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A ESCOLA DOS NATIVOS DIGITAIS: ENTRE TICs E MÍDIAS1

Murillo Pereira Azevedo2

RESUMO

Antes da criança chegar à escola, já passou por processos de educação importantes. Os alunos de
hoje não conhecem o mundo antes da popularização dos videogames, smartphones, redes sociais e
do Google. Os estudantes de hoje não são as pessoas que o sistema educacional foi delineado para
ensinar. A sociedade contemporânea adotou as TICs, em especial a Web 2.0, com muito
entusiasmo, porém a educação ainda observa à distância e suspeita das supostas vantagens das
novas tecnologias. Este ensaio pretende destacar a importância das mídias e das TICs na rotina da
escola. Os jovens têm maior empatia cognitiva 
 e expressiva com as tecnologias e com os novos
modos de perceber o espaço e o tempo. Há de se atentar que mais importante que o conteúdo seja a
forma de se comunicar com os alunos. Ensinar e aprender acontece numa interligação simbiótica,
profunda, constante entre o que chamamos mundo físico e mundo digital. A educação escolar
precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, as mídias e as TICs tem papel
fundamental nessa transição. O vídeo, principal exemplo de mídia neste trabalho, flutua entre a
ficção e o real, entre o filme e a televisão, em vias informáticas e digitais, nesse espaço entre a arte
e a comunicação. É impensável não usar as novas tecnologias auxiliando no processo formal de
educação e considerar os conhecimentos dos alunos sobre as TICs é responsável pedagogicamente
dada modernização tecnológica por qual passa sociedade contemporânea.

Palavras-chave: mídias; TICs; comunicação; novas tecnologias; nativos digitais.

1. INTRODUÇÃO

O modelo educativo vigente (tradicional) é escoltado por um sistema vertical, autoritário na


relação professor-aluno e linearmente sequencial no aprendizado. A educação no mundo em transito
exige transformar dos espaços, das metodologias e dos modelos de aprendizagem há muito
reproduzidos. Escolas atentas às mudanças buscam alternativas a oralidade em sala de aula,
simplesmente porque os alunos não aceitam o modelo hierárquico, catedrático e uniforme de
aprender.

Os Nativos Digitais são acostumados a receber informações muito rápido. Eles gostam de
processos paralelos e multi-tarefa. Eles preferem os gráficos antes do texto ao invés do
oposto. Eles preferem acesso aleatório (como hipertexto). Eles funcionam melhor quando
em rede. Eles prosperam em gratificação instantânea e recompensas frequentes. Eles
preferem jogos ao trabalho "sério". Mas Imigrantes Digitais normalmente têm muito pouco
apreço por estas novas competências que os nativos têm adquirido e aperfeiçoado apesar de
anos de interação e prática. Essas habilidades são quase totalmente estranhas para os
imigrantes, que aprenderam - e por isso optam por ensinar - lentamente, passo a passo, uma
coisa de cada vez, individualmente, e acima de tudo, a sério (PRENSKY, 2001, p. 3,
tradução nossa).

1
Trabalho inscrito para o GT Comunicação e Educação, do VIII Encontro de Pesquisa em Comunicação –
ENPECOM.
2
Mestre em Ensino de Ciências, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, murilloazevedo@hotmail.com
Integrar alunos e professores ao mundo das tecnologias digitais conectadas é um caminho
importante para prepará-los para o mundo atual, para uma sociedade complexa, que exige domínio
das tecnologias de linguagens e recursos digitais.
Como é sabido, nos anos 1980 Vygotsky, Novak, Freire, Ausubel, tornaram-se referências para
a estruturação e fundamentação teórica do construtivismo social, as bases teóricas construtivistas
justificaram ações pedagógicas que se estenderam à educação em geral - e, em particular, ao ensino
das ciências (LABURÚ et al., 2013) - e motivaram pesquisas sobre metodologias educacionais
ativas pautada no estudante como elemento basilar na construção do próprio conhecimento,
trabalhos que consideram o aluno o ponto de partida de toda a aprendizagem.
Antes da criança chegar à escola, já passou por processos de educação importantes: pelo
familiar e pela mídia eletrônica. É prudente perceber que os estudantes também são educados pela
mídia, principalmente pela televisão. “[...] a relação com a mídia eletrônica é prazerosa - ninguém
obriga - é feita através da sedução, da emoção, da exploração sensorial, da narrativa” (MORÁN,
2007, p. 4). Vale lembrar que os Nativos Digitais (PRESKY, 2001) não conhecem o mundo antes
da popularização dos videogames, smartphones, redes sociais e do Google, porém insistimos em
oferecer-lhes uma educação bancária planejada para a cultura do iluminismo e na circunstancia
econômica da revolução industrial. Os estudantes de hoje não são as pessoas que o sistema
educacional foi delineado para ensinar (idem). Os alunos crescem acompanhando de perto o
desenvolvimento tecnológico, enfeitiçados pelo conforto que proporcionam cotidianamente os
aparatos técnicos e a internet. As ações humanas são fortemente re-significadas pela influência
desses dispositivos bem como suas linguagens e nossa rotina é totalmente permeada por eles.
Marc Presnky usa o termo Nativos Digitais para identificar as pessoas que são “falantes nativos” da
linguagem digital dos computadores, vídeo games e internet. O autor chama atenção para o fato de
que os alunos de hoje – do maternal à faculdade – representam as primeiras gerações que cresceram
com esta nova tecnologia. “Eles passaram a vida inteira cercados e usando computadores, vídeo
games, tocadores de música digitais, câmeras de vídeo, telefones celulares, e todos os outros
brinquedos e ferramentas da era digital” (ibidem, p. 1).

2. A APROPRIAÇÃO DAS TICs E DAS MÍDAS POR PARTE DA ESCOLA

Para Morán (2013) a educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas
linguagens, é fundamental remodelar os espaços escolares tão rígidos, para espaços mais abertos,
onde lazer e estudo estejam mais integrados, as mídias e as TICs (Tecnologias da Informação e
Comunicação) tem papel fundamental nessa transição. Para Buckingham “mídias” são todos os
modernos meios de comunicação – televisão, cinema, vídeo, fotografia, rádio, publicidade, jornal e
revistas, CDs, jogos de computador e Internet, incluindo também o livro por tratar-se de uma
“mídia” que nos dá uma versão ou representação do mundo (PIRES, 2010).
A sociedade contemporânea, que pode naturalmente ser classificada como globalizada, tendo
em vista a rápida e constante interação decorrente dos avanços na área de telecomunicações, adotou
as TICs, em especial a Web 2.0, com muito entusiasmo, porém a educação ainda observa à distância
e suspeita das supostas vantagens das novas tecnologias. Para Dorigoni e Silva, (2008) os
professores estão sendo convocados para entrar neste novo processo de ensino e aprendizagem,
onde os meios eletrônicos de comunicação são a base para o compartilhamento de ideias e projetos
colaborativos. O sistema educacional e as escolas estão cada vez mais a permeados pela internet e
as redes são importantes no processo pedagógico, que ignora as paredes da escola e oportuniza que
aluno e professor possam se informar sobre novos mundos, culturas, realidades, desenvolvendo a
aprendizagem através do intercâmbio e aprendizado colaborativo. (idem). Para Morán (2013) é cada
vez mais importante a comunicação entre iguais, dos alunos entre si, trocando informações,
participando de atividades em conjunto, resolvendo desafios, realizando projetos, avaliando-se
mutuamente, assim a educação se horizontaliza e se expressa em múltiplas interações grupais e
personalizadas. “Enquanto permanecer a verticalidade na relação docente e a sequencialidade no
modelo pedagógico, não haverá tecnologia capaz de tirar a escola do autismo em que vive. Por isso,
é indispensável partir dos problemas de comunicação antes de falar sobre os meios”. (MARTIN-
BARBERO, 2000, p. 52-53).

3. A COMUNICAÇÃO COM NATIVOS DIGITAIS

Para discutir sobre a comunicação no âmbito escolar é fundamental entender os tipos de


dinâmica que movem as mudanças na sociedade. A primeira manifestação de transformação do
ecossistema comunicativo é a relação 
 com as novas tecnologias, muito mais claramente visíveis
entre os 
 mais jovens. O ecossistema comunicativo constitui o entorno educacional difuso de
informações, linguagens e saberes, e descentralizado pela relação com dois centros – escola e livro
– que ainda organizam o sistema educativo vigente. (DA SILVA e DE CARVALHO, p. 88). Os
jovens têm maior empatia cognitiva 
 e expressiva com as tecnologias e com os novos modos de
perceber o espaço e o tempo, a
 velocidade e a lentidão, o próximo e o distante (MARTIN-
BARBERO, 2000). Trata-se de uma nova experiência cultural, novos modos de perceber e de sentir
que se choca com a forma de experimentar dos adultos. Existe, por exemplo, na velocidade e na
sonoridade a capacidade de distanciar os jovens dos adultos. Houve a aceleração do discurso
televisivo, da publicidade, dos videoclipes dos relatos audiovisuais e na maneira como os jovens se
movem entre as novas sonoridades: “essas novas articulações sonoras que, para a maioria dos
adultos, marcam a fronteira entre a música e o ruído, são, para os jovens, o começo de sua
experiência musical” (ibidem, p. 54). Há de se atentar que talvez mais importante que o conteúdo
seja a forma de se comunicar com os alunos. É fundamental que os professores aprendam a se
comunicar na “língua e estilo” dos estudantes de hoje. Isto não significa mudar o significado do que
é importante, mas usar uma linguagem capaz de produzir sentido para o aluno considerando o que
ele já conhece.
Existe resistência, dúvida e medo das consequências de servir-se das novas tecnologias na
escola. Mas os adultos espertos assumem que o “novo mundo” não lhes é familiar e tiram vantagens
de suas crianças para ajudá-los a aprender e integrar-se. “Os imigrantes não-tão-espertos (ou não-
tão-flexíveis) passam a maior parte de seu tempo lamentando de como eram boas as coisas em seu
‘velho país’ ”(PRENSKY, 2001, p. 4, tradução nossa). Aqueles que não nasceram no mundo digital,
mas em alguma época de suas vidas, ficou fascinado e adotou muitos ou a maioria dos aspectos da
novas tecnologias são chamados de Imigrantes Digitais (ibidem).

4. A AMPLIAÇÃO DA SALA ESCOLA

A tecnologia não agrega somente novos artefatos e novos modos de fazer, introduz também
outra dinâmica em que o tempo e o espaço são reelaborados, produzindo novas formas de
relacionamento entre as pessoas. (PIRES, 2010, p. 283). O que a tecnologia traz hoje é integração
de todos os espaços e tempos, o ensinar e aprender acontece numa interligação simbiótica,
profunda, constante entre o que chamamos mundo físico e mundo digital. Segundo Morán (2013)
não existe separação, o que há é uma ampliação do conceito sala de aula, a educação formal é cada
vez mais híbrida porque não acontece só na sala de aula, mas nos múltiplos espaços do cotidiano,
que incluem os digitais. Para Barbero (2014) isso não significa o desaparecimento da escola como
espaço-tempo, mas demonstra a necessidade de transformação da escola em viver com esses saberes
sem-lugar-próprio para que, dessa forma, as modalidades e os ritmos de aprendizagem possam
equiparar-se ao novo modelo de comunicação escolar e ao ambiente tecnocomunicativo.

5. AS POSSIBILIDADES DO VÍDEO

No livro Cinema, vídeo, Godard (2004), o autor Philippe Dubois aborda as possibilidades do
vídeo tanto como uma arte em si, com linguagem própria, como suas relações com o cinema, faz
também um estudo sobre o estatuto do vídeo na obra. Em um dos ensaios dessa obra, chamado Por
uma estética da imagem de vídeo, o autor afirma que o vídeo sempre teve problemas de identidade.
Para Dubois essa antiga última tecnologia, que parece menos um meio em si do que um
intermediário, ou mesmo um intermédio, tanto em um plano histórico e econômico quanto em um
plano técnico. Em um plano histórico e econômico dado a gênese vídeo “entre o cinema, que o
precedeu, e a imagem infográfica, que logo o superou e alijou, como se ele nunca tivesse passado de
um parêntese frágil, transitório e marginal entre dois universos de imagens fortes e decisivos”
(ibidem, p. 69). Em um plano técnico porque o vídeo pertence à imagem eletrônica, embora a sua
seja ainda analógica. Ou estético, ele se movimenta entre a ficção e o real, entre o filme e a
televisão, entre a arte e a comunicação etc. Os únicos terrenos em que o vídeo foi verdadeiramente
explorado em si mesmo, em suas formas e modalidades explícitas, foram o dos artistas (a videoarte)
e o da intimidade singular (o vídeo familiar ou o vídeo privado, o do documentário autobiográfico,
entre outros. Não está fixo em um campo constitui, portanto, um ‘pequeno objeto’, flutuante, mal
determinado, que não tem por trás de si uma verdadeira e ampla tradição de pesquisa. (ibidem).
Esse lugar entre, intermediário, ocupado pelo vídeo, nos parece extremamente interessante.
Para o autor, a problemática do vídeo leva à questão dos desafios da tecnologia no mundo das artes
da imagem. Pensando em termos de etimologia e lexicologia, Dubois afirma que a palavra vídeo é
mais do que um nome que designaria um objeto dotado de consistência própria e identidade firme
(p. 71).

[...] um termo que podemos qualificar de anexo, algo que intervém na linguagem
tecnológica ou estética como uma simples fórmula de complemento, trazendo apenas uma
precisão (um qualificativo) a algo outro já dado, dotado de existência prévia e identidade
estável – algo de outra ordem quase sempre anterior e estabelecido. (idem).

O termo vídeo funciona como uma espécie de sufixo ou prefixo, aparecendo antes ou depois de
um nome: videogame, videoclipe, tela de vídeo, etc. Por outro lado, video (sem acento) é também
“de um ponto de vista etimológico, um verbo (video, do latim videre ‘eu vejo’). E não de um verbo
qualquer, mas do verbo genérico de todas as artes visuais, verbo que engloba toda a ação
constitutiva do ver: vídeo é o ato mesmo do olhar (ibidem).
Assim, o vídeo está presente em todas as outras artes da imagem, independente de seu suporte e
sua constituição, pois todas estão fundadas no princípio do “eu vejo”. Nesse sentido, mesmo que
seja ambíguo e que, conceitualmente, não se constitua em um corpo próprio, o vídeo é “o ato
fundador de todos os corpos de imagens existentes” (ibidem, p. 72). Em latim, vídeo é um verbo
conjugado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo ver. É o ato de olhar
sendo exercido por um sujeito em ação. Implica uma ação em curso (um processo), um agente
operando (um sujeito) e uma adequação ao tempo presente: “'eu vejo' é algo que se faz ao vivo, não
é o ‘eu vi’ da foto (passadista), nem o ‘eu creio ver’ do cinema (ilusionista) e tampouco o ‘eu
poderia ver’ da imagem virtual (utopista)” (ibidem, p. 71). Daí um certo paradoxo da palavra vídeo,
designando ao mesmo tempo o objeto e o ato que o constitui: uma imagem-ato. Vídeo, lugar de
todas as flutuações. Ao falarmos em vídeo falamos de uma técnica ou de uma linguagem? De um
processo ou de uma obra? De um meio de comunicação ou de uma arte? De uma imagem ou de um
dispositivo? Nesse lugar entre, ambíguo, o autor situa o vídeo.
 Situado como imagem, estetizado,
acaba ocultando sua outra face, a de processo, dispositivo, meio de comunicação. Pensando
historicamente, o autor o situa entre o cinema e as tecnologias digitais e informáticas. Cinema como
arte da imagem que atua sobre o vídeo. Últimas tecnologias informáticas e digitais, como
dispositivos, sistemas de transmissão que o prolongam, nesse espaço entre a arte e a comunicação, a
esfera artística e a midiática, o vídeo se movimenta (AZEVEDO, 2014, p. 23).
O autor aponta problemas ao se transpor a linguagem pensada para analisar a imagem
cinematográfica para a análise da imagem eletrônica já que a transposição não é neutra. Para os fins
dessa pesquisa, interessa a afirmação de que a construção de uma narrativa (ficção com
personagens, ações, organização no tempo, etc) não representa o modo discursivo dominante no
vídeo. O gênero narrativo e ficcional existe no campo das práticas videográficas, mas não é o
gênero majoritário.

Em vídeo, os modos principais de representação são, de um lado, o modo plástico (a


‘videoarte’ em suas formas e tendências múltiplas) e, de outro lado, o modo documentário
(o ‘real’ – bruto ou não – em todas as suas estratégicas de representação). E sobretudo – é o
que os une contra a transparência -, ambos com um senso constante do ensaio, da
experimentação, da pesquisa, da inovação. Não por acaso, o termo mais englobante que se
escolheu para falar desta diversidade de gêneros das obras eletrônicas foi videocriação
(DUBOIS, 2004, p. 77).

Existe uma espécie de linguagem ou estética videográfica expressa a partir das práticas
videográficas. Alguns dos aspectos apresentados: a mixagem de imagens (envolvendo a
sobreimpressão, o jogo das janelas e a incrustação). Os parâmetros utilizados para definir a imagem
cinematográfica passam por um tal deslocamento teórico para se falar do vídeo, que é preferível não
apenas mudar os termos, mas compreender a amplitude desse deslocamento. O vídeo, ao instaurar
novas modalidades de funcionamento no sistema das imagens, instaura uma nova estética. (idem).

6. PESQUISAS CONSTRUIDAS SOBRE O AUDIOVISUAL.

Em exploração sobre o tema, verificou-se a predominância de trabalhos utilizando objetos de


aprendizagem no ensino, principalmente no ensino médio e superior, utilização de TICs em
trabalhos multidisciplinares. Investigando como as pesquisas em Educação em Ciências têm
trabalhado, podemos observar que o foco tem sido sua utilização como instrumento didático.
Rezende Filho e outros colaboradores (REZENDE FILHO et al., 2011) realizaram um levantamento
de onze artigos publicados em revistas brasileiras de Educação em Ciências tendo o audiovisual
como temática (o audiovisual abrange, portanto, o vídeo e todas as suas especificidades já
discutidas neste ensaio). Os autores afirmam que apesar de o tema ter despertado interesse de
pesquisadores e professores de ciências nos últimos anos, a maior parte dos trabalhos não possui
caráter investigativo, sendo o tópico predominante o ensino-aprendizagem. O audiovisual aparece
nos artigos sendo utilizado como recurso didático. A própria concepção de audiovisual implícita nos
trabalhos indica que seu uso é considerado na perspectiva de sua instrumentalização pedagógica.
Nesse sentido, ele é visto como “ferramenta útil e versátil”, já que o objetivo principal de
apropriação destes recursos é a instrumentalização para alguma função pedagógica, com todos os
artigos apresentando algum tipo de recomendação para o seu uso, muitas delas técnicas. Em
nenhum dos artigos analisados foram encontrados questionamentos estéticos, históricos ou culturais
do audiovisual. É comum, segundo os autores, encontrar trabalhos que também “instrumentalizam”
outros “recursos”, como a informática, os jogos, a literatura, os quadrinhos ou o laboratório. Essa
visão instrumental limita as possibilidades de se ver o “recurso” em suas especificidades.
É curioso notarmos que os próprios autores do artigo referem-se aos vídeos como “recursos”
audiovisuais. Falta diálogo entre as pesquisas que trabalham com Educação em Ciências e o
audiovisual, o que dificulta o seu avanço. O vídeo tem uma linguagem própria, que vai muito além
de um recurso, um instrumento para ensinar determinado conteúdo. Os autores apontam justamente
essa falta de entendimento por parte da área de Educação em Ciências de que as Artes e a
Comunicação também constituem-se em áreas de conhecimento, envolvendo referenciais
teórico/metodológicos. Falta inter e transdisciplinaridade.

[...] estes meios são compreendidos como um instrumento já conhecido, cujas relações
entre concepção e utilização não precisam ser discutidas ou não precisam ser objeto da
reflexão do pesquisador ou do professor de ciências. Implícita nesta noção encontra-se a
visão de que imagens são transparentes e permitem um acesso direto à realidade. (ibidem p.
198).

Pesquisas a frente do seu tempo sugerem que o audiovisual, assim como as demais
instrumentos, deixem de ser vistos como apenas um recurso didático, mas passam a compor uma
investigação entre educação, TICs e mídias.

7. PREPARANDO AS ESCOLAS PARA O FUTURO

Apesar das dificuldades estruturais que enfrentamos, evoluímos vagarosamente e no futuro


(esperamos que não muito distante) teremos nas escolas acesso a internet por meio de dispositivos
atualizados. Mas antes disso precisamos estar atentos às mudanças no modelo de comunicação
social para que quando as escolas estiverem equipadas (em termos de estrutura) estejamos
preparados para receber alunos cada vez mais conectados e multifuncionais. Não podemos esperar
que todos os outros problemas sejam equacionados, para só depois ingressar nas redes (MORÁN,
2013, p. 16).
Muito se discute sobre a permissão ou proibição do desfrute dos celulares durante as aulas do
ensino secundário. Sou da opinião que tentar evitar que as tecnologias existentes entrem no âmbito
escolar exclui o aluno do mundo digital do qual já faz parte independentemente da escola. Para
Morán é impensável não usar as novas tecnologias auxiliando no processo formal de educação
(ibidem). A internet e suas varias linguagens multimídia podem auxiliar na aprendizagem a
distância, o professor não precisa estar presente fisicamente para que as coisas aconteçam, o aluno
não precisa estar em sala de aula para que aprenda.
É fato que os estudantes demandam muito tempo de suas vidas dentro da sala de aula para
oficializar a educação formal e o ensino a distância é uma forte tendência que propõe arejar esse
processo rígido e burocrático. Futuramente tanto educação básica quanto ensino superior, terão que
repensar as políticas pedagógicas dos cursos presenciais. Esta questão oficial alterará a rotina
formal do ensino, até lá “o professor precisa seguir comunicando-se face a face com os alunos, mas
também digitalmente, com as tecnologias móveis, equilibrando a interação com todos e com cada
um.” (idem).
A Internet se transformou no meio principal de convergência de todas as tecnologias de
informação e do conhecimento (COSTA, 2012), indiscutivelmente, os ambientes escolares precisam
estar conectados em redes sem fio, para uso de tecnologias móveis, o que implica ter uma banda
larga que suporte conexões simultâneas necessárias.
Escolas não conectadas são escolas incompletas, mesmo quando didaticamente avançadas.
Alunos sem acesso contínuo às redes digitais estão excluídos de uma parte importante da
aprendizagem atual: do acesso à informação variada e disponível de forma online, da
pesquisa rápida em bases de dados, bibliotecas digitais, portais educacionais. Estão fora da
participação em comunidades de interesse, de debates e publicações online. Enfim, da
variada oferta de serviços digitais. (MORÁN, 2013, p. 2)

É preciso ter cuidado para não traduzir o discurso como apenas instalar computadores novos e
comprar internet sem fio de alta velocidade, mas refletir sobre as práticas educativas acompanhando
os desenvolvimentos tecnológicos de nossa época.

[...] se ensinar dependesse só de tecnologias já́ teríamos achado as melhores soluções há


muito tempo. Elas são importantes, mas não resolvem as questões de fundo. Ensinar e
aprender são os desafios maiores que enfrentamos em todas as época e particularmente
agora em que estamos pressionados pela transição do modelo de gestão industrial para o da
informação e do conhecimento (MORÁN, 2000, p. 12).

É importante perceber que tanto alunos quanto professores estão imersos no ecossistema
comunicativo tecnológico e digital antes mesmo de iniciarem suas atividades na escola, sejam elas
como aprendizes ou docentes. Considerar os conhecimentos dos alunos sobre as TICs é responsável
pedagogicamente dada modernização tecnológica por qual passa sociedade contemporânea.
A adaptação do modelo de linguagem dos Nativos Digitais já está sendo feita, porém, enquanto
não estiver imediatamente claro como ensinar usando as novas tecnologias podemos ser criativos e
concomitantemente arriscar novas metodologias, adaptando-se as realidade da escola e dos alunos,
só não podemos manter o modelo tradicional e achar que com pequenos ajustes ocorrerão grandes
mudanças.

8.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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