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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS


HUMANAS

Paulo Honório e Augusto Matraga: uma transformação

Disciplina: Literatura Brasileira II


Docente: Prof. Dr. Ivan Marques
Discente: Adriana Regina Buzzetti
No USP: 6468271

SÃO PAULO
NOVEMBRO 2009
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por objetivo fazer uma análise comparativa entre os

personagens Paulo Honório de S.Bernardo, romance de Graciliano Ramos, e Augusto

Matraga do conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, presente na obra Sagarana,

de Guimarães Rosa.

Para tal, será traçado um perfil de cada personagem e serão abordados pontos

de intersecção nas suas composições que os aproxime. Uma leitura atenta prova que

há muitas semelhanças entre os dois personagens frutos do romance moderno

brasileiro, como o processo de transformação por que passam ambos após uma

experiência traumática de perda – cada um à sua maneira. Além disso, traços

violentos e ditatoriais cabem na descrição tanto de Honório como de Matraga.

Além da leitura das duas obras, serão utilizados na análise textos críticos de

variados autores, entre eles Maria Sylvia de Carvalho Franco, Benjamin Abdala Junior

e Renato Janine.

DESENVOLVIMENTO

Paulo Honório é o fazendeiro autoritário e violento que controla tudo o que

possui e ‘coisifica’ tudo que está à sua volta – dos funcionários à esposa. Ele

consegue tudo o que quer. Compra a fazendo São Bernardo, que dá o título ao livro, e

aumenta os domínios de suas terras; tudo à custa de atos ilícitos, pois ele não hesita

em mandar matar o dono da fazenda vizinha, Mendonça, para que este não interfira

em seus planos.

O protagonista de S. Bernardo também consegue, sem muita dificuldade,

convencer Madalena a se casar com ele. Embora ele tivesse se afeiçoado à

‘pequena’, Paulo Honório queria se casar para deixar um herdeiro para São Bernardo.

Ele tem controle da situação, é reconhecido por suas ações, e também controla a

narrativa do próprio livro que está escrevendo.

No seu relacionamento com Madalena, o ciúme o descontrola, arruína seu

relacionamento levando Madalena ao suicídio. A partir daí Paulo Honório sente a


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necessidade de escrever para recuperar sua humanidade (ABDALA JUNIOR, 2001), e

é também a partir daí que ele se transforma como parte de uma tentativa de se redimir

de todas as coisas que fez que culminaram no suicídio de Madalena.

Transformação semelhante ocorre com Augusto Matraga, ou melhor, naquele

momento Nhô Augusto. Ele é um coronel mandão, prepotente e violento, que é

humilhado, espancado e dado como morto. Depois desse sofrimento, é recolhido por

um casal de “pretos velhos”, torna-se católico fervoroso, faz penitência e se arrepende

até o momento em que se sacrifica em favor de outra pessoa, quando Joãozinho Bem-

Bem quer matar o irmão do jagunço traidor e Nhô Augusto se interpõe. Tanto ele

quanto Bem-Bem morrem, poupando o inocente.

Também ligada à transformação de ambos está a circularidade dos

personagens, que ao final de suas trajetórias voltam ao ponto de origem. O nome

Matraga aparece no conto no começo e no fim, mostrando que o personagem voltou

para o lugar de onde partiu. Já Paulo Honório parte do processo de composição do

livro (nesse momento o leitor ainda não sabe o que o levou a escrever) e termina

também escrevendo, “até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse

uns minutos”, ou seja, volta ao processo de composição do livro.

Assim como Paulo Honório, Augusto Matraga é conhecido pelos seus atos e, a

partir daí, há um delineamento de seu caráter. Ele também domina os acontecimentos

no início da história, mas muda com a gravidade dos fatos. Também atos violentos

ligam os dois personagens. Violência contra familiares, funcionários ou mesmo

desconhecidos.

A relação com a mulher e filhos também pode ser comparada entre os dois

personagens. Paulo Honório sempre tratou Madalena como coisa, não reconhecia que

ela era uma mulher esclarecida, estudada e que se expressava bem. Ao contrário,

achava sua linguagem “cheia de rodeios”. Ao final do livro, após o suicídio de

Madalena, reconhece que a poderia ter tratado melhor, que poderia ter agido diferente,

mas ao mesmo tempo sabe que sua natureza não seria modificada, como atesta este
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trecho: “Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível

recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me,

é o que mais me aflige.” Ele também se ressente de não ter desenvolvido uma relação

com o filho. “Nem sequer tenho amizade a meu filho”, diz Paulo Honório.

Com Augusto Matraga ocorre algo semelhante. Enquanto tem a posse de sua

família e propriedade, a mulher serve apenas no aspecto carnal e a filha é ignorada

por ele (FRANCO, 1975). Após seu momento de penitência, sente saudade das duas:

“Uma tristeza mansa, com muita saudade da mulher e da filha, e com um dó imenso

de si mesmo”. Matraga parece se ressentir de não ter dado o devido valor enquanto as

tinha.

Finalmente, podemos comprar a fragmentação dos personagens. É possível

notar a presença de dois diferentes Paulos Honórios no livro. Mandão, prepotente,

dominador. Este é o do início do romance. Até que no capítulo 23 tudo se transforma e

o personagem perde seu dinamismo, pois está tomado pelo ciúme que sente da

esposa. Passam a prevalecer momentos em que há monólogos interiores com foco na

reflexão e maior subjetividade. “O suicídio da mulher faz com que seu mundo perca o

sentido. Só, desiludido e melancólico, ao procurar um nexo para a sua existência, vê-

se como num beco sem saída, ou preso defronte de uma infinita superposição de

espelhos” (ABDALA JUNIOR, 2001).

Já Augustos Matragas há três no conto. O primeiro é Augusto Esteves, o

coronel mandão de uma localidade chamada Murici do início do conto, que leva uma

vida de pecado; o segundo é o Nhô Augusto penitente, recolhido pelos negros velhos,

que vive em Tombador, e passa por um processo de busca da identidade. O terceiro é

Augusto Matraga propriamente dito, é o que resulta dos outros dois. Ele vai para Rala-

Coco, um local próximo ao Murici (novamente a circularidade) e é lá que tem sua hora

e sua vez, na morte, fazendo algo bom, interferindo na ação de um chefe de jagunços

e salvando a vida de uma pessoa inocente, provando que pode ser bom. E assim o

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próprio conto se divide em três momentos: o pecado, a graça e a colocação à prova

(JANINE, 2001).

CONCLUSÃO

O que se convencionou chamar de romance de 30 produziu obras das

mais variadas estirpes, muitas vezes com traços em comum (como o regionalismo),

outras, com a variedade do ensaísmo social, do aprofundamento da lírica moderna, do

romance introspectivo (BOSI, 1994). E Graciliano Ramos e Guimarães Rosa,

separados por alguns anos de distância, conseguiram – apesar das diferenças

estruturais, linguísticas e conceituais – criar dois personagens que, embora delineados

com a tinta das particularidades de cada escritor, carregam marcas que os ligam e os

relacionam dentro da literatura brasileira de forma a surpreender quem se propõe ao

estudo de duas obras. Fortes e marcantes, resultado das transformações por que

passaram, Paulo Honório e Augusto Matraga não podem ser reduzidos à categoria de

tipos, pois trazem traços de humanidade muito arraigados para limitar sua abrangência

dessa forma.

BIBLIOGRAFIA

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ABDALA JUNIOR, Benjamin. “O Pio da Coruja e as cercas de Paulo Honório”.

In: ABDALA JUNIOR, Benjamin; MOTA, Lourenço Dantas. Personae, Grandes

Personagens da Literatura Brasileira.

BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp; Campinas:

Editora da Unicamp, 2006.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 40ª

ed., 1994.

FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. “A vontade santa”. In: Trans/form/ação –

Revista de Filosofia. São Paulo: FFLCH, 1975.

JANINE, Renato. “Augusto Matraga: a salvação pelo porrete”. In: ABDALA

JUNIOR, Benjamin; MOTA, Lourenço Dantas. Personae, Grandes Personagens da

Literatura Brasileira.

RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 87ª ed.,2008.

ROSA, João Guimarães. “A hora e a vez de Augusto Matraga”. In: ROSA, João

Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 36ª ed., 1984.