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UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

Escola de Direito, Turismo e Museologia


Departamento de Direito

Eduardo Lourenço Viana

A LIBERDADE SEXUAL, UM DIREITO FUNDAMENTAL:


reflexões sobre a (in)constitucionalidade da omissão legislativa em criminalizar a
homofobia e a transfobia

Ouro Preto
2019
Eduardo Lourenço Viana

A LIBERDADE SEXUAL, UM DIREITO FUNDAMENTAL:


reflexões sobre a (in)constitucionalidade da omissão legislativa em criminalizar a
homofobia e a transfobia

Dissertação de Mestrado apresentada para depósito


junto ao Programa de Pós-Graduação em Direito –
Mestrado Novos Direitos, Novos Sujeitos –
UFOP/2017, como requisito para a obtenção do grau
de Mestre em Direito. Linha de pesquisa 01.
Diversidade Cultural, novos sujeitos e novos sistemas
de Justiça.

Orientador: Prof. Dr. Alexandre Gustavo Melo


Franco de Moraes Bahia.

Coorientador: Prof. Dr. Adilson José Moreira.

Área de Concentração: Novos Direitos, Novos


Sujeitos.

Ouro Preto
2019
Eduardo Lourenço Viana

A LIBERDADE SEXUAL, UM DIREITO FUNDAMENTAL:


reflexões sobre a (in)constitucionalidade da omissão legislativa em criminalizar a
homofobia e a transfobia

Dissertação de Mestrado apresentada para depósito


junto ao Programa de Pós-Graduação em Direito –
Mestrado Novos Direitos, Novos Sujeitos –
UFOP/2017, como requisito para a obtenção do grau
de Mestre em Direito. Linha de pesquisa 01.
Diversidade Cultural, novos sujeitos e novos sistemas
de Justiça.

Orientador: Prof. Dr. Alexandre Gustavo Melo


Franco de Moraes Bahia.

Coorientador: Prof. Dr. Adilson José Moreira.

Área de Concentração: Novos Direitos, Novos


Sujeitos.

___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Alexandre Gustavo Melo Franco de Moraes Bahia – UFOP (Orientador)
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Adilson José Moreira – Universidade Mackensie (Coorientador)
___________________________________________________________________________
Prof.ª Dra. Natália de Souza Lisboa – UFOP- (Banca)
_______________________________________________________________________
Prof. Dr. Marcelo Maciel Ramos UFMG- (Banca)

Ouro Preto, ____ de _______________ de 2019.


Dedico essa dissertação a cada excluído(a), a cada esquecido(a), a cada um(a) que teve seu
grito sufocado e seu choro ignorado por uma sociedade intolerante e insensível às diferenças.
AGRADECIMENTOS

São tantos(as) a quem devo gratidão. Essas linhas seriam insuficientes para agradecer a
todos(as). Mas deixo aqui um forte abraço afetuoso aos meus pais Nelson e Izabel, a quem,
juntamente a Deus, devo o dom da vida e uma perseverança inabalável, diante do apoio
incondicional sempre recebido; à minha esposa Gislaine e aos meus filhos João e Maria,
igualmente pelo apoio e, especialmente, pela compreensão, nos momentos de ausência nessa
vida de tanto estudo e trabalho; aos meus orientadores, Professor Alexandre Bahia e Professor
Adilson Moreira, por meio dos quais cumprimento cada um(a) de meus(minhas)
Professores(as), desde a primeira, Professora Mariza, nos idos de 1.989, ainda na educação
infantil, passando por todos(as) e cada um(a) da Educação Básica, até alcançar os(as) Mestres
da Educação Superior, seja da Universidade Federal de São João del-Rei, onde me licenciei em
Ciências Biológicas, seja da Universidade Federal de Ouro Preto, onde tive a honra de me
bacharelar em Direito. Aos (Às) Mestres (as), com muito, muito carinho e gratidão.
RESUMO

A partir de Ronald Dworkin e seu marco teórico Integridade do Direito, sob o recorte específico
da Integridade na Legislação, pretende-se verificar com a presente pesquisa, a existência de
omissão da República Federativa do Brasil quanto à correta responsabilização criminal
daqueles que cometem atos atentatórios contra a liberdade sexual da população LGBTI. Por
meio da apresentação de dados estatísticos, notadamente aqueles obtidos no Relatório sobre a
Violência Contra a População LGBTI nas Américas – texto publicado pela Organização dos
Estados Americanos em 2015, aqui sob o recorte específico do Brasil –, bem como por meio
da apresentação de um caso específico, qual seja, o Caso Baliera (Petição de Ingresso contendo
a denúncia do Estado Brasileiro junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos por
violação ao Pacto de San Jose da Costa Rica, diante da ausência de repressão eficiente a crime
cometido contra um LGBTI) e outros dados públicos, pretende-se evidenciar o número
alarmante de casos de violência cometidos contra essa parcela específica da população no
Brasil. Objetiva-se também demonstrar ser a liberdade sexual, aqui entendida como direito à
livre orientação sexual e à livre expressão da identidade de gênero, um direito fundamental já
positivado na Constituição da República Federativa do Brasil de 1.988. A promulgação da nova
Constituição num momento de reabertura democrática e política foi um contexto ímpar na
história das conquistas de direitos fundamentais no Brasil. Partindo dessa premissa, pretende-
se evidenciar que a interpretação do inciso XLI, do artigo 5º constitucional revela a omissão
inconstitucional do Congresso Pátrio em criminalizar a homofobia e a transfobia. Objetiva-se
ainda discutir a (in)adequação da legislação existente para punir eficazmente tais atos
discriminatórios. Finalmente, apresenta-se o Mandado de Injunção e a Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão como mecanismos processuais adequados para o
saneamento da referida omissão. Desse modo o problema central da presente pesquisa é
diagnosticar a existência ou não de omissão legislativa em criminalizar a homotransfobia,
objetivando apontar mecanismos para o saneamento da referida omissão, caso essa seja
confirmada.

Palavras-chave: Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão-ADO/26. Mandado de


Injunção. Homotransfobia. LGBTI. Liberdade Sexual. Sexualidade. Direitos Fundamentais.
Direitos Humanos.
ABSTRACT

Based on Ronald Dworkin and his theoretical framework of Integrity of Law, under the specific
clipping of Integrity in Legislation, we intend to check with the present investigation, the
existence of an omission by the Federative Republic of Brazil regarding the correct criminal
responsibility of those who commit acts against the sexual freedom of the LGBTI population.
Through the presentation of statistical data, notably those obtained in the Report on Violence
against LGBTI Population in the Americas - a text published by the Organization of American
States in 2015, here under the specific heading of Brazil -, as well as by presenting an specific
case, namely the Baliera Case (Petition for Injunction containing the denunciation of the
Brazilian State in the Inter-American Commission on Human Rights for violation of the Pact
of San Jose of Costa Rica, in the face of the absence of efficient repression of a crime committed
against an LGBTI) and other public data, it is intended to highlight the alarming number of
cases of violence committed against this specific portion of the population in Brazil. It is also
intended to demonstrate be the sexual freedom, understood here as the right to free sexual
orientation and the free expression of gender identity, a fundamental right already affirmed in
the Constitution of the Federative Republic of Brazil of 1988. The promulgation of the new
Constitution at a time of democratic and political reopening was a unique context in the history
of the achievement of fundamental rights in Brazil. Based on this premise, it is intended to show
that the interpretation of section XLI of article 5 of the Constitution reveals the unconstitutional
omission of the National Congress to criminalize homophobia and transphobia. It also aims to
discuss the (in) adequacy of existing legislation to effectively punish such discriminatory acts.
Finally, the injunction and the Direct Action of Unconstitutionality by Omission are presented
as adequate procedural mechanisms for the reorganization of said omission. Thus, the central
problem of the present research is to diagnose the existence or not of legislative omission to
criminalize homotransphobia, aiming at pointing out mechanisms for the sanitation of said
omission, if this is confirmed.

Keywords: Direct Action of Unconstitutionality by Omission-ADO/26. Burden of Injunction.


Homotransphobia. LGBTI. Sexual Freedom. Sexuality. Fundamental Rights. Human Rights.
LISTA DE TABELAS

ANEXO- A Tabela 01- Registro de violência contra as pessoas LGBT na América- Um olhar
específico sobre o Brasil. Ataques contra a vida e a integridade. Jan./Dez. 2013
ANEXO- B Tabela 02- Registro de violência contra as pessoas LGBT na América- Um olhar
específico sobre o Brasil. Ataques contra a vida e a integridade. Jan./Mar.2014
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

A/HRC/29 29ª Human Rights Council – ONU (Assembleia Geral da ONU: 29ª Relatório
Anual emitido pela Conselho de Direitos Humanos)
ADC Ação Declaratória de Constitucionalidade
ADI Ação Direita de Inconstitucionalidade
ADO Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão
ADPF Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental
AG/RES. Assembleia Geral. Resolução (OEA).
AGBLT Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
AGU Advocacia-Geral da União
ANTRA Associação Nacional de Travestis e Transexuais
Art. Artigo
Av. Avenida
CADH Convenção Americana de Direitos Humanos
CAO-DH Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos
Humanos
CC/02 Código Civil de 2002
CCJ Comissão de Constituição e Justiça
Cf. Conforme
CIDH Comissão Interamericana de Direitos Humanos
CINDS Centro Integrado de Informação de Defesa Social
CNJ Conselho Nacional de Justiça
CP Código Penal
CPC/15 Código de Processo Civil de 2015
CRFB Constituição da República Federativa do Brasil
Dra. Doutora
FAFICH Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas
Gerais
Fls. Folhas
GAPVS Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual
GGB Grupo Gay da Bahia
HC Habeas Corpus
IBDFAM Instituto Brasileiro de Direito de Família
JECRIM Juizado Especial Criminal
LGBTI Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Transgêneros, Travestis e Intersexuais
MG Minas Gerais
MI Mandado de Injunção
MP Ministério Público
NAC-LGBT Núcleo de Atendimento à População LGBT da Polícia Civil do Estado de Minas
Gerais
NUH Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da FAFICH-UFMG
OEA Organização dos Estados Americanos
ONU Organização das Nações Unidas
PGR Procuradoria-Geral da República
PPS Partido Popular Socialista
PSL Partido Social Liberal
RDO Registro Digital de Ocorrência
RE Recurso Extraordinário
REDS Registros de Ocorrência de Defesa Social
RESE Recurso em Sentido Estrito
SEDS Secretaria de Estado de Defesa Social
SP São Paulo
STF Supremo Tribunal Federal
TJSP Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
TO Tocantins
UFMG Universidade Federal de Minas Gerais
UFOP Universidade Federal de Ouro Preto
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
USD United States Dollar (Dolares Estadunidenses, numa tradução livre)
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 12
1.1 Tema do Trabalho ............................................................................................................ 12
1.2 Problema da Pesquisa e Hipótese de Trabalho .............................................................. 14
1.3 Objetivos e Metodologia................................................................................................... 15

2 O JUIZ HÉRCULES, O ROMANCE EM CADEIA, OS CASOS DIFÍCEIS E A


INTEGRIDADE NO DIREITO ............................................................................................ 24
2.1 Considerações Iniciais ...................................................................................................... 24
2.2 Um Conceito de Integridade ............................................................................................ 25
2.3 A Integridade no Direito, uma visão de conjunto .......................................................... 31
2.4 Integridade e Interpretação ............................................................................................. 32
2.5 Considerações derradeiras, porém, necessárias ............................................................ 41

3 UM POUCO MAIS SOBRE DWORKIN.......................................................................... 48


3.1 Integridade e direito penal mínimo ................................................................................. 49
3.2 A coerência das decisões no tempo .................................................................................. 50

4 O RELATÓRIO DA COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS


SOBRE A VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS,
TRANS E INTERSEXO NAS AMÉRICAS, UM OLHAR SOBRE O BRASIL .............. 52
4.1 Esclarecimentos Iniciais ................................................................................................... 52
4.2 Um olhar sobre o Brasil ................................................................................................... 60
4.2.1 Análise do Anexo 01- Tabela 01- Período de Referência: Janeiro a Dezembro de 2013
.................................................................................................................................................. 62
4.2.2 Quanto ao tipo de crime .................................................................................................. 63
4.2.3 Análise do Anexo 02- Tabela 02- Período de Referência: Janeiro a Março de 2014 .... 64
4.2.4 Quanto ao tipo de crime .................................................................................................. 64
4.3 Conclusões da análise dos dados ..................................................................................... 65

5 O MANDADO DE INJUNÇÃO (MI) E A AÇÃO DIRETA DE


INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO (ADO) COMO INSTRUMENTOS
JURIDICAMENTE VÁLIDOS PARA SANAR A OMISSÃO LEGISLATIVA EM
CRIMINALIZAR A HOMOTRANSFOBIA ....................................................................... 68
5.1. A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26 como ferramenta de
proteção judicial: uma análise jurídica ................................................................................ 69
5.2 Uma breve análise da ADO N. 26 .................................................................................... 72
5.3 O Mandado de Injunção (MI) como ferramenta de proteção judicial. Uma análise
jurídica..................................................................................................................................... 77
5.4 Uma breve análise do MI 4733 ........................................................................................ 81

6 A INEFICÁCIA DOS TIPOS PENAIS JÁ POSITIVADOS PARA A CORRETA


RETRIBUIÇÃO/REEDUCAÇÃO DAQUELES QUE APRESENTAM CONDUTA
HOMOTRANSFÓBICA. O CASO BALIERA, DENÚNCIA DO ESTADO BRASILEIRO
JUNTO À COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS .................. 87
6.1 O Caso Baliera. Um breve resumo .................................................................................. 87
6.2 Descrição do caso .............................................................................................................. 88
7 ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO, DIREITOS
FUNDAMENTAIS, HOMOTRANSFOBIA E OMISSÃO NO BRASIL. O JUDICIÁRIO
COMO FERRAMENTA PARA A SUPERAÇÃO DA CRISE DA
HOMOFOBIA/TRANSFOBIA ............................................................................................. 98
7.1 A liberdade sexual, um direito fundamental em Adilson José Moreira ...................... 98

8 HOMOTRANSFOBIA E CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE .................... 109


8.1 Breve introdução ............................................................................................................ 109
8.2 Conceituação do Controle de Convencionalidade ....................................................... 110
8.3 A Omissão Inconstitucional em Criminalizar a homotransfobia e o Controle de
Convencionalidade ............................................................................................................... 114
8.4 O Controle de Convencionalidade, a ADO. n. 26 e o MI. n. 4.733 ............................. 117

9 BREVE COMPARATIVO ENTRE O CASO MARIA DA PENHA E O CASO


BALIERA: ACERTOS E DESACERTOS DE UMA CRIMINALIZAÇÃO DE
CONDUTAS .......................................................................................................................... 123

10 CONCLUSÃO E RESULTADOS OBTIDOS............................................................... 128

REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 133

ANEXO A .............................................................................................................................. 143

ANEXO B .............................................................................................................................. 167


12

1 INTRODUÇÃO

1.1 Tema do Trabalho

Atos de violência cometidos contra grupos específicos como mulheres, crianças, idosos,
negros, índios, grupos religiosos, homossexuais, transgêneros, etc. são fato notório na mídia
contemporânea.
A título exemplificativo podem ser citados casos que se tornaram famosos como o do
menino Bernardo Uglione Boldrini, morto aos 11 (onze) anos com injeção letal em um
homicídio arquitetado por seu pai e sua madrasta no ano de 20141, bem como o caso da travesti
Fernanda Lima, morta a facadas na Av. Teresa Cristina na cidade de Belo Horizonte/MG no
ano de 20132.
Esses são apenas alguns exemplos da necessidade de atuação mais efetiva da sociedade
no sentido de combater a violência contra grupos específicos, violência essa que muitas vezes
tem como pano de fundo o ódio contra a cor, orientação sexual3, a identidade de gênero4, a
origem étnica, a vulnerabilidade, a religião, etc.
A presente pesquisa parte de uma premissa básica: o fato de ser a liberdade sexual um
direito fundamental de todo ser humano residente no Brasil.
É importante esclarecer que a expressão liberdade sexual é adotada nessa pesquisa com
o sentido de direito de viver a sexualidade livre de discriminações quanto à orientação sexual,
bem como quanto à identidade de gênero. Do mesmo modo, a expressão direito fundamental é
tomada nesse contexto como sendo o conjunto de direitos básicos dos seres humanos, direitos

1
BURIGATO, Thiago. Morte do garoto Bernardo: quais os limites da crueldade humana? [S.l.]: Jornal Opção,
26 jul. 2014.
2
VÍTIMAS DO PRECONCEITO: confira casos de crimes contra homossexuais em MG. R 7, [S.l.], 09 mar. 2014.
3
A orientação sexual se refere ao sexo (no sentido de gênero) que atrai a pessoa de maneira erótico-afetiva. Visa
identificar assim as pessoas heterossexuais, homossexuais, bissexuais, assexuais. VECCHIATTI, Paulo Roberto
Iotti. Apresentação. In: DESLANDES, Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes (Org.); RIOS,
Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos Sexuais. Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte:
Autêntica Editora, 2018. Cap. 02, p. 16.
4
A identidade de gênero refere-se ao gênero com o qual a pessoa se identifica. Ou seja, refere-se ao fato de a
pessoa se identificar como homem ou como mulher, relativamente ao binarismo de gêneros socialmente
predominante. Visa identificar, assim, as pessoas cisgêneras e transgêneras, estas últimas dividindo-se entre
travestis e transexuais (mulheres transexuais e homens trans). Cisgênera é a pessoa que se identifica com o gênero
que lhe foi atribuído ao nascer, em razão de seu genital. Transexuais são as pessoas que se identificam com o
gênero oposto àquele que lhes foi designado no nascimento em razão de seu genital, querendo ser por ele
reconhecidas (mulheres transexuais são as pessoas designadas como “meninos” no nascimento, mas que se
entendem como mulheres, e homens trans são as pessoas designadas como “meninas” no nascimento mas que se
entendem como homens. Travestis são as pessoas que possuem expressão de gênero feminina, mas não se
identificam propriamente nem com a feminilidade nem com a masculinidade: identificam-se como travestis e
querem ser respeitadas como tal. Ibidem, p. 21.
13

esses positivados na Constituição Cidadã5 como a expressão no ordenamento jurídico nacional


de um conjunto de princípios de direitos humanos consagrados em tratados internacionais, a
título exemplificativo, o Pacto de San José da Costa Rica, também conhecido como Convenção
Americana de Direitos Humanos6.
O referido termo não é uma inovação da pesquisa pois já vem sendo trabalhado por
pesquisadores como é o caso de Maria Berenice Dias, a partir da qual aborda-se o tema
liberdade sexual:

Indispensável que se reconheça que a sexualidade integra a própria condição humana.


Ninguém pode realizar-se como ser humano se não tiver assegurado o respeito ao
exercício da sua sexualidade, conceito que compreende tanto a liberdade sexual como
a liberdade à livre orientação sexual.
Visualizados os direitos de forma desdobrada em gerações, é imperioso reconhecer
que a sexualidade é um direito de primeira geração, do mesmo modo que a liberdade
e a igualdade. A liberdade compreende o direito à liberdade sexual, aliado ao direito
de tratamento igualitário, independente da tendência sexual. Trata-se, assim, de uma
liberdade individual, um direito do indivíduo, e, como todos os direitos do primeiro
grupo, é inalienável e imprescritível. É um direito natural, que acompanha o ser
humano desde o seu nascimento, pois decorre de sua própria natureza. 7

Atualmente, se uma pessoa for agredida ou morta no Brasil por motivação relacionada
à sua orientação sexual e/ou sua identidade de gênero, ou seja, pelo exercício de sua liberdade
sexual, o crime não será registrado como homofobia ou transfobia visto a ausência de
tipificação das condutas na legislação penal. Nesses casos, o registro se dará a título de lesão
corporal, artigo 129 do CP/19408, como foi o caso Baliera, quando o Estado enquadrar a
conduta como agressão física, ou como homicídio, artigo 121 do mesmo código, quando da
conduta resultar morte. Quando as agressões se limitarem à esfera verbal, poderá haver
capitulação nos crimes contra a honra, como a injúria, artigo 140 igualmente do Código Penal 9
Brasileiro, a título de exemplo. Há ainda a possibilidade de a conduta ser classificada como a
contravenção penal vias de fato, prevista no artigo 21 da Lei 3.688/1941 – Lei de Contravenções
Penais10. E ainda, além de não haver uma tipificação específica, geralmente a motivação homo-
transfóbica deixa de acompanhar a denúncia, o que também contribui para invisibilizar o

5
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
6
Idem, 1992.
7
DIAS, Maria Berenice. Liberdade sexual e direitos Humanos. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2007.
8
BRASIL. Decreto-Lei n. 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Rio de
Janeiro, 31 dez. 1940.
9
Ibidem.
10
Idem, 1941.
14

problema, além é claro, da ausência de identificação do agente e a consequente ausência de sua


responsabilização criminal.

1.2 Problema da Pesquisa e Hipótese de Trabalho

O questionamento central a ser respondido com a presente dissertação de Mestrado é: a


República Federativa do Brasil, por meio de seu órgão competente, qual seja, o Congresso
Nacional, encontra-se omissa quanto à correta punição daqueles que realizam discriminação
atentatória dos direitos e liberdades fundamentais quanto ao exercício da liberdade sexual da
população LGBTI?
Se a resposta for afirmativa, quais seriam os caminhos para saneamento da omissão?
Se a resposta for negativa, qual ônus argumentativo recairia sobre o autor(a) de uma tese
nesse sentido diante de tantos casos ainda sem solução de violência praticada contra a população
LGBTI?
A hipótese apresentada aqui é a de que sendo a liberdade sexual um direito fundamental,
os atos de violência praticados contra a população LGBTI em função do pertencimento dessas
pessoas a esse grupo específico buscam cercear o livre exercício de sua sexualidade, por meio
do extermínio direto, no caso dos assassinatos, por meio da repressão, nos casos de violência
não letal e, em ambos os casos, por meio do exemplo negativo, ou seja, uma imagem simbólica
de que essa população merece a violência que contra ela é praticada.
Em síntese, partindo da premissa de que a liberdade sexual é espécie do gênero
liberdade, artigo 5º caput da Constituição da República Federativa do Brasil11, ou seja, ela é um
direito fundamental da pessoa humana, bem como diante da igualmente constitucional previsão
de que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais,
norma inserta no inciso XLI do mesmo artigo 5° da CRFB/1988, verifica-se a ausência da
correta punição daqueles que cometem atos de violência contra pessoas LGBTI, uma omissão
legislativa do Congresso Nacional, conduta passível de ajuizamento de Mandado de Injunção,
artigo 5º, inciso LXXI da CRFB/88 c/c a Lei Federal 13.300/201612, que disciplina o processo
e o julgamento dos mandados de injunção individual e coletivo. A propositura de novos
mandados de injunção pode atuar de forma paralela à já existente Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão – ADO/2613, que versa sobre a omissão legislativa brasileira

11
Idem, 1988.
12
Idem, 2016.
13
Idem, 2018a.
15

em punir corretamente os crimes praticados contra a população LGBTI. Apesar de o objeto do


mandado de injunção ser o mesmo da ADO/2614, os requisitos para a propositura desse remédio
constitucional são mais flexíveis do que os de uma ADO. Desta feita, a população em geral, e
não apenas partidos políticos com representação no Congresso Nacional, Presidente da
República, etc., estariam legitimados a movimentar o mandamus.
Evidentemente, se um número muito grande de mandados de injunção for distribuído
com essa pauta específica, poderá ser aplicado o incidente de resolução de demandas
repetitivas, previsto no art.313, inciso IV, lei n. 13.105/201515. No entanto, ainda neste caso, há
forte ponto positivo porque um grande número de mandados de injunção protocolizados
demonstrará a gravidade da omissão legislativa e a necessidade de sanar com rapidez a questão
paradigmática. Ressalta-se que o fito deste posicionamento é somar forças à já citada
ADO/2616, bem como ao já distribuído Mandado de Injunção 4.733/STF17, os quais versam
sobre a mesma temática abordada no presente texto.

1.3 Objetivos e Metodologia

Como adiantado, a Dissertação objetiva demonstrar ser a liberdade sexual um direito


fundamental já positivado na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 em seu
artigo 5º, caput18. No entanto, igualmente por expressa previsão legal sediada no inciso XLI,
do mesmo artigo 5º constitucional – combinado com o inciso IV do art. 3o da CR/8819 –, busca
revelar que há omissão inconstitucional em criminalizar a homofobia, a transfobia e outras
formas de discriminação baseadas na orientação sexual e na identidade de gênero, reais ou
presumidas. A partir da análise do conflito dos princípios liberdade, legalidade, dignidade da
pessoa humana e vedação à proteção deficiente, sob a ótica do tratamento
jurídico/principiológico da integridade, tal qual proposto por Ronald Dworkin20, pretende-se
apresentar possíveis soluções para a inconstitucional omissão aqui retratada. O marco teórico
integridade no direito, especificamente sob o recorte de integridade na legislação permitirá
demonstrar a necessária manutenção da coerência no direito em geral e na legislação em

14
Ibidem.
15
Idem, 2015.
16
Idem, 2018a.
17
Idem, 2018b.
18
Idem, 1988.
19
Ibidem.
20
DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes.
1999.
16

especial. O referencial teórico demonstra que quando os juízes se debruçam sobre casos
concretos, proferindo decisão de mérito, devem manter coerência com os casos semelhantes
analisados anteriormente, bem como, diante de novas circunstâncias, devem proferir decisões
que se harmonizem com tudo aquilo que já foi decidido naquela corte. Do mesmo modo, a
integridade na legislação demonstra que o legislador, deverá manter coerência com o conjunto
normativo existente, tendo em mente a impossibilidade de excluir pessoas da devida proteção
estatal quando da edição de novas leis, sob pena dessas configurarem privilégios e não
direitos/deveres, como ocorre com a histórica omissão em assegurar direitos relacionados ao
exercício da liberdade sexual LGBTI.
O entendimento de ser a liberdade sexual um direito fundamental encontra respaldo em
sede normativa pois, do ponto de vista constitucional, o direito à vida, à segurança, à liberdade
em sentido amplo, são invioláveis, sendo vedada a submissão dos brasileiros e dos estrangeiros
residentes no país à tortura ou a qualquer tratamento desumano ou degradante, sendo assegurada
ainda a inviolabilidade do direito de consciência e de crença, nos termos do artigo 5º, caput e
incisos III, VI, X da Constituição da República de 198821. Além disso, a República Federativa
do Brasil objetiva fundamentalmente promover o bem de todos, erradicando todas as formas de
discriminação, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação, nos termos do artigo 3º, inciso IV, igualmente da Constituição de 1988 22. A
continuidade de crimes violentos praticados por discriminação em solo pátrio sem a correta
responsabilização dos autores(as) viola a ordem constitucional, demandando das autoridades
uma atuação mais efetiva no sentido de preveni-los e de reprimi-los uma vez que a lei deve
punir quaisquer discriminações atentatórias dos direitos e liberdades fundamentais, conforme
previsto no inciso XLI do artigo 5º da Constituição de 198823, incluída aí a liberdade sexual.
A jurisprudência nacional tem avançado muito nos últimos anos quanto ao
reconhecimento de direitos reparatórios aos menos privilegiados. Apenas a título
exemplificativo, menciona-se o melhor tratamento jurídico dado à questão da violência sofrida
pela mulher dentro de um contexto familiar/conjugal, em sede da ADC 19 e ADI 4.42424, bem

21
Ibidem.
22
Ibidem.
23
Ibidem.
24
A ADC 19 foi ajuizada pela Presidência da República e pedia que fosse confirmada a legalidade de alguns
dispositivos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Por unanimidade, os ministros acompanharam o voto do
relator e concluíram pela procedência do pedido a fim de declarar constitucionais os artigos 1º, 33 e 41 da Lei.Já
a ADI 4424 foi ajuizada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) questionando a constitucionalidade dos
artigos 12, inciso I; 16; e 41 da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006). Por maioria de votos, vencido o presidente,
ministro Cezar Peluso, a ação foi julgada procedente. Em resumo, decidiu-se que não se aplica a Lei nº 9.099/1995,
dos Juizados Especiais, aos crimes da Lei Maria da Penha e que nos crimes de lesão corporal praticados contra a
mulher no ambiente doméstico, mesmo de caráter leve, atua-se mediante ação penal pública incondicionada.
17

como pela constitucionalidade da chamada discriminação positiva em relação à reserva de


vagas para afrodescendentes nos concursos públicos federais, em sede do ADC 4125, julgados
que confirmaram a constitucionalidade da Lei Federal n. 11.340/200626 – Lei Maria da Penha
e da Lei Federal n. 12.990/201427 – Lei de Cotas Raciais para concursos públicos no âmbito
federal. A questão da violência sofrida pela mulher e a questão da dificuldade de acesso da
população negra a melhores cargos e salários envolvem temas centrais de justiça que são o
reconhecimento e a redistribuição. O reconhecimento dessas populações enquanto grupo e a
redistribuição de acesso a bens jurídicos escassos a esses e tantos outros grupos. Ainda dentro
desse contexto é importante mencionar o reconhecimento da união estável homoafetiva e da
possibilidade de sua conversão em casamento no julgamento da ADPF 132 e da ADI 4.277 28.
Esses julgados apontam para o estabelecimento de uma jurisprudência
reparatória/compensatória no Supremo Tribunal Federal, bem como pelo estabelecimento de
legislações que reequilibrem a desigualdade material experimentada pelas minorias. No
entanto, é importante verificar se há omissão legislativa quanto à criminalização da homofobia
e da transfobia, pois Resoluções da OEA vem conclamando os Estados-membro a atuarem de
forma mais efetiva no combate a esse tipo de violência. Além disso, os dados estatísticos que
serão apresentados nessa pesquisa apontam para um expressivo número de casos dessa
modalidade de violência no Brasil, os quais são acompanhados de uma impunidade latente.
Se confirmada uma atuação deficiente por parte dos poderes constituídos, cabe à
doutrina e ao setor acadêmico propor saídas para o problema. Tais fatos evidenciam a

DECISÕES STF ADC 19 e ADI 4424 (constitucionalidade da Lei Maria da Penha e dispensa da representação da
vítima). Compromisso e Atitude, [S.l.], 25 ago. 2014.
25
Plenário declara constitucionalidade da Lei de Cotas no serviço público federal. O Plenário do Supremo Tribunal
Federal (STF) concluiu na sessão desta quinta-feira (08/06/2017) o julgamento da Ação Declaratória de
Constitucionalidade (ADC) 41 e reconheceu a validade da Lei 12.990/2014, que reserva 20% das vagas oferecidas
em concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração
pública federal direta e indireta, no âmbito dos Três Poderes. A decisão foi unânime. SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. Plenário declara constitucionalidade da Lei de Cotas no serviço público federal. Brasília: STF, 2017.
26
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
27
Idem, 2014a.
28
Supremo reconhece união homoafetiva. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgarem a Ação
Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)
132, reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo. As ações foram ajuizadas na Corte,
respectivamente, pela Procuradoria-Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. O
julgamento começou na tarde de ontem (4), quando o relator das ações, ministro Ayres Britto, votou no sentido de
dar interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723 do Código
Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. Supremo reconhece união homoafetiva. Brasília: STF, 2011.
18

necessidade de construção de um arcabouço doutrinário que sirva de fundamento jurídico em


sentido amplo para demonstrar a urgência de positivação de norma que puna eficaz e
especificamente os crimes cometidos contra a liberdade sexual29 dos LGBTI, além de sublinhar
a importância da atuação do Judiciário como ferramenta relevante na conquista de direitos por
parte das intituladas minorias. Como adiantado o Brasil é recordista em atos de violência
praticados contra a população LGBTI e a resposta estatal não tem sido efetiva para efetuar a
responsabilização criminal dos agressores, permanecendo a maioria dos casos sem
responsabilização. Nas poucas vezes em que essa é alcançada, as penas são ínfimas, como se
verá especificamente no Capítulo 06, ao analisarmos o Caso Baliera. Independentemente de a
criação de norma específica reduzir ou não o número de casos dessa violência, o que se espera
ao menos é um maior respeito por parte do Estado no cumprimento de seu dever de assegurar
o direito à vida, à saúde e a integridade física para essa parcela da população, bem como espera-
se uma resposta mais positiva no sentido da responsabilização criminal dos agressores,
seguindo exemplos de iniciativas internacionais já exitosas como no caso da Lei Zamudio30
(Lei 20.609/2012) do Chile e da Lei Federal para Prevenir e Eliminar a Discriminação 31, do
México.
A Lei Zamudio (Lei Antidiscriminação) constitui-se em uma importante ferramenta de
direito comparado, ganhando relevância para a presente dissertação uma vez que a referida
norma entende como discriminação arbitrária toda distinção, exclusão ou restrição que careça

29
Rogger Raupp Rios ao descrever o voto do Relator na decisão do Supremo Tribunal Federal na ADI 4.277 e na
ADPF 132 assim menciona a liberdade sexual: Com efeito, o voto do relator é preciso e enfático na relação entre
o direito geral de liberdade e o direito fundamental de liberdade sexual. Mais ainda: ele aponta como diversos
desdobramentos da liberdade constitucional promovem a proteção do exercício igual deste direito a todos, sem
depender de orientação sexual. Nesse sentido, pode-se entender a concretização, colocada no voto do relator, da
liberdade sexual em outras esferas, tais como o direito à intimidade sexual e o direito à privacidade sexual. RIOS,
Roger Raupp. A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre pessoas do mesmo sexo. In: DESLANDES, Keila
(Coord.); BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes (Org); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos
Sexuais. Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018. Cap. 03, p. 143.
30
A Ley Zamudio (Lei 20.609- Lei Antidiscriminação) entrou em vigor em julho de 2012, no Chile. A referida
norma recebeu esse nome em homenagem ao jovem homossexual Daniel Zamudio, assassinado em função de sua
orientação sexual. Esta norma assinala um importante precedente para aquele país, bem como torna-se referência
em direito comparado, pois busca dar uma resposta estatal a toda forma de discriminação arbitrária, não apenas
por discriminação por orientação sexual, mas também, por preconceito quanto à identidade de gênero, deficiências
físicas, perseguição política/ideológica e outras formas de discriminação. ELLIES, Catalina. Ley Zamudio: el
43% de las denuncias ingresadas son por discapacidad. [S.l.]: Siga Chile, 2016.
31
A Lei Federal para Prevenir e Eliminar a Discriminação foi editada no ano de 2003, no México, tendo como
escopo inicial a proibição da discriminação laboral baseada na orientação sexual, com figura típica no Código
Penal daquele país para quem pratique a conduta, como agravante. No ano seguinte à sua publicação, a referida
norma foi modificada, a fim de proibir qualquer tipo de violência baseada na forma de vestir, falar, gesticular, ou
assumir publicamente sua orientação sexual. Dez anos mais tarde, essa norma volta a ser editada de forma a proibir
a incitação ao ódio e à violência, sendo que em seu artigo 1(3), inclui especificamente as preferências sexuais
como um dos motivos proibidos. LUCARIO, Sandra. Derechos de la comunidade LGBTTTIQ em México: Em
este punto se encuentran. [S.l.]: Huffpost, 2017.
19

de justificação razoável, efetuada por agentes estatais ou particulares e que cause privação,
perturbação ou ameaça ao exercício legítimo dos direitos fundamentais. A referida norma
recebeu esse nome em homenagem ao jovem chileno Daniel Zamudio, brutalmente assassinado
naquele país em função do fato de ser homossexual. É possível afirmar que a Lei Zamudio
inaugura naquele país uma nova área do direito, o direito antidiscriminatório32, nas palavras de
Leandro Muñoz Leon, aproximando aquela legislação daquilo que se expõe na presente
dissertação, ou seja, a necessidade de criação de norma que puna eficaz e especificamente a
discriminação violenta por orientação sexual e/ou identidade de gênero pois tal ato fere os
direitos fundamentais da população LGBTI, notadamente quanto ao exercício de sua liberdade
sexual. Ainda a título de direito comparado, é importante mencionar a Lei Federal para Prevenir
e Eliminar a Discriminação, do México, norma que visa erradicar a discriminação por meio da
responsabilização criminal daqueles que incitem o ódio e a violência contra minorias,
exatamente o mecanismo de atuação daqueles que praticam atos de violência contra a população
LGBTI no Brasil. Essa legislação mexicana também se constitui em importante ferramenta de
direito comparado para a presente dissertação por constituir-se em uma resposta estatal contra
a violência praticada contra as minorias naquele país.
Ao tratar de casos de violência cometidos contra a população LGBTI é importante
destacar que no ano de 2015 a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da
Organização dos Estados Americanos-OEA, publicou o Relatório: Violência contra a
população LGBTI33, documento que sedia diversos dados de violência cometidos contra
lésbicas, gays, homossexuais, bissexuais transgêneros, transexuais, travestis e intersexuais nos
Estados-parte da OEA, destacando ser o Brasil o recordista dessa modalidade de violência.34
Ao mesmo tempo, como será melhor descrito, tanto a OEA quanto a ONU têm publicado
estudos e resoluções, já há algum tempo, mostrando que a violência especificamente dirigida
contra a população LGBTI viola os Direitos Humanos e que os Estados-parte têm a obrigação
de criar mecanismos especiais que tentem evitar a violência e/ou investigá-la e sancioná-la
quando a mesma ocorrer, como já efetivamente realizado no México e no Chile, por meio das
mencionadas leis antidiscriminatórias.
Ainda ilustrando os alarmantes números da violência cometida contra a população
LGBTI, menciona-se a reportagem publicada no Jornal Correio Brasiliense em 17 de maio de

32
LEÓN, Fernando Muñoz. No a “Separados pero iguales” em Chile: um análisis del derecho antidiscriminación
chileno a partir de su primera sentencia. Revista Estudios constitucionales, Santiago, v. 11, n. 2, 2013.
33
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015.
34
Ibidem.
20

2017 (17 de maio é o Dia Internacional contra a Homofobia), segundo a qual até o início de
maio de 2017, 117 (cento e dezessete) pessoas LGBT haviam sido assassinadas no Brasil.35
Tais dados sugerem que a violência praticada por discriminação contra a orientação sexual e a
identidade de gênero é uma constante neste país.

Vive-se uma época de transição. Organizações Internacionais como ONU e OEA vêm
aprovando, seguidamente, Declarações e Resoluções- além de decisões do Comitê de
Direitos Humanos da ONU e de Cortes Internacionais, como a Corte Interamericana
de Direitos Humanos ou sua versão Europeia- instando os países a adotar medidas
contra a homotransfobia [...]. Em todas elas, ONU, OEA e União Europeia vêm
afirmando que os Estados-Parte não podem ser indiferentes à discriminação por
orientação sexual e identidade de gênero.36

Nesse contexto é oportuno mencionar que recentemente, em 28 de fevereiro de 2018,


foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania a proposta que criminaliza a
injúria por questões de gênero e orientação sexual – PSL 291/2015.37
Apesar de ser ainda necessária a aprovação pelo plenário do Congresso Nacional, o
referido projeto de lei é um importante avanço na pauta que busca assegurar o exercício dos
direitos fundamentais por parte da população LGBTI.
No entanto, pretendeu-se demonstrar com a presente pesquisa, que tais posturas são
ainda insuficientes para a repressão aos crimes de violência cometidos contra a população
LGBTI. A realidade mostra grande brutalidade dos executores dessa modalidade criminosa –
além de serem agressões movidas com uma motivação específica, relacionada à orientação
sexual/identidade de gênero da vítima –, como restará demonstrado da apresentação de dados
estatísticos colhidos do Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a
Violência contra pessoas LGBTI, já citado anteriormente, aqui especificamente em relação aos
dados referentes ao Brasil, bem como por meio do estudo do Caso Baliera, igualmente descrito.
A utilização dos direitos fundamentais como mecanismo anti-hegemônico para a
superação do paradigma instalado da homotransfobia, bem como de outras formas de violência
e discriminação contra minorias já vem sendo estudada por pesquisadores de destaque, como é
o caso de Adilson José Moreira:

35
VINHAL, Gabriela. A cada 25 horas, uma pessoa LGBT é assassinada no Brasil, aponta ONG. Correio
Braziliense, [S.l.], 17 mai. 2017.
36
BAHIA, Alexandre. Sobre a (in)capacidade do direito de lidar com a gramática da diversidade de gênero.
Revista Jurídica da Presidência, Brasília, v. 18, n. 116, p. 481-506, out. 2016/jan. 2017.
37
SENADO FEDERAL. CCJ aprova proposta que criminaliza injúria por questões de gênero e orientação sexual.
Brasília: Senado Federal, 2018.
21

Devemos então nos questionar se essas funções tradicionais atribuídas aos direitos
fundamentais permitem ou apontam para uma solução dos problemas enfrentados por
aqueles que são minorias dentro de minorias. Poderíamos dar uma resposta positiva a
essa pergunta à primeira vista porque essas teorias efetivamente oferecem elementos
importantes para promover uma maior integração dos membros desse grupo.
Entretanto, elas apresentam um problema particularmente significativo: elas tomam o
indivíduo ou o estado como referência para a análise dos direitos fundamentais. Elas
geralmente não consideram grupos sociais como instâncias protegidas pela igualdade
constitucional, o que pensamos ser um problema sério porque a marginalização social
atua sobre identidades atribuídas a pessoas em função do pertencimento delas à
determinadas minorias. Além disso, elas também parecem partir do pressuposto de
que agentes operam dentro de uma sociedade racionalmente organizada, fator que
desconsidera o papel das ideologias na reprodução das hierarquias sociais. Na
verdade, indivíduos estão expostos a desigualdades de status e a desigualdades
materiais porque pertencem a determinados segmentos; eles não podem escapar dos
estigmas que legitimam práticas discriminatórias em função dessa relação intersticial
entre o destino individual e o destino do grupo. Por esse motivo, argumentamos que
precisamos defender a posição que, junto com as funções mencionadas, os direitos
fundamentais também devem ser vistos como estratégias anti-hegemônicas. Essa
categoria de direitos precisa ser pensada como instrumentos que possibilitam a
desconstrução de hierarquias entre grupos sociais, uma vez que as desigualdades são
produto das relações assimétricas de poder entre grupos. 38

Nesse mesmo sentido, diversos artigos e livros vêm sendo publicados com essa
temática. A título exemplificativo mencionam-se os artigos “ADI N. 4.277: Constitucionalidade
e relevância da decisão sobre união homoafetiva: o STF como instituição contramajoritária no
reconhecimento de uma concepção plural de família”39 , de Paulo Iotti e Alexandre Bahia; o já
mencionado “Liberdade sexual e direitos Humanos”40, de Maria Berenice Dias e o artigo
“Direitos fundamentais como estratégias anti-hegemônicas: um estudo sobre a
multidimensionalidade de opressões”41, de Adilson José Moreira. Essas obras corroboram a
pesquisa por sublinharem o status de direito fundamental da orientação sexual e da identidade
de gênero. Nessa medida, os atos de violência física e ou simbólica praticados contra a
população LGBTI em função do pertencimento a esse grupo atraem a incidência do inciso XLI
do artigo 5º da CRFB/8842, o qual prevê punição normativa para quaisquer discriminação
violadora dos direitos e liberdades fundamentais, sanção essa ainda inexistente no ordenamento
pátrio.

38
MOREIRA, Adilson José. Direitos fundamentais como estratégias anti-hegemônicas: um estudo sobre a
multidimensionalidade de opressões. Revista Quaestio Iuris, Rio de Janeiro, v. 09, n. 03, p. 1559-1599, 2016b.
39
BAHIA, Alexandre; VECCHIATTI, Paulo R. Iotti. ADI N. 4.277 Constitucionalidade e relevância da decisão
sobre união homoafetiva: o STF como instituição contramajoritária no reconhecimento de uma concepção plural
de família. Revista Direito GV, v. 9, n. 1, p. 65-92, 2013.
40
DIAS, op. cit.
41
MOREIRA, op cit., 2016b.
42
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
22

Além disso, a própria Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos-OEA


vem editando Resoluções que conclamam os Estados-membros a punirem de forma mais efetiva
a homofobia, a transfobia e todas as formas de discriminação pautadas na orientação sexual
e/ou na identidade de gênero. Esse é o caso das resoluções 2.435/2008, 2.504/2009, 2.600/2010,
2.653/2011, 2.721/2012, 2.807/2013, todas da OEA43, resoluções essas que justificam ainda
mais a importância da presente pesquisa.
O Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a violência
cometida contra a população LGBTI/2015 demonstra que o Brasil é recordista nessa
modalidade criminosa, o que demanda maior atenção dos juristas nessa temática específica.
Para responder à pergunta central da pesquisa foram utilizadas duas estratégias
metodológicas centrais: Em primeiro lugar, procedeu-se com a apresentação e análise em
sentido amplo de dados estatísticos, especialmente aqueles publicados no já mencionado
Relatório Violência contra a população LGBTI-OEA/2015, fazendo-se aqui um recorte
específico sobre os dados estatísticos levantados pela Organização dos Estados Americanos
sobre o Brasil. Num segundo momento foi feita a análise do mencionado Caso Baliera, petição
apresentada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos contendo a denúncia do Estado
Brasileiro por ausência de tratamento jurídico adequado a um caso de homofobia já transitado
em julgado perante a justiça interna. A partir dessas duas análises, buscou-se verificar a
existência ou não da omissão objeto da pesquisa, bem como apresentou-se possíveis abordagens
jurídicas para a questão.
Conforme disposto no Relatório Violência contra a população LGBTI – OEA 2015, há
grande preocupação dos órgãos de defesa dos direitos humanos quanto aos casos de violência
cometidos contra a população LGBTI no Brasil, uma vez que o país é recordista nessa
modalidade delitual. A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão – ADO – n. 2644
encontra-se sob análise pelo Supremo Tribunal Federal. Ela busca criminalizar a homofobia, a
transfobia e todas as formas de discriminação oriundas da orientação sexual ou da identidade
de gênero, ou subsidiariamente, equiparar tais condutas discriminatórias ao crime de racismo,
exatamente como ferramenta protetiva e retributiva contra essas práticas. Caso confirmada a
omissão e editada norma (ou aplicada interpretação conforme, equiparando a conduta ao crime

43
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Declarações e Resoluções da Assembleia Geral. [S.l.]:
OEA, 2019b.
44
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018a.
23

de racismo) o Brasil terá dado importante avanço, aproximando-se do México e do Chile na


edição de normas que combatam a discriminação e os crimes de ódio.
Assim, a presente pesquisa revela sua importância ao somar-se a tantos outros trabalhos
que igualmente buscam a autodeterminação do direito de viver a liberdade sexual,
pleonasticamente de forma livre e a necessidade do correto sancionamento das condutas
discriminatórias praticadas contra homossexuais, bissexuais, transexuais e tantos outros grupos
marginalizados por puro desrespeito às naturais diferenças existentes entre as pessoas.
Nos próximos capítulos da Dissertação serão abordadas questões relevantes como a
integridade no direito e sua relação com a ADO-26 (Capítulos 2 e 3), o status de direito
fundamental da orientação sexual e da identidade de gênero (Capítulo 07), bem como uma
apresentação mais aprofundada do Caso Baliera (Capítulo 6) e de dados estatísticos reveladores
dos alarmantes casos de violência praticados contra a população LGBTI no Brasil, (Capítulo
4). Serão apresentados ainda o Mandado de Injunção e a Ação Direta de Inconstitucionalidade
por Omissão como ferramentas juridicamente viáveis para o saneamento dessa omissão
legislativa (Capítulo 5). Para tanto, serão mencionados alguns trabalhos como os de Maria
Berenice Dias, Paulo Iotti e Adilson José Moreira abordando a temática da homotransfobia
(Capítulo 07). Será construída ainda uma reflexão crítica genérica sobre recentes
criminalizações de condutas e seu impacto sobre as vítimas e agressores, os acertos e desacertos
da criminalização de condutas (Capítulo 08). Ademais, a questão do controle de
convencionalidade dos tratados internacionais de direitos humanos será trabalhada de forma a
demonstrar a omissão legislativa em criminalizar a homotransfobia tanto sob a ótica da
legislação interna quanto no que se refere às normas internacionais de proteção dos direitos
humanos, das quais o Brasil é signatário (Capítulo 09). Finalmente, as Conclusões e os
Resultados obtidos são enumerados no Capítulo 10.
24

2 O JUIZ HÉRCULES, O ROMANCE EM CADEIA, OS CASOS DIFÍCEIS E A


INTEGRIDADE NO DIREITO

2.1 Considerações Iniciais

Muitos pesquisadores já teceram considerações sobre o trabalho árduo de um juiz


Hércules ao decidir sobre os assim chamados casos difíceis, buscando dar a eles uma decisão
adequada e justa na sentença, a qual representa um capítulo de um longo e coerente romance
em cadeia. Essas figuras são, na verdade, metáforas criadas pelo filósofo Ronald Miles
Dworkin45 para sublinhar a necessidade da chamada integridade no direito dentro das decisões
judiciais, na produção legislativa e até certa medida, nas escolhas políticas do executivo. A
integridade no direito, principalmente sob a ótica da integridade legislativa, é o referencial
teórico dessa dissertação.
O presente capítulo objetiva demonstrar a necessidade de manutenção da coerência
dentro das decisões judiciais bem como do fazer legislativo, sublinhando a omissão legislativa
em criminalizar a homofobia, o que, no contexto da presente pesquisa, seria uma consequência
lógica da aplicação da integridade no direito. Para melhor explanar essa tese, serão retomadas
as metáforas mencionadas acima ilustrando sua intrínseca relação com a integridade no direito.
Essa escolha se justifica pelo fato de o autor propor com esse marco teórico uma
proposta de coerência no direito em geral e na legislação em especial. Os juízes, ao julgarem
casos concretos, deverão ser coerentes com os casos semelhantes analisados anteriormente, bem
como, diante de novas circunstâncias, deverão proferir decisões que se harmonizem com tudo
aquilo que já foi decidido naquela corte. Do mesmo modo, o legislador, dentro de seu mister,
deverá manter coerência com o arcabouço legislativo já produzido, tendo em mente a
impossibilidade de excluir pessoas da devida proteção estatal quando da edição de novas leis.
Do contrário, o direito que alcance somente parcela da população e não ela toda, se converteria
em privilégio.
O reconhecimento da possibilidade de casais homoafetivos constituírem uniões estáveis
e/ou convertê-las em matrimônio traz consigo uma série de outros deveres subjacentes por parte
do legislador e dos juízes. Sem adentrar o fato de que essa possibilidade se deu em função de
uma atuação jurisdicional e não legislativa, como seria esperado, pois essa discussão nesse
momento ultrapassa os objetivos desse capítulo, mas desde já ressaltando a incoerência de se

45
DWORKIN, op. cit, 1999.
25

reconhecer o direito de adotar, de contrair matrimônio, de testar, de herdar, o reconhecimento


dos direitos previdenciários, mas ao mesmo tempo, ser conivente com a violência física e moral
pela qual a população LGBTI passa atualmente, é postura reveladora da omissão legislativa em
criminalizar a homofobia, a transfobia e outras formas de discriminação pautadas na orientação
sexual ou na identidade de gênero, conduta que fere frontalmente a integridade no direito, como
um todo, notadamente sob sua ótica de integridade na legislação.

Temos dois princípios de integridade política: um princípio legislativo, que pede aos
legisladores que tentem tornar o conjunto de leis moralmente coerente, e um princípio
jurisdicional, que demanda que a lei, tanto quanto possível, seja vista como coerente
nesse sentido. Nosso maior interesse é o princípio jurisdicional, mas não ainda. Neste
capítulo, sustento que o princípio legislativo faz parte de nossa prática política a tal
ponto que nenhuma interpretação competente dessa prática pode ignorá-lo. Avaliamos
essa afirmação segundo as duas dimensões que agora nos são familiares. Perguntamos
se o pressuposto de que a integridade é um ideal político distinto se adapta a nossa
política, e, em segundo lugar, se honra nossa política. Se o princípio legislativo de
integridade é poderoso nessas duas dimensões, então o argumento em favor do
princípio jurisdicional e da concepção de direito que defende já terá começado bem. 46

Sem querer repisar o que é de amplo conhecimento dos juristas, mas sim como passagem
necessária de uma dissertação que se pretenda coerente, são apresentadas nesse capítulo, as
premissas básicas da integridade no direito.

2.2 Um Conceito de Integridade

Dentro de um Estado utópico seria desnecessário falar em integridade e coerência, seja


no fazer Legislativo, nas decisões Judiciais, bem como no desenvolvimento das políticas
públicas do Executivo. Dentro desse Estado idealizado, tudo seria bom e justo. No entanto, o
mundo real é sempre mais complexo e tortuoso, tornando-se necessária a manutenção da
integridade como um ideal independente, gerador da coerência das três esferas de atuação do
poder.
Em sua obra “O império do Direito” Dworkin47 apresenta a equidade (fairness) e a
justiça como ideais de uma atuação política, afirmando serem elas próximas, porém, distintas.
Assume ainda, ser a integridade um “terceiro e independente ideal principiológico”, vinculado
aos dois primeiros.

46
Ibidem, p. 213.
47
Ibidem, p. 202.
26

A maioria dos filósofos políticos – e, creio, a maioria das pessoas – adota o ponto de
vista intermediário de que a equidade e a justiça são, até certo ponto, independentes
uma da outra, de tal modo que as instituições imparciais às vezes tomam decisões
injustas, e as que não são parciais às vezes tomam decisões justas.
Se assim for, então na política corrente devemos às vezes escolher entre as duas
virtudes para escolher quais programas políticos apoiar. Poderíamos pensar que a
ascendência da maioria é o melhor procedimento viável para tomar decisões em
política mas sabemos que às vezes, quando não frequentemente, a maioria tomará
decisões injustas sobre os direitos individuais. Deveríamos perverter a ascendência da
maioria, conferindo uma força especial de voto a um grupo econômico, para além
daquilo que seus números justificariam, por temermos que a ascendência contínua da
maioria viesse a atribuir-lhe menos que a parte que por direito lhe corresponde?
Deveríamos aceitar restrições constitucionais ao poder democrático para impedir que
a maioria restrinja a liberdade de expressão, ou outras liberdades importantes? Essas
difíceis questões se colocam porque a equidade e a justiça às vezes entram em conflito.
Se acreditarmos que a integridade é um terceiro e independente ideal, pelo menos
quando as pessoas divergem quanto aos dois primeiros, então poderemos pensar que,
às vezes, a equidade e a justiça devem ser sacrificadas à integridade. 48

Esse ideal principiológico, cerne de uma comunidade que o autor define como
comunidade de princípios, promove a formação de um sociedade onde os laços que unem os
concidadãos fazem com que esses reconheçam cada pessoa como tão digna quanto qualquer
outra. Tal concepção é uma exigência da integridade.

As práticas políticas de uma comunidade poderiam ter por objetivo expressar um dos
três modelos gerais de associação política. Cada modelo descreve as atitudes que os
membros de uma comunidade política tomariam entre si, em plena consciência se
adotassem a concepção de comunidade que o modelo expressa. O primeiro supõe que
os membros de uma comunidade tratam sua associação apenas como um acidente de
fato da história e da geografia, entre outras coisas, e portanto, como uma sociedade
associativa que nada tem de verdadeira. As pessoas que pensam sua comunidade desse
modo não tratarão os outros, necessariamente, apenas como instrumentos para
atingirem seus próprios fins. [...] Mas existem outras possibilidades para uma
associação de fato. As pessoas poderiam considerar sua comunidade política como
meramente de fato não por egoísmo, mas por serem levadas por uma paixão pela
justiça do mundo como um todo, sem fazer distinção entre uma comunidade e as
outras. Um dirigente político que adote esse ponto de vista pensará em seus eleitores
como pessoas que pode ajudar por dispor de meios especiais- os de sua função- para
ajudá-los, meios que lamentavelmente não estão disponíveis para que ele possa ajudar
outros grupos. Em sua opinião, suas responsabilidades para com sua própria
comunidade não são especiais em nenhum outro sentido, não sendo portanto, mais
abrangentes em princípio. Assim, quando ele puder aperfeiçoar a justiça em termos
gerais, ao subordinar os interesses de seus próprios eleitores, vai achar correto fazê-
lo.49

Nesse ponto, Dworkin50 sublinha a possibilidade de formação de associações


comunitárias, originando nações que se unem, de certo modo egoístico, buscando atingir fins
individuais. Geralmente não são sociedades sazonais, mas sim perenes, porém ainda assim,

48
Ibidem, p. 214.
49
Ibidem, p. 251.
50
Ibidem, p. 252.
27

artificiais porque objetivam maximizar interesses individuais. Deu a esse modelo de sociedade
o nome de modelo de regras.

Chamo de modelo de regras o segundo modelo de comunidade. Pressupõe que os


membros de uma comunidade política aceitam o compromisso geral de obedecer a
regras estabelecidas de um certo modo que é específico dessa comunidade.
Imaginemos pessoas voltadas para seus próprios interesses, mas extremamente
honestas, que competem em um jogo, ou que constituem as partes de um acordo
comercial limitado e provisório. Elas obedecem às regras que aceitaram ou
negociaram como uma questão de obrigação, e não de mera estratégia, mas admitem
que o conteúdo dessas regras esgota sua obrigação. Não consideram que as regras
foram negociadas com base em um compromisso comum com princípios subjacentes
que são, eles próprios, uma fonte de novas obrigações; pensam, ao contrário, que essas
regras representam um acordo entre interesses ou pontos de vista antagônicos. Se as
regras são o produto de uma negociação especial, como no caso do contrato, cada
parte tentou ceder o menos possível para poder obter o máximo possível em retorno,
e seria portanto injusto, e não apenas equivocado, que cada uma delas afirmasse que
o acordo abrange tudo o que não foi explicitamente acordado.51

O modelo de regras, bem como o de comunidade como mera circunstância, seriam


modelos de sociedade em que cada um buscou inserir no contrato cláusulas (regras) que lhe
dessem o maior retorno possível, em detrimento das outras partes contratantes. Desse modo,
nenhuma cláusula que não tivesse sido expressamente escrita, poderia ser invocada.

Os dois primeiros modelos de comunidade - comunidade como uma questão de


circunstância e como uma questão de regras - concordam em rejeitar a única base na
qual poderíamos assentar nossa oposição aos acordos conciliatórios, que é a ideia de
integridade, de que a comunidade deve respeitar princípios necessários à justificativa
de uma parte do direito, bem como do todo.52

Percebe-se que o modelo de regras, apesar de poder ter esse intuito, não é o mais
interessante para constituir uma sociedade justa e duradoura. Na verdade, esse modelo tem um
grau de artificialidade tamanho que obriga as partes a reverem constantemente as “cláusulas do
contrato”, as regras do jogo, as leis dessa sociedade para minorar os conflitos inerentes e co-
originários dessas comunidades.
Por sua vez, o modelo de princípios propõe algo diferente:

O terceiro modelo de comunidade é o modelo do princípio. Concorda com o modelo


das regras que a comunidade política exige uma compreensão compartilhada, mas
assume um ponto de vista mais generoso e abrangente da natureza de tal compreensão.
Insiste em que as pessoas são membros de uma comunidade política genuína apenas
quando aceitam que seus destinos estão fortemente ligados da seguinte maneira:
aceitam que são governadas por princípios comuns, e não apenas por regras criadas
por um acordo político. Para tais pessoas, a política tem uma natureza diferente. É

51
Ibidem, p. 253.
52
Ibidem, p. 254.
28

uma arena de debates sobre quais princípios a comunidade deve adotar como sistema,
que concepção deve ter de justiça, equidade e justo processo legal e não a imagem
diferente, apropriada a outros modelos, na qual cada pessoa tenta fazer valer suas
convicções no mais vasto território de poder ou de regras possível. Os membros de
uma sociedade de princípio admitem que seus direitos e deveres políticos não se
esgotam nas decisões particulares tomadas por suas instituições políticas, mas
dependem, em termos mais gerais, do sistema de princípios que essas decisões
pressupõem e endossam. Assim, cada membro aceita que os outros têm direitos, e que
ele tem deveres que decorrem desse sistema, ainda que estes nunca tenham sido
formalmente identificados ou declarados. Também não presume que esses outros
direitos e deveres estejam condicionados à sua aprovação integral e sincera de tal
sistema; essas obrigações decorrem do fato histórico de sua comunidade ter adotado
esse sistema, que é então especial para ela, e não da presunção de que ele o teria
escolhido se a opção tivesse sido inteiramente sua. Em resumo, cada um aceita a
integridade política como um ideal político distinto, e trata a aceitação geral desse
ideal, mesmo entre pessoas que de outra forma estariam em desacordo sobre a moral
política, como um dos componentes da comunidade política.53

É possível perceber que o modelo de princípios não nega a existência de conflitos de


interesses. Esses são igualmente pressupostos como no modelo de regras. No entanto, as normas
que regem a sociedade de princípios são vistas para além de expressões egoístas de
maximização de vantagens, onde o argumento daquele que for mais influente prevalecerá. No
modelo de princípios as normas jurídicas, sejam elas expressas ou não, pressupõem a existência
de referências implícitas que obrigam o reconhecimento de novos direitos ao longo do tempo,
uma vez que todos os cidadãos e cidadãs são dignos de igual respeito e consideração.
Se isso é verdade, se a premissa de que todos e todas são dignos de igual respeito e
consideração, então uma sociedade constituída como uma comunidade de princípios deve
interessar-se pelas necessidades de cada e de todos os membros do grupo, sem marginalizar
determinado coletivo, sem esquivar-se do dever e da corresponsabilidade em corrigir eventuais
situações deficitárias. Isso não significa que uma comunidade de princípios será justa de plano.
Ela está sujeita a gerar injustiças como qualquer outra forma de associação, no entanto, está
melhor preparada para enxergar as diferenças não como um mal a ser combatido, mas sim como
uma característica inerente ao próprio ato associativo. Nas palavras do próprio Dworkin, é o
melhor modelo pois:

Uma associação de princípio não é, automaticamente, uma comunidade justa; sua


concepção de interesse equitativo pode ser falha ou violar direitos de seus cidadãos
ou de cidadãos de outras nações, do mesmo modo que em qualquer comunidade
associativa verdadeira, como vimos há pouco. Mas o modelo dos princípios satisfaz
as condições da verdadeira comunidade melhor do que qualquer outro modelo de
comunidade possível para pessoas que divergem sobre a justiça e a equidade a serem
adotadas. Está aqui, portanto, nossa defesa da integridade, a razão para nos
empenharmos em ver, até onde seja possível, seus princípios acerca da legislação e da

53
Ibidem, p. 254.
29

jurisdição nitidamente presentes em nossa vida política, Uma comunidade de


princípios aceita a integridade.54

De tudo o que foi dito, é possível afirmar que alguns autores equivocam-se ao atribuir a
Dworkin a criação de um sistema de direito de regras (no sentido de artigos expressos como
comandos definidos) e de princípios (no qual existiriam normas gerais e abstratas que
assumiriam sentido apenas diante do caso concreto). Uma leitura coerente de Dworkin,
notadamente como citado acima, revela que tanto as chamadas regras como os princípios são
normas jurídicas em sentido estrito. Na verdade, o que Dworkin55 chamada de sistema de regras
seria um sistema egoísta, onde são formuladas as “regras do jogo”, num agir estratégico em que
se maximiza os interesses individuais, onde os mais poderosos, por meio sua influência
política/econômica, positivariam as normas, as quais equivaleriam à cláusulas de um contrato.
Esse sistema de regras seria o contraponto daquilo que Dworkin 56 chama de sistema de
princípios, um sistema proposto como contraposição ao convencionalismo e ao pragmatismo,
como melhor esclarecido abaixo.
A seu turno, o sistema de princípios seria um modelo de estrutura política onde os
concidadãos se reconhecem mutuamente como tão dignos quanto quaisquer outros, pensamento
cerne de uma sociedade pluralista e que aceita a inclusão de novos sujeitos e de novos direitos,
a partir de uma releitura de suas normas jurídicas sob a ótica da integridade, pensamento
plenamente adequado à presente dissertação, a qual entende que o reconhecimento da omissão
legislativa em criminalizar a homofobia e a transfobia é uma consequência lógica do
reconhecimento jurídico das uniões e casamentos homoafetivos/transafetivos. Do contrário,
reconhecer-se-ia a natureza jurídica dessa união conjugal mas, ao mesmo tempo, o ordenamento
jurídico estaria sendo conivente com a violência sofrida pelos casais e pelas pessoas LGBTI, o
que claramente contraria a integridade.
Para Dworkin a integridade: “[...] é a chave para a melhor interpretação construtiva de
nossas práticas jurídicas distintas e, particularmente, do modo como nossos juízes decidem os
casos difíceis nos tribunais.”57
Nessa medida, é um dever do aplicador do direito corrigir quaisquer ingerências de
conflitos ideológicos, artefatos de incoerência, os quais são fatalmente gerados dentro de um
ordenamento jurídico complexo. O dissenso já é esperado, o que não pode ser permitido é que

54
Ibidem, p. 256.
55
Ibidem, p. 256.
56
Ibidem, p. 257.
57
Ibidem, p. 260.
30

um argumento majoritário perpetue privilégios em detrimento de direitos fundamentais alheios,


como o é a liberdade sexual, assim entendida como o direito fundamental ao livre exercício da
orientação sexual e da identidade de gênero.
A presente dissertação parte da premissa de que a ausência de criminalização da
homofobia, da transfobia, bem como de outras formas de discriminação baseadas na orientação
sexual ou na identidade de gênero são exatamente um exemplo desses artefatos de incoerência,
um defeito do ordenamento jurídico brasileiro, passível de ser saneado por meio da integridade.
Como já esclarecido na introdução, a Constituição prevê punição para aqueles que cometem
atos atentatórios às garantias e liberdades individuais. A liberdade sexual é uma liberdade
individual, um direito fundamental. Nesse sentido ela deve ser inserida como um direito de
personalidade sob o aspecto da identidade, sendo ela mesma parte daquilo que a pessoa é, e por
isso, dela indissociável. A ausência de criminalização da homofobia e da transfobia é, nessa
medida, um defeito do ordenamento jurídico que precisa ser corrigido, sendo esse o cerne de
nossa hipótese de trabalho.
Essa integridade deve ser buscada tanto na legislação quanto na deliberação social, nos
exatos termos postos por Dworkin:

Estabeleci uma distinção entre duas formas de integridade ao arrolar dois princípios:
a integridade na legislação e a integridade na deliberação judicial. A primeira restringe
aquilo que nossos legisladores e outros partícipes de criação do direito podem fazer
corretamente ao expandir ou alterar nossas normas públicas. A segunda requer que,
até onde seja possível, nossos juízes tratem nosso atual sistema de normas públicas
como se este expressasse e respeitasse um conjunto coerente de princípios e, com esse
fim, que interpretem essas normas de modo a descobrir normas implícitas entre e sob
as normas explícitas. Para nós, a integridade é uma virtude ao lado da justiça, da
equidade e do devido processo legal, mas isso não significa que, em alguma das duas
formas assinaladas, a integridade seja necessariamente, ou sempre, superior às outras
virtudes.58

A decisão mais coerente sob a ótica da integridade não é meramente decidir casos
semelhantes de forma semelhante, mas sim buscar para os casos, principalmente os difíceis, a
resposta mais adequada, mesmo que isso signifique afastar-se das decisões anteriores,
privilegiando a fidelidade aos princípios concebidos como fundamentos desse ordenamento
jurídico.

Os casos difíceis se apresentam, para qualquer juiz, quando sua análise preliminar não
fizer prevalecer uma entre duas ou mais interpretações de uma lei ou de um julgado.
Ele então deve fazer uma escolha entre as interpretações aceitáveis, perguntando-se

58
Ibidem, p. 261.
31

qual delas apresenta em sua melhor luz, do ponto de vista da moral política, a estrutura
das instituições e decisões da comunidade - suas normas públicas como um todo.59

Da mesma forma, a integridade no legislativo significa que esse poder deve se empenhar
em proteger a todos e todas sem exceção, de modo que as normas públicas representem um
sistema coerente de justiça e equidade.
Se no passado houve reconhecimento de uma proteção mais adequada a outras minorias,
tal entendimento deve ser aplicado também a população LGBTI. A omissão legislativa tratada
na presente dissertação salienta a incoerência praticada pelo congresso pátrio quando a
violência sofrida pela população LGBTI é comparada com outras formas de violência, como a
sofrida pelas mulheres ou pela população negra, ou ainda pelos idosos, a título de exemplo, o
que afasta a Câmara e o Senado brasileiros da necessária justiça e equidade que devem permear
a produção das leis.

2.3 A Integridade no Direito, uma visão de conjunto

O direito como integridade é uma oposição ao convencionalismo, com o olhar voltado


para o passado, bem como ao pragmatismo jurídico, voltado para o futuro.

O convencionalismo se ajusta às pessoas que tentam promover sua própria concepção


de justiça e equidade, através da negociação e do acordo, sujeitas apenas à estipulação
superior, geral e única de que, uma vez realizado o acordo da maneira apropriada, as
regras que formam seu conteúdo serão respeitadas até que sejam alteradas por um
novo acordo. Uma filosofia convencionalista associada a um modelo de comunidade
baseado nas regras aceitaria os acordos internos de nossas leis conciliatórias como
acordos obtidos por meio de negociações que devem ser respeitadas tanto quanto
qualquer outro contrato.60

Se por um lado o convencionalismo tem seu olhar voltado para o passado, por sua vez
o pragmatismo peca por analisar o futuro:

O pragmático adota uma atitude cética com relação ao pressuposto que acreditamos
estar personificado no conceito de direito: nega que as decisões políticas do passado,
por si sós, ofereçam qualquer justificativa para o uso ou não do poder coercitivo do
Estado. Ele encontra a justificativa necessária à coerção na justiça, na eficiência ou
em alguma outra virtude contemporânea da própria decisão coercitiva, como e quando
ela é tomada por juízes, e acrescenta que a coerência com qualquer decisão legislativa
ou judicial anterior não contribui, em princípio, para a justiça ou a virtude de qualquer
decisão atual. Se os juízes se deixarem guiar por esse conselho, acredita ele, então a
menos que cometam grandes erros, a coerção que impõem tornará o futuro da

59
Ibidem, p. 306.
60
Ibidem, p. 306.
32

comunidade mais promissor, liberado da mão morta do passado e do fetiche da


coerência pela coerência.61

Essas negações trazidas pela integridade como um princípio jurídico vão dar ao direito
uma conotação de opiniões interpretativas que levam em conta tanto o aspecto retrospectivo
quanto o prospectivo, afirmando ser a prática jurídica contemporânea

[...] uma política em processo de desenvolvimento. Assim, o direito como integridade


rejeita, por considerar inútil, a questão de se os juízes descobrem ou inventam o
direito; sugere que só entendemos o raciocínio jurídico tendo em vista que os juízes
fazem as duas coisas e nenhuma delas. 62

Nessa medida, em uma pesquisa que analisa ações jurídicas ainda em tramitação, as
quais independentemente da decisão tomada, terão repercussões futuras, é importante indagar
o argumento de que os tipos penais atualmente existentes são suficientes para a correta
responsabilização criminal dos que praticam violência contra a população LGBTI, o que será
feito no Capítulo 06.

2.4 Integridade e Interpretação

Para o direito como integridade: “[...] as proposições jurídicas são verdadeiras se


constam, ou se derivam, dos princípios de justiça, equidade e devido processo legal que
oferecem a melhor interpretação construtiva da prática jurídica da comunidade.”63.
O processo de interpretação construtiva proposto por Dworkin64 deve guardar coerência
intrínseca com tudo o que já foi produzido dentro daquele determinado ordenamento jurídico.
Nessa medida, o exercício interpretativo das leis e de elaboração da sentença exercido
pelos magistrados podem ser comparados a um processo de elaboração de um longo romance.
O juiz, ao analisar o caso concreto sob a lógica da integridade atua como um escritor que é, ao
mesmo tempo autor, intérprete e crítico daquilo que já foi escrito e daquilo que está escrevendo.

Os juízes, porém, são igualmente autores e críticos. Um juiz que decide o caso
McLoughlin ou Brown introduz acréscimos na tradição que interpreta; os futuros
juízes deparam com uma nova tradição que inclui o que foi feito por aquele. É claro
que a crítica literária contribui com as tradições artísticas em que trabalham os autores;
a natureza e a importância dessa contribuição configuram, em si mesmas, problemas
de teoria crítica. Mas a contribuição dos juízes é mais direta, e a distinção entre autor

61
Ibidem, p. 306.
62
Ibidem, p. 271.
63
Ibidem, p. 272.
64
Ibidem, p. 259.
33

e intérprete é mais uma questão de diferentes aspectos do mesmo processo. Portanto,


podemos encontrar uma comparação ainda mais fértil entre literatura e direito ao
criarmos um gênero literário artificial que podemos chamar de "romance em cadeia". 65

Esse escritor crítico deve buscar manter coerência e adequação em sua atividade.
Coerência com aquilo que já foi escrito, adequação com aquilo que está sendo elaborado.

Em tal projeto, um grupo de romancistas escreve um romance em série; cada


romancista da cadeia interpreta os capítulos que recebeu para escrever um novo
capítulo, que é então acrescentado ao que recebe o romancista seguinte, e assim por
diante. Cada um deve escrever seu capítulo de modo a criar da melhor maneira
possível o romance em elaboração, e a complexidade dessa tarefa reproduz a
complexidade de decidir um caso difícil de direito como integridade. O projeto
literário fictício é fantástico, mas não irreconhecível. Na verdade, alguns romances
foram escritos dessa maneira, ainda que com uma finalidade espúria, e certos jogos
de salão para os fins de semana chuvosos nas casas de campo inglesas têm estrutura
semelhante. As séries de televisão repetem por décadas os mesmos personagens e um
mínimo de relação entre personagens e enredo, ainda que sejam escritas por diferentes
grupos de autores e, inclusive, em semanas diferentes. Em nosso exemplo, contudo,
espera-se que os romancistas levem mais a sério suas responsabilidades de
continuidade; devem criar em conjunto, até onde for possível, um só romance
unificado que seja da melhor qualidade possível. 66

Cada autor desse romance em cadeia deve assumir o compromisso de elaboração de um


texto a partir do material que recebeu, buscando criar o melhor romance possível. Além disso,
deve fazê-lo de forma a permitir que os autores que lhe sucederão tenham condições de fazer o
mesmo.
O juiz-autor desse romance em cadeia, para ser eficiente em sua função criativa, deverá
encontrar o meio termo adequado entre a total liberdade criativa e a coerção mecânica aos textos
precedentes. Não poderá escrever algo novo, porém, incoerente com aquilo que lá foi escrito
antes, nem tampouco está fadado a simplesmente reproduzir os capítulos pretéritos. Não, esse
juiz pode inovar, mas inovar com coerência e elegância. Seu estilo estético produtivo vai
garantir se o capítulo escrito será uma parte de um belo mosaico, ou um membro repugnante de
um “Frankenstein.”
Como adiantado, dentro dessa dissertação que se propõe a analisar a Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão – ADO-26, a metáfora do romance em cadeia e da
necessária integridade no direito, tanto sob a ótica da decisão que será tomada na referida ação,
quanto sob a ótica da omissão legislativa, ganham uma importância ímpar.
A presente pesquisa é legítima, trazendo contribuição para a ciência jurídica por
sublinhar a existência de pessoas excluídas da correta proteção estatal. Salienta a existência de

65
Ibidem, p. 275.
66
Ibidem, p. 276.
34

grupos que sofrem o mais variado tipo de violência, sem que o Estado Juiz se pronuncie, ou ao
menos, se pronuncie coerentemente com o próprio ordenamento que legitima o ato
jurisdicional. Do mesmo modo, quando o legislador ignora os comandos implícitos na
legislação já publicada, mantendo-se conivente com os atos de violência, falha por omissão.
Tais defeitos podem ser corrigidos por meio da integridade no direito.
Ao analisar circunstâncias distintas, porém, análogas no passado, o Supremo Tribunal
Federal já se decidiu pela constitucionalidade do melhor tratamento jurídico quanto à violência
sofrida pela mulher dentro de um contexto familiar/conjugal, em sede da ADC 19 e ADI
4.42467, bem como pela constitucionalidade da chamada discriminação positiva em relação à
reserva de vagas para afrodescendentes nos concursos públicos federais, em sede do ADC
4168, julgados que confirmaram a constitucionalidade da Lei Federal 11.340/200669 – Lei Maria
da Penha e da Lei Federal 12.990/201470 – Lei de Cotas Raciais para concursos públicos no
âmbito federal.
Nesses dois exemplos o STF reconheceu a constitucionalidade de leis que claramente
objetivam dar tratamento adequado a situações específicas carecedoras desse tratamento,
saneando erros históricos quanto ao tratamento dado à violência sofrida pela mulher no âmbito
familiar e pela ausência igualmente histórica de negros nos cargos de destaque no serviço
público.

67
A ADC 19 foi ajuizada pela Presidência da República e pedia que fosse confirmada a legalidade de alguns
dispositivos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Por unanimidade, os ministros acompanharam o voto do
relator e concluíram pela procedência do pedido a fim de declarar constitucionais os artigos 1º, 33 e 41 da Lei. Já
a ADI 4424 foi ajuizada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) questionando a constitucionalidade dos
artigos 12, inciso I; 16; e 41 da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006). Por maioria de votos, vencido o presidente,
ministro Cezar Peluso, a ação foi julgada procedente. Em resumo, decidiu-se que não se aplica a Lei nº 9.099/1995,
dos Juizados Especiais, aos crimes da Lei Maria da Penha e que nos crimes de lesão corporal praticados contra a
mulher no ambiente doméstico, mesmo de caráter leve, atua-se mediante ação penal pública incondicionada.
DECISÕES STF ADC 19 e ADI 4424 (constitucionalidade da Lei Maria da Penha e dispensa da representação da
vítima). Compromisso e Atitude, [S.l.], 25 ago. 2014.
68
Plenário declara constitucionalidade da Lei de Cotas no serviço público federal. O Plenário do Supremo Tribunal
Federal (STF) concluiu na sessão desta quinta-feira (08/06/2017) o julgamento da Ação Declaratória de
Constitucionalidade (ADC) 41 e reconheceu a validade da Lei 12.990/2014, que reserva 20% das vagas oferecidas
em concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração
pública federal direta e indireta, no âmbito dos Três Poderes. A decisão foi unânime. SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. Plenário declara constitucionalidade da Lei de Cotas no serviço público federal. Brasília: STF, 2017.
69
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
70
Idem, 2014a.
35

Nesse contexto é possível introduzir aqui dois institutos importantes do Direito


Constitucional norte americano que podem, em certa medida, ser aplicados às situações tratadas
nessa dissertação. São os princípios da antisubordinação e da anticlassificação.
Em poucas palavras podemos definir o princípio jurídico da antisubordinação,
introduzido por Owen Fiss71, segundo Siegel, e trabalhado por vários outros pesquisadores,
como sendo a legitimidade da elaboração de leis que visem erradicar o histórico status
desprivilegiado de certos grupos dentro da sociedade. Tal princípio é um contraponto ao da
anticlassificação, o qual prevê a necessidade de manutenção de normas gerais e abstratas
aplicáveis igualmente a todos, o que no contexto norte-americano, acabou contraditoriamente
por perpetuar situações desiguais entre os cidadãos por ignorar a marcante estratificação social
existente entre eles:

Com a publicação dos Grupos e da Cláusula de Proteção Igual, Owen Fiss inaugurou
a tradição da antissubordinação dentro do ramo de estudos legais da segunda
reconstrução. Teóricos da antissubordinação afirmam que garantias de cidadania
igualitária não podem ser realizadas sob condições de estratificação social
generalizada e argumentam que a lei deve reformar as instituições e práticas que
reforçam o status social secundário de grupos oprimidos historicamente. Conforme
elaborado por Fiss e subsequente proposto por outros pesquisadores, incluindo
Catharine MacKinnon, Charles Lawrence, Derrick Bell, Laurence Tribe e Kenneth
Karst, este princípio é variavelmente chamado de princípio da anti-subordinação,
princípio da anti-subjugação, princípio de igualdade de cidadania ou o princípio da
anticasta.72

Como adiantado, por sua vez, o princípio da anticlassificação parte da impossibilidade


de se distinguir os cidadãos com base em suas características específicas por meio da lei:

A história padrão sobre o desenvolvimento da jurisprudência da antidiscriminação


desde a década de 1970 argumenta que as visões de Fiss e outros Teóricos da
antisubordinação foram rejeitadas pelo Supremo Tribunal dos EUA, o qual adotou
uma teoria da igualdade contrária e inconsistente. Esta abordagem é às vezes chamada
de princípio da anticlassificação ou antidiferenciação. Grosso modo, este princípio
sustenta que o governo não pode classificar as pessoas de forma aberta ou sub-reptícia,
com base em categoria proibida: por exemplo, sua raça. 73

A verdade é que a aplicação cega do princípio da anticlassificação acaba por perpetuar


a estratificação social nos Estados Unidos. A título de exemplo, menciona-se o fato de uma
empresa selecionar funcionários com base em sua fluência de leitura. Numa primeira análise,

71
SIEGEL, Reva B; BALKIN, Jack M. The American Civil Rights Tradition: anticlassification or
antisubordination. Heinonline, Miami, n. 9, p. 9, 2003-2004.
72
Ibidem, p. 9.
73
Ibidem, p. 10.
36

tal mecanismo de seleção não estaria relacionado à raça. No entanto, tal seleção acaba por
excluir quatro vezes mais pessoas negras do que brancas, o que sugere ser tal mecanismo
seletivo um engodo para excluir pessoas negras do quadro de pessoal, principalmente quando
a fluência na leitura não é um pré-requisito direto para o exercício de determinado ofício.
Transpondo tal raciocínio para o Brasil, podemos sugerir que a recente jurisprudência
do STF tem caminhado para uma aplicação do princípio da antisubordinação, ou seja, a lei e/ou
sua interpretação podem ser usadas como ferramenta para superar situações de subordinação
consolidadas na sociedade. Como já mencionado, temos a constatação da constitucionalidade
da Lei de Cotas74 e da Lei Maria da Penha75. No entanto, os exemplos não param aí.
Um outro exemplo oportuno de mencionar é o do reconhecimento da união estável
homoafetiva e da possibilidade de sua conversão em casamento no julgamento da ADPF 132 e
da ADI 4277.76
Em todos esses casos o STF fez a leitura da Constituição da República como um projeto
aberto de inclusão de novos direitos e novos sujeitos. A ausência de tratamento adequado em
favor desses indivíduos pertencentes a minorias significava a manutenção de privilégios.
Privilégios inconstitucionais dos maridos violentos em relação às esposas, das pessoas brancas
mais abastadas e com acesso a melhores escolas, em detrimento da população negra, e dos
casais heteroafetivos que gozavam do reconhecimento jurídico de seus relacionamentos,
deixando às margens desse reconhecimento as relações homoafetivas.
É possível afirmar que a violência física e psicológica sofrida pela população LGBTI
também é uma dessas circunstâncias que requerem um tratamento jurídico mais adequado por
parte do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, sendo incoerente e, portanto,
ferindo a integridade, uma leitura que afirme ser constitucional a omissão legislativa em
criminalizar a homofobia, a transfobia e as formas de discriminação pautadas no preconceito
contra a orientação sexual e na identidade de gênero.

74
BRASIL. Lei nº 12.990, de 09 de junho de 2014. Reserva aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas
nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração
pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista
controladas pela União. Diário Oficial da União, Brasília, 10 jun. 2014a.
75
Idem, 2006.
76
Supremo reconhece união homoafetiva.Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgarem a Ação
Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)
132, reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo. As ações foram ajuizadas na Corte,
respectivamente, pela Procuradoria-Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. O
julgamento começou na tarde de ontem (4), quando o relator das ações, ministro Ayres Britto, votou no sentido de
dar interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723 do Código
Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. Supremo reconhece união homoafetiva. Brasília: STF, 2011.
37

A vigilância social sobre a sexualidade tem consequências significativas para


membros de minorias sexuais. A reprodução da heterossexualidade como um sistema
de controle social fundamenta uma série de práticas culturais que exercem grande
influência sobre a saúde mental de homens e mulheres homossexuais ao longo de toda
a vida. Essa afirmação é corroborada por inúmeros estudos que atestam a maior
propensão de membros desse grupo ao desenvolvimento de problemas psicológicos. 77

Ignorar os prejuízos de saúde pública que a homotransfobia acarreta é aplicar


incorretamente os recursos públicos, pois tal comportamento coaduna com o adoecimento de
grande parcela da população, a qual cresce sendo discriminada em virtude de sua orientação
sexual e ao mesmo tempo, em virtude da carência de tratamentos clínicos mais específicos, os
quais deveriam levar em consideração a orientação sexual e a identidade de gênero como
pressupostos para a constituição de um estado de saúde integral.
Independentemente de quais forem as decisões jurisdicionais na ADO 2678 e no
Mandado de Injunção 4.73379, a presente dissertação salienta sua importância ao manifestar a
omissão estatal em cuidar de forma igualitária de todos os seus cidadãos, ignorando o
adoecimento físico e psicológico de corpos que (re)existem.
Além de tudo isso, reconhecer as uniões estáveis e maritais homoafetivas como
entidades conjugais, mas permitir que violências físicas e simbólicas continuem sendo
praticadas contra esses casais – e/ou indivíduos isoladamente –, em função de sua orientação
sexual ou identidade de gênero, é de uma incoerência eloquente. Não se duvida que esse
reconhecimento foi um passo importante, mas é necessário, é juridicamente adequado fazer
mais. Esses casais e/ou pessoas individuais continuam sendo vítimas de uma forma de violência
específica a qual casais heterossexuais e pessoas heterossexuais não sofrem. Quando o direito
se silencia nessa situação, ele se torna conivente com ela, evidenciando sua omissão.
Um juiz que se proponha a julgar circunstâncias complexas como essas, sob a ótica da
integridade, deve ter uma capacidade interpretativa muito desenvolvida. Dworkin chamou esse
tipo de magistrado de juiz Hércules: “Devo tentar expor essa complexa estrutura da
interpretação jurídica, e para tanto utilizarei um juiz imaginário, de capacidade e paciência
sobre-humanas, que aceita o direito como integridade. Vamos chamá-lo de Hércules.”80

77
MOREIRA, Adilson José. Cidadania Sexual: estratégia para ações inclusivas. Belo Horizonte. Arraes Editores,
2017a, p. 226.
78
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018a.
79
Idem, 2018b.
80
DWORKIN, op cit., 2011, p. 287.
38

Dworkin vai ilustrar o trabalho desenvolvido por esse juiz Hércules dando exemplos.
Um clássico é o caso inglês da Sra. McLoughlin:

O marido e os quatro filhos da sra. McLoughlin foram feridos num acidente de carro
na Inglaterra, mais ou menos às quatro da tarde do dia 19 de outubro de 1973. Ela
estava em casa quando um vizinho lhe trouxe a notícia do acidente, por volta de seis
horas, e dirigiu-se imediatamente ao hospital, onde foi informada de que a filha havia
morrido e o marido e os outros filhos estavam em estado grave. Teve um colapso
nervoso e mais tarde processou o motorista cuja negligência provocara o acidente,
bem como outras pessoas de alguma forma envolvidas, exigindo uma indenização por
danos morais. Seu advogado chamou a atenção para várias decisões anteriores dos
tribunais ingleses concedendo indenização às pessoas que haviam sofrido danos
morais ao verem um parente próximo gravemente ferido. Em todos esses casos,
porém, o pleiteante tinha estado na cena do acidente ou ali chegara logo em seguida.
Em um caso de 1972, por exemplo, uma mulher foi ressarcida - recebeu indenização
- por danos morais; ela vira o cadáver do marido imediatamente após o acidente que
lhe tirara a vida". Em 1967, um homem sem parentesco algum com as vítimas de um
acidente de trem trabalhou durante horas tentando resgatá-las; a experiência o levou
a um colapso nervoso, e ele conseguiu obter a indenização que pediu. O advogado da
sra. McLoughlin fundamentou-se nesses casos como precedentes, decisões que
haviam incorporado ao direito a norma jurídica segundo a qual pessoas na situação
dela têm direito a ser indenizadas.81

Outras duas jurisprudências estadunidenses ilustrativas trazidas por Dworkin e


oportunas de serem mencionadas são o caso Riggs v. Palmer e o caso Buick Motors Company
v. McPherson:

O primeiro é um caso famoso, julgado há muito tempo, chamado Riggs versus Palmer.
E o caso de um jovem cujo avô havia feito um testamento deixando-lhe a sua
propriedade, e que, ao descobrir que este decidira se casar novamente e fazer um novo
testamento, assassinou-o para evitar que isso ocorresse. Surgiu então a seguinte
questão: o jovem ainda teria direito de herdar a propriedade do homem que ele havia
matado? Não havia nenhuma discordância quanto ao entendimento dos fatos em si.
Todos concordavam sobre o que dizia o Direito das Sucessões. O Direito não dizia
nada sobre assassinos herdeiros, ou seja, ele não dizia que, se o herdeiro matasse o
testador, ele seria desqualificado para receber a herança. No entanto, os advogados
discordavam sobre a solução correta para o caso, e os juízes também: dois juízes
disseram que o Direito imporia a conclusão de que assassinos não podem herdar. E
um juiz, o discordante, disse: "Não, está errado. O Direito nos leva a afirmar que o
assassino pode herdar a propriedade".82

E o caso da Buick Motors Company versus McPherson. Houve uma época em que a
maioria dos juristas americanos achava que, se alguém comprasse um automóvel com
defeito, poderia processar apenas a revendedora onde ele tivesse comprado o carro.
Não se poderia processar o fabricante. Eles assim acreditavam porque não havia um
contrato entre o comprador e o fabricante. No caso da Buick, a parte queixosa, lesada
por ter comprado um automóvel defeituoso, decidiu que deveria processar o
fabricante, a Companhia Buick Motors, que pertence à General Motors, mesmo indo
contra a opinião geral de que ela perderia. Mais uma vez os juízes discordavam entre

81
Ibidem, p. 30.
82
CARVALHO NETO, Menelick de. Direito, filosofia e interpretação: Hans Kelsen e Ronald Dworkin. Cadernos
da Escola do Legislativo, Belo Horizonte, v. 3, n. 5, p. 45, jan./jun. 1997.
39

si. A maioria, com base em um famoso voto da lavra do Ministro Cardozo da Suprema
Corte, dizia que, com efeito, "se analisarmos cuidadosamente as decisões anteriores
da maneira correta, perceberemos, então, que, apesar da opinião geral dos advogados,
na verdade, o Direito permite que alguém que tenha comprado um automóvel
defeituoso de uma concessionária possa processar diretamente o fabricante". Havia
desacordo de opiniões. O ministro discordante disse: "não, se analisarmos atentamente
os casos anteriores, veremos o oposto. O Direito proíbe que o comprador instaure um
processo para acionar diretamente o fabricante. O comprador pode processar apenas
a concessionária da qual ele tenha comprado o carro".83

Nesses três casos, considerados difíceis, o juiz Hércules deverá desenvolver uma
sistemática de raciocínio jurídico que lhe permita proferir a decisão mais justa. Deverá reunir
as características de cada caso. Deverá fazer a leitura dos casos pretéritos análogos. Saberá que
a jurisprudência consolidada até então afirmava generalidades sobre danos morais, porém, não
trazia algo tão específico quanto aquilo buscado pela senhora McLouglin. Verificará que a
jurisprudência estadunidense assegurava o direito sucessório, porém, era silente quanto ao
herdeiro assassino. Constatará igualmente que os julgados até então elaborados permitiam que
fosse buscado o ressarcimento quanto à vícios do produto somente em face da empresa que o
vendeu defeituoso, diante do contrato existente entre comprador e vendedor, mas não permitia
o mesmo acesso ao fabricante do produto defeituoso. Esse juiz Hércules deverá sistematizar os
princípios derivados de cada um desses casos precedentes análogos e verificar se deles deriva
algum ou alguns princípios no sentido Dworkiano, evidentemente, que permitam sua aplicação
a esses “novos” casos e sua consequente solução. Além disso ao proceder dessa forma, o
magistrado deverá ter a consciência de que outros autores lhe sucederão. O trabalho é enorme,
realmente hercúleo, mas objetiva assegurar a integridade.
Aceitar o ideal interpretativo da integridade significa assumir um trabalho árduo,
interligado à equidade e à justiça.

Os juízes que aceitam o ideal interpretativo da integridade decidem casos difíceis


tentando encontrar, em algum conjunto coerente de princípios sobre os direitos e
deveres das pessoas, a melhor interpretação da estrutura política e da doutrina jurídica
de sua comunidade. Tentam fazer o melhor possível essa estrutura e esse repositório
complexos. Do ponto de vista analítico, é útil distinguir os diferentes aspectos ou
dimensões de qualquer teoria funcional. Isto incluirá convicções sobre adequação e
justificação. As convicções sobre a adequação vão estabelecer a exigência de um
limiar aproximado a que a interpretação de alguma parte do direito deve atender para
tornar-se aceitável.84

O juiz que se debruce sobre os chamados casos difíceis e que desempenhe o trabalho
hercúleo para decidi-los deverá buscar a decisão mais adequada para aquele caso concreto. No

83
Ibidem, p. 45.
84
DWORKIN, op. cit., 1999, p. 305.
40

entanto, não pode se limitar a isso, pois pareceria estar escolhendo a mais adequada somente
sob seu ponto de vista, algo que se confundiria com a mera discricionariedade. O trabalho feito
sob a ótica da integridade estará completo apenas se esse juiz bem justificar sua decisão. Há um
ônus argumentativo, um dever jurídico de justificação daquela decisão, a partir de uma
fundamentação clara na legislação e na jurisprudência correlata àquela matéria.
Um Estado que se diga de Direito deverá, portanto, manter a integridade tanto no fazer
legislativo, quanto na aplicação das leis produzidas.

A integridade pode, no entanto, ser divida em dois princípios: um princípio de


integridade na legislação (legislative principle), que pede aos que criam o Direito por
legislação que o mantenham coerente quanto aos princípios; e um princípio de
integridade na aplicação judicial do Direito (adjudicative principle), que pede aos
responsáveis por decidir o que é o Direito, que o vejam e façam-no cumprir como
sendo coerente nesse sentido.85

Mas além disso, não se vive apenas sob a égide do Estado de Direito, e sim de um Estado
Democrático de Direito, com todos os ônus que essa forma de exercício de Estado imprime. A
resposta do que é o Direito, dentro de um Estado Democrático demandará do julgador uma
reflexão muito aprofundada sobre os casos, e um fazer interpretativo foi do comum para
encontrar, senão a única, ao menos a decisão mais correta.

Dworkin retoma a questão da interpretação precisamente ali onde Kelsen termina. A


sua afirmação de uma única decisão correta para o caso assenta-se na unicidade e
irrepetibilidade que marca cada caso, a ressaltar a complexidade de um ordenamento
de princípios e regras, que se apresenta por inteiro e de forma concorrente no que se
refere aos seus princípios, para regê-lo, vez que o mesmo deve ser reconstruído de
todas as perspectivas possíveis no sentido de se alcançar a norma adequada, a única
capaz de produzir justiça naquele caso específico. Essas reflexões de Dworkin
marcam o emergir de um novo paradigma que vem, enquanto tal, de forma cada vez
mais difundida e internalizada se afirmando através da constituição de um novo senso
comum social, de um novo pano-de-fundo para a comunicação social, no qual são
gestadas pretensões e expectativas muito mais complexas, profundas e rigorosas no
que respeita ao Direito, seja como ordenamento ou esfera própria da ação
comunicativa, do reconhecimento e do entendimento mútuo dos cidadãos para o
estabelecimento e a implementação da normativa que deve reger sua vida em comum,
seja como simples âmbito específico de conhecimento e exercício profissionais. É
esse novo paradigma que tem sido denominado pela Doutrina "Estado Democrático
de Direito" e que, no Brasil, foi inclusive constitucionalmente consagrado. 86

E é nesse ponto que nos encontramos. Assim como nos casos mencionados por
Dworkin, como o da Sra. McLoughilin e sua busca pelos danos morais, de Riggs v. Palmer, e

85
PEDRON, Flávio Quinaud. A Proposta de Ronald Dworkin para uma interpretação construtiva do direito.
Revista CEJ, Brasília, Ano XIII, n. 47, p. 132, out./dez. 2009.
86
CARVALHO NETO, op. cit., p. 29.
41

a verificação da possibilidade ou não de um herdeiro assassino receber a herança, caso esse que
pode ser comparado com a jurisprudência brasileira de Suzane Richthofen87, bem como no caso
Buick Motors Company v. McPherson, e o direito do Sr. McPherson processar o fabricante e
não o vendedor do veículo, apresentaremos nos próximos capítulos o julgamento do Mandado
de Injunção 4.73388 e da ADO-2689, os quais abordam exatamente a omissão legislativa em
criminalizar a homofobia e a transfobia como um exemplo de “casos difíceis” que demandarão
um trabalho hercúleo de juízes que se debrucem sobre a questão, elaborando uma decisão
adequada, coerente e técnica quanto a tudo o que já foi decidido em casos análogos, mantendo
a necessária integridade do direito e reestabelecendo a integridade da legislação.
Em síntese, uma comunidade que aceite a integridade como princípio tem seu
ordenamento jurídico organizado em uma rede, em uma teia normativa. As normas federais
ocupam as intersecções mais centrais da teia. As Estaduais, as intersecções intermediárias e as
Municipais a posição mais à margem dessa teia. Nesse contexto, a Constituição e os Tratados
Internacionais de Direitos Humanos formalmente ratificados, não teriam apenas uma posição
central. Eles são na verdade, o próprio fio formador da teia, ou seja, nenhuma norma pode ser
escrita em desconformidade com o fio condutor que a constitui. Um ordenamento organizado
dessa forma respeita a integridade.

2.5 Considerações derradeiras, porém, necessárias

Talvez o leitor não tenha dado a devida atenção às linhas acima quanto a dois pontos
importantes da integridade no direito. O primeiro é que, ao tratar do tema, Dworkin o faz
olhando para sociedades de tradição consuetudinária, ganhando relevância os precedentes,
notadamente a jurisprudência estadunidense e a inglesa, salientando sua linha argumentativa no
papel atribuído ao judiciário90.
Mesmo assim, aquilo que o referido autor escreveu pode ser aplicado ao Brasil. No
contexto do presente esforço reflexivo de uma dissertação, a importância da integridade no
direito sob o recorte da integridade nas decisões judiciais salta aos olhos.

87
Suzane von Richthofen foi condenada por planejar a morte dos pais com ajuda do namorado e do irmão dele.
Os três estão presos. Em 31 de outubro de 2002, os pais de Suzane von Richthofen foram mortos a pauladas
enquanto dormiam. Os assassinatos foram planejados por Suzane e executados pelo então namorado da jovem,
Daniel Cravinhos de Paula e Silva, e pelo irmão dele, Cristian Cravinhos de Paula e Silva. Os três foram
condenados pelo crime. SERPONE, Fernando. Caso Suzane von Richthofen. [S.l.]: IG, 2011.
88
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Injunção nº 4.733. Relator: Edson Fachin. Diário de Justiça
Eletrônico, Brasília, 16 nov. 2018b.
89
Idem, 2018a.
90
DWORKIN, op. cit., 1999, p. 252.
42

Os Ministros do STF, ao julgarem a ADO- 2691 e o Mandado de Injunção 4.73392


deverão proferir uma decisão que leve em conta a jurisprudência já consolidada em casos
análogos pretéritos. Numa análise mais superficial, talvez alguém afirmasse que a pauta da
população negra no caso da lei de cotas no serviço público não tem paralelo com pauta da
população LGBTI em geral e da omissão em criminalizar a homotransfobia em especial. Tal
visão é equivocada, porém. Existe uma aproximação entre cidadania e identidade, como muito
bem sublinha Adilson Moreira:

Isso torna necessário o reconhecimento das relações entre cidadania e identidade, pois
o pleno exercício dos direitos fundamentais requer a conformação pessoal a papeis
socialmente determinados. Minorias sexuais argumentam que o exercício da liberdade
individual pode ser restringido ou impedido em função do caráter normativo da
heterossexualidade. Esse fato traz consequências jurídicas significativas, sendo que
uma delas é o estabelecimento da diversidade de sexos como requisito para o acesso
a direitos matrimoniais. Além disso, a presunção de superioridade moral da
heterossexualidade legitima discursos que pregam a inferioridade moral de
homossexuais, motivo da discriminação sistemática e de comportamentos violentos
contra esses indivíduos.93

Como adiantado na Introdução, dentro da lógica preconceituosa da opressão existem


pessoas vistas como o tipo padrão, o tipo ideal de pessoa. Aquelas que se afastam desse perfil
são excluídas, são desqualificadas como indivíduos em igualdade de direitos.
O que se está reafirmando aqui é a existência de mecanismos estruturais de exclusão.
Uma atuação sistêmica criada por um imaginário coletivo de superioridade de um humano
padrão, o qual recebe os privilégios da sociedade, em detrimento de todos(as) aqueles(as) que
não se enquadram naquele padrão imaginado. Tal padronização é violadora do direito à
identidade, do direito a ser quem é, independentemente de expectativas que a sociedade
impunha às pessoas. Além do mais, a padronização vai contra a antissubordinação, pois
privilegia o estabelecimento de normas e hermenêuticas em sentido amplo que ignoram a
hierarquia de privilégios dos quais o ser humano padrão usufrui em detrimento dos dissidentes.
Tal circunstância se agrava na medida que as pessoas podem ser duplamente,
triplamente, excluídas, numa sobreposição de desigualdades, criando uma interseccionalidade
de opressões.
Isso porque os mecanismos de opressão por meio dos quais as minorias são excluídas
do acesso aos direitos que têm a maioria atuam de formas diferentes. Esses mecanismos se

91
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018a.
92
Idem, 2018b.
93
MOREIRA, op. cit., 2016b.
43

sobrepõem, fazendo surgir minorias dentro de minorias, havendo certos grupos ainda mais
excluídos do que outros:

Entretanto, a complexidade social traz um outro problema significativo para a


interpretação e para a eficácia dos direitos fundamentais. Não podemos perder de vista
o fato de que a homofobia e o racismo não atuam independentemente, nem operam
apenas nas relações entre grupos majoritários e minoritários. As pessoas possuem uma
variedade de identidades, podendo pertencer a minorias sexuais e também a minorias
raciais. O problema da exclusão social então se torna mais grave quando um indivíduo
ocupa o lugar de uma minoria dentro de uma minoria. Ele é vítima não apenas de
mecanismos excludentes decorrentes da ação de grupos majoritários, mas também de
discriminações ou omissões que ocorrem dentro do próprio grupo minoritário ao qual
ele pertence.94

Como dito acima, há uma proximidade entre as opressões sofridas pela população
LGBTI e as minorias raciais. Ambos os grupos se afastam do ideal do homem moderno-
europeu-ocidental: heterossexual e branco; por isso sofrem de modo muito semelhante os
mecanismos que mantêm a supremacia de um padrão identitário sobre outro
dissidente/dissonante.95 As últimas decisões jurisdicionais que abordam temáticas como essa
são convergentes, por propiciarem o exercício de direitos fundamentais por parte dessas
populações excluídas:

A decisão do Supremo Tribunal Federal que declarou a legalidade dos programas de


ações afirmativas e aquela que reconheceu casais homossexuais como entidades
familiares abordam diretamente os conflitos gerados pela construção de identidades
normativas. Os dois arestos reconheceram que ser branco e ser heterossexual são
requisitos para o acesso a oportunidades profissionais e acadêmicas. Como forma de
combate a essa situação, eles apontam a importância do estado na afirmação da
autonomia individual garantir liberdade e igualdade significa possibilitar que as
pessoas possam viver dignamente sem a necessidade de conformação social; a
igualdade dentro de um estado democrático de direito requer o reconhecimento da
relevância social do pluralismo. Aquele órgão julgador estabeleceu então uma clara
ligação entre igualdade e identidade.96

Tal fato nos permite refutar o argumento de que uma agenda única e genérica pode
sanear problemas específicos sofridos pela população marginalizada, sendo inclusive

94
MOREIRA, op. cit., 2017a, p. 246.
95
Existe, portanto a chamada multidimensionalidade das opressões, a qual será melhor tratada no Capítulo 7 dessa
Dissertação. A multidimensionalidade das opressões é uma análise das opressões sociais que nos permite contrapor
o argumento de que uma política social única (no campo do Executivo) ou uma Lei geral única (no campo do
legislativo) permitiria a emancipação de grupos excluídos. A título de exemplo menciona-se o argumento de que
o artigo 121 do Código Penal por si só daria conta de responsabilizar criminalmente um(a) homotransfóbico(a).
Esse argumento ignora o fato dessa pessoa estar praticando um crime não apenas e diretamente contra uma outra
pessoa específica. A prática desse tipo específico de delito age contra um conjunto de identidades, qual seja, a
LGBTI, de um modo muito semelhante que um(a) racista age contra uma pessoa negra, uma pessoa negra qualquer,
independentemente de quem seja.
96
MOREIRA, op. cit., 2017a, p. 247.
44

equivocada a visão de que a discriminação se dá apenas em função de fatores econômicos, como


assinala Adilson Moreira:

Este capítulo pretende problematizar a defesa de agendas e políticas universais como


o melhor caminho para a garantia do exercício de direitos fundamentais. Muitos
acadêmicos e juristas afirmam que medidas dessa natureza são a melhor solução para
a integração de minorias, uma posição baseada na noção de que desigualdades são
produto de apenas uma forma de discriminação, notoriamente as disparidades de
classe social (...). A análise do caso de minorias dentro de minorias demonstra que
essa perspectiva não permite a emancipação de todos os grupos, porque processo de
marginalização decorrem do cruzamento de diferentes formas de opressão. (...)A
análise da relação entre cidadania racial e cidadania sexual adquire grande relevância
nesse contexto por mostrar como a autonomia pessoal só se torna possível na medida
em que indivíduos possuem uma existência integrada, o que exige o acesso a
diferentes categorias de direitos fundamentais. Este trabalho utiliza a teoria da
multidimensionalidade de opressões para demonstrar que a superação das hierarquias
sociais depende de políticas públicas que revele as relações entre a interdependência
dos direitos fundamentais e a compreensão do nosso sistema constitucional como uma
instância que procura promover a igualdade de status entre grupos. 97

Uma pessoa negra no Brasil é cerceada de seus direitos fundamentais não apenas por
ser negra, mas por ser negra e por ser pobre, ou ser vista/tratada como pobre. Ou ainda por ser
negra, pobre e moradora de comunidade periférica. Ou ainda, por ser negra, pobre e mulher, ou
negra, pobre e homossexual. São muitas as possibilidades de combinação entre as formas de
preconceito.

A experiência de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo com a violência


tem uma natureza muito diversificada. Esta diversidade é resultado de diferentes
circunstâncias e características pessoais, e especialmente, da existência de
determinados fatores que deixam as pessoas LGBTI mais vulneráveis à violência, ou
que agravam as consequências dessa violência. Por exemplo, uma mulher trans
afrodescendente que seja deslocada internamente para uma zona rural e viva na
extrema pobreza experimentará a violência de uma maneira diferente a um homem
gay, branco, com alto poder aquisitivo e que viva numa metrópole.98

Além disso, a dificuldade de acesso ao ensino e ao trabalho sofridos pela população


negra não é marcantemente distinta da sofrida pela população LGBTI. Em ambos os casos, as
pessoas pertencentes a essas minorias restam alijadas do acesso a trabalhos de maior prestígio
e remuneração, podendo-se afirmar o mesmo sobre as mulheres, nesse sentido menciona-se a
publicação do Grupo Diverso da UFMG:

A partir dessa perspectiva, as feministas negras demonstraram que o feminismo


tradicional desconsidera a humanidade das mulheres negras, ocultando inclusive as

97
Ibidem, p. 248.
98
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015, p. 169.
45

opressões que lhe são impostas pelas mulheres brancas. Além de expostas ao racismo
institucionalizado pelo Estado (por exemplo, através do genocídio da população
negra), à maior vulnerabilidade à violência sexual e doméstica, aos padrões de beleza
racistas, a maiores índices de aborto e negligência médica, as mulheres negras ainda
se encontram em posições assimétricas em relação a mulheres brancas – como no caso
do mercado de trabalho, em que mulheres negras e pobres são maioria nos serviços
domésticos, ainda desvalorizados e sub-remunerados. 99

Bem como o recém publicado Homotransfobia e Direitos Sexuais- Debates e Embates


Contemporâneos:

A igualdade de gêneros constitui pauta histórica do movimento feminista na luta


contra a opressão da mulher pelo homem ao longo dos tempos. Superando noções
essencialistas que pregavam a inferioridade das mulheres relativamente aos homens
por supostas “razões da natureza”, os estudos feministas, ao longo do século XX,
demonstraram que tal discriminação da mulher é puramente cultural, ou seja, decorre
de uma ideologia machista e hierárquico-patriarcal.
O machismo hierárquico-patriarcal teve grande repercussão no âmbito das famílias-
tomando o exemplo brasileiro, o Código Cibil de 1916 (BRASIL 1916), em sua
redação original, enunciava o marido como chefe da sociedade conjugal (art. 233),
fazendo com que a mulher casada se tornasse relativamente incapaz para os atos da
vida civil(art. 6º, II), necessitando de autorização do marido para poder exercer
profissão (art. 242, VII). Só com o Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/1962-
BRASIL, 1962), a absurda necessidade de autorização do marido para o exercício de
profissões e a igualmente opressora diminuição da capacidade civil da mulher
deixaram de existir, alterando-se o Código Civil, ainda para torná-la, além de
companheira e consorte, “colaboradora dos encargos da família, cumprindo-lhe velar
pela direção material e moral desta” (art. 240-NR), devendo, portanto, as decisões
serem tomadas em conjunto pelo casal.100

Se no passado o judiciário já se pronunciou sobre questões tais como essa no sentido de


reconhecer a constitucionalidade de normas que asseguram o exercício de direitos de matriz
constitucional em favor da população negra, como por exemplo, afirmando a
constitucionalidade da Lei de Cotas para o serviço público federal- Lei nº12.990/2014101,
deverá fazer o mesmo em favor da população LGBTI, com relação à omissão inconstitucional
em criminalizar a homotransfobia. Isso porque o preconceito sofrido por uma pessoa negra
porém heterossexual é diferente do preconceito sofrido por uma pessoa negra e homossexual,
apenas para exemplificar. Ainda, ao se recuperar a decisão dada na ADPF. n. 132102, percebe-

99
apud RAMOS, Marcelo Maciel; NICOLI, Pedro Augusto Gravatá; BRENER, Paula Rocha Gouvêa (Orgs.).
Gênero, Sexualidade e Direito: Uma Introdução Cidade: Initia Via, 2016, p. 27.
100
IOTTI, Paulo Vecchiatti (Apresentação). DESLANDES, Keila (Coord.). BAHIA, Alexandre M. F. de Moraes
(Org.) e RAUPP RIOS, Roger. Homotransfobia e Direitos Sexuais. Debates e embates contemporâneos. Belo
Horizonte: Editora Autêntica, 2018, p. 15-16.
101
BRASIL. Lei nº 12.990, de 09 de junho de 2014. Reserva aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas
nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração
pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista
controladas pela União. Diário Oficial da União, Brasília, 10 jun. 2014a.
102
Idem, 2014b.
46

se que, para ser coerente e íntegro com seu passado institucional, o STF não pode quedar-se
inerte quanto à violência experimentada por essa população, como já adiantado acima: tanto
em um caso como em outro a falta de norma infraconstitucional coloca a população LGBTI em
posição de risco: risco de que suas uniões não gerem direitos face a terceiros, risco de que sua
existência em sociedade seja recebida com violência. O reconhecimento dessa última omissão
inconstitucional é um requisito básico da integridade sob seu recorte jurisdicional.
Se assim já o era, mesmo dentro de uma tradição jurídica de civil law, como a brasileira,
mesmo antes da edição do CPC/2015103, ainda mais passou a ser um dever jurídico após a
edição do referido código. Isso porque seu artigo 926 faz menção expressa ao dever de os
tribunais uniformizarem sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente104, tema que
será melhor abordado no próximo Capítulo.
Ainda a título de esclarecimento, é necessário destacar um segundo ponto.
O dever de tratar da omissão quanto à correta responsabilização criminal contra os crimes
por motivação LGBTIfóbica não cabe apenas ao judiciário, mas principalmente ao legislativo.
Primeiro, porque obviamente cabe a esse poder legislar e, verificada a omissão, deve ser dado
prazo constitucionalmente razoável para edição da norma. (constitucionalmente razoável, leia-
se, prazo necessário, suficiente, porém não infinito, como previsto no artigo 8º, inciso I da Lei
13.300/2016105, a qual disciplina o processo e julgamento dos MI individuais e coletivos).
Superado o prazo dado e, mantida a omissão, apresenta-se, no caso, como alternativa a
determinação de aplicação da lei do racismo, orientando as autoridades policiais e judiciárias a
aplicarem a referida norma aos crimes cometidos por razões homotransfóbicas, como foi feito
por analogia no caso de greve de servidores públicos, MI 712, e.g106.
Ocorre que dentro de um Estado Democrático de Direito o legislador não é e não pode
ser totalmente livre para legislar. A legislação nacional e internacional dos direitos humanos e
a Constituição107 em especial detêm uma série de princípios que devem ser respeitados.
Quando ocorrem conflitos de normas, há inclusive uma série de mecanismos para
orientar o aplicador do direito a como resolver esse conflito de natureza aparente, mantendo a
unidade do ordenamento. Porém, as normas para a solução do conflito de leis e o próprio
princípio democrático não podem ser interpretados como uma carta branca para o legislador
editar a norma que quiser ou uma carta branca para o mesmo legislador deixar de legislar. A

103
Idem, 2015.
104
Ibidem.
105
Idem, 2016.
106
Idem, 2013.
107
Idem, 1988.
47

integridade na legislação revela que uma sociedade organizada como comunidade de princípios
deve estar aberta à edição de normas que assegurem o exercício de direitos constitucionais como
a liberdade sexual, por exemplo. Nesse ponto, além de ser um dever do judiciário se pronunciar
quanto à questão uma vez provocado é igualmente um dever do legislativo editar normas
assecuratórias do exercício de liberdades e garantias constitucionais. Tal dever está muito claro
no artigo 5º, inciso XLI da Constituição108, como já adiantado no capítulo introdutório. O
respeito que as normas infraconstitucionais devem guardar para com a Constituição, bem como
a existência de um dever de aplicação imediata dos direitos constitucionais fazem com que,
para que seja mantida a integridade do ordenamento jurídico o legislador tenha o dever de editar
leis que assegurem o exercício de direitos, sob pena de estar sendo conivente com a criação de
privilégios entre concidadãos. Esse legislador deve deixar de editar normas inconstitucionais,
ganhando relevância as Comissões de Constituição e Justiça (CCJ) das casas legislativas, bem
como tem o dever de editar normas que assegurem o direito de exercício de garantias
fundamentais, sob pena de estar incorrendo em uma omissão inconstitucional, como sugere a
análise da ADO-26109, esforço reflexivo objeto do Capítulo 5.
Desse modo, a integridade na legislação é a um só tempo um limite para o legislador,
claramente dizendo o que ele não deve legislar, bem como um impulso a esse mesmo legislador
indicando o que ele não deve deixar de legislar. A integridade na legislação é uma determinação
para que os elaboradores da lei exerçam seu ofício mantendo a coerência do ordenamento.

108
Ibidem.
109
Idem, 2018a.
48

3 UM POUCO MAIS SOBRE DWORKIN

Como adiantado, o marco teórico da presente pesquisa é a Integridade no Direito da


forma apresentada por Ronald Dworkin, filósofo do direito estadunidense, hoje já falecido. É
possível afirmar que as contribuições desse pesquisador não ficaram circunscritas ao Direito,
derramando-se também sobre a Ciência Política, Sociologia, Economia e Filosofia, dentre
outras áreas do saber.
Especificamente quanto à temática aqui retratada é importante registrar que o referencial
teórico Integridade do Direito é o resultado de uma vida de produção acadêmica de Dworkin,
objetivando a produção coerente de decisões judiciais.
Dworkin foi um jurista que se debruçou sobre a teoria do direito. Nesse contexto, merece
evidência o livro Levando os Direitos a Sério110, publicado no Brasil no ano de 2002, no qual
o autor aborda, dentre outras coisas, o papel das regras e dos princípios jurídicos:

Quero lançar um ataque geral contra o positivismo, e usarei a versão de H.L.A. Hart
como alvo, quando um alvo específico se fizer necessário. Minha estratégia será
organizada em torno do fato de que, quando os juristas raciocinam ou debatem a
respeito de direitos e obrigações jurídicas, particularmente naqueles casos difíceis, nos
quais nossos problemas com esses conceitos parecem mais agudos, eles recorrem a
padrões que não funcionam como regras, mas operam diferentemente, como
princípios, políticas e outros tipos de padrões. Argumentarei que o positivismo é um
modelo de e para um sistema de regras e que sua noção central de um único teste
fundamental para o direito nos força a ignorar os papéis importantes desempenhados
pelos padrões que não são regras.111

Na presente pesquisa utiliza-se a já consagrada visão do caráter normativo dos


princípios, os quais estão postos no ordenamento jurídico dotados de força cogente e não
somente com função orientadora:

Outros autores, como Bobbio e Del Vecchio, apostaram na ideia que os princípios são
normas jurídicas, mas de conteúdos mais gerais e abstratos que as regras.
Talvez os estudos mais decisivos para que os princípios passassem a ser
compreendidos como dotados de dignidade normativa foram aqueles levados a cabo
por Dworkin e por Alexy.
[...]
Dworkin promove, então, uma importante distinção entre os diversos standards
normativos. Diferentemente da tradição do positivismo jurídico, o autor norte-
americano negará a afirmação de que o Direito é constituído por um conjunto
exclusivo de regras; em vez disso, identificará a existência de princípios e de diretrizes
políticas.
Infelizmente, os leitores de Dworkin no Brasil acabaram se preocupando com a
separação entre regras e princípios e perderam de vista – quase ignorando – a segunda

110
DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
111
Ibidem, p. 35.
49

distinção. Esses leitores, ainda, acabaram por ler mal a teoria e buscaram desenvolver
critérios morfológicos de separação, ao passo que Dworkin deixa bem claro que a
distinção é lógico-argumentativa.
Retomando, então, a relação entre princípios e diretrizes políticas, pode-se afirmar
que um princípio prescreve um direito e, por isso, contém uma exigência de justiça,
equanimidade ou devido processo legal; ao passo que uma diretriz política
estabelece um objetivo ou uma meta a serem alcançados, que, geralmente, consiste
na melhoria de algum aspecto econômico, político ou social da comunidade, buscando
promover ou assegurar uma situação econômica, política ou social considerada
desejável. Dworkin atribui o status de trunfos aos princípios, que, em uma discussão,
devem se sobrepor a argumentos pautados em diretrizes políticas, excluindo a
possibilidade de os juízes tomarem decisões embasadas nessas diretrizes.112

3.1 Integridade e direito penal mínimo

A questão da criminalização ou não das discriminações baseadas na orientação sexual e


na identidade de gênero podem ser aceitas como um exemplo de “casos difíceis”, mencionados
por Dworkin113. Mesmo para aqueles que defendem o direito penal mínimo, como é o caso de
Ferrajoli114 e Alessandro Baratta115 – para os quais é desnecessária a criação de leis específicas,
devendo-se trabalhar com o conjunto normativo já existente –, permanece a dificuldade de se
aplicar um determinado tipo penal e estabelecer sua dosimetria no caso concreto em relação aos
atos de violência cometidos contra a população LGBTI. Nesse sentido, mesmo para os
defensores do direito penal mínimo, essas discriminações continuam sendo um “caso difícil”.
O Direito Criminal, por cuidar de uma das matérias mais preciosas para o ser humano, qual
seja, a liberdade, é um dos locais especiais quando se trata de integridade no direito.
A matéria abordada na presente pesquisa é destacadamente polêmica, porque cuida da
criminalização de condutas, quais sejam, a homofobia e a transfobia, geradoras de atos de
violência física e/ou simbólica em desfavor da população LGBTI. Não se duvida ser ele
aplicável somente quando as demais áreas jurídicas falharem.
De um lado temos a subsidiariedade do Direito Criminal e a possibilidade de sancionar
condutas a partir do arcabouço legal já positivado. De outro temos o clamor de pessoas que não
se sentem protegidas pela legislação vigente, bem como dos simpatizantes dessa causa. Como
responder adequadamente a essas duas vertentes diametralmente opostas?

112
THEODORO JÚNIOR, Humberto; NUNES, Dierle; BAHIA, Alexandre Melo Franco; PEDRON, Flávio
Quinaud. Novo CPC: Fundamentos e Sistematização. 3. ed. rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2016, p.
59.
113
DWORKIN, op. cit., 1999, p. 305.
114
FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. 2. ed. São Paulo. Revista dos Tribunais.
2006.
115
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: Introdução à Sociologia do Direito
Penal. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Revan. 2013.
50

É nessa medida que o tratamento doutrinário dado por Ronald Dworkin ao conflito de
princípios vem auxiliar a pesquisa como referencial teórico. O autor adota em seu livro “O
Império do Direito” os já mencionados conceitos de integridade no direito e adequação, como
ferramentas para que o juiz possa dar a resposta mais adequada ao caso concreto em se tratando
de conflito de princípios116.
Caso o congresso nacional mantenha sua inércia quanto à edição de norma que
criminalize a homofobia, a transfobia e outras formas de discriminação pautadas na orientação
sexual e na identidade de gênero, espera-se que o Supremo Tribunal Federal encontre a resposta
mais adequada em sede do julgamento da Ação Direita de Inconstitucionalidade por Omissão
n. 26, analisando os princípios em questão, notadamente a legalidade, a liberdade, a dignidade
da pessoa humana, e a vedação à proteção deficiente.

3.2 A coerência das decisões no tempo

Quando um juiz julga, não pode decidir em desconformidade com o seu tempo, bem
como em desconformidade com toda uma cadeia histórica de decisões. Nos países de tradição
da commom law esse posicionamento ganha relevância, uma vez que a jurisprudência assume
status de uma quase normatividade. No entanto, há muito tempo no Brasil, e também noutros
países de civil law a relevância da jurisprudência vem ganhando força.
Com a edição da Lei Federal 13.105/2015117, o Código de Processo Civil sublinha-se a
necessidade de os magistrados(as) manterem coerência quanto às suas decisões:

Se a discussão, em outros sistemas, seria se o Tribunal respeita seus próprios


entendimentos (vinculação horizontal) e se respeita os entendimentos dos Tribunais
Superiores (vinculação vertical), aqui o desafio é o de perquirir, até mesmo, se o
julgador respeita suas próprias decisões, uma vez que se torna cada vez mais
recorrente que encontremos, em curto espaço de tempo, decisões de um mesmo juiz
com posicionamentos claramente opostos sobre casos com temática idêntica, sem que
ocorra qualquer motivação ou peculiaridade que os distinga. A situação também não
era boa quando se analisava a técnica de julgamento monocrático pelo relator,
mediante o uso da chamada “jurisprudência dominante” (art. 557, CPC reformado de
1973). Nessa hipótese, não era incomum o uso da técnica, em alguns tribunais, em
juízos monocráticos do relator, pelo qual se julgava embasado em ementas ou
acórdãos que em nenhuma medida representavam o entendimento dominante do
tribunal ao qual pertenciam ou de tribunal superior. A redação no Novo CPC avança
nesse sentido, pois que, ao tratar da matéria entre os vários deveres do Relator (art.
932), o inciso III dispõe que incumbe ao Relator “não conhecer de recurso
inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os
fundamentos da decisão recorrida”; mas logo em seguida, o inciso IV prescreve

116
DWORKIN, op. cit., 1999.
117
BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Diário Oficial da União, Brasília,
17 mar. 2015.
51

(retomando e ampliando o que o antigo art. 557 já dizia) que também compete ao
Relator: “IV- negar provimento a recurso que for contrário a: a) súmula do Supremo
Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou do próprio tribunal; b) acórdão
proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em
julgamento de recursos repetitivos; c) entendimento firmado em incidente de
resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência.”
É cada vez mais evidente a necessidade de procurar uma legítima estabilidade
decisória das decisões dos tribunais, premissa forte no Novo CPC que se preocupa
muitíssimo com a formação e aplicação (fundamentação) dos precedentes (arts. 10 e
489), de modo a prevenir e impedir o atual uso recorrente de julgados de modo
mecânico.118

Percebe-se que a intenção do legislador com a edição do CPC/2015 foi, dentre outras
coisas, reforçar a necessidade de decisões coerentes quanto ao histórico decisional proferido
pelos tribunais. Essa busca por coerência permite que casos semelhantes tenham tratamento
jurídico semelhante, bem como que questões distintas possam, a partir de um exercício
argumentativo das partes e dos magistrados, obter também a resposta jurídica adequada, ainda
que distinta das anteriormente adotadas pela corte julgadora.
Esse é o cerne do tratamento jurídico inaugurado pelo artigo 926 do Código de Processo
Civil de 2015:

Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável,


íntegra e coerente.
§ 1º Na forma estabelecida e segundo os pressupostos fixados no regimento interno,
os tribunais editarão enunciados de súmula correspondentes a sua jurisprudência
dominante.
§ 2º Ao editar enunciados de súmula, os tribunais devem ater-se às circunstâncias
fáticas dos precedentes que motivaram sua criação.119

Agindo desse modo, os(as) magistrados(as) proferirão decisões mais coerentes com o
caso julgado e com a jurisprudência construída ao longo do tempo. Proferirão decisões mais
justas, ao menos em tese.

118
THEODORO JÚNIOR, Humberto; NUNES, Dierle; BAHIA, Alexandre Melo Franco; PEDRON, Flávio
Quinaud, op cit., p. 146.
119
BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Diário Oficial da União, Brasília,
17 mar. 2015.
52

4 O RELATÓRIO DA COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS


SOBRE A VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS,
TRANS E INTERSEXO NAS AMÉRICAS, UM OLHAR SOBRE O BRASIL

4.1 Esclarecimentos Iniciais

Em 12 de novembro de 2015, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos-


CIDH120, órgão da Organização dos Estados Americanos-OEA121, publicou um importante
relatório, o qual foi intitulado: Violência Contra pessoas LGBTI122, redigido mais
especificamente pela Relatoria sobre os direitos da população LGBTI, órgão da CIDH.
O referido documento sedia um panorama da violência cometida contra pessoas LGBTI
nas Américas. Esse relatório efetuou o registro de atos de violência cometidos contra a
população LGBTI nas Américas entre 1º de janeiro de 2013 e 31 de março de 2014, refletindo
um trabalho constante da CIDH de monitoramento dos direitos humanos em geral, e sobre a
violação dos direitos LGBTI nas Américas, em especial. No referido período, como consta do
relatório, a CIDH constatou que pelo menos 594 (quinhentas e noventa e quatro) pessoas
LGBTI, ou percebidas como LGBTI, foram assassinadas e 176 (cento e setenta e seis) foram

120
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) foi criada por resolução da Quinta Reunião de
Consulta dos Ministros das Relações Exteriores em Santiago, Chile, em 1959. A CIDH foi formalmente instalada
em 1960, quando o Conselho da Organização aprovou seu Estatuto. O Regulamento da Comissão, aprovado em
1980, foi modificado em várias oportunidades, a última delas em 2013. A Comissão Interamericana de Direitos
Humanos é um dos órgãos do Sistema Interamericano responsáveis pela promoção e pela proteção dos direitos
humanos. É constituída por sete membros, eleitos pela Assembleia Geral, que exercem suas funções em caráter
individual por um período de quatro anos, podendo ser reeleitos uma só vez. ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS
AMERICANOS. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. [S.l.]: OEA, 2019a.
121
A Organização dos Estados Americanos é o mais antigo organismo regional do mundo. A sua origem remonta
à Primeira Conferência Internacional Americana, realizada em Washington, D.C., de outubro de 1889 a abril de
1890. Esta reunião resultou na criação da União Internacional das Repúblicas Americanas, e começou a se tecer
uma rede de disposições e instituições, dando início ao que ficará conhecido como “Sistema Interamericano”, o
mais antigo sistema institucional internacional. A OEA foi fundada em 1948 com a assinatura, em Bogotá,
Colômbia, da Carta da OEA que entrou em vigor em dezembro de 1951. Posteriormente, a Carta foi emendada
pelo Protocolo de Buenos Aires, assinado em 1967 e que entrou em vigor em fevereiro de 1970; pelo Protocolo de
Cartagena das Índias, assinado em 1985 e que entrou em vigor em 1988; pelo Protocolo de Manágua, assinado em
1993 e que entrou em vigor em janeiro de 1996; e pelo Protocolo de Washington, assinado em 1992 e que entrou
em vigor em setembro de 1997. A Organização foi criada para alcançar nos Estados membros, como estipula o
Artigo 1º da Carta, “uma ordem de paz e de justiça, para promover sua solidariedade, intensificar sua colaboração
e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua independência”. Hoje, a OEA congrega os 35 Estados
independentes das Américas e constitui o principal fórum governamental político, jurídico e social do Hemisfério.
Além disso, a Organização concedeu o estatuto de observador permanente a 69 Estados e à União Europeia (EU).
Para atingir seus objetivos mais importantes, a OEA baseia-se em seus principais pilares que são a democracia, os
direitos humanos, a segurança e o desenvolvimento. ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Quem
somos. [S.l.]: OEA, 2019c.
122
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015.
53

vítimas de ataques graves, embora não letais, à sua integridade, aparentemente relacionados
com sua orientação sexual, identidade de gênero e/ou expressão de gênero, nas Américas.123
Por meio do relatório Violência Contra pessoas LGBTI a CIDH reiterou sua
preocupação com a situação de violência e discriminação contra pessoas LGBT, ou que são
percebidas como tais, na América e instou os Estados membros da OEA a adotarem medidas
para prevenir, investigar e punir tais atos, e também para eliminar as causas subjacentes dessa
violência e discriminação, e a que coletem dados sobre este tipo de violência:

No presente relatório, a Comissão Interamericana refere-se às obrigações estatais de


prevenção, investigação, sanção e reparação de atos de violência cometidos em função
da orientação sexual, identidade de gênero ou diversidade corporal das pessoas, ainda
que esteja pendente seu desenvolvimento jurisprudencial através do mecanismo de
petições e casos pelos órgãos do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Em
virtude disso, a CIDH leva em consideração desenvolvimentos internacionais e de
outros sistemas regionais sobre a matéria, assim como as suas próprias decisões sobre
violência em outros contextos, como guia para examinar as obrigações estatais em
casos de violência por preconceito contra pessoas com orientação sexual e identidade
de gênero não normativas e pessoas com corpos diversos. 124

Aqui é necessário abrir um importante parêntese, o qual será melhor abordado no


Capítulo 09 da Dissertação: o que se refere à presente pesquisa, a omissão estatal
brasileira em criminalizar a homotransfobia (aqui utilizada como um termo genérico que
engloba todas as formas de LGBTIfobia) se revela não somente diante das leis internas,
com destaque para a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988125, mas
também em virtude das normas de Direito Público Internacional, sendo necessária uma
melhor análise diante do chamado controle de Convencionalidade, o que igualmente
revelará a omissão do Estado Brasileiro, não apenas em relação às suas normas internas,
mas também em relação às normas internacionais de direitos humanos, as quais ele adota.
Nesse sentido, confira-se:

Os Estados têm o dever de atuar com a devida diligência para prevenir, investigar,
julgar, punir e reparar violações de direitos humanos, incluindo homicídios e outros
atos de violência. Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos,
esta obrigação inclui a adoção de medidas legislativas e de outra natureza para proibir,
investigar e punir todos os atos de violência e incitação à violência motivados por
preconceito e praticados contra as pessoas LGBTI; proporcionar reparação às vítimas
e proteção contra represálias; condenar publicamente estes atos; e registrar estatísticas

123
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Comunicados da CIDH. [S.l.]: OEA, 2011.
124
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015, p. 231.
125
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
54

sobre tais crimes e sobre o resultado das investigações, os procedimentos judiciais e


as medidas de reparação. A Corte Europeia de Direitos Humanos também afirmou
que a obrigação de prevenir a “violência motivada pelo ódio” proveniente de
particulares, e investigar a existência de um possível vínculo entre o ato de violência
e o motivo discriminatório pode estar contemplada na obrigação de proibir a tortura
(artigo 3), e também pode ser encarada como parte das obrigações positivas do Estado
derivadas da proibição da discriminação (artigo 14).126

Ao julgar um caso específico, qual seja, o Caso Atala Riffo y Niñas v. Chile, em 2012 a
Corte IDH:

[...] estabeleceu que a orientação sexual de uma pessoa está vinculada ao conceito de
liberdade e à possibilidade de toda pessoa para a autodeterminação e de escolher
livremente as circunstâncias que dão sentido à sua existência, conforme suas próprias
opções e convicções. (CIDH, 2012).127

Como resultado do relatório Violência Contra a População LGBTI, bem como da


presente Dissertação de Mestrado é importante salientar a necessidade de desenvolvimento de
mecanismos de registro e monitoramento de dados referentes aos atos violentos praticados
contra a população LGBTI. A título exemplificativo pode ser mencionado o fato de que as
categorias gerais referentes à orientação sexual e/ou identidade de gênero utilizadas para o
levantamento dos dados do Relatório Violência Contra pessoas LGBTI podem não
corresponder exatamente a como as pessoas se auto identificam. Nesse sentido, verifica-se a
necessidade da realização de trabalhos multidisciplinares envolvendo a Sociologia, a Psicologia
e outros campos do saber de forma a estabelecer categorias que retratem de forma mais clara o
sentimento de pertencimento dessa população. Em virtude da limitação temporal de uma
pesquisa de dissertação, a problematização e a verificação da necessidade do estabelecimento
dessas categorias não será desenvolvido nesse trabalho, ficando a referência como sugestão de
pesquisas vindouras.
No entanto, a referida dificuldade não esvazia a importância do Relatório pois, sob a
ótica dos autores(as) dos delitos cometidos contra a população LGBTI há uma constante que se
repete: a motivação dos delitos se deu em função de uma crença de que as vítimas transgrediram
normas de gênero aceitas em função de sua identidade/expressão de gênero/orientação sexual,

126
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015, p. 231. Ver também: Corte Europeia de Direitos
Humanos, Caso Identoba e outros, (Comunicação no. 73235/12) vs. Geórgia, 12 de maio de 2015, p. 63.
127
BAHIA, Alexandre G. Melo Franco de Moraes; BOMFIM, Rainer. Análise dos precedentes que envolvem
discriminação por orientação sexual no Sistema Interamericano de Direitos Humanos. In: DESLANDES, Keila
(Coord.); BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes (Org.); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos
Sexuais. Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018, p. 44.
55

merecendo a violência que foi contra elas praticada. Percebe-se assim, que a motivação desse
tipo de delito é LGBTIfobia pura e deliberada.
Como adiantado, um outro resultado importante apontado no documento Violência
Contra pessoas LGBTI, e que é corroborado pela presente Dissertação é a obrigação dos
Estados membros da OEA coletarem dados sobre a violência contra as pessoas LGBTI,
obrigação essa derivada de Resoluções emitidas pela OEA: "Direitos humanos, orientação
sexual e identidade e expressão de gênero", AG/RES. 2807128 (XLIII-O/13) e AG/RES. 2863
(XLIV-O/14)129.
No que se refere ao Brasil em especial, percebe-se uma grande dificuldade no sentido
de localizar dados específicos desse tipo de violência.
Uma polícia muitas vezes mal preparada para abordar a temática LGBTI e que reproduz
o preconceito generalizado e enraizado na população contra essa população, não consegue
entabular o ato de violência como LGBTIfobia, registrando os casos sob a históricas e genéricas
rubricas da lesão corporal, homicídio, injúria, etc., subnotificando e invisibilizando ainda mais
esse tipo de violência no Brasil130. No entanto, existem alguns esforços nacionais para a coleta

128
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. AG/RES. 2807. La Antigua: Assembleia Geral, 2013.
129
ASSEMBLEA GENERAL. AG/RES. 2863 (XLIV-O/14). [S.l.]: Assemblea General, 2014.
130
Nesse sentido é importante citar o relatório elaborado por Marco Aurélio Máximo por meio do Grupo NUH:
No ano de 2015, o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH) da UFMG e o Centro de Apoio
Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos (CAO-DH) do Ministério Público de
Minas Gerais iniciaram um projeto de pesquisa com a finalidade de investigar e produzir um relatório sobre as
interfaces entre o sistema de Segurança Pública e a violência contra a população LGBT. A primeira fase da
pesquisa mapeou, no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2015, os casos de violência letal contra população
de travestis e mulheres transexuais que geraram alguma informação junto aos órgãos da segurança pública e
entender os fluxos destinado para esses casos no âmbito da rede de segurança pública. A base inicial da pesquisa
foi composta pelos Registros de Ocorrência de Defesa Social (REDS), a partir de levantamento feito pela mídia
(jornais e revistas eletrônicos, do interior e da capital do estado) dos casos de homicídios que tiveram como vítimas
pessoas LGBT e pelas informações reunidas pelo Centro Integrado de Informações de Defesa Social
(CINDS/SEDS), instrumento oficial do Estado para a organização e produção de estatísticas e relatórios analíticos
sobre a criminalidade. O corpus de material para análise se estabeleceu, portanto, a partir da junção das duas
amostras, obtendo o total de 50 casos de homicídio tentado e consumado envolvendo pessoas LGBT. Após a
tabulação e prévia análise dos casos obtidos com base na leitura dos REDS, percebeu-se que em 11 dessas
ocorrências não havia participação de travestis ou transexuais. Isso porque, como descrito acima, a pesquisa inicial
por notícias nas mídias foi feita de forma ampla, também buscando homicídios de pessoas lésbicas, gays e
bissexuais. Dessa forma, fundamentado pelos objetivos do trabalho, foi feito um recorte no corpus de material,
restando para a análise 39 registros de ocorrência relativos a homicídios consumados e tentados, em que figuram
travestis e transexuais. Nessa fase inicial, feita a partir da análise dos Registros de Eventos da Defesa Social
(REDS), foi possível elencar pontos de impacto e relevância para a atuação da Segurança Pública frente as
vulnerabilidades da população LGBT. Como produto dessa análise, foi elaborado um documento com orientações
e sugestões para o atendimento qualificado de pessoas LGBT. Algumas das considerações feitas foram sobre a
importância do preenchimento adequado de todos os campos do REDS, visando oferecer possibilidades reais de
investigação pois este se trata de um documento que identifica as pessoas envolvidas na ocorrência e traz
informações sobre como localizá-las. Nesse sentido, os campos de nome social, orientação sexual e identidade de
gênero seriam imprescindíveis para reconhecer as pessoas LGBT comprometidas com o fato, aumentar o
esclarecimento desse tipo de crime e garantir a conclusão das investigações. GONÇALVES, Bárbara. et al.
Segurança Pública e População LGBT: análise de REDS e inquéritos policiais relativos ao crime de homicídio
envolvendo travestis e transexuais em Minas Gerais. [S.l.]: NUH, 2018.
56

desse tipo específico de violência. Nesse sentido, merecem destaque os trabalhos efetuados
pelos seguintes grupos:
Grupo Gay da Bahia- GGB131: o qual dentre outros trabalhos organiza o site: “Quem
a homofobia matou hoje”132, site criado há 08 (oito anos) que compila os dados de violência
cometida contra a população LGBTI no Brasil conforme levantamentos e Relatórios publicados
pelo Grupo- GGB. Conforme descrito pelo próprio sítio eletrônico, os Relatórios são escritos a
partir de fontes disponíveis publicamente, especialmente jornais e revistas.
ANTRA – A Associação Nacional de Travestis e Transexuais133: Dentre outras
atividades, a entidade, também busca registrar casos de violência praticada contra a população
trans.
Ouvidoria LGBT da UFOP134: Projeto de Extensão da Universidade Federal de Ouro
Preto, objetivando receber, examinar, relatar, dar sugestões, prestar atendimento jurídico,
auxiliar na formulação de denúncias e de possíveis representações nos âmbitos administrativo
(da UFOP) e também foi dele no tocante a casos de violência relacionados à população LGBTI
em Ouro Preto, Mariana e região; acompanhar os procedimentos e as providências que serão
adotados para a resolução das demandas. Produzir material (cartilhas, folders) com conteúdo
informativo sobre os direitos das vítimas de violência.
Grupo de Estudos Omissão Inconstitucional e o Papel do STF: estudo sobre a
ADO. Nº. 26135: Grupo de Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto sobre a ADO. n.

131
O GRUPO GAY DA BAHIA é a mais antiga organização não governamental de defesa dos direitos humanos
e de cidadania dos homossexuais do Brasil. Fundado em 1980, o GGB trabalha em cooperação com o Centro
Baiano Anti-Aids (CBAA) e tem como ONGs/Associadas a Associação de Travestis de Salvador, o Grupo Vida
Feliz de Portadores de HIV/Aids e Quimbanda-Dudu de Gays Negros. O GGB e o CBAA são entidades de
Utilidade Pública Municipal e recebem apoio do Ministério da Saúde e das Secretarias de Saúde do Estado da
Bahia e do Município de Salvador. GRUPO GAY DA BAHIA. Página inicial. [S.l.]: GGB, 2018.
132
Ibidem.
133
ANTRA- Associação Nacional de Travestis e Transexuais: A Associação Nacional de Travestis e Transexuais
(ANTRA), é uma rede nacional que articula em todo o Brasil 127 instituições que desenvolvem ações para
promoção da cidadania da população de Travestis e Transexuais, fundada no ano de 2000, na Cidade de Porto
Alegre. MISSÃO.A missão da ANTRA é: “Identificar, Mobilizar, Organizar, Aproximar, Empoderar e Formar
Travestis e Transexuais das cinco regiões do pais para construção de um quadro político nacional a fim de
representar nossa população na busca da cidadania plena e isonomia de direitos.” (Assembléia da ANTRA,
Teresina-PI/ Maio 2009). ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Mapa dos
Assassinatos. [S.l.]: ANTRA, 2018.
134
Iniciativa desenvolvida e coordenada pelo Professor Dr. Alexandre Gustavo Melo Franco de Moraes Bahia, a
Ouvidoria LGBTI é vinculada à Pró-Reitoria de Extensão da UFOP bem como ao Núcleo de Direitos Humanos
da UFOP e tem como objetivos: Receber, examinar, relatar, dar sugestões, prestar atendimento jurídico, auxiliar
na formulação de denúncias e de possíveis representações nos âmbitos administrativo (da UFOP) e também foi
dele no tocante a casos de violência relacionados à população LGBTI em Ouro Preto, Mariana e região;
acompanhar os procedimentos e as providências que serão adotados para a resolução das demandas. Produzir
material (cartilhas, folderes) com conteúdo informativo sobre os direitos das vítimas de violência.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO. Ouvidoria LGBT. Ouro Preto: UFOP, 2018.
135
Grupo de Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto, criado pelo Professor Dr. Alexandre Gustavo Melo
Franco de Moraes Bahia sobre a ADO. n. 26 que visa discutir/produzir textos sobre: a) homofobia/transfobia; b)
57

26 que visa discutir/produzir textos sobre: a) homofobia/transfobia; b) inconstitucionalidade


por omissão; c) papel dos poderes na concretização dos Direitos Fundamentais; d) Constituição
como um sistema aberto de novas inclusões.
NAC-LGBT - Núcleo de Atendimento à População LGBT da Polícia Civil do
Estado de Minas Gerais136: Núcleo de Atendimento e Cidadania à População de Lésbicas,
Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (NAC/LGBT).
NUH- Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da FAFICH-UFMG137:
Projeto de Extensão da UFMG que visa expor ideias e facilitar o debate (por meio de ciclos de
debates mensais) sobre temáticas efervescente na sociedade brasileira e permitir a aproximação
da sociedade ao conhecer os principais temas sobre gêneros e sexualidades.
Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT - Ministério dos Direitos
Humanos138: O Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de
Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT) é um órgão colegiado,
integrante da estrutura básica do Ministério dos Direitos Humanos, criado por meio da Medida
Provisória 2216-37 de 31 de Agosto de 2001. Dentre outras iniciativas, o Ministério dos
Direitos Humanos recebe denúncias de violência praticadas contra a população LGBTI por
meio do Disque 100.
Os órgãos mencionados acima são meramente exemplificativos havendo vários grupos
de apoio à população LGBTI, os quais, de alguma forma, trabalham com dados de violência.

inconstitucionalidade por omissão; c) papel dos poderes na concretização dos Direitos Fundamentais; d)
Constituição como um sistema aberto de novas inclusões. O referido grupo reúne-se quinzenalmente, na UFOP e
essas reuniões contam com a participação de membrxs também pelo ambiente virtual. Por meio da rede social
Facebook, o grupo conta hoje com 122 membrxs. NOVOS DIREITOS, NOVOS SUJEITOS. Omissão
Inconstitucional e o Papel do STF: estudo sobre a ADO. n. 26. Ouro Preto: Facebook, 2016.
136
Núcleo de Atendimento e Cidadania à População de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
(NAC/LGBT). Horário de funcionamento: 8h às 18h30. Local: Rua Paracatu, nº822– Bairro Barro Preto – Belo
Horizonte/MG.
137
NÚCLEO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA LGBT. Ciclo de debates. [S.l.]: NUH, 2018.
138
Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT: O Conselho Nacional de Combate à Discriminação e
Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT) é um órgão
colegiado, integrante da estrutura básica do Ministério dos Direitos Humanos, criado por meio da Medida
Provisória 2216-37 de 31 de Agosto de 2001. Com as políticas voltadas para a promoção da igualdade racial e
para a população indígena sendo executadas por outros órgãos, em dezembro de 2010 o Governo Federal institui
nova competência e estrutura ao CNCD/LGBT, por meio do Decreto nº 7388, de 9 de dezembro de 2010. Para
atender uma demanda histórica do movimento LGBT brasileiro e com a finalidade de potencializar as políticas
públicas para a população LGBT, o agora CNCD/LGBT passa a ter como finalidade formular e propor diretrizes
de ação governamental, em âmbito nacional, voltadas para o combate à discriminação e para a promoção e defesa
dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. MINISTÉRIO DA MULHER, DA FAMÍLIA
E DOS DIREITOS HUMANOS. Conselho Nacional de Combate à Discriminação de LGBT (CNCD-LGBT).
[S.l.]: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2010.
58

No entanto, como adiantado, é necessário organizar e compilar melhor tais dados,


criando mecanismos de coleta, tratamento e armazenamento dessas informações as quais
poderão subsidiar políticas públicas de atendimento especializado à população LGBTI.
Conforme descrito no relatório Violência contra a população LGBTI nas Américas:

A CIDH recebeu no período em que elaborou a pesquisa, informações sobre 770 atos
de violência contra pessoas LGBT em 25 Estados membros da OEA, quais sejam
Argentina, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Cuba,
República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras,
Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Estados Unidos, Uruguai e
Venezuela).
No entanto, existem Estados Membros nos quais falta informações sobre esse tipo de
violência, muitas vezes em função da omissão estatal em compilar esses dados. Ainda
segundo o referido relatório, casos de violência letal e não letal contra pessoas LGBT
ocorrem nos 35 Estados membros da OEA, mas nem sempre são denunciados ou
divulgados pelos meios de comunicação, o que dificultou a coleta de dados, sendo
esses exemplificativos e não exaustivos.
O fato de a pessoa ser LGBTI ou de ser percebida como tal, ou seja, o fato de
apresentar características físicas ou comportamentais que podem de alguma forma ser
associada à população LGBTI faz com essas pessoas sejam mais vulneráveis a
sofrerem um tipo específico de violência. A CIDH registrou ainda que um grande
número de casos do Relatório evidencia requintes de crueldade e níveis elevados de
violência com base na percepção da orientação sexual e da identidade/expressão de
gênero. Isso é consistente com as conclusões do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Direitos Humanos, que afirmou que a violência contra as pessoas
LGBT tende a ser especialmente virulenta em comparação com crimes praticados por
outros motivos. Entre os meios usados para infligir dano às pessoas LGBT, de acordo
com os dados coletados pela CIDH, estão armas de fogo, facas e outras armas,
queimaduras, decapitações, espancamentos brutais e graves, apedrejamentos,
tijoladas ou marteladas, asfixia, esquartejamentos, entre outros. 139

Tais informações corroboram as conclusões da presente dissertação: Os crimes


cometidos por LGBTIfobia, apesar de se assemelharem aos tipos penais genéricos já descritos
como homicídio, lesão corporal e injúria, desses diferem no grau de violência e na desconexão
entre a vítima e o autor. Melhor dizendo, em geral, vítima e autor(a) não se conhecem nem
apresentam animosidade anterior. O(a) agressor(a) deliberadamente decide agredir e/ou matar
a vítima sem motivação outra que não seja o fato dela ser LGBTI ou de ser percebida como tal,
conduta que torna esse tipo de crime uma modalidade de crime de ódio, sob a ótica da presente
pesquisa.
Os assim chamados crimes de ódio podem se propagar em função da disseminação de
um discurso, também conhecido como discurso de ódio:

A LGBTIfobia, uma forma violenta de demonstrar a aversão ao diferente, não se


originou de forma espontânea e pontual na sociedade brasileira e não pode se
considerada uma peculiaridade dos tempos atuais, em que as lutas em prol das

139
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Comunicados da CIDH. [S.l.]: OEA, 2011.
59

minorias ganha cada vez mais espaço. Isso se deve ao fato de existir toda uma
construção histórica de consolidação da intolerância por meio do discurso de ódio,
prontamente veiculado no nosso meio de convívio, através das práticas culturais
religiosas, de ditos populares, de brincadeiras despretensiosas ou de mero exercício
da liberdade de expressão.
O discurso de ódio pode ser conceituado como o abuso da liberdade de expressão
proveniente da livre manifestação da consciência. Através dele, o indivíduo
exterioriza seus pensamentos na intenção de discriminar ou de inferiorizar certos
grupos sociais por seu gênero, orientação sexual, etnia, cor, religião e outras inúmeras
características que os apartem da dita lúdica superioridade padronizada. Assim, essas
ações deliberadas podem gerar ou nutrir em terceiros, o mesmo ódio violento e o
tratamento sub-humano aos já afetados. E as formas como são demonstradas no dia a
dia vão da maneira mais branda, como piadas e provocações, até mais radicais, feitas
por ameaças, violências físicas e extermínios. A manutenção, incluindo a
condescendência e a aceitação do discurso de ódio nas nossas relações, gera
consequências extremamente penosas para as pessoas visadas, seja no aspecto social,
político e definitivamente, pessoal do cidadão.140

Desse modo, o discurso de ódio não se confunde com a liberdade de expressão,


importante conquista da Democracia:

A liberdade é uma das conquistas mais celebradas e protegidas pela Constituição


Federal de 1.988, já que ela é um dos pilares centrais do Estado Democrático de
Direito e fornece as ferramentas essenciais para a formação do pensamento, o
desenvolvimento subjetivo do cidadão e a manifestação ampla da sua consciência, por
meio da fala, da escrita e de outras vias. Entretanto, esta garantia, assim como qualquer
outra, não é absoluta e carece da imposição estatal com as relativas consequências
criminais e cíveis contra ações abusivas para viabilizar o bom convívio social. 141

Ainda como resultado do Relatório verifica-se que dentro da população LGBTI, homens
gays, mulheres lésbicas e mulheres trans são as pessoas que sofrem maior violência, merecendo
destaque o fato de que essas últimas têm maiores chances de serem mortas ainda antes de
completarem 35 (trinta e cinco) anos.142
Como já adiantado e aqui reiterado, com base nos dados levantados por meio do
Relatório Violência contra a população LGBTI, a CIDH insta os Estados Membros a adotarem
medidas urgentes e eficazes para prevenir e responder a violações de direitos humanos e a que
garantam que as pessoas LGBTI possam efetivamente desfrutar de seu direito a uma vida livre
de violência e discriminação, preocupação essa que não se restringe apenas ao Sistema
Interamericano de Direitos Humanos143 mas também à Organização das Nações Unidas:

140
VALADARES, Gustavo; ALMEIDA, João Paulo Rodrigues. Direito Constitucional: a LGBTFOBIA como
resultado do discurso de ódio. In: DESLANDES, Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes
(Org); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2018, p. 53-54.
141
Ibidem, p. 61.
142
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS, op. cit., 2011.
143
Em 1.948, A Organização dos Estados Americanos aprovou a Declaração Americana de Direitos e Deveres do
Homem (OEA, 1948), que inaugura o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Posteriormente a isso, inicia-
60

Os Estados têm o dever de atuar com a devida diligência para prevenir, investigar,
julgar, punir e reparar violações de direitos humanos, incluindo homicídios e outros
atos de violência. Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos,
esta obrigação inclui a adoção de medidas legislativas e de outra natureza para proibir,
investigar e punir todos os atos de violência e incitação à violência motivados por
preconceito e praticados contra as pessoas LGBTI; proporcionar reparação às vítimas
e proteção contra represálias; condenar publicamente estes atos; e registrar estatísticas
sobre tais crimes e sobre o resultado das investigações, os procedimentos judiciais e
as medidas de reparação.144

Tecidas as considerações iniciais, sublinha-se a relevância da publicação da OEA-


Violência Contra a População LGBTI145, uma vez que essa vem evidenciar a lacuna no que se
refere à dados estatísticos específicos da violência cometida contra a população LGBTI nas
Américas.
Sob o recorte específico do Brasil, o presente Capítulo se propõe a analisar os dados ali
sediados de forma a demonstrar que a violência praticada contra a população LGBTI por
motivação LGBTIfóbica tem características específicas que demandam a criação de tipos
penais mais adequados para a repressão desse tipo de violência.

4.2 Um olhar sobre o Brasil

O relatório “Violência Contra a população LGBTI” da OEA expressa a preocupação da


CIDH quanto a essa temática:
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (doravante "Comissão
Interamericana", "Comissão" ou "CIDH") está preocupada com os altos índices de
violência registrados no continente americano contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo (LGBTI), ou aquelas pessoas percebidas como tal, e a
ausência de uma resposta estatal eficiente diante dessa problemática. Isto fica
claramente demonstrado pela falta de medidas efetivas para prevenir, investigar,
sancionar e reparar atos de violência cometidos contra pessoas LGBTI, de acordo
com o padrão de devida diligência. Apesar da CIDH reconhecer avanços em alguns
Estados Membros da Organização dos Estados Americanos (doravante “OEA”), a

se a criação de um órgão jurisdicional interamericano com a competência de julgar casos de violações dos direitos
humanos, e em especial, que é o objeto de estudo de trabalho, a discriminação por orientação sexual e identidade
de gênero da população LGBTI. [...] O Sistema Interamericano de Direitos Humanos é um sistema de proteção e
promoção dos direitos humanos no âmbito daqueles que são signatários a esse órgão. Atualmente são 24 países.
BAHIA, Alexandre G. Melo Franco de Moraes; BOMFIM, Rainer. Análise dos precedentes que envolvem
discriminação por orientação sexual no Sistema Interamericano de Direitos Humanos. In: DESLANDES, Keila
(Coord.); BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes (Org.); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos
Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018, p. 16.
144
Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Discriminação e violência contra as pessoas por motivo
de orientação sexual e identidade de gênero, A/HRC/29/23, 4 de maio de 2015, p. 11. NACIONES UNIDAS.
Discriminación y violencia contra las personas por motivos de orientación sexual e identidad de género. Distrito
General: Asamblea General, 2015.
145
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Violência contra pessoas lésbicas, gays,
bissexuais, trans e intersexo nas Américas. [S.l.]: CIDH, 2015.
61

violência contra pessoas LGBTI continua ocorrendo de maneira generalizada em todo


o continente americano.146

O referido relatório demonstra a ausência de respostas estatais eficientes, notadamente


quanto à ausência de sanção dos crimes de LGBTIfobia.
Infelizmente, a violência praticada contra a população LGBTI no Brasil bate recordes:

[...] a Comissão Interamericana recebeu informações preocupantes sobre o número de


homicídios de pessoas LGBT no Brasil. As estatísticas do Brasil superam
consideravelmente as de qualquer outro Estado Membro da OEA, em relação ao
número de homicídios documentados. Faz-se mister ressaltar que, ainda que no
Brasil existam altos níveis de violência e preconceito contra pessoas com orientações
sexuais e identidades de gênero não normativas, outros fatores também podem
explicar número elevado. O Brasil é o segundo país mais populoso da região, com
mais de 200 milhões de habitantes. Adicionalmente, tanto a sociedade civil brasileira
como o próprio Estado criaram, nos últimos anos, mecanismos de denúncia através
dos quais os casos podem ser identificados e registrados. Em termos quantitativos, o
Estado do Brasil informou que houve 278 homicídios de pessoas LGBT em 2011, e
310 casos denunciados em 2012, o que representa um aumento anual de 11.5%.345
em 2013, a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB) documentou pelo menos 312 homicídios
de homens gays, mulheres lésbicas e pessoas trans no seu Relatório Anual de 2013.Os
homens gays (59%) e as mulheres trans (35%) representam a maioria das vítimas. 147

Além do elevado número de casos, a CIDH destacou que a forma da prática desses
crimes de ódio no Brasil alcança patamares daquilo que chamou de “selvageria”:

A Comissão recebeu informação sobre casos com altos níveis de selvageria e


crueldade no Brasil. Por exemplo, em abril de 2014, uma mulher bissexual – que tinha
um filho de 6 anos de idade e rompeu o relacionamento com seu namorado para viver
com uma mulher – foi brutalmente esfaqueada, teve seus órgãos internos extraídos, e
o corpo abandonado perto dos trilhos do trem. Antes de fugir, o agressor ainda
desmembrou a vulva da vítima e a inseriu em sua boca. Os investigadores observaram
que este modus operandi revelou o motivo do crime, e que o ex-namorado da vítima
estava entre os suspeitos. Em janeiro de 2014, um homem gay foi encontrado quase
morto perto de um engenho de cana de açúcar em João Pessoa (Paraíba), e seu corpo
apresentava sinais de estupro e lesões físicas violentas. Ele foi hospitalizado, mas
morreu logo depois. Em maio de 2013, um homem gay de 22 anos de idade foi atacado
verbalmente com insultos homofóbicos na rua, e depois atropelado 3 vezes seguidas
por um carro, no Rio de Janeiro. Apesar de ter sido levado ao hospital por amigos,
não sobreviveu aos ferimentos; sua coluna vertebral foi fraturada em três lugares, e
seu quadril, costelas e pulmões também foram seriamente afetados. Durante o ano de
2013, a CIDH foi informada de inúmeros homicídios de mulheres trans que eram
trabalhadoras sexuais, na sua maioria perpetrados por clientes. As vítimas foram
atacadas com pedras na cabeça, apedrejadas até a morte enquanto ofereciam seus
serviços, agredidas até a morte com garrafas quebradas, esfaqueadas em seus lugares
habituais de trabalho, foram baleadas ao se aproximar de um veículo, e inclusive
vítimas de disparos de arma de fogo ao discordar sobre as tarifas. 148

146
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 2015, p. 12, grifo nosso.
147
Ibidem, p. 97, grifo nosso.
148
Ibidem, p. 98.
62

Ainda especificamente quanto ao Brasil, a CIDH já condenou publicamente o Estado


por meio de um Comunicado de Imprensa nº 84/2012, no que se refere às agressões sofridas
pelos irmãos da Silva, naquele ano:

CIDH condena ataque e assassinato por orientação sexual percebida no Brasil


Washington, D.C., 11 de julho de 2012 - A Comissão Interamericana de Direitos
Humanos (CIDH) condena o assassinato no Brasil de José Leonardo Da Silva no
contexto de um ataque contra ele e seu irmão, José Leandro Da Silva, por parte de
pessoas que lhes perceberam como homossexuais.
De acordo à informação recebida, em 24 de junho de 2012, os irmãos Da Silva
caminhavam abraçados em Camaçari, Estado da Bahia, depois de sair de uma festa,
quando vários jovens lhes espancaram e esfaquearam, enquanto lhes chamavam de
“mulherzinhas”. A informação disponível indica que José Leonardo Da Silva, morreu
no local, por perda de sangue, depois de ser golpeado de forma reiterada na cabeça
com um azulejo; seu irmão foi hospitalizado com os maxilares quebrados em três
lugares.
A CIDH lembra que é obrigação do Estado investigar de ofício fatos dessa natureza e
sancionar àqueles que resultarem responsáveis. A Comissão insta ao Estado a abrir
linhas de investigação que tenham em consideração se este assassinato foi cometido
em razão da identidade de gênero ou da orientação sexual das víctimas, ou das
percepções de que os agressores supostamente tiveram sobre estas. [...]149

Em relação aos dados específicos sobre o Brasil, coletados pela OEA, merecem
destaque as Tabela 01 e 02, respectivos Anexos A e B da presente Dissertação. As referidas
tabelas foram extraídas diretamente do Relatório da CIDH publicado em 2015. Aqui é feito um
recorte específico do Brasil.
Das referidas tabelas salientam-se as seguintes informações:

4.2.1 Análise do Anexo 01- Tabela 01- Período de Referência: Janeiro a Dezembro de 2013

1º Número total de casos de violência contra a população LGBTI nos 25 países membros
da OEA que forneceram dados: 615 (seiscentos e quinze) casos;
2° Número de total de casos específicos do Brasil no mesmo período: 258 (duzentos e
cinquenta e oito) casos.
3° Percentual correspondente especificamente ao Brasil no período: 41,95% dos casos;
4º Idade média das vítimas: 35,13 (aproximadamente 35 anos);
5º Casos especificamente cometidos contra homens homossexuais ou percebidos como
tal: 139 (cento e trinta e nove) casos, o que corresponde a 53,87% do total;

149
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Comunicado de Imprensa nº 84/2012. [S.l.]:
CIDH, 2012.
63

6º Casos especificamente cometidos contra mulheres trans ou percebidas como tal: 104
(cento e quatro) casos, o que corresponde a 40,31% do total;
7º Casos especificamente cometidos contra mulheres homossexuais ou percebidas como
tal: 11 (onze) casos, o que corresponde a 4,26% do total;
8º Casos especificamente cometidos contra homens trans ou percebidos como tal: 1, o
que corresponde a 0,38% do total;
9º Casos especificamente cometidos contra bissexuais ou percebidos como tal: 2, o que
corresponde à 0,77% do total.
10º Caso especificamente cometido contra outra pessoa LGBTI: 1, o que corresponde à
0,38% do total.

4.2.2 Quanto ao tipo de crime

11º Homicídio com arma branca: 75 (setenta e cinco) casos, o que corresponde à 29,06%
dos casos no Brasil;
12º Homicídio com arma de fogo: 74 (setenta e quatro) casos, o que corresponde à
28,6% dos casos no Brasil;
13º Homicídio sem descrição do meio utilizado para a prática do crime (pessoa
encontrada morta, muitas vezes já em estado avançado de decomposição): 24 (vinte e quatro)
casos, o que corresponde à 9,30% dos casos no Brasil;
14º Homicídio por espancamento: 19 (dezenove) casos, o que corresponde à 7,36% dos
casos no Brasil;
15º Homicídio por asfixia/enforcamento: 19 (dezenove) casos, o que corresponde à
7,36% do total de casos no Brasil;
16º Homicídio por carbonização: 3 (três) casos, o que corresponde à 1,16% do total;
17º Homicídio por decapitação/mutilação: 4 (quatro) casos, o que corresponde à 1,55%
do total de casos no Brasil;
18º Outros tipos de Homicídio: 26 (vinte e seis) casos, o que corresponde à 10,07% do
total.
19º Casos de violência não letal (tratamento cruel, espancamento não letal, queimaduras
graves, etc.: 14 (quatorze) casos, o que corresponde à 5,42% do total.
20º Estado com o maior número de casos relatados no período: São Paulo, com 27 (vinte
e sete) casos, o que corresponde a 10,46% dos casos no Brasil, dentro do período analisado;
64

21º Número de casos em que se identificou o autor do delito como particular ou agente
estatal: 35 (trinta e cinco) casos, o que corresponde à 13, 56% do total. Casos em que não há
informação sobre o autor do delito: 223 (duzentos e vinte e três) casos, o que corresponde à
86,43% do total de casos no período.

4.2.3 Análise do Anexo 02- Tabela 02- Período de Referência: Janeiro a Março de 2014

1º Número total de casos de violência contra a população LGBTI nos 25 países membros
da OEA que forneceram dados: 153 casos;
2° Número de total de casos específicos do Brasil no mesmo período: 90 casos;
3° Percentual correspondente especificamente ao Brasil no período: 58,83% dos casos;
4º Idade média das vítimas: 33,8, aproximadamente 34 anos;
5º Casos cometidos especificamente contra homens homossexuais ou percebidos como
tal: 44 casos, o que corresponde à 48,88% do total de casos no Brasil, dentro desse período;
6º Casos especificamente cometidos contra mulheres trans ou percebidas como tal: 43
casos, o que corresponde à 47,77% do total de casos no Brasil, dentro desse período;
7º Casos especificamente cometidos contra mulheres homossexuais ou percebidas
como tal: 3 casos, o que corresponde à 1,16% do total no Brasil, dentro desse período;
8º Casos especificamente cometidos contra homens trans ou percebidos como tal: 0
casos no período;
9º Casos especificamente cometidos contra bissexuais ou percebidos como tal: 0 casos
no período.
10º Caso especificamente cometido contra outras pessoa LGBTI: 0.

4.2.4 Quanto ao tipo de crime

11º Homicídio com arma de fogo: 34 (trinta e quatro) casos, o que corresponde à
37,77% do total de casos no Brasil, dentro do período;
12º Homicídio com arma branca: 23 (vinte e três) casos, o que corresponde à 25,55%
do total de casos no Brasil, dentro do período;
13º Homicídio sem descrição do meio utilizado para a prática do crime (pessoa
encontrada morta, muitas vezes já em estado avançado de decomposição): 2 (dois) casos, o que
corresponde à 2,22% do total de casos no Brasil, dentro do período:
65

14º Homicídio por espancamento: 12 (doze) casos, o que corresponde à 13,33% do total
de casos no Brasil dentro do período;
15º Homicídio por asfixia/estrangulamento/enforcamento: 3 (três) casos, o que
corresponde à 3,33% do total de casos no Brasil dentro do período;
16º Homicídio por carbonização: 2 (dois) casos, o que corresponde à 2,22% do total de
casos no Brasil dentro do período;
17º Homicídio por decapitação/mutilação: 0 (zero) casos;
18º Outros tipos de Homicídio: 7 (sete) casos, o que corresponde à 7,77% do total de
casos no Brasil dentro do período.
19º Casos de violência não letal (tratamento cruel, espancamento não letal, queimaduras
graves, etc.: 7 (sete) casos, o que corresponde à 7,77% do total de casos no Brasil dentro do
período;
20º Estado brasileiro com o maior número de casos no período considerado: São Paulo,
com 14 casos, o que corresponde à 15,55% do total de casos no Brasil dentro do período;
21º Número de casos em que se identificou o autor do delito como particular ou agente
estatal: 21 casos, o que corresponde à 23,33% do total. Casos em que não há informação sobre
o autor do delito: 69 (sessenta e nove) casos, o que corresponde à 76,66% do total de casos no
período.

4.3 Conclusões da análise dos dados

Consultando os dados obtidos nos Anexos 01 e 02, os quais foram destacados acima,
verifica-se que o Brasil é recordista na violência cometida contra a população LGBTI quando
comparado com os dados dos outros 25 (vinte e cinco) Estados-membros da OEA que
forneceram informações. É importante reiterar que atualmente a OEA é composta por 35 (trinta
e cinco) Estados-membros, o que significa que nem todos os Estados forneceram dados.
Se, por um lado, a existência de dados demonstra que há mecanismos no Brasil para
realizar o levantamento das ocorrências, por outro, verifica-se que a situação requer maior
atenção por parte dos entes estatais e da sociedade civil organizada.
É importante verificar que a maioria esmagadora dos dados apresentados acima referem-
se a homicídios (94,58% em 2013 e 92,23% entre janeiro e março de 2014), o que sugere que
outras formas de violência como lesões corporais e injúrias, por exemplo, permanecem
subnotificadas, pertencendo como estatística oculta, invisibilizada, o que só aumenta o
problema, sendo necessário equipar os órgãos policiais e outras instituições estatais ou não que
66

efetuam a prevenção/repressão desses crimes de forma a ser captada também essa cifra oculta,
porém, relevante.
Afirma-se isso porque é difícil crer que um criminoso já inicie sua prática
preconceituosa diretamente com homicídios. É mais crível que, muitas vezes, ocorram outras
modalidades delituais não-letais, para depois ocorrer a evolução, se é possível assim dizer, para
homicídios propriamente ditos.
Aprofundando a análise dos dados referentes ao ano de 2013, verifica-se que homens
homossexuais e mulheres trans, dentro da população LGBTI, foram as pessoas mais vulneráveis
a sofrerem homicídio no Brasil, pois essas pessoas foram vítimas desse tipo penal em 94,18%
dos casos noticiados.
Esses crimes foram cometidos geralmente contra pessoas de idade média de 35 anos,
sendo utilizada principalmente a arma branca (faca ou outro instrumento pontiagudo), o que
corresponde à 29,06% do total de casos de homicídios, seguida de perto pela arma de fogo, a
qual corresponde à 28,6% do total dos homicídios noticiados dentro do período, no Brasil.
Ainda dentro do ano de 2013, o Estado mais violento ou, melhor dizendo, o Estado
brasileiro que mais noticiou crimes contra a população LGBTI foi São Paulo, correspondendo
à 10,46% do total.
Como já adiantado, os dados referentes ao ano de 2014 correspondem à análise de um
período menor, qual seja, o intervalo temporal compreendido entre janeiro e março daquele
ano. Mesmo assim, é possível verificar algumas tendências, pois entre janeiro e março daquele
ano também foram os homens homossexuais e as mulheres trans as maiores vítimas dos
homicídios praticados contra a população LGBTI, correspondendo esses à 96,66% do total de
casos no Brasil, praticados contra a população LGBTI, dentro do período. A idade média das
vítimas foi de 34 (trinta e quatro) anos. Os meios predominantes para causar a morte foram a
arma de fogo 37,77% do total de casos, seguida pela arma branca, a qual correspondeu à 25,55%
do total. O Estado brasileiro que registrou o maior número de casos de homicídios e outras
formas de violência contra a população LGBTI permaneceu sendo São Paulo, com 15,55% dos
casos dentro do período.
Dos 258 (duzentos e cinquenta e oito) casos registrados de violência praticada contra a
população LGBTI no Brasil em 2013, conforme o Relatório da OEA sobre Violência contra a
População LGBTI/2015, em 223 (duzentos e vinte e três) casos, ou seja, em 86,43% das
ocorrências, não há informação sobre os autores (as) dos crimes.
Dos 90 (noventa) casos registrados de violência praticada contra a população LGBTI no
Brasil entre janeiro e março de 2014, ainda conforme o Relatório da OEA sobre Violência
67

contra a População LGBTI/2015, em 69 (sessenta e nove) casos, ou seja, em 76,66% das


ocorrências, não há informação sobre os autores(as) dos crimes.
Tais dados gritam uma pergunta que não pode ficar sem resposta: quem são os
responsáveis por tantas mortes? Quem são os responsáveis por tantos crimes? Enquanto o Brasil
não agir de forma eficiente para responsabilizar criminalmente tais agentes, estará omisso em
pelo menos uma de suas funções, a de proteger sua população.
Os dados acima evidenciam uma situação alarmante, carecedora de uma ação estatal
mais efetiva. Se por um lado a criminalização da homotransfobia pode não necessariamente
diminuir o número de mortes, por outro, a ausência dessa criminalização é conivente com
tamanha impunidade.
68

5 O MANDADO DE INJUNÇÃO (MI) E A AÇÃO DIRETA DE


INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO (ADO) COMO INSTRUMENTOS
JURIDICAMENTE VÁLIDOS PARA SANAR A OMISSÃO LEGISLATIVA EM
CRIMINALIZAR A HOMOTRANSFOBIA

Como o marco teórico da presente pesquisa é a integridade no direito, tanto sob o viés
genérico da integridade jurisprudencial, mas principalmente, no tocante à integridade na
legislação, torna-se indispensável uma análise mais aprofundada de duas ações de ordem
federal que tramitam na atualidade no Brasil. São elas: A Ação Direta de Inconstitucionalidade
por Omissão de número 26- ADO-26150, distribuída em 19/12/2013, e o Mandado de Injunção
de nº 4.733151, distribuído em 10/05/2012. Ambas as ações tem um escopo muito próximo que
é o de revelar a omissão inconstitucional de criminalização da homofobia e da transfobia. Sem
querer adentrar o mérito das ações, o qual se confunde com a própria hipótese testada na
presente dissertação, mas já adiantando a complexidade e a polemicidade da matéria, é possível
afirmar que os Ministros do Supremo deverão exercer um trabalho verdadeiramente hercúleo
no sentido dworkiano para julgar os referidos processos, os quais são evidentemente, muito
difíceis.
Fazendo a leitura da constituição sob a ótica da integridade é possível dela depreender
princípios que determinem a necessidade de criminalização da homofobia? Fazendo uma leitura
constitucional das normas de ordem criminal existentes, já não teriam elas o condão de efetivar
a proteção contra a violência física e moral sofrida pela população LGBTI, o que afastaria a
alegada omissão inconstitucional? Em casos semelhantes no passado o STF já proferiu decisões
que impliquem na necessidade de concessão da injunção ou do reconhecimento da omissão
legislativa no caso do MI 4.733152 e/ou da ADO. n. 26, pois entendimento contrário revelar-se-
ia incoerente? Caso a injunção seja denegada e/ou a omissão deixe de ser reconhecida, qual
ônus argumentativo recai sobre o STF para proferir uma eventual decisão nesse sentido?
As próximas cessões do presente capítulo objetivam tecer reflexões jurídicas sobre a
ADO. n. 26153 e sobre o MI. n. 4.733154, sugerindo possíveis respostas a essas perguntas.

150
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018a.
151
Ibidem, 2018b.
152
Ibidem.
153
Idem, 2018a.
154
Ibidem, 2018b.
69

5.1. A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26 como ferramenta de


proteção judicial: uma análise jurídica

A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão - ADO pode ser entendida como
uma espécie do gênero Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADI.
Os mecanismos de proteção judiciária podem atuar tanto sob uma ótica individual, como
é o caso do Habeas Corpus e do Habeas data, mas também por meio de um procedimento de
matriz coletiva, como é o caso da Ação Civil e da Ação Popular. Dentro desse prisma de
proteção judicial de interesses gerais de ordem coletiva insere-se a Ação Direita de
Inconstitucionalidade - ADI, a qual em controle concentrado, objetiva realizar o controle de
constitucionalidade das leis. Além da ADI, como mecanismos de controle de
Constitucionalidade, a Constituição da República de 1.988155 consagrou ainda outros
mecanismos jurisdicionais, tais como a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão,
como adiantado, uma espécie do gênero ADI, a Ação Declaratória de Constitucionalidade -
ADC e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF.
Escapa da limitada temporalidade dessa dissertação de Mestrado a possibilidade de um
tratamento mais aprofundado das citadas ações processuais. No entanto, como analisa-se no
presente trabalho de pesquisa uma ADO, a conceituação do tema é condição indispensável para
a correta abordagem da hipótese de omissão inconstitucional quanto à responsabilização
criminal de crimes praticados por homofobia, transfobia ou outras formas de discriminação
baseadas na orientação sexual e/ou identidade de gênero.
Delimitado esse panorama inicial, é necessário esclarecer que, em linhas gerais, a Ação
Direta de Inconstitucionalidade encontra como legitimados para sua propositura aqueles
previstos no artigo 103 da Constituição da República de 1.988, um rol numeros clausus
composto pelo Presidente da República, pela Mesa do Senado Federal, pela Mesa da Câmara
dos Deputados, pela Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito
Federal, pelo Governador de Estado ou do Distrito Federal, pelo Procurador-Geral da
República, pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, por partido político com
representação no Congresso Nacional ou por confederação sindical ou entidade de classe de
âmbito nacional156. Percebe-se ser um rol bastante restrito. A Ação Direta de
Inconstitucionalidade visa atacar inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou

155
Idem, 1988.
156
Ibidem.
70

estadual, como previsto no art. 102, I, “a”, da CRFB/88157. Ou seja, no que se refere à ADI
houve uma ação por parte do Legislativo ou de Executivo, esse último por meio de ato
normativo. No entanto, esse ato é eivado de vício de constitucionalidade.
A seu turno, a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão - ADO, objetiva a
superação de omissão inconstitucional causada pelo Legislativo ou pela Administração,
conforme previsto no artigo 103, § 2°, da CRFB/88, o qual assim dispõe:

Art. 103. Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória


de constitucionalidade:
[...]
§ 2º Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva
norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das
providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em
trinta dias.158

Em resumo é possível afirmar que a ADI desafia uma ação legislativa ou ato normativo
administrativo de natureza inconstitucional, enquanto a ADO revela uma ausência de
movimentação, por parte desses mesmos poderes, ausência essa igualmente inconstitucional.
Como adiantado, as referidas ações têm como escopo a proteção da ordem
constitucional, num aspecto mais genérico e abstrato. Apesar disso, as decisões nelas proferidas
podem incidir sobre direitos subjetivos, reverberando na esfera individual. Nesse sentido,
confira-se a disciplina de Gilmar Ferreira Mendes:

Todos esses processos são dotados de perfil objetivo e destinam-se à proteção da


ordem constitucional como um todo. As decisões neles proferidas, porém, podem
repercutir sobre posições individuais, especialmente no que concerne à
constitucionalidade ou inconstitucionalidade de atos normativos que afetem direitos
subjetivos. Daí a importância que podem assumir no sistema de proteção judicial. 159

Dentro do caso específico da ADO-26160, o STF deverá responder a uma pergunta


central: há omissão estatal em criminalizar a LGBTIfobia?, existe no ordenamento jurídico
brasileiro comando que implique na necessidade dessa criminalização? Se sim, qual seria essa
previsão normativa? Ao revés, se a resposta for negativa, qual o ônus argumentativo recairia
sobre a Suprema Corte brasileira para assim decidir?

157
Ibidem.
158
Ibidem.
159
MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 7. ed.
Brasília: Saraiva. 2012, p. 637.
160
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018a.
71

Sob a ótica da resposta positiva, salienta-se aqui a hipótese de ser a liberdade sexual um
direito fundamental. A expressão liberdade sexual é tomada aqui no sentido de direito a viver
a sexualidade e a identidade de gênero de forma livre de violências, opressões e discriminações.
Parte-se da premissa de que os atos de violência praticados contra a população LGBTI
em função do pertencimento dessas pessoas a esse grupo específico cerceiam direta e/ou
indiretamente o livre exercício da sexualidade LGBTI, por meio do extermínio direto, no caso
dos assassinatos, por meio da repressão, nos casos de violência não letal e, em ambos os casos,
por meio do exemplo negativo, ou seja, uma imagem simbólica de que essa população merece
a violência que contra ela é praticada.
Em síntese, partindo da premissa de que a liberdade sexual é espécie do gênero
liberdade, artigo 5º caput da Constituição da República Federativa do Brasil161, ou seja, ela é
um direito fundamental da pessoa humana, bem como diante da igualmente constitucional
previsão de que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades
fundamentais, norma inserta no inciso XLI do mesmo artigo 5° da CRFB/1988162, verifica-se a
ausência da correta punição daqueles que cometem atos de violência contra pessoas LGBTI,
uma omissão legislativa do Congresso Nacional, conduta que pode ser saneada por meio de
uma decisão positiva na ADO-26163, reconhecendo-se a referida omissão, disparando comando
para que norma criminal nesse sentido seja votada.
Por outro lado, caso a resposta seja negativa, ou seja, caso o STF entenda que não há
omissão estatal em criminalizar a LGBTIfobia, nos parece que a Suprema Corte Federal estaria
se afastando da jurisprudência que ela mesma já consolidou no passado, como nos casos em
que foi reconhecida a constitucionalidade da Lei Maria da Penha, bem como da Lei de Cotas
para o serviço público federal, e das uniões estáveis e casamentos homoafetivos e também na
decisão sobre o racismo no HC 82424164, por exemplo, atraindo um ônus argumentativo que

161
Idem, 1988.
162
Ibidem.
163
Idem, 2018a.
164
Habeas corpus impetrado perante o Supremo Tribunal Federal em favor de Siegfried Ellwanger, escritor e editor
que fora condenado em instância recursal pelo crime de anti-semitismo e por publicar, vender e distribuir material
anti-semita. O art. 5º, inciso XLII, da Constituição brasileira, estabelece que “a prática do racismo constitui crime
inafiançável e imprescritível”. Os impetrantes, baseados na premissa de que os judeus não são uma raça, alegaram
que o delito de discriminação anti-semita pelo qual o paciente fora condenado não tem conotação racial para se
lhe atribuir a imprescritibilidade que, pelo art. 5º, XLII, da Constituição Federal, teria ficado restrita ao crime de
racismo. O Plenário do Tribunal, partindo da premissa de que não há subdivisões biológicas na espécie humana,
entendeu que a divisão dos seres humanos em raças resulta de um processo de conteúdo meramente político-social.
Desse processo, origina-se o racismo que, por sua vez, gera a discriminação e o preconceito segregacionista. Para
a construção da definição jurídico-constitucional do termo “racismo”, o Tribunal concluiu que é necessário, por
meio da interpretação teleológica e sistêmica da Constituição, conjugar fatores e circunstâncias históricas, políticas
e sociais que regeram a sua formação e aplicação. Apenas desta maneira é possível obter o real sentido e alcance
da norma, que deve compatibilizar os conceitos etimológicos, etnológicos, sociológicos, antropológicos e
72

deverá demonstrar tratar-se o caso da LGBTIfobia de uma situação distinta, não carecedora de
tratamento especial, ou até mesmo, devendo demonstrar que há uma superação das teses
anteriormente construídas.
Na verdade, não se espera que o STF trilhe esse caminho, pois na prática, além de
contrariar a jurisprudência que vinha construindo no sentido de interpretar a Constituição
Federal de 1988165 como um instrumento de garantia dos direitos fundamentais, o STF estaria
reforçando a possibilidade do cometimento de crimes de ódio contra a sexualidade, melhor
dizendo, crimes de ódio contra a liberdade sexual, num sentido de omissão, estaria legitimando
a prática desses crimes.

5.2 Uma breve análise da ADO N. 26

A presente síntese foi desenvolvida conforme o andamento processual completo da


ADO n. 26 tal como se encontra no sítio eletrônico do Supremo Tribunal Federal166.
Em 19 de dezembro de 2013 a Petição Inicial da ADO n. 26167 foi distribuída sob a
Relatoria do Ministro Celso de Melo. O Partido Popular Socialista-PPS, representado pelo
Advogado Paulo Roberto Iotti Vecchiatti, com fundamento legal no artigo art. 5º, XLI, XLII e
LIV da Constituição da República Federativa do Brasil168, distribuiu a referida petição em face
do Congresso Nacional, petição que, em apertada síntese registra que: a) o objetivo da ADO é
obter a criminalização específica de todas as formas de homofobia e transfobia, no que se refere
às ofensas (individuais e coletivas), dos homicídios, das agressões, ameaças e discriminações
motivadas pela orientação sexual e/ou identidade de gênero, real ou suposta, da vítima com
base na ordem constitucional de: 1º criminalizar (mandado de criminalização) relativa ao
racismo (art. 5º, XLII169) ou, subsidiariamente, 2º às discriminações atentatórias a direitos e
liberdades fundamentais (art. 5º, XLI170) ou, ainda subsidiariamente, 3º ao princípio da

biológicos. Asseverou-se que a discriminação contra os judeus, que resulta do fundamento do núcleo do
pensamento do nacional-socialismo de que os judeus e os arianos formam raças distintas, é inconciliável com os
padrões éticos e morais definidos na Constituição do Brasil e no mundo contemporâneo, sob os quais se ergue e
se harmoniza o Estado Democrático de Direito. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Habeas Corpus nº 82.424 -
Diário da Justiça - 19/03/2004. Brasília: STF, 2004.
165
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
166
Para a visualização da integralidade das peças processuais é necessário o cadastramento junto ao STF, bem
como o uso de certificação digital. Idem, 2018a.
167
Ibidem.
168
Idem, 1988.
169
Ibidem.
170
Ibidem.
73

proporcionalidade na acepção de proibição de proteção deficiente (art. 5º, LIV, da CRFB/88171).


Percebe-se que a presente dissertação comunga da segunda tese acima disposta, sem afastar-se
é claro das outras teses. No entanto, por partir da premissa do direito como integridade sob a
ótica da integridade na legislação, a presente Dissertação coloca a violação aos direitos e
liberdades fundamentais como motivo principal para reconhecimento da omissão legislativa em
criminalizar a homofobia e a transfobia, reconhecendo as outras duas teses constantes da
exordial da ADO. n. 26172 como caráter subsidiário; b) demonstrou a legitimidade do Partido
Popular Socialista-PPS, para propositura da ação, observado o artigo 103, VIII da CRFB/88173;
c) ainda segundo a Petição Inicial da ADO n. 26174, a omissão do Congresso Nacional em
criminalizar a homofobia e a transfobia ofende: o princípio da proporcionalidade na vertente da
vedação à proteção deficiente e hierarquiza as opressões, pois atualmente outras minorias
possuem tratamento legal protetivo, carecendo a população LGBTI desse mesmo tratamento.
d) Com base nesses argumentos, o PPS formulou os seguintes pedidos: 1º) Seja reconhecida a
mora legislativa em criminalizar a homofobia, a transfobia e outras formas e discriminação
baseadas na orientação sexual e/ou na identidade de gênero, estabelecendo-se prazo razoável
(tendo sido sugerido o prazo de um ano) para a elaboração de norma criminalizadora; 2º)
Ultrapassado o prazo sem criminalização, ou caso considere-se desnecessária a concessão
desse, seja aplicada a Corrente Concretista Geral como feito no caso de Mandado de Injunção
que regulamentou o direito de greve dos servidores públicos, de modo a ser reconhecido que a
Lei 7716/89 deve ser aplicada também à homofobia e à transfobia; 3º) Finalmente, requereu a
Responsabilização Civil do Estado de forma a indenizar as vítimas de todas as formas de
homofobia e transfobia decorrentes de suas orientações sexuais e/ou identidades de gênero,
reais ou presumidas. Caso não possível das vítimas pretéritas, ao menos da vítimas assim
conhecidas após o reconhecimento da omissão legislativa.
Em 12 de março de 2014 foram requisitadas informações aos Senhores Presidentes da
Câmara dos Deputados e do Senado Federal, conforme dispõe a Lei Federal nº 9.868/99175, a
qual versa, dentre outras matérias, sobre a tramitação de ADI/ADO.
Em 06 de novembro de 2014 o Senado Federal presta informações, registrando em
síntese que: a) a decisão monocrática inicial do Ministro Ricardo Lewandowski ao não

171
Ibidem.
172
Idem, 2018a.
173
Ibidem.
174
Ibidem.
175
Idem, 1999.
74

conhecer do Mandado de Injunção – MI. n. 4733176 deveria constituir precedente para o


julgamento da ADO n .26177. Naquele momento (06/11/2014) o referido Ministro não conheceu
do M. n.I 4733, decisão reformada posteriormente. b) que já existe previsão penal para punição
dos crimes de ameaça, lesão corporal, homicídio, etc., inexistindo, sob a ótica do Senado
Federal, omissão nem tampouco, mandado de criminalização; c) questionou o fato de criação
de normas sancionadoras diminuírem a violência, aduzindo ser melhor a correta aplicação das
leis já existentes do que a criação de novas leis; d) informou que sob a ótica do Senado Federal
o racismo e a homofobia não se confundem e que a aplicação analógica das normas da Lei 7716
feriria o princípio da reserva legal insculpido no inciso XXIX do artigo 5° da CRFB/88 178; e)
arguiu inexistência de mora legislativa pois tramitam no Congresso diversos projetos de lei
cuidando da homofobia e da transfobia, tendo o Senado mencionado a ementa desses projetos
de Lei em sua prestação de informações; f) Alegou ainda que na esfera legislativa “uma não
decisão” é também uma decisão, visto que o consenso é fundamental para a aprovação de leis
e se esse não é alcançado politicamente não existe forma de se obrigar o Legislativo a decidir-
se num ou noutro sentido, sendo normal a mora para se alcançar um consenso. Sobre esse último
ponto, é necessário fazer uma crítica. Receber como natural a tramitação de projetos de lei por
anos ou décadas é reconhecer a própria ineficiência, o que o Senado acabou fazendo em sua
Prestação de Informações na ADO n. 26179; g) Finalmente buscou afastar a possiblidade de uma
sentença aditiva, as quais são comuns em Mandados de Injunção e Ações Diretas de
Inconstitucionalidade por Omissão, por que nesse exercício o STF estaria a substituir o
Legislador. Novo parêntese se faz necessário aqui: os remédios constitucionais mencionados
pelo Senado como violadores da separação dos poderes são exatamente a consubstanciação do
sistema de freios e contrapesos, evitando-se que um Legislativo tendencioso, ao cuidar de
matéria que não tem o desejo de votar, fique ad eternum deliberando sobre algo que jamais, ou
apenas num futuro muito distante, aprovará. Mais uma vez, a prestação de informações do
Senado revela muito mais do que está dito expressamente. h) requereu sejam indeferidos os
pedidos constantes da petição inicial da ADO n. 26180, não sem antes criticar o
neoconstitucionalismo, principalmente no que se refere à expansão do papel do judiciário, em
prejuízo dos demais poderes, como por exemplo, o Legislativo.

176
Idem, 2018b.
177
Idem, 2018a.
178
Idem, 1988.
179
Idem, 2018a.
180
Ibidem.
75

Em 12 de novembro de 2014 a Câmara dos Deputados presta suas informações,


aduzindo, em apertada síntese: que a Câmara dos Deputados, por meio de seu então Presidente,
reafirmou a posição institucional da Casa a qual, em 23 de novembro de 2006 aprovou o Projeto
de Lei nº 5.003, de 2001181 que determina sanções às práticas discriminatórias em razão da
orientação sexual das pessoas. Após a aprovação, o referido projeto de lei foi encaminhado ao
Senado Federal. A prestação de informações da Câmara dos Deputados possui apenas duas
laudas e sugere que a função daquela Casa Legislativa encerrou-se com a aprovação do Projeto
de Lei n° 5.003/2001182, estando o Senado e não a Câmara, em mora legislativa.
Em 09 de março de 2015 a relatoria despachou no sentido de determinar a manifestação
do Procurador-Geral da República sobre a admissibilidade da ADO n. 26183, principalmente no
que se refere ao fato de a ADO cuidar ou não de analogia in malam partem quanto à aplicação
da Lei Federal 7.716/89184, a qual define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.
Em 16 de junho de 2015 a PGR manifestou-se nos autos registrando, em síntese que:
1. a ADO possui natureza objetiva, não sendo admissível a imposição de indenizações
pecuniárias às vítimas de homofobia e transfobia a serem pagas pelo Estado nessa estreita via;
2. o conceito de raça constante da Lei nº 7.716/89185 deve receber interpretação conforme a
Constituição. Desse modo, o reconhecimento com base na referida lei de que os
comportamentos discriminatórios e preconceituosos contra a população LGBTI não se trata de
analogia in malam partem, mas sim em interpretação conforme a Constituição. 3. O mandado
de criminalização constante do artigo 5º, inciso XLII da Constituição da República 186 abrange
a criminalização de condutas homofóbicas e transfóbicas; 4. Caso não se entenda que a Lei
7.716/89187 abarcou também a homofobia e a transfobia, haverá omissão inconstitucional do
Congresso Nacional, com necessidade de concessão de prazo para publicação de norma para
sanear a referida omissão; 5. A existência de projetos de lei em tramitação cuidando dessa
matéria não afasta a mora legislativa em virtude do longo prazo de tramitação desses, atraindo
a chamada inertia deliberandi. 6. A ausência de tutela judicial concernente à criminalização da
homofobia e da transfobia confere proteção deficiente ao bem jurídico tutelado, com
desrespeito ao sistema constitucional. 7.O posicionamento constante do Parecer da PGR foi

181
BERNARDI, Iara. Projeto de Lei nº 5.003, de 2001. Determina sanções às práticas discriminatórias em razão
da orientação sexual das pessoas.
182
Ibidem.
183
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Relator: Celso
de Mello. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 11 dez. 2018.
184
Idem, 1989a.
185
Ibidem.
186
Idem, 1988.
187
Idem, 1989a.
76

pelo conhecimento parcial da ADO e, no mérito, pelo reconhecimento dos pedidos na parte
conhecida, excluído apenas o pedido de indenização a ser custeada pelo Estado.
Em 09 de novembro de 2018, a relatoria determinou a necessidade de manifestação da
Advogada-Geral da União para os fins a que se referem o art. 12-E, parágrafo 2º, da Lei nº
9.868/99188, que dispõe, dentre outras coisas, da tramitação da ADO/ADI.
Em 16 de novembro de 2018, a AGU se manifesta nos autos;
Em 20 de novembro de 2018, o relator pediu inclusão em pauta para julgamento do
pleno com proposta de julgamento conjunto do MI 4.733/DF189;
Em 28 de novembro de 2018, a Secretaria incluiu em pauta para julgamento com data
prevista para 12/12/2018;
Em 07 de dezembro de 2018, o Relator tornou disponível seu Relatório;
Em 10 de dezembro de 2018, a ADO 26190 é retirada da pauta de julgamento do dia
12/12/2018;
Em 14 de dezembro de 2018, a ADO 26191 é reincluída em pauta, com data de
julgamento prevista para o dia 13 de fevereiro de 2019.
Ao longo de todo a tramitação, desde a distribuição até o presente momento, diversas
entidades foram habilitadas como amici curiae, merecendo destaque: O Grupo Gay da Bahia;
A Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais- ABGLT; o Grupo de
Advogados pela Diversidade Sexual-GADVS; a Associação Nacional de Juristas Evangélico;
o Conselho Federal de Psicologia; a Associação Nacional de Travestis e Transexuais - ANTRA,
dentre outros. É importante registrar ainda que as entidades mencionadas acima tiveram sua
habilitação deferida. Ao longo do processo, houve porém, uma entidade inadmitida de
participar na condição de amici curiae, a Associação Eduardo Banks. A admissão de amici
curiae é importante porque esses podem realizar sustentação oral, assegurando o devido
processo legal, assim entendido não somente quanto ao exercício do contraditório e da ampla
defesa, mas também no sentido de possibilidade de influenciar a decisão jurisdicional.
A ADO n. 26192 segue seu curso processual regular, sem data prevista para inclusão na
pauta de julgamento.

188
Idem, 1999.
189
Idem, 2018b.
190
Idem, 2018a.
191
Ibidem.
192
Ibidem.
77

5.3 O Mandado de Injunção (MI) como ferramenta de proteção judicial. Uma análise
jurídica

Existem circunstâncias nas quais a ausência de norma clara e regulamentadora redunda


na impossibilidade de exercício por parte dos cidadãos de liberdades e de direitos de ordem
constitucional. Em seu artigo 5º, inciso LXXI, a CRFB/88193 ofertou o Mandado de Injunção
como remédio constitucional para atacar e sanear esse tipo de omissão legislativa. O referido
artigo assim dispõe:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
LXXI - conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma
regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e
das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania;
[...]194

Fazendo uma leitura da Constituição e da legislação brasileira infraconstitucional sob a


ótica da integridade no direito, a presente pesquisa de Mestrado pretende demonstrar que a
violência sofrida pela população LGBTI, violência essa nominada como homofobia, transfobia
ou ainda sob os neologismos homotransfobia e LGBTIfobia, prejudica e muitas vezes impede
que essa população exerça plena e publicamente seu direito fundamental à liberdade sexual,
aqui entendida como direito ao livre exercício da orientação sexual e/ou de sua identidade de
gênero.
Em função do tempo e da complexidade do tema aqui trabalhado, nem se chega a tratar
nessa dissertação da circunstância em que pessoas heterossexuais, por apresentarem alguma
característica física ou comportamental que pode em alguma medida ser associada à população
LGBTI, também tenham sua liberdade sexual violada. A sexualidade humana é algo tão
complexo que não pode ser enquadrada nos padrões generalizantes que pretende o Estado
Moderno195. Não raro, pessoas heterossexuais, uma vez confundidas com homossexuais,
sofrem o mesmo tipo de violência que a população LGBTI sofre, o que evidentemente ofende

193
Idem, 1988.
194
Ibidem.
195
MORAES, Daniel; BAHIA, Alexandre. Desafios aos Direitos Humanos na questão LGBT: (in)capacidade de
absorção das demandas pelo Estado brasileiro das normas de Direito Internacional. In: SOARES, Mário Lúcio
Quintão; SOUZA, Mércia Cardoso de (Orgs.). A Interface dos Direitos Humanos com o Direito Internacional.
Belo Horizonte: Fórum, 2015, v. I. Cap. 08, p. 45-66.
78

o ordenamento jurídico196. Assim, a criminalização da homotransfobia deve proteger tanto a


orientação sexual e a identidade de gênero reais bem como as presumidas.
Sob o recorte específico da população LGBTI, respaldado no alarmante número de casos
de violência sofrida por essa população, como já adiantado no capítulo 04 da presente
Dissertação, notadamente os números trazidos pelo Relatório da Comissão Interamericana
sobre Direitos Humanos sobre a violência cometida contra a população LGBTI nas Américas
(OEA/2.015), pretende-se demonstrar que essa violência praticada tanto na esfera privada,
quando familiares atuam contra membros LGBTI e, principalmente na esfera pública, quando
pessoas ou grupos de pessoas (religiosos, por exemplo) atuam deliberadamente com atos de
violência física ou moral contra pessoas LGBTI, inviabiliza o exercício do direito fundamental
à livre orientação sexual e à livre identidade de gênero, uma vez que diversas pessoas se sentem
impedidas de assumir plenamente seu pertencimento à população LGBTI exatamente pelo
temor de vivenciarem algum tipo de retaliação como a perda de oportunidades de emprego,
perda de relacionamentos afetivos/amizades, ou temor em sofrer violência física e/ou moral,
uma vez que os números demonstram como essa população sofre maior risco de morte por essa
motivação, notadamente os homens homossexuais e as mulheres trans, como discutido no
Capítulo 04.
A ausência de norma que puna eficazmente esse tipo de violência prejudica a população
LGBTI, a qual é condenada a enquadrar-se, ao menos na esfera pública, a um padrão
comportamental condizente com a chamada heteronormatividade197. Apesar da existência de
norma constitucional que preveja a necessidade de responsabilização criminal desse tipo de
conduta violenta, artigo 5º, inciso XLI da CRFB/88198 (“a lei punirá qualquer discriminação
atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”), uma vez que a liberdade sexual é um
direito fundamental, a verdade é que inexiste norma federal vigente que regulamente o

196
Fica aqui como sugestão de pesquisas futuras uma análise mais aprofundada dos prejuízos que a homotransfobia
traz também para a população heterossexual, tanto sob o aspecto econômico de cerceamento à melhores condições
materiais de ensino e trabalho, bem como em função do impedimento da vivência de uma sexualidade de forma
plena, sem as pressões sociais padronizantes de um estereótipo homem padrão/mulher padrão, ou até mesmo para
além das visões homem/mulher.
197
A heteronormatividade visa regular e normatizar modos de ser e de viver os desejos corporais e a sexualidade
De acordo com o que está socialmente estabelecido para as pessoas, numa perspectiva biologicista e determinista,
há duas – e apenas duas – possibilidades de locação das pessoas quanto à anatomia sexual humana, ou seja,
feminino/fêmea ou masculino/macho. MEYER, Dagmar Elisabeth Estermann; PETRY, Analídia Rodolpho.
Transexualidade e heteronormatividade: algumas questões para a pesquisa. Textos & Contextos: Porto Alegre,
v. 10, n. 1, p. 193 -198, jan./jul. 2011, p. 195.
198
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
79

mencionado artigo 5º, inciso XLI199 no tocante à discriminação atentatória aos direitos
fundamentais da população LGBTI, omissão regulamentadora que viabiliza a propositura de
mandados de injunção, tanto coletivos, como o já proposto MI. n. 4.733200 (mandamus que será
melhor descrito abaixo), bem como mandados de injunção individuais.
O mandado de injunção foi regulamentado pela Lei Federal nº 13.300/2016, publicada
no Diário Oficial da União em 23 de junho de 2016, disciplinando o processo e o julgamento
dos mandados de injunção individual e coletivo201.
Apresenta-se o mandado de injunção como alternativa aplicável à violência sofrida pela
população LGBTI, uma vez que existe norma constitucional expressa pela responsabilização
criminal de discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais, artigo 5º, inciso
XLI da CRFB/88202, porém, como mencionado anteriormente, inexiste norma específica que o
regulamente.
O que existem são normas gerais que punem crimes contra a honra, a integridade física
e a vida no Código Penal203. Ademais, há leis que tratam como crime algumas formas de
discriminação. Entre todas a mais abrangente – ainda que alcance apenas algumas hipóteses de
discriminação – é a “Lei do Racismo”, Lei nº 7.716/1989204. Vale a pena lembrar que esta lei,
inicialmente, surge como regulamentadora do art. 5o, XLII – CR/88205, restringindo-se a
questões de “raça e cor”. No entanto, modificação posterior, lei nº 9.549/97206, acrescentou que
também serão punidos, na forma daquela lei, os crimes resultantes da discriminação ou
preconceito por etnia, religião ou procedência nacional. Dessa forma, percebe-se que a lei não
considera a discriminação/preconceito apenas de uma perspectiva “biológica/fenotípica”, mas
reconhece que o racismo possui uma natureza estrutural e social bem mais abrangente.
Como disciplina o artigo 3º da Lei nº 13.300/2016207, podem impetrar mandado de
injunção as pessoas naturais ou jurídicas que se afirmam titulares dos direitos, das liberdades
ou das prerrogativas carecedoras de norma regulamentadora. Por sua vez, o sujeito passivo, ou
seja, o órgão impetrado será o poder, o órgão ou a autoridade com atribuição para editar a norma
regulamentadora, ainda conforme disposto no artigo 3º da Lei 13.300/2016.

199
Ibidem.
200
Ibidem, 2018b.
201
Idem, 2016.
202
Idem, 1988.
203
Idem, 1940.
204
Idem, 1989a.
205
Idem, 1988.
206
Idem, 1997.
207
Idem, 2016.
80

A petição inicial do Mandado de Injunção deve respeitar os requisitos da lei processual e


estar endereçada ao órgão competente para a edição da lei bem como indicar a pessoa jurídica
que esse órgão integra ou está vinculado, previsão sediada no artigo 4º da Lei 13.300/2016.
Uma vez reconhecida a mora legislativa, a injunção será deferida, com determinação de
prazo razoável para que o impetrado edite norma regulamentadora. Tal regramento encontra-se
sediado no artigo 8º, inciso I da Lei 13.300/2016.
Aqui é necessário mencionar que a palavra mora deve ser interpretada conforme a
Constituição. O artigo 5º, inciso LXXVIII da Constituição da República Federativa do Brasil
assim dispõe: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração
do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Não cabe ao órgão
legislativo meramente propor projeto de lei e ficar sem se pronunciar quanto a ele por anos,
muitas vezes por décadas. A mera propositura do projeto de lei não saneia a ausência de norma
regulamentadora. Os Regimentos Internos das Casas Legislativas são normas que disciplinam
a administração dos procedimentos a serem votados naquelas casas. A demora em votar projetos
de lei que criminalizam a homotransfobia/LGBTIfobia ofende a razoável duração do processo,
assim entendido como processo legislativo. Por isso, o prazo razoável para o impetrado editar
norma deve ser lido como prazo suficiente, mas não indeterminado, para edição legislativa, sob
pena de que a injunção concedida perca sua eficácia. Ultrapassado o prazo concedido, o inciso
II do artigo 8º da Lei Federal 13.300/2016208 permite que a autoridade judiciária “[...] estabeleça
as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas
reclamados ou ainda as condições em que poderá o interessado promover ação própria visando
a exercê-los”, posto que a mora regulamentadora não pode eternizar a ausência do exercício de
liberdades e direitos fundamentais.
Assim como adiantado para o caso da ADO. n. 26209, caso a injunção seja concedida no
caso do MI. n. 4733210, o STF estará reconhecendo o caráter de liberdade individual da
sexualidade, mantendo íntegra sua jurisprudência, principalmente no que se refere ao
reconhecimento da união estável homoafetiva. Por outro lado, caso a injunção seja denegada, a
própria Suprema Corte estará atraindo para si o ônus de demonstrar no que essa situação
específica difere de outros casos julgados no passado, ou até mesmo, a superação das teses
construídas pelo maior, em sentido de soberania, órgão jurisdicional brasileiro.

208
Ibidem.
209
Idem, 2018a.
210
Idem, 2018b.
81

5.4 Uma breve análise do MI 4733

Assim como feito para analisar a ADO n. 26211, a presente síntese foi desenvolvida
conforme o andamento processual completo do MI. n. 4.733 tal como esse se encontra no sítio
eletrônico do Supremo Tribunal Federal212.
Em 10 de maio de 2012 a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros
- ABGLT, representada pelo Advogado Paulo Roberto Iotti Vecchiatti, impetrou o Mandado
de Injunção ora analisado em face do Congresso Nacional, o qual foi distribuído, naquela
ocasião, à Relatoria do Ministro Ricardo Lewandoswski. Em apertada síntese a Petição Inicial
do MI. n. 4.733213 contém as seguintes informações: requereu-se a criminalização específica da
homofobia e da transfobia porque o quadro de violência praticado contra a população LGBTI
torna inviável o exercício dos direitos fundamentais à livre orientação sexual e à livre identidade
de gênero das pessoas LGBTI; aduziu-se existir proteção deficiente quanto à matéria e que
existe obrigação constitucional em criminalizar a homofobia e a transfobia, porquanto, em seu
entender, a homofobia e a transfobia constituem-se espécies do gênero racismo, enquadrando-
se tais discriminações no conceito de discriminações atentatórias dos direitos e liberdade
individuais previstas no inciso XLI do artigo 5º da CRFB/88214. Entende ainda o impetrante que
a referida criminalização é devida como meio de afastar a hierarquização das opressões, sendo
certo que a ausência de criminalização afronta o direito à igual proteção penal. Concedida a
injunção, sugere como prazo de um ano o tempo necessário para o Congresso legislar sobre a
matéria. Ultrapassado esse prazo, ou entendida a desnecessidade de sua concessão, requer seja
aplicado o entendimento de que a homofobia e a transfobia sejam tidas como espécies do gênero
racismo conforme Lei Federal nº 7.716/89215. Finalmente, requereu o reconhecimento da
Responsabilidade Civil do Estado pela ausência da criminalização das referias condutas.
Recebidos os autos em 21 de junho de 2012, a relatoria requisitou informações, bem
como determinou fosse dada ciência à Advocacia Geral da União para, querendo, ingressar no
feito. Após os referidos atos, requereu a manifestação da Procuradoria Geral da República.

211
Idem, 2018a.
212
Para a visualização da integralidade das peças processuais é necessário o cadastramento junto ao STF, bem
como a utilização de certificação digital. No entanto, especificamente em relação a MI, nem todas peças encontram
se disponíveis para visualização, mesmo por meio do uso de certificação digital. A síntese abaixo é bastante
completa, no entanto, restringe-se as peças efetivamente publicadas pelo STF nos autos do MI-4733. Idem, 2018b.
213
Ibidem.
214
Idem, 1988.
215
Idem, 1989a.
82

Em 27 de junho de 2012, em cumprimento ao despacho supra, a Secretaria do Juízo


expediu ofício encaminhando cópias da Petição Inicial à Presidência do Senado Federal, à
Presidência da Câmara Federal e à Advocacia Geral da União.
Em 06 de agosto de 2012 o Presidente da Câmara dos Deputados presta informações,
assinalando que: tramita naquela casa o Projeto de Lei nº 5.003/2001216 que dispõe sobre
sanções a serem impostas à conduta homofóbica, concluindo pela impossibilidade de
equiparação da ausência de lei que criminalize a homofobia e a transfobia a uma omissão
inconstitucional, nem tampouco que a criminalização dessas condutas seja decorrente de um
mandamento constitucional para sua criminalização. A Presidência da Câmara dos Deputados
entendeu ainda pela impossibilidade de responsabilização civil por ausência de edição de
norma.
Em 17 de agosto de 2012 os autos são conclusos à Procuradoria Geral da República.
Em 23 de agosto de 2012 a União requer sua inclusão no feito, a extinção do processo
e a intimação pessoal dos atos processuais.
Em 14 de agosto de 2013 a Procuradoria Geral da República, por meio do então
Procurador Geral Roberto Gurgel, emite parecer posicionando-se pelo não cabimento do
mandado de injunção para o caso, com a consequente extinção do feito sem julgamento do
mérito por entender que inexiste mora legislativa quando projeto de lei que tem como objeto o
buscado no MI encontra-se em tramitação no Congresso Nacional.
Em 15 de agosto de 2013, os autos são conclusos ao Ministro Relator.
Em 24 de agosto de 2013 o Relator acolhe o Parecer da Procuradoria Geral da
República, não conhecendo do mandado de injunção por entender haver manifesta inviabilidade
da via injuncional. Ainda que por outras palavras o Ministro Relator decidiu pela ausência de
direito subjetivo concreto e especificamente consagrado na Constituição Federal que não esteja
sendo usufruído por seus destinatários por ausência de norma regulamentadora que deve ser
editada pelo Congresso Nacional. Sobre tal posicionamento vale dizer: os atos violentos
cometidos contra a população LGBTI restringem o livre exercício da liberdade sexual, ao
menos na ceara pública, fazendo com que muitos relacionamentos sejam experimentados
somente na via privada, cerceando assim que casais LGBTI possam viver seus direitos
fundamentais de forma plena, como podem viver os casais heterossexuais. Há ainda não raros
casos em que a família também exerce violência contra a população LGBTI, ocasião em que
esse direito fundamental não pode ser vivido de forma plena nem mesmo no espaço privado.

216
BERNARDI, op. cit.
83

Dessa forma, a ausência de norma penal que criminalize a homofobia e a transfobia, bem como
os atos de violência praticados contra a população LGBTI violam sim o direito ao livre
exercício da sexualidade, entendida nessa Dissertação como liberdade sexual, merecendo a
mais dura censura o posicionamento arcaico esposado pelo então Relator do MI. n. 4733,
Ricardo Lewandowski, o qual, acolhendo o Parecer do então Procurador Geral da República,
Roberto Gurgel, não conheceu do MI. Percebe-se que tanto o então Relator quanto o então
Procurador-Geral recebem os direitos constitucionais como numerus clausus, afastando o
entendimento da Constituição como um projeto aberto à inclusão de novos direitos e novos
sujeitos.
Em 28 de agosto de 2013 a referida decisão é publicada.
Em 01 de novembro de 2013 a parte impetrante interpõe Agravo Regimental,
objetivando a reforma da decisão de não conhecimento do Mandado de Injunção.
Em 28 de novembro de 2013 a relatoria requereu o pronunciamento da Procuradoria-
Geral da República sobre as razões do Ag. Regimental, sendo os autos conclusos à PGR na
mesma data.
Em 25 de julho de 2014 foi publicada a manifestação da PGR sobre o Ag. Regimental
que assim entendeu: o Agravo Regimental deve ser provido. A tramitação de projetos de lei por
mais de uma década frustra a força normativa da Constituição. A ausência de criminalização da
homofobia e da transfobia evidencia a proteção deficiente, em prejuízo da Constituição e do
bem jurídico tutelado. Em síntese, a nova manifestação da PGR foi pelo conhecimento e
provimento do Ag. Regimental.
Em 16 de junho de 2015 foi publicada a substituição do Ministro Relator, sendo agora
os autos conclusos à Relatoria do Ministro Edson Fachin;
Em 17 de junho de 2015 foi publicada a decisão do novo Relator, Ministro Edson
Fachin, em juízo de reconsideração, no sentido de determinar o processamento do mandado de
injunção. Foram juntadas novas manifestações da União, do Senado Federal e da Procuradoria
Geral da República.
Em 14 de setembro de 2016 a Procuradoria-Geral da República, na pessoa do então
Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, emite parecer no sentido de que: é incabível a
responsabilização civil do Estado em sede de Mandado de injunção; o conceito de raça previsto
na Lei 7716/89 deve receber interpretação conforme a Constituição de forma a abarcar também
84

a homofobia e a transfobia; o mandado de criminalização do inciso XLII do artigo 5°217 alcança


também a homofobia e a transfobia; que caso não se entenda que a Lei nº 7716/89218 possa
assim ser interpretada, o Congresso Nacional encontra-se em mora, cabendo-se a fixação de
prazo para saneamento; a existência de projetos de lei em curso não afasta a mora, por inertia
deliberandi; o Parecer foi pelo concessão parcial da injunção, afastado somente o pedido de
responsabilização civil do Estado Brasileiro.
Em 04 de setembro de 2017 os autos foram conclusos ao Ministro Relator.
Em 17 de outubro de 2017 o Relator determinou que os autos fossem inclusos em
pauta.
Em 27 de setembro de 2018 foi designada data para julgamento, qual seja, o dia 14 de
novembro de 2018, às 9:30.
Em 08 de novembro de 2018, a parte autora requer adiamento do julgamento, para que
esse se dê na mesma data do julgamento da ADO. n. 26219, em função da similitude das matérias
tratadas em ambos os remédios constitucionais.
Em 12 de novembro de 2018 a Relatoria, acolhendo as razões da parte impetrante, e
requereu a exclusão do feito da pauta de julgamento, entendendo ser realmente recomendável
o julgamento do MI em conjunto com a ADO. n. 26220.
Em 14 de novembro de 2018, foi publicado o Relatório do MI. n. 4733221, o qual sedia
a síntese do feito até o presente momento.
Em 16 de novembro de 2018 foi exatamente a decisão que exclui o feito da pauta de
julgamento então prevista para 14 de novembro de 2018, com o intuito de julgamento conjunto
com a ADO-26222, então previsto para 12/12/2018;
Em 28 de novembro de 2018, o MI-4733223 fora incluído na pauta de julgamento do
dia 12/12/2018;
Em 10 de dezembro de 2018, o processo foi excluído da pauta de julgamento do dia
12/12/2018;

217
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
218
Idem, 1989a.
219
Idem, 2018a.
220
Ibidem.
221
Idem, 2018b.
222
Idem, 2018a.
223
Idem, 2018b.
85

Em 14 de dezembro de 2018, o processo foi reincluído em pauta de julgamento, sendo


designada a data de 13 de fevereiro de 2019, para julgamento em conjunto com a ADO-26224;
Ao longo do processo, algumas entidades foram admitidas como amici curiae. Foram
elas: o Conselho Federal de Psicologia, o Grupo Dignidade- Pela Cidadania de Gays, Lésbicas
e Transgêneros e o Instituto Brasileiro de Direito de Família, IBDFAM.
Verificando-se os autos, o MI. n. 4733225 encontra-se plenamente pronto para
julgamento, como inclusive o seria em 14 de novembro de 2018. No entanto, em virtude da
grande similitude entre a matéria desse e aquela discutida na ADO. n. 26226, foi muito acertada
a decisão de adiamento para que ambas as decisões sejam proferidas na mesma data.
Finalizando capítulo, é possível concluir que há duas correntes muito claras no STF,
uma que nos parece minoritária, a qual entende a Constituição como um projeto dotado de
direitos numerus clausus, havendo cabimento da Impetração de Mandados de Injunção e de
Ações Diretas de Inconstitucionalidade por Omissão somente nos casos em que a ausência de
norma específica e regulamentadora impeça o exercício dos direitos expressamente previstos
na Constituição. Uma outra corrente, a qual nos parece majoritária, reconhece que outros
direitos não expressamente previstos, mas claramente relacionados aos direitos fundamentais
já positivados na Constituição da República do Brasil227, merecem ser conhecidos e assegurados
de forma a sanear as inconstitucionais omissões que prejudicam a possibilidade do exercício
desses direitos fundamentais. Somente o tempo dirá qual tese restará vencedora.
Como já apresentado anteriormente, partindo-se da integridade no direito,
especificamente sob a ótica da integridade na legislação, a nós nos parece que a resposta mais
adequada, “a única resposta correta” será a de concessão da injunção e do reconhecimento da
omissão legislativa, sendo necessária a edição de norma que criminalize a prática dos assim
chamados crimes de ódio, com destaque para a criminalização da LGBTIfobia.
Subsidiariamente, caso o Congresso assim não o faça, o STF deverá aplicar à Lei 7.716/89228
interpretação conforme a Constituição, de forma a reconhecer a homofobia e a transfobia como
espécies do gênero racismo. Entendimento diverso implicaria na renúncia do STF de teses já
anteriormente abraçadas, como a da constitucionalidade da Lei Maria da Penha229, a da
Constitucionalidade da Lei de Cotas Raciais para o Serviço Público Federal-ADC 41230 , o

224
Idem, 2018a.
225
Idem, 2018b.
226
Idem, 2018a.
227
Idem, 1988.
228
Idem, 1989a.
229
Idem, 2006.
230
Idem, 2017.
86

reconhecimento das Uniões Estáveis Homoafetivas- ADI 4277231 e do HC 82424232, com


destaque para o ônus argumentativo de demonstrar sua superação (overrulling) ou tratar-se a
matéria da violência sofrida pela população LGBTI de um caso distinto (distinguishing), o que
não se espera, é bem verdade, pois restaria afastada a integridade no direito, ao menos na forma
de coerência tratada na presente Dissertação.

231
Idem, 2011.
232
Idem, 2003.
87

6 A INEFICÁCIA DOS TIPOS PENAIS JÁ POSITIVADOS PARA A CORRETA


RETRIBUIÇÃO/REEDUCAÇÃO DAQUELES QUE APRESENTAM CONDUTA
HOMOTRANSFÓBICA. O CASO BALIERA, DENÚNCIA DO ESTADO BRASILEIRO
JUNTO À COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS

6.1 O Caso Baliera. Um breve resumo

André Gomes Cardoso Baliera é um servidor público paulista, brutalmente espancado


por motivação homofóbica por dois homens na cidade de São Paulo, em 04 de dezembro de
2012. Inicialmente os agressores foram indiciados por tentativa de homicídio por dolo eventual.
No entanto, durante a tramitação do processo criminal, houve a desclassificação do crime para
lesão corporal leve. Após mais de 4 (quatro) anos de tramitação do processo o Ministério
Público ofereceu, a título de transação penal, a utilização dos quase de dois meses em que os
réus permaneceram presos. Os réus aceitaram a transação, com a consequente extinção da
punibilidade. A vítima, na qualidade de assistente de acusação, quando da desclassificação,
apresentou recurso em sentido estrito – RESE – ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
na tentativa de reformar a decisão de desclassificação do crime de tentativa de homicídio por
dolo evental para o crime de lesão corporal leve, diante da presença da intenção de matar
apresentada por pelo menos um dos autores do delito. No entanto, o recurso não foi conhecido
sob o argumento de ser o Ministério Público o titular da ação penal (pública incondicionada),
cabendo somente a esse recorrer da decisão de desclassificação. Nesse sentido a vítima,
representada por seu advogado, defende ter ocorrido violação ao direito humano ao Recurso
previsto no artigo 25 da Convenção Americana Sobre Direitos Humanos 233, Pacto de San José
da Costa Rica, o que redundou na Petição de Ingresso junto à Comissão Interamericana de
Direitos Humanos – CIDH de número 329-17, protocolada no dia 22 de fevereiro de 2017,
objetivando a responsabilização do Estado Brasileiro diante de caso concreto já transitado em
julgado, por ausência de repressão eficiente à homofobia, dentre outras violações.234

233
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Convenção Americana Sobre Direitos
Humanos. San José: CIDH, 1969.
234
ADVOGADO ingressa na Comissão Interamerica contra Estado Brasileiro por não reprimir homofobia. Carta
Capital, [S.l.], 23 fev. 2017.
88

6.2 Descrição do caso

Após o exaurimento dos autos do processo em sede nacional no tocante ao aspecto


criminal (ainda tramita um processo de ordem cível objetivando indenização pecuniária em face
o autores), na data de 22/02/2017, a vítima André Gomes Cardoso Baliera, formalmente
representado pelo Advogado paulista Paulo Roberto Iotti Vecchiatti, acompanhado do Grupo
de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero - GADvS: ingressaram junto à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, objetivando a condenação do Estado Brasileiro por
ausência de repressão eficiente à homofobia, nesse caso concreto já transitado em julgado, e de
ausência de proteção eficiente à população LGBTI brasileira, como um todo.
Os fundamentos legais da referida da petição de ingresso ora analisada foram as
violações aos artigos: 1.1, 2, 5.1, 8, 24 e 25 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos
(“Convenção” ou “CADH”).
Os mencionados artigos cuidam dos seguintes direitos, conforme sequência constante
da petição de ingresso:
1º) artigos 2º e 24, 1.1, da CADH235, relativamente ao direito humano à igualdade, à
não-discriminação e à proteção eficiente do Estado: a existência de proteção legal às mulheres
vítimas de violência no Brasil- Lei Maria da Penha, e a inexistência de norma análoga protetiva
em relação à população LGBTI, segundo alegam os autores, permite tratamento desigual a
grupos que são igualmente vulneráveis sob a ótica da própria CIDH, com prejuízo de
Resoluções aprovadas pela OEA;
2º) artigos 8 e 25 da CADH, bem como artigos 1.1 e 24, todos da CADH236,
relativamente ao direito humano ao duplo grau de jurisdição e ao devido processo legal
substantivo: foi negado à vítima o direito de recurso, conferindo tratamento de menor gravidade
à situação que, sob visão dos autores, deveria ter recebido tratamento mais adequado, afastando
ainda o acesso a recurso fácil, rápido e efetivo, como recomenda a CIDH;
3º) artigo 5 da CADH237, relativamente ao direito humano à integridade pessoal (física
e psicológica): em virtude da ausência de auxílio médico e psicológico à vítima por parte do
Estado e igualmente diante da desclassificação de uma tentativa de homicídio para o tipo penal
lesão corporal leve.

235
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
236
Ibidem.
237
Ibidem.
89

Com base nesse raciocínio jurídico os peticionantes requereram a condenação do Estado


Brasileiro por:
1º) violação do artigo 2º, em relação aos artigos 24, 1.1, da CADH238, relativamente ao
direito humano à igualdade, à não discriminação e à proteção eficiente do Estado, em prejuízo
do Sr. Baliera;
2º) violação dos artigos 8 e 25, em relação aos artigos 1.1 e 24, todos da Convenção
Americana239, relativamente ao direito humano ao duplo grau de jurisdição e ao devido processo
legal substantivo, em prejuízo do Sr. Baliera;
3º) violação do artigo 5º da CADH240, relativamente ao direito humano à integridade
pessoal (física e psicológica), em prejuízo do Sr. Baliera.
Caso as referidas violações sejam reconhecidas pela CIDH, os peticionantes
requereram, a título de Condenação do Estado Brasileiro:
a) aprovação de uma Lei de Crimes de Ódio, que proteja de forma eficiente a população
LGBTI e grupos vulneráveis em geral, saneando a omissão do Estado Brasileiro quanto
à criminalização da conduta LGBTIfóbica;
b) aprovação de lei que permita à vítima, no processo penal, enquanto assistente de
acusação, recorrer autonomamente de decisões que julgue incorretas,
independentemente da concordância do Ministério Público, permitindo o acesso das
vítimas ao duplo grau de jurisdição de forma autônoma do ente estatal, o qual muitas
vezes reproduz a discriminação existente na sociedade, ao invés de combatê-la;
c) aprovação de lei(s) e outras políticas públicas necessárias, para garantia de apoio
institucional e psicológico às vítimas de crimes, de modo a ser assegurado o tratamento
mais adequado às pessoas vítimas desse tipo de violência;
d) a publicação da sentença em jornais de grande circulação, como forma de reparação
simbólica do ocorrido;
e) a designação de assistência psicológica ao Sr. Baliera e, na hipótese de se considerar
que tal dano já foi superado, o ressarcimento por seus gastos pessoais em relação a
consultas e medicamentos;
f) o treinamento de agentes estatais especificamente na temática de direitos LGBTI e
questões de discriminação;

238
Ibidem.
239
Ibidem.
240
Ibidem.
90

g) a reabertura do processo penal e desconsideração de eventuais impedidores de


processamento, visto que foi o Estado o culpado pela violação dos direitos da vítima;
h) o pagamento de USD 50.000,00 (cinquenta mil dólares norte americanos), a título de
danos morais, pela demora injustificada do processo, bem como em decorrência da
reiterada discriminação homofóbica sofrida, que expressou-se tanto na tentativa de
homicídio quanto no reiterado descaso estatal com o caso, em sua fase judicial penal.
Como adiantado, no dia 04 de dezembro de 2012, a vítima André Baliera foi brutalmente
espancada por dois homens (Diego e Bruno), claramente por motivação homofóbica. Naquela
ocasião, a vítima atravessava o cruzamento das ruas Henrique Schaumann e Theodoro Sampaio,
no Centro da cidade de São Paulo, cidade essa, como descrito no Capítulo 04 da presente
Dissertação, pertencente ao Estado mais violento contra a população LGBTI, ou pelo menos,
Estado que apresenta o maior número de casos registrados quanto a esse tipo de violência.
Quando fazia a travessia, a vítima percebeu que dois homens dentro de um carro
estavam rindo dele. O carro estava parado em virtude do fato de o sinal estar fechado. A vítima
perguntou a eles do que se tratava e passou a ser ofendida por ambos com insultos homofóbicos,
conforme comprovado testemunhalmente. Houve breve discussão entre autores e vítima,
porém, essa se interrompeu quando o sinal abriu. A vítima pensou que poderia seguir sua vida
naturalmente, porém, na esquina respectiva, os autores, fazendo uma manobra proibida,
pararam seu carro no posto de gasolina e continuaram as agressões de ordem homofóbica. Num
dado momento, um dos agressores arrancou o fone de ouvido da vítima, a qual por sua vez
arrancou os óculos do agressor. Ao fazer isso, a vítima passou a ser brutalmente espancada por
ambos os agentes. O agressor Diego derrubou a vítima e continuou batendo nela, parando
somente com intervenção policial, a qual teve que fazer uso da força, por meio de cassetetes
para interromper o ato de agressão, tudo conforme comprovado testemunhalmente. As
testemunhas que estavam no posto afirmaram que não agiram em socorro da vítima por temer
sofrer também algum tipo de agressão em virtude do fato de os autores terem porte físico
“avantajado”, sendo ambos muito fortes. As testemunhas informaram que o pior não ocorreu
em virtude da atuação policial, a qual, caso não tivesse agido no momento preciso, a vítima
poderia ter morrido ou ficado com sequelas muito graves. Os autores foram presos em flagrante.
Conforme o Boletim de Ocorrência RDO 11.940/2012, três testemunhas depuseram,
testemunhas essas que não conheciam a vítima. As referidas testemunhas disseram que os
agressores, antes de efetuarem o espancamento, xingaram a vítima com insultos homofóbicos.
Uma quarta testemunha posteriormente identificada informou que escutou um dos agressores
91

afirmando: “viado, vou te bater até matar”, enquanto espancava com socos o Sr. Baliera já
deitado no chão.
Com base nesse contexto o Delegado de Polícia, Dr. Pedro Ivo Correa L. dos Santos,
Delegado de Polícia do 14º Departamento de Polícia de Pinheiros – São Paulo/SP, elaborou seu
Relatório Final atestando que, pela dinâmica dos fatos, os agressores cometeram crime de
tentativa de homicídio, por dolo eventual (até aquele momento o testemunho da quarta
testemunha que claramente ouvira um dos agressores dizendo que ia espancar a vítima até
matar, ainda não havia sido colhido).
O processo foi distribuído à 05ª Vara do Júri da Comarca de São Paulo/SP sob o número
0830859-87.2012.8.26.0052. Não obstante as graves agressões físicas e morais sofridas, teve
início igualmente o suplício da vítima em face do Estado Brasileiro, em clara violação dos
direitos humanos, pois o Promotor da 05ª Vara do Júri, Dr. Hidejalma Múcio, entendeu que as
lesões “não foram fortes o bastante a indicar aquela intenção de morte dos agentes”241 para
justificar denúncia por tentativa de homicídio, por dolo eventual. O processo foi então
distribuído a uma das Varas Criminais Comuns, onde, após diligência do advogado Paulo Iotti
perante a 74ª Promotoria da Justiça Criminal (Comum), a Promotora da Criminal, Dra. Silvia
Reiko Kawamoto: “[...] discordou de seu Colega, do Júri, ratificando o entendimento do
Delegado de Polícia, entendendo que a dinâmica dos fatos justificava a denúncia, por tentativa
de homicídio, e não por mera lesão corporal (“leve”).”242.
A mencionada Promotora salientou que a análise dos relatos testemunhais demonstra o
animus necandi dos agentes, sobretudo em virtude do fato dos golpes serem desferidos contra
a cabeça já ensanguentada da vítima, que permanecia estirada no chão, sendo a fúria debelada
apenas com intervenção de força policial aplicada por meio do uso de cassetetes desferidos
contra os autores.
A divergência, entre o Promotor da 5ª Vara do Júri e a Promotora da 74ª Promotoria
Criminal, implicou na instauração do Conflito de Atribuição, suscitado pela já mencionada Dra.
Silvia Reiko Kawamoto.
Para decidir sobre o conflito, os autos do processo foram remetidos para o Procurador-
Geral de Justiça, que determinou a distribuição da denúncia por tentativa de homicídio, com

241
Cf. fls. 55 (frente e verso) do processo penal (físico) n.º 0830859-87.2012.8.26.0052, constantes a fls. 135/136
do processo civil (eletrônico) 1001899-25.2014.8.26.0002.
242
Cf. fls. 55 (frente e verso) do processo penal (físico) n.º 0830859-87.2012.8.26.0052, constantes a fls. 135/136
do processo civil (eletrônico) 1001899-25.2014.8.26.0002.
92

dolo eventual, observado o princípio do in dubio pro societate.243A referida decisão deixou
claro que a motivação das agressões e da tentativa de homicídio teve por base a discriminação
dos autores quanto à orientação sexual da vítima.
Após quase dois meses de prisão, os autores foram soltos por meio de Habeas Corpus
concedido na data de 28/01/2013. Instaurado o processo criminal, a vítima habilitara-se como
assistente da acusação. Na fase de pronúncia a Juíza, Dra. Eliana Cassales Tosi de Melo
desclassificou o crime para lesão corporal leve. A lesão corporal leve tem pena ínfima,
permitindo a aplicação de penas alternativas como o pagamento de cestas básicas.244
O Ministério Público ratificou a desclassificação. A vítima apresentou Recurso em
Sentido Estrito - RESE contra a decisão de desclassificação na qualidade de assistente de
acusação. A juíza da 5ª Vara do Júri recebeu o recurso. Não obstante, após quase um ano de
análise recursal, o Tribunal De Justiça de São Paulo - TJSP entendeu por não conhecer do
recurso sob o argumento de que “[...] por ser o Ministério Público o titular da ação penal, em
regra a decisão sobre recorrer ou não seria, exclusivamente, dele, salvo expressas exceções
legais”245 Na prática, sob a ótica dos Peticionantes, tal decisão violou o direito ao duplo grau
de jurisdição, impedindo que a vítima tivesse seu caso analisado em segunda instância diante
da (cômoda) inércia do MP - Estadual, ratificadora da desclassificação proferida pelo juízo de
primeira instância.
É importante salientar que a participação da vítima como assistente da acusação não
tem, e não pode ter, apenas um cunho pecuniário. O intuito primevo é o de auxílio do MP na
correta aplicação da lei penal, não se restringindo essa assistência a mero garantismo
pecuniário. No entanto, não foi essa a tese vencedora e por essa razão, o recurso não foi
conhecido sob o argumento de inexistência de norma legal que permita à vítima formular RESE
independentemente do MP, titular da ação penal pública incondicionada.
Com o trânsito em julgado da desclassificação, o crime foi julgado como lesão corporal
leve perante o Juizado Especial Criminal- JECRIM, sob número 0005513.65.2015.8.26.0052.
Curiosamente o MP apresentou o entendimento de que a Representação da vítima (lesão

243
Cf. fls. 76/83 do processo penal (físico) n.º 0830859-87.2012.8.26.0052, constantes a fls. 67/74 do processo
civil (eletrônico) n.º 1001899-25.2014.8.26.0002. Esclareça-se que essa decisão vem, no processo penal, antes das
manifestações contraditórias do Promotor do Júri e da Promotora Criminal, cujas folhas foram citadas nas notas
anteriores, porque vieram anexas à denúncia, peça inaugural do processo penal, que, ato contínuo, seguiu a ordem
lógica dos acontecimentos (Boletim de Ocorrência, testemunhos nele colhidos etc).
244
Esse tipo de conduta, não raras vezes praticada pelo judiciário brasileiro, torna “barato” agredir pessoas no
Brasil, fazendo com que grupos vulneráveis tais como indígenas, população LGBTI, mulheres, etc., sejam vítimas
contumazes desse tipo de agressão sem que o Estado tome medida efetiva para repressão/prevenção desses atos
criminosos.
245
Cf. fls. 1.274/1.286 do processo civil (eletrônico) n.º 1001899-25.2014.8.26.0002, relativas a documento
anexado a petição, isto informando ao Juízo Cível.
93

corporal leve) já estava prescrita por ter sido formulada mais de 6 (seis) meses após a agressão.
Por sua vez, a vítima peticionou demonstrando descabimento de tal requisito nesse caso
concreto, o qual foi inicialmente distribuído como tentativa de homicídio, afastada então a
necessidade de representação. Acolhido o argumento, o prazo para representação foi contado a
partir do trânsito em julgado da decisão de desclassificação do crime de tentativa de homicídio
por dolo eventual para o de lesão corporal leve, tendo ocorrido a audiência de transação penal
em 24 de agosto de 2016. (mais de três anos e meio após o recebimento da denúncia e quase
quatro anos após as agressões). Rejeitada a composição civil pela vítima, o MP ofertou a título
de transação penal os menos de dois meses em que os autores estiveram presos. Esses,
oportunamente, aceitaram a oferta, aplicando-se analogicamente o instituto jurídico detração,
extinguindo-se a punibilidade.
Registre-se finalmente que o processo civil n.º 100189925.2014.8.26.0002, ainda
tramita perante a 06ª Vara Cível do Fórum Regional de Santo Amaro – Comarca de São
Paulo/SP, e foi distribuído objetivando a reparação pecuniária pelo sofrimento causado pelos
autores à vítima André Gomes Cardoso Baliera.
Dessa forma, em síntese, após a clara tentativa de homicídio perpetrada pelos autores,
esses receberam como punição estatal os menos de dois meses em que estiveram detidos,
demonstrando a flagrante ineficiência dos mecanismos legais existentes atualmente no Brasil
para combater os assim chamados crimes de ódio, o que revela a inconstitucionalidade da
omissão brasileira ao coadunar com essa situação, posto que “a lei deve punir discriminação
atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”, inciso XLI do artigo 5º da CRFB/1988246,
e a necessidade urgente de saneá-la por meio da edição de norma que criminalize a homofobia,
a transfobia e outras formas de discriminação baseadas na orientação sexual e na identidade de
gênero, noutras palavras, revelando-se a necessidade urgente de criação de norma contra os
chamados crimes de ódio. Diante dessa ineficácia estatal, a qual infelizmente ocorre em muitos
outros casos de violência envolvendo a população LGBTI, foi necessário formular uma petição
de ingresso junto à CIDH, diante do esgotamento das instâncias internas para a solução do caso.
Como meio de permitir ao leitor um panorama geral da Petição de Ingresso contendo a
denúncia do Estado Brasileiro em face da CIDH por ausência de repressão à homotransfobia
em caso concreto já transitado em julgado, Caso Baliera, é possível afirmar que tal documento
foi estruturado do seguinte modo:

246
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
94

i) identificação da vítima, dos denunciantes e do Estado Demandado;


ii) demonstração da legitimação autoral e da competência da CIDH para analisar o caso;
iii) introdução, por meio da qual os Peticionantes descrevem brevemente o caso e
apresentam os artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos que foram
violados, contendo ainda os pedidos de condenação do Estado Brasileiro;
iv) apresentação do contexto geral da violência sofrida pela população LGBTI no Brasil,
para além do próprio caso Baliera, demonstrando que esse tipo de violência que ele
sofreu não é um caso isolado, mas sim uma constante nesse país. Assim como feito no
Capítulo 04 da presente Dissertação, os peticionantes abordam em profundidade o
Relatório da OEA sobre violência contra a população LGBTI nas Américas/2015;
v) apresentação de algumas teses importantes inclusive para a presente dissertação
demonstrando que: a) há uma banalização do mal-homotransfóbico no Brasil, ou seja,
as diversas formas de violência física e psicológica experimentadas pela população
LGBTI são vistas como matéria de somenos importância pela população em geral e
pelos entes estatais em especial. Tal banalização invisibiliza o problema, dificultando
sua solução; b) violação à ordem constitucional, às resoluções da OEA e aos princípios
de direito internacional referentes aos direitos humanos, com destaque para os
Princípios de Yogyakarta/2006.247
vi) os Peticionantes registraram um resumo dos fatos relevantes do caso na esfera penal no
Brasil, de forma a subsidiar o entendimento da CIDH quanto à análise da Petição de
Ingresso;
vii) Apresentaram ainda o atendimento dos requisitos legais de admissibilidade para que a
CIDH conheça do presente caso, notadamente tendo ocorrido em sede nacional: o
esgotamento dos recursos internos em relação ao processo penal; ausência de
duplicidade de procedimentos internacionais; demonstração dos artigos da Convenção
que foram violados;
viii) Apresentou os pedidos de condenação do Estado Brasileiro já descritos acima,
acompanhados da medida cautelar de impedimento de que os Autos do Processo
Criminal de número: 0005513.65.2015.8.26.0052 (JECRIM), o qual teve ainda outra
numeração quando de sua tramitação perante a 5ª vara do Tribunal do Júri a se saber: nº
0830859-87.2012.8.26.0052, fossem destruídos.
ix) Protestou pelo uso dos meios de prova documental, testemunhal e pericial;

247
CENTRO LATINO-AMERICANO EM SEXUALIDADE E DIREITOS HUMANOS. Princípios de
Yokyakarta. Rio de Janeiro: CLAM, 2007.
95

x) Instruíram a Petição de Ingresso com os seguintes anexos: ANEXO 1. Procuração da


Vítima. Atos Constitutivos do Codenunciante GADvS ANEXO 2. Cópia integral do
processo civil eletrônico n.º 100189925.2014.8.26.0002, no qual foi anexada a maior
parte do processo penal (físico) n.º 0830859-87.2012.8.26.0052, posteriormente
renumerado para n.º 0005513.65.2015.8.26.0052, bem como do processo administrativo
n.º 1.622/2012. Contém, anexo à inicial do processo civil e da denúncia administrativa,
notícias da mídia eletrônica, da época dos fatos, relatando as agressões sofridas pela
vítima. ANEXO 3. Complemento das cópias do processo penal n.º
083085987.2012.8.26.0052, posteriormente renumerado para n.º
0005513.65.2015.8.26.0052. ANEXO 4. Complemento das cópias do processo
administrativo n.º 1.622/2012: sentença condenatória, decisão de segunda instância
administrativa mantendo a condenação e inscrição do nome dos agressores na dívida
ativa do Estado de São Paulo. ANEXO 5. Prints processuais, com andamentos do
processo penal. ANEXO 6. “Relatórios da Violência Homofóbica”, do Estado
Brasileiro, relativos aos anos de 2011, 2012 e 2013. ANEXO 7. “Relatório sobre a
Violência contra Pessoas LGBTI na América Latina”, elaborado pela Comissão IDH.
A petição de ingresso foi recebida pelo Secretário Executivo da CIDH, tendo recebido
o número 329-17. O caso segue sendo analisado pela CIDH.
É importante registrar que recentemente, em 09 de novembro de 2018, a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos realizou visita in loco no Brasil, objetivando tratar, entre
outras questões de Direitos Humanos, do Legislativo Brasileiro e os Direitos das Pessoas
Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo no Brasil. A referida visita redundou em um
Relatório, documento elaborado pelo Núcleo Interamericano de Direitos Humanos da UFRJ248.
No contexto tratado nessa pesquisa, a análise do caso Baliera e da Petição de Ingresso
contendo a denúncia do Estado Brasileiro em face da CIDH permitiram percorrer o caminho
jurídico processual dessa lide em sede nacional, demonstrando que a resposta apresentada pela
jurisdição pátria não foi a mais adequada, tanto sob a ótica do controle de constitucionalidade
bem como sob a perspectiva do controle de convencionalidade.

248
NÚCLEO INTERCAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO
DE JANEIRO. Relatório por conta da visita in loco da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 09 de
novembro de 2018. Rio de Janeiro: NIDH-UFRJ, 2018.
96

Do mesmo modo, ao analisar o MI. n. 4733249 e a ADO. n. 26250, ao longo o Capítulo


05, verificou-se a existência de duas correntes hermenêuticas a nível do Supremo Tribunal
Federal bem como da Procuradoria Geral da República: de um lado, temos o pensamento
encabeçado por Lewandowski e pelo então Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, os
quais entendem que os mencionados remédios constitucionais, principalmente o MI têm
cabimento somente diante de direitos expressamente previstos que não estejam sendo exercidos
por ausência de norma regulamentadora e que a legislação criminal existente é suficiente para
assegurar proteção à população LGBTI, o que afastaria a possibilidade de até mesmo conhecer
do MI, bem como redundaria na declaração de inexistência de omissão inconstitucional.
Guardadas as devidas proporções, observado o contexto da hermenêutica nacional, essa tese
pode ser comparada com a anti-classificação norte-americana, já discutida e apresentada no
Capítulo 02.
De outro lado, temos no STF e na PGR a corrente hermenêutica que, capitaneada por
Edson Fachin, no STF e pelo então Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, dentre
outros, faz a leitura da Lei nº 7.716/89251 conforme a Constituição, de forma a nela abarcar
outras formas de racismo, como é o caso da homofobia e da transfobia. Ainda segundo essa
corrente, caso seja excluída essa interpretação, resta evidenciada a omissão do Congresso
Nacional em criminalizar tais condutas, com ofensa aos direitos fundamentais, sendo cabível a
determinação de prazo para saneamento da omissão, atraindo a concessão da injunção e o
reconhecimento da inconstitucionalidade dessa omissão. De certo modo, observadas as
características jurisprudenciais do Brasil, essa tese se aproxima da anti-subordinação
estadunidense conforme discutido e apresentado no Capítulo 02.
No que se refere ao controle de constitucionalidade, a resposta jurisdicional dada ao
Caso Baliera evidencia a deficiência do aparato normativo diante dos casos de cometimento de
crimes de ódio. Como adiantado, os autores permaneceram detidos por menos de dois meses e
conseguiram o uso desse tempo a título de transação penal, extinguindo-se a punibilidade.
Nesse sentido, é impossível afirmar que foi punida a discriminação atentatória dos direito e
liberdades fundamentais da vítima, não tendo, pois, havido a resposta estatal mais adequada.
No que se refere ao controle de convencionalidade, igualmente, o Brasil se
comprometeu, ao tornar-se signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos, a

249
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Injunção nº 4.733. Relator: Edson Fachin. Diário de Justiça
Eletrônico, Brasília, 16 nov. 2018b.
250
Idem, 2018a.
251
Idem, 1989a.
97

respeitar os direitos humanos, a garantir o duplo grau de jurisdição, a exercer uma proteção
eficiente de seus cidadãos e cidadãs, e a assegurar a integridade física e psicológica daqueles
que habitam a República Federativa do Brasil. Diante do caso concreto, podem os magistrados,
no exercício do Controle de Convencionalidade, aplicar os Tratados e Convenções de Direitos
Humanos formalmente ratificados pelo Brasil, como será melhor descrito no Capítulo 09 dessa
Dissertação.
Os casos de violência praticados contra a população LGBTI recebem um tratamento
inadequado por parte do Estado Brasileiro, o qual a um só tempo, descumpre sua Constituição,
por ser omisso, e por outro, ignora os tratados internacionais de direitos humanos, os quais se
comprometeu a respeitar. Além disso, do ponto de vista da cultura institucional é repetida a
mesma padronização já mencionada antes, pois pessoas heterossexuais ou que pareçam
heterossexuais têm maiores chances de serem aceitas para ocupar cargos de destaque como o
Ministério Público ou a Magistratura, revelando que os processos seletivos para esses cargos
reproduzem institucionalmente uma cultura discriminatória enraizada.
98

7 ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO, DIREITOS


FUNDAMENTAIS, HOMOTRANSFOBIA E OMISSÃO NO BRASIL. O JUDICIÁRIO
COMO FERRAMENTA PARA A SUPERAÇÃO DA CRISE DA
HOMOFOBIA/TRANSFOBIA

7.1 A liberdade sexual, um direito fundamental em Adilson José Moreira

Como adiantado, diversos autores e autoras vem trabalhando nas últimas décadas uma
análise jurídica mais profunda do uso dos direitos fundamentais como ferramentas para a
conquista do direito de minorias e do uso do judiciário como espaço para a efetivação desses
direitos. Dentro desse contexto, merece destaque, dentre outros e outras, o pesquisador Adilson
José Moreira252:

A política da virtude moral não faz parte apenas do discurso virulento propagado por
certas lideranças políticas e religiosas contra os avanços dos direitos de homens e
mulheres homossexuais. Muitos tribunais brasileiros utilizaram esses mesmos
argumentos para negar proteção jurídica a casais formados por pessoas do mesmo
sexo nas duas últimas décadas. Havia uma posição jurisprudencial bastante
consolidada contrária a essa possibilidade, ponto de vista fundado na premissa de que
normas jurídicas apenas reproduzem a moralidade presente na ordem natural.
Inúmeras cortes brasileiras afirmaram em vários julgados que a diversidade de sexos
é uma condição essencial para o acesso à união estável e ao casamento. Embora
houvesse um consenso no sentido de que uniões homoafetivas poderiam ser
classificadas como sociedades de fato, o que garantiria a divisão do patrimônio entre
os parceiros, muitos desembargadores argumentavam que os demais direitos
matrimoniais estariam restritos a casais heterossexuais. Essa posição estava
construída sobre a seguinte lógica: um casal homossexual não pode ser considerado
como uma entidade familiar porque essa categoria pressupõe a existência de um
homem e uma mulher. Apenas casais heterossexuais podem procriar e o tratamento
privilegiado dos mesmos está legitimado pelo interesse estatal na reprodução.
Reconhece-se o direito ao exercício da liberdade sexual de pessoas homossexuais,
mas acredita-se que esse é um comportamento de caráter privado e sem repercussões
na esfera pública.253

252
Doutor em Direito pela Universidade de Harvard (2013), Doutor em Direito Constitucional pela UFMG (2007),
Mestre em Direito pela Universidade de Harvard (2005) e Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas
Gerais (1999). Professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP, Brasil).
Autor de diversos livros relacionados ao direito de minorias.
253
MOREIRA, Adilson José. Cidadania Sexual: Postulado Interpretativo da Igualdade. Direito, Estado e
Sociedade, [S.l.], n. 48, p. 12, jan./jun. 2016a.
99

O mencionado autor constata que o processo de reestruturação democrática operado no


Brasil a partir da Constituição da República Federativa do Brasil de 1.988254 permitiu uma
maior articulação política de movimentos sociais255.
Membros dos grupos das chamadas minorias, com amparo nos direitos e garantias
fundamentais de ordem constitucional, vem militando para reduzir o status de inferioridade que
os estigmatizam e os mantém em situação subalterna dentro da sociedade.
O autor ainda prossegue:

Esta tem sido uma das premissas centrais da mobilização política de homens e
mulheres homossexuais nos últimos trinta anos. Eles almejam o reconhecimento
social de que são pessoas igualmente dignas e merecedoras das mesmas oportunidades
e direitos garantidos a pessoas heterossexuais. Embora o objetivo final dessa política
do reconhecimento ainda esteja longe de ser plenamente realizado, muitas das
demandas formuladas pelos membros dessa coletividade foram atendidas. Casas
legislativas municipais e estaduais promulgaram leis que vedam discriminação
baseada na orientação sexual, as últimas administrações federais classificaram direitos
de minorias sexuais como um tema de direitos humanos e os tribunais têm condenado
repetidamente aqueles que discriminam homossexuais. A equiparação jurídica entre
casais homossexuais e heterossexuais foi outro grande avanço, principalmente quando
consideramos a resistência que esses relacionamentos ainda encontram na nossa
sociedade.256

No entanto, se por um lado houve avanços na garantia do exercício dos direitos


humanos, por exemplo, no que se refere ao reconhecimento jurisprudencial da união estável
homoafetiva e a possibilidade de sua conversão em casamento civil257, reconhecimentos
patentemente importantes, não é sem assombro que a comunidade LGBTI e simpatizantes
assiste a uma atuação reacionária por parte de grupos religiosos e políticos que deliberadamente
se opõe a esse entendimento jurídico. Comportamento no mínimo estranho, uma vez que
decisões judiciais devem ser aplicadas após seu trânsito em julgado e não questionadas
sistematicamente, como feito por certos grupos religiosos e determinados partidos políticos a
eles ligados. Percebe-se uma clara atuação reacionária, buscando restringir e até mesmo
retroceder com direitos já consagrados.

254
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
255
MOREIRA, op. cit., 2016a, p. 10.
256
Ibidem, p 11.
257
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 132. Relator:
Carlos Ayres Brito. Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 10 out. 2014b; CONSELHO NACIONAL DE
JUSTIÇA. Resolução nº 175, de 14 de maio de 2013. Dispõe sobre a habilitação, celebração de casamento civil,
ou de conversão de união estável em casamento, entre pessoas de mesmo sexo. Diário Oficial da União, Brasília,
14 mai. 2013.
100

Daí a importância de se alcançar uma visão de integridade no direito sob a ótica da


integridade na legislação. É patente a ausência de normas jurídicas mais claras e específicas
para assegurar direitos à minoria LGBTI. Uma comunidade de princípios de matriz
constitucional sedia direitos em favor não apenas de grupos majoritários, mas igualmente
direitos em favor de grupos minoritários. O reconhecimento de direitos às minorias propicia
seu desenvolvimento material e social, o que a seu turno, se converte em desenvolvimento para
a nação como um todo.
O mecanismo estrutural de exclusão de direitos às minorias, como é o caso da minoria
LGBTI, gera um grande número de pessoas afastadas de oportunidades de ensino, status social
e emprego, dificultando e reduzindo as oportunidades dessa parcela populacional dar sua
contribuição para o desenvolvimento do país.
Apesar do inconformismo reacionário, é inegável que as conquistas civis dos casais
homoafetivos e da população LGBTI representa um claro sinal de avanço democrático e de
reconhecimento da cidadania dessa população, grupo de conquistas que lhes assegura o
exercício de direitos civis.
Nesse sentido, confira-se:

As recentes decisões judiciais que instituíram igualdade jurídica entre casais


homossexuais e heterossexuais podem ser vistas como um momento importante na
afirmação de uma nova concepção de cidadania na nossa sociedade. Além de
reconhecer a igual dignidade desses membros da comunidade política, ela também
está relacionada com as condições materiais e institucionais necessárias para uma
existência digna e com a possibilidade de ação autônoma no espaço público e no
espaço privado. Dessa forma, o conceito de cidadania articulado na nossa
jurisprudência parte de uma clara ligação entre essas duas esferas da existência, o que
institui a necessidade da consideração da natureza política da identidade sexual,
conceito geralmente identificado com a esfera da intimidade e largamente considerado
irrelevante para as discussões sobre inclusão social. Muitos tribunais equacionaram o
acesso a direitos matrimoniais com o conceito de cidadania nos últimos anos,
afirmando que a negação de proteção legal a casais homossexuais viola princípios
centrais da nossa ordem jurídica. Além de mencionar o compromisso constitucional
com a dignidade humana para justificar o reconhecimento de casais homossexuais
como entidades familiares, essas cortes também afirmaram repetidamente que o
tratamento igualitário de casais homossexuais é uma questão de igualdade
democrática. Para muitos juízes, o princípio democrático fundamenta a moralidade
que determina o tratamento dos indivíduos na esfera pública. Mas ele também deve
pautar as relações privadas, sendo um instrumento para a desestruturação das relações
hierárquicas nessa dimensão da vida humana. 258

A partir do marco teórico integridade no direito, é possível afirmar que o


reconhecimento das uniões estáveis homoafetivas e do casamento homoafetivo não foram

258
MOREIRA, op. cit., 2016a, p. 14.
101

circunstâncias jurídicas isoladas que se encerram dentro de si mesmas. Esse reconhecimento é


a garantia material de princípios já formalmente positivados no ordenamento pátrio, mas ao
mesmo tempo sublinha e evidencia a omissão inconstitucional pelo reconhecimento de outros
direitos, como o de assumir a homossexualidade ou a bissexualidade publicamente sem medo
de repressões violentas por parte da população, ou até mesmo de viver os relacionamentos
LGBTI-afetivos sem preocupação de represálias. Sublinha a omissão Estatal em reprimir os
casos de violência praticados contra mulheres trans, as quais muitas vezes são agredidas ao
saírem nas ruas vestidas da forma com se identificam e não da forma que parcela da sociedade
tenta impor que elas se identifiquem. A liberdade sexual existe se for vivida não somente na
esfera privada, mas igualmente na esfera pública.
O tratamento penal dado aos crimes de ódio cometidos no Brasil contra a população
LGBTI é ainda muito incipiente porque parte do pressuposto errôneo que políticas públicas
generalizantes e textos legislativos igualmente generalizantes, podem alcançar a igualdade
material. Os números da violência contra a população LGBTI demonstram que essa visão é
errônea.
Retomando os dados alcançados pela OEA, os quais foram discutidos ao longo do
Capítulo 04, vemos que, ao menos no intervalo temporal compreendido entre janeiro de 2013
e março de 2014, considerando-se especificamente a população LGBTI, homens homossexuais
e mulheres trans foram as maiores vítimas de crimes violentos praticados contra essa parcela
da população brasileira. Era de se esperar que a distribuição do número de casos dessa violência
entre a população LGBTI fosse mais aritmética. Se não é, percebe-se uma maior
vulnerabilidade desse grupo dentro da população LGBTI, bem como sugere que a motivação
dos crimes é mesmo relacionada a um ódio contra a orientação sexual /ou identidade de gênero
e não outro motivo qualquer.
Se dentro de um país existe uma cultura que sistematicamente ataca essas pessoas,
infringindo seus direitos de cidadania, desrespeitando seus direitos e garantias fundamentais, a
nós nos parece óbvio que há a necessidade de uma atuação estatal e da sociedade civil
organizada no sentido de combater e prevenir tais atos de violência.
Retomando o que já foi introduzido no capítulo 02, no que se refere ao Direito
Comparado, temos as duas correntes jurídicas de abordagem do direito de minorias, assim
chamadas pelos estadunidenses de anticlassification e antisubordination. A anticlassificação,
vamos assim dizer, veda a criação e/ou aplicação de leis que gerem distinções inaditimidas
dentro do ordenamento. Por sua vez, a antidiscriminação verifica exatamente a correção de
aplicação de leis e de interpretações que assegurem maior igualdade entre as pessoas por meio
102

daquilo que se pode chamar discriminação positiva, ou seja, um tratamento diferenciado quando
as circunstâncias exigem esse tratamento diferenciado. A pesquisa ora desenvolvida se
aproxima mais da antisubordinação na medida em que a interpretação dada aos comandos
constitucionais de suficiência do ordenamento penal como ferramenta para os exercícios da
liberdade sexual LGBTI ser insuficiente. Fazendo-se uma leitura da legislação
infraconstitucional conforme a Constituição, percebe-se que mesmo diante da ausência de
expressa menção a certos grupos esses precisam ser objeto de proteção por parte do legislador.
É o caso da Lei Antirracismo259, por exemplo, a qual inicialmente pensada para a proteção da
população negra, pode e deve, abarcar outros grupos populacionais igualmente discriminados.
Um interpretação que negue tal possibilidade, somente evidencia a inconstitucionalidade da
omissão legislativa em criminalizar a homofobia e a transfobia.
Como visto no capítulo anterior, muitas vezes quando uma pessoa LGBTI é vítima de
algum tipo de violência, seja de ordem física como no caso Baliera, ou de ordem psicológica,
o tratamento dado pelos entes estatais tende a menosprezar a circunstância, gerando um
verdadeiro clima de impunidade e até mesmo de conivência com os delitos que são cometidos.
Nesse sentido, não é sem razão que são necessárias normas específicas para cuidar de
circunstâncias específicas.
Apesar das críticas que recebem por parcelas da população e de juristas, é inegável que
as Leis Maria da Penha e do Feminicídio forneceram às mulheres uma importante ferramenta:
uma arma que pode ser usada contra maridos, familiares e/ou pessoas violentas que busquem
violar de alguma forma os direitos fundamentais femininos.
Do mesmo modo, a Lei Antirracismo, Lei Federal 7.716/89260, a qual veio substituir a
Lei Afonso Arinos261 também se constitui como meio adequado para que as pessoas negras
possam combater as graves discriminações das quais são vítimas.
Por que no caso específico da população LGBTI seria menos legítima a criação de
norma que sancione condutas violentas contra essa parcela da população? A criação de uma lei
contra crimes de ódio pode beneficiar não somente a população LGBTI mas a sociedade como
um todo, cada vez mais permeada por grupos identitários que clamam por respeito às suas
idiossincrasias. Evidentemente, tais reinvindicações são legítimas e se baseiam numa maior

259
BRASIL. Lei nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.
Diário Oficial da União, Brasília, 06 jan. 1989a.
260
Ibidem.
261
Idem, 1951.
103

exposição à violência, exatamente oriunda da ausência de mecanismos estatais protetivos mais


eficientes.
No artigo intitulado Cidadania Sexual: Postulado Interpretativo da Igualdade, Adilson
José Moreira, define o conceito jurídico de Cidadania Sexual bem como discute temas a ele
relacionados, tais como ser o Direito um mecanismo de emancipação social ou uma ferramenta
de preservação de desigualdades?262 Questionamento intrigante e revelador.

[...]
a cidadania sexual também é um princípio jurídico, mais especificamente um
parâmetro de interpretação da igualdade que implica uma dimensão específica da
dignidade humana. Sendo um princípio substantivo de controle de
constitucionalidade, ela congrega categorias de direitos necessárias para a afirmação
da liberdade sexual em diferentes esferas da vida humana. Ela então adquire o status
de um postulado normativo, pois determina os critérios que devem ser considerados
na interpretação de normas legais. [...] nós a classificamos como uma referência para
a ação política em função de suas relações próximas com o princípio democrático. A
noção de cidadania sexual pressupõe um processo de democratização do espaço
público que permite a paridade de participação de minorias sexuais na vida política e
também está relacionada com uma politicização da esfera privada por meio da
eliminação de relações hierárquicas nessa dimensão da vida das pessoas. 263

A visão equivocada de que políticas universalistas podem alcançar uma igualdade


material por parte de grupos marginalizados não passa de falácia. Há no ordenamento jurídico
a presença da chamada heteronormatividade, a qual tende a excluir desse ordenamento
interpretações que reconheçam direitos à alguém que não seja heterossexual, configurando-se
num verdadeiro império da heterossexualidade, numa verdadeira positivação da desigualdade
de exercício de direitos por parte dos marginalizados sociais, como é o caso da população
LGBTI. Essa heteronormatividade pode ser vista na redação do artigo 226 da Constituição de
1988264. Foi a ação jurisdicional e não a letra lei propriamente dita que possibilitou o
reconhecimento de casamentos para além da letra fria da lei, entendida até então somente para
homem e mulher.

Argumentamos neste capítulo que muitas decisões recentes sobre direitos de minorias
raciais e sexuais possuem um potencial emancipador considerável. Primeiro porque
elas reconhecem a correlação entre desigualdades de status e desigualdades materiais,
asserção importante para afastarmos o argumento segundo o qual políticas
universalistas podem promover plena inclusão social. Não podemos interpretá-las
como arestos que estendem proteção a grupos que possuem experiências distintas.
Minorias sexuais e raciais enfrentam um mesmo processo de subordinação

262
MOREIRA, op. cit., 2016a.
263
Ibidem, p. 16.
264
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
104

reproduzido pela construção de identidades normativas. O avanço na igualdade entre


homossexuais e heterossexuais e entre negros e brancos tem importância central para
a emancipação daqueles grupos experienciam dupla forma de discriminação.
Iniciativas que procuram garantir redistribuição de oportunidades e reconhecimento
de igual dignidade possibilitam a transformação do status social e do status material
de minorias dentro de minorias. Essas decisões estabelecem parâmetros para políticas
públicas destinadas a atenuar ou erradicar mecanismos que operam para promover a
exclusão de pessoas que sofrem as consequências do racismo e da homofobia nas
diversas formas de interação social. Além de afirmar o compromisso constitucional
com a justiça social, elas apresentam fundamentos para pensarmos as relações
estruturais entre cidadania racial e cidadania sexual, categorias a partir das quais
devemos formular estratégias para a inclusão de indivíduos que sofrem as
consequências da interseção de discriminações. 265

Um dos argumentos mais utilizados pelas pessoas que se opõe à criminalização da


homofobia e da transfobia é exatamente o de que os tipos criminais genéricos já existentes
dariam a adequada proteção a todos os membros da população e que medidas matérias
generalizantes dariam conta de assegurar uma maior igualdade material entre as pessoas:

Este capítulo pretende problematizar a defesa de agendas e políticas universais como


o melhor caminho para a garantia do exercício de direitos fundamentais. Muitos
acadêmicos e juristas afirmam que medidas dessa natureza são a melhor solução para
a inclusão de minorias, uma posição baseada na noção de que desigualdades são
produto de apenas uma forma de discriminação, notoriamente as disparidades de
classe social. Portanto, políticas distributivas poderiam resolver praticamente todos os
problemas associados à marginalização na medida em que garantem o mesmo nível
de segurança material para todos os indivíduos. A análise do caso de minorias dentro
de minorias demonstra que essa perspectiva não permite a emancipação de todos os
grupos, porque processos de marginalização decorrem do cruzamento de diferentes
formas de opressão.266

Essa visão equivocada de que normas genéricas podem superar as exclusões


historicamente praticadas contra grupos marginalizados tais como mulheres, moradores de
favelas e comunidades carentes, população negra e população LGBTI ignoram o fato de que os
mecanismos de opressão incidentes sobre essas populações tem uma matriz estrutural
organizada, não se restringindo a posturas individuais e pontuais, mas sim atuando de forma
sistêmica.

Argumentamos que mecanismos discriminatórios não são apenas expressões de


comportamentos individuais irracionais, mas sim produtos de sistemas de opressão
que atuam simultaneamente em diversas instâncias das interações sociais. Isso
significa que compreensões tradicionais da igualdade não são suficientes para a
erradicação da exclusão. Ela precisa promover a igualdade de status entre grupos
sociais no plano cultural e também no plano material. A análise da relação entre
cidadania racial e cidadania sexual adquire grande relevância nesse contexto por
mostrar como a autonomia pessoal só se torna possível na medida em que indivíduos

265
MOREIRA, 2017a, p. 247.
266
Ibidem, p. 248.
105

possuem uma existência integrada, o que exige o acesso a diferentes categorias de


direitos fundamentais.267

A presente dissertação de mestrado busca demonstrar que a liberdade sexual é um direito


fundamental e que a violência física e simbólica sofrida especificamente pela população LGBTI
não vem recebendo o tratamento jurídico/legislativo adequado exatamente pela ausência de
norma que puna esse tipo de crime.
Esse posicionamento não é isolado, sendo certo que juristas de renome já se
pronunciaram sobre o tema. Esse é o caso de Alexandre Melo Franco de Moraes Bahia:

Outra questão interessante de ser observada é o problema diante de grupos extremistas


que usam fundamentações completamente sem sentido para a não aceitação da
homossexualidade e induzem outros ao mesmo erro. Com isso, pessoas acabam se
tornando preconceituosas por induzimento de terceiros que expressam verbalmente
um monte de falácias que degradam a imagem da homossexualidade. Também há a
questão de o Estado se omitir na garantia de liberdade de escolha sexual por meio da
não criação de medidas mais severas contra a discriminação desse grupo
minoritário.268

Ainda nesse mesmo sentido, menciona-se o posicionamento de Roger Raupp Rios:

A prevenção e a repressão de condutas homofóbicas caminha lado a lado do


reconhecimento dos direitos fundamentais vinculados à orientação sexual e identidade
de gênero. Assim, uma vez afirmado o direito à liberdade de expressão sexual, exige-
se a tomada de medidas protetivas em face da discriminação que ameaça e viola tal
direito. Daí a responsabilização, nas esferas civil, trabalhista e administrativa, por
condutas homofóbicas; daí também a interpretação conforme a Constituição realizada
pelo STF, incluindo no reconhecimento constitucional da união estável também as
pessoas de mesmo sexo.
Todavia, diante da intensidade da violência homofóbica no Brasil, mostra-se
necessária uma reação mais forte, que inclua, no seio da legislação
antidiscriminatória, proteção de natureza criminal.269

É importante citar ainda que a matéria vem sendo objeto de pesquisa de diversos
trabalhos científicos como o de Giovana Bianca Trevizani:

267
Ibidem, p. 248.
268
BAHIA, Alexandre M. F. de Moraes; RIBEIRO, Gabriela Vital; AMORIN, Lohany Dutra. LGBT: sociedade
plural e a busca pelo direito igualitário. In: DESLANDES, Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre M. F. de Moraes
(Org.); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo
Horizonte: Editora Autêntica, 2018. Cap. 08, p. 103-115.
269
RIOS, Roger Raupp. Direitos Sexuais: orientação sexual e identidade de gênero no direito brasileiro. In:
DESLANDES, Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre M. F. de Moraes (Org.); RIOS, Roger Raupp.
Homotransfobia e Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte: Editora Autêntica,
2018. Cap. 10, p. 153.
106

A criminalização da LGBTIfobia é tão urgente, que o próprio procurador-geral da


República, Rodrigo Janot, atuou no Supremo Tribunal Federal frente à omissão do
Congresso Nacional sugerindo a necessidade de regularizar o tema. 270

Também merece destaque os emblemáticos e centrais trabalhos de pesquisa e de


advocacia desenvolvidos por Paulo Robrto Iotti Vecchiatti:

Em geral, defende-se que, ao invés de se focar na repressão penal do Estado, deveria


haver atuação em demandas de educação e conscientização social para o respeito às
distintas orientações sexuais e identidades de gênero. [...] recentemente, a ABGLT
liderou estudo, por intermédio de seu Presidente, Carlos Magno, e seu Secretário de
Educação, Toni Reis, precisamente para averiguar a situação de discriminação por
orientação sexual e por identidade de gênero nas escolas – a saber, a “Pesquisa
Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil. As Experiências de Adolescentes
e Jovens Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais”. Isso no contexto, dos
últimos anos, desde o final de 2014, de engajamento do Movimento LGBT brasileiro
na luta pela manutenção da previsão específica de repressão às discriminações por
gênero, identidade de gênero e orientação sexual, nos planos de educação: embora
derrotado nas instâncias políticas em geral, pela vitoriosa articulação de
fundamentalistas religiosos e reacionários morais em geral nestas esferas, houve
efetiva atuação do Movimento LGBT (“hegemônico”) por tal pauta. Que sempre
constituiu sua preocupação, como o exemplo do Projeto “Escola Sem Homofobia”,
nefastamente vetado pela então Presidenta Dilma Rousseff, serve de outro exemplo.
Em minha atuação pessoal, tenho ações no Supremo Tribunal Federal pleiteando tanto
o reconhecimento do dever constitucional do Congresso Nacional em criminalizar de
forma específica a homotransfobia, bem como sua classificação como crime de
racismo, em sua acepção de racismo social[8] (MI 4733, pela ABGLT, e ADO 26,
pelo PPS), quanto o reconhecimento do dever das escolas, públicas e privadas, em
coibir as discriminações por gênero, identidade de gênero e orientação sexual (ADI
5668, pelo PSOL).271

Além de não ser um posicionamento isolado, o reconhecimento da necessidade de


criminalizar a homotransfobia permite a criação de norma específica diante das ineficientes
tipos penais genéricos. Nessa medida, o argumento de que normas e políticas públicas
generalizantes podem promover a melhoria de acesso material à direitos por parte das minorias
excluídas, como por exemplo, o argumento de que as normas criminais já existentes podem dar
conta dos crimes de homofobia e transfobia, pode ser refutado pela chamada
multidimensionalidade das opressões, referência trazida igualmente por Adilson José Moreira:

Este trabalho utiliza a teoria da multidimensionalidade de opressões para demonstrar


que a superação das hierarquias sociais depende de políticas públicas que revelem as
relações diretas entre a interdependência dos direitos fundamentais e a compreensão

270
TREVIZANI, Giovana Bianca. Meu corpo, minhas regras: a transexualidade sob a luz do Direito Constitucional
e as lacunas no Estado Democrático de Direito. In: DESLANDES, Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre M. F. de
Moraes (Org.); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos.
Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2018. Cap. 07, p. 92.
271
VECCHIATI, Paulo Roberto Iotti. Pela Lógica do Direito Penal Mínimo, Homotransfobia tem que ser
criminalizada. [S.l.]: Justificando, 2017.
107

do nosso sistema constitucional como uma instância que procura promover a


igualdade de status entre grupos.272

A ausência de norma específica que criminalize a homofobia e a transfobia,


destacadamente nos crimes contra a vida, ignora o fato de que o modus operandi dos agentes
que praticam essa modalidade delitual ser distinto daquele usado pelos que praticam um
homicídio simples no sentido jurídico do termo. Ao sair de sua casa com o intuito de espancar
ou agredir qualquer LGBTI que encontrar pelo caminho o indivíduo ou os grupos de indivíduos
que agem desse modo estão praticando crime de ódio. Estão restringindo a possibilidade da
pessoa LGBTI existir enquanto pessoa, estão exterminando literalmente sua existência e
mandando um recado claro a outras pessoas da mesma população, cerceando a liberdade sexual
desses indivíduos, impedindo o exercício desse direito fundamental.
A existência de normas específicas para esse tipo de crime, bem como de políticas
públicas educacionais que combatam esse tipo de violência não são apenas uma pauta política
da população LGBTI, mas sim um imperativo lógico de uma nação que adote a integridade no
direito, a qual deve incidir sobre as três esferas do poder. Desse modo, é patente a omissão
inconstitucional em criminalizar a homotransfobia, posto que uma proteção legal deficiente
implica em manutenção de desigualdades de proteção entre concidadãos.
A título de exemplo podemos imaginar uma cena muito trivial no dia-a-dia das cidades
brasileiras: Um casal heterossexual caminha pela calçada de uma rua central em um município
qualquer. Esse casal está de mãos dadas. Num dado momento, eles param e se beijam na boca.
Não um beijo lascivo, mas sim um simples beijo na boca. É muito pouco provável que esse
casal se sinta ameaçado por ter atuado desse modo, ou que venha a sofrer algum tipo de
represália por qualquer concidadão que presencie a cena, a qual durou poucos segundos e foi
um simples gesto público de carinho, uma despedida talvez, ou a manifestação de alguma
alegria momentânea. No entanto, coloque no lugar desse casal heteroafetivo uma casal de
homens homossexuais ou um casal de mulheres homossexuais e o cenário pode ser outro.
Ocorre que pessoas homofóbicas sentem-se muito à vontade em agredir, xingar, humilhar,
contestar opiniões, gestos, atos, ou qualquer outro tipo de comportamento que seja ou que possa
ser associado à homossexualidade ou à transexualidade. Um casal homoafetivo andando de
mãos dadas em certas cidades brasileiras corre um risco real de ser agredido de alguma forma
e quando o forem, muitas vezes, encontrarão uma equipe policial muito pouco ou quase nunca

272
MOREIRA, op. cit., 2017a, p. 248.
108

treinada para atuar e registrar adequadamente esse tipo de crime, quando não raro, há o
menosprezo dos órgãos estatais para com esse tipo de violência.
O reconhecimento das diferentes identidades tem um viés existencial mas também um
viés jurídico/político, ou seja, existe uma relação entre cidadania e sexualidade, relação essa
que extrapola a estreita via do privado, atingindo a ordem pública. O acesso a recursos materiais
e a proteção desses recursos permite que as pessoas vivam melhor, constituindo-se no cerne das
políticas redistributivas. O reconhecimento de casamentos e uniões estáveis homoafetivas
permitiu que essas pessoas construíssem projetos de vida em comum e o que o Estado desse o
devido reconhecimento a esses projetos. Não obstante, a ausência de correta responsabilização
criminal nos casos da LGBTIfobia revela que o Estado, detentor do monopólio do uso da força,
ainda encontra-se omisso nesse ponto.
O conceito de cidadania sexual é muito bem delineado por Adilson Moreira:

O conceito de cidadania sexual desenvolvido pelos nossos tribunais tem um caráter


emancipador porque desvela relações de poder encobertas pelo discurso naturalista da
sexualidade humana. Vimos que essa narrativa legitima formas de opressão que
afetam negativamente a vida das pessoas de várias maneiras, sejam elas homossexuais
ou heterossexuais. O conceito de cidadania sexual procura estabelecer uma relação
direta entre a autonomia moral e o exercício da sexualidade. Podemos classificar o
primeiro aspecto como um dos sentidos fundamentais da noção moderna de liberdade
individual. Dessa forma, o exercício da autonomia sexual, direito constitucionalmente
garantido, está ligado à liberdade de ser, a possibilidade de determinar o que fazer
com a própria vida dentro de padrões sociais razoáveis.273

A existência de políticas públicas que objetivem exatamente mudar o cenário de


violência sofrida pela população LGBTI associada a criação de leis que tornem a
homotransfobia crime no Brasil não significa criar superdireitos em favor dessa população mas
sim dar o tratamento adequado e específico para essa opressão específica, violadora da
cidadania LGBTI, a qual atua na sociedade de uma forma multidimensional, atingindo de
maneira distinta casais heteroafetivos e homoafetivos, indivíduos brancos e negros, indígenas
e não indígenas, etc.

273
Ibidem, p.148.
109

8 HOMOTRANSFOBIA E CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE

8.1 Breve introdução

A omissão da República Federativa do Brasil em criminalizar a homotransfobia e outras


formas de discriminação baseadas no preconceito quanto à orientação sexual e/ou
identidade/expressão de gênero pode ser analisada por meio da integridade na legislação pelo
menos de duas formas:
1ª) Há omissão por desrespeito à própria legislação interna, notadamente por
desrespeito ao artigo 5º, inciso XLI da Constituição da República Federativa do Brasil de
1.988274, conforme vem sendo demonstrado na presente Dissertação. Como a liberdade sexual,
aqui tratada como livre possibilidade de exercício e expressão da orientação sexual e da
identidade de gênero, ou seja, livre exercício da sexualidade, é um direito fundamental e, em
função do fato de os crimes cometidos contra a população LGBTI serem uma atuação estrutural
que visa cercear as pessoas do exercício desse direito, muitas vezes aniquilando a existência
dessas pessoas literalmente e ainda, pelo fato de o texto constitucional, no citado inciso, prever
expressamente que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e garantias
fundamentais, resta que diante da inexistência de norma que criminalize a LGBTIfobia, há
omissão, uma omissão inconstitucional, propriamente dita, em franco desrespeito a esse
mandado de criminalização.
Esse fato por si só já demandaria a atuação de um legislador sério e coerente, que
respeitasse a Comunidade de Princípios que representa, ou ao menos, que deveria representar.
Não obstante, como já adiantado, existe uma outra forma de tratamento da referida
omissão importante de ser analisada:
2ª Há omissão por desrespeito às normas e resoluções de direito internacional,
notadamente de direitos humanos, normas essas das quais o Brasil é signatário. As referidas
normas, quando aprovadas mediante os mecanismos previstos na Constituição passam a ter
status de norma cogente para o Estado Brasileiro. Porém, essas estão igualmente sendo
desrespeitadas, atraindo a necessidade da realização do chamado Controle de
Convencionalidade, análise que será feita neste Capítulo.

274
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
110

Não se duvida que o controle de convencionalidade é realizado mais propriamente pelos


magistrados, o que redundaria na discussão do tema dentro da integridade do direito sob o viés
da integridade na jurisdição. No entanto, mantendo a coerência da pesquisa, a qual pretende
demonstrar a omissão do legislativo, aborda-se o tema do controle de convencionalidade dentro
do presente capítulo de forma a revelar que há necessidade de manutenção de uma legislação
íntegra no sentido dworkiano, considerando-se também as normas que compõem o sistema
interamericano de proteção dos direitos humanos.
Nesse sentido, menciona-se o artigo 2 da Convenção Americana Sobre Direitos
Humanos – Pacto de San Jose da Costa Rica:

Artigo 2. Dever de adotar disposições de direito interno


Se o exercício dos direitos e liberdades mencionados no artigo 1 ainda não estiver
garantido por disposições legislativas ou de outra natureza, os Estados Partes
comprometem-se a adotar, de acordo com as suas normas constitucionais e com as
disposições desta Convenção, as medidas legislativas ou de outra natureza que forem
necessárias para tornar efetivos tais direitos e liberdades.275

É um dever dos Estados parte adaptarem suas legislações internas para propiciarem
o exercício dos direitos previstos no art. 1 do Pacto de San Jose da Costa Rica, o qual assim dispõe:

Artigo 1. Obrigação de respeitar os direitos


1. Os Estados Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e
liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que
esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo,
idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou
social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social.276

Portanto, está expressamente previsto nos citados artigos que os Estados Partes têm o
dever de respeitar os direitos e liberdades reconhecidos pela Convenção, devendo inclusive
adaptar suas legislações internas para assegurarem o exercício desses direitos pelos
jurisdicionados277. Como o Pacto de San Jose da Costa Rica é norma jurídica brasileira no
sentido próprio do texto, deve ser cumprido.

8.2 Conceituação do Controle de Convencionalidade

275
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
276
Ibidem.
277
Ibidem.
111

O Ministro do STF Celso de Melo foi um dos primeiros magistrados no Brasil a falar
em controle de convencionalidade, em sede de decisão jurisdicional, no seu voto proferido no
HC 87.585/TO, no ano de 2008:

Proponho que se reconheça natureza constitucional aos tratados internacionais de


direitos humanos, submetendo, em consequência, as normas que integram o
ordenamento positivo interno e que dispõem sobre a proteção dos direitos e garantias
individuais e coletivos a um duplo controle de ordem jurídica: o controle de
constitucionalidade e, também, o controle de convencionalidade, ambos incidindo
sobre as regras jurídicas de caráter doméstico. 278

Foi igualmente pioneiro o posicionamento do Ministro Gilmar Mendes no RE 466.


343/SP279, proferido na mesma ocasião do HC 87.585/TO, apresentado em seu voto vogal:

Em conclusão, entendo que, desde a ratificação, pelo Brasil, sem qualquer


reserva, do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 11) e da
Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa
Rica (art. 7º, 7), ambos no ano de 1992, não há mais base legal para prisão civil do
depositário infiel, pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre
direitos humanos lhes reserva lugar específico no ordenamento jurídico, estando
abaixo da Constituição, porém acima da legislação interna. O status normativo
supralegal dos tratados internacionais de direitos humanos subscritos pelo Brasil,
dessa forma, torna inaplicável a legislação infraconstitucional com ele conflitante,
seja ela anterior ou posterior ao ato de ratificação. Assim ocorreu com o art. 1.287 do
Código Civil de 1916 e com o Decreto-Lei n° 911/69, assim como em relação ao art.
652 do Novo Código Civil (Lei n° 10.406/2002).280

Apesar de não ter utilizado a expressão controle de convencionalidade, ao apresentar a


tese vencedora da supralegalidade dos tratados internacionais de direitos humanos ratificados
pelo Brasil, o Ministro Gilmar Mendes, em conjunto com o Ministro Celso de Melo, abriu a
possibilidade de exercício do referido controle pois esses Tratados teriam um status normativo
inferior à Constituição (podendo ser igual quando equivalerem à emendas constitucionais
conforme art. 5º, § 3º da CRFB/88281), porém, superior às normas infraconstitucionais. Ou seja,
os Tratados Internacionais de direitos humanos devem ser aplicados, tendo inclusive a
possibilidade de suspender a eficácia de normas infraconstitucionais com eles conflitantes,
como foi o caso das normas que previam a possibilidade de prisão do depositário infiel, como
mencionado acima (artigo 652 do CC/2002282, e.g.).

278
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 87.585/TO. Relator: Marco Aurélio. Diário de Justiça
Eletrônico, Brasília, 26 jun. 2009a.
279
Idem, 2009b.
280
Ibidem.
281
Idem, 1988.
282
Idem, 2002.
112

Aqui procura-se demonstrar que, de forma semelhante, a partir da ratificação do


referidos Tratados de direitos humanos, as normas por eles previstas passam a ter aplicação
imediata (art. 5º, §§ 1º e 2º da CRFB/88283), deflagrando um verdadeiro comando para legislar
quando aquelas normas infralegais deixarem de dar efetividade às previsões contidas nos
Tratados de direitos humanos ratificados pela República Federativa do Brasil, como é o caso
da omissão em criminalizar a homotransfobia.
Um dos primeiros a dar atenção mais profunda ao tema controle de convencionalidade
sob o viés doutrinário no Brasil foi Valerio de Oliveira Mazzuoli, autor do livro O Controle
Jurisdicional da Convencionalidade das Leis, publicado pela Editora Revista dos Tribunais em
primeira edição de 2009284.
A referida obra é na verdade a publicação das conclusões apresentadas pelo referido
autor em sede da sua tese de doutoramento, defendida no de 2008, alguns meses antes da
publicação dos precitados HC 87.585/TO285 e RE 466. 343/SP286.
Luiz Flávio Gomes, que prefacia o livro, faz um breve resumo comparativo entre a tese
defendia por Mazzuoli em seu livro e o entendimento apresentado pelos Ministros Celso de
Melo e Gilmar Mendes nas decisões mencionadas acima:

A diferença fundamental, em síntese, entre a tese de Valerio Mazzuoli e a posição


vencedora (por ora) no STF está no seguinte: a primeira está um tom acima. Para o
STF (tese majoritária, conduzida pelo Min. Gilmar Mendes) os tratados de direitos
humanos não aprovados pela maioria qualificada do art. 5.º, § 3.º, da Constituição
seriam supralegais (Valerio discorda e os eleva ao patamar constitucional); para o STF
os tratados não relacionados com os direitos humanos possuem valor legal (para
Valerio eles são todos supralegais, com fundamento no art. 27 da Convenção de Viena
sobre o Direito dos Tratados de 1969, ratificada pelo Brasil em 25.09.2009 e
promulgada pelo Decreto 7.030, de 14.12.2009). Valerio Mazzuoli e Celso de Mello
estão no tom maior. Gilmar Mendes (e a maioria votante do STF) está no tom menor.
A diferença é de tom. De qualquer modo, todos fazem parte de uma orquestra jurídica
espetacular: porque finalmente tornou-se realidade no Brasil a terceira onda
(internacionalista) do Direito, do Estado e da Justiça.287

Pelo exposto acima, percebe-se que Celso de Melo e Mazzuoli encontram-se ainda mais
avançados do que o entendimento atual majoritário do STF quanto ao status das normas de

283
Idem, 1988.
284
MAZZUOLI, Valério de Oliveira. O controle jurisdicional da convencionalidade das leis. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2011.
285
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 87.585/TO. Relator: Marco Aurélio. Diário de Justiça
Eletrônico, Brasília, 26 jun. 2009a.
286
Idem, 2009b.
287
GOMES, Luiz Flávio. In: MAZZUOLI, Valério de Oliveira. O Controle Jurisdicional da Convencionalidade
das Leis. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 18.
113

direitos humanos ratificadas pelo Brasil. Para justificar seu entendimento, Mazzuoli busca
correlacionar os §§ 2º e 3º do art. 5º da Constituição:

Mas, há diferença em dizer que os tratados de direitos humanos têm “status de norma
constitucional” e dizer que eles são “equivalentes às emendas constitucionais”? No
nosso entender a diferença existe e nela está fundada a única e exclusiva serventia do
imperfeito § 3.º do art. 5.º da Constituição, fruto da Emenda Constitucional 45/2004.
A relação entre tratado e emenda constitucional estabelecida por esta norma (já
falamos) é de equivalência e não de igualdade, exatamente pelo fato de “tratado” e
“norma interna” serem coisas desiguais, não tendo a Constituição pretendido dizer
que “A é igual a B”, mas sim que “A é equivalente a B”, em nada influenciando no
status que tais tratados podem ter independentemente de aprovação qualificada. Falar
que um tratado tem “status de norma constitucional” é o mesmo que dizer que ele
integra o bloco de constitucionalidade material (e não formal) da nossa Carta Magna,
o que é menos amplo que dizer que ele é “equivalente a uma emenda constitucional”,
o que significa que esse mesmo tratado já integra formalmente (além de
materialmente) o texto constitucional. Assim, o que se quer dizer é que o regime
material (menos amplo) dos tratados de direitos humanos não pode ser confundido
com o regime formal (mais amplo) que esses mesmos tratados podem ter, se
aprovados pela maioria qualificada ali estabelecida. Perceba-se que, neste último caso,
o tratado assim aprovado será, além de materialmente constitucional, também
formalmente constitucional. Assim, fazendo-se uma interpretação sistemática do texto
constitucional em vigor, à luz dos princípios constitucionais e internacionais de
garantismo jurídico e de proteção à dignidade humana, chega-se à seguinte conclusão:
o que o texto constitucional reformado quis dizer é que esses tratados de direitos
humanos ratificados pelo Brasil, que já têm status de norma constitucional, nos termos
do § 2.º do art. 5.º, poderão ainda ser formalmente constitucionais (ou seja, ser
equivalentes às emendas constitucionais), desde que, a qualquer momento, depois de
sua entrada em vigor, sejam aprovados pelo quorum do § 3.º do mesmo art. 5.º da
Constituição.288

Para Mazzuoli, essa sutil, porém, importante diferenciação entre os §§ 2º e 3º da


CRFB/88 atrairia a possibilidade de se diferenciar também as consequências jurídicas de o
Tratado Internacional de direitos humanos ser meramente aprovado e ratificado, ou aprovado
pelo quórum especial do § 3º do art. 5º da Constituição e posteriormente ratificado. Quais
seriam essas consequências?

1) eles passarão a reformar a Constituição, o que não é possível tendo apenas o status
de norma constitucional;
2) eles não poderão ser denunciados, nem mesmo com Projeto de Denúncia elaborado
pelo Congresso Nacional, podendo ser o Presidente da República responsabilizado em
caso de descumprimento dessa regra (o que não é possível fazer – responsabilizar o
Chefe de Estado – tendo os tratados somente status de norma constitucional);
e
3) eles serão paradigma do controle concentrado de convencionalidade, podendo
servir de fundamento para que os legitimados do art. 103 da Constituição (v.g., o
Presidente da República, o Procurador-Geral da República, o Conselho Federal da
OAB etc.) proponham no STF as ações do controle abstrato (v.g., ADIn, ADECON,

288
MAZZUOLI, op. cit., p. 52-53.
114

ADPF etc.) a fim de invalidar erga omnes as normas infraconstitucionais com eles
incompatíveis.289

Não se duvida que os Tratados aprovados da forma prevista pelo § 3º do artigo 5º da


Constituição290 tenham caráter equivalente à emenda constitucional atraindo a possibilidade do
exercício daquilo que Mazzuoli chamou de controle concentrado/abstrato de
convencionalidade291.
Porém, como descrito abaixo, em relação às normas de direitos humanos internacionais
aprovadas por quórum simples, como é o caso da Convenção Americana de Direitos Humanos,
entendemos terem elas caráter supralegal, como exposto por Gilmar Mendes, fato esse que por
si só já possibilita sua invocação em sede de controle difuso de convencionalidade, e.g., no caso
de omissão do Brasil em criminalizar a homotransfobia.

8.3 A Omissão Inconstitucional em Criminalizar a homotransfobia e o Controle de


Convencionalidade

A presente Dissertação coaduna com o entendimento esposado pelo Ministro Gilmar


Mendes quanto ao status de supralegalidade das normas internacionais de direitos humanos
ratificadas pelo Brasil292.
Se por um lado, o Direito Internacional Público e o Constitucionalismo Contemporâneo
tendem a atribuir caráter constitucional aos tratados internacionais de direitos humanos
formalmente ratificados pelo Estado/parte, como defende Mazzuoli:

A Constituição Brasileira de 1988, segundo essa ótica internacional marcadamente


humanizante e protetiva, erigiu a dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III) e a
prevalência dos direitos humanos (art. 4.º, II) a princípios fundamentais da República
Federativa do Brasil. Este último passou a ser, inclusive, princípio pelo qual o Brasil
deve reger-se no cenário internacional. A Carta de 1988, dessa forma, instituiu no país
novos princípios jurídicos que conferem suporte axiológico a todo o sistema
normativo brasileiro e que devem ser sempre levados em conta quando se trata de
interpretar quaisquer normas do ordenamento jurídico pátrio. Dentro dessa mesma
trilha, que começou a ser demarcada desde a Segunda Guerra Mundial, em
decorrência dos horrores e atrocidades cometidos pela Alemanha Nazista no período
sombrio do Holocausto, a Constituição brasileira de 1988 deu um passo extraordinário
rumo à abertura do nosso sistema jurídico ao sistema internacional de proteção dos
direitos humanos, quando, no § 2.º do seu art. 5.º, deixou bem estatuído que: “Os

289
MAZZUOLI, op. cit., p. 53-54.
290
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
291
MAZZUOLI, op. cit.
292
GOMES, op. cit., p. 14.
115

direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do


regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte”. (original destacado) Com base neste
dispositivo, que segue a tendência do constitucionalismo contemporâneo, sempre
defendemos que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil
têm índole e nível constitucionais, além de aplicação imediata, não podendo ser
revogados por lei ordinária posterior.293

Por outro lado, a atribuição desse status constitucional aos Tratados Internacionais de
Direitos Humanos, sem o necessário quórum previsto no artigo 5º, §3º da CRFB/88294, no caso
específico do Brasil, dificultaria o chamado controle de constitucionalidade por parte dos
Tribunais nacionais, notadamente o STF, remetendo automaticamente a essas normas e não à
Constituição, o status de palavra última do referido controle. Além disso, tal ingresso permitiria
um processo simplificado em demasia de reforma constitucional, de certa forma, modificando
o caráter rígido da Carta Magna Brasileira.
Não obstante, é inegável o destaque das normas internacionais de direitos humanos
ratificadas pelo Brasil em face das leis ordinárias, o que atrai a possibilidade de suspensão da
eficácia dessas últimas quando conflitantes com os textos de direitos humanos ratificados pela
República, como defendido por Gilmar Mendes no RE 466. 343/SP295.
Esse entendimento é mais que suficiente para demonstrar a omissão inconstitucional e
digamos, inconvencional do Brasil em criminalizar a homotransfobia. Ao tornar-se signatário
da Convenção Americana de Direitos Humanos, Pacto de San Jose da Costa Rica, o país se
comprometeu em dar resposta legal e jurisdicional célere e adequada aos casos de violação dos
direitos humanos, incluídos aí as violações contra os direitos humanos da minoria LGBTI. Do
mesmo modo, a referida omissão se revela diante das reiteradas Resoluções aprovadas pela
Assembleia Geral da OEA no sentido de recomendarem os Estados Partes a adotarem medidas
protetivas eficazes em favor da população LGBTI, resoluções 2.435/2008, 2.504/2009,
2.600/2010, 2.653/2011, 2.721/2012, 2.807/2013, todas da OEA.296
Como discutido no Capítulo 02, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos
reconheceu a mora injustificada do Brasil em punir a violência sofrida por Maria da Penha, o
que redundou na edição da Lei 11.340/2006297.

293
MAZZUOLI, op. cit., p. 28.
294
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
295
Idem, 2009b.
296
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Declarações e Resoluções da Assembleia Geral. [S.l.]:
OEA, 2019b.
297
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
116

A Convenção Americana sobre Direitos Humanos prevê expressamente os direitos à


igualdade, à não discriminação e à proteção eficiente do Estado (artigos. 2º, 24 e 1.1 da CADH);
igualmente prevê o Direito a recurso e ao devido processo legal substantivo: artigos 8º e 25 da
CADH e finalmente o Direito humano à integridade pessoal (física e psicológica)- art. 5º da
CADH298.
Como já discutido ao longo do Capítulo 06 (Caso Baliera), no caso concreto de violência
praticado contra André Gomes Baliera a República Federativa do Brasil demonstrou-se
flagrantemente omissa em responsabilizar criminalmente os autores das agressões por ele
sofridas, demonstrando a insuficiência do aparato legal aplicado hoje no Brasil para esse tipo
de caso, em flagrante violação aos direitos humanos à não discriminação, à proteção eficiente,
devido processo legal substantivo, integridade pessoal, etc.
Por isso, se sob o ângulo da legislação interna, o legislador brasileiro apresenta mora
injustificada em criminalizar a homotransfobia em franco desrespeito ao artigo 5º, inciso XLI
da CRFB/88299, sob a ótica do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, essa
mora resta igualmente evidenciada por desrespeito aos mencionados artigos 1.1, 2º, 5º, 8º 24 e
25, todos da Convenção Americana de Direitos Humanos300, reiterados nas citadas Resoluções
da OEA.
Desse modo, a integridade na legislação deve ser alcançada pela edição de norma pátria
que, a um só tempo, cumpra a determinação constitucional de que a lei punirá discriminação
atentatória dos direitos e liberdades fundamentais (artigo 5º, inciso XLI da CRFB/88 301), bem
como atenda à previsão do Pacto de San Jose da Costa Rica de serem direitos humanos a
integridade pessoal, a não-discriminação, o devido processo legal substantivo, a igualdade, a
proteção eficiente do Estado, etc. previstos nos artigos 1.1, 2º, 5º, 8º 24 e 25 da Convenção
Americana de Direitos Humanos302.

Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
298
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
299
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
300
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
301
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Nós, representantes do povo brasileiro,
reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais... Diário Oficial da União, Brasília, 05 out. 1988.
302
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
117

Se esses últimos têm ao menos status supralegal (Mazzuolli e Celso de Melo defendem
que os tratados ratificados têm caráter constitucional303) já são exigíveis pelo menos em
controle difuso de convencionalidade, podendo ser invocados em petições ajuizadas nos
tribunais e cabendo aos Tribunais pátrios sobre eles se pronunciarem ao menos incidentalmente.
Entendimento diverso faria com que as normas, tanto as pátrias quanto as de direitos
humanos ratificadas (as quais passam a ser igualmente pátrias por via de consequência) tenham
caráter não de princípios, mas meramente de políticas, como criticado por Dworkin e discutido
ao longo do Capítulo 02, circunstância essa que entendemos não ser o caso brasileiro.
Em juízo concentrado, o STF poderá se pronunciar sobre os Tratados Internacionais de
Direitos Humanos, especialmente o Pacto de San Jose da Costa Rica quando proferir as decisões
nos MI 4733304 e na ADO nº 26305, exercendo um verdadeiro controle de convencionalidade,
além da óbvia necessidade de abordagem constitucional e infraconstitucional das referidas
ações.
Finalmente, mas não menos importante, é possível inferir a igual omissão
inconvencional em relação às normas do Sistema Universal de Direitos Humanos (ONU),
no entanto, uma análise mais aprofundada da questão ultrapassa os objetivos da presente
Dissertação, limitada temporalmente, ficando o tema como sugestão de pesquisas futuras.

8.4 O Controle de Convencionalidade, a ADO. n. 26 e o MI. n. 4.733

Partindo da premissa de que os Tratados internacionais sobre direitos humanos


ratificados pelo Brasil têm status supralegal verifica-se que os julgamentos da ADO. n. 26306 e
do MI. n. 4733307 devem levar em consideração as referidas normas quando das decisões a
serem proferidas. Se reconhecida a omissão e/ou concedida a injunção será importante que os
ministros mencionem os Tratados de forma a equalizarem o que está ali escrito com o que
deveria estar previsto nas normas internas.
Por outro lado, se denegada a injunção e/ou infirmada a existência de omissão
inconstitucional, restaria atraído um ônus argumentativo por parte dos Ministros do STF no
sentido de demonstrar que a questão da violência sofrida pela população LGBTI é distinta

303
GOMES, op. cit., p. 12.
304
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Injunção nº 4.733. Relator: Edson Fachin. Diário de Justiça
Eletrônico, Brasília, 16 nov. 2018b.
305
Idem, 2018a.
306
Ibidem.
307
Idem, 2018b.
118

daquela sofrida pelas demais minorias (distinguishing) ou que teses desenvolvidas em julgados
daquela Corte referentes à normas específicas protetivas, do direito das mulheres, e.g.,
encontram-se hoje superadas (overrulling), como já discutido no capítulo 04. No entanto, um
entendimento nesse sentido estaria contrariando as Resoluções da Assembleia Geral da OEA,
já mencionadas anteriormente, as quais conclamam os Estados-membros a adotarem medidas
protetivas eficazes que assegurem o exercício dos direitos humanos por parte da minoria
LGBTI, bem como estaria esvaziando o conjunto de direitos previstos no Pacto de San Jose da
Costa Rica308.
Evidentemente toda a pesquisa aqui desenvolvida aponta em sentido de que a
inconstitucionalidade da omissão e a injunção devem ser reconhecida/concedida. A integridade,
tanto sob a ótica legislativa quanto sob a jurisdicional sugere a necessidade de se aplicar o
direito de forma a dar melhor proteção aos direitos humanos. Uma decisão que deixasse de
reconhecer a mora legislativa em criminalizar a homotransfobia enfraqueceria o sistema
interamericano de proteção dos direitos humanos desconectando as normas pátrias do conjunto
normativo dos Tratados, gerando uma fratura no ordenamento, tornando o sistema normativo
nacional menos íntegro do ponto de vista dworkiano.
Nossos juízes encontram-se adstritos aos Tratados de direitos humanos formalmente
ratificados, devendo sobre eles se pronunciarem em seus julgados, exercendo ao menos o
controle difuso de sua convencionalidade. É exatamente esse o entendimento da Corte
Interamericana de Direitos Humanos, sendo possível o exercício do referido controle ex officio:

En tal sentido se expresó la Corte en el caso Trabajadores Cesados al sostener que


“...cuando un Estado ha ratificado un tratado internacional como la Convención
Americana, sus jueces también están sometidos a ella, lo que les obliga a velar porque
el efecto útil de la Convención no se vea mermado o anulado por la aplicación de
leyes contrarias a sus disposiciones, objeto y fin. En otras palabras, los órganos del
Poder Judicial deben ejercer no sólo un control de constitucionalidad, sino también
‘de convencionalidad’ ex officio entre las normas internas y la Convención
Americana...”309

Além disso, caso o país signatário deixe de aplicar o Pacto de San José, por exemplo,
estará atraindo a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos para julgá-lo:

Conjugando las ideas hasta ahora expuestas podemos decir – con algunas aclaraciones
que uego haremos – que del postulado liminar antedicho surge que la Corte regional

308
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
309
CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 2009 apud HITTERS, Juan Carlos. Controle de
Constitucionalidade e Controle de Convencionalidade. Comparação. (Critérios Fixados pela Conte Interamericana
de Direitos Humanos). Rev. Fac. Dir. Sul de Minas, Pouso Alegre, v. 26, n. 1, p. 9., jan./jun. 2010.
119

no se ocupa – por principio – de la legislación doméstica, sólo escruta si la misma


transgrede la Convención Americana sobre Derechos Humanos (y otros tratados), y
si advierte esa falencia, así se lo hace saber al país infractor para que modifique los
actos ejecutados por cualquiera de sus tres poderes. Ello a fin de evitar que el mismo
incurra en responsabilidad estatal (arts. 1.1 y 2 del Pacto aludido). 310 .

É importante deixar claro aqui o fato de que tendo um país ratificado um Tratado
Internacional de Direitos Humanos está a ele vinculado, por óbvio, lógico, dá até vergonha
escrever isso, sendo necessário aplicá-lo por completo quando não tenham sido feitas reservas.
Se a lei doméstica de algum modo impede ou dificulta o exercício dos direitos previstos no
Tratado, é dever dos órgãos jurisdicionais internos exercerem o chamado controle de
convencionalidade entre a lei local e a norma de direitos humanos de caráter supralegal,
adequando e integrando a norma local ao referido tratado, de modo que essa interpretação da
lei (quando feita por órgão jurisdicional) ou a edição de nova norma (quando feita por órgão
legislativo) permita a supressão da aplicação da norma conflituosa porque esta desrespeita ou
impede o exercício dos direitos previstos nos Tratados internacionais de direitos humanos
formalmente ratificados.
Do mesmo modo, é possível levar-se esse tipo de circunstância à análise dos órgãos
internacionais responsáveis pela fiscalização da aplicação dos referidos Tratados, quando o
controle de convencionalidade não tenha sido corretamente exercido pelos órgãos locais. O
esgotamento dos recursos internos é um requisito para admissão da análise perante muitos
órgãos internacionais, como é o caso do Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos (artigo 31 do Regulamento da CIDH311).
Ao longo do capítulo 02 da Dissertação, procurei deixar claro que a integridade no
direito deve ser vista não apenas sob o prisma do ato jurisdicional e legislativo como
expressamente afirmado por Dworkin312, mas também sob a ótica do executivo. Esse raciocínio
coaduna intimamente com a visão apresentada por Juan Carlos Hitters313, ao tratar do controle
de convencionalidade. O referido autor assim afirmou:

Como consecuencia de lo expresado, va de suyo, que no sólo el Poder Judicial debe


cumplir con las disposiciones del derecho supranacional, sino también el Ejecutivo y
el Legislativo, tanto en el orden nacional, como provincial y municipal, bajo

310
Ibidem, p. 11.
311
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Regulamento da Comissão Interamericana
de Direitos Humanos. [S.l.]: CIDH, 2009.
312
DWORKIN, op. cit., 1999, p. 203.
313
HITTERS, Juan Carlos. Controle de Constitucionalidade e Controle de Convencionalidade. Comparação.
(Critérios Fixados pela Conte Interamericana de Direitos Humanos). Rev. Fac. Dir. Sul de Minas, Pouso Alegre,
v. 26, n. 1, p. 7-28, jan./jun. 2010.
120

apercibimiento de generar responsabilidad internacional del Estado (arts. 1.1y 2 de la


CADH).314

A omissão do legislativo em criminalizar a homotransfobia, bem como a omissão do


executivo em dar efetiva proteção à população LGBTI torna a República Federativa do Brasil
responsável em sentido jurídico do termo em face dos Tratados internacionais de direitos
humanos ratificados, com destaque para o Pacto de San Jose da Costa Rica315, sendo legítima a
denúncia do Brasil perante a CIDH, como se deu no caso Baliera tratado ao longo do capítulo
6.
Não é incomum que os órgãos jurisdicionais brasileiros, ao analisar determinada
matéria, deixem de fazê-lo à luz do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos.
Apenas para ilustrar, menciona-se o caso do RE 587.365/SC316, ocasião em que o STF firmou
entendimento no sentido de que a verificação do requisito renda a título de concessão do auxílio
reclusão deve se dar somente pela análise dos proventos do apenado e não da criança ou dos
familiares que necessitam do mencionado auxílio.

Houve divergência doutrinária e jurisprudencial acerca da identificação da pessoa de


baixa renda, para fins da concessão do benefício. Discutia-se se a “baixa renda” a ser
averiguada seria a renda do segurado preso ou a renda de seus dependentes.
Entretanto, a discussão travada no STF, e também pela doutrina brasileira, não chegou
a analisar a questão a partir da Convenção sobre os Direitos da Criança, que adota um
conceito diferenciado, mais abrangente e benéfico, a para o termo “criança”. 317

Nesse caso específico o entendimento firmado pelo STF simplesmente ignorou as


normas internacionais de direitos humanos, interpretando a Constituição e as normas
infraconstitucionais internas, e tão somente:

A questão foi apreciada pelo Supremo Tribunal Federal - STF, em regime de


repercussão geral, no RE 587.365/SC, julgado em 25/03/2009, prevalecendo o voto
do Min. Ricardo Lewandowski, no sentido que deve ser utilizada, como parâmetro
para a concessão do benefício, a renda do segurado preso e não a de seus dependentes
[...].
Porém, a leitura dos votos do RE 587.365/SC, no qual se firmou a tese em repercussão
geral, revela que não se apreciou a questão pela ótica dos tratados e convenções

314
HITTERS, Juan Carlos. Controle de Constitucionalidade e Controle de Convencionalidade. Comparação.
(Critérios Fixados pela Conte Interamericana de Direitos Humanos). Rev. Fac. Dir. Sul de Minas, Pouso Alegre,
v. 26, n. 1, p. 24., jan./jun. 2010.
315
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
316
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 587.365. Relator: Ricardo Lewandowiski.
Diário de Justiça Eletrônico, Brasília, 25 mar. 2009c.
317
BASSETTO, Marcelo Eduardo Rossitto; BASSETTO, Maria do Carmo Lopes Toffanetto Rossitto. Auxílio
Reclusão: Análise do Requisito Econômico a partir da Convenção sobre os Direitos da Criança. Libertas Revista
de Pesquisa em Direito, Ouro Preto, v. 2, n. 1, p. 92, jan./jun. 2016.
121

internalizados pelo Brasil, em especial pela Convenção Sobre os Direitos da Criança,


cuja apreciação abaixo se pretende efetuar.
[...] como toda a Convenção, a partir das considerações tecidas no preâmbulo do
documento, no sentido de que as crianças necessitam de proteção e cuidados especiais
para o pleno e harmonioso desenvolvimento de sua personalidade. É a consagração
do reconhecimento de que a criança é um ser humano em formação, a quem devem a
sociedade e o Estado conferir proteção integral, tal qual disposto no ECA,
especialmente em seus artigos 3º a 6º (ulteriormente desdobrados ano longo do
Estatuto). O disposto no artigo 26, n. 2, da Convenção é muito claro ao dispor que, na
concessão de benefícios previdenciários, devem ser considerados “os recursos e a
situação da criança e das pessoas responsáveis por seu sustento”.
Em razão da prisão do segurado responsável pelo sustento do grupo familiar, mais
necessária se fará a consideração da condição econômica da criança e o consequente
auxílio financeiro decorrente do benefício. O artigo 26, n. 2, da Convenção ainda
reforça a previsão, salientando que deve ser averiguada “qualquer outra consideração
cabível no caso de uma solicitação de benefícios feita pela criança ou em seu nome”.
Assim, no plano da Convenção, há clara previsão acerca da concessão de benefício
em favor da criança e do grupo familiar responsável por seu sustento, após o advento
da prisão do segurado.
Seria desejável a revisão da posição adotada pelo STF, de forma a prevalecer uma
leitura que não se funde tanto na literalidade do artigo 201, IV, da CF, considerando
apenas a condição de baixa renda do segurado e não dos dependentes. No entanto, o
quadro atual, decorrente do julgamento em regime de repercussão geral do RE
587.365, não permite a invocação de legislação interna com outro significado que não
o adotado pelo Supremo Tribunal. 318

A presente pesquisa buscou demonstrar que em circunstâncias como a narrada acima, é


um dever dos órgãos jurisdicionais interpretarem a legislação em sua integralidade, inclusive
considerando as normas de direitos internacionais ratificadas pelo Brasil. Não se pode afirmar
com certeza que, se no caso da análise do requisito renda para concessão do auxílio reclusão à
luz da Convenção Sobre os Direitos da Criança319 o STF proferiria decisão diferente. O que é
possível afirmar com certeza é que ele deveria ter mencionado a referida norma quando da
decisão.
É importante que os causídicos busquem invocar em suas petições iniciais as normas
previstas nos Tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil de modo a
estimular que os Tribunais sobre eles se pronunciem. Caso os magistrados assim não procedam,
os(as) advogados(as) poderão utilizar-se de um dos mais simples, porém, importantes recursos,
o embargo de declaração, saneando a omissão do pronunciamento.
Não se pode antever qual decisão exata o STF proferirá quando do julgamento da ADO.
n. 26320 e do MI. n. 4.733321. O que se pode antever é a necessidade de as decisões enfrentarem
a matéria com boa-fé. Analisando todos os fatos que gravitam ao redor da lide, atraindo um

318
Ibidem, p. 101.
319
BRASIL. Decreto nº 99.710, de 21 de novembro de 1.990. Promulga a convenção sobre os direitos da criança.
Diário Oficial da União, Brasília, 21 nov. 1990.
320
Idem, 2018a.
321
Idem, 2018b.
122

ônus argumentativo que leve em consideração as normas pátrias puras, as decisões proferidas
em casos análogos pretéritos, as estatísticas da violência específica sofrida pela população
LGBTI, bem como as normas de direito internacional que se tornaram pátrias (supralegalmente
ao menos), a partir de sua ratificação pelo República Federativa do Brasil.
123

9 BREVE COMPARATIVO ENTRE O CASO MARIA DA PENHA E O CASO


BALIERA: ACERTOS E DESACERTOS DE UMA CRIMINALIZAÇÃO DE
CONDUTAS

O histórico de edição da Lei nº 11.340/2006322, popularmente conhecida como Lei


Maria da Penha, guarda certa semelhança com a omissão inconstitucional em criminalizar a
homotransfobia.
Em ambos os casos cuida-se de uma tentativa de sanear discriminações históricas
sexistas e ou de gênero, violência que põe um ser humano de forma privilegiada diante de outro.
No caso do homem violento, privilegiado em face da mulher, no caso do(a) heterossexual
homotransfóbico, privilegiado(a) diante do LGBTI. Nesse sentido:

Compreender a difícil tarefa pretendida pela Lei n. 11.340/2006, denominada Lei


Maria da Penha, significa observar que o mundo manteve, secularmente, a
legitimidade da violência de gênero, tornando esta, portanto, institucionalizada, com
enfoques estigmatizados da cultura e da religião, impondo à mulher,
consequentemente, uma vida de subjugação.323

No dia 04 de abril de 2001, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, por meio


de seu Relatório nº 54/01324 (Caso 12.051 - Maria da Penha Maia Fernandes), responsabilizou
o Estado Brasileiro por violação aos direitos e garantias judiciais e proteção judicial
assegurados pelos artigos 8 e 25 da Convenção Americana, combinados com a obrigação geral
de respeitar e garantir os direitos, prevista no artigo 1(1) igualmente da Convenção Americana
pela demora injustificada e tramitação negligente do Caso Maria da Penha, o qual tratou de
violência doméstica no Brasil.
A referida responsabilização tem importância histórica ímpar pois refere-se à aplicação
de normas Direito Internacional Público ratificadas pelo Brasil demonstrando a eficácia do
Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos325, reconhecendo a atuação
negligente do Estado Brasileiro em um caso concreto:

322
Idem, 2006.
323
CAMPOS, A. H. Violência institucional de gênero e a novel ordem normativa: inovações processuais na Lei
Maria da Penha. In: LIMA, Fausto R.; SANTOS, Claudiene (Coords.). Violência doméstica: vulnerabilidades e
desafios na intervenção criminal e multidisciplinar. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. Cap. 03, p. 37.
324
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Relatório Anual da CIDH/OEA-2000:
Relatório nº 54/01. [S.l.] CIDH, 2001.
325
O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos é o sistema regional aplicável ao Estado brasileiro
e é composto pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana de Direitos
Humanos, órgãos de monitoramento da Organização dos Estados Americanos (OEA). Desde sua criação, esse
sistema regional adotou uma série de instrumentos internacionais de promoção e proteção dos direitos humanos,
que se tornaram sua base normativa. A Convenção Americana de Direitos Humanos ou Pacto de San José e a
124

1. Em 20 de agosto de 1998, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos


(doravante denominada “a Comissão”) recebeu uma denúncia apresentada pela
Senhora Maria da Penha Maia Fernandes, pelo Centro pela Justiça e pelo Direito
Internacional (CEJIL) e pelo Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da
Mulher (CLADEM) (doravante denominados “os peticionários”), baseada na
competência que lhe conferem os artigos 44 e 46 da Convenção Americana sobre
Direitos Humanos (doravante denominada “a Convenção” ou “a Convenção
Americana) e o artigo 12 da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará ou CVM).
2. A denúncia alega a tolerância da República Federativa do Brasil (doravante
denominada “Brasil” ou “o Estado”) para com a violência cometida por Marco
Antônio Heredia Viveiros em seu domicílio na cidade de Fortaleza, Estado do Ceará,
contra a sua então esposa Maria da Penha Maia Fernandes durante os anos de
convivência matrimonial, que culminou numa tentativa de homicídio e novas
agressões em maio e junho de 1983. Maria da Penha, em decorrência dessas
agressões, sofre de paraplegia irreversível e outras enfermidades desde esse ano.
Denuncia-se a tolerância do Estado, por não haver efetivamente tomado por mais de
15 anos as medidas necessárias para processar e punir o agressor, apesar das denúncias
efetuadas. Denuncia-se a violação dos artigos 1(1) (Obrigação de respeitar os
direitos); 8 (Garantias judiciais); 24 (Igualdade perante a lei) e 25 (Proteção judicial)
da Convenção Americana, em relação aos artigos II e XVIII da Declaração Americana
dos Direitos e Deveres do Homem (doravante denominada “a Declaração”), bem
como dos artigos 3, 4,a,b,c,d,e,f,g, 5 e 7 da Convenção de Belém do Pará. A Comissão
fez passar a petição pelos trâmites regulamentares. Uma vez que o Estado não
apresentou comentários sobre a petição, apesar dos repetidos requerimentos da
Comissão, os peticionários solicitaram que se presuma serem verdadeiros os fatos
relatados na petição aplicando-se o artigo 42 do Regulamento da Comissão.
3. A Comissão analisa neste relatório os requisitos de admissibilidade e considera que
a petição é admissível em conformidade com os artigos 46(2)(c) e 47 da Convenção
Americana e o artigo 12 da Convenção de Belém do Pará. Quanto ao fundo da questão
denunciada, a Comissão conclui neste relatório, elaborado segundo o disposto no
artigo 51 da Convenção, que o Estado violou, em prejuízo da Senhora Maria da Penha
Maia Fernandes, os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial assegurados
pelos artigos 8 e 25 da Convenção Americana, em concordância com a obrigação geral
de respeitar e garantir os direitos, prevista no artigo 1(1) do referido instrumento e nos
artigos II e XVII da Declaração, bem como no artigo 7 da Convenção de Belém do
Pará. Conclui também que essa violação segue um padrão discriminatório com
respeito a tolerância da violência doméstica contra mulheres no Brasil por ineficácia
da ação judicial. A Comissão recomenda ao Estado que proceda a uma investigação
séria, imparcial e exaustiva para determinar a responsabilidade penal do autor do
delito de tentativa de homicídio em prejuízo da Senhora Fernandes e para determinar
se há outros fatos ou ações de agentes estatais que tenham impedido o processamento
rápido e efetivo do responsável; também recomenda a reparação efetiva e pronta da
vítima e a adoção de medidas, no âmbito nacional, para eliminar essa tolerância do
Estado ante a violência doméstica contra mulheres. 326

Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem deram início a este processo. Em seguida, vieram
convenções e protocolos sobre temas de tortura, pena de morte, violência contra a mulher, desaparecimentos
forçados, discriminação contra pessoas portadoras de deficiência e direitos econômicos, sociais e culturais. Estas
normativas internacionais evoluíram para a construção de um arcabouço legislativo que reconheceu e definiu
direitos, criando obrigações internacionais para os Estados e estabelecendo órgãos de monitoramento do
cumprimento destas obrigações. PROCURADORIA FEDERAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO. Sistema
Interamericano de Direitos Humanos. [S.l.]: PFDC, 2016.
326
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 2001.
125

Como tentativa de reparação simbólica, atendendo a uma demanda histórica de melhor


tratamento penal de questões ligadas à violência doméstica contra a mulher, bem como
atendendo às conclusões e recomendações constantes precitado Relatório 054/2001 da
CIDH/OEA327, foi publicada em 07 de agosto de 2006 a já mencionada Lei 11.340/2006, norma
que:

[...] cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. 328

Do mesmo modo, como já descrito por meio do Capítulo 06 da presente Dissertação,


que retratou o Caso Baliera, tramita atualmente perante a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos - CIDH a Petição de Ingresso que contém a denúncia do Estado Brasileiro por
omissão (demora/ausência de punição) em responsabilizar criminalmente agressores que
claramente praticaram atos de homofobia em desfavor de André Gomes Baliera. Caso o Brasil
venha a ser responsabilizado pela CIDH também nesse circunstância, ou se, mesmo antes disso,
o Brasil venha a editar norma que criminalize a homotransfobia é importante tecer
considerações sobre o ato de se criminalizar condutas.
Apesar da inegável importância da Lei nº 11.340/2006329, não são raras as críticas de
criminalistas em relação à sua ausência de efetividade, apontando esses pesquisadores medidas
alternativas à privação da liberdade que possam de fato propiciar a diminuição da reincidência
desses tipos de delito:

A Lei Maria da Penha possui natureza marcadamente penal. Ocorre que a punição
penal estatal, entendida apenas como a determinação de prisão do agressor, nos casos
de violência doméstica não encontra efetiva resposta social quanto à diminuição dos
casos albergados pela lei. Busca-se a utilização da previsão legal de comparecimento
do agressor a programas de recuperação e reeducação como a principal medida de
urgência a ser deferida como mecanismo efetivamente capaz de diminuir a
reincidência de agressores de violência de gênero.330

327
Ibidem.
328
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
329
Ibidem.
330
SILVA, Antenira da Silva e; BARBOSA, Gabriela Sousa da Silva. Política Criminal e Lei Maria da Penha: O
deferimento do comparecimento do agressor a programa de recuperação e reeducação como a principal medida
protetiva de urgência. Revista de Criminologias e Políticas Criminais, Brasília, v. 3, n. 1, p. 78, jan./jun. 2017.
126

O presente trabalho não pode ignorar as referidas críticas, mas ao contrário, deve
absorvê-las na tentativa de evitar incorrer nas mesmas falhas apontadas pelos especialistas em
relação à Lei nº 11.340/2006331.
Ocorre que o termo criminalizar não é sinônimo exato de criar tipos penais cujo preceito
secundário seja a pena de reclusão e ou de detenção. É inegável que, para os crimes de
LGBTIfobia praticados com extrema violência, como por exemplo, os homicídios e lesões
corporais graves e gravíssimas, tem-se que a pena de reclusão é a mais recomendável, sob pena
de ofensa ao princípio da vedação da proteção deficiente, como já discutido ao longo da
dissertação, especialmente no Capítulo 06.
No entanto, diante de lesões corporais leves e injúria/difamação, argumenta-se aqui a
viabilidade de adoção de medidas criminais alternativas à privação da liberdade.
Mesmo nos casos mais graves, verifica-se a importância de se privilegiar não apenas o
aspecto retributivo da pena, mas também a necessidade de resguardar-se seu aspecto educativo.
Desse modo, durante o cumprimento da pena privativa de liberdade não seria interessante a
frequência do apenado a cursos, palestras, oficinas, consultas psicológicas, etc. que buscassem
reduzir seu grau de agressividade em desfavor da população LGBTI? Não seria interessante
igualmente haver previsão legal para redução da pena diante de demonstrado avanço do
sentenciado no sentido de reduzir essa agressividade? Entendemos ser possível apresentar
resposta positiva nesses casos.
A Lei nº 7.716/1.989 traz expressamente em seu artigo 4º, § 2º a prestação de serviços
à comunidade, incluindo atividades de promoção da igualdade racial como sanção de certas
práticas de racismo332. Do mesmo modo, a Lei nº 11.340/2006 traz em seu artigo 19, § 2º, a
possibilidade de aplicação de outras medidas protetivas de urgência de maior eficácia333.
Questiona-se aqui a possibilidade de edição de norma que preveja para os crimes de
homotransfobia assemelhados à lesão corporal leve e a injúria a sanção única de frequência e
aproveitamento satisfatório a cursos, oficinas, programas, consultas, etc. que promovam a
igualdade e o respeito às diferentes orientações sexuais e identidades/expressões de gênero e/ou

331
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
332
Idem, 1989a.
333
Idem, 2006.
127

a participação em programas de justiça restaurativa334, os quais de forma assistida,


demonstrarão aos agressores ser um dever o respeito à diversidade, como requisito de
preservação de uma comunidade de princípios, conforme discutido no Capítulo 02 da
Dissertação.
Do mesmo modo, questiona-se aqui a possibilidade de edição de norma que preveja para
os crimes de homotransfobia assemelhados ao homicídio e às lesões corporais graves e
gravíssimas, paralelamente à pena privativa de liberdade, o oferecimento dos mesmos cursos e
programas mencionados no parágrafo anterior, com previsão inclusive de redução da pena para
as pessoas que comprovadamente apresentarem frequência às atividades e melhora de conduta
em função dessas.
Tais questionamentos somente poderão ser respondidos por meio de novas pesquisas,
as quais ultrapassam o escopo inicial da presente Dissertação. No entanto, são reflexões
necessárias e que devem ser melhor desenvolvidas em trabalhos futuros, uma vez que a
aplicação de pena privativa de liberdade por si só, como ocorre no caso da Lei nº
11.340/2006335, não tem conseguido alcançar a necessária redução do número de casos de
violência, apesar de ser um importantíssimo instrumento retributivo, demandando dos
pesquisadores do direito uma atuação mais refinada nessas circunstâncias. Uma sugestão,
guardadas as devidas proporções e a vedação à proteção deficiente, é o desenvolvimento de
técnicas alternativas, como é o caso da justiça restaurativa.

334
ACHUTTI, Daniel. Justiça Restaurativa no Brasil: Possibilidades a partir da experiência belga. Civitas, Porto
Alegre, v. 13. n. 1, p. 154- 181. jan/abr. 2013.
335
BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006.
128

10 CONCLUSÃO E RESULTADOS OBTIDOS

A partir de tudo que foi aqui analisado, alcançou-se algumas questões muito
importantes, as quais precisam ser destacadas:
1º. Há necessidade de se criar repositórios de dados atualizados e tecnicamente eficazes
para registrar os crimes cometidos por razões LGBTIfóbicas. A existência de bancos de dados
cada vez mais completos pode orientar na execução de políticas públicas de prevenção e
repressão à LGBTIfobia;
2º. Há necessidade de se desenvolver pesquisas no campo do Direito para encontrar
termos adequados para os sentimentos de pertencimento das categorias gerais LGBTI, uma vez
que esses termos não abarcam todas as formas de expressão das diferentes orientações sexuais
e identidades/expressões de gênero. Acaso pesquisas desse tipo estejam sendo ou venham a ser
desenvolvidas, deverão questionar até que ponto é possível traduzir para uma palavra ou
expressão, uma gama tão grande de sexualidades possíveis e se isso não seria mais uma tentativa
da normatividade enquadrar as pessoas em alguma “categoria”/ “caixinha”;
3º. Há um número alarmante de casos de LGBTIfobia no Brasil, sendo que esses delitos
se distinguem dos históricos tipos penais homicídio, lesão corporal e injúria, para citar os mais
comuns, aproximando-os mais dos chamados crimes de ódio, os quais carecem de uma atenção
especial dos órgãos de defesa dos direitos humanos, dos legisladores, bem como dos juristas
em geral, diante da aleatoriedade dessas condutas violentas. Tal número alarmante de casos
atrai a necessidade de criação de norma pátria específica para esse tipo de delito. Há ainda a
possibilidade do reconhecimento de que tais crimes podem ser acolhidos como de racismo,
numa interpretação conforme a Constituição. O controle de convencionalidade pode auxiliar na
construção desse raciocínio hermenêutico, fazendo incidir as normas internacionais de direitos
humanos das quais o Brasil é signatário e por isso, obviamente, deve respeitar. Exemplos desse
número alarmante de casos são aqueles sediados no Relatório da OEA/2015, analisado ao longo
do Capitulo 04, por meio do qual foi possível verificar que durante o ano de 2013 o Brasil
apresentou 41,95% de um total de 615 (seiscentos e quinze) casos reportados por 25 (vinte e
cinco) dos Estados-membros da OEA. Naquele ano, as maiores vítimas da violência contra a
população LGBTI foram homens homossexuais e mulheres trans, os(as) quais corresponderam
à 94,18% dos casos relatados. Ainda quanto ao referido relatório, salienta-se que entre janeiro
e março de 2014 o Brasil se manteve como recordista na violência contra a população LGBTI
, tendo apresentado 58,83% de um total de 153 (cento e cinquenta e três) casos relatados no
período, dentro dos 25 (vinte e cinco) Estados-membros que forneceram dados. Nesse período,
129

homens homossexuais e mulheres trans permaneceram como sendo as maiores vítimas dessa
violência, correspondendo à 96,65% dos casos. Na maior parte dos casos, não se identificou
o(a) autor(a) do delito, aumentando a ausência de responsabilização criminal. Tais dados não
devem ser ignorados e sublinham a importância de uma atuação estatal e da sociedade civil
organizada de forma a prevenir e reprimir sua ocorrência.
4º. O Brasil está omisso em criminalizar a homotransfobia/lgbtifobia.
5º. A integridade no direito tem um viés expresso de integridade na atuação
jurisdicional, atraindo a necessidade de justificação, adequação e manutenção de uma
jurisprudência aplicável a casos análogos, o que tem lugar no Brasil já há algum tempo e que,
principalmente a partir da edição da Lei nº 13.150/2015, o Código de Processo Civil, o qual
prevê expressamente em seu artigo 926 a necessidade de os tribunais uniformizarem sua
jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente, passou a ter natureza obrigatória336.
6º. A integridade no direito tem um viés expresso de integridade na legislação, sendo
reprovável uma legislatura que edite normas que conflitem com as superiores, notadamente,
com a Constituição da República, bem como sendo igualmente vedada a ausência de edição de
normas quando as leis superiores determinarem sua edição. Existe uma postura esperada por
parte dos legisladores, os quais não podem trair a confiança que foi neles depositada;
7º. É possível inferir que a integridade no direito pressupõe também um viés de
integridade na atuação do Executivo, o qual não pode deixar de aplicar as decisões
jurisdicionais, as normas do legislativo, bem como deixar de exercer seu fazer administrativo,
sob pena de estar também negando os pilares que fundamentam a existência de uma
Comunidade de Princípios.
8º. Como o dever precípuo da edição de normas, especialmente em matéria penal, é do
Legislativo, tanto no julgamento do MI. n. 4.733337, quanto da ADO. n. 26338, espera-se que o
STF recomende a edição de norma dando prazo processualmente adequado para sua publicação.
Caso o Congresso mantenha-se inerte, espera-se que o STF aplique aos crimes cometidos por
homotransfobia as mesmas previsões contidas na Lei nº 7.716/1989, Lei do Crime de
Racismo339, até que norma específica seja editada, de forma semelhante ao que foi feito no MI.
n. 712340, o qual tratou das greves no serviço público, com aplicação no que for cabível, da Lei

336
Idem, 2015.
337
Idem, 2018b.
338
Idem, 2018a.
339
Idem, 1989a.
340
Idem, 2013.
130

7.783/ 89, que trata do exercício do direito de greve no setor privado341. Tal aplicação não fere
a legalidade pois a Lei 7.716/1989342 é norma penal em sentido estrito, tendo passado pelo
processo legislativo clássico de edição, sendo vício hermenêutico restringir sua aplicação
somente à circunstâncias ligadas à cor da pele ou etnias, notadamente porque já restou
demonstrada a inexistência de raças biológicas dentro da espécie humana, apesar da
permanência de crimes de preconceito por motivo racial na sociedade. Uma interpretação nesse
sentido revela-se como interpretação conforme a Constituição. A referida norma prevê sua
aplicação a crimes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional, podendo, até a edição de norma específica, configurar-se numa interpretação
conforme a Constituição, no mecanismo legal brasileiro de combate aos crimes de ódio. A
criação de normas específicas como ferramenta para sanear históricas discriminações de parcela
da população aproxima a hermenêutica brasileira da chamada antisubordination
(antissubordinação) estadunidense, constituindo-se em ferramentas para o reconhecimento e a
redistribuição.
9º. Caso o STF aja de forma diversa no julgamento dos MI. n. 4.733343 e ADO. n. 26344,
deixando de reconhecer a existência de omissão, estará atraindo para si um ônus argumentativo
que explique porque em circunstâncias análogas decidiu-se de um determinado modo e nesse
caso específico, estaria julgando de forma totalmente diversa, afastando-se de sua
jurisprudência já consolidada (ônus argumentativo de demonstração da superação da tese
(overrulling)/ ônus argumentativo para demonstração de tratar-se de um caso distinto
(distinguishing) daqueles que foram julgados anteriormente. Caso o STF entenda que os tipos
penais já existentes são os necessários e suficientes para prevenir e reprimir os casos de
violência contra a população LGBTI no Brasil e os crimes de ódio em geral, estará se
aproximando da corrente hermenêutica estadunidense mais conservadora da anticlassification
(anticlassificação).
10°. Há possibilidade de aplicação de formas alternativas à privação de liberdade para
os crimes assemelhados à injúria e lesão corporal leve praticados por LGBTIfobia. Há
possibilidade de aplicação dessas medidas igualmente nos crimes de LGBTIfobia mais graves
de forma paralela à privação da liberdade, com possiblidade de redução das penas de
reclusão/detenção no caso de o apenado comprovadamente demonstrar frequência e

341
Idem, 1989b.
342
Idem, 1989a.
343
Idem, 2018b.
344
Idem, 2018a.
131

aproveitamento aos programas de reabilitação/estímulo, desde que seja verificado o


desenvolvimento do convívio social respeitoso.
11º. A partir do reconhecimento das uniões estáveis homoafetivas e dos casamentos
homoafetivos o reconhecimento da inconstitucionalidade da omissão em criminalizar a
homotransfobia é uma consequência lógica, uma vez que reconhecer essas uniões afetivas e
permanecer inerte diante das violências por elas sofridas é postura que fere a integridade no
direito sob a ótica dos três poderes.
12º. Sob o ângulo das normas internas, o legislador brasileiro apresenta mora
injustificada em criminalizar a homotransfobia em franco desrespeito ao artigo 5º, inciso XLI
da CRFB/88345;
13º. Sob a ótica do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, essa
mora resta igualmente evidenciada por desrespeito aos artigos 1.1, 2º, 5º, 8º 24 e 25, todos da
Convenção Americana de Direitos Humanos346;
14°. Questiona-se aqui a natureza jurídica da liberdade sexual não apenas como um
direito fundamental em sentido amplo, mas especificamente por essa constituir-se em um
direito de personalidade, sob o viés da identidade. Não obstante, tal análise demandará
pesquisas futuras.
15º. É possível inferir a igual omissão em relação às normas do Sistema Universal de
Direitos Humanos (ONU), no entanto, uma análise mais aprofundada da questão ultrapassa os
estreitos limites de possibilidade de análise da presente Dissertação, ficando o tema como
sugestão de pesquisas futuras.
Em síntese, uma sociedade organizada numa comunidade de princípios, a qual deve
respeitar a integridade no direito não deve admitir que parcelas de sua população tais como
negros(as), mulheres, LGBTI, moradores de vilas e favelas, dentre outros grupos, sejam eleitos
como inimigos públicos e passem a ser alvo da violência destilada por concidadãos claramente
de postura nazi-facista.
Nós seres humanos somos eternos escravos de nossas normas. Esse fato é a um só tempo
nosso paraíso e nossa maldição. Paraíso porque somos livres para escolher as normas que
regerão nossa vida em sociedade. Maldição porque a tarefa é árdua para quem se propõe a fazê-
la eticamente, tomando a integridade como referência.
A edição de norma que puna eficazmente crimes de ódio pode até não necessariamente
diminuir a ocorrência dos casos, mas tem a chance de dar a resposta adequada aos infratores,

345
Idem, 1988.
346
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, op. cit., 1969.
132

sendo uma importante ferramenta de defesa e combate a esses crimes, um primeiro passo para
sanear a inconstitucional e inconvencional omissão legislativa em criminalizar a
homotransfobia no Brasil.
133

REFERÊNCIAS

A CADA 25h, uma pessoa LGBT é assassinada no país, revela pesquisa. O Globo, [S.l.], 15
mai. 2017. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/sociedade/a-cada-25h-uma-pessoa-
lgbt-assassinada-no-pais-revela-pesquisa-21350643>. Acesso em: 14 jan. 2019.

ACHUTTI, Daniel. Justiça Restaurativa no Brasil: Possibilidades a partir da experiência


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SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Supremo reconhece união homoafetiva. Brasília: STF,


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THEODORO JÚNIOR, Humberto; NUNES, Dierle; BAHIA, Alexandre Melo Franco;


PEDRON, Flávio Quinaud. Novo CPC: Fundamentos e Sistematização. 3. ed. rev. atual. e
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TREVIZANI, Giovana Bianca. Meu corpo, minhas regras: a transexualidade sob a luz do
Direito Constitucional e as lacunas no Estado Democrático de Direito. In: DESLANDES,
Keila (Coord.); BAHIA, Alexandre M. F. de Moraes (Org.); RIOS, Roger Raupp.
142

Homotransfobia e Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte:


Editora Autêntica, 2018. Cap. 07, 89-101.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO. Ouvidoria LGBT. Ouro Preto: UFOP,


2018. Disponível em: <http://www.proex.ufop.br/programas/ndh-nucleo-de-direitos-
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VALADARES, Gustavo; ALMEIDA, João Paulo Rodrigues. Direito Constitucional: a


LGBTFOBIA como resultado do discurso de ódio. In: DESLANDES, Keila (Coord.);
BAHIA, Alexandre Melo Franco de Moraes (Org); RIOS, Roger Raupp. Homotransfobia e
Direitos Sexuais: Debates e embates contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica Editora,
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VECCHIATI, Paulo Roberto Iotti. Pela Lógica do Direito Penal Mínimo, Homotransfobia
tem que ser criminalizada. [S.l.]: Justificando, 2017. Disponível em:
<http://www.justificando.com/2017/07/10/pela-logica-do-direito-penal-minimo-
homotransfobia-tem-que-ser-criminalizada/>. Acesso em: 22 dez. 2017.

VINHAL, Gabriela. A cada 25 horas, uma pessoa LGBT é assassinada no Brasil, aponta
ONG. Correio Braziliense, [S.l.], 17 mai. 2017. Disponível em:
<https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2017/05/17/interna-
brasil,595532/a-cada-25-horas-uma-pessoa-lgbt-e-assassinada-no-brasil.shtml>. Acesso em:
09 set. 2017.

VÍTIMAS DO PRECONCEITO: confira casos de crimes contra homossexuais em MG. R 7,


[S.l.], 09 mar. 2014. Disponível em: < https://noticias.r7.com/minas-gerais/fotos/vitimas-do-
preconceito-confira-casos-de-crimes-contra-homossexuais-em-mg-09032014#!/foto/6>.
Acesso em: 07 set. 2017.
143

ANEXO A- TABELA 01

Comissão Interamericana de Direitos Humanos - Relatoria sobre os direitos das Pessoas LGBTI

Registro de violência contra as Pessoas LGBT na América


Ataques contra a vida e a INTEGRIDADE | Janeiro/ Dezembro 2013

bit.le/RegistroViolemcia

UM OLHAR ESPECÍFICO SOBRE O BRASIL- Por: Eduardo Lourenço Viana

Lugar
Nome
Direit onde o
da Provável
Estad Cida Identid o Fa corpo Breve descrição dos
Data PAIS vítima Idade autor do
o de ade Afeta to foi fatos alegados
presu delito
do encont
mida
rado

MULHER
TRANS(o
u
percebid
01 de MATO Assa
janeiro de
BRAS GROSSO CAMPO
a como Não ssina Não há Espaço Pessoa encontrada morta
2013 IL DO SUL GRANDE tal) publicado N/D VIDA to informação Público debaixo de uma ponte.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
02 de RIO arma Pessoa encontrada morta
janeiro de
BRAS GRANDE JOAO
o como Francisco de bran Não há Não há devido à feridas produzidas
2013 IL DO NORTE CAMARA tal) Assis Câmara 64 VIDA ca informação informação por arma branca.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
Pessoa espancada e morta
percebid com
por um homem que a beijou
06 de Marcia arma
janeiro de
BRAS a como Bruma de Não há Espaço pensando que era uma
2013 IL PARANÁ CURITIBA tal) Galisteu 25 VIDA fogo informação Público mulher.
Assa
ssina
to
MULHER com
arma
TRANS de
(ou fogo
percebid e
Pessoa morta com arma de
06 de Nicole atrop
janeiro de
BRAS SANTA
a como Borges elam Não há Espaço fogo e depois atropelada
2013 IL PARANÁ CANDIDA tal) Gemerozo 20 VIDA ento informação Público com um automóvel.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
07 de Edson arma
janeiro de
BRAS DISTRITO
o como Teixeira de bran Espaço Pessoa supostamente morta
2013 IL FEDERAL GAMA tal) Carvalho 37 VIDA ca Particular Privado por seu parceiro.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
07 de Marquezano arma Pessoa encontrada morta
janeiro de
BRAS AMAZONA
o como r David de bran Não há Espaço com 12 facadas e sinais de
2013 IL S MANAUS tal) Souza 52 VIDA ca informação Privado estrangulamemto.
Gay
(ou
percebid
10 de Assa
janeiro de
BRAS MINAS ARAGUA
o como Nilson de ssina Não há Espaço Pessoa encontrada morta
2013 IL GERAIS RI tal) Jesús Silvéro 64 VIDA to informação Privado num quarto de motel.
144

Assa
Gay ssina
(ou to
percebid por
10 de carb
janeiro de
BRAS RIO DE RIO DE
o como oniza Não há Não há Pessoa encontrada
2013 IL JANEIRO JANEIRO tal) Jorge Searón 65 VIDA ção informação informação totalmemte carbonizada.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
10 de RIO arma
janeiro de
BRAS GRANDE
a como de Não há Não há Pessoa assassinada com arma
2013 IL DO SUL VIAMAO tal) Fernanda 32 VIDA fogo informação informação de fogo.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
11 de arma Pessoa assassinada com seis
janeiro de
BRAS FORTALE
a como Cecilia de NÃO HÁ ESPAÇO tiros enquanto transitava pela
2013 IL CEARÁ ZA tal) Marahouse N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
MULHER
TRANS Ataq
(ou ue
percebid com
12 de RIO arma
janeiro de
BRAS GRANDE MOSSOR
a como Jose Maria INTEGRI de Pessoa/s ESPAÇO Apesar de ser baleada, a
2013 IL DO NORTE Ó tal) da Silva N/D DADE fogo. particuar/es público vítima sobreviveu
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
13 de RIO Jeferson arma NÃO HÁ
janeiro de
BRAS GRANDE PASSO
o como Balduino de de NÃO HÁ INFORMAÇÃ Pessoa assassinada com arma
2013 IL DO SUL FumDO tal) Araujo 26 VIDA fogo INFORMAÇÃO O de fogo.
Gay
(ou
percebid Pessoa encontrada morta em
14 de SAO Assa
janeiro de
BRAS RIO DE JOAO DE
o como ssina NÃO HÁ ESPAÇO sua casa com sinais de ter
2013 IL JANEIRO MERITI tal) José Ribamar 81 VIDA to INFORMAÇÃO privado sido torturada.
Gay
(ou
percebid
18 de Assa
janeiro de
BRAS MINAS SANTA
o como Ailton Sales ssina NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa encontrada morta em
2013 IL GERAIS BARBARA tal) Mota 50 VIDA to INFORMAÇÃO privado sua casa.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
19 de A NÃO HÁ Pessoa mrta com feridas
janeiro de
BRAS PERNAMB
o como BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ provocadas por um arma
2013 IL UCO RECIFE tal) No publicado 59 VIDA NCA INFORMAÇÃO O branca.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
19 de arma
janeiro de
BRAS o como Elvis da Silva de Pessoa/s ESPAÇO Pessoa assassinada na porta
2013 IL SERGIPE ARACAJÚ tal) Souza 40 VIDA fogo particuar/es privado de sua residência.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
21 de arma
janeiro de
BRAS JOÃO
o como de Pessoa/s ESPAÇO Pessoa encontrada morta em
2013 IL PARAÍBA Pessoa tal) "Carioca" N/D VIDA fogo particuar/es privado sua casa.
MULHER
TRANS
(ou
percebid
24 de MATO Assa
janeiro de
BRAS GROSSO CAMAPU
a como Ágata de ssina NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa encontrada sem vida
2013 IL DO SUL A tal) Silva N/D VIDA to INFORMAÇÃO público em terreno baldío.
145

MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
percebid to A
24 de PEDR
janeiro de
BRAS PERNAMB
a como Romildo da ADA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
2013 IL UCO RECIFE tal) Silva 35 VIDA S INFORMAÇÃO público morta a pedradas.
Gay
(ou Assa
percebid ssina
MONSEÑ Francisco to A NÃO HÁ
24.jan.201
BRAS OR
o como David de GOL NÃO HÁ INFORMAÇÃ Pessoa encontrada morta a
3 IL PIAUÍ HIPÓLITO tal) Andrade 40 VIDA PES INFORMAÇÃO O pauladas.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
José Ismar A
27.jan.201
BRAS JOÃO
o como Eugemio BRA NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa assassinada com uma
3 IL PARAÍBA Pessoa tal) Pompeu 42 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado arma branca em sua casa.
Gay
(ou
percebid
Deivison Assa NÃO HÁ
28.jan.201
BRAS MATO
o como Michel de ssina Pessoa/s INFORMAÇÃ
3 IL GROSSO CUIABÁ tal) Almeida 22 VIDA to particuar/es O Pessoa encontratda morta.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
A NÃO HÁ
29.jan.201
BRAS BOA
a como BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ Pessoa morta por arma
3 IL RORAIMA VISTA tal) Vitoria 18 VIDA NCA INFORMAÇÃO O BRANCA.
MULHER
ATA
TRANS QUE
(ou COM
percebid ARM
A NÃO HÁ
31.jan.201
BRAS MINAS POUSO
a como INTEGRI BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ Tentativa de assassinato a
3 IL GERAIS ALEGRE tal) No publicado N/D DADE NCA INFORMAÇÃO O facadas.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
AFOGAD percebid ARM
OS DA Marcilio A NÃO HÁ
31.jan.201
BRAS PERNAMB INGAZEIR
o como Gervazio BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ
3 IL UCO A tal) Santos 27 VIDA NCA INFORMAÇÃO O Pessoa morta a facadas.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
Wellington A O corpo da vítima foi
01.fev.201
BRAS o como Charles Da BRA NÃO HÁ ESPAÇO encontrado com feridas de
3 IL ALAGOAS MACEIÓ tal) Silva 23 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado arma branca no pescoço.
homem Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
EMBU Márcio A
01.fev.201
BRAS SÃO DAS
o como Sérgio de BRA Pessoa/s ESPAÇO
3 IL PAULO ARTES tal) Lima N/D VIDA NCA particuar/es privado Pessoa morta a facadas.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
Sergio arma
05.fev.201
BRAS o como Loureiro de de NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa morta por arma de
3 IL PARANÁ CURITIBA tal) Brito 34 VIDA fogo INFORMAÇÃO público fogo na rua.
Gay
(ou Assa
percebid ssina
Otomir to A
06.fev.201
BRAS o como Pereira da GOL NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa assassinada em seu
3 IL PARAÍBA PARAÍBA tal) Silva 42 VIDA PES INFORMAÇÃO privado apartamemto.
146

MULHER
TRANS
(ou
percebid
RIO Assa
06.fev.201
BRAS GRANDE CAXIAS
a como ssina NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
3 IL DO SUL DO suaL tal) L. O. P. 17 VIDA to INFORMAÇÃO público morta em um matagal.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
RIO Carlos arma
07.fev.201
BRAS GRANDE
a como Robson dos de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi perseguida e
3 IL DO SUL NATAL tal) Santos 30 VIDA fogo INFORMAÇÃO público morta com tiros na cabeça.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
A vítima levou um tiro na
Monica arma
08.fev.201
BRAS a como Xavier de de NÃO HÁ ESPAÇO cabeça, foi levada para o
3 IL PARANÁ CURITIBA tal) Lima 38 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado hospital onde perdeu a vida.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
arma O corpo da vítima foi
09.fev.201
BRAS a como de NÃO HÁ ESPAÇO encontrado abandonado na
3 IL PIAUÍ ALTOS tal) Joelma N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
Assa
ssina
to A
GOL
Gay PES
(ou e
percebid violê
Pessoa sequestrada,
Vilsomar ncia
13.fev.201
BRAS o como Pereira dos sexu Pessoa/s violentada e espancada até
3 IL GOIÁS RIALMA tal) Santos 41 VIDA al particuar/es Cárcel que perdeu a vida.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
Mauricio A NÃO HÁ
13.fev.201
BRAS RIO DE RIO DE
o como Francisco BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ Pessoa encontrada morta a
3 IL JANEIRO JANEIRO tal) Inacio Jumior 22 VIDA NCA INFORMAÇÃO O facadas.
Assa
ssina
to
LÉSBICA com
EMBU (ou Daniea arma NÃO HÁ A vítima havia sido morta
15.fev.201
BRAS SÃO DAS percebida Siqueira de Pessoa/s INFORMAÇÃ pelo noivo de sua ex-
3 IL PAULO ARTES como tal) Nascimemto 23 VIDA fogo particuar/es O parceiro.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
Paulo arma NÃO HÁ
16.fev.201
BRAS TOCANTIN aS
o como Ricardo de NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi morta com um
3 IL S COLINAS tal) Almeida 30 VIDA fogo INFORMAÇÃO O tiro na cabeça.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A
18.fev.201
BRAS SÃO
o como Valdir José BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a facadas
3 IL PAULO MARÍLIA tal) Martins 55 VIDA NCA INFORMAÇÃO público em frente a sua casa.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
arma
20.fev.201
BRAS AMAZONA
o como de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta na entrada
3 IL S MANAUS tal) J. H. M. G. 16 VIDA fogo INFORMAÇÃO público de sua escola.
Assa
ssina
MULHER to
A vítima foi morta por
TRANS com
disparos de arma de fogo e
Francisco arma
20.fev.201
BRAS SÃO CABREÚB
(ou Evandro de de NÃO HÁ ESPAÇO feridas de arma branca em
3 IL PAULO A percebid Souza 33 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado sua casa.
147

a como
tal)

MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
Trabalhadora sexual morta
arma
21.fev.201
BRAS AMAZONA
a como Mare Lu Leve de NÃO HÁ ESPAÇO em seu habitual ponto de
3 IL S MANAUS tal) Coelho 29 VIDA fogo INFORMAÇÃO público trabalho.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
RIO Sidnee A
23.fev.201
BRAS GRANDE PORTO
o como Antonio BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima recebeu várias
3 IL DO SUL ALEGRE tal) Basso 66 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado facadas em sua casa.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
BELO Jonathan a arma
24.fev.201
BRAS MINAS HORIZO
a como foitaine de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta sua
3 IL GERAIS NTE tal) Duarte 33 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado residência com arma de fogo.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid por
deca NÃO HÁ
24.fev.201
BRAS TOCANTIN
o como Alberto pitaç NÃO HÁ INFORMAÇÃ O corpo da vítima foi
3 IL S PALMAS tal) Gomes 72 VIDA ão. INFORMAÇÃO O econtrado desmembrado.
MULHER
TRANS
(ou Assa
JABOATÃ percebid ssina
O DOS to A
25.fev.201
BRAS PERNAMB GUARAR
a como Walmir da GOL NÃO HÁ Lugar de A vítima foi assassinada em
3 IL UCO APES tal) Silva Moura 39 VIDA PES INFORMAÇÃO trabalho seu salão de beleza.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
arma
25.fev.201
BRAS SÃO SÃO
a como aea Curitina de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta com seis
3 IL PAULO PAULO tal) Barbosa 18 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado disparos em sua residência.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
A vítima caminhava pela
RIO arma
28.fev.201
BRAS GRANDE
a como de NÃO HÁ ESPAÇO calçada quando um grupo de
3 IL DO NORTE NATAL tal) B. 14 VIDA fogo INFORMAÇÃO público homens atiraram nela.
Assa
ssina
to
Gay por
(ou ASFI
percebid XIA e
ALTO Carlos carb NÃO HÁ
01-Mar.-
BRAS MINAS PARANAÍ
o como Barnabé do oniza NÃO HÁ INFORMAÇÃ O corpo da vítima tinha
2013 IL GERAIS BA tal) Rosário 54 VIDA ção INFORMAÇÃO O marcas de queimaduras.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
A vítima era policial militar,
Joselito arma
02-Mar.-
BRAS PERNAMB
o como Pereira da de NÃO HÁ ESPAÇO foi assassinada com arma de
2013 IL UCO RECIFE tal) Silva 49 VIDA fogo INFORMAÇÃO público fogo na rua.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A vítima foi assassinada
Josemildo A
03-Mar.-
BRAS JOÃO
o como Tavares de BRA NÃO HÁ ESPAÇO dentro de sua casa. O corpo
2013 IL PARAÍBA Pessoa tal) Oliveira 33 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado foi encontrado esfaqueado.
148

Assa
ssina
to
COM
LÉSBICA Maria de ARM
(ou Fatima A
04-Mar.-
BRAS FORTALE percebida Ferreira dos BRA Pessoa/s ESPAÇO A vítima foi esfaqueada em
2013 IL CEARÁ ZA como tal) Santos 59 VIDA NCA particuar/es privado seu domicilio.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid por
A vítima foi encontrada com
José Socorro carb
06-Mar.-
BRAS AMAZONA
o como Picanço oniza NÃO HÁ ESPAÇO um golpe na cabeça em uma
2013 IL S MANAUS tal) Rodrigues 41 VIDA ção INFORMAÇÃO privado cama em chamas.
Assa
Gay ssina
(ou to
A vítima foi alvejada à bala e
percebid POR
posteriormemte foi
deca
06-Mar.-
BRAS SALVADO
o como ptaç NÃO HÁ ESPAÇO decapitada e encontrada em
2013 IL BAHÍA R tal) Carlos Lima 55 VIDA ão INFORMAÇÃO público uma praia.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
O assassinato ocorreu em um
percebid ARM
RIO A ponto de encontro entre
06-Mar.-
BRAS GRANDE PORTO
a como Emille BRA NÃO HÁ ESPAÇO trabalhadoras sexuais e seus
2013 IL DO SUL ALEGRE tal) Sallimemi 20 VIDA NCA INFORMAÇÃO público clientes.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
RIO A NÃO HÁ
06-Mar.-
BRAS GRANDE PORTO
a como BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi morta a facadas
2013 IL DO SUL ALEGRE tal) Rafaea N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO O e predradas na cabeça.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A vítima foi sequestrada e
Everaldo A
07-Mar.-
BRAS MATO
o como Gioli de BRA NÃO HÁ ESPAÇO morta a facadas. Foi
2013 IL GROSSO CUIABÁ tal) Andrade 37 VIDA NCA INFORMAÇÃO público encontrada em um matagal.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
percebid to
POR
11-Mar.-
BRAS MATO
a como ASFI NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
2013 IL GROSSO CUIABÁ tal) Xandó 31 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado morta.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
percebid to
TABOÃO POR
13-Mar.-
BRAS SÃO DA
a como ASFI NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada
2013 IL PAULO SERRA tal) Stephanie 33 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado dentro de sua residência.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
Pessoa atacada a facadas em
A
14-Mar.-
BRAS MATO
o como BRA NÃO HÁ ESPAÇO sua casa. Foi levada ao
2013 IL GROSSO CUIABÁ tal) No publicado 38 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado Hospital onde morreu.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
Pessoa assassinada por
arma
18-Mar.-
BRAS a como de NÃO HÁ ESPAÇO homem em motocicleta com
2013 IL GOIÁS GOIÂNIA tal) Paloma 24 VIDA fogo INFORMAÇÃO público um tiro na cabeça.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
A NÃO HÁ
18-Mar.-
BRAS PERNAMB IGARASsu
a como BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi morta com
2013 IL UCO a tal) Loba 18 VIDA NCA INFORMAÇÃO O facadas no peito.
149

MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
Pessoa presumidamente
RIO arma
20-Mar.-
BRAS GRANDE ALEGRET
a como Jeferson de Pessoa/s ESPAÇO assassinada por um policial
2013 IL DO SUL E tal) Nardon N/D VIDA fogo particuar/es público militar aposentado.
Gay Assa
(ou ssina
percebid to
A vítima foi encontrada sem
João Batista POR
21-Mar.-
BRAS o como Corrêa ASFI NÃO HÁ ESPAÇO vida amarrada pelos pés,
2013 IL PARÁ BELÉM tal) Santos 36 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado mãos e pescoço.
Gay
(ou Assa
percebid ssina
A vítima foi assassinada em
Evanílson to A
22-Mar.-
BRAS JOÃO
o como José Silva de GOL NÃO HÁ ESPAÇO sua residência com uma
2013 IL PARAÍBA Pessoa tal) Melo 44 VIDA PES INFORMAÇÃO privado pancada na cabeça.
Gay Assa
(ou ssina
A vítima não era vista por
percebid to
PALMEIR Rojiel POR vários dias. Foi encontrada
25-Mar.-
BRAS A DOS
o como Gouveia da ASFI NÃO HÁ ESPAÇO sem vida e com sinais de
2013 IL ALAGOAS ÍNDIOS tal) Silva 39 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado estrangulamento.
MULHER
TRANS
(ou
percebid O corpo da vítima foi
Assa
26-Mar.-
BRAS PERNAMB
a como ssina NÃO HÁ ESPAÇO encontrado em estado
2013 IL UCO IPOJUCA tal) No publicado N/D VIDA to INFORMAÇÃO público avançado de decomposição.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A NÃO HÁ
29-Mar.-
BRAS o como BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ Pessoa sem teto assassinada
2013 IL ALAGOAS MACEIÓ tal) Nivaldo N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO O com uma tesoura.
Gay Assa
(ou ssina
percebid to
POR
04-Abr.-
BRAS PERNAMB
o como Marcelo José ASFI NÃO HÁ ESPAÇO Pessoa encontrada morta por
2013 IL UCO RECIFE tal) da Silva 39 VIDA XIA INFORMAÇÃO público pancadas na cabeça.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
A vítima foi assassinada por
arma
04-Abr.-
BRAS SÃO PIRACICA
a como de NÃO HÁ Lugar de homens que se fizeram
2013 IL PAULO BA tal) Abelha 60 VIDA fogo INFORMAÇÃO trabalho passar por clientes.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
A vítima foi atacada com
percebid ARM
A NÃO HÁ arma branca, seu corpo foi
05-Abr.-
BRAS FORTALE
o como Aecio Costa BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ encontrado sem vida com
2013 IL CEARÁ ZA tal) Sales 47 VIDA NCA INFORMAÇÃO O sinais de luta.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
percebid to
Pessoa encontrada sem vida
POR NÃO HÁ
06-Abr.-
BRAS PERNAMB PETROLI
a como ASFI NÃO HÁ INFORMAÇÃ com sinais de ter sido
2013 IL UCO NA tal) Barbara 38 VIDA XIA INFORMAÇÃO O asfixiada.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
A vítima foi assassinada com
percebid ARM
vários disparos por um
RIO A DE
07-Abr.-
BRAS GRANDE
o como FOG Agente/s ESPAÇO policial militar, que logo se
2013 IL DO NORTE PATU tal) A. R. D. S. 15 VIDA O estatal/es público suicidou.
150

Assa
ssina
Gay to
(ou COM
A vítima foi encontrada sem
percebid ARM
vida em sua casa despois de
Albertino A
07-Abr.-
BRAS o como Pereira Da BRA NÃO HÁ ESPAÇO ter sido apontada como
2013 IL SERGIPE ARACAJÚ tal) Silva 53 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado desaparecida.
Assa
ssina
to
COM
ARM
A
Gay BRA
(ou NCA
percebid e
A vítima foi encontrada com
Ariston POR NÃO HÁ
12-Abr.-
BRAS PERNAMB CARUAR
o como Francisco ASFI NÃO HÁ INFORMAÇÃ marcas de estranguamemto e
2013 IL UCO U tal) Cruz 36 VIDA XIA INFORMAÇÃO O feridas de arma branca.
Gay Assa
(ou ssina
percebid to
Itamar POR O corpo da vítima foi
13-Abr.-
BRAS SALVADO
o como Ferreira ASFI NÃO HÁ ESPAÇO encontrado no fundo de uma
2013 IL BAHÍA R tal) Souza 25 VIDA XIA INFORMAÇÃO público fonte.
Gay
(ou Assa
percebid Mauricio ssina
Joseé to A
14-Abr.-
BRAS SALVADO
o como Sanches de GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada no
2013 IL BAHÍA R tal) Oliveira 49 VIDA PES INFORMAÇÃO privado interior de sua residência.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid COM
ARM
14-Abr.-
BRAS SÃO SANTO
a como A DE NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada com
2013 IL PAULO ANDRÉ tal) No publicado 23 VIDA fogo INFORMAÇÃO público um tiro na cabeça.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A
15-Abr.-
BRAS MATO
o como Pedro Paulo BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada no
2013 IL GROSSO CUIABÁ tal) Gois Medina 44 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado interior de sua residência.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
A vítima foi encontrada
percebid ARM
amarrada em estado grave no
A
15-Abr.-
BRAS JOÃO
o como BRA NÃO HÁ ESPAÇO banheiro de uma casa.
2013 IL PARAÍBA Pessoa tal) No publicado N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO privado Morreu na ambulância.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
A
15-Abr.-
BRAS JOÃO
a como BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a
2013 IL PARAÍBA Pessoa tal) No publicado N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO público tesouradas na rua.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
RIO arma
17-Abr.-
BRAS GRANDE GARAVAT
a como de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima morreu com um
2013 IL DO SUL AÍ tal) No publicado N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público disparo na cabeça.
Assa
ssina
to
COM
A vítima foi assassinada
LÉSBICA ARM
(ou Gildevanda A presumidamente por seu
18-Abr.-
BRAS percibida Silva Dos BRA Pessoa/s ESPAÇO parceiro com 60 facadas na
2013 IL SERGIPE aGARTO como tal) Santos 43 VIDA NCA particuar/es privado casa em que vivam.
151

MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
A vítima foi encontrada
POÇOS A
22-Abr.-
BRAS MINAS DE
a como Débora BRA NÃO HÁ ESPAÇO amarrada com uma ferida no
2013 IL GERAIS CALDAS tal) Moreira Mori 44 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado pescoço em sua casa.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
A vítima foi assassinada
Antonio arma
22-Abr.-
BRAS UMUARA
o como Marcos Da de NÃO HÁ ESPAÇO enquanto caminhava às
2013 IL PARANÁ MA tal) Silva 36 VIDA fogo INFORMAÇÃO público margens de uma rodovia.
Assa
Gay ssina
(ou to
percebid com
RIO Sergio arma
22-Abr.-
BRAS GRANDE CANGUA
o como aureano de de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada
2013 IL DO NORTE RETAMA tal) Memdoca 34 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado dentro de sua residência.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
Valdemildo A
23-Abr.-
BRAS DISTRITO SAMAMB
o como Gouveia de BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
2013 IL FEDERAL AIA tal) Souza 54 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado vida amarrada em sua cama.
MULHER
Assa
TRANS ssina
(ou to
percebid com
arma
24-Abr.-
BRAS ARAPIRA
a como Soraia de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada com
2013 IL ALAGOAS CA tal) Rodrigues 21 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado disparos de arma de fogo.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
Uelton A NÃO HÁ
26-Abr.-
BRAS ITARANTI
o como Ferreira de BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ
2013 IL BAHÍA M tal) Alcántara 45 VIDA NCA INFORMAÇÃO O A vítima foi morta a facadas.
Assa
ssina
Gay to
(ou COM
percebid ARM
A
28-Abr.-
BRAS o como Paulo Ribeiro BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
2013 IL RORAIMA AMAJARÍ tal) de Matos 57 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado facadas em sua residência.
MULHER Assa
ssina
TRANS to
(ou COM
percebid ARM
A vítima foi assassinada no
SÃO JOSÉ Fernando A
28-Abr.-
BRAS SÃO DO RIO
a como Domingues BRA NÃO HÁ ESPAÇO interior de sua residência com
2013 IL PAULO PRETO tal) Rosa 36 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado uso de arma branca.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Jose Edilson A
29-Abr.-
BRAS percibido Castro de BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada no
2013 IL FACADAS MACAPÁ como tal) Castro 28 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado interior de sua residência.
Assa
ssina
Gay to
A vítima foi arremeçada três
(ou POR
vezes enquanto o autor lhe
SÃO Enfor
29-Abr.-
BRAS RIO DE GONÇAL
percibido Eliwellton da came Pessoa/s ESPAÇO proferia insultos
2013 IL JANEIRO O como tal) Silva Lessa 22 VIDA nto particuar/es público homofóbicos.
Ataq
Gay ue
(ou com
arma Jovem atacado por disparos
30-Abr.-
BRAS SÃO PIRACICA
percibido INTEGRI de NÃO HÁ ESPAÇO junto a seu parceiro. Precisou
2013 IL PAULO BA como tal) No publicado 18 DADE fogo. INFORMAÇÃO público ser hospitalizado.
152

Assa
ssina A vítima foi assassinada a
Gay to
facadas quando se
(ou Adriano com
encontrava com seu parceiro
Robson arma
30-Abr.-
BRAS SÃO PIRACICA
percibido Buemo de de NÃO HÁ ESPAÇO na rua. Seu parceiro precisou
2013 IL PAULO BA como tal) Almeida 29 VIDA fogo INFORMAÇÃO público ser hospitalizado.
Assa
ssina
Gay to
(ou Mario com
Geraldo de arma NÃO HÁ
02.mai.201
BRAS RIO DE NOVA
percibido Freitas de NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima recebeu vários
3 IL JANEIRO IGUACU como tal) Oliveira 36 VIDA fogo INFORMAÇÃO O disparos de arma de fogo.
Assa
ssina
to
Gay COM
A vítima era militante e foi
NUESTRA (ou ARM
encontrada em sua residência
SEÑORA Antonio A
07.mai.201
BRAS DE LOS
percibido Fernando de BRA NÃO HÁ ESPAÇO com perfurações de arma
3 IL SERGIPE DOLORES como tal) Oliveira 63 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado branca.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
A vítima foi assassinada em
arma
08.mai.201
BRAS ESPIRITO CARIACIC
percibido Gilherme de de NÃO HÁ Lugar de frente a escola onde
3 IL SANTO A como tal) Almeida 36 VIDA fogo INFORMAÇÃO trabalho lecionava.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
BELO Michel A
09.mai.201
BRAS MINAS HORIZO
percibido Goncalves BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a facadas
3 IL GERAIS NTE como tal) Nogueira N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO privado em um motel.
ATA
MULHER QUE
TRANS COM
(ou ARM
A vítima sobreviveu a uma
A NÃO HÁ
10.mai.201
BRAS MARING
percibida INTEGRI BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ tentativa de homicídio com
3 IL PARANÁ Á como tal) Sabrina 25 DADE NCA INFORMAÇÃO O arma branca.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi encontrada
arma
11.mai.201
BRAS MINAS
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO morta em uma rodovia com
3 IL GERAIS SCORE como tal) No publicado N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público tiros na cabeça e na perna.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
A vítima foi encontrada
RIO Luciano to A
12.mai.201
BRAS GRANDE PORTO
percibida Jorge Soares GOL NÃO HÁ ESPAÇO morta em um parque no
3 IL DO SUL ALEGRE como tal) de Oliveira 38 VIDA PES INFORMAÇÃO público centro da cidade.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada a
A
13.mai.201
BRAS SÃO
percibida BRA NÃO HÁ ESPAÇO facadas supostamemte por
3 IL PAULO N/D como tal) No publicado 34 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado sua irmã na casa da familia.
Assa
ssina
to
Gay COM
O corpo da vítima foi
(ou "Picolina" ARM
encontrado em
(Francisco A
15.mai.201
BRAS FORTALE
percibido Igor Albino BRA NÃO HÁ ESPAÇO decomposição com feridas de
3 IL CEARÁ ZA como tal) Furtado) N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO privado arma branca em sua casa.
MULHER Assa
TRANS ssina
A vítima havia discutido com
(ou to A
os clientes, os quais a
Fabio Da PEDR
15.mai.201
BRAS RIO DE
percibida COMceicao ADA Pessoa/s ESPAÇO apedrejaram até a morte na
3 IL JANEIRO MARICÁ como tal) Machado 36 VIDA S particuar/es público rua.
153

Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A vítima foi esfaqueada no
A
18.mai.201
BRAS TEREsem
percibida Francisco BRA NÃO HÁ ESPAÇO coração e morreu enquanto
3 IL PIAUÍ A como tal) Cabral Neto 35 VIDA NCA INFORMAÇÃO público era transportada ao hospital.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
A vítima morreu
Ronald to A NÃO HÁ
21.mai.201
BRAS MATO
percibida Souza GOL NÃO HÁ INFORMAÇÃ hospitalizada após ser
3 IL GROSSO COLNIZA como tal) Feitosa 26 VIDA PES INFORMAÇÃO O brutalmente espancada.
Mutil
ação
e
Assa
ssina
to
Gay COM
A vítima foi perfurada com
(ou ARM
arma branca, o pênis foi
A NÃO HÁ
23.mai.201
BRAS PERNAMB PAUDAL
percibido José Remato BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ arrancado e o corpo
3 IL UCO HO como tal) Da Silva 42 VIDA NCA INFORMAÇÃO O encontrado sem vida.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada com
SERRA Emanuel A
24.mai.201
BRAS REDOND
percibido Bernardo BRA NÃO HÁ ESPAÇO arma branca dentro de sua
3 IL PARAÍBA A como tal) Dos Santos 65 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado casa.
Assa
ssina
to
A vítima estava em uma
LÉSBICA com
(ou arma praça com seu noivo quando
27.mai.201
BRAS SALVADO percibida Joelma Cruz de NÃO HÁ ESPAÇO dois sujeitos de motocicleta
3 IL BAHÍA R como tal) de Jesús 33 VIDA fogo INFORMAÇÃO público atiraram nela.
Gay Assa
A vítima foi espancada no
(ou ssina
banheiro de um bar. Foi
to A
28.mai.201
BRAS RIO DE RIO DE
percibido Luiz Antonio GOL NÃO HÁ ESPAÇO encontrada inconsciente.
3 IL JANEIRO JANEIRO como tal) de Jesús 49 VIDA PES INFORMAÇÃO privado Morreu por causa dos golpes.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi assassinada por
(ou com
um grupo de pessoas
arma
31.mai.201
BRAS JOÃO
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO enquanto caminhava pela
3 IL PARAÍBA Pessoa como tal) D. A. D. S. 17 VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
to A
01-Jun.-
BRAS SANTA BLUMem
percibida GOL NÃO HÁ ESPAÇO O corpo da vítima foi
2013 IL CATARINA AU como tal) Rihana 24 VIDA PES INFORMAÇÃO público encontrado na rua.
Gay Assa
(ou ssina
A vítima foi golpeada com
Rogel to A
01-Jun.-
BRAS percibido Aprigio Da GOL NÃO HÁ ESPAÇO um arma até cair sem vida em
2013 IL SERGIPE ARACAJÚ como tal) Silva 40 VIDA PES INFORMAÇÃO privado sua residência.
homem
BISEXUA Assa
ssina
L to
(ou COM
percibid ARM
A vítima foi encontrada em
Augusto A
02-Jun.-
BRAS SALVADO
o como José da BRA NÃO HÁ ESPAÇO sua fazenda sem vida com
2013 IL BAHÍA R tal) Purificação 50 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado perfurações de arma branca.
Assa
Gay ssina
A vítima desapareceu depois
(ou to
de agendar uma encontro
Jeferson POR NÃO HÁ
02-Jun.-
BRAS MATO
percibido Oliveira Da ASFI NÃO HÁ INFORMAÇÃ pela internet; seu corpo foi
2013 IL GROSSO CUIABÁ como tal) Silva 25 VIDA XIA INFORMAÇÃO O encontrado sem vida.
154

Assa
Gay ssina
(ou to
A vítima foi encontrada
Antonio POR
02-Jun.-
BRAS SANTA CHAPEC
percibido Carlos ASFI NÃO HÁ ESPAÇO dentro de um banheiro com
2013 IL CATARINA Ó como tal) Grando 58 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado as mãos e pés amarrados.
Assa
Gay ssina
(ou to A
Valdinezio PEDR
03-Jun.-
BRAS ARAPIRA
percibido Miguel ADA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada com
2013 IL ALAGOAS CA como tal) Galindo N/D VIDA S INFORMAÇÃO público pedras e paus.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
Lomanto arma NÃO HÁ A vítima foi atingida com um
03-Jun.-
BRAS percibida Antumes de NÃO HÁ INFORMAÇÃ tiro na cabeça e faleceu no
2013 IL BAHÍA PRADO como tal) Teles Filho 28 VIDA fogo INFORMAÇÃO O hospital.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada em
Daniel A
05-Jun.-
BRAS DISTRITO VICemTE
percibido Pinheiro Da BRA NÃO HÁ ESPAÇO sua residência com a cabeça
2013 IL FEDERAL PIRES como tal) Silva 31 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado no vaso e facadas no corpo.
Assa
ssina
to
Gay COM
A vítima foi espancada,
(ou ARM
esfaqueada e colocada no
David José A
06-Jun.-
BRAS PERNAMB
percibido Pereira BRA NÃO HÁ ESPAÇO quintal de sua casa, onde foi
2013 IL UCO RECIFE como tal) Torres 29 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado encontrado seu corpo.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A NÃO HÁ
08-Jun.-
BRAS GUARATI
percibido Júlio Dias de BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi assassinada em
2013 IL BAHÍA NGA como tal) Almeida 45 VIDA NCA INFORMAÇÃO O uma discussão com cliente.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Paulo Sérgio A
08-Jun.-
BRAS RIO DE ANGRA
percibido Jerônimo da BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada com
2013 IL JANEIRO DOS REIS como tal) Silva 46 VIDA NCA INFORMAÇÃO público 33 facadas em matagal.
Gay Assa
(ou ssina
A vítima foi espancada até
Rodrigo Do to A
09-Jun.-
BRAS RIO DE CABO
percibido Campos GOL NÃO HÁ ESPAÇO morrer. Seu corpo foi
2013 IL JANEIRO FRIO como tal) Soares 35 VIDA PES INFORMAÇÃO público encontrado em um matagal.
MULHER Assa
TRANS ssina
(ou to
A vítima foi encontrada sem
RIO POR NÃO HÁ
09-Jun.-
BRAS GRANDE
percibida ASFI NÃO HÁ INFORMAÇÃ vida com um cordão no
2013 IL DO NORTE MACAÍBA como tal) No publicado 13 VIDA XIA INFORMAÇÃO O pescoço.
Gay
A vítima foi atacada por dois
(ou homens e posteriormemte foi
Assa NÃO HÁ
10-Jun.-
BRAS PERNAMB
percibido José Marcelo ssina Pessoa/s INFORMAÇÃ transportada ao hospital
2013 IL UCO RECIFE como tal) Santos 18 VIDA to particuar/es O onde perdeu a vida.
Assa
ssina
to
Gay COM
Um homem e seu irmão
(ou ARM
capturaram a vítima e a
RIO A
10-Jun.-
BRAS GRANDE
percibido José Carlos BRA Pessoa/s ESPAÇO levaram a uma casa onde a
2013 IL DO NORTE AÇU como tal) Cabral N/D VIDA NCA particuar/es privado mataram com arma branca.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Juan Bosco A A vítima foi assassinada a
11-Jun.-
BRAS AMAZONA ITACOATI
percibido Oliveira de BRA NÃO HÁ ESPAÇO facadas no interior de seu
2013 IL S ARA como tal) Souza 36 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado apartamento.
155

Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi assassinada com
BELO Otávio arma
12-Jun.-
BRAS HORIZO
percibida Nascimiemto de NÃO HÁ ESPAÇO um tiro no rosto e
2013 IL MINAS NTE como tal) Vaadares 20 VIDA fogo INFORMAÇÃO público abandonada na rua.
Assa
ssina
to
Gay por
(ou enve
A vítima foi encontrada
Gibson José nena
16-Jun.-
BRAS PERNAMB
percibido Souto da ment NÃO HÁ ESPAÇO morta por envenenamento
2013 IL UCO OLINDA como tal) Rocha 37 VIDA o INFORMAÇÃO privado em sua casa.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Fernandes A A vítima foi assassinada a
17-Jun.-
BRAS MATO
percibido Pererira Da BRA NÃO HÁ ESPAÇO facadas no interior de sua
2013 IL GROSSO CUIABÁ como tal) Silva 71 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado casa.
Gay
(ou A vítima foi encontrada na
Assa
17-Jun.-
BRAS PERNAMB
percibido Alex Silva da ssina NÃO HÁ ESPAÇO praia com a cabeça enterrada
2013 IL UCO RECIFE como tal) Paz 22 VIDA to INFORMAÇÃO público na areia.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
Quatro homens invadiram a
(ou com
RIO arma casa da vítima , e a
17-Jun.-
BRAS GRANDE
percibida de Pessoa/s ESPAÇO assassinaram com arma de
2013 IL DO NORTE NATAL como tal) Cauã 25 VIDA fogo particuar/es privado fogo.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
RIO MaeCOM A
23-Jun.-
BRAS MATO BRILHAN
percibido Brito BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada na
2013 IL GROSSO TE como tal) Reginatto 26 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado saída de uma festa.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
RIO A
23-Jun.-
BRAS GRANDE PARNAMI
percibido BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
2013 IL DO NORTE RIM como tal) "Gege" N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO público vida na rua.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Maurício A
23-Jun.-
BRAS SANTA
percibido Rodolfo BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada em
2013 IL CATARINA SÃO JOSÉ como tal) Bemto 43 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado sua casa com arma branca.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
Franciele arma A vítima foi atacada frente a
24-Jun.-
BRAS MATO RONDON
percibida Gomes da de NÃO HÁ ESPAÇO sua casa. Foi transportada a
2013 IL GROSSO ÓPOLIS como tal) Silva 35 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado um hospital donde morreu.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
arma
24-Jun.-
BRAS MATO RONDON
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada
2013 IL GROSSO ÓPOLIS como tal) No publicado 33 VIDA fogo INFORMAÇÃO público quando chegava em sua casa.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi assassinada em
(ou com
um ponto de encontro de
arma
24-Jun.-
BRAS SÃO CAMPO
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO trabalhadoras sexuais e seus
2013 IL PAULO LIMPIO como tal) Dani 35 VIDA fogo INFORMAÇÃO público clientes.
Gay Assa
(ou ssina
A vítima foi assassinada com
VOLTA to
29-Jun.-
BRAS RIO DE REDOND
percibido Romeu de COM NÃO HÁ ESPAÇO 32 facadas em sua casa por
2013 IL JANEIRO A como tal) Freitas 47 VIDA ARM INFORMAÇÃO privado dois homens.
156

A
BRA
NCA

Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Otair A A vítima foi encontrada
04-Jul.-
BRAS SÃO
percibido Aparecido BRA NÃO HÁ ESPAÇO morta em sua casa com
2013 IL PAULO N/D como tal) Maciel 37 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado facadas em seu pescoço.
MULHER
TRANS ATA
(ou QUE
A vítima foi agredida após ter
ara de A
06-Jul.-
BRAS percibida Freitas INTEGRI GOL Pessoa/s ESPAÇO sido atacada por quatro
2013 IL PARANÁ CURITIBA como tal) Jumior 39 DADE PES particuar/es público homens.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi assassinada a
(ou com
tiros por um cliente e outros
arma
13-Jul.-
BRAS BOQUEIR
percibida Nathália de Pessoa/s ESPAÇO quatro homens no local onde
2013 IL PARAÍBA AO como tal) Crespim 20 VIDA fogo particuar/es público trabalhava.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada
Ananias A
17-Jul.-
BRAS percibido Antonio da BRA NÃO HÁ ESPAÇO morta em sua casa ferida por
2013 IL PARANÁ CURITIBA como tal) Silva 55 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado arma branca.
Assa
LESBIAN ssina
A to
(ou com
arma
18-Jul.-
BRAS MATO RONDON
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
2013 IL GROSSO ÓPOLIS como tal) N.S. de S. 25 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado tiros em uma lanchonete.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
José Roberto arma
22-Jul.-
BRAS FORTALE
percibida Felício da de Pessoa/s ESPAÇO A vítima foi assassinada a
2013 IL CEARÁ ZA como tal) Silva 38 VIDA fogo particuar/es privado tiros ao sair de sua casa.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada a
NOVA Shanaeme A
22-Jul.-
BRAS FLOREST
percibida Rodrigues BRA NÃO HÁ ESPAÇO facadas que lhe desfiguraram
2013 IL PARAÍBA A como tal) Macema 29 VIDA NCA INFORMAÇÃO público o rosto.
Gay
(ou A vítima foi assassinada por
Assa NÃO HÁ
22-Jul.-
BRAS PERNAMB JAQUEIR
percibido Kesse Jhones ssina Pessoa/s INFORMAÇÃ dos homens em uma
2013 IL UCO A como tal) da Silva 18 VIDA to particuar/es O discussão.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi morta a tiros e
arma
25-Jul.-
BRAS percibida de NÃO HÁ ESPAÇO seu corpo foi encontrado na
2013 IL PARANÁ CURITIBA como tal) Patricia 25 VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
Evanildo arma
27-Jul.-
BRAS percibida Teodoro dos de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada com
2013 IL ALAGOAS MACEIÓ como tal) Santos 33 VIDA fogo INFORMAÇÃO público vários tiros na rua.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi morta com um
(ou com
tiro no rosto na rua onde
arma
28-Jul.-
BRAS TEREsem
percibida Savana de NÃO HÁ ESPAÇO trabalhava como
2013 IL PIAUÍ A como tal) Vougue N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público trabalhadora sexual.
157

Gay
(ou Trata
A vítima foi submetida a
MATO ment
29-Jul.-
BRAS GROSSO TRES
percibido INTEGRI o Pessoa/s ESPAÇO tratamento cruel por seu pai
2013 IL DO SUL aGOAS como tal) No publicado 16 DADE cruel particuar/es privado pelo fato de ser gay.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi assassinada com
arma
29-Jul.-
BRAS RIO DE
percibida Rafael da de NÃO HÁ ESPAÇO seis tiros e seu corpo
2013 IL JANEIRO MAGÉ como tal) Silva Tavares 21 VIDA fogo INFORMAÇÃO público encontrado em um matagal.
Assa
ssina
Gay to
As vítimas foram
BALNEAR (ou com
encontradas mortas em
IO arma
30-Jul.-
BRAS SANTA CAMBORI
percibido Alexsander de NÃO HÁ veículo abandonado, com
2013 IL CATARINA Ú como tal) Bernardes 27 VIDA fogo INFORMAÇÃO Automóvil disparos na cabeça.
Assa
ssina
Gay to
As vítimas foram
BALNEAR (ou com
encontradas mortas em
IO arma
30-Jul.-
BRAS SANTA CAMBORI
percibido Leonardo de de NÃO HÁ veículo abandonado, com
2013 IL CATARINA Ú como tal) Sá Rodrigues 26 VIDA fogo INFORMAÇÃO Automóvil disparos na cabeça.
Assa
ssina
LESBIAN to
A COM
(ou ARM
Bianca A
31-Jul.-
BRAS percibida Mantelli BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
2013 IL GOIÁS JATAÍ como tal) Pazinatto 18 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado desmembrada em uma casa.
Assa
ssina
to
COM
ARM
A
BRA
Gay NCA
A vítima foi atacada com
(ou e
arma branca e asfixiada com
Pedro Jurací POR
01-Ago.-
BRAS PERNAMB ARCOVE
percibido De Lira Freire ASFI NÃO HÁ ESPAÇO fio de eletricidade ao redor
2013 IL UCO DER como tal) Filho 26 VIDA XIA INFORMAÇÃO público do pescoço.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
RIO Marcos arma
01-Ago.-
BRAS GRANDE
percibido Antonio Do de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
2013 IL DO NORTE NATAL como tal) Nascimemto 40 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado tiros em uma loja.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada
A
02-Ago.-
BRAS SÃO GUARUL
percibida Thalia Batista BRA NÃO HÁ ESPAÇO morta em sua casa com
2013 IL PAULO HOS como tal) Memdes 31 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado marcas de tesouradas.
Uso
desp
Manifestantes LGBT haviam
ropo
rcion sido agredidos por agentes
05-Ago.-
BRAS SANTARÉ
PessoaS Grupo de INTEGRI al da Agente/s ESPAÇO policiais em evento da Igreja
2013 IL PARÁ M LGBT Pessoas N/D DADE força estatal/es Público Universal do Reino de Deus.
Assa
Gay ssina
(ou to
POR
05-Ago.-
BRAS MATO
percibido ASFI NÃO HÁ ESPAÇO A vítima apareceu morta em
2013 IL GROSSO CUIABÁ como tal) Pedro Araújo 52 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado sua casa.
Gay
(ou
Edmilson Assa
06-Ago.-
BRAS PERNAMB CARUAR
percibido Mariano Da ssina NÃO HÁ ESPAÇO As vítimas foram assassinadas
2013 IL UCO U como tal) Silva Jumior 19 VIDA to INFORMAÇÃO público a tiros na rua.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
arma
06-Ago.-
BRAS PERNAMB CARUAR
percibido de NÃO HÁ ESPAÇO As vítimas foram assassinadas
2013 IL UCO U como tal) G. S. D. N. 17 VIDA fogo INFORMAÇÃO público a tiros na rua.
158

Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi encontrada
Adeodato arma
08-Ago.-
BRAS RIO DE
percibida Pereira de NÃO HÁ ESPAÇO morta em um beco com um
2013 IL JANEIRO RESemDE como tal) Júnior 39 VIDA fogo INFORMAÇÃO público tiro no olho.
MULHER
TRANS
(ou
Assa
11-Ago.-
BRAS RIO DE RIO DE
percibida ssina NÃO HÁ ESPAÇO O corpo da vítima foi
2013 IL JANEIRO JANEIRO como tal) No publicado N/D VIDA to INFORMAÇÃO público encontrado flutuando no rio.
Assa
ssina
to A
GOL
MULHER PES
TRANS e
(ou Remata ARM
A vítima foi encontrada
Júnior A
12-Ago.-
BRAS MINAS TEOFILO
percibida Numes de BRA NÃO HÁ ESPAÇO morta. Parte de sua cabeça
2013 IL GERAIS OTONI como tal) Souza 22 VIDA NCA INFORMAÇÃO público foi esmagada.
Assa
ssina
Gay to
(ou Francisco por
Antonio de deca NÃO HÁ
13-Ago.-
BRAS percibido Franca pitaç NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi encontrada
2013 IL CEARÁ CANINDÉ como tal) Almeida N/D VIDA ão. INFORMAÇÃO O decapitada.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi assassinada com
(ou com
MATO arma um tiro no peito na rua onde
16-Ago.-
BRAS GROSSO PARNAÍB
percibida Michelle dos de NÃO HÁ ESPAÇO trabalhava como
2013 IL DO SUL A como tal) Santos 22 VIDA fogo INFORMAÇÃO público trabalhadora sexual.
MULHER
TRANS
(ou A vítima foi encontrada
MATO Assa
16-Ago.-
BRAS GROSSO DOURAD
percibida Marcelle ssina NÃO HÁ morta dentro de sua veículo
2013 IL DO SUL OS como tal) Tavares 30 VIDA to INFORMAÇÃO Automóvil com feridas na cabeça.
ATA
QUE
MULHER A A vítima foi brutalmemte
TRANS GOL
atacada, castrada e jogada
(ou PES
e em uma foça. Permanece
17-Ago.-
BRAS percibida Babá Lins de INTEGRI mutil Pessoa/s ESPAÇO com vida em estado
2013 IL ALAGOAS MACEIÓ como tal) Souza 40 DADE ação. particuar/es público gravíssimo.
Assa
Gay ssina
(ou to
Pedro POR NÃO HÁ
17-Ago.-
BRAS BOA
percibido Oliveira da ASFI Pessoa/s INFORMAÇÃ A vítima foi assassinada por
2013 IL RORAIMA VISTA como tal) COMceição 45 VIDA XIA particuar/es O asfixia após uma discussão.
MULHER
TRANS ATA
(ou QUE
A vítima foi encontrada
A
19-Ago.-
BRAS SÃO ARARAQ
percibida INTEGRI GOL NÃO HÁ ESPAÇO gravememte ferida em uma
2013 IL PAULO UARA como tal) Lili de Jesuas N/D DADE PES INFORMAÇÃO público zona rural.
Assa
ssina
to
Gay COM
A vítima foi assassinada em
(ou ARM
um bar, provavelmente por
A
22-Ago.-
BRAS SÃO COMCHA
percibido BRA Pessoa/s ESPAÇO seu irmão, que não aceitava
2013 IL PAULO S como tal) Crodoaldo N/D VIDA NCA particuar/es privado sua orientação sexual.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
A vítima foi assassinada e
(ou ARM
encontrada com marcas de
GOV. Lumeida A
23-Ago.-
BRAS MINAS VAaDARE
percibida Vemturini De BRA NÃO HÁ ESPAÇO objetos pontiagudos e com o
2013 IL GERAIS S como tal) Sousa 35 VIDA NCA INFORMAÇÃO público rosto desfigurado.
159

MULHER Assa
TRANS ssina
A vítima foi assassinada a
(ou to A
Wagner de PEDR pedradas no ponto onde
25-Ago.-
BRAS MINAS COMTAG
percibida Pauas ADA NÃO HÁ ESPAÇO trabalhava como
2013 IL GERAIS EM como tal) Rodegues 42 VIDA S INFORMAÇÃO público trabalhadora sexual.
MULHER
TRANS
(ou
Assa NÃO HÁ
27-Ago.-
BRAS PERNAMB
percibida ssina NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi encontrada
2013 IL UCO RECIFE como tal) Raissa Silva N/D VIDA to INFORMAÇÃO O morta.
Assa
Gay ssina
(ou to A
Remato PEDR A vítima foi morta a
27-Ago.-
BRAS TOCANTIN
percibido Batista da ADA NÃO HÁ ESPAÇO pedradas. Seu corpo foi
2013 IL S PALMAS como tal) Silca 22 VIDA S INFORMAÇÃO público encontrado em uma praia.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
BELO to A
28-Ago.-
BRAS MINAS HORIZO
percibida Fernanda GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
2013 IL GERAIS NTE como tal) Lima N/D VIDA PES INFORMAÇÃO público morta debaixo de uma ponte.
Assa
LESBIAN ssina
A to
(ou com
A vítima foi assassinada a
suaeli arma
29-Ago.-
BRAS MINAS COMTAG
percibida Magda de de NÃO HÁ ESPAÇO tiros no caminho para seu
2013 IL GERAIS EM como tal) Jesuas E Silva 48 VIDA fogo INFORMAÇÃO público trabalho.
MULHER Assa
TRANS ssina
A vítima foi assassinada a
(ou Paoa to A
BELO Alexandre PEDR pedradas. Seu corpo foi
29-Ago.-
BRAS MINAS HORIZO
percibida Resemde ADA NÃO HÁ ESPAÇO encontrado abandonado em
2013 IL GERAIS NTE como tal) Silva N/D VIDA S INFORMAÇÃO público uma rua.
Assa
LESBIAN ssina
A to
(ou com
BELO Maeli arma NÃO HÁ
30-Ago.-
BRAS MINAS HORIZO
percibida Braganca de NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi morta com
2013 IL GERAIS NTE como tal) Tavares N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO O quatro tiros.
Assa
Gay ssina
(ou to A
A vítima foi encontrada com
PEDR NÃO HÁ
01.set.201
BRAS percibido Jonathas ADA NÃO HÁ INFORMAÇÃ o rosto desfigurado e sinais
3 IL ALAGOAS MACEIÓ como tal) Silva 20 VIDA S INFORMAÇÃO O de numerosos golpes.
MULHER
TRANS
(ou A vítima foi encontrada já em
Katlem Assa
01.set.201
BRAS RONDONI PORTO
percibida Santos Da ssina NÃO HÁ ESPAÇO estado de decomposição em
3 IL A VELHO como tal) Silva 24 VIDA to INFORMAÇÃO público um rio.
MULHER
TRANS
(ou ATA
A vítima havia sofrido um
QUE
02.set.201
BRAS SÃO PIRACICA
percibida INTEGRI COM Pessoa/s ESPAÇO ataque brutal no qual lhe
3 IL PAULO BA como tal) No publicado N/D DADE fogo particuar/es privado atearam fogo à roulpa.
Assa
LESBIAN ssina
A to
(ou com
arma
05.set.201
BRAS FORTALE
percibida Aline de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
3 IL CEARÁ ZA como tal) Memezes 27 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado vida em sua casa.
Gay
(ou A vítima foi presumidamente
Assa NÃO HÁ
05.set.201
BRAS MARANHÃ
percibido Daniel Prado ssina Pessoa/s INFORMAÇÃ assassinada por jovem de 17
3 IL O SAO LUIS como tal) Smith 55 VIDA to particuar/es O anos.
160

Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
arma
05.set.201
BRAS MARING
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
3 IL PARANÁ Á como tal) No publicado N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público tiros e encontrada na estrada.
Assa
ssina
to A
MULHER PEDR
TRANS ADA
(ou Se
A vítima foi assassinada a
ARM
05.set.201
BRAS SÃO PIRACICA
percibida A DE NÃO HÁ ESPAÇO golpes e tiros em uma zona
3 IL PAULO BA como tal) No publicado 21 VIDA fogo INFORMAÇÃO público rural.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
arma A vítima foi assassinada a
10.set.201
BRAS MINAS NOVA
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO tiros. Seu corpo foi
3 IL GERAIS SERRANA como tal) No publicado N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público abandonado em uma trilha.
MULHER
TRANS
(ou A vítima foi encontrada em
Maeara Assa
10.set.201
BRAS RONDONI
percibida Castro Da ssina NÃO HÁ ESPAÇO estado de putrefação em um
3 IL A aGOA como tal) Silva 23 VIDA to INFORMAÇÃO público matagal.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
A vítima foi morta a tiros na
(ou com
porta de sua casa por uma
arma
11.set.201
BRAS percibida de Pessoa/s ESPAÇO pessoa que proferiu o disparo
3 IL GOIÁS GOIÂNIA como tal) No publicado 18 VIDA fogo particuar/es público de uma motocicleta.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
arma NÃO HÁ
13.set.201
BRAS PERNAMB
percibido Arthur Da de NÃO HÁ INFORMAÇÃ
3 IL UCO RECIFE como tal) Silva Santos 20 VIDA fogo INFORMAÇÃO O A vítima foi morta a tiros.
Assa
ssina
LESBIAN to
A COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada por
A
15.set.201
BRAS percibida Marcia BRA NÃO HÁ ESPAÇO um grupo de 15 mulheres em
3 IL GOIÁS GOIÂNIA como tal) Gabriel N/D VIDA NCA INFORMAÇÃO público uma feira de alimentação.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada sem
MATO Soraia A NÃO HÁ
15.set.201
BRAS GROSSO CORUMB
percibida Martins da BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ vida com sinais de ataque por
3 IL DO SUL A como tal) Silva 29 VIDA NCA INFORMAÇÃO O armas brancas.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada sem
Esequias A
16.set.201
BRAS TEREsem
percibido Oliverira do BRA NÃO HÁ ESPAÇO vida em seu apartamento
3 IL PIAUÍ A como tal) Carmo 43 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado com facadas no pescoço.
Assa
ssina
to
COM
ARM
A
BRA
Gay NCA
(ou e
POR
23.set.201
BRAS PERNAMB
percibido Jorge Cabral ASFI NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
3 IL UCO RECIFE como tal) de Souza 49 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado morta em seu apartamento.
Assa
Gay ssina
(ou to
A vítima foi assassinada com
Emanoel COM
24.set.201
BRAS MARANHÃ
percibido Pereira ARM NÃO HÁ ESPAÇO facada na garganta na rua, já
3 IL O SAO LUIS como tal) Magalhaes 34 VIDA A INFORMAÇÃO público próxima a seu carro.
161

BRA
NCA

Assa
ssina
Gay to
(ou com
A vítima foi assassinada a
arma
24.set.201
BRAS JOÃO
percibido de NÃO HÁ ESPAÇO tiros e encontrada em um
3 IL PARAÍBA Pessoa como tal) Maanie Fisch 19 VIDA fogo INFORMAÇÃO público matagal.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
arma
26.set.201
BRAS percibido Ricardo de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
3 IL GOIÁS IPORA como tal) COMceição 24 VIDA fogo INFORMAÇÃO público tiros na porta de sua casa.
Gay Assa
(ou ssina
Antonio to A
28.set.201
BRAS percibido Marcos Da GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a golpes,
3 IL PARANÁ RONDON como tal) Silva 40 VIDA PES INFORMAÇÃO público encontrada em um rio.
Assa
Gay ssina
(ou Joao to A
Wellington PEDR NÃO HÁ
30.set.201
BRAS ITAPARIC
percibido Gomes ADA NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi assassinada a
3 IL BAHÍA A como tal) Serasa 24 VIDA S INFORMAÇÃO O pedradas
Gay Assa
SAO (ou ssina
SALVADO to a
30.set.201
BRAS R DE
percibido Nivacil de golp NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
3 IL BAHÍA BAHIA como tal) Godoe Dias 55 VIDA es INFORMAÇÃO privado espancada em sua casa.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
A vítima foi morta com um
arma
04.out.201
BRAS percibido Francisco de NÃO HÁ ESPAÇO tiro na nuca em um campo
3 IL CEARÁ SOBRAL como tal) Edson Araujo N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público de futebol.
Gay
(ou ATA
Paulo QUE NÃO HÁ
06.out.201
BRAS ESPIRITO
percibido Hemrique INTEGRI COM NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi queimada viva às
3 IL SANTO IBATIBA como tal) Alves 44 DADE fogo INFORMAÇÃO O margens de uma praia.
Assa
ssina
Gay to
(ou com
Dois sujeitos em uma
Bemedito arma
06.out.201
BRAS percibido Bemtes de NÃO HÁ ESPAÇO motocicleta assassinaram a
3 IL ALAGOAS MACEIÓ como tal) Robson N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO público vítima a tiros.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
to A
06.out.201
BRAS MARITUB
percibida Brumete GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a paazos
3 IL PARÁ A como tal) Chagas 22 VIDA PES INFORMAÇÃO público em um parque.
Assa
ssina
to A
GOL
PES
Gay e
(ou violê
A vítima foi violentada com
BELO Ronaldo ncia
10.out.201
BRAS MINAS HORIZO
percibido Araujo sexu NÃO HÁ ESPAÇO um cabo de vassoura e
3 IL GERAIS NTE como tal) Caldas 46 VIDA al INFORMAÇÃO privado depois morta em sua casa.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi assassinada com
arma
11.out.201
BRAS MATO VÁRZEA
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO arma de fogo do lado de fora
3 IL GROSSO GRANDE como tal) Natascha 27 VIDA fogo INFORMAÇÃO privado de um motel.
Assa A vítima, que recentemente
Gay ssina
havia assumido sua
(ou to A
homossexualidade, foi
PEDR
11.out.201
BRAS TOCANTIN
percibido Arione ADA NÃO HÁ Lugar de encontrada apedrejada na
3 IL S PALMAS como tal) Pereira Leite 56 VIDA S INFORMAÇÃO trabalho faculdade onde lecionava.
162

Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi assassinada. O
arma NÃO HÁ
12.out.201
BRAS SANTA PALHOÇ
percibida de Pessoa/s INFORMAÇÃ principal suspeito é um ex
3 IL CATARINA A como tal) Samuel 27 VIDA fogo particuar/es O policial militar.
Assa
Gay ssina
(ou to
A vítima foi encontrada
Wanderan POR
13.out.201
BRAS GUANAN
percibido de Souza ASFI NÃO HÁ ESPAÇO morta em sua casa sinais
3 IL BAHÍA MBI como tal) Abreu 53 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado asfixia.
MULHER
TRANS
(ou
Assa
14.out.201
BRAS MINAS
percibida ssina NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
3 IL GERAIS ITAPEVA como tal) Marcus 35 VIDA to INFORMAÇÃO privado vida em sua casa.
MULHER Assa
TRANS ssina
(ou to
Seu corpo foi encontrado
POR NÃO HÁ
15.out.201
BRAS percibida ASFI NÃO HÁ INFORMAÇÃ sem vida com sinais de
3 IL PARANÁ IBIPORA como tal) No publicado 14 VIDA XIA INFORMAÇÃO O estrangulamento.
Gay Assa
A vítima foi assalda e
PRESIDe (ou ssina
mTE to A roubada. Seus agressores lhe
17.out.201
BRAS SÃO PRUDem
percibido Ángelo Boin GOL NÃO HÁ ESPAÇO jogaram em um rio, onde foi
3 IL PAULO TE como tal) Neto 52 VIDA PES INFORMAÇÃO público encontrado seu corpo.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
A vítima foi morta com uma
(ou ARM
profunda facada no pescoço.
Weleson A
18.out.201
BRAS AMAZONA
percibida Marques de BRA NÃO HÁ ESPAÇO Seu corpo foi encontrado em
3 IL S MANAUS como tal) Souza 32 VIDA NCA INFORMAÇÃO público um matagal.
Assa
ssina
to
Gay COM
A vítima foi morta a
(ou ARM
machadadas e facadas após
Mumir A
19.out.201
BRAS MINAS
percibido Augusto Da BRA Pessoa/s Lugar de ser assaltada em seu local de
3 IL GERAIS IPATINGA como tal) Silva 50 VIDA NCA particuar/es trabalho trabalho.
Assa
Gay ssina
A vítima foi encontrada
(ou to A
Caudevando PEDR morta depois de ser golpeada
20.out.201
BRAS MATA
percibido Da Silva ADA NÃO HÁ ESPAÇO e apedrejada. O corpo foi
3 IL ALAGOAS GRANDE como tal) Gomes 27 VIDA S INFORMAÇÃO privado encontrado em uma escola.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou COM
A vítima foi morta a tiros por
ARM
25.out.201
BRAS percibida A DE NÃO HÁ ESPAÇO duas pessoas em uma
3 IL GOIÁS GOIÂNIA como tal) No publicado 32 VIDA fogo INFORMAÇÃO público motocicleta.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada com
FEIRA DE A
28.out.201
BRAS SNATAN
percibido José Carlos BRA NÃO HÁ ESPAÇO arma branca. Seu corpo foi
3 IL BAHÍA A como tal) Moreira Félix 32 VIDA NCA INFORMAÇÃO público encontrado em uma rua.
Assa
ssina
to A
GOL
PES
Gay e
(ou ARM
Joseilton A
02-Nov.-
BRAS PERNAMB TIMBAÚB
percibido Alves Pereira BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a golpes e
2013 IL UCO A como tal) Soares 22 VIDA NCA INFORMAÇÃO público com armas brancas na rua.
Gay Assa
O jovem havia desaparecido
(ou ssina
em setembro. Apareceu em
to A NÃO HÁ
02-Nov.-
BRAS SÃO SÃO
percibido Anderson GOL NÃO HÁ INFORMAÇÃ um hospital. Morreu por
2013 IL PAULO PAULO como tal) Groos N/D VIDA PES INFORMAÇÃO O causa dos golpes.
163

Gay ATA
(ou QUE
A vítima foi atacada junto a
A
06-Nov.-
BRAS SÃO
percibido INTEGRI GOL Pessoa/s ESPAÇO seu parceiro com porretes e
2013 IL PAULO N/D como tal) No publicado 23 DADE PES particuar/es público armas japonesas.
Gay ATA
(ou QUE
A vítima foi atacada junto a
A
06-Nov.-
BRAS SÃO
percibido INTEGRI GOL Pessoa/s ESPAÇO seu parceiro com porretes e
2013 IL PAULO N/D como tal) No publicado 34 DADE PES particuar/es público armas japonesas.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
BOM Joana A
08-Nov.-
BRAS PERNAMB COMSEL
percibida Bartolomeu BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a facadas
2013 IL UCO HO como tal) dos Santos 31 VIDA NCA INFORMAÇÃO público na rua.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
RIO arma
08-Nov.-
BRAS GRANDE
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a tiros na
2013 IL DO NORTE NATAL como tal) Sarita 36 VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima recebeu 40 feridas
A NÃO HÁ
15-Nov.-
BRAS MARANHÃ CINDELÂ
percibido Anderson BRA Pessoa/s INFORMAÇÃ de arma branca por parte de
2013 IL O NDIA como tal) Silva Santos N/D VIDA NCA particuar/es O outro jovem.
Gay
(ou
Marcio Assa
16-Nov.-
BRAS ITAPETIN
percibido Oliveira ssina NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada
2013 IL BAHÍA GA como tal) Tavares 26 VIDA to INFORMAÇÃO privado morta em seu apartamento.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
Ezequías A
16-Nov.-
BRAS TEREsem
percibido Oliveira BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
2013 IL PIAUÍ A como tal) Ducarmo 43 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado vida em seu apartamento.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
RIO Lindomar A A vítima foi encontrada sem
16-Nov.-
BRAS GRANDE
percibido Freire BRA NÃO HÁ ESPAÇO vida em seu apartaento com
2013 IL DO NORTE NATAL como tal) Oliveira 46 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado feria de arma branca.
Assa
Gay ssina
(ou to A
PEDR
17-Nov.-
BRAS SALVADO
percibido Juárez da ADA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada a
2013 IL BAHÍA R como tal) Silva 37 VIDA S INFORMAÇÃO privado pedradas na cabeça.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi encontrada em
A
18-Nov.-
BRAS AMAZONA
percibido Hemrique BRA NÃO HÁ ESPAÇO hotel com uma faca no
2013 IL S MANAUS como tal) Jumior 31 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado pescoço e outra no peito.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou Delmar ARM
A vítima foi atacada a
Bittemcourt A
18-Nov.-
BRAS PORTO
percibida ("ade BRA NÃO HÁ ESPAÇO esfaqueadas na rua. Morreu
2013 IL BAHÍA SEGURO como tal) Butterfle") 35 VIDA NCA INFORMAÇÃO público dois dias depois no hospital.
Assa
Gay ssina
A vítima foi encontrada
(ou Gilberto to
morta com sinais de
Aguiar de POR
18-Nov.-
BRAS JOÃO
percibido Oliveira ASFI NÃO HÁ ESPAÇO estrangulamento em sua
2013 IL PARAÍBA Pessoa como tal) Sousa 49 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado casa.
164

Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A vítima foi morta a facadas
A
19-Nov.-
BRAS RIO DE SAPUCAI
percibido BRA NÃO HÁ ESPAÇO no interior de sua
2013 IL JANEIRO A como tal) auro Pinto 47 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado propiedade.
Assa
LESBIAN ssina
A to
(ou Stemafini com
RIO Franciele arma
19-Nov.-
BRAS GRANDE GETÚLIO
percibida Dos Reis de NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a tiros na
2013 IL DO SUL VARGAS como tal) Farías 19 VIDA fogo INFORMAÇÃO público rua.
Gay
(ou
Assa
21-Nov.-
BRAS RIO DE RIO DE
percibido Wellington ssina NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta nas
2013 IL JANEIRO JANEIRO como tal) Silva N/D VIDA to INFORMAÇÃO privado proximidades de sua casa.
homem
BISEXUA Assa
ssina
L to
(ou COM
percibid ARM
A vítima foi assassinada em
Edinee A
27-Nov.-
BRAS MINAS POUSO
o como Alexander BRA NÃO HÁ motel e abandonada no capô
2013 IL GERAIS ALEGRE tal) Fumchal 36 VIDA NCA INFORMAÇÃO Automóvil de um carro.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi assassinada
Carina arma
27-Nov.-
BRAS THATCH
percibida Severino da de NÃO HÁ ESPAÇO enquanto dormia por disparo
2013 IL PARAÍBA AM como tal) Silva N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO privado de arma de fogo.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
A vítima foi encontrada
to A
29-Nov.-
BRAS AMAZONA
percibida GOL NÃO HÁ ESPAÇO morta na rodovia com sinais
2013 IL S MANAUS como tal) No publicado N/D VIDA PES INFORMAÇÃO público de pauladas.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
SÃO Edilson A
03.dez.201
BRAS JOÃO DE
percibido Gonçalves BRA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta a facadas
3 IL PARÁ PIRABAS como tal) COMceição 44 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado em sua casa.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou Rebeca com
A vítima foi morta a tiros
RIO Jônatha arma
04.dez.201
BRAS GRANDE
percibida Alves Da de NÃO HÁ ESPAÇO por homens que passaram
3 IL DO NORTE PATU como tal) Silva 25 VIDA fogo INFORMAÇÃO público em uma motocicleta.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
arma NÃO HÁ
05.dez.201
BRAS SÃO SÃO
percibida Aghata de de NÃO HÁ INFORMAÇÃ
3 IL PAULO PAULO como tal) Mello N/D VIDA fogo INFORMAÇÃO O A vítima foi morta a tiros.
Gay ATA
A polícia prendeu a a vítima e
(ou QUE
quatro amigos, foram
RIO A NÃO HÁ
06.dez.201
BRAS GRANDE
percibido Alcidio INTEGRI GOL Agente/s INFORMAÇÃ brutalmente espancados e
3 IL DO SUL TORRES como tal) Lemberg Jr. N/D DADE PES estatal/es O terminaram hospitalizados.
Mutil
ação
e
Assa
ssina
to A vítima foi esfaqueada
Gay COM
várias vezes, teve seu pênis
(ou ARM
cortado e o autor ainda
Sandro Da A NÃO HÁ
07.dez.201
BRAS PERNAMB
percibido Silva BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ tentou atear-lhe fogo ao
3 IL UCO JUREMA como tal) Andrade 31 VIDA NCA INFORMAÇÃO O corpo.
165

Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
A vítima foi morta com um
arma
08.dez.201
BRAS SÃO
percibida de NÃO HÁ ESPAÇO tiro no peito enquanto
3 IL PAULO BAURU como tal) Thaes 27 VIDA fogo INFORMAÇÃO público caminhava por um parque.
Assa
Gay ssina
(ou to A
José PEDR
09.dez.201
BRAS PERNAMB SANTO
percibido Feliciano Da ADA NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi morta em sua
3 IL UCO ANTÃO como tal) Luz 43 VIDA S INFORMAÇÃO privado casa.
Assa
ssina
MULHER to
TRANS COM
(ou ARM
A A vítima foi morta a facadas
10.dez.201
BRAS MINAS
percibida BRA NÃO HÁ ESPAÇO e encontrada em uma oficina
3 IL GERAIS ITAÚNA como tal) Pamea 29 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado mecânica.
Assa
MULHER ssina
TRANS to
(ou com
arma O corpo da vítima foi
10.dez.201
BRAS SÃO JOAQUIM
percibida Gabriele de NÃO HÁ ESPAÇO encontrado em um caminho
3 IL PAULO EGÍDIO como tal) Spanic 26 VIDA fogo INFORMAÇÃO público de terra.
Assa
ssina
to A
PEDR
MULHER ADA
TRANS Se
(ou ARM
A vítima foi espancada,
A
12.dez.201
BRAS FORTALE
percibida BRA NÃO HÁ ESPAÇO esfaqueada e apedrejada na
3 IL CEARÁ ZA como tal) D.S.S. 25 VIDA NCA INFORMAÇÃO público rua.
MULHER
TRANS Assa
(ou ssina
to A
14.dez.201
BRAS SANTA
percibida GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi encontrada sem
3 IL CATARINA VIDEIRA como tal) No publicado 22 VIDA PES INFORMAÇÃO público vida abandonada em um lote.
MULHER Assa
TRANS ssina
(ou to
A vítima foi encontrada sem
POR
15.dez.201
BRAS JOÃO
percibida ASFI NÃO HÁ ESPAÇO vida no interior de uma
3 IL PARAÍBA Pessoa como tal) arissa 30 VIDA XIA INFORMAÇÃO privado pousada.
Assa
ssina
to
Gay COM
(ou ARM
A NÃO HÁ
20.dez.201
BRAS MINAS JUIZ DE
percibido Leonardo BRA NÃO HÁ INFORMAÇÃ A vítima foi morta com uma
3 IL GERAIS FORA como tal) Dave Chagas 25 VIDA NCA INFORMAÇÃO O perfuração no peito.
Gay Assa
(ou ssina
to A
21.dez.201
BRAS TEREsem
percibido Demieldson GOL NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada
3 IL PIAUÍ A como tal) Alves Rocha 41 VIDA PES INFORMAÇÃO privado dentro de sua residência.
Assa
ssina
LESBIAN to
A COM
(ou ARM
A vítima foi assassinada com
Fernanda A
23.dez.201
BRAS SALVADO
percibida Iara Marques BRA NÃO HÁ ESPAÇO arma branca em seu
3 IL BAHÍA R como tal) Soares 33 VIDA NCA INFORMAÇÃO privado domicílio.
MULHER
TRANS
A vítima foi assassinada em
(ou sua casa. Acredita-se que
Assa
25.dez.201
BRAS MARANHÃ COELHO
percibida Luana José ssina NÃO HÁ ESPAÇO várias pessoas participaram
3 IL O NETO como tal) Soares 35 VIDA to INFORMAÇÃO privado do assassinato.
Assa
Gay ssina
PRESIDE (ou to
NTE COM
26.dez.201
BRAS SÃO PRUDENT
percibido ARM NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi esfaqueada na
3 IL PAULO E como tal) No publicado 39 VIDA A INFORMAÇÃO privado casa de seu suposto agressor.
166

BRA
NCA

MULHER
TRANS
(ou O corpo da vítima foi
SÃO Assa
26.dez.201
BRAS FRANCIS
percibida ssina NÃO HÁ ESPAÇO encontrado já em estado de
3 IL ZULIA CO como tal) a Juana N/D VIDA to INFORMAÇÃO público decomposição em matagal.
Gay
(ou
Assa
31.dez.201
BRAS percibido Valdinei ssina NÃO HÁ ESPAÇO A vítima foi assassinada
3 IL PIAUÍ TERESINA como tal) Matins 40 VIDA to INFORMAÇÃO privado dentro de sua residência.

TOTAL DE CASOS NOS ESTADOS MEMBROS NO ANO DE 2013: 615


TOTAL DE CASOS NO BRASIL NO ANO DE 2013: 258. Percentual correspondente ao Brasil: 41,95% dos casos
167

ANEXO B- TABELA 02

Comissão Interamericana de Direitos Humanos - Relatoria sobre os direitos das pessoas LGBTI

Registro de violência contra as pessoas LGBT na América


Ataques contra a vida e a integridade | JAN/MAR- 2014
bit.ly/RegistroViolencia

UM OLHAR ESPECÍFICO SOBRE O BRASIL- Por Eduardo Lourenço Viana


E
Nome Prová Lugar
D P s Dire
da vel onde o
a A t Identi Idad ito Breve descrição dos fatos
Cidade vítima Fato autor corpo foi
t I a dade e Afet alegados
presum do encontrad
a S d ado
ida delito o
o
MULHE
R
TRANS
B (ou
01 R percibi
.ja A da ASSASSIN
n. ATO COM Não há
20
SI como ARMA DE informaçã A vítima, que havia sido sequestrada, foi
14 L PE ITAPISSUMA tal) No publicado N/D VIDA FOGO o Espaço público encontrada com dos tiros no rosto.
GAY
B (ou
02 R percibi
.ja A do ASSASSIN
n. ATO COM Não há
20
SI N/
como Giovanni da ARMA DE informaçã A vítima foi encontrada morta em sua
14 L D N/D tal) Silva 20 VIDA FOGO o Espaço privado casa com tiros na cabeça.
GAY
B (ou
02 R percibi
.ja A do Diego ASSASSIN
n. Marchado ATO COM Não há A vítima era uma pessoa com deficiência
20
SI P JOÃO
como dos Santos ARMA DE informaçã que foi assassinada com um tiro em sua
14 L A PESSOA tal) Oliveira 26 VIDA FOGO o Espaço privado casa.
GAY
B (ou
04 R percibi
.ja A do INTEG
n. Manuel pessoa/s
20
SI como Antonio RIDA ATAQUE A particuar/
14 L PR CURITIBA tal) Delcino 42 D GOLPES es Espaço privado Três jóvens atacaram a golpes a vítima.
PE
R GAY
N
B A
(ou
04 R M percibi
.ja A B do ASSASSIN
A vítima foi assassinada com três feridas
n. U Adilson ATO COM Não há
20
SI C
como Alfredo ARMA informaçã profumdas de machado. Seu corpo foi
14 L O TORITAMA tal) Becerra N/D VIDA BRANCA o Espaço público encontrado na rua.
MULHE
R
TRANS
B (ou
05 R percibi
.ja A da ASSASSIN
n. PI Fernandinha ATO A Não há
20
SI A
como Oliveira de PEDRADA informaçã
14 L UÍ TERESINA tal) Mesquita 39 VIDA S o Espaço público A vítima foi encontrada morta na rua.
168

MULHE
R
TRANS
B (ou
05 R percibi
.ja A SE da ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta após duas
n. R José Luiz ATO COM Não há
20
SI GI
como Santos ARMA DE informaçã pessoas em uma motocicleta se
14 L PE ESTANCIA tal) ("Biquica") N/D VIDA FOGO o Espaço público aproximarem e lhe alvejarem a tiros.
MULHE
R
TRANS
B (ou
05 R TE percibi
.ja A RE da ASSASSIN
n. SI VILa Elizalber ATO A Não há
20
SI N HERMANA
como Oliveira de PEDRADA informaçã A vítima foi encontrada na rua com a
14 L A DULCE tal) Mesquita 39 VIDA S o Espaço público cabeça destroçada a pedradas.
MULHE
RI R
O TRANS
D
B E
(ou
08 R JA percibi
.ja A N da ASSASSIN
n. EI ATO COM Não há
20
SI R
como ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada a tiros dentro
14 L O GUANABARA tal) Paloma N/D VIDA FOGO o Espaço público de um automóvel.
MULHE
R
TRANS
B (ou
10 R percibi
.ja A CE da ASSASSIN
n. A ATO COM Não há
20
SI R
como ARMA informaçã A vítima foi esfaqueada e agonizou
14 L Á FORTALEZA tal) Rayka Tomaz N/D VIDA BRANCA o Espaço privado durante várias horas amordaçada.
MULHE
R
TRANS
B (ou
10 R percibi
.ja A da ASSASSIN
n. G ATO COM Não há
20
SI OI
como ARMA DE informaçã Não há A vítima foi encontrada morta com um
14 L ÁS GOIÂNIA tal) No publicado 25 VIDA FOGO o informação tiro no peito.
GAY
MI
B N
(ou
14 R AS percibi
.ja A GE do ASSASSIN
n. R Antonio ATO COM Não há
20
SI AI
como Goncalves ARMA informaçã A vítima foi esfaqueada no pescoço e
14 L S UBERaNDIA tal) Pinheiro 30 VIDA BRANCA o Espaço público com feridas em seus joelhos.
GAY
B (ou
15 R percibi
.ja A do
n. G Não há
20
SI OI
como Sebastião ASSASSIN informaçã
14 L ÁS ITABERAÍ tal) Fleuri N/D VIDA ATO o Espaço público A vítima foi encontrada morta na rua.
MULHE
R
TRANS
MI
B N
(ou
15 R AS percibi
.ja A GE da Antonio ASSASSIN
A vítima foi assassinada a tiros na
n. R Carlos dos ATO COM Não há
20
SI AI
como Santos ("Toni ARMA DE informaçã cabeça e nas pernas no local onde
14 L S UBERABA tal) Gretchen") 50 VIDA FOGO o Espaço público trabalhava como trabalhadora sexual.
16 A GAY
.ja B M (ou Julivan ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta em sua
n. A Pinheiro ATO COM Não há
20
R Z
percibi Castelo ARMA informaçã casa com diversas feridas de arma
14 A O MANAUS do Branco 23 VIDA BRANCA o Espaço privado perfurocortante.
169

SI N como
AS
L tal)

GAY
MI
B N
(ou
18 R AS percibi
.ja A GE do ASSASSIN
n. R ATO POR Não há A vítima foi encontrada morta em um
20
SI AI
como CARBONI informaçã descampado com 90% de seu corpo
14 L S ARAUJOS tal) No publicado 20 VIDA ZAÇÃO o Espaço público queimado.
GAY
A
B M
(ou
19 R A percibi
.ja A Z do ASSASSIN
n. O ATO COM Não há
20
SI N
como Frank José ARMA informaçã A vítima foi encontrada degoada em sua
14 L AS MANAUS tal) Fernández 55 VIDA BRANCA o Espaço privado casa.
MULHE
SA R
N TRANS
TA
B C
(ou
20 R AT percibi
.ja A A da ASSASSIN
n. RI Crystal ATO COM Não há
20
SI N FLORIANÓP
como Nascimento ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada a tiros
14 L A OLIS tal) de Araújo 22 VIDA FOGO o Espaço público disparados de uma motocicleta.
GAY
B (ou
22 R AL percibi
.ja A A do ASSASSIN
n. G ATO COM Não há
20
SI O
como Luciano de ARMA informaçã A vítima foi assassinada a facadas em
14 L AS ARAPIRACA tal) Jesús Silva 47 VIDA BRANCA o Espaço privado sua casa.
GAY
MI
B N
(ou ASSASSIN
22 R AS percibi ATO POR
A vítima foi estuprada, brutalmente
.ja A GE do ESPANCA
espancada e seu rostro foi desfigurado.
n. R MENTO E Não há
20
SI AI BELO
como Alexandre VIOLÊNCI informaçã Seu corpo foi encontrado em um
14 L S HORIZONTE tal) Henrique 33 VIDA A SEXUAL o Espaço público parque.
LESBIA
M NA
A
B R
(ou
23 R A percibi
.ja A N da INTEG As vítimas foram insultadas e atacadas
n. H ATAQUE A pessoa/s
20
SI Ã
como Amanda RIDA PEDRADA particuar/ com pedras quando caminhavam pela
14 L O SAN LUIS tal) Mateus 24 DE S es Espaço público rua.
LESBIA
M NA
A
B R
(ou
23 R A percibi
.ja A N da INTEG As vítimas foram insultadas e atacadas
n. H ATAQUE A pessoa/s
20
SI Ã
como Huyara RIDA PEDRADA particuar/ com pedras quando caminhavam pela
14 L O SAN LUIS tal) Gonçalves 32 DE S es Espaço público rua.
RI
O
G
R
A
MULHE
N R
D TRANS
E
B D
(ou
23 R O percibi
.ja A N da
n. O Michele ASSASSIN Não há
20
SI RT
como Coelho de ATO A informaçã A vítima que havia desaparecido foi
14 L E NATAL tal) Morais 39 VIDA GOLPES o Espaço público encontrada assassinada a golpes.
170

MULHE
ES R
PÍ TRANS
RI
B T
(ou
24 R O percibi
.ja A SA da
n. N ASSASSIN pessoa/s
20
SI T
como ATO A particuar/
14 L O ITAPEMIRIM tal) No publicado 39 VIDA GOLPES es Espaço privado A vítima foi assassinada a golpes.
GAY
B (ou
24 R percibi
.ja A do ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta com um
n. G ATO COM Não há
20
SI OI
como Luiz Gustavo ARMA DE informaçã tiro em seu rostro. O corpo foi
14 L ÁS CRISTALINA tal) da Silva 19 VIDA FOGO o Espaço público encontrado em um descampado.
MULHE
R
TRANS
B R
(ou
25 R O percibi
.ja A R da INTEG
ATAQUE
n. AI com pessoa/s
20
SI M
como RIDA ARMA particuar/ A vítima foi esfaqueada e permaneceu
14 L A BOA VISTA tal) No publicado N/D D branca es Espaço privado em estado grave.
GAY
B SÃ
(ou
27 R O percibi
.ja A P do
n. A Brumo ASSASSIN pessoa/s
20
SI UL
como Borges de ATO A particuar/ A vítima foi assassinada a golpes por um
14 L O BELa VISTA tal) Oliveira 18 VIDA GOLPES es Espaço público grupo de seis homens.
MULHE
R
TRANS
B SÃ
(ou
27 R O percibi
.ja A P da
n. A ASSASSIN Não há
20
SI UL CARAPICUIB
como ATO A informaçã Não há A vítima foi amarrada com sua própia
14 L O A tal) Gutta 49 VIDA GOLPES o informação roupa e espancada até morrer.
MULHE
R
TRANS
B (ou
28 R percibi
.ja A P da ASSASSIN
n. A Joice ATO COM Não há
20
SI R
como Antonio ARMA informaçã A vítima foi assassinada com múltiplas
14 L Á CASTANHAL tal) Freitas Vieira 32 VIDA BRANCA o Espaço privado facadas no interior de um motel.
MULHE
R
TRANS
B (ou
29 R percibi
.ja A da ASSASSIN
n. Ba Farita de ATO COM Não há
20
SI hi
como Almeida ARMA DE informaçã
14 L a ITABEa tal) Oliveira 35 VIDA FOGO o Espaço público A vítima foi assassinada com um tiro.
GAY
B P
(ou ASSASSIN
29 R A percibi ATO POR
.ja A R do ESPANCA
A vítima foi estuprada e submetida a
n. AÍ Francisco MENTO E Não há
20
SI B JOÃO
como Ivanildo VIOLÊNCI informaçã feroz espancamento que lhe tirara a
14 L A PESSOA tal) Santos 40 VIDA A SEXUAL o Espaço público vida. Seu corpo foi encontrado na rua.
RI
O MULHE
D
B E
R
30 R JA TRANS ASSASSIN
.ja A N (ou ATO A
n. EI GOLPES E pessoa/s
20
SI R
percibi Thifani Felipe ARMA particuar/ Não há A vítima foi encontrada morta, mutilada
14 L O N/D da Matheus 18 VIDA BRANCA es informação e com seu rosto desfigurado.
171

como
tal)

GAY
B (ou
31 R AL percibi
.ja A A do A vítima foi espancada até a morte. Seu
n. G ASSASSIN Não há
20
SI O
como Paoa Ivanildo ATO A informaçã corpo foi encontrado em uma
14 L AS PIACABUCU tal) Alves Pereira 25 VIDA GOLPES o Espaço público construção.
PE
R GAY
N
B A
(ou
31 R M percibi
.ja A B do ASSASSIN
A vítima foi golpeada com uma pedra
n. U ATO A Não há
20
SI C
como Julian de PEDRADA informaçã até a morte. Seu corpo foi encontrado
14 L O SALGUEIRO tal) Souza Cruz 32 VIDA S o Espaço público em um descampado.
MULHE
R
M TRANS
AT
B O
(ou
02 R G percibi
.fe A R da ASSASSIN
v. O ATO COM Não há
20
SI SS
como ARMA DE informaçã
14 L O CUIABÁ tal) Rayssa Xavier 30 VIDA FOGO o Espaço privado A vítima foi assassinada a tiros.
GAY
B SÃ
(ou
03 R O percibi
.fe A P do INTEG
v. A Juliano pessoa/s
20
SI UL
como Zequini RIDA ATAQUE A particuar/ A vítima foi violetamente agredida a
14 L O N/D tal) Polidoro 26 D GOLPES es Espaço público golpes enquant caminhava pela rua.
GAY
MI
B N
(ou
06 R AS percibi
A vítima foi encontrada morta em sua
.fe A GE do ASSASSIN
casa com arma branca enterrada em
v. R Dárcio Natal ATO COM Não há
20
SI AI BRUMADINH
como de ARMA informaçã suas costas, com os pés e mãos
14 L S O tal) Mendonca 63 VIDA BRANCA o Espaço privado amarrados.
MULHE
R
TRANS
MI
B N
(ou
07 R AS percibi
.fe A GE da
v. R ASSASSIN Não há
20
SI AI BELO
como ATO A informaçã A vítima foi encontrada morta em um
14 L S HORIZONTE tal) No publicado N/D VIDA GOLPES o Espaço público parque com várias feridas no rostro.
M GAY
AT
B O
(ou
11 R G percibi
.fe A R do ASSASSIN
A vítima foi assassinada com arma
v. O Alisson da ATO COM pessoa/s
20
SI SS
como Rocha ARMA particuar/ Não há branca supostamente pelo padrastro de
14 L O Três aGOS tal) Ribeiro 18 VIDA BRANCA es informação seu parceiro.
MULHE
PE R
R TRANS
N
B A
(ou
11 R M percibi
.fe A B da ASSASSIN
v. U Rafaea José ATO COM pessoa/s
20
SI C
como dos Santos ARMA DE particuar/ A vítima foi assassinada com arma de
14 L O TEJIPIO tal) Alderotti 32 VIDA FOGO es Espaço público fogo por sujeitos em uma motocicleta.
172

MULHE
R
TRANS
B P
(ou
12 R A percibi
.fe A R da ASSASSIN
v. A ATO COM Não há
20
SI N CAMPO
como ARMA DE informaçã
14 L Á MOURAO tal) Cristiano Ali 39 VIDA FOGO o Espaço público A vítima foi assassinada com vários tiros.
MULHE
R
TRANS
B SÃ
(ou
16 R O percibi
.fe A P da ASSASSIN
A vítima foi esfaqueada até a morte por
v. A ATO COM pessoa/s
20
SI UL RIBEIRAO
como ARMA particuar/ seis homens. Seu corpo foi encontrado
14 L O PRETO tal) No publicado 40 VIDA BRANCA es Espaço público na rua.
GAY
B (ou
17 R percibi
.fe A do ASSASSIN
v. Ba ATO COM Não há
20
SI hi
como Adson ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada a tiros em uma
14 L a SAN FELIPE tal) Orleans N/D VIDA FOGO o Espaço público parada de ônibus.
GAY
B (ou
17 R percibi
.fe A do ASSASSIN
v. Ba ATO COM Não há
20
SI hi
como ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada a tiros em uma
14 L a SAN FELIPE tal) Betto Coelho N/D VIDA FOGO o Espaço público parada de ônibus.
GAY
MI
B N
(ou
17 R AS percibi
.fe A GE do ASSASSIN
v. R ATO COM Não há
20
SI AI BELO
como Willerson ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada com arma de
14 L S HORIZONTE tal) Araújo 26 VIDA FOGO o Espaço privado fogo em esu domicílio.
RI
O GAY
D
B E
(ou
17 R JA percibi
.fe A N do A vítima foi encontrada morta em sua
v. EI ASSASSIN Não há
20
SI R SAN
como Waldemir ATO A informaçã casa indícios de ter recebido múltiplos
14 L O GONZALO tal) Devilart 44 VIDA GOLPES o Espaço privado golpes.
MULHE
SA R
N TRANS
TA
B C
(ou
18 R AT percibi
.fe A A da ASSASSIN
v. RI ATO COM pessoa/s
20
SI N
como ARMA DE particuar/ A vítima foi encontrada morta com
14 L A CHAPECÓ tal) Robertona 38 VIDA FOGO es Espaço público vários tiros.
MULHE
SA R
N TRANS
TA
B C
(ou
18 R AT percibi
.fe A A da ASSASSIN
A vítimaeceu fal ao ser transportada ao
v. RI ATO COM Não há
20
SI N
como Odimar ARMA DE informaçã Não há hospital após ter sido atingida por
14 L A CHAPECÓ tal) Ximenez 36 VIDA FOGO o informação vários tiros.
MULHE
DI R
ST TRANS
RI
B T
(ou
19 R O percibi
.fe A FE da ASSASSIN
v. D ATO COM Não há
20
SI ER TAGUATING
como ARMA DE informaçã Não há A vítima foi encontrada morta com 10
14 L AL A tal) Paulete N/D VIDA FOGO o informação tiros.
173

RI
O GAY
D
B E
(ou
19 R JA percibi
A vítima foi assassinada provavelmente
.fe A N do por seu pai devido ao fato de que este
v. EI ASSASSIN pessoa/s
20
SI R
como ATO A particuar/ Não há não podia aceitar sua
14 L O BANGU tal) A. M. 8 VIDA GOLPES es informação homossexualidade.
MULHE
R
TRANS
B (ou
21 R percibi
.fe A P da ASSASSIN
v. A ATO COM Não há A vítima foi encontrada morta devido a
20
SI R
como Camia ARMA DE informaçã Não há vários tiros após ter estado
14 L Á BELÉM tal) Veronezi 24 VIDA FOGO o informação desaparecida por vários dias.
GAY
B (ou
23 R percibi
A vítima foi encontrada morta em sua
.fe A do ASSASSIN
casa com suas pernas e mãos amarradas
v. G ATO COM Não há
20
SI OI
como ARMA informaçã Não há e com feridas provocadas com arma
14 L ÁS GOIÂNIA tal) No publicado N/D VIDA BRANCA o informação branca.
MULHE
R
TRANS
MI
B N
(ou
23 R AS percibi
.fe A GE da ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta com
v. R ATO COM Não há
20
SI AI NOVA
como ARMA informaçã Não há múltiplas feridas provocadas por uma
14 L S SERRANA tal) No publicado N/D VIDA BRANCA o informação arma branca.
PE
R GAY
N
B A
(ou
25 R M percibi
.fe A B do José Geraldo ASSASSIN
v. U de ATO COM Não há
20
SI C
como Albuquerque ARMA DE informaçã
14 L O RECIFE tal) Silva 36 VIDA FOGO o Espaço público A vítima foi assassinada a tiros na rua.
GAY
B (ou
27 R percibi
.fe A do ASSASSIN
A vítima havia sido assassinada em sua
v. G ATO COM pessoa/s
20
SI OI
como Valtenir ARMA particuar/ casa presumidamente por um de seus
14 L ÁS CAIAPÔNIA tal) Ribeiro 61 VIDA BRANCA es Espaço privado alumos devido a sua orientação sexual.
GAY
B P
(ou
27 R A percibi
.fe A R do ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta jumto
v. A Alessandro ATO COM Não há
20
SI N BARBOSA
como de Sales ARMA DE informaçã com seu parceiro dentro de sua casa
14 L Á FERRAZ tal) Messias 29 VIDA FOGO o Espaço privado com várias feridas de bala.
GAY
B P
(ou
27 R A percibi
.fe A R do ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta jumto
v. A Milton ATO COM Não há
20
SI N BARBOSA
como Mauricio dos ARMA DE informaçã com seu parceiro dentro de sua casa
14 L Á FERRAZ tal) Santos 63 VIDA FOGO o Espaço privado com várias feridas de bala.
MULHE
R
TRANS
B SÃ
(ou
27 R O percibi
.fe A P da ASSASSIN
v. A ATO COM Não há
20
SI UL
como ARMA DE informaçã A vítima foi encontrada morta com
14 L O SÃO PAULO tal) No publicado N/D VIDA FOGO o Espaço público vários tiros.
174

DI LESBIA
ST NA
RI
B T
(ou
28 R O percibi
.fe A FE da INTEG A vítima havia sido atacada por um
v. D pessoa/s
20
SI ER
como RIDA ATAQUE A particuar/ hombre en a puerta com um bar y
14 L AL BRASILIA tal) No publicado N/D D GOLPES es Espaço privado debieron ser hospitalizadas.
MULHE
R
TRANS
B (ou
28 R percibi
.fe A da ASSASSIN
v. Ba ATO COM Não há
20
SI hi VITÓRIA DA
como ARMA DE informaçã A vítima foi encontrada morta com um
14 L a comQUISTA tal) A. S. S. 16 VIDA FOGO o Espaço público tiro na cabeça.
MULHE
R
TRANS
B (ou
28 R percibi
.fe A SE da ASSASSIN
v. R ATO COM Não há
20
SI GI
como ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada com vários tiros
14 L PE ARACAJÚ tal) Kitana 18 VIDA FOGO o Espaço privado na saída de um bar.
MULHE
R
TRANS
01
-
B P
(ou
M R A percibi
A vítima foi encontrada morta com
ar. A R da ASSASSIN
feridas de arma branca no rostro e no
- AÍ ATO COM Não há
20
SI B JOÃO
como Andressa ARMA informaçã corpo, bem como com uma fratura no
14 L A PESSOA tal) Pinheiro N/D VIDA BRANCA o Espaço público crâneo.
MULHE
R
TRANS
02
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P da ASSASSIN
- A ATO COM pessoa/s
20
SI UL
como Rose Maria ARMA particuar/ Não há A vítima foi encontrada morta com 15
14 L O BRÁS tal) Queiroz N/D VIDA BRANCA es informação facadas.
MULHE
R
TRANS
03 R
-
B O
(ou
M R N percibi
ar. A D da ASSASSIN
- O ATO COM pessoa/s A vítima foi assassinada com arma de
20
SI NI PORTO
como Katia Lopes ARMA DE particuar/ fogo por um homem em uma
14 L A VELHO tal) Barbosa 42 VIDA FOGO es Espaço público motocicleta.
M
AT
O
G
R GAY
05 O
-
B SS
(ou
M R O percibi
ar. A D do INTEG O irmão mais novo da vítima, ao saber
- O pessoa/s
20
SI S
como RIDA ATAQUE A particuar/ de sua orientação sexual, a atacou a
14 L UL COXIM tal) No publicado 21 D GOLPES es Espaço privado golpes.
GAY
05
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P do
- A ASSASSIN Não há
20
SI UL
como Celso ATO POR informaçã Não há A vítima foi encontrada morta após ter
14 L O PORTO FELIZ tal) Mazzieri 45 VIDA ASFIXIA o informação estado desaparecida.
175

GAY
09
-
B (ou
M R percibi
ar. A do ASSASSIN
- Ba ATO COM Não há
20
SI hi VITÓRIA DA
como Lismar ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada a tiros en plena
14 L a comQUISTA tal) Santos Silva 34 VIDA FOGO o Espaço público via pública.
GAY
09
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P do
- A ASSASSIN pessoa/s
20
SI UL GASTAO
como ATO A particuar/ Não há A vítima foi assassinada a golpes. Seu
14 L O VIDIGAL tal) R. D. H. 16 VIDA GOLPES es informação agressor pensou que era gay.
MULHE
ES R
PÍ TRANS
10 RI
-
B T
(ou
M R O percibi
ar. A SA da ASSASSIN
- N ATO COM Não há A vítima foi assassinada com um tiro por
20
SI T
como ARMA DE informaçã um homem que passava en um
14 L O SERRA tal) No publicado 36 VIDA FOGO o Espaço público automóvel.
M
AT
O
MULHE
G R
R TRANS
10 O
-
B SS
(ou
M R O percibi
ar. A D da
- O Não há
20
SI S
como ASSASSIN informaçã A vítima foi encontrada morta debaixo
14 L UL ANGÉLICA tal) V. L. A. D. S. 14 VIDA ATO o Espaço privado da cama de outro jovem.
MULHE
R
TRANS
12
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P da ASSASSIN
- A ATO COM Não há A vítima foi assassinada com mais de
20
SI UL
como ARMA DE informaçã quinze tiros por um homem que passou
14 L O SÃO PAULO tal) Paulete 31 VIDA FOGO o Espaço público em uma caminhonete.
GAY
13
-
B P
(ou
M R A percibi
ar. A R do ASSASSIN
- A ATO COM Não há
20
SI N
como ARMA informaçã A vítima foi assassinada com um arma
14 L Á CURITIBA tal) No publicado 22 VIDA BRANCA o Espaço privado branca em sua casa.
MULHE
R
TRANS
14
-
B (ou
M R percibi
ar. A da ASSASSIN
A vítima foi encontrada totalmente
- G ATO POR Não há
20
SI OI
como CARBONI informaçã carbonizada. Seu corpo foi jogado em
14 L ÁS LUZIANIA tal) No publicado N/D VIDA ZAÇÃO o Espaço público um terreno baldio.
RI
O GAY
15 D
-
B E
(ou
M R JA percibi
Conhecido ator e comediante foi
ar. A N CAMPOS do ASSASSIN
- EI DOS David da ATO COM Não há encontrado morto com um tiro no
20
SI R GOYTACAZE
como Costa ARMA DE informaçã pescoço. Seu corpo foi encontrado na
14 L O S tal) Moreira 38 VIDA FOGO o Espaço público rua.
MULHE
16
-
B SÃ
R
M R O TRANS ASSASSIN
ar. A P (ou ATO A
A vítima foi golpeada várias vezes no
- A GOLPES E Não há
20
SI UL
percibi ARMA DE informaçã rosto e após assassinada com um arma
14 L O SÃO PAULO da D. 15 VIDA FOGO o Espaço público de fogo.
176

como
tal)

GAY
17 MI
-
B N
(ou
M R AS percibi
ar. A GE do ASSASSIN
A vítima havia sido assassinada por seu
- R Alcebes ATO COM pessoa/s
20
SI AI BELO
como Emidio ARMA DE particuar/ Não há tio com um arma de fogo debido a este
14 L S HORIZONTE tal) Ribeiro 18 VIDA FOGO es informação não aceitar sua orientação sexual.
GAY
17
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
A vítima foi encontrada morta com
ar. A P do ASSASSIN
feridas de arma de fogo, após de haver
- A Geovane ATO COM Não há
20
SI UL
como Henrique ARMA DE informaçã estado desaparecida por mais de dez
14 L O ARUJÁ tal) Leal Silva 18 VIDA FOGO o Espaço privado dias.
MULHE
R
TRANS
18
-
B P
(ou
M R A percibi
ar. A R da ASSASSIN
- AÍ Paulete ATO COM Não há
20
SI B
como Roberto Lima ARMA DE informaçã A vítima foi encontrada morta às
14 L A TERESINA tal) dos Santos 19 VIDA FOGO o Espaço público margens de um rio.
PE
R GAY
18 N
-
B A
(ou
M R M percibi
ar. A B do A vitima foi encontrada morta por
- U ASSASSIN Não há
20
SI C
como Jaequisandro ATO POR informaçã Não há estrangulameto após de haver estado
14 L O GRAVATÁ tal) Silva Morais 35 VIDA ASFIXIA o informação vários dias desaparecida.
MULHE
R
TRANS
19
-
B (ou
M R percibi
ar. A da ASSASSIN
A vitima foi assassinada com um arma
- Ba ATO COM Não há
20
SI hi
como ARMA informaçã branca enterrada em seu pescoço. Seu
14 L a ITABERABA tal) Agamemnon N/D VIDA BRANCA o Espaço privado corpo sem vida foi deixado em sua casa.
MULHE
R
TRANS
23
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P da
- A Não há
20
SI UL
como ASSASSIN informaçã A vítima foi encontrada esquartejada em
14 L O SÃO PAULO tal) No publicado N/D VIDA ATO o Espaço público um cemitério.
GAY
24
-
B (ou
M R percibi
ar. A do
- Ba Paulo Sérgio ASSASSIN Não há
20
SI hi MORRO DO
como do ATO A informaçã A vítima foi assassinada a golpes em sua
14 L a CHAPÉU tal) Nascimento 45 VIDA GOLPES o Espaço privado casa.
GAY
24
-
B (ou
M R percibi
ar. A SE do A vítima foi encontrada morta em sua
- R Antonio ASSASSIN Não há
20
SI GI
como Carlos de ATO POR informaçã casa com uma corda amarrada a seu
14 L PE SIMAO DIAS tal) Santana 40 VIDA ASFIXIA o Espaço privado pescoço.
177

MULHE
R
TRANS
25
-
B (ou
M R percibi
ar. A CE da ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta com um
- A Marciana ATO COM Não há
20
SI R
como Ricardo da ARMA DE informaçã tiro na nuca. Vinha sendo ameaçada de
14 L Á IGUATU tal) Silva 22 VIDA FOGO o Espaço privado morte.
M GAY
26 AT
-
B O
(ou
M R G percibi
ar. A R do ASSASSIN
Funcionário público declaradamente gay
- O Cláudio ATO COM Não há
20
SI SS
como Quoos ARMA informaçã foi encontrado degolado em sua
14 L O CANARANA tal) comte 51 VIDA BRANCA o Espaço privado residência.
GAY
27
-
B (ou
M R percibi
ar. A do ASSASSIN
- G ATO COM Não há
20
SI OI
como Derich ARMA informaçã A vítima foi assassinada em sua casa
14 L ÁS GOIÂNIA tal) Rodrigues 44 VIDA BRANCA o Espaço privado com arma branca.
MULHE
ES R
PÍ TRANS
28 RI
-
B T
(ou
M R O percibi
ar. A SA da ASSASSIN
A vítima foi encontrada com mãos e
- N ATO COM Não há
20
SI T
como Nicole ARMA informaçã Não há pernas amarradas, com feridas de arma
14 L O VITÓRIA tal) Machado 20 VIDA BRANCA o informação branca.
MULHE
R
TRANS
28
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P da ASSASSIN
- A ATO COM Não há
20
SI UL
como Giovana ARMA DE informaçã A vítima foi assassinada com um arma
14 L O SÃO PAULO tal) Souza Silva 33 VIDA FOGO o Espaço público de fogo.
MULHE
R
TRANS
29
-
B P
(ou
M R A percibi
ar. A R da
- AÍ ASSASSIN pessoa/s
20
SI B JOÃO
como ATO A particular/ A vítima foi encontrada morta devido
14 L A PESSOA tal) No publicado 29 VIDA GOLPES es Espaço público aos vários golpes que recebeu na rua.
GAY
29
-
B SÃ
(ou
M R O percibi
ar. A P do ASSASSIN
A vítima foi encontrada morta em um
- A ATO COM Não há
20
SI UL
como ARMA informaçã descampado. Seu desaparecimento
14 L O AGUDOS tal) I. A. 15 VIDA BRANCA o Espaço público havia sido informado há vários dias.

TOTAL DE CASOS NOS ESTADOS MEMBROS ENTRE JAN/MAR- 2014: 153


TOTAL DE CASOS NO BRASIL ENTRE JAN/MAR-2014: 90. Percentual Correspondente ao Brasil 58,83%