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Textos Complementares e Documentos Históricos

Tema: Escravidão no Brasil

Texto 1 – Conceito de escravidão

A escravidão se caracteriza por sujeitar um homem ao outro, de forma completa: o escravo não é apenas
propriedade do senhor, mas também sua vontade está sujeita à autoridade do dono e seu trabalho pode ser obtido
até pela força.
Esse tipo de relação não se limita, pois, à compra e venda da força de trabalho, como acontece, por exemplo,
no Brasil de hoje, em que o trabalhador fornece sua força de trabalho ao empresário por um preço determinado,
mas mantém sua liberdade formal. Na escravidão, transforma-se um ser humano em propriedade de outro, a ponto
de ser anulado seu próprio poder deliberativo: o escravo pode ter vontades, mas não pode realizá-las (...).

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

Texto 2 – Justificação ideológica da escravidão

(...) O pensamento europeu da época alimentava-se na Bíblia, na doutrina da Igreja e na antiguidade greco-
romana. Nos Antigo e Novo Testamentos, a escravidão aparece como um fato natural: não é justificada nem
condenada. São Paulo, demais de aceitá-la (embora ressalvasse que diante de Cristo não se distingue o escravo do
homem livre19), conformou-se, ao devolver um cativo fugido a seu dono, com o fato de que cristãos pudessem
possuir escravos da mesma fé. Para os seus correligionários dos primeiros séculos, era irrelevante o ser-se escravo
ou livre. A questão não os preocupava, a não ser quanto à forma como cada qual manejava, na alma, a sua condição:
quem vivesse a experiência do cativeiro para a glória de Deus, Dele ganharia a verdadeira liberdade.
Doutores da Igreja, e dos mais ilustres, procuraram explicar e justificar a escravidão. Santo Agostinho tinha-a
como consequência do pecado — não havia escravo que não merecesse ser escravo — e a inscrevia no grande
esquema ordenado do mundo. Santo Isidoro de Sevilha iria mais longe: a escravidão tinha origem divina e se
destinava a resgatar o cativo de sua perversidade genética. Já para Santo Tomás de Aquino, que teorizou
demoradamente sobre a escravidão, ela, embora dolorosa, era útil e necessária ao cumprimento dos propósitos da
natureza.
Não me esqueço de que a Igreja, sobretudo durante o Império Romano e a Idade Média, estimulou a
manumissão dos cativos — as paróquias arrecadavam dinheiro para comprar a liberdade de escravos, e os
proprietários que os alforriavam eram apresentados como exemplos de virtude —, mas ela própria não libertava os
que possuía, por considerá-los patrimônio divino. Se um escravo se fizesse cristão, tinha, contudo, os mesmos
direitos de um homem livre e podia até ser ordenado sacerdote, depois de liberto. Um deles chegou a papa, Calixto
I.
Excluídos alguns sofistas, cínicos e estoicos, os autores gregos e latinos não fizeram maiores reparos à
escravatura nem a ela se opuseram como instituição. E até alguns dos mais críticos, como Sêneca, possuíram
escravos. Platão não só lhes garantiu espaço na sua República, mas também advogou a adoção de leis duríssimas
para enquadrá-los. A Aristóteles, a escravidão apresentava-se como natural, concorde com a razão e essencial à boa
ordem do mundo. Não só o Código Justiniano a validava, mas também a lição da história, pois, pelo que se sabia, a
sociedade e o Estado romanos, tidos como paradigmáticos, assentaram-se sobre o escravo: era este quem liberava
os cidadãos para o manejo do Estado e as criações da sensibilidade e da inteligência.
Por tudo isso, quando nos situamos intelectualmente no século XVI, não nos devemos surpreender com a
postura de Lutero, ao considerar que o reino deste mundo não se sustentaria sem homens livres e escravos, nem
estranhar que Thomas Morus mantivesse a escravidão como necessária à sua Utopia, nem que Erasmo silenciasse
sobre o assunto, nem ainda que, já no Seiscentos, Descartes, Pascal ou Spinoza não emitissem uma só palavra contra
ela. John Locke qualificou-a de vil e miserável, mas não só a teve por útil à ordem social, como também foi acionista
da Royal African Company, que se dedicava ao comércio de negros. É verdade que os protestantes holandeses
condenaram, inicialmente, a escravatura, mas, tão logo se defrontaram com a necessidade de abastecer de mão de
obra as plantações de açúcar do Brasil, encontraram autores como Godfridus Cornelisz Udeman e o pai do direito
internacional, Hugo Grotius, que, com argumentos elaboradíssimos, a justificaram (...).
COSTA E SILVA, Alberto. A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2011.

Texto 3 – Escravidão na América Portuguesa

(...) A escravidão no Brasil decorre da “descoberta” do país pelos portugueses. Antes de sua vinda, não há
registro de relações escravistas de produção nas sociedades indígenas. Os casos esporádicos de cativos feitos após
lutas entre tribos não afetavam a estrutura econômica nem as relações de produção no grupo vencedor.
Por outro lado, ao contrário do que muitos imaginam, não se deu no Brasil a primeira experiência portuguesa
com a mão de obra escrava. Ela já vinha de bastante tempo antes e tinha se desenvolvido a partir de 1441 quando
Antão Gonçalves regressou de uma expedição ao Rio do Ouro, carregando consigo meia dúzia de azenegues
capturados na costa do Saara, na África, para o infante D. Henrique.
Portugal encontrava-se, naquela ocasião, com sua população desfalcada não apenas devido à guerra de
independência contra Castela, como por conta de uma série de epidemias que grassaram em seu território. Ao longo
do século XV, a aventura colonial, que deslocava mão de obra útil para a África e as Índias, de forma maciça, agravou
o problema. A presença da mão de obra escrava, preenchendo os vazios, permitiria uma intensificação da migração
portuguesa para o ultramar. Numa população de um milhão e meio de habitantes, para o século XVI, os estudiosos
estimam a emigração em quase trezentas mil pessoas. Assim, o escravo seria uma compensação, ao menos parcial,
dessa perda populacional, uma condição para viabilizar as chamadas “conquistas ultramarinas” (...).
Nada mais equívoco do que dizer que o negro veio ao Brasil. Ele foi trazido. Essa distinção não é acadêmica,
mas dolorosamente real e só a partir dela é que se pode tentar estabelecer o caráter que o escravismo tomou aqui:
vir pode ocorrer a partir de uma decisão própria, como fruto de opções postas à disposição do imigrante. Ser trazido
é algo passivo – como o próprio tempo do verbo – e implica fazer algo contra e a despeito de sua vontade.
Havia um problema real, a ausência de mão de obra em escala suficiente, obediente e de baixo custo
operacional, para que o projeto da grande lavoura se estabelecesse adequadamente. Se essa mão de obra fosse uma
mercadoria em cima da qual os mercadores pudessem ganhar, comprando barato e vendendo caro, melhor ainda. O
negro foi, portanto, trazido para exercer o papel de força de trabalho compulsório numa estrutura que estava se
organizando em função da grande lavoura (...).

Texto 4 – O escravo negro no engenho

(...) Os escravos são mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer,
conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. Por isso, é necessário comprar cada ano alguns escravos
e reparti-los pelas roças, serrarias e barcas.
Uns chegam ao Brasil muito rudes e muito fechados e assim continuam por toda a vida. Outros, em poucos
anos ficam ladinos e espertos. Aprendem a doutrina cristã, constroem barcos, levam recados e fazem qualquer
trabalho. As mulheres usam de foice e de enxada, como os homens. Os que desde novatos se meteram em alguma
fazenda, não é bom que os tirem dela contra sua vontade, porque facilmente se entristecem e morrem. Os que
nasceram no Brasil, ou se criaram desde pequenos em casa dos brancos, afeiçoando-se a seus senhores, levam bom
cativeiro (...).

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil (1710).

Texto 5 – O trabalho no engenho

(...) Aqui nada de apatia; tudo é trabalho, atividade; nenhum movimento é inútil, não se perde uma só gota de
suor.
Os edifícios ficam em um grande pátio: o engenho é uma extensa construção ao rés do chão, tendo em frente
a senzala dos negros, deserta durante as horas de trabalho.
Vejo ao longe negros e negras curvados para a terra, e excitados a trabalhar por um feitor armado dum
chicote que pune o menor repouso. Negros vigorosos cortam as canas que raparigas enfeixam. Os carros, atrelados
de quatro bois, vão e vêm dos canaviais ao engenho; outros carros chegam da mata carregados de lenha para as
fornalhas. Tudo é movimento.
O engenho está sobre um terraço; cavalos estimulados pelos gritos de moleque fazem-no girar. Raparigas
negras empurram a cana para os cilindros da moenda. Alguns negros descarregam as canas e as colocam ao alcance
das mulheres; outros as transportam em grandes cestos e espalham no terreiro o bagaço inútil da cana, que não é
usado como combustível.
O edifício da moenda apresenta igualmente a importante dependência das caldeiras, onde é cozido o caldo de
que se forma o açúcar. O mestre de açúcar é um homem livre que tem às suas ordens negros que agitam o mel com
grandes colheres. O fogo das fornalhas é alimentado dia e noite e é mantido durante os cinco meses que dura a
safra. Negros transportam as formas para a casa de purgar que é dirigida por um mulato livre. Este tem sob suas
ordens homens para a refinação e para escorrer o mel que vai se ajuntar num reservatório. Esta dependência
comunica-se com aquela onde se despejam as formas contendo o açúcar acabado. Ali os pães cristalizados e
purgados são quebrados; separam-se as qualidades e espalha-se o açúcar para secar (...).

TOLLENARE, L. F. Notas dominicais tomadas durante uma viagem em Portugal e Brasil, 1816, 1817, 1818.

Texto 6 – Conselhos a um senhor de escravos

O senhor deve dar a quem o serve suficiente alimento, remédios na doença e roupas com que decentemente
se cubra e não deixá-lo quase nu pelas ruas, Deve também moderar o serviço de forma que não seja superior às
forças dos que trabalham (...).
No Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários três PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que
comecem mal, principiando pelo castigo que é o pau, contudo, prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e
o vestir como muitas vezes é o castigo, dado por qualquer causa pouco provada, ou levantada; e com instrumentos
de muito rigor, ainda quando os crimes são certos, de que se não usa nem com os brutos animais, fazendo algum
senhor mais caso de um valão que de meia dúzia de escravos, pois o cavalo é servido, e tem quem lhe busque capim,
tem pano para o suor, e sela e freio dourado (...).
Negar-lhes totalmente os seus folguedos, que são o único alívio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados e
melancólicos, de pouca vida e saúde. Portanto, não lhes estranhem os senhores o criarem seus reis, cantar e bailar
por algumas horas honestamente em alguns dias do ano, e o alegrarem-se inocentemente à tarde depois de terem
feito pela manhã suas festas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito (...).
Costumam alguns senhores dar aos escravos um dia em cada semana, para plantarem para si, mandando
algumas vezes com ele o feitor; e isto serve para que não padeçam fome nem cerquem cada dia a casa de seu
senhor, pedindo-lhe a ração de farinha (...).
Como se apresentará no Tribunal de Deus sem esperar castigo o senhor que não der aos escravos farinha, nem
dia para plantarem, e obriga-los a trabalhar de sol a sol na roça, de dia e de noite com pouco descanso no engenho?

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil (1710).

Texto 7 – Escravidão e violência no Brasil

(...) Como se fosse um verdadeiro nó nacional, a violência está encravada na mais remota história do Brasil,
país cuja vida social foi marcada pela escravidão. Fruto da nossa herança escravocrata, a trama dessa violência é
comum a toda a sociedade, se espalhou pelo território nacional e foi assim naturalizada. Se a escravidão ficou no
passado, sua história continua a se escrever no presente. A experiência de violência e dor se repõem, resiste e se
dispersa na trajetória do Brasil moderno, estilhaçada em milhares de modalidades de manifestação.
Último país a abolir a escravidão no Ocidente, o Brasil segue sendo campeão em desigualdade social e pratica
um racismo silencioso mas igualmente perverso. Apesar de não existirem formas de discriminação no corpo da lei, os
pobres e, sobretudo, as populações negras são ainda mais culpabilizados pela Justiça, os que morrem mais cedo, tem
menos acesso à educação superior pública ou a cargos mais qualificados no mercado de trabalho (...).

SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras. 2015.