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Coleção Literária Besouro Coleção Literária Besouro

A Lenda do Berimbau Ainda essa família tinha Unanga, um menino sonhador que com seus
estudos estava conseguindo realizar seu sonho de ser aviador, mas
fora de Angola, tendo que suportar a saudade da família e a caçula,
Beri5, com a pele negra como a noite, e sorriso tão belo como o luar.
Adorava cantar com seu pai ao final das tardes próximo ao lago
Urucungo, enquanto o sol descia, aquelas lindas vozes ecoavam por
aquele local mágico. A simetria perfeita entre homem e natureza.

Certa vez em Benguela1, ao sul de Luanda2, uma família re-


solveu se mudar para próximo de um lago. O lago Urucungo3.
Perto ao lago existiam lindas arvores que em tempos de verão
traziam sombras e frutos frescos.

A família era muito feliz em seu novo lar. O pai Gunga4 era um
professor de música e adorava trabalhar com crianças. A mãe
Abdie era uma dona de casa, mas muitas vezes para ajudar no
sustento da família fazia artesanatos em junco. Cestas, pratos
e outros utensílios, dominava trançar o junco como ninguém.
Tinha herdado a habilidade da avó, uma das últimas mulheres
que embarcaram para o Brasil para trabalhar na lavoura de café,
claro que a contragosto e nunca mais retornou dessa viagem.

1 Estado de Angola.
2 Capital de Angola. 5 Nome fictício dada a nossa protagonista para ilustar a origem da Beriba, madeira
3 Um dos nomes do Berimbau em África. com que se fabrica os berimbaus de melhor qualidade e sonoridade.
2 4 Nome dado ao berimbau mais grave na capoeira. Conhecido por ser o “mestre” da 3
roda, é por ele que são coordenadas as rodas de capoeira.
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Nas férias Unanga sempre voltava para visitar a família e dizia para Até que um dia um belo rapaz de nome Hungo6, mudou para as
Beri tomar cuidado com o lago, que podia ser muito belo, mas es- proximidades do lago Urucungo. Desejado por todas as meninas,
condia segredos que não podemos entender, dizia Unanga: Hungo se apaixonou por Beri, assim como Beri por Hungo. Os dois
andavam sempre juntos e passaram a despertar a inveja de muitos
“Devemos respeitar o lago, suas águas doces pertencem aos nossos naquele local.
ancestrais e a mãe das águas não gosta de ser desafiada” Beri tinha
muitos amigos e amigas, com idades variadas, mas ela com certeza O pai de Beri, Gunga adoeceu e com o tempo não pode mais dar as
era a mais bela. aulas de música, tarefa que foi aceita como uma missão por Beri.
Seu canto alegre e suave alegrava todos, nas festas, nos encontros
Com o tempo e a chegada da juventude, muitos meninos queriam religiosos, mas principalmente a tarde próximo ao lago seu canto
namorar Beri, mas sempre respeitando os ensinamentos de seus podia ser ouvido. De longe despertando amor e inveja.
pais ela insistia em esperar para encontrar o homem que conquis-
taria seu coração. Certo dia ao cair da tarde quando Beri se encaminhava para o lago
para ver o pôr-do-sol e cantar, algumas crianças vieram lhe chamar
dizendo que seu pai estava muito mal e queria vê-la.

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6 Um dos nomes do berimbau em Angola, utilizado em diferentes festas.
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Chegando em casa Beri encontrou seu pai na cama já muito debili-


tado pela sua doença. Ele pegou na mão de Beri e disse:

“Beri, o vento que leva nosso canto é o mesmo que leva nossa
alma a sorrir e a chorar, por isso quando eu partir não chore, não
lamente, mas cante como sempre fizemos a beira do lago”

Essas foram as últimas palavras de Gunga. Triste, segurando seu


choro, lá se foi Beri para a beira do lago cantar pela primeira vez
sem a presença de seu pai. Ela pensava a todo instante nas pala-
vras do pai, mas dessa vez quis fazer diferente. Seguir a direção de
seu canto, seguir como o vento, no caminho encontrou Hungo que
disse que gostaria de acompanhá-la, mas ela não aceitou disse que
precisava ficar só com o lago.

Chegando na beira do lago, Beri começou seu canto, tão belo


como nunca tinha sido visto, homenageava seu pai quando por
um descuido Beri, caiu no lago, não sabia nadar. Se debatendo na
água lembrou de seu irmão Unanga que alertava sobre os perigos
do lago.

Lembrou-se do amor que sentia por Hungo e que não teria acei-
tado sua companhia naquele momento. Por fim pensou em sua
mãe e na tristeza que viveria ao perder o marido e a filha amada e
viu um caminho se abrindo por onde passou a caminhar, encontrou
seu pai e os dois começaram a cantar as canções que sempre ao
final da tarde as proximidades do lago Urucungo se alegrava ao
ouvir.

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A Lenda do Berimbau
Abdie, mãe de Beri, procurou por toda Benguela, pediu que seu filho,
Unanga voltasse dos estudos para ajudá-la a encontrar a filha per- Mila tinha uma vontade imensa de tocar um instrumento. Tinha um
dida. pulsar no corpo, um toque que vinha de dentro pra fora e a fazia
sentir um som todinho seu. Cantava, dançava, pulava, mas só to-
Era muito sofrimento para uma mãe perder duas pessoas amadas no cava com as palmas, pois aprendeu com um amigo capoeirista que
mesmo dia. Até que na beira do lago Urucungo, após dias de buscas as palmas são instrumento, que pode desafinar ou afinar uma roda
até mesmo por lá, ouvia-se um som doce com a brisa do vento que inteira.
alegrava as pessoas que por lá passavam e na beira do lago onde
Beri e seu pai Gunga ficavam sentados havia nascido uma árvore O desejo de ter um instrumento era maior que tudo. Todos os dias
tão bela de troncos finos, ainda pequena, mas que emanavam uma fazia questão de dizer aos pais cada instrumento que queria tocar.
melodia tão bela. Desse jeito você vai montar uma orquestra. - Dizia a mãe.
E porque não? Uma orquestra bem grandona, com instrumentos de
Chegaram à conclusão que não seria mais necessário a procura que soprar, de tocar com a varinha, eu ficaria lá na frente dançando com
ali estavam representados o amor incondicional sentidos pelos entes os braços.
perdidos e que o sentimento de perda é sempre momentâneo e pas-
sageiro, assim conta-se que: “seu corpo se converteu no madeiro,
seus membros na corda, sua cabeça na caixa de ressonância e seu
espírito na música dolene e sentimental que ouvimos aos finais das
tardes com a brisa do vento” Assim nascia a Beriba, que deu origem
ao Berimbau.

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Ela estava prestes há completar oito anos e o pai tinha conversado


com a mãe de comprar um violão à prestação. Só não contava que Quando ia chutar outra pedrinha, olhou pro chão e viu: Era linda,
esse desejo era tanto. Certa noite, Mila abriu a janela e pediu pras toda envernizada, pintada de vermelho e preto, com o desenho
estrelas um instrumento, não precisava ser um violão, bastava ter de uma espada, parecia à cabaça do berimbau de Pedrinho, mas
um som lindo como o céu. tinha uns dentes e quando Mila tocou saiu um som meio-agudo-
meio-grave, parecia o som das águas do mar. Tocou de novo
No dia seguinte, Mila voltou da escola chutando pedrinhas e can- e o som saiu de dentro dela, som de lagrima, riso, arrepio, som
tarolando uma canção que aprendeu com seu amigo Pedrinho, o de mãe, da roda de capoeira. Era o som daquela cocegazinha
capoeirista: pedindo: “toque pra mim...”.
Veio pelo caminho de casa descobrindo os diversos sons do in-
“Quem te ensinou a nadar, strumento.
quem te ensinou a nadar... Mãnheeeeeeeeee!
Foi... Foi marinheiro, Que foi menina, o que aconteceu?
foi os peixinhos do mar...” Olha só o que eu achei!
Não é um violão como eu queria, mas o som é lindo! Vou chamar
de violinha!
Que violinha linda filha, será que não tem dono?
Não, a violinha agora é minha!

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Mila acordou tocando, viajando em seu mundo musical, até com-


pôs uma letrinha:

“Toca, violinha aê,


toca violaia,
toca violinha aê,
toca violaia,
toca, toca, toca, toca, toca a violinha,
toca, toca, toca a viola”.

Tomou café com a tal violinha e foi pra escola cantarolando e


tocando. Nunca se sentiu tão feliz, nem quando a mãe fazia bolo
de cenoura com chocolate, nem quando jogava capoeira com Pe-
drinho. Nada a deixou tão feliz quanto à violinha.

Na escola, a professora Odete pediu pros alunos guardarem os


materiais que a aula seria com um amigo contador de história.
Mila ficou tristinha queria mostrar seu instrumento pra sala inteira.
Turminha, hoje a aula será com meu amigo Simão. Ele conta
histórias e toca instrumentos de percussão, hoje a aula será es-
pecial!

Simão apareceu tocando e contando uma história. Mila sacou a


violinha e começou a tocar também, Simão olhou pra ela e a
chamou pro meio da roda. Foi a melhor aula que Mila teve. No
final da história, Simão queria saber como aquele instrumento foi
parar nas mãos de Mila.

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- Oi menina, qual é o seu nome? Mila me desculpe, realmente presente de estrela não se devolve, e
- Mila, meu nome é Mila. encanto também não. A Kalimba já estava destinada a você. Sabe
- Onde você aprendeu a tocar? essa espada desenhada na Kalimba? Desenhei quando ganhei.
- Sozinha, eu tava vindo da escola, e achei essa violinha na rua e Agora, como a Kalimba é sua, faça um desenho seu.
comecei a tocar. Então vou desenhar um céu cheinho de estrelas, foi presente de-
- Sabe Mila, o nome verdadeiro dessa “violinha” é Kalimba, é um las! Simão, fiz uma musica pra violi... quer dizer Kalimba, quer
instrumento vindo da África, tocado por contadores de histórias. Mas ouvir? Só que é de quando eu chamava ela de violinha.
tem uma coisa: essa Kalimba é minha. Perdi quando vinha falar com Não tem problema, a gente canta pra violinha de depois pra
a professora Odete. Fiquei tão preocupado, achei que nunca mais Kalimba, certo?
fosse ver minha Kalimba, mas percebo que você cuidou bem dela, toca, violinha aê,
será que você pode me devolver? toca violaia,
-Seu Simão, eu gostei muito de você, sabia? Mas pedi para as es- toca violinha aê,
trelas me mandarem um instrumento, e elas me deram essa violinha, toca violaia,
quer dizer, a Kalimba. Mas não posso te devolver, foi presente e toca, toca, toca, toca, toca a violinha,
presente de estrela não se devolve. toca, toca, toca a viola”.

Simão se arrependeu. Se fosse toca, kalimba aê


um jabuti se esconderia no cas- toca kalimbaia,
co. toca kalima aê,
toca kalimbaia,
A Kalimba tinha um grande valor kali, kali, kali, kali, kali de kalimba,
pra ele, foi presente do seu mes- kali, kali, kali, kalimba”.
tre que lhe disse assim: “uma
chama não perde nada ao acen-
der outra chama”.

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A coleção literária Besouro é uma serie de livros e livretos de contos infantis e
infanto Juvenil com a temática da cultura africana, afro-brasileira e indígena.
Tem como objetivo contar e recontar histórias, lendas e evidenciar a influen-
cia indígena e africana na cultura brasileira.

Volume 4
“Instrumentos EnCANTAdos”

Os textos do Capoeirista e professor Ronaldo Sonyc e da Poetiza Raquel


Almeida nos levam sem duvida a um mundo, ou vários mundos EnCANTAdos,
onde a música sem duvida é o enredo pra vida, trabalho, estudo e sonhos. Es-
ses mundos criados diariamente por crianças não podem ser ignorados, por
isso abrimos espaços aqui na nossa coleção para que esses mundos voem e
ganhem o universo. #VoaBesouro
Diagramação: João Augusto I Curadoria (Seleção, revisão e produção): Israel
Neto e Jader Oliveira I Curadoria (Gravuras e Ilustrações): Soberana Ziza

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