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CENTRO UNIVERSITÁRIO ASSUNÇÃO


PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA
NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

PEDRO DONIZETI DE CAMPOS

UM ESTUDO HISTÓRICO - TEOLÓGICO DAS DIRETRIZES PASTORAIS DA


CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) (1991-2002):
UM PERFIL ECLESIOLÓGICO

SÃO PAULO – 2007


2

CENTRO UNIVERSITÁRIO ASSUNÇÃO


PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA
NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

PEDRO DONIZETI DE CAMPOS

UM ESTUDO HISTÓRICO - TEOLÓGICO DAS DIRETRIZES PASTORAIS DA


CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) (1991-2002):
UM PERFIL ECLESIOLÓGICO

Dissertação apresentada como exigência parcial


para obtenção do título e Mestre em Teologia
Dogmática à Comissão julgadora da Pontifícia
Faculdade de Teologia Nossa Senhora da
Assunção, sob a orientação do Pe. Dr. Ney de
Souza.

SÃO PAULO – 2007


3

PÁGINA DE APROVAÇÃO
4

Dedico esta Dissertação, de modo especial, a

Deus, a Nossa Senhora e à Igreja, fazendo votos

de que possa ajudá-la em sua missão

evangelizadora. Dedico ainda às minhas irmãs de

comunidade, Irmã Ângela Maria de Moraes e

Irmã Ceila Cristiane Nunes, que não mediram

esforços para que pudesse ter tempo para minha

pesquisa. Da mesma forma, dedico-a à

Comunidade Missionária Providência Santíssima,

da qual faço parte, assim como a toda a minha

família.
5

Agradeço a todos, sem distinção, que

colaboraram para a concretização desse trabalho.

De modo especial, ao meu orientador, Pe. Ney de

Souza por sua dedicação e honestidade. Da

mesma forma, agradeço aos meus professores Pe.

Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, Pe. Antonio

Manzatto, Ilmo senhor Renold Blanck, a Irmã

Maria Freire da Silva, Pe. Tarcisio Justino Loro,

Pe. J. Adriano por todos os esforços a mim

dispensados. Agradeço ainda a Adveniat pela

doação semestral de meia bolsa que,

efetivamente, ajudou-me em meus gastos. A

todos, o meu muito obrigado e minhas orações.


6

ÍNDICE

ABREVIAÇÕES....................................................................................................................................................10

INTRODUÇÃO GERAL .................................................................................................................................... 13

CAPÍTULO I: UM PERFIL ECLESIOLÓGICO A PARTIR DO CONCÍLIO VATICANO II................ 19

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................... 20

1. O PROCESSO HISTÓRICO DA CONSTITUTIO DE ECCLESIA ............................................................ 22

1.1. O PRIMEIRO PERÍODO DO CONCÍLIO (11/10 A 08/12/1962)...........................................................23

1.2. O PRIMEIRO PERÍODO INTERSESSIONAL DO CONCÍLIO – 1962-63......................................... 29

1.2.1. OS TRABALHOS PÓS PRIMEIRA SESSÃO .................................................................................... 29

1.2.2. A TRANSIÇÃO PONTIFÍCIA ........................................................................................................... 31

1.3. O SEGUNDO PERÍODO DO CONCÍLIO (29/9 A 4/12 / 1963)............................................................. 32

1.4. O SEGUNDO PERÍODO INTERSESSIONAL DO CONCÍLIO – 1963-64 ......................................... 42

1.5. O TERCEIRO PERÍODO DO CONCÍLIO (14/9 A 21/11/ 1964)........................................................... 43

1.6. A CONSTITUIÇÃO DE ECCLESIA: EIXO DO CONCÍLIO............................................................... 47

2. UMA ANÁLISE TEOLÓGICA DA CONSTITUTIO DE ECCLESIA ............................................................ 49

2.1. O CONCÍLIO VATICANO II: UM CONCÍLIO PASTORAL E ECLESIOLÓGICO........................ 50

2.2. UM PERFIL ECLESIOLÓGICO A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A

IGREJA LUMEN GENTIUM.............................................................................................................................. 57

2.2.1. O EIXO MISTÉRICO: A TRINDADE COMO ORIGEM .................................................................. 61

2.2.1.1. A IGREJA COMO MISTÉRIO....................................................................................................................61

2.2.1.2. O MISTÉRIO DA TRINDADE COMO ORIGEM DA IGREJA.................................................................62

2.2.1.3. A IGREJA COMO SACRAMENTO ...........................................................................................................65

2.2.2. O EIXO MINISTERIAL: A TRINDADE COMO IMAGEM .............................................................. 67

2.2.2.1. A IGREJA: POVO DE DEUS......................................................................................................................67

2.2.2.2. A IGREJA POVO DE DEUS: SUA ESTRUTURA VISÍVEL ....................................................................72

2.2.2.3. A SANTIDADE COMO HORIZONTE COMUM A TODO O POVO DE DEUS......................................78


7

2.2.3. O EIXO ESCATOLÓGICO: A TRINDADE COMO FIM ................................................................. 80

2.2.4. COMUNHÃO E MISSÃO: UM PERFIL ECLESIOLÓGICO ........................................................... 82

CONCLUSÃO ..................................................................................................................................................... 89

CAPÍTULO II: A IGREJA DO BRASIL E SUA CONSTRUÇÃO PASTORAL A PARTIR DO

CONCÍLIO VATICANO II: UMA ANÁLISE HISTÓRICA ......................................................................... 90

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................... 91

1. OS PRIMÓRDIOS DO PLANEJAMENTO PASTORAL NO BRASIL: OS ANTECEDENTES DO

PLANO DE EMERGÊNCIA -1899 - 1962 ........................................................................................................ 93

1.1. AÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA ......................................................................................................... 96

1.2. O MOVIMENTO POR UM MUNDO MELHOR................................................................................. 100

1.3. O MOVIMENTO DE NATAL E O MOVIMENTO DE EDUCAÇÕ DE BASE.................................. 102

1.4. A CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL: CRB.............................................................. 106

1.5. A CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL – CNBB .............................................. 107

2. O SEGUNDO PERÍODO: A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE ECLESIAL - 1962-1979 ..................... 109

2.1. A DÉCADA DE 60: A FORMAÇÃO DE UMA IDENTIDADE ECLESIAL.......................................110

2.1.1. O PLANO DE EMERGÊNCIA: GÊNESE DA VIDA PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL ......... 110

2.1.2 O CONCÍLIO VATICANO II E PPC.................................................................................................114

2.1.3. A FORÇA DE MEDELLÍN: CEBs E TdL. ...................................................................................... 119

2.2. A DÉCADA DE 70: A AFIRMAÇÃO DE UMA IDENTIDADE ECLESIAL..................................... 121

2.2.1. A ERA DAS DIRETRIZES E DA APLICAÇÃO DE MEDELLÍN.................................................... 121

2.2.2. PUEBLA: SINAL DE EQUILÍBRIO NA COMUNHÃO E NA PARTICIPAÇÃO............................ 129

3. O TERCEIRO PERÍODO: UM REPENSAR A SUA IDENTIDADE - 1980-1994 ................................. 132

3.1. A DÉCADA DE 80: CONFLITO ENTRE MENTALIDADES ........................................................... 133

3.1.1. A RELAÇÃO ENTRE IGREJA DO BRASIL E SANTA SÉ: CONFLITO DE PROJETOS .............. 133

3.1.2. A IGREJA DO BRASIL E A SUA ATUAÇÃO PASTORAL ............................................................. 141

3.2. A PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 90.................................................................................... 144

3.2.1. AS DGAP E A PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 90 PARA A IGREJA DO BRASIL........... 144

3.2.2. A CONFERÊNCIA DE SANTO DOMINGO................................................................................... 148


8

4. QUARTO PERÍODO: A DEFINIÇÃO DE UM PERFIL ECLESIAL: COMUNHÃO E MISSÃO ..... 150

4.1. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: UM NOVO ENFOQUE ECLESIAL.............. 150

4.2. A VOLTA DOS GRANDES PROJETOS: PRNM E SINM ................................................................. 154

CONCLUSÃO ................................................................................................................................................... 158

CAPÍTULO III UM PERFIL ECLESIOLÓGICO DAS DIRETRIZES DE 1991-2002: UMA IGREJA

EVANGELIZADORA .............................................................................................................. ........................160

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................. 161

1. ANÁLISE TEOLÓGICA DA EVOLUÇÃO ECLESIOLÓGICA INERENTE ÀS DIRETRIZES: (1991-

2002) ................................................................................................................................................................... 164

1.1. OS FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DAS DIRETRIZES DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO

BRASIL: DOC 45 ............................................................................................................................................... 165

1.1.1. O CONCÍLIO VATICANO II: UM LEGADO DE COMUNHÃO E MISSÃO ................................. 165

1.1.1.1. O CONCÍLIO E O PPC: UMA RECEPÇÃO ORIGINAL.........................................................................169

1.1.2. A INFLUENCIA DA POPULORUM PROGRESSIO, DA CONFERÊNCIA DE MEDELLÍN E DO

SÍNODO SOBRE “A JUSTIÇA NO MUNDO” DE 1971.................................................................................... 172

1.1.2.1. A POPULORUM PROGRESSIO E O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRAL ................172

1.1.2.2. MEDELLÍN E A EVANGELIZAÇÃO LIBERTADORA.........................................................................174

1.1.2.3. O SÍNODO SOBRE A JUSTIÇA NO MUNDO E A QUESTÃO DA LIBERTAÇÃO INTEGRAL ........177

1.1.3. A EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELLII NUNTIANDI E A EVANGELIZAÇÃO INTEGRAL

............................................................................................................................................................................. 181

1.1.3.1. O CONTEÚDO DA EVANGELLI NUNTIANDI........................................................................................184

1.1.4. A CONFERÊNCIA DE PUEBLA.................................................................................................... 191

1.1.5. A CARTA ENCÍCLICA REDEMPTORIS MISSIO.......................................................................... 196

1.1.5.1. O CONTEÚDO TEOLÓGICO DA REDEMPTORIS MISSIO...................................................................197

1.2. AS DIRETRIZES DA AÇÃO PASTORAL: DOC 45: UMA ANÁLISE

TEOLÓGICA........................................................................................................................................................204

1.3. OS FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DAS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA

IGREJA NO BRASIL: DOC 54.......................................................................................................................... 215

1.3.1. SANTO DOMINGO E O PROJETO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO ............................................. 216

1.3.1.1. SANTO DOMINGO E A NOVA EVANGELIZAÇÃO ............................................................................217


9

1.3.1.2. SANTO DOMINGO E A CENTRALIDADE DE JESUS CRISTO COMO FUNDAMENTO PARA A

ECLESIOLOGIA DE COMUNHÃO .....................................................................................................................................222

1.3.1.3. SANTO DOMINGO E O PROTAGONISMO DOS LEIGOS ...................................................................225

1.2.2. A CARTA ENCÍCLICA TERTIO MILLENNIO ADVENIENT E A PREPARAÇÃO DO JUBILEU DO

ANO 2000............................................................................................................................................................ 229

1.4. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: DOC 54: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA....... 232

1.4.1. ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA A AÇÃO EVANGELIZADORA E PASTORAL........................234

1.4.2. O PROJETO RUMO AO NOVO MILÊNIO: O RESGATE DE UMA ECLESIOLOGIA

COMUNHÃO-MISSÃO ....................................................................................................................................... 247

1.5. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: DOC 61 E O PROJETO SER IGREJA NO

NOVO MILÊNIO ............................................................................................................................................... 250

1.5.1. O PROJETO SER IGREJA NO NOVO MILÊNIO.......................................................................... 255

CONCLUSÃO.....................................................................................................................................................257

CONCLUSÃO GERAL......................................................................................................................................260

BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................................................... 263


10

SIGLAS E ABREVIAÇÕES

AA- Decreto Apostolicam actuositatem sobre o apostolado dos leigos

AAS- Acta Apostolicae Sedis

ACB- Ação Católica Brasileira

AG- Decreto Ad gentes sobre a atividade missionária da Igreja

AL- América Latina

AS- Acta Sinodali

CD- Decreto Christus Dominus sobre a função pastoral dos bispos na Igreja

CEBs- Comunidade Eclesial de Base

CELAM- Conferência Episcopal Latino-americana

CEP- Conselho Episcopal de Pastoral

CFL- Exortação Apostólica Christifidelis laici

CIC- Catecismo da Igreja Católica

CM- Comunicado Mensal

CNBB- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

COMLA- Congresso Missionário Latino-americano

CRB- Conferência dos Religiosos do Brasil

DGAE- Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora

DGAP- Diretrizes Gerais da Ação Pastoral

DH- Declaração Dignitatis humanae sobre a Liberdade Religiosa

DSD- Documento de Santo Domingo

DP- Documento de Puebla

DV- Constituição dogmática Dei verbum sobre a Revelação Divina

EN- Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi

ES- Carta Encíclica Ecclesiam Suam

GE- Declaração Gravissimum educationis sobre a educação cristã

GS- Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje


11

IM- Decreto Inter mirifica sobre os meios de Comunicação Social

INP- Instituto Nacional de Pastoral

ITCR- Instituto de Teologia e Ciências Religiosas

JAC- Juventude Agrária Católica

JEC- Juventude Estudantil Católica

JIC- Juventude Independente Católica

JOC- Juventude Operária Católica

JUC- Juventude Universitária Católica

LG- Constituição Dogmática Lumen gentium sobre a Igreja

MCS- Meios de Comunicação Social

MEB- Movimento de Educação de Base

MMM- Movimento por um Mundo Melhor

NA- Declaração Nostra Aetate sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs

Non placet- não (voto contra)

OE- Decreto Orientalium Ecclesiarum sobre as Igrejas Orientais

OT- Decreto Optatum totius sobre a formação sacerdotal

PB- Plano Bienal

PB- Puebla

PC- Decreto Perfectae Caritatis sobre a renovação da vida religiosa

PE- Plano de Emergência

Placet iuxta modum- sim, mas com modificações (voto favorável, mas condicional)

Placet- sim, de acordo (voto favorável)

PO- Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida sacerdotal

PP- Encíclica Populorum Progressio

PPC- Plano de Pastoral de Conjunto

PRNM- Projeto Rumo ao Novo Milênio

RCRB- Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil

RCRB- Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil


12

REB- Revista Eclesiástica Brasileira

rev. ampl.- Revisada e Ampliada

rev. aum. - Revisada e Aumentada

RMi- Carta Encíclica Redemptoris Missio

RSTP - Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques

SAR- Serviço do Assistente Rural

SC- Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia

SCAI- Serviço de Cooperação Apostólica Internacional

SINM- Ser Igreja no Novo Milênio

SNAC- Secretariado Nacional de Catequese

SNAL- Secretariado Nacional de Liturgia

SNALE- Secretariado Nacional do Apostolado dos Leigos

SNAMHI- Secretariado Nacional dos Ministérios Hierárquicos

SNAP- Secretariado Nacional das Prelazias

SNAPES- Secretariado Nacional de Pastoral Especial

SNAR- Secretariado Nacional dos Religiosos

SNAS- Secretariado Nacional da Ação Social

SNASEM- Secretariado Nacional dos Seminários

SNAT- Secretariado Nacional de Teologia

SNAV- Secretariado Nacional das Vocações

SNED- Secretariado Nacional de Educação

SNOP- Secretariado Nacional de Opinião Pública

TdL- Teologia da Libertação

TMA- Carta Apostólica Tertio Millennio Advenient

TMI- Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte

UR- Decreto Unitatis redintegratio sobre o Ecumenismo

V- Volume
13

INTRODUÇÃO GERAL

Apresento a presente pesquisa intitulada “UM ESTUDO HISTÓRICO-

TEOLÓGICO DAS DIRETRIZES PASTORAIS DA CONFERÊNCIA NACIONAL

DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) (1991-2002): UM PERFIL ECLESIOLÓGICO”,

como fruto de minhas pesquisas, experiências e intuições acerca do perfil eclesiológico

inerentes às mesmas.

Essa dissertação está construída a partir do método genético, cuja forma


1
argumentativa descendente fundada numa matriz dedutiva nos possibilita apreender do

universal ao particular, ou seja, do Magistério até o locus eclesial analisado. Esse, por sua vez,

está “mais de acordo com a dimensão histórica do homem e da economia da salvação, o qual

toma por ponto de partida a Revelação. (...) Procura retraçar autenticamente a história da

revelação tal como se desenrolou no passado, etapa por etapa, sem prejulgar as explicitações

atuais do magistério” 2.

1
A Teologia Dedutiva “se caracteriza por ser uma ´teologia de cima´ - ´von oben´ ou ´katábasis´ (a partir de
cima) -, ao usar o método dedutivo. Parte do dogma, da própria formula da Revelação a fim de adquirir-lhe
maior compreensão pela via da analogia com as realidades humanas, percebendo-lhes os pontos de semelhança e
dessemelhança. (...) A estrutura fundamental dessa teologia consiste em sistematizar, definir, expor e explicar as
verdades reveladas. (....) Sua finalidade é declarar, explicitar o que está na revelação, procurando trazer maior
inteligência para a fé. Realiza de modo direto e explícito o programa estabelecido por Santo Anselmo: ´fides
quaerens intellectum´ - a fé que busca a inteligência”. Cf. LIBANIO, J.B.; MURAD, A. Introdução à Teologia:
Perfil, Enfoques, Tarefas. São Paulo: Loyola, 1996. p. 102. Cf. Também COMBLIM, J. História da Teologia
Católica. São Paulo: Herder, 1969. p. 163-168.
2
LATOURELLE, R. Teologia: Ciência da Salvação. São Paulo: Paulinas, 1981. p. 84.
14

Nesse ínterim, justifico a disposição dos Capítulos, haja vista que, partindo do

Magistério Conciliar (primeiro Capítulo), procurei evidenciar, a partir da análise da evolução

histórica da construção da identidade pastoral (segundo Capítulo), traços que pudessem

comprovar um perfil eclesiológico inerente às Diretrizes Gerais do Episcopado Brasileiro.

Destarte, no primeiro Capítulo dissertar-se-á acerca do Concílio Ecumênico

Vaticano II, percebendo sua incidência pastoral e, principalmente, sua dimensão

eclesiológica. O Capítulo está construído em dois momentos: no primeiro, procurar-se-á

dissertar acerca da formação histórica da Constitutio De Ecclesia perpassando os três

primeiros períodos do Concílio, dispensando um maior esforço de atenção sobre a elaboração,

discussão e aprovação da Constituição Dogmática Lumen gentium, eixo do Concílio.

Num segundo momento, procurar-se-á fazer uma análise teológica sobre os grandes

eixos da Constituição, a fim de delinear um entre os muitos possíveis perfis ou imagens da

Igreja. Para tanto, tomar-se-á o Mistério Trinitário como eixo hermenêutico e o método

dedutivo para a sua análise teológica, no intuito de descrever um perfil eclesiológico, que se

revelará como eclesiologia de comunhão e missão.

Por fim, o presente Capítulo procurar-se-á, embora de forma indicativa,

correlacionar os princípios basilares da eclesiologia conciliar com as Diretrizes Gerais da

Igreja no Brasil, visto que, o Concílio é o marco zero da vida pastoral da Igreja no Brasil.

No segundo Capítulo procuro dissertar, de forma descritiva, as etapas evolutivas

inerentes ao processo de planejamento pastoral da Igreja no Brasil. Por isso, escolhi abordá-

las de forma metodológica dividindo-as em quatro grandes blocos para melhor evidenciar tal

evolução.

Os blocos aqui apresentados são conforme disposição própria. O primeiro bloco

procurará evidenciar os primórdios do planejamento pastoral da Igreja no Brasil, fatos e


15

movimentos que antecederam e prepararam o advento do Plano de Emergência (PE) 3. O

segundo concentrar-se-á mais na apreciação do que aqui é denominado como formação da

Identidade eclesial. Fala-se do Plano de Emergência e, conseqüentemente, do Plano de

Pastoral de Conjunto (PPC) como aplicação clara e precisa do Concílio Vaticano II. A opção

metodológica em dividir por décadas tem como objetivo visibilizar a caminhada do

Planejamento Pastoral à luz das grandes Conferências Episcopais de Medellín, na década de

60, e de Puebla, na década de 70. A Igreja do Brasil é profundamente marcada pela sua

atuação social.

Os dois últimos blocos dissertarão acerca da crise dessa identidade devido ao Projeto

hegemônico, que a partir do pontificado de João Paulo II, começou a ser instaurado pelo

mundo todo. Tem-se, nesse período, a grande crise da Igreja do Brasil, principalmente no que

tange às CEBs e, de modo particular, à Teologia da Libertação (TdL). O quarto bloco, após

ter-se discorrido sobre a evolução das Diretrizes, toca o centro polarizador deste conflito: a

mudança de orientação de suas Diretrizes, passando de “Ação Pastoral” para “Ação

Evangelizadora”. Nesse período, animada pelo impulso de preparar o novo milênio, a Igreja

se lança novamente à confecção de Projetos também Hegemônicos, para todo o seu território

eclesial, como o Projeto Rumo ao Novo Milênio (PRNM) (1996-2000) e o Ser Igreja no Novo

Milênio (SINM) (2000-2002).

Procurar-se-á no terceiro Capítulo, analisar de forma teológica a evolução

eclesiológica da Igreja no Brasil, a partir de suas Diretrizes Gerais, tendo como objeto de

estudo as Diretrizes Gerais referentes ao espaço de tempo entre 1991 a 2002. Para tanto,

primeiramente estudar-se-á o documento 54, referente ao quadriênio de 1991-1994. Nele está

expresso todo esforço de adaptação e concretização de toda a evolução teológica no que se

refere à eclesiologia iniciada com o evento Conciliar, realizado entre os anos de 1962 a 1965.

3
A partir do primeiro Capítulo esta e outras siglas, assim como as abreviações estarão elencadas no inicio do
texto.
16

Antes de sua análise, dissertar-se-á acerca dos principais eventos teológico-pastorais

ocorridos desde o Concílio Vaticano II, ou seja, as Conferências de Medellín e de Puebla, os

Sínodos, os documentos pontifícios de Paulo VI – Populorum Progressio e Evangelii

Nuntiandi – e, principalmente a Redemptoris Missio e a Tertio Millennio Advenient de João

Paulo II. A exposição desses eventos julga-se oportuna por se tratarem de eventos

influenciadores tanto em âmbito teológico quanto em âmbito pastoral.

Neste ínterim, esses eventos teológico-pastorais foram capitais para a formação do

que é a Igreja na América Latina e, conseqüentemente, no Brasil. Todos eles serão abordados

a partir da temática da evangelização. A razão dessa escolha, entre muitas outras possíveis,

justifica-se pelo fato de que ela, no decorrer dos anos após o Concílio, tenha se tornado o

princípio identificador de toda a realidade eclesial, seja enquanto essência seja enquanto

missão.

A partir do Vaticano II, o termo evangelização vai se erigindo e ganhando espaço e

predicações. Com o conceito de Desenvolvimento Integral exposto na Populorum Progressio,

Medellín assumirá o conceito de Evangelização Libertadora, enquanto que o Sínodo sobre a

Justiça no mundo -1971- falar-se-á de Libertação Integral. Com o advento da Evangelii

Nuntiandi, o termo evangelização será oficialmente acolhido e aplicado a toda Igreja; daqui

em diante, a evangelização será entendida como o conjunto de serviço da Igreja frente ao

mundo.

Conseqüentemente, a Igreja no Brasil receberá essas contribuições e, com o passar

dos anos, irá forjar, a partir de suas Diretrizes, um rosto definido e uma prática pastoral bem

consciente. A partir da Redemptoris Missio, há uma especificação do que é evangelização,

pastoral e missão ad gentes. Esse documento foi capital para um primeiro aggiornamento da

compreensão eclesiológica por parte da Igreja no Brasil.


17

Esse aggiornamento é também acompanhado pela sensibilidade em ler os “sinais

dos tempos” presentes neste contexto. O Capítulo explicitará dois fatos que o autor julga

principais na construção desta nova conjuntura: o primeiro diz respeito à evolução teológica

precedente seguida de novos eventos teológicos, dentre os quais merecem destaque o

chamamento do Papa João Paulo II para uma nova evangelização, renovada em seu ardor, em

seus métodos e em suas expressões e a Confêrencia de Santo Domingo, com a temática da

evangelização inculturada, e de modo especial, a ênfase que o referido Papa deu à preparação

do grande Jubileu do ano 2000 com a Encíclica Tertio Millennio Adveniente. O segundo

refere-se ao grande êxodo de fiéis da Igreja Católica para as outras seitas ou o abandono

completo da fé, por meio de uma postura de indiferentismo religioso.

Sensível, principalmente, a estes “sinais dos tempos”, a Igreja no Brasil compreende

que, fundamentalmente, necessita mudar não só sua forma de ação pastoral, mas também sua

estrutura e, principalmente, a compreensão de sua identidade e de sua missão. É nesse período

que os Bispos do Brasil promulgam o documento 54, em que mudam não só o título das

Diretrizes, de ação pastoral para ação evangelizadora - mas também a sua estrutura e,

conseqüentemente, muito embora não perceptivelmente, o rosto, o horizonte e a prática

pastoral de toda a Igreja no Brasil.

A evangelização passa de uma dimensão da ação pastoral a ser o principio

constitutivo de toda ação pastoral. A Evangelização deve ser inculturada e acompanhada de

quatro exigências irrenunciáveis expressas pelo serviço, pelo diálogo, pelo anúncio e pelo

testemunho de comunhão eclesial. Essas quatro exigências estão em consonância com as seis

dimensões, a diferença está no lugar proeminente e de destaque que a missão-evangelização

ocupa.

Por essa exposição, é possível perceber a evolução eclesiológica e o novo perfil

eclesiológico que se forja a partir das Diretrizes da ação evangelizadora: uma Igreja mais
18

evangelizadora que pastoral, muito embora não a elimina; uma Igreja verdadeiramente

ministerial, onde todos são sujeitos dessa ação evangelizadora; uma Igreja que evangeliza e

que precisa ser constantemente evangelizada.

Contudo, o presente trabalho, a partir da exposição feita nesses três Capítulos, não

quer ser um ponto final nessa discussão eclesiológica inerente às Diretrizes, mas uma

contribuição para essa própria Igreja, que procura constantemente estar em sintonia com o

Magistério Petrino e, ao mesmo tempo, fiel a sua realidade eclesial. É certo que, a partir desse

estudo, muitos outros assuntos e temas poderão ser abordados para melhor completá-lo e

avançar nessa compreensão eclesiológica, visto que, a eficiência pastoral prescinde

necessariamente de uma clara e objetiva compreensão eclesiológica.


19

CAPÍTULO I

UM PERFIL ECLESIOLÓGICO A PARTIR DO CONCÍLIO VATICANO II


20

INTRODUÇÃO

O presente Capítulo tem por intenção dissertar acerca do Concílio Ecumênico

Vaticano II, percebendo sua incidência pastoral e, principalmente, sua dimensão

eclesiológica. Nossa pesquisa se apresenta em dois momentos: no primeiro, procurar-se-á

dissertar acerca da formação histórica da Constitutio De Ecclesia, perpassando os três primeiros

períodos do Concílio, dispensando um maior esforço de atenção sobre a elaboração, discussão e

aprovação da Constituição Dogmática Lumem gentium, eixo do Concílio. Sobre os demais

Documentos, será apenas indicada uma bibliografia.

Num segundo momento, procuraremos fazer uma análise teológica sobre os grandes

eixos da Constituição, a fim de delinearmos um entre os muitos possíveis perfis ou imagens

da Igreja. Para tanto, tomaremos o Mistério Trinitário como eixo hermenêutico e o método

dedutivo para nossa análise teológica, no intuito de descrevermos um perfil eclesiológico, que

se revelará como eclesiologia de comunhão e missão.

Tendo em vista que toda a ação eclesial seja ela pastoral ou evangelizadora, em

qualquer Igreja local, inclusive a do Brasil, tem suas raízes hermenêuticas justamente no

modelo eclesiológico presentificado pelo Concílio Vaticano II, o que se justifica o seu estudo,

a fim de que se possa entender os sucessivos planos pastorais das Igrejas locais.

O Concílio é o marco zero da vida pastoral da Igreja no Brasil; os seus dois primeiros

planos de Pastoral: o Plano de Emergência (PE), aprovado às vésperas do Concílio (abril de

1962), e o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC), discutido a aprovado ao final do Concílio


21

(dez. de 1965) situam-se justamente no decurso do próprio Concílio e, conseqüentemente,

bebem de sua fonte. Nesse sentido, o Concílio foi o maior evento da vida da Igreja do Brasil.

O texto que se segue procurará ser fiel a suas fontes e, entremeio às descrições

históricas - teológicas do evento conciliar, introduzirá, já de antemão, o que o episcopado

brasileiro elaborou a partir de suas Diretrizes.


22

1. O PROCESSO HISTÓRICO DA CONSTITUTIO DE ECCLESIA

Nesse primeiro momento de nosso trabalho, analisaremos, de forma concatenada, o

processo de apresentação, elaboração, discussão e promulgação da Constitutio De Ecclesia no

desenrolar dos quatro períodos conciliares. Assim, duas observações se fazem importantes:

não abordaremos o período antepreparatório datado entre 1956 a 1960, nem a fase

preparatória que vai de 1960 a 1962, por razões de delimitação da abordagem. Porém, segue-

se uma bibliografia básica acerca do tema 4.

Da mesma forma, por razões de delimitação, não serão apresentadas, no decurso de

nosso trabalho, as questões discutidas pelos Padres conciliares relativas aos outros Esquemas,

mas apenas na discussão da então referida Constituição; contudo, daremos uma bibliografia

básica sobre esses debates não focados em nossa pesquisa.

4
As fontes relativas aos trabalhos estão conservadas num arquivo próprio do Concílio Vaticano II, no Vaticano.
Foram editados até agora os pareceres enviados em resposta à consulta antepreparatória: Acta et Documenta
Concílio oecumenico Vaticano II apparando. Series I antepraeparatoria, Cidade do Vaticano, 1960-1961, 4 v.
em 16 tomos, o último dos quais é de índices. À preparação foi dedicada uma Series II praeparatoria, que consta
até agora de 3 v. em 8 tomos (Cidade do Vaticano, 1965-1989), que contém as atas da comissão central
preparatória. Para uma análise pormenorizada dos antecedentes do Concílio Vaticano II, assim como dos
Documentos e dos Organismos e trabalhos Preconciliares, cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II: v. I:
documentário Preconciliar. Petrópolis: Vozes, 1962. Para uma leitura mais analítica, cf. ALBERICO, G. (org.).
História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus. 1995. p. 391-400. A REB também é um grande celeiro
de artigos sobre o assunto, além de fornecer em suas cessões de Comunicações e Documentação, documentos e
subsídios afins, como se segue: REB, Petrópolis, v. XXI, n. 2-3, [jun-set] 1961; v. XXII, n. 1-3, [março-jun-set]
1962.
23

1.1. O PRIMEIRO PERÍODO DO CONCÍLIO (11/10 a 08 /12 / 1962)

Em 11 de outubro do ano de 1962, com a alocução do Papa João XXIII Gaudet

Mater Ecclesia 5 dava-se a solene abertura do 21° Concílio Ecumênico intitulado Vaticano II,

com a presença de 2.540 Padres conciliares. Segundo cálculos fidedignos, no ano de 1961

havia cerca de 2.191 circunscrições territoriais, entre patriarcados, exarcados, dioceses,

prelaturas nullius, abadias isentas e vicariatos apostólicos. Diante de uma somatória básica,

considerando os bispos auxiliares, os diversos bispos da cúria vaticana, os bispos chegavam

em todo o mundo à cerca de 4.000.

De forma probatória, é mister afirmar que:

todas as dioceses, ou quase, estavam representadas e que cinco sextos de todo o

episcopado mundial tinham respondido ao apelo do papa. Jamais, não só na história

da Igreja, mas pode-se talvez dizer em toda a história, uma assembléia se

apresentou tão numerosa e com caracteres tão universais 6.

5
O Pe. João Batista Libanio ressalta, em sua obra, que a alocução ou discurso Inaugural do papa João XXIII foi
programático e, neste ínterim, é o grande divisor de águas do Concílio. Ele ressalta quatro eixos que norteiam tal
discurso. Cf. Concílio Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Loyola, 2005. p. 65-6.
Em um de seus artigos, Intitulado Concílio Vaticano II: abordagem pastoral ressalta três palavras decisivas neste
discurso: pastoral, ecumenismo e aggiornamento. Disponível em: <http/www.cebsuai.rog.br/Libanio_cont.htm>
Acesso em: 25/04/2006. Para uma análise da referida alocução cf. CATÃO F. A. C. O perfil distintivo do
Vaticano II: recepção e Interpretação. In: GONÇALVES, P. S. L.; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio
Vaticano II: Análise e Prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 99-102.
6
MARTINA, Giacomo. História da Igreja: de Lutero a nossos dias. v. IV: A era contemporânea. São Paulo:
Loyola, 1997. p. 290. Passim. Também I padri presenti al Concílio ecumênico Vaticano II, sob a coordenação da
Secretaria Geral do Concílio, 1966. Acerca da sua preparação e o desenvolvimento de seus quatro períodos, além
de sua contextualização no cenário mundial e teológico, cf. SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento
histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S. LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio
Vaticano II. Análise e Prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 17-67. Cf. também ALBERIGO, Giuseppe
(org.). História dos Concílios Ecumênicos. Op. cit. p. 393- 440. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro
com a modernidade, São Paulo: Loyola, 2000.
24

Dentre esse universo de participantes de todo o mundo, a Igreja do Brasil, que

contava com 174 bispos, no momento da consulta em 1959, teve ao final das quatro sessões

conciliares, em 1965, o seu número acrescido em 55 novos bispos, ou seja, um total de 229

bispos, sendo 7 estrangeiros e 222 brasileiros. Contudo, nem todos esses participaram tanto da

fase antepreparatória como das sessões do Concílio.

Dos 167 bispos, considerados brasileiros pelo anuário Pontifício em 1959, somente

132 enviaram o seu “vota” 7 no que tange à fase Antepreparatória. Em relação à participação

nas sessões do Concílio, segundo José Oscar Beozzo foi assim:

Na primeira sessão do Concílio, participaram 173 bispos dos 204 (84,8%); na

segunda, 183 de 220 (83,2%); na terceira, 167 de 221 (75,5%); na quarta, 192 de

227 (84,6%). A Estes 227, deveriam ser agregados outros dois, nomeados nos

últimos dias do Concílio: Luís Gonzaga Fernandes (6/11/1965), para auxiliar de

Vitória (ES), e Ivo Lorscheiter (12/11/1965), para auxiliar de Porto Alegre (RS). Se

incluirmos estes dois, com sua participação nos atos finais do Concílio, o número

sobe para 194 participantes, sobre 229, e a porcentagem passa para 84,7% 8.

Após as formalidades e orações de início, já no dia 13 de outubro 9, quando da

7
Os “votas” foram dirigido aos bispos do Brasil pelo secretário de Estado, Domenico Tardini. “As primeiras
respostas chegaram em julho de 1959 e as últimas, em julho do ano seguinte, depois de nova carta de Tardini,
urgindo a manifestação dos retardatários. As respostas do Brasil à consulta ocupam 216 páginas do volume II,
Pars VII, das Acta et Documenta Concílio oecumenico Vaticano II appurando, series I (antepraeparatoria),
editadas pela Poliglota do Vaticano entre 1960-1961”. Cf. BEOZZO, José Oscar. Concílio Vaticano II (1962-
1965): a participação da Conferência Episcopal Brasileira. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL
(Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB, Op. cit. p. 73.
8
Ib. p. 78. Cf. também KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão. Petrópolis: Vozes,
1963. p. 43.
9
Para o transcurso natural do Concílio, o Papa João XXIII, decretou e promulgou em Motu Próprio Intitulado
Appropinquante Concílio, o Regulamento denominado Ordo Concilii Oecumenici Vaticani II Celebrand,
contendo duas partes e 70 artigos. In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 991-1004, [dezembro] 1962. Para uma
leitura em vernáculo, cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op.
cit. p. 271-286.
25

primeira Congregação Geral10 houve, por parte de alguns Cardeais europeus – Liénart e

Frings-, o pedido de adiamento das eleições das Comissões, a fim de que houvesse tempo

para contatos, evitando-se, assim, a mera confirmação das Comissões preparatórias. Essa

postura foi o primeiro sinal da consciência conciliar que se estava nascendo, rompendo o
11
rigorismo postulado pela Cúria Romana. Neste ínterim, somente no dia 16, na segunda

Congregação Geral, é que as Comissões foram eleitas, tomando por base as listas emitidas

pelas Conferências episcopais, “resultando daí uma nítida preferência pelos bispos centro-
12
europeus em prejuízo aos bispos latinos” . Somente na terceira Congregação Geral é que

foram pronunciados os nomes dos membros eleitos. 13

Os Padres conciliares detiveram-se desde o dia 22 de outubro até o dia 13 de

novembro, debatendo acerca da reforma litúrgica, ou seja, da quarta até a décima oitava

Congregação Geral. Em seguida, começaram as discussões sobre as “Fontes da Revelação”

ocupando da 19ª até a 24ª Congregação Geral, ou seja, desde o dia 14 ao dia 21 de novembro.

Os dois Esquemas posteriores, sobre os “Meios de Comunicação Social” e sobre a “Unidade

da Igreja” tiveram ambos três Congregações Gerais, ou seja, a primeira da 25ª até a 27ª e a

segunda da 28ª à 30º Congregação Geral 14.

10
Entende-se por Congregação Geral “o nome oficialmente usado para designar a reunião plenária na Aula
conciliar. As Congregações Gerais são propriamente as grandes sessões de trabalho do Concílio Ecumênico,
durante as quais os Padres conciliares, discutem e votam os projetos ou textos (chamados também ‘Esquemas’)
elaborados pelas Comissões Preconciliares, louvando-os (‘placet’), emendando-os (‘placet iuxta modum’) ou
rejeitando-os (‘non placet’), como bem lhes parecer diante do Senhor. Cada congregação é presidida, em nome e
com autoridade do Papa, por um dos dez Cardeais do Conselho de Presidência”. KLOPPENBURG, B. Concílio
Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op. cit. p. 73. Também KOSER, Constantino. A Primeira
Sessão do Concílio Vaticano II. In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 908-9, [dezembro] 1962.
11
Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op. cit. p. 77-9.
12
ALBERICO, G. (org.). História dos Concílios Ecumênicos. Op. cit. p. 401.
13
KLOPPENBURG oferece em sua obra Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão. Op. cit. p. 51-60 os nomes
de todos os membros eleitos.
14
Para uma leitura aprofundada sobre as discussões destes Esquemas, assim como das votações em plenário
pelos Padres conciliares nas Congregações Gerais realizadas na primeira sessão, cf. KLOPPENBURG, B.
Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op. cit. p. 71-268. De forma mais condensada,
KOSER, Constantino. A Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 904-936,
[dezembro] 1962.
26

No dia 23 de novembro, na vigésima quinta Congregação Geral, o Esquema sobre a

Igreja fora apresentado aos Padres conciliares15 sob dois moldes, a saber: “Esquema da
16
Constituição dogmática sobre a Igreja” e um segundo “Esquema da Constituição

dogmática acerca da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens” 17.

O Esquema De Ecclesia era originariamente composto com onze Capítulos18, que,

com a análise dos presentes, foram reelaborados em outros decretos; o segundo, acerca de

Maria, foi incorporado no tratado De Ecclesia, com maior riqueza que o primeiro.

O presente Esquema, embora louvado por alguns, foi alvo de profundas críticas, haja

vista que, sua preocupação central, fundava-se sobre a “natureza e a estrutura da Igreja” e, em

seu bojo, “ligava a visão da Igreja como instituição, idéia dominante a partir de Roberto
19
Belarmino, com a concepção apresentada na encíclica sobre a Igreja de Pio XII” ; nesse

aspecto, os Padres conciliares atribuíram ao Esquema apresentado excessivo “jurisdicismo e

triunfalismo” (De Smedt, Bruges) “visão pouco profunda do poder episcopal e da função dos

leigos” 20.

15
Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op. cit. p. 197.
16
Cf. Schema Constitutionis Dogmaticae De Ecclesiae, p. 7-90. A metade aproximadamente das páginas são
notas explicativas ou citações da Sagrada Escritura e dos Santos Padres, que propriamente não forma parte do
texto. Apud NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen
gentium. Op. cit. p. 16.
17
Cf. Schema Constitutionis Dogmaticae de Beata Maria Virgine, Matre Dei et Matre Hominum, p. 91-122. O
texto doutrinal reservado a este Esquema é relativamente breve (p. 91-98); mas as notas que o declaram e
confirmam ocupam as páginas 99-122. Apud NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à
Constituição Dogmática Lumen gentium. Op. cit. p. 16.
18
Assim estão enunciados os onze Capítulos: Cap. I – De Ecclesiae militantis natura, Cap. II – De mebris
Ecclesiae militantis eiusdemque necessitate ad salutem, Cap. III – De episcopatu ut supremo gradu sacramenti
ordinis et de sacerdotio, Cap. IV – De episcopis residentialibus, Cap. V – De Statibus evangelicae perfectionis
acquirendae, Cap. VI – De laicis, Cap. VII – De Ecclesiae Magistério, Cap. VIII – De auctoritate et oboedientia
In Eclésia, Cap. XI – De relationibus Inter Ecclesiam et Statum, Cap. X – De necessitate Ecclesiae annuntiandi
Evangelii omnibus gentibus et ubique, Cap. XI – De oecumenismo. Op. cit. p. 16. Também, BETTI, U.
Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 1143.
19
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 40. Cf. também
KOSER, Constantino. A Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 930-1,
[dezembro] 1962.
20
NICOLAU, M. et al. A Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 18. Para uma leitura aprofundada acerca das discussões dos Padres Conciliares, cf. KLOPPENBURG,
B. Concílio Vaticano II. v. II: Primeira Sessão (set-dez 1962). Op. cit. p. 230-265.
27

Havia de fato, um problema de fundo que residia no modo como se concebia a Igreja,

visto que, o que os Padres da ala conservadora desejavam é que a discussão “não se limitasse

à Igreja militante, uma vez que a Igreja triunfante é meta e ilumina o caminho que, no tempo

aquela deve seguir” 21. Ao mesmo tempo, outros Padres conciliares declaravam a necessidade

de reformulação do Esquema, como demonstra dois testemunhos; um do cardeal Suenens que

recordou-se que se considerasse a Igreja em si mesma, na sua natureza e na sua

missão de mãe e mestra, para, em segundo lugar, se examinar frente aos grandes

problemas que agitam o mundo de hoje, como os relativos à pessoa humana e à

sociedade nas suas exigências de justiça e paz 22.

O outro do então Cardeal Montini que

chamava a atenção para a necessidade de aprofundar o texto e de realçar as relações

entre Cristo e a Igreja, de modo a aparecer com evidencia que a Igreja fundada por

Cristo tudo recebe d´Ele, sendo sua continuação no tempo e instrumento querido

por Ele para a salvação dos homens 23.

As discussões sobre o Esquema De Ecclesia duraram desde o dia primeiro até o dia

sete de dezembro, perfazendo desde a trigésima primeira Congregação Geral até a trigésima

sexta. O Esquema não foi submetido à votação, mas foi considerado pelos Padres inaceitável

21
Ib. p. 18.
22
Ib. p. 19.
23
Ib. p. 19.
28

para as futuras discussões conciliares, a fim de ser totalmente refeito24. Essa decisão foi

frustrante.

Com o encerramento do primeiro período, aos oito dias de dezembro, nenhum dos

cinco Esquemas discutidos estava definido. Na alocução25 proferida, o Papa Bom procurou

confortar

os Padres conciliares afirmando que era compreensível que para se chegar a um

consenso seria necessário um tempo maior. A opinião pública ficou desiludida por

não serem apresentados resultados concretos. Muitos católicos se escandalizaram

com a discórdia dos Padres conciliares, o que acontecera em todos os Concílios

anteriores 26.

Essa alocução do Pontífice procurou restituir a alegria e a esperança dos próprios

Padres conciliares, assim como dos que estavam preocupados e até desiludidos. Como afirma

Frei Constantino Koser, “a Primeira Sessão do Concílio não foi uma fase negativa, por certo
27
será avaliada como uma das grandes horas positivas na história da Igreja” . Ainda, a

“primeira fase do Concílio se encerrou empanada pela enfermidade do Papa (...) Mas fechou

também com a certeza inabalável de que o intervalo entre a primeira e a segunda fase será

fecundo” 28.

24
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Petrópolis: Vozes, 1964. p.
24.
25
Cf. REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 1028-103, [dezembro] 1962.
26
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 41.
27
KOSER, Constantino. A Primeira Sessão do Concílio Vaticano II. In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 933,
[dezembro] 1962.
28
KOSER, Constantino. Após a Primeira Sessão do Concílio. In: REB, Petrópolis, v. 22, n. 4, p. 829,
[dezembro] 1962.
29

1.2. O PRIMEIRO PERÍODO INTERSESSIONAL DO CONCÍLIO – 1962-63

1.2.1. OS TRABALHOS PÓS-PRIMEIRA SESSÃO

Já antes do término do primeiro período, foi distribuído entre os Padres um fascículo

no qual as várias dezenas de Esquemas preparatórios foram sintetizadas em vinte assuntos,

procurando assim atender a todos os Padres no que se referia às suas intervenções.

Inusitada ainda foi a decisão do Papa João XXIII em emitir um Ordo agendorum29,

ou seja, “uma norma para a iminente pausa e ao mesmo tempo a decisão de criar uma

comissão de coordenação, que acompanharia o desenvolvimento do trabalho conciliar,

sobretudo no período de suspensão da assembléia” 30.

Essa Comissão de Coordenação, criada aos dezessete dias de dezembro, era

composta por seis cardeais 31 eleitos pelo Papa sobre a presidência do secretário de Estado A.

G. Cicognani, cuja tarefa era de aperfeiçoar esses assuntos, muitas vezes com a colaboração

de subcomissões e depois dirigi-las ao Papa para aprovação e encaminhamento aos Padres

conciliares.

Referente ao Esquema De Ecclesia, que ia claramente designando como eixo do

Concílio 32, a sua reelaboração foi encomendada a uma comissão Mista, composta de Padres e

Peritos da Comissão Teológica e do Secretariado do Cardeal Bea. De 21 de fevereiro até 13

29
O título completo é: Ordo agendoroum tempore quod Inter conclusionem primae periodi concilii Oecumenici
et initium circundai intercedit. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 1, p. 1034-1035, [março] 1962. Com a mesma força,
pode-se também aludir a Carta emitida por sua Santidade o Papa João XXIII endereçada aos Bispos do mundo
todo em data de 8 de fevereiro de 1963, porém com data de 6 de janeiro, Intitulada Mirabilis ille. In:
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 344-351. Segundo
Guilherme Baraúna, estes dois documentos constituem o elo de ligação entre a Primeira e a Segunda Sessão
conciliar. Cf. Crônica dos trabalhos Intersessionais do Concílio. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 2, p. 423-431,
[junho] 1963.
30
ALBERICO, G. (org.). História dos Concílios Ecumênicos. Op. cit. p. 406.
31
São eles: Confalonieri, Döpfner, Liénart, Spellman, Suenens e Urbani.
32
É notável esta percepção na Carta Pastoral Quaresmal do ano de 1963 do Cardeal Achile Lienar, Bispo de
Lille, Intitulada “A Igreja à luz do Concílio”. In: REB v. 23, n. 2, p. 488-492, [junho] 1963.
30

33
de março, estiveram reunidos, analisando os seis Esquemas apresentados . Para maior

eficiência, foi criada uma subcomissão, cujo encargo era “providenciar sobre a reelaboração

do Esquema, valendo-se mesmo de representantes de outras Comissões em matéria afins às de


34
sua competência . O trabalho dela devia ser depois examinado pela Comissão Doutrinal

inteira, e, finalmente, transmitido à comissão de coordenação para lhe obter o ‘placet’”.

A subcomissão, reunida pela primeira vez a 25 de fevereiro, optou pelo Esquema

belga, articulado em quatro Capítulos, a saber: Capítulo I sobre o Mistério da Igreja, discutido

e aprovado durante a sessão em curso nas reuniões de 5 a 9 de março; o Capítulo II sobre a

Constituição Hierárquica da Igreja foi discutido entre os dias 15 a 28 de maio; o Capítulo III

acerca dos Leigos foi aprovado sem grandes dificuldades e o Capítulo IV, sobre o Estado de

Perfeição, foi vivamente discutido em duas reuniões entre os dias 27 e 28 do mesmo mês e,

posteriormente, modificado completamente.

O Esquema foi votado em duas partes: os dois primeiros Capítulos no dia 28 de

março de 1963 e os dois últimos, no dia 4 de julho e, conseqüentemente, impressos em dois

fascículos distintos, dos quais o primeiro continha o Capítulo primeiro e o segundo e o outro,

os dois últimos, enviados aos Padres concomitantemente nos meses de maio e de agosto.

Propôs-se, ainda, para discusão posterior, que o Capítulo III sobre o Povo de Deus se

dividisse em dois, sendo um que tratasse do Povo de Deus em Geral e um outro do Leigo, de

forma específica. O Esquema agora já possuía não mais quatro, mas cinco Capítulos.

Neste ínterim, esperava a comissão doutrinal ter prestado um bom trabalho para uma

melhor recepção e discussão nos trabalhos conciliares referentes ao segundo período.

33
“Um veio da Bélgica, elaborado por Mons. Philips, professor na Universidade de Louvaina e senador do reino
belga; outro foi elaborado por Mons. Parente assessor do Santo Ofício; um terceiro veio da Alemanha; um quarto
da França, outro do Chile, outro da Espanha”. Cf. In: KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda
Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 24.
34
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 141.
31

1.2.2. A TRANSIÇÃO PONTIFÍCIA

No findar do primeiro período e, principalmente, nos primeiros meses de 1963, as

condições de saúde do Papa João XXIII se agravaram de forma progressiva; contudo, isso não

o atrapalhou, conforme suas possibilidades, de acompanhar os trabalhos conciliares e de ainda

publicar a encíclica “Pacem in terris”; Entretanto, no dia 3 de junho do mesmo ano, veio a

falecer.

Após os funerais próprios, foi realizado um breve conclave, de 19 a 21 de junho, em

que se elegeu o novo Papa, o cardeal Montini, que assumiu o nome de Paulo VI. Uma

pergunta pairava no o ar desde a morte de João XXIII: o Concílio vai continuar? A resposta

veio na primeira Radiomensagem do novo Papa, um dia após sua eleição, quando disse que “a

parte preeminente do Nosso Pontificado será ocupada pela continuação do Concílio

Ecumênico Vaticano II, no qual estão fitos os olhos de todos os homens de boa vontade” 35.

Já no dia 27, o Papa por meio do Secretário de Estado, não só confirmou a

continuação, como fixou a data de 29 de setembro como a de abertura do novo período

conciliar 36. O fato de ter sido membro da comissão central preparatória e participante ativo da

primeira sessão sugeriu o Papa Paulo VI a revisão do regulamento a fim de maior

funcionalidade; além disso, propôs a criação de um restrito Colégio de moderadores, que

“formariam o elo de ligação entre o Papa e a assembléia; esta seria dirigida, por revezamento,

pelos membros desse Colégio” 37.

35
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 484-487.
36
Cf. Carta de Paulo VI ao Card. Tisserant sobre a II Sessão do Concílio. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 4,
p.1054-1056, [dezembro] 1963.
37
ALBERICO, G. (org.). História dos Concílios Ecumênicos. Op. cit. p. 410.
32

Ainda determinou que se criasse uma categoria de ouvintes do Concílio, de modo a

poder introduzir alguns leigos na qualidade de participantes das sessões plenárias; por fim,

tomou para si a responsabilidade de reformar a Cúria Romana 38.

1.3. O SEGUNDO PERÍODO DO CONCÍLIO (29/9 a 4/12 / 1963) 39

A abertura da segunda Sessão Conciliar deu-se no dia 29 de setembro, primeiramente

com a Celebração Eucarística, presidida pelo Cardeal Tisserant, e, após, pelo discurso de

Paulo VI, que denotou o tom dos trabalhos desse segundo período, numa clara exposição de

continuidade ao predecessor e de concentração de trabalhos acerca do tema eclesiológico.

Em seu discurso, o Papa destaca que

para se saber claramente em que bases se assentam este Concílio e quais são seus

objetivos, que se podem resumir em quatro, por uma questão de clareza: a noção

ou, melhor, a consciência da Igreja, sua renovação, a restauração da unidade entre


40
todos os cristãos e o diálogo da Igreja com os homens de nosso tempo .

Mais adiante continua:

38
No dia 21 de setembro, O Papa Paulo VI, reuniu os oficiais maiores e menores da Cúria Romana para lhes
comunicar desejos, aspirações e ordens quanto a uma próxima reforma e à necessária adequação aos novos
tempos. Cf. Discurso de Paulo VI à Cúria Romana. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 4, p.1057-1062, [dezembro]
1963. A reforma propriamente dita, fez-se com a Regimini ecclesiae, de 15 de agosto de 1967.
39
Neste período se fará também as votações finais acerca do Esquema sobre a Liturgia e sobre os meios de
Comunicação Social, além de ser introduzido para estudo, o Esquema sobre o Ecumenismo. Cf.
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 303-408.
40
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. São Paulo: Paulinas, p. 50.
33

O principal tema desta segunda sessão do Concílio Ecumênico será a Igreja.

Indagar-se-á qual a sua natureza íntima e como exprimir sua definição na

linguagem corrente, de maneira a precisar o que realmente é e esclarecer seu

múltiplo mandato em função da salvação 41.

O trabalho conciliar iniciou-se aos trinta dias de setembro, primeiramente com

algumas palavras introdutórias do presidente da comissão doutrinal, o Cardeal Ottaviani, e da

exposição dos novos regulamentos42 pelo então secretário Cardeal Browne. Após essas

formalidades, os Padres conciliares detiveram-se sobre o novo Esquema De Ecclesia43, já

entregue aos mesmos pelo Secretário de Estado, Cardeal Amleto J. Cicognani em duas etapas:

o primeiro, em data de 22 de abril, que “continha o novo texto do Capítulo I (‘Do mistério da

Igreja’), do então Capítulo II (‘Sobre a Constituição Jerárquica da Igreja e, em particular do

episcopado’)”; o segundo, em data de 19 de julho “contendo o então Capítulo III (‘Do Povo

de Deus e, em particular, dos leigos’) e o Capítulo IV (‘Sobre a vocação à santidade na

Igreja’)” 44.

O novo Esquema foi acolhido com maior receptividade, pois se tratava de um texto

mais ecumênico e pastoral, sem aquela fria rigidez proveniente do estilo jurisdicista, mas, ao

41
Ib. p. 51.
42
Em audiência com o Cardeal Cicognani, no dia 13 de setembro de 1963, o Papa Paulo VI aprovou e mandou
observar o texto com as modificações próprias para o bom funcionamento do Concílio. Cf. KLOPPENBURG, B.
Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 505-507.
43
O texto do Esquema encontra-se em AS II/1, p. 215-281; as Intervenções em AS II/2, p. 9-913, AS II/3, p.10-
674 e AS II/4, p.29-359. As Intervenções escritas: AS III/1, p. 467-801. Uma publicação dos debates conciliares
do segundo período encontra-se em: In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 4, p. 943-988, 1963. (texto organizado por
Boaventura Kloppenburg).
44
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 19. As emendas ou observações que os Padres tinham enviado por escrito antes de se encontrar de
novo, reunido o Concílio, em Setembro de 1963, estão reunidas em fascículo, Intitulado Emmendationes a
Concilii Patribus scripta exhibitar super schema Constitutiones Dogmatiacae de Ecclésia. Typis polyglotis
Vaticanis 1963. Sobre a parte I tem 47 p. e 372 observações ou emendas, das quais 1 se refere ao título, 9 à
introdução, 156 ao Capítulo I, 206 ao Capítulo II. Apud NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II:
comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium. Op. cit. p. 20.
34

contrário, enriquecido pelos recursos abundantes das imagens bíblicas. Muitas foram as

intervenções, como a do Cardeal Frings, Arcebispo de Colônia que propunha

uma descrição da Igreja como comunidade escatológica de santos, de modo que

aparecesse por um lado, a Igreja em tensão para a santidade, por outro, a Igreja já

perfeita nos seus santos. Também propunha a idéia de fazer parte deste Esquema o

relativo à Virgem Santíssima, que se encontrava noutro Esquema separado 45.

Desejava-se também um aprofundamento acerca da doutrina do Corpo Místico, uma

apresentação mais inteligível da Igreja para os não cristãos, que constituem dois terços da

humanidade e, neste sentido, uma passagem mais óbvia e natural do Corpo Místico ao Povo

de Deus e da igualdade dos membros à distinção hierárquica. É nesse contexto que o Bispo

de Bressanone, G. Gargitter,

sugeria já a transladação do Capítulo III (sobre o Povo de Deus, no qual tratava dos

leigos), de modo que fosse o Capítulo II, a seguir do Capítulo I sobre o mistério da

Igreja. Desta forma seria mais natural a passagem da Igreja, concebida como

mistério e Corpo místico, à concebida como Povo de Deus, passando-se assim

facilmente do conceito de igualdade de seus membros ao de jerarquia e dos bispos

aos presbíteros e diáconos 46.

45
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 20.
46
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 20.
35

Contudo, no dia 1º de outubro, foi feita uma votação sobre o Esquema no seu todo,

tendo uma aprovação esmagadora, ou seja, 2.231 votos favoráveis e somente 43 votos

contrários 47. No decorrer do mês de outubro foi discutido cada um dos pontos do Esquema,

iniciando primeiramente pelo Capítulo I, que durou apenas três Congregações Gerais, da 39ª a

41º 48. Do dia 4 até o dia 16, ocupando deste a 42ª Congregação Geral até a 49ª 49, discutiu-se

o segundo Capítulo que tratava sobre a Constituição Hierárquica da Igreja, e de maneira

particular do episcopado, “espinha dorsal de todo o Concílio” 50.

Duas foram as discussões dos Padres conciliares acerca desse Capítulo: a primeira,

constituindo a questão de fundo,

era estabelecer dogmaticamente a posição do episcopado na estrutura eclesiástica

querida por Cristo. Tratava-se, em suma, de fazer a doutrina sobre o episcopado sair

de um certo estado de raquitismo, e de, ao mesmo tempo, harmonizá-la, sem

minimamente desfalcá-la, com a doutrina sobre o Pontífice Romano definida pelo

Vaticano I 51.

Originariamente, foi proposto que o “Colégio episcopal agindo em estreita

colaboração com o papa, divide com este a responsabilidade e o poder nas relações com toda

a Igreja” 52. Diante dessa postura, muitos Padres posicionaram-se contra, “considerando esta

teoria um prejuízo ao primado papal e contestavam que ela tivesse fundamento bíblico e na

47
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 30-37.
48
Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 30-55.
49
Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p.56-137.
50
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 145.
51
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 145.
52
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 45.
36

53
tradição” . Diferentemente, o grupo da colegialidade, sustentava “que o primado do papa

havia sido colocado em evidência em numerosos pontos do Esquema segundo a definição do

Vaticano I e que a doutrina do Colégio episcopal se sustentava na Sagrada Escritura, na

missão dos doze e no fundamento da tradição dos textos da consagração episcopal e em outros
54
testemunhos” . Contudo, em meio às discussões, a idéia da colegialidade episcopal eram

cada vez mais precisadas através do debate, sem perder de vista a função do Primado da

Igreja 55.

Uma segunda questão era a da restauração do Diaconato Permanente, uma vez que

era considerado como grau intermediário para o sacerdócio, conforme as definições do

Concílio de Trento. Embora pouco discutido, procurava definir o diaconato como grau

estável, à medida que examinavam as vantagens que dele poderiam advir, uma vez que, a

escassez de sacerdotes, já era uma questão fundante 56.

Muitas foram as intervenções acerca dos temas relativos ao episcopado e ao

diaconato. Nesse sentido, quais entrariam para o texto e quais seriam rejeitadas? O Cardeal

Suenens, moderador, anunciou na Congregação-Geral, no dia 15 de outubro, uma pré-votação

acerca de quatro quesitos, a saber: 1: se a consagração episcopal tem caráter sacramental; 2:

se na comunhão com o Papa e com os bispos, cada bispo, legitimamente consagrado, é, ipso

facto, membro do corpus episcoporum; 3: se o Colégio episcopal (corpus suum collegium

episcoparum) é sucessor do Colégio dos apóstolos e, se junto com o seu chefe, o papa, e

53
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 45.
54
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 46.
55
Cf. KLOPPENBURG, B Os debates Conciliares da II sessão. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 4, p. 949-957,
[dezembro] 1963.
56
Cf. KLOPPENBURG, B Os debates Conciliares da II sessão. In: REB, Petrópolis, v. 23, m. 4, p. 957-959,
[dezembro] 1963.
37

nunca sem ele, tem o poder supremo sobre toda a Igreja; 4: se este poder é de direito divino 57.

No dia 16 de dezembro, pôs-se fim à discussão sobre o Capítulo II e iniciou-se a

discussão do Capítulo III, acerca do Povo de Deus e dos leigos em particular, que ocupou sete
58
Congregações Gerais, da 49ª à 56ª . O texto foi bem aceito, com algumas ressalvas

infundadas. Contudo, o texto transpirava mais um “triunfalismo laical, isto é, uma

perspectiva demasiado otimista que considerava as coisas mais como deveriam ser do que

como de fato são” 59. Nessas discussões, pôde-se clarificar a realidade do sacerdócio comum,

próprio de todo batizado e sobre sua diferença essencial do sacerdócio ministerial.

A exigência maior desse Capítulo recaía sobre a proposta de dividi-lo em duas

partes, sendo a primeira destinada à reflexão do Povo de Deus em geral, constituindo o

segundo Capítulo e um segundo, que constituiria o Capítulo IV, em que se refletiria

especificamente sobre o leigo. Conforme os testemunhos, a proposta era sensata, uma vez que

“o Povo de Deus compreende a todos: e, portanto o seu tratado seria pressuposto necessário

daquilo que depois seria dito singularmente da hierarquia, dos leigos e dos membros dos

institutos de perfeição” 60.

A discussão acerca do até então Capítulo II continuou e, devido a novas

interpelações dos moderadores, no dia 23 de outubro, foi solicitado que se revisse o texto não

em quatro quesitos, mas em cinco pontos, ou seja, que se acrescentasse a questão acerca do

diaconato 5: se é oportuno, em relação às necessidades locais das Igrejas, restaurar o

diaconato como grau de consagração distinto e permanente. Embora a votação fosse somente

para esclarecer, não foi votada no mesmo dia.

57
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 46-7. Cf. Também
Cf. KLOPPENBURG, B Os debates Conciliares da II sessão. In: REB, Petrópolis, v. 23, n. 4, p.959-962,
[dezembro] 1963.
58
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. 1964. p. 137-192.
59
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 147.
60
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 148.
38

No mesmo dia, os Padres conciliares começaram a discutir sobre o então Capítulo IV

sobre a vocação à santidade da Igreja 61. Foi aceito pela maioria, como de fato fora proposto,

embora alguns desejassem uma “mudança substancial da estrutura do Capítulo, de modo que

nele se tratasse só dos religiosos, e que todo o resto concernente à vocação universal à
62
santidade fosse transferido para o projetado e novo Capitulo II sobre o Povo de Deus” .

Contudo, faltava ainda uma sessão acerca dos Padres diocesanos, que embora também

vocacionados à santidade, como os religiosos e os leigos, são diferentes quantos aos meios de

consegui-la.

Enquanto se pensava que as discussões sobre o novo Esquema já estavam encerradas,

tomou corpo um movimento, cuja intencionalidade era de introduzir ao Esquema sobre a

Igreja o Esquema sobre Nossa Senhora, como já constava no projeto primeiro da Comissão

teológica preparatória. Contudo, a oposição não deu tréguas 63.

Uma vez que os Padres conciliares estavam divididos quanto à questão, percebeu-se

também que no seio da Comissão Teológica havia a mesma realidade. Dois cardeais,

membros da mesma, expuseram aos Padres os pontos favoráveis e os desfavoráveis acerca da

questão. No dia 29 de outubro, realizou-se votação com esmagadora vitória da inserção do

texto sobre Nossa Senhora dentro do Esquema sobre a Igreja, constituindo um novo Capítulo.

Ao final, depois de muita tensão, somente no dia 30 de outubro, puderam ser votados

aqueles cinco quesitos já expostos desde o dia 15 do mesmo mês. O 1º quesito teve, em 2157

votantes, 2123 votos favoráveis e somente 34 não favoráveis. O 2º, num universo de 2154

votantes, obteve 2049 votos favoráveis e 104 não favoráveis e um voto nulo. Os três últimos

quesitos tiveram forte baixa. O quesito 3º obteve 1808 votos favoráveis e 336 votos não

favoráveis e quatro votos nulos num universo de 2148 Padres. O 4º, de 2138 votantes, obteve

61
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 197-223.
62
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 148.
63
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 47.
39

1717 votos favoráveis e 408 votos não favoráveis e 13 votos nulos. O 5º quesito, em 2120

votantes, obteve 1588 votos favoráveis, 525 não favoráveis e sete votos nulos 64.

Depois de muitas discussões, o quesito sobre o Diaconato Permanente e sobre a

colegialidade estava assegurado. A crise de outubro de 1963 fora superada. Porém, a

Congregação-geral do dia 30 de outubro de 1963 iniciou um novo caminho, diferente daquele

de outubro de 1962.

Após os conflitos oriundos das discussões, o Esquema sobre a Igreja saía com uma

estruturação quase precisa. Quanto aos leigos, já era consenso a divisão em dois Capítulos, a

inserção do Capítulo sobre Nossa Senhora, um Capítulo sobre os religiosos e, ainda, a

expectativa de acrescentar um novo Capítulo acerca da relação entre Igreja peregrina e Igreja

celeste 65.

Para melhor desenvolver as intervenções dos Padres conciliares, que se chegava ao

numero de 2.000 páginas, as Comissões foram acrescidas de 4 membros escolhidos pelo

Concílio e de um escolhido pelo Papa. Procurou também aperfeiçoar a sua estrutura interna,

elegendo um “segundo vice-presidente e um secretário-adjunto, os quais foram

respectivamente o bispo de Namur, A. M. Charue e o perito G. Philips, preconizado para tal

encargo pelo papel até então desempenhado no seio da Comissão” 66.

Para um melhor aproveitamento do trabalho de reelaboração do Esquema e também

para que se concluísse tal procedimento até antes do término do segundo período, subdividiu-

se a comissão em vários grupos de estudos, formando uma subcomissão central, constituída a

2 de outubro de 1963 com a missão de orientar todo o trabalho e mais oito subcomissões

particulares, constituídas a 24 de outubro. Depois, ainda se formou uma nona subcomissão no


64
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 24.
65
Chegava à comissão como de surpresa o Capítulo sobre a Igreja peregrinante e Igreja celeste. Após certos
conflitos, foi criada uma subcomissão para analisá-lo e encontrar um lugar para o mesmo entre o Capítulo sobre
a vocação à santidade e o Capítulo sobre Nossa Senhora. A 8 de junho tudo estava convenientemente
sistematizado. Cf. BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit.
p. 154.
66
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 149.
40

dia 24 de novembro. A cada uma delas era confiado um Capítulo ou parte de um Capítulo

para análise, inclusive o de Nossa Senhora 67.

Embora o segundo período terminasse no dia 04 de dezembro de 1963, essas

Comissões trabalharam até o mês de junho de 1964. Após todas as análises dos peritos das

subcomissões, o texto foi averiguado pela Comissão de coordenação entre os dias 17 e 18 de

abril a 26 de junho. Ainda no mesmo mês, foi impresso e enviado aos Padres, contendo o

texto original e o texto emendado.

Assim ficou o novo Esquema De Ecclesia:

A nova divisão de Capítulos, que seria definitiva, conservava a estrutura principal

do Esquema anterior. O Capítulo I continuava a ser ‘sobre o mistério da Igreja’. O

Capítulo II já não era sobre a jerarquia, mas ‘sobre o Povo de Deus’, atendendo aos

desejos formulados na Aula, de tratar em primeiro lugar o que comum à jerarquia e

ao laicato. A parte destinada a falar ‘sobre a jerarquia e, em particular, sobre o

episcopado’ passava a formar o Capítulo III. O Capítulo IV intitular-se-ia ‘dos

leigos’, deixando para o Capítulo II o comum ao Povo de Deus. ‘Sobre a vocação

universal à santidade na Igreja ‘ ocupava-se o Capítulo V, ao mesmo na sua secção

A, porque se previa que a secção B, ‘sobre os religiosos’, poderia passar a ser um

Capítulo à parte, o Capítulo VI, como era desejo de muitos Padres, logo confirmado

em 30 de Setembro de 1964 pela maioria do Concílio 68.

Ainda, o chamado fascículo verde do Esquema sobre a Igreja, continha mais dois

Capítulos, a saber: o VII “sobre a índole escatológica da nossa vocação e união com a Igreja

67
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 150. Para uma
análise de cada uma das subcomissões, cf. Op. cit. p. 150-154.
68
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 25.
41

celeste” e o VIII “sobre a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no mistério de Cristo,
69
e da Igreja” . Esses dois Capítulos serão, no terceiro período do Concílio, analisados e

inseridos como parte constituinte do Esquema sobre a Igreja.

No discurso de encerramento, pronunciado no dia 4 de dezembro de 1963, Paulo VI

lembra que “o Concílio já alcançou alguns dos objetivos que se havia proposto” 70, mas que

Ficaram ainda por serem discutidas muitas outras questões, a se abordar na terceira

sessão, que se reunirá no outono do próximo ano e nos permitirá, quem sabe,

chegar ao fim. Não desagrada termos durante todo esse tempo o espírito fixo em

problemas tão graves. Confiamos nas respectivas Comissões, na esperança de que

saberão tirar proveito das diversas intervenções dos Padres conciliares,

especialmente nas assembléias gerais, colocá-las em ordem e abreviá-las, de sorte

que as próximas discussões, mantendo-se sempre a liberdade, se possam fazer com

maior rapidez 71.

Ainda nesse discurso, o Papa, para surpresa de todos, expõe sua intenção de realizar

uma peregrinação à Terra Santa. Essa viagem ocorreu entre os dias 4 e 6 de janeiro do ano

seguinte, 1964. O marco desse fato reside no encontro do Papa com o Patriarca Atenágoras,

reatando novamente os laços entre as duas Igrejas.

69
Para um aprofundamento acerca destes dois Capítulos cf. NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II:
comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium. Op. cit. p. 25-27.
70
O Papa Paulo VI lembra estes frutos que consistem na promulgação da Constituição sobre a Liturgia
Sacrosanctum Concilium, o Decreto sobre os meios de comunicação Inter Mirifica, ambos de 4 de dezembro de
1963.
71
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. Op. cit. p. 64.
42

1.4. O SEGUNDO PERÍODO INTERSESSIONAL DO CONCÍLIO – 1963-64

O intervalo entre o Segundo para o Terceiro Período foi marcado por uma enorme

sobrecarga de trabalhos. Foram também, para melhor desenvolvimento dos mesmos,

formuladas novas mudanças no regulamento, propostas pela Comissão de coordenação e

comunicadas aos Padres em data de 7 de julho de 1964 e aprovadas pelo Pontífice no dia 11

do mesmo mês 72. A intenção básica dessa nova mudança consistia em

diminuir o número das intervenções: uma modificação dava aos moderadores a

faculdade de convocar os Padres inscritos para falar sobre o mesmo assunto a fim

de delegarem um ou dois deles para intervir em nome de todo o grupo; outra

aumentava de 5 para 70 o número dos Padres dos quais era possível obter a palavra

depois do encerramento do debate. Também o resumo de cada intervenção devia

ser apresentado com 5 dias (e não mais 3) de antecedência, e a essa norma

sujeitavam-se também os cardeais, o que era uma novidade 73.

A novidade central desse período transitório deu-se pela publicação da Encíclica

Ecclesiam suam74, promulgada no dia 6 de agosto de 1964, a qual chamava a atenção para o

grande problema eclesiológico.

72
Cf. KLOPPENBURG, B. A III Sessão do Vaticano II, In: REB, Petrópolis, v. 24, n. 4, p. 865, [dezembro]
1964.
73
ALBERICO, G. (org.). História dos Concílios Ecumênicos. Op. cit. p. 417-8.
74
PAULO VI. Carta Encíclica Ecclesiam Suam. In: Documentos de Paulo VI, São Paulo: Paulus, 1997.
43

1.5. O TERCEIRO PERÍODO DO CONCÍLIO (14/9 a 21/11/ 1964)

O terceiro período foi iniciado no dia 14 de setembro, com a realização da primeira

missa concelebrada, fruto já do Concílio. No dia 15, o Papa Paulo VI, em seu discurso de

abertura, enfatizou a importância de retomar os trabalhos, ainda incompletos, do Tratado

sobre a Igreja a fim de que se pudesse “esclarecer e declarar a doutrina relativa à natureza e ao

mandato da Igreja” 75.

A comissão de trabalho apresentou aos Padres seis Esquemas, dos quais, três já

haviam sido abordados no segundo período, a saber, sobre a Igreja, o episcopado76 e o

ecumenismo77 e outros três, sendo que um referente à Revelação78, já se tinha iniciado no

Primeiro Período e dois totalmente novos: acerca do apostolado dos leigos79 e sobre a Igreja

no mundo contemporâneo 80.

Esse último tópico já fora abordado por Paulo VI na encíclica, Ecclesiam suam, em

um de seus Capítulos intitulado “O Diálogo”; mas, já no início, interroga-se dizendo: “Quais

as relações que a Igreja deve hoje estabelecer com o mundo que a circunda e em que vive e

trabalha?” 81 Essa relação consiste no diálogo, cuja

75
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. Op. cit. p. 72.
76
Este Esquema foi Introduzido na Segunda Sessão conciliar no dia 5 de novembro de 1963, ocupando desde a
60ª à 68ª Congregação Geral. Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez
1963). Op. cit. p.226-301.
77
Este Esquema foi introduzido na Segunda Sessão conciliar no dia 18 de novembro de 1963, ocupando da 69ª à
79ª Congregação Geral. Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963).
Op. cit. p. 302-408.
78
Acerca da Primeira Sessão, cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez
1963), principalmente a nota de rodapé n. 18. No Terceiro Período, este Esquema foi apresentado no dia 30 de
novembro de 1964 ocupando desde a 91º até a 95ª Congregação Geral. Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio
Vaticano II. v. IV: Terceira Sessão (set-dez 1964). Petrópolis: Vozes, 1965. p. 93-123.
79
Este Esquema foi introduzido na Terceira Sessão conciliar no dia 7 de outubro de 1964, ocupando da 96ª à
100ª Congregação Geral. Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. IV: Terceira Sessão (set-dez 1964).
Op. cit. p. 124-153.
80
Este Esquema foi introduzido na Terceira Sessão conciliar no dia 20 de outubro de 1964, ocupando da 105ª à
119ª Congregação Geral. Cf. KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963).
Op. cit.p. 194-328.
81
PAULO VI. Carta Encíclica Ecclesiam Suam. In: Documentos de Paulo VI. Op. cit. n. 5.
44

apresentação, na sua amplitude e complexidade, cabe ao Concílio, como também o

esforço para resolver da melhor maneira possível A realidade, porém, e a urgência

do problema, se por um lado nos afligem, são-nos por outro estímulo, quase

diríamos vocação (...) Desejávamos propor este exame como preparação comum

nossa, para as discussões e deliberações que no Sínodo Ecumênico, todos juntos,

julgarmos oportunas em matéria tão grave e complexa 82.

Dois dias mais tarde de sua abertura, já era apresentado aos Padres o novo Esquema

sobre a Igreja, estruturado agora em seis Capítulos e ainda outros dois para serem

introduzidos. Acerca do Capítulo sobre a relação entre Igreja peregrinante e Igreja celeste,

houve criticas de partidários que ensejavam ou a sua retirada ou a sua mudança no Esquema.

As discussões duraram dois dias, 16 e 17 de setembro, e cumularam 81 páginas de

pronunciamentos dos presentes. As emendas mais enfáticas dizem respeito “a mais ampla

descrição da natureza escatológica da vocação da Igreja e à menção explícita dos novíssimos.

Depois do quê, sem dificuldade, foi aprovado pela comissão doutrinal na reunião de 5 de

outubro” 83.

O Capítulo sobre Nossa Senhora foi mais demorado, durando três dias, entre 16 a 18

de setembro. As intervenções dos Padres resultaram em 264 páginas, revelando as mesmas

duas tendências já presentes na votação do dia 29 de outubro de 1963. Muitos criticaram a não

atribuição a Nossa Senhora do título de “Mãe da Igreja” e de ter relegado à dimensão

devocional, e não teológica, o referido título de “Medianeira” à Maria 84. Contudo, o presente

Capítulo fora aprovado sem muitas “modificações substanciais nem na revisão feita pela

82
Ib. n. 5.
83
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.156.
84
Cf. SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 53.
45

respectiva Subcomissão, nem em razão de exame por parte da Comissão doutrinal a 14 e 15

de outubro” 85.

A votação dos seis Capítulos deu-se em conjunto com essas discussões acerca dos

dois Capítulos finais. O Esquema foi votado, Capítulo por Capítulo, tendo, segundo o método

de votação aprovado no dia 16 de setembro, “um tríplice sufrágio: placet, non placet e placet

iuxta modum” Essa última resposta, com efeito, era a mais importante no que tange ao

acabamento definitivo do texto, porque previa o encaminhamento a ulteriores retoques no

Capítulo 86.

O Capítulo I, sobre o Mistério da Igreja, foi votado no dia 16 de setembro, e, num

universo de 2.189 votantes, obteve 2.144 placet, 11 non placet, 63 placet iuxta modum e um

voto nulo. O Capítulo II, sobre o Povo de Deus, foi votado no dia 18 de setembro, tendo 2.190

votantes, sendo 1.615 placet, 19 non placet, 553 placet iuxta modum e três votos nulos.

O Capítulo III, sobre a Hierarquia em geral e sobre o episcopado em particular, foi

submetido a duas votações distintas a 30 de setembro: uma sobre os números concernentes ao

episcopado em geral, tendo 2.242 votantes, sendo 1.624 placet, 42 non placet, 572 placet

iuxta modum e quatro votos nulos e outra acerca dos números concernentes aos ofícios dos

bispos, dos presbíteros e dos diáconos, tendo 2.240 votantes, sendo 1.704 placet, 53 non

placet, 481 placet iuxta modum e 2 votos nulos.

No mesmo dia, ainda foi votado o Capítulo IV, sobre os leigos, tendo 2.236 votantes,

sendo 2.152 placet, oito non placet e 76 placet iuxta modum, o Capítulo V, sobre a Vocação

universal à santidade, tendo 2.177 votantes, sendo 1.856 placet, 17 non placet, 302 placet

iuxta modum e dois votos nulos e o Capítulo VI, sobre os Religiosos, tendo 2.189 votantes,

sendo 1.736 placet, 12 non placet, 438 placet iuxta modum e três votos nulos.

85
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 156.
86
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 157.
46

No dia 20 de outubro, foi votado o Capítulo VII, sobre a índole escatológica da

Igreja peregrinante e sobre a sua união com a Igreja celeste, tendo 2.184 votantes, sendo 1.921

placet, 29 non placet, 233 placet iuxta modum e um voto nulo. Finalmente, no dia 29 de

outubro foi votado o Capítulo VIII, sobre a Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no

Mistério de Cristo e da Igreja, tendo 2.091 votantes, sendo 1.559 placet, 10 non placet, 521

placet iuxta modum e um voto nulo 87.

Após essa votação particularizada de cada Capítulo, fez-se a revisão, levando em

conta as emendas ou “modos” dos que votaram placet iuxta modum, que somaram ao todo

3.229 emendas. A primeira avaliação foi feita por uma subcomissão restrita e após pela

Comissão Doutrinal. Em ambas, seguiu-se o mesmo critério: “um texto aprovado pela metade

ou mais dos Padres não devia sofrer alterações notáveis, e portanto deviam afastar-se todas as

emendas que tocassem a substancia do texto aprovado” 88.

Depois das votações sobre as emendas ou “modos” 89 aos Capítulos individualmente,

fez-se uma votação sobre todo o Esquema. Essa ocorreu no dia 19 de novembro e teve, num

universo de 2.145 votantes, 2.134 placet, 10 non placet e um voto nulo.

No dia 21 de novembro de 1964, teve-se a votação final do Esquema a fim de ser

promulgado. Entre os 2.156 votantes, só cinco votaram non placet. Sendo assim, o Papa

Paulo VI, em solene Sessão Pública, em seu Discurso de encerramento do terceiro período, às

10h30min horas, promulgou a referida Constituição Dogmática sobre a Igreja que se inicia

com as solenes palavras: Lumen Gentium 90.

87
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 157. Cf.
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium. Op.
cit. p. 28-31 para obter uma visão mais pormenorizada das votações. Cf. também, KLOPPENBURG, B. In: REB,
Petrópolis, v. 24, n. 4, p. 921-940, [dezembro] 1964.
88
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 157-8.
89
A crônica destas emendas pode ser apreciada em KLOPPENBURG, B. As Vicissitudes da Lumen Gentium na
Aula Conciliar. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 241 ss. Cf. também, do mesmo autor, In:
REB, Petrópolis, v. 24, n. 4, p. 940-949, [dezembro] 1964.
90
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. Op. cit. p. 45-60.
47

Pouco antes, porém, desse acontecimento, foi introduzida uma Nota Explicativa

Prévia, “da parte da autoridade superior”, ao Capítulo III, referindo-se à questão do

entendimento e do alcance do termo “Colégio”, como reproduz o seu número 4: “Na

qualidade de Pastor supremo da Igreja, o Soberano Pontífice pode a qualquer tempo exercer

livremente o seu poder, conforme requisitado por seu próprio cargo” 91.

Foram promulgados também outros dois Decretos, a saber: sobre as Igrejas orientais
92
Orientalium Ecclesiarum e sobre o ecumenismo Unitatis Redintegratio. Esse último era o

Capítulo XI do primeiro Esquema sobre a Igreja proposta no Primeiro Período.


93
O Concílio não falou a última palavra sobre a Igreja , haja vista que ela é um

mistério, isto é, uma realidade intimamente permeada pela presença de Deus, e, por isso, de

natureza tal que admite sempre novas e mais profundas explorações de si mesma, como bem

delineou Paulo VI na abertura do segundo período 94. Contudo, ela é a Carta Magna a que se

deverá referir toda e qualquer reflexão eclesiológica posterior.

1.6. A CONSTITUIÇÃO DE ECCLESIA: EIXO DO CONCÍLIO

Ainda no Quarto Período, realizado entre os dias 14 de setembro e oito de dezembro

de 1965, foram promulgados ainda outros onze documentos. No dia 28 de outubro,

promulgaram-se os Decretos sobre o episcopado, Christus Dominus, sobre os religiosos,

Perfectae Caritatis e sobre a formação sacerdotal, Optatam Totius e duas Declarações, uma

acerca da educação, Gravissimum Educationis, e a outra sobre as religiões não-cristãs, Nostra

Aetate.

91
A “nota explicativa previa” segue de ordinário o texto da constituição. Sobre esta nota, cf. CONGAR, Y.
RSTP 66 (1982), P. 94-97; Primauté et collégialité. Lê dossier de Gérald Philips sur la (LG III), apresentado por
J. Grootaers, Leuven, Univers. Press, 1986.
92
Este Esquema foi debatido em Aula conciliar entre as 103ª a 105º congregações Gerais. KLOPPENBURG, B.
Concílio Vaticano II. v. III: Segunda Sessão (set-dez 1963). Op. cit. p. 179-194.
93
BETTI, U. Cronistória da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 159.
94
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. Op. cit. p. 45-60.
48

No dia 18 de novembro, foi promulgada a Constituição sobre a Revelação Dei

Verbum e o Decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam Actuositatem. Ainda, no dia 7

de dezembro, foi promulgada a Declaração sobre a liberdade religiosa, Dignitatis Humanae, e

os Decretos sobre as missões, Ad Gentes, e sobre os Padres, Presbiterorum Ordinis, e, por

último, a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, Gaudium et spes. Ao todo

foram dezesseis documentos, sendo quatro Constituições, nove Decretos e três Declarações 95.

A referida Constituição constitui o “vértice e o centro das decisões conciliares. Do

ponto de vista histórico, concluía a procura da Igreja de sua própria natureza e de seu
96
significado íntimo” . Todos os outros documentos giram em órbita de tal constituição, ou

como complemento doutrinal ou explicitando-a. Nesse contexto, percebe-se que a

Constituição Litúrgica, embora contendo um corpo doutrinal, também explicita de forma

disciplinar os princípios eclesiológicos inerentes na De Ecclesia.

No que se refere ao Capítulo III sobre a Hierarquia, vemos outros três Decretos que

explicitam cada qual a função de cada grau sacerdotal. O Capítulo IV, que trata sobre os

leigos, tem seu correlato no Decreto sobre o apostolado dos leigos e outros ainda mais

específicos, tais como o Decreto sobre os meios de comunicação e a Declaração sobre a

educação cristã.

Concernente ao Capítulo VI, no qual se propõem os princípios teológicos acerca da

Vida Religiosa o Concílio também promulgou um Decreto disciplinar sobre a renovação da

Vida Religiosa. Da mesma forma, se o Capítulo II revela a índole missionária do Povo de

Deus, promulgou-se também o Decreto sobre a atividade missionária da Igreja.

95
Ib. p. 4. Acerca do procedimento e das discussões destes Esquemas neste quarto período, cf.
KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. v. V: Quarta Sessão (set-dez 1965). Petrópolis: Vozes, 1966.
Também, SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES,
P. S. LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 59-64.
96
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.). Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 58.
49

Nesse sentido, temos ainda o Decreto sobre as Igrejas Orientais e sobre o

Ecumenismo, que encontram seu eixo nos Capítulos I e II da Lumen gentium, uma vez que

expõe sua doutrina acerca da unidade. É mister também afirmar que, de todos estes Decretos,

derivam não apenas normas disciplinares, mas também muito conteúdo doutrinal.

O modo como a Igreja relaciona-se com o mundo foi expresso de forma peculiar na

constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, que se dirige a todos

os homens e revela-lhes sua mais profunda dignidade 97. Por fim, ao falarmos da Constituição

Dogmática sobre a Revelação, percebemos que ela é o fundamento sobre a qual toda a

doutrina aurida da Constituição Dogmática sobre a Igreja se assenta. As Declarações sobre a

liberdade religiosa e sobre a relação com as religiões não-cristãs “são como vozes que deste

edifício da Igreja são enviadas para fora” 98, a fim de que todos conheçam o seu sentir.

2. UMA ANÁLISE TEOLÓGICA DA CONSTITUTIO DE ECCLESIA

Nesse segundo momento de nosso trabalho, nossa intenção é dupla: primeiramente

descrever acerca do Concílio Ecumênico Vaticano II, clarificando a sua dimensão

eclesiológica; depois, o intento de dissertar acerca dos principais temas da eclesiologia

conciliar a partir da Constituição Dogmática Lumen gentium. Nesse ínterim, não é nosso

objetivo desenvolver um Tratado teológico acerca destes temas, porém, aprofundá-los de

forma sintética, oferecendo ao leitor um dos muitos possíveis perfis cabíveis oriundos dessa

Constituição.

Em nossa pesquisa, analisaremos esses grandes blocos temáticos, à luz do Mistério

Trinitário como eixo Hermenêutico de nossa pesquisa e a partir de uma leitura Teológica

97
Cf. GS 22.
98
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. 1966. p. 36.
50

Dedutiva para o mesmo 99, a fim de descrever um perfil eclesiológico fundado na Comunhão

e na Missão, como forma concreta de vivência do sacramento batismal.

2.1. O CONCÍLIO VATICANO II: UM CONCÍLIO PASTORAL E

ECLESIOLÓGICO

Um Concílio tão universal não poderia se ater a questões insignificantes. O seu

objetivo, diz o Papa Bom, “não é o de discutir princípios doutrinais, retomando o que Padres e

teólogos, antigos e novos, ensinaram”, mas para “que toda a doutrina cristã, integralmente,

sem nenhuma omissão, seja proposta de um modo novo, com serenidade e tranqüilidade, em

vocabulário adequado e num texto cristalino” 100.

A partir dessas afirmações do Sumo Pontífice, é nítido o seu desejo de não estar

dando início a mais um Concílio em que verdades dogmáticas serão proclamadas ex cadetra

ou que alguém ou alguma instituição serão condenadas; tem, de fato, esperanças de estar

abrindo de fato a Igreja para a sua própria vocação, ou seja, de ser sinal e servidora de todos e

para a sua particular originalidade, isto é, para o seu locus de missão, o mundo.

Exemplo disto é sua afirmação na sua Encíclica Ad Petri cathedram, de 29 de junho

de 1959:

Sem dúvida [o Concílio] constituirá maravilhoso espetáculo de verdade, unidade e

caridade; espetáculo que, ao ser contemplado pelos que vivem separados desta Sé

99
A Teologia Dedutiva “se caracteriza por ser uma ´teologia de cima´ - ´von oben´ ou ´katábasis´ (a partir de
cima) -, ao usar o método dedutivo. Parte do dogma, da própria fórmula da Revelação a fim de adquirir-lhe
maior compreensão pela via da analogia com as realidades humanas, percebendo-lhes os pontos de semelhança e
dessemelhança. (...) A estrutura fundamental dessa teologia consiste em sistematizar, definir, expor e explicar as
verdades reveladas. (....) Sua finalidade é declarar, explicitar o que está na revelação, procurando trazer maior
inteligência para a fé. Realiza de modo direto e explícito o programa estabelecido por Santo Anselmo: ´fides
quaerens intellectum´ - a fé que busca a inteligência”. Cf. LIBANIO, J.B.; MURAD, A. Introdução à Teologia:
Perfil, Enfoques, Tarefas. São Paulo: Loyola, 1996. p. 102. Cf. Também COMBLIM, J. História da Teologia
Católica, Ed. Herder, São Paulo. 1969. p. 163-168.
100
Discurso Gaudete Mater Ecclesia de 11 de outubro de 1962. In: VATICANO II: Mensagens, Discursos,
Documentos. Op. cit. p. 27.
51

Apostólica, os convidará, como esperamos, a buscar e conseguir a unidade pela

qual Cristo dirigiu ao Pai do Céu a sua fervorosa oração 101.

Esta postura pontifícia não nascera do nada, mas de sua agucidade e sensibilidade em

ler os sinais dos tempos presentes no mundo e também no próprio seio da Igreja, como os

movimentos Bíblicos, Patrísticos, Missionários, Ecumênicos, da Nova Teologia, Litúrgico,

Social, dos Leigos102. Estes movimentos, de certa forma, prepararam o ambiente e o diálogo

com o mundo hodierno secularizado, já experienciando de forma antecipada os frutos que o

Concílio propiciaria para toda a Igreja 103.

Nesta perspectiva, interroga o teólogo Libanio:

cabe perguntar por que foi possível que o Concílio Vaticano II se orientasse na

direção oposta às mais previsíveis e prováveis? As razões históricas são os

movimentos que já trabalhavam internamente a Igreja e cuja visibilidade dispersa

alcança no Concílio uma concentração tal que lhe dá um poder muito maior de

mudanças. O aleatório foi a pessoa original de João XXIII. E a causa transcendental

foi a ação do Espírito Santo em todos esses fatores e na mudança lenta de outros

que antes eram adversos. Portanto, a possibilidade veio dos movimentos eclesiais, o

fator aleatório foi dado pela personalidade surpreendente de João XXIII e a última

101
JOÃO XXII. Encíclica Ad Petri cathedram, de 29 de junho de 1959.
102
Acerca destes movimentos, cf. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. São
Paulo: Paulinas, 2000. p. 37-60; Id. O Concílio Vaticano II e a Modernidade. In: Medellín, Bogotá, v. 22, n. 86,
p. 42-51. 1996. Id. Concílio Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Loyola, 2005, p.
21-48. Para uma leitura destes movimentos dentro dos Pontificados vigentes e suas Inter-relações, cf. SOUZA,
Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S. LOPES;
BOMBONATO, V.I. (Org.), Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 18-23.
103
SOUZA, Ney de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: GONÇALVES, P. S.
LOPES; BOMBONATO, V.I. (Org.), Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op.cit. p. 23.
52

causa foi a ação do Espírito Santo 104.

Segundo o mesmo teólogo, todos estes movimentos “comungam em alguns aspectos

fundamentais da modernidade105. E por meio deles, ela entra no coração da Igreja, que

oficialmente resistia impavidamente a seus ataques filosóficos e culturais” 106.

O evento conciliar abriu a Igreja para o mundo e colocou-o como o locus

teológico107, ou seja, como o lugar de realização de sua missão originante e de sua

catolicidade 108. Neste sentido, o

Concílio Vaticano II procurou uma nova síntese entre ontologia e história. Deixou

de lado uma ontologia abstrata, que se refletia numa linguagem inaccessível às

pessoas de hoje, sem cair, porém, no relativismo historicista. Embarcou numa

hermenêutica que, sem desconhecer a ontologia, insere-se no coração da história e

que no coração da transitoriedade cultural se atém à invariante conceitual 109.

104
LIBANIO, J.B. Concílio Vaticano II: abordagem pastoral. Disponível em:
<http/www.cebsuai.rog.br/Libanio_cont.htm> Acesso em: 25/04/2006. Para uma leitura mais aprofundada
acerca desta temática, cf. Id. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. Id. A Trinta anos do
encerramento do Concílio Vaticano II: chaves teológicas de leitura. In: Perspectiva Teológica, Belo Horizonte,
ano XXVII, v. 27, n. 70, p. 297-332, 1995. Id. O Concílio Vaticano II e a Modernidade. In: Medellín, Bogotá, v.
22, n. 86, p. 35-67, 1996. Crise atual e novos paradigmas para o pensar teológico e o agir cristãos, In: D. N. de
Lima – J. Trudel, Teologia em diálogo. I Simpósio teológico Internacional da UNICAP, São Paulo/Recife,
Paulinas/UNICAP, 2002, p.53-94.
105
Cf. ZILLES, Urbano. A Igreja católica e a modernidade. In: Teocomunicação, Porto Alegre, v. 21, n. 9, p. 3-
18, [março] 1991,
106
LIBANIO, J. B. Concílio Vaticano II. Disponível em <http/www.cebsuai.rog.br/Libanio_cont.htm>. Acerca
da Influencia destes movimentos na eclesiologia conciliar, cf. ROSSEAU, O. A Constituição no quadro dos
Movimentos Renovadores da Teologia Pastoral das últimas décadas. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II.
Op. cit. p. 115-134.
107
CALIMAM, C. A eclesiologia do Concílio Vaticano II e a Igreja no Brasil. In: GONÇALVES, P. S. LOPES;
BOMBONATO, V.I. (Org.), Concílio Vaticano II: Análise e Prospectivas. Op. cit. p. 232.
108
Cf. PIÉ-NINOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. São Paulo: Loyola, 1998, p.100.
109
LIBANIO, J. B. Concílio Vaticano II. Disponível em <http/www.cebsuai.rog.br/Libanio_cont.htm>. Acesso
em: 25/04/2006.
53

Neste ínterim, o Concílio Vaticano II foi um Concílio Pastoral no que tange a

inteligência da fé, pois nele ocorre segundo Claude Geffré, a passagem da perspectiva

dogmatista para um paradigma hermenêuticos no tratar os conteúdos teológicos 110.

Atento a esta realidade, já na primeira sessão, o Cardeal Montini fez uma intervenção

fundamental quanto aos princípios norteadores do Concílio. O futuro papa Paulo VI

estabeleceu três perspectivas, tendo como referência a fidelidade a que a Igreja deveria

manter, em vista de sua nova postura dialogal frente o mundo.

A primeira funda-se na “perspectiva cristológica” e diz respeito à própria identidade

da Igreja conferida pelo próprio Cristo Jesus, como seu princípio originante. A Igreja deve ser

fiel ao seu fundador no que tange o seu agir histórico. O dever para com o homem constitui

para a Igreja o segundo princípio de fidelidade, uma vez que ela não existe para si mesma,

mas sim para o serviço à humanidade, tendo em Cristo-pneuma, que age continuamente, sua

fonte de luz e criatividade. Por fim, a terceira fidelidade se concretiza na união entre os dois

antecedentes, ou seja, de Cristo com o Homem a partir do mistério da Aliança que é a própria

Igreja, caracterizando assim, a “perspectiva sacramental” 111.

Mantendo-se fiel a esta tríplice fidelidade, ou seja, Cristo, o homem, e a Igreja, o

Concílio Vaticano II, em todos os seus documentos, a partir da constituição Dogmática sobre

a Igreja Lumen gentium e da constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo Gaudium et

spes112, tem como máxima intenção a “de aprofundar o mistério da Igreja em sua natureza

íntima e nas relações da Igreja com o mundo” 113 , visto que é ela que une os homens a Deus.

Neste sentido, Karl Rahner, um dos Padres conciliares, escreveu que o “Concílio foi

um Concílio da igreja sobre a Igreja, o Concílio da eclesiologia em uma concentração tal de

temas como nunca houvera até agora em nenhum outro Concílio, talvez nem mesmo no

110
GEFFRÉ, Claude. Croire et Interpréter. Lê tourmant herméneutique de la théologie, Paris, Cerf, 2001, p.11-
51.
111
Cf. LIBANIO, João Batista. Concílio Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. Op cit. p. 66-7.
112
Cf. ALMEIDA, Antonio José de. Lumen gentium: a transição necessária. São Paulo: Paulus, 2005. p.16.
113
MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 21.
54

114
Vaticano I” . Conforme o Teólogo Paul Tihon, “as opções metodológicas dos documentos
115
conciliares são características e ricas de implicações futuras” . Sob esta perspectiva,

compreende-se a abundância de sínteses e estudos sobre a Igreja no pós-Concílio.

Partindo da natureza e do objetivo do Concílio Vaticano II, embora sendo convocado

sob o signo de Pastoral, é lícito afirmar que, em seu desenvolvimento, foi-se tornando um

Concílio eminentemente “Eclesiológico” 116 tendo os seus desdobramentos nas mais variadas

formas de expressão sobre e a Igreja em seu relacionamento ad intra e ad extra.

No que se refere à Igreja, o Concílio Vaticano II ofereceu por meio de seus


117
Documentos promulgados, não exatamente uma “definição” eclesiológica, mas sim, uma
118
descrição bíblica, imagética da Igreja a partir da Constituição dogmática Lumen gentium .

Esta descrição imagética, bíblica elucida mais vivamente

o seu caráter de mistério e, portanto, de objeto de fé, e ela não mais é apresentada

diretamente como motivo de credibilidade, como acontecia no Vaticano I. Passa-se,

com efeito, de uma concepção que via a Igreja principalmente como societas, e que

114
Ib. p. 21. Cf. também ALMEIDA, Antonio José de. Lumen gentium: a transição necessária. Op. cit. p.15.
115
SESBOÜÉ, B. (direção); BOURGEOIS, B: TIHON, P. Histórias dos Dogmas. v. 3: os sinais da salvação,
(séculos XII- XX). São Paulo: Loyola, 2005. p. 434.
116
Muitas são as referências quanto a este sentido do Concílio Vaticano II entre os autores. Cf. LORSCHEIDER,
A. et al. Vaticano II: 40 anos depois. São Paulo: Paulus, 2005, p. 48, como também MONDIN, B. As Novas
Eclesiologias. Op. cit. p. 11-23; SESBOÜÉ, B. (direção); BOURGEOIS, B: TIHON, P. Histórias dos Dogmas.
v. 3: os sinais da salvação, (séculos XII- XX). Op. cit. p. 434.
117
O termo está entre aspas justamente por não haver acordo entre os autores na possibilidade de extrair dos
textos conciliares uma definição como o próprio termo delimita. O teólogo Medard Kehl assim explicita esta
questão: “Se forem aplicados esses princípios hermenêuticos, não se permite, com efeito, simplesmente
encontrar uma definição sistemática de Igreja nos textos do Concílio, mas, a partir deles, pode-se fundamentar
uma ‘ formula breve’ eclesiológica que tente fazer justiça à tradição eclesial e aos novos enfoques da
autocompreensão da Igreja”. Cf. A Igreja: uma eclesiologia católica. São Paulo: Loyola, p. 48. Estes princípios
hermenêuticos de que o autor fala, foram formulados por KASPER, W. em “Die bleibende Herausforderung
durch das II. Vatikanische Honzil. Zur Hermeneutik der Honzilsaussagen”, em Id. Theologie und Kirche, Mainz,
1987. p. 295 ss.
118
Em relação a esta Constituição, o estudioso Georges Dejaifve assim escreveu: “Na história da Igreja o dia que
marcou a promulgação da constituição Lumen gentium aparecerá no futuro certamente como o começo de uma
nova época (...) A constituição Lumen gentium constitui inegavelmente, a meu ver, uma nova reviravolta na
eclesiologia católica-romana (...) Pode-se dizer que passamos de uma igreja-instituição a uma igreja-
comunidade, de uma igreja-potência a uma igreja pobre e peregrina”. Cf. DEJAIFVE, G. L’ ecclesiologia del
Concílio Vaticano II, em L’ ecclesiologia dal Vaticano, p. 87-88. In: MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op.
cit. p. 22.
55

teve reflexos muitos fortes no Vaticano I e nos tratados Eclesiológicos

subseqüentes, a uma concepção mais bíblica, com uma raiz litúrgica, atenta a uma

visão missionária, ecumênica e histórica, em que a Igreja é descrita como

sacramentum salutis (LG 1, 9, 48,59; SC 5,26; GS 42,45; AG 1,5) fórmula que é a

base das afirmações do Vaticano II 119.

Esta nova forma de se olhar possibilitou em seu bojo, olhar para os mais diversos

assuntos e problemas, seja de ordem temporal ou espiritual, e colocar-se em atitude de

diálogo120 com os mesmos. Esta realidade pôde ser percebida por meio dos outros

documentos afins que o Concílio produziu 121, que segundo o Padre Tihon, “todos os grandes

textos do Vaticano II abordam, cada um a sua maneira, dimensões fundamentais da Igreja (...)

a tal ponto que se chegou a falar de um ‘pan-eclesiologismo’ dos documentos conciliares” 122.

O modo como o Concílio Ecumênico Vaticano II olhou para a Igreja, provocou um

profundo resgate de sua essência enquanto realidade mistérica123 - espiritual e ao mesmo

tempo de sua realidade histórica - temporal124, numa procura dialógica com o mundo.

Segundo o teólogo A. Anton,

as publicações eclesiológicas pós-conciliares conservam-se fiéis à orientação

histórico-salvífica adotado pelo Vaticano II e apresentam uma eclesiologia mais

119
Cf. PIÉ-NINOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. Op. cit. p. 22.
120
O Teólogo J. B. Libanio recorre “a quatro termos para qualificar a natureza do Concílio” a fim de traduzir “as
linhas fundamentais de compreensão” do mesmo. Assim descreve que “tratou-se de um Concílio pastoral,
ecumênico, do diálogo e do aggiornamento”. Cf Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. Op. cit. p
67. Cf. também, JOÃO XXIII, Constitutio Apostolicae Humanae salutis, AAS 54 (1962), p. 5-13.
121
Cf. PIÉ-NINOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. Op.cit. p. 22.
122
B. SESBOÜÉ (direção), H. BOURGEOIS, P. TIHON, Histórias dos Dogmas. v. 3: os sinais da salvação,
(séculos XII- XX). Op. cit. p. 434-5.
123
Cf. RIGAUX, Béda: O Mistério da Igreja à Luz da Bíblia. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op.
cit. p. 316. Cf. também KLOPPENBURG, B. A Eclesiologia do Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 20-25.
124
Cf. ANTON, A. L’ ecclesiologia postconciliare: speranze, risultati e prospettive, In: LATOURELLE, R.
Vaticano: Bilancio e prospettive: venticinque anni dopo [1962 -1987], Assisi, Cittadella Editrice, 1987, p. 366.
56

aberta à dimensão histórica da Igreja e mais plenamente consciente do lugar que a

Igreja ocupa na história da salvação125.

Desta forma, o Concílio Vaticano II constitui-se no que tange a eclesiologia, uma

ruptura da até então concepção tridentina126, que caracterizava a Igreja como “Societas

Perfecta”. O Código de Direito Canônico de 1917 a definia assim: “foi de tal modo

estabelecida por Cristo, seu Fundador, que estava adornada de todas as notas que convêm a

qualquer sociedade perfeita [...]” 127.

A Igreja era comparada a um sistema de poder estatal, a uma civitas, uma sociedade,

porém, bem mais perfeita, possuindo um corpus perfectissimum, ou seja, uma realidade

corporativa plenamente perfeita. Pio IX já tinha usado essa expressão na alocução Singulari

quadam (1854), donde definia que a Igreja católica teria “recebido, em virtude de sua

instituição divina, a forma de uma sociedade perfeita”. Esta definição entrou como a

proposição 19 do Syllabus (1864), como forma condenatória a aqueles que afirmavam que

Ecclesia non est vera perfectaque societas.

No próprio Concílio, no dia 3-12-1962, ouviu-se na aula conciliar, da boca do Bispo

de Aquino, Dom Blásio Musto, a seguinte afirmação: “Societas perfecta, triplici potestate

aucta, iuridice organizata, quae depositum fidei ab errore immunem custodire et contra

hostiles incursiones inconcussa auctoritate tutari debet”, ou seja, é uma sociedade perfeita,

dotada de tríplice poder, juridicamente organizada, que deve conservar o depósito da fé imune

125
RIGAUX, Béda: O Mistério da Igreja à Luz da Bíblia. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
316. Cf. também KLOPPENBURG, B. A Eclesiologia do Vaticano II. Op. cit. p. 20-25.
126
Para uma visão panorâmica acerca da eclesiologia tridentina, cf. MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op.
cit. p. 14-23.
127
Código de Direcho Canônico, Madrid, BAC, 1951, p. XLI. Cf. Granfield, P. Surgimento e queda da “Societas
Perfecta”. In: Concilium, Petrópolis, 177, p. 735-746, 1982. Também WERBICH, J. La Chiesa; um progetto
ecclesiologico per lo studio e per la prassi. Brescia, Queriniana, 1998. p. 141-156
57

128
do erro e com inabalável autoridade guardá-la contra os ataques inimigos . Contudo, o
129
Concílio a partir do novo “sujeito moderno na Igreja” formulou uma nova concepção

eclesiológica, expressa de maneira particular, na Constitutio Dogmática De Ecclesia.

Nas calorosas reflexões das aulas conciliares, os Padres procuraram responder a uma
130
grande interrogação: “Igreja, que dizes de ti mesma?” Esta pergunta eclesial surgiu no

final do primeiro período do Concílio e se estendeu pelos demais períodos, sempre norteando

as reflexões conciliares. Nas páginas seguintes, nosso trabalho procurar-se-á delinear um

perfil eclesiológico, conforme a Lumen gentium.

2.2. UM PERFIL ECLESIOLÓGICO A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO

DOGMÁTICA SOBRE A IGREJA LUMEN GENTIUM

Como já se sabe um Concílio não é uma universidade e os Esquemas por ele

elaborados não pretendem ser tratados teológicos 131. Sendo a referida Constituição o coração

do Concílio, ela não é a última palavra sobre a eclesiologia132, embora seja o primeiro e o

mais amplo documento em que um Concílio ecumênico trata explicitamente “o tema

eclesiológico no horizonte total em que no-lo oferece a Revelação, sem que suas declarações

128
KLOPPENBURG, B. A Eclesiologia do Vaticano II. Op. cit. p. 45.
129
O padre LIBANIO delineia de forma objetiva a formação do novo sujeito moderno na Igreja. Cf. Concílio
Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. Op. cit. p. 21-48. Cf também CODINA, V. Para
Compreender a Eclesiologia a partir da América Latina. São Paulo: Paulinas, 1993. p.173-175.
130
“La preocupación central de los Papas del Concílio y de los Padres conciliares fue ciertamente la conciencia
de la Iglesia sobre sí misma. No para quedarse ensimismada sino para vivir más plenamente su misterio, en sí
misma como Pueblo de Dios en marcha y de cara al mundo.” Disponível em <BIBLIOTECA ELECTRÓNICA
CRISTIANA -BEC- VE MULTIMEDIOS™. Fuente: 'Figari, Luis Fernando, Una eclesiología de comunión y
reconciliación. Sobre la Constitución dogmática Lumen gentium, en Vigencia y Proyección del Concílio
Vaticano II, VE, Lima, 1996, p. 29-57 >.
131
HERNÁNDEZ, O. G. A Nova Consciência da Igreja e seus Pressupostos Histórico-Teológicos. In:
BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 267.
132
Ib. p. 297-98.
58

se limitem a expor verdades ameaçadas pela heresia, e sem que suas perspectivas estejam

condicionadas por interesses apologéticos” 133.

O próprio modo como a Constituição está estruturada revela-nos sua harmonia

interna, binária em quatro grandes blocos, a saber: os Capítulos I e II que nos falam do

mistério da Igreja; os Capítulos III e IV acerca da estrutura constituinte da Igreja, ou seja, a

hierarquia e o laicato; os Capítulos V e VI dissertam sobre a finalidade da Igreja, no campo da

santidade, no qual todos são chamados, com ou sem a profissão pública dos conselhos

evangélicos. Por fim, os Capítulos VII e VIII que abordam o tema da consumação da Igreja na

escatologia 134.

Percebe-se desde já, uma nova concepção eclesiológica fundante que elimina a forma

piramidal, tripartida, que concebia a estrutura eclesial como clero-religiosos-leigos. A

inserção do Capítulo II sobre o Povo de Deus anterior ao Capítulo III sobre a hierarquia,

outorga para a posteridade o rompimento desta concepção eclesial piramidal e ao mesmo

tempo, desloca o seu centro outrora fundado na hierarquia para o Povo de Deus. Esta

mudança possibilitou uma compreensão mais profunda do sacerdócio universal.

No processo desta maturação percebe-se uma mudança radical acerca do novo modo

de se conceber a Igreja, ou seja, passa-se

de uma concepção predominantemente jurídica da ontologia da graça, da

predominância do sistema à afirmação do homem cristão, e quanto às estruturas de

autoridade no Povo de Deus, reconheceu-se melhor, ao lado da monarquia romana,

133
Ib. p. 267.
134
Disponível em <BIBLIOTECA ELECTRÓNICA CRISTIANA -BEC- VE MULTIMEDIOS™>. Fuente: 'Figari,
Luis Fernando, Una eclesiología de comunión y reconciliación. Sobre la Constitución dogmática Lumen
gentium, en Vigencia y Proyección del Concílio Vaticano II, VE, Lima, 1996, p. 29-57 >. Acesso em:
25/04/2006.
59

o lugar do Colégio universal dos bispos, o lugar dos organismos locais e a parte da

Ecclesia, da Igreja comunidade 135.

Afinal, qual a “nova consciência da Igreja” a partir do Concílio? Segundo o Perito

Conciliar Charles Moeller, da Constituição Dogmática Lumen gentium esparge três eixos

Eclesiológicos, a saber:

O eixo da Igreja como Mistério, sacramento primordial da unidade do mundo no

Povo de Deus; o eixo das estruturas hierárquicas da Igreja, ou seja: o leigo e o

ministro encontram-se no mistério da colegialidade; o eixo da santidade, estrutura

carismática na Igreja, cuja consumação celeste revela a dimensão escatológica e

pneumatológica da eclesiologia 136.

A partir destes três eixos eclesiológicos que podem ser caracterizados em três

princípios, ou seja, o de sua origem, o de sua estrutura interna e de sua finalidade. Nesse

sentido, houve grandes mudanças no modo de conceber a Igreja, mas conforme o princípio

teológico da continuidade na descontinuidade, percebe-se segundo o pensamento de A.

Acerbi137 que, embora o Concílio promovesse uma evolução na procura de uma eclesiologia

mais comunional, o contrário também é percebido, ou seja, na presença ainda de uma

eclesiologia centralizadora e jurídica.

135
MOELLER, C. O Fermento das Idéias na elaboração da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p.190.
136
MOELLER, C. O Fermento das Idéias na elaboração da Constituição. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p.160.
137
ACERBI, A. Due ecclesiologie: ecclesiologia giuridica ed ecclesiologia di comunione nella Lumen gentium.
Bologna: Dehoniane, 1975.
60

A nova consciência eclesial proposta pelo Concílio, nasce a partir da retomada de sua

própria origem cristológica138 e pneumatológica139, uma vez que em Cristo a Igreja tem sua

existência e no Espírito a contínua renovação de sua consciência.

Se, em seu nascimento, consciência e existência foram para a Igreja uma mesma

realidade, também o serão no seu devir histórico. O Espírito continua conformando

a Igreja enquanto continua conduzindo-a a Cristo, e ela se realiza como Igreja nessa

atuação consciente de sua fundamentação cristica 140.

Nisto consiste a grande novidade da eclesiologia presente na Lumen gentium, ou seja,

de recuperar a Igreja sua consciência mistérica, própria da teologia patrística e ainda presente

em Santo Tomás de Aquino. Neste sentido, o movimento de volta as Fontes, proporcionou à

Igreja retomar as suas fontes próprias, isto é, a Bíblia, os Padres, a Liturgia e num profundo

esforço de autocontemplação de si e de seu mistério fundante, subtrair às máscaras e às

estruturas enrijecidas inerentes a si oriundas de uma compreensão não tão conatural de sua

fonte mistérica.

Portanto, a partir dos três eixos propostos por Charles Moeller, salvo algumas

transformações de ordem didática, procuraremos delinear a sua origem proveniente do

Mistério Trinitário e conseqüentemente as suas dimensões Cristológica e Pneumatológica e

Sacramental, juntamente com a nova imagem que daí se extrai; a sua estrutura temporal, ou

seja, a relação colegiada entre os pertencentes a este Povo de Deus: a hierarquia e leigos. A

tensão que daí se origina acerca da relação entre instituição e carisma, embora tendo ambos a

138
Cf. KLOPPENBURG, B. A Natureza e a Missão da Igreja. In: REB. Petrópolis, v. 29, n. 4, p. 798-799,
[dezembro] 1969.
139
Ib. p. 799-801.
140
HERNANDEZ, O. A nova consciência da Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 271.
61

mesma vocação à santidade; por fim, delinearemos a sua dimensão escatológica, uma vez que,

se da Trindade se origina, é para Ela que se dirige, enquanto percurso terreno.

2.2.1. O EIXO MISTÉRICO: A TRINDADE COMO ORIGEM

2.2.1.1. A IGREJA COMO MISTÉRIO

O termo Mistério foi introduzido na Teologia Católica contemporânea mediante o


141
trabalho de dois autores: O. Casel e I. Herwgen . Ao analisar a constituição De Ecclesia,

percebe-se que ela não quis oferecer mais uma afirmação acerca da Igreja, mas, de modo

peculiar, quis sublinhar o elo comum entre todas as outras afirmações até então existentes

sobre a Igreja. Esse encargo, ela o fez, procurando resgatar

o fundamento original da igreja e interpretar o seu mistério a partir de si mesma,

com categorias elaboradas numa contemplação do plano de Deus sobre si mesma, e

não deduzidas de estruturas humanas: (...) Antes de imitar a existência de uma

sociedade humana, imita ela a existência e revive o destino do verbo encarnado 142.

A Igreja, como Mistério, é uma iniciativa da misericórdia divina, saída do Verbo

vindo ao mundo, como que por infração e surpresa. Nesse sentido, a adoção do Concílio pelo

termo Mistério, como afirma Congar, é “uma redescoberta dos elementos sobrenaturais e

141
CASEL, O. Die Liturgie als Mysterienfeier, Friburgo/B., 5, 1923. HERWEGEN, I. Lumen Christi, Munich,
1924.
142
HERNANDEZ, O. A nova consciência da Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 295.
62

místicos da Igreja, de um esforço humilde e religioso para considerar o Mistério da Igreja em

toda a sua divina profundidade” 143. Assim,

O emprego neotestamentário do termo mistério justifica o titulo do primeiro

Capítulo do Constituição conciliar. Em adotando essa perspectiva, o Vaticano II foi

induzido a abandonar o conceito puramente institucional da Igreja. Mergulha seus

olhares na própria Trindade e nas intenções profundas das palavras e dos atos de

Jesus; provoca uma síntese entre a organização e o carisma, entre a estabilidade da

instituição e o dinamismo do Espírito 144.

A índole mistérica da Igreja, no que tange a sua origem, só tem consistência se

estiver em referência ao Mistério dos Mistérios, a Trindade, certo de que é nela que se encerra

e que tudo se converge, ou seja, é o fundamento de todas as realidades. Nessa configuração, o

mistério da Igreja só se torna inteligível à luz do Mistério Trinitário.

2.2.1.2. O MISTÉRIO DA TRINDADE COMO ORIGEM DA IGREJA

O Capítulo primeiro da constituição não disserta sobre a sua “natureza”, mas sim

acerca do seu “mistério”, que tem sua origem e fundamento na Trindade, numa descrição não

atemporal ou espiritualista, mas sim, a partir da realidade histórica na qual a Trindade


145
manifesta o seu desígnio de amor . Nesses termos, a relação entre Igreja e Trindade tem

143
CONGAR, Y. “Chronique de trente ans d’étuds ecclésiologiques” In: Sante Église, études et approches
ecclésiologiques, Paris, 1963, p. 514. Cf. todo o texto: pp. 445-696 e, sobre a história da eclesiologia, do mesmo
autor. L’Églesie de saint Augustin à l’ époque moderne. Paris, 1970.
144
RIGAUX, B. O Mistério da Igreja à Luz da Bíblia. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
316.
145
KUNRAT, P. A. Trindade e Igreja no Concílio Vaticano II. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 35, n. 147, p.
33-48, [março] 2005.
63

146
como escopo a economia da salvação como chave de leitura, outorgando e, ao mesmo

tempo, mantendo a Igreja a sua dimensão histórico-temporal.

No parágrafo 2 da Lumen gentium, descreve-se o desígnio maravilhoso do Pai no que

refere à humanidade, ou seja, de ser participante da vida divina. Esse desígnio tornou-se

realidade, não obstante o pecado, mediante a obra redentora de seu Filho, Jesus Cristo. A

Igreja é, neste sentido, o lugar onde o Pai quis congregar os que crêem em Cristo. Diz-se, por

isso, que a “Igreja foi esboçada desde as origens do mundo, preparada de modo admirável

pela aliança antiga, que está na base da história de Israel, constituída nesses últimos tempos,

manifestada pelo dom do Espírito Santo, mas que só estará terminada no fim dos séculos” 147.

A Igreja, sendo obra da Trindade, torna-se manifesta ao mundo na Plenitude dos

Tempos pela obra do Filho, Jesus Cristo, que pregou o Reino de Deus, do qual a Igreja é o
148
“germe e o início do Reino na terra” . “A Igreja, Reino de Cristo, desde já

misteriosamente presente no mundo, cresce pela força de Deus. Sua origem e

desenvolvimento são simbolizados pelo sangue e pela água que jorraram do lado de Jesus
149
crucificado (Jo 19,34)” . O Mistério Pascal é a realidade histórica em que o Filho realiza

plenamente a vontade do Pai, instituindo a Igreja como comunidade dos reconciliados e, ao

mesmo tempo, nutrindo-os e mantendo-os na unidade mediante a Eucaristia 150.

O Espírito Santo é o coroamento da missão do Filho, possibilitando o acesso ao Pai,

por meio do Filho. “Assim como o Pai, através do Filho, veio ao homem no Espírito, o

homem pode, doravante, no Espírito e pelo Filho, ascender ao Pai. O movimento de

descensão possibilita o de ascensão, num circuito de unidade, cuja fase eterna é a Trindade e

146
Cf. FORTE, B. A Igreja Ícone da Trindade: breve eclesiologia. São Paulo: Loyola, 1997. p. 19.
147
Cf. PHILIPON, M. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
363-4. Cf. LG 2.
148
Cf. LG 5.
149
Cf. LG 3.
150
Cf. PHILIPON, M. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
363-4. p. 364-6.
64

151
cuja fase temporal é a Igreja” . O Espírito Santo é para a Igreja “fonte perene de

santificação”; Ele conduz a Igreja “à verdade plena e a unifica na comunhão e no ministério

(...) a instrui, dirige e enriquece com seus frutos. Rejuvenesce a Igreja com a força do
152
Evangelho, renovando-a continuamente e a conduz à união consumada com seu esposo” .

Sendo assim, a Igreja é, pois, “o povo unido pela unidade mesma do Pai e do Filho e do

Espírito Santo”, conforme afirma São Cipriano 153.

Em sua realidade histórica, segundo o parágrafo 6, a Igreja é manifestada em

diversas imagens, a saber: como redil, rebanho, lavoura de Deus, construção de Deus,
154
Jerusalém celeste, família, Templo Santo, esposa imaculada . No parágrafo 7, apresenta-se

a Igreja como Corpo Místico de Cristo, categoria à qual “é possível inferir o caráter

ministerial de toda a Igreja e seu caráter profundamente sacramental” 155.

A dimensão mistérica da Igreja revela, ao mesmo tempo, o seu ser visível e

espiritual. Desta forma, a

Igreja é um mistério único em seus aspectos visível e invisível. Não existem duas

Igrejas, mas uma única presente no mistério trinitário, desdobrada na história para

reunir toda a humanidade. A Igreja de Cristo é uma realidade complexa que se

manifesta na Igreja católica, sem esgotar-se nela. Por ser mais ampla que suas

formulações históricas, a Igreja é uma, santa católica e apostólica, concretizada

151
FORTE, B. A Igreja Ícone da Trindade: breve eclesiologia. Op. cit. 1997. p. 21. Cf. LG 4.
152
Cf. LG 4.
153
Cf. PHILIPON, M. A Santíssima Trindade e a Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
366-9. Cf. LG 4.
154
Cf. CERFAUX, L. As imagens simbólicas da Igreja no Novo Testamento. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 331ss. Também NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à
Constituição Dogmática Lumen gentium. Op. cit. p. 61-79.
155
GONÇALVES, P. S. LOPES. A Eclesiologia hoje: perspectivas eclesiológicas. Revista de Cultura Teológica,
São Paulo, v. 12, n. 49, p. 17, [out./dez.] 2004. Para um aprofundamento sobre estas imagens, cf. NICOLAU, M.
et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium. Op. cit. 1966. p. 61-
87.
65

como Povo de Deus inserido e peregrino na história para servir o Reino de Deus e

dar testemunho da verdade 156.

2.2.1.3. A IGREJA COMO SACRAMENTO157

Sendo a Igreja descrita como Mistério, ela o é enquanto ontologicamente e

historicamente, ligada à Trindade. O Concílio Vaticano II descreve a Igreja “como que

sacramento ou sinal e instrumento da união com Deus e da unidade de todo o gênero

humano”158. É a descrição mais significativa da Igreja, tendo-se em vista a própria história da

incorporação desse conceito ao texto conciliar.

A descrição da Igreja como “sacramento” é elaborado pelos Padres conciliares sob

duas óticas: uma cristológica e outra escatológica. Quando se fala da Igreja como Sacramento,

ela o é enquanto servidora e portadora dos mistérios de Cristo, ou seja, como o lugar de
159
realização da obra redentora do Filho . Neste ínterim, expressa bem o Concílio ao afirmar

que a “Igreja é em Cristo como que o sacramento ou o sinal e instrumento da união com Deus

e da unidade de todo o gênero humano” 160.

No parágrafo nono, o Concílio afirma que Jesus é o autor da salvação, o princípio da

unidade e que a “Igreja é assim, para todos e para cada um dos homens em particular, o

sacramento visível da unidade da salvação”. Embora “a Igreja revela fielmente ao mundo o

mistério de Cristo”, ela o revela de forma velada 161.

156
GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes. Eclesiologia Ecumênica. In: Cadernos de Teologia, Campinas, ano VI,
n. 07. p. 43, [maio] 2000. Também LG 8.
157
Cf. SMULDERS, P. A Igreja como Sacramento. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 396-
419. Para uma leitura mais complementar, cf. KASPER, W. “La Chiesa sacramento universale della salvezza” e
“Chiesa come comunione”, In: ed., Teologia e Chiesa, Brescia, 1989, p. 247-265; 284-301.
158
LG 1.
159
Cf. HERNANDEZ, O. A nova consciência da Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
286.
160
LG 1.
161
LG 8.
66

Quanto à conotação escatológica, o Concílio é enfático ao dizer que a Igreja, “tendo

em seu seio pecadores, é ao mesmo tempo santa e está em constante purificação, não

deixando jamais de fazer penitência e de buscar sua própria renovação” 162.

A descrição da Igreja, como Sacramento, deve fornecer a chave de uma nova

consciência eclesial, uma vez que, com esse termo, houve uma “espécie de ‘decentração da

Igreja com relação a si mesma’, porque está colocada inteiramente em relação a Cristo” 163. A

fonte deste conceito, empregado de forma analógica à Igreja, remonta ao termo bíblico

Mistério, entendendo-o não como algo incognoscível, mas

como uma realidade portadora de salvação, que se revela de modo visível. O

Concílio, empregando esse conceito de sacramento, quer exprimir a dupla

dimensão da Igreja, humana e divina, visível e invisível, que faz com que ela seja,

já em si mesma, e em virtude da lei da encarnação pela qual o visível é mediação do

invisível, ‘uma realidade complexa’ 164.

A concepção sacramental da Igreja, fundada na Encarnação do Verbo e manifestada

ao mundo por meio dos sete sacramentos, revela a sua realidade Teândrica. Dessa forma, se

“a vida de Cristo é divino-humana ou teândrica, a vida da Igreja também será divino-humana


165
ou teândrica” , como sugere o número 8 da LG. Contudo, não se pode atribuir à Igreja a

mesma realidade extrínseca da Encarnação, visto que ela é uma realidade única e irrepetível.

Contudo, a encarnação pode ser assumida como “módulo de compreensão e de interpretação

do Mistério da Igreja, pois nela também, como na Encarnação, estão essencialmente presentes
162
LG 8.
163
SMULDERS, P. A Igreja como Sacramento. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 396.
164
PIÉ-NINOT, A. Introdução à Eclesiologia. Op. cit. p. 30. Cf. LG 8.
165
JOURNET, C. O caráter Teândrico da Igreja, Fonte de Tensão Permanente. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 384 ss. Para uma leitura complementar, cf. MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op. cit.
p. 14-51;309-321.
67

os dois elementos (humano e divino) e estão unidos entre si de maneira análoga” 166. Embora

sendo distintos, são similares.

A partir do desenrolar da dimensão histórico-humana da Igreja, ou seja, de sua

realidade visível, constituída como “sociedade” 167, compreende-se a sua encarnação histórica,

embora “de natureza singular, porque nela o homem opera, sim, como agente principal, mas

não único, e sim como associado a um ‘partner’ divino, que assume para si a responsabilidade

do início das grandes decisões que dizem respeito à Igreja” 168. Nesse sentido, a Igreja aparece

como uma comunidade de homens convocados por Deus e profundamente unidos a Cristo e à

sua obra. A Igreja é a comunidade surgida pela vontade de Deus e da qual o próprio Deus faz

parte. Nesse aspecto, o Concílio denominou a Igreja como Povo de Deus, justamente porque

não é um povo que se reúne por si mesmo, mas por causa do desígnio de Deus.

2.2.2. O EIXO MINISTERIAL: A TRINDADE COMO IMAGEM

2.2.2.1. A IGREJA: POVO DE DEUS169

A visão eclesial de até então era marcada pelo que denominou Yves Congar de

“Eclesiologia hierarcológica” 170. A inversão entre os Capítulos, como já mencionado no item

1.3. constitui, segundo C. Moeller, “a primeira das revoluções copernicanas que marcaram a

elaboração da constituição” 171.

A finalidade do Concílio em descrever a Igreja como Povo de Deus antes de sua

estrutura, situa no interesse de mostrar primeiramente o que é comum a todas as

denominações presentes em sua estrutura visível, ou seja, clérigos e leigos, antes de dissertar

166
MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op. cit. p. 311. Cf. também KLOPPENBURG, B. A Natureza e a
Missão da Igreja. In: REB, Petrópolis, v. 29, n. 4, p. 823-825, [dezembro] 1969.
167
Cf. LG 14, 29,23.
168
MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op. cit. 1984. p. 319.
169
Cf. SEMMELROTH, O. A Igreja, o novo Povo de Deus. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit.
p. 471 ss.
170
CONGAR, Y. Ministeri e comunione ecclesiale. Bolonha, 1973. p. 12.
171
MOELLER, C. “Storia della strutura e delle idee della LG”. In: MILLER, J.M. (org.). La teologia dopo il
Vaticano II, Morcelliana, Brescia, 1967, p. 159.
68

172
acerca da diversidade de funções atribuídas e oriundas de cada estado . Se o Capítulo I

falou do Mistério da Igreja em toda a sua amplitude e extensão, ou seja, de sua origem

transcendente, o Capítulo II visa dissertar acerca de sua dimensão imanente, desde a Ascensão

do Senhor até a sua Parusia. Nesse tempo intermediário, situa-se a ação deste Povo de Deus,

que se concretiza justamente no exercício de seu sacerdócio universal ou comum173, culto e

prática sacramental, no uso dos carismas e do “sensus fidei” 174 e, principalmente, no seu zelo

missionário175.

Nesse aspecto, a categoria Povo de Deus tem suas raízes na eleição de Abraão, mas

tem sua plenitude na aquisição do novo Povo de Deus que em Jesus Cristo se realizou; O

Senhor o constitui como “povo messiânico”, muito embora “não abranja de fato todos os

homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno rebanho”. Contudo, o Senhor

constituiu esse novo povo para que seja entre “todo o gênero humano o mais firme germe de

unidade, de esperança e de salvação” 176. Sendo assim, esse povo messiânico ou novo Israel, é

também denominado como Igreja de Cristo, “que ainda caminha no tempo presente e se dirige

para a futura e perene cidade” 177.

Dessa categoria Povo de Deus, irradia uma eclesiologia não fragmentária ou

partidarista, mas integradora e totalizante, tendo como fundamento o sacramento do Batismo

e a redescoberta do sacerdócio universal ou comum, como se infere do parágrafo 10 e 31 da

LG. É graças ao batismo que o cristão é revestido desse sacerdócio comum, visto que ele é

incorporado a Cristo, que é o sumo e eterno Sacerdote.

Dentre a dignidade comum oriunda do batismo, há entre os batizados e crismados,

aqueles que são instituídos no sacerdócio ministerial. Conforme o Concílio, eles não só

172
Cf. CONGAR, Y. “La chiesa come popolo di Dio” In: Concilium, Petrópolis, v. 1 p. 19-20, 1965.
173
Cf. LG 10-11.
174
Cf. LG 12.
175
Cf. LG 17.
176
Cf. LG 9b.
177
Cf. LG 9c.
69

diferem em grau, mas em essência, embora tenham ambos a Cristo Sacerdote como origem. O

sacerdócio comum dos fiéis não é de forma alguma unívoco ao sacerdócio ministerial, mas

somente análogo. Contudo, o

Sacerdote é ‘um irmão entre seus irmãos’, um ‘fiel batizado e confirmado’ como os

outros. Suas virtudes sãos as dos homens, sua espiritualidade é a dos batizados,

seus meios de santificação lhes são comuns com seus irmãos de fé. ‘Sua

consagração e sua missão’ fazem dele um servidor dos outros. Seus privilégios são

os privilégios do serviço, a diaconia. Se ele ‘preside’ sozinho à assembléia

eucarística, se ele ‘representa’ no Corpo Místico a cabeça, que é Cristo, se ‘o

serviço do Evangelho o distingue’ dos outros, esse serviço não o pode ‘separar’.

Continuamente a teologia do sacerdócio é recolocada em seu contexto normal, que

é o estado de fiel, comum a todos os membros do Povo de Deus 178.

Conforme o parágrafo 10 e 11, o Povo de Deus exerce o ofício sacerdotal179, que lhe

é peculiar, numa vida de virtude, mas também por meio dos sacramentos. O parágrafo 12

reporta-nos ao seu ofício profético180, uma vez que participam desse múnus de Jesus. Esse

múnus deve ser traduzido mediante o testemunho vivo de Cristo, por meio de uma vida de fé

e de caridade.

Nesse sentido, os fiéis são também movidos pelo sensus fidei ou sentido da fé,

proveniente do Espírito Santo e que conjuntamente com o Magistério da Igreja se tornam

também Magistério infalível. Essa relação é proveniente do ato de crer de todo fiel, visto que

ele não crê a partir do nada, mas sim do que ele efetivamente recebe do “Magistério”

178
LAMBERT, Bernard. A Nova Imagem da Igreja. p. 94. s/d.
179
Cf. DE SMEDT, E. J. O Sacerdócio dos fiéis. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 487 ss.
180
Cf. LEEUWEN, B. Van. A Participação no múnus profético de Cristo. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 499 ss.
70

enquanto “ensinamento e doutrina”, ou seja, do ato de ensinar, próprio da Igreja, constituindo


181
assim o que se denomina a “infalibilidade ativa do Magistério” . Nesse aspecto, são

interessantes as palavras de São Roberto Belarmino acrescentada ao primeiro Esquema De

Ecclesia do Vaticano I:

‘Quando afirmamos que a Igreja não pode errar, entendemo-lo tanto da

universalidade dos fiéis, como da universalidade dos bispos, de modo que o sentido

da preposição ‘a Igreja não pode errar’ seja: aquilo que todos os fiéis têm como fé,

necessariamente é verdadeiro e de fé; de igual modo, tudo o que ensinam os bispos

relativamente à fé, necessariamente é verdadeiro e de fé 182.

Sendo o Povo de Deus um povo carismático, possuidor de dons e ministérios de

acordo com a necessidade do bem comum, esse Povo é também descrito como sendo “uno e

universal, isto é, católico”. Fala-se, portanto, de universalidade como nota própria do Povo de

Deus, muito embora seja uno183. O Concílio relembra expressamente a necessidade de

pertença à Igreja, primeiramente, porque é por ela que o fiel se torna presente a Cristo e

também pela necessidade do batismo para a salvação, entendendo esta realidade, como

necessidade de meio e não de preceito para a salvação 184.

Dessa forma, abre-se uma larga perspectiva de aproximação e de relação entre os

cristãos e os outros cristãos e, conseqüentemente, com os não-cristãos 185. O parágrafo 14 nos

181
Cf. NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen
gentium. Op. cit. p. 107.
182
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 108.
183
Cf. LG 13.
184
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 113-14.
185
Cf. BUTLER, B. C. Os Cristãos não-católicos em relação à Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano
II. Op. cit. p. 686 ss.
71

fala da incorporação plena e perfeita, justamente entre aqueles que aceitam a estrutura íntegra

da Igreja e recebem todos os meios de salvação nela estabelecidos. Há igualmente aqueles

que não possuem uma plena incorporação à Igreja, mesmo que receberam validamente o

batismo. Quando o Concílio dirige-se aos “que não guardam a fé integral”, está referindo-se

aos protestantes, enquanto que se refere aos orientais ortodoxos, como aqueles “que não
186
conservam a comunhão sob o Sucessor de Pedro” . Contudo, o que nos une aos não

católicos, circunscreve-se na aceitação da Sagrada Escritura como divinamente revelada, a fé

na Trindade, os sacramentos e, ainda que não para todos, a devoção a Maria, etc.

No que se refere aos não-cristãos, embora ainda não tenham recebido o Evangelho,

todos estão destinados, “contudo, a pertencer ao Povo de Deus”, visto que Jesus Cristo

“redimiu todos os homens com uma redenção objetiva, que tem de aplicar-se depois e tornar-

se subjetiva em cada homem. A todos e a cada um dos homens chama à Igreja e para ela os

encaminha por meio das suas graças”. Estas graças se concretizam nesta “posse e

incorporação na Igreja” 187.

A índole desse Povo de Deus manifesta-se na responsabilidade de evangelizar de

forma permanente e universal, como algo conatural à sua origem. Aqui, conforme os Bispos,

encontra-se uma das grandes contribuições do Concílio à Igreja, ou seja, uma tomada de

consciência mais clara de que a Igreja não é só a hierarquia, mas todo o Povo de

Deus, ressaltando o papel dos leigos e a co-responsabilidade de todos, pastores e

fiéis, na ação pastoral e na missão evangelizadora, sem deixar de reconhecer e

valorizar a vocação específica missionária ‘ad gentes’ 188.

186
Cf. LG 1. Leão XIII, Carta Apostólica. Praeclera gratulationis, 20.6.1994: AAS 26 (1893-94), p. 707.
187
NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática Lumen gentium.
Op. cit. p. 122. Também LG 16.
188
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 29c.
72

Nesse único parágrafo, número 17, a Constituição visa apenas propor os

fundamentos teológicos da ação missionária da Igreja189, uma vez que o desenvolverá de

forma longa e aprofundada, no Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad gentes.

2.2.2.2. A IGREJA POVO DE DEUS: SUA ESTRUTURA VISÍVEL

Os três próximos Capítulos da LG dissertam acerca dos membros que constituem

visivelmente a Igreja, ou seja, o episcopado, os leigos e os religiosos. O Concílio, ao nominar

o Povo de Deus, o faz em duas categorias, os ordenados e os não ordenados, muito embora

“todos são iguais em dignidade” 190, mas diferentes quanto aos ofícios.

O Capítulo III acerca da “constituição hierárquica da Igreja: o episcopado”, embora

fale do Papa e do Primado do Romano Pontífice, ocupa-se também no parágrafo 28 sobre os

Presbíteros e no parágrafo 29 acerca dos Diáconos. No mais, disserta, essencialmente, sob o

ponto de vista doutrinal, sobre os fundamentos teológicos no que concerne aos Bispos,

constituindo, dessa forma, o coração do Concílio, segundo Pietro Parente 191.

O Concílio na esteira do Vaticano I procura agora delinear, de forma clara e profunda

toda a doutrina sobre o episcopado, assim como foi delineada a doutrina sobre o Papa no

Concílio precedente. Já no Proêmio, é clara essa postura:

O Concílio reafirma junto a todos os fiéis e declara, como doutrina em que se deve

crer firmemente, a instituição, a perpetuidade, a importância e a razão do primado

do pontífice romano e de seu magistério infalível. Nessa mesma linha, professa e

declara diante de todos, a doutrina segundo a qual os bispos são sucessores dos

189
Cf. LE GUILLOU, M.-J. A Vocação Missionária da Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op.
cit. p. 713 ss. Também, PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 7° ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
190
Cf. LG 32.
191
Cf. Relatio super Caput III textus emendati schematis Constitutionis De Ecclesia (1964), Relatio prior, de nn.
22-27, p. 9. Apud NICOLAU, M. et al. Igreja do Concílio Vaticano II: comentário à Constituição Dogmática
Lumen gentium. Op. cit. p.127.
73

apóstolos, que dirigem a casa do Deus vivo, juntamente com o sucessor de Pedro,

vigário de Cristo e cabeça visível de toda a Igreja 192.

No seu conjunto, os Padres conciliares fundamentam o ofício hierárquico a partir de

uma realidade mistérica, ou seja, sacramental193, tendo sua origem na escolha dos doze por
194
Jesus, que os constituiu “em Colégio ou grupo estável” , e sua transmissão pelos próprios

apóstolos numa contínua sucessão195. “Por isso, o Concílio ensina que os bispos, por
196
instituição divina, sucedem aos apóstolos, como pastores da Igreja” . A partir dessa base

sacramental, percebe-se o múnus episcopal sob uma nova ótica, menos jurisdicista e mais

amplamente ontológica, sobrenatural, possibilitando um tom maior de vitalidade sobrenatural.

De maneira especial, nesse Capítulo III, o Concílio recuperou e elaborou, de forma


197
teológica e disciplinar, a doutrina acerca da colegialidade episcopal . Dessa doutrina,

podemos auferir várias conseqüências para a Igreja do pós-Concílio198. Contudo, abordaremos

apenas duas.

A primeira delas diz respeito à responsabilidade e à dignidade das Igrejas locais.

Com afirma Ratzinger, o “sentido da colegialidade não pode estar de fato em colocar um

parlamento em lugar de uma monarquia, mas em pôr novamente em relevo e em atividade as

‘Ecclesiae’ na ‘Ecclesia’” 199. Conseqüentemente, afirma ainda que a

192
Cf. LG 18.
193
Cf. LÉCUYER, J. O Episcopado como Sacramento. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
743 ss. Cf LG 21.
194
Cf. LG 19.
195
Cf. LG 20.
196
Cf. LG 20.
197
Cf. RATZINGER, J. A Colegialidade dos Bispos: desenvolvimento teológico. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 763 ss.
198
Além das duas que irá dissertar, vale apenas lembrarmos que, como conseqüência da Colegialidade
Episcopal, tem-se também criação por Paulo VI do Sínodo dos Bispos, a criação das Conferências Episcopais e
dos Conselhos Presbiterais. Cf. ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -
1985. 2º ed., São Paulo: Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra c, n. 5-6. p. 7-49.
199
Ib. p. 785.
74

Igreja realiza-se em primeiro lugar em cada uma das suas igrejas locais: estas não

são postos administrativos duma organização central, mas sim células vivas em

cada uma das quais está presente todo o mistério da vida do corpo uno da Igreja, de

tal maneira que a cada uma dessas células se deve chamar simplesmente e com

direito ‘Ecclesia’. Podemos, portanto, afirmar agora: a Igreja de Deus, una, que

existe, consta das igrejas particulares cada uma das quais representa o todo da

Igreja 200.

A segunda diz respeito à redescoberta do bispo como pastor de sua Igreja local e de
201
seu múnus pastoral em favor de seu povo . Embora, pastor de sua grei, ele deve ter

solicitude para com toda a Igreja, mesmo que não exerça sobre ela nenhum ato de

jurisdição202. Neste aspecto, o Concílio descreve os múnus próprios do ofício episcopal, que

se apresentam sob tríplice forma, ou seja, o múnus de ensinar, de santificar e de reger 203. A

esse respeito, o Cardeal Suenes diz que

quanto mais o episcopado tiver papel ativo, mais as igrejas particulares terão sua

fisionomia própria, mais o povo cristãos se expandirá na diversidade dos ritos, das

teologias, das disciplinas e dos costumes, e mais o primado estará em condições de

exercer plenamente seu papel específico, a saber, o de assegurar a unidade e a

coesão fundamentais da Igreja 204.

200
RATZINGER, J. As implicações pastorais da doutrina sobre a colegialidade. In: Concilium, Petrópolis, n. 1,
p. 33, 1965.
201
Cf. GROOT, Jan Cornelis. Aspectos Horizontais da Colegialidade. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano
II. Op. cit. p. 800 ss.
202
Cf. LG 23b.
203
Cf. LÉCUYER, J. O Tríplice encargo do Bispo. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 877
ss. Cf. Cf. LG 24-7.
204
SUENENS. A Co-responsabilidade na Igreja de hoje. São Paulo: Vozes, 1969. p. 55.
75

No que tange ao exercício pastoral dos bispos, a Igreja no Brasil, por meio de suas

Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, assim se expressam:

compete ao Bispo a responsabilidade principal pela articulação da tarefa

evangelizadora. Antes de tudo, ele, pessoalmente, seja testemunha do espírito

evangélico e da tradição apostólica, pois é elo de comunhão e sinal de unidade da

sua Igreja diocesana. Assuma, com zelo, a tarefa de incentivar e coordenar a ação

evangelizadora, a ser realizada com a participação de toda a comunidade eclesial,

com suas forças vivas e os diversos carismas que lhe foram concedidos. O Bispo

dedique particular empenho à animação do seu presbitério, que lhe está

estritamente associado no governo da Diocese, sem deixar de exortar todos os

seus fiéis à ação apostólica e missionária 205.

A reflexão acerca da Colegialidade Episcopal, acima de qualquer coisa, trouxe

grandes benefícios para a Igreja como um todo. Contudo, foi precisado por uma nota prévia

que distinguia o termo “Colégio”, não “num sentido estritamente jurídico, como um conjunto

de pessoas iguais cujo poder provém daquele que preside. É mais um conjunto estável de

pessoas, cuja estrutura e autoridade se entendem a partir da Revelação”. Ademais, nessa

mesma nota se explica que

O paralelismo entre Pedro e os demais Apóstolos, de um lado, o Papa e os Bispos,

de outro, não implica a transmissão de um poder extraordinário dos Apóstolos a

seus sucessores, nem uma ‘igualdade’ entre a Cabeça e os membros do Colégio,

205
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 308. Cf. LG, 28; CD.
28.
76

senão simples ‘proporcionalidade’ entre a primeira relação (Pedro – Apóstolos) e a

segunda (Papa – Bispos) 206.

Tendo a estrutura colegial sua fundamentação na Escritura207, na prática disciplinar

da Igreja antiga, principalmente pela agregação dos mesmos em Concílios e, por fim, no

costume de convocar vários bispos para a elevação de um novo a esse Colégio 208, percebe-se
209
que esta doutrina não traz nenhum prejuízo à teologia do Romano Pontífice . Com a

colegialidade, obtém-se uma descentralização e, ao mesmo tempo, uma vitalização do

episcopado local210, muito embora precisando que este não se sustenta senão em comunhão

com o Pontífice Romano 211.

Na Igreja Particular, os bispos são ajudados, em seu ofício pastoral, por meio

daqueles que de seu sacerdócio se derivam, ou seja, o Presbítero e o Diácono. O primeiro é

participante do Sacerdócio de Cristo, embora em grau inferior, mas são ordenados para

exercerem juntamente com o seu bispo, o múnus de reger, santificar e de governar, em nome e

como representante de seu episcopo 212. O segundo é instituído para o serviço e é participante

da hierarquia 213.

Conforme a compreensão eclesiológica conciliar, é “ao presbitério como um todo e

não aos presbíteros separadamente, nem ao bispo isolado, que é confiado o pastoreio da Igreja

206
VATICANO II: Mensagens, Discursos, Documentos. Op. cit. p. 245.
207
Cf. LYONNET, S. A Colegialidade Episcopal e seus Fundamentos Escriturísticos. In: BARAÚNA, G. A
Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 821 ss.
208
Cf. HAJJAR, J. A Colegialidade Episcopal na Tradição Oriental. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II.
Op. cit. p. 839 ss. Também DEJAIFVE, G. A Colegialidade Episcopal na Tradição Latina. In: BARAÚNA, G. A
Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 860 ss. Cf. LG 22a.
209
Cf. RATZINGER, J. “Il primato di Pietro e l’unità della Chiesa”. In: La Chiesa, Cinisello Balsamo, 1991.
210
Cf. LG 23.
211
Cf. BETTI, Umberto. Relações entre o Papa e os outros membros do Colégio Episcopal. In: BARAÚNA, G.
A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 789 ss. Cf. LG 22-3.
212
Cf. GIBLET, J. Os Sacerdotes da Segunda Ordem. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
899 ss. Cf. LG 28.
213
Cf. KERKVOORDE, A. Elementos para uma Teologia do Diaconato. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 923 ss. Acerca do Diaconato Permanente, cf. WINNINGER, P. Os Ministérios dos
Diáconos na Igreja de Hoje Op. cit. p. 966 ss. Cf. LG 29.
77

particular”. Em vista dessa compreensão, as DGAP afirmam que “o ministério ordenado

necessita recuperar sua vivência colegial”, visto que a “forma individualista do exercício do

ministério ordenado é um dos principais entraves à realização de uma Igreja toda ela

responsável pela missão”. Essa advertência não se dirige a um bispo ou a um presbítero, mas

sim a todos 214.

Sendo o Papa o “princípio e fundamento visível da unidade, tanto dos bispos como
215
do conjunto dos bispos” , e se cada bispo, “por sua vez, é princípio e fundamento da

unidade, em suas respectivas Igrejas particulares”, eles o são em função do Povo de Deus, do

qual, a sua maioria é formada por aqueles que foram incorporados em Cristo pelo Batismo e

são denominados Leigos. O Capítulo IV aborda a especificidade dos leigos de forma ad intra

e ad extra da Igreja e sua vocação secular própria, uma vez que o Capítulo II tratou do que é

comum ao Povo de Deus.

Muito embora tenha sido anteriormente definido de forma negativa, em

contraposição aos clérigos, ele é aqui definido de forma positiva. O parágrafo 31 oferece uma

descrição não ontológica acerca dos leigos, porém o faz sob a forma tipológica 216, segundo as

funções próprias que o leigo realiza ou pode realizar dentro do Corpo Místico. Dessa

descrição, haurem “os três elementos constitutivos do leigo: o fundamental, ou seja, a sua

pertença à Igreja pelo batismo; o negativo (e quase exclusivo antes do Vaticano II), o fato de

não ser ele clérigo; o positivo e descritivo, a sua relação peculiar com o mundo secular” 217.

Tendo como índole própria a secularidade, tem também a missão específica de

buscar o Reino de Deus nesse meio e fomentá-lo dentro das estruturas, como fermento na

massa, mediante o seu testemunho de vida, pela profissão pública de sua fé, pela caridade,

214
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 276. Cf. CNBB.
DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 326-335.
215
Cf. LG 23a.
216
Cf. SCHILLEBEECKX, E. A Definição Tipológica do Leigo Cristão conforme o Vaticano II. In:
BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 981 ss.
217
PIÉ-NINOT, S. Introdução à Eclesiologia. Op. cit. p. 63.
78

218
pela esperança, a fim de santificá-lo . No exercício dessa missão, unem de forma

“colegiada” à hierarquia219, a qual também tem a incumbência de evangelizar o mundo

secular, e exercer, com eficácia e eficiência, o seu múnus sacerdotal 220.

Tendo em vista a dimensão laical na ação missionária da Igreja, os Bispos do Brasil,

atendendo aos apelos de João Paulo II 221, procuraram, de forma sistemática, formar os leigos.

Neste aspecto, em 1991, foi criada a “Assembléia Nacional dos Organismos do Povo de

Deus”, possibilitando a participação mais efetiva dos leigos na elaboração das novas

Diretrizes (1991) 222.

2.2.2.3. A SANTIDADE COMO HORIZONTE COMUM A TODO O POVO DE

DEUS

O Capítulo V disserta acerca da Santidade como o horizonte comum de todos os

membros da Igreja e fundamento da comum dignidade. A santidade é comum para todos,

porque ela descende da própria Igreja que é Santa, seja na forma negativa da pureza e

ausência de pecado (santidade ontológica), seja na forma positiva de excelência na ordem

moral (santidade moral), haja vista o seu fundamento trinitário 223.

A Igreja irradia a santidade de seu Autor por meio de si mesma para todos os seus
224
filhos presentes nas “diversas profissões e formas de vida” . Todos, de acordo com o

218
CHENU, M-D. Os Leigos e a “Consecratio Mundi” In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
1001ss.
219
KOSER, C. Cooperação dos Leigos com a Hierarquia no Apostolado. In: BARAÚNA, G. A Igreja do
Vaticano II. Op. cit. p. 1018ss. Também GOZZINI, M. As Relações entre os Leigos e a Hierarquia. In:
BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 1036ss.
220
Cf. LG 31-8.
221
Mensagem ao Episcopado Brasileiro, 1986, n 3. João Paulo II dizia que “uma prioridade importante e
inadiável seja a de formar leigos. Formar leigos significa favorecer-lhes a aquisição de verdadeira competência e
habilitação no campo em que devem atuar; mas significa, sobretudo, educá-los na fé e no conhecimento da
doutrina da Igreja naquele campo”. CNBB. DGAE 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo:
Paulinas, 1999. n. 272.
222
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 55; 297-318.
223
Cf. LG 39.
224
Cf. LG 40-1.
79

225
Concílio, “são chamados e obrigados a buscar a perfeição do próprio estado de vida” , em

vista de uma sociedade mais justa e fraterna, certos de que “a santidade promove uma

crescente humanização” 226.

Os Religiosos são, no mundo, a expressão salutar de busca de santidade. Por meio


227
dos conselhos evangélicos de Pobreza, Obediência e Castidade, a Vida Religiosa é sinal

antecipado do que todos serão na eternidade, uma vez que

imita e representa para sempre na Igreja, de maneira mais direta, a forma adotada

pelo Filho de Deus quando veio ao mundo (...) Manifesta, de maneira toda especial,

as supremas exigências do Reino de Deus, que está acima de todas as coisas

terrestres. Demonstra, enfim, a todos os homens, a força superior do Reino de

Cristo e o poder infinito do Espírito Santo, que atua admiravelmente na Igreja 228.

A Vida Religiosa não constitui um elo intermediário entre a hierarquia e os leigos.

São fiéis de ambas as condições e, embora não se constituem como membros da estrutura
229
hierárquica, assim como os leigos, fazem parte da sua vida e de sua estrutura , e são

também co-responsáveis pela atividade missionária da Igreja como um todo. “No que se

refere à evangelização, os religiosos e religiosas do Brasil, nos últimos anos, redescobrem sua

225
Cf. LG 42.
226
Cf. LG 40. Cf. LABOURDETTE, Michel. A Santidade, Vocação de todos os membros da Igreja. In:
BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 1057 ss.
227
Cf. SCHULTE, R. A Vida Religiosa como Sinal. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op. cit. p.
1085ss.
228
Cf. LG 44.
229
Cf. LG 44. Também DANIÉLOU, J. O Lugar dos Religiosos na Estrutura da Igreja. In: BARAÚNA, G. A
Igreja do Vaticano II. Op. cit. p. 1117ss.
80

dimensão eclesial, através da inserção nas Igrejas particulares, num crescente compromisso

com a pastoral de conjunto” 230.

2.2.3. O EIXO ESCATOLÓGICO: A TRINDADE COMO FIM

Sendo a Trindade a origem da Igreja, Ela o é também a sua meta, uma vez que no

exercício terreno de sua missão, a Igreja a torna visível em sua estrutura visível por meio de

seus membros, os quais constituem o Povo de Deus. Dessa forma, o Concílio expressa a

tensão a que a Igreja vive em sua existência, ou seja, de ser portadora da plenitude da graça,

muito embora caminhe para ela 231. A Igreja acolhe esse dom recebido, mas corre em direção

de sua plenificação. É a tensão do “já”, mas “ainda não”, como se expressam os Padres

conciliares:

A renovação prometida que esperamos já começou em Cristo. Continua na missão

do Espírito Santo e, por seu intermédio, na Igreja em que apreendemos, na fé, o

sentido de nossa vida temporal, nos fixamos na esperança dos bens futuros,

construímos a obra que nos foi confiada pelo Pai neste mundo, alcançando nosso

fim e realizando nossa salvação (Fl 2, 12) 232.

Conforme o teólogo Bruno Forte, desse “estar em tensão entre o ‘já’ e o ‘ainda não’
233
derivam três conseqüências para a representação e para a vida da Igreja” . A primeira se

percebe pelo apelo à “Pátria”, a sua origem, ao seio novamente da Trindade que, “ainda não”

contempla em plenitude. Nesse anseio da Igreja de volta para a “Casa do Pai”, ela percebe a

frugalidade das coisas terrenas e se coloca nas esteiras de sua Cabeça, tendo como testemunho

230
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 283. Cf. Carta aos
Religiosos e Religiosas da América Latina, 1990, 24-29. CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n.
61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 319-322.
231
Cf. DV 8.
232
Cf. LG 48.
233
FORTE, B. A Igreja Ícone da Trindade: breve eclesiologia. Op. cit. p. 66.
81

eloqüente para o mundo, a mesma Pobreza exercida e testemunhada pelo próprio Cristo 234. A

própria Igreja “descobre que não é um absoluto, mas um instrumento; não um fim, mas um
235
meio; não ‘domina’, mas serva” . Ela se percebe como peregrina rumo à união celeste,

como o próprio título do Capítulo VII anuncia. Diante da Trindade, como horizonte, tudo é

relativo.

Uma vez que a Igreja se percebe como peregrina, não elimina o mundo de sua ação

missional. Essa é a segunda conseqüência. Contrariamente, ela se coloca em marcha, como

Povo de Deus, no firme propósito de instaurar o Reino de Deus, do qual é “germe e

princípio” 236 neste mundo, tornando-se a sua consciência crítica, a fim de gerar novos céus e

nova terra em meio às estruturas terrestres 237.

Com a certeza de que caminha para o Pai, a Igreja se enche de alegria e de

esperança 238, muito embora presencie tribulações e perseguições de toda ordem 239. Contudo,

contempla o seu fim, na pessoa da Bem-Aventurada Virgem Maria, pois ela é membro

“supereminente da Igreja e de todo singular” é o “tipo” da comunidade eclesial, virgem e mãe.

Como ela, “crendo e obedecendo,... gerou na terra o próprio Filho do Pai, sem conhecer
240
varão, coberta pela sombra do Espírito Santo” , assim a Igreja, “mediante a Palavra de

Deus recebida na fé, torna-se também ela mãe. Pois pela pregação e pelo batismo, ela gera

para a vida nova e imortal os filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de Deus. Ela é

também a virgem que, íntegra e puramente, guarda a palavra dada pelo Esposo” 241.

Como Maria, que “avançou em peregrinação de fé e manteve fielmente sua união


242
com o Filho de Deus até a sua cruz” , a Igreja, peregrina na fé e na esperança, eleva o seu

234
Cf. LG 8d.
235
FORTE, B. A Igreja Ícone da Trindade: breve eclesiologia. Op. cit. p. 66.
236
Cf. LG 5.
237
Cf. LG 48.
238
Cf. GS 1.
239
Cf. LG 8.
240
Cf. LG 53.
241
Cf. LG 64.
242
Cf. LG 58.
82

cântico de louvor ao Senhor pelas maravilhas que ele “já” realizou nela (cf Lc 1,46ss). Na

comunhão dos santos, em Cristo, Maria “cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam

rodeados de perigos e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz Pátria” 243.

A Igreja, nascida da Trindade, manifesta-A ao mundo e já vive, de forma antecipada,

o que na glória viverá em plenitude. A Igreja tem consciência de que não peregrina sozinha

nesse mundo, mas está associada à Igreja Triunfante,

particularmente notável na sagrada liturgia, em que o Espírito Santo age sobre nós

através dos sinais sacramentais; em que concelebramos com a Igreja do céu,

glorificamos juntos a majestade divina e em que todos os remidos pelo sangue de

Cristo, de todas as tribos, línguas e povos (cf. Ap 5,9), congregados numa única

Igreja, cantam louvor a Deus Uno e Trino. Essa união com o culto da Igreja

celestial atinge seu ponto máximo na celebração do sacrifício eucarístico em que

comungamos com ela e veneramos a memória, em primeiro lugar, de Maria,

sempre virgem, de São José, dos santos apóstolos, dos mártires e de todos os

santos244.

2.2.4. COMUNHÃO E MISSÃO: UM PERFIL ECLESIOLÓGICO

Após a exposição das partes constituintes do Povo de Deus, ou seja, da Igreja,

podemos nos interrogar: que perfil eclesiológico se pode auferir dessa estrutura visível,

formada pela hierarquia e leigos e, conseqüentemente, pela vida religiosa pertencentes a

ambas? No que concerne a sua índole mistérica, sacramental e Trinitária, podemos perfilar um

perfil eclesiológico fundado na Comunhão e na Missão. Esses dois princípios não serão

243
Cf. LG 62.
244
Cf. LG 50.
83

abordados como distintos, mas como complementares, constituindo, assim, uma só realidade,

um único perfil, ou seja, uma eclesiologia de comunhão e missão. Contudo, por questão

metodológica, serão apresentados separadamente.

O primeiro é o princípio de comunhão245, no qual se torna visível ao mundo a

presença da Igreja como “sacramento de salvação”. Esse princípio revela-se como chave para

a compreensão da Igreja em relação a Cristo, “mostrando-se, igualmente, como o processo

essencial de existência da Igreja e da existência na Igreja, enquanto sua missão de ser luz e

alma do mundo se constitui em um verdadeiro programa permanente para os cristãos” 246.

Em Carta aos Bispos, a Congregação para a Doutrina da fé explicita que:

O conceito de comunhão está ‘no coração da autoconsciência da Igreja’, enquanto

Mistério da união pessoal de cada homem com a Trindade divina e com os outros

homens, iniciada na fé, e orientada para a plenitude escatológica na Igreja celeste,

embora sendo já desde o início uma realidade na Igreja sobre a terra. Para que o

conceito de comunhão, que não é unívoco, possa servir como chave interpretativa

da eclesiologia, deve ser entendido no contexto dos ensinamentos bíblicos e da

tradição patrística, nos quais a comunhão implica sempre uma dupla dimensão:

vertical (comunhão com Deus) e horizontal (comunhão entre os homens). É

essencial à visão cristã da comunhão reconhecê-la, antes do mais, como dom de

Deus, como fruto da iniciativa divina cumprida no mistério pascal. A nova relação

entre o homem e Deus, estabelecida em Cristo e comunicada nos sacramentos,

expande-se ainda a uma nova relação dos homens entre si. Conseqüentemente, o

245
Cf. MIRANDA, A. U. de. A Eclesiologia de comunhão em J.-R. Tilliard. Tese (doutorado). Belo Horizonte,
Faculdade de Teologia do CES-ISI, 2002. Também RIGAL, J. L’ecclésiologie de communion: son évolution
historique et sés fondemensts. Paris, Cerf, 1997.392. MONDIN, B. As Novas Eclesiologias. Op. cit. p. 68-94.
CONGAR, Y. Esquisses du mystère de l´Église communion. Paris: Du Cerf, 1941. MInistères et communion
ecclésiale, Paris: Du Cerf, 1971. Diversités et communion, Paris: Du Cerf, 1984. TILLARD, J-M. R., Église
d´Églises. L´ecclésiologie de communion. Paris: Du Cerf, 1987. Chair de l´Église, chair du Christ. Aux sources
de l´ecclésiologie de communion. Paris: Du Cerf,1992. L´Église locale. Ecclésiologie de communion et
catholicité. Paris: Du Cerf, 1995.
246
HACKMANN, G. L.B. A Igreja, mistério de comunhão e as exigências da evangelização do mundo. In:
Teocomunicação, Porto Alegre, v. 35, n. 147, p. 16, [março] 2005.
84

conceito de comunhão deve ser também capaz de exprimir a natureza sacramental

da Igreja enquanto estamos ‘longe do Senhor’, assim como a peculiar unidade que

faz dos fiéis os membros de um mesmo Corpo, o Corpo místico de Cristo, uma

comunidade organicamente estruturada, ‘um povo congregado na unidade do Pai,

do Filho e do Espírito Santo’ e dotado ainda com os meios adequados à união

visível e social 247.

Neste ínterim, o princípio de comunhão, não é delineado, de forma explícita pelo


248
Concílio, como demonstra o seu conteúdo . Contudo, ele pode ser abstraído na fórmula

eclesiológica da Lumen gentium, 23a: “E os Bispos, individualmente, são o princípio visível e

o fundamento da unidade em suas Igrejas Particulares, formadas à imagem da Igreja

Universal una e única”. Salvador Pie-Ninot percebe, nessa afirmação conciliar, a conjugação

entre a Eclesiologia de comunhão do primeiro milênio e a Eclesiologia jurídica da unidade do

segundo milênio e bem explicitada na expressão communio hierarchia 249, “com a qual se liga

o ministério episcopal à Igreja Universal, concretamente com o Papa e o Colégio

episcopal”250.

Concretamente, a eclesiologia de comunhão só foi priorizada como a mais

característica e fundamental do Concílio Vaticano II, somente a partir do ano 1985, por

ocasião do Sínodo Extraordinário dos Bispos.

A Eclesiologia de comunhão é a idéia central e fundamental dos documentos do

Concílio. koinonía-comunhão, fundada na Sagrada Escritura, é tida em grande

247
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns
aspectos da Igreja entendida como comunhão. 1992. São Paulo: Paulinas, 1992. n. 3.
248
Cf. os textos da LG 4; 8; 13; 15; 18; 21; 24; também da DV 10; GS 32; UR 2-4; 14s, 17-19; 22.
249
Cf. PIÉ-NINOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. Op. cit. p.31.
250
LG 22.
85

honra na Igreja antiga e nas Igrejas orientais até nossos dias. Por isso, muito se tem

feito desde o Concílio Vaticano II para que a Igreja como comunhão seja entendida

de maneira mais clara e traduzida de modo mais concreto na vida 251.

A eclesiologia de comunhão não pode, conforme o Sínodo dos Bispos, “se reduzir a

meras questões de organização ou a questões que se referem a meros poderes”. Ela é, antes de

tudo, “o fundamento da ordem na Igreja e, em primeiro lugar, da reta relação entre a unidade
252
e pluriformidade na Igreja” . Esta pluriformidade não pode ser confundida com o

pluralismo, visto que este, “de posições fundamentalmente opostas, leva à dissolução, à

destruição e à perda de identidade”. A Pluriformidade deve ser entendida como aquela

“verdadeira riqueza -que- traz consigo a plenitude, ela é a verdadeira catolicidade” 253.

Para a Igreja, entendida como comunhão, nutre-se um saudável e legítimo

relacionamento de todo o Povo de Deus que, embora distinto pela diversidade de carismas e

ministérios e também pela própria vocação, está ontologicamente unido pela mesma

dignidade batismal e pelo mesmo Deus. Assim, todos caminham para o mesmo fim

expressando de forma visível no mundo, aquela comunhão própria da Trindade, haja vista

que, todos nós nascemos Dela e viemos para Ela.

Da eclesiologia de Comunhão nasce, como conseqüência, a Missão como


254
desmembramento da mesma e única missão do Filho e do Espírito Santo . A Igreja é

missão, na medida em que se revela como comunhão e é comunhão, na medida em que realiza

a sua missão. Dessa mesma forma, todo o Povo de Deus é incumbido de realizar, cada qual a

251
ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -1985. 2º ed., São Paulo:
Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra c, n. 1. p. 43-44.
252
ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -1985. 2º ed., São Paulo:
Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra c, n. 2. p. 44.
253
ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -1985. 2º ed., São Paulo:
Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra c, n. 2. p. 45.
254
AG 5.
86

seu modo e segundo o seu ministério e carisma, a missão da Igreja, confiada por Jesus

Cristo 255.

A relação entre Igreja e Missão é ontológica, visto que, conforme o decreto Ad

gentes “a Igreja peregrina é por sua natureza missionária” 256. A eclesiologia de comunhão é o

escopo teológico para a definição da missão da Igreja, tanto que a famosa expressão

“communio ecclesiarum” é utilizado pela primeira e única vez pelo Vaticano II no Decreto
257
Ad gentes . Essa comunhão de Igrejas é, no seu Capítulo III, sublinhado que a missão de

uma Igreja local não termina quando esta está finalmente “implantada”, pois “deve a Igreja

particular representar, do modo mais perfeito possível, a Igreja universal. Em vista disso,

considere seriamente que também foi enviada”. Antes, aí se afirma que “convém que essas

Igrejas novas, mesmo que sofram escassez de clero, o mais cedo possível cooperem com a

missão universal da Igreja, enviando elas mesmas missionários que anunciem o Evangelho

por toda a Terra” 258.

Da eclesiologia de comunhão abrem-se novas perspectivas no que se refere à missão

e no que tange às igrejas particulares, pois elas “se revelam capazes de favorecer esse

sentimento de comunhão com a Igreja universal”, uma vez que deve “permanecer íntima a
259
comunhão das novéis Igrejas com a Igreja toda” . Dessa forma, o princípio “commnio

ecclesiarum” põe todas as Igrejas, mesmo as mais jovens, num mesmo plano, levando em

conta a comunhão com o centro de unidade que é a Igreja de Roma 260.

Destarte, o fim da missão da Igreja é apresentado de forma relacional com a

dimensão cristocêntrica, eclesiológica e escatológica, num dos textos mais profundos do

255
Cf. ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -1985. 2º ed., São Paulo:
Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra c, n. 1-8 e letra d, n.1-7. p. 43-56. Também, CALIMAN, CL.
Igreja, povo de Deus, sujeito da comunhão e da missão. Tese (doutorado). Belo Horizonte, Faculdade de
Teologia do CES-ISI, 2001.
256
AG 2.
257
AG 38.
258
AG 20.
259
AG 19.
260
AG 22.
87

Concílio que diz: “A atividade missionária é nada mais nada menos que a manifestação ou

epifania do plano divino e seu cumprimento no mundo e em sua história. É nela que Deus
261
realiza publicamente a história da salvação, pela missão” . A partir desta afirmação, fica

perceptível a funcionalidade da Igreja como Sacramento de Salvação e também de sua


262
inserção histórica no mundo a fim de que todos possam chegar ao conhecimento do

Evangelho. Assim, a sua “atividade missionária hoje como sempre conserva íntegra sua força

e necessidade” 263.

A partir desses dois princípios eclesiológicos, poderemos constatar a melhor

funcionalidade ministerial do Povo de Deus e de forma real, tornar a Igreja nascida da

Trindade em Igreja que resplandece a comunhão e a missão da Trindade no mundo, como

continuidade da ação Trinitária na economia da salvação. Neste sentido, a eclesiologia

dogmática presente na Lumen gentium faz necessário “coabitar-se” com os fundamentos

práticos, pastorais presentes na Gaudium et spes 264, a fim de que a Igreja realize a sua missão

de ser germinadora do Reino de Deus, em meio às diversidades do mundo.

Nesse aspecto, a Igreja no Brasil procurou aplicar de forma metodológica, as

exigências do Concílio por meio da elaboração, durante a última sessão do Concílio, das

chamadas “seis dimensões” ou “seis linhas” que “constitui o quadro de referência geral da

261
AG 9.
262
Conforme o n. 9 da LG, a Igreja “entra na história dos homens e simultaneamente transcende os tempos e os
limites dos povos”. Revela-se aqui a tensão entre Igreja imanente e transcendente. Assim como Cristo “entrou
na história humana” (AD 3a) a igreja também deve “encarnar-se”, “Inserir-se na humanidade” (GS 11c) a fim de
ajudar os homens no esforço de tornar mais humana a família dos homens e sua história, uma vez que comunga
da mesma sorte (GS 40c). Contudo, ela deve ultrapassar os tempos e os limites dos povos (LG 9c), pois, por seu
caráter Transcendente, “não esta ligada de maneira exclusiva e Indissolúvel a nenhuma raça ou nação, a
nenhuma forma particular de costumes e a nenhum habito antigo ou recente. Fiel à própria Tradição e
simultaneamente consciente de sua missão universal, ela pode entrar em comunhão com as diversas formas de
cultura” (GS 58c).
263
AG 7.
264
ALMEIDA, A. J. Lumen gentium: a transição necessária. Op. cit. p.161-177. O teólogo Medard Kehl
descreve que a “imagem formulada neste Concílio (sobretudo nas grandes constituições Lumen gentium e
Gaudium et spes) une de maneira autentica os conteúdos essenciais das afirmações bíblicas sobre a Igreja com o
amplo leque de tradição interpretativa eclesial, de modo particular da patrística”. Cf. A Igreja: uma eclesiologia
católica. Loyola: op. cit. p. 45. ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS -
1985. 2º ed., São Paulo: Paulinas. 1986. Relatio Finalis, ponto II, letra d, n. 1-7. p. 50-56.
88

265
Ação Pastoral da Igreja no Brasil em todos os níveis” . Estas “seis Dimensões” ou “seis

Linhas” 266.

constituem, desta forma, um Esquema interpretativo dos vários aspectos da missão,

sem esgotar o mistério da Igreja. Exprimem, de maneira funcional e prática, tanto a

inserção da Igreja na diversidade de situações, quanto a unidade da missão na

variedade das vocações e tarefas 267.

265
CNBB. DGAP 1987-1990. (Documentos da CNBB n. 38). São Paulo: Paulinas, 1987. n. 146. CNBB. DGAP
1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 68.
266
“As seis linhas ou dimensões têm seu amplo quadro teológico de referencia no Concílio e na sua acolhida na
Igreja do Brasil. Segundo o mesmo Concílio, a Igreja deve viver o mistério de Deus a nós revelado como
‘comunhão’, ao mesmo tempo una e pluriforme, na diversidade de vocações e ministérios (Lumen gentium -
linha 1). Deve alimentar-se da Palavra de Deus Dei Verbum - linha 3) e da Sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium – linha 4). Assim vivendo e se alimentado, ela acolhe a missão (Ad Gentes – linha 2), busca uma
comunhão cada vez mais ampla com os demais cristãos e com outras religiões (Unitatis Redintegratio – diálogo
ecumênico; Nostra Aetate – diálogo religioso: linha 5) e se coloca a serviço do mundo (Gaudium et Spes - linha
6)”. Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 71. CNBB.
DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 37-8.
267
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 66.
89

CONCLUSÃO

Após essas páginas, pode-se perceber que o Concílio Ecumênico Vaticano II foi um

Concílio eclesiológico, do qual se pode extrair toda a riqueza de variedade para o agir

pastoral, subseqüente ao seu término. O Concílio não definiu a Igreja, mas descreveu-a sob

imagens bíblicas, ressaltando todo o seu esplendor, a fim de dinamizá-la e não estatizá-la

numa roupagem fria e caduca.

O perfil eclesiológico de comunhão e missão, que de seus documentos podemos

auferir, principalmente da constituição Lumen gentium, foi, em toda a parte do mundo,

aplicado a fim de se conformar com a nova proposta eclesial.

Na América Latina, toda a riqueza, seja eclesiológica ou missiológica do Concílio,

foi, por meio das Conferências Episcopais, refletida, estudada e amadurecida ao longo dos

anos e codificada em planos, seja em âmbito latino americano, a partir de Medellín, seja em

âmbito nacional, a partir do Plano de Pastoral de Conjunto e das Diretrizes Gerais da Ação

Pastoral e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora.

No próximo Capítulo, nossa tarefa se circunscreve a descrever de forma concatenada

a caminhada eclesial da Igreja que está no Brasil, perfazendo o seu itinerário histórico de

aplicação das exigências do Concílio até a formulação de suas Diretrizes Gerais da Ação

Evangelizadora (1999-2002), tendo como substrato histórico, as Conferências do Episcopado

Latino-Americano – CELAM.
90

CAPÍTULO II

A IGREJA DO BRASIL E SUA CONSTRUÇÃO PASTORAL A PARTIR DO


CONCÍLIO VATICANO II: UMA ANÁLISE HISTÓRICA
91

INTRODUÇÃO

A vida e o planejamento pastoral da Igreja no Brasil estão marcados por tempos

evolutivos, de acordo com a realidade histórica vigente em cada período. Sendo assim, nosso

trabalho abordará, de forma metodológica, essa evolução abarcada em quatro grandes blocos.

A análise que desses blocos se desprenderá será descritiva, uma vez que, no terceiro Capítulo

de nossa dissertação, procurar-se-á analisar esta evolução elucidando o seu caráter

eclesiológico, próprio de cada período.

Ademais, por razões ainda metodológicas, não nos prenderemos, nessa pesquisa, a

uma análise pormenorizada dos acontecimentos sociais próprios de cada período. Contudo,

quando da parte central de nosso trabalho, ou seja, os anos entre 1991 a 2002, este corte

cessará e procurar-se-á aprofundá-los a partir das Atas das Assembléias Gerais para melhor

compreensão das mudanças em nossas Diretrizes (doc. 45 para o 54), que não são meramente

de nomenclatura, mas, antes de tudo, de perfil eclesiológico.

Os blocos aqui apresentados o são conforme disposição própria. O primeiro bloco

visa discorrer sobre os primórdios do planejamento pastoral da Igreja no Brasil, fatos e

movimentos que antecederam e prepararam o advento do PE. O segundo concentrou-se mais

na apreciação do que aqui é denominado como formação da Identidade eclesial. Fala-se do PE

e conseqüentemente do PPC como aplicação clara e precisa do Concílio Vaticano II. A

divisão por década daqui por diante, tem como objetivo visibilizar a caminhada do

Planejamento Pastoral segundo a luz das grandes Conferências episcopais, Medellín, na


92

década de 60 e de Puebla, na década de 70. A Igreja do Brasil é profundamente marcada pela

sua atuação social.

Os dois últimos blocos dissertam acerca da crise desta identidade devido ao Projeto

hegemônico que, a partir do pontificado de João Paulo II, começou a ser instaurado pelo

mundo todo. Tem-se, nesse período, a grande crise da Igreja do Brasil, principalmente no que

tange às CEBs e, de modo particular, à Teologia da Libertação. No quarto bloco, após ter-se

discorrido sobre a evolução das Diretrizes, chega-se ao centro polarizador desse conflito: a

mudança de orientação de suas Diretrizes, passando de “Ação Pastoral” para “Ação

Evangelizadora”. Nesse período, animada pelo impulso de preparar o novo milênio, a Igreja

se lança novamente à confecção de Projetos também Hegemônicos para todo o seu território

eclesial, como o Projeto Rumo ao Novo Milênio – PRNM (1996-2000) e o Projeto Ser Igreja

no Novo Milênio – SINM (2000-2002).


93

1. OS PRIMÓRDIOS DO PLANEJAMENTO PASTORAL NO BRASIL: OS

ANTECEDENTES DO PLANO DE EMERGÊNCIA -1899 - 1962

O germe da vida pastoral da Igreja no Brasil deve-se à elaboração do Plano de

Emergência (PE) que, de per si, constituiu-se um marco “por sua função pioneira e

importância histórica na eclosão da fase criativamente mais rica de nossas Igrejas particulares;

por ter sido ele o impulsionador da reforma da CNBB e a raiz dos planos pastorais sucessivos,

teológica e tecnicamente mais bem elaborados” 268. De certo, ele não nasceu de repente, pelo

acaso, mas é fruto de uma longa, rica e complexa experiência, muito embora marcada pela

improvisação e pela desarticulação no que tange a sua universalidade territorial 269.

Até 1962, data do PE, a vida e a organização pastoral da Igreja no Brasil,

propriamente iniciada com o fim do Padroado270, podem ser demarcadas por meio de vários e

importantes eventos os quais, historicamente, colaboraram para a criação de um plano de

pastoral mais articulado.

Contudo, antes de nos atermos a eles, é importante ressaltar, em sintonia com

Queiroga, que nossa análise não visa ser um “processo condenatório de pessoas e instituições,

pois os aspectos que sublinharemos têm sua razão histórica de ser e seria anacronismo

268
QUEIROGA, Gervásio Fernandes de. CNBB: comunhão e corresponsabilidade. São Paulo: Paulinas, 1977. p.
323.
269
Cf. Ib. p. 324.
270
O Texto-projeto do decreto n. 119A é de autoria de Rui Barbosa, conforme ele mesmo declarou, tendo sido
rejeitado o do Ministro Demétrio Ribeiro. Cf. BARBOSA, M., A Igreja no Brasil, Notas para a sua história, Rio
de Janeiro: A Noite, 1945, p. 290s.
94

271
impiedoso julgar atitudes e fatos passados apenas com o gabarito do presente” , e também

porque esses acontecimentos não são exclusivos do Brasil e

nem poderiam ser atribuídos univocamente a todos e em todas as partes, uma vez

que nosso país não é no plano temporal nem no espiritual um todo homogêneo. Por

isso seria ilegítimo imaginar que todos, no passado, pensavam ou agiam

pastoralmente de modo exclusivo, conforme as tendências que podemos hoje

discernir 272.

Com estas ressalvas, queremos eliminar de nossa pesquisa toda e qualquer forma de

subjetivismo e realçar concomitantemente o seu caráter objetivo, fruto, conseqüentemente, de

nosso alicerce bibliográfico.

Esses acontecimentos podem ser divididos em dois blocos: O primeiro, denominado

período de transição entre o relacionamento da Igreja com o Estado que intercorre desde 1899

a 1945. Muitas foram as iniciativas desse período, porém, apresentaremos apenas algumas por

razão de serem estas, segundo o nosso juízo, as mais contundentes para a elaboração e

amadurecimento de um plano de pastoral mais articulado e eficiente para a realidade eclesial

brasileira. De imediato, têm-se as Pastorais Coletivas, a realização do primeiro Concílio

Nacional Brasileiro em 1939, a Associação de Educação Católica em 1945, além de muitos

271
QUEIROGA, Gervásio Fernandes de. CNBB: comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 325.
272
Ib. p. 325.
95

outros 273.

Um segundo bloco, que intercorre de 1946 a 1962, e nos dizeres do Pe. Gervásio

Fernandes Queiroga, “é marcado por uma tendência cada vez mais vasta de encontros de

pessoas que trabalham num mesmo setor. É uma época de numerosos encontros, reuniões ou
274
congressos, em nível nacional ou regional” . Em conseqüência desse contexto, afirma

Queiroga, fruto “desses encontros foi às vezes a união das forças apostólicas, formando

associações” 275.

Destaca-se, nesse período, a implantação da Ação Católica Brasileira, oficialmente

fundada em solo brasileiro, em 1932, e, especializada, a partir de 1950, o nascimento da

CNBB em 1952 e da CRB em 1954, o Movimento de Natal e o movimento de Educação de

273
Cf. Para uma compreensão mais aprofundada desse período apresentamos dois artigos: BEOZZO, J. O. Igreja
no Brasil: Planejamento Pastoral em Questão. In: REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p. 465-472, [setembro] 1982.
Também PIVA, E. D. Transição Republicana: Desafios e chance para a Igreja I. In: REB, Petrópolis, v. 49, n.
195, p. 620-639, [setembro] 1989. Ib. Transição Republicana: Desafios e chance para a Igreja II. In: REB,
Petrópolis, v. 50, n. 198, p. 415-532, [junho] 1990. BARROS, R.C. Gênese e consolidação da CNBB no
contexto de uma Igreja em plena renovação. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença
Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 13-25. Para uma compreensão do
conteúdo da Pastoral Coletiva e sua eclesiologia de fundo, cf. Pastoral coletiva do Episcopado Paulista, In: REB,
Petrópolis, v. 1, p. 299-306, [março-junho] 1941. Da mesma forma, no que tange o Concílio Plenário Brasileiro,
cf. SANTINI, C. O Concílio Plenário Brasileiro, In: REB, Petrópolis, v. 1, n. 1, p. 15-33, [março-junho] 1941.
NABUCO, J. O Direito Litúrgico no Concílio Plenário Brasileiro, In: REB, Petrópolis, v. 1, N. 1, p. 113-122,
[março-junho] 1941. KELLER, T. Proíbe o Concílio Plenário Brasileiro a missa dialogada? In: REB, Petrópolis,
v. 3, n. 1, p. 545-551, [setembro] 1941.
274
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 330. O autor elenca na nota de
rodapé n. 8 os seguintes encontros e congressos havidos entre 1946 e 1962.
• Semanas teológicas nacionais: realizadas oito, entre 1950 e 1961: cf. REB 10 (1950) 1-296; REB 11
(1951) 1-223; REB 13 (1953) 237-238; REB 14 (1954) 120-122; REB 15 (1955) 220-221; REB 17
(1957) 220-221; REB 20 (1960) 674-675; REB 21 (1961) 207-210.
• Realizaram-se quatro semanas bíblicas nacionais: cf. REB 7 (1947) 212-214; REB 19 (1959) 723-724.
• Dois congressos nacionais de vocações sacerdotais: em Salvador, em 1949: cf. REB 9 (1949) 933-937;
em São Paulo, em 1956: cf. REB 17 (1957) 107.
• Muitas reuniões ou cursos para superiores de seminários: cf. REB 8 (1948) 206-209; REB 14 (1954)
791-793; REB 17 (1957) 972-979; REB 18 (1958) 447-453; REB 21 (1961) 210-215; REB 22 (1962)
236-239.
• Encontros nacionais sobre catequese: cf. REB 10 (1950) 749-752; RCRB 5 (1959) 315-317; REB 19
(1959) 202.
• Encontro de Diários e Seminários Católicos: cf. REB 21 (1961) 497-498; RCRB 7 (1961) 318.
• Encontro de editores católicos: cf. REB 21 (1961) 499. RCRB 7 (1961) 317-318.
275
Ibid. Também em sua nota de rodapé n. 9, o autor apresenta uma série de fundações deste período, v.g.:
• Liga de Estudos Bíblicos: cf. REB 7 (1947) 212-214.
• Sociedade Brasileira de Arte Sacra: cf. REB 7 (1947) 214-215.
• Associação Brasileira de Escolas Superiores Católicas: cf. REB 19 (1959) 643-647.
• Centro Catequético Nacional: cf. REB 19 (1959) 202.
• União Nacional Católica de Imprensa: cf. REB 21 (1961) 497-498.
• Associação para Editores Católicos: cf. REB 21 (1961) 499.
96

Base ou as chamadas escolas radiofônicas em 1958. Por fim, o Movimento por um Mundo

Melhor, cuja gênese em Roma deu-se no ano de 1954 e, no Brasil, quatro anos mais tarde, em

1960.

Dissertaremos acerca desses quatro movimentos e dessas duas Conferências, por

serem marcos na evolução da caminhada pastoral da Igreja no Brasil e, ao mesmo tempo,

antecipadores de muitas afirmações conciliares. Nossa preferência por esses e não por outros,

são meramente por razões metodológicas e, com isso, não queremos afirmar a sua

infertilidade; porém, estes, como nos dizeres de Queiroga, “nos parecem decisivos nesta

evolução, antes do PE” 276.

1.1. AÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA

A Ação Católica tem sua origem na Itália, durante o pontificado do Papa Pio XI, que

se iniciou em 1922 e encerrou-se em 1939. Pio XI, com grande sabedoria e apostolicidade,

estimulou a inserção dos católicos leigos nas realidades e ações sociais ligadas aos princípios

Religiosos 277.

No Brasil, a “Ação Católica” conheceu vários momentos. De 1932 a 1935, a ACB

tem-se sua inserção na realidade eclesial brasileira. É um período de organização, que tem em

D. Sebastião Leme, no episcopado, e Amoroso Lima, no laicato, os seus representantes

capitais. Entre os anos de 1935 a 1945, a ACB se estruturou segundo o modelo italiano, que

se apresentava com quatro ramificações, a saber: “homens da Ação Católica, com idade de

276
Ib. p. 330.
277
“’A 13 de novembro de 1927 recebia Pio XI o barnabita Felizari, Pároco de S. Carlos em Roma, com as
delegações das associações que encerravam o primeiro congresso paroquial. Com vivo interesse acompanhou o
Papa os trabalhos do Congresso. ‘O que mais me satisfaz – disse o Papa – é ver a animação que reina na obra
chamada Ação Católica. Por meio dela, nós, aqui em Roma, reproduzimos a obra de São Pedro, pois eu vos
afirmo que, se eles não encontrassem na capital do Império Romano mulheres generosas e cidadãos zelosos, para
levar às famílias a sua palavra, inútil se tornava a sua pregação’”. LECOURIEUX, P. M. Algumas reflexões
sobre a Ação Católica de S. Antonio Maria Zacaria. In: REB, Petrópolis, v. 3, n. 2, p. 344, [junho] 1943.
97

mais de 30 anos e casados, o seu correspondente feminino na Liga Feminina da Ação Católica

e dois ramos juvenis na idade entre 14 e 30 anos, masculino e feminino respectivamente” 278.

Posteriormente, entre os anos de 1946 a 1950, a ACB conheceu o seu momento mais

crítico, de grave crise e de transição, devido à incompatibilidade de sua atuação frente às

exigências vigentes de nossa realidade, assim como também “à consciência dos leigos,

sacerdotes e bispos mais lúcidos” 279.

A partir do ano de 1950 até 1960, a ACB reorganizou-se de acordo com o modelo

belga, francês e canadense, tornando-se então a Ação Católica especializada, cuja finalidade

básica permanece inalterada desde o princípio, isto é, de evangelizar o próprio meio. Com

essa intenção, desenvolveu-se, por meio de seus setores, principalmente de jovens, do mundo

rural (JAC), estudantil (JEC), independente, isto é, de classes médias (JIC), operário (JOC) e

universitário (JUC), uma verdadeira inserção social. Essa Ação Católica, na década de 1950 e

início da de 1960, foi responsável por um forte dinamismo da Igreja e por sua presença na

sociedade mais ampla. Conforme o Pe. Libanio, os jovens da JEC e da JUC adquiriram e

desenvolveram

uma consciência aguda e lúcida de sua missão e fidelidade aos meios sociais a que

pertencem. Conjugam em profundidade o estudo da realidade social com o papel do

leigo na Igreja com todas as suas implicações teológicas mais amplas. E dessa

dupla reflexão, segundo o famoso método ver-julgar-agir, estabelecem o programa

de ação. Superam assim a dilacerante dicotomia formação e ação 280.

278
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 114.
279
Ib. p. 115.
280
Ib. p. 115.
98

Ademais, da postura da ACB em torno de seu método estruturado na trilogia ver-

julgar-agir281, é possível inferir que toda a pastoral brasileira tenha sido influenciada

fortemente, principalmente no que tange à sua dimensão sócio-histórica e também a sua

dimensão teologal. Ainda, outro legado da ACB à futura pastoral brasileira diz respeito ao seu

estilo de reuniões, que se tornou “um pouco o patrimônio comum de todos os grupos e níveis

da Igreja no Brasil” 282. O Pe. Gervásio, em tom sugestivo, interroga até

se a técnica de programação anual sistemática das atividades dos ramos ou

movimentos especializados da ACB em todos os níveis (nacional, regional,

provincial, diocesano, local), em torno de objetivos predefinidos, não teria também

contribuído para criar uma mentalidade de planejamento pastoral, facilitando a

acolhida das experiências de planificação, depois adotadas oficialmente pelo

episcopado 283.

Os rumos que a ACB tomou no final dos anos 50 foram de grandes conflitos com a

hierarquia, principalmente por causa de sua inserção político-social em meio à realidade

vigente. A base dessa discordância tem seu fundamento na ação da Juventude Universitária

Católica (JUC) que, entre 1959 e 1965, se propôs em lançar a idéia de procurar um "ideal
284
histórico" para o Brasil (1960) . Conseqüentemente, tomou parte intensamente da política

universitária, fornecendo quadros dinâmicos para a educação popular. Logicamente, foi

281
Acerca deste método, cf. PISO, A. Ver, Julgar, Agir: Ensaio de metodologia pastoral. São Paulo: Ave Maria,
1990. 96 p. Cf. também, MORLION, F. Metodologia da ação Católica. In: REB, Petrópolis, v. 1, n. 3, p. 631-
655, [setembro] 1941.
282
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 331.
283
Ib. p. 331.
284
Cf. WANDERLEY, L.E.W. Desafios da igreja Católica e política no Brasil, In: INSTITUTO NACIONAL
DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit.
p. 462.
99

atacada por setores tradicionais da Igreja285, mas, foi defendida por Dom Hélder Câmara em

1960, em documento que enviou aos bispos: "A JUC [...] está vivendo uma hora plena e
286
merece o apoio e o estímulo do exmo. episcopado” . A partir desse momento, a JUC, já

como um movimento não ligado à Igreja, surgiu, em 1962, com a presença de cristãos e não-
287
cristãos, como grupo denominado Ação Popular , grupo político de orientação socialista

democrática, influenciado pelo personalismo comunitário de Emmanuel Mounier 288.

Contudo, a ACB, embora tivesse contribuído efetivamente para a elaboração de um

planejamento pastoral da Igreja no Brasil, quando da sua inauguração pelo PE e,

conseqüentemente, pelo advento do Concílio Vaticano II, quase que desapareceu. Isso se deve

a questões internas de disputas e também porque nessa nova época da Igreja

não são mais os movimentos organizados e associações que formam a primeira

zona do interesse pastoral, mas, o próprio povo, as comunidades, os quadros

institucionais renovados ou inovados; o apostolado oficial e organizado do laicato

deu lugar à multiplicidade impressionante de leigos engajados nas comunidades

eclesiais e órgãos pastorais dos vários níveis; o apostolado de elite deu lugar à

pastoral popular, em que é principalmente sujeito dela. Não se pode contudo negar

que, na raiz desta maravilhosa árvore, qual grão de trigo tombado, está também a

ACB 289.

285
Cf. LUSTOSA, O. F. A Presença da Igreja no Brasil: história e problemas 1500-1968. São Paulo: Giro,
1977. p. 82.
286
Para esse movimento, ver L. A. Gómez de Souza. A JUC: os estudantes católicos e a política, Petrópolis:
Vozes, 1985.
287
Cf. GALLEJONES, E. A.P. Socialismo Brasileiro. Rio de Janeiro: Centro de Informação Universitária, 1965.
ALVES, M. M. Léglise et la politique du Brésil, Paris: Cerf, 1974, p. 125s.
288
LIMA, L. G. de S. Evolução política dos católicos e da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1979;
SEMERARO, G. A primavera dos anos sessenta: A geração de Betinho. São Paulo: Loyola, 1994. Depois, a
Ação Popular, na clandestinidade, perderia essas raízes e se tornaria um movimento marxista a mais, sem
originalidade.
289
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 332.
100

1.2. O MOVIMENTO POR UM MUNDO MELHOR

Esse movimento tem sua gênese na pessoa e no Pontificado de Pio XII. Para a sua
290
aplicabilidade, Pio XII confiou-o ao Pe. Ricardo Lombardi . Esse movimento é

fundamental para entendermos a pastoral de conjunto no Brasil, visto que, ele foi uma das

forças prioritárias que colaborou para o acolhimento e planificação das iniciativas que o PE

trazia em seu bojo.

Quase todas as dioceses o acolheram devido ao seu profundo vigor renovador que,

segundo o secretário da CRB da época,

se no Brasil aqueles que estão mais engajados na renovação da pastoral e do

apostolado, em geral se destacam mais pelo sentido da corresponsabilidade pela

Igreja no Brasil e estão mais compenetrados de um autentico espírito eclesial, isto

se deve em primeiro lugar ao trabalho sistemático do “Movimento do Mundo

Melhor” 291.

Ainda afirma que

depois de tantos contatos com pessoas de todos os países das Américas e da

Europa, que a influência do “Mundo Melhor” no Brasil não tem, neste particular,

rival em parte alguma do mundo. A renovação da Pastoral no Brasil está

290
Cf. DIDONET, F. Movimento por um Mundo Melhor no Brasil. In: REB, Petrópolis, v. 21, n. 2, p. 400-403,
[junho] 1961.
291
CLOIN, T. As grandes linhas da renovação pastoral no Brasil. In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 23, 1965.
101

inseparavelmente ligada à renovação do espírito eclesial, esta por sua vez ao

“Movimento do Mundo Melhor” 292.

No Brasil, o MMM teve sua gênese com a vinda do Pe. Ricardo Lombardi, em 1960,

para pregar o retiro para todo o episcopado na cidade de Curitiba, por ocasião do VII

Congresso Eucarístico Nacional. Daí em diante, criou-se o secretariado do MMM, com sede

em São Paulo tendo à frente do movimento o Pe. José Marins. O MMM encontrou no Brasil o

seu grande terreno fértil 293 e pôde ser acolhido por quase todo o território nacional, por meio

dos seus cursos, tendo, como foco, os sacerdotes, religiosos e leigos. Ao final de dois anos de

secretariado, já tinham sido ministrados 186 cursos em 50 Dioceses de 15 Estados do

Brasil 294.

O maior fruto do MMM para a pastoral, conforme o Pe. Gervásio, consiste

essencialmente em conferir à mesma

uma visão teológica dinâmica, centralizada numa eclesiologia com base no Corpo

Místico. Ajudou a criar uma espiritualidade aberta, que faz da caridade fraterna o

cerne da vivência cristã e vê na unidade comunitária dos filhos de Deus a meta

suprema. Transmitiu um sopro novo de entusiasmo apostólico, mostrando

simultaneamente o enorme volume de mal e as imensas possibilidades de bem que

nossa época comporta. Deu um forte sentido histórico-social à ação pastoral.

Estabeleceu uma crítica ao mesmo tempo sincera e respeitosa das estruturas

pastorais envelhecidas. Inspirou ou ajudou a montagem de experiências de

292
Ib. p. 23. O MMM teve apoio efetivo da CRB, como demonstra em sua história: In: RCRB, Rio de Janeiro, v.
8, p. 125-126. 1962. RCRB, Rio de Janeiro, v. 9, p. 247,440-444,510-511, 513-517, 1963. RCRB, Rio de Janeiro,
v. 10, p. 27, 317-318, 1964. RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 23, 1965.
293
Segundo o Pe. Gervásio, “nos cursos de preparação de pessoal encarregado de difundir o MMM, o Brasil
esteve em destaque, ocupando às vezes o primeiro lugar, no centro Internacional do movimento”. Cf.
LOMBARDI, R. Pio XII per um Mondo Migliore. Roma, 1954. p. 80-82.
294
Cf. REB, Petrópolis, v. 22, p. 672-675, 1962.
102

renovação de paróquias, Colégios e dioceses, na base da equipe de trabalho,

planejamento das atividades, entrosamento fraterno dos diversos membros da

Igreja, valorização das religiosas e do laicato, colaboração entre clero religioso e

diocesano 295.

Ademais, o PE sofrerá grande influencia do MMM, no que tange à renovação da

paróquia, dos educandários, do clero, da diocese, não só para criar, mas, para conservar e

renovar o “clima comunitário, a disponibilidade e generosidade necessária ao trabalho em

conjunto” 296. No que tange à montagem da pastoral de conjunto, o PE indica a realização dos

cursos do MMM “para os que irão elaborar as linhas mestras da pastoral de conjunto e,

posteriormente, para os que irão executá-las” 297. Neste ínterim, sintetizando toda a sua força

na elaboração do PE, se tece este grande elogio: “O clima do MMM é utilíssimo à visão

global e ao esforço planificado. É a chama espiritual, cerne e alma de toda Pastoral

autêntica” 298.

1.3. O MOVIMENTO DE NATAL E O MOVIMENTO DE EDUCAÇÕ DE BASE

O Movimento de Natal, iniciado em 1952, e liderado pelo até então Monsenhor

Eugênio de Araújo Sales é o mais expressivo de muitas outras iniciativas pastorais desse

período, como em Campinas e Ribeirão Preto. Em Natal, essa experiência de pastoral foi

295
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 337. Cf. também, LIBANIO, J.B.
Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 117.
296
PE. p. 46. O Pe. Gervásio traz a seguinte notificação: “É o Movimento por um Mundo Melhor que no Brasil
está contribuindo mais para a abertura pastoral do clero, Religiosos e Religiosas, leigos e leigas, e para criar o
clima indispensável à execução do ‘Plano de Emergência’. [...] É este o motivo por que a Jerarquia do Brasil está
estimulando intensamente a multiplicação dos cursos do MMM pelo Brasil afora”. Cf. CLOIN, T. Relatório
anual da CRB. (de maio de 1962 a outubro de 1963). In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 10, p. 27, 1964.
297
PE. p. 94;73.
298
PE. p. 94.
103

mais incisiva do que nas outras regiões, devido a sua extensão e intensidade de sua influência,

ampliando o raio de atividades para toda a redondeza.

Em sua gênese estão os militantes da ACB, que juntamente com os seis sacerdotes
299
fundadores, por meio de encontros semanais na praia de Ponta Negra , procuravam

soluções para os graves problemas sociais e religiosos da Igreja local 300.

Como fruto desse Movimento, tem-se, em 1949, a fundação do SAR, o Serviço de

Assistência Rural, que efetivamente colaborou, por meio de seus agentes, para a formação e

promoção do homem do campo. Ademais, as semanas ruralistas, promovidas pela SAR,


301
propiciaram o desenvolvimento da até então experiência colombiana de Sutatenza , da

educação camponesa por meio das escolas radiofônicas, tendo no Brasil sua inauguração em

agosto de 1958 e, já, em setembro, a Emissora de Educação Rural de Natal emitia a sua

primeira aula. Rapidamente, as escolas radiofônicas se difundiram, procurando dar não apenas

alfabetização, mas, educação básica integral, inclusive política, social e religiosa 302.

Durante três anos, esse trabalho sucedeu de forma eficiente e, conseqüentemente, por

sua expansão para outros Estados, foi assumido pela CNBB que, em parceria com o governo

federal, fundou em 1961 o MEB, ou seja, o Movimento de Educação de Base. O grande

mérito desse Movimento consiste, de forma lapidar, no desejo profundo de arrancar o homem
303
“sertanejo do isolamento do interior – sem luz elétrica, sem transporte, sem escola” .É

desse contexto, também, o inicio do Movimento de sindicalização rural que contou com o

299
Cf. PINHEIRO, J. E. Traços da presença da Igreja Católica no Nordeste. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
254.
300
Para uma compreensão mais exata do contexto vigente neste período, cf. SALLES, E.A. Uma experiência
pastoral em região subdesenvolvida (Nordeste brasileiro). In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 10, p. 129-136, 1964.
301
Trata-se do internacionalmente conhecido trabalho de Educação e alfabetização pelo rádio, realizado pelo
padre José Joaquim Salcedo. Cf. REB, Petrópolis, v. 15, p. 408-414, 1955. REB, Petrópolis, v. 16, p. 941-944,
1956.
302
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 339. Ver também REB, Petrópolis,
v. 18, p. 1095-1096, 1958. REB, Petrópolis, v. 22, p.753, 1962.
303
PINHEIRO, J. E. Traços da presença da Igreja Católica no Nordeste. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
254.
104

apoio da Igreja. Contudo, foi também o início de um tempo de polarizações ideológicas e

políticas e isso repercutiu na instituição. Se, de um lado, os jovens da Ação Católica e do

MEB tinham uma atividade cada vez mais intensa, com o apoio de um grupo de bispos, de

sacerdotes e religiosos, por outra parte, se organizou, no sentido oposto, uma resistência às

propostas de transformação 304.

Conforme o Pe. Gervásio afirma, o “êxito pastoral do Movimento de natal se deve –

entre outras causas, como o valor e generosidade das pessoas nele engajadas – aos seguintes

fatores”:

• Valorização dos diversos membros do povo de Deus (sacerdotes, religiosos

(as), leigos) e sua união em torno do bispo;

• Preocupação de formar lideranças e capacitar o pessoal não poupando para

isso esforços nem meios;

• A presença da ACB e outras formas de apostolado dos leigos;

• Feliz combinação, na ação pastoral, da dimensão estritamente religiosa com a

social, num esforço de pastoral integral;

• Procura de atualização apostólica, quanto a conteúdo e método, promovendo

os movimentos bíblicos e litúrgicos, a catequese renovada;

• O clima de abertura e de ajuda fraterna, corroborado pelo MMM, que lá

encontrou ambiente favorável;

304
LUSTOSA, O. F. A Presença da Igreja no Brasil: história e problemas 1500-1968. São Paulo: Giro, 1977. p.
87. Em nota de rodapé n. 9 diz: “Sob pretexto de comunizante, a cartilha do MEB, Viver é Lutar, foi apreendida
pela polícia do Rio a mando do governador Carlos Lacerda que teve o apoio do Cardeal Barros Câmara. – Era
um sintoma das graves divergências que começavam a mostrar, claramente, o dualismo de mentalidade pastoral
e política no episcopado”. Cf. KADT, Emanuel de. Catholic radicals In: Brazil, London/New York, Oxford
University Press, 1970. p. 156s. Também WANDERLEY, Luiz Eduardo. Educar para transforma: educação,
Igreja Católica e política. Petrópolis: Vozes, 1984. Vale ainda averiguar nesses anos, a presença pública da
Igreja através de alguns bispos e da própria CNBB. Já em 1950, o bispo de Campanha, Minas Gerais, Dom
Inocêncio Engelke, ligado à Juventude Agrária Católica, tinha lançado sua carta-pastoral: Conosco, sem nós ou
contra nós se fará a reforma rural. O tema, sempre polêmico, como foi dito acima, dividiria a Igreja. Reuniões de
bispos do Rio Grande do Norte (1951), da Amazônia (1952 e 1957) e do Vale do São Francisco (1952), trataram
dos temas do desenvolvimento, da reforma agrária e das migrações. Em 1956, realizou-se uma reunião no
Nordeste, com dirigentes da CNBB e do governo, a qual, segundo testemunho do próprio presidente Kubitschek,
esteve na origem da criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Cf. PINHEIRO, J.
E. Traços da presença da Igreja Católica no Nordeste. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.).
Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 250-252.
105

• Adoção, como método de trabalho, do planejamento e coordenação das

atividades, superando uma pastoral de tarefas realizando uma pastoral de

rumos;

• Emprego judicioso das modernas técnicas de comunicação de massa e de

desenvolvimento comunitário;

• Aproveitamento dos recursos locais limitados, reforçados, porém, com a

generosa colaboração, em pessoal e meio, de outras Igrejas do exterior,

adequadamente sensibilizadas, bem como da CRB 305.

Natal tornou-se, por assim dizer, o pólo irradiador de uma nova experiência pastoral,

tornando-se objeto de visita e de especulação de muitos outros países 306, transbordando para

além de sua província eclesiástica, estendendo sua influência por todo o Nordeste no que
307
tange à renovação pastoral . Ademais, foi de forma pioneira, a primeira experiência de

inserção das religiosas no que tange ao cuidado pastoral de comunidades carentes de

sacerdotes 308.

De fato, o Movimento de Natal, por seu desenvolvimento de uma pastoral

planificada, mereceu sediar, em 1962, o Secretariado do Nordeste, com sede na própria

305
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 340.
306
SALLES, E.A. Uma experiência pastoral em região subdesenvolvida (Nordeste brasileiro). In: RCRB, Rio de
Janeiro, v. 10, p. 132-134, 1964. DIDONET, F. Movimento por um Mundo Melhor no Brasil. In: REB,
Petrópolis, v. 22, n. 3, p. 672-675, 1962.
307
CLOIN, T. Critérios de novas fundações: Pré-requisitos para ajuda sistemática a regiões espiritualmente
subdesenvolvidas. In: RCRB, Rio de Janeiro, v.10, p. 263-268, 1964.
308
Cf. PINHEIRO, J. E. Traços da presença da Igreja Católica no Nordeste. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
260. Também, BASTOS, I. O porquê das experiências de Nízia Floresta (mimeografado 5 p. aCNBB), apud
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 341. Ver também, TEPE, V. Vida
religiosa e Igreja local. In: CM 7/1971, p. 78-81; CLOIN, T. O Encontro de Natal e o apostolado dos religiosos
do N.E. (Natal, 10 a 19-1-163). In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 9, p. 241-244, 1963. Id. O Apostolado dos
religiosos e a pastoral da jerarquia. In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 129-139, 201-214, 1965. É evidente
também todo o apoio que a CRB dispensou para este movimento. Cf. RCRB, Rio de Janeiro, v. 7, p. 541, 1961.
RCRB, Rio de Janeiro, v. 8, p. 445,446, 456-457, 1962. RCRB, Rio de Janeiro, v. 9, p. 241-244, 435-439,458-
461, 1963. RCRB, Rio de Janeiro, v. 10, p. 26,28,29,31,380, 1964. RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 516-517,
1965.
106

capital, Natal, “o qual – com a instituição pela CNBB, logo em abril de 1962, das regiões

pastorais, passou a ser o Secretariado Regional do Nordeste” 309.

A forma pastoral vivida pelo Movimento de Natal e conseqüentemente, a sua

experiência de irradiação, seja em nível provincial ou regional, foram o grande legado para a

elaboração e execução do PE 310.

1.4. A CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL: CRB

Cronologicamente, a CRB foi fundada dois anos mais tarde do que a CNBB, como

organismo coordenador, espaço de comunhão e cooperação de todos os religiosos do Brasil,

clérigos ou leigos de ambos os sexos.

Em sua gênese se encontra um período fértil, em que a Igreja sentia a necessidade de

renovação e de maior articulação, sob o impulso do Ano Santo de 1950 e dos diversos

movimentos de renovação da vida eclesial, como a Ação Católica, o Movimento de

Renovação Bíblica, o Movimento Litúrgico e Catequético e o Movimento por um Mundo

Melhor. Quando da sua fundação, o número de religiosos (as) no Brasil totalizava-se 40.000,

sendo 7.000 Padres, 3.000 irmãos e 30.000 religiosas 311.

Seguindo a sugestão da Sagrada Congregação dos Religiosos, a CRB foi estruturada


312
com dois objetivos, ou seja, de organização e de atualização . Para tanto, organizou

Departamentos e Serviços, aos quais por sua eficiência, mereceu elogios da Congregação dos

309
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 341. Cf. também, CLOIN, T. As
grandes linhas da renovação pastoral no Brasil. In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 21, 1965.
310
PINHEIRO, J. E. Traços da presença da Igreja Católica no Nordeste. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
256.
311
Cf. LUSTOSA, O. F. A Presença da Igreja no Brasil: história e problemas 1500-1968. Op. cit. p. 85.
312
Cf. REB, Petrópolis, v. 14, p. 385-391, 1954. RCRB, Rio de Janeiro, v. 2, p. 555, 1956.
107

Religiosos e de outras autoridades, tornando-se modelo, “critério e padrão de organizações

nacionais de religiosos” 313.

Embora com identidades e finalidades próprias, o relacionamento entre as duas

Conferências foi marcado, desde o início, por intensa colaboração e respeito mútuo, salvo é

claro, alguns momentos críticos. Contudo, da colaboração efetiva entre CRB e CNBB, já nos

primeiros tempos, surgiram o Instituto Nacional de Catequese, o Centro de Estatística

Religiosa e Investigação Social (Ceris) e o Serviço de Cooperação Apostólica Internacional

(Scai). Esses trabalhos, em conjunto, propiciaram a eficiência da execução do PE. Neste

ínterim, “a partir do PE, a coordenação entre as duas Conferências foi sempre mais se

impondo e tendendo a se institucionalizar [...] Os desejos expressos no PE a respeito disso

foram confirmados e superados pela experiência” 314.

1.5. A CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL – CNBB

A idéia de gestar uma conferência dos bispos do Brasil é proveniente dos anos 50,
315
quando da realização do Congresso Mundial de Leigos em Roma . Posteriormente, foi a

partir de contatos firmes e de um efetivo relacionamento entre a pessoa do Monsenhor Helder

Câmara316, a Nunciatura Apostólica com até então Núncio Carlos Chiarlo317 e com a Cúria

313
Cf. RCRB, Rio de Janeiro, v. 2, p.572, 1956. Também, VLOIN, T. Presença e repercussão da CRB. A
propósito de uma viagem. In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 12, p. 719-724, 1966.
314
Acerca da relação entre as duas Conferências, cf. CLOIN, T. Relatório anual da CRB (de maio de 1962 a
outubro de 1963). In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 10, p. 25-31, 1964. Id. Relatório anual da CRB (de outubro de
1963 a dezembro de 1964). In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 71-83, 1965. Id. Relatório da Conferência – 1962
a 1965. In: RCRB, Rio de Janeiro, v. 11, p. 515-530, 1965. REB, Petrópolis, v. 24, p. 801-803, 1964. REB,
Petrópolis, v. 25, p.134, 1965.
315
Cf. CASTANHO, A. Presença da Igreja no Brasil: 1900-2000. Jundiaí: Gráfica Jundiá, 1998. p. 142.
316
Para uma descrição mais detalhada da ação deste homem de Deus, cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão
e corresponsabilidade. Op. cit. p. 167-170. Também CASTANHO, A. Presença da Igreja no Brasil: 1900-2000.
Jundiaí: Gráfica Jundiá, 1998. p. 53. Importante ressaltar aqui o seu papel de Intermediador entre os bispos do
Brasil entre si e, principalmente, no que se refere a sua participação fora do país junto aos órgãos Internacionais
e à Cúria Romana. “É o princípio da coordenação intra-eclesial e intereclesial que, unindo os esforços e
alargando os horizontes, será de tanta Influência na formação da nova linha pastoral”. CASTANHO, A.
Presença da Igreja no Brasil: 1900-2000. Op cit. p. 346.
317
Cf.QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 178.
108

Romana por meio do até então Monsenhor Montini318, que a criação em 1952, no dia 14 de

outubro numa sala do Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, numa reunião simples, da até

estão esperada CNBB passou-se de sonho para realidade.

A notificação de todos os bispos foi realizada por carta319 a cargo dos dois Cardeais

do Brasil, isto é, o Cardeal Motta de São Paulo, escolhido para ser o seu primeiro presidente e

o Cardeal Câmara. A recepção por parte do episcopado foi de profunda esperança e

otimismo320.

Apesar da imensidão territorial do Brasil321 a CNBB foi

propulsora do grande progresso pastoral realizado nos dez anos que precederam ao

PE, promovendo e apoiando com a sua autoridade iniciativa que tiveram resultados

fecundos. A partir da fundação da CNBB, com efeito, os empreendimentos

multiplicaram-se, a presença da Igreja com a sua palavra e atuação muito mais se

afirmou, no meio da espantosa mutação e até convulsão política, econômica e social

do País 322.

Um dos fundamentais elementos de sua organização são as Assembléias e,

justamente por meio delas, é que o episcopado brasileiro se desenvolverá definitivamente no

que tange à construção de um plano de pastoral efetivo e eficiente. Para tanto, não mediu

esforços, procurando somar forças com os movimentos afins, fruto, é claro, da decisiva

postura, já na reunião de instalação em 1952, de criar os Secretariados Nacionais e de forma


318
Para um aprofundamento acerca da contribuição do Mons. Montini, cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão
e corresponsabilidade. Op. cit. p. 179.
319
A integra da mesma pode ser consultada em CASTANHO, A. Presença da Igreja no Brasil: 1900-2000. Op.
cit. p. 143-144.
320
Cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 167-170; 181-184.
321
PE. p. 31.
322
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 167-170. Acerca dos frutos destes
primeiros dez anos, como descreve o Pe. Gervásio pode ser consultado em sua própria obra, Ib. p. 345.
109

especial, do Secretariado Nacional de Apostolado dos Leigos, cuja finalidade era “coordenar

todas as atividades de associações apostólicas do laicato” 323.

No ano seguinte de sua fundação, ocorreu a sua primeira Assembléia entre os dias 17

a 20 de agosto de 1953 na cidade de Belém, - Pará. O seu grande intento foi elaborar dois

planos: um de atividades para o apostolado dos leigos, na formação da Confederação Católica

diocesana, sob a orientação do Conselho Nacional de Apostolado dos Leigos e o outro em

torno de programas comuns de trabalho, denominada Campanhas Gerais. Não se sabe por

certo os seus frutos; contudo, se revela como primeira tentativa de uma pastoral planejada e

coordenada 324.

Até a elaboração do PE, a CNBB realizou ainda outras três Assembléias325. Nos

dizeres do Pe. Gervásio, “as 3ª e a 4ª Assembléias são marcos na evolução pastoral, bons

prelúdios da fase decisiva que a 5ª inaugurará” 326.

2. O SEGUNDO PERÍODO: A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE ECLESIAL -

1962-1979

Esse período é marcado por uma profunda e efetiva construção pastoral, alicerçada

de maneira especial em quatro acontecimentos eclesiais e um secular. Os dois primeiros

323
Ib. p. 167-170.
324
Ib. p. 346-347.
325
A 2ª Assembléia Geral ocorreu entre os dias 09 a 12 de setembro de 1954 em Aparecida, SP. Foram
abordados dois temas: a situação da Família e sobre a Ajuda Espiritual, cultural e Econômica ao Clero. A 3ª
Assembléia realizou-se em Serra Negra, SP, entre os dias 10 a 12 de novembro, tendo como pauta de discussão
sobre o modo às quais as Paróquias devem se ajustar aos tempos hodiernos e sobre a formação da opinião
pública através da publicidade. A 4ª Assembléia realizou-se em Goiânia – GO entre os dias 03 a 11 de julho de
1958, abordando dois temas: acerca da renovação paroquial e da influencia das Estruturas sociais sobre a Vida
Religiosa. Ib. p. 346-347.
326
Ib. p. 349. Para uma análise do conteúdo destas Assembléias, cf, Op. cit. p. 347-350.
110

situam-se na década de 60, que tem, como origem, o incisivo apelo do Papa João XXIII em

relação à construção de um plano pastoral para a AL, fato este que culminou na elaboração do

PE. O segundo, de natureza universal, foi a realização do Concílio Vaticano II, cuja riqueza

teológica e pastoral foi aplicada na Igreja do Brasil em forma do PPC. Ainda nessa década,

tem-se em 1964 o golpe militar327 ao qual aqui, faremos apenas breves menções, quando

necessário.

Ademais, a caminhada pastoral da Igreja no Brasil ainda na década de 60, contou

com a riquíssima contribuição do CELAM, realizada em Medellím em 1968. Já, na década de

70, vemos florescer a segunda conferência realizada em Puebla, no ano de 1979. Essas

Conferências Episcopais propiciaram à Igreja do Brasil novas e eficazes forma de aplicação

da Pastoral, além de ser o fermento e o alicerce mais fecundos para a já experiente e ousada

forma de inserção social.

Nosso trabalho limitar-se-á à descrição desses eventos, um por vez, e,

conseqüentemente, no que se refere às Conferências Episcopais, delinear a sua aplicação na e

somente à Igreja do Brasil, visto que foi um acontecimento Continental.

2.1. A DÉCADA DE 60: A FORMAÇÃO DE UMA IDENTIDADE ECLESIAL

2.1.1. O PLANO DE EMERGÊNCIA: GÊNESE DA VIDA PASTORAL DA IGREJA

NO BRASIL

A Santa Sé sempre manifestou grande interesse pela Igreja Latino – Americana. João

XXIII manifestou sempre seu apreço pela América Latina e já, nos primórdios de seu

327
Para uma análise da Ditadura militar Iniciada em 1964. Cf. WANDERLEY, L.E. Desafios da Igreja Católica
e política no Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil
(1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 459-479. Também, DUSSEL, E. História da Igreja Latino-
Americana (1930-1985). São Paulo: Paulinas, 1989. p. 52-54; CASTANHO, A. Presença da Igreja no Brasil:
1900-2000. Op. cit. p. 152-154.
111

pontificado, projetou-se em constante ajuda material oriunda de outros episcopados e


328
Congregações Religiosas e na preocupação de que a América Latina se estruturasse

pastoralmente. Onze dias após sua coroação, no dia 15 de novembro, quando da acolhida dos

membros do CELAM, o Papa apontou passos a desenvolver para uma renovação espiritual do
329
continente . Três anos mais tarde, no dia 8 de dezembro de 1961, em carta330 direcionada

aos bispos da AL, voltou a urgir “uma ação imediata, para eliminar do continente os perigos

iminentes à fé católica” 331, que se repercutem em quatro esferas:

o naturalismo, provocado pelas reflexões de Charles Darwin, sobre a origem das

espécies; o marxismo, fruto do pensamento econômico de Karl Marx, e o

espiritismo, marcado pelo ‘evangelho segundo Allan Kardec’. Somado a essas três

correntes, o pensamento liberal andava de mãos dadas com o pensamento

protestante, que crescia também em todos os recantos do Ocidente cristão 332.

Juntamente com estas questões externas, a realidade interior da própria Igreja estava

passando por séria crise, como se nos apresenta o próprio PE:

Somos mais homens de obras do que da obra indispensável a todas as demais: a

estrutura administrativa. Sem esse alicerce, surgem as iniciativas, mas permanecem

328
Cf. REB, Petrópolis, v. 20, p. 470-473, 1960. REB, Petrópolis, v. 22, p. 728-730, 1962. REB, Petrópolis, v. 23,
p. 173-174, 482-484, 1963.
329
Cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 343.
330
O conteúdo completo desta carta pode se ter de: In: REB, Petrópolis, v. 22, p. 461-463, 1962.
331
Cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 343.
332
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
388. PE, p. 19. Ver também, BEOZZO, J.O. Igreja no Brasil – o Planejamento Pastoral em Questão. In: REB,
Petrópolis, v. 42, n. 167, p. 786, [Setembro] 1982.
112

isoladas, fracas, portanto, ou a exigirem grandes esforços por não estarem

engajadas na realidade paroquial, diocesana, provincial ou regional.

A organização da Diocese, flexível e eficiente, é a condição básica de

funcionamento deste plano de Emergência. Para isso, faz-se mister uma revisão

corajosa e cristã de nossas relações com nossos sacerdotes, religiosos e leigos,

tornando-os não meros executores de ordens, mas companheiros no bom combate.

Assim, conserva-se a hierarquia, elemento fundamental na Igreja de Cristo, e

desenvolve-se o espírito de equipe. É a vivência do ‘non veni ministrari sed

ministrare.

Os problemas sociais estão na ordem do dia. A missão dos Pastores pede dos

Bispos uma atenção especial neste campo, abrangendo todos os seus aspectos.

Somos solícitos no combate ao Comunismo, mas nem sempre assumimos a mesma

atitude diante do capitalismo liberal. Sabemos ver a ditadura do Estado marxista,

mas nem sempre sentimos a ditadura esmagadora do econômico ou do egoísmo nas

estruturas atuais que esterilizam nossos esforços de cristianização 333.

Como resposta a esses apelos do Pastor maior, a Igreja do Brasil, entre novembro de

1961 a março de 1962, elaborou o Plano de Emergência. Na 5ª Assembléia Geral, realizada

entre os dias 2 a 5 de abril de 1962, o PE foi apresentado e aprovado, seis meses antes da

abertura do Concílio Vaticano II 334.

O PE apresenta quatro eixos, cuja finalidade própria era de unificar a ação eclesial

do Brasil. O grande tema era a Renovação. A exigência de se renovar foi tão marcante que, os

três primeiros Capítulos iniciam com a palavra programática: 1º Renovação das Paróquias; 2º

Renovação do Ministério Sacerdotal; 3º Renovação dos Educandários Católicos. Somente o

333
PE, p. 22-23.
334
Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo.
Petrópolis: Vozes, 1994. p. 40.
113

último capítulo se preza para o que de até então se denominou na Igreja do Brasil Pastoral de

Conjunto: 4º Introdução a uma Pastoral de Conjunto 335.

Contribuição importante do PE, segundo o Pe. Beozzo foi a possibilidade criada pelo

plano de que a CNBB, “de uma estrutura até então quase que exclusivamente consultiva e

afetando os arcebispos [...] se descentralizava, com a criação de Regionais encarregados de

executar, neste nível, suas diretrizes” 336. Para melhor concretizar o Plano de Emergência, foi

pedido que cada diocese criasse um secretariado para “servir de elo de ligação com as

estruturas nacionais e de centro propulsor das diretrizes do pleno a nível local” 337.

No PE, o MMM foi o movimento escolhido para a sua execução e, com isto, é clara a
338
marginalização no que se refere a ACB . Ademais, a presença dos leigos, embora

valorizada, ainda é marginal, como afirma Pe. Gervásio: “também os leigos não tiveram

documento especial, mas foram mais acentuados no PE que os religiosos. PE 35 confessa a


339
necessidade de ser completado ‘com um plano para os leigos e para os religiosos’” .

Contudo, mesmo com estas e outras deficiências340, o PE, conforme o mesmo autor, provocou

um “clima de comunhão fraternal entre bispos, presbíteros, religiosos e leigos; o espírito de

equipe co-responsável, que, sem confundir os ministérios, sem eliminar a autoridade, unifica

no amor a variedade dos membros e atuações, numa autêntica comunidade de Igreja” 341.

335
Para um completo estudo sobre o PE, cf. FREITAS, M. C. de. Uma opção renovadora: A Igreja no Brasil e o
planejamento pastoral. São Paulo: Loyola. p. 95-137. Também, QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e
corresponsabilidade. Op. cit p.351-373.
336
BEOZZO, J.O. Igreja no Brasil – o Planejamento Pastoral em Questão. In: REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p.
492, [Setembro] 1982.
337
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
389.
338
O Pe. BEOZZO, a esse respeito, é duro em sua análise, quando afirma: “trinta anos anteriores a Igreja havia
tentado toda uma estratégica pastoral, centrada sobre o leigo e sobre sua atuação no mundo, visando a conquista
espiritual e a presença da Igreja nos chamados ‘meios’ de vida: estudantil, universitário, operário, camponês,
independente. Esta estratégia é sacrificada no Plano de Emergência em favor de uma outra que coloca no centro
a própria Igreja: os bispos e suas estruturas e atuação, paróquias e Colégios...” BEOZZO, J.O. Igreja no Brasil –
o Planejamento Pastoral em Questão. In: REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p. 492, [Setembro] 1982.
339
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 359.
340
O Pe. QUEIROGA em sua obra, elenca algumas deficiência do PE. Cf. Op. cit. CNBB. Comunhão e
corresponsabilidade. Op. cit. p. 371-372.
341
Ib. p. 361.
114

Apesar de suas carência, e limites, o PE tem seu mérito, principalmente por ser o

marco da vida pastoral, assim como também por ter preparado a Igreja do Brasil para novas

iniciativas pastorais; e, finalmente, por ter se tornado “efetivamente, uma bandeira e um

roteiro de renovação paroquial”, e também de

uma séria renovação do ministério sacerdotal. [...] renovou algumas estruturas

diocesanas e possibilitou ao episcopado uma ação regional e nacional mais efetiva

[...]. Foi uma primeira tentativa de pastoral de conjunto, nestes diversos níveis.

Criou sobretudo uma mística e uma esperança de renovação 342.

2.1.2. O CONCÍLIO VATICANO E O PPC

O Concílio trouxe à Igreja os fermentos de renovação. A presença da Igreja do Brasil

no Concílio foi desde o encerramento do primeiro período, alargando-se em conseqüência dos

rumos tomados pelos Padres Conciliares, numa clara percepção de que dentro de algum

tempo o pioneirismo desbravador do PE seria superado. Segundo Caramuru,

reconhecia-se ao mesmo tempo, que a etapa do PE constituía-se em um passo

fundamental para que, ao término dos trabalhos conciliares, se chegasse à

ambiciosa meta de um plano mais abrangente de Pastoral de Conjunto, que era uma

aspiração desde 1958. Esta tomada de consciência amadureceu e tomou corpo, ao

final da terceira sessão conciliar, quando já estavam suficientemente claros os

grandes eixos de orientação que o Concílio imprimiria à Igreja, de acordo com a

342
Ib. p. 372-373.
115

visão profética de João XXIII. Nessa oportunidade, a Presidência da CNBB deu à

Secretaria Geral sinal verde para desenvolver esta tarefa 343.

Neste ínterim, duas Assembléias Gerais aconteceram em Roma. A 6ª, ocorrida entre

os dias 26 a 27 de setembro de 1964, tinha como finalidade a avaliação do PE e a aprovação

dos novos estatutos 344. Um ano após, em 1965, realizou-se a 7ª Assembléia Geral, na qual se

tem a aprovação do PPC e a feliz iniciativa da Campanha da Fraternidade 345.

O PPC, segundo o Pe. Beozzo, por ter sido

aprovado, sem um único voto contrário e com apenas um voto em branco, ganhou

evidentemente legitimidade para que sua implementação, ainda que laboriosa e

conflituosa, não fosse minada por uma contestação, em relação ao princípio do

próprio planejamento pastoral, da autoridade dos bispos reunidos em assembléia

para aprová-lo e do direito que assistia à CNBB e aos seus secretariados para levá-

lo adiante 346.

343
BARROS, R.C. Gênese e consolidação da CNBB no contexto de uma Igreja em plena renovação. In:
INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu
de ouro da CNBB. Op. cit. p. 49.
344
Cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 228-229.
345
Desde 1963, a Campanha da Fraternidade tem sido uma atividade ampla de evangelização, desenvolvida na
Quaresma, para ajudar os cristãos e pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos
concretos, no processo de transformação da sociedade, a partir de um problema específico. É um grande
instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, de renovação interior e de ação comunitária. É
momento de exercício de uma verdadeira pastoral de conjunto em prol da transformação de situações injustas e
não cristãs. É precioso meio para a evangelização no tempo quaresmal. A Campanha da Fraternidade tornou-se
especial manifestação de evangelização libertadora, provocando, ao mesmo tempo, a renovação da vida da Igreja
e a transformação da sociedade, a partir de problemas específicos, tratados à luz do Projeto de Deus.
A Campanha da Fraternidade passou por três fases sucessivas:
1ª FASE: EM BUSCA DA RENOVAÇÃO INTERNA DA IGREJA (1964-1972)
2ª FASE: A IGREJA SE PREOCUPA COM A REALIDADE SOCIAL DO POVO (1973-1984)
3ª FASE: A IGREJA SE VOLTA PARA SITUAÇÕES EXISTENCIAIS DO POVO BRASILEIRO (1985...) cf.
<http://www.cnbb.org.br/documento_geral/CFesuahistoria_nova.ppt.> Acesso em 25/11/2006.
346
BEOZZO, J.O. A recepção do Vaticano II na Igreja do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL
(Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 441.
116

O PPC está dividido em três partes, sendo a primeira, uma introdução geral ao Plano,

a segunda, acerca das Diretrizes fundamentais da ação pastoral e a terceira, que explicita o

Pano nacional das atividades da CNBB. A segunda parte, que constitui o coração do PPC, está

subdividida em três tópicos, além de uma exposição sobre os seus objetivos específicos.

Tendo em vista a dependência umbilical 347 do PPC com os documentos do Concílio

Vaticano II e, de maneira especial, com a Lumen gentium, o segundo tópico procura

apresentar as bases sólidas mediante a aplicação dos documentos conciliares, para uma

cristalina adequação da Igreja do Brasil à nova mentalidade eclesial emanada do Concílio, nas

chamadas seis Linhas ou Diretrizes fundamentais de ação.

Cada uma dessas seis linhas funda-se sob um objetivo próprio, conectado com o

objetivo geral que é “criar meios e condições para que a Igreja do Brasil se ajuste o mais
348
rápido e plenamente possível, à imagem do Vaticano II” assim como com o seu objetivo

último, que é “a comunhão de vida dos homens com o Pai e entre si, em Jesus Cristo, no dom

do Espírito Santo, comunicada e manifestada pela mediação da comunidade visível” 349.

A primeira linha visa promover uma sempre mais plena unidade visível no seio da

Igreja Católica, cujo objetivo é levar à conversão, à adesão pessoal a Cristo, à inserção

consciente e participante na comunidade visível. A sua base teológica fundamenta-se nos

seguintes documentos conciliares: LG, OT; PO; CD; AA; PC. A segunda diz respeito à ação

Missionária, cujo objetivo é levar todos os homens à primeira adesão pessoal à Cristo, através

do anúncio missionário da palavra e do testemunho de vida evangélica. A sua base teológica

fundamenta-se no Decreto Conciliar sobre a Atividade Missionária da Igreja Ad Gentes. A

terceira refere-se à ação catequética, ao aprofundamento doutrinal e a reflexão teológica, cujo

objetivo é levar o povo de Deus a uma maior comunhão de vida com Cristo através da palavra

347
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 377.
348
PPC p. 31.
349
PPC p. 31.
117

e do testemunho de vida evangélica, que iluminam e alimentam. A sua base teológica

fundamenta-se na Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum. A quarta

diz respeito à ação Litúrgica, cujo objetivo central é levar o povo de Deus a uma maior

comunhão de vida em Cristo, através do culto litúrgico integral e das celebrações da Palavra.

A sua base teológica fundamenta-se na Constituição sobre a Sagrada Liturgia SC. A quinta

linha refere-se à ação ecumênica, cujo objetivo primordial é levar o povo de Deus a uma

maior comunhão de vida em Cristo, através de uma autêntica ação ecumênica. A sua base

teológica fundamenta-se nos seguintes documentos conciliares: UR; OE; NA. Por fim, a

sexta linha visa promover a melhor inserção do Povo de Deus, como fermento de vida em

Cristo, através de sua inserção como fermento na construção de um mundo, segundo os

desígnios de Deus. A sua base teológica fundamenta-se nos seguintes documentos

conciliares: GS; IM; GE; DH 350.

O terceiro tópico visa apresentar a aplicação dessas diretrizes nos planos nacionais e

regionais. Neste ínterim, criou-se uma nova estrutura, mais ainda descentralizada da CNBB,

que passa agora a ter não somente sete regionais, da época do PE, mas sim 13 351. Como fruto

da descentralização, “a CNBB potencializava seus instrumentos de ação em âmbito nacional,

350
CF. PPC p. 61-109. Também, GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In:
INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu
de ouro da CNBB. Op. cit. p. 389-340; BEOZZO, J. O. Igreja no Brasil: Planejamento Pastoral em Questão. In:
REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p. 465-472, [setembro] 1982. BEOZZO, J.O. A recepção do Vaticano II na Igreja
do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-
2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 443-44.
351
“O aumento do número de Regionais foi alcançado pelo desdobramento de alguns dos já existentes em novas
unidades. Assim, o anterior Regional Nordeste foi dividido em três: Nordeste I (Maranhão, Piauí e Ceará, com
sede em fortaleza), Nordeste II (R. Grande do norte, Paraíba., Pernambuco e Alagoas, com sede em Recife) e
Nordeste III (Bahia e Sergipe, com sede em Salvador); o antigo Sul, também em três: Sul I(São Paulo, com suas
cinco províncias eclesiásticas, com sede na capital); Sul II (Paraná, com sede em Curitiba); Sul III (Rio Grande
do Sul e Santa Catarina, com sede em Porto Alegre); o Centro-Oeste, em dois: Centro-Oeste ) Província de
Goiás) e extremo Oeste (Província de mato Grosso). Cf. Ata de 30 de setembro de 1964. CM. n. 146-147,
[nov/dez. 1964, pp. 16-17”apud BEOZZO, J.O. A recepção do Vaticano II na Igreja do Brasil. In: INSTITUTO
NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da
CNBB. Op. cit. p. 444. O PPC oferece os dados estatísticos sobre a Igreja no Brasil, referentes a estes Regionais.
Cf. p. 176-189.
118

criando quatro novos secretariados que vinham somar-se aos oito anteriormente em ação” 352.

O Pe. Beozzo, ao afirmar que o PPC fora “elaborado por técnicos especialistas”, afirma

também que em decorrência disto, houve a necessidade de “um grande aparato de assessoria e
353
de órgãos técnicos de investigação e execução” . Nesse sentido, houve uma verdadeira

inflação de siglas a fim de completar o quadro das dificuldades em nível da linguagem. Ao

todo foram, nesse período, computados 1 Secretaria Geral, 13 Secretariados Nacionais

(SNAL; SNAC; SNAT; SNAPES; SNAV; SNASEM; SNAMHI; SNAR; SNALE; SNED;
354
SNOP; SNAS; SNAP) e 11 Secretariados Regionais . Por fim, tendo em vista que a

realidade eclesial é diferente, o PPC apresenta roteiros gerais de programas que cada regional

deve concretizar individualmente além de atividades inter-regionais 355.

A quarta parte diz respeito a sua aplicação em nível diocesano, tendo como objetivo

último, “ajudar a formar o povo de Deus e intensificar sua unidade em Cristo” e,

conseqüentemente, pouco a pouco renovar a Igreja particular “conforme a imagem da Igreja

do Vaticano II” 356.

O PPC, embora sendo pensado por apenas cinco anos (1966-1970), foi prorrogado

até 1974 e substituído por outra forma de organização pastoral. O intento de comunhão

explicitado por planos nacionais foi por muitos bispos visto como ingerência abusiva “na vida

das dioceses, reduzindo o poder do bispo local” 357.

352
BEOZZO, J.O. A recepção do Vaticano II na Igreja do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL
(Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 444.
353
BEOZZO, J.O. Igreja no Brasil – o Planejamento Pastoral em Questão. In: REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p.
496, [Setembro] 1982.
354
Cf. PPC P. 112-113.
355
Cf. PPC P. 118-119. Para uma visão mais detalhada do Plano nacional de atividades. Cf. PPC p. 136-175.
356
Cf. PPC p. 132.
357
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
392.
119

2.1.3. A FORÇA DE MEDELLÍN: CEBs E TdL.

A II Conferência Episcopal nasceu da preocupação de aplicar o Vaticano II à

realidade da América Latina, logo após o término do Concílio, pelo bispo Manuel Larraín.

Contudo, só em 2 de dezembro de 1966, o até então presidente do CELAM, Dom Avelar

Brandão Vilela, apresentou ao Santo Padre o referido projeto. Paulo VI acatou a proposta e,

em dezembro de 1967, aprovou-o em sua estada na Capital do Peru, Lima, oficializando-o

com o tema sugestivo para o contexto da AL: “A Igreja na atual transformação da América

Latina, à luz do Concílio Vaticano II” 358.

Em janeiro de 1968, em reunião em Bogotá, foi redigido o Documento-Base

Preliminar. Esse Documento estava “distribuído em três partes distintas e complementares:

visão integral das realidades latino-americanas, reflexão teológica sobre essas realidades e
359
projeções pastorais para a ação da Igreja em nosso continente” . Após as observações dos

episcopados e dos Dicastérios Romanos, obteve-se o Documento-Base da Conferência.

A Igreja do Brasil se preparou para essa Conferência, ocupando-se na 9ª Assembléia


360
Geral, realizada no Rio de Janeiro, entre os dias 15 a 20 de julho de 1968 , da eleição dos
361
seus representantes . Após a abertura, em Bogotá, os trabalhos se encaminharam em

Medellín, sendo os três primeiros dias, Conferências dadas pelos teólogos e peritos e só

depois, divididos em nove Comissões, começaram os trabalhos. Muitas dessas Comissões

358
Para uma leitura mais geral dos trâmites da II Conferência, cf. HERNÁM, P. Crônica de Medellín. Bogotá:
Indo –American Press, 1975. Também, DUSSEL, E. De Medellín a Puebla. São Paulo: Paulinas.
359
VILELA, A.B. Discurso de abertura da II conferência Geral do Episcopado Latino-Americano – Medellín, 26
de agosto de 1969. In: Sedoc, Petrópolis, v.1, n. 5, p. 661, [novembro] 1968.
360
Beozzo, na página 154 da obra aqui citada faz referencia que foi na X e não na IX Assembléia Geral a eleição
para os delegados para Medellín. Cf.
<http://www.cancaonova.com/portal/canais/especial/itaici2005/assegeral2.php.> Acesso em 25/11/2006.
361
Para uma análise pormenorizada dos trâmites desta eleição. Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João
XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 154-159.
120

foram subdividas 362.

Todos os trabalhos em Medellín foram discutidos tendo como substrato teológico as

duas Encíclicas de João XXIII – Mater et Magistra e Pacem in Terris, além da Populorum

Progressio, de Paulo VI, juntamente com a notável riqueza do Concílio Vaticano II,

principalmente referente a suas duas constituições acerca da Igreja, a LG e a GS 363.

Assim, Medellín, conforme o Pe. Beozzo afirma,

não repete o Vaticano II. Medellín refaz, num certo sentido, o Vaticano II e, em

muitos pontos, dá um passo além: aí emerge pela primeira vez a importância das

comunidades de base, esboça-se a teologia da libertação, aprofunda-se a noção de

justiça e de paz ligadas aos problemas da dependência econômica, coloca-se o

pobre no centro da reflexão da Igreja no continente 364.

A partir do Método ver, julgar e agir, Medellín denunciou a injustiça

institucionalizada, rompendo com a teoria

desenvolvimentista até então dominante no mundo político-econômico e na

mentalidade eclesiástica, desposando a recém-elaborada teoria da dependência com

362
As Comissões foram assim divididas: Comissão Justiça e Paz, que foi dividida em duas outras Subcomissões:
a da paz e da Justiça; Comissão Família e Demografia; Comissão Educação; Comissão Juventude; Comissão
Pastoral, quem foi dividida em outras quatro subcomissões: Pastoral das Massas, Pastoral das Elites, Catequese e
Liturgia; Comissão Sacerdotes e Religiosos, subdividida em outras três: Sacerdotes, Religiosos e Formação do
Clero; Comissão Pobreza na Igreja; comissão pastoral de Conjunto, subdividida em outras duas subcomissões:
Colegialidade e meios de Comunicação Social. Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João
Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit. p. 121.
363
Ib. p. 118-120.
364
Ib. p. 117-118.
121

a conseqüente conclusão da necessidade de uma libertação de tal dependência e de

toda as estruturas de opressão para alcançar verdadeiro desenvolvimento 365.

Nesse sentido, de Medellín, aure a valorização da Política como meio de realizar a


366
Macrocaridade . Em decorrência disso, três outros pontos originais se concluirão desta

Conferência: a sua opção clara e exclusiva pelos pobres, embora não excludente, as

Comunidades Eclesiais de Base, como forma de acolhimento e inserção do pobre na realidade

sócio-religiosa e a produção teológica sob o signo temático da Libertação. A década de 70 foi

inteiramente um período de aplicação de suas conclusões e ao mesmo tempo, de preparação

para a III Conferência do CELAM, em Puebla, além de influenciar a temática do Sínodo dos

Bispos realizado em 1971, cujo tema foi tão pertinente: “A justiça no Mundo”. Dele se

conclamava para o mundo, o que Medellín fez para toda a América Latina de um redobrado

empenho pela justiça e pela libertação integral da pessoa humana como dimensão constitutiva

da evangelização.

2.2. A DÉCADA DE 70: A AFIRMAÇÃO DE UMA IDENTIDADE ECLESIAL

2.2.1. A ERA DAS DIRETRIZES E DA APLICAÇÃO DE MEDELLÍN

No inicio dos anos 70, a Igreja do Brasil, com a intenção de concretizar as Diretrizes

Pastorais contidas no PPC, tomou um outro rumo, criando o que se chamaria de Planos

Bienais – PB, sendo esse para vigorarem entre os anos de 1971 a 1972.

365
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 127. Cf. também,
MANZATTO, A. As Primeiras Conferências do CELAM. In: Vida Pastoral, São Paulo, ano XLVII, n. 249, p. 4,
[julho/agosto] 2006.
366
Pe. Manzatto, afirma que “a política é a forma privilegiada de viver a macrocaridade, já que por meio dela se
podem estabelecer relações mais justas entres as pessoas. Mas não se trata de qualquer política, e sim daquela
que quer pensar o bem comum com base no mais fraco, reconhecendo sua dignidade e protegendo seus direitos”.
Ib. p. 4.
122

Para tanto, em 1969, quando da sua 10º Assembléia Geral, foi criado o CEP, ou seja,

o Conselho Episcopal de Pastoral e, dois anos mais tarde, em 1971, em sua 12º Assembléia

Geral, procurou eleger os seus componentes que, reunidos em agosto do mesmo ano com a

Presidência, trataram do assunto. Como diz o Pe. Gervásio, somente “em agosto, na reunião
367
da Comissão representativa, é que se vota o 1º Plano Bienal” . Em seqüência a ele, na

década de 70, se formularam outros quatro PB que vigoraram até o inicio dos anos 80 368.

Fato relevante na caminhada pastoral da Igreja no Brasil é a opção tomada em 1974,

na 14º Assembléia Geral ocorrida em Itaici entre os dias 19 a 27:

Conservar as atuais diretrizes, isto é, o mesmo objetivo e os seis objetivos

específicos com as conseqüentes seis linhas, reformulando suas justificativas com

documentos e dados posteriores ao Vaticano II e enriquecendo-as com elementos

de reflexão teológica e da experiência pastoral dos últimos anos e, além disso,

definir certas áreas prioritárias de ação pastoral da Igreja no Brasil e elaborar


369
diretrizes para essas áreas .

Em 1975, foram publicadas as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral juntamente com o

3º PB. Na verdade, as Diretrizes eram uma versão melhorada da primeira e da segunda parte

do PPC e o 3º PB correspondia a sua terceira parte. Dessa forma, a CNBB deixava para os

Regionais e as Dioceses o campo mais metodológico dos planejamentos, e optou por uma

sistemática mais flexível em nível nacional. Limitou-se, portanto, a oferecer luzes para o agir

eclesial, com uma estrutura básica composta de um Objetivo Geral e seis linhas ou dimensões

pastorais. Dessa nova forma pastoral embasada nas Diretrizes, o que mais penetrará na ação
367
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 394.
368
Para uma análise destes PB, cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 393-
403.
369
Para uma análise destes PB, cf. QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 398.
123

pastoral da Igreja será o objetivo geral, presente em quase todos os planos diocesanos do país

e o Esquema das seis dimensões. As seis linhas permanecerão como estão até o ano de 1995.

As Diretrizes Gerais da Ação Pastoral foram de quatro em quatro anos revisionadas

de acordo com os documentos publicados, sejam eles de natureza Pontifícia ou Continental,

como é o caso de Puebla e Santo Domingos, além do contexto social vigente. Embora fosse

aperfeiçoando o seu Objetivo Geral de acordo com essas realidades acima mencionadas,
370
mantiveram também as seis linhas ou dimensões pastorais . No que se refere aos Planos

Bienais, a Igreja do Brasil mantém essa prática até nos dias vigentes.

Nos anos em que se seguiram a Medellín, mesmo sob o contexto ditatorial iniciado

em 1964 e recrudescido nos anos 70371, irromperam-se grandes iniciativas de ações pastorais

em solo eclesial brasileiro como forma de aplicação de suas conclusões. Foram muitas as

iniciativas, tais como a Pastoral Indiginista criada em 1972, denominada CIMI372, a CPT, ou

seja, Comissão Pastoral da Terra, iniciada na Amazônia, mas estendida para todo o Centro-

Oeste, Nordeste, São Paulo e pelo Sul do País, a PO, ou Pastoral Operária. Pelo final dos anos

de 1977, devido a grande contingência de meninos e meninas de rua, de maneira especial em

São Paulo, tem-se a gênese da Pastoral do Menor. Iniciativas como essas, cuja índole é

marcadamente profética junto aos marginalizados e empobrecidos, surgem também as

370
Cf. CNBB. DGAP 1975-1978. (Documentos da CNBB n. 4). São Paulo: Paulinas, 1975. Nas DGAP
posteriores – 1979-1982, é clara e incisiva a influencia da EN e de Puebla, como parece no Objetivo Geral:
“Evangelizar a sociedade brasileira em transformação a partir da opção pelos pobres, pela libertação integral do
homem, numa crescente participação e comunhão, visando à construção de uma sociedade fraterna, anunciando
assim o Reino definitivo”. Cf. CNBB. DGAP 1979-1982. (Documentos da CNBB n. 15). São Paulo: Paulinas,
1979.
371
Acerca do Regime Militar, cf. WANDERLEY, L.E. Desafios da Igreja Católica e política no Brasil. In:
INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu
de ouro da CNBB. Op. cit. p. 463-470. A ação do episcopado brasileiro se faz sentir pelos seus vários
documentos regionais, como: "Ouvi os clamores do meu povo" (Nordeste, 1972), "O índio, aquele que deve
morrer" (Amazônia, 1973), "Não oprimas teu irmão" (Episcopado paulista, 1975), "Marginalização de um povo"
(Goiânia, 1985) e principalmente um em nível nacional: "Exigências cristãs de uma ordem política" (CNBB,
1977). Também se verifica a atuação do episcopado nacional pela criação da Comissão de Justiça e Paz, órgão
de defesa dos direitos humanos e de denúncia frente à violência. Um nome fundamental no diálogo com a
sociedade civil, nacional e internacional, é o do Cardeal Arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo
Arns. Cf. LUSTOSA, O.F. A Igreja Católica no Brasil República: cem anos de compromisso (1889-1989). São
Paulo: Paulinas, 1991. p. 166-174.
372
Cf. DE CAMPOS, J. N. Brasil: uma Igreja diferente. São Paulo: T. A. Queiroz, Editor. 1981. p. 123-147.
124

“Pastorais da Saúde, da Educação, dos Povos Nômades, dos Encarcerados, da Mulher


373
Marginalizada, dos Afros-descendentes, dos Sem Teto” . Contudo, a grande marca

característica deste momento, foram as CEBs 374.

Todas estas iniciativas tinham em seu bojo a opção fundamental de Medellín, ou

seja, a “opção preferencial pelos pobres”, que se tornou para Igreja a sua bandeira, sua glória

e seu martírio. Também, em torno dessas pastorais sociais e organismo, a Igreja desenvolveu

o seu grande projeto de “evangelização libertadora”. Sendo assim, lentamente, mas, com

eficiência, a Igreja foi colocando “os pobres no centro de todas as suas preocupações pastorais

e teológicas”, num grande esforço para que eles assumissem “cada vez mais seu papel de
375
sujeitos da história” . O objeto pastoral mais eficiente para essa abordagem deu-se na

irradiação das comunidades eclesiais de Base, que, embora não seja uma invenção de

Medellín, são, contudo, o seu resultado mais polarizador em toda a Igreja do Brasil.

É difícil estabelecer, com precisão, o momento exato do surgimento da primeira CEB

no Brasil. Em geral, registra-se a origem no começo dos anos 60, sob influxo da experiência

de catequese popular na Barra do Piraí (1956) ou do Movimento da Diocese de Natal, ou

ainda do Movimento de Educação de Base.

O contexto sócio-cultural e eclesial brasileiro contribuiu para a eclosão das CEBs.

Não se pode negar a influência do esforço da Ação Católica na questão da cidadania, os

esforços de renovação pastoral do Movimento para um Mundo Melhor e dos Planos de

pastoral da CNBB - Plano de Emergência e Plano de Pastoral de Conjunto - e também a

rearticulação da pastoral popular, após o golpe militar de 1964. Alguns falam da gênese

373
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
392. O testemunho de Luis Alberto Gomes de Souza é muito contundente, quanto afirma que num “tempo de
repressão, de dureza, ela –a Igreja– situou-se como resposta, como espaço de rebeldia. [...] É Interessante ver
como ela, ao se opor, cresceu em testemunho e profecia”. Cf. BARROS, R. C. Gênese e consolidação da CNBB
no contexto de uma Igreja em plena renovação. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença
Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 57.
374
Para uma compreensão de sua gênese, desenvolvimento e desafios, cf. TEIXEIRA, L.C. As CEBs no Brasil:
cidadania em processo. In: REB, Petrópolis, v. 53, n. 211, p. 596-615, [setembro] 1993.
375
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 132.
125

remota das CEBs nas experiências de iniciativa leiga do catolicismo popular que teve a sua

marca original até a segunda metade do século XIX.

Todas essas influências não explicam completamente a gênese das CEBs no Brasil. É

ainda necessário mencionar os movimentos mais amplos de renovação eclesial, iniciados no

início do século XX, e sancionados pelo Concílio Vaticano II. Parece que o elemento

detonador das CEBs no Brasil foi exatamente a experiência única e marcante do Vaticano II.

Esse Concílio revelou seu potencial pastoral em sua abertura para o mundo e para a história e,

ao mesmo tempo, sua densidade de reflexão, postulando a imagem da Igreja como sendo o

Povo de Deus a caminho. As CEBs resgataram esses filões através da releitura que a

Conferência de Medellín, e mais tarde, de Puebla, fizeram na América Latina. Medellín

preencheu o imaginário eclesial com a temática da Libertação e Puebla, com a evangélica

opção pelos pobres. Raimundo Caramuru Barros diz que:

Podemos afirmar que as CEBs vieram como um substituto da Ação Católica, uma

vez que esta, com os avanços do Concílio, já não tinha condições de continuar. O

patrimônio da ação Católica é assimilado pela CNBB e, para que os leigos

participassem, as CEBs foram o grande instrumento. Inclusive, elas até respondiam

a um problema que a Ação Católica nunca chegou a resolver, que era o da inserção

nas paróquias. De fato, com a decorrência do Concílio, surge uma nova maneira de

ser Igreja, na qual as CEBs vão se inserir plenamente 376.

376
BARROS, R. C. Gênese e consolidação da CNBB no contexto de uma Igreja em plena renovação. In:
INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu
de ouro da CNBB. Op. cit. p. 57.
126

Pelo fato de estar difundida em quase todo o território eclesial brasileiro, tem-se certa

dificuldade em encontrar traços homogêneos e constantes em todas as CEBs; porém, há

alguns elementos que, em geral, podem ser detectados 377.

Um elemento é a territorialidade, isto é, as pessoas de uma comunidade estão

situadas num território geográfico específico. É muito fácil que se conheçam e que

estabeleçam relações e contatos. "Base" significa propriamente essa concentração de pessoas

num povoado ou num bairro. As experiências históricas mostram que, muitas vezes, foram

essas comunidades que ajudaram a reivindicar serviços básicos, como água, luz, etc e a

reorganizar a vida do bairro.

A leitura e a reflexão sobre a Palavra de Deus é outro traço característico das CEBs.

Muitas comunidades começaram como reuniões bíblicas que iluminavam a vida das pessoas.

Na medida em que a vida comunitária se organizava foi introduzido também o culto

dominical ou a celebração da Eucaristia 378.

A participação e a discussão dos problemas em forma de assembléia caracterizaram

muitas Comunidades de Base. A metodologia participativa inclui a colaboração de todos na

discussão, na solução e no encaminhamento concreto do problema. Se, por exemplo, o tema é

o desemprego, há no final um compromisso concreto, que é assumido por todos: preparam-se

cestas com alimentos básicos que são distribuídas aos desempregados. Esse espírito

desencadeou a emergência de ministérios leigos que foram se multiplicando a partir das

exigências da comunidade: há ministros da Palavra, ministros da Eucaristia, ministros da

pastoral da moradia, do trabalho, do menor. Muitos serviços englobam mulheres e homens em

clubes e pequenas organizações: hortas comunitárias, clubes de mães, alfabetização de adultos

e, muitas vezes, grupos de sustentação dos movimentos populares. Esses serviços destacam o

compromisso das CEBs com os mais pobres e a relação conseqüente entre fé professada e

377
LIBANIO, J. B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 135.
378
Cf. ARIOVALDO, J. Celebrações dominicais na ausência do presbítero. A propósito de um Documento da
Santa Sé. In: REB, Petrópolis, v. 49, n. 194, p. 411-417, [junho] 1989.
127

vida concreta. É propriamente o compromisso com as camadas mais desfavorecidas da

população que tornaram as CEBs profundamente ativas no campo social. O pobre não é visto

como problema, mas como solução no processo de construção de uma nova sociedade.

Por fim, o horizonte para o qual as CEBs se deslocam é a prática concreta de Jesus e

o sonho de realizar o Reino de Deus. Termos como justiça, fraternidade, solidariedade,

compromisso e caminhada revelam, de um lado, o seguimento de Jesus e, de outro, a vontade

de implantar concretamente o Reino de Deus.

Impulso importante para a caminhada das CEBs deu-se no ano de 1975 quando Paulo

VI publicou a Exortação Apostólica EN. Nesta, as CEBs ganharam reconhecimento oficial

por parte do Pontífice e declaradas como “destinatárias especiais da evangelização e ao

mesmo tempo evangelizadoras” 379.

A forma organizativa das CEBs deu-se com os Intereclesiais. Estes são encontros em

que se reúnem os representantes das CEBs vindos de todas as partes do Brasil, cujo objetivo é

avaliar a caminhada. Esse fato representa uma oportunidade de envolver as dioceses do País e

representantes de outras igrejas. Além disso, os Intereclesiais cumprem a finalidade de ser

memória viva da caminhada da Igreja. Desde 1975 até hoje, foram realizados onze

Intereclesiais 380.

Com o passar da caminhada, as CEBs, principalmente nos anos 80, foram

visivelmente contestadas pela Cúria Romana, no que concerne aos seus desvios e no que

tange à atividade partidária, assim como, a acusação de se tornarem uma “igreja” paralela à

379
EN 58.
380
BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit.
p. 130.
128

Igreja 381, fato que Puebla, no final da década de 70, já tinha alertado 382.

Toda a Igreja da América Latina, além da proliferação das CEBs, estava sob o signo

da Libertação. Tendo suas raízes em Medellín, foi objetivada primeiramente pelo Teólogo

Gustavo Gutiérrez, quando da publicação, em 1971, de sua obra intitulada Teologia da

Libertação. No Brasil teve como maior expoente, Leonardo Boff. A Teologia da Libertação

trabalha os pontos afirmados em Medellín: a aproximação fé-vida como caminho

para viver o cristianismo; o compromisso com os pobres, sobretudo por meio das

comunidades de base; releitura dos conteúdos da teologia, privilegiando os pobres;

a ação política como forma de superar as atuais injustiças sociais. Essa maneira de

fazer teologia, que vai se sistematizando aos poucos, explica os caminhos pastorais

trilhados pela Igreja latino-americana na década de 70 a aponta para os

compromissos assumidos em Puebla. Na verdade, é esse pensamento que conduz a

Igreja da América Latina de Medellín a Puebla 383.

Como conseqüência imediata do desenvolvimento da TdL é a criação do conceito

Igreja da Libertação ou Igreja Popular, cujas preocupações centrais são “as comunidades

eclesiais de base e as pastorais sociais” 384. Neste ínterim, entende-se a fantástica produção de

inúmeras pastorais sociais.

381
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
391. Também, DE CAMPOS, J. N. Brasil: uma Igreja diferente. Op. cit. p. 72-74. O interessante artigo do Pe. J.
COMBLIN apresenta esta problemática acerca das CEBs em relação às Paróquias, exigindo para a primeira, a
liberdade, autonomia. O Direito de Associação na Igreja. In: REB, Petrópolis, v. 53, n. 211, p. 515- 543,
[setembro] 1993.
382
Cf. DP n. 98,261,262,630. Também, JOÃO PAULO II. Discurso Inaugural pronunciado no seminário
Palofoxiano de Puebla de Los Angeles, México, em 28 de janeiro de 1979. In: CONCLUSÕES DA
CONFERÊNCIA DE PUEBLA: Evangelização no presente e no futuro da América latina – Texto Oficial. São
Paulo: Paulinas, 1987. p. 18-23.
383
MANZATTO, A. As Primeiras Conferências do CELAM. In: Vida Pastoral, São Paulo, ano XLVII, n. 249,
p. 5, [julho/agosto] 2006.
384
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p.138.
129

Ao final da década de 70, diante de toda essa nova consciência eclesial emitida por
385
Medellín, surgiram centros de oposição . Segundo o Pe. Libanio, três tendências se

confrontavam:

Um grupo conservador, por razões sociais e teológicas, considerava o processo

desencadeado por Medellín e colocado sob sua égide contaminado pelo marxismo e

por uma visão deturpada de Igreja, por isso mesmo, também teologicamente

condenável. Propugnava profunda correção de rota teológico-pastoral da Igreja da

América Latina. Um segundo grupo defendia a continuação com as decisões

tomadas em Medellín, aprofundando-lhes ainda mais as conseqüências nos

diferentes campos. E um terceiro grupo procurava situar-se no meio, propugnando

certa matização das opções de Medellín, sem, porém, negar-lhe a inspiração

profunda. No fundo, estava em jogo a trajetória que a Igreja da América Latina

vinha percorrendo desde depois do Concílio até Puebla 386.

2.2.2. PUEBLA: SINAL DE EQUILÍBRIO NA COMUNHÃO E NA PARTICIPAÇÃO

Puebla, a III Conferência do episcopado latino-americano, realizada em Puebla de

Los Angeles, México, entre os dias 28 de janeiro a 15 de fevereiro de 1979, é o resultado de

dez anos de intensa procura de consolidação das conclusões de Medellín. Como já se sabe,

Puebla foi convocada por Paulo VI, reconfirmada por João Paulo I, mas realizada por João

Paulo II, devido à morte dos dois Papa antecessores.

385
CF. ROLIM, F.C. Neoconservadorismo Eclesiástico e uma Estratégica política. In: REB, Petrópolis, v. 49, n.
194, p. 259-281, [junho] 1989. Memorandum de Teólogos da Alemanha Federal sobre a Campanha contra a
Teologia da Libertação. In: REB, Petrópolis, v. 37, n. 148, p. 788-792, [dezembro] 1977.
386
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 127-128.
130

Como marca característica dessa terceira Conferência, além da sucessiva morte dos

Pontífices, tem-se também a eleição do Papa João Paulo II que será, para a Igreja Latino-

americana, um divisor de águas. O Pe. Libanio, aludindo a isto, diz:

Três fatores eclesiais marcaram as decisões da conferência de Puebla: a pujante

vida eclesial da América latina, a presença do papa João Paulo II, recém-eleito, e a

linha dominante do secretariado organizador da assembléia. O documento será um

equilíbrio, às vezes frágil e conflituoso entre essa tríplice influência básica 387.

Quanto à expectativa de continuidade de Medellín, é clara a dupla posição do novo

Pontífice: a primeira, de continuidade com a herança de Medellín, quando com insofismável

clareza, afirmava “a gravidade da problemática social do continente, manifestando reservas

críticas às ideologias vigentes: capitalistas, socialistas e da segurança nacional. Assumiam a

defesa, com valentia e sem regateios, dos direitos inalienáveis da pessoa humana” 388.

De outro lado, refletia seus temores e receios diante de posturas extremas:

Nestes dez anos quanto caminhou a humanidade e com a humanidade e a seu

serviço, quanto caminhou a Igreja. Essa III Conferência não pode desconhecer esta

realidade. Deverá, pois, tomar como ponto de partida as conclusões de Medellín,

com tudo o que tem de positivo, mas sem ignorar as incorretas interpretações por

387
Ib. p. 128.
388
Ib. p. 128.
131

vezes feitas e que exigem sereno discernimento, oportuna crítica e claras tomadas

de posição 389.

O tema desta Conferência – Evangelização no presente e no futuro da América

Latina - está em profunda sintonia com a Encíclica EN de Paulo VI, promulgada quatro anos

antes, em 1975. O Documento se desdobra em cinco partes, a saber: I visão pastoral da

realidade da América Latina; II Desígnio de Deus sobre a América Latina; III A

Evangelização na Igreja da América Latina: comunhão e participação; IV A Igreja

missionária a serviço da evangelização na América Latina; V Opções Pastorais.

Todo o Documento está estruturado segundo o método Ver, Julgar e Agir, já

consagrado em Medellín. A partir dele, constata que a desgraça da injustiça social é um

pecado a combater. Nesse sentido, na esteira da EN, declara que o caminho da evangelização

passa necessariamente pelo víeis da promoção da dignidade humana 390.


391
Para tanto, Puebla ratifica as CEBs e faz duas opções preferenciais: uma,
392 393
pelos Jovens e outra, pelos Pobres . No que diz respeito à opção pelos pobres, para

disseminar qualquer tipo de ideologia a seu respeito, acrescenta-lhe uma roupagem mais

teológica do que ideológica, quando os olha como tipo dos anwin. O Pobre aqui não é

389
JOÃO PAULO II. Discurso Inaugural pronunciado no seminário Palofoxiano de Puebla de Los Angeles,
México, em 28 de janeiro de 1979. In: CONCLUSÕES DA CONFERÊNCIA DE PUEBLA: Evangelização no
presente e no futuro da América latina – Texto Oficial. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 16.
390
Cf. É conhecida pela revelação: DP n. 316,319-320; Como valor evangélico: DP n. 1254; Jesus a restaura: DP
n. 331; consiste em ser mais e não em ter mais: DP 339; é constantemente violada: DP n. 41; atropelada, DP n.
1261-1262.
391
Cf. O que é: DP n. 641-643; amadureceu muito e se multiplicou: DP n. 96; começaram a produzir frutos: DP
n. 97; reconhece-se sua vitalidade: DP n. 156; torna possível uma Intensa vivencia da Igreja como Família de
Deus: DP n. 239; seus frutos positivos: DP n. 629, 640; em alguns lugares são manipuladas por políticos: DP n.
98, ou vão perdendo seu sentido eclesial: DP n. 630, ou degeneram para a anarquia organizativa ou para o
elitismo fechado e sectário: DP n. 261, ou na Igreja “Popular”: DP n.262,263; sua fé deve ser a da Igreja
universal: DP n. 373; devem ser promovidas, orientadas e acompanhadas: DP n. 648, também nas grandes
cidades: DP n. 648. Também, DE CAMPOS, J. N. Brasil: uma Igreja diferente. Op. cit. p. 92-102.
392
Cf. DP n.1166-1205.
393
Cf. DP n. 1135-1165. Também, DE CAMPOS, J. N. Brasil: uma Igreja diferente. Op. cit. p. 87-92.
132

entendido como o necessitado, mas como aquele que é explorado, oprimido. Nos números 31

a 49, o Documento apresenta esses rostos 394.

Para tanto, Puebla propõe para toda ação eclesial o princípio da “Comunhão e da

Participação”, como princípios constitutivos para uma autêntica e verdadeira libertação.

A Igreja no Brasil, na década de setenta, viveu o seu momento áureo de vitalidade e

de formação de uma nova e original identidade, seja pelos progressivos passos na esfera

Pastoral Orgânica ou de conjunto, seja pela aplicação dos conceitos renovadores e

provocadores de Medellín, principalmente, enquanto criação, sustentação e multiplicação das

CEBs e de um suporte teológico, que, não sendo eminentemente original, foi profundamente

explorado e aplicado com profundidade, segundo o contexto vital da época. Embora sua

postura social tenha sido forjada anteriormente à década de 60 e 70, só com o advento do

Concílio Vaticano II e com sua aplicação em Medellín é que essa postura passou de ser de um

grupo progressista para uma mentalidade, uma identidade, uma consciência eclesial.

3. O TERCEIRO PERÍODO: UM REPENSAR A SUA IDENTIDADE - 1980-

1994

Esse terceiro período de nossa caminhada pastoral terá como marca profunda a

influência do novo Pontífice João Paulo II395 com suas novas orientações, principalmente no

que se refere à ala progressiva da Igreja, aos desvios das CEBs, como já alertara o Documento

394
São eles: os Indígenas e afros-descendentes, camponeses sem terra, operários, desempregados e
subdesempregados, marginalizados e aglomerados urbanos, jovens frustrados socialmente e desorientados,
crianças golpeadas pela pobreza, menores abandonados e carentes, a mulher. Em outros textos, ainda acrescenta
os migrantes e as prostitutas.
395
Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op.
cit. p. 224-225.
133

de Puebla e, por fim, a TdL. Esse período será de grande tensão, no que concerne à construção

ou manutenção da Identidade eclesial, como bem afirma Mainwaring: “Entretanto, por volta

de 1982, as pressões dos conservadores contra a Igreja brasileira aumentaram e ela começou a

se movimentar num ritmo mais cauteloso e se tornou um agente político de menor

importância” 396.

3.1. A DÉCADA DE 80: CONFLITO ENTRE MENTALIDADES

3.1.1. A RELAÇÃO ENTRE IGREJA DO BRASIL E A SANTA SÉ: CONFLITO DE

PROJETOS

A relação entre a Igreja do Brasil e a Santa Sé, na passagem da década de 70 a 80,

passou de um apoio e estímulo à contenção e intervenção. Isto se deve, eminentemente, pelo

caminho difícil de conciliação no que concerne à postura eclesial a tomar 397.

Como bem afirma o Pe. Beozzo, essa forma de contenção é fruto já de Puebla e da

visita do Papa ao Brasil. Contudo, “Puebla, em boa parte devido à atuação decidida da

delegação brasileira, reafirmou as pautas centrais de Medellín, como a opção preferencial

pelos pobres. E a viagem do papa, em suas grandes linhas, foi sentida como um apoio ao

trabalho da Igreja do Brasil” 398.

Desde o final da década de 70, a Igreja do Brasil já começava a sentir esse clima

conflitante com Roma, quando da sua não aceitação do projeto “Jornadas Internacionais por

uma Sociedade superando as dominações”. Como ponto conflitante ainda se situa algumas

396
MAINWARIN:G, S. Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 265.
397
BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit.
p. 213. Também do mesmo autor, Igreja do Brasil e Santa Sé. In: Vozes, Petrópolis, ano 75, p. 21, [janeiro-
fevereiro] 1981.
398
BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit.
p. 224-225.
134

posturas tomadas pela Igreja do Brasil, que, segundo Roma, eram incompatíveis para o

momento 399.

No ano de 1969, a CNBB, quando da sua 10ª Assembléia Geral em São Paulo400,

diante do déficit de sacerdotes, reflete acerca dos ministérios e vota pela possibilidade da

ordenação de homens casados e da prestação de alguns serviços pastorais por parte daqueles
401
sacerdotes que outrora haviam deixado o ministério . Outro ponto tomado pela Igreja do

Brasil é referente á inculturação da Liturgia em meios às camadas sociais menos prestigiadas,

como os negros e os índios 402.

Fato marcante do início da década de 80 que, explicitamente, elucida esse clima de

desarmonia, é a intervenção de Roma, por carta endereçada a todos os bispos pela pessoa do

cardeal Baggio, proibindo os bispos de participarem do Congresso Internacional Ecumênico

de Teologia. Este foi realizado entre os dias 21 de fevereiro a 1º de março em São Paulo,

durante o dia e a noite, na PUC, para um público de mais de duas mil pessoas das CEBs. Esse

evento fora promovido pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo

(ASETT), sob a presidência do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e do bispo metodista, Dr.

399
Cf. CNBB. “Lançamento das Jornadas Internacionais por uma sociedade superando as dominações”. In: CM,
n. 286, p. 626-634, [julho] 1976. Id. “Circular do Presidente da CNBB (24/07/1976, p-c, n. 1498/76) sobre as
‘jornadas [...]”. In: CM n. 289, p.1041-1045, [outubro] 1976. “Votações pela continuidade do projeto na XV
Assembléia Geral da CNBB (Itaici, 8 a 17 fevereiro 1977); 194 votantes, 142 favoráveis, 21 contra e 31
abstenções”. In: CM n. 293, fevereiro 1977, p. 229; “jornadas (...)” In: CM, n. 293, p. 391-397, [fevereiro] 1977.
(Informando sobre o andamento do projeto e as adesões Internacionais); PADIN, D, Cândito, “Circular aos
presidentes das Conferências Episcopais latino-americanas sobre as Jornadas Internacionais (Rio de Janeiro,
16/07/1977 – SG. N. 1.472/77”. In: CM, n. 298, p. 865-866, [julho] 1977. (O CELAM recusa sua adesão para
“não aparecer como uma pressão sobre as Conferências Episcopais”). Apud BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil:
De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit. p. 293-294.
400
Beozzo, na página 214 da obra aqui citada faz referencia que foi na IX e não na X A. Geral a eleição para os
delegados para Medellín. Cf. <http://www.cancaonova.com/portal/canais/especial/itaici2005/assegeral2.php.>
Acesso em 25/11/2006.
401
Importante o testemunho do Bispo Dom Valfredo Tepe, no Sínodo de 1990 a respeito “dos porquês” dessa
tomada de posição da Igreja do Brasil. Cf. TEPE, V. Identidade do Padre na situação atual (Intervenção no
Sínodo dos Bispos, Roma, 30/09-28/10 de 1990). In: CM, ano 39, n.445, p. 1332-1333, [outubro] 1990.
402
Durante a XV Assembléia. Geral, realizada entre os dias 8 a 17 de fevereiro de 1977, a CNBB propõem este
projeto a fim de “facilitar uma penetração mais plena da liturgia no coração desta gente simples, através de uma
forma de celebração que seja mais adequada à cultura e às circunstancias que lhe são próprias”. Cf. CNBB.
Diretório para missas com grupos populares. (Documentos da CNBB n. 11) São Paulo: Paulinas, 1977. p. 3. Cf.
também, ponto 1.2 e 1.5. p. 6. Acerca da tomada de posição de Roma. Cf. Carta da Sagrada Congregação para os
Sacramentos e o culto Divino a D. Ivo Lorscheiter – Roma, 2 de março de 1982, n. 1649/81. In: CM, n. 354, p.
258, [março] 1982.
135

Paulo Ayres Matos. Dom Paulo teve que retirar o seu patrocínio por pedido do cardeal

Baggio. Contudo, o Cardeal Arns, recorrendo diretamente ao Papa, pediu-lhe a continuidade

por se tratar de um encontro ecumênico 403.

Diante de tantos entraves, a visita do Papa João Paulo II foi aguardada entre

esperanças e temores. “Esperanças pelas firmes posições que o papa vinha tomando na defesa

dos direitos humanos; temores pela sua orientação mais conservadora no campo teológico-

pastoral” 404. Contudo, sua visita foi um paradoxo para ambas as tendências vigentes na esfera

eclesial 405.

Fato relevante foi a chegada da Carta, datada de 10 de dezembro, muito embora

viesse ao conhecimento do episcopado brasileiro somente em janeiro do ano seguinte, depois

da visita ao Brasil do Papa João Paulo II. Nela, num primeiro momento, tece grande elogio à

Igreja do Brasil por seu espírito incisivo e atuante na realidade social do país. Porém, num

segundo momento, não deixou de expressar sua profunda preocupação quanto aos possíveis

desvios doutrinários e de horizontes, referente à Identidade eclesial.

...não é menos certo que a Igreja perderia sua identidade mais profunda –e, com a

identidade, a sua credibilidade e a sua eficácia verdadeira em todos os campos –se

sua legítima atenção às questões sociais a distraísse daquela missão essencialmente

religiosa que não é primordialmente a construção de um mundo material perfeito,

mas a edificação do Reino que começa aqui...406.

403
Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op.
cit. p. 228-229. Para uma leitura crítica deste acontecimento, cf. DE CAMPOS, J. N. Brasil: uma Igreja
diferente. Op. cit. p. 156-163.
404
BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit.
p. 229.
405
Cf. Ib. p. 229-232.
406
JOÃO PAULO II. Carta aos bispos do Brasil de 10.12.1980. In: COLLANTES, J. A Fé Católica: documentos
do Magistério da Igreja – Das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Lumen Christi. n. 7.289. O documento
completo pode ser apreciado no seu todo In Sedoc, Petrópolis, v. 13, n. 139, p. 807-812, [março] 1981.
136

Nessa mesma Carta, ainda continua:

Mais grave seria a perda de identidade se, a pretexto de atuar na sociedade, a Igreja

se deixasse dominar por contingências políticas, se tornasse instrumento de grupos

ou pusesse seus programas pastorais, seus movimentos e suas comunidades à

disposição ou a serviço de organizações partidárias 407.

Posteriormente, no dia 29 de dezembro, foi ainda recebida uma outra Carta, cujo

remetente era o até então Secretário de Estado, Dom Agostinho Casaroli, dirigida, agora, à

CNBB. Nela, outro dado que suscitaria grande conflito, pois dava “diretrizes muito duras para

a pauta e funcionamento da próxima Assembléia da CNBB, em tom praticamente

desaprovador da conduta até então seguida pela entidade” 408. Como resposta, o Presidente da

CNBB, Dom Ivo Lorscheiter, respondeu ao Papa em Carta datada de 14 de janeiro de 1981.

Nela expressa sua perplexidade e de toda a Igreja do Brasil 409.

Contudo, em visita mais tarde ao Santo Padre, no dia 19 de janeiro, em audiência

com o mesmo e com o cardeal Casaroli, pôde resolver todo esse impasse da melhor forma.

Quando da abertura da XIX Assembléia Geral, realizada entre os dias 17 a 26 de fevereiro,

em Itaici e Indaiatuba, o Presidente Dom Ivo apresentou um telex recebido do Papa em que

reiterava a sua unidade com os bispos do Brasil 410.

Ademais, muitos outros pontos desgastantes formaram a agenda conflituosa dos anos

80 entre a Igreja do Brasil e a Santa Sé, entre os quais, três merecem maior destaque, como
407
JOÃO PAULO II. Carta aos bispos do Brasil de 10.12.1980. In: COLLANTES, J. A Fé Católica: documentos
do Magistério da Igreja – Das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Lumen Christi. n. 7.290.
408
Adendo à Ata n. 1 acerca da Reunião Privativa que precedeu à solene sessão de abertura da XIX Assembléia
Geral da CNBB – 17/02/1981. In: CM. n. 341. p. 68-70. [Fevereiro] 1981. Cf. também BEOZZO, J. O. A Igreja
do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit. p. 232-234.
409
Cf. Carta de Dom. Ivo Lorscheiter a João Paulo II - Brasília 14 de janeiro de 1981. In: CM, n. 340, p. 20-21.
[janeiro] 1981.
410
Cf. XIX ASEMBLÉIA DA CNBB. Adendo à ata n. 1. In: CM, n. 341, p. 69, [fevereiro] 1981.
137

apresenta o Pe. Beozzo: a controvérsia em torno da TdL, incluindo de modo especial o caso

do frade Leonardo Boff 411, a formação sacerdotal 412 e a nomeação dos bispos 413.

Conforme o Pe. Godoy, apesar de todo esse cenário conflituoso, que encerra a

década de 80, a Igreja do Brasil ainda foi “bastante vibrante, não sem, porém, um crescente

fosso entre as duas alas bem marcadas: uma que incentiva a participação da Igreja na

construção da sociedade democrática e outra que concretamente se fechava nos assuntos

internos” 414.

Na metade da década de 80, realizou-se em Roma um Sínodo extraordinário dos

Bispos, convocado por sua Santidade o Papa João Paulo II, por ocasião dos vinte anos do

encerramento do Concílio Vaticano II, a fim de fazer um balanço retrospectivo. A conclusão é

clara: há duas correntes de interpretação e de aplicação no pós-Concílio. A primeira, mais

411
Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ: Instrução Libertatis nuntius sobre alguns aspectos da
“Teologia da Libertação”. 6.8.1984. In: COLLANTES, J. A Fé Católica: documentos do Magistério da Igreja –
Das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Lumen Christi. n. 7327ss. Instrução Libertatis conscientia sobre a
liberdade cristã e a libertação. 22.3.1986. In: COLLANTES, J. A Fé Católica: documentos do Magistério da
Igreja – Das origens aos nossos dias. Rio de Janeiro: Lumen Christi. n. 7401ss. Também, BEOZZO, J. O. A
Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit. p. 237-266. Também,
RATZINGER, J. Instrução sobre a Teologia da Libertação. In: REB, Petrópolis, v. 44, n. 176, p.691-694,
[dezembro] 1984. Da mesma edição são todos os outros artigos que se seguem: ALMEIDA, L.M. Subsídios
para o estudo da Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação” (ITL). p. 695-699;
LORCHEIDER, A. Observações a respeito da “Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação”. p.
700-708; BOFF, L.; BOFF, C. Em vista do novo Documento Vaticano sobre a Teologia da Libertação. p. 709-
725; BRASIL, H. R. de L. Observações acerca da “Instrução sobre alguns aspectos da ‘Teologia da
Libertação’”. p. 726-735; SANTA ANA, J. Luzes e sombras no texto Vaticano sobre a Teologia da Libertação.
p. 736-743; MUÑOZ, R. Os dois princípios básicos no documento da Santa Sé. p. 744-748; RICHARD, P.
Avanços e recuos no Documento sobre a Teologia da Libertação. p. 749-755; CAVAZZUTI, T. Algumas
distinções necessárias na leitura do Documento sobre a Teologia da Libertação. p. 756-763; SCHILLEBEECKX,
E. A Instrução sobre a Teologia da Libertação se dirige a um intelector errado. p. 764-767; LA VALLE, R. A
verdadeira refutação do ateísmo pela Teologia da Libertação. p. 768-769; MADURO, O. Nota sobre o marxismo
da Instrução Vaticana. p. 770-773; ZIZOLA, G. Reações da opinião pública ao Documento do Santo Ofício. p.
774-780; CASTILLO, F. Os Cristãos e o Marxismo: um problema com história. p. 781-792; GUTIÉRREZ, G.
Teologia e Ciência sociais. p. 793-817; Na parte de Documentação, tem-se a alocução do Papa aos bispos do
Peru por ocasião de sua visita Ad Limina. A Igreja não precisa recorrer a ideologias estranhas à fé. p. 835-839;
Na parte de Crônica Eclesiástica, tem-se o relato do frei Leonardo Boff para esclarecer acerca dos pontos
doutrinários do livro Igreja: carisma e poder: BOFF, L. Minha convocação à Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé: um testemunho pessoal. p. 845-852. No que se refere ao caso Boff, pode ser apreciado entre
outros estes artigos publicado pela REB: PALACIO, C. Da polêmica ao debate teológico – A propósito do livro
Igreja: carisma e poder. In: REB, Petrópolis, n. 166, p. 261-288. Censura romana: Teólogo observará silencio
obsequioso. In: REB, Petrópolis, v. 45, n. 179, p. 595-604, [setembro] 1985.
412
BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit.
p. 266-278.
413
Ib. p. 279-289.
414
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
393-394.
138

progressista que crê “pôr-se na esteira daquele espírito que soprou no Concílio e animou a
415
renovação dos anos pós-conciliares” . A segunda, mais conservadora, além de tecer uma

lista de males advinda não do Concílio, mas de sua má interpretação, constata um

crescimento, “neste período da secularização, do ateísmo, do materialismo, da indiferença, da

injustiça no mundo, produzindo efeitos negativos no interior da Igreja, sobretudo na incorreta

maneira de compreender-lhe a missão espiritual e a ação temporal” 416.

Tempos antes, o próprio cardeal Ratzinger expressava claramente esse clima

pessimista do pós-Concílio:

O Concílio Vaticano II encontra-se hoje numa luz crepuscular. É incontestável que

os últimos 20 anos foram nitidamente desfavoráveis para a Igreja católica. Os

resultados que se seguiram ao Concílio parecem cruelmente opostos às expectativas

de todos, a começar pelos papas João XXIII e depois do papa Paulo VI. O papa e os

Padres conciliares esperavam uma nova unidade católica e em vez disso foi-se a um

dissenso que – para usar as palavras de Paulo VI – pareceu passar da autocrítica à

autodestruição. Esperava-se um novo entusiasmo e, demasiadas vezes, terminou-se

no tédio e no desencorajamento. Esperava-se um salto para frente, em vez disso,

chegou-se a um processo progressivo de decadência sob a bandeira de um suposto

‘espírito do Concílio’ e desse modo o desacreditaram 417.

Urge necessariamente, após estas constatações por parte da hierarquia curial,

promover um projeto de restauração418 da própria identidade eclesial. Com esse propósito de

restauração, a Igreja por meio de sua estrutura assim como da proposta ministerial do

415
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 155.
416
Ib. p. 156; 157-158.
417
RATZINGER, J. MESSORI. V. 1985. A Fé em crise: o cardeal Ratzinger se Interroga. São Paulo: EPU. p.
16.
418
Ib. p. 23.
139

419
Pontífice vai viver nos anos vindouros a partir da década de 80 um neoconservadorismo ,

que desembocará na arquitetura de um Projeto Hegemônico não visando a uma

reevangelização, mas sim a uma evangelização nova. Nova em seu ardor, em seus métodos,

em suas expressões 420. Oficialmente, o Projeto “Nova Evangelização” foi lançado no Haiti na

XIX Assembléia do CELAM, em vista do ano 2000.

A necessidade de um projeto centralizador, em que a disciplina fosse novamente

restaurada no interior da Igreja, seja para os fiéis, seja para a sua hierarquia, já fora sentida a

sua necessidade no final do pontificado de Paulo VI 421, perpassando o brevíssimo pontificado

de João Paulo I 422 e, é claro, estruturada no pontificado de João Paulo II 423.

Esse Projeto de Restauração traz em seu bojo três movimentos circulares:

Num primeiro, o mais importante e fundamental, busca-se um ponto dogmático

central, em torno do qual tudo deve girar. A preocupação doutrinal pede que se

tenha clareza sobre as verdades a serem ensinadas no interior da Igreja e sobre a

mensagem a ser anunciada a todas as pessoas. Logo de início, impinge-se a esse

primeiro movimento o caráter cristocêntrico. Mais adiante, elabora-se o Catecismo

da Igreja Católica, de cunho universal, que sintetiza, de maneira clara e precisa,

todo o ensinamento fundamental da fé católica em termos atualizados e aceitáveis.

Desse pressuposto teológico cristocêntrico, deduzem-se duas conseqüências

básicas. Uma primeira para o interior da Igreja. Sente-se a necessidade de organizar

as estruturas, a disciplina, vida interna da Igreja de tal modo que ela possa

419
CF. ROLIM, F.C. Neoconservadorismo Eclesiástico e uma Estratégica política. In: REB, Petrópolis, v. 49, n.
194, p. 259-281, [junho] 1989.
420
JOÃO PAULO II. Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM, p. 10. In: SANTO DOMINGO:
IV Conferência Geral do CELAM- Nova Evangelização, Promoção Humana e Cultura Cristã. Petrópolis: Vozes.
1992.
421
Cf. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 163.
422
Cf. JOÃO PAULO I. Primeira radiomensagem. Osservator Romano, ed port. 3. setembro de 1978, p. 6.
423
Cf. JOÃO PAULO II. Sob o signo da fidelidade à luz do Concílio. Osservator Romano, ed port. 27. Outubro
de 1978, p. 1-2.
140

coesamente revigorar a fé de seus membros e cumprir a missão evangelizadora. É o

movimento da ‘volta à grande disciplina’.

E o terceiro movimento dirige-se para fora da Igreja. Nas pegadas da constituição

pastoral Gaudium et Spes e em continuidade com o ensinamento social do

magistério, sobretudo pontifício, a Igreja adota posição destemida e intransigente

de defesa dos direitos humanos. A novidade desse projeto é a estrita vinculação de

tais direitos com a pessoa de Cristo. Pois, na verdade, são direitos derivados, em

última análise, da encarnação do Verbo, que assumiu nossa humanidade e

história 424.

425
Os três movimentos têm como horizonte maior a Nova Evangelização , visto que

só uma Igreja bem estruturada – movimento disciplinar – e coesa em torno da mensagem de

Cristo – cristocentrismo – e aberta aos problemas humanos – movimento social – pode clamar

em alto e bom som: “Povos todos, abri as portas a Cristo” 426.

Contudo, o Projeto integrador não foi totalmente aceito entre os ciclos teológicos e

eclesiais, principalmente em meios latinos. Como é característico desse período, houve a

tentativa de um projeto alternativo. A convivência desses dois projetos foi ora entre tensões,

ora em execução paralela 427. Toda a temática desenrolar-se-á na IV Conferência do CELAM,

em Santo Domingo. Até lá, ocorreram muitas oposições e controvérsias dos dois lados.

424
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 165.
425
Para uma explanação do seu aspecto cristocêntrico, eclesiológico. Cf. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea:
encontro com a modernidade. Op. cit. p. 166-181.
426
Cf. RMi, n. 3.
427
Cf. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 174-181.
141

3.1.2. A IGREJA DO BRASIL E A SUA ATUAÇÃO PASTORAL

Neste ínterim, percebe-se que a evolução da caminhada pastoral da Igreja não parou,

mesmo diante de tantos conflitos internos e externos, seja no plano eclesial, seja no social.

Iniciando a década de 80, a CNBB, ocupou-se de três428 Assembléias Gerais, com o intuito de

abordar e estudar as orientações trazidas pelo Sínodo da Catequese, realizado em 1977, para

poder aplicá-los à realidade vigente. Desta análise, surgiu o documento Catequese

Renovada429 Em sua 21ª. Assembléia Geral, além de publicar esse documento, também

publicou suas novas Diretrizes Pastorais da Ação Pastoral para o quadriênio 1983-1986.

Mantendo-se fiel às seis linhas ou, agora, oficialmente denominadas como dimensões, houve

renovação quanto ao seu Objetivo Geral:

Evangelizar o povo brasileiro em processo de transformação socioeconômica e

cultural, a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem, à luz da opção

preferencial pelos pobres, pela libertação integral do homem, numa crescente

participação e comunhão, visando à construção de uma sociedade mais justa e

fraterna, anunciar assim o Reino definitivo 430.

428
18ª Assembléia Geral realizada entre os dias 05 a 14 de fevereiro de 1980, em Itaici, Indaiatuba-SP. Nela se
ocupou do tema: Catequese: Aplicação da "Catechesi Tradendae". A 19ª Assembléia Geral realizou-se em
Itaici, Indaiatuba-SP entre os dias 17 a 26 de fevereiro de 1981, abordando o tema: Catequese: Apresentação do
Roteiro para "Catequese Renovada". A 20ª Assembléia Geral realizou-se entre os dias 09 a 18 de fevereiro de
1982 em Itaici, Indaiatuba-SP. Nela se ocupou do tema: Catequese: Educação Permanente da Fé.
429
Cf. CNBB. Catequese Renovada: orientações e conteúdo. (Documentos da CNBB n. 26). São Paulo:
Paulinas, 1983.
430
CNBB. DGAP 1983-1986. (Documentos da CNBB n. 28). São Paulo: Paulinas, 1983. p. 6.
142

Fato interessante a partir desta, são as opções pastorais ou destaques pastorais:

jovens, CEBs, Vocação e Ministérios, Família, Leigos e Mundo do trabalho431. Percebe-se

também, uma maior aplicação das conclusões de Puebla.

É desse período, também, toda a controvérsia acerca da Teologia da Libertação,

como já nos referimos acima. Também, em contexto social, a Igreja do Brasil procurou ser

um sinal profético, uma vez que a sociedade brasileira estava passando por sua etapa de

redemocratização. Desse período, dois documentos denotam à contribuição da Igreja, nesse

aspecto: “Por uma nova Ordem constitucional”, de 1986, e “Exigências éticas da Ordem

democrática”, de 1989. O primeiro foi estudado e elaborado na 24ª Assembléia Geral – 9 a 18

de abril – e o segundo, na 27ª Assembléia Geral de 5 a 14 de abril –. Como eco desses dois

documentos, é, ainda, publicado pela CNBB em 1977 o documento: “Exigências cristãs de

uma ordem Política”.

No final dessa década, em sua 25ª Assembléia Geral – 22/04 a 01/05 – foram ainda

publicadas as suas novas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral para o quadriênio de 1987 a

1990. Como de praxe, mantêm-se as seis linhas, mas o Objetivo Geral é modificado:

Evangelizar o povo brasileiro em processo de transformação social, econômica,

política e cultural, anunciando a plena verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o

homem, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, pela libertação

integral do homem, numa crescente participação e comunhão, visando formar o

povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal do

reino definitivo 432.

431
Cf. Ib. n. 106-258.
432
Cf. CNBB. DGAP 1987-1990. (Documentos da CNBB n. 38). São Paulo: Paulinas, 1987. p. 9.
143

Da mesma forma como a anterior, têm-se aqui alguns destaques, tais como: meios de

Comunicação, Juventude e Família 433. No ano seguinte, em sua 26ª Assembléia Geral, de 13

a 22 de abril, nossos bispos tomaram como tema central a ser discutido, a questão da “Igreja:

Comunhão e Missão”. Conscientes da abrangência do tema, mas com grande convicção de

que ele poderia colaborar para o fortalecimento da comunhão eclesial e a renovação da

experiência de fidelidade a Deus Trindade, foi publicado, como fruto de suas reflexões como
434
Documento . Este traz consigo grande influência do Sínodo Extraordinários dos Bispos,

principalmente no que tange à compreensão da Igreja como Comunhão.

Encerrando a década de 80, preocupada com a aplicação litúrgica após os primeiros

vinte anos da promulgação da Sacrosanctum Concilium, depois de grande pesquisa feita pela

linha 4 – dimensão Litúrgica – em sua 27ª Assembléia Geral de 05 a 14 de abril de 1989, foi

publicado o Documento 43 “Animação da vida Litúrgica no Brasil”.

Os leigos, a partir deste choque de projetos e identidades, vão ganhar novo espaço,

principalmente, devido à realização do Sínodo sobre os Leigos, em 1987, e a publicação da

Exortação “Christifidelis Laicis” de 1989. Nesse sentido, é taxativo o que o Pe. Godoy

afirma:

Com o fortalecimento do processo de abertura política somado às novas orientações

eclesiais, a Igreja no Brasil, em meados da década de 1980, vai diminuindo sua

missão social, dizendo que agora chegou a vez dos próprios leigos, organizados nas

suas mais diversas instituições da sociedade civil, garantirem os seus direitos 435.

433
Cf. Ib. n. 150-242.
434
Cf. CNBB. Igreja: Comunhão e Missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da
cultura. (Documentos da CNBB n. 40). São Paulo: Paulinas, 1988.
435
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
394.
144

De toda essa evolução na pastoral eclesial, percebe-se também uma evolução nos

contornos ideológicos em que a sociedade estava sendo moldada. Esse contorno ideológico é

fruto da modernidade, realidade esta que será abordada a partir das próximas Diretrizes, a fim

de melhor explicitar a Verdade da Fé e penetrar numa sociedade pluralista e secularizada o

Evangelho de Jesus Cristo.

3.2. A PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 90

A primeira metade da década de 90 é para a Igreja do Brasil um marco, por se tratar

de sua última formulação das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, assim, como também por ser

o período em que se realizaria a IV Conferência do CELAM em Santo Domingo, marco

decisivo na compreensão da Evangelização e Cultura.

3.2.1. AS DGAP E A PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 90 PARA A IGREJA

DO BRASIL

As novas Diretrizes Pastorais elaboradas para o quadriênio 1991-1994 estudadas e

publicadas na 29ª Assembléia Geral436 de 10 a 19 de abril em Itaici traz em seu bojo uma

ampla consulta aos agentes e organismos de pastoral e às dioceses. Fato importante é a

introdução do lema: “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre”, expressando a sintonia com a

próxima Conferência Episcopal Latino-Americana em Santo Domingo.

Nesse novo Documento, ressalta-se a importância e, ao mesmo tempo, a urgência da

“nova evangelização” e a seguinte prioridade: “o trabalho evangelizador e missionário

dirigido aos católicos não praticantes, a maioria da população. Apesar do batismo e de certa
436
Cf. Ata n. 6 de 15 de abril de 1991, n. 10-40; 42-46. In: CM. Ano 40, n. 450, p.478-484, [abril] 1991. Ata n. 7
de 16 de abril de 1991, n. 4-8; 60-61; 87. In: CM. Ano 40, n. 450, p.492-493;498;500, [abril] 1991. Ata n. 8 de
17 de abril de 1991, n. 59-67; 80; 83-95; 99-104; 118; 121-129; 132-144. In: CM. Ano 40, n. 450, p. 507;509-
514, [abril] 1991. Ata n. 9 de 18 de abril de 1991, n. 9; 11-12; 15; 18-21; 25-31; 34-41; 43-44; 113-136. In: CM.
Ano 40, n. 450, p. 515-518; 524-526, [abril] 1991.
145

religiosidade, eles se acham, de fato, afastados da comunidade eclesial ou só ocasionalmente

dela se aproximam” 437.

As novas Diretrizes Pastorais estão situadas num vasto cenário doutrinal, sou seja,

em âmbito nacional destaca-se a criação da “Assembléia Nacional dos Organismos do Povo

de Deus”, em 1991, facilitando a participação de membros de todos os segmentos na vida e na

construção da Pastoral. Em nível continental, a proximidade dos 500 anos de evangelização e

a IV Conferência, cujo tema seria a Evangelização, fizeram com que a Igreja repensasse sua

postura evangelizadora 438. Por fim, no que tange ao cenário doutrinário, enquanto Magistério

Pontifício, tem-se, no ano de 1990, a publicação da Encíclica missionária Redemptoris Missio

de João Paulo II, cuja insistência recaía sobre a temática da “Nova Evangelização” 439.

Para a sua preparação foi elaborado um documento de consulta440, cuja finalidade

última era: avaliar o quadriênio passado441 com as respectivas contribuições das 244

circunscrições eclesiásticas. Destas, 151, ou seja, 61.8% responderam ao questionário, que

teve como último prazo para a devolução o dia 20 de agosto de 1990.

Para os próximos anos, segundo as respostas dadas e tabuladas, as realidades que

estão merecendo maior preocupação são: 1º) o crescimento das seitas; 2º) a

pastoral social; 3º) a pastoral urbana; 4º) a formação de líderes/agentes de pastoral;

5º) as vocações; 6º) as CEBs; 7º) a questão da terra; 8º) a pastoral da juventude, etc.

437
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. p. 8.
438
PARKER, C. G. Desafios ao Cristianismo nos 500 anos de Evangelização na América Latina. In: REB,
Petrópolis, v. 50, n. 200, p.950-955, [dezembro] 1990.
439
Cf. CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 59-61.
440
CNBB. Sociedade Brasileira e Desafios Pastorais. São Paulo: Paulinas, 1990.
441
Na Assembléia Geral foram apresentados dois textos: o primeiro de IVERN, F. “Além da conjuntura: a
missão profética da Igreja” e o segundo e ABREU, A. “Plano Collor (ou o Terceiro Cruzado)”. Cf. Ata n. 4 de
13 de abril de 1991, n. 18-40, In: CM. Ano 40, n. 450, p. 469-472, [abril] 1991. Os textos podem ser obtidos em
sua Integra In: CM. Ano 40, n. 450, p. 616-637, [abril] 1991. Também foi retomada esta avaliação.
146

Merecem maior atenção: 1º) a família; 2º) pastorais específicas; 3º) a catequese; 4º)

fome e desemprego 442.

Outro dado importante nessa preparação é o que se refere à pergunta do texto de

consulta nos números 79 a 96, acerca do melhor modo de viabilizar as seis dimensões ou

linhas pastorais, a partir da perspectiva pessoal, comunitária e social. O resultado foi

surpreendente: as respostas pediam a seqüência das seis linhas da seguinte maneira:

1º. Participação na sociedade (linha 6)

2º. Diálogo religioso e missionário (linha 2)

3º. Diálogo ecumênico-cristão (linha 5)

4º. Catequese e formação cristã (linha 3)

5º. Liturgia (linha 4)

6º Comunhão eclesial (linha 1) 443

Contudo, no documento em si, há apenas a mudança de nomenclatura de duas

dimensões, ou seja, a linha 3 passava a ser denominada de “bíblico-catequética” e a linha 6 de

“Sócio-transformadora” 444.

Estruturalmente, o documento está dividido em duas partes, sendo a primeira

direcionada a dissertar acerca dos “Horizontes da Evangelização”. A segunda parte está

subdividida em cinco Capítulos: I. Evangelizar: missão da Igreja; II As Dimensões da

442
AMADO, W. Preparação das Diretrizes Gerais da ação Pastoral da Igreja no Brasil – 1991-1994. REB,
Petrópolis, v. 50, n. 200, p. 957, [dezembro] 1990.
443
Ib. p. 958. Na Assembléia ficou assim determinado: permanecem as 6 atuais dimensões: Sim: 232; Não 3;
Com emendas 11; Em branco 4. Acrescente-se nova dimensão: Sim: 9; Não 137; Com emendas 8; Em branco
103. Permaneça a atual ordem: Sim: 201; Não 16; Com emendas 6; Em branco 31. Reformule-se a ordem: Sim:
24; Não 108; Com emendas 12; Em branco 103. cf. In: CM. Ano 40, n. 450, p. 567, [abril] 1991.
444
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 70.
147

Evangelização; III Mudanças na sociedade e desafios à Evangelização; IV Novas acentuações

na Evangelização; V Os Evangelizadores 445.

Diferentemente das antecessoras, não traz opções ou destaques pastorais446 emitindo

apenas o seu Objetivo Geral:

Evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em

comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para

formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e

solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do

Reino definitivo 447.

O Documento 45, devido à mentalidade evangelizadora irradiada por todos os lados,

seja em nível continental, seja em nível teológico-pontifício, impulsionou a Igreja do Brasil a

uma nova evangelização, como nos apresenta o seu Objetivo Geral. Para tanto, afirma que é

necessário, a retomada do ardor missionário, uma maior e efusiva ênfase na centralidade da

Pessoa de Jesus Cristo, a fim de poder posicionar-se diante da modernidade como resposta

evangélica.

Na sociedade brasileira, a modernidade invadiu a vida urbana e também a rural por

meio das mass mídia. As Diretrizes falam da Modernidade a partir de três aspectos principais:

o Individualismo, o Pluralismo cultural e religioso 448 e as contradições sociais e suas causas

estruturais. Como forma de atuação da Igreja, apresenta três pilares concomitantes entre si:

445
Relatório dos grupos e propostas da Comissão: In: CM. Ano 40, n. 450, p. 573-591, [abril] 1991.
446
Durante a Assembléia Geral foi votado acerca desse tema, ficando assim: A Assembléia definia destaques
nacionais: Sim: 92; Não 112; Com emendas 4; Em branco 40. Cf. In: CM. Ano 40, n. 450, p. 567, [abril] 1991.
447
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 3. A evolução deste
Objetivo Geral pode ser consultada In: CM. Ano 40, n. 450, p. 574-580, [abril] 1991.
448
Cf. A apresentação de Dom Aloísio Sinesio Bohn durante a Assembléia Geral. In: CM. Ano 40, n. 450, p.
680-682, [abril] 1991. Este tema foi abordado pelos bispos durante a Assembléia Geral: cf. ata n. 7 de 16 de abril
de 1991 In: CM. Ano 40, n. 450, p. 477-491, [abril] 1991.
148

valorização da pessoa e da experiência subjetiva; a vivência comunitária e a variação nas

formas de expressão eclesial e a presença e atuação mais viva da Igreja na sociedade.

Diante dessa sociedade, dilacerada pelos efeitos da Modernidade, percebe-se ainda

uma profunda crise ética. É desse momento também a publicação de dois documentos: Doc.

47 - “Educação, Igreja e Sociedade” 449 de 1992 e o Doc. 50 – “Ética, Pessoa e Sociedade” 450

de 1993. Ademais, são iniciadas as “Semanas Sociais Nacionais”, realizadas dentro de uma
451
nova e envolvente metodologia. Importante também ressaltar que os PB de 91-94 deram

especial atenção às dimensões comunitário-participativa e bíblico-catequética, o que parece

ser um sinal da necessidade de uma preparação mais adequada para os novos desafios da

evangelização 452.

Todo esse investimento pastoral da Igreja do Brasil é devido às expectativas que a IV

Conferência Episcopal, que se realizaria em Santo Domingo, estava suscitando, até mesmo

porque, seu tema “Nova Evangelização, Promoção Humana e Cultura Cristã” já era destaque

nos documentos e em reuniões em todo o Brasil.

3.2.2. A CONFERÊNCIA DE SANTO DOMINGO

Entre os dias 12 a 28 de outubro de 1992, na Cidade de Santo Domingo, acontecia a

IV Conferência do Episcopado Latino-Americano. Nesta ocasião, a Igreja da América Latina

encontrava-se num dilema:

449
Foi discutido na 30º Assembléia Geral realizada entre os dias 29 de abril a 08 de maio de 1992 em Itaici,
Indaiatuba.
450
Foi discutido na 31º Assembléia Geral realizada entre os dias 28 de abril a 07 de maio de 1993 em Itaici,
Indaiatuba.
451
Cf. CNBB. 11º Plano Bienal dos Organismos nacionais. (Documentos da CNBB n. 46). São Paulo: Paulinas,
1991-1992.
452
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 58-61. Na
Assembléia Geral ficou assim determinado: Bíblico-catequético: votantes 227, a favor 197. Cf. Ata n. 9 de 18 de
abril de 1991, n. 127, In: CM. Ano 40, n. 450, p. 525, [abril] 1991. Sócio-transformadora: votantes 227; a favor
163. Cf. Ata n. 9 de 18 de abril de 1991, n. 124, In: CM. Ano 40, n. 450, p. 525, [abril] 1991.
149

De um lado, vinha alimentando um modelo de Igreja progressista e da libertação

desde Medellín (1968 e Puebla (1979), não, porém, sem hesitações e contradições.

De outro lado, percebia-se envolvida pelo projeto hegemônico da “Nova

Evangelização’, bem orquestrado e apoiado por amplos setores eclesiásticos

romanos, europeus e norte-americanos com ressonância no próprio continente 453.

Se a influência da Santa Sé, em Puebla, foi, de certa forma, velada, em Santo

Domingo, já era evidente, haja vista que toda a preparação ficou a cargo de Roma. O tema

“Nova Evangelização, Promoção humana e Cultura Cristã” alinha-se a esse projeto

hegemônico. Em conseqüência disso, a esse respeito, é perceptível, conforme afirma o Pe.

Manzatto, que a Conferência não encontrou “eco imediato nas Igrejas do continente – e Santo

Domingo permanece como que apêndice na vida da Igreja Latino-americana não tendo a

influência eclesial desempenhada pelas duas Conferências antecedentes” 454.

Como pontos importantes dessa Conferência, destacam-se as questões a respeito da

promoção humana, a reafirmação da opção preferencial pelos pobres, o Protagonismo dos

leigos e a temática da cultura. No que tange à abordagem sobre a cultura, o documento não

leva em consideração a temática sobre a inculturação, ficando marginalizada mesmo após o

seu término 455.

Diante de todo esse contexto conflituoso de projetos, percebe-se que

Santo Domingo não significou um alinhamento da Igreja da América Latina ao

projeto hegemônico da Nova Evangelização. Manteve muitos elementos do projeto

453
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 181-2.
454
MANZATTO, A. As Primeiras Conferências do CELAM. In: Vida Pastoral, São Paulo, ano XLVII , n.
249,p. 7, [julho/agosto] 2006.
455
Acerca das lacunas de Santo Domingo, cf. BOFF, C. M. Para onde irá a Igreja da América Latina? In: REB,
Petrópolis, v. 50, n. 198, p. 275286, [junho] 1990. Também, Cf. BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil: De João
XXIIII a João Paulo II - de Medellín a Santo Domingo. Op. cit. p. 305-337.
150

configurado em Medellín e Puebla. No entanto, no conjunto, já há muitos sinais de

que a Igreja do continente se molda por uma tendência crescentemente

conservadora e restauradora 456.

Essa influência é por demais sentida pela Igreja do Brasil que, a partir de 1995, dará

um novo enfoque às suas Diretrizes, colocando a sua caminhada pastoral em profunda

sintonia com o projeto arquitetônico de Evangelização.

4. QUARTO PERÍODO: A DEFINIÇÃO DE UM PERFIL ECLESIAL:

COMUNHÃO E MISSÃO

4.1. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: UM NOVO ENFOQUE

ECLESIAL

Como fato marcante e decisivo nessa segunda metade da década de 90 é a mudança

de nomenclatura das Diretrizes Gerais, que se passa de Ação Pastoral para Ação

Evangelizadora. Inicialmente, essa mudança foi sentida apenas como tom ortográfico.

Talvez, nossos bispos, ao aprovarem tal mudança, não imaginavam a profundidade de tal

evolução eclesial.

Essa mudança é conseqüência de três acontecimentos: o projeto “Nova

Evangelização” com os sucessivos apelos Pontifícios, de forma explícita na Carta apostólica

Tertio Millennio Adveniente, de 10 de novembro de 1994, a realização do V COMLA no

Brasil e, conseqüentemente, a própria realidade eclesial vigente 457.

456
LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. Op. cit. p. 183.
457
Cf. Ata n. 10 de 19 de maio de 1995, n. 41, In: CM. Ano 44, n. 491, p. 785-6, [maio] 1995.
151

As novas Diretrizes foram elaboradas diante do urgente apelo demonstrado pelas

respostas de consulta de todas as dioceses, donde apenas 23% consideravam válidas as

Diretrizes anteriores, contra 72% que afirmavam a continuidade, mas com reformulações.

Somente 3% pediam uma redefinição das mesmas 458.


459
As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora foram aprovadas na 33º

Assembléia Geral da CNBB, entre os dias 10 a 19 de maio de 1995. O documento é composto

de duas partes, sendo a primeira, explicitação do seu objetivo e a segunda parte apresenta os

caminhos da Evangelização subdividida em cinco Capítulos. O Objetivo Geral permanece o

mesmo, embora precedido por uma introdução que evidencia o horizonte da Igreja no que

concerne à celebração do grande Jubileu.

JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE

Em preparação ao seu Jubileu do ano 2000, na força do Espírito que o Pai nos

enviou, sob a proteção da Mãe de Deus e nossa, queremos:

Evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em

comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para

formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e

solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do

Reino definitivo 460.

O enfoque maior dado à Evangelização é pertinente à constatação que o Pe.

Antoniazzi fez quando de sua apresentação do texto sobre as Diretrizes: “percebe-se que 80%

458
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p. 7-8.
459
Cf. Ata n. 4 de 13 de maio de 1995, n. 33-35. In: CM. Ano 44, n. 491, p. 750, [maio] 1995. Ata n. 6 de 15 de
maio de 1995, n. 19-26; 29-36; 45-53. In: CM. Ano 44, n. 491, p. 754-757, [maio] 1995. Ata n. 8 de 17 de maio
de 1995, n. 7; 12; 15; 33; 43-60; 64-70; 76-84. In: CM. Ano 44, n. 491, p. 768-775, [maio] 1995. Ata n. 9 de 18
de maio de 1995, n. 36-52; 58-62. In: CM. Ano 44, n. 491, p. 778-781, [maio] 1995. Ata n. 10 de 19 de maio de
1995, n. 7-31. In: CM. Ano 44, n. 491, p. 783-784, [maio] 1995.
460
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 6.
152

das atividades se concentram nas dimensões 1 e 3. A Liturgia praticamente empata com a

pastoral social. A dimensão missionária está fraca e a dimensão ecumênica encontra-se


461
praticamente ausente” . A essa constatação propõe-se, no que se refere à organização da

Dimensão Missionária, a superação de uma mentalidade que a enxergava simplesmente como

uma pastoral a mais, para uma visão de sua inserção em todas as estruturas e ações de

evangelização 462.

A realidade do Brasil, conforme consta em ata da CNBB, no “último censo, 25% da

população declarou-se não católica. Dos 75% que se declaram católicos, talvez menos da

metade sejam praticantes. A outra metade possue uma formação muito frágil que a deixa à
463
mercê da influência da variada gama de seitas e movimentos religiosos” . Sendo assim, o

próprio Presidente da CNBB, Dom Luciano, “concordou que o enfoque seja mais

evangelizador que pastoral. Mas salientou que as 6 dimensões estão sendo submetidas à

crítica, por isso será preciso explicar a mudança e também elaborar uma pedagogia de

transição que mostre a relação das 5 palavras com as seis dimensões” 464.

De qualquer forma, o texto publicado do documento 54 traz esta inovação: ao invés

de seis Dimensões ou linhas, fala-se, de agora em diante, em 4 exigências irrenunciáveis para


465
uma evangelização inculturada: serviço, diálogo, anúncio e testemunho da comunhão .

Esta nova nomenclatura mostra a incidência do Documento de Santo Domingo 466.

Quatro anos mais tarde, em sua 37º Assembléia Geral, realizada entre os dias 14 a 23

461
Cf. Ata n. 3 da 38ª Reunião da Presidência e do CEP de 27 de abril de 1995, n. 5, In: CM. Ano 44, n. 490, p.
465, [abril/maio] 1995.
462
Cf. Avaliação do Plano de Pastoral: Quadriênio 1991-1994. In: CM. Ano 44, n. 489, p. 550, [março] 1995.
463
Cf. Ata n. 3 da 38ª Reunião da Presidência e do CEP de 27 de abril de 1995, n. 5, In: CM. Ano 44, n. 490, p.
465-466, [abril/maio] 1995.
464
Ata n. 3 da 38ª Reunião da Presidência e do CEP de 27 de abril de 1995, n. 5, In: CM. Ano 44, n. 490, p. 466,
[abril/maio] 1995.
465
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 173-286.
466
DSD n. 228-283.
153

467
de abril de 1999, em Itaici, Indaiatuba, foi votada a permanência das mesmas Diretrizes ,

porém enriquecidas com os últimos Documentos Pontifícios, especialmente as conclusões do

Sínodo para a América, que o Papa propôs na Exortação Ecclesia in América, e levando em
468
conta sua própria experiência pastoral e a realidade social . Ademais, o seu Objetivo foi

alterado somente no que tange à sua introdução: em vez de preparação, fala-se de celebração,

não somente do Jubileu, mas também dos 500 anos de evangelização 469.

Como fruto ainda da referida Assembléia Geral, tendo como intuito celebrar os dez

anos da Christifidelis Laici e de realizar o ensejo de maior engajamento e de Protagonismo

dos Leigos como propõem as conclusões de Santo Domingo e as próprias DGAE, foi
470
publicado o Documento sobre a “Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas” , fruto

dos estudos realizados na 36ª Assembléia Geral, realizada em Itaici, Indaiatuba, entre os dias

22 de abril a 1 de maio de 1998. O seu objetivo maior é postular

Diretrizes para que os leigos participem, com autentica inspiração cristã, de toda a

missão da Igreja, ou seja, de toda a ação evangelizadora. Esta exige ‘serviço,

diálogo, anúncio e comunhão’, sem jamais descuidar da presença no mundo, no

coração dos dramas humanos, e sem nunca deixar de haurir o espírito de Cristo na

palavra do Evangelho, na celebração da Liturgia e nos encontros com as pessoas

humanas, especialmente dos pobres e sofredores. 471.

467
“Padre Antoniazzi comunicou o resultado da votação dos parágrafos das Diretrizes Gerais. Votaram 241
bispos. Alguns propuseram emendas. Comentou o texto ‘Emendas’ à última redação das Diretrizes Gerais,
aceitas pela Comissão de Redação’ (61/37 AG (sub)). Justificou a aceitação ou não das emendas propostas” [...]
“Dom Raymundo Damasceno submeteu o texto das ‘Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil’ à
votação que recebeu aprovação por unanimidade e muitos aplausos”. Cf. Ata n. 8 de 21 de abril de 1999, n.
50.54. In: CM. Ano 48, n. 530, p. 445, [abril] 1999. A abordagem, por completo, pode ser consultada no
discorrer das 10 atas publicadas. In: CM. Ano 48, n. 530, p. 387-459, [abril] 1999. A votação por Capítulo pode
ser consultada In: CM. Ano 48, n. 530, p. 658-673, [abril] 1999.
468
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. p. 7.
469
Ib. n. 6.
470
CM. Ano 48, n. 530, p. 445, [abril] 1999. A abordagem por completa pode ser consultada no discorrer das 10
atas publicadas. In: CM. Ano 48, n. 530, p. 387-459, [abril] 1999.
471
CNBB. Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas. (Documentos da CNBB n. 62). São Paulo: Paulinas,
1999. p.12-13.
154

4.2. A VOLTA DOS GRANDES PROJETOS: PRNM E SINM

Passado quase um ano de vivência das novas DGAE, na 34º Assembléia Geral – 17 a

26 de abril, foi lançado para todo o Brasil o Projeto de Evangelização da Igreja do Brasil –

Rumo ao Novo Milênio472 – 1996-2000, atendendo, de forma especial, ao apelo do Santo

Padre para a preparação do Jubileu do ano 2000.

A execução do PRNM foi, primeiramente, utilizando o ano de 1996 como ano de

sensibilização. Os três outros, ou seja, de 1997 a 1999, foram para a reflexão de cada uma das

Pessoas Trinitárias. Cada Pessoa Trinitária “constituía-se o eixo em torno do qual se

articulariam o Evangelho do ano, uma das virtudes teologais, um sacramento, cuja finalidade

era iluminar uma área de direitos humanos a ser resgatada, uma atitude missionária e algumas

atividades ecumênicas” 473.

O quadro abaixo visibiliza o esquema catequético-litúrgico do PRNM 474:

1996 ANO DA SENSIBILIZÇÃO


1997 Jesus Cristo Evangelho de Sacramento do Virtude da fé CF. sobre os excluídos
ano B Marcos Batismo
1998 Espírito Santo Evangelho de Sacramento do Virtude da CF. sobre a Educação
ano C Lucas Crisma Esperança

1999 Deus Pai Evangelho de Sacramento da Virtude da CF. sobre o Trabalho


ano A Mateus Penitencia Caridade

2000 Santíssima Evangelho de Sacramento da CF. Ecumênica sobre a


Trindade João Eucaristia paz e a dignidade

472
A apresentação e discussões sobre o PRNM podem ser consultadas nas 11 atas desta 34º Assembléia Geral.
In: CM. Ano 45, n. 500, p. 564-624, [abril] 1996. A sua votação está na Reunião Privativa dos Bispos, Ano 45, n.
500, p. 639-642, [abril] 1996. Ver principalmente os n. 4-5.
473
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
395.
474
Este quadro é uma forma resumida do quadro Sinótico que é apresentado pelo Documento 56 da CNBB, p.48-
49.
155

Esse PRNM assume e prolonga os projetos anteriores e visa fazer do ano 2000 o

momento da virada em direção a um cristianismo mais dinâmico e aberto; isso porque mais

fiel a Jesus Cristo. O seu principal objetivo “é suscitar em todos novo ardor e coragem na

missão de Evangelizar, capazes de criar novas expressões para que a mensagem salvífica de

Jesus Cristo seja mais conhecida e, conseqüentemente, seguida com amor e generosidade,

especialmente pelos jovens” 475.

O PRNM está dividido em cinco partes, levando em consideração as orientações da

Carta Apostólica “Tertio Millennio Adveniente”, as propostas missionárias do COMLA 5 e

também das DGAE. Aquela lacuna que, desde a formulação das primeiras Diretrizes em

substituição ao PPC, existia, o PRNM procurou sanar, haja vista que o seu raio de penetração

vai desde a Diocese até a sua realização em nível paroquial, tendo para todos um cronograma

a ser cumprido 476.

Com a chegada do novo milênio, a avaliação do PRNM foi, na maioria das


477
comunidades, Paróquias e Dioceses, uma experiência de verdadeira Comunhão e Missão .

Contudo, o que fazer? Continuar ou não? Pensou-se em algo necessariamente para dar

continuidade ao processo evangelizador, iniciado com as DGAE e o PRNM e, numa

assembléia atípica, em Porto Seguro478, arquitetou-se “um novo projeto que ajudaria a Igreja

475
CNBB. Rumo ao Novo Milênio: Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil em preparação ao grande
jubileu do ano 2000. (Documentos da CNBB n. 56). São Paulo: Paulinas, 1996, p. 5.
476
Cf. Ib. n. 199-217.Para entender a força de penetração a que este projeto visa é muitíssimo interessante
conferir os dados estatísticos apresentados quando da exposição da análise de conjuntura religioso-eclesial. “A
migração dos fiéis oriundos da Igreja Católica para as Igrejas Evangélicas corresponde a 64% dos convertidos”.
[...] “Os dados estatísticos ainda inéditos do IBGE para o censo de 1991, relativos à diversidade religiosa,
permitem constatar a entrada no cenário religioso brasileiro, de 4 mil novas denominações, não identificadas
pelo IBGE no censo de 1980”. In: CM. Ano 45, n. 500, p. 742-761, [abril] 1996.
477
Avaliação do PRNM ao final do quadriênio pode ser consultada em sua íntegra na análise apresentada na
Assembléia Geral pelo bispo ROCHA, G. L. Relatório do quadriênio 1995-1999 à luz das Diretrizes da Ação
Evangelizadora da Igreja do Brasil. In: CM. Ano 48, n. 530, p. 675-677, [abril] 1999.
478
A 38ª Assembléia Geral foi realizada entre os dias 26de abril a 03 de maio de 2000 em Porto Seguro-BA
156

no Brasil a viver o período pós-jubilar sem sofrer quebra do seu ritmo evangelizador. Nesse

contexto, nasce o Projeto Ser Igreja no Novo Milênio” 479.

Embora mais simples do que o anterior, o SINM procurou como o seu antecessor,

dar continuidade aos propósitos catequético-litúrgicos, levando em conta o ciclo litúrgico dos

anos A-B-C, tomando não um Evangelho, mas sim um texto neotestamentário. A finalidade

desse novo projeto era, em linhas gerais, o de “ajudar as comunidades a reassumirem sua

identidade cristã e a se abrirem, ainda mais, para o tema da missão. Renovar a identidade e

missão da Igreja constituiu-se, portanto, no grande objetivo do SINM. O texto bíblico que

mais poderia ajudar a alcançar tal objetivo pensou-se ser o livro dos Atos dos Apóstolos” 480.

A implantação do projeto coincidiu com a feliz publicação da Carta Apostólica Novo


481
Millennio Ineunte de João Paulo II, que, em linhas gerais, quis ajudar a Igreja a se

posicionar perante o mundo na aurora do terceiro milênio, toda ela partindo de Cristo 482.

Dessa forma, o SINM teve sua reformulação na 40ª Assembléia Geral realizada em

Itaici, Indaiatuba, entre os dias 10 a 19 de abril de 2002. Nesta foi votada a proposta de

continuação do SINM, durante o ano de 2003, para não deixar um vácuo nesse ano, enquanto

se aguardava a eleição de uma nova Presidência da CNBB483. Para tanto, o projeto ganhou um

sub-tema: “Ser cristão no Novo Milênio” e, como referência bíblica principal, foi indicada a I

Carta de São Pedro.

Esse quarto período, muito embora não termine aqui a sua caminhada, revela uma

tomada de posição, uma reafirmação da Identidade eclesial, moldada sob os pilares da

Comunhão e da Missão, moldes esses característicos do Projeto hegemônico que se foi

479
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
396.Também PROJETO: Ser Igreja no Novo Milênio. n. 4. In: CM. Ano 49, n. 540, p. 546, [abril] 2000.
480
GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE
PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p.
396. Também PROJETO: Ser Igreja no Novo Milênio. n. 6. In: CM. Ano 49, n. 540, abril de 2000. p. 546; CM.
Ano 51, n. 558, p. 394, [jan-fev] 2002.
481
JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte. São Paulo: Loyola, 2001.
482
Cf. Comentário da Equipe executiva do Projeto SINM. In: CM. Ano 50, n. 552, p. 815-819, [julho] 2001.
483
Cf. Ata n. 16 de 16 de abril de 2002, n.25. In: CM. Ano 51, n. 558, p. 322, [jan-fev] 2002.
157

implantado desde o início dos anos 80. Contudo, a Igreja do Brasil, mesmo em consonância

com o mesmo, não deixou a sua tradição herdada de Medellín e de Puebla. A feliz síntese que

nossos Bispos fizeram entre ambos os projetos, é que possibilitou a Igreja no Brasil ser uma

resposta qualificada diante dos profundos e graves problemas que a humanidade hoje

enfrenta.
158

CONCLUSÃO

Percebe-se que a evolução histórica do processo de planejamento pastoral da Igreja

do Brasil está intimamente conectada aos acontecimentos históricos, seja em nível social,

como a Ditadura e o processo de redemocratização, seja em nível eclesial, como os

Pontificados de Paulo VI e principalmente de João Paulo II. Da mesma forma, sente-se

também a inferência decisiva dos documentos Pontifícios ou Dicasteriais e, principalmente,

das conclusões do CELAM, em suas três edições. O planejamento Pastoral da Igreja no Brasil

só se pode ser pensado a partir desse contexto mais amplo.

A vida pastoral da Igreja no Brasil soube, com sabedoria e discernimento, ouvir as

vozes desses acontecimentos e sintetizá-los de forma positiva, acolhendo-os e aplicando-os

em sua prática eclesial. Nesse sentido, percebe-se a influência marcante que Medellín e

Puebla tiveram na construção de sua identidade eclesial e pastoral. Contudo, com o passar dos

anos, soube alinhar-se à nova identidade eclesial que se ia formando a partir dos anos 80, sob

o pontificado de João Paulo II e das conclusões da IV conferência do CELAM. O mais

sensato é que, em vez de se despir da antiga identidade gestada na década de 70, a Igreja do

Brasil foi sintetizando a nova forma de ser Igreja, a nova Identidade que se ia formando e

conseguiu fazer uma síntese “completa”, conjugando a sua herança anterior à novidade e à

exigência apresentada, não sem conflitos, é claro, mas com muita consciência do que se

estava fazendo.
159

Cada etapa aqui apresentada representa um passo significativo dessa evolução. Os

passos pastorais assumidos revelam mais do que planos e Diretrizes, revelam, acima de tudo,

um modo eclesial de atuação. Neste ínterim, o próximo Capítulo se encarregará de analisar,

teologicamente, essa evolução eclesiológica inerente a estas etapas, pois as mudanças

apresentadas nos documentos não são meramente de nomenclatura, mas sim de perfil, de

postura eclesiológica diante dos desafios vigentes.


160

CAPÍTULO III

UM PERFIL ECLESIOLÓGICO DAS DIRETRIZES DE 1991-2002: UMA IGREJA

EVANGELIZADORA
161

INTRODUÇÃO

O presente Capítulo propõe-se a analisar, de forma teológica, a evolução

eclesiológica da Igreja no Brasil, a partir de suas Diretrizes Gerais. Serão objeto de nosso

estudo as Diretrizes Gerais referentes ao espaço de tempo entre 1991 a 2002.

O nosso estudo eclesiológico segue os seguintes passos: primeiramente, estudaremos

o documento 54, referente ao quadriênio de 1991-1994. Nele está expresso todo esforço de

adaptação e concretização de toda a evolução teológica no que tange á eclesiologia iniciada

com o evento Conciliar, realizado entre os anos de 1962 a 1965. Contudo, antes de analisá-lo,

esboçaremos um panorama teológico dos principais eventos ocorridos desde o Concílio

Vaticano II, perpassando pelas Conferências de Medellín e de Puebla, pelos Sínodos e,

principalmente, pelos Documentos Pontifícios – Populorum Progressio e Evangelii Nuntiandi

– de Paulo VI e, Redemptoris Missio e Tertio Millernio Advenient de João Paulo II.

Todos esses eventos teológicos foram capitais para a formação do que é a Igreja na

América Latina e, conseqüentemente, no Brasil. De modo mais especial, iremos analisá-los a

partir da temática da evangelização. Ela é, no decorrer dos anos, o princípio identificador de

toda a realidade eclesial, seja enquanto essência seja enquanto missão.

A partir do Vaticano II, o termo evangelização vai se erigindo e ganhando espaço e

predicações. Com o conceito de desenvolvimento integral exposto na Populorum Progressio,

Medellín desenvolverá o conceito de evangelização libertadora, enquanto que o Sínodo sobre

a Justiça no mundo -1971- falar-se-á de Libertação Integral. Com o advento da Evangelii


162

Nuntiandi, o termo evangelização será oficialmente acolhido e aplicado, visto que é, a partir

de então, entendido como o conjunto de serviço da Igreja frente ao mundo.

Conseqüentemente, a Igreja no Brasil, de modo especial, receberá essas

contribuições e, com o passar dos anos, irá forjando, a partir de suas Diretrizes, um rosto

definido e uma prática pastoral bem consciente. A partir da Redemptoris Missio, há uma

especificação do que é evangelização, pastoral e missão ad gentes. Esse documento foi capital

para um primeiro aggiornamento da compreensão eclesiológica por parte da Igreja no Brasil.

Esse aggiornamento é também acompanhado pela sensibilidade em ler os “sinais

dos tempos” presentes neste contexto. Dois fatos são principais nesta conjuntura: o primeiro

diz respeito à evolução teológica precedente, seguida de novos eventos teológicos. Dentre

eles, destacam-se o chamamento do Papa João Paulo II para uma nova evangelização,

renovada em seu ardor, em seus métodos e em suas expressões, a Conferência de Santo

Domingo com a temática da evangelização inculturada e de modo especial a ênfase que o

Papa João Paulo II deu no que tange à preparação do grande Jubileu do ano 2000 com a

Encíclica Tertio Millennio Adveniente. O segundo refere-se ao grande êxodo de fiéis da Igreja

católica para as outras seitas ou o abandono completo da fé, por meio de uma postura de

indiferentismo religioso.

Sensível, principalmente a esses “sinais dos tempos”, a Igreja no Brasil compreende

que, fundamentalmente, necessita mudar não só sua forma de ação pastoral, mas também sua

estrutura e, principalmente, a compreensão de sua identidade e de sua missão. É neste período

que nossos Bispos promulgam o documento 54, no qual mudam não só o título das Diretrizes,

de ação pastoral para ação evangelizadora - mas também a sua estrutura, e conseqüentemente,

muito embora não perceptivelmente, o rosto, o horizonte e a prática pastoral de toda a Igreja

no Brasil.
163

A evangelização passa de uma dimensão da ação pastoral a ser o principio

constitutivo de toda ação pastoral. A Evangelização deve ser inculturada e acompanhada de

quatro exigências irrenunciáveis expressas pelo serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho

de comunhão eclesial. Essas quatro exigências estão em consonância com as seis dimensões.

A diferença está no lugar proeminente e de destaque que a missão ocupa.

A partir dessa exposição, é possível perceber a evolução eclesiológica e o novo perfil

eclesiológico que se forja a partir das Diretrizes da ação evangelizadora. Uma Igreja mais

evangelizadora que pastoral, muito embora não a elimina. Uma Igreja verdadeiramente

ministerial, em que todos são sujeitos dessa ação evangelizadora. Uma Igreja que evangeliza e

que precisa ser constantemente evangelizada.


164

1. AS DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL E DA AÇÃO

EVANGELIZADORA: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA

No Capítulo anterior, vimos o desenvolvimento do planejamento pastoral da Igreja

do Brasil. Conseqüentemente, para cada estágio dessa evolução pastoral, subjaz um perfil

eclesiológico que, naturalmente, se rompe com o novo e que, eminentemente, persiste em

permanecer neste novo estágio, nas entrelinhas, ora consciente, ora de forma inconsciente,

pelos espectadores e pela prática pastoral.

Nosso trabalho nesse Capítulo não se submeterá a perfilar nas linhas que se seguem

os perfis eclesiológicos subsistentes em cada período ou estágio apresentado no Capítulo

anterior. Elucidaremos, sim, a partir da análise teológica das Diretrizes, o perfil eclesiológico

presente nas duas últimas etapas, correspondente, é claro, aos documentos 45-54 e 61. Esse

perfil eclesiológico pode ser apreendido em muitos lugares; porém, nossa fonte de pesquisa

limitar-se-á naquilo que, de forma especial, as Diretrizes Gerais nos fornecem.

Antes de nos atermos a elas, esboçaremos um quadro dos principais eventos

teológicos que, direta ou indiretamente, marcaram o desenvolvimento de nossa compreensão

eclesial, assim como de nossa prática pastoral.

Nossa pesquisa prender-se-á em dois momentos de análise: um antes, que se

desembocará no doc. 45 e o outro, naturalmente posterior, contendo os doc. 54 e 61. Nossa

análise seguirá os seguintes passos para ambas as partes: primeiramente faremos uma
165

exposição dos fundamentos Teológicos a partir dos principais eventos; depois, analisaremos a

Estrutura e o Conteúdo das Diretrizes e, por último, analisaremos o Perfil Eclesiológico

inerente às Diretrizes a partir da temática da evangelização.

1.1. OS FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DAS DIRETRIZES DA AÇÃO

PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL: DOC 45

Até chegarmos às Diretrizes da Ação Pastoral propostas para o quadriênio entre 1991

a 1994, a CNBB, pelo seu organismo de Pastoral o INP, já publicara desde o ano de 1975, ano

de sua gênese, outras quatro Diretrizes, ou seja, o Documento 4-15-28-38.

Neste ínterim, o Doc. 45 é depositário de uma profunda gama de influência

teológica, emanada do Concílio Vaticano II e das duas Conferências Episcopais realizadas

entre as décadas de 60 e 70, ou seja, de Medellín e Puebla. São também herdeiras do legado

dos dois Pontificados, a saber, de Paulo VI e de João Paulo II, e ainda, é claro, da influência

de toda a realidade conjuntural em que a Igreja, no Brasil, viveu nesse período, haja vista que

as Diretrizes são propostas de trabalho justamente para que a Igreja que está no Brasil seja

sinal do Reino junto a todas estas realidades conjunturais difíceis e desafiadoras, como já

apresentamos no Capítulo anterior. Esboçaremos a seguir, de forma concatenada, os

principais eventos teológicos que antecederam o Documento 45, tendo como elemento

norteador a temática da evangelização.

1.1.1. O CONCÍLIO VATICANO II: UM LEGADO DE COMUNHÃO E MISSÃO

A Igreja no Concílio Vaticano II foi redescoberta em sua verdadeira essência, isto é,

de ser instrumento, Sacramento de Salvação junto à humanidade para a Trindade.


166

Notoriamente, poder-se-ia afirmar que o Concílio operou uma espécie de “revolução


484
copernicana” no que se refere a eclesiologia, por privilegiar o seu caráter Mistérico-

invisivel ante o institucional-visivel.

É fato que, tanto a Teologia quanto as implicações do Concílio Vaticano II,

trouxeram à Igreja Universal e, de modo especial para a Igreja no Brasil, muitas contribuições

e inovações tanto no que se refere à sua essência, redescobrindo-a como Mistério de

Comunhão, quanto à sua existência, redescobrindo-lhe a sua vocação missionária. Estes

valores podem ser apresentados sob duas dimensões: um “ad intra” e outro “ad extra”.

Internamente, o Concílio revitalizou algumas noções ou princípios básicos, tais como

a categoria “Povo de Deus”, sua expressão de serviço em relação ao Reino, a redescoberta do

sacerdócio comum dos fiéis, possibilitando uma valorização mais efetiva e objetiva dos leigos

na e para si mesma, além do principio de colegialidade, fundamental no que se refere ao

relacionamento entre o Papa e todos os Bispos e entre Igreja Universal e Igreja Particular.

Conseqüentemente tem-se a valorização de cada Igreja Particular não como

extensão, mas como verdadeira Igreja de Cristo e de forma apriori, a co-responsabilidade de

todos os bispos e fiéis por toda a Igreja, expresso pelo princípio de subsidiariedade 485. Estes

valores, embora antigos, foram durante os séculos perdendo-se ou sendo ofuscados por uma

variada gama de situações e vicissitudes temporais.

No que se refere aos valores “ad extra”, destaca-se a temática do diálogo com o

mundo em toda a sua profundidade. A Igreja, embora não seja do mundo, vive no mundo e no

mundo deve exercer com fidelidade a sua missão, herdada do seu próprio fundador, Jesus

Cristo nosso Senhor. O Mundo passa a ser o locus de sua apostolicidade e conseqüentemente

de sua missionariedade.

484
Cf. FORTE, B. Laicato e laicità. Marietti, Torino, 1986. p. 81.
485
Cf. HARRER, O. O Principio de Subsidiariedade na Igreja. In: BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Op.
cit. p. 623-649.
167

Dentro do mundo, a Igreja conciliar, redescoberta como Comunhão, porque oriunda

em todas as suas funções da Trindade, revela-se ao mundo e aos homens do mundo como

Serva, cujo serviço a ser prestado a todos, sem distinção, a revela como “Sacramento de

Salvação”. A Salvação é o grande serviço que a Igreja deve prestar ao mundo. Este, por sua

vez, concretiza historicamente o ser ontológico, transcendente da Igreja, ou seja, a sua

essência de ser Comunhão e, ao mesmo tempo, revela ao mundo a sua existência, a sua razão

de ser, ou seja, de ser missionária.

Destarte, podendo o Concílio ser lido sob vários ângulos, segundo a teologia de

fundo que se tem ou da intenção do autor que o analisa, parece-nos que o binômio Comunhão-

Missão, cuja fonte reveladora é o seu próprio ser e sua própria existência, pode ser tomado

como um verdadeiro eixo hermenêutico do qual se poderá, sob qualquer ótica, aplicar suas

conclusões sem maiores conflitos, como se pode deduzir das conclusões da Assembléia Geral

Extraordinária do Sínodo dos Bispos, realizada no ano de 1985 486. Anos mais tarde, a própria

Igreja no Brasil também acolhia em caráter oficial essa herança conciliar em seu Documento

40, cujo título assim se expressa: “Igreja: Comunhão e Missão na evangelização dos povos,

no mundo do Trabalho, da Política e da Cultura” 487.

A Igreja, entendida como Mistério de Comunhão e Missão, evoca-lhe sua dimensão

transcendente e, ao mesmo tempo, realça a sua dimensão histórica, possibilitando-lhe

aprofundar e explicitar em todas as novas situações a sua Missão diante dos Povos e Culturas,

como nos lembra a Gaudium et Spes: “Essa acomodação da pregação da palavra revelada é

uma lei permanente da evangelização” 488.

486
ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS. Op. cit.
487
CNBB. Igreja: Comunhão e Missão na evangelização dos povos, no mundo do Trabalho, da Política e da
Cultura. (Documentos da CNBB n. 40). São Paulo: Paulinas, 1990.
488
GS 44.
168

Embora o Concílio, por meio de seus documentos, não precise489 o termo

evangelização como acontecerá com a EN, é preciso notar que

A evangelização abrange o conjunto de atividades da Igreja, quais sejam, a

pregação, a administração dos sacramentos, a celebração da eucaristia e o

apostolado em geral. Noutras palavras, tudo na Igreja é evangelização, porque a

Igreja cumpre sua missão em tudo o que realiza. A evangelização dos pobres é um

sinal de que continua a obra messiânica de Jesus 490.

A Missão, segundo as conclusões do Sínodo dos Bispos, deve ser vista a partir do

contexto de todos os documentos conciliares, principalmente das quatro constituições

dogmáticas: Lumen Gentium, Dei Verbum, Sacrosanctum Concilium e Gaudium et Spes.

Destes desprendem, conforme o Sínodo, quatro eixos de sustentação da missão da Igreja no

mundo contemporâneo, conforme a leitura realizada a partir dos sinais dos tempos. Estes

eixos estão assim apresentados: eixo cristológico, eixo antropológico, eixo dialogal e eixo

diaconal 491.

A partir desses quatro eixos fundamentais da missão elencados acima, percebe-se

uma profunda ligação com a apresentação da Igreja que o Concílio Vaticano II faz, isto é, de

ser como que um “Sacramento”, no sentido de ser em Cristo “sinal e instrumento da união

489
O autor afirma que nos “documentos conciliares o conceito de evangelização mostra-se impreciso em seu
significado, embora vejamos claramente com diversos campos da pastoral. É interessante notar a afloração de
questões que, posteriormente, ocupam o centro das preocupações como a inculturação e a opção preferencial
pelos pobres. Atingindo este ponto, a Igreja pós-conciliar continuará a estender o sentido de evangelização”. Cf.
MELO, A. A Evangelização no Brasil: dimensões teológicas e desafios pastorais. O debate teológico e eclesial
(1952-1995). Roma: Editrice Pontifícia Universitá Gregorina. 1996. p. 64-65.
490
Ib. p. 64.
491
PIÉ-NINOT, Salvador. Introdução à Eclesiologia. p. 105-6. Cf. ASSEMBLÉIA GERAL
EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS. Op. cit. Relatio Finalis, ponto II, letra d, n. 1s. p. 50-56.
169

492
com Deus e da unidade do gênero humano” . É da íntima e profunda comunhão em Cristo

(primeiro eixo) que a Igreja, por causa de Cristo, torna-se para os homens (segundo eixo)

Sacramento, sinal de unidade, serviço (terceiro e quarto eixo). Deste modo, a Igreja poderá se
493
apresentar como “sinal levantado perante as nações” , “que manifesta e, ao mesmo tempo,

realiza o mistério do amor de Deus ao ser humano” 494.

1.1.1.1. O CONCÍLIO E O PPC: UMA RECEPÇÃO ORIGINAL

Como se sabe, toda a riqueza dos documentos conciliares foi acolhida e assumida

pela Igreja do Brasil, por meio da construção das seis Linhas ou Dimensões495 da Pastoral

expressas pelo PPC. Essas seis Diretrizes mantêm, tanto em sua fundamentação quanto em
496
sua execução, uma profunda e total relação de dependência umbilical para ser mais

preciso, dos documentos do Concílio Vaticano II e, de maneira toda especial, com a

Constitutio De Ecclesia (LG) 497.

Essas seis Dimensões constituem para a vida e o Planejamento Pastoral da Igreja no

Brasil a conseqüência imediata e original do Concílio Vaticano II. Tanto é que prevalecerão

até o ano de 1994, iluminando toda a ação pastoral da Igreja no Brasil e, conseqüentemente,

todos os empreendimentos futuros.

492
Ib. p. 29.
493
SC 2. Ainda a Constituição SC indica a finalidade do Concílio também nesta linha de renovação para a
Missão: “Este sacrossanto Concílio propõe-se a fazer crescer dia após dia entre os fiéis à vida cristã, adaptar
melhor às necessidades do nosso tempo as instituições que estão sujeitas à mudança, promover tudo o que possa
contribuir à união dos que crêem em Jesus Cristo e fortalecer o que serve para convidar todas as pessoas para o
seio da Igreja”. Cf. SC 1.
494
GS. 45.
495
CF. PPC p. 61-109. Também, GODOY, M.J. A CNBB e o processo de evangelização do Brasil. In:
INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-2002): Jubileu
de ouro da CNBB. Op. cit. p. 389-340; BEOZZO, J. O. Igreja no Brasil: Planejamento Pastoral em Questão. In:
REB, Petrópolis, v. 42, n. 167, p. 465-472, [setembro] 1982. BEOZZO, J.O. A recepção do Vaticano II na Igreja
do Brasil. In: INSTITUTO NACIONAL DE PASTORAL (Org.). Presença Pública da Igreja no Brasil (1952-
2002): Jubileu de ouro da CNBB. Op. cit. p. 443-44.
496
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 377.
497
Toda a referencia neste Capítulo sobre a Constitutio De Ecclesia, deverá o leitor remeter-se à exposição da
mesma no primeiro Capítulo.
170

Nesse sentido, cada uma dessas seis linhas funda-se sob um objetivo próprio,

conectado com o objetivo geral que é “criar meios e condições para que a Igreja no Brasil se

ajuste, o mais rápida e plenamente possível, à imagem de Igreja do Vaticano II” 498, isto é, de

uma eclesiologia de Comunhão-Missão, embora ainda velada, em germe.

Neste ínterim, as seis Linhas ou Dimensões que objetivamente refletem a acolhida do

Concílio Vaticano II na vida pastoral da Igreja do Brasil podem ser estruturadas a partir deste

binômio Comunhão - Missão.

Concretamente, poder-se-ia agrupar as seis linhas em dois grupos afins segundo o

binômio Comunhão-Missão, a saber: no que concerne ao eixo da “Comunhão” tem-se a Linha

1 que visa promover sempre mais a plena unidade visível no seio da Igreja Católica, cujo

objetivo é levar à conversão, à adesão pessoal a Cristo, à inserção consciente e participante na

comunidade visível. A sua base teológica fundamenta-se nos seguintes documentos

conciliares: LG, OT; PO; CD; AA; PC. A Linha 4 diz respeito à Ação Litúrgica, cujo objetivo

central é levar o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo através do culto

litúrgico integral e das celebrações da Palavra. A sua base teológica fundamenta-se na

Constituição sobre a Sagrada Liturgia SC 499.

Por fim, a Linha 5 que se refere à Ação Ecumênica, cujo objetivo primordial é levar

o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através de uma autêntica ação

ecumênica. A sua base teológica fundamenta-se nos seguintes documentos conciliares: UR;

OE; NA.

Referente ao eixo da “Missão” tem-se a Linha 2 que diz respeito à Ação Missionária,

cujo objetivo é levar todos os homens à primeira adesão pessoal a Cristo, através do anúncio

498
PPC p. 29.
499
A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que a renovação litúrgica, querida pelo Concílio, é fator
decisivo para a evangelização: “a liturgia robustece também admiravelmente sua forças para pregar Cristo e
apresenta assim a Igreja, aos que estão fora, como sinal levantado entre as nações, para que debaixo dele se
congreguem na unidade dos filhos de Deus que estão dispersos, até que haja um só rebanho e um só pastor”. Cf.
SC 2.
171

missionário da palavra e do testemunho de vida evangélica. A sua base teológica fundamenta-

se no Decreto conciliar sobre a atividade missionária da Igreja AG 500.

Ainda referente ao eixo da missão, tem-se a terceira linha, que se refere à ação

catequética, ao aprofundamento doutrinal e à reflexão teológica, cujo objetivo é levar o Povo

de Deus a uma maior comunhão de vida com Cristo, através da palavra e do testemunho de

vida evangélica, que iluminam e alimentam. A sua base teológica fundamenta-se na

Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, DV 501.

Por fim, a sexta linha visa promover a melhor inserção do Povo de Deus, como

fermento de vida, em Cristo, através de sua inserção como fermento na construção de um

mundo segundo os desígnios de Deus. A sua base teológica fundamenta-se nos seguintes

documentos conciliares: GS; IM; GE; DH 502.

Portanto, o PPC503 revelou-se como um grande colaborador e gestor da Comunhão

em todo o território eclesial, desde as comunidades mais bem estruturadas até as realidades

mais difíceis de nossas comunidades eclesiais. Da mesma forma, foi grande impulsionador da

missão em todos os níveis, seja Diocesano, Regional ou Paroquial, como se pode perceber

durante os anos de sua vigência, como nos lembra o Pe. Gervásio:

500
O Decreto AG enfoca que a Missão da Igreja é a mesma Missão de Cristo, que deriva da Trindade e dos
planos salvíficos do Pai, e que se realiza sob a ação do Espírito Santo. Tem, pois, dimensão trinitária,
cristológica, pneumatológica e eclesiológica. A partir desses princípios missionários (AG I) será possível passar
facilmente às conseqüências práticas: a obra missionária (II), as Igrejas particulares (III), os missionários (IV), a
organização da atividade (V) e a cooperação missionária (VI). Acentua-se a natureza missionária de toda a Igreja
particular, sem diminuir a importância da vocação missionária específica e dos Institutos missionários.
501
A Constituição Dei Verbum apresenta uma Igreja que guarda e garante a Revelação propriamente dita, que foi
dada por Deus para toda a humanidade. Efetivamente, o Concílio diz na DV que “quer propor a doutrina
autêntica sobre a Revelação e sua transmissão para que todo o mundo o escute e creia; crendo, espere;
esperando, ame”. Cf. DV 1.
502
A Constituição Gaudium et Spes enfoca a inserção da Missão eclesial com relação às situações concretas da
sociedade humana. Todo o documento transpira a urgência da evangelização universal, haja vista que, pelo
mistério da encarnação, a Igreja sente-se solidária com toda a humanidade. Cf. GS 1.
503
Não entraremos nas questões de sua carência que proporcionaram críticas profundas, como se observa no
texto de BEOZZO, J.O. Igreja no Brasil – o Planejamento Pastoral em Questão. In: REB, Petrópolis, v. 42, n.
167, p. 494-505, [Setembro] 1982.
172

Mas é, sobretudo, importante o processo de planejamento e pastoral orgânica

desencadeado nas regiões e dioceses, suscitando quadros eclesiais e realizações que

se caracterizam pela unidade na variedade (= comunhão) e pela participação (=

corresponsabilidade). O PPC ampliou e fez irreversível o impulso renovador dado

neste ponto pelo PE, a que o CV forneceu substância 504.

Como nos dizeres de Dom Odilo Pedro Sherer, o PPC “foi um Plano bem articulado

e com uma clareza impressionante de metas e propostas. Tudo isso era fruto da participação

dos seus autores no Concílio e do desejo de traduzir logo no Brasil, na organização e na

prática da vida eclesial, as lições colhidas no Concílio Vaticano II” 505.

1.1.2. A INFLUÊNCIA DA POPULORUM PROGRESSIO, DA CONFÊRENCIA

DE MEDELLÍN E DO SÍNODO SOBRE “A JUSTIÇA NO MUNDO” DE 1971

1.1.2.1. A POPULORUM PROGRESSIO E O CONCEITO DE

DESENVOLVIMENTO INTEGRAL

Os anos que se seguiram ao Concílio foram de grande tensão social em todo o orbe

terrestre. A sensibilidade e, ao mesmo tempo, a audácia profética do Papa Paulo VI, o levou a

publicar, no dia 26 de março de 1967, a Encíclica Populorum Progressio, acerca do

desenvolvimento dos povos.

Diante do contexto segundo o qual a grande parte dos países colonizados tinham tido

acesso à independência política, mas se arriscavam a sofrer a herança do passado colonialista,

504
QUEIROGA, G. F. CNBB. Comunhão e corresponsabilidade. Op. cit. p. 392.
505
CNBB. Plano de Pastoral de Conjunto. (Documentos da CNBB n. 71). São Paulo: Paulinas, 2004. p. 6.
173

sobretudo, nas relações comerciais, ele, o Papa, denuncia os erros do sistema internacional,

propondo o conceito inovador de desenvolvimento integral.

Segundo a análise de Camacho506, o desenvolvimento integral a que a Encíclica

conclama, pode ser expresso em quatro passos, segundo as próprias palavras do texto:

507
O desenvolvimento não se reduz ao simples crescimento econômico . Para ser

autêntico, deve ser integral, isto é, promover todos os homens e todo o homem 508.

Tanto para os povos, como para as pessoas, ter mais não é o fim último. Todo

crescimento é ambivalente. Sendo necessário para permitir ao homem ser mais,

encerra-o em uma espécie de prisão, desde o momento em que se transforma no


509
bem supremo, que impede de olhar mais além . O verdadeiro desenvolvimento

(...) é a passagem, para cada um e para todos, de condições de vida menos humanas

a condições mais humanas 510.

Como meio para se alcançar esse desenvolvimento integral, o Papa Paulo VI destaca

a ação, a urgência e a solidariedade como elementos essenciais. Esse tríplice meio tornar-se-á

a grande

novidade deste documento, e que se repetirão praticamente em cada página do

texto, até dotá-lo de um novo estilo e um novo aspecto, tornando-o mais direto e

incisivo, mais atento à realidade, mais preocupado com a ação. Estas características

complementam-se com a nova atitude que o papa: Paulo VI coloca-se

506
Cf. CAMACHO, I. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Op. cit. p. 323-325.
507
PP 14.
508
PP 14.
509
PP 19.
510
PP 20.
174

decididamente ao lado dos povos oprimidos. Renuncia, assim, à postura tradicional

de seus predecessores, nos documentos sociais, ou seja, a de situar-se como árbitro

neutro nos conflitos da sociedade industrial. Aqui, ao contrário, há uma clara opção

de Paulo VI, que se converte no porta-voz dos povos mais atrasados da Terra” 511.

Conseqüentemente, segundo Camacho, esta ação urgente poder ser estruturada em

quatro níveis:

uma reforma agrária (evitando que seja improvisada); uma industrialização (que

não seja brusca nem leve à distorção das estruturas) (PP 29); um programa de

progresso social (baseado no planejamento e alheio ao liberalismo), e um programa

de promoção espiritual (que evite toda tentação materialista) (PP 33-42) 512.

1.1.2.2. MEDELLÍN E A EVANGELIZAÇÃO LIBERTADORA

Medellín situa-se como herdeira desse duplo legado: do Concílio e da Populorum

Progressio. A partir desse eixo hermenêutico Comunhão-Missão, herdado do Concílio e do

princípio do desenvolvimento integral tanto da pessoa humana como da sociedade em que

vive herdado da Encíclica, Medellín tornar-se-á o grande acontecimento original e originante

de toda a construção pastoral posterior, incidindo de forma direta no jeito de ser Igreja na

América Latina e no Brasil.

511
CAMACHO, I. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Op. cit. p. 323-325.
512
Ib. p. 326.
175

Em Medellín, temos, como legado para a Igreja do Brasil e propriamente como

contribuição para a formulação de suas Diretrizes, três realidades: a “opção pelos Pobres”, a

“Teologia da Libertação” e as “Comunidades Eclesiais de Base”.

Essas três realidades ou opções em Medellín visavam à superação do caos gerado

pelo pecado da injustiça513 e, naturalmente, foram propostas como princípios norteadores para

o surgimento de uma nova sociedade capaz de gerar vida em abundância para todos.

A partir de Medellín, os pobres tornam-se sujeitos e, ao mesmo tempo, o objeto da

Teologia que, de agora em diante, procura meios para gerar a Libertação dos mesmos. As

CEBs são a conseqüência natural da organização e estruturação dessa nova realidade utópica,

de uma sociedade mais justa e igualitária, em que todos são reconhecidos como pessoas e não

como números. De Medellín em diante, pode-se falar, de forma concreta, de protagonismo

dos leigos514.

Se a Populorum Progressio falou de desenvolvimento integral, a partir de Medellín


515
falar-se-á de Libertação integral . Essa se tornou como que o princípio unificador e

também norteador de toda a realidade eclesial e para toda a ação pastoral Latino-americana e,

também, para a Igreja do Brasil. A Libertação, em seu sentido completo, será o conteúdo de

toda a missão da Igreja, numa crescente proliferação das chamadas pastorais sociais em todo o

continente e, principalmente, no Brasil.

A missão da Igreja é daqui em diante entendida como libertação dos povos de todos

os sistemas e estruturas de pecado, forjando a gênese de uma Igreja profética, que denuncia as

513
Camacho comenta que “O Vaticano não ignorou a realidade do pecado; Medellín descobre suas marcas na
miséria e na marginalização de milhões de latino-americanos. A Europa ocidental e a América do Norte deixam
de ocupar o centro de suas preocupações pelos perigos derivados da secularização; o que inquieta Medellín é a
injustiça e a violência institucionalizada, das quais é vítima o homem latino-americano”. Cf. A Doutrina Social
da Igreja na América Latina: Medellín e Puebla. p. 460.
514
Cf. CONCLUSÕES DE MEDELLÍN. Documento 1 sobre a Justiça. 4º ed. São Paulo: Paulinas. 1979. p. 12.
Também, CAMACHO, I. A Doutrina Social da Igreja na América Latina: Medellín e Puebla. p. 462.
515
BOFF, C. A originalidade histórica de Medellín. In: Convergência, Petrópolis, Ano XXXIII, n. 317, p. 568-
575, [novembro] 1998. Também, FRAGOSO. A. Medellín, trinta anos depois. In: Convergência, Petrópolis, Ano
XXXIII, n. 314, p. 327-329, [jul/ago] 1998.
176

injustiças e anuncia, por sua conduta, o Reino de Deus. Fala-se, a partir de Medellín, de forma

oficial para a realidade eclesial latino-americana, de Evangelização Libertadora516. Esta

compreensão da missão como evangelização libertadora caracteriza a radical mudança na

compreensão do lugar e da ação em favor dos pobres pela Igreja: ele passa de assistido, de

objeto, para se tornar o “locus” de toda a ação eclesial, tornando-se sujeito desta ação em

consonância com a própria Igreja 517.

O que é e qual é o conteúdo desta Evangelização Libertadora? Segundo o

documento ela

deve orientar-se para a formação de uma fé pessoal, adulta, interiormente formada,

operante e constantemente em confronto com os desafios da vida atual, nesta fase

de transição; deve ser relacionada com os ‘sinais dos tempos’. Não pode ser

atemporal nem a - histórica. Com efeito, os ‘sinais dos tempos’, observados em

nosso continente, sobretudo na área social, constituem, um ‘dado teológico’ e

interpelação de Deus; deve ser realizada através do testemunho pessoal e

comunitário, que se expressará de forma especial no contexto do próprio

compromisso temporal 518.

O Documento assim conclui:

516
Cf. MARIN:S, J. (org.) Realidade e práxis na Pastoral Latino-Americana. São Paulo: Paulinas. 1977. Col
“Pastoral e Comunidade”. p. 37-42.
517
BIGO, P.; DE ÁVILA, F. B. Fé cristã e compromisso social: elementos para uma reflexão sobre a América
Latina à luz da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1983, 2º ed. rev. e aum. p. 422-423.
518
CONCLUSÕES DE MEDELLÍN. Documento 7 Pastoral das Elites. 4º ed. São Paulo: Paulinas. 1979. p. 78.
177

A evangelização de que estamos falando deve tornar explícitos os valores da justiça

e fraternidade, contidos nas aspirações de nossos povos, numa perspectiva

escatológica - para isto - precisa, como suporte, de uma Igreja-sinal 519.

Por fim, vale apenas ainda destacar que, de forma implícita, Medellín oferece uma

concepção integral de evangelização da qual participa o anúncio do Evangelho, a resposta da

fé, o pertencimento à Igreja, o compromisso em favor da justiça, da promoção humana e de

uma autêntica Libertação. Toda ação pastoral, a partir de então, deverá conter estes princípios

da evangelização.

1.1.2.3. O SÍNODO SOBRE A JUSTIÇA NO MUNDO E A QUESTÃO DA

LIBERTAÇÃO INTEGRAL

Ao final do Sínodo de 1969, vários temas foram elencados para que, mais tarde, no

próximo Sínodo tornassem tema para a discussão. Entre os inúmeros apresentados, fora

acolhido o tema sobre o sacerdócio ministerial devido a toda situação pós-conciliar; mas,

conforme afirma Camacho,

não pareceu conveniente que uma assembléia sinodal se ocupasse de questões

internas da Igreja. Esta foi a razão pela qual foi escolhido um segundo tema,

519
CONCLUSÕES DE MEDELLÍN. Documento 7 Pastoral das Elites. Op. cit. p. 78. Cf. também MELO, A. A
Evangelização no Brasil. Op. cit. p. 66.
178

correspondente a outro campo de inquietude em muitos ambientes eclesiais, em

especial nos do Terceiro Mundo 520.

A escolha desse tema exemplifica a procura da Igreja em contribuir para a resolução

dos problemas sociais. Diante da reflexão e dos fatos, conclui-se que a situação de injustiça e

de sofrimento não é parte integrante da criação. Nesse aspecto, afirma-se:

Ouvindo o clamor daqueles que sofrem violências e se vêem oprimidos por

sistemas e mecanismos injustos; e ouvindo também as interrogações de um mundo

que, com sua perversidade, contradiz o plano Criador, temos consciência unânime

da vocação da Igreja a estar presente no coração do mundo pregando a boa nova

aos pobres, a libertação aos oprimidos e a alegria aos aflitos. (JM introd. e) 521.

Diante desta realidade antagônica e complexa, a Igreja deve se servir dos “sinais dos

tempos” “que são fenômenos sociais e históricos. Mas não apenas isso. São, além do mais,

veículos de comunicação de Deus, que deles se serve para nos interpelar sobre nossa função

de crentes, no seio da sociedade” 522.

É a partir da compreensão profunda de que é no mundo que se pode ler o querer de

Deus para a Igreja e na certeza de que o agir salvífico do mesmo Deus se realiza neste mundo

520
CAMACHO, I. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Op. cit. p. 364.
521
Ib. p. 372.
522
Ib. p. 372.
179

e não fora dele, é que permite, segundo Camacho, “compreender o lugar que a transformação

deste mundo ocupa na missão que o próprio Cristo encomendou a sua Igreja” 523.

A relação entre missão e libertação integral é para a Igreja algo profundamente

inovador, como observa Camacho:

Jamais existira outra formulação tão contundente em todo o magistério da Igreja.

[...] De acordo com a expressão ‘dimensão constitutiva’, não cabe pensar em uma

autêntica evangelização sem atentar para a promoção da justiça e a transformação

das estruturas sociais, embora seja certo que não se está falando da única dimensão,

mas de uma dimensão. Não obstante, e uma vez aceita a importância que o Sínodo

atribui a este aspecto da missão, cabe perguntar pelo sentido preciso da relação

entre justiça e evangelização. Ou, de modo mais concreto, pelo exato significado da

palavra ‘constitutiva’ 524.

Embora a relação entre evangelização e Libertação Integral ou Promoção Humana

vai ser discutida e melhor aprofundada no Sínodo de 1974, é importante notar que, daqui

haure novamente aquela autoconsciência da Igreja, enquanto Povo de Deus, e da tomada de

consciência do mais profundo de sua missão relacionada ao mundo. A esse respeito, o Sínodo

declara que a “situação atual do mundo, vista da fé, convida a uma volta ao próprio núcleo da

mensagem cristã, criando em nós a íntima consciência de seu verdadeiro sentido e de suas

urgentes exigências 525.

523
Ib. p. 372. Neste sentido, o próprio Sínodo diz que a “ação em favor da justiça e da participação na
transformação do mundo mostra-se claramente a nós como uma dimensão constitutiva da pregação do
evangelho, ou seja, da missão da Igreja para a redenção do gênero humano e da libertação de toda situação
opressiva”. Cf. Ib. p. 372.
524
Ib. p. 372-373.
525
Ib. p. 373.
180

Por fim, vale ressaltar que desse Sínodo a palavra de ordem para a vida e a missão da

Igreja frente ao mundo é “Libertação”. Já na análise bíblica que o documento faz, ressalta-se

que no Antigo Testamento “Deus nos revela a si mesmo como Libertador dos oprimidos e

defensor dos pobres, exigindo dos homens a fé e a justiça para com o próximo. Só na

observação dos deveres de justiça é que se reconhece de fato o Deus libertador dos

oprimidos” 526.

No Novo Testamento destacam-se dois sinais que caracterizam a mensagem salvífica

que se comunica mediante Jesus Cristo, ou seja, “que a salvação oferecida nele não exclui o

esforço de libertação das situações opressoras na terra; e que a relação com Deus só terá

sentido se nos projetarmos numa atitude de amor e de entrega aos irmãos” 527.

A relação entre libertação e salvação, conforme Camacho, “pretende-se destacar que

ela deve ser entendida como ‘libertação integral’”. O Sínodo as relaciona de forma um pouco

tímida, mas afirma que a

Missão de pregar o Evangelho no tempo presente exige que nos empenhemos na

libertação total do homem a partir de agora, em sua existência terrena. De fato, se a

mensagem cristã sobre o amor e a justiça não manifesta sua eficácia na ação pela

justiça no mundo, muito dificilmente obterá credibilidade entre os homens de nosso

tempo 528.

526
Ib. p. 374.
527
Ib. p. 374-5.
528
Ib. p. 374.
181

1.1.3. A EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELLII NUNTIANDI E A

EVANGELIZAÇÃO INTEGRAL

De forma providencial, o Papa Paulo VI publicou a Exortação Apostólica sobre a

Evangelização no mundo contemporâneo, Evangellii Nuntiandi, de 8 de dezembro de


529
1975 . Esse documento merece uma explicitação maior por se tratar do documento captus

para toda a compreensão eclesiológica posterior, assim como de sua própria atividade, além

da profunda e objetiva compreensão da missão como evangelização e de suas muitas

conexões.

A EN é fruto do amadurecimento das perspectivas assinaladas pelo Concílio

Vaticano II referentes à Igreja e, concomitantemente, em relação à Missão. Neste ínterim,

aprouve Deus que os trabalhos conciliares fossem amadurecidos. Paulo VI, ao convocar um

novo Sínodo, propôs o tema da Evangelização contrariando todas as expectativas, uma vez

que “em todas as consultas feitas desde a conclusão do Sínodo anterior, as preferências

concentravam-se de forma bastante significativas na família” 530. O Papa justifica sua posição

em sua carta dirigida a todas as Conferências episcopais, afirmando que

O tema da evangelização toca de perto as graves dificuldades com que se defronta a

Igreja no comprimento de sua missão, devidas às múltiplas e radicais

transformações que afetam a sociedade civil e a própria Igreja: daí a necessidade de

529
A presente Exortação Apostólica está dividida, além de um Prôemio e de uma Conclusão, em sete Capítulos,
cujos temas são os seguintes: I - De Cristo evangelizador a uma Igreja evangelizadora. II - O que é evangelizar?
III - O conteúdo da evangelização. IV – As vias da evangelização. V – Os destinatários da evangelização. VI –
Os obreiros da evangelização. VII – O espírito da evangelização.
Também, a partir dos dois aspectos anunciados no discurso de abertura do Sínodo, a presente Exortação pode ser
dividida em três partes, a saber: a primeira parte dirige-se ao “terminus a quo” abrangendo os seus três primeiros
Capítulos, constituindo assim, o eixo dogmático do desenvolvimento do tema. A segunda parte é constituída pelo
Capítulo IV que aborda os meios e os modos pelos quais a Igreja deve evangelizar, constituindo o eixo
metodológico. Por fim, os três últimos Capítulos constituem o “terminus ad quem”, perfazendo o seu eixo
pastoral, ou seja, o largo horizonte de ação e de sujeitos da evangelização.
530
CAMACHO, I. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Op. cit. p. 382.
182

consultar sobre a forma como ela deve cumprir sua missão salvífica de anunciar o

evangelho neste mundo novo em transformações e nas presentes circunstancias 531.

No dia 27 de Setembro de 1974, o Sumo Pontífice conclamou o IV Sínodo Mundial


532
dos bispos e a III Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos , tendo como tema “A

Evangelização no Mundo Contemporâneo”, o que mais tarde seria o nome da própria

Exortação Apostólica.

Paulo VI, no discurso de abertura, apresentou alguns elementos que, depois de

discutidos, tornaram constitutivos do próprio documento. Primeiramente, fala acerca dos

diversos aspectos da Evangelização, demonstrando que este tema é “importantíssimo, mas

deve acrescentar-se imediatamente que ele é também audaz e severo porque nos obriga a

procurar ver quais são, nestes anos tempestuosos, as reais condições sócio-culturais da

humanidade, na qual a Igreja vive” 533.

Da mesma forma, elucida o conceito de Evangelização a partir de dois aspectos: o

“terminus a quo” e o “terminus ad quem”. O primeiro refere-se ao aspecto originário,

eficiente e teológico do termo. Esse aspecto quer recordar, diz o papa, que “se estamos ainda

no mundo, nele estamos sempre na qualidade de enviados, de embaixadores, de Apóstolos e


534
missionários” . O segundo, por sua vez, nos diz respeito à finalidade, ao aspecto eclesial e

humano da evangelização. Dessa forma, conclui afirmando que estes “dois termos podem

servir para delimitar, proveitosamente, o âmbito da evangelização” 535.

531
Ib. p. 382.
532
Para aprofundar o tema cf. CARVALHEIRA, M. P., DUPONT, P. G., QUEIROZ, A.C. O Sínodo de 1974:
Evangelização no Mundo de Hoje. São Paulo: Loyola, 1974. Também, J. HORTAL (Org.). Evangelização no
Brasil Hoje: Conteúdo e Linguagem. São Paulo: Loyola, 1976. VIII Semana de Reflexão Teológica. p. 95 – 108.
533
Discurso de abertura do Sínodo dos Bispos. In: REB, Petrópolis, v. 34, n. 136, p. 930, [Dezembro] 1974.
534
Ib. p. 930.
535
Ib. p. 930. Esta apresentação do Papa Paulo VI em seu discurso, exprime o que mais tarde aparecerá na
Enclítica EN quanto à sua estrutura e à sua divisão, assim como aos temas e ao método a ser utilizado para a
elaboração de sua argumentação, ou seja, o método genético. Cf. LATOURELLE, R. Teologia: Ciência da
Salvação. Trad. Monges Beneditinos de Serra Clara. São Paulo: Paulinas, 1981. Col. Teologia Hoje – 20. p. 86.
183

O Papa em seu discurso apresenta, de forma esquemática, alguns eixos de reflexão

acerca da Evangelização, tais como o seu aspecto de necessidade, o seu caráter Universal, a

sua finalidade536 e a co – relação entre evangelização e promoção humana. 537

Transcorridos exatos 29 dias da abertura do Sínodo, no dia 26 de outubro, o Papa leu

e entregou a todos um documento com 13 parágrafos aos quais veio substituir, de algum

modo, o documento solene que muitos esperavam, “pois a amplidão e a complexidade do

tema não permitiam explicitá-lo, em pouco tempo, nem tirar de forma completamente
538
exaustiva as desejadas conclusões” . Por fim, fez um discurso no ato de encerramento do
539
Sínodo dos Bispos , proferiu de forma clara os frutos do Sínodo e afirmou que, em muitos
540
pontos importantes, houve real convergência . Contudo, deixou claro que alguns pontos

ainda “precisam ser mais bem delimitados, matizados, completados, aprofundados”. Aqui o

Papa disserta sobre as questões referentes à relação da Igreja Universal e as Igrejas

Particulares, da Pluralidade de Teologias e o Magistério e a questão da Libertação 541.

536
Acerca destes três primeiros, o Papa diz que “Evangelizar, não é, para nós, um convite facultativo, mas um
dever premente. (...) Evangelizar, não é, por conseguinte, um trabalho ocasional ou temporário, mas empenho
vital e necessidade constitucional da Igreja” Cf. Discurso de abertura do Sínodo dos Bispos. In: REB, Petrópolis,
v. 34, n. 136 p. 930-931, [Dezembro] 1974.
537
A este respeito diz Ildefonso Camacho: “Em vista das dificuldades que iam surgindo na interpretação e
aplicação das conclusões do Sínodo anterior, sobre a justiça no mundo, não é arriscado pensar que a decisão do
Papa visava também situar esta controvertida questão em seu verdadeiro quadro de compreensão: se em 1971
havia se estudado a justiça como parte da evangelização, convinha agora aprofundar esta última, para iluminar a
justiça. Neste sentido, ambos os Sínodos são complementares. E vamos ver que esta perspectiva esteve presente
em toda a preparação e desenvolvimento da assembléia de 1974, ainda que, agora, mais do que justiça, falar-se-á
de libertação e/ou promoção humana. Mas a questão de fundo permanece a mesma: como harmonizar o esforço
humano nestes campos com a salvação que Deus oferece como seu dom para o final dos tempos, e que constitui
o centro da missão da Igreja? Cf. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Op. cit. p. 382. Cf. Também
GEFFRÉ, C. Como fazer Teologia Hoje: hermenêutica teológica. Op. cit. p. 311- 318.
538
Cf. In: REB, Petrópolis, n. 136 p. 937ss, [Dezembro] 1974.
539
O discurso de encerramento encontra-se In: REB, Petrópolis, n. 136, p. 941-942, [Dezembro] 1974.
540
Cf. Ib. p. 942 - 44.
541
Ib. p. 944-45.
184

1.1.3.1. O CONTEÚDO DA EVANGELLI NUNTIANDI

O conteúdo principal da EN é a “Evangelização”. Paulo VI disserta que “anunciar o

Evangelho aos homens do nosso tempo” juntamente com a “a tarefa de confirmar os irmãos”

configura

um programa de vida e de atividade e um empenho fundamental do nosso

Pontificado, tal tarefa afigura-se-Nos ainda mais nobre e necessário quando se trata

de reconfortar os nossos irmãos na missão de evangelizadores, a fim de que, nestes

tempos de incerteza e de desorientação, eles a desempenhem cada vez com mais

amor, zelo e alegria 542.

Em muitas ocasiões, o tema “Evangelização” foi proposto como conteúdo de

reflexão, dada à importância de sua elucidação, como nos afirma a EN: “Quanto a este tema

da evangelização, Nós tivemos oportunidade, em diversas ocasiões, de realçar a sua

importância, muito antes das jornadas do Sínodo”. Paulo VI insiste ainda na necessidade de

não só refletir acerca do tema, mas de “rever os métodos, a procurar, por todos os meios ao

alcance, e a estudar o modo de fazer chegar ao homem moderno a mensagem cristã, na qual

somente ele poderá encontrar resposta às suas interrogações e a força para a sua aplicação de

solidariedade humana” 543.

O tema é abordado a partir de dois princípios concomitantes. O primeiro elucida a

realidade fundante a qual a Igreja não pode subtrair-se para a execução de seu ministério,

princípio este que o Papa diz que “é absolutamente indispensável colocar-nos bem diante dos

olhos”. Aqui se trata daquilo que a Teologia denomina de regula fidei, ou seja, “um

542
EN 1.
543
EN 3.
185

patrimônio de fé que a Igreja tem o dever de preservar na sua pureza intangível, ao mesmo

tempo em que o deve também apresentar aos homens do nosso tempo, tanto quanto isto é

possível, de maneira compreensível e persuasiva” 544.

A fidelidade à mensagem de Cristo e o dever de transmiti-la aos homens constituem

“o eixo central da evangelização” 545.


546
A partir deste “eixo central”, percebem-se alguns problemas daí decorrentes que,

examinados, constituem o segundo princípio norteador pela qual a Evangelização é abordada,

ou seja, a realidade hodierna na qual o homem está circunscrito.

O Sumo Pontífice reafirma a importância do assunto legitimando, a importância da

própria Exortação, num profundo desejo de “ajudar os nossos irmãos e filhos a responder a

tais interpretações”. Denota ainda o ensejo de que a reflexão acerca da Evangelização

emergida da Exortação Apostólica, “a partir das riquezas do Sínodo, possa levar à mesma

reflexão todo o Povo de Deus congregado na Igreja, e vir a ser um impulso novo para

todos” 547.

Como bem afirma Gianfranco Coffele, a “EN de Paulo VI pode ser considerada

como um dos documentos mais significativos do pós-Concílio, tendo integrado bem a

teologia do AG com a maior parte dos temas emergidos com rapidez incrível no pós-

Concílio” 548, ou ainda como delineou Faustino Teixeira em seu artigo “Entre o desafio do

544
EN 3.
545
EN 4.
546
Estes problemas são assim formulados pela Exortação Apostólica: “O que é que é feito, em nossos dias,
daquela energia escondida da Boa-Nova, susceptível de impressionar profundamente a consciência dos homens.
Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o homem
deste século? Quais os métodos que hão de ser seguidos para proclamar o Evangelho de molde a que a sua
potência possa ser eficaz?”Cf. EN 4.
547
EN 5.
548
COFFELE, G. Missão. In: LATOURELLE, R.; FISICHELLA, R. (Org.). Dicionário de Teologia
Fundamental. Trad. Luiz João Baraúna. São Paulo: Vozes/Santuário, 1994. p. 645.
186

549
Diálogo e a Vocação do Anuncio” , a EN “constitui um marco decisivo para a nova

compreensão de Evangelização”. Tendo em vista a importância capital desse documento, é

mister agora dissertar acerca de algumas contribuições que dele se desprendem para a reflexão

teológica e magisterial da Igreja no pós-Concílio.

A primeira grande contribuição da EN diz respeito à adoção definitiva do termo

“evangelização”, preferido em relação à “missão”, para expressar todo o rol de atividades da


550
Igreja . Paulo VI não a define restritamente, pois “nenhuma definição parcial ou

fragmentária, porém, chegará a dar razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a

evangelização, a não ser com o risco de a empobrecer e até mesmo de a mutilar”. Por ser uma

realidade abrangente, diz o Papa “é impossível captá-la se não se procurar abranger com uma
551
visão de conjunto todos os seus elementos essenciais” . Contudo, no decorrer da

Exortação, a define “em termos de anúncio de Cristo àqueles que o desconhecem, de


552
pregação, de catequese, de batismo e de outros sacramentos que hão de ser conferidos” ,

mas adverte que “este anúncio – querigma, pregação ou catequese - ocupa um tal lugar na

evangelização que, com freqüência, se tornou sinônimo dela. No entanto, ele não é senão um

aspecto da evangelização” 553.

549
Este texto foi apresentado em versão preliminar no IV Encontro Nacional dos Organismos e Instituições
Missionárias (ENOIM) - CNBB. Tema: Nova Evangelização, Diálogo e Anúncio, em vista do COMLA 6
(Congresso Missionário Latino-Americano). Brasília, 05 a 08 de novembro de 1998. In: Convergência,
Petrópolis, Ano XXXIV, n. 327, p. 520-529 [novembro] 1999.
550
Esta distinção já é anterior ao Concílio e ele mesmo frisou como se segue: “Os participantes no Concílio
Vaticano II optaram em descrever a Igreja a partir de dupla perspectiva: a vida interna da Igreja (ad Intra) e sua
vida externa (ad extra). Mas, no Concílio, em lugar de apelarem para a missio da Igreja, foi do múnus dela que
eles falaram: de munere ecclesiae in mundo hujus temporis. Esse termo latino é comumente traduzido como
tarefa (talvez melhor plural tarefas) e algumas vezes como papel, rol, refletindo as diversas responsabilidades
que a Igreja é convocada a assumir. A decisão no Concílio Vaticano II de utilizar a palavra tarefa(s) em lugar de
missio teve a vantagem de remover um paralelo exagerado entre as missões trinitárias e a missão eclesial.
Também, as ´tarefas´ da Igreja são mais abrangentes do que a responsabilidade específica exercitada pelos
formalmente envolvidos na pregação do evangelho a crentes e a crente em potencial”. Cf. FIORENZA,
FRANCIS S.; GALVIN:, JOHN P. (Org.). Teologia Sistemática. Tomo II: perspectivas católico-romanas. Trad.
Paulo Siepierski, São Paulo: Paulus, 1997. Col. Teologia Sistemática. p. 92-93.
551
EN 17
552
EN 17
553
EN 22.
187

A Evangelização possuiu dupla finalidade, isto é, “ela procura converter ao mesmo

tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a

vida e o meio concreto que lhes são próprios” 554. Sendo assim, a evangelização só cumprirá a

sua tarefa se aquele que assim a tiver recebido, fizer uma “adesão do coração”, acolhendo em

sua vida as Verdades e o programa de vida que Cristo explicitou e vivenciando-a numa
555
comunidade de fiéis . Finalmente, diz o Papa, “aquele que foi evangelizado, por sua vez,
556
evangeliza” . Desta forma, conclui que a “evangelização, por tudo o que dissemos, é uma

diligência complexa, em que há variados elementos; renovação da humanidade, testemunho,

anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e

iniciativas de apostolado” 557.

A evangelização destina-se a “educar de tal modo para a fé, que esta depois leve cada

um dos cristãos a viver - e a não se limitar a receber passivamente, ou a suportar – os

sacramentos como eles realmente são, verdadeiros sacramentos da fé” 558. Assim sendo, diz o

papa, não há contrariedade entre evangelização e sacramentalização. Ambos ocupam dois

momentos da vida do fiel: o do encontro com o Senhor e a posse da sua graça. Desta forma, a

evangelização atingirá a sua meta: a vida natural e sobrenatural do homem 559.

Quanto ao conteúdo, Paulo VI é enfático: “evangelizar é, em primeiro lugar, dar

testemunho, de maneira simples e direta, de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito
560
Santo” . É “uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem,

morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da

misericórdia do mesmo Deus” 561. Assim, a “evangelização contém, pois, também a pregação

554
EN 18.
555
EN 23.
556
EN 24.
557
EN 24.
558
EN 47.
559
EN 47.
560
EN 26.
561
EN 27.
188

562
da esperança nas promessas feitas por Deus na Nova Aliança em Jesus Cristo” . De forma

categórica, afirma que “não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a

vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus não forem
563
anunciados” . Por último, a define de forma clássica: “Efetivamente, a totalidade da

evangelização para além da pregação de uma mensagem consiste em implantar a Igreja, a qual

não existe sem esta respiração, que é a vida sacramental a culminar na Eucaristia” 564.

Quanto à metodologia a ser aplicada nesta grande empreitada da Igreja, a Exortação

é clara em afirmar que o primeiro e mais autêntico veículo de evangelização funda-se no


565
testemunho de vida . Outras vias também são apresentadas, como por exemplo, a

pregação566, a Liturgia, no que tange à Homilia, pois “seria um erro não ver na homilia um

instrumento valioso e muito adaptado para a evangelização” 567. Esta deve ser proferida tanto

na Celebração Eucarística como nas celebrações dos Sacramentos e nas “para-liturgias, ou

ainda por ocasião de certas assembléias de fiéis. Ela será sempre uma oportunidade
568
privilegiada para comunicar a palavra do Senhor” . Da mesma forma, a Catequese, os

Sacramentos e a Religiosidade Popular constituem vias indispensáveis para a evangelização.

De forma indispensável também, Paulo VI coloca a necessidade da utilização dos

meios de comunicação social, pois se não o fizer, a

Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não lançasse mão

destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados.

É servindo-se deles que ela ‘apregoa sobre os terraços (cf. Mt 10,27; Lc 12,3) a

562
EN 28.
563
EN 22.
564
EN 28.
565
EN 41.
566
EN 42.
567
EN 43.
568
EN 43.
189

mensagem de que ela é depositária. Neles ela encontra uma versão moderna e

eficaz do púlpito. Graças a eles ela consegue falar às multidões 569.

Destarte, Paulo VI, com simplicidade, adverte que, as

Técnicas da evangelização são boas, obviamente; mas ainda as mais aperfeiçoadas

não poderiam substituir a ação discreta do Espírito Santo. A preparação mais

apurada do evangelizador nada faz sem ele. De igual modo, a dialética mais

convincente, sem ele permanece impotente em relação ao espírito dos homens. E,

ainda, os mais bem elaborados Esquema com base sociológica e psicológica, sem

ele, em breve se demonstram desprovidos de valor 570.

A evangelização destina-se a todos os tipos de pessoas, seja ela praticante ou não

praticante. Da mesma forma, todos os cristãos, em virtude do batismo, têm um dever

fundamental de evangelizar 571.

A relação entre Igreja e missão é fundamental no que concerne à definição de Igreja

dada pela Instrução: “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a

sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar...” 572. A legitimidade desta relação

funda-se no fato de que a Igreja “nasce da ação evangelizadora de Jesus e dos Doze. Ela é o

fruto normal, querido, o mais imediato e o mais visível dessa evangelização” 573. Sendo assim,

nascida da missão de Jesus, ela é enviada ao mundo e se torna para o mundo “um sinal, a um

tempo opaco e luminoso, de uma nova presença de Jesus, sacramento de sua partida e de sua

569
EN 45.
570
EN 75.
571
Cf., AG 35 e EN 59.
572
EN 14.
573
EN 15.
190

permanência. Ela prolonga-o e continua-o” 574. A Igreja deve continuamente se purificar, uma

vez que é depositária da Boa Nova, a fim de preservar íntegro aquilo que recebeu. Como

enviada, ela também envia.

A relação entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento e libertação é

pela EN abordada de forma conciliadora, visto que, há entre ambos, como afirma a Exortação,

“laços de ordem antropológica”, “de ordem teológica” e “laços daquela ordem eminentemente
575
evangélica” . Destarte, reafirma que é importante não querer reduzir a mensagem e os

esforços da Igreja a uma realidade meramente temporal. Respondendo a essas questões,

afirma que a Igreja não se desinteressa por estas realidades, “mas recusa-se a substituir o

anúncio do reino pela proclamação das libertações puramente humanas e afirma mesmo que a

sua contribuição para a libertação ficaria incompleta se ela negligenciasse anunciar a salvação

em Jesus Cristo” 576.

Em relação aos métodos, condena toda e qualquer forma de violência, pois ela “não é

nem cristã nem evangélica e que as mudanças bruscas ou violentas das estruturas seriam

falazes e ineficazes em si mesmas e, por certo, não conformes à dignidade dos povos” 577.

No tocante às Culturas, Paulo VI diz que o “Evangelho e a evangelização são

independentes em relação às culturas, mas não são necessariamente incompatíveis, mas sim

suscetíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas” 578.

Por fim, Gianfranco Coffele diz que

Paulo VI enfrentou temas particularmente sofridos na década de 70, como: a igreja

particular e suas relações com a universal, propondo uma solução bem avançada

574
EN 15.
575
EN 31.
576
EN 34.
577
EN 38.
578
EN 20.
191

(EN 62 – 65); (...) a relação entre história da salvação e história do mundo; estes

temas são enfrentados com clareza e equilíbrio – a, a nosso ver, com êxito – no

Capítulo terceiro da exortação apostólica 579.

1.1.4. A CONFÊRENCIA DE PUEBLA

A Confêrencia de Puebla é caracterizada por sistematizar, de forma objetiva, as

opções de Medellín, mas também, segundo as vicissitudes de seu tempo, pelas novas opções

que faz. Puebla além de reafirmar a opção pelos pobres580, pelas CEBs 581
, faz ainda opção
582
pelos jovens . Prescindindo de qualquer interesse estratégico, a opção pelos jovens veio

chamar atenção para esse grave problema da Igreja, que ainda perdura até hoje. Depois da

crise e do desaparecimento especialmente das JEC e JUC, a pastoral da juventude mergulhou

em tempos de incertezas, de tateios e busca. Com essa opção, Puebla procurou incentivar a
583
busca de novas formas de atuação no meio juvenil . Ainda, diante de uma sociedade

turbulenta, Puebla faz ainda opção pela defesa da dignidade da pessoa humana.

Puebla, acima de tudo, trouxe como grande contribuição um novo modo de

compreender a pastoral e a própria Igreja por meio do princípio “Comunhão e Participação”.

No que se refere à pastoral, o próprio título já é bem significativo584, por abordar a

problemática da evangelização, herança específica da Exortação EN. O próprio título foi,

579
COFFELE, G. Missão. In: LATOURELLE, R.; FISICHELLA, R. (Org.). Dicionário de Teologia
Fundamental. Trad. Luiz João Baraúna. São Paulo: Vozes/Santuário. 1994. p. 646.
580
Para Camacho, não “se trata de uma opção estratégica, em obediência a conveniência pastoral, mas sim de um
imperativo do seguimento de Jesus, que recebe toda a sua força e atualidade do contexto histórico em que se
desenvolve a América Latina.” A Doutrina Social da Igreja na América Latina: Medellín e Puebla. p. 481.
Também cf. DP 1134.
581
DP 96,262,269,1309.
582
Cf. CECHINATO, L. Puebla ao alcance de todos. 2º ed. Petrópolis: Vozes, 1981. p. 146-147.
583
DP 1166-1187.
584
Tema: “Evangelização no presente e no futuro da América Latina”.
192

entre muitos sugeridos, fixado pelo papa Paulo VI, no dia 25 de março de 1977 como

conseqüência natural de sua recente Exortação.

Destarte, o realizador dessa Confêrencia foi o Papa João Paulo II que propôs a
585
tríplice verdade que forja o conteúdo da evangelização: “a verdade sobre a Igreja” , como
586
Povo de Deus, sinal e serviço de comunhão; “a verdade sobre Jesus Cristo” , o Salvador

que anunciamos e a “verdade sobre o homem” 587.

Nesse sentido, João Paulo II “vê na ortodoxia o fundamento e a condição da

ortopraxis. Com isso, não nega a interação dialética entre doutrina e práxis, mas afirma a
588
primazia da verdade do Evangelho, enquanto verdade vinda de Deus” . Estas três

verdades589 estão intimamente conectadas entre si, formando, por assim dizer, três momentos

de uma totalidade, de um único e mesmo discurso 590. Desta tríplice verdade haure de Puebla

uma cristologia, uma eclesiologia e uma antropologia, não importada, mas conectada com a

realidade ameríndia, com seus problemas e suas esperanças 591.

Notoriamente, Puebla transmite um conteúdo eclesiológico mais centralizador, que

procura a unidade e a comunhão. Juntamente com esta nota característica, quer que a

comunhão entre todos se prolifere por meio da participação efetiva e objetiva na construção

do Reino de Deus. É, sem dúvida, uma volta à compreensão eclesiológica, centrada na

verdade e dela parte toda a sua ação, como bem exemplifica o Concílio Vaticano II e a EN. É

585
Cf. DP 220-303.
586
Cf. DP 170-219.
587
Cf. DP 304-339.
588
MELO, A. A Evangelização no Brasil. Op. cit. p. 72.
589
Cf. Aspectos Doutrinários de Puebla. In: Cultura e Fé. Petrópolis, Ano II, n. 6, p. 05-16, [julho/setembro]
1979.
590
Cf. JOÃO PAULO II. Discurso inaugural pronunciado no Seminário Palafoxiano de Puebla de Los Angeles,
México, no dia 28 de janeiro de 1979. In: PUEBLA: A Evangelização no presente e no futuro da América
Latina. Petrópolis: Vozes. 4º ed., 1982. p. 17-34.
591
Cf. DP 162-339.
193

a partir do binômio “comunhão e participação” que se entenderá à eclesiologia pós-Puebla 592.

Contudo, de Puebla em diante, a Missão da Igreja na América Latina será entendida,

de forma oficial, como evangelização, como já se pudera verificar na EN. A evangelização

aqui tem como objetivo central as culturas antigas e novas do continente, a promoção humana

e os modelos de vida social e política 593.

É por meio da evangelização que a salvação uma vez concretizada “no mistério
594
pascal de Cristo [...] chega a nós hoje, mediante a Igreja sob a ação do Espírito Santo” .

Nesse sentido, a evangelização exige e comporta como elemento natural o testemunho dos

evangelizadores, o anúncio da Boa Nova, a geração da fé como conversão, o

comprometimento eclesial e, conseqüentemente, o envio de evangelizadores 595.

Como herança da EN, a evangelização em Puebla é abordada como missão essencial

da Igreja que se inspira em sinais e critérios fundamentais, como o da Palavra de Deus contida

tanto na Sagrada Escritura como na Tradição codificada por meio da profissão de fé e dos

dogmas, o sensus fidei, assim como no denominado sensus fidelium, ou seja, na fé do Povo de

Deus atuante nas múltiplas comunidades etc 596.

É por isso que se pode afirmar que

592
Cf. TAMAYO, F. Eclesiologia de Puebla. In: Medellín, Bogotá, n. 35, p. 324, 1980. A este respeito Camacho
afirma que “Para alguns, o paradigma baseado na comunhão e na participação oculta uma estratégia para
substituir o que nasceu do calor a respeito da libertação. Ainda que isso tenha de fato ocorrido em algum
momento, ninguém pode tampouco duvidar que o projeto de libertação estava arraigado na Igreja latino-
americana, e servir como núcleo aglutinador do grande esforço evangelizador, no período que transcorre
Medellín e Puebla. Mas também teve seus detratores, quase sempre apoiados em certos desvios reducionistas da
libertação. Tudo isso, que era vida e experiência histórica, tinha de estar presente em Puebla”. Cf. A Doutrina
Social da Igreja na América Latina: Medellín e Puebla. p. 478.
593
A esse respeito é interessante a afirmação de Mello quando diz que “A evangelização anuncia uma salvação
que dá sentido às aspirações e realizações humanas, ao mesmo tempo em que as questiona e excede.
Começando, pois, nesta vida, a salvação atinge a sua completa realização na eternidade. Sendo assim, são muito
fortes os vínculos que unem salvação, promoção humana, desenvolvimento e libertação”. Cf. A Evangelização
no Brasil: dimensões teológicas e desafios pastorais. O debate teológico e eclesial (1952-1995). Op. cit. p. 72.
594
DP 479.
595
Cf. DP 356-361.
596
Cf. DP 362-384.
194

Encontramos no Documento de Puebla um conceito amplo e equilibrado de

evangelização. Sem deixar-se enredar em conceitos unidimensionais, o Documento

de Puebla entende por evangelização toda a atividade da Igreja pela qual suscita e

alimenta a fé, provoca a conversão e conduz à participação no mistério de Cristo.

Este mistério é proclamado no Evangelho e realizado na Igreja pela existência

cristã 597.

Esta evangelização se concretiza de forma objetiva por meio das CEBs. Ao referir-se

a elas, o documento afirma que elas “são expressão de amor preferencial da Igreja pelo povo

simples; nelas se expressa, valoriza e purifica sua religiosidade, e se lhe oferece a

possibilidade concreta de participação na tarefa eclesial e no compromisso de transformar o

mundo” 598.

Portanto, se em Medellín o horizonte da evangelização era a libertação, em Puebla, a

é a libertação integral 599 que está condicionada àquela tríplice verdade: Jesus Cristo, a Igreja

e o homem, que deve ser transmitida de forma inalterável.

No que tange à ação pastoral da Igreja no Brasil, as Diretrizes promulgadas para os

anos de 1979 a 1982, reúnem, em seu Objetivo Geral, as conclusões de todos esses eventos

anteriores, sejam concernentes ao Sínodo sobre a Justiça no Mundo, as Conferências de

Medellín e de Puebla, sejam dos Documentos Magisteriais PP e EN. Eis o objetivo geral:

597
MELO, A. A Evangelização no Brasil: dimensões teológicas e desafios pastorais. O debate teológico e
eclesial (1952-1995). Op. cit. p. 74.
598
DP 643.
599
A este respeito Camacho diz que a “libertação integral é elemento inspirador de Puebla e objeto das
preocupações dos bispos ali reunidos, que querem evitar todos os reducionismos. Por isso, é que se insiste tantas
vezes na libertação integral. Pretende-se com esta palavra incluir, antes de mais nada, a dimensão transcendente
da salvação, que dá seu sentido último ao processo de libertação na história. Mas, atrás do qualitativo integral,
encerra-se também outra dimensão, que é novidade em Puebla: a cultural. [...] a evangelização não se dirige
apenas ao individuo isolado, nem às estruturas da sociedade, mas sim ao homem total que se conforma com o
tecido sociocultural. Diante da inexistência de Medellín na libertação da opressão ao homem latino-americano
sofre, especialmente por meio dos mecanismos socioeconômico, Puebla pretende descobrir um nível mais
profundo de dependência: o cultural”. Cf. CAMACHO, I. A Doutrina social da Igreja na América Latina:
Medellín e Puebla. p. 480.
195

Evangelizar a sociedade brasileira em transformação a partir da opção pelos pobres

pela libertação integral do homem numa crescente participação e comunhão

visando à construção de uma sociedade fraterna anunciando assim o Reino

definitivo 600.

O Objetivo Geral, contido nas Diretrizes propostas para o quadriênio de 1983-1986,

incute o dado doutrinal expresso em Puebla acerca da Verdade sobre a Igreja, Jesus Cristo e o
601
Homem . Conseqüentemente, acerca das Diretrizes seguintes propostas para o quadriênio

de 1987-1990, Dom Antonio Celso de Queiroz assim se expressa:

A avaliação do quadriênio de 1983-1986 revelou que a Igreja foi conquistando

novas experiências e aprofundando sua reflexão. O mesmo Objetivo Geral foi

novamente assumido pela CNBB na Assembléia Geral de 1987 com algumas

alterações destacadas pela avaliação do quadriênio. Ao se referir à realidade vivida

pelo povo brasileiro, explicitou-se o aspecto político por sua emergência sempre

maior no horizonte da sociedade e conseqüências para a ação pastoral. As verdades

que constituem o conteúdo fundamental da evangelização são agora introduzidas

pela expressão ‘anunciando’, que indica melhor sua presença permanente, e não

apenas inicial, em todo o processo. Além disso, trata-se da ‘plena’ verdade, que

exclui qualquer reducionismo. A opção preferencial pelos pobres recebe nova

precisão com o termo ‘evangélica’. Por sua vez o objetivo visado pela

evangelização é agora explicitado numa dupla dimensão: ‘formar o povo de Deus’ e

‘participar da construção de uma sociedade justa e fraterna’. A dimensão

600
CNBB. DGAP 1979-1982. (Documentos da CNBB n. 15). São Paulo: Paulinas, 1979. p. 7.
601
CNBB. DGAP 1983-1986. (Documentos da CNBB n. 28). São Paulo: Paulinas, 1983. p. 5.
196

escatológica é agora expressa pela palavra ‘sinal’, com toda a riqueza de

conotações teológicas que ela carrega em si 602.

Contudo, para entendermos as Diretrizes propostas para o quadriênio de 1991 a 1994

é ainda necessário averiguarmos a influência capital da Encíclica de João Paulo II sobre a

missão que, de forma contundente, orientou a Igreja universal e, principalmente a do Brasil,

para novos rumos no que tange ao seu exercício missional entendido como evangelização.

1.1.5. A CARTA ENCÍCLICA REDEMPTORIS MISSIO 603

604
Dentre os muitos documentos Pontifícios publicados até então, a RMi merece

total destaque, pois em consonância com a EN procurou resgatar à Igreja a sua verdadeira

essencialidade ministerial, ou seja, a sua missionariedade como horizonte último e

irrenunciável.

O Papa João Paulo II, na introdução, constata duas coisas na atual conjectura tanto

eclesial quanto mundial. O que constata quanto à realidade eclesial, é que, nesta nova

primavera do cristianismo a, missão Ad gentes passou por um afrouxamento e que o presente

602
CNBB. DGAP 1987-1990. (Documentos da CNBB n. 38). São Paulo: Paulinas, 1987. p. 6-7.
603
A Carta Encíclica Redemptoris Missio acerca da validade permanente do Mandato Missionário situa-se no
conjunto de documentos de João Paulo II com maior repercussão para a Igreja e à sua vida Pastoral. Ela foi
publicada no dia 7 de dezembro de 1990, por ocasião do vigésimo quinto aniversário do Decreto conciliar Ad
gentes e no décimo quinto da Exortação Apostólica de Paulo VI Evangellii Nuntiandi.
604
A Carta Encíclica RMi está divida além de uma introdução e uma conclusão em oito Capítulos, cujos temas
são os seguintes: I – Jesus Cristo, único Salvador. II - O Reino de Deus III - O Espírito Santo, Protagonista da
Missão. IV – Os imensos Horizontes da Missão Ad Gentes. V – Os caminhos da Missão. VI – Os responsáveis e
os agentes da Pastoral Missionária. VII – A Cooperação na atividade missionária. VIII – A Espiritualidade
Missionária. Os três primeiros Capítulos dissertam acerca dos fundamentos teológicos da missão, ou seja, Jesus
Cristo e o Espírito Santo, além de dissertar acerca do seu conteúdo: o Reino de Deus, que não pode ser separado
nem de Cristo nem da Igreja (cf. RMi 18). Os outros Capítulos versam sobre o “Locus” da missão, a descrição
dos seus efeitos, a responsabilidade de todos os batizados pela missão, a mútua colaboração neste exercício,
além, é claro, de descrever os efeitos da ação missionária sobre o fiel, que é de torná-lo santo (cf. RMi 91).
197

605
documento visa justamente a superá-lo . Concomitantemente, o Papa alerta para o número

crescente de pessoas que “ignoram Cristo, e não fazem parte da Igreja” e que este número,

segundo o Pontífice, “quase duplicou, desde o final do Concílio” e, por isso, afirma que “é

evidente a urgência da missão” 606.

Para João Paulo II,

o que me anima mais a proclamar a urgência da evangelização missionária é que ela

constitui o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade

inteira, no mundo de hoje, que, apesar de conhecer realizações maravilhosas, parece

ter perdido o sentido último das coisas e da sua própria existência 607.

Neste ínterim, o Papa diz que é “chegado o momento de empenhar todas as forças

eclesiais na nova evangelização e na missão ad gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição

da Igreja pode esquivar-se deste dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos” 608.

1.1.5.1. O CONTEÚDO TEOLÓGICO DA REDEMPTORIS MISSIO

O Capítulo primeiro traz, em seu bojo, uma questão crucial, fruto de uma profunda

crise teológica: é ainda necessária a Missão entre os não católicos? Porque não substituí-la

pelo Diálogo inter-religioso ou pela promoção humana? Outra questão é: se a salvação é

605
Cf. RMi 2; 4.
606
Cf. RMi 3.
607
Cf. RMi 2.
608
Cf. RMi 3.
198

universal, por que a missão? A missão, como proposta de conversão em Cristo, não violaria a

liberdade do homem? 609

A RMi reafirma a Unicidade e, ao mesmo tempo, a unidade da mediação de Cristo

para a salvação de todas e de cada pessoa humana, muito embora Deus, em sua Providencia,

tenha dispensado sementes do Verbo entre os vários povos, mas não se pode separá-las do

único e mesmo Deus que as distribuiu.

Esta sua mediação única e universal, longe de ser obstáculo no caminho para Deus,

é a via estabelecida pelo próprio Deus, e disso, Cristo tem plena consciência. Se

não se excluem mediações particulares de diverso tipo e ordem, todavia elas

recebem significado e valor unicamente da de Cristo, e não podem ser entendidas

como paralelas ou complementares desta 610.

Conforme o Papa, já desde o Concílio, a questão sobre a Liberdade do homem em

relação a Cristo, não é em nada tolhida; ao contrário, Nele é plenificada. Contudo, se o

homem deve ser respeitado em sua liberdade e adesão livre, tem também o dever moral,

conforme o Concílio, de acolher a verdade sobre si e sobre a sua vida 611.

A carta Encíclica retoma a postura da real necessidade da Igreja na ordem da

salvação. A salvação é possível somente pela e na Pessoa de Jesus Cristo, mas a Igreja é

necessária para a exata salvação, porque é a primeira beneficiadora e porque é o instrumento

privilegiado desta universal ação salvífica de Deus em Cristo. Assim, diz o Papa, é

609
Cf. RMi 4.
610
RMi 5.
611
Cf. RMi 7-8.
199

“necessário manter unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo

para todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa salvação” 612.

Neste ínterim, perante a pergunta por que a missão? Responde o Papa, de forma

incisiva: “A missão é um problema de fé; é a medida exata de nossa fé em Cristo e no seu

amor por nós”. A missão, continua o Papa,

para além do mandato formal do Senhor, deriva ainda da profunda exigência da

vida de Deus em nós. Aqueles que estão incorporados na Igreja Católica devem

sentir-se privilegiados, e, por isso mesmo, mais comprometidos a testemunhar a

vida cristã como serviço aos irmãos e resposta devida a Deus....613.

A Encíclica aborda a necessária relação entre Jesus Cristo e o Reino de Deus. Este é

personificado e revelado progressivamente em suas exigências em Jesus “por meio de suas


614
palavras, suas obras e sua pessoa” . O Reino de Deus, assim como a salvação operada por

Jesus Cristo, destina-se para todos, indistintamente, incluindo a sociedade como um todo e o
615
mundo inteiro e a todas essas realidades, visa unicamente à “libertação e à salvação” que
616
“atingem a pessoa humana tanto em suas dimensões físicas como espirituais” . Assim, o

“Reino pretende transformar as relações entre os homens, e realizar-se progressivamente, à

medida que estes aprendem a amar, a perdoar, a ajudar-se mutuamente” 617.

612
Cf. RMi 9.
613
Cf. RMi 11.
614
RMi 14.
615
RMi 15.
616
RMi 14.
617
RMi 15.
200

Ademais, o Reino de Deus, além de se relacionar com Jesus Cristo, não pode ser

separado da realidade da Igreja. A relação entre Reino-Jesus-Igreja é ontológica, não podendo

separá-las ou reduzi-las a uma dimensão antropocêntrica, ou reino-cêntrica, caindo num

teocentrismo, como afirma o papa. Não se pode querer, em nome do diálogo inter-religioso,

valorizar o mistério da criação em detrimento ou até mesmo da exclusão do mistério da


618
redenção . “O Reino de Deus”, afirma a Encíclica, “não é um conceito, uma doutrina, um

programa sujeito a livre elaboração, mas é, acima de tudo, uma pessoa que tem o nome e o

rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível” 619.

Neste sentido, a Igreja está a serviço do Reino e o serve primeiramente com o

“anúncio que chame à conversão: este é o primeiro e fundamental serviço à vinda do Reino
620
para cada pessoa e para a sociedade humana” . Por ser Sacramento de Salvação, a Igreja

não pode limitar-se somente aos que lhe acolhem; “Ela é força atuante no caminho da

humanidade rumo ao Reino escatológico; é sinal e promotora dos valores evangélicos entre os

homens” 621.

Como fundamentos da missão, a Encíclica apresenta o Espírito Santo como o

Protagonista da missão 622. Não se pode dicotomizar a ação do Espírito nas culturas da mesma

ação do mesmo Espírito na Igreja, pois a

ação universal do Espírito, portanto, não pode ser separada da obra peculiar que ele

desenvolve no corpo de Cristo, que é a Igreja. Sempre é o Espírito que atua, quer

quando dá a vida à Igreja, impelindo-a anunciar Cristo, quer quando semeia e

desenvolve seus dons em todos os homens e povos, conduzindo a Igreja à

618
RMi 17
619
RMi 18; GS 22.
620
RMi 20.
621
RMi 20.
622
RMi 21;30.
201

descoberta, promoção e acolhimento desses dons, por meio do diálogo. Qualquer

presença do Espírito deve ser acolhida com estima e gratidão, mas compete à Igreja

discerni-la. A ela, Cristo deu o seu Espírito para a guiar até à verdade total (cf. Jo

16,13) 623.

Após abordar esses fundamentos teológicos da missão, João Paulo II descreve três

tipos de missão, ou seja, aquela que se dirige às comunidades cristãs solidamente formadas e

que vivem com fervor. São nestas comunidades que se desenvolvem as pastorais, que é a

forma concreta de realizar a missão da Igreja. Existem também comunidades, as quais

desconhecem de forma total a pessoa de Jesus Cristo e seu Evangelho ou nas quais falta

maturidade para poderem encarnar a fé e anunciá-la aos outros. Aqui o Papa diz que é “esta,

propriamente, a missão ad gentes”. Existe ainda uma intermediária, que se situa nos países de

longa tradição católica ou ainda nas Igrejas jovens, nas quais se perdeu o sentido da fé e as

exigências do Evangelho. Aqui se fala de uma nova evangelização 624.

A Igreja no Brasil baseada nessa tríplice análise da missão conjugada com a

realidade religiosa em que estava o povo católico brasileiro, já nas Diretrizes de 1991-1994 já

propor-se-á uma mudança e um aggionamento a toda sua ação Pastoral, ressaltando a

“urgência da ‘nova evangelização’” e a imposição de uma nova prioridade: “o trabalho

evangelizador e missionário dirigido aos católicos não-praticantes, a maioria da população.

Apesar do batismo e de certa religiosidade, eles se acham, de fato, afastados da comunidade

eclesial ou só ocasionalmente dela se aproximam” 625.

Segundo o Papa, não há uma clara separação entre o cuidado pastoral, a nova

evangelização e a missão específica, pois todas elas são afins e têm como objetivo último, o

623
RMi 29.
624
Cf. RMi 33; Também PIÉ-NINOT, S. Introdução à Eclesiologia: Op. cit. p. 104.
625
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. p. 8.
202

626
anúncio da pessoa, da doutrina de Jesus Cristo . Insiste-se, ainda, na evangelização da

cultura, por meio dos novos areópagos, pois o “uso da mass-média, no entanto, não tem

somente a finalidade de multiplicar o anúncio do Evangelho: trata-se de um fato muito mais

profundo, porque a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da

sua influência” 627.

A missão deve ser precedida pelo testemunho de vida, pois o homem moderno

acredita mais nas testemunhas do que nos mestres. “O testemunho da vida é a primeira e

insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós continuamos, é a ‘testemunha’ por

excelência (Ap 1,5;3,14) e o modelo do testemunho cristão” 628. Este testemunho pessoal deve

ser crescente dentro de uma comunidade, a fim de que nela o cristão possa fazer “uma

experiência comunitária, onde ele próprio se sente um elemento ativo, estimulado a dar a sua

colaboração para o proveito de todos” 629.

A RMi abarca as CEBs como lugar para o autêntico testemunho cristão e também

para o autêntico anúncio do Evangelho. Diz o Papa: “Deste modo, elas tornam-se instrumento

de evangelização e de primeiro anúncio, bem como fonte de novos ministérios; enquanto,

animadas pela caridade de Cristo, oferecem uma indicação sobre o modo de superar divisões,

tribalismos, racismos” 630.

O Papa aborda a questão da inculturação do evangelho como necessária, embora seja

um processo lento “que acompanha toda a vida missionária e que responsabiliza os vários

agentes da missão Ad gentes” 631. Pela inculturação, o Evangelho é encarnado na Cultura, seus

valores assumidos, mas também corrigidos a partir de dentro. Sendo assim, dois princípios

626
Cf. RMi 34.
627
RMi 37.
628
RMi 42.
629
RMi 51.
630
RMi 51.
631
RMi 52.
203

são elencados para o correto desenvolvimento da inculturação: “‘a compatibilidade com o

Evangelho e a comunhão com a Igreja Universal’” 632.

No que se refere ao diálogo inter-religioso, afirma-se que ele “faz parte da missão
633
evangelizadora da Igreja” , mas que também não dispensa a afirmação de “que a salvação

vem de Cristo” nem mesmo a necessidade da própria ação evangelizadora 634.

Embora o protagonista da missão seja o Espírito Santo, a RMI destaca os

responsáveis pela execução desta missão. Os primeiros responsáveis pela evangelização do


635
mundo são os Bispos, juntamente com o Papa, como já nos afirmava o Vaticano II .

Juntamente com eles todos os Sacerdotes, diocesanos ou não, são co-responsáveis pela missão
636 637
da Igreja além é claro, dos inúmeros Institutos Missionários . Ademais, assim como a

missão é universal e sendo a Igreja entendida como Povo de Deus, essa missão, que é da

Igreja, é também missão de todo o seu Povo. Assim, se pelo batismo todo homem e mulher se

tornam Povo de Deus, pelo batismo também todo cristão é inserido nessa mesma e única

missão de Jesus Cristo 638.

O número 72 indica os lugares onde os leigos devem exercer a sua vocação

missional, a saber, na Sociedade, junto à realidade política, econômica e social, na

Comunidade Eclesial, no que refere ao exercício ministerial, no voluntariado, na

evangelização propriamente dita e também pelos muitos serviços prestados à comunidade,

principalmente a catequese 639. Embora sendo todos responsáveis pela missão, não se exclui a

vocação especifica Ad gentes 640.

632
RMi 54.
633
RMi 55.
634
RMi 55.
635
Cf. LG 23; RMi 63.
636
Cf. RMi 67.
637
Cf. RMi 66.
638
Cf. RMi 71.
639
Cf. RMi 72-73.
640
Cf RMi 79.
204

Neste ínterim, chegamos ao objetivo da nossa análise que são as Diretrizes propostas

para o quadriênio de 1991-1994. Iniciamos, agora, nossa análise das Diretrizes Gerais da

Ação Pastoral exposta no documento 45.

1.2. AS DIRETRIZES DA AÇÃO PASTORAL: DOC 45: UMA ANÁLISE

TEOLÓGICA

As Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil propostas para o quadriênio

de 1991-1994 encerram em si todas as contribuições teológicas anteriores, principalmente no

que tange à compreensão da missão como evangelização. Notoriamente, percebe-se no

documento 45 uma profunda preocupação e, ao mesmo tempo, uma profunda reflexão sobre o

tema da evangelização como fio condutor de toda a vida eclesial. Torna-se claro esta

tendência pela não-proposta de destaques pastorais, como de costume, em quase todas as

outras Diretrizes anteriores. Há, por decorrência de toda a reflexão anterior, um despertar da

Igreja para a sua identidade e missão: “Olhando a urgência e os desafios da missão, na atual

sociedade brasileira, sentimos a necessidade de despertar ainda mais a consciência

missionária da Igreja” 641.

O corpo doutrinal, apresentado no Capítulo I, é, em síntese, uma retomada do

conteúdo da RMi. No segundo Capítulo apresentam-se as dimensões da evangelização. Aqui é

importante ressaltar que, acerca da evangelização, todas as nossas Diretrizes já a mencionam,

porém, dentro de uma estrutura pastoral baseada nas seis Dimensões ou Linhas. Estas

constituem o “quadro referencial da Ação Pastoral, sem esgotar o mistério da Igreja” e “têm a

função de mostrar ao mesmo tempo a variedade de aspectos e a unidade dinâmica que deve

existir entre eles. De fato, elas se interpenetram e se exigem mutuamente” 642.

641
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 27.
642
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 75.
205

Embora se fale de interdependência, a missão é, nessas Diretrizes assim como nas

anteriores, entendida na prática pastoral como um momento da pastoral que não influência as

demais. A Linha dois sobre a dimensão missionária é, entre todas as outras cinco linhas ou

dimensões, apenas um aspecto da Pastoral e não o conteúdo, a razão em si de ser de toda a

ação da Igreja que se concretiza na pastoral.

A dimensão missionária exprime, pois, um aspecto particular da única e abrangente

missão da Igreja, correspondente à primeira evangelização, para despertar a fé nos

não-cristãos, integrando novos membros em sua comunhão visível 643.

A Igreja no Brasil, nos últimos anos, tem manifestado seu dinamismo por um novo

ardor missionário “ad gentes”, não apenas se preocupando com as situações

missionárias presentes no país, mas ampliando seu horizonte missionário para

“além-fronteiras” 644.

A missionariedade da Igreja ressaltada como Essência e Razão de ser da Igreja, como

nos aponta o Concílio e também Paulo VI na EN, é aprisionada numa linha ou dimensão da

pastoral. Neste ínterim, a proposta conciliar, assim como dos outros documentos pontifícios

somados à realidade religiosa brasileira, exigirá um entendimento do lugar da missão-

evangelização que melhor ressalte a própria vocação da Igreja e, conseqüentemente, a sua

essencialidade enquanto ação junto ao povo de Deus e à sociedade.

As Diretrizes apresentam uma análise das mudanças na sociedade e,

conseqüentemente, traça os desafios à evangelização a partir da influência da

643
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 81.
644
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 84.
206

645
modernidade . A modernidade ressaltou ao máximo a autonomia do homem com a

afirmação da subjetividade e, no campo social, favoreceu o surgimento e o crescimento do

liberalismo econômico e do capitalismo liberal.

Se com o Concílio temos a secularização 646, como progresso de avaliação teológica

diante dos valores do mundo, com a modernidade tem-se o secularismo, como a marca

característica de seu legado e que representa a verdadeira depreciação dos grandes valores da

fé com repercussão na decadência moral 647.

As Diretrizes assinalam que é

nas grandes transformações econômicas que mais aparecem os frutos do progresso

tecnológico, e ao mesmo tempo suas contradições e limites. É preciso reconhecer

que essas transformações econômicas vieram agravar a questão social, que adquiriu

dimensões mundiais, aumentando o número de indivíduos e de povos inteiros

desprovidos do mínimo necessário, difundindo a exploração e o empobrecimento,

tornando o mundo mais desigual que nunca 648.

Contudo, nossos bispos lembram que “o fenômeno da modernidade deve ser

estudado e acompanhado permanentemente, se quisermos manter atualizada a nossa ação


649
pastoral” . As Diretrizes constatam “três aspectos, particularmente significativos, que

questionam a nossa consciência de cristãos e oferecem desafios inéditos para a


650
evangelização” . Esses desafios são, pelo documento, assim apresentados: “o

645
Para um melhor entendido do que é a Modernidade, cf. DE ÁVILA, F.B. Modernidade. In: Pequena
enciclopédia de Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Loyola, 1991, p. 299.
646
Cf. GS 36; AA 7.
647
CF. DE MIRANDA, A.A. A Pastoral em face da Modernidade e da Pós-Modernidade. In: Atualização, Belo
Horizonte, n. 236, p. 166, [março/abril] 1992.
648
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 111.
649
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 113.
650
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 113.
207

651 652
individualismo e a emergência da subjetividade” , “o pluralismo cultural e religioso” e

as “contradições sociais e causas estruturais” 653. Explicitemo-las de forma rápida.

Quando se fala em “valorizar a pessoa e a experiência subjetiva”, cumpre lembrar

que o apelo evangélico é apelo, primeiramente, à dimensão pessoal e subjetiva como nos

lembra a RMi, citando a EN: “a evangelização conterá sempre – como base, centro, e, ao

mesmo tempo, vértice do seu dinamismo - uma proclamação clara de que, em Jesus Cristo,

[...] a salvação é oferecida a cada homem, como dom da graça e misericórdia do próprio

Deus” 654.

De forma igual, a resposta aos apelos da fé será sempre, conforme os dizeres do Papa

João Paulo II, uma “experiência subjetiva” do homem sob o impulso do Espírito Santo. Neste

ínterim,

Ao anunciar Cristo [...] o missionário está convencido de que existe já, nas pessoas

e nos povos, pela ação do Espírito Santo, uma ânsia (mesmo se inconsciente) de

reconhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à

libertação do pecado e da morte 655.

Por isso, quando não se desce ao coração do homem e não se provoca nele a

experiência de Deus, não é evangelização, mas se lhe aplica, quando muito, um “verniz
656
superficial” de informação evangélica . A este respeito, as Diretrizes lembram que “a

experiência religiosa cristã não se realiza em mera experiência subjetiva, mas no encontro

651
Cf. CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 114-127.
652
Cf. CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 128-151.
653
Cf. CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 152-166.
654
RMi 44.
655
RMi 45.
656
Cf. EN 20.
208

com a Palavra de Deus confiada ao Magistério e à Tradição da Igreja, nos sacramentos e na

comunhão eclesial” 657.

No que se refere aos desafios sobre a “vivência comunitária e a diversificação das

formas de expressão eclesial”, as Diretrizes, novamente, acentuam a dimensão objetiva e

concreta desta “vivência comunitária” quando diz:

Conforme o próprio Concílio Vaticano II, a comunidade eclesial é edificada pelo

Espírito Santo, mediante o anúncio da Palavra (Evangelho), a celebração da

Eucaristia e dos outros Sacramentos e ministérios, entre os quais sobressai o

ministério episcopal-presbiteral, que tem a responsabilidade de garantir a

autenticidade dos laços que unem a comunidade de hoje com a Igreja apostólica e

com o projeto missionário, evangelizador, que lhe foi confiado até o fim dos

tempos 658.

No que tange à questão da “presença mais significativa da Igreja na sociedade”, é

preciso distinguir dois pólos dessa presença: um teológico e outro prático. “Teologicamente, a

Igreja é o ‘Sacramento da Salvação’, sinal e instrumento que aponta para o destino de toda a

humanidade (LG, n. 11). A Igreja se constitui de homens incorporados em sociedades


659
históricas e locais” . Assim, ela erguerá a sua voz profeticamente, mas deverá lembrar

sempre que sua missão implica no cuidado “de não se nivelar com forças políticas em busca

657
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 175.
658
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 196.
659
DE MIRANDA, A.A. A Pastoral em face da Modernidade e da Pós-Modernidade. In: Atualização, Belo
Horizonte, n. 236, p. 175, [março/abril] 1992.
209

do poder, mas em refletir a imagem de Jesus Cristo, Servidor da humanidade, sobretudo dos

mais pobres, que veio para servir e não para ser servido” 660.

No sentido prático, dizem as Diretrizes, “a Igreja continuará a elaborar e desenvolver

sua doutrina ou ética social, tornando-a mais acessível à maioria do povo, de modo que possa

inspirar uma efetiva ação transformadora da sociedade, no sentido de maior justiça e

solidariedade” 661. Ou ainda, “na reflexão sobre a ética social, a Igreja no Brasil procurará não

se limitar apenas às grandes orientações gerais, mas descer às situações concretas e realidades

específicas” 662.

O bispo Antonio Afonso de Miranda constata, em seu artigo, que estes problemas

também são oriundos do que hoje se denomina de pós-modernidade:

Depois das elaborações filosóficas de um humanismo profano, de um liberalismo

absoluto, e de uma supervalorização da razão e da técnica e a par de uma vivência

de produção e consumo – heranças da modernidade – despontaram no coração do

homem os frutos do amargor que talvez possam ser fonte de cura: a angustia e a

busca de novos caminhos. É o característico religioso da pós-modernidade 663.

O que é a pós-modernidade? O teólogo belga Johan Van Der Vloet afirma que de um

lado, todos os temas da ‘modernidade’ como a razão, o sujeito, a autoridade, o

progresso são postos em dúvida. Poder-se-ia falar não somente de uma crítica

660
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 130.
661
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 238.
662
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 239.
663
DE MIRANDA, A.A. A Pastoral em face da Modernidade e da Pós-Modernidade. In: Atualização, Belo
Horizonte, n. 236, p. 168, [março/abril] 1992.
210

destes termos, mas, além disso, de uma abdicação diante destes termos. O que quer

dizer que o pensamento pós-moderno é caracterizado por uma desilusão

fundamental sobre a evolução atual da modernidade. A pós-modernidade crê que a

modernidade se tornou uma espécie de mito 664.

Prosseguindo, faz duas observações importantes, que nos ajudarão a entendermos

melhor esses três fenômenos:

a pós-modernidade como sistema, se podemos permitir-nos esta palavra,

evidentemente não penetrou o espírito das grandes massas do Ocidente. Mas as

conseqüências que ela tira de suas premissas, parecem-me influenciar de modo

inquietante a vida das pessoas comuns. Se fizermos uma análise do modo de vida

de nossos contemporâneos, constatamos que as idéias da pós-modernidade não são

invenções filosóficas 665.

É a triste, mas real, lei da secularização do mundo. Tem-se a impressão que o

mundo vai achar uma unidade interior no mesmo estilo de vida: individualista, ou

melhor, liberal e, sobretudo, indiferente. [...] De um lado, o estilo de vida pós-

moderno deve fazer-nos ver que a religião em geral, e a fé cristã em particular,

estão em grave perigo. A ‘massa portadora’ da religião torna-se cada vez menor. Se

os cristãos não tiverem a coragem de engajar-se, esta massa se tornará – certamente

no Ocidente – cada vez menor 666.

664
DER VLOET, J.V. A fé diante do desafio pós-moderno. In: Communio, Rio de Janeiro, n. 56, p. 163,
[out/nov/dez] 1991.
665
Ib. p. 364.
666
Ib. 364.
211

As próprias Diretrizes constatam que, embora o número dos que não acreditam em

Deus “não passam de 1% a 1,5% dos adultos” 667, o número dos que se declaram católicos

continua diminuindo lentamente, como vem acontecendo há mais de um século, na

medida em que se difunde o pluralismo religioso. Segundo os censos, os católicos

eram 98,9% em 1890; 95% em 1940; 91,8% em 1970; 89,1% em 1980. Estimativas

recentes fazem pensar que o número atual de católicos se aproxime de 85% da

população 668.

Enquanto isso cresce o número de adeptos de outras religiões. “Os evangélicos

(protestantes tradicionais e pentecostais) subiram de 1% em 1890 para 2,6 em 1940; 5,2% em

1970; 6,6% em 1980. Hoje, podem ser estimados em cerca de 8% da população” 669.

Diante desses fenômenos da modernidade e da pós-modernidade e dos agravantes

sociais no que tange à religião e à miséria, como atuar nessa nova cultura hodierna que se

instala e é agressiva aos valores evangélicos e nocivos aos homens?

As Diretrizes acenam para esta realidade cultural, quando afirma que “a maior parte

da população no Brasil de hoje mora na cidade” e, por isso, a “Igreja deve estimular os

cristãos a assumir a realidade urbana em sua complexidade” 670.

Diante do modelo eclesial que as Diretrizes apresentam, é possível responder aos

apelos dos homens e das mulheres de hoje por meio de uma nova evangelização, como o Papa

João Paulo II tem insistido tanto?

Passo aqui a tentar descrever alguns aspetos da eclesiologia inerente às Diretrizes

propostas para o quadriênio de 1991-1994.

667
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 138.
668
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 139.
669
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 140.
670
CNBB. DGAP 1991-1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas, 1991. n. 194.
212

Fundamentalmente, a Igreja do Brasil é a Igreja do Vaticano II que procurou inserir-

se no mundo, dialogar com ele, da valorização do fiel leigo, engajando-o na comunidade,

(CEBs) inserindo-se, por meio da diversidade das pastorais, em todos os âmbitos sociais.

Contudo, é necessário percebermos que a Igreja no Brasil viveu de forma unilateral, “uma

inclinação horizontalista, com acentuados apelos sociais, quase exclusivamente ao social.

Pouco, ou quase nada, se falava da função salvadora e sacramental da Igreja” 671.

A Igreja no Brasil foi se tornando um sinal unívoco no que se refere à sociedade.

Numa tentativa de construção do Reino de Deus, embrenhou-se em funções eminentemente

sociais, libertárias, que não carecem de valores evangélicos, e que não constituem a

essencialidade de sua missão. A Igreja, por muito tempo, esqueceu que era preciso

evangelizar como Paulo VI nos lembra: é “uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho

de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como

dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus” 672.

Assim, a “evangelização contém, pois, também a pregação da esperança nas

promessas feitas por Deus na Nova Aliança em Jesus Cristo” 673. De forma categórica, afirma

que “não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas,

o reino, o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus não forem anunciados” 674. Por último, a

define de forma clássica: “Efetivamente, a totalidade da evangelização para além da pregação

de uma mensagem consiste em implantar a Igreja, a qual não existe sem esta respiração, que é

a vida sacramental a culminar na Eucaristia” 675.

671
DE MIRANDA, A.A. A Pastoral em face da Modernidade e da Pós-Modernidade. In: Atualização, Belo
Horizonte, n. 236, p. 176, [março/abril] 1992.
672
EN 27.
673
EN 28.
674
EN 22.
675
EN 28.
213

Neste ínterim, aquilo que nós, católicos, não demos importância, como a pregação, a

catequese, a sacramentalização, a liturgia 676, que fazem o crente transcender-se e, ao mesmo

tempo impulsionados por esta transcendência, engajar-se em sua vida concreta, ficamos em

discursos e em ações eminentemente imanentes que não levam à transcendência o fiel. Por

isso, perdemos na qualidade de cristianismo e, conseqüentemente, perdemos fiéis para as

outras religiões que estavam preocupadas em responder aos apelos de fé dos fiéis e não se ele

tem ou não direitos, mesmo que isto seja relevante, mas não é tudo. Enquanto ficamos

preocupados em dar assistência jurídica e reivindicar os direitos dos pobres, que é louvável,

por outro lado, esquecemos de dar-lhes também o pão da fé, o direito de expressar a sua

religiosidade, de transcender-se. Os protestantes preencheram nossa lacuna.

Quando se fala do protagonismo dos leigos e das CEBs, temos que ressaltar alguns

pontos importantes: João Paulo II na RMi, assim como já Paulo VI na EN, chamava a

atenção para a eclesialidade das CEBs:

De fato, cada comunidade, para ser cristã, deve fundar-se e viver em Cristo, na

escuta da Palavra de Deus, na oração onde a Eucaristia ocupa o lugar central, na

comunhão expressa pela unidade de coração e de alma, e pela partilha conforme as

necessidades dos vários membros (cf. AT 2,42-47). Toda a comunidade –

recordava Paulo VI – deve viver em unidade com a Igreja Particular e Universal, na

comunhão sincera com os Pastores e o Magistério, empenhada na irradiação

missionária e evitando fechar-se em si mesma ou deixar-se instrumentalizar

ideologicamente. O Sínodo dos Bispos afirmou: ‘Uma vez que a Igreja é

comunhão, as novas comunidades de base, se verdadeiramente vivem em unidade

com a Igreja, representam uma verdadeira expressão de comunhão e um meio

676
EN 42-43.
214

eficaz para construir uma comunhão ainda mais profunda. Por isso, são uns motivos

de grande esperança para a vida da Igreja’ 677.

Historicamente, as CEBs em vez de se tornarem pólos de unidade eclesial, tornaram-

se, na maioria delas, salvo exceções, pontos de reivindicações sociais e eclesiais. Os leigos

foram cada vez mais conscientizados sobre seus direitos e deveres, mas não sobre o conteúdo

da fé; muitos se tornaram insensíveis àqueles que não compartilhavam de suas ideologias.

Todos os outros fiéis leigos, que preferiam um outro modo de ser Igreja, eram denominados

alienados, enquanto só se podia afirmar ser leigo, aquele que estivesse engajado na luta do e

pelo povo. Criou-se, neste ínterim, uma “ditadura da pastoral”, na qual só se é engajado se

fizer parte de uma pastoral. Caso contrário, são todos alienados. Criou-se, nesse sentido, uma

ruptura entre ser da pastoral e não ser da pastoral. Todos os que não participavam eram

considerados cristãos de segunda categoria.

Num contexto assim, temos um perfil de Igreja horizontalista, pastoralista, engajada

na construção do Reino de Deus, segundo as suas forças e não segundo o Evangelho, como

afirma o Cardeal Ratzinger:

O Reino de Deus não é um lugar ou um tempo, nem uma estrutura do mundo que

nós devemos idealizar realizar. O Reino de Deus é o próprio Deus que se fez

próximo de nós, se comunicou a nós e se une a nós para reinar em nós. Anunciar o

Reino de Deus é anunciar o Deus vivo e verdadeiro. Quem não conhece Deus, não

conhece o homem, ignorando a sua verdadeira dignidade [...] Se na evangelização

devemos falar principalmente de Deus para pode falar do homem com verdade,

devemos examinar as nossas consciências. Grande parte da nossa catequese e da

677
RMi 51.
215

nossa pregação parece ter sido determinada pela persuasão de que é necessário

resolver primeiros os urgentes problemas econômicos, sócios e políticos, e depois

poderemos também falar de Deus tranqüilamente e em paz. Assim, é pervertida a

verdade das coisas, nós anunciamos uma sabedoria nossa e um reino humano e

escondemos a luz verdadeira, da qual tudo depende, sob o céu das nossas idéias e

iniciativas 678.

A evangelização, até aqui apresentada pelas Diretrizes, não se tornou o verdadeiro

conteúdo da Ação Pastoral. Ademais, conforme o próprio Papa João Paulo II afirmou na RMi,

a Pastoral é para uma Igreja que está toda evangelizada e não para uma Igreja que está em

estado de evangelização. A Igreja no Brasil deverá passar do adjetivo “Pastoral” para o de

“evangelização”, visto que a sua missão ainda está longe de se realizar e também neste

período distanciada de seu verdadeiro itinerário.

É salutar e representativo o testemunho de Dom Aloísio Lorscheider:

O povo simples e humilde é cada vez mais excluído da sociedade. As massas

sobrantes aumentam. E aí vem pertinente a pergunta: terá sido esse o resultado real,

concreto, de 500 anos de Evangelização? Que Evangelização foi essa? Foram os

corações duros que se fecharam, ou foi a nossa Evangelização insuficiente? Onde

está a falha? Constatamos a não eqüitativa distribuição dos bens da terra; a

desigualdade no exercício da cidadania, a discriminação; a corrupção nos serviços

públicos, a busca não do bem comum, mas de interesses particulares; a violação

constante dos direitos humanos fundamentais; o crescendo da violência no

desemprego, nos seqüestros, nos roubos, nos assassinatos. Será que faltou o

anúncio do Evangelho? O que deveria ter sido feito e não se fez? 679

678
Cf. Revista “30 DIAS”, Roma, ano VII, col. 1 e 2, p. 38, [janeiro] 1992.
679
LORSCHEIDER, A. A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Santo Domingo –
República Dominicana. In: REB, Petrópolis, v. 53, n. 209, p. 20, [março] 1993.
216

1.3. OS FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DAS DIRETRIZES DA AÇÃO

EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL: DOC 54

Essas novas Diretrizes inauguram um novo tempo para a Igreja no Brasil. A partir

delas, em consonância com a IV Confêrencia Episcopal, realizada em Santo Domingo, e

atendendo aos apelos do Papa para a preparação do Novo Milênio, percebe-se uma nova

aurora, uma revolução copernicana na compreensão do lugar da Evangelização na Igreja. Há

um verdadeiro empenho, primeiramente por parte dos bispos, em aplicar os princípios da nova

evangelização proposta pelo Papa João Paulo II, ou seja, de ser nova em seu “ardor”, em seus

“métodos” e em suas “expressões”. Ela passa de uma mera Dimensão da Pastoral para se

tornar à razão de ser e de agir de toda ação pastoral da Igreja.

Importante ressaltar as contribuições imediatas para a sua formulação: Santo

Domingo e a Carta Encíclica Tertio Millennio Advenient.

1.3.1. SANTO DOMINGO E O PROJETO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Santo Domingos ressaltou uma tríplice preocupação, como já denota o próprio tema

da Confêrencia e o discurso programático do Papa João Paulo II, quando da sua abertura:
680
“Nova Evangelização, Promoção humana, Cultura Cristã” . Diferentemente do que

acontecera nas outras três Conferências, Santo Domingo verbaliza, desde o seu início até o

seu fim, de forma objetiva, que a sua única opção é por Jesus Cristo e que todos os trabalhos

são decorrência dessa opção fundamental 681.

680
Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM. In: SANTO DOMINGO: Nova Evangelização,
Cultura Cristã e Inculturação. Petrópolis: Vozes, 1992. p. 7-30.
681
Cf. DADEUS G. A Conferência de Santo Domingo. In: Teocomunicação, Porto Alegre, v. 23, n. 99, p. 23,
[março] 1993.
217

Dentre os muitos outros enfoques que a essa Confêrencia se pode dar, como

abordagem própria para nossa reflexão, elucidaremos apenas três: o que tange à temática da

nova evangelização, à centralidade de Jesus Cristo como fundamento da eclesiologia de

comunhão e ao protagonismo dos leigos.

1.3.1.1. SANTO DOMINGO E A NOVA EVANGELIZAÇÃO

O tema da nova evangelização foi, pela primeira vez, verbalizada pelo Papa João

Paulo II, em Porto Príncipe, no Haiti, aos oito dias do mês de março de 1983, durante a XIX

Assembléia Geral do CELAM. Nessa ocasião, o Papa lançava o desafio da nova

evangelização com um discurso incisivo 682.

A expressão Nova Evangelização já fora apresentada em Medellín, no Documento da

Pastoral Popular 683. Contudo, Medellín falava de uma reevangelização. Em Puebla fala-se das

“situações novas (AG 6) que nascem de mudanças sócio-culturais e exigem uma outra
684
evangelização” . O Papa João Paulo II, desde 1983, não parou mais de mencionar e de
685
inculcar esse projeto da nova evangelização , perpassando em suas encíclicas ou em seus

discursos 686.

De forma efusiva, no discurso de abertura da IV Confêrencia do CELAM, em Santo

Domingo, o Papa descreve o sentido da Nova Evangelização afirmando que

682
Cf. JOÃO PAULO II. Discurso ao CELAM em Porto Príncipe, Haiti, a 9 de março de 1983. AAS, 75: 778,
1983.
683
Cf. CONCLUSÕES DE MEDELLÍN, 4º ed. São Paulo: Paulinas, 1979. n. 4.
684
DP 366.
685
Cf. LIBANIO, J.B. Igreja Contemporânea: encontro com a modernidade. São Paulo: Loyola, p.154-174.
686
Cf. JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Christifidelis laici. 1988. 5º ed. São Paulo: Paulinas, n. 34.
218

A nova evangelização não consiste num ‘novo evangelho’, que surgiria sempre de

nós mesmos, da nossa cultura ou da nossa análise sobre a necessidade do homem.

Por isso, não seria ‘evangelho’, mas pura invenção humana, e a salvação não se

encontraria nele. Nem mesmo consiste em retirar do Evangelho tudo aquilo que

parece dificilmente assimilável. Não é a cultura a medida do Evangelho, mas Jesus

Cristo é a medida de toda a cultura e de toda obra humana 687.

Se Puebla colocou a tríplice verdade como conteúdo da evangelização, Santo

Domingo coloca Jesus Cristo como o fundamento da nova evangelização 688.

Segundo o Papa, a nova evangelização deve ser “nova” não quanto ao seu conteúdo,

que é sempre Jesus Cristo, mas em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão 689.

Em que consiste este ardor?

O ardor apostólico da Nova Evangelização brota de uma radical conformação com

Jesus Cristo, o primeiro evangelizador assim o melhor evangelizador é o santo, o

homem das bem-aventuranças (cf. RMi 90-91). Uma evangelização nova em seu

ardor supõe uma fé sólida, uma caridade pastoral intensa e uma forte fidelidade

que, sob a ação do Espírito, gere uma mística, um entusiasmo incontindo na tarefa

de anunciar o Evangelho e capaz de despertar a credibilidade para acolher a Boa-

Nova da Salvação 690.

No que se refere aos métodos, temos uma variada gama de meios, tais como os

Meios de Comunicação Social, a Pastoral do diálogo, a família. Dentre esses, merece atenção

687
Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM. In: SANTO DOMINGO: Nova Evangelização,
Cultura Cristã e Inculturação. Petrópolis: Vozes, 1992. n. 6.
688
Cf. Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM. In: SANTO DOMINGO: Nova
Evangelização, Cultura Cristã e Inculturação. Petrópolis: Vozes, 1992. n. 6-7.
689
Cf. DSD n. 28-30.
690
DSD n. 28.
219

especial os MCS. Santo Domingo relembra Puebla quando afirma que “a evangelização,

anúncio do Reino, é comunicação...” 691 e, por isso, a Igreja deve ser mais audaz e criativa no

uso desses meios, usufruindo tudo o “que a técnica e a ciência nos proporcionam, sem jamais

depositar neles toda nossa confiança” 692.

No que concerne à questão dos métodos para a nova evangelização, é salutar as

palavras do Cardeal J. Ratzinger:

A nova evangelização, da qual temos urgente necessidade, não pode ser feita com

teorias bem elaboradas. O insucesso catastrófico da catequese moderna é muito

evidente. Estamos como no início. A conversão do mundo antigo ao cristianismo

não foi resultado de uma atividade planejada da Igreja, mas o fruto da verificação

da fé que se tornou visível na vida dos cristãos e na comunidade da Igreja 693.

A Evangelização deve ser nova quanto a sua expressão. O Documento de Santo

Domingo aponta que a “nova evangelização tem de inculcar-se mais no modo de ser e de

viver de nossas culturas, levando em conta as particularidades das diversas culturas,


694 695
especialmente as indígenas e afro-americanas” . Inculturar o Evangelho é a máxima

proposta para a nova Expressão da Nova Evangelização porque, assim, “a Nova

Evangelização continuará na linha da encarnação do Verbo” 696.

691
DP n. 1063. DSD alerta a Igreja do seu pouco uso dos MCS enquanto que as outras denominações o usam até
demais. Cf. n. 140.
692
DSD n. 29.
693
Cf. 30DIAS, ano VI, n. 7, p. 47, [julho] 1989.
694
DSD n. 30.
695
Não vamos aprofundar o assunto, mas indicaremos algumas fontes para posteriores aprofundamentos. BOFF,
L. Nova Evangelização: perspectiva dos oprimidos, São Paulo: Vozes, 1990. AZEVEDO, M. de C.
Comunidades Eclesiais de Base. São Paulo: Loyola, 1986. RANGEL, P. O Problema da Inculturação. In:
Atualização, Belo Horizonte, n. 260, p. 99-110, [março/abril] 1996. SUESS, P. (org.). Culturas e Evangelização:
a unidade da razão evangélica na multiplicidade de suas vozes: Pressupostos, desafios e compromissos. São
Paulo: Loyola, 1991.
696
DSD n. 30.
220

Dessa forma, a nova Evangelização parte de Cristo e encontra Nele todo o seu
697
conteúdo. Ela pode ser definida como “um novo ambiente vital” , onde “a acolhida do

Espírito Santo faz surgir um povo renovado, constituído por pessoas livres, conscientes de sua

dignidade e capazes de fazer uma história verdadeiramente humana” 698.

Santo Domingo define a Nova Evangelização como sendo o “conjunto de meios,

ações e atitudes aptas para colocar o Evangelho em diálogo ativo com a modernidade e o pós-

moderno, tanto para interpretá-los como para se deixar interpelar por eles. É o esforço de

inculturar o Evangelho na situação atual das culturas de nosso continente” 699.

A grande finalidade da Nova Evangelização é formar pessoas e comunidades

maduras na fé, levando as pessoas batizadas, afastadas da prática da fé, a uma adesão pessoal

a Jesus Cristo e à Igreja 700.

É preciso uma Nova Evangelização com o renovado ardor, novos métodos e novas

expressões para, como afirmam os Bispos, “enfrentar a grandiosa tarefa de infundir energias

ao cristianismo da América Latina” 701. Neste ínterim, basta dizer que a Evangelização é, pois,

operativa e dinâmica, um convite à conversão pessoal e comunitária por causa da adesão a

Jesus Cristo. É aqui, nesse contexto de conversão e adesão à pessoa de Jesus Cristo, que se

encontra “o primeiro anúncio e a raiz de toda a evangelização, o fundamento de toda

promoção humana, e o princípio de toda a cultura cristã autêntica” 702.

A Nova Evangelização, concebida a partir dessa tríplice novidade, será decisiva para

a formulação das novas Diretrizes Gerais da Igreja no Brasil, que, atentas a esta nova

concepção de evangelização, proporão para o quadriênio futuro uma nova expressão, um novo

método e um renovado ardor.

697
DADEUS G. A Conferência de Santo Domingo. In: Teocomunicação, Porto Alegre, v. 23, n. 99, p. 29,
[março] 1993.
698
DSD n. 24.
699
DSD n. 24.
700
Cf. DSD n. 25. Ver também n. 24.
701
DSD n. 24.
702
DSD, n. 24.
221

Outro aspecto da evangelização proposta em Santo Domingo, que será capital para a

formulação do documento 54, é o conceito de Evangelização inculturada.

Esta evangelização da cultura, que a invade até seu núcleo dinâmico, manifesta-se

no processo de inculturação, que João Paulo II chamou de ‘centro, meio e objetivo

da Nova Evangelização’ (Discurso ao Conselho Internacional de Catequese,

26.9.92). Os autênticos valores culturais, discernidos e assumidos pela fé, são

necessários para encarnar nessa mesma cultura a mensagem evangélica e a reflexão

e práxis da Igreja 703.

Santo Domingo propõe a discussão teológica acerca da inculturação a partir da

“analogia entre Encarnação e a presença crista no contexto sócio-cultural e histórico dos

povos”, haja vista que a “ação de Deus, através do seu Espírito, dá-se permanentemente no

interior de todas as culturas” 704. Neste ínterim, Santo Domingo afirma que essa “inculturação

é um processo que vai do Evangelho ao coração de cada povo e comunidade com a mediação
705
da linguagem e dos símbolos compreensíveis e apropriados segundo o juízo da Igreja” .

Assim, a inculturação do Evangelho é um processo que supõe reconhecimento dos valores

evangélicos que se têm mantido mais ou menos puros na atual cultura; e o reconhecimento de

novos valores que coincidem com a mensagem de Cristo 706.

Acima de tudo, a inculturação do Evangelho busca e exige “que a sociedade

descubra o caráter cristão desses valores, os aprecie e os mantenha como tais. Além disso,

703
DSD n. 229.
704
DSD n. 243. Santo Domingo retoma a definição clássica já enunciada na RMi: “Pela Inculturação, a Igreja
encarna o Evangelho nas diversas culturas e, simultaneamente, introduz os povos, com suas culturas, na sua
própria comunidade”. RMi n. 52.
705
DSD n. 243.
706
DSD n. 230.
222

pretende a incorporação de valores evangélicos que estão ausentes da cultura, ou porque se

tenham obscurecido ou porque tenham chegado a desaparecer” 707.

Desta forma, destaca que uma

meta da Evangelização inculturada será sempre a salvação e libertação integral de

um determinado povo ou grupo humano, que fortaleça sua identidade e confie em

seu futuro específico, contrapondo-se aos poderes da morte, adotando a perspectiva

de Jesus encarnado, que salvou a vida de todos partindo da fraqueza, da pobreza e

da cruz redentora” 708.

Assim, afirma, ainda, “A Igreja defende os autênticos valores culturais de todos os

povos, especialmente dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante da força esmagadora


709
das estruturas de pecado manifestas na sociedade moderna” . A Igreja reconhece que estes

valores e convicções “são fruto das ‘sementes do verbo’ que estavam já presentes e atuantes

nos seus antepassados, para que fossem descobrindo a presença do Criador em todas as suas

criaturas: o sol, a lua, a mãe terra etc” 710.

De maneira especial, a “América Latina e o Caribe configuram um continente


711
multiétnico e pluricultural” . Por isso, a Igreja latino-americana deve inculturar-se

principalmente entre os indígenas, afro-americanos e mestiços a fim de poderem buscar “uma

unidade a partir da identidade católica” 712.

707
DSD n. 230.
708
DSD n. 243.
709
DSD n. 243.
710
DSD n. 245.
711
DSD n. 244.
712
DSD n. 244.
223

1.3.1.2. SANTO DOMINGO E A CENTRALIDADE DE JESUS CRISTO COMO

FUNDAMENTO PARA A ECLESIOLOGIA DE COMUNHÃO

Na esteira do Vaticano II, com o binômio Comunhão-Missão, de Puebla, com o

princípio “Comunhão-Participação”, a Confêrencia de Santo Domingo faz haurir de seu

documento uma eclesiologia cristocêntrica e, por isso, de Comunhão.

A frase programática “Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre” 713, extraída da Carta aos

Hebreus, demonstra a intenção primária de toda a IV Confêrencia de postular à Igreja a

centralidade da pessoa, da obra e da mensagem de Jesus Cristo. Já, no discurso inaugural, o

Papa é enfático quando afirma que “a Confêrencia reúne-se para celebrar Jesus Cristo, para

dar graças a Deus por sua presença nestas terras americanas” 714.

É a partir de Jesus Cristo que é possível à conversão e a santidade de vida,

características indispensáveis para “uma verdadeira promoção humana e cultural cristã” 715. É

a partir de Cristo que se pode falar de “homens e mulheres novos de que a América Latina e o

Caribe necessitam” 716. Sendo a Igreja entendida como Povo de Deus, Ela depende em tudo de

Cristo para sua vivência. É mister afirmar, como o documento, que “a Igreja, como mistério

de unidade, encontra sua fonte em Jesus Cristo” 717.

A eclesiologia de Comunhão está radicada na relação ontológica entre a Igreja e a

Trindade. No Sínodo dos Bispos de 1985, essa eclesiologia, entre as muitas outras possíveis,

foi priorizada como sendo a mais característica do Vaticano II. Santo Domingo retrata, de

forma explícita, essa eclesiologia e, segundo o Pe. Geraldo L. B. Hackmann, “esta é uma

713
Para uma leitura pastoral do trecho bíblico, cf. ANTONIAZZI, A. Jesus Cristo é o mesmo: ontem, hoje e
sempre! Conseqüências para a eclesiologia. In: Atualização, Belo Horizonte, n. 236, p. 153-159, [março/abril]
1992. Também, para uma leitura exegética do trecho bíblico, cf. ORTIZ, P. Jesucristo es el mismo ayer y hoy, y
lo será per siempre (Hb 13,8): Estudo exegético. In: Theologica Xaveriana, n. 104, p. 441-453, [abril] 1992.
714
Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM. In: SANTO DOMINGO: Nova Evangelização,
Cultura Cristã e Inculturação. Petrópolis: Vozes, 1992. n. 2.
715
DSD n. 31.
716
DSD n. 32.
717
DSD n. 32.
224

grande novidade da IV Confêrencia do episcopado da América Latina e do Caribe. Significa

uma consonância com a orientação que está sendo traçada por João Paulo II” 718.

A eclesiologia de comunhão une dois aspectos, ou seja, o “teológico e o pastoral, a

comunhão e a missão, ou seja, a essência e a práxis. O ‘em si’ e o ‘para nós’ da Igreja. Nisto

consiste a grande novidade de Santo Domingo, onde a Igreja vem apresentada como

mistério/sacramento de comunhão evangelizadora inculturada e promotora humana” 719.

Em se tratando de América Latina, a primeira tentativa de acolhimento deste binômio

Comunhão-Missão ou da eclesiologia de comunhão, foi em Puebla, mas segundo alguns

autores 720, esta unidade entre estes dois aspectos – teológico – pastoral / comunhão – missão

– não foi totalmente esclarecida e aprofundada. “Por isso, pode-se ver que esta dimensão

mostra que existe uma continuidade entre Puebla e SD, embora esta última tenha tornado

claro e aprofundado um tema já existente implicitamente naquela” 721.

Portanto, o rosto da Igreja latino-americana e, de maneira especial, da Igreja no

Brasil, por meio das suas novas Diretrizes, será entendido como Comunhão, porque está

radicado em Cristo e é a partir dele que vive e respira e procura a sua conversão para que,

dessa relação ontológica, possa exercer sua missionariedade - relação imanente - concretizada

no exercício da evangelização, cujo objetivo primário é tornar-se “comunidade santa formada

por comunidades vivas e dinâmicas, em comunhão pela unidade do Espírito com diversidade

de ministérios e carismas, comprometida com a promoção humana e inculturando o

Evangelho ao proclamar o Reino de Deus a todos” 722.

718
HACKMANN, G.L.B. a Eclesiologia de Comunhão de Santo Domingo. In: Teocomunicação, Porto Alegre, v.
23, n. 100, p. 169, [junho] 1993.
719
Ib. p. 170. Cf. também KLOPPENBURG, B. A Igreja entendida como comunhão. In: Revista do Clero da
Arquidiocese do Rio de Janeiro, ano XXIX, p. 17-19, [agosto] 1992.
720
Cf. HORTAL, J. As eclesiologias de Puebla. In: Teocomunicação. Porto Alegre, Ano 9, v. 2, n. 44, p. 194-
200, [fevereiro] 1979.
721
HACKMANN, G.L.B. a Eclesiologia de Comunhão de Santo Domingo. In: Teocomunicação, Porto Alegre,
v. 23, n. 100, p. 170, [junho] 1993.
722
Ib. p. 170-171.
225

A partir do documento de Santo Domingo, é possível perceber alguns centros de


723 724 725
comunhão, como a Diocese ou Igreja Particular , a Paróquia , as CEBs e
726
principalmente a Família Cristã . Esses centros de comunhão querem ressaltar a noção de
727
uma Igreja toda ela ministerial , em que todos, sem distinção, tenham o seu espaço e seu

serviço em prol da evangelização, começando pelo ministério ordenado, bispos, Padres e

diáconos 728, a vida religiosa 729 até chegar aos fiéis leigos 730.

Uma Igreja Comunhão e ministerial deve estar sempre pronta para o anúncio do
731
Reino de Deus. Ela deve tornar-se “sacramento de comunhão evangelizadora” . Neste

sentido, a Igreja deverá ser presença sacramental, evangelizadora em todas as realidades

humanas e dirigir-se ao encontro de todas as pessoas, crentes ou não.

1.3.1.3. SANTO DOMINGO E O PROTAGONISMO DOS LEIGOS

Anteriormente ao Concílio Vaticano II, são muitos os esforços práticos e também por

parte de Teólogos no sentido de valorização do papel e do lugar do leigo732 na Igreja.

Contudo, a figura e o papel do leigo na Igreja foram assumidos, de forma objetiva e positiva,
733
em escala universal, somente a partir do evento Conciliar que se propôs a dialogar com o

mundo. Conseqüentemente, para melhor dialogar com o mundo, resgatou a eclesiologia de

comunhão vivenciada no primeiro milênio, possibilitando, dessa forma, o germe de uma

723
Cf. DSD n. 55-57. CFL n. 20; 32; PB 224.
724
Cf. DSD n. 58-60. CFL n. 26.
725
Cf. DSD n. 61-63.
726
Cf. DSD n. 64.
727
Cf. ANTONIAZZI, A. Os ministérios na Igreja, hoje. São Paulo: Vozes, 1977.
728
Cf.DSD n. 65-84.
729
Cf. DSD n. 85-93.
730
Cf. DSD n. 94-120.
731
Cf DSD n. 123.
732
Cf. LIBANIO, J.B. Concílio Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Loyola, 2005.
Col. “Theologka”, p. 113-120.
733
Cf. O primeiro Capítulo no item 2.2.2.2. A IGREJA POVO DE DEUS: SUA ESTRUTURA VISÍVEL.
226

teologia do laicato. Alguns documentos conciliares procuraram expressar os germes de uma

possível e fecunda reflexão sobre os leigos.

Primordialmente, tem-se o Capítulo IV da Lumen gentium que, no número 30, diz

enfaticamente que

Os pastores sabem quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Sabem

que não foram constituídos por Cristo para assumiram sozinhos a missão salvadora

da Igreja em relação ao mundo. É sumamente importante que, no exercício de sua

função, contem com o apoio dos leigos e com os seus carismas, permitindo que

todos colaborem a seu modo na execução do trabalho comum 734.

A Lumen gentium expressa com precisão o locus do cristão leigo na Igreja, quando

afirma que o “apostolado dos leigos é a participação na própria missão salvífica da Igreja. A

esse apostolado, todos são destinados pelo próprio Senhor, através do batismo e da

confirmação” 735. O Decreto Ad gentes diz que a “Igreja só está verdadeiramente fundada, só

alcança a plenitude de sua vida e só constitui um sinal adequado de Cristo no meio dos seres

humanos quando, juntamente com a hierarquia, compõem-se de um laicato verdadeiro e


736
ativo” . Importante ressaltar aqui é que esse Decreto coloca a atuação dos leigos no

exercício da missionariedade da Igreja, junto ao mundo, como que necessária e como garantia

de sua eficácia. Assim diz: “O Evangelho não penetra em profundidade nas pessoas nem na

vida e na atividade de um povo senão por intermédio da presença ativa dos leigos. Por isso é

preciso pensar em constituir logo um laicato cristão maduro, desde a implantação da

Igreja” 737.

734
LG 30.
735
LG 33.
736
AG 21.
737
AG 21.
227

Importante ainda ressaltar a “índole secular como característica especialmente dos


738
leigos” , conforme lhe atribui o Concílio como lhe sendo a sua identidade, sinal

característico. Desta forma, o próprio ou especifico do cristão leigo é a secularidade, isto é, o

cristão leigo deve partir de sua situação concreta e existencial, ou seja, de sua situação

intramundana e, a partir dela, realizar, concretizar, exercer a sua ação evangelizadora.

A partir do Concílio Vaticano II, a reflexão sobre os leigos não parou no que tange

aos Teólogos e evidentemente ao Magistério Pontifício, como nos lembra Paulo VI na EN,

quando retoma a doutrina conciliar 739.

Progressivamente, por ocasião do Sínodo dos Bispos em 1987, cujo tema era “a

missão dos leigos na Igreja e no mundo”, João Paulo II publicou como resultado dos trabalhos

sinodais a Exortação Apostólica Christifidelis laici. Nela é afirmada e consolidada a dimensão

secular do leigo, ratificando o “mundo” como sendo o seu ambiente vital para o exercício de

seu batismo 740.

Como bem afirma o Cardeal Lorscheider, é “esta nota de secularidade do cristão

leigo que se fundamenta o seu protagonismo, de que fala com tanta força o documento de

Santo Domingo. Todos os leigos devem ser protagonistas da Nova Evangelização, da


741
Promoção Humana e da Cultura Cristã” . Santo Domingo, a exemplo das outras

Conferenciais 742, falou também dos leigos, mas falou com maior propriedade, devido, é claro,

a toda evolução Magisterial e teológica sobre o tema.

738
LG 31.
739
Cf. EN 70.
740
CFL 15.
741
LORSCHEIDER. A. Uma possível Conferência Nacional de Cristãos Leigos. In: REB, Petrópolis, v. 55, n.
219, p. 519, [setembro] 1995.
742
Medellín apresentou o laicato “a partir da sua participação nos movimentos leigos. Um ponto discutido foi à
distinção entre o aspecto funcional e territorial na Igreja. Ela valorizava demais o aspecto territorial, que diz
respeito ao mundo rural, esquecendo-se do funcional, mais presente na realidade urbana daquele contexto”.
Puebla, em seu documento conclusivo, “considerou diversas questões: ele fez uma análise da situação do laicato,
apresentou uma reflexão doutrinal a respeito, falou sobre os movimentos apostólicos e os ministérios conferidos
aos leigos, refletiu sobre a pastoral do laicato organizado, entre outros”. Cf. SCOPINHO, S.C.D. A Teologia do
Laicato na América Latina. In: Instituto de Teologia e Ciências Religiosas: Cadernos de Teologia, ano VI, n. 8,
p. 26, [setembro] 2000.
228

Sendo a maior parte do Povo de Deus constituído por fiéis leigos, estes devem ser

mais bem acompanhados por seus pastores a fim de melhor descobrirem e executarem sua

missão junto à Igreja. Por isso, os bispos, em Santo Domingo, insistem que a “persistência de

certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos

(Puebla 784), a dedicação preferencial de muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e uma

deficiente formação, privam-nos de dar respostas eficazes aos desafios atuais da

sociedade” 743.

Neste ínterim, a partir de Santo Domingo, a relação entre Clérigos e leigos não deve

ser de fusão, mas de colaboração, como já ensinara o Magistério, para não prejuízo da função

específica de cada um, assim como da própria ação evangelizadora da Igreja. Como afirma o

documento, é “necessária a constante promoção do laicato, livre de todo clericalismo e sem

redução ao intra-eclesial 744.

Quanto ao papel dos leigos, são todos chamados a serem “protagonistas da Nova

Evangelização” a fim de que os “batizados não evangelizados” 745 voltem, não apenas a serem

católicos, mas a Igreja 746. Essa missão, afirma os Bispos,

só será efetivamente levada a cabo se os leigos, conscientes de seu batismo,

responderem ao chamado de Cristo a que se convertam em protagonistas da Nova

Evangelização. No marco da comunhão eclesial, urge um esforço de favorecer, a

busca de santidade dos leigos e o exercício de sua missão 747.

743
DSD n. 96.
744
DSD n. 97.
745
DSD n. 97.
746
DSD n. 96.
747
DSD n. 97.
229

A Igreja situa-se num mundo que, hoje, prescinde de Deus e está cada vez mais

alicerçando sua confiança na Técnica, fruto desta mentalidade secularista dominante e

estruturadora da realidade social como num todo. É neste mundo, secularizado e

secularizante, que o cristão leigo, por sua própria índole secular, mas não secularista, é

chamado em primeiro plano a ser uma viva presença evangélica 748.

1.3.2. A CARTA ENCÍCLICA TERTIO MILLENNIO ADVENIENT E A

PREPARAÇÃO DO JUBILEU DO ANO 2000

Tendo em vista a aurora do novo milênio, o Papa João Paulo II, por meio de sua

Carta Apostólica Tertio Millennio Adviniente, de 10 de novembro de 1994, convida a todos os

católicos e homens e mulheres de boa vontade a voltarem os seus olhares para a Pessoa de

Jesus Cristo, em vista do Jubileu do ano 2000.

A Carta está dividida em cinco Capítulos, donde os dois Capítulos extremos, ou seja,

o primeiro e o quinto abordam o mesmo tema extraído do texto da Carta aos Hebreus 13,8

“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre”. Cristo é o centro, “é o cumprimento do

anélito de todas as religiões do mundo, constituindo por isso mesmo o seu único e definitivo

ponto de chegada. [...] Em Jesus Cristo, Deus não só fala ao homem, mas procura-o” 749.

No segundo Capítulo, há uma exposição acerca do tempo, realidade esta que deve ser

santificada, visto que, no “cristianismo, o tempo tem uma importância fundamental. [...] Em

Jesus Cristo, Verbo encarnado, o tempo torna-se uma dimensão de Deus [...] Desta relação de

Deus com o tempo, nasce o dever de o santificar” 750. É desta relação que o Papa afirma que

748
Cf. LORSCHEIDER. A Uma possível Conferência Nacional de Cristãos Leigos. In: REB, Petrópolis, n. 219,
p. 520, [setembro] 1995.
749
TMI 6-7.
750
TMI 10.
230

“todos os jubileus se referem a este ‘tempo’ e dizem respeito à missão messiânica de

Cristo” 751. Desta forma,

os dois mil anos do nascimento de Cristo (prescindindo da exatidão do cômputo

cronológico) representam um jubileu extraordinariamente grande não somente para

os cristãos, mas indiretamente para a humanidade inteira, dado o papel de primeiro

plano que o cristianismo exerceu nestes dois milênios 752.

Devido a sua importância mundial, mas principalmente para o cristianismo, o Papa

convida a uma grande preparação, já iniciada, mas ainda envolta em véus, pelo Concílio

Vaticano II, pelos constantes encontros Sinodais, pelas grandes Encíclicas sociais ou de cunho

Evangelizador como a EN de Paulo VI, as suas múltiplas peregrinações 753, além, é claro, de

suas encíclicas, primeiramente a Redemptor Hominis, que convidava a todos a viverem “o

período de espera como ‘um novo advento’” 754 e depois a encíclica Dominum et vivificantem,

de 18 de maio de 1986, que abordou amplamente essa questão.

De forma imediata, o Papa propôs nesta Carta Apostólica, a preparação para o grande

Jubileu, estruturada em duas fases, a saber:

A primeira fase terá, pois, caráter antipeparatório: deverá servir para reavivar no

povo cristãos a consciência do valor e do significado que o Jubileu do ano 2000

reveste na história humana. Trazendo consigo a recordação do nascimento de

Cristo, está intrinsecamente marcado por uma conotação cristológica 755.

751
TMI 11.
752
TMI 15.
753
Cf. TMI 17-22.
754
TMI 23.
755
TMI 31.
231

A primeira fase consiste, sobretudo, na tentativa de sensibilizar a todos acerca dos

grandes e graves males que afligem a fé e o mundo, como a indiferença religiosa, a


756
intolerância religiosa e, talvez, a grande chaga do cristianismo, a divisão . Diante disso

tudo, a Igreja é convidada a um “exame de consciência e a oportunas iniciativas ecumênicas,

de tal modo que possamos apresentar-nos ao Grande Jubileu, se não totalmente unidos, pelo

menos mais perto de superar as divisões do segundo milênio” 757.

A segunda fase é eminentemente preparatória e “desenvolver-se-á no arco de três

anos, de 1997 a 1999. A estrutura ideal para este triênio, centrado em Cristo, Filho de Deus

feito homem, não pode ser senão teológica, isto é, trinitária” 758.

Para cada ano propôs-se também a meditação de um sacramento e de uma virtude

teologal. Sendo assim, o triênio de preparação ficou assim formulado: o ano de 1997,

totalmente dedicado ao Filho, meditando a virtude teologal da Fé e do sacramento do

Batismo; no de 1998, dedicado ao Espírito Santo, meditando acerca da virtude teologal da

Esperança e do sacramento do Crisma; o ano de 1999, dedicado à reflexão sobre o Pai,

juntamente com a virtude teologal da Caridade e do sacramento da Reconciliação. O ano

2000, ano Jubilar, será todo dedicado a Glorificação da Santíssima Trindade, tendo como

Sacramento próprio a Eucaristia, fonte e Ápice da vida Eclesial, como nos aponta o Concílio

Vaticano II 759.

Por fim, vale a pena lembrar a convocação de toda a juventude para essa realização,

pois, como afirma o Papa, o “futuro do mundo e da Igreja pertence às gerações jovens, que,
760
nascidas neste século, serão maduras no próximo, o primeiro do novo milênio” . Igual

756
Cf. TMI 34-36.
757
TMI 34.
758
TMI 39.
759
Cf. TMI 39-55.
760
TMI 58.
232

convocatória foi feita em 1992, quando da realização do IV Confêrencia do CELAM, em

Santo Domingo 761.

É a partir desse novo contexto fundante promovido pela IV Confêrencia do

CELAM, em Santo Domingo, e, conseqüentemente, pela influência exercida pelas Cartas

Encíclicas de João Paulo II Redemptoris Missio e Tertio Millennio Adveniente que se pode

falar destas novas Diretrizes formuladas pelos nossos Bispos, na 33º Assembléia Geral.

1.4. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: DOC 54: UMA

ANÁLISE TEOLÓGICA

Estas Diretrizes possuem duas partes, sendo a primeira intitulada como “Horizontes

da Evangelização” em que se tece um comentário ao Objetivo Geral. Este é o mesmo das

Diretrizes anterior, sendo, no entanto, precedido de uma “breve introdução que o situa no
762
horizonte do terceiro milênio cristão e da celebração do grande jubileu do ano 2000” .O

Objetivo Geral assim se formula:

JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE:

Em preparação ao seu Jubileu do ano 2000, na força do Espírito que o Pai nos

enviou, sob a proteção da Mãe de Deus e nossa, queremos: EVANGELIZAR com

renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna, à

luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o povo de Deus e

participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da

esperança nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo 763.

761
Cf. DSD 111-120.
762
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p. 8.
763
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p.15. Para a sua
explicitação particularizada, cf CNBB. Op cit n. 1-27.
233

A segunda parte é composta de cinco Capítulos assim dispostos: o primeiro Capítulo


764
é uma exposição histórica acerca da evolução da pastoral da Igreja do Brasil . O Capítulo

segundo contém uma “teologia da evangelização, à luz do Magistério eclesiástico recente,

particularmente as conclusões do Santo Domingo, não disponíveis, quando da elaboração das

Diretrizes para 1991-1994” 765. O terceiro Capítulo é o mesmo das Diretrizes anteriores, tendo

como conteúdo uma análise da sociedade brasileira.

O quarto Capítulo é o mais importante por organizar “as orientações práticas a partir

de um esquema teológico que quer ser uma expressão da própria natureza da evangelização e

de suas exigências” 766.

O quinto Capítulo, segundo Dom Raymundo,

procura explicitar as conseqüências das novas Diretrizes para os agentes da

evangelização e da pastoral. Quer ajudar aos sujeitos da ação evangelizadora leigos

(as), religiosos (as), ministros ordenados – a fazer frutificar a formação recebida, a

tornar as comunidades eclesiais dinâmicas e acolhedoras, a rever as prioridades do

próprio trabalho em função dos desafios da hora presente 767.

No que concerne a nossa exposição, daremos maior importância e aprofundamento

ao Capítulo quarto, tendo em vista ser ele que contém a novidade dessas novas Diretrizes e,

conseqüentemente, a exposição de uma nova forma de entender a Igreja e também de viver a

764
Para uma exposição mais abrangente, cf. o segundo Capítulo desta dissertação.
765
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p. 8.
766
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p. 8-9.
767
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. p. 9.
234

sua missionariedade. Os outros Capítulos não serão abordados por uma razão prática, ou seja,

eles já foram explicitados nos itens anteriores de nossa dissertação, mas também, porque a

própria exposição do Capítulo IV, prescinde desses três Capítulos anteriores, como bem

explicita o número 173: “As orientações pastorais deste Capítulo têm como base a experiência

pastoral da Igreja no Brasil (cap. I), a teologia da evangelização desenvolvida no âmbito de

toda a Igreja (cap. II) e as recentes mudanças sócio-culturias (cap. III)” 768.

1.4.1. ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA A AÇÃO EVANGELIZADORA E

PASTORAL.

As novas Diretrizes apresentam a evangelização a partir de cinco itens: a

inculturação, que representa o “critério geral da ação evangelizadora, como mostra o

documento de Santo Domingo; os outros itens – serviço, diálogo, anúncio e testemunho da

comunhão – são exigências ou aspectos distintos, mas complementares, da própria ação

evangelizadora e pastoral” 769.

Essa noção de evangelização inculturada é desenvolvida a partir destas quatro

exigências irrenunciáveis e denota uma tríplice busca da própria Igreja, ou seja, de uma maior

“compreensão de si mesma, e de sua consciência missionária” 770, uma profunda renovação de

suas estruturas e, conseqüentemente, a busca de uma espiritualidade que possa conjugar essas

duas realidades anteriores.

A compreensão acerca da Evangelização, apresentada nestas Diretrizes, difere das

noções já apresentadas pelas Diretrizes anteriores principalmente no que concerne à

compreensão do seu autor, ou seja, a “evangelização, como obra da Igreja no mundo, só se

compreende no horizonte do mistério da comunhão trinitária. Ela se explica pela missão do

768
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 173.
769
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 173.
770
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 62.
235

Filho e do Espírito como sinal do amor de Deus Pai para conosco” 771. A evangelização é algo

transcendente à realidade humana; ela é uma realidade conatural à própria Igreja. Evangelizar

é necessariamente um ato eclesial, transcendente e espiritual, mesmo que se destine às

realidades humanas, imanentes e concretas.

O Evangelizador deve possuir uma mentalidade diferente daquela muitas vezes

presente nos agentes de pastoral. Ele deve ter a consciência de que ele é

sujeito de um agir divino no mundo, colocando a serviço do plano de Deus suas

potencialidades humanas, seus talentos. Ele não é o centro da ação evangelizadora,

mas simples operário de Cristo e administrador dos mistérios de Deus. Ele é

chamado a realizar essa missão sublime em perfeita obediência e docilidade ao

Espírito 772.

As Diretrizes falam da evangelização a partir do critério fundamental da

Inculturação. Essa é uma exigência aguda e urgente. Oficialmente foi João Paulo II que, pela

primeira vez, utilizou tal termo num documento oficial da Igreja, quando da publicação da

Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, em 1979. Nela ele explicita que:

O termo ‘aculturação’ ou ‘inculturação’, apesar de ser um neologismo, exprime

muito bem uma das componentes do grande mistério da encarnação. Podemos dizer

771
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 80.
772
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 81.
236

da catequese, como da evangelização em geral, que ela é chamada a levar a força

do Evangelho ao coração da cultura e das culturas 773.

Contudo, o termo inculturação foi “fixado” no Sínodo Mundial sobre a Catequese,

em 1977. Os resultados do mesmo ajudaram para a consagração do termo. Daí, a diferença

entre adaptação, aculturação e inculturação. Adaptação e aculturação referem-se, apenas, a um

processo externo, como por exemplo, a utilização de instrumentos musicais na liturgia,

enquanto que inculturação é o processo interior e complexo, no qual a mensagem cristã entra

em diálogo com a cultura, que é transformada e enriquecida pelo Evangelho 774.

A verdadeira inculturação leva a uma mudança radical, que consiste em sair do

passado, salvaguardando tudo de positivo, para adaptar uma nova maneira de viver à luz de

Jesus Cristo. A conversão a Cristo recupera os valores humanos e toda a sua honra. Com isso,

torna-se possível a promoção humana no âmbito da inculturação 775.

A inculturação deve ser ainda compreendida dentro de um processo englobante, pois

abrange todos os aspectos da realidade sócio-cultural. Tudo o que está presente numa cultura

tem de ser reconhecido, devendo entrar em diálogo de acordo com os critérios do Evangelho.

Integra tanto a mensagem cristã, como a reflexão e a práxis da Igreja. Mas, é também um

processo difícil, porque não pode comprometer, de modo nenhum, a especificidade e a

integridade da fé cristã. Daí, a legitimidade das atividades concretas, mesmo de origem

773
JOÃO PAULO II. A Catequese Hoje: Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, 12 ed. São Paulo:
Paulinas, 2000, n. 53.
774
Cf. ARRUPE, P. Tres tareas urgentes de la catequesis, In: Vida Nueva 1103/4 (1977), 2186-2187, citado por
J. NUNES, Pequenas comunidades cristãs. O Odjango e a inculturação em África/Angola (Porto: UCP 1991),
68 e IDEM, Lettre à tous les Jésuites sur l’inculturation (14.5.1978), In L. BOKA DI MPASI, Théologie
Africaine: Inculturation de la Théologie (Abidjan: INADES 2001), 67-68. Apud PAREDES, T. A dimensão
Transcultural do Evangelho. Disponível em: <http://www.pom.org.br/Notícias/Eventos/promoçao.rtf > acesso
em 22/04/2007.
775
Cf. J. ESQUERDA-BIFET, Teología de la Evangelización. Madrid: BAC [546], 1985, p. 291.
237

profana, no âmbito da evangelização e, conseqüentemente, na linha da inculturação, no

sentido de promover o homem.

Ainda nesse contexto, o Evangelho deve enraizar-se no contexto próprio e partilhar

as lutas, ansiedades e esperanças da sociedade a evangelizar. Deve inserir-se na vida social e

adaptar-se à cultura local. A evangelização deve atingir o homem e a sociedade em todos os

níveis da sua existência, que se exprimem, portanto, em atividades diversas. É neste quadro

que podem ser consideradas as atividades que visam à promoção humana, que projetam, à luz

da fé cristã, a verdade, o bem, a justiça, a liberdade, a dignidade do homem, a família, etc.,

concretizando algo de especial: a vida nova em Cristo. É assim que a cultura humana se abre

ao infinito.

Essa tarefa deve ser executada com discernimento, seriedade, respeito e competência

que a matéria exige, em todos os campos (liturgia, catequese, teologia, pastoral). Porém, é de

reconhecer que o processo é complexo, como o sublinhou Paulo VI: “O problema é sem

dúvida delicado. A evangelização perderia algo da sua força e da sua eficácia se ela

porventura não tomasse em consideração o povo concreto a que ela se dirige [...] Não

responderia também aos problemas que esse povo apresenta, nem atingiria a sua vida real” 776.

Em tudo isso, a essência da mensagem cristã não pode ser esvaziada. Os valores do

mundo moderno, no âmbito da inculturação, devem ser bem assimilados e bem digeridos, de

uma forma crítica, pois o Evangelho deve fecundar o que há de melhor na vida

contemporânea. Aliás, para a sua devida implantação, hoje, o Evangelho deve ter em conta as

características e as estruturas culturais do mundo moderno 777.

Entretanto, seria lógico sublinhar que o sujeito da inculturação é o próprio Jesus

Cristo. Ao encarnar na cultura de um povo, torna-se relevante para a vida daqueles que entram

em contato com Ele. É Ele que, nesse sentido, promove o homem, purificando os seus valores

776
EN 63.
777
Cf. HORTELANO, Nova Evangelização, Porto: Perpétuo Socorro, 1992, p. 105.
238

e oferecendo-lhe condições de viver e reconhecer a sua dignidade, apostando no

desenvolvimento que deve ser integral, considerando também a sua dimensão espiritual, um

elemento muito importante que o Evangelho propõe, surgindo como que o fermento que

favorecerá a promoção humana.

A Igreja deve evangelizar de forma inculturada. As Diretrizes destacam dois locus

donde a Igreja, na América Latina e no Brasil, devem atuar, ou seja, a realidade cultural dos
778
povos indígenas, afro-americanos e mestiços como nos lembra Santo Domingo e no meio
779
cultural moderno presente nos solos urbanos . Embora sejam realidades distintas, elas são

simultâneas.780.

Para que isso se torne cada vez mais possível, a própria evangelização inculturada

exige o que as Diretrizes denominam de exigências irrenunciáveis da evangelização. Estas são

quatro: o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho da comunhão fraterna. Estas são

“exigências ou aspectos distintos, mas complementares, da própria ação evangelizadora e

pastoral” 781.

Segundo nossos Bispos, a escolha dessas quatro exigências, embora não sejam as
782
únicas possíveis , obedecem a uma ordem cronológica de inserção numa cultura ou grupo

não evangelizado. Nestes casos, dizem os bispos,

O evangelizador começa pela presença e presta serviços de promoção humana;

gradativamente pode encaminhar o diálogo religioso e, a partir daí, anuncia

778
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 179. Cf. Também
Op. cit. n. 180-185; DSD n. 243-251.
779
DSD n. 252-262.
780
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 179.
781
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 173.
782
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 174.
239

explicitamente o Evangelho, até criar condições plena de vivencia e comunhão

crista 783.

Essas exigências estão em consonância com as seis dimensões ou Linhas da Pastoral

propostas até o quadriênio de 1991-1994. O serviço se concretiza na dimensão sócio-

transformadora, ou seja, a Linha 6; o diálogo se concretiza na dimensão ecumênica e do

diálogo religioso, a linha 5; o anúncio na dimensão missionária expressa pela linha 2 e o

testemunho da comunhão concretiza-se na dimensão comunitário-participativa, linha 1 e

nutre-se das fontes da palavra, dimensão catequética – linha 3 – e da liturgia, dimensão

litúrgica, a linha 4784.

Todas essas exigências têm primeiramente uma fundamentação neotestamentária e,

evidentemente, conciliar. O serviço, como sendo a primeira exigência, é entendido

como testemunho de Deus para com cada pessoa humana. Por ele se reconhece a

dignidade fundamental do ser humano [...] pelo serviço ao mundo, ela se solidariza

com as aspirações e esperanças da humanidade, levada pela ‘fome e sede de

justiças’, a colocar-se a serviço da causa dos direitos e da promoção da pessoa

humana, especialmente dos mais pobres, em vista de uma sociedade justa e

solidária 785.

783
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 176.
784
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 177.
785
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 87. Cf. Também Op.
cit. n. 191-194.
240

O Concílio promoveu, em todos os sentidos, a consciência de que a Igreja está no


786
mundo para servir . Posteriormente, todo o Magistério pós-conciliar, os Sínodos, as

Conferências de Medellín e de Puebla e a própria Igreja no Brasil, abordaram o tema do

serviço. Vale a pena lembrar a passagem célebre de Paulo VI que mostra os laços de ordem

antropológica, teológica e evangélica que unem evangelização e promoção humana 787.

No que tange ao serviço, vale destacar a “evangélica opção preferencial pelos

pobres”, aludida pelo Vaticano, no número 8 da LG, e explicitada em Medellín, Puebla e

confirmada em Santo Domingo e assumida pela Igreja no Brasil. Ela é exposta aqui sob dupla

motivação. A primeira demonstra que “ela é condição necessária e irrenunciável do caráter

evangélico da ação da Igreja”. A segunda afirma que “ela é condição necessária para discernir

criticamente entre as políticas sociais, que se pretendem ao serviço de todos, mas

freqüentemente beneficiam apenas os mais fortes e descuidam dos últimos e dos excluídos, os
788
‘preferidos de Deus’” . Pede-se a todos que se empenhem “na luta contra a pobreza e a

exclusão e a contribuição para a criação de um novo sentido de responsabilidade na ética

pública” 789.

O diálogo é o que mais caracteriza o Concílio Vaticano II. A Igreja coloca-se em

diálogo com todos, com o mundo secular e também com o vasto mundo religioso. Esse

diálogo dirige-se a todos, pois a Igreja crê que o “Espírito mesmo prepara o anúncio do
790
Evangelho e o reconhecimento de Cristo e da Igreja” . Ele está direcionado em dupla

direção para um duplo público. Como diálogo inter-religioso, dirige-se a todas as religiões

que não professam Cristo como Senhor e Salvador. Com o Diálogo Ecumênico, a todos os

que professam a mesma fé em Cristo, muito embora estejam, por questões históricas,

separados da Sé de Pedro.

786
Cf. GS 1.
787
Cf. EN n. 31.
788
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 194.
789
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 196.
790
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 206.
241

As Diretrizes, no seguimento do Concílio, afirmam que a “premissa e o fundamento

do diálogo é o reconhecimento da liberdade religiosa. [...] Ela não é exaltação de um

subjetivismo sem limites, mas a condição mais conveniente à dignidade da pessoa humana na

procura da verdade, procura que faz parte dos direitos e obrigações de todo ser humano” 791.

No que concerne ao anúncio, as Diretrizes são enfáticas ao citar Paulo VI:

A evangelização há de conter sempre – ao mesmo tempo como base, centro e

vértice do seu dinamismo – uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de

Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens,

como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus 792.

Devem-se ressaltar dois aspectos importantes acerca do anúncio ou querigma. O

primeiro é que, muito embora o anúncio seja essencialmente conatural aos Doze Apóstolos,

não se restringe tão somente a eles. A missão de anunciar é também delegada a todos os

discípulos de Cristo 793. O segundo é que o querigma ou o anúncio da salvação em Cristo

não se faz através de fórmulas repetidas, mas em diálogo com a compreensão e as

expectativas dos destinatários da mensagem. Por isso, diálogo e anúncio são

aspectos complementares da evangelização. Muitas vezes o diálogo ajudará a

formular o anúncio da maneira mais adequada às circunstancias e à ação do

Espírito 794.

791
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 210.
792
EN n. 27. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 222.
793
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 223. Também
LG 33; AA 2; CIC 204; RMi 71-72.
794
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 226.
242

Referentes ao diálogo, as Diretrizes apontam três grandes urgências: a dos católicos

não-praticantes – estes são quase 50% da população adulta -, a dos cidadãos que se declaram

sem religião - 10%, nas grandes cidades, menos de 5% no conjunto da população adulta - têm

sua vida marcada pelo indiferentismo religioso e pelo secularismo. Estes geralmente

“pertencem muitas vezes a setores influentes da sociedade” 795. E a dos não-cristãos residentes

em nosso território eclesial, como certas comunidades indígenas e orientais 796.

A Igreja no Brasil, por sua Ação Evangelizadora, quer ser uma presença entre todos

esses grupos através de algumas indicações práticas que as Diretrizes explanam no decorrer

de seu corpo. A Igreja não quer deixar ninguém de fora do raio de sua missionariedade 797.

Como lembra o Concílio, a Igreja deve ser um “sinal da presença divina no

mundo” 798. Desta forma, a quarta exigência da evangelização, a comunhão eclesial, deve ser

vivida em todos os seus níveis, seja na colegialidade entre os bispos, na colegialidade no

Presbitério, na Paróquia, nas Comunidades eclesiais, entre os múltiplos movimentos, etc.

Todos devem nutrir-se da Comunhão Trinitária pela oração, pelos sacramentos e pela

fraternidade 799.

Destarte, a comunhão interna não pode impedir a busca incessante da comunhão com

as outras Igrejas, como bem nos lembra o Concílio, pelo documento sobre o ecumenismo

Unitatis Redintegratio. Este ensina que “esta unidade consiste na profissão de uma só fé, na

celebração comum do culto divino, na concórdia fraterna da família de Deus”. E mais, que

essa unidade

exige uma plena comunhão visível de todos os cristãos (...) O Concílio afirma que

esta unidade não pretende, de modo algum, sacrificar a rica diversidade de

795
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 229.
796
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 227. Cf. também Op.
cit. n. 157-172.
797
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 230-249.
798
AG 19,22; RMi 49.
799
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 94.
243

espiritualidade, de disciplina, de ritos litúrgicos e de elaboração da verdade

revelada que se desenvolveram entre os cristãos, na medida em que essa

diversidade se mantenha fiel à tradição apostólica 800.

Chamada importante neste quesito comunhão é a indicação prática que as Diretrizes

fazem em relação as Paróquia a fim de que elas possam constituir “uma referência

fundamental pela sua identidade teológica, pois ela é uma comunidade fundamentalmente

eucarística. [...] reivindica-se a transformação da paróquia em comunidades de dimensões


801
humanas, possibilitando relações pessoais fraternas” . Todos, indistintamente, que fazem

parte desta comunidade paroquial são responsáveis pela promoção desta rica realidade, que é

simultaneamente transcendente e imanente e que constitui o vértice de todo testemunho

cristão 802.

Diante desta realidade da Nova Evangelização, todos, pela “graça do batismo e da


803
crisma” sem distinção, se tornam seus protagonistas. O desafio consiste justamente em

“despertar cada batizado e cada comunidade eclesial para essa responsabilidade primeira e
804
intransferível” . A Igreja Local, ou seja, a Diocese, é entendida como o “principal sujeito

histórico da missão evangelizadora, como Igreja encarnada num espaço humano e concreto,

atenta às ‘sementes do verbo’ presentes na realidade humana, nas culturas e na busca religiosa

do povo no qual ela se insere como fermento evangélico” 805.

Neste ínterim, as Diretrizes convocam a todos para uma nova evangelização, tendo

em mente que a Igreja está “diante de novos contextos, num mundo plural tanto do ponto de

vista cultural quanto religioso”, mas “não deve temer essas novas dificuldades, mas

800
CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS. Diretório para a
Aplicação dos Princípios e Normas sobre o Ecumenismo. São Paulo: Paulinas, 1994, n. 20.
801
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 279-280.
802
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 281-286.
803
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 105.
804
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 104.
805
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 104.
244

reconhecer nelas novas chances para a obra evangelizadora, renovando o seu ardor, seus

métodos e suas expressões, e empenhando com força particular a ação dos fiéis leigos” 806.

Juntamente com esse dinamismo interior de toda a Igreja, as Diretrizes afirmam que

A evangelização nesses novos contextos exige, além da renovação das atuais

estruturas pastorais e a criação de novas estruturas que correspondam às exigências

de um a nova evangelização, novo ardor, novos métodos, novas expressões e,

sobretudo, uma espiritualidade que torne a Igreja cada vez mais missionária 807.

Sendo assim, a partir dessa exposição, podemos traçar um perfil eclesial que as

próprias Diretrizes nos apontam. Esse novo perfil eclesiológico funda-se nesta dupla

realidade: renovação das estruturas e numa espiritualidade missionária.

No tocante a nossa reflexão, vale a pena recordar que a evangelização sempre foi a

temática de nossas Diretrizes. Contudo, quando no Documento 54, fala-se da necessidade de

renovação das estruturas a fim de uma evangelização renovada, ou seja, uma nova

evangelização sob os moldes que o Papa João Paulo II nos aponta, nova em seu ardor, em

seus métodos e em sua expressão, é importante ressaltar o lugar que a mesma ocupa agora

nessas novas Diretrizes.

Embora as Diretrizes continuem falando de evangelização, elas se rompem, tornam-

se descontínuas quanto ao lugar que em ambas ela ocupa. Como já foi demonstrado

anteriormente, a evangelização, antes do documento 54, ocupava um lugar entre as seis

dimensões ou linhas; era uma linha dentro de uma realidade pastoral mais ampla. Nas

Diretrizes propostas para o quadriênio de 1995-1998, a evangelização ocupa a centralidade da

806
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 99.
807
CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 101.
245

vida da Igreja, assim como se pode falar de uma centralidade da Pessoa de Jesus Cristo, como

já nos pedia Santo Domingo e o Magistério Pontifício, principalmente a RMi.

Quando falamos da centralidade da Evangelização, temos que, naturalmente, falar da

centralidade da pessoa de Jesus, visto que a evangelização é um ato da sua própria Pessoa. É a

partir de Jesus Cristo que se pode falar de evangelização e é a partir de sua postura

evangelizadora que a Igreja deve forjar a sua. Isto é muito evidente nessas Diretrizes. Desde o

enunciado do Objetivo Geral, “Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre”, as Diretrizes têm em

Jesus Cristo o seu ponto de partida, o seu centro e sua meta de convergência 808. Desta forma,

a centralidade da evangelização é conseqüência da centralidade transcendente e imanente da

Pessoa de Jesus Cristo na construção do agir evangelizador da Igreja.

A importância dada à evangelização inculturada deve-se necessariamente a um

movimento trinitário, ou seja, da certeza de que o Pai, de antemão por seu Espírito, já soprou

e já está presente em todas as pessoas e culturas de todos os tempos, por meio de suas

sementes do Verbo. A possibilidade de uma evangelização inculturada parte desse

pressuposto, mas se evidencia como realidade na Encarnação do Filho, que assume a natureza

e a cultura de um povo sem deixar de ser Deus, mas vivendo em profundidade a sua realidade

humana.

As quatro exigências irrenunciáveis da evangelização inculturada têm, na Pessoa de

Jesus Cristo, o seu termo. Embora elas sejam uma continuidade e, ao mesmo tempo, bebem

das seis linhas ou dimensões, vale a pena ressaltar que elas apenas evidenciam e corroboram

para a concretização da evangelização. Elas evidenciam o agir do próprio Cristo, que serve,

dialoga, anuncia e testemunha. Essas quatro exigências, uma vez praticadas pela Igreja, e

conseqüentemente, por todos os batizados, forjarão em cada um e em ambos uma verdadeira

808
Cf. CNBB. DGAE 1995-1998. (Documentos da CNBB n. 54). São Paulo: Paulinas, 1995. n. 71;333;340.
246

identidade não só ontológica, mas imanente, concreta, com o agir e a conduta do próprio

Mestre Jesus.

A evangelização deve mover toda a estrutura eclesial, desde os ministros ordenados

até o último batizado. Todos devem evangelizar, renovando-se interiormente por uma

espiritualidade encarnada, cristológica e eclesial. Não haverá novo ardor sem uma verdadeira

e profunda experiência com a Pessoa de Jesus Cristo. Esse ponto é relevante, pois embora em

todas as outras se falassem de mística, o documento 54 é mais enfático e revela-a como sendo

algo indispensável para todos, algo conatural à vocação cristã e indispensável para o

cumprimento da ação evangelizadora.

Neste ínterim, o perfil eclesiológico que se demonstra é este: de uma Igreja centrada

em Jesus Cristo, por isso evangelizadora. De uma Igreja que reconhece sua fragilidade e que

tem na espiritualidade, centrada no seu Senhor, a força necessária para continuar no mundo a

sua missão.

Poder-se-ia se perguntar: por que a Igreja no Brasil procurou repensar suas estruturas

e seu perfil eclesial? Notoriamente, poderíamos dizer que é por causa de todo o problema da

evasão dos católicos, como demonstra o Capítulo III. Esta afirmação evidencia-se com razão,

visto que já perdemos muitos fiéis e que todas essas mudanças estruturais querem forjar uma

melhor ação evangelizadora a fim de estagnar esse êxodo religioso e o número crescente de

pessoas indiferentes a qualquer tipo de religião, vivendo a mais radical forma de intimismo e

secularização.

Contudo, vale a pena lembrar de todo o movimento da Igreja Universal e Continental

nessa linha de renovação e a importância do legado do Papa João Paulo II nesse incentivo a

uma nova Evangelização. A Igreja do Brasil por meio dessas Diretrizes procurou adequar-se

às exigências propostas por todo este movimento iniciado por Paulo VI com a EN e, hoje,

continuado por João Paulo II. É claro que o problema de fundo para ambas as instâncias é,
247

sem dúvida, o êxodo de fiéis, mas também a preocupação de forjar um rosto eclesial

compatível com as novas mudanças estruturais do mundo hodierno e de respondê-los com

maior eficácia e eficiência, justificando sua mudança.

Por fim, uma questão: Pastoral ou Evangelização? A evangelização suprimiu a

Pastoral? A resposta deve ser objetiva: não. A evangelização não suprimiu ou suprime a

Pastoral. A Ação Evangelizadora está ordenada a um grupo específico de cristãos, conforme a

RMi apresenta. A Ação Pastoral, para um outro grupo de cristãos. Como, na Igreja, esses dois

grupos de pessoas subsistem concomitantemente, tanto a Evangelização é necessária para

acordar os católicos adormecidos pelo comodismo, como a Pastoral para alimentar e formar

os que já estão na comunidade eclesial, assim como para alimentar e formar os que vão

despertando pela ação evangelizadora. Contudo, a novidade desse novo jeito de ser Igreja

consiste nisto: embora os destinatários da ação pastoral já estejam dentro das comunidades,

eles precisam constantemente ser evangelizados. A pastoral que os alimenta não pode

caminhar sozinha: ela tem que ser regada pela evangelização.

Hoje, não se pode falar de pastoral sem prescindir da evangelização. Ela não é um

adendo da pastoral, mas a fonte, o alicerce da mesma. Toda pastoral deve ser evangelizadora e

toda ação evangelizadora deve levar o crente, o fiel, a um comprometimento pastoral com a

comunidade eclesial.

1.4.2. O PROJETO RUMO AO NOVO MILÊNIO: O RESGATE DE UMA

ECLESIOLOGIA COMUNHÃO-MISSÃO

Esse projeto é fruto da iniciativa do Papa em celebrar o grande Jubileu do ano 2000 e

do acolhimento, por parte da Igreja do Brasil por meio de suas Diretrizes Gerais da Ação
248

Evangelizadora, e da realização do COMLA V aqui no Brasil 809.

O seu principal objetivo é “suscitar em todos novo ardor e coragem na missão de

Evangelizar, capazes de criar novas expressões para que a mensagem salvífica de Jesus Cristo

seja mais conhecida e, conseqüentemente, seguida com amor e generosidade, especialmente

pelos jovens” 810.

Esse, por sua vez, resgatou à Igreja do Brasil uma dupla dinâmica: um esforço

conjunto de todas as Igrejas Particulares, uma vez que elas são as primeiras responsáveis pela

evangelização, a se colocarem em marcha para a preparação para o grande Jubileu do ano

2000. Esse projeto também resgatou à Igreja a interação e a comunhão de todas as dioceses

num único objetivo e, conseqüentemente, colocou-as todas em marcha evangelizadora. O

Binômio Comunhão-Missão é novamente resgatado, evidenciado e vivido por toda a Igreja no

Brasil. O projeto tornou-se, segundo o testemunho de nossos bispos,

a primeira experiência de orientações e subsídios comuns para todas as dioceses do

Brasil, visando expressar, numa ação orgânica e continuada, as próprias diretrizes

no campo do serviço, do diálogo, do anúncio missionário e do testemunho da

comunhão eclesial, alimentado pela Palavra de Deus e pela Sagrada Liturgia 811.

809
O Comla V foi celebrado em Belo Horizonte, MG (Brasil), de 18 a 23 de julho de 1995. O 5º Congresso
Missionário Latino-americano – COMLA 5 – teve, em toda a Igreja do Brasil, da América Latina e do Caribe,
uma “apresentação” organizada, intensa e criativa, durante, aproximadamente, cinco anos. Com o Lema: “Vinde,
Vede e Anunciai” e o Tema “O Evangelho nas Culturas – caminho de vida e esperança”, o COMLA 5
MOBILIZOU, A MISSIONARIEDADE DE NOSSAS Igrejas conforme o Objetivo Geral de “aprofundar a
responsabilidade missionária universal das nossas Igrejas particulares, mediante o intercâmbio de experiências e
testemunhos do Evangelho nas diferentes culturas, à luz da opção preferencial pelos pobres, para fortalecer o
caminho de vida e esperança em todos os povos”. Cf. Os Comlas na animação e formação missionária da
América Latina: percurso histórico do Comla 1 ao Comla 4: Comla 5: O Evangelho nas culturas. p. 12. In:
<www.pom.org.br/Notícias/Evantos/Cam/percurso.htm.> Acesso em 24/02/2007. Para uma abordagem histórica
de todos os Comlas, ver O. cit. p. 1-14.
810
CNBB. PRNM 1996. (Documentos da CNBB n. 56). São Paulo: Paulinas, 1996. p. 5.
811
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 59.
249

O projeto visa, em consonância com as Diretrizes, a

tornar a pastoral mais evangelizadora. Isso significa, na prática, que nossas

estruturas devem superar o Esquema pastoral predominante, que dedica o melhor de

seus esforços para responder à demanda religiosa daqueles católicos que têm uma

participação ativa na vida eclesial. É hora de transformar as estruturas de serviço

para ir ao encontro daqueles católicos, muito mais numerosos, que, por vários

motivos, se encontram menos envolvidos na vida eclesial e mais expostos a outras

influências 812.

Tendo como horizonte e meta a evangelização junto à sociedade e aos homens da

mesma, o projeto apresenta um quadro 813 de ambivalências entre o que, desde o Vaticano II,

se elaborou no intuito de melhor expressar um perfil eclesial dinâmico, acessível e

evangelizador.

6 DIMENSÕES 4 EXIGENCIAS NOVO TESTAMENTO VATICANO II

1. Comunitário-participativa 1. Testemunho Martyria Lúmen Gentium

3. Bíblico-catequética da comunhão eclesial Koinonia Dei Verbum

4. Litúrgica Sacrosanctum Concilium

6. Sócio-transformadora 2. Serviço e Participação Diakonia Gaudium et Spes

na sociedade

5. Ecumênica e de diálogo 3. Diálogo Encontro do Evangelho Unitatis Redintegratio

INTER-RELIGIOSO com a cultura pagã (At 17) Nostra Aetate

2. Missionária 4. Anuncio do Evangelho kerygma Ad Gentes

812
CNBB. PRNM 1996. (Documentos da CNBB n. 56). São Paulo: Paulinas, 1996. n. 64.
813
CNBB. PRNM 1996. (Documentos da CNBB n. 56). São Paulo: Paulinas, 1996. n. 202.
250

No que tange a essa evolução de nomenclatura, é importante ressaltar que todas

continuam sendo válidas. Como bem afirma o doc. 61, a implementação do

Projeto Rumo ao Novo Milênio tem comprovado que, na maioria das Dioceses e

Regionais, a articulação entre as seis dimensões e as quatro exigências não têm

causado problemas de continuidade pastoral. A organização pastoral, segundo as

seis linhas ou dimensões, tem caráter mais prático e deve ser mantida onde continua

funcional 814.

A Igreja no Brasil, por meio desse projeto, alinhou-se ao projeto de Evangelização,

proposto pelo Papa João Paulo II e, obviamente, com o perfil eclesial proposto pela Igreja

Universal para adentrar, de forma renovada, ao terceiro milênio da era cristã.

1.5. AS DIRETRIZES DA AÇÃO EVANGELIZADORA: DOC 61 E O PROJETO

SER IGREJA NO NOVO MILÊNIO

Essas novas Diretrizes foram formuladas para o quadriênio de 1999-2002, dando

prosseguimento a todo trabalho iniciado com as Diretrizes anteriores. De forma mais atual,

expressa, em seu Objetivo Geral, a proximidade do evento jubilar e embora mantendo o

mesmo Objetivo Geral das Diretrizes precedentes, acrescenta as seguintes palavras:

“Celebrando o Jubileu do ano 2000 e os 500 anos da evangelização no Brasil, como encontro

com Jesus Cristo vivo, que o Pai nos enviou na força do Espírito, sob a proteção da Mãe de

Deus e nossa, queremos” 815. Repete aqui o conteúdo das Diretrizes anteriores.

814
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 174.
815
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 6.
251

Nessas Diretrizes, temos o grande contributo da Exortação Pós-sinodal Ecclesia in


816 817
América assim como do Documento sobre o Ecumenismo, Ut unum sint e a Carta

Apostólica Fides et Ratio 818 sobre a relação entre fé e razão.

Em relação às Diretrizes anteriores, expressas pelo documento 54, não há mudanças

radicais quanto à compreensão teológica acerca da evangelização. Sua maior diferença e

novidade consistem no Capítulo III no que refere aos dados atualizados acerca da realidade

brasileira.

A primeira parte conserva-se quase que totalmente igual, mudando apenas os dois

primeiros números da introdução do Objetivo Geral. No que refere à segunda parte, o

primeiro Capítulo, que apresenta o “Planejamento pastoral na Igreja do Brasil”, acrescenta

apenas três números 819 sob a forma de comentários acerca das Diretrizes anteriores e sobre o

Projeto Rumo ao Novo Milênio. O segundo Capítulo, que contempla a “Evangelização hoje”,

também acrescenta três parágrafos. O número 71 fala da importância de Jesus Cristo para a

história humana e o número 72 cita a contribuição da Ecclesia in América quanto à

centralidade da Pessoa de Jesus Cristo para a compreensão da evangelização e a necessidade

de uma experiência singular, pessoal com ele. O parágrafo 107, nessa mesma linha de

centralidade e de experiência pessoal com Jesus, acrescenta as ricas contribuições para o

dinamismo evangelizador da Igreja no Brasil promovido pelo PRNM.

O terceiro Capítulo moldura, de forma atual, a realidade brasileira. São 17 números


820
novos e o 162, com uma apreciação significativa. O aumento da população nacional, a

maior concentração em áreas urbanas e a diminuição significativa dos católicos são dados

alarmantes que colocam a Igreja cada vez mais em estado de missão. Constata que dos 74,9%

816
Cf. JOÃO PAULO II. Exortação pós-sinodal Ecclesia in América. São Paulo: Paulinas, 1999.
817
Cf. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Ut unum sint. 1995. São Paulo: Paulinas, 1995.
818
Cf. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et Ratio sobre as relações entre fé e razão. 1998. São Paulo,
Loyola, 1998.
819
Cf. CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 58-60.
820
Cf. CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. 121-129; 132; 136-
138; 163-166.
252

dos católicos (censo de 1994), 61,4%, ou seja, a sua grande maioria, é desligada de qualquer
821
movimento específico ou associação eclesial . A estes, as Diretrizes acrescentam ao

parágrafo as seguintes considerações: “Muitos conservam a crença na doutrina católica

tradicional, mesmo quando não praticam o culto ou dão à Igreja apenas uma ‘adesão parcial’,

recusando seus ritos, sua disciplina e, sobretudo, suas normas éticas. Quase todos buscam

alguma forma de segurança” 822.

O quarto Capítulo, intitulado “Orientações práticas para a ação evangelizadora e


823
pastoral”, apresenta apenas nove parágrafos alterados e dois semi-alterados. No que

concerne à compreensão da evangelização inculturada, explicita, no parágrafo 174, que não há

evangelização neutra, desvinculada da cultura. Citando a Ecclesia in América afirma: “é

necessário inculturar a pregação, de forma que o Evangelho seja anunciado na linguagem e na

cultura de quantos o ouvem” 824.

Referente ao serviço acrescenta o parágrafo 192, citando a Ecclesia in América, o

número 18 recordando que o serviço da Igreja deve direcionar principalmente para aqueles

que estão excluídos da sociedade, o pobre. No que tange ao diálogo, afirma a necessidade de

se aprofundar no estudo sobre o ecumenismo, partindo dos subsídios já apresentados pelo

Diretório para o Ecumenismo, pelo CONIC e pelo setor de ecumenismo da CNBB. Destaca

também a importância do estudo e qualifica-o como “sério” da Encíclica de João Paulo II

sobre o tema intitulado Ut Unam Sint. Ademais, apresenta os trabalhos já realizados

apontados pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Ainda

acrescenta o apelo do Papa João Paulo II, extraído da Ecclesia in América, para que os

cristãos promovam conjuntamente com outras Igrejas elementos de comunhão 825.

821
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 121-168.
822
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 162.
823
Cf. Cf. CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 174;192;219-
220;222-223;232;239;261.
824
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n 174.
825
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 219-221.
253

Sobre a exigência do anúncio, acrescenta que a evangelização, para ser autêntica,

precisa partir do encontro pessoal com Jesus Cristo. Esse encontro ou essa mediação tem

como locus privilegiado o “estudo e meditação da Sagrada Escritura, na vivência da dimensão

celebrativa e nas ‘pessoas’, especialmente os pobres com os quais Cristo se identifica’ A

Escritura e a Eucaristia e as pessoas constituem, assim, os lugares, por excelência, do

encontro com Cristo na história” que deve ser regado pela conversão” 826.

Nessa afirmação situa o grande avanço dessas Diretrizes. A pessoa humana é, assim

como a Escritura e a Eucaristia, lugar de encontro com a Pessoa de Jesus Cristo. É a

explicitação do valor teológico da pessoa humana expresso pela Revelação, em detrimento do

descaso com a mesma, proporcionada pela sociedade secularizada. De forma intra-eclesial,

resgata e desperta a todos para uma espiritualidade comprometedora com o outro, em que

valoriza a relação não somente transcendente, mas também a imanente, não só com Deus

numa dimensão vertical, mas, eminentemente, com o próximo, numa dimensão horizontal.

Ainda no que concerne ao anúncio, apresenta a necessidade da evangelização nos

ambientes onde se situam os dirigentes da sociedade, aqueles que, segundo a opção

preferencial pelos pobres, foram de certa forma, excluídos. O Papa lembra que esses são em

grande número e podem ajudar os pastores a “enfrentarem a difícil tarefa da evangelização

desses setores da sociedade com renovado fervor e uma metodologia atualizada”. Esses

devem ser introduzidos no universo da Doutrina Social da Igreja que, segundo o Papa, é “o

melhor antídoto contra inúmeros casos de incoerência e, em certos casos, de corrupção

existente na estrutura política” 827.

Por fim, destaca o grande impulso missionário que, tanto as Diretrizes anteriores

como o PRNM, conseguiram despertar na maioria das dioceses, principalmente sob a forma

826
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 222-223.
827
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 232.
254

das Santas Missões populares e da multiplicação de ações evangelizadoras empreendidas

pelos leigos e leigas 828.

Referente ao quinto Capítulo sobre “os evangelizadores” tem-se apenas cinco

parágrafos novos e um alterado 829. Enfaticamente, afirma que todo esse trabalho preparatório

para o grande Jubileu deverá ser continuado a partir de novos programas, “que levem em

conta as experiências bem sucedidas, particularmente no campo bíblico-catequético e

litúrgico” 830.

Ademais, de forma mais profunda, apresenta a teologia do leigo a partir do Vaticano

II, encerrando a sua participação efetiva na Igreja da América Latina. Diz o Papa: “A

renovação da Igreja na América não será possível sem a presença ativa dos leigos. Por isso,

compete-lhes, em grande parte, a responsabilidade do futuro da Igreja” 831. Realça novamente

o seu estado secular e, por causa disto, deve inserir-se cada vez mais no mundo hodierno

encarnando os valores evangélicos. Realça também o seu dever, por ser batizado, de colaborar

de forma objetiva com a própria Igreja por meios dos variados ministérios leigos. Destaca

ainda, lembrando João Paulo II a rica realidade dos Movimentos Eclesiais, expressão fecunda

das novas formas de vida comunitária. Essas, segundo o Papa

são expressão de uma multiforme variedade de carismas, métodos educativos,

modalidades e finalidades apostólicas. [...] uma realidade eclesial de participação

prevalentemente laical, um itinerário de fé e de testemunho cristão que funda seu

próprio método pedagógico sobre um carisma preciso, dado à pessoa do fundador

em circunstâncias e modos determinados 832.

828
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 239.
829
Cf. CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 309-312; 315.
830
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 300.
831
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 309.
832
CNBB. DGAE 1999-2002. (Documentos da CNBB n. 61). São Paulo: Paulinas, 1999. n. 309-312; 315.
255

1.5.1. O PROJETO SER IGREJA NO NOVO MILÊNIO

A Igreja universal passou por um processo de preparação para a chegada do ano

2000, e, com ele, do novo milênio. Desde o início do seu pontificado, o Papa João Paulo II

compreendeu, talvez até profeticamente, que essa data histórica tinha muito significado para a

humanidade, e conseqüentemente, também para a Igreja.

Da mesma forma que João Paulo II quis preparar a chegada desse novo milênio

numa linha cristológica e eclesiológica, quis também iniciá-lo da mesma forma. Ele o fez com

a publicação da Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte 833.


834
Sensível ao apelo dessa Carta de começar o novo milênio a partir de Cristo ,

contemplando o seu rosto para lançar-se ao largo, a Igreja no Brasil procurou engajar-se nesse

processo, fazendo, agora, um projeto para os anos 2001 e 2002, visto que o anterior, o projeto

"Rumo ao Novo Milênio", já estava concluído. Tendo consciência de que não era

“conveniente repetir simplesmente uma pregação ou catequese a partir dos Evangelhos, nos

anos 2001-2002, optou-se pela escolha dos Atos dos Apóstolos” 835.

O título do novo projeto é "Olhando para frente. O Projeto 'Ser Igreja no Novo

Milênio' explicado às comunidades", elaborado pela Conferência Nacional dos Bispos do

Brasil (CNBB). Esse Projeto "Ser Igreja no Novo Milênio" tem por finalidade central renovar

a consciência da identidade e da missão da Igreja no Brasil. E essa se torna mais urgente por

causa da complexidade da realidade brasileira, marcada por um contexto de mudanças rápidas

e repletas de contradições, além de questionar as formas de existir e de agir das comunidades

eclesiais e de cada cristão 836.

833
Cf. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Novo Millennio Ineunte. São Paulo: Loyola, 2001.
834
Cf. Ib. III Capítulo.
835
SINM.p. 13.
836
SINM p. 11.
256

Para concretizar o objetivo central, a CNBB aponta o estudo do livro dos Atos dos

Apóstolos como eixo central, pois ele se constitui em fonte inspiradora para hoje, visto que as

primeiras comunidades cristãs eram, em primeiro lugar, evangelizadoras, e, depois,

mantinham-se vivas e perseverantes ao Evangelho de Jesus Cristo. Assim, haverá

possibilidade de refletir sobre a missão da Igreja e discernir os sinais do Espírito Santo, que a

guia. Desse modo, será avaliada a caminhada pastoral da Igreja no Brasil desde 1996, visando

a acolher elementos de reflexão e planejamento para o futuro.

A partir da reflexão do livro dos Atos dos Apóstolos, procurar-se-á, a exemplo dos

Apóstolos e de tantos leigos e leigas comprometidos com o anúncio de Jesus Cristo morto e

ressuscitado, viver uma evangelização inculturada por meio do serviço, do diálogo, do

anúncio e do testemunho de comunhão eclesial, metas alcançadas pelos primeiros

evangelizadores da Igreja nascente e exemplos para nós, hoje.

Enfim, o projeto é, fundamentalmente, uma proposta de reflexão, em vista da tomada

de consciência da identidade e da missão da Igreja no Brasil, a partir da revisão das atividades

pastorais de cada comunidade, a fim de constatar como a Igreja se vê, para melhor

desempenhar o seu serviço no contexto brasileiro. Por isso, o período de abrangência vai da

Páscoa de 2001 até a de 2003, quando uma nova Assembléia da CNBB definirá as Diretrizes

Gerais da Ação Evangelizadora para os quatro anos seguintes.


257

CONCLUSÃO

Chegamos aqui ao fim desse Capítulo. A renovação da identidade e da missão da

Igreja é um processo longo, árduo, proveniente da profunda riqueza do Magistério Conciliar,

Pontifício, Latino-americano e, conseqüentemente, da própria Igreja local.

O perfil eclesiológico, presente nas Diretrizes, foi, nesse Capítulo, abordado pela via

da evangelização. Como o próprio Papa Paulo VI a denomina, ela é um processo rico,

dinâmico e inesgotável. Na evolução das Diretrizes, ela foi ganhando, em sintonia com a

evolução teológica, seja Pontifícia ou das Conferências Episcopais, realces que, por via de

regra, foram denotando à Igreja um perfil único, concretizado na e pela vida pastoral.

Sendo assim, até as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral – doc. 45 –, a evangelização

era abordada como que uma realidade dentre muitas outras, fazendo parte da linha ou

dimensão 2, ou seja, a ação missionária. De acordo com os eventos Teológicos, como o

Sínodo sobre a justiça no mundo, as Conferências de Medellín, de Puebla, das Encíclicas

papais, seja de Paulo VI com a PP e a EN, seja com João Paulo II com a RMi, TMA e TMI, a

evangelização aqui ia ganhando novos destaques e complementações.

A partir da Encíclica PP e de Medellín, ela foi entendida como evangelização

libertadora; com o Sínodo sobre a Justiça no Mundo, como evangelização integral; mas foi a

partir da EN que foi acolhida e entendida como o conjunto de atividades da missão da Igreja.

Com a Conferência de Puebla, realçou o seu conteúdo, ou seja, ela deve estar alicerçada sobre
258

a tríplice verdade, sobre Jesus Cristo, a Igreja e o Homem. Notoriamente, a partir da RMi foi

possível distinguir algo fundamental para a compreensão eclesial das Diretrizes, ou seja, a

distinção quanto aos destinatários da evangelização e da pastoral. Daqui em diante, pode-se

falar de duas realidades, não separadas, mas ordenadas ontologicamente.

Com a Conferência de Santo Domingo, pediu-se a renovação da evangelização

quanto ao seu ardor, aos seus métodos e expressões. Naturalmente, a Igreja do Brasil, com as

Diretrizes da Ação Evangelizadora – doc. 54 – mudou o seu enfoque: acolheu essas

orientações e mudou sua estrutura para melhor responder à sua missão evangelizadora. Em

vez de situá-la dentre de uma das seis linhas ou dimensões da pastoral, agora a evangelização

é entendida e colocada como o centro, da mesma forma que Cristo é o centro de Tudo, haja

vista que Evangelizar é tornar conhecida a Pessoa, a Doutrina, a salvação de Jesus. Em

analogia com o mistério da Encarnação, a evangelização deve ser inculturada, prescindindo de

quatro exigências irrenunciáveis, a saber, o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho de

comunhão eclesial.

Na compreensão de continuidade, vemos que o perfil eclesiológico presente no

documento 45, mantém a mesma idéia do documento 54, ou seja, a idéia de uma Igreja

evangelizadora. Contudo, o modo de abordá-la é totalmente descontínuo, ou seja, lá era

apenas uma parte de uma dimensão, aqui é a centralidade de toda a vida da Igreja.

Evangelização e pastoral não se tornaram realidades dicotômicas. Porém, a partir do

documento 54, entende-se que toda pastoral deve ser evangelizadora e que a evangelização

deve nortear toda ação pastoral.

Não podemos determinar qual dos perfis é melhor. Realidade, fato concreto é que,

hoje por meio desta nova forma de entender a evangelização e também a pastoral, a Igreja tem

podido melhor responder aos apelos e aos desafios da modernidade, conjugando novamente o
259

binômio Comunhão-Missão, por muito tempo esquecido, muito embora mencionado em

alguns de seus documentos como, por exemplo, o número 40: Igreja: comunhão e missão.

Esse binômio foi bem mais evidenciado nos dois projetos oriundos das Diretrizes da

Ação Evangelizara, ou seja, o Projeto Rumo ao Novo Milênio e o Ser Igreja no Novo

Milênio. O primeiro destinou-se a preparar o grande jubileu do ano 2000; o segundo, para

colocar a Igreja em marcha diante do novo milênio que se iniciava.

Contudo, espera-se que a Igreja, neste novo milênio, continue renovando-se cada vez

mais para melhor responder aos apelos que o Senhor lhe faz: de ir para águas mais profundas.
260

CONCLUSÃO GERAL

Ao término dessa pesquisa, que procurou evidenciar um entre os muitos perfis

eclesiológicos inerentes as Diretrizes Gerais da CNBB, podemos, com lucidez, evidenciar que

o binômio Comunhão-Missão, proveniente do Concílio, foi de modo singular elucidado e

aprofundado pela Igreja no Brasil sob a forma de uma eclesiologia aberta para o mundo,

exercendo o seu múnus profético, cuja expressão foi, ao longo dos anos, evidenciada a partir

da temática da evangelização. Hoje, partindo da reflexão sobre as Diretrizes Gerais da Igreja

no Brasil, destaca-se um perfil eclesiológico fundado na evangelização, forjando aquilo que o

Concílio procurou evidenciar, ou seja, uma Igreja essencialmente missionária, dialogante e

profética.

Desta forma, urge-nos a necessidade cada vez maior de um aprofundamento da

teologia conciliar sobre a eclesiologia, pois, toda compreensão eclesiológica deriva deste

patrimônio que ainda tem muito para ser evidenciado, intuído e vivido por nossas

comunidades eclesiais. Quando falamos de perfil eclesiológico, falamos, na verdade, de uma

forma de compreensão ou de uma forma de se olhar para esta riqueza insondável que é o

Concílio. Toda a construção eclesiológica da América Latina, assim como da Igreja no Brasil,

bebe dessa fonte. Sendo assim, o perfil aqui evidenciado nada mais é do que um reflexo desta

luz maior proveniente desse evento captus, o mais significativo do século passado.
261

Contudo, a Igreja no Brasil, não apenas reproduziu de forma inativa esse perfil; na

verdade, ele é fruto de um contexto de vicissitudes tanto teológicas quanto sociais que a Igreja

no Brasil estava, e ainda está acometida em seu percurso terrestre. Dessa forma, no que tange

à aplicação dos princípios basilares provenientes do Concílio, ela se torna fonte, visto que

acolhe essa riqueza e a aplica segundo sua realidade conjuntural que é diferente daquela em

que o Concílio estava encerrado. E mais, nesse percurso de quatro décadas, têm, com

sublimidade e iluminação do Espírito Santo, que age por meio de mediações humanas,

aplicado essa riqueza e redescobrindo novos brilhos ainda escondidos nos recônditos do

mesmo. Neste ínterim, conclui-se que o perfil eclesiológico inerente às Diretrizes aqui

apresentadas é de fato, um legado dessa aplicação salutar dos princípios eclesiológicos

oriundos do Concílio.

Destarte, o perfil eclesiológico aqui apresentado é também herdeiro de um

patrimônio latino-americano no que tange às conclusões das Conferências de Medellín,

Puebla e Santo Domingo. Ademais, não poderíamos deixar de citar as contribuições e

influências dos pontificados de Paulo VI e, principalmente, de João Paulo II referentes aos

seus ensinamentos. Este último é de suma importância para o entendimento do

desenvolvimento eclesiológico latino americano e principalmente da Igreja no Brasil. João

Paulo II, de fato, por meio de sua ação pontifícia procurou recentrar a Igreja, de modo

especial a que está na América Latina, a uma postura mais “conservadora”, voltada sim para o

pobre, mas sem perder a sua característica central que é de ser sacramento de salvação e não

meramente um instrumento de reivindicações; a voltar às motivações evangélicas no que se

refere ao seu agir, deixando as motivações ideológicas ou políticas em segundo plano.

Na trajetória eclesiológica traçada nesse trabalho, evidencia-se claramente que a

evangelização, desde o Concílio, perpassando por todos os acontecimentos teológicos

posteriores, foi se tornando o princípio hermenêutico pelo qual se pôde construir e entender
262

toda a postura eclesial da Igreja Universal e também da América Latina. No Brasil, a Igreja

trilhou esses mesmos passos; contudo, a temática da evangelização só ganhou maior

evidência, passando de uma linha pastoral para ser a que de fato deve ser, a razão de toda a

Igreja, somente em 1995, quando da publicação do documento 54. A postura da Igreja no

Brasil tornou-se mais efusiva no que concerne à procura e ao engajamento do cristão leigo. A

partir de então, podemos falar de uma Igreja onde todos são, de fato, convidados e

convocados ao serviço evangelizador.

Notavelmente, conclui-se que a Igreja no Brasil não pode ser somente profética: ela

tem que ser Evangelizadora. É por meio da evangelização que a Igreja se torna profética. É

por meio da Evangelização que ela pode se tornar um sinal escatológico para e em toda

realidade secular. Progressivamente, a Igreja no Brasil deve trilhar com maior profundidade

os caminhos da evangelização, a fim de melhor efetuar sua presença entre os mais pobres sem

se esquecer de que é Mãe e que tem o dever de também falar a todos os demais. Os homens da

Igreja, que trilham os caminhos do novo milênio, devem, na prática e na tomada de

consciência, ser semelhantes àqueles que iniciaram a caminhada dessa mesma Igreja, numa

perspectiva totalmente evangelizadora.


263

BIBLIOGRAFIA

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Pastoral da Igreja no Brasil 1991 - 1994. (Documentos da CNBB n. 45). São Paulo: Paulinas,

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Paulo, Paulinas, 1995.

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264

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Paulinas, 1998.

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DOCUMENTOS DICASTERIAIS

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PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS. Igreja na América, tua Vida é Missão. (CAM 2,

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2.4. DOCUMENTOS DO CELAM

CONSELHO EPISCOPAL LATINO AMERICANO. Conclusões de Medellín, 4ª ed., São

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CONSELHO EPISCOPAL LATINO AMERICANO. Evangelização no presente e no futuro

da América Latina: Conclusões da Conferência de Puebla: Texto oficial. 8. ed. São Paulo:

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CONSELHO EPISCOPAL LATINO AMERICANO. Nova Evangelização, Promoção

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Petrópolis: Vozes, 1992.


266

2.5. DOCUMENTOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DO BRASIL (CNBB)

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação

Pastoral da Igreja no Brasil 1975 - 1978. (Documentos da CNBB n. 4). São Paulo: Paulinas,

1975.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório para missas com

grupos populares. (Documentos da CNBB n. 11) São Paulo: Paulinas, 1977.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação

Pastoral da Igreja no Brasil 1979 - 1982. (Documentos da CNBB n. 15). São Paulo: Paulinas,

1979.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação

Pastoral da Igreja no Brasil 1983 - 1986. (Documentos da CNBB n. 28). São Paulo: Paulinas,

1983.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Catequese Renovada:

orientações e conteúdo. (Documentos da CNBB n. 26). São Paulo: Paulinas, 1986.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação

Pastoral da Igreja no Brasil 1987 - 1990. (Documentos da CNBB n. 38). São Paulo: Paulinas,

1987.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Igreja: Comunhão e Missão na

evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura. (Documentos da

CNBB n. 40). São Paulo: Paulinas, 1988.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. 11º Plano Bienal dos

Organismos nacionais. (Documentos da CNBB n. 46). São Paulo: Paulinas, 1991-1992.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Missão e Ministérios dos

cristãos leigos e leigas. (Documentos da CNBB n. 62). São Paulo: Paulinas, 1999.
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CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Rumo ao Novo Milênio: Projeto

de Evangelização da Igreja no Brasil em preparação ao grande jubileu do ano 2000.

(Documentos da CNBB n. 56). São Paulo: Paulinas, 1996.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Sociedade Brasileira e Desafios

Pastorais. São Paulo: Paulinas, 1990.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Plano de Emergência de

Conjunto 1963. (Documentos da CNBB n. 76). São Paulo: Paulinas, 2004.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Plano de Pastoral de Conjunto

1966 - 1970. (Documentos da CNBB n. 77). São Paulo: Paulinas, 2004.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pano de Pastoral de Conjunto

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