Você está na página 1de 3

Área I A Pessoa

Unidade 2: O sujeito histórico-social


Tema-problema 2.2 A construção do social; 2.3 A construção da democracia

Documento de ampliação

O falhanço das utopias


Descontentes com o funcionamento do Mundo, pensadores de todas as épocas
lançaram-se em ambiciosas iniciativas destinadas a alcançar uma sociedade mais justa
e igualitária.
Construir o paraíso terrestre sempre foi um dos sonhos mais almejados pelo ser
humano. De Platão a Thomas More, de Francis Bacon a Aldous Huxley, muitas mentes
geniais imaginaram lugares transbordantes de bem-estar, justiça e felicidade. As utupias
são uma constante na vida da humanidade, em todas as culturas e em todos os tempos.
Por outro lado, não é de estranhar que muitos projectos relativos a sociedades
alternativas tenham emergido durante etapas de crise ou de grandes mudanças sociais
e culturais; por exemplo, no final da Idade Média, após a descoberta da América, ou
durante a Revolução industrial. De acordo com Isabel de Cabo, autora de Os Socialistas
Utópicos, poderíamos mesmo afirmar que, “se entendermos o desenvolvimento histórico
da prespectiva de Montesquieu, isto é, como uma tensão entre o real e o desejável,
teremos de convir que, de forma melhor ou pior, a utopia contribuiu para fazer girar a
roda da história”.
Levadas à prática em épocas muito diversas e porta-vozes de ideologias muito
heterógeneas, quase todas as propostas utópicas se caracterizam por possuírem
algumas temáticas em comum. Um obsessão reiterada foi o retorno à sociedades pré-
históricas, nas quais os homens teriam, presumivelmente, levado uma existência idílica.
Com efeito, havia uma convicção quase universal de que os primeiros habitantes do
mundo teriam vivido de forma plácida, num lugar em que podiam dispor de todo o tipo
de bens.
Para recriar este apetecido éden, uma das máximas prioridades era acabar com a
propriedade privada. “Ditosa idade e séculos ditosos, pois então ignoravam as palavras
‘teu’ e ‘meu’. Naquela santa idade, todas as coisas eram comuns”, lê-se em D. Quixote.

© Areal Editores
De igual modo, os idealistas sempre declararam uma guerra sem quartel ao
individualismo. “O utópico detesta o que é único, original, aquilo que diferencia e
personaliza. De A República de Platão ao coletivismo de Estaline, passando por A
Cidade do Sol de Campanella, procede-se a uma verdadeira nivelação de todas as
pessoas, tranformadas em peças anónimas e substituíveis de uma máquina
escrupulosamente lubrificada”, diz o antropólogo francês François Laplantine.
Alguns limitaram-se a espelhar no papel a sua visão da perfeição, mas outros não se
contentaram com a fantasia. Foram várias as tentativas para construir comunidades
isentas das estruturas e dos princípios das sociedades do seu tempo. Socialistas
utópicos, seitas religiosas, humanistas e iluministas empreenderam as mais audazes
façanhas e conseguiram, muitas vezes, que as suas enteléquias se tornassem
realidade. […]
A desenfreda irrupção da industrialização na Europa Ocidental começou a suscitar
fortes críticas e reações violentas. Naquele período, foram muitos os que tentaram dar
vida a alternativas ao avanço do capitalismo. Foi então que se começou a desenvolver
aquilo que Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) designariam por
“socialismo utópico”.
Um dos protagonistas foi o francês Charles Fourier (1772-1837), um sonhador
incurável que chegara a planear a transformação do deserto do Sahara num jardim.
Nas suas cidades ideais, os falanstérios, as pessoas viveriam numa grande casa
comum e as crianças aprenderiam o igualitarismo. O professor Neil McWilliam, da
Universidade de Warwick (Inglaterra), critica o projeto de Fourier e chama-lhe
“socialismo de champanhe”, pois pretendia que os cidadãos levassem uma existência
sumamente opulenta, vivessem em mansões inspiradas nos palácios reais e
usufruíssem diariamente de requintados banquetes. Muitos discípulos de Fourier
quiseram tornar realidade a sua fantasia, mas todas as comunidades faliram em
poucos meses.
Censura na imprensa
O filósofo Étienne Cabet (1788-1856), compatriota de Fourier, estava empenhado em
acabar de uma vez por todas com o individualismo. Na sua proposta para uma nova
sociedade, que se chamaria Icária, os governantes deviam instituir a censura na
imprensa, regulamentar a educação e estabelecer as doses que cada cidadão podia

© Areal Editores
receber na mesa comum. Outro francês, Henri de Saint-Simon (1760-1825), defendia
que os dirigentes tinham o dever de moldar a consciência dos indivíduos. As ideias
deste teórico social chegaram a ser consideradas quase como uma religião pelos seus
partidários. Por isso, não será de estranhar que muitos dos seus contemporâneos,
como o anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), tenham começado a criticar
o despotismo daqueles estilos de vida presumivelmente modulares.
Outro idealista da época foi Robert Owen (1771-1858), empresário inglês que quis
construir cooperativas que permitissem aos trabalhadores levar uma vida simples, mas
digna. Eram formadas por casas idênticas, em forma de paralelogramos, e
proporcionavam serviços excecionais para a época, como escolas e bibliotecas
públicas. A vida comunitária começava aos três anos de idade, e foi mesmo criada
uma indumentária oficial, semelhante à usada na antiga Roma. No entanto, as
comunidades não tardaram a ficar à beira da ruína.
A experência de Owen teve uma consequência ainda mais preocupante: a total
anulação do indivíduo. O poeta inglês Robert Southey (1774-1843) dizia que o pai do
cooperativismo chegara à “monstruosa conclusão” de que, dado que ele conseguira
manipular a consciência de mais de 2000 pessoas, toda a humanidade podia ter sido
governada com a mesma facilidade. Infelizmente, a história dos totalitarismos do
século XX, que iriam transgformar os povos em massa dóceis e apáticas, acabou por
confirmar o seu presságio. […]
No final do século passado, o politólogo Francis Fukuyama sugeriu que o tempo das
utupias terminara e que se iniciara, após a queda do Muro de Berlim, uma nova fase, a
última da história, na qual não existiria qualquer opção que divergisse da atual
sociedade democrática-liberal-capitalista. Na mesma altura, o historiador Russell
Jacoby afirmava que o espirito utópico desapareceu no mundo atual. Assim, podemos
perguntar-nos se as fantasias de perfeição seriam, deveras, o único caminho para
melhorar a sociedade. Em 2004, José Saramago aconselhava a mudar de estratégia e
a concentrarmo-nos em projetos que, levados a cabo no presente, possam alterar de
forma paulatina o futuro da nossa civilização: “Deixemos a linha do horizonte,
deixemos a utopia: o dia de amanhã é o resultado do que tenhamos feito hoje. É muito
mais modesto, muito mais prático e, sobretudo, muito mais útil.”
Revista Super Interessante, maio 2013

© Areal Editores