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Encontro Anual da ANPOCS 2005

GT 25: Teoria social e modernidades múltiplas


Coordenadores: Josué Pereira da Silva, Sérgio Costa

Descentrando a teoria social: lições do


Atlântico Negro
Sérgio Costa

Email: scosta@zedat.fu-berlin.de
Descentrando a teoria social: lições do Atlântico Negro
Sérgio Costa

A distinção entre política interna, restrita às fronteiras dos estados-nação e a política


internacional que, de certo modo, ainda estrutura a divisão de trabalho no interior da ciência
política, perdeu já há algum tempo sua validade. A política interna se internacionalizou de tal
modo que uma conferência internacional pode virar pelo avesso a dinâmica de produção de
políticas públicas “nacionais”, como foi o caso, por exemplo, das políticas de combate ao
racismo no Brasil, depois da Conferência de Durban em 2001. O campo das relações
internacionais, por sua vez, se tornou o locus de exercício daquilo que alguns autores vêm
chamando de política interna mundial: nesse contexto, estados nacionais seguem sendo atores
importantes; disputam seu protagonismo, contudo, com um conjunto variado de agentes como
ONGs internacionais, corporações transnacionais, etc.
Essa configuração pós-nacional impõe a disciplinas como a sociologia e a ciência
política, paridas num momento em que modernidade e nação pareciam vinculadas congenita e
eternamente, desafios conceituais e metodológicos inéditos, forçando a busca de categorias
adequadas para apreender e nomear as novas dinâmicas e estruturas que vêm se formando.
Nesse artigo, procura-se, em primeiro lugar, retomar e aprofundar a idéa de Atlântico Negro,
conforme desenvolvida pelo sociólogo inglês Paul Gilroy. O objetivo é mostrar como tal
unidade de análise constitui um marco extremamente rico para explicitar as conexões entre
dinâmicas locais e globais. Em seguida, busca-se cunhar o conceito contextos transnacionais
de ação como categoria geral para o estudo de processos sociais, culturais e políticos cuja
abrangência e lógica interna não guardam relação direta com as fronteiras dos estados-nação.

O Atlântico Negro

Com o mesmo rigor com que resiste à tentação pós-moderna de abandonar a idéia de
emancipação social, Paul Gilroy, seguindo o marco que orienta os chamados black cultural
studies ingleses, considera inadequado definir um lugar social prévio para a emancipação
social, externo e anterior às “articulações discursivas” – como fizeram o marxismo com o
recurso ao proletariado ou a teoria crítica, através, por exemplo dos conceitos de razão
comunicativa (Habermas) ou reconhecimento (Honneth). O autor se vê, por isso, confrontado
com a dificuldade de, entre as múltiplas articulações e rearticulações das diferenças (de
gênero, de classe, étnicas, raciais, culturais), distinguir aquelas que reproduzem as
categorizações hegemônicas daquelas que subvertem essencialismos e adscrições. Recorre à
história e, mais particularmente, à história dos movimentos anti-racistas como ponto de fuga
para a construção de sua perspectiva crítica. Ao lado da reconstrução da trajetória recente do
movimento anti-racista inglês, Gilroy debruça-se, de maneira mais continuada, sobre o “Black
Atlantic”.
A referência ao Atlântico Negro como contexto cultural constituído a partir do tráfico
de escravos da África para as Américas não é propriamente nova ou recente. Tal idéia tem uso
consagrado na historiografia do período colonial e é complementar à própria noção de
triângulo atlântico enquanto expressão das relações de poder e dominação, bem como da
circulação de pessoas e mercadorias no âmbito dos três continentes: África, Américas,
Europa1.

1
) A migração forçada dos escravizados da África para as Américas compreendeu em cerca de 400 anos de 12
milhões a 25 milhões de pessoas, considerando-se apenas os que efetivamente aportaram nas Américas, isto é,
sem levar em conta as mortes durante o transporte. O Brasil foi a região que mais recebeu escravos, seguindo-se
o Caribe britânico, o Caribe francês, a América espanhola e a América do Norte. As consequências para o
continente africano da perda de um contingente humano dessa monta estão ainda por ser adequadamente
Não obstante, na acepção proposta por Gilroy, a idéia Atlântico Negro ganha um
aprofundamento e um sentido político que ainda não haviam sido adequadamente explorados.
O primeiro sentido conferido à noção de Black Atlantic por Gilroy é empírico-
descritivo e remete ao processo de difusão e reconstrução de uma cultura negra que
acompanha o movimento da diáspora africana2. Não se trata, contudo, de um projeto pan-
africano que enfatizasse uma permanente volta às origens culturais na África. Ao contrário,
Gilroy é crítico ao afro-centrismo e mostra que as manifestações culturais no âmbito do Black
Atlantic são sempre recombinações e reinvenções, articulações3, cujo sentido político não se
prende ao grau de fidelidade com que se busca reproduzir as origens comuns. Importa muito
mais a possibilidade de produção de novas formas de comunicação e de compartilhamento
intersubjetivo de experiências e das novas criações. Nesse sentido, a referência ao Black
Atlantic como expressão cultural da diáspora africana desafia as concepções puristas de uma
identidade e uma cultura atemporais, produzidas e reproduzidas fora dos contextos sociais
particulares. Ipsis verbis:

“Diaspora is a useful concept because it specifies the pluralization and nonidentity of


the black identities without celebrating either prematurely. It raises the possibility of
sameness, but it is a sameness that cannot be taken for granted. Identity must be
demonstrated in relation to the alternative possibility of differentiation, because the
diaspora logic enforces a sense of temporality ans spatiality that underscores the fact
that we are not what we were.” (Gilroy 1995: 23)

estudadas (Walvin 2000). O que parece fora de dúvida é que a dispersão de pessoas originárias da África para o
resto do mundo marca como poucos outros eventos a história cultural e política do mundo moderno. Desde
então, paralelamente às histórias nacionais, se desenvolve a história da diáspora africana. A resistência da
Etiópia apoiada por afro-americanos à invasão italiana nos anos 1930 (Jalloh 1996) ou a difusão mundial do Hip
Hop no final do Século XX constituem epsódios representativos dessa história paralela.
2
O conceito diáspora vem merecendo uso crescente no âmbito da discussão de redes de solidariedade
transnacionais, desvinculadas de um território, como é caso dos laços entre comunidades de imigrantes e seus
países de origem. Ao mesmo tempo que a categoria (e o discurso) evoca, na história ocidental, a diáspora
judaíca, o conceito tem um claro apelo cosmopolita, no sentido de afirmação de vínculos e lealdades resistentes
às ideologias nacionalistas e assimilacionistas (Clifford 1994: 308). Anthias (1998: 558) é crítica ao conceito por
acreditar que ele, „whilst focusing on transnational processes and comonalities, does so by deploying a notion of
ethnicity which privileges the point of ‚origin‘ in constructing identity and solidarity“. Mesmo sem poder
discutir as críticas da autora em detalhe, parece-me necessário refutar sua posição. Afinal, domina no tratamento
contemporâneo do tema, como se verá mais abaixo no uso feito por Gilroy, a visão de que não é a origem
comum, mas o compartilhamento de experiências e de um vocabulário comum capaz de decodificar tais
experiências que determina a dinâmica da diáspora.
3
) O conceito articulação encontra largo uso nos black cultural studies e serve para descrever o processo de
posicionamento do sujeito no interior de uma formação discursiva determinada. Conforme mostra Hall (1996)
articulação encerra os dois sentidos que a palavra tem no inglês coloquial (como também no português), quais
sejam, o de falar, se articular, ser articulado e o de conexão de dois elementos que podem constituir uma unidade
em determinadas circuntâncias. No caso do anti-racismo inglês, a idéia de articulação serve para marcar aquela
fase em que o movimento interage com os discursos do pós-estruturalismo, pós-modernismo, psicanálise e
feminismo, observando-se aqui “the end of innocence”, qual seja, o reconhecimento de que a categoria black é
uma construção política e cultural, “which cannot be grounded in a set of fixed trans-cultural or transcendental
racial categories and which therefore has no guarantees in nature” (p. 443). O fim do sujeito centrado – black
people - como uma totalidade positiva força o movimento anti-racista a deparar-se com a questão da diferença e
da différance, nos termos legados por Derrida ao pós-estruturalismo. Isto é, se as formas de representação
racistas organizam o mundo em diferenças binárias, fixas e ontológicas – preto ou branco, black or british, o
anti-racismo não pode se resumir a buscar representar positivamente aquele que é representado como inferior
nessas polaridades. É preciso, numa palavra, desmontar o próprio sistema de representações. Decorre desse
desafio reconhecer e assumir plenamente a heterogeneidade e o descentramento do sujeito, buscar a différance
múltipla no interior da diferença binária (branco/preto) e recuperar as interseções entre raça, classe, gênero e
etnias. É, precisamente, na articulação dessas diferenças - todas elas móveis, cambiantes, construídas no
momento de sua manifestação discursiva – que o sujeito da resistência anti-racista se constitui.
São vários os laços e as estruturas que garantem a circulação cultural no âmbito do
Black Atlantic. Os mais evidentes são as relações simbólicas e materiais efetivas entre os três
continentes, como fica evidente no caso destacado por Gilroy (1994: 249) dos negros
britânicos que mantêm uma estreita relação com o Caribe e buscam, por essa via, reconstruir e
reinventar suas pontes com a África. Cabe destaque ao surgimento de um mercado
transantlântico para a cultura pop negra. Esse mercado surge em conexão com as “audências
brancas” e tem participação importante na construção de uma estética negra e, mais do que
isso, na retradução de tal estética como referência positiva, na medida em que se confere a
chancela de “cool” àquilo que é reconhecido como traço expressivo de uma moda black, seja
no âmbito da estilização dos cabelos, seja na combinação das roupas, etc. (idem: 247).
O consumo coletivo de música é um pilar central do Black Atlantic. As lojas de discos
são uma espécie de arquivo popular e também o rádio e os clubs funcionam como
disseminadores de um certo “idioma cultural negro” (idem: 252). Ao reconhecer a polifonia e
o papel do consumo e do mercado na produção da estética do Black Atantic, Gilroy não se
rende, contudo, ao ceticismo pós-moderno que busca descrever a cultura negra como pastiche
e paródia despolitizadas. Ao contrário, destaca que, desde a época da escravidão,
preocupações ético-políticas profundas circularam no espaço cultural do Atlântico Negro,
como testemunham as muitas rebeliões de escravos e, de forma ainda mais enfática, a
Revolução Haitiana, contemporânea à Revolução Francesa.
Mesmo o lugar da música no âmbito do Black Atlantic precisa ser compreendido nessa
perspectiva histórica. A importância da música e, juntamente com ela, as formas de dança e
movimento não podem ser entendidas, conforme Gilroy, sem que se considere a
impossibilidade de comunicação através da palavra. Ao escravo que se encontrava excluído
do mundo civil burguês organizado em torno do diálogo, restava o próprio corpo como meio
de manifestação e comunicação.
Tal nos leva ao segundo uso que Gilroy faz do conceito de Black Atlantic, qual seja, o
sentido político-normativo. Nas palavras do autor, o Black Atlantic corresponde a uma
dimensão esquecida da modernidade e a escravidão, uma filha de criação que a história
moderna sempre procurou esconder. A reconstrução da história da diáspora africana implica
mais que estender e aprofundar os direitos e possibilidades de participação dos descendentes
de escravos no marco da política contemporânea e no âmbito da esfera pública burguesa.
Trata-se de, em consonância e complementarmente aquilo que fizeram as filósofas feministas,
colocar em discussão o próprio processo de construção da política moderna, enquanto espaço
privilegiado de representação dos interesses e das visões de mundo do homem branco. Assim,
na medida em que a política contemporânea rege-se pelo império da palavra, pela imposição
da separação entre ética e estética, performance e racionalidade e aparece circunscrita ao
âmbito do Estado-nação decide-se previamente o jogo político em favor daqueles que, por
força de sua inserção na história moderna, puderam controlar os mecanismos de produção e
reprodução dos discursos de poder considerados legítimos em cada Estado-nação particular.
A história da diáspora africana, ao contrário, se desenvolve fora da órbita da política
formal, se valendo fundamentalmente da performance, da dança e da música como forma de
sua constituição. Por outro lado, desde sua origem, a diáspora africana não pôde ser reduzida
e retraduzida na dinâmica nacional da política contemporânea. Ao contrário, sempre se
verificou uma tensão entre a busca de homogeneidade étnica no contexto de nações modernas
e a presença de escravos negros e, depois, de seus descendentes, tratados como inferiores e
ameaças aos projetos nacionais. Decorre dessa posição particular aquilo que Paul Gilroy,
referindo-se a Du Bois chama de dupla consciência dos negros no âmbito da modernidade.
Trata-se de uma inserção ambivalente na história, caracterizada, por um lado, pela inclusão
efetiva no processo de construção da modernidade e, por outro, pela exclusão sistemática da
vida política no âmbito dos estados-nação.
A crítica à modernidade no âmbito da formação política e cultural que Gilroy chama
de Black Atlantic segue uma estratégia igualmente dupla: busca estender a participação dos
negros no interior das esferas públicas e das sociedades civis nacionais ao mesmo tempo que
coloca em dúvida a própria legitimidade de tal marco político, revelando seus problemas
congênitos. Essa estratégia dupla reflete-se nos dois códigos políticos que convivem em
tensão, no âmbito do Black Atlantic, quais sejam: a política do preenchimento (ou da
plenitude) e a política da transfiguração. A primeira forma aceita as regras do jogo político
institucional, buscando pragmaticamente fazer cumprir as promessas de inclusão e tratamento
igualitário a todos os grupos, acima das adscrições racistas. A política da transfiguração opera
com o registro da imaginação utópica, se alimenta nos rituais de confraternização e
solidariedade e não é traduzível nos termos da política institucional. Não se trata apenas de
um contra-discurso moderno, mas de uma contra-cultura que denuncia as fissuras da
modernidade:

“The politics of fulfilment practised by the descendants of slaves demands (...) that
bourgeois civil society live up to the promises of ist own rhetoric. It creates a medium in
which demands for goals like non-racialised justice and rational organisation of the
productive processes can be expressed. It is immanent within modernity and is no less a
valuable element of modernity’s counter-discourse for being consistently ignored. (...)
The invocation of utopia references what, following Seyla Benhabib’s suggestive lead, I
propose to call the politics of transfiguration. This enfasizes the emergence of
qualitatively new desires, social realtions, and modes of association within the racial
community of interpretation and resistance and between that group and ist erstwhile
oppressors (...).
The politics of fulfilment is mostly content to play occidental rationality at ist own
game. It necessitates a hermeneutic orientation that can assimilate the semiotic, verbal,
and textual. The politics of transfiguration strives in pursuit of the sublime, struggling to
repeat the unrepeatable, to present the unpresenteable. Its rather different hermeneutic
focus pushes towards the mimetic, dramatic, and performative “ (Gilroy 1993: 37s).

A sugestão de Gilroy é que se tome a contra-cultura do Black Atlantic não


simplesmente como mais um repertório de manifestações artísticas e culturais, dissociadas da
política, mas como um discurso filosófico que reinterpreta a modernidade e reconta sua
história, a partir da perspectiva de quem sempre esteve fora das narrativas nacionais com seus
heróis brancos. Tal não implica, vale insistir, reificar a pertença à diáspora nem uniformizar as
experiências múltiplas que as constituem. O que há de singular e comum no âmbito do Black
Atlantic, para Gilroy, não é qualquer vínculo primordial ou biológico entre os membros da
diáspora negra4. Não é o corpo negro, em seu sentido físico, absoluto, que aproxima as vidas
na diáspora, mas os processos similares de exclusão e discriminação aos quais os possuidores
de um corpo negro estiveram e estão submetidos nas sociedades modernas: „Phenotype has no
natural meaning anterior to its mutable historical and cultural codes. The process of
signification is the only issue“ (Gilroy 1997: 29)5.

4
) Conforme mostra Sansone (1995:66 s.), „as populações negras do Novo Mundo e da diáspora caribenha na
Europa produziram uma variedade de culturas e identidades negras que se reportam, por um lado, ao sistema
local de relações raciais e, por outro lado, a fenômenos internacionais e internacionalizantes“. Aparecem, nesse
processo, como elementos catalisadores a „negrofobia branca“, a percepção da „discriminação racial“ e,
conforme o autor verifica empiricamente no caso da cultura negra baiana, o „manejo em público do corpo negro
(a moda, o cabelo, certos aspectos da mímica)“ (p. 80).
5
Gilroy dedica boa parte de seus trabalhos mais recentes a desfazer qualquer dúvida sobre o caráter cultural e
histórico dos vínculos que costuram o Black Atlantic, em oposição àqueles que buscam enfatizar um certo
vínculo consanguíneo entre todos os negros. Nesses trabalhos, Gilroy (1998, 2000) mostra que a idéia de raça,
mesmo quando usada pelos movimentos anti-racistas, termina por levar a alguma forma de essencialização e
Corpo e diferença: uma breve digressão

Ao buscar estudar os nexos entre corpo, diferença e representação, Gilroy presta uma
contribuição inestimável à sociologia contemporânea que tende, conforme entendo, a
construir um falso paradoxo entre duas visões dominantes, ambas equívocas. Trata-se aqui, de
um lado, da visão herdada de Foucault do corpo passivo, mero objeto do poder disciplinador,
de outro da visão hedonista, pós-moderna, de um corpo infinitamente moldável pelas escolhas
subjetivas.
Os trabalhos de Gilroy, ao contrário, introduzem uma imagem matizada do corpo,
mostrando sua importância central tanto na produção de representações que congelam a
posição de inferioridade daquele que se constrói como o outro de si mesmo, quanto nas
estratégias de “resistência subalterna”.
Com efeito, já desde seus primeiros escritos, Fanon, inspiração importante para
Gilroy, chamou-se a atenção para essa inscrição corporal da definição do outro, de sua
“sobredeterminação a partir de um lugar exterior”: “Je ne suis pas l’esclave de ‘l’idée’ que les
autres ont de moi, mais de mon apparâitre. (...) Je suis fixé” (Fanon 1965: 113, orig. 1952). O
corpo constitui aqui a última barreira, a instância inassimilável, inocultável, aquilo que se
toma como diferença irredutível para a construção das relações de opressão. Ao mesmo
tempo, o corpo é inseparável do processo de articulação do sujeito que se opõe à dominação,
isto é, a articulação da diferença apresenta uma dimensão corporal óbvia. Posicionar-se é, em
alguma medida, performar-se, manifestar-se presente com o corpo e seus movimentos. Não
existe, nos sistemas de representações, uma posição neutra para o corpo, o corpo é sempre um
signo ao qual se atribui significado.
Resignificar as relações de opressão – sexistas, racistas, etc. – não significa, contudo,
necessariamente, produzir representações do corpo diametralmente opostas às dominantes,
como num jogo de revelação fotográfica que fizesse parecer positivo tudo aquilo que, na
representação dominante, é negativo e vice-versa. A simples inversão das representações
contem ardis diversos e produz, no fundo, a continuidade da subalternidade. Trata-se, por
isso, mais propriamente de “desfamiliarizar” o que parecia trivial, produzir o ruído de sentido,
introduzir a dúvida e desestabilizar um sistema de certezas simbólicas (vide Ashcroft,
Griffiths & Tiffin 1995; Hall 1997).
A complexidade e dificuldade do tema foram adequamente compreendidas por Gilroy
ao discutir as ambivalências associadas à exposição de corpos de negros nos meios de
comunicação de massa. O autor observa, nos últimos anos, uma mudança substantiva
simbolizada pela diminuição paulatina das aparições de dançarinos de break dance e pelo
emprego crescente de negros em filmes comerciais, sobretudo, em anúncios de artigos
esportivos. Enquanto a dança mostrava um corpo negro “broken, twisted and vulnerable”
(Gilroy 1997:23), a imagem revelada pelos anúncios esportivos é a de um corpo negro super-
poderoso - no limite inumano – que desafia perigos e vence adversários. Ainda que sejam
valores supostamente positivos que aparecem projetados sobre o corpo negro nesses casos
(força, poder, vitalidade, virilidade), as imagens produzidas reafirmam as adscrições raciais,
na medida em que, de alguma maneira, associam traços fenotípicos com propriedades e
capacidades inatas. No lugar de diferenças articuladas e negociadas, tem-se aqui atributos que
são fixos, fixados, dado não pertencerem à órbita da cultura, mas da biologia. É como se a

desestorização da pertença à diáspora. Nesses casos, o corpo negro é, ele mesmo, festejado como portador de
uma identidade incorruptível e colocada acima dos processos de decodificação cultural. Um outro aspecto de
central importância tratado pelo autor nesses trabalhos, mas que não será aprofundado aqui, é o advento de um
conjunto de tecnologias de investigação e mutação do corpo que fazem com que a chamada raciologia, ancorada
nas marcas corporais visíveis e mensuráveis, perca sua base de apoio. A informação que interessa à ciência hoje
não está mais na parte exterior do corpo - na cor da pele ou no formato do crânio ou dos lábios - mas em seu
interior: dentro dos órgãos ou no código genético.
exclusão dos negros da esfera pública burguesa, antes determinada pela invisibilização,
continuasse agora pela híper-visibilidade. O corpo negro, antes ocultado, é agora exposto
como diferença irredutível. Contudo, esse corpo que agora se expõe pouco tem a ver com o
sujeito que se articulou no bojo da resistência à marginalização e à invibilização. Trata-se de
um corpo esvaziado de seu conteúdo histórico e de seu apelo subversivo ou contestatório, ele
tem apenas uma existência visual e sensorial, é uma combinação arbitrária de cor, forma e
movimento.

Contextos transnacionais de ação

Já se acumulou, nos últimos anos, um conjunto razoável de categorias que buscam responder
ao desafio de prestar-se ao estudo de processos sociais que não podem ser circunscritos ao
âmbito do Estado-Nação, unidade analítica por excelência das ciências sociais modernas.
Algumas categorias buscam descrever a dinâmica da transformação global, outras, identificar
e nomear sujeitos, figuras e estrututras que vêm se condensando e que não podem ser
subsumidas às fronteiras de um único Estado-Nação. Cosmopolitização (Beck 2004)
globalização da reflexividade (Giddens 1990, Domingues 2002) ou hibridização (Pieterse
2004) constituem exemplos de categorias do primeiro tipo. Sociedade mundial de cidadãos
(Habermas 2004), sociedade mundial de riscos (Beck 1997) ou diáspora são categorias do
segundo tipo.
As categorias de primeiro tipo apresentam um defeito congênito irreparável: buscam
reduzir o amplo espectro de transformações reunidas sob a rubrica globalização a uma única
dinâmica ou movimento. Ou seja, mesmo que enfatizem o caráter não linear das
transformações em curso, tanto Beck, quanto Giddens ou Pieterse parecem acreditar que,
respectivamente, cosmopolitização, reflexivização e hibridização expressam e resumem o
grosso dos processos abrangidos pela globalização e indicam, de modo satisfatório, a direção
que a transformação global vem seguindo. O que se quer sugerir é que as transformações
presentes são de uma multiplicidade radical e qualquer tentativa de descrevê-las, através de
uma categoria única, mesmo que abstrata e flexível, seleciona, arbtirariamente, algumas
dinâmicas, deixando a descoberto outros movimentos igualmente relevantes. Por isso, não se
deve buscar procurar um eixo principal de transformação, em torno do qual orbitariam todas
as demais dinâmicas. Há que se conviver com a impossibilidade de hierarquizar as
transformações em curso e aceitar seu caráter diverso, plural e fragmentário. Do ponto de
vista analítico, isso não significa naturalmente a capitulação diante da complexidade da
globalização, implica, contudo, renunciar à tentação reducionista de fundir várias dinâmicas
numa única categoria. Na verdade, são necessárias várias categorias para explicar processos
que são múltiplos e não assimiláveis uns aos outros.
Entre algumas das categorias que buscam descrever novas estruturas transnacionais
que vem se formando, verifica-se o mesmo vício metodológico de apresentar figuras que são
parciais e pontuais como se fossem resultado de um movimento convergente e totalizante.
Assim, quando Habermas se refere a um espaço público europeu ou a uma sociedade mundial
de cidadãos – para outros autores sociedade civil global (vide Costa 2003) ou Beck aventa a
sociedade mundial de riscos somos levados a acreditar que a globalização, em sua completa
abrangência, é um movimento que desemboca na formação, no âmbito mundial (ou supra-
regional, como na discussão sobre a Europa), de equivalentes funcionais para sujeitos e
estruturas existentes no plano nacional (Costa 2003, 2004a). Esquece-se aqui o caráter
radicalmente decentrado da globalização.
Em contrapartida, a idéia de diáspora (africana), na forma como a desenvolve Gilroy
parece-me mais condizente com o caráter múltiplo das estruturas que vem se desenvolvendo.
Com efeito, se se compara o conceito desenvolvido por Gilroy, às idéias de sociedade
mundial de cidadãos ou sociedade mundial de riscos, percebe-se que a idéia de diáspora
africana tem a vantagem, por razões óbvias, de evitar a totalidade, além de levar a sério as
tensões entre as dinâmicas nacionais e transnacionais. Explico-me.
Conceitos como sociedade mundial de cidadãos e sociedade mundial de riscos são
construídos como dedução de processos observados no contexto de sociedades nacionais
particulares. Entende-se que a globalização leva (ou deve levar) a que determinadas formas de
organização civil e padrões de sociabilidade próprias das sociedades de industrialização
pioneira no chamado Atlântico Norte se expandam não só geograficamente, quanto pelo
conjunto da topografia social em todas as regiões. Ambos conceitos padecem de um déficit
histórico e historiográfico evidente: supõe-se, por comparação com a trajetória das sociedades
civis ou das sociedades de risco nacionais, que a multiplicação de situações-problema pós-
nacionais gera mecanismos de organização ou de percepção e tematização de riscos em escala
mundial. As tensões entre as sociedades civis ou de risco no âmbito nacional e mundial são
igualmente ignoradas. Os dois níveis – nacional e global - são tratados como complementares
e análogos, sem que se busque fundamentar empiricamente tal percepção. Isto é, imagina-se
que a sociedade mundial de cidadãos e a sociedade mundial de risco são extensões de seus
similares nacionais: apresentam, portanto, as mesmas características morfológicas e cumprem
funções normativas semelhantes àquelas desempenhadas pelos correlatos nacionais.
Ademais remetem à totalidade da sociedade mundial, enquanto tratam, na verdade, de
um fragmento desta. A diásporas negra, judáica, os “espaços sociais transnacionais” 6
formados no âmbito dos movimentos migratórios, a sociedade mundial de riscos, ou a
sociedade mundial de cidadãos constituem exemplos do que gostaria aqui de chamar de
contextos transnacionais de ação. A emergência dos contextos transnacionais de ação coloca
desafios teóricos novos, alguns dos quais são tratados a seguir.

Contextos transnacionais de ação: dinâmica e morfologia

Os contextos transnacionais de ação não tem nem uma territorialidade nem uma
temporalidade definida: podem ser tanto articulações ad hoc como estruturas duradouras. Os
diversos contextos transnacionais de ação apresentam como elemento comum o fato de que,
em seu âmbito, as referências nacionais aparecem ou diluídas ou deslocadas de seu contexto
territorial de origem. Tal não implica, necessariamente, uma postura crítica em relação à
nação e ao nacionalismo. As diásporas de imigrantes contróem seus vínculos de solidariedade
e pertença, não raro, sobre o festejamento da pátria de origem. Em outros casos, contextos
transnacionais de ação importantes podem surgir em torno da defesa da soberania de um
Estado-Nação particular, como foi o caso do movimento de solidariedade à idependência do
Timor-Leste (vide Almeida 2002). Não obstante, em ambos os casos se verifica o
desacoplamento entre a manifestação nacional(ista) e o território do Estado-Nação referido.
Na situação mais comum, os contextos transnacionais de ação não se constituem através de
referências nacionais, mas de temas, estratégias de ação e objetivos que não podem ser
circunscritos a um Estado-Nação particular.
Os contextos transnacionais de ação abrangem atores, estruturas de ação e discursos.
No que concerne aos discursos cabe destacar o papel de conceitos polissêmicos, muitos deles
de cunhagem recente, os quais funcionam como catalizadores da busca do traço comum e dos

6
) Tal conceito foi cunhado por Pries (1996, 2001) no âmbito de suas investigações sobre as migrações de
trabalhadores mexicanos para os EUA. Segundo o autor: „Os espaços sociais transnacionais são entendidos
como novos ‚contextos sociais de interpenetração’ (Elias). Tais contextos são espacial-geograficamente difusos e
‚de-localizados’ e constituem, simultaneamente, um espaço social transitório que representa tanto uma
importante estrutura de referências para posições e posicionamentos sociais quanto define a práxis de vida
cotidiana, os projetos biográficos-(profissionais) e as identidades das pessoas, para além do contexto das
sociedades nacionais“ (Pries 1996:467). Tal definição mostra que os „espaços sociais transnacionais“
identificados por Pries representam um tipo específico dos contextos de ação transnacional, conforme
concebidos aqui.
interesses e objetivos partilháveis. Termos como empowerment (Alvarez 1998),
desenvolvimento sustentável (Nobre 1997) ou cidadania (Vieira 2001) constituem referentes
difusos que podem ser decodificados e reinterpretados indefinidamente, permitindo a
articulação de sujeitos a partir de situações originais, muitas vezes, pouco conciliáveis e
partindo-se de possibilidades de entendimento comunicativo adversas – como no o caso, por
exemplo, em que falta aos interlocutores um idioma comum para se comunicarem. No interior
dos espaços de ação transnacionais, as assimetrias de poder pré-existentes não são obviamente
suspensas. Elas se fazem presentes na definição dos repertórios e nas estruturas de ação, na
medida em que se pode, através do controle dos mecanismos de financiamento ou de
organização das ações, influenciar a agenda e a dinâmica dos contextos transnacionais de
ação.
Os contextos transnacionais de ação coexistem e se articulam com os espaços
nacionais. Estes nexos ficam explícitos nos casos das redes transnacionais de movimentos
sociais, em torno das quais mobilizam-se grupos diversos, promovendo bandeiras como a
igualdade de gênero, a proteção ambiental ou o respeito aos direitos humanos. Tais
articulações colocam uma questão fundamental para a política contemporânea, qual seja, o
tema da legitimação. Afinal, os contextos transnacionais de ação constituem instâncias de
formação da opinião e da vontade política sobre temas que, em geral, só podem ser objeto de
decisões vinculantes em contextos nacionais particulares. Estas tensões entre os processos
nacionais de legitimação de decisões e a formação da opinião e da vontade nos contextos de
ação transnacional são tratadas a seguir.

Contextos transnacionais de ação e a questão da legitimação

As soluções que vêm sendo apontadas, no âmbito da teoria democrática para as


dessincronias entre os processos de formação política e da opinião que têm lugar nos
contextos transnacionais de ação e os mecanismos predominantemente nacionais de formação
da opinião da vontade vêm seguindo, em geral dois caminhos. Quando se trata da integração
pós-nacional, no interior da Europa, a sugestão é que a Europa se transforme, toda ela, numa
grande nação, unida em torno de uma única esfera pública, de sorte que seja recosturada a
coincidência, vale dizer, a superposição, entre os espaços de formação de opinião e os de
implementação das decisões. Nesse caso, ficaria reestabelecida a possibilidade da plena
soberania popular orientada pelo princípio da auto-legislação, de tal modo que as regras e
políticas presentes na vida comum sejam sempre definidas diretamente pelas populações
atingidas (vide, por exemplo, Habermas 1998, 2001).
No contexto mundial, em contrapartida, a idéia de que se possa chegar a uma
soberania popular mundial é abandonada. Em seu lugar, tem-se evocado, em geral, a idéia de
uma sociedade civil mundial como fonte de legitimação dos parâmetros mínimos para a
convivência intercultural. Incluem-se aqui, fundamentalmente, os direitos humanos que
devem prevalecer mesmo naqueles contextos nacionais em que a livre formação da opinião e
da vontade não está garantida (ver, por exemplo, Vieira 2001, Beck 2004, Held 1996,
Brunkhorst 2002).
Não obstante, a integração na Europa não vem convergindo para a formação de uma
esfera pública européia. Em lugar dela, vê-se emergir contextos comunicativos variados,
orientados por temas específicos e que não se comunicam entre si (Costa 2004a). No âmbito
mundial, a sociedade civil global constitui, também, apenas um entre muitos contextos de
ação transnacional, além de reproduzir as assimetrias entre as diferentes sociedades nacionais.
Evocá-la, como antecipação de uma situação cosmopolita que se quer construir, seria projetar
para o futuro não um mundo regido pela legitimidade do poder constituído
comunicativamente, mas a atual constelação de poder vigente na política mundial (vide Costa
2003).
Gostaria de sugerir, em consonância com as dinâmicas que vêm sendo efetivamente
observadas na política mundial, que a questão da legitimação imposta pela emergência dos
contextos transnacionais de ação seja solucionada de outro modo. A rigor, quando os atores
envolvidos nos contextos transnacionais de ação provêm de estados-nação democráticos, nos
quais existem mecanismos regulares de formação da opinião e da vontade, o problema da
legitimação não se coloca. Afinal, conforme pode-se observar, paradigmaticamente, nas redes
transnacionais de movimentos sociais, são acionados, nesses casos, mecanismos de
comunicação, mediação e tradução entre os contextos nacionais e transnacionais de ação. Isto
é, discutidas por um grupo restrito de ativistas, é através das estruturas das esferas públicas
nacionais que as questões tratadas nos contextos transnacionais de ação ganham repercussão.
Assim, quando por ocasião, por exemplo, de uma conferência de cúpula, determinados temas
entram simultaneamente nas agendas de diferentes esferas públicas nacionais, o que se
verifica não é um intercâmbio comunicativo entre as populações das diferentes regiões. Há,
nesses casos, uma troca de informações e experiências entre um conjunto reduzido de ativistas
políticos que se incumbem então de fazer com que os temas discutidos com os cooperantes de
diferentes países circulem nas respectivas esferas públicas nacionais. A forma, contudo, como
tais temas são discutidos internamente em cada país segue uma dinâmica própria, definida por
fatores nacionais, como o poder dos atores sociais responsáveis pela difusão do issue, o grau
de integração internacional da mídia nacional, o interesse do governo nacional em incorporar
o tema em questão a sua agenda, entre outros (Costa 2002).
O problema da legitimação surge, efetivamente, quando se trata de estados-nação, nos
quais não há mecanismos democráticos de formação da opinião e da vontade. Nesses casos, as
experiências recentes das chamadas guerras humanitárias parecem suficientes para mostrar
que o apelo moral aos anseios de uma sociedade civil mundial ou a aspirações cosmopolitas
servem sempre para ocultar interesses particulares e nacionais. Nesses casos, parece-me que, a
despeito de seu caráter ainda incipiente e falível, a única instância que pode legitimar
intervenções concretas no âmbito das fronteiras de Estados soberanos, ainda que não
democráticos, é o direito internacional positivo. Isto é, se não se quer que sempre prevaleçam
os interesses dos Estados mais poderosos, a discussão tem de se deslocar do nível da
legitimidade para o da legalidade: legítimas são apenas aquelas ações que, nos termos do
direito internacional, são legais (vide Brunkhorst 2005).
Há que se analisar, ainda, uma outra dimensão do problema da legitimação que surge
com a multiplicação dos contextos transnacionais de ação. Trata-se aqui da complexa relação
entre política e cultura.
No âmbito nacional, as relações entre cultura e política são, de algum modo, mediadas
pela presença da sociedade civil e da esfera pública (nacionais).
Com efeito, a sociedade civil, no âmbito nacional, conforma o contexto na topografia
social marcado por uma comunicação voltada para o entendimento e por relações de
cooperação e solidariedade. Como dimensão institucional do mundo da vida, as organizações
da sociedade civil representam, no âmbito nacional, de um lado, estruturas de reprodução
cultural que permitem que o acervo de valores e tradições seja recriado de forma sempre
renovada. Do ponto de vista político, as organizações da sociedade civil permitem que
determinadas concepções de justiça adquiram formato e conteúdo políticos e fluam, através da
esfera pública, para dentro do processo de formação da opinião e da vontade políticas.
Nos termos de uma teoria comunicativa do poder e da democracia, é essa articulação
entre cultura e política, vale dizer entre determinadas formas de vida e as concepções de
justiça nelas assente que dá sentido e legitimidade à ação política dos atores da sociedade
civil. Ademais, as pretensões de validade contidas nas reivindicações das organizações da
sociedade civil necessitam ser submetidas ao crivo da esfera pública, antes que possam
adquirir a forma de políticas concretas ou regras reguladoras da vida coletiva. Ou seja, as
organizações da sociedade civil não possuem uma legitimidade imanente, é no contexto dos
intercâmbios discursivos próprios ao processo de formação da opinião e da vontade que as
organizações da sociedade civil podem colocar à prova a universalidade de seus argumentos,
mostrando a relevância para o conjunto da sociedade de seus pleitos.
A pergunta que se coloca é precisamente sobre a forma como se dá a articulação entre
política e cultura, no caso dos contextos transnacionais de ação, visto não existir, nesse plano,
as instâncias medidadoras esfera pública e sociedade civil. A solução geralmente apontada
para tal problema é tomar o “ocidente”, como berço de certas conquistas universais (como o
Estado de direito e os direitos humanos e supor que tais parâmetros per se legítimos podem
ser expandidos para o resto do mundo - ver, por exemplo, Habermas 1998). Nesse caso,
entende-se que a modernização impõe às „demais regiões“ do mundo os desafios culturais da
secularização e da indidualização, repetindo o processo vivido pela Europa, a seu „devido
tempo“. Dessa forma, a mediação entre formas culturais de vida e aspirações de justiça se
desloca dos processos de formação da opinião e da vontade para uma teleologia da
modernidade, como se determinado estágio de desenvolvimento da modernidade
correspondesse ineroxavelmente a um certo nível de secularização e individualização, ao qual
estariam associadas, por sua vez, determinadas concepções de justiça7.
Ora, a multiplicidade de rotas para a modernidade seguidas pelas diferentes sociedades
nacionais e regionais particulares e o caráter interdependente como se desenvolveu a
modernidade nas diversas partes desautorizam qualquer tipo de superposição entre escalas de
desenvolvimento material, formas de vida e aspirações de justiça.
O desafio analítico que se coloca é precisamente o de desvendar as formas de
mediação entre os contextos transnacionais de ação e a multiplicidade de formas de vida nos
diversos contextos locais e regionais. Tal implica entender, por exemplo, como aspirações por
justiça de gênero ou étnica formuladas nas mobilizações transnacionais dos movimentos
feministas ou indígena concectam-se com as formas de vida específicas nas diversas regiões.
Há aqui, certamente, uma pressão para que experiências regionais bem-sucedidas de
concretização de determinadas aspirações de justiça, tidas como bem sucedidas, sejam
reproduzidas nas demais regiões, sobretudo quando tais experiências foram vividas naquelas
regiões mais ricas e de maior poder de influência dentro dos contextos transnacionais de
ação 8 . A despeito de tais pressões, o que se observa, contudo, é que os contextos
transnacionais de ação não funcionam como correias de transmissão para a simples
transposição de formas concretas de vida de uma região a outra, mas como contextos de
negociação e rearticulação de diferenças. Tal significa que as reivindicações por justiça que
circulam nos contextos transnacionais de ação são, por assim dizer, ao longo de sua
tematização, desenraizadas dos contextos culturais concretos em que emergem. Nessa forma
abstrata, se disseminam, através dos ativistas, das organizações locais e dos meios de
comunicação, às sociedades nacionais e contextos locais. É nessas arenas que tais
reivindicações são, por assim dizer, interpeladas em sua aspiração de universalidade,
induzindo, localmente, processos de inovação cultural e social.

Conclusões

7
Mesmo que não tenham como foco principal o tema da legitimação, a aposta de Giddens e Beck na expansão
global da reflexividade traz implícita a suposição de uma escala evolutiva da modernidade, na qual base
material-tecnológica (capitalismo pós-industrial), formas de vida (o self reflexivo) e aspirações políticas
(liberdade e democracia) necessariamente se superpõem e se desenvolvem, centrifugalmente, a partir de seu
núcleo ocidental (Costa 2004b).
8
Um exemplo agudo de tais pressões é oferecido pelas discussões atuais em torno da implementação de políticas
anti-racistas no Brasil. Nos debates, ficam evidentes as assimetrias de poder entre o movimento anti-racista
brasileiro e norte-americano e a tendência a adotar as soluções adotadas nos Estados Unidos, desconsiderando-se
diferenças culturais profundas nas relações entre os grupos de cor dos dois países. Ao longo dos processos de sua
discussão e implementação, tais políticas vêm sendo, contudo, ajustadas ao contexto cultural brasileiro.
São variadas as lições legadas pelos estudos sobre o Atlântico Negro para as ciências sociais,
no momento em que estas buscam se pós-nacionalizar, acompanhando seu objeto de estudo
em sua “transgressão” das fronteiras nacionais.
Trata-se em primeiro lugar, de destacar o caráter múltiplo e fragmentário das
dinâmicas contemporâneas. Isto é, a idéia de diáspora e, mais particularmente, diáspora
africana ou negra não se postula é uma categoria auto-limitada, a qual não busca esgotar e
explicar todo o conjunto variado de dinâmicas de integração transnacional. A diáspora é
expressiva da experiência de um grupo particular que tem uma história específica. Não é
fenômeno que nasce com a globalização recente, mas que remonta ao tráfico negreiro e que
acompanha como sombra toda a história moderna.
A pluralidade dos processos em curso impõe que as categorias para uma teoria social
pós-nacional sejam utilizados com a mesma parcimônia e prudência metodológica com que se
usa o conceito de diáspora. Isto significa reconhecer que, de fato, há um conjunto variado de
dinâmicas em curso, que não podem ser reduzidas a um movimento único, como sugerem
conceitos como cosmopolitização, reflexivização ou mesmo hibridação. Por outro lado, cabe
tomar os atores que atuam transnacionalmente e que reivindicam para si o título, por exemplo,
de sociedade civil global, não por sua auto-representação. Trata-se de um contexto de ação
particular e não de um sujeito representativo das demandas civis globais. Da mesma forma,
por exemplo, a sociedade mundial de riscos, constituída por aquele conjunto de estruturas e
atores que percebe e tematiza transnacionalmente as ameaças globais, constitui um outro
contexto de ação particular. O fato de que s atores aqui referidos atribuam a si a tarefa de
delegados de uma causa supostamente global não muda o dado empírico de que o interesse,
por exemplo, por riscos, por direitos humanos ou pela equidade de gênero é particular e não
um tema que mobiliza toda a sociedade mundial. A rigor, os termos sociedade mundial de
riscos ou sociedade civil global confundem, na medida em que sugerem uma referência ao
conjunto da sociedade mundial, enquanto na verdade constituem uma rede de comunicação
específica ou no melhor dos casos, uma rede de redes específicas. Os atributos mundial e
global cumprem, contudo, objetivos claros no contexto dos discursos políticos e teóricos em
que aparecem: são parte do processo de constituição e auto-legitimação das redes particulares
que se valem de tais atributos.
Uma outra lição que a sociologia do Atlântico Negro deixa diz respeito à “articulação”
entre dinâmicas locais e globais. Com efeito, na forma como o estuda Gilroy, o Atlântico
Negro não se refere a qualquer unidade homogênea. Mesmo que o autor identifique um
conjunto de tendências gerais que marcam a “cultura negra” e a política da diáspora, as
conformações locais do Atlântico Negro são sempre diversas e plurais. Em cada contexto
particular, a “diferença” que não está assente na cor negra da pele, mas na resistência ao lugar
subordinado que a história e as sociedade modernas impuseram aos negros, adquire novas
formas de expressão. Trata-se de uma relação dupla entre o Atlântico Negro e a experiência
nacional moderna: ao mesmo tempo compartilhamento e crítica, confiança e dúvida. Esta
tensão irredutível entre as dimensões nacional e transnacional parece ser própria não apenas
ao espaço de ação do Atlântico Negro, é recorrente em vários outros contextos transnacionais
de ação.
Por último, cabe a referência ao lugar do corpo nas articulações políticas do Atlântico
Negro. Conforme mostrou Gilroy, a política da diáspora negra, sempre envolveu dança,
performance e a apresentação do corpo como meio de sua expressão, uma vez que o negro
encontrava-se, de saída, excluído da esfera pública dialógica, fundada no inercâmbio de
argumentos. Tal impõe romper a falsa antinomia entre discurso e performance, ética e
estética. De alguma maneira, os novos contextos transnacionais de ação são igualmente
marcados por essa fusão das dimensões discursivas e simbólicas da política, de resto
generalizada. Aqui, o gesto dramático da jovem manifestante que se acorrenta a uma árvore
que não quer ver derrubada pode ter o mesmo apelo para a formação da opinião e da vontade
públicas que um longo arroazoado do Greenpeace sobre a importância da preservação das
matas tropicais.

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