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SÍNTESE 1 - Raul Santos

No quinto e último capítulo da tese “Programas projetivos: Uma visão panorâmica


dos gregos aos modernos, suas características, princípios e fundamentos”, é
apresentada a ideia de que a racionalidade, apesar de estar por trás da execução
de todo objeto projetivo, está longe de ser algo universal e atemporal. O que se
verifica é uma série de fatores, expressos em um dado contexto histórico e cultural,
que são amarrados em uma determinada racionalidade que ganha consistência em
seu tempo, podendo vir também a desvanecer com a emergência de novos
contextos e consequentemente de uma nova racionalidade que se sobrepõe.
É por esse motivo, que os recortes historiográficos foram tomados como base para
identificar uma racionalidade vigente em cada período analisado, conformando cinco
categorias de racionalidade: a racionalidade harmônica grega, a razão eficiente
romana, a razão celestial medieval, a razão antropocêntrica renascentista e a razão
científica moderna.
Para a primeira delas, a ideia central é a da harmonia, “que se fez expressar nas
proporcionalidades matemáticas, nas relações de hierarquia, simetria, equivalência,
complementaridade, interdependência, reciprocidade, entre outras características.”
A segunda, a razão eficiente romana, surge a partir da expansão do império romano
e das novas demandas de infraestrutura e, também, da necessidade de se
expressar a grandiosidade desse império em suas construções. Tudo isso faz com
que, apesar de compartilhar vários elementos simbólicos com as ordens gregas, a
arquitetura romana encontre nos amplos avanços técnicos o ponto chave de suas
contribuições.
A próxima categoria apresentada também se consolida a partir de inovações
técnicas que viriam a buscar a expressão da devoção medieval na catedral gótica.
O saber construtivo foi fruto da organização monasterial do conhecimento pela
Igreja Católica e também da organização do trabalho nas guildas e corporações de
ofício, que se articularam para expressar na catedral a razão divina.
A razão antropocêntrica renascentista é apresentada como órfã de uma
manifestação construtiva que conseguisse expressar os princípios da racionalidade
de seu tempo, originando uma arquitetura anacrônica e despropositada. “O claro
descompasso entre a razão antropocêntrica e sua representação nos objetos
projetivos renascentistas visível no uso do repertório insistentemente neoclássico só
pode ser explicado nos termos da lentidão com que a razão científica se movia entre
as técnicas construtivas para apresentar seus novos sistemas tecnológicos
construtivos.”
Quanto a esses argumentos, considero que a releitura do repertório clássico no
Renascimento, não se dá por mero conservadorismo estético, ou por lentidão na
inovação técnica. Encontra-se no repertório clássico, articulado com clareza por
meio da organização geométrica das fachadas e espaços, da escala mais próxima
do humano, dos regimes de proporções e dos valores cívicos, a manifestação de
um Universo mapeável, mensurável, e reconhecível pelo homem renascentista e
portanto, expressão estética de uma racionalidade contemporânea àquelas
pessoas, tanto quanto nos outros períodos apresentados.
Por último, o período da razão científica moderna é apresentado como aquele onde
as transformações iniciadas no Renascimento, atribuindo cada vez maior autonomia
ao ser humano frente ao divino e à natureza, vão encontrar uma expressão estética
e tectônica também transformadas. A simplificação das formas e dos acabamentos,
é tratada muito mais como fruto das transformações produtivas, que tornaram
economicamente inviáveis os ornamentos e a produção manufatureira, do que como
um desdobramento da racionalidade científica.
A passagem por esses diferentes contextos históricos, tem como intenção mostrar
que “essa amálgama de características éticas profundas, complexas e dispersas por
todos os campos de cada comunidade histórica sofre é apropriada pelos projetistas
de forma natural, imediata – sem mediação.” A isso é acrescido que “a grande
totalidade dos projetistas da cultura ocidental não se veja, não se perceba, não se
examine, não se pense em seus respectivos contextos de modo que seus objetos
projetivos deixem de se apresentar como meros reprodutores acríticos dessas
grandes linhas.”
Entendo daí que os programas projetivos não registram as discussões que levaram
à tomada de cada decisão, fazendo com que várias edificações se tornem
simplesmente efeito de várias condicionantes que incidem sobre o momento do
projeto, sem que haja um posicionamento crítico que reordene e possa oferecer
resposta às tensões do presente. O programa projetivo poderia vir a ser uma forma
de registro das várias intersecções entre um projeto e as questões de seu tempo
que ele visa articular, contrapor, ou manifestar. O fato de projetistas simplesmente
colocarem suas obras no mundo, priva esse processo das discussões e da crítica
que poderia gerar soluções mais adequadas e complexas.