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Capítulo Um

Há um sol lá fora agora, que parece me convidar para fugir para algum campo ou praia... A euforia
do trabalho hoje está tão estressante que mal posso apreciar a paisagem que este dia traz.
Incrível como nossas vidas, se bem analisadas, sempre estamos correndo em busca de alguma
coisa para melhorar algum ponto crítico de nossa personalidade, seja esse o amor, o lado
financeiro, a amizade...
Terminei um namoro fazem já 7 dias. Minha vida está uma confusão danada. "Quero me encontrar,
mas não sei onde estou (...)"
Sou um garoto meio complicado, que por diversas vezes, perdi grandes chances de me dar bem,
por puro medo, ou falta de iniciativa própria. Considero-me um cara de muita sorte, mas ao mesmo
tempo, de puro azar por sempre ter as coisas que nunca quis. É estranho dizer o que penso, as
vezes, me torno incompreensível, talvez, um dia, me transforme num cara de sucesso e é o que,
neste momento preciso.
- Bom dia?
- Bom dia....
Mas um dia de trabalho e naquela sexta-feira onde tudo aconteceu como de rotina. Estressado,
saía para ir a academia dançar Axé e fazer musculação... - aliás, "torturação", risos... -.
Ainda bem. Estava ansioso para sair de onde trabalhava pois iria para um lugar onde trabalharia
"menos" e ganharia o dobro. Era meio que um sonho. Estava me sentindo muito bem porém, tive
um mês de stress puro por causa disso.
- Bom, esse é o Jeferson que irá trabalhar conosco e fará parte da nossa equipe.
- "Seja bem-vindo"
- Obrigado...
Aquela semana foi demais, siglas me torturavam e noções de informática corporativa me deixavam
a vontade de vencer ou morrer mas contudo, fui aprendendo tudo de uma forma extraordinária.
Veio o feriado, e com ele, já esquematizado, a primeira vez que conheceria algum garoto da
internet afim de outros garotos. Até esse momento nunca tinha beijado ou ficado com alguém do
mesmo sexo que o meu. Essa sensação de conhecer alguém, para um possível romance, me
deixava ora alegre, ora indignado por ser quem em sou.
Desci no tubo e fui ligar para ele de um telefone público, e marcamos de nos conhecer em frente a
um posto de gasolina. De longe, o vi caminhando, minhas mãos e pernas tremiam, e eu ficava
pesando no que falaríamos, sobre que assunto conversaríamos, etc.
- E dae Cara...
- Olá, Tudo bem...
- Tudo. Quer dizer então que você é o Sr. Rafael...
Rimos
- Pois é...
Andamos por algumas quadras, trocando poucas palavras...
- Nossa, você é o primeiro cara que eu estou conhecendo, nem sei muito sobre o que dizer...
- Legal. Sabe, eu já conheci muita gente, mas a maioria eram "podres" e sem graça...
- Hummm... Tipo o quê?
- Ah, eu não descrimino mas também não curto. Sabe aquelas pessoas afeminadas, que dá até
raiva? E também tem muita gente feia que se conhece pela Net, outrora dizem serem lindas,
mas no encontro você vê o quanto elas mentiram...
- Nossa, deve ser bem chato isso.
- E é sim.
- Quer dizer que sua mãe é evangélica também?!
(Ele já me havia comentado por e-mail isso).
- Pois é, incrível esse negócio, parece que todas as mãe que tem algum filho gay são
evangélicas.
Rimos.
- E você, vai a igreja com freqüência?
- Não muito Jeferson e você?
- Eu toco guitarra e teclado. Sabe eu não acredito que exista deus. Tenho como perspectiva a
tal frase: "Se deus e o diabo estão jogando futebol, o estádio é o meu Destino e é nele que eu
acredito..."
- Legal, eu também penso maios ou menos desse jeito.
Conversamos por mais algumas quadras, quando resolvi ir ao shopping. Nesse momento, não
sabia direito o que fazer, tudo o que eu queria era poder estar sozinho com o Rafael e beija-lo.
Seguimos para dois shopping e de lá, após algum tempo, fomos para um parque. Começou a cair
uma fina chuva, mas isso não nos desanimou. Lá ficamos conversando debaixo de um quiosque.
Ao mesmo momento em que eu me sentia diferente, em minha mente começava a surgir o quanto
que esse mundo era de loucuras para serem vividas. Como se um sol, num nascer esplendoroso
começasse a aparecer com tal intensidade, nunca vista antes. Apesar de eu ter gostado do Rafael,
ao conhecê-lo, ele me passava sempre uma sensação de muito medo, aflição e insegurança.
Estávamos para ir embora, quando, ao caminharmos pelas ruazinhas dentro do parque, entramos
num carreiro. "Loucura" - pensava comigo: "O que estou fazendo?". Não me deixava mais guiar-me
pela razão, apenas pela emoção de curtir um momento assim.
- Se eu te pedisse um beijo, você me daria?
- Claro... (Se ele soubesse, o quanto esperava por isso.)
Então, ele me abraçou e me beijou com uma tal intensidade que ainda consigo lembrar aqueles
lábios. Aquela chuva fina, sob as arvores, tudo criava um clima de muita loucura. Era o que
realmente sempre fiquei esperando.
- Rafael, quero te pedir uma coisa. Sabe, eu não quero que passemos dos limites. (Minha razão
primitiva sobre todo o aspecto dessa homossexualidade, me perturbava em pensar que
ultrapassaríamos limites, os quais nunca pensaria em transpor. Ainda por que o lugar era
público, e não me achava preparado para rolar qualquer coisa além de amassos e beijos).
Ele começou a passar a mão sobre a minha calça.
- Rafael, eu só quero um beijo... se fizermos alguma outra coisa, vai ser muito ruim e eu não tô
afim!!!
- Tudo bem Jeferson.
Nos beijamos mais um pouco e ele voltou a passar a mão na minha calça, porém notando que eu
realmente não queria, disse:
- Tudo bem né?! Você não quer nada... eu paro.
Então ele passou suas mãos sobre meu peito por debaixo de minha camiseta e por debaixo de sua
blusa fiz o mesmo, porém, com uma mão segurava a pasta do colégio e com a outra passava por
suas costas.
- Aqui é um lugar muito publico, apesar da chuvinha, pode ter algum guarda florestal por aí.
- Pode ser, mas é meio difícil Rafael.
- Acho melhor irmos embora.
- Tudo bem.
Saímos de lá com cuidado, e seguimos para o ponto de ônibus, onde uma garota me
cumprimentou, sorrindo claramente num aspecto de atração; fiz o mesmo. Vendo-o, ele não gostou
muito do que eu tinha acabado de fazer e no final, mal nos cumprimentamos ao se despedir. À
noite, me senti muito angustiado, mal conseguia me tocar, minhas pernas tinham de ficar
separadas por um edredom e eu, de forma alguma, conseguia me olhar no espelho.
Na segunda-feira enviei uma mensagem dizendo que adorei o que fizemos naquela quinta do
feriado, antecipando já que eu queria namorar com ele, querendo saber quais as pretensões dele.
Ele respondeu-me que naquele momento ele não poderia assumir nada, pois tinha algumas outras
prioridades para fazer, e que namorar iria ser meio complicado.
Continuamos a conversar por emails e as vezes por telefone, porém depois de algum tempo, por
fim, tudo acabou... Nunca mais nos vimos.
Capítulo Dois

Começou então uma espécie de "temporada" para se conhecer gente nova pela Internet. Depois
do Rafael, conheci mais duas pessoas, um amigo muito antigo dos "chats" e um cara chamado
Anderson, no qual, não obtive nenhum interesse e ficamos apenas como amigos. Algumas
semanas depois, já em Dezembro, conheci o Pedro Henrique, um garoto bonito, loiros de olhos
verdes, trabalhava num hospital e tinha 20 anos. Antes de conhecê-lo tive alguns sonhos muito
estranhos. Desde então comecei a achar que sonhos poderiam mesmo se transformar em
realidade.
Estava vendo um jogo de vôlei masculino, na plataforma superior do lugar onde eu estava
esperando por alguns 30 minutos ele chegar. Tínhamos marcado de nos conhecermos e como
sempre, eu estava suando frio, tremendo, me indagando o que ele iria achar de mim. Lia e relia em
meus pensamentos, todos os meus defeitos, e isso me deixava ainda mais angustiado. Aquela
situação, de certo modo, me torturava. Quando olhei para trás, lá estava ele, encostado no
corrimão, dando a impressão de como se ele estivesse parado ali por horas.
- Olá Jeferson?
- Oie Henrique. Nossa, você demorou né? (Falei com um sorriso, e vi seus olhos brilharem).
- É, saí atrasado do Hospital e tive de fazer milagre para poder tomar um banho. Vamos dar
uma volta?
- Claro...
- Antes, deixe-me comprar algo para bebermos...
- Tranqüilo.
Pedi uma Pepsi sem gelo e ele uma Coca-cola bem gelada. Ele estranhou o meu pedido e
comentou que aquilo parecia tinha gosto de xarope puro.
- Nossa... Eu sou meio louco mesmo. Adoro Pepsi, ainda mais sem gelo e se possível sem gás.
Rimos.
- E então Jeferson, imaginou que eu era assim mesmo?
- Mais ou menos, é meio complicado ficar idealizando pessoas...
- E então, gostou de mim?
- Claro...
- Você é um cara muito bonito.
- Hehehe, você também... Sabe, tive muitos fatores que me levaram a te conhecer com tamanha
intensidade!
- Serio Jeferson? Quando conversávamos por telefone, quase sentia sua boca, o seu abraço...
era muito bom...
- Que legal, eu também passei por esses sintomas.
Ficamos conversando horas sobre nossas famílias, nossos relacionamentos, sobre tudo. Chegou
um certo momento, onde estávamos sentado a um banco de praça e ele chegou, delicadamente, à
passar a mão sobre um dos meus joelhos. Dizia ele que eu tinha pernas muito bonitas. Eu tinha ido
conhecê-lo de calção e camiseta e ele de regata e calça estilo sarja.
- Posso te dar um beijo Jeferson?
- Acho que sim, mas aqui?, Neste lugar é muito complicado. Aqui sinceramente, não posso...
- Vamos até um lugar que eu conheço, é mais reservado.
Andamos quatro quadras acima de onde estávamos.
O lugar não era tão reservado assim, mas pudemos tocar nossos lábios num beijo, um tanto
estranho no que, em vez dele usar os lábios, usava mais a língua para beijar. Essa forma estranha
de beijar me deu uma sensação de incomodo. Saímos dali e cada um foi para sua casa, de onde
ligamos um para o outro e conversamos a noite a dentro sobre esses momentos, menos na hora
do beijo, que achei chato falar.

No outro dia, por telefone...


- Oi Henrique.
- Olá Jeferson, tudo bem?
- Tudo e com você?
- Melhor agora, hehehe... vamos para algum lugar? Tipo um shopping ou coisa assim?
- Claro, tô precisando sair um pouco...
- Beleza então. Te encontro lá as 19:00. Pode ser?
- Para mim, tudo bem.
Entramos no shopping e ele comprou dois ingressos para irmos ao cinema. Briguei ironicamente
com ele, pois tinha pago o meu ingresso também, coisa que não gosto que façam comigo, ainda
mais um cara. Isso me dava uma sensação de tola submissão com uma mistura de certo ou errado
a ser um cara diferente de todos os outros garotos daquele lugar. Ele riu e falou que na próxima,
quem pagava era eu. Mesmo não gostado do ato dele, entramos para assistir o filme.
Lá dentro, ele pegou em minha mão dizendo:
- Posso?
- Pode... mas, toma cuidado.
- Com o que?
- Se me virem assim, não sei o que vou fazer.
Estava com um medo enorme de que me vissem de mãos dadas com um cara, naquele escurinho,
onde nem direito escuro estava.
- Não se preocupe, farei com que nossas mãos fiquem abaixadas.
- Sabe, você é cara muito especial. Gosto de você.
- Você também Jeferson, e chego até a sonhar com um monte de planos para nós dois.
- Que bom. (pensei comigo: -"Que planos? De casar? Credo, nunca.")
Terminamos a sessão do cinema quase abraçados. Ele insistiu para irmos à casa de um amigo,
que morava próximo dali, pois ele tinha de pegar alguns materiais lá sem falta, porém com receio
de que pudesse acontecer coisas mais complexas, resolvi ir direto embora.

No outro dia, minha mãe tinha dito que iria para a praia passar uns dias descansando, no que
levou consigo meu irmão e meu pai. Como eu estava trabalhando em plantão de sábado e
domingo, tive de ficar sozinho.
- Cara, onde você está? (liguei para ele do terminal, mais ou menos umas 19:30).
- Acabei de chegar do Hospital, por quê?
- Quer ir lá em casa? Meu pais viajaram e estou sozinho...
- Claro, seria legal.
- Bom, comprei pizza e Pepsi para bebermos, que horas você vai poder estar lá?
- Vou tomar um banho e por volta das 21:30 eu chego. Ok?
- Estarei esperando então, 21:30 ok! Um beijo enorme.
- Milhões de outros... hehehe
- Até daqui a pouco, Henrique.
- Até.
Fiquei até as 22:00 esperando com uma tola raiva desse atraso, porém quando ele veio, deu-me
um super beijo o qual fez-me esquecer da toda a demora.
Apresentei minha casa para ele, e sentamos no sofá, abraçados. Eu já tinha comido metade da
pizza e tomado metade da pepsi. Ele não quis comer.
Ficamos por alguns minutos assistindo TV juntos e em meio a beijos e amassos, ele tirou minha
camiseta. Beijando com muita intensidade minha barriga e meu peito, ele dizia ter adorado meu
abdômen, e que a cada momento gostava mais de mim, resolvi então tirar a sua camiseta também.
Ficamos nos beijando por vários minutos, numa forma excitante de "namoro". Eu, deitado sobre
ele, no sofá maior, sentia que toda essa loucura tinha sido realmente excitante e que a cada
momento estava ficando mais quente. Ele resolveu querer tirar meu cinto, dando a nítida
impressão que logo viria a calça e o resto.
- Nossa cara, esse é nosso primeiro encontro. Não acho legal passar dos limites normais. Sabe,
quero muito é poder ficar assim, namorando contigo!
- Eu quero tanto você que também quero te sentir.
- Melhor não Henrique, vamos ficar assim. Estou adorando.
- Sabe, eu tô adorando muito isso, mas também quero sentir seu corpo.
- Como eu disse, estamos namorando e é o que vamos continuar fazendo, Tudo bem?
- Claro Jeferson, se você acha isso promíscuo, tudo bem!
Meu estado normal começou a me alterar. Mesmo continuando nesse clima, não achava justo com
ele fazer todo esse papel, mas também não me achava preparado para o que poderia acontecer.
Queria um cara que respeitasse meus momentos e sentimentos, respeitasse o meu jeito e que
pudesse tentar me compreender.
Ficamos assim até enjoarmos foi quando ele resolveu ir embora. Como eu estava sozinho em
casa, de forma surpresa pedi para que ele dormisse comigo. Na minha cabeça, ainda tão infantil
sobre qualquer fato de estar com um outro cara, pensava que podíamos apenas dormir e, como
dois namorados normais, não fazermos nada de errado. Fomos deitar, ambos de calças jeans.
- Cara, não sei quanto a você, mas eu não consigo dormir de calça. Vou tirá-la, tudo bem?
- Humm... Tá bom...
Não demorou muito eu também tirei a minha, porém coloquei meu pijama. Um shorts meio curto
com uma camiseta de manga comprida. Era meu pijama predileto para dormir, e eu subentendia
apenas que iríamos dormir sem que rolasse algo mais quente, engano meu!
Começamos a nos sentir, abraçados e ainda com aquela euforia, nos despimos completamente.
Ele resolveu beijar novamente meu peito, descendo até minha barriga... Essa sensação era de
forma tão especial que eu suspirava a cada beijo. Sentei-me na cama, e num brusco movimento,
fiquei numa posição inversa a ele. Não transamos, mas brincamos com os nossos corpos, como se
num aquário de ar, tivéssemos todo o espaço só para nós. Lá fora, a lua, numa mistura de brilho,
luz e força, ultrapassava a fina cortina do meu quarto deixando o ambiente ainda mais bonito.
Após, termos encontrado o céu, com suas nuvens eu fui tomar um banho. Ele, parado na porta do
banheiro, ficou me olhando tomar banho, coisa que tenho uma vergonha ao extremo que façam
comigo.
- Quer entrar Henrique?
- Não, eu estou bem assim...
- Por que você fica me olhando assim?
- Gosto de você!
- Sabe, eu não gosto nada do meu corpo. Tenho mó vergonha de ir a praia sem camisa,
acredita?
- Bobeiras de sua cabeça. Você tem um corpo muito bonitinho.
Tomei meu banho super rápido, enxuguei-me e voltei a deitar em seus braços. Ficamos
conversamos por mais algum tempo.
- Isso é uma coisa normal Jeferson, não quero que fique bravo comigo.
- Foi legal... Mas eu queria apenas ter namorado contigo...
Naquele momento o que eu queria era não ter de passar por essa sensação, por mim conhecida
como a de "pós-gozo" que, de forma estranha faz revoltar-me comigo mesmo, e faz querer odiar-
me por tudo o que eu mesmo fiz. Finalmente dormimos ao som de Madonna.
Capítulo Três

Era noite de natal e ainda estava em casa sozinho, sem ninguém para me incomodar. Convidei o
Henrique para novamente passar a noite comigo. Aconteceu a mesma coisa que na primeira noite,
porém, em vez de ficarmos no meu quarto, eu trouxe meu colchão até a sala, e próximos ao som,
ficamos meio que conversando, se beijando e namorando. Ora estávamos completamente nus, ora
eu cortava todo o embalo dele, vestindo-me para dormir, porém isso não demorava muito, pois ele
voltava a tirar toda minha roupa. Não transamos em nenhuma noite, pois não me compreendia
estar com um cara, na minha casa, fazendo todas aquelas coisas. Seu perfume, nas manhas eram
deixados sobre minhas roupas, no que não me deixavam esquecê-lo. Algumas vezes, isso me
dava uma raiva tão forte, que sentia o desejo de tirar-me a vida. Nunca fiz isso, pois sei a
conseqüência que isso traz e toda a ideologia que provoca uma morte ocorrida através de um
suicídio.
Ao som de Backstreet Boys, comecei a me indagar e indignar com tudo o que estava acontecendo.
Imagens daquele garoto perfeito, sempre o orgulhos dos pais, me pressionavam psicologicamente.
Algumas lágrimas caíram, e meu comportamento mudou radicalmente com ele.
- Cara, você é muito estranho. Muda da água para o vinho sabia?
- Será que o que estou fazendo, é certo?
- Claro que sim.
- Sabe, nunca tive amigos, nem mesmo, nunca meus pais me deixaram namorar com alguma
garota. Tudo isso parece um pecado mortal. Não consigo expressar tudo o que quero dizer, e
estou com medo.
- Capaz Jeferson, se quiser eu vou embora.
- Não, é tarde... ir embora não vai ajudar, prefiro que você fique. (Afinal, fui eu quem o convidei,
e não sentia ser justo ele ir embora quase as 3 da manhã.)
Ele, passou a mão sobre meus olhos, vendo se eu estava chorando - num jeito soberbo - virou-se
para o outro lado. Fiquei olhando para o escuro do quarto me destruindo mentalmente.
Após alguns longos minutos ele voltou a abraçar-me e assim, dormimos...

Passado algum tempo, ele foi a uma viagem para a Ilha do Mel. Eu não quis ir por razões que
ainda minha cabeça estava confusa. Quando ele chegou, disse-me que sentiu muito a minha falta,
e que aconteceu um monte de problemas como brigas com seus amigos, descobertas de fofocas,
etc. Saímos juntos para ir ao cinema e ao ver o filme, ficamos de mãos dadas apenas algumas
vezes, e nenhum beijo rolou no escuro.
- Cara, eu tô muito chato hoje né? Essa viagem não me fez nada bem. Descobri que meu
melhor amigo era também meu pior inimigo. E estou com uma raiva sobre isso e o pior de tudo
é que estou sentindo que você está se chateando com todos esses problemas que estou te
falando né?
- Capaz, acho que o problema sou eu.
- Sabe Jeferson, Eu queria muito te dar um beijo.
- Que bom.
Eu não estava com a menor vontade de beija-lo, minha única vontade era de acabar com aquele
namoro onde não estava me sentindo nada bem. Eu já mal conseguia olhar em seus olhos, quanto
mais beija-lo.
- Sabe Henrique, estou meio que cheio de "neuras" com relação ao nosso namoro.
- Jefer, não tenha medo, saiba que eu gosto muito de você e te quero comigo.
- Eu sei que você gosta muito de mim, mas...
Ele me interrompeu dizendo:
- Mas, deixe o tempo falar... as coisas vão melhorar tanto para o meu lado, quanto para o seu.
Será que eu poderia te dar um beijo?
- Sabe, E não tô muito afim. Vamos deixar para amanhã, beleza? Assim, a gente se encontra
num lugar mais reservado e podemos namorar melhor. Acho que vou embora agora, tudo
bem?
- Mas já?
- Tenho algumas coisas para resolver lá em casa, e acho que já vou. Eu ligo para você assim
que chegar em casa, pode ser?
- Tudo bem Jefer, e foi mal eu estar sendo chato com você... Cara, eu gosto de você prá
caramba.
- É, eu também...
Fui embora meio revoltado comigo mesmo, por não ter acabado todo nosso relacionamento
naquele momento. No caminho para casa, conheci no ônibus duas meninas. Elas chegaram de um
jeito diferente, e em uma delas, aquele jeito "teen" me chamou a atenção. Seu nome era Cláudia, e
antes que eu chegasse em casa, fui parar num outro terminal, onde acabei ficando com ela. Foi
uma tarde muito diferente. Ao mesmo tempo que eu queria ficar sozinho, sempre me aparecia algo
de novo. Trocamos telefones, mas nunca liguei e nem mesmo ela me ligou.

No passar de dois dias, finalmente eu enviei um email acabando com a nossa relação. Ele,
ironicamente me mandou a tradução da música "Good Bye" da Madonna por e-mail confirmando
que nosso relacionamento, havia mesmo terminado. Depois de algumas semanas eu envie para
ele, por correio, seus CD's que ficaram comigo. Apesar de sentir uma vontade de encontrar com
ele uma última vez, achamos melhor não nos vermos, e assim acabou acontecendo. Nunca mais
tivemos contato. Esses momentos apenas ficaram na lembrança, que hora voltam a tona julgando-
me se fui imprudente ou sábio? Ou se poderia ser diferente se minha vida, sem amigos, sem
aquela conversa de desejos e vontades, ou qualquer forma de amplidão de pensamentos
ocorresse de maneira mais normal. Toda essa falta de aspectos comuns, de certa forma corroeram
minha visão de mundo.
Capítulo Quatro

Passei a conhecer mais gente da Internet e em todo esse tempo, acabei ficando com mais
algumas meninas da minha igreja, e uma, chamado Mônica, acabei tendo um namoro de
adolescentes. Durou não mais que algumas semanas, acabando de um jeito amigo porém, depois
disto, nunca mais nos vimos ou conversamos.
Meus relacionamentos, por minha complexidade de pensamentos, nunca passavam de algumas
semanas e sempre travavam uma batalha dentro do meu ser, querendo me encontrar e tentar ser
feliz.
Considero-me um garoto muito sonhador, idealista em quase tudo. Penso muito mais do que falo, e
por esse motivo, acabo sempre prejudicando quem está ao meu lado, e a mim mesmo,
desenhando pelo meu futuro, formas de mapear e ultrapassar obstáculos. Sempre procurando uma
pessoa certa, mas nunca ninguém sendo suficiente para mim. Já era final de Fevereiro de 2002, e
na virada do ano, prometi-me fazer de 2002 um ano muito intenso, tentando fazer valer cada
minuto vivido ser inesquecível. Pus como lema: "Viver cada dia como seu fosse o último, vivendo
todos os momentos, mais intensos". Passei alguns meses, em reorganização dos meus
pensamentos. Li 4 livros em 2 meses e meio, num, inclusive, recebido por e-mail, o qual me fez ver
e ampliar meus conceitos em relação a toda esse mundo de discriminações, dogmas hipócritas e
censuras tolas. Minha visão de vida mudou completamente e senti a força de lutar por um amor; de
amar fervorosamente e fazer loucuras de vida para ser feliz.

Com toda essa vontade reprimida, resolvi eclodi-la loucamente. Conheci um garoto de São Paulo
através de fotos e resolvi viajar para conhece-lo pessoalmente. Decidi tudo isso numa sexta feira a
tarde, 12:45am estava embarcando para São Paulo. Inventei uma história muito louca para minha
mãe, e como tenho parentes por lá, resolvi botar lenha nessa fogueira de "viver-se intensamente,
cada minuto."

Diário

Hoje foi um dia bastante cansativo. Voltei agora do Shopping e estava com o Ricardo. Ele
até que é legal.
Sabe, têm acontecido muitas coisas na minha vida e quero que algumas delas, dêem
certo. O Robson é uma delas, pois quero ele. Bom, contei a ele segunda-feira que eu gostava de
"meninos e meninas" e engraçado - não sei se foi impressão minha - mas ele pode estar gostando
de mim. Sabe por quê? É que ele tem ficado mais meu amigo depois disso; agora mesmo estava
falando com ele. Acho ele super gatinho e já o imaginei antes como um namorado meu, porém
hoje me sinto um pouco sem razão para isso, pois ele é meu amigo né...
Ele tem mandado me altos emails, me ligado, mandado mensagem para meu celular e,
apesar de ser bem pouca essa expressão, sei que posso me iludir que ele possa ser meu.
Faz uma semana exatamente que fui para São Paulo. Fui conhecer um “carinha” chamado
Paulo, o qual preferia nunca tê-lo conhecido, porém sem ele, não teria visto Deus. Pois é, acredito
em Deus... Sabe, ele me apresentou um cara chamado Luís Gustavo, ou melhor Guto; um cara
muito lindo, pena que estava com o Gui, seu namorado, entretanto lá foi muito legal, pois saímos
na noite de sábado e curti para caramba. Conheci o Guto neste momento, olhos azuis, cabelos
morenos raspados, uma pele linda, limpa, ombros suaves...
Ele estava de regata e pelo retrovisor do carro ficava me encarando. Muito lindo.
Fiquei muito impressionado com ele, pois fiquei pensando nele na viagem inteira de volta.
Pena que ele estava namorando já a 4 anos. Queria tê-lo conhecido antes!!!
Bom, sobre o Paulo, nem sei se vale a pena contar. Cheguei em Sampa e fiquei esperando
por quase uma hora, já na rodoviária. Foi quando ele me ligou e nos encontramos. Ele estava com
uma jaqueta azul e uma camisa branca. Um cara magro, da minha altura, de óculos. Não gostei
dele. (Como dizem: - A primeira impressão é que fica!)
Fomos pegar o ônibus para ir à casa dele. No caminho, ele pegou em minha mão dentro
do expresso. Não tinha muita gente onde estávamos e eu comentei claramente que eu estava lá só
para conhecer um amigo. Sinceramente, não gostei e não queria ficar com ele, mas não deu certo.
Fomos de mãos dadas até quase a casa dele.
Chegando lá... (estou ouvindo Catedral, nem estou afim de falar sobre isso, mas fazer o
quê?) Bom, chegando lá ele já me pediu um beijo... eca! Tive de dar, pois estava na casa dele.
Nos agarramos, porem não passou disso. Fui, com insistência dele, tomar um banho
sozinho. Depois deitei um pouco. Ele veio e deitou-se comigo. Ficamos nos beijando até rolar algo
um pouco mais quente, mas não transamos. Depois eu quis tomar banho e ele insistiu em ir junto.
Eu falei não várias vezes mas não adiantou; tomamos banho juntos.... uuuuuuuuuuuuuuuui! Tenho
até vergonha de escrever.
Como eu estava na casa dele, tinha receio de ficar um clima chato e eu ter de ir para outro
lugar.
Tá! Foi super rápido o banho, voltei a deitar e acabei cochilando um pouco. Ficamos nos
beijando e eu com uma sensação muito ruim de querer dormir “muuuuito”. Estava querendo ir
embora no sábado mesmo por causa de tudo isso, foi quando o Gui chegou. Um cara não tão feio
porém, não do meu gosto. Ele até que bonitinho. Fiquei na minha. Ora o Paulo pegava na minha
mão e eu o rejeitava.
Eu e o Paulo apenas ficamos. Não houve, em todos os momentos que estávamos juntos,
algo mais complexo. Pelo menos ele me respeitou e isso, eu achei legal.
Resolvemos dar uma saída para ir ao Shopping (isso foi muito bom termos feito!)
Saímos e fomos a casa da Silmara, uma garota muito legal e bem louca, porém ela não
estava. Demos umas voltas na avenida esperando ela chegar e assim que ela chegou fomos para
uma lanchonete ótima. Lá, ela contou algumas loucas histórias de sua vida – “muito doida a muié” -
porém impressionante, interessante e super gente boa.
Tá! Passamos bom tempo juntos. Dando risada e conhecendo um pouco mais de cada um.
Estávamos eu, o Guilherme, o Paulo e a Silmara...
Fomos para a casa do Gui, ou melhor, para o apto dele e de sua mãe. Muito legal, ele tem
uma ótima classe.
Ficamos um pouco lá e, quando pensei que estávamos indo embora o Guto... um
verdadeiro Deus, estava nos esperando lá fora.
Saímos umas 8 ou 9 horas da noite. Ele estava num Ka bordo. Passamos na casa do
Paulo e eu me arrumei por completo. Enfim, fomos para a night.
Já no caminho, fomos comer cachorro quente primeiro. Foi legal, se o cachorro quente
dos paulistanos não fosse horrível. Eu comi um pedaço e joguei fora. Lá, já nos encarávamos.
Seus olhos eram muito lindos, perfeitos!!!
Fomos para a night de verdade agora e no caminho ficamos nos "secando" pelo retrovisor.
Ele dirigindo, com o Gui como co-passageiro, o Paulo atrás dele e eu atrás do Gui... (no banco de
trás, claro - hehehe)
Fomos até alguns bares. Vi algum velhos se beijando e achei bem cômico, engraçado e
meio nojento. Vários gatinhos. Andamos e andamos até achar algum lugar massa. Fomos na
Fan's, porem só tinha velhos. Fomos e ficamos num barzinho muito legal. Permanecemos cruzado
na mesa. Propositadamente? Eu olhando para o Guto intensamente e o mesmo dele para mim,
enquanto o Paulo ficava tentado chamar minha atenção. O Guto pegou um cigarro e eu pedi um à
ele para também fumar. (Pedi a ele se me vendia um - oh o tipo - hehehe, mas ele me deu.) Fumei
sem engasgar, pois era o segundo cigarro o qual fumava até o fim. Estava fazendo “Stáff” e disse
isso a eles. Acharam engraçado. O Paulo pegou um depois e queria que eu compartilhasse com
ele. Outro fora! Disse não, sendo um pouco grosso. Que cara chato!
Eu e o Guto combinamos de beber vodka com soda , gelo e limão. Ele disse dividir comigo.
“ - Humm” Muito bom. Tomamos juntos e claro, com alguns goles idiotas do Paulo.
Ao voltarmos para casa, sentei atrás do Guto e no meio da viagem, ele virou o retrovisor
para ficarmos nos olhando. (Acho que ele também gostou de mim!). Foi muito 10 e gostei muito
disso.
Ao chegarmos em casa, mal me despedi dele por causa do Gui.
Desde então fico aqui pensando nele...
Um gato muito lindo, e eu aqui. Mas acho não posso estragar o relacionamento do Gui com
ele. Quatro anos é muita responsabilidade, né!
Bom... acho que vou dormir.
No outro dia fui embora. Exato 13:00.
Resumindo, fui isso o que aconteceu. Queria poder falar um pouco de hoje, porém estou
com preguiça. Talvez outro dia.
Até mais
Jeferson - 27-04-02 - 22:47
Capítulo Cinco

Fazia sol. O dia era típico de Inverno, mas quem dera falar de uma cidade como Curitiba, onde o
tempo é similar ao meu ser. Indefinível e inesperado.
Comecei a namorar dia 10 de Maio com o Marcos. Foi bem interessante como nos conhecemos.
Através da velha e boa Internet (irônico falar "velha" em relação a essa ferramenta tão nova nesse
mundo moderno), com dois dias de envio contínuo de e-mails já ficamos muito amigos e no terceiro
dia nos conhecemos. Escolhi, como de comum, um shopping para nos encontrarmos. Nunca
conheci alguém de noite, pois isso seria meio imprudente da minha parte, mas para ele, abri uma
exceção. Combinamos depois da minha última aula da faculdade, as 22:45 na frente do Shopping
Estação. Saí da faculdade louco para conhece-lo, cheguei 30 minutos adiantado, e ele, 10 minutos
atrasados do horário combinado.
- E dae Marcos?
- Oi Jeferson, tudo bem?
- Tudo e com você?
- Tudo bem...
Silêncio por alguns instantes...
- E então, vamos dar uma volta pelo shopping, ele fecha daqui uma hora e meia mesmo?
- Claro que sim!
Fomos até a praça de alimentação para conversarmos.
- E então...?
Sorrimos.
- Estava tentando mandar uma mensagem para você pelo celular bem na hora que você
chegou...
- Foi mal a demora...
- Nossa, eu estava vindo na rua imaginando como você era... Todos pareciam com suas
características.
- Hehehe, eu também tentei te imaginar, fiquei pensando em você a dia todo, mas que bom que
finalmente nos encontramos né?
- Aham. Sabe, achei interessante, talvez um pouco premedita você me dizer: "Eu me garanto"
no sentido de ser o bonzão.
Ele sorriu.
- Pois é, eu me garanto pois considero todas as minhas qualidades muito boas. Nunca
decepcionei ninguém...
- Nossa, eu não tenho tanta confiança assim no que sou, não me sentiria convicto em dizer "Eu
me garanto"...
- Pois devia.
- Hehehe, capaz...
Primeiramente, eu não o achei bonito, tanto é que ele tinha dito em seus emails que se garantia,
coisa que me criou um certo impacto ao vê-lo. Na minha mente, gerou toda uma imagem dele que
na hora me gelou estranhamente. Ficamos conversando por mais alguns minutos e ele me
convidou para darmos uma volta de carro. Eu não queria, mas como estava querendo curtir algo
emocionante, aceitei. Fomos num parque.
" - Estranho, logo no primeiro encontro irmos a um parque. Acho que sou louco em fazer isso... já
pensou se acontece algo mais perigoso?" - pensei comigo.
Ficamos num lugar muito legal, em frente a um lago, onde o céu, cheio de nuvens, misturando-se
com grandes edifícios, criava um clima todo diferente.
- É né, logo no primeiro encontro e você me trás para um parque, no escuro e de noite.
- Hehehe, você acha que tenho cara de ser perigoso?
Ele era menor do que eu, e por esse motivo, eu me "garantia" em poder correr um risco de
seqüestro ou qualquer derivado de uma ação como a minha.
- Não, pois não vejo isso em seus olhos.... Sabe, aqui aconteceu o meu primeiro beijo com o
cara que conheci da net.
- Sério? Coincidência mas acho que também foi aqui que eu também beijei um amigo pela
primeira vez.
- Que massa... e como foi o lance?
- Bom, ele era meu amigo e eu vim passar as férias na casa do pai dele. Passados algumas
semanas na casa dele, resolvemos sair de bike pelo bosque do Parque e no meio do passeio,
resolvemos nos masturbar porém ao final disso ele me pediu um beijo. Achei legal a idéia e
nos beijamos, porém não passou disso. Algum tempo depois minha mãe veio me contar que
ele tinha tornado-se homossexual.
- Nossa cara...
- Foi estranho minha mãe falar isso, sendo que eu o beijei...
- Pois é...
Ele olhando para minha mão, um pouco suada, num rápido movimento, pegou-a dizendo:
- Nossa... tua mão está suando né?
- Ahá... (Exclamei dizendo:) - Isso é só uma desculpa para pegar em minha mão, não é?
Rimos...
- Hummm...
- Hehehe, Essa eu já conheço essa cantada... só falta me pedir um beijo!?!
- Hummm... e por que não?
Olhei para ele, com um sorriso empolgado, toquei levemente seus lábios...
Estranho, mas ele não sabia beijar como as pessoas "normais" beijam, outra vez, exclamei
ironicamente, dizendo:
- Por que será que todo cara que beija outro cara, não beija de uma forma mais "normal"?
- Como assim Jeferson?
- Ah, vocês usam muita a língua, numa forma muito mais erótica. É estranho beijar alguém
assim...
- Hummm...
- Quase todos os garotos quem beijei, fizeram igual a você...
- Me ensine que eu aprendo!
- Quero ver.
Rimos e logo em seguida dei-lhe um outro beijo, porém agora sendo só com os lábios. Muito mais
gostoso.
Já era meio tarde e disse a ele para me deixar perto do centro, pois eu pegaria um taxi para ir
embora, no entanto, ele insistiu para me levava até em casa. Eu, um pouco relutando, aceitei.
Já em casa, recebi através do celular, algumas mensagens dele, onde dizia que tinha adorado me
conhecer. Achei tudo isso muito louco, legal e meio perigoso, porém, confesso de não ter-me
arrependido de tê-lo conhecido.
Capítulo Seis

Acordei no outro dia, com uma mensagem dele no meu celular. Respondendo-a fui trabalhar.
Conversamos por telefone em torno de uma hora e resolvemos nos encontrar novamente após
minha faculdade. Estávamos começando algo legal, porém esse algo me mostrava que nosso
relacionamento, seria certamente mais um, igual aos anteriores. Passamos a tarde inteira trocando
emails.

Liguei para o Robson, um amigo antigo da internet e conversamos sobre como estava a vida.
Minutos depois enviei a ele um email dizendo que eu realmente gostava dele, e que eu era
bissexual. Apesar do tempo que a gente se falava, mal nos conhecíamos inteiramente. Eu nunca
via o Robson como um cara com quem eu pudesse gostar, tanto é que eu sempre deixei bem claro
que minha relação com ele era estritamente amizade, pois sabia que se eu o tivesse como
namorado, não seriamos amigos normais. Mas no fundo de todos os meus desejos, ultrapassando
todos os meus riscos de perde-lo como amigo, resolvi contar que eu gostava muito dele. Ele, ao
contrário de tudo o que eu pensava, disse que tinha muita curiosidade nesse mundo, e seria
interessante conversarmos sobre esses assuntos. Minha vontade era de tê-lo junto comigo e
vivermos algo intenso, porém ele tinha namorada e de certa forma, não disse se era como eu.
Encaminhei um livro online para ele, o qual o contexto tinha muita haver com nós dois, onde os
personagens eram descritos de uma forma parecida com nossas fisionomias. O contexto era muito
forte, mas poderia me ajudar em algo com ele. Envie mais para que ele transpassasse os
personagens em um futuro relacionamento para nós dois.

Num domingo, antes de enviar o livro, falei com ele ao telefone:


- Oi Robson, tudo beleza?
- E dae Jeferson, tudo bem e com você?
- Mais ou menos, acho que estou meio deprê!
Rimos, pois sempre eu dizia que estava meio "deprê" com a vida.
Conversamos por um tempo (mais ou menos uma hora e meia, ou mais) e acabei entrando no
assunto.
- Pô cara, tem um livro muito legal... você gosta de ler?
- Mais ou menos, como é o livro?
- Ah... É meio complicado falar... tem um tema meio "estranho"?
- Tipo o quê?
- Humm... É um romance bem legal...
- Hamm... me manda?
- Eu? Melhor não, pois o tema é diferente... não é um livro assim "normal".
- Mas sobre o que é?
- Fala sobre um romance entre (respirei) dois (respirei um pouco mais demoradamente) dois
caras... mas tem mulher no meio!!!
- Legal... me manda!
- Melhor não, pois tem uma linguagem muito baixa e é um pouco, digo bastante erótico!
- Não faz mal, me manda!
- Melhor não... Vamos falar de outra coisa?!?
- Não, me mande o livro.... ou se não nem precisa ligar para mim amanhã!
- Credo. Bom, mas estou avisando, tem bastante erótico, promíscuo e meio vulgar!
- Tudo bem.
Fiz todo esse jogo para tentar deixa-lo realmente curioso e pedir o livro. Enviei na mesma hora e
durante a semana sempre falávamos de que capitulo ele estava no livro. Surpreendi-me quando
ele dizia que estava gostando e ainda tivemos momentos em que conversamos sobre estes
assuntos. A possibilidade de ficar com ele, estava se tornando mais real.

No faculdade, tinha alguns garotos da minha sala que eram bonitos, no entanto não se encaixavam
no meu perfil muito complexo. Tinha um garoto, o qual não sabia o nome, espécie de monitor das
salas, onde todo intervalo, eu ficava olhando para ele, num sentido de apreciar toda sua beleza e
juventude que apresentava. Mesmo já estando com o Marcos, meu namorado, me sentia ao
mesmo tempo um cara sem nenhum valor ou ideal, mas um sonhador em busca de alguma paixão
mais íntegra. Ele era um pouquinho mais baixo do que eu, com seus cabelos curtos e loiros, com
olhos numa tonalidade de castanho-esverdeados, ele era mesmo muito bonito na minha
perspectiva. Um frio na barriga me congelava o espirito quando nos olhávamos. O que eu sentia
por ele era algo inexplicável, mais que uma paixão momentânea. Seus olhos me faziam acreditar
que algo entre nós poderia acontecer. Engraçado como sou, um cara que está namorando e fica
querendo criar relacionamentos com outros garotos. Uma espécie de garoto promíscuo, ou pior...
Uma sensação ruim começou a tomar conta do meu ser.

- E dae Neto?
- Oi Cara...
- O que vamos fazer hoje?
- Sei lá...
- Você está com fome?
- Naum, mas tô com sede...
- A que horas você tem de estar em casa?
- Antes da meia-noite!
- Humm... e então, vamos aonde?
- No Mac?
- Beleza...
Eu e o Neto, ultimo nome do Marcos, após a faculdade, sempre nos encontrávamos e saíamos.
Fomos comer algo e ficamos conversando dentro do carro e namorando normalmente. Ao mesmo
tempo que eu achava ter encontrado um cara que pudesse ser meu real e satisfatório namorado,
meus pensamentos me mostravam outros rumos, principalmente com o cara da faculdade.
A caminho da lanchonete, lia as mensagens no celular dele, onde o seu ex-namorado mandava um
monte de "torpedos". Ele dizia que amava muito o Neto, e que até "comeria um caminhão de
merda" para ficar com ele. (Duvido mesmo, mas seria legal ver essa cena! - ironicamente, pensei
comigo). Nessa hora perguntei qual a posição do Neto em relação as fracassadas tentativas de
reconciliação com seu ex-namorado.
- Eu não tenho vontade alguma em voltar a ser o cara da vida dele, pois já tenho encontrado o
meu universo.
Nossa, nessa hora senti-me acorrentado ao Neto, minha vontade foi de dizer para ele voltar e
analisar bem a situação, já que o cara gosta tanto dele, por que não uma nova chance? porém
contive-me!
- Neto, quanto tempo você namorou com ele?
- Uns 9 meses e meio..., o primeiro cara fiquei 4 meses...
- Nossa... comigo, você é o cara que estou permanecendo mais tempo!
- Humm... como ele, vc vai ter de dobrar o tempo... Já que ele ficou o dobro do meu primeiro.
- "Tô ferrado!" – pensei comigo.
Ele me levou para casa e após uns 10 minutos duas mensagens no meu celular foram recebidas:
" Não podia partir sem te deixar com meus bons sonhos e meu te amo. Beijos."
" Estou com saudades, sonhe comigo. Te adoro demais meu universo, sabia? "
Respondi com um "Moxinho, bons sonhos vc também... te adoro muito, muitão, bastante,
bastantão. beijos."
Capítulo Sete

Final de semana chegou, e junto a ele, novas expectativas de curtir a vida da melhor forma. Sexta,
liguei para o Robson, e ele tinha acabado de terminar a leitura do livro.
- Oie... tudo bem cara?
- Legal... e com você?
- Tudo muito bom, ainda mais porque hoje é sexta né?
- Pois é...
- E dae, terminou o livro né?
- Sim, acredita que quando vi, estavam caindo lagrimas dos meus olhos... vou juntar tudo o que
tenho desse livro, pedir para encadernar e vou lê-lo mais vezes...
- É... eu só consegui lê-lo uma vez e quando tento ler novamente me dá um frio na barriga que
não me deixa continuar... uma sensação muito angustiante... Devo ser mesmo meio louco...
- Humm - Mas como está sua sexta?
- Super legal, espero que continue assim...
Conversamos por mais de uma hora, e quando ele desligou, liguei novamente apenas para dar um:
- boa tarde -, onde meus verdadeiros sentimentos queriam dizer: - Você não quer ficar comigo? -.
Apesar de ser um pouco crítico, resolvi ficar na minha. Sempre ficávamos entre 30 minutos à uma
hora no telefone, antes mesmo de ter conhecido o Neto. Naquela tarde, reli alguns capítulos
daquele livro e me imaginava estando com o Robson. Apesar de toda essa fantasia, meus
pensamentos me contradiziam em quem gostar? Por que não uma garota? Por que ter de ser
diferente de todo mundo? Algumas singelas lagrimas caíram naquele momento, e tentando me
concentrar no meu trabalho, não conseguia parar de pensar em viver algo totalmente intenso e
verdadeiro.

Era sábado e acordei tarde. Fiz uma faxina geral no meu quarto e na sala do computador, isso
levou quase até as 3:00 da tarde. A noite, eu e o Neto fomos na minha Igreja, numa união de
jovens. Foi legal pois o Neto disse que gostou muito e fez algumas novas amizades, depois saímos
para comermos pizza. Fomos à dois lugares, porém estavam cheios e como o pai do Neto não
estava em casa, decidimos pedir uma para viagem. Chegamos morrendo de fome, e como dois
namorados normais, nos servimos os pedaços um a boca do outro. Ficamos nos curtindo na sala
ouvindo Alanis, e pensando se iríamos na festa da faculdade dele ou não. Acabamos optando por
ficarmos e dormirmos juntos. Fomos para o quarto dele onde, apenas de camiseta ficamos
abraçados debaixo do edredom.
- Te adoro, te amo e te quero muito Jeferson...
- Eu também Neto.
- Sabia que você é meu sorriso. Eu te amo.
- Eu te adoro mais. Você é o meu sol...
Nessa noite perdi minha virgindade com garotos. Eu o tornei meu e ele tornou-me seu. Foi muito
bom e ele fez especial. A cada palavra, ou carinho que ele me fazia, trazia um estado momentâneo
de segurança. Ele era um quase perfeito romântico e me fazia sempre sorrir por estar ao seu lado.
Tomamos um banho juntos e dormimos abraçados. Na minha mente uma certa perturbação ao me
visualizar sobre o que eu estava fazendo, uma mistura de certo e errado, adicionado a ser
verdadeiro em amá-lo ou não. Era ao mesmo um momento tão mágico porém tão insuportável e
promíscuo.
Acordado de manhã, com alguns beijos de bom dia, novamente veio a vontade de transarmos.
Como havíamos vestidos nossas camisetas e cuecas, novamente tivemos de tirá-las. Como um
casal normal, sob a luz do sol que clareava seu quarto, e sob toda aquela mistura de prazer e
vontade de fazer meus momentos mais intensos, nos tornamos um só, fazendo o ambiente
transformar-se mais mágico. Tomei um banho rápido, pois seu pai poderia chegar a qualquer
momento e saímos em torno das 9:00 onde ele me deixou, a meu pedido, perto de casa.
Fui tomar café estando minha mãe e meu pai na cozinha.
- Então, Como foi a festa Jeferson?
(menti para minha mãe que tinha ido à uma festa de aniversário de uma amigo meu, da empresa e
posaria fora).
- O seu chefe estava lá?
- Foi legal e bem divertido, meu chefe tomou mó porre.
- E aonde você posou?
- Na casa de um amigo. Eu e mais um outro garoto.
- E a mãe dele não ficou brava com vocês?
- Que nada, uma senhora muito legal e animada. Nem parecia mãe dele.
(Falei assim para saber a reação dela, pois um dia, queria que ela também fosse assim).
- Humm... Você vai a igreja hoje?
- Não, já fui ontem, no grupo de jovens...
- Mas hoje tem um grupo de cantores sertanejos?
- Eu não tô afim de ir, talvez eu vá ao cinema...
- Hummm...
Minha relação com meus pais nunca foram muito boas, apesar de eu ser filho adotivo, sempre me
afastava deles tentando passar a impressão de que, se nos separássemos, eles não iriam sofrer
tanto quando descobrissem que eu era bissexual. Fui para o banheiro, e depois entrei no meu
quarto, “capotando” sobre a cama e adormecendo por várias horas...

Acordei na tarde de um domingo muito ensolarada e fui até minha avó para almoçar. As 4 da tarde,
o Neto veio me buscar para sairmos. Fomos até o shopping para assistir um filme da Britney, pois
sou meio que apaixonado por ela. A sessão iria demorar, e resolvemos dar uma volta nos
shoppings da região. Entre, cada ambiente que nos encontrávamos, eu ficava observando as
outras pessoas para tentar saber o quanto elas são ou não, felizes pois se no “daqui a pouco” a
morte chegasse, pudesse levá-las com a certeza de que viveram grandes momentos. Via também
alguns garotos, muito bonitos que passavam me encarando, como de certa forma, me chamando a
atenção. Sentia-me bem, em saber que eu estava com o meu namorado, em lugares tão públicos
mas que disfarçávamos tanto que o máximo diriam que éramos amigos normais. Entramos para
assistir o filme e minha intenção era de não perder nenhuma parte; fixar-me em todo o enredo da
história, contudo o Neto - entre as cenas - sempre queria um beijo, me dar pipoca na boca, agarrar
minha mão e eu sempre, tentando esquivar-me para que isso não acontecesse.
Saímos da sessão e fomos comer algo. Eu estava estranho pois não o olhava nos olhos e muito
menos, conversava com ele como um namorado. O filme, por conter uma história de amor entre
heterossexuais, deve ter me afetado.
- O que está acontecendo Jeferson?
- Não sei, acho que é o dia. O filme estava tão legal, mas sei lá, estou me sentindo um pouco
ruim.
- Por que teus olhos fogem dos meus?
- Não sei, não estou muito bem..., deve ser algumas “neuras”.
- Quer ir embora?
Fiquei quieto por alguns minutos
- Acho que sim..
Pensei comigo: “Quero ir, e se possível, sozinho!”
- Assim que você se levantar, a gente vai embora.
- Será que você ficaria bravo se eu fosse embora sozinho?
- Você acha que seria melhor?
Silêncio.
- Vamos até meu carro e no caminho você decide isso.
Fomos quietos até o carro, onde resolvi, a pedidos dele, me levar até em casa.
- Vamos até aonde nos conhecemos? Até o Parque, pode ser?
Ao chegarmos falei para darmos uma volta a pé pelo parque e sentados num banco abaixo de uma
árvore, cobertos por uma brilhante e intensa lua, por alguns longos minutos ficamos em silêncio.
- A lua está linda não, Neto?
- Ahamm... Eu amo a lua, ela sempre brilha mais quando peço isso a ela.
Mas um longo tempo se passou...
- O que você acha de mim Neto?
- Uma incógnita. Uma pessoa muito especial para mim. Te adoro muito e quero estar com você.
- Hummm, e o que você acha do nosso relacionamento?
- Nem sempre há respostas absolutamente corretas para todas as perguntas Jeferson...
- Sabe, acho que sou uma criança muito idiota. Não sei o que quero, nem por que estou aqui,
acho que conheço meu futuro, e penso demais sem agir muito.
- Eu sei que tudo isso é difícil, eu tive muitos problemas quando tive sua idade e consegui
superar quase todos, sozinho. Quero ajudar você no que você está passando cara...
Ele ficou falando mais uma monte de coisas enquanto eu estava longe, vendo o lago, as luzes, o
céu e suas estrelas... e tentando ver a lua. Não conseguia prestar muita atenção nele pois meus
pensamentos falavam mais altos que sua voz.
- Vamos embora Neto, não posso chegar muito tarde.
- Tudo bem.
Entramos no carro e fomos a caminho de casa.
O Marcos tinha 22 anos, e era um cara muito decidido, gostava de ser romântico e de acreditar que
toda a natureza girava em sua volta. Algumas vezes, seu egocentrismo me afetava, porém,
conhecia seu jeito e procurava aceita-lo do jeito que era. Ele começou a falar-me de seus
problemas e fatos que ocorreram em sua vida. Momentos onde ele parecia ser eu. De fato, eu via
que ele queria me ajudar, mas, ao mesmo tempo, a única coisa que eu mais queria, era poder
estar sozinho, meditar e estar com meus pensamentos.
- Sabe, eu me vejo como se eu estivesse voltando no tempo, como se você fosse eu, com os
mesmo pensamentos e problemas, eu tive muitos problemas, ainda mais por ser filho único.
Meu pai nem me imagina assim, e para me aceitar, tive de correr atrás e sempre ir além da
onde alguns nem conseguiram chegar...
Fiquei quieto na viagem inteira, apenas ouvindo e confrontando-o em pensamento com relação à
algumas coisas que ele dizia, as quais eu apenas olhava e dava uma boa “viajada” nos meus
conceitos.
Paramos o carro certa hora, onde ele e eu discutíamos sobre a vida dele. Voltamos a seguir o
caminho, ao meu pedido. Paramos umas 3 quadras de onde eu morava, pois ali, eu achava um
lugar mas reservado e melhor para se conversar.
- Jeferson, qual o verdadeiro problema com você?
- Sabe Neto, se eu te dissesse tudo o que está acontecendo comigo, você não compreenderia.
(Pensei muito em falar sobre o Robson e o garoto da faculdade, e sobre todos os meus críticos
pensamentos sobre essa relação homossexual).
- Por que você não tenta?
- Tenho medo de perder você. Acho que nem eu mesmo sei o que eu quero dizer, talvez seja
bobeira eu te contar algo, que nem mesmo eu sei se nos afetará posteriormente.
Ficamos por alguns segundos em silêncio.
- Sabe, o livro que te falei que li na Internet? Quem dera eu antes não tê-lo lido. Eu tinha planos
para que o Robson, aquele meu amigo antigo que te falei outro dia, e eu ficássemos juntos
antes de te conhecer. Achava que os personagens do livro pudessem ser claramente
transferidos para minha vida e, eu e ele pudéssemos viver como um livro. Acho que se eu
pedisse para ele ficar comigo hoje, ele ficaria
- Acho que você acabou de tirar o meu chão agora. (alguns segundos). Você o encontrou
durante o tempo que você está comigo?
- Não.
- Diga a verdade.
- Não.
- Pode falar Jeferson... Você o encontrou enquanto estava comigo?
(Pensei comigo, mesmo não tendo o encontrado nenhum dia, queria que ele soubesse o quanto eu
gostava do Robson.)
- No começo do nosso relacionamento, uma vez.
(Ficamos instantes sem se falar, e eu comecei a chorar.)
- E isso significa em torno de 9% de tudo o que tenho para te contar. Nem eu sei direito o que
quero.
Ele virou meu rosto e disse que estaria ao meu lado sendo meu amigo ou meu namorado.
- Vou embora Neto, a gente se fala melhor outro dia...
- Não, continue a contar o que significar esses 81% que falta, se você quer que eu te ajude,
precisa me ajudar, pois não quero te perder.
- Não sei, acho melhor eu ir embora Neto.
Não estava mais agüentando tanta confusão dentro da minha mente, eu chorava e ao mesmo
tempo me indignava por estar fazendo toda essa cena na frente de um homem. Eu insistia em
querer ir embora e ele, com seus braços me segurava dentro do carro. Falei a ele mais algumas
coisas, sobre que não sabia se ele era realmente o cara que eu queria ter, sobre a confusão de
todo esse relacionamento na minha cabeça, porém, foi algo apenas para ver se ele me deixava ir
embora. Queria muito que, quem eu realmente amava pudesse estar ao meu lado naquele
momento. A lua, de certa forma mágica, brincava no céu, escondendo-se das nuvens, e por
momentos coincidentes, parecia estar reagindo as minhas emoções. Saí do carro com uma
sensação de alívio, misturada a um intuito de perca do meu namorado. Fiquei por algumas horas,
sentado ao meio-fio, antes de entrar em casa. Esta noite, tive muitos sonhos, alguns recortes do
meu dia-a-dia, e alguns sinais do meu futuro, um pouco intuitivo para um garoto de 19 anos cheio
de problemas sentimentais.

Sob algumas mensagens no meu celular, e algumas conversas por telefone, voltamos a dar um
novo início ao nosso namoro no dia seguinte, e eu, nessa tentativa, procurava esquecer a noite
passada, implorando para que meu destino, o sol viesse novamente brilhar.
Capítulo Oito

Nos encontrávamos todos os dias, na maioria das vezes depois da faculdade. Sempre íamos no
cinema, ou comer algo, para poder ficarmos juntos.
- Oi Jeferson.
- Oi Neto, nem acredito, hoje é Dia dos Namorados né?!
- Pois é, essa é a primeira vez que passo o Dia dos Namorados com alguém.
- Humm... Acredita que eu também.
Sorrimos
- Jefer, coloque sua mão na porta do carro, tem uma coisa para você!!!
Quando coloquei a mão havia um pacotinho e quando abri era um presente muito legal, um
coração alado, todo vermelho. Dei um beijo nele e agradeci o presente, foi quando, de trás do
banco ele tirou um cartão enorme, e ainda depois me deu um Duende do Amor, e um livro. Eu
tinha comprado a ele um monte de coisas também, porém dei tudo de uma vez só e não em partes
como ele. Quando abri o presente, e vi que livro era, comecei a dar risada. Coincidentemente, era
o mesmo livro que eu dei a ele no meu embrulho de presentes. Rimos bastante. Fizemos, para
cada livro uma dedicatória.
- Adorei o bonequinho que você me deu Jeferson.
- Legal né? Coloque o nome dele de “Pipoca”!
- Hehehe, legal, colocarei sim e você gostou dos meus presentes?
- Claro, adorei muito, tudo muito legal, principalmente o livro.
Rimos.
- Vamos aonde?
- Sei lá? Que tal comermos alguma coisa no Karina? Faz tempo que não vou lá.
- Claro... Também faz tempo que não vou lá.
Chegamos no lugar, duas horas para ser atendido e mais três para pagar. Saímos de lá, com
vontade de nunca mais voltar. Aquela noite foi muito legal pois namoramos bastante, conversamos
e ficamos olhando as estrelas e a lua que, naquela noite se fazia presente naquele céu de tão azul
profundo.
Cheguei em casa, escondendo todos os presentes, entrei até o meu quarto e sem muito barulho,
escondi todos dentro da gaveta da cama. Minha mãe viu o carro saindo e perguntou quem era.
Disse a ela que era minha namorada, mas acho que ela desconfiou, e muito.
Nesse ponto, eu tenho certeza que minha mãe sabe que gosto de garotos, porém ela omite tudo
isso, e finge que não é com ela. São, em alguns momentos como esses, que tenho vontade de
contar tudo a ela, e deixar que tudo se resolva por si só, porém, não me vem a coragem que
necessito para que tudo isso realmente ocorra. Minha relação com os meus pais, nunca foi boa. Eu
sempre fui o orgulho deles, e eles nunca tiveram de se preocupar comigo. Acho que, se houvesse
algum dialogo em casa, ou pelo menos, minha mãe não me tivesse proibido de namorar com
garotas até os meus dezoito anos, tudo poderia ser diferente. Meu pai, nem sabe qual a minha
idade, muito menos o que se passa comigo. Chego a ficar pensando onde estão meus pais
verdadeiros e o que estão fazendo. Se, meu pai tiver a mesma personalidade que a minha, com
certeza estarão vivendo muito bem, em algum lugar por aí.
Sabe, todos estes problemas, de homossexualidade, de ser adotivo e prisioneiro em casa, de ficar
querendo ser o melhor, mesmo não sendo feliz com o que faz e de ser o filho orgulho da família
que nunca teve um membro gay, me distorcem e torturam minha ilusão e realidade em todos os
meus pontos psicológicos. Ser o que realmente sou, e me aceitar com isso, certamente será um
preço muito alto a ser pago.

Eu e o Neto, realizávamos muitas coisas, e ele tinha muitos planos para ainda fazermos no futuro.
Quase todos os dias sonhávamos um com o outro, e essa magia de amar, e estar sendo amado se
transformava cada vez num sentimento mais verdadeiro para ele. Eu, muitas vezes, queria fazer
tudo o que ele me fazia, mas não conseguia sentir tanto amor quanto ele me passava. Ficava, nas
madrugadas sem sonhos, meditando em tudo o que eu estava fazendo. Tinha a certeza de que ele
não era a pessoa certa para mim, e eu estava cada dia sentindo menos amor por ele. Apesar dele
ser, um cara muito especial, não conseguia vê-lo como um namorado, e sim como um amigo
distante. Eu ficava imaginando se realmente seria feliz com os garotos que me cercavam, caras
mais jovens do que eu, e dessa forma, me afastava muito mais de realmente amar o Neto. O
engraçado era que a qualquer coisa que eu visse, ou ouvisse, era sempre no sentido de “arriscar
pelo seu amor” ou, “enquanto não encontramos a pessoa certa, nos divertimos com as erradas”.
Tudo estava tornando-se mais difícil, e a realidade estava mudando. Estar com quem eu não
quero, era estar perdendo meu tempo em querer viver com quem eu realmente sentisse desejo de
estar junto. Tudo isso ia contra ao meu propósito de viver a vida intensamente, na forma mais
adolescente e louca de se sentir vivo.

Nosso namoro durou até o dia 17 do mês de Junho. Terminei com uma simples frase, a qual,
demonstrou tudo o que eu queria passar.
- Neto, o que você acha do nosso relacionamento?
- Você sabe que eu gosto muito de você, e quero ter você comigo. Eu amo você e quero estar
junto em todos os momentos. No meu ponto de vista, nosso relacionamento é normal com
seus altos e baixos. Eu acho nosso relacionamento muito legal.
- Eu vejo nosso relacionamento com duas velas (respirei fundo) porém, acho que uma delas
está se apagando.
Ele me olhou fixamente, e sentindo todo o clima que estava começando a acontecer, levantou-se
foi até o carro. Pegou minha blusa e uma bexiga em forma de coração e olhando nos meus olhos,
disse:
- Saiba bem o que você está dizendo. Você não sabe o que está perdendo. Pensa com carinho
nisso.
Essa forma com que ele tratava a si mesmo, e ao nosso relacionamento, eu me continha em não
dizer o tão prepotente ele se passava ser. Sempre dizendo que eu me arrependeria por toda a vida
se o perdesse, que ele era o meu céu, o meu destino, que ele era muito mais do que eu poderia
imaginar, que a lua e as estrelas eram apenas dele, e o sol, quando aparecia, era por que ele
deixou que aparecesse.
Procurava não ligar para esses comentários, mais isso se acumulava de tal forma que, eu sempre
entendia como um estilo dele viver com confiança no que realizava. Muito prepotente, mas ao
mesmo tempo, um cara muito especial na minha vida. No dia seguinte, um domingo, liguei para ele
para andarmos de bike sem destino. Ele, surpreendeu-se com minha ligação já no dia seguinte
pois achou que eu demoraria a ligar porque no dia anterior, ele saiu com seu carro, de uma forma
muito violenta, e me pediu desculpas por ter agido dessa forma. Ficamos, perto de minha casa,
conversando sobre algumas coisas da nossa relação e por fim decidimos tornarmos simplesmente
amigos.
Capítulo Nove

Saí num domingo com meus pensamentos perdidos em querer encontrar o Murilo, o cara lá da
minha faculdade. Sobre ele, foi onde, de certa forma eu mais me arrisquei.
Andando de um lado para o outro, estávamos apenas eu e a professora na sala pois era intervalo,
quando ao ver ela saindo, gritei:
- Professora? Professora?
- Diga Jeferson.
Ela era professora de recursos humanos, e sempre nos motivava a enfrentarmos a vida, optando
por diversos pontos-de-vista diferentes.
- Diga-me uma coisa. Você se arriscaria por alguém?
- Analisaria bem antes a questão. Depende de quem for esse alguém!
- Bom, se você achasse que esse alguém pudesse ser o amor de sua vida, você se arriscaria
por ele?
- Se isso não me levasse a morte, sim.
Entre mais algumas perguntas e respostas saí da sala, disposto a conseguir o email daquele
garoto que eu sempre ficava olhando nos intervalos. Ele já não trabalhava mais lá, porém eu sabia
que poderia pegar pelo menos o e-mail ou o nome dele no cadastro do Colégio.
- Oi, tudo bem? Você sabe me dizer o email daquele garoto que trabalhava aqui?
- O Murilo? Deixe-me ver...
“Murilo.... que nome legal, espero que ele não me pergunte para que eu quero o email.” – Pensei
comigo.
Eu não sabia nada sobre o Murilo, nem o nome, pois nunca houve coragem para conversarmos.
- Vocês tocam violão? (Olhei para a parede onde tinha dois violões pendurados.)
- É, a gente “arranha” um pouco. Eu toco num grupo com mais três caras, por quê? Você toca?
- Ahamm... toco guitarra e piano já fazem algum tempo.
- Sério? Pô cara, nosso grupo tá faltando um. Se quiser, poderíamos fazer um teste ae... se
você quiser tocar com a gente.
- Nossa, maneiro... Seria muito legal mesmo.
Ele me passou o email do Murilo, e num mesmo instante tirou um violão da parede.
- Entra ae... O que você gosta de tocar?
- Ah, sei lá... mas toco bastante Capital Inicial, Cassia Eller, Legião Urbana, Marina Lima, etc. Eu
gosto bastante de pop internacional e pop rock nacional.
- Legal, é mais ou menos o estilo da nossa banda.
Peguei o violão, já sentado a uma cadeira, e comecei a dedilhar Red Hot Chilli Pepers... pelo rosto
dele, ele gostou.
- Bom, eu não posso me demorar muito, tenho que voltar para a aula.
- Claro.
- Passa seu email, ou ICQ para mim, para mantermos algum contato...
- Claro, está aqui.
- Legal. A gente se fala depois, ok?
- Tudo bem... Até mais.
- Até.
Saí daquela sala sentindo-me muito feliz, pois tudo estava indo de uma forma tão diferente. Além
de estar com o e-mail do Murilo, poderia fazer parte de uma banda para tocar. Muito show.
Cheguei na sala já quase na última aula, e logo agradeci a professora por ter me dado certa
motivação para correr atrás do que eu estava querendo. Ela sorriu, e ao final da aula, falou sobre a
importância de corrermos riscos.
Logo a noite enviei um email para o Murilo, falando sobre mim e pedindo para nos conhecermos.
No outro dia, chegando no trabalho, logo que abri o ICQ, com muita sorte localizei seu número
através do seu login de e-mail. Passaram-se alguns minutos e logo apareceu uma janela na tela do
meu computador informando:
<Murilo>: Quem é você?
Meu corpo todo tremeu. Não sabia o que fazer, ou escrever. Minhas mãos estavam tremendo tanto
que mal consegui escrever:
- “Oi... eu sou o cara lá do Opet, não sei se você se lembra...”
O telefone começou a tocar, tinha muita gente em volta, e eu só queria falar com ele... Poder dizer
pela primeira vez que eu gostava dele, e queria conhece-lo. O ambiente estava muito tenso, e
barulhento. Não sei se conseguiria passar o que eu realmente sentia. Não atendi o telefone, e de
forma prioritária continuei conversando com ele.
<Murilo>: Que cara?
<Jeferson>: Eu estudo lá a noite, lembra?
<Jeferson>: Você já viu seu email?!
<Murilo>: Email? Não tem nada no meu e-mail!
<Jeferson>: No seu e-mail do “bol.com.br”
<Murilo>: Não tenho email no bol.
<Jeferson>: Não sei se você se lembra, mas já nos vimos na Tribo e nas 10 pastéis do Curitiba!
<Murilo>: Aff, nem lembro... por quê?
<Jeferson>: Você trabalhou no Opet à noite né?!
<Murilo>: Aham...
<Jeferson>: Você lembra de um cara que ficava te olhando durante o intervalo?!
<Murilo>: Putz! Lembro sim, por que é você?
Nesse momento não sabia o que escrever, mas tinha que ser rápido pois tinha gente por perto.
<Jeferson>: você não leu o email no bol mesmo?
<Murilo>: não tenho email no bol.
<Jeferson>: humm. Bom, eu queria falar contigo.
<Murilo>: Fala!
Pensava comigo: - “Por que ele está falando tão seco? Será que estou sendo um total idiota
fazendo isso? Mas, como devemos correr riscos... Não sei o que faço! Quero tanto que ele diga
que gosta de mim.”
<Jeferson> Sei lá... eu queria saber o que você achava de mim lá na faculdade.
<Jeferson>:você me achava um idiota parado no corredor?!
<Murilo>: é... digamos que sim...
Nesse momento, pensei em não escrever mais. Ele certamente não quer nada comigo.
<Murilo>: Por quê você ficava me encarando? Te fiz alguma coisa?
<Jeferson>: eu sei lá... mas acho estranho falar por ICQ, mas te achei diferente!
<Murilo>: Diferente? Como?
<Jeferson>: Então, eu sei lá o que digo, mas queria saber se você me acha “interessante”...
<Murilo>: ah? Como assim?
<Jeferson>: sei lá... É que eu considero você diferente de qualquer outra pessoa que já vi na vida.
Eu não sei bem explicar, mas a verdade é que eu gosto de você!
<Murilo>: eu? Diferente de qualquer outra pessoa? Vc gosta de mim? De fé meu. Não estou
entendendo.
Não entendia muito o que ele queria que eu fizesse. Falar com alguém que mal conhecemos é
muito estranho. Temos que ficar montando um quebra-cabeça de toda uma história e mais, parecia
que ele estava apenas se fazendo de desentendido. Mas continuei...
<Jeferson>: bom.. tipo assim... não sei direito como dizer.
<Jeferson>: você sabe quando uma pessoa gosta de outra pessoa... tipo, se sente atraído ou sei
lá... Então, Eu me sentia assim... quando você trabalhava lá.
<Murilo>: ai que foda... Agora não sente mais né? Ainda bem...
<Jeferson>: Não... se fosse assim não teria te procurado.
<Murilo>: Fol mal “brother”, mas o q você quer que eu faça?
<Jeferson> humm... eu sei que é foda o que vou te dizer mas você não queria ficar comigo?! Ou
melhor, você não gostaria de sair comigo qualquer dia?
<Murilo>: Ai cara... eu não tenho preconceito nem nada, mas acho q não curto a mesma coisa q
você.
Lembrei de tudo o que aconteceu, desde o momento que fui pegar o email com o Tiago lá na
faculdade. Pensei que não tinha o menor valor correr riscos. Sou um cara de pouca sorte mesmo...
Nem correndo atrás do que eu quero, consigo alguma coisa. Parei então de escrever, mas ele
continuou:
<Murilo>: Mas pô... vai ficar bravo?
<Jeferson>: capaz que vou ficar bravo! Acho que não, pelo menos eu tentei né?
<Jeferson>: sabe, eu segui um tal instinto... e arrisquei sem saber coisas que queria saber... mas
valeu a pena ter falado contigo. Sério mesmo. Pelo menos assim eu corri atras do que eu queria!!!
<Jeferson>: Acho que isso importa para alguma coisa! E você... por que saiu do Opet?

Conversamos muito; praticamente aquela tarde inteira através do ICQ... Ele se tornou um amigo
online e nos outros dias sempre falávamos algo. Eu, sempre na esperança que podíamos ficar
juntos mas, no final, ele sempre me dizia que era infelizmente, impossível. Não sei por que mas,
sempre quando ele me dizia isso, eu ficava com uma maior vontade de correr atrás dele e falar o
quanto eu gostava dele. Ao final de toda aquela conversa, imprimi tudo e acrescentei a seguinte
mensagem ao topo do meu documento:

“Cara, essa conversa foi o sonho que eu queira ter realizado... porém queria tê-lo visto,
encontrado-me em seus olhos.. mas talvez coragem me faltaria. Hoje, tive uma tarde muito boa,
passei com quem eu mais queira, só, apenas queria que ele tivesse aceito meu convite de ficar
comigo. Essa sensação que sobra em meu peito, é o que consola para amanhã... enfim
conversarmos de novo. Quero vê-lo o quanto antes. Seja no colégio, ou em qualquer outro lugar...
a lição de arriscar e perder essa tal timidez que me destrói, é a certeza de que em breve estarei
com quem eu quero, fazendo e vivendo do meu jeito. Sinto-me apaixonado por ele, mesmo não
sendo ele quem eu realmente vá amar.. essa conversa provou que realmente, arriscando e tendo
coragem de viver, é o que nos leva a sentirmos o gosto da verdadeira “loukura”, ou desse amor
incomensurável. Sinto, que estou mais perto de viver mais, de sorrir mais, de chorar mais, de ver o
sol se pôr...”

Capítulo Nove e Meio

Loucura, correr riscos e tentar ser feliz... Passo por um momento onde não sei o certo e o errado.
Não consigo ter motivação para fazer qualquer coisa. Passo os dias contando cada minuto que
estou perdendo sem ter ninguém... fico perdido em meus pensamentos, e não tenho mais a
certeza de que meu destino saberá o caminho, me perdi pela intuição e não sei se consigo tão
facilmente voltar de onde eu estava. Tenho sonhado com coisas tão intrigantes, entre algumas, me
faz sentir o medo de ser guiado nesse escuro. Fico a cada dia mais angustiado por não estar
vivendo esses momentos e a cada virada de dia, dos meus olhos caem lagrimas, onde vejo a
rapidez que o tempo passa, e indago-me por ter sido tão idiota por não ter aproveitado de tudo,
cada segundo.
Capítulo Dez

Sozinho, num sábado, em frente ao micro, querendo ter alguma “intensividade” para esta noite.
Assim, fico me torturando pelas coisas que estou perdendo. Sem emprego, sem namorado e quase
sem motivação para fazer alguma coisa, estou totalmente “pirando”.
Fico lendo e relendo meus documentos, minhas poesias, minhas músicas e tudo aquilo que me faz
lembrar de se viver um amor inesquecível. Ora, vou para o quarto tocar violão, ora para a garagem
dançar, ora para o computador de novo para ver algum novo email, ou alguém online no ICQ.
Sabe, ando pensando muito no que estou fazendo. Talvez algum planeta esteja se deslocando
para formar alguma coisa nos céus, e deve ser por isso que tudo está indo tão mal...
Fico a pensar em quantas pessoas não tem nem o privilégio de passar por todas estas coisa que
passo e fazer o que quero, poder usar uma roupa nova, só para ficar em casa. Amanhã posso
morrer mesmo.
Meus momentos perdidos, de certa forma poderiam ser preenchidos com quem eu quero, ou com
alguma atividade diferente, totalmente alucinante. Queria tanto ter amigos, para fazer agora uma
guerra de travesseiros, ou ficar a luz da lua, conversando sobre a vida. Sonho de fazer um “lual” na
praia, em volta da fogueira sendo sempre reabastecida de madeira para que o fogo não acabe e
daquelas risadas bobas de alguma coisa imbecil dita em hora e momento impróprio, mas tendo a
certeza de que ao final, ouviria-se o som das ondas quebrando na areia da praia.
Tenho muitas coisas para fazer, e não posso ficar aqui sentado, refazendo todas as minhas
atividades de sempre. Sei que amanhã posso não acordar, e como ainda há coisas para fazer,
para criar, para construir... por final, o quanto ainda tenho que curtir. Algo, que como sempre me
diz, vou ter tudo o que quero porém o tempo de vida não é certo para cada um e pode acontecer a
qualquer momento, no mais inesperado instante. Não posso mais esperar que as coisas
aconteçam pois minha paciência é pouca e o tempo não me espera. Estou envelhecendo e preciso
viver.

Passei o dia inteiro pensando no Murilo. Sua imagem me vinha a cada segundo na mente, e meus
pensamentos eram unânimes em querer aproveitar cada instante ao lado dele. Como eu desejava
estarmos juntos, e tinha certeza que viveríamos e aproveitaríamos tudo o que a vida pudesse nos
oferecer. Essa vontade de viver louca e apaixonadamente, se intensificava quando eu podia sentir
sua presença. Não conseguia pensar em algo errado se eu estivesse com ele.
Encontrei-o, inesperadamente numa festa Junina que teve lá na faculdade. Foi incrível a sensação,
quando virei um dos corredores de acesso a minha sala, o vi conversando com algumas amigas.
Primeiramente, fingi não tê-lo visto quando entrei na sala e já trêmulo de corpo e coração, não
conseguia sair da sala. Ao saber que aquele garoto, por quem eu tanto estava apaixonado, estava
ali, tão perto. Respirei fundo e ao sair ele veio me cumprimentar. Senti, pela primeira vez o toque
de suas mãos. Um momento onde eu, sinceramente, não sabia o que fazer. Tudo isso parecia uma
forma de amor tão adolescente e infantil, contudo, era o que, de forma mais pura e sincera estava
acontecendo. Apenas fiquei paralisado, com um pálido sorriso no rosto, comparado a ter visto um
fantasma ou um verdadeiro anjo.
- E dae Jeferson, tudo bem com você?
- Tudo bem, e contigo?
- Tudo legal.
- Veio pra festa?
- Aham... estou com minhas amigas ali.
Sorrimos e logo eu fui carregado pelos meus colegas de classe para dentro da festa.
Incessantemente, eu ficava procurando-o dentre todas aquelas pessoas e quando o pude achar,
fiquei como de sempre, olhando-o a festa toda. Dancei bastante forró, tomei alguns goles de
Quentão e curti aquele momento vislumbrado pela imagem do Murilo que tão perto de mim poderia
estar. Conversamos bem pouco aquela noite, porém ao chegar em casa e acessando a internet,
pude conversar com ele a noite inteira. Ele, perguntava-me o que achei de um contexto geral de
cada momento da festa. Acho ruim premeditar as coisas, no entanto pode ser que ele ainda me
deixe ama-lo de verdade. Ele, no seu jeito tão “diferente”, também se comportou de forma mais
animadora. Acabei tendo de desconectar e terminar com nossa conversa de forma rápida.
Voltamos a nos falar apenas uma semana depois. A cada nova conversa, uma nova chance de
ficarmos juntos.

Revirando todo meu quarto numa faxina geral, fiquei por horas relendo meu Diário do ano 2000.
Caíram lagrimas ao ler todos os meus momentos, alguns ruim e outros bons, mas todos eles
ficaram registrado e sei, eu poderia ter feito melhor. Ao som de Daniela Mercury, meus
pensamentos iam longe ao imaginar-me sendo realmente feliz e realizado na minha adolescência.
Peguei, alguns papeis soltos na ultima parte do Diário onde tinham algumas das minhas melhores
poesias. Será que existe alguém com eu? Peguei meu caderno e minha caneta, e deitado sobre a
cama, com a luz daquele sol no seu imenso céu azul límpido, resolvi desabafar tudo o que eu
estava sentindo. Como dizem, a melhor coisa é desabafar-se escrevendo foi assim então que eu
escrevi:

“ Ilusão encontrar, uma pessoa, um lugar...


Sonhos a sonhar, uma coisa prá se procurar.
Nos teus olhos, a se apaixonar, a perder o jogo, e num contorno, ganhar.
Criança viver, nos seus tempos perdidos, aprender
A ver o céu, as estrela , o sol.
Acreditar num mundo que não é como flor, girassol.
O sol, nem sempre brilha, e a lua nem sempre cintila,
Poder do meu corpo, espirito e poucas canções...

Acreditar que na vida, um futuro poder-se ter,


A sonhar que num outro ano, a vida se possa viver...
A imaginar os momentos, como livros sem nenhuma cor..
A acreditar na vida, nas pessoas, no amor...
Palavra tão calma, tão falsa e sem calor,
Ironia da vida deixar-nos viver..
Quero gritar, pular, morrer...
Afim de ficar sem a alma para saber..
Que nunca tantas palavras, tantos sentidos pudessem ter...
Quero viver, quero amar, mas o quê? O que buscar?
Caem lagrimas, como gotas na água pálida dum sorriso falso, sem calço prá se construir a mim?
Hummm.... palavras, sem graça mas que alcançam corações sem medo,
Sem a certeza de um desejo;
Forte, com a sorte da verdade, uma tal felicidade...
De viver.
A mesma água que agora molha passou...
O vento que lá fora sopra, parou...
E seu cheiro, no meu corpo ficou.
Amor, definição de inconseqüência
Emoção, inadimplência.
Intenção sem paciência...
A morte provoca, vai embora...
Compreender a vida, é tempo, é hora... perdida.”
Capítulo Onze

Meu destino parece não querer colaborar com minha felicidade. Conversei com o Murilo sobre o
que eu realmente estava achando dele, e falei também sobre o que ele parecia estar se tornando.
Novamente me perdi, em achar que podíamos ficar juntos. Numa conversa de chat, realmente
colocamos o que está acontecendo, e ele mostrou realmente não querer ficar comigo.
Devemos correr riscos, porém devemos também ter sorte para que o risco não nos mate, seja de
amor, ou qualquer outra coisa. Pensei que eu poderia ser feliz, com quem eu acho legal, mas
novamente caí em depressão. No meu quarto, trancado, ouvindo um rádio qualquer, ficava
apreciando o escuro do espaço, e lamentando do quão solitário estava. Não me conformava em ter
nadado tanto e morrido na praia. Queria que o Murilo estivesse comigo, e assim, fazermos a nossa
mais linda história de amor. Nada do que planejo dá certo, e no que faço sou sempre lúcido e por
vezes insensato, minha vontade agora mistura-se em o que fazer. Nas minhas veias correm o ódio
do meu próprio ser. Saber que não posso me suicidar, pois as conseqüências são muitas me
deixam ainda mais triste.
A vida é um jogo, e não estou conseguindo ganhar. Parece que tudo a minha frente esta dando
errado. Não sou merecedor dessa dor, nem tão pouco desse sofrimento de ficar sozinho. Tive
muita sorte em conhecer as pessoas que conheci e acabei tendo algum romance, mas de que vale
tudo isso se não consigo me satisfazer mentalmente.
Preciso respirar e estou sendo sufocado por toda essa confusão.
Será que eu me tornaria mesmo um frustado se me aquietasse ficar com uma garota e tentar ser
feliz ao lado dela, mesmo, as vezes desejando alguns garotos?
Essa ferida que está aberta desde quando nasci parece não me deixar viver. Sonhar com algum
príncipe, e ver que a vida não é mares de rosas.
Adormeci querendo que não acordasse no outro dia, suplicando para que toda essa tola história de
querer ser feliz fosse esquecida e mente e espirito vagassem pelo vazio daquele escuro que
apreciava.

Infelizmente, acordei no outro dia com o sol iluminando meu quarto, e ao som de Daniela Mercury,
levantei-me num clima de festa. Era domingo, e o céu, num tom de azul indescritível, me lembrava
que o dia prometia muito agito. Logo que acordei, arrumei toda a zona do meu quarto, e fui almoçar
na casa da minha avó, como de costume nos domingos. Eu e meu primo combinamos o horário de
irmos para a Tribo, uma danceteria de pop, reagge e axé que eu costumava ir todos os domingos
(por causa do Murilo, pois ele também ia freqüentemente).
- E dae Jeferson, que horas saímos?
- Acho que 3:30 está legal. Você sabe quem vai?
- Eu, mais três amigos e a Ana Paula, namorada do Renan.
- Sua irmã e minhas primas vão?
- Sei lá, talvez nos encontremos lá.
Logo que chegamos, perto das 6 horas, de cara encontrei o Murilo, porém não nos
cumprimentamos pois eu o desviei, e ficamos curtindo as musicas num canto da pista. Aquela
tarde foi muito legal, porém o Murilo não me saía da cabeça. Acho que o vi mais duas vezes,
porém quando criei coragem para ir conversar com ele, já não o encontrei mais lá dentro. De lá fui
para o shopping sozinho, e andei sem nenhum rumo definido, pelo centro da cidade. Cansado,
embarquei em um ônibus de volta para casa.
Muito deprimido, pensando na vida e em toda essa confusão que eu criava dentro da minha
cabeça, ainda tinha alguma esperança de encontrar alguém legal perdido por aí.
Sentado, num dos últimos bancos do ônibus, reparei em um garoto muito bonito, que em meio a
trocas de olhares, criava uma sensação de anseio e desejo.
Ficávamos nos olhando por alguns longos segundos enquanto minha imaginação ia a mil em ver
um garoto tão bonito olhando daquela forma para mim.
Em certo momento ele cedeu seu lugar a uma senhora, e veio a minha direção, para ocupar um
lugar que ficava a minha frente. Sem querer, saí da minha boca um: “Oi, tudo bem?”, o qual nunca
tivera acontecido antes.
- Oi, tudo bem. (Respondeu ele, com um sorriso muito singelo) Te conheço de algum lugar?
- Não sei, mas acho que já lhe vi antes.
- É, você não me é estranho. Qual seu nome?
- Jeferson, e o seu?
- Ângelo. Você mora por aqui?
- Moro perto e você?
- No mesmo lugar...
Rimos...
- Digo, moro no Xaxim e vc?
- Cara, eu moro bem perto de você então. Sabe uns sobrados novos ali da Vila Hauer,
construídos recentemente?
- Aham...
- Então, estou morando lá.
Alguns minutos de silêncio.
- Que você faz da vida Jeferson?
- Isso aqui está parecendo conversa de chat.
Rimos bastante.
- Bom, eu faço faculdade a noite e vou começar trabalhar nesta terça na Câmara Municipal.
- Legal. E Que curso você faz?
- Sistema de Informações. E você? O que faz da Vida?
- Bom, eu estudo no CEP de manhã. Estou no ultimo ano do Segundo Grau.
- Legal, e vai tentar alguma faculdade no final do ano?
- Claro, vou tentar para publicidade ou jornalismo.
- Muito 10. Depois que eu terminar a minha, quero fazer uma outra de publicidade. Juntando as
duas faculdades, posso fazer um monte de coisas.
- É bem interessante. Nossa, meu ponto está chegando. Vou ter de ir embora. Posso te fazer
uma pergunta Jeferson?
- Claro.
- Qual seu telefone?
Deu o número do meu celular, porém não deu tempo de pegar o número do dele.
Fiquei pensando nos olhos dele, e naquele rosto tão perfeito, imaginando o que poderia acontecer
entre a gente.
Cheguei em casa e logo coloquei celular para carregar. Ansioso pelo seu telefonema, ficava
angustiando cada minuto no meu relógio do pulso. Passei aquela noite esperando meu celular
tocar, porém nem um sinal sequer ele fez.

- Enfim, segunda-feira. Hammm, cadê meu relógio?


Olhei para meu relógio sobre o criado mudo no qual marcava 08:10am. Liguei meu som e sentado
na cama, peguei meu celular para ver se havia alguma ligação não atendida, ou uma nova
mensagem. Para minha decepção, nada.
Lavei meu rosto, tomei um café e fiquei arrumando meu quarto enquanto meu irmão me enchia o
saco, me atormentando fazendo-me trancar no quarto num som bem alto.
Passei aquela manhã toda pensando na noite de domingo, e no Ângelo, que mais parecia ser um
anjo do que um mero garoto. Pensei o quão burro fui de não ter pego seu telefone, ou alguma
coisa de contato. Ficava imaginando tudo o que pudesse ter acontecido, e se nunca mais iria
encontra-lo de novo. Esse stress puro me deixava sem nenhuma esperança que ele fosse me ligar.
Fui para a sala assistir TV, quando de repente ouço meu celular tocar. Num pulo violento, quase
caí de cara no chão, pois uma de minhas pernas ficou presa a coberta na qual eu estava
embrulhado.
- Alô?
- Jeferson?
- Sim, sou eu!
- Aqui é o Ângelo. Não sei se você se lembra?
- Claro que sim O cara do ônibus.
- Ahamm... Você está em casa?
- Sim, quer me ligar aqui?
- Seria melhor.
Ele anotou meu telefone e em alguns instante tocou meu telefone de casa.
- E dae Ângelo?
- Quem?
- Alô?
- Oi, eu poderia falar com o Jeferson?
- Sou eu...
- E dae Jeferson, aqui é o Diego, tudo bem?
- Diego? Ah, claro, e dae? Tudo bem?
- Como você tá? Parece eufórico!!!
Eu não sabia o que fazer, como pode, justo agora ele vem me ligar? E o Ângelo, o que eu faço?
- Eu estou bem e com você?
- Tudo legal? E dae, o que tem feito de bom?
- Sabe Diego, será que posso te ligar daqui uns 30 minutos? É que tenho uma problema para
resolver e preciso fazer isso agora. Pode ser?
- Claro, sem problemas. Fico te aguardando.
O Diego era um amigo da Internet, o ultimo garoto que conheci. Ele era legal, porém era só mais
um amigo online.
Assim que ele desligou aguardei por alguns longos 10 minutos e nada do Ângelo. Em meu celular
estava registrado um número que parecia ser da casa dele. Resolvi ligar.
- Alô?
- Por gentileza, o Ângelo?
- Só um momento.
Aguardei alguns instantes.
- Alô?, ele saiu para ir no mercado, quer deixar recado?
- Você pode dizer a ele que o Jeferson ligou?
- Digo sim.
- Muito Obrigado.
- Tchau.
- Até mais.
Que droga, tudo acontece quando a gente menos espera. Que sorte eu tenho, onde mal posso
falar com o Ângelo. E Agora? Se eu ligar para o Diego, com certeza vamos ficar algum tempo, e se
justo nesse tempo o Ângelo tentar me ligar? Que ironia do destino não nos deixar conversar.
Liguei para o Diego, e conversamos algum tempo, e ele até chegou a me perguntar que era o
Ângelo que eu disse, quando atendi o telefone e por que eu estava tão eufórico. Inventei uma louca
história, que mal eu acreditei e por fim ele desligou.
Passou algumas horas e nada do Ângelo. Será que a senhora que atendeu passou o recado? Por
que ele não me liga? O que será que aconteceu?
Passou-se aquele dia, e não tive uma nova oportunidade de conversar com o Ângelo.
Capítulo Doze

Acordei cedo no outro dia, tive de ir para meu novo trabalho. Um frio na espinha me passava em
saber que eu estaria novamente trabalhando. Um lugar legal, pacato mas cheio de gente bonita.
Alguns garotos muitos bonito, por incrível.
- Bom dia. Esse é o Jeferson, ele irá trabalhar conosco.
- Seja bem vindo cara.
Fui apresentado a todos os departamento, e na Administração, descobri o que realmente eu iria
fazer. Uma mesa, um micro e um telefone me esperavam. Alguns papeis sobre a mesa me diziam
que eu, já de cara, teria algum trabalho para fazer. Aquela manhã passou muito rápido, e logo fui
almoçar com algumas pessoas do meu novo departamento. Voltei, e a tarde pareceu-me mais
lenta. O Relógio na parede marcavam quatro horas, e seu tic-tac estava começando a me encher.
Enfim, acabou meu expediente e ansioso esperava voltar amanhã com mais ânimo e alegria.
Chegada a noite, trancado no meu quarto, ao som de Britney Spears, ouvi chegar mensagem no
meu celular. Infelizmente, não era do Ângelo, porém nesse instante me veio uma vontade enorme
de ligar para ele. Tomei a iniciativa e liguei.
- Alô?
- Por gentileza, o Ângelo?
- Só um momento.
Aguardei demoradamente.
- Oi.
- Ângelo? Aqui é o Jeferson, tudo bem?
- Tudo bem cara, como você está.
- Legal.
Por alguns instantes, um silêncio perseverou.
- É... e dae? Sua mãe lhe deu o recado?
- Minha mãe?
- É. Aquele dia, quando você ia me ligar aqui em casa, na mesma hora ligou um amigo meu.
Logo após eu liguei para ti e como você não estava, deixei um recado com uma senhora, na
sua casa.
- Ah, a Dona Fátima, ela é empregada aqui e acho que ela esqueceu de me passar o recado,
pois, te liguei e deu ocupado e não tive tempo de ligar de novo.
- Hammm...
Mais alguns minutos.
- E então, o que você tem feito?
- Nada de legal, apenas fui para o colégio e depois matei o tempo no shopping com meus
amigos.
- Legal.
Conversamos por mais alguns minutos e na falta de assunto, desligamos dizendo tornar a ligar no
outro dia.

Deitado no meu quarto, não havia aquela escuridão que me envolvia, pois a lua clareava forte e
minha cortina, deixava passar essa luz tão bonita.
Apesar de todas as dificuldades, finalmente apareceu essa tão inesperada luz no fim do túnel.
Eu estava começando a ficar apaixonado pelo Ângelo, mesmo de primeira vista. Mal conversamos
e eu já assim. Se déssemos certo seria muito bom, mas essa história eu já conhecia. Começaram
minhas aulas da faculdade e quem eu estava vendo quase todos os dias era o Murilo. Ele me
cumprimentava, conversávamos algumas palavras, e acabava assim. Eu realmente gostava, de
todo meu coração dele, porém ele me mostrava que não era a pessoa certa para mim, pois dizava
claro que não queria nada comigo. Ficávamos nos olhando durante o intervalo das aulas, porém ao
trocarmos algumas palavras todo aquele encanto que ele mesmo parecia proibir, acabava.
O Ângelo, com aquele ar de garoto malandro me fazia esperar pelos meus melhores momentos.
Já, distante da possibilidade de ficar com o Murilo, tentava-o esquecer definitivamente, pois sofri
muito por alguém que, com certeza, não deixa-se me querer.
- Alô?
- Jeferson?
- Sim, é o Ângelo?
- Sou eu sim cara... E dae, tá afim de ir no cinema?
- Claro, eu tô já a tempos querendo ver um filme lá.
- Beleza então. Que tal as 19:00 lá no Shopping Estação?
- Tudo bem. Hoje eu ia faltar a faculdade mesmo, não tenho nenhuma matéria importante.
- Tudo bem então, eu te espero lá na frente.
- Legal.
- Então até lá.
- Até, falou Ângelo.
- Até mais.
Nem acredito, vou ir ao cinema com o Ângelo. Loucura e certa felicidade se misturavam dentro de
mim. Passei aquela tarde inteira de trabalho pensando nele e no que aconteceria com a gente.

Em frente ao Shopping, como combinado e como de costume, eu, adiantado uma hora esperando
por ele. Quando de longe, o avistei, usando uma calça jeans, uma blusa branca e boné azul.
Minhas pernas tremeram e dentro do meu peito começou um calor que ia e voltava, demostrando
claramente o nervosismo que eu estava passando.
- E dae cara? Beleza?
- Tu-Tudo bem, e com você?
- Tudo legal.
- E então, vamos entrar para ver o filme.
- Aham...
- E daí... O que tem feito. Estudado muito?
- Bastante, e você? Só gazeando aula né?
- Pois é, culpa sua.
Rimos.

Dentro do cinema, ficamos sentados nas ultimas poltronas. A sessão estava meio vazia, mas
assim que começou o filme, ele pegou em minha mão dizendo se podia; meu coração disparou e
de forma condicional, dei-lhe um beijo confirmando o meu “sim”.
Aquela sessão foi a mais incrível que já assisti, ainda que pouco prestei atenção no filme. Com
muitos beijos, saímos da sessão e fomos direto para a praça de alimentação.
- Gostou do filme Jeferson?
- Que filme?
Rimos...
- Foi uma sessão incrível.
- A companhia estava agradável?
- Melhor que aquilo, só dois daquilo.
Novamente rimos.
- Sabe Ângelo, fiquei a tarde inteira pensando em tudo isso. Tá sendo perfeito.
- Eu pensei que fosse levar uma porrada sua quando peguei em sua mão.
- Um beijo não foi interessante?
- Claro. Muito interessante.
Rimos...
- Alguém sabe de você assim, Jeferson?
- Não, e nem imaginam... e de você?
- Também não. Se meu pai descobre, acho que ele me mata.
- Espero que não.
Sorrimos.
- Sabe, você é uma “luz no fim do túnel” para mim!
- E por quê?
- Naquele domingo, quando nos conhecemos, eu estava muito depressivo, a solidão me
atordoava e não estava conseguindo viver a vida.
- Nossa cara, eu estava mais ou menos assim.
- Coincidência ou destino?
- Acho que os dois.
Ficamos falando sobre muita coisa e no outro dia tínhamos combinado de assistir outro filme. São
nessas horas que eu gostaria que Curitiba tivesse praia, pois poderíamos ficar contemplando as
ondas, o céu e todas as suas infinitas constelações juntos. Aquela noite, deitado a minha cama
queria agradecer ao meu destino por estar sendo tão justo. Lembrava de algumas coisas que
tinham acontecido comigo e sobre o Murilo. O que poderíamos ter vivido. Olhando para o teto do
meu quarto, sobre a pacata luz entrando pela janela do quarto, fazia planos de ser louco o
suficiente para ir a acampamentos, praias, viagem, curtir a vida do melhor jeito com o Ângelo. Eu
estava totalmente apaixonado por ele, e queria que ele fosse meu namorado, porém dizer isso a
ele, talvez seria precipitado de mais.

Acordei, como sol explorando as frestas da cortina do meu quarto sobre meu rosto. Queria ficar
deitado, imaginando eu e o Ângelo juntos. Imaginando ele dormindo comigo, e numa manhã tão
perfeita de sábado, acordarmos juntos. Liguei meu rádio, quase no último volume e comecei a
agitar uma faxina legal dentro do meu quarto.
- Jeferson, abaixa esse rádio ou tranque essa porta.
- O que mãe?
- Abaixa o rádio ou fecha a porta do seu quarto.
- Tá mãe.
Abaixei meu rádio, porém não fez muita diferença, pois eu ficava cantando junto numa alegria
imensa.
- Jeferson, arrume seu quarto. Acordou feliz hoje é?
- Pois é.
- Eu e seu irmão vamos sair, talvez voltemos depois do almoço. Amanhã vamos para a chácara.
Quer ir junto?
- Sei lá. Talvez eu vá no cinema à tarde. Não to muito afim de pescar.
Quando íamos a chácara, com minha exceção, todos iam pescar. As únicas coisas que eu gostava
de lá, fora os cavalos, era a piscina mas ainda não estava totalmente terminada.

- Alô?
- Por favor o Ângelo?
- Ele saiu. Talvez volte após as 5 da tarde.
- Você pode deixar um recado que o Jeferson ligou.
- Tudo bem, eu aviso ele sim.
- Ok. Até mais.
- Até.
Chegou as seis horas da tarde e nada do Ângelo me ligar. Fui tomar um banho, pois iríamos ao
cinema. Foi quando no meio do banho toca o telefone e eu, sozinho em casa, todo ensaboado,
enrolado à uma toalha de rosto, pois tinha esquecido de levar minha toalha para o banho, quase
escorreguei no box.
- Oi?
- Alô? Jeferson?
- Sim, sou eu.
- Aqui é o Ângelo. Tudo bem?
- Tudo e contigo.
Nesse momento chega minha prima e me vê, naquela situação, tentando atender o telefone.
- Jeferson?
- Comigo tudo bem, viu cara, eu não vou poder sair hoje. Vou ter de ir num casamento obrigado
e não vai dar para nos encontrar.
- Só um pouquinho.
- Suellen, espera aí um pouco.
- Quer dizer então que você não vai poder ir? Bom, tudo bem então né. Fazer o quê?
- Bom, amanhã, perto do almoço eu te ligo, ok?
- Estarei esperando.
- Um forte abraço.
- Falou.
- Tchau.
- Jeferson, acho que estou sendo um pouco inconveniente né?
- É que saí para atender o telefone. Não tem ninguém em casa.
Ela ficava me reparando de um jeito que cheguei a ficar vermelho de vergonha. Falei a ela para
esperar um pouco que já estava no final do banho. Entrei para o banheiro, com aquela toalha
minúscula, cobrindo-me muito pouco. Com o piso todo ensaboado quase caí na volta para o
banho.
Já de banho tomado, enxuto e vestido, saí do banheiro em encontro a ela.
- Pronto, Acabei!
- Humm... juro que seu eu não fosse sua prima, eu te agarrava no telefone.
- Esqueceu que sou filho adotivo?
Rimos.
- Bom Jé, vamos todos nós numa pizzaria e queríamos saber se você tá afim.
- Não tenho nada prá esta noite mesmo, acho que seria muito 10.
- Bom, então as 10:30 a gente espera você e seu irmão lá na minha casa.
- Meu irmão que vai dirigindo?
- Aham...
- Beleza então. A gente se fala mais tarde.
- Ok.
Fui para o meu quarto, toquei algumas coisas no meu violão, fiz uma nova música pensando no
Ângelo, e quando me toquei, já era quase 10:00.
Fomos a pizzaria, dançamos um monte e lá um cara deu em cima de mim e do meu primo. De
forma áspera, meu primo começou a xinga-lo e rir da cara do homem que aparentava ter uns 26
anos. Comecei a refletir, imaginando-me ser aquele cara, que com uma cerveja na mão saiu para
fora do lugar.
- Que viado esse cara, né?
- Pois é.
- Por que não vai dar em outro lugar. Eu não tenho nenhum preconceito, mas que fiquem longe
de mim, mais especificamente, do outro lado do mundo.
Ele riu.
- É, mas coitado do cara. É a opção dele. Cada um decide a sua vida.
- Não sei não. Por que então existe as mulheres, de bonito que não é!?
- Pô, mas custava apenas dizer que você não tem a mesma opção que ele?
- Ih! Jeferson, to começando a te achar diferente.
- Nem vem, mas sou da seguinte opinião: “cada um na sua”.
- Tá bom, tá bom. Vamos curtir as gatinhas que tem aqui. Tem uma me azarando faz horas.
- Melhor. Vamos lá.
Chegamos em casa em torno das 5 da manhã. Tombei na cama, desmaiando de sono e cansaço.
Está noite foi muito estranha, pois meu primo, depois do acontecido, ficou me secando. Embora,
compreendi isso, como algo normal, algo me dizia que ele estava desconfiado de mim.
Capítulo Treze

Algum tempo se passou. Eu e o Ângelo nos víamos quase todos os dias. Eu já tinha faltado uns 3
dias consecutivos de aula. Sorte minha que, por ser inicio de matéria nova, eu tinha como
recompor esses dias com facilidade. Resolvemos sair para uma danceteria gay. Eu só tinha ido
uma vez e não tinha gostado muito, porém não comentei isso a ele. Chegamos no lugar, e eu,
tremulo de frio e de medo que alguém conhecido me visse ali, por azar, demoramos quase uma
hora para entrar.
Lá dentro, uma animação total, subimos para a pista de dance, e ficamos curtindo o som.
Cansados, fomos beber algo, onde preferi tomar água. Ele me acompanhou na bebida.
- Nossa, esse lugar está fervendo hein?
- Pois é.
- Você tá gostando Jeferson?
- Mais ou menos. Toda essa galera se amassando me deixa meio frustrado. Você costuma vir
aqui bastante?
- Não, essa é minha primeira vez!
- Sério? Nossa cara... e tá gostando?
- O som deles é legal, porém o lugar parece ser meio promíscuo.
- Eu também acho isso. Acho que, o que mais me incomoda é essa deliberação que o pessoal
extrapola, tornando o ambiente de certa forma, promíscuo e pejorativo.
- Hammm... É exatamente isso o que penso também.
De repente, um cara chega perto do Ângelo e dá um selinho na boca dele.
Me revolto com a situação, porém deixo que ele resolva. Vendo-o, quase pálido, conversa com o
garoto num tom tremulo.
- Paulo, o que você faz aqui?
- Pô Ângelo, não sabia que você também gostava disso. Se eu soubesse a mais tempo, já tinha
convidado para sairmos.
- Esse aqui é meu namorado, Jeferson!
Ele se embaraçou todo, e agora ele ficou pálido e vermelho.
- Prazer e desculpe-me.
Não olhei para a cara do cara, e disse em bom tom.
- É, sou o namorado dele, prazer!
O Ângelo, vendo toda a situação, pegou-me pela mão, despediu-se do Paulo e fez-nos sair do
lugar num instante.
- Nossa Ângelo, que selinho você levou hein?
Nesse momento, eu não estava mais com ódio, ou ciúmes do Paulo, porém o Ângelo começou a
se explicar de forma incomodativa.
- Jeferson, aquele cara era o meu vizinho. Meu deus, se alguém descobre que estou namorando
com um outro piá, ou ele conta isso para alguém, acho que eu morro.
- Capaz Ângelo, vai ser difícil, porém, não insuportável né!
- Não sei o que deu nele de vir direto, me dar um selinho, mas acho que foi impulso de quando
éramos crianças. Eu e ele já brincamos muito, de forma inerente quando mais jovens. Éramos
crianças, mal sabíamos o que fazíamos. Por vezes, deixei meu sentimento infantil dominar.
Nós quase namoramos, sabia?
- Cara, não se preocupe, não tô chateado contigo. Tá certo que na hora, me deu vontade de
arrebentar aquele piá, mas agora, essa raiva passou.
Ele sorriu e ficamos alguns minutos em silêncio.
- Mas o selinho dele é melhor que o meu?
Rimos, e ele, sem dizer qualquer palavra, me deu um beijo recheado de carinho e amor.
- O que você acha?
- Talvez eu vá lá e experimente um selinho dele também.
Ele ficou meramente bravo, porém após muitos selinhos, resolvemos não tocar mais neste assunto
e fazer feliz a nossa história.
- Cara, eu gosto muito de você. Eu te adoro tanto, que sou capaz de morrer contigo, se preciso.
- Eu também Jeferson. Você é um garotinho muito especial para mim.
Olhando para o céu, numa imensidão azul, com estrelas e nuvens,mesmo já tendo dito que ele era
meu namorado dentro da danceteria, pedi oficialmente ele em namoro naquele momento. Todo
aquele clima, de frio curitibano, céu indescritível e amor, ele aceitou me envolvendo em seus
braços e me abraçando, deitados entre a calçada e a rua, pois estávamos sentados no meio-fio.
Já, dentro do carro, ficamos por muito tempo namorando. Enfim, eu estava muito feliz com tudo.
Dessa vez, tinha encontrado o garoto perfeito. Uma espécie de alma-gêmia, um anjo, ou meu
destino em carne, osso e espirito.
Abraçados e eu quase dormindo em seus braços, resolvemos ir embora.
- Eu te amo Ângelo.
Ele me olhou, pegou em minha mão esquerda, com um suave beijo nela disse que estava
gostando tanto de mim, a ponto de me amar também.
- Sabe Jeferson, dizer “eu te amo” para alguém, é de certa forma entregar-se por completo. Três
palavras tão fortes, capazes de mudar uma humanidade inteira. Sob todo esse imenso céu,
testemunha do que eu realmente sinto por você, também posso dizer, com total integra, que te
amo. Você é meu mais certo desejo, minha vida.
- Nossa, Sheakespear?
Rimos
- Jeferson, pare de brincar. É sério, eu amo muito você.
Chegamos e nos despedimos com um longo e profundo beijo. Certamente, está noite foi a mais
apaixonada de todas até agora.

Acordei com uma sensação estranha. Tinha sonhado com o Ângelo precisando de ajuda. Liguei
para a casa dele, porém ele tinha ido num tio pegar algumas coisas para sua mãe. Deixei um
recado para ele, se possível, ligar para mim com certa prioridade.
Passou algumas horas, e o telefone tocou.
- Alô?
- Jeferson?
- Oi Ângelo, tudo bem contigo?
- É, tô legal, você ligou para cá deixando um recado para ligar urgente?
- Mais ou menos isso, é eu acordei com uma sensação muito estranha, tive um sonho muito
louco, onde você estava precisando de ajuda. Está tudo bem contigo?
- Sim.
- Que bom.
- Obrigado pela preocupação.
- Que nada, é que ás vezes, tenho uns sonhos muito estranhos e que acontecem realmente.
- Não, mais eu to legal.
- E dae? Vamos nos ver hoje?
- Não vai dar, vou ter que ir para a casa da minha tia, no litoral, e só vou voltar Domingo de
tarde.
- Que pena. Acredita que já estou com saudades?
- Por que você não dá um jeito e vem comigo?
- Capaz, seus pais iriam achar esquisito e ainda sou um estranho para eles.
- Eu falo com eles. Bom, a gente vai sair daqui 3 horas, se tiver afim, poderíamos ir junto.
- Bom, fale então com seus pais, e me dê uma resposta. Se eles acharem que não tem nenhum
problemas, me liga avisando, ok?
- Beleza.
- Te amo.
- Também te amo, beijos.
- Mil Beijos.

Minha mãe não estava em casa, e eu fui arrumar minha mala para essa possível viagem.
Fiquei pensando em que contar para minha mãe para ela me deixar ir sem nenhuma neura.
O Ângelo me ligou e disse que não tinha problema algum, tomei um banho, arrumei minhas coisas,
e esperei minha mãe chegar.
- Mãe?
- Vai sair Jeferson?
- É, vou viajar.
- Viajar? Pra onde piá?
- Bom, eu vou com o pessoal lá da faculdade para perto de Curitiba, um cidade vizinha aqui.
Eles vão fazer um Acampamento, e vai estar muito legal. Até alguns professores vão.
- Olha a responsabilidade Jeferson.
- Mãe, só vai gente adulta, e eu sei me cuidar.
- Quando você volta?
- Domingo de tarde?
- Domingo?
- É. Vão ser dois dias em meio, além do mais, vamos ficar numa casa, um acampamento
moderno. Você se lembra quando eu fui junto com o pessoal da igreja. Então, vai ser mais ou
menos igual.
- Hamm... Espero que você esteja certo do que está fazendo.
- Além do mais você tem meu número de celular. E então, posso ir né?
- Que hora você vai?
- Agora, vou passar na casa de um amigo meu, e vamos do colégio para lá, tudo bem?
- Tá. Se cuida.
- Ok. Até mais então.
- Até.
Fiquei imaginando comigo mesmo, desde onde já se viu acampamento moderno? Como eu não sei
mentir. Espero que ela não tenha desconfiado.

- Por favor, o Ângelo?


- Um momento.
- Jeferson? Pode entrar.
Entrei na casa dele e esperando na sala, trêmulo, recebi um beijo no pescoço.
- Piá, o que você está fazendo?
- Meus pais estão lá em cima.
- Ângelo? Seu amigo já chegou?
- Já mãe. Vamos embora.
- Já estamos descendo.
- Não tem nenhum problema para você né?
- Claro que não Jefer.
- Oi Jeferson, meu filho falou um monte de você.
Fiquei sem graça e vermelho.
- Para mãe, vai encabular o piá.
- Mas é verdade.
Gostei da Dona Marta, uma jovem senhora muito simpática que pareceu gostar de mim, pelo
menos de primeira vista.
- Jorge? Vamos.
- Calma Marta, estou terminando de conferir o que estamos levando.
Seu Jorge era um cara meio estranho. Eu já havia conversado com ele. Com sua fina barba, e seu
cabelo com gel, parecia mais um irmão mais velho do Ângelo. Ele era meio fechado, sempre na
sua, e quando tentava conversar comigo, fazia algumas perguntas imbecis, como:
- Jeferson, você sabe o quem marcou o ultimo gol do Uruguai.
- Não.
- E da Itália?
- Sabe seu Jorge, eu não curto muito futebol. Mal vi a copa do Brasil.
- E o ultimo gol da Turquia?
- Não.
Notava-se o esforço que o seu Jorge fazia para criar um vinculo de amizade comigo. Porém, em
tudo o que ele falava era futebol.
Saímos com algumas horas de atraso e passamos na casa de um tio do Ângelo para pegar uma
prima dele, que iria conosco.
- Oi Fernanda?
- Oi tia Fernanda, olá tio Jorge, oi Ângelo e oi Jeferson.
- Oi, prazer em conhece-la.
- Ela sentou ao meu lado, e fez questão de dar um beijo no meu rosto e no do Ângelo.
Ela usava uma camiseta muito fina, bastante decotada, e percebi que em sua mão havia uma
aliança de compromisso.
Durante toda a viagem, dentro da bagunça que fazíamos dentro do carro, ela, volte e meia,
passava de propósito sua mão sobre minha perna esquerda.
Chegamos. O lugar era lindo, bem amplo, e de longe dava para se ver a praia.
- Vamos dar uma olhadinha na praia Jeferson?
- Claro Ângelo!
- Posso ir junto Ângelo?
- Claro Fernanda.
Ele me olhou entristecido.
Descalços, caminhamos a beira da praia por algum tempo. Voltamos para jantar quase 10 da noite.
Ficamos jogando baralho até umas 3 da manhã e fomos dormir. Eu e o Ângelo num quanto, sob
beliches e a Fernanda, que em nenhum momento desgrudou-se da gente num quarto ao lado.
Passou alguns instantes, e o Ângelo veio me dar um beijo de boa noite. Mal terminamos, chegou a
Fernanda e num brusco momento ascendeu a luz.
- Rapazes, ainda bem que ainda estão acordados. Eu não estou muito conseguindo dormir, e
vim dar um beijo de boa noites a vocês.
Deu um rápido beijo no Ângelo e quase um selinho em mim.
- Fernanda, o Jeferson tem namorada, e você também.
- Tá com ciúmes do seu amigo é?
- Capaz Fernanda, mas, respeite seu namorado.
- Ele foi para São Paulo, e além do mais, assim que ele chegar, vou acabar o nosso namoro.
- Mas então respeite-o enquanto ele não vem.
- E aliás Jeferson, se você tem namorada, por que não usa aliança?
- É que estou namorando com ela a pouco tempo.
- Qual é o nome dela?
Fiquei em silêncio, pois não me veio nenhum nome, a não ser Angela. O Ângelo, vendo-me
pensar, falou:
- Renata. Ela é minha amigo do colégio.
- Hammm... Eu perguntei para o Jeferson, e não para você.
- É Renata, Fernanda e eu gosto muito dela.
- Tudo bem então. Durmam com os anjos.
- Você também.
- Até amanhã Fernanda.
O Ângelo me olhou com um sorriso meio sátiro.
- Garota chata né?
Apenas sorri, fazendo um sinal com a cabeça de sim.
- Jeferson, cuidado com ela hein.
- Pode deixar. A Renata é muito mais interessante que ela.
Rimos.

Acordei perto do almoço, isto é, quase 2 horas da tarde de sábado e sentado sobre a cama, fiquei
reparando o Ângelo deitado, ainda dormindo. Pensei em acorda-lo com um beijo mais tinha muita
gente na cozinha, e alguém podia entrar e nos ver. Além do mais, ainda bem que ontem a
Fernanda não viu. Sorte nossa, paramos bem na hora.
Voltei a deitar na cama, e fiquei pensando em todo esse clima. Estava perfeito. Por dentre a janela,
dava para ver o sol que estava fazendo lá fora. Queria muito ir com o Ângelo na praia, para
finalmente namorar com ele sozinho.
- Nossa que garotos mais dorminhocos, esses dois.
Entrou a Fernanda fazendo maior bagunça dentro do quarto.
- Bom dia Fernanda.
- Bom dia Jeferson. Vamos acordar gente! Tá um dia lindo. Vamos aproveitar a praia.
- Vou ao banheiro lavar meu rosto. Onde é mesmo Fernanda?
- Vem cá que eu te levo lá.
Entrei no banheiro e ela ficou entre a porta.
- Jeferson, o que você faz da vida?
- Bom, eu trabalho e estudo. Faço faculdade de Informática.
- Legal. Eu estou fazendo faculdade de Jornalismo.
- Sério? Mas que idade você tem?
- 17 e meio e você?
- Tenho 20.
- Nossa, nem parece. Achei que tivéssemos a mesma idade.
- Capaz.
- A quanto tempo vocês são amigos?
- Quem?
- Você e o Ângelo, oras?
- Ah! Faz bastante tempo.
Ela não parava de me olhar, e ficava fazendo perguntas as quais eu não estava tão preparado para
responder.
- O que vocês estão fazendo?
- Ângelo? Ah, estamos batendo um papo, por quê?
- Só prá saber.
- Iiii Ângelo, estou vendo que você acordou de mau humor hoje hein.
- Não é mau humor, Bom dia Jeferson.
- E dae, tudo bem?
- Aham...
Ela tinha um jeito muito “teen” de ser. Estava com uma camiseta larga e um short minúsculo que
mostrava todo o seu biquíni. Eu e o Ângelo lavamos o rosto, e fomos tomar um café. Combinamos
de ir a praia, mas teríamos de sair meio que escondido para Fernanda não vir atrás.
- Ei, onde vocês vão?
Inevitável, aquela garota não desgrudava. O Ângelo disse que íamos na mercearia e já
voltaríamos. De nada adiantou, ela quis vir com a gente. Demos uma volta na quadra, compramos
algumas balas quando o Ângelo disse:
- Fernanda, vai prá casa e avisa minha mãe que eu e o Jeferson vamos dar um rolé pela praia.
- Quero ir junto.
- Não dá. Nós vamos ver se arranjamos algumas “minas” e você vai ficar de vela ae.
- Ué, o Jeferson tem namorada não tem? Eu fico conversando com ele, ou ele vai desrespeitar a
namorada dele também?
- Poxa garota, você não tá vendo que somos garotos, e estamos a fim de curtir. Desgruda da
gente.
Ela ficou meio chateada com a direta do Ângelo e foi em direção a praia.
- Tudo bem então. A praia é publica e eu vou andar sozinha.
- Está bem então.
- Ângelo, você não acha que foi meio seco com ela?
- Essa garota é muito chata. Deixe ela ir sozinha, vamos no sentido oposto.
- E se ela ficar nos seguindo?
- A gente dá um jeito.
Justo e feito. Ela resolveu nos seguir, ficava a alguns metros da gente. Resolvemos dar uma
corrida. Coitada da Fernanda, corremos tanto que em alguns instantes estávamos sozinhos.
- Ufa Jeferson, acho que agora não estamos mais sendo seguidos.
- Coitada Ângelo, vai que acontece algo com ela, ou ela se perde por aí?
- Ela sabe o caminho de casa. Nem esquente.
Andamos aquela tarde inteira, e chegamos num arpoador. Ao longe, víamos os barcos, e as ondas
quebrando. O sol estava quase se pondo. Eu e o Ângelo nos beijamos, pois estava muito deserto,
porém não demos bandeira. Foi bem rápido, e sentado, um ao lado do outro, ficamos admirando o
mar e sua amplitude.
- Que lindo esse lugar né? Ainda bem que fomos presenteados por este lindo dia.
- Aham, estou adorando estar com você sabia. Eu te amo muito, e estou podendo fazer desses
momentos, inesquecíveis.
- Que bom. Eu também te amo e quero ficar com você prá sempre.
Alguns momentos quietos.
- Coitada da Fernanda.
- Você ainda está pensando nela Jeferson?
- Coitada da garota. Já pensou se acontece alguma coisa?
- Capaz. Esqueça ela, pense em mim.
- É que...
Interrompendo-me com um outro beijo, ele disse:
- Pense em mim, ok?
- Ok.
Ficamos lá até o sol se por completamente. Voltamos para casa, e como estávamos longe,
demoramos muito até chegar. Entre alguns chutes nas ondas, espirrando água um no outro,
parecíamos crianças que nunca viram praia. Chegamos para o jantar. A Fernanda estava na rede
lendo um livro enquanto se balançava lentamente.
- E dae? Se divertiram muito? Agarraram alguma garota?
Fernanda gostava de mexer com o Ângelo, e ele apenas a ignorava.
- Mãe? O que tem para comermos? Estamos morrendo de fome!
- Seu pai fez churrasco. Aproveitem que ainda está quente.
Comemos bastantes e satisfeitos fomos nos sentar entre a rua e a calçada da casa dele. Vendo
aquele céu, sem nenhuma nuvem, apenas estrelas, resolvemos dar uma volta pela praia.
- Vamos a beira da praia dar uma volta Jeferson?
- Claro.
- Mãe, a gente já volta.
- Vocês vai sair de novo? Eu não quero ficar aqui sozinha.
- Ângelo, levem a Fernanda com vocês.
- Mãe?
- Ângelo, levem a Fernanda junto.
- Tá bom, mas a gente vai andar um monte, se ela não agüentar problema dela.
Ignorando, sua mãe entrou dentro de casa.
- Viu Ângelo, vocês vão ter de me levar a força.
- Fazer o que né?
Andamos pela praia por um tempo, e a Fernanda querendo saber tudo. Não parava de falar, e de
certa forma, dava para perceber o ciúmes que ela causava no Ângelo. Aquela noite poderia ser
perfeita se a Fernanda estivesse ficado em casa.
Voltamos para casa e cansados ficamos deitados, conversando sob o beliche do quarto do Ângelo.
- Será que aquela guria já foi dormir?
- Nossa, ela é gente boa, mas enjoa hein.
- Pois é. Espero que agora, ela nos de um pouco de paz.
- Tomara.
Lentamente, o Ângelo trancou a porta e me deu um beijo, sentando-se ao meu lado.
- Agora poderemos ficar mais seguros.
- Você é louco né?
- Por você, sim.
Rimos.
- Sabe, queria poder ficar sozinho contigo lá na praia.
- Humm, sei. E o que você estava pensando em fazer?
- Te namorar, por quê?
- Por nada não.
- Eia mente poluída.
Rimos novamente.
- Eu queria poder ficar abraçado contigo, te beijar e poder ter aquela praia só para nós.
- Humm... que romântico. Eu poderia te dar um estrela se quisesse.
- Oh... Como você mente.
- Claro que sim.
Sorrimos, e ficamos nos beijando. Ele ligou o som e adormecemos abraçados ao som de muita
música reggea o que deixou o clima muito mais de praia.
Capítulo Quatorze

Acordei com um beijo.


- Bom dia gatinho?
- Oi Ângelo, bom dia?
- E dae? Dormiu bem?
- Claro. Sabe, minha mãe veio nos acordar porém como a porta estava trancada, ela não
conseguiu entrar. Tive de explicar um monte de coisa, se ela perguntar algo, diga que ficamos
jogando baralho a noite inteira, tudo bem?
- Claro.
- Nossa cara, tem um sol maravilhoso lá fora. Levanta ai prá curtimos este dia.
- Legal. Vou lavar o rosto, comer algo e a gente já sai. E tomara que sozinhos.
Rimos.
Aquele domingo aproveitamos muito. Tomamos banho de mar, curtindo cada momento, e as
vezes, entre uma onda e outra, chegávamos a dar um beijo de baixo da água.
Voltando para Curitiba, chegamos em casa quase as 9 da noite. A família do Ângelo fez questão
de me levar até em casa.
- Até mais seu Jorge, e Dona Marta. Até mais Fernanda e Ângelo. Se cuidem.
- Até mais Jeferson.
Logo que cheguei em casa, tomei um banho quente e fui dormir.

Acordei tarde na segunda-feira. Corri para me arrumar e ir trabalhar. Na faculdade, encontrei o


Murilo, e conversamos por algum longos minutos. Ele já não me atraia tanto, porém seus olhos e
sua boca eram como as de um deus. Tentava me conter para não beija-lo. Nunca pensei em trair o
Ângelo, até por que ele era perfeito para mim, mas ainda restava um pouco de carinho que tinha
pelo Murilo, pois o que eu senti foi realmente verdadeiro.
Neste dia, meus colegas de classe decidiram comer pizza e eu fui junto. O que eu não esperava
era que o Murilo fosse com a gente. Acho que seria melhor se tivesse evitado.
- Jeferson? Você vai comer pizza com a gente?
- Acho que sim, se nada acontecer de errado.
- De errado? Como o quê?
- Nada não.
Chegamos na pizzaria, comemos e nos divertimos muito. Eu e o Murilo, não parávamos de nos
encarar, a todo momento nossos olhares se encontravam. Achei melhor eu ir embora, antes que
algo, que parecia ser incontrolável, viesse acontecer.
- Bom galera, vou nessa.
- Mas já Jeferson? Ainda tem muita pizza para comermos.
- É que tenho de ir embora. Mas a gente se fala amanhã. Até lá.
- Até mais.
- Jeferson? Eu estou indo também, espera aí!
- Hammm? Ah, Claro Murilo.
O que fui fazer? Não poderia esperar tal momento. Na imensidão dos seus olhos poderia se ver
que algo realmente poderia acontecer.
Saindo para fora do estabelecimento, ele disse que queria conversar sério comigo.
- Jeferson, sabe aquilo que você disse sobre gostar de mim?
- Aham...
- Eu acho que estou aprendendo a gosta de você também.
- Co-como assim? (gaguejei)
- Eu acho que estou gostando de você, e...
- Sabe o que é Murilo, eu tenho...
Ele me interrompeu bruscamente.
- E quero ficar contigo.
Eu não sabia o que fazer. Ele era o cara com que eu tinha me apaixonado, e saberia de certa
forma, que formaríamos um ótimo casal.
- Sabe Murilo, eu acho que não posso ficar contigo.
- Como assim? Você não disse que gostava de mim?
- É que estou... eu estou namorando.
Tais palavras demoraram quase um século para sair.
- Namorando? Quem?
- O Ângelo, um outro garoto.
Ele, sentindo-se indignado, olhou para mim e disse:
- Agora que estou gostando de você, você me diz que não pode ficar comigo?
- Eu esperei muito por você, e ainda penso em te ter. Mas, eu não posso trair com quem eu
estou. Não seria justo.
- Tudo bem Jeferson. Um outro dia a gente se fala.
Ele saiu tão rápido que mal pude fazer alguma coisa. Senti-me como, jogando fora um bilhete
premiado da MegaSenna. Ao chegar em casa, reparei que minha mãe estava com os olhos
vermelhos, sentada no sofá esperando eu chegar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Jeferson, quem é Ângelo?
- Meu amigo da faculdade, por quê?
- Seu amigo? Ou seu namorado?
Gelei nesta hora, minha pernas ficaram trêmulas e meu coração disparou.
- Achei nas suas coisas, cartinhas de amor de um piá para você.
- Você mexeu nas minhas coisas?
- Não acredito que tenho um filho viado.
- Mãe... eu... eu não sou viado.
Com as lágrimas do rosto dela, ficamos em silêncio. Percebi que meu irmão, do seu quarto,
tentava ver o que estava acontecendo.
- Mãe, você sempre soube, apenas omitia isso.
- Jeferson? Por que isso tem de acontecer comigo. O que fiz para merecer tudo isso.
Entrei no meu quarto, tranquei-me e comecei a chorar.
Meu mundo parecia ter caído. Não conseguia pensar em nada além de fugir para algum lugar,
longe de toda essa confusão.
Arrumei minha roupa em uma mochila, peguei meus documentos mais importantes, e na calada da
noite, saí para algum lugar nenhum.
Passei a madrugada inteira chorando, não sabendo para onde ir, nem mesmo o que fazer. Pensei
em tentar me jogar debaixo de algum carro, mas a rua estava deserta. Sentei num meio fio e,
chorando muito, vi toda minha vida. Desde quando era um garotinho, que tinha sonhos, desejos,
vontade de ser alguém na vida. Um garoto perfeito para seus pais, mas no fundo, um menino cheio
de problemas, pesadelos e diferente dos outros meninos da sua classe do primário.
Lembrei-me das coisas que fazia, do meu primo me beijando, das descobertas que tive. Toda
minha história de vida veio a tona, como se eu fosse morrer. Meu desejo era esse, que a morte me
levasse embora e que me mostrasse que eu nunca estivesse existido. Naquele momento, a única
coisa que eu não queria era estar vivo.
Senti em meu ombro direito o pesar de uma mão e, bruscamente olhei para ver quem era.
- Posso ajudar?
- Quem é você?
- Acho que isso não é importante você saber, o que aconteceu?
Fiquei em silêncio. Aquela presença, de forma estranha consegui me acalmar.
- Minha mãe descobriu... descobriu que sou gay.
- E você resolveu fugir de casa?
- Resolvi sim, e o que me deixa mais angustiado é saber que não vou mais poder voltar.
- As pessoas encaram o homossexualismo como uma doença, ou algo parecido. Todas são
hipócritas.
Ele sentou-se ou meu lado, e me tranqüilizou sobre toda a situação.
- Eu sou diferente. Devo mesmo ser um doente, não sou como as outras pessoas.
- Você não é diferente, nem doente. Isso é a sociedade hipócrita que diz. Seja feliz consigo
mesmo, e não falsamente feliz para que os outros vejam.
Mesmo, um pouco mais calmo, ao me lembrar de tudo o que estava acontecendo, ainda lagrimas
corriam na minha face.
- Jeferson, não chore.
- Como sabe meu nome? Quem é você?
- Se eu te contasse, você não entenderia e ainda me acharia um louco. Vamos, venha comigo.
Ficar sentado chorando não vai adiantar muita coisa.
Por impulsividade da situação, fui junto a ele.
- Jeferson, tente se acalmar e pensar no quanto você já é um vencedor. Enfrentar a vida, tentar
viver um grande amor, ser feliz ao lado de quem realmente se ame pode ser difícil, pode custar
um alto preço, até a sua própria vida. É difícil, eu sei, lutar contra tudo e todos, mas pense que
você não é o único a estar fazendo isso. Mesmo nesta tempestade, tente ver o sol, num
horizonte surgindo. As coisas podem melhorar, assim que você, desejar de coração, que
aconteçam. Procure pensar em coisas boas, em seu poder de ver diferente o mundo, ou de
simplesmente, sorrir quando tudo parece cair.
Cada palavra daquele homem mexia comigo. Parecia que ele sabia de tudo, como se fosse meus
pensamentos transformado em uma criação humana. Seus olhos brilhavam, e sua mão, ainda
sobre meu ombro me transmitia força de querer vencer e ser feliz.
Sentamos em um banco, próximos a uma praça. Não havia nenhuma pessoa na rua, somente o
barulho do vento, e os sons da noite nos acompanhando.
- Jeferson, olhe para céu. Veja quantas estrelas brilham.
Olhei e vi apenas algumas. O céu, naquela noite estava triste.
- Você vê apenas algumas estrelas, e ainda fracas né?
- Aham.
- Esta vendo aquela estrela que parece brilhar mais forte?
Quando ele falou isso, concentrei-me de tal maneira, que pude ver, algo mais, além de algumas
estrelas. Vários pontos, naquele céu azul brilhavam. De forma estranha, senti-me estar junto a
cada estrela. Pude observar que o céu não estava triste, como eu pensava, mas apenas precisava
de uma atenção maior. Consegui ver mais estrelas do que havia visto antes. Tudo isso me encheu
os olhos e me fez sentir melhor.
- Está vendo como olhar com atenção pode fazer a diferença? Não tente entender a vida pois
vai apenas perder tempo, mas tente ver nela, o que muitos não dão a mínima atenção. A
beleza dela está em você poder aprender a lutar e vencer nas suas batalhas. Viva a vida, e
tente sempre viver intensamente cada minuto dela. Tente ver em cada estrela, cada detalhe,
cada pontinho de luz que faz desse seu céu diferente de qualquer outro.
Fiquei por muito tempo vendo, e compreendendo as palavras que aquele homem tinha me dito.
Quando me percebi estava sozinho, e então me levantei, e tentei ver onde tinha ido aquele
homem. Não o encontrando, resolvi voltar para casa. Parecia flutuar pela rua. Uma sensação de
desabafo, autoconfiança e determinação encheram meu coração e me pôs a perceber que fugir,
não seria a melhor maneira de enfrentar meus problemas.
Cheguei em casa, e mal parecia que tinha saído. Era como se eu tivesse apenas pensado em sair,
mas isso não tivesse ocorrido. Deitei-me e adormeci.

Acordei com o sol tentando explorar meu quarto. Alguns raios pareciam querer entrar a força. Com
um disposição enorme, abri a cortina e a janela deixando-o entrar.
Olhei no relógio que marcavam 10:00am, levantei por completo da minha cama e saí para lavar o
rosto. Quando vi meu reflexo ao espelho, lembre de toda a noite que tive. Primeiramente achei
tudo um sonho, ou melhor, um pesadelo, porém ao reparar meu quarto vi minha mochila cheia de
roupa e coisas que eu havia posto.
Nesta hora, lembrei das palavras que aquele homem me havia dito. Liguei o som, e por incrível
estava passando “Meninos e Meninas” do legião urbana.
Fui tomar café, e liguei para o Ângelo.
- Ângelo?
- Oi Jeferson, tudo bem?
- Tudo. Quer dizer, quase tudo.
- Por quê?
- É que minha mãe descobriu...
- Descobriu o quê?
- Descobriu... que você é meu namorado. Ela achou uma daquelas cartinhas que você me
escreveu, e assinou Ângelo.
- Nossa cara, e agora?
- Sabe, aconteceu muita coisa. Parece meio sonho, mas consigo me lembrar de tudo. Ontem
tentei fugir de casa, mas encontrei um cara na rua e voltei para casa. Acho que era um ajno,
ou um espirito. Algo do gênero.
- Como? Você encontrou um cara? Um anjo? Um espirito?
- Calma Ângelo. Será que podemos nos ver para conversarmos?
- Claro. Mas hoje eu tenho prova no colégio e não posso faltar.
- Tudo bem, eu também não posso faltar o serviço. A gente se fala sem falta depois do meu
trabalho, tudo bem?
- Claro. Mas onde?
- Posso te esperar na frente do seu colégio?
- Aham. Combinado então.
- Ok. A gente se fala então depois das seis.
- Ok.

Trabalhei aquela tarde, como nunca. Cada problema que eu tinha de resolver, parecia que
naturalmente se resolvia. Até meu chefe reparou nisso. Encontrei com o Ângelo em seu colégio e
fomos dar uma volta na quadra. Contei a história toda a ele, e em meio a fantasia e realidade,
discutimos sobre o que tinha rolado.
- Sabe Ângelo, eu não sei mais o que fazer. Não sei o que virá pela frente.
- É uma situação bem delicada isso.
- Por que eu fui marcar bobeira deixando as tuas cartas na minhas coisas. Qualquer um poderia
ter pego e lido-as.
- Bom, agora provavelmente sua mãe converse contigo e te diga o que vai acontecer.
- Provavelmente. O ruim agora é ir para casa e fazer isso acontecer.
- Vai ser difícil, mas não insuportável.
Ironicamente ri, pois eu havia dito isso a ele um tempo atrás.
- Bom, me liga assim que você tiver novidades, ok?
- Claro que sim. Sabe Ângelo, você não quer fugir comigo para algum lugar? Irmos morar bem
longe daqui?
- Eu até queria. Isso é meu sonho, mas acho que fugir de nossos problemas, não é certo.
- Você parece até o cara que falou comigo ontem.
Rimos.
- Cara né? Sei, deve ser o outro.
- Capaz. É dificil de acreditar, mas aconteceu.
- Sei. Todos dizem isso. Apenas aconteceu.
Rimos.
- Até mais Jeferson e me liga tá?
- Ok. Até mais.
- Falou.

Cheguei em casa, minha mãe estava na minha avó. Peguei a chave com ela e fiquei no meu
quarto com a porta entreaberta. Ela fingiu que nada tivesse acontecido. Eu com o rádio ligado,
fazia o mesmo.
Aquela noite não foi diferente. Não trocamos uma palavra sequer e não vi meu irmão. Escovei os
dentes, e cedo fui dormir.
Fiquei pensando por muitas horas em tudo o que estava acontecendo. Se poderia ser diferente, ou
tinha mesmo de acontecer dessa maneira. Com a mesma escuridão que meu quarto estava, mil
pensamentos por segundo torturavam-me inoportunamente.
Ao mesmo tempo que eu estava querendo ver um sol neste horizonte, algo me dizia que muita
chuva ainda iria cair. Adormeci chorando.

Era sábado. Acordei tarde e fui tomar café. Minha mãe estava limpando a casa e não me olhava
um instante se quer. Não tive coragem de dizer qualquer coisa. Meio trêmulo, após terminar o café,
fiquei no meu quarto organizando minha bagunça.
Passei a tarde toda de sábado em meu quarto. Fiquei algum tempo na internet, e a noite, voltei
para o meu quarto para dormir. Esse sábado, sem nenhuma expectativa de intensidade acabou.
Mal pensava que ainda teria de falar com minha mãe sobre tudo isso.

Algum tempos se passou e eu e minha mãe estávamos começando a trocar algumas palavras,
apenas o necessário. Num inesperado instante, minha mãe sentou-se ao meu lado, no sofá e disse
se eu realmente estava namorando um garoto.
- Sim. É verdade.
- Por que você está fazendo tudo isso? Depois que saímos da igreja nossa vida virou um caus.
- Não foi por que saímos da igreja que tudo isso está acontecendo.
- Você não acredita em deus, não vai mais na igreja, não fica mais em casa. Eu não mereço
tudo isso.
- Sabe mãe, eu ia na igreja apenas por que você achava legal. Eu reprimia tudo isso que agora
está acontecendo. Qualquer hora isso iria acontecer.
Ela começou a chorar. Levantando-se, foi para o quarto deitar.
Fiquei por mais algum tempo na sala e fiz o mesmo. A primeira conversa havia acontecido e não
tinha sido tão ruim assim. Deitei-me e com muita dificuldade adormeci.
Capítulo Quinze

Passou-se alguns dias, e a poeira finalmente estava abaixando. O clima estava bem menos tenso
em casa, e chegou o dia em que o Ângelo veio aqui em casa com o simples intuito de conhecer
meus pais.
- Mãe, esse aqui é o meu amigo!
- Oi, tudo bem?
- Oi Sra Lúcia.
- Você é amigo do Jeferson da faculdade?
Eu entrei no meio da conversa.
- Mãe, esse é o Ângelo.
Percebi nela sua surpresa de conhecer o meu namorado. Apesar de ter ficado quase branca
quando disse que aquele garoto era o Ângelo, ela o tratou super bem e parecia que ele já era da
família.

Saímos e fomos no shopping. Encontrei o Neto, meu ex-namorado com o ex-namorado


reconciliado dele. Conversamos alguns instantes, porém eu e o Ângelo tínhamos pressa para
pegar a sessão das oito do cinema.

- Nossa, esse é o seu ex., Jeferson?


- Ahamm. E aquele garoto do lado dele era o ex. dele que agora voltou.
- Nossa, que confusão.
- Pois é, fazia tempo que não encontrava o Neto, destes últimos 6 meses, esqueci do mundo.
- Sei, quer dizer que está com saudades do Neto?
- Não é isso, mas parece estranho nos encontrarmos depois de tanto tempo.
- Tá, vou dizer que entendi.
- Ângelo, você sabe que eu te adoro e faço tudo por você. Pode ter certeza absoluta que eu amo
somente você.
- Sei, então prove!
- Quer mesmo uma prova? Quer que eu grite para todos ouvirem que eu amo, ou te de um beijo
daqueles aqui dentro do shopping?
- Não, melhor não. Eu sei que você é bem capaz de fazer isso. Tá eu acredito.
Rimos.

Após o cinema, fomos para um parque. Sozinhos, estávamos sentado num banco, observando o
céu e curtindo um ao outro.
- Sabe Ângelo. Você está sendo o cara com quem mais permaneci em toda minha vida.
- Engraçado, você também.
Rimos, pois eu era o primeiro namorado dele.
Eu estava com minha pasta do colégio e tirei para mostrar a ele, coisas que eu escrevia quando
estávamos distantes. Uma das folhas, de meus pensamentos, caiu aos pés dele, e ele mesmo fez
questão de ler.
- Ângelo?
- Deixe-me ler, quero ver.
- Não está terminado. Falta-me concluir.
- Cara, deixo eu dar uma nota para você.
- Ângelo?
- “Nos céus, ou em todo profundo mar, não agüento ficar a te esperar... Pois meu amor é tão
sedento, de qualquer firmamento, do seu olhar.”
- Ângelo, esta poesia está ridícula. Dá prá me devolver? Quando eu terminar, eu leio para você!
- “Não consigo parar de pensar, nesse seu jeito, nesse seu amor. Com certeza, nesse jogo, já
sou considerado vencedor. Pois tenho você, que pelo meu pensamento ecoa, simplesmente a
toa, me fazendo o cara mais feliz. Fazendo me ser, mas que tudo pois assim cheio de vida,
sem qualquer agonia, neste e qualquer outro dia, sei que estarás aqui, em meu coração.
Tornando-se eterno, nessa mais perfeita canção.”
- Ângelo? Pare!
- Calma Jeferson, eu já estou terminado. Nossa, você sente mesmo tanto amor por mim?
- Nunca me apaixonei tão perdidamente por alguém. Sinto-me seguro contigo.
- Muito boa poesia, pena que você ainda não tenha terminada. Me dá um beijo?
- Não, só por que você foi desobediente.
- Ah, tio?
- Tio é o cunhado da tua mãe!
Rimos
- Um só vai.
- Não.
- Por favor, tio.

Nossos momentos pareciam ser perfeitos. Adorávamos um ao outro, e como anjos, naquele
silêncio divino, namorávamos no mais puro e singelo amor.
Apesar de toda essa promiscuidade que mundo gay parece trazer consigo, eu e o Ângelo
tornávamos exceção perfeita de qualquer semelhança ao tão comentado mundo. Amigos e
amantes, criávamos um vinculo perfeito para um uma sociedade tão hipócrita, constituída de tanta
falsidade e egoísmo.
O que eu mais admirava nele, era a forma com que tratava todos os dogmas que a sociedade nos
impunha. Como, se tudo fosse normal e natural, ele me trazia uma segurança inabalável. Meus
pensamentos não me torturavam como antes, e minha vida, agora transformada e bem decidida,
me fazia acreditar que realmente minha sorte existia, e fielmente, para este ano, cumpriria meu
lema de viver intensamente cada dia, e de cada dia, o máximo de cada momento.
Após namorarmos no parque fomos para a casa dele. Seus pais tinham viajados e felizmente
poderíamos namorar tranqüilamente, sozinhos.
Acabei por dormir na casa dele. Aquela noite, amamos um ao outro como nenhum outro casal
normal da sociedade fariam.
- Bom dia Gatinho?
- Bom dia Jeferson, dormiu bem?
- Com você... acho que está noite dormi com um anjo de verdade.
- Anjo? Onde que eu não vi?
Dei um beijo nele.
- Aqui. Esse meu anjo chamado Ângelo.
- Nossa, agora me super estimei. Sabe Jeferson, foi muito bom termos dormido juntos. Essa
noite foi a mais especial para mim.
- Hummm? Sei...
Nos abraçamos e ficamos por horas deitados.
- Cara, meus pais podem chegar. Já pensou se eles nos pegam assim?
- Nossa, provavelmente seu pai nos mataria.
- Acho que sim.
Tomamos um banho, nos arrumamos e fomos para minha casa. Chegando lá, passamos a tarde
inteira trancados no meu quarto pois meus pais tinham ido para a chácara do meu tio. Toquei
algumas música para ele no violão, e ainda por cima, cantei uma das minhas poesias. Nos
amamos muito, e ficamos tirando de cada segundo, o melhor.

Parecia que realmente eu tinha encontrado o amor da minha vida, pois éramos tão interligados,
seus e meus pensamentos pareciam se encaixar perfeitamente como peças perfeitas de um
grande quebra-cabeça.
Deitado e pensando em tudo o que estava acontecendo, nas dificuldades e nas enormes alegrias
que a vida nos apresentava, ficava de alguma forma saber se tudo isso era mesmo um sonho, e
que se fosse, ninguém me acordasse. Estava mesmo apaixonado, como nunca estive. Seus olhos
faziam meu coração encher ainda mais de júbilo, e seus toques, suas doces mãos, seu jeito de ser
me deixavam cada vez mais apaixonado.
Por horas, ficava em meu quarto imaginando nós dois juntos, quem sabe morando juntos. Meus
desejos de criar um vinculo maior era mais intenso a cada momento, e por estranho que pareça,
cada vez que pensava ou mesmo pronunciava seu nome era como sinos angelicais soassem
provindo de algum lugar desconhecido, talvez do céu.
Capítulo Dezesseis

Alguns meses se passaram, era final de ano e estávamos próximos do reveillon. Combinamos de
passar o fim de ano juntos e sozinhos. De forma estranha, sem perguntar o por quê, nossos pais
nos deixaram fazer o que quiséssemos. Fomos para o litoral, alugamos uma casa muito legal, onde
permanecemos dois dias.
Estes momentos foram, inegavelmente os mais incríveis de todo o nosso namoro. A alegria que eu
sentia por estar com quem eu mais amava era tamanha. Sentir-se o cara mais feliz do mundo, por
ter a sorte de ter encontrado a felicidade, e fazer dela seu namorado.
- Ângelo, eu amo você.
- Eu também te amo Jeferson.
- Sabe, custe o que custar, esteja onde você estiver, eu nunca, mas nunca mesmo vou esquecer
de você. Vou te amar sempre, e prometo fazer da sua vida muito feliz.
- Nossa, o que está te acontecendo? Que romance todo é esse?
- Cara, eu te amo muito e você não sabe como isso está me fazendo bem.
- Jé, eu estou sendo muito feliz por estar ao seu lado, e também, custe o que custar estarei
contigo sempre e que esse sempre dure por muito tempo.
- Por muito tempo.
Brindamos, com taças champanhe ao som da suave MPB brasileira.

Acordei junto a ele no outro dia. O sol que brilhava lá fora era tão sublime, parecendo que o dia foi
feito especial para nós. Acordei o Ângelo com muitos beijos, e acabamos tomando banho juntos.
Sua pele, seu toque, sua maneira de ser me deixava cada vez mais louco por ele.
Por horas ficamos conversando no quarto antes de irmos comer alguma coisa. Entre beijos,
abraços e vontade de que o tempo não passasse resolvemos ir comer algo na borda da praia.
Paramos em uma lanchonete muito legal, com algumas pranchas desenhadas nas paredes, em
meio a conchas e frutos do mar.
- O que o senhores gostaria de comer?
- Dois sucos de laranja acompanhados por dois x-saladas.
- Ok. Já lhes trago.
Eu e o Ângelo ficamos de mãos dadas dentro da lanchonete e demos até uns beijos lá. O garçom
nos viu, porém fingiu que nada tinha acontecido.
- Cara, eu te amo demais.
- Eu também. Cada momento está sendo incrível. É como se fosse um livro, tudo perfeito, cheio
de magia, encanto e amor.
Comemos e fomos para a beira da praia. Sentado na areia, entre beijos roubados e escondidos
resolvemos tomar banho de mar. Brincávamos muito dentro e fora da água. Corríamos feito loucos
por toda a praia, e enfim, muito cansados, deitamos na areia, olhando aquele céu completamente
azul.
- Ângelo, você é incrível.
- Você que é. Corre como se tivesse fugindo da prisão.
- Anos de prática meu amigo.
Rimos.
Sob o céu novamente nos beijamos. Já sentados na areia ficávamos apreciando a imensidão
daquela praia. Olhos fitados no horizonte víamos pequenos barcos e até um golfinho perdido.
Ao nos levantarmos, ficamos próximos a água. Com um pedaço de galho nas mãos escrevi nossos
nomes na areia. “Jeferson e Ângelo” envolto a um enorme coração. Porém veio a água e apagou
tudo. Inspirado, olhei para ele, e quase boca a boca, disse:
- Pois é, escrevi nossos nomes na areia, vieram as águas e apagaram. Escrevi nossos nomes
em meu coração e ali eles ficaram.
Num brusco abraço rolamos na areia. Um beijo veio apaixonadamente registrar nossos momentos.
- Te amo Jeferson. Te amo muito...
Na praia, poucas pessoas nos olhávamos assustadas. Porém não senti vergonha, nem receio de
que alguém não fosse gostar do que eu e o Ângelo estávamos fazendo. Éramos namorados e
tínhamos o direito de namorarmos do jeito que quiséssemos.
Voltamos para a casa que alugamos. Naquela noite nos amamos como loucos. Assistimos a lua e
suas estrelas da varanda da casa e em meio a beijos e abraçamos apaixonados, dormimos na
rede.

- Bom dia meu amor?


- Humm?
- Acorda Anjo. Esse é nosso último dia na praia e hoje é dia 31, último dia do ano.
- Não tô afim de acordar... quero dormir mais.
- Tudo bem então. Vou a praia buscar um gatinho prá mim.
- Quando você encontrar, passa o meu telefone para ele também.
Com alguns tapinhas nas suas costas, rimos e acabei acordando.
Tomamos café, e logo saímos para curtir nosso primeiro reveillon juntos.
Correndo pela água, pela areia e por toda a praia, parecíamos filme de Shakespear. Nada, mas
nada mesmo tinha o direito de nos separarmos. Seus olhos me observavam em meio a toda
aquela alegria. Sem nenhuma vergonha de viver esse amor, nos beijávamos sempre quando
queríamos. Corremos pela praia, sem nenhum destino certo, quase não conseguia alcança-lo.
Ele resolveu entrar no mar.
- Ângelo? Não vá tão longe.
- Capaz, aqui dá pé. Acho que tem um banco de areia.
- Ângelo... Você está indo muito longe.
- Eu sei nadar. Não se preocupe.
- Eu sei disso, mas com o mar a gente não se brinca.
Ele não me deu muita atenção. Foi quando, de um mergulho eu voltei para ver onde ele estava, e
vi apenas seus braços pedindo socorro.
- Ângelo? Ângelo?
Tentei nadar até onde ele estava, porém quando cheguei não mas o via pela água. Num mergulho
consegui alcançar sua mão. Com grande esforço, trouxe-o até a superfície e com muita, mais
muita dificuldade saímos daquele buraco. Já na areia tentava acorda-lo.
- Ângelo, acorda. Por favor Ângelo. Não me deixa. Eu preciso de você.
Tentei fazer respiração boca a boca, porém nada adiantava. Numa tentativa de faze-lo respirar
comecei uma massagem cardíaca.
- Vamos Ângelo, acorda. Vamos.
Algumas pessoas daquela praia me ajudaram a socorre-lo, e depois de alguns minutos uma ajuda
médica chegou.
Minhas mãos tremiam muito. Culpava-me por tê-lo deixado ir mais longe na praia. Culpava o mar
de tê-lo levado consigo. Chorava ao vê-lo sendo levado para a ambulância.
- Ângelo, acorda. Preciso de você. Cara, por quê você fez isso?
Os médicos conseguiram fazê-lo respirar, porém tinham de levá-lo o mais rápido possível para um
hospital.
- Ele vai ficar bem? Me digam, ele vai ficar bem?
- Qual a idade dele? Você é primo ou irmão dele?
- Ele tem 18 e sou namorado dele.
O médico me olhou meio espantado.
- Qual seu nome garoto?
- Jeferson. Por favor, façam-no viver.
- Estamos tentando. Ele já está respirando e isso é muito bom. Calma Jeferson, ele vai ficar
bom.
- Ele não pode morrer. Não pode.
- Calma Jeferson, o Ângelo não vai morrer.
Chegamos ao hospital e levaram-no para o centro cirúrgico. Sentado, de cabeça baixa e chorando
muito, eu ficava tentando imagina-lo saindo andando daquele hospital. De forma muito estranha,
me veio aquele dia no ônibus, quando o conheci. Parecia que era ontem. Via seus olhos me
olharem, e suas expressões tentando falar comigo. E quando ele perguntou que achava que me
conhecia de algum lugar. De um jeito que nunca tinha me visto. Era certo que aquilo era só
pretensão para podermos conversar. Pensava comigo todos estes momentos, e mais meu coração
rugia de dor. Ele não poderia morrer. Não mesmo. Muito cansado e totalmente solitário olhei a
minha frente. Uma senhora tinha acabado de receber a notícia que seu marido tinha morrido. Eu
não me contive. Longas e dolorosas lágrimas correram pelos meus olhos. Momentos como o da
praia, aquele sol se pondo, aquelas brincadeiras na água, aqueles beijos roubados me faziam
sofrer mais ainda. O Ângelo não podia me deixar. Comecei então a implorar para meu destino,
para minha vida, mostrando o quanto eu o amava e precisava dele comigo. Pelo corredor daquele
hospital, ouvia-se choros, pranto e muita dor. Ao encostar-me no sofazinho onde eu estava
sentado acabei adormecendo.

- Senhor Jeferson? Senhor Jeferson, acorde!


- Humm... onde estou?
Como em questão de segundo me lembrei do que tinha havido ocorrido.
- Onde está o Ângelo? Cadê o Ângelo?
- Calma senhor Jeferson, ele está bem.
- Onde ele está? Quero vê-lo!
- Calma, ele está descansado. Venha que lhe mostro o quarto. Cuidado para não acorda-lo.
Cheguei no quarto e o vi cheio de tubos de oxigênio. Segurei em sua mão e agradeci ao meu
destino por tê-lo mantido vivo. Senti minha mão sendo levemente apertada.
- Oi Ângelo. Sou eu, o Jeferson. Você vai ficar bem. Eu sei disso.
Seus olhos abriram lentamente, e de dentro deles caíram algumas lágrimas. Ele tentou falar, mas
aconselhei-o a não fazer esforços. Porém ele insistiu.
- Jeferson, eu te amo.
- Eu também te amo Ângelo. Vamos voltar para casa em breve, mas não faça esforço, você tem
de se recuperar logo.
- Jeferson, diga a meus pais que os amos.
- Pare Ângelo, você vai dizer isso. Você vai ficar bom, você vai ver.
- Diga a eles que os amo, por favor.
- Ângelo, por favor. Pare com isso, você vai sair daqui e vai dizer isso a eles.
- Jeferson, eu te amo muito. Viva sua vida.
Lágrimas caíram dos meus olhos. Apertei sua mão com muita intensidade. Ele sorriu, e expressou
um beijo.
- Jeferson, você foi quem eu mais amei na minha vida. Te amo.
- Ângelo, eu também te amo e quero ficar contigo. Por favor Ângelo, prometa-me que você vai
ficar bem, prometa-me!
A enfermeira chegou e verificou os aparelhos e de um jeito assustador chamou os médicos com
urgência.
- O que está acontecendo? Ângelo, preciso de você... Cara, fica comigo.
A enfermeira me afastou dele e o levaram novamente para o centro cirúrgico. Tentei entrar junto,
porém me barraram, informando-me que ele iria ficar bem.
Sentado novamente, com o coração totalmente dilacerado, chorava e suspirava o que tinha
acontecido. O timbre fraco de sua voz ainda ecoava em meu ouvido. Algum tempo depois recebi a
resposta de que ele não tinha sobrevivido. Chorei muito, não conseguia imagina-lo sem ele, e ele
sem mim. Meu coração não suportaria tal falta e a vontade de me matar era enorme. Os pais deles
chegaram e me abraçaram. Choraram muito também ao receber a notícia da morte dele. No dia 31
de dezembro de 2002, o meu namorado havia realmente falecido.

Passou-se alguns dias, e os pais do Ângelo, até aquele momento, não ousaram a perguntar se eu
era namorado do Ângelo, ou algo similar. Deitado em minha cama, sem nenhuma força para
levantar, desfalecia minhas lembranças e saudades do Ângelo.
Não conseguia entender o por que do destino nos separar. Mas sabia que isso não iria ficar assim,
minha mente me mostrava que o destino não nos tinha separado. O amor que eu tinha por ele era
maior que minha própria vida.
Olhava o escuro de meu quarto. Pensava quantas coisas eu já tinha vivido até ali. Quantos
problemas eu tinha enfrentado, e quantas batalhas vencidas.
Naquele mesmo escuro, onde noites inteiras eu fiquei querendo um amor como o do Ângelo. Onde
noites chorei, sofri e me desejei estar com um verdadeiro amor.
Naquele mesmo escuro, uma luz apareceu. Vi o rosto do Ângelo sorrindo e dizendo, “eu te amo
Jeferson”. Chorei mais uma vez e indignei-me por estar sem ele. Na saudade e na lembrança,
minhas emoções foram maiores que minha própria vida.

Estes fragmentos foram encontrados no computador de Jeferson, junto a algumas outros


documentos, músicas e poemas. Ao lado de sua cama, foi encontrado um bilhete:

“ Aos pais do Ângelo: Em seus últimos suspiros, disse-me ele que os amava, e que era para dizer-
lhes isto. O Ângelo foi um garoto muito inteligente, bem educado, romântico, encantador. Ele
realmente ensinou-me a viver cada minuto, instante e momento. Aprendam com ele que a vida
deve ser vivida. Porém o preço dela, cabe a cada um avaliar. Minha vida pertencia a ele, e não
sinto-me capaz de seguir a diante sozinho. Essa saudade me queima como fogo, me arde como
ferida que sei, nunca irá cicatrizar.

Aos meus pais: eu os amo. Sei que fiz muitas coisas erradas, que queria estar com vocês por toda
a vida. Agradeço-os por terem me ensinado, me feito aprender o que não sabia. Adoro vocês e
amo meu irmão também. Pelas brigas, pelas comédias, isto é, por tudo o que passamos juntos.
Desculpe não tê-los orgulhados com minha opção sexual. Desculpe-me por ter vivido do meu jeito,
e muitas vezes não tê-los ouvidos. Mas acreditem, de todos eu sei, fui uma estrela que brilhou, e
nessa constelação humana, ainda brilho. Amos vocês.
A morte é apenas uma questão de conhecimento. Não estou suicidando-me e sim, ela veio me
buscar. Não penses dela como uma coisa má. Estou juntando-me ao meu amor, e sei, isso será
eterno. A complexidade da vida termina quando conseguimos vivê-la mais loucamente possível.
Quando conseguimos ultrapassar limites e vencermos. Ainda vivo, ainda me encontrarás pelas
ruas, pelos céus, pelas praias, pelo mar. Ainda acredito que sou diferente, um anjo. Bato agora
minhas asas, e ao encontro de meu amor, seguirei. Vivam a vida, curtam cada minuto. Quando
chegar o seu momento você saberá. Não tenha medo de arriscar-se. Mostre que você é, mesmo
que para essa sociedade hipócrita, você não passe de um indivíduo sem nenhuma significado.
Mostre a ela que você pode ser você mesmo, e com isso, pode vencer tudo.
Com amor, e em seus corações.

Jeferson”

Seu corpo não foi encontrado, a cama estava desarrumada e vazia. Seu quarto trancado por
dentro e o mais intrigante é que sua janela havia grades. A saudade afetou a todos de sua família.
Talvez ele estivesse fugido, e voltaria. Pensamos errado, ele nunca mais voltou. Depois de 3 anos
sem ele, ainda o vemos caminhando pelas calçadas, nas estradas, ou nos céus. Sua lembrança e
sua memória foram registradas, e aprendemos que devemos viver a vida, pois há um sol lá fora
agora que parece nós convidar para fugir para algum campo, ou praia... Deixe essa euforia do
trabalho que hoje parece estar tão estressante e aprecie a paisagem que o este dia trás.
“Incrível como nossas vidas, se bem analisadas, sempre estamos correndo em busca de alguma
coisa para melhorar algum ponto crítico de nossa personalidade. Seja esse, o amor, o lado
financeiro, o da amizade, etc. Somos garotos meio complicados, que por diversas vezes, perdemos
grandes chances de nos darmos bem, por puro medo, ou falta de iniciativa própria.”

“Me considero um cara de muita sorte, mas ao mesmo tempo, de puro azar por sempre ter as
coisas que nunca quis. É estranho dizer o que penso, as vezes, me torno incompreensível, talvez,
um dia, me transforme num cara de sucesso... é o que, neste momento preciso.”

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