Juizados Es-
bre o imaginário de uma sociedade acostumada a adminis- peciais oferecem condições muito favoráveis ao discurso co-
trar o controle social através do arbítrio do delegado ou atra- municativo na microesfera (Apel, 1985), sobretudo porque
vés de uma ação penal pública, inacessível à negociação lida com conflitos em relações de intimidade entre parentes
entre as partes. De todo modo, ainda não existem avalia- e vizinhos. Enquanto microssistema oficial, pode o Juizado
ções sérias sobre a eficácia da pena alternativa, apreciada penetrar no tecido social e exercer função apaziguadora de
à luz de resultados palpáveis sobre a administração insti- conflitos em comunidades locais — incluindo familiares e
tucional do conflito jurídico e social. de residência — além de diminuir a separação que hoje se
Nossa pesquisa permite algumas reflexões que parecem verifica entre o direito e os tribunais e entre estes e a soci-
relevantes acerca da participação do Juizado Especial no edade onde vivem os cidadãos.
conjunto do sistema judiciário criminal brasileiro. Integra- Nesse sentido, uma ressocialização dos agentes do
do este sistema por quatro partes designadas pelos subsis- sistema, tanto quanto da população a ele submetida, po-
temas policial, judicial, do Tribunal do Júri e do Juizado, deria, pela via de uma ética discursiva, contribuir para
não poderia abrigar unidade lógica, uma vez que os princí- levar a sociedade, a nação e o regime político brasileiros

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para formas de justiça e de democracia mais coerentes, se assim a ausência de respostas satisfatórias no âmbito da
universais e adequadas ao mundo contemporâneo. En- Justiça. Mais do que isso, não apenas a vítima sentiu-se
tretanto, este propósito ainda parece longínquo, pois se- desconfortada, mas o direito foi minimizado dentro da ins-
quer teve início um diálogo ético, não apenas justo, mas tituição judiciária.
consensualmente democrático, dentro da comunidade Embora a opinião de vítimas descontentes seja mais en-
integrada pelos que atuam ou que teorizam sobre os Jui- contrada em um dos Juizados Especiais estudados, a au-
zados Especiais. Sequer existe um consenso mínimo en- sência de comunicação assinalada é generalizada em todo o
tre os operadores a respeito do papel do Juizado dentro sistema judiciário criminal, principalmente quando a obri-
do ordenamento jurídico brasileiro. Enquanto uns saú- gatoriedade da presença dos advogados como seus interme-
dam o seu advento, outros têm preferência por orientar diários dificulta ainda mais a comunicação entre as partes
suas opiniões e atuações em moldes vigentes na justiça envolvidas em conflitos de interesse e entre essas e o siste-
criminal tradicional e combatem os dispositivos mais fle- ma. A comunicação não é um meio privilegiado em siste-
xíveis introduzidos pelo Juizado. mas jurídicos que abrigam procedimentos autoritários.

DOIS UNIVERSOS o processo criminal brasileiro tra-


A ausência de comunicação entre as partes conflitan- dicional, a interlocução das partes
tes e os agentes foi registrada em trabalho de campo, quan- com o juiz é limitada e a sua ins-
do o conciliador minimiza a natureza do conflito real en- crição nos autos mediada pelas au-
tre agressor e vítima e dirige sua preocupação para a pos- toridades judiciárias e serventuá-
sibilidade da questão tornar-se, ou não, um processo. Em rios da justiça. Até no tribunal do
caso afirmativo, as partes terão que se apresentar ao juiz. júri há o impedimento de comunicação entre os jurados (!)
A interferência do conciliador é sempre no sentido de evi- (Kant de Lima, 1995, 1999). Não poderia o Juizado Especi-
tar tal situação, o que o motiva a convencer as partes à al, a despeito da flexibilização que introduz no sistema pe-
conciliação, resultando quase sempre na desistência da nal brasileiro, estar preparado para abrigar proposições de
vítima de processar seu agressor. Entrevistas com víti- uma ética discursiva, que, sem a base comunicativa, não
mas que apresentaram queixas contra seus agressores teria lugar para existir, motivo pelo qual a qualificação ar-
revelam que após audiência com o conciliador, não só de- gumentativa dessa ética fica descartada e, assim limitada,
sistiram de processá-los, como ficaram convencidas de que encontra abrigo na disputatio, característica do contraditó-
o Juizado não traz solução para a situação conflituosa que rio, onde o consenso de valores é excluída e as posições hie-
as levou à instância encarregada de administrar conflitos rárquicas dos interlocutores são reafirmadas.
dentro de seus domicílios. Pensar que a instituição do Juizado Especial Crimi-
Essa percepção da vítima corresponde à atuação do con- nal possa, sozinha, mudar o quadro estabelecido seria
ciliador, mas não atende aos fins que a moveram a procurar minimizar a força das tradições jurídicas e judiciárias
o Juizado. A situação revela o confronto de dois universos brasileiras. Não se pode esperar que a instituição corrija
significativos distintos, caracterizados pela ruptura de co- problemas profundos da sociabilidade, os quais se refe-
municação: um na esfera do conciliador — cuja pretensão é rem ao lugar da norma em nossa sociedade (Garapon,
evitar o processo, objetivo explícito nas negociações que 1999). Embora ocupando posição estratégica para respon-
empreende com as partes — outro, na esfera das vítimas, der a demandas cruciais da sociedade, não poderia o Jui-
mulheres, em grande maioria — que pretendem lhes seja zado, senão de modo incompleto, dar conta do que se es-
assegurado o direito e feita justiça pela agressão a que fo- pera de todo o sistema judiciário criminal brasileiro, de
ram submetidas, e da qual não tiveram como defender-se. que é apenas uma parte. Entretanto, sua criação em 1995
Importa assinalar que esse desfecho não somente deixou de concedeu maior aproximação entre o sistema judiciário
atender à vítima, mas levou-a a abrir mão do direito de re- e a sociedade, permitindo o advento de formas novas de
presentar judicialmente contra seu agressor 5 . Configura- relações sociais e oferecendo oportunidades de atuação

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da sociedade sobre dimensões sensíveis da cultura da vio- por isso elas seriam menos importantes, se contemplas-
lência. A expectativa de que o Juizado Especial contri- sem a administração e o controle da violência doméstica
bua para mitigar o conflito na esfera íntima já encerra- na sociedade brasileira.
ria um marco considerável, e, ainda que suas respostas
não alcancem todos os desafios que lhe são expostos, nem e - m a i l : k a n t @ w e b 4 u . c o m . b r

NOTAS
1. No início de 2002 foram implantados os Juizados Especiais Federais Cíveis e Criminais, regidos pela Lei nº 10.259 de 16/06/2001. Os Juizados
Federais começam a funcionar em 2002 e sua criação aumenta para até dois anos de reclusão os crimes de pequeno potencial ofensivo, fixado em um ano
pela Lei nº 9.099/95. Essa alteração deverá oferecer novo perfil aos conflitos até então abrigados nos Jecrim vigentes nas jurisdições.
2. O termo “pena alternativa” já vem sendo objeto de crítica por parte de alguns juízes de Jecrim, que preferem qualificá-la como “pena não-custodial”,
evitando, assim, confundir a “pena alternativa” com uma idéia, bastante consolidada no imaginário brasileiro, de que por ser alternativa à prisão deixa
de ser pena.
3. Para que se tenha uma idéia quantitativa: em um dos juizados criminais com maior número de processos/ano do Rio de Janeiro, algo em torno de dois
mil processos/ano, apenas 17 foram levados à fase de audiência de conciliação e julgamento em 2000.
4. A lógica do contraditório implica a consistente oposição de teses contrárias, que não podem se encontrar sob pena de derrota de uma para a outra.
Assim, em nosso sistema de justiça criminal, que a leva ao extremo, implica a impossibilidade de haver consenso, mesmo que seja sobre fatos, ou provas,
dentro do processo, entre as partes litigantes, com sérias implicações para a postura ética dos operadores envolvidos.
5. Laura Nader tem, sistematicamente, argumentado que os diversos mecanismos de mediação introduzidos em várias instâncias, nacionais e interna-
cionais, para administração de conflitos, prejudicam sistematicamente as partes mais fracas do litígio, por oposição a uma apreciação judicial, onde o
conflito fosse tratado de maneira adversária. (Nader, 1988, 1990, 1993, 1996). A isto, acrescente-se que a conciliação é uma forma específica de
mediação, que tende a apaziguar os conflitos e, não, a resolvê-los.

BIBLIOGRAFIA
APEL, Karl-Otto (1985). “El a priori de la comunidad de comunicación y los fundamentos de la ética”. La Transformación de la Filosofia, tomo II.
Madrid: Tauros Ediciones.
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