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Material de Apoio - Filosofia

Curso: Técnico em informática integrado ao ensino médio


Ano: 4°
Professor: Rodrigo Rosa

Filme Luz de Inverno de Ingmar Bergman

Diálogo de Tomas com Jonas:


Ouça, Jonas. Serei franco com você. Sabe que minha esposa faleceu há quatro anos. Eu a amava. Minha vida
estava acabada. Eu não tenho medo de morrer e não tinha motivo para continuar vivendo. Mas eu continuei.
Não por mim, mas para ser útil. Tinha grandes sonhos. Queria realizar algo importante na vida. Aquelas ideias
que se tem quando jovem. Não conhecia a maldade ou a crueldade. Quando fui ordenado, era totalmente
inocente. Então tudo aconteceu de uma vez. Fui pastor em Lisboa durante a guerra Civil na Espanha. Me
recusava a ver o que estava acontecendo. Me recusava a ver a realidade. Deus e eu vivíamos num mundo
organizado onde tudo fazia sentido. Quero que saiba que não sou um bom sacerdote. Tinha fé numa imagem
improvável e particular de um deus paterno. Um deus que amava a humanidade, mas a mim acima de tudo.
Percebe que monstruoso erro eu cometi? Um sacerdote ignorante, infeliz e ansioso. Fazia minhas preces para
um deus-eco que me dava respostas agradáveis e bênçãos tranquilizadoras. Toda vez que confrontava Deus
com questões reais, percebia que Ele se transformava em algo feio e revoltante. Um Deus-aranha, um monstro.
Então tentei colocá-lo a parte da vida, mantendo a imagem que tenho Dele só para mim. A única pessoa a
quem mostrei meu deus foi minha esposa. Ela me apoiou, me incentivou e me ajudou. Tapou os buracos.
Nossos sonhos.
Vamos conversar com calma. Me perdoe por falar de forma tão confusa, mas de repente isso tudo veio à tona.
Se Deus não existe, isso realmente faria alguma diferença? A vida se tornaria compreensível. Seria um alívio.
E a morte seria a extinção da vida. O fim do corpo e do espírito. Crueldade, solidão e medo: todas estas coisas
seriam claras e transparentes. O sofrimento é incompreensível, portanto não exige explicação. Não existe um
criador. Nenhum provedor da vida. Nenhum desígnio.

Diálogo de Frövik com Tomas:


Sinto que ele sofreu muito mais em outro aspecto. Talvez eu esteja errado. Mas pense em Getsêmani, pastor.
Todos os discípulos de Cristo adormeceram. Eles não haviam entendido o sentido da última ceia. E quando
os guardas chegaram, eles fugiram e Pedro O negou. Cristo já conhecia os seus discípulos há três anos. Eles
conviviam dia e noite, mas nunca entenderam o que Ele pretendia. Eles O abandonaram, todos eles. Ele ficou
totalmente sozinho. Isto deve ter sido um grande sofrimento. Perceber que ninguém o compreende. Ser
abandonado quando precisa contar com alguém. Isto deve ser extremamente doloroso. Mas o pior ainda estava
por vir. Quando Cristo foi pregado na cruz, em meio ao sofrimento, ele gritou “Deus, meu Deus! Por que me
abandonastes?”. Ele gritou tão alto quanto podia. Ele achou que Seu pai o havia abandonado. Achou que tudo
que havia pregado era mentira. Nos momentos que antecederam sua morte, Cristo teve dúvidas. Certamente,
aquele deve ter sido o seu maior sofrimento. Deus ficou em silêncio.

Jacobi:
A fé iluminista na razão estava baseada na crença de que a razão poderia justificar todas as verdades essenciais
do senso comum, da moralidade e da religião. A autoridade da razão substituíra a autoridade da tradição e da
revelação porque ela sancionava mais efetivamente todas as crenças morais, religiosas e do senso comum.
Essa premissa importantíssima, mas também vulnerável, era o alvo do ataque de Jacobi. A razão, argumentava
ele, não dava suporte, e sim, arruinava todas as verdades essenciais da moralidade, da religião e do senso
comum. Se formos coerentes e levarmos a razão até os seus limites, então deveremos abraçar o ateísmo, o
fatalismo e o solipsismo. Teremos que negar a existência de Deus, da liberdade, das outras mentes, do mundo
externo e, inclusive, a permanência da existência de nós mesmos. Resumidamente: teremos que negar a
existência de tudo, e teremos que nos tornar, para usar a linguagem dramática de Jacobi, “niilistas”. Haveria,
então, apenas um caminho para nos salvarmos do niilismo: “uma aposta na fé”, um salto mortale. (BEISER,
1987, p. 46).
À pergunta “O que é o bem”? não tenho resposta se Deus não existe. (JACOBI, 1996, p. 501).