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TÉCNICAS DE MELODIA. Segunda parte.


Análise melódica da música Autumn Leaves e variações.

Na edição passada da revista falei de Tensão e Resolução melódica, de notas alvo e


notas de tensão. Hoje proponho a vocês a análise de uma melodia famosa e, a partir de
algumas considerações sobre ela, vou manipulá-la, até inventar, reescrever, compor
novas melodias. Quando falo em composição melódica, estou me referindo tanto à
composição de um tema quanto à de um improviso. Como sempre, sugiro ao leitor de
ficar próximo ao seu instrumento, para ler os exemplos musicais e entender melhor o
que está acontecendo. Vamos lá!

O exemplo 1 mostra um trecho da melodia da música Autumn Leaves. Vou começar a


analise desse tema separando dois grupos de notas: um primeiro grupo, composto pelas
notas de menor duração (a); um segundo grupo composto pelas notas de maior duração
(b).

Exemplo 1

As notas de longa duração (grupo b) são mais importantes que as outras; isto é devido,
basicamente a dois fatores: primeiramente porque duram mais tempo; sucessivamente,
podemos notar que as notas de curta duração representam uma preparação para as notas
longas. Cada grupo (a)+(b) constitui uma semi-frase, um arco melódico.

Então, começamos nossa primeira variação melódica trocando as notas de curta duração
por outras. Veja o Exemplo 2.

Exemplo 2

Observação: o leitor que me acompanhou na edição passada da revista, acha no exemplo


2 uma aplicação do que foi dito a respeito das notas de aproximação diatônico-
cromáticas. Quem perdeu o número da revista… bem… duas opções: procurar correndo
o artigo ou simplesmente ignorar essa última observação.

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O exemplo 3 mostra mais um exemplo de variação das notas do grupo (a)

Exemplo 3

Juntamente às notas do grupo (a), podemos pensar em alterar, também, as notas do


grupo (b). O exemplo 4 mostra uma alteração de oitava para as notas de longa duração.

Exemplo 4

No exemplo 5, cada nota de longa duração é alteradas mediante a inserção de outra nota:

Exemplo 5

A escolha das notas que, no exemplo 5, foram alterar as notas do grupo (b) – as de longa
duração- foram escolhidas com um critério muito preciso. Para explicar isso, vou
introduzir agora o conceito de notas guias.

Denominam-se notas guias as notas mais importantes de um acorde; essas são, muitas
vezes, o terceiro e o sétimo grau (ou o sexto). As notas guias são ditas, também, notas
características do acorde. Isto porque são, na música tonal, as notas que definem melhor
a sua característica (se maior, menor, dominante, etc...).
Se torna útil aprender a evidenciar, em termos melódicos, as notas guias de cada acorde.

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O exemplo 6 mostra as notas guias do trecho da música Autumn Leaves. Nesse exemplo
coloco, em cada compasso, primeiro o 3° grau e depois o 7°.

Exemplo 6

Observe que muitas vezes, as melodias das músicas, utilizam muito as notas guias.
No caso de nossa música, Autumn Leaves, podemos notar que as notas de longa duração
são sempre notas guias. Em particular: a nota mib é 3° grau de Cm7 e, mantida até o F7,
se transforma no 7° grau dele. A nota ré é o 3° grau de Bb7M e, mantido até o Eb7M, se
tranforma no 7° grau dele. Procedendo, a nota dó é 3° grau de Am7(b5) e, mantido até o
D7, se transforma no 7° grau dele. Se note, também, como essas notas de maior duração,
comstituem, por sim mesmo, uma linha melódica descendente (do mib do segundo
compasso até o sib do oitavo).

O exemplo 7 mostra um improviso baseado nas duas notas guias de cada acorde. Em
cada compasso, as duas notas estão acompanhadas por outra nota de aproximação
diatônico-cromática (quem não leu o artigo passado… não foi procurá-lo ainda?)

Exemplo 7

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Análise da melodia do exemplo 7


- Compasso 1: uso das duas notas guias de Cm7 e de uma nota de aproximação
cromática.
- Compasso 2: a nota Sib é prolongada até se movimentar para a nota Lá (nota guia de
F7 e de Bb7M).
- Compasso 3: uso das duas notas guias de Bb7M e de uma nota de aproximação
diatônica.
- Compasso 4: uso das duas notas guias de Eb7M. A nota Dó pode ser considerada a
antecipação de uma das notas guias do acorde sucessivo, o Am7(b5).
- Compasso 5: uso das notas guias Dó (b3) e Mib; este último é o b5 do acorde;
tratando-se de um acorde meio-diminuto, é interessante evidenciar o b5; a nota Ré é
aproximação ao b5.
- Compasso 6: uso das duas notas guias com um Fá natural que é nota de aproximação
ao 3 do acorde. A nota Sib é uma antecipação de uma das notas guias do acorde
sucessivo, o Gm7.
- Compasso 7: a cifra não especifica nenhum sétimo grau. Nesse caso, o uso da oitava ou
do quinto grau representam boas escolhas.

Bom, constatado que o compositor da música utilizou o 3° grau como nota de referência,
que tal a gente pensar em usar o 7° grau como fundamento de uma nova linha melódica?
Aí vai o Exemplo 8, já se trata de uma nova melodia, não é mais Autumn Leaves, essa
melodia precisa de um novo nome. Que tal, então, chamá-la de… Atum Livre?

Exemplo 8

Até a próxima

TURI COLLURA é pianista e compositor, professor da


EM&T de Vitória. É autor do método “Improvisação:
Práticas Criativas para a Composição Melódica na
Música Popular”. Gravou recentemente seu CD
“Interferências”, com composições e arranjos próprios.
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