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Relações Governamentais no Brasil: novas tendências

Article · July 2019

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Andrea Gozetto
Fundação Getulio Vargas
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Relações Governamentais
no Brasil: novas tendências
Andréa Cristina Oliveira Gozetto
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Doutora em Ciências Sociais
pela Unicamp e mestre em
Sociologia Política pela
Unesp-Araraquara,
pós-doutorada em
Administração Pública
e Governo na Escola
de Administração de
Empresas de São Paulo,
da Fundação Getulio
Vargas. É coordenadora
acadêmica executiva do
MBA em Economia e Gestão
– Relações Governamentais
e do curso Advocacy e
Políticas Públicas: Teoria
e Prática, do Programa de
Educação Continuada (PEC)
da Fundação Getulio Vargas.
Introdução

c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s
a área de Relações Governamentais tem apresentado um crescimento
exponencial na última década. A deflagração da Operação Lava Jato, em
2014, foi bastante impactante para esse crescimento, pois, ao desvendar uma
intrincada rede de corrupção envolvendo empreiteiras, funcionários da Pe-
trobras, operadores financeiros e agentes políticos1, incentivou os atores que
empreendem esforços para influenciar as decisões governamentais de forma
lícita a profissionalizar ainda mais sua atuação. Afinal, as relações entre os se-
tores público e privado estavam definitivamente sob suspeita e a legalidade
e a legitimidade da área de Relações Institucionais e Governamentais passa-
ram a ser questionadas duramente pela opinião púbica.
No entanto, uma série de iniciativas muito benéficas já estava em cur-
so, como, por exemplo, as Conferências Aberje. Tendo início em 2013, tais
conferências propiciaram um importante espaço de interlocução em que
os participantes discutiram os desafios enfrentados em meio ao turbilhão
fomentado pelas investigações da Operação Lava Jato, compartilharam ca-
sos de sucesso e de fracasso e, sobretudo, refletiram sobre a necessidade de
qualificar-se e capacitar-se cada vez mais para o exercício da atividade. Aten-
tos a essa tendência, Insper e Aberje lançaram cursos de curta duração es-
pecialmente voltados ao tema e produziram conhecimento extremamente
relevante para nortear as discussões acerca das relações entre atores estatais
e não estatais.
Em um movimento extremamente oportuno, os profissionais da área
revitalizaram a Abrig (Associação Brasileira de Relações Institucionais e
1 Para mais informações, consultar: http://www.mpf.mp.br/para-o-cidadao/caso-lava-jato/
entenda-o-caso. Acessado em: 17/08/2018.

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Governamentais) e criaram o IRELGOV (Instituto de Relações Governa-
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s mentais). Essas organizações têm gerado conhecimento, debatido os desa-
fios enfrentados e levado ao Poder Legislativo seus pontos de vista quanto à
regulamentação da atividade de lobby.
A produção de conhecimento gerada por Aberje, Abrig e IREL-
GOV somou-se a uma série de estudos acadêmicos que após 2014 to-
maram vulto. Sendo assim, o que se vê é o desenvolvimento de um novo
campo de estudos multidisciplinar que tem sido capaz de trazer luz ao
processo decisório estatal, apresentar as ações dos grupos de interesse e
destacar os esforços deliberados que realizam para influenciar o ciclo de
políticas públicas, explicitando assim os principais métodos e técnicas
para a defesa de interesses no Brasil (GOZETTO & THOMAS, 2014 e
2017; NAVARRO, 2015; SANTOS & CUNHA, 2015; BAIRD, 2016;
BELMAR, 2016; CESÁRIO, 2016; GALVÃO, 2016; MANCUSO ET
AL., 2016; ENOMOTO, 2017; PELLINI, 2017; SANTOS ET AL.,
2017; FRASSÃO, 2017; FACCI, 2017; FERRAZ & GALVÃO, 2017;
MANCUSO & GOZETTO, 2018; SELIGMAN & MELLO, 2018;
SANTOS, 2018; GOZETTO, 2018).

Neste artigo, apresenta-se a importância das relações institucionais e


governamentais para a sustentabilidade dos negócios, definem-se conceitos
e indicam-se novas tendências para a área.

1. Relações Governamentais e seu impacto para a sustentabilidade dos


negócios
A política econômica, tributária, previdenciária, ambiental, energética,
externa, comercial, agrária, urbana, cultural, de ciência e tecnologia, de in-
fraestrutura, de saúde, de educação, de proteção social etc. impacta sobre-
maneira o ambiente de negócios sob o qual operam as empresas privadas.

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Esses fatores, que a literatura designa como sistêmicos2 são ainda mais im-
pactantes devido ao grau de regulação que o Estado brasileiro exerce sobre
a sociedade civil e o mercado. Dessa forma, os empresários estão sempre às
voltas com os seguintes questionamentos: como manter-se competitivo em
um ambiente de negócios pouco favorável? É legítimo empreender esforços
com vistas a auxiliar os tomadores de decisão a construir um ambiente de
negócios cada vez mais adequado ao desenvolvimento econômico do país?
Se tais esforços são legítimos, como influenciar o processo decisório estatal
com o intuito de gerar vantagem competitiva e, ao mesmo tempo, respeitar
os princípios éticos e os valores republicanos?
As respostas a esses questionamentos não são triviais. No entanto, um
primeiro passo importante é ter em mente que, em ambiente democrático,
todos os atores sociais, o que inclui empresas privadas e suas entidades repre-
sentativas, podem e devem participar do processo decisório que envolve a de-
finição da agenda, a formulação, a implementação e a avaliação das políticas
públicas. Esse direito está expresso na Constituição Federal de 1988, tanto em
seu artigo 1º, parágrafo único, quanto em diversos incisos do parágrafo 5º3.
A participação política é um direito, e como tal se constitui como
um elemento essencial da democracia. Sendo assim, é crucial que a
interface entre governo, cidadãos, empresas privadas e organizações
da sociedade civil seja intensificada, pois a construção de um canal de

2 WOOD & CALDAS (2007) definem competitividade como a capacidade de um sistema –


país, setor industrial, grupo de empresas ou uma empresa específica – de atuar com sucesso em
um dado contexto de negócios. O desempenho competitivo de um sistema é condicionado por
três conjuntos de fatores: sistêmicos, estruturais e empresariais.
3 O artigo 5º da CF de 1988 assegura aos cidadãos brasileiros: os direitos de liberdade de mani-
festação de pensamento, reunião e associação para fins lícitos (incisos IV, XVI e XVII); expres-
são da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação (inciso IX); acesso à informa-
ção pública de interesse particular, coletivo ou geral (inciso XXXIII) e de petição aos poderes
públicos, em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder (inciso XXXIV, alínea
a) (MANCUSO & GOZETTO, 2011).

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comunicação com o governo pode contribuir para que decisões melhor
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s informadas sejam tomadas. Como essas decisões são de responsabilidade
dos órgãos que compõem os três poderes do Estado – Legislativo, Execu-
tivo e Judiciário –, tanto em âmbito nacional quanto em subnacional (es-
tadual ou local), para influenciar o processo decisório deve-se ao menos
acompanhar as ações do governo.
Tal acompanhamento é importante, mas não suficiente quando se pre-
tende gerar impacto. Para isso, é necessário ir mais longe e pensar a longo
prazo, uma vez que:
“...É preciso, sobretudo, erigir uma relação de confiança mútua
com o governo, sedimentando um canal de comunicação de mão
dupla com seus representantes legítimos, elaborando, assim, uma
estratégia de relações governamentais” (GOZETTO, 2018:38).

Para isso, é propício elaborar um plano de ação de defesa de interesses


no qual se leve em consideração o alinhamento da estratégia de negócios e
a estratégia de relações governamentais da organização. Esse cuidado é rele-
vante para que se consiga transformar as informações geradas pelo acompa-
nhamento das ações do governo em vantagem competitiva, ao identificar
oportunidades e antecipar riscos aos negócios.
Do ponto de vista normativo, quanto maior for o número de empre-
sas privadas, associações setoriais corporativistas e não corporativistas, mo-
vimentos sociais, ONGs, sindicatos etc. dialogando com o governo, mais
equilibrado, aberto e transparente o jogo democrático será.
Mas há um desafio que não pode ser esquecido. O lobby, um dos ele-
mentos-chave das relações governamentais, possui um estigma de margi-
nalidade muito forte, o que impacta sobremaneira a forma como a opinião
pública e os tomadores de decisão enxergam a ação de defesa de interesses
das empresas privadas e de suas entidades representativas.

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O arrefecimento desse estigma é possível desde que haja uma dissocia-
ção sistemática por parte dos profissionais de relações governamentais, da
mídia e da academia entre a atividade de lobby e atividades ilícitas como cor-
rupção e tráfico de influência. Cabe aos profissionais levar ao conhecimento
da opinião pública casos de sucesso e disseminar boas práticas de lobby.
Os acadêmicos, como já visto anteriormente, têm dado sua contribui-
ção trazendo maior rigor conceitual ao debate e desvendando as estratégias
e táticas empregadas pelos grupos de interesse. Assim, conceituar lobby
como defesa de interesses junto a membros do poder público que podem
tomar decisões referentes às políticas públicas (MANCUSO & GOZET-
TO, 2013) é afirmar sua neutralidade. Significa sustentar que a atividade de
lobby pode ser realizada de forma lícita ou ilícita e que, quando realizada de
forma lícita, é legal e legítima, estando presente em todo o ciclo de políticas
públicas. Rigor científico e análise isenta com certeza poderão incentivar a
construção de uma narrativa mais adequada em que o termo lobby esteja
associado a democracia e transparência, por exemplo.

2. Novas tendências: profissionalização e mudança de perfil


Em 2018, a atividade de relações institucionais e governamentais passou a
ser reconhecida como uma ocupação no mercado de trabalho pela Clas-
sificação Brasileira de Ocupações (C.B.O.). A C.B.O. é um documento
que reconhece, nomeia, codifica os títulos e descreve as características
das ocupações, organizando-as por famílias. O processo de descrição é
realizado por meio de comitês de profissionais que atuam nas famílias,
partindo da premissa de que a melhor descrição é aquela feita por quem
exerce efetivamente cada ocupação. Cada família constitui um conjunto
de ocupações similares correspondente a um domínio de trabalho mais
amplo que aquele da ocupação4. A Abrig (Associação Brasileira de Re-
4 Ver: http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/saibaMais.jsf.

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lações Institucionais e Governamentais) participou ativamente para que
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s esse reconhecimento acontecesse.
Apesar de os efeitos da C.B.O. serem meramente administrativos e
não se estenderem às relações de trabalho, ao descrever as áreas de ativida-
de da ocupação, ela a padroniza. Tal feito é fundamental para uma área na
qual diversos termos correlatos – assuntos institucionais, governamentais,
corporativos, estratégicos e externos; relações institucionais, governa-
mentais, corporativas e externas; políticas públicas – são utilizados como
sinônimos e eufemismos são comuns. Importante notar que a C.B.O. não
regulamenta a profissão nem tampouco a atividade de lobby, uma vez que
seria preciso iniciar proposições legislativas específicas para esses fins.
Esse reconhecimento vem coroar um movimento intuitivo daqueles
que exercem a atividade e que já haviam, paulatinamente, substituído o
termo lobista por profissional de relações institucionais e governamentais.
Desde fevereiro de 2018, as organizações que empregam tais profissio-
nais poderão registrá-los adequadamente. Com isso, em um futuro próxi-
mo, os dados da RAIS/CAGED (Relação Anual de Informações Sociais/
Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) serão capazes de dar
uma dimensão do tamanho da área no Brasil. Esse é um avanço importante,
já que no momento não há dados disponíveis.
Neste trabalho, apresentam-se os achados mais relevantes de alguns
estudos que sustentam com dados a crescente profissionalização da área e
procuram dimensionar seu tamanho.
Pesquisa realizada com 163 profissionais por SANTOS, RESENDE E
GALVÃO (2017) entre julho e dezembro de 2016 combinou um survey apli-
cado online, entrevistas e grupos focais com os profissionais, além de obser-
vação participante em vários eventos e atividades realizados ao longo de 2016.
Os resultados mostram que a indústria é onde se concentram 52,8%
desses profissionais, seguida do setor de serviços (20,2%). Quanto à forma-

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ção acadêmica, destaca-se a alta qualificação: 61% possuem pós-graduação
lato sensu e 22,4% possuem pós-graduação stricto sensu. Quanto à área
de formação, a diversificação é a regra, mas a formação em Direito ainda
é a mais frequente, como pesquisas anteriores já mostraram (OLIVEIRA,
2004). Segundo os autores, “essa diversificação pode ser vista como uma
evidência da profissionalização da atividade, pois indica que o mercado
de trabalho valoriza diferentes especialidades” (SANTOS, RESENDE e
GALVÃO, 2017:16).
Os resultados dessa pesquisa trazem fortes evidências que deno-
tam a crescente profissionalização da área: a) 58,6% dos entrevistados
afirmaram fazer parte do quadro de funcionários das organizações que
representam; b) 63,4% afirmaram se dedicar exclusivamente a essa ativi-
dade; c) 76,8% dos respondentes afirmaram que a atividade na empresa/
organização para a qual trabalham é profissionalizada; d) 70,6% afirma-
ram que existe um setor dedicado à atividade de relações institucionais
e governamentais em suas organizações e que esse setor está em nível
estratégico,; e) 65,9% afirmaram haver equipe especializada em políticas
públicas e governo internamente para subsidiar as atividades de relações
institucionais; e f ) 71,4% declararam que suas organizações possuem
uma equipe especializada.
Já a pesquisa de SANTOS ET AL. (2017) teve como objetivo anali-
sar os dados de um levantamento de survey realizada com assessores par-
lamentares que atuam na Câmara dos Deputados. Os autores utilizaram os
dados do cadastro da Primeira Secretaria da Câmara dos Deputados que,
para o biênio 2011-2012, contava com 179 organizações credenciadas jun-
to à Mesa Diretora da Câmara. Essas organizações foram classificadas em
quatro grupos: representantes do mundo do capital e do trabalho (52,5%),
setor público (44,1%), ONGs (2,2%) e duas organizações que não puderam
ser classificadas (1,1%).

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Os resultados desse estudo também trazem fortes evidências de pro-
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s fissionalização da área de relações institucionais e governamentais, a saber:
“praticamente a metade dos respondentes afirmou que suas orga-
nizações possuem orçamento próprio satisfatório para financiar
o trabalho de representação de interesses; 55% dos respondentes
declararam ter experiência prévia no trabalho de representação
de interesses, tendo desempenhado anteriormente essa atividade
para outras organizações; 58,3% das organizações classificaram
sua atividade de representação de interesses como “profissionali-
zada” ou “muito profissionalizada”; 67,8% dos respondentes sus-
tentaram que há, em suas organizações, uma equipe especializada
em assuntos de políticas públicas e de governo, o que proporciona
condições objetivas para o trabalho de representação de interes-
ses; 75% dos respondentes afirmaram dedicar-se exclusivamente
à atividade de representação de interesses em suas organizações;
e 85% das entidades relataram possuir, em seu organograma, um
setor dedicado exclusivamente à defesa de interesses junto aos ór-
gãos do Estado. Além disso, em média, os respondentes têm atua-
do no trabalho do lobbying há 8,4 anos (a mediana, nesse caso, é
de seis anos) (SANTOS ET AL., 2018:21)”.

Além dos expressivos resultados mostrados por essas pesquisas, a


oferta cada vez maior de cursos de capacitação e treinamento em Relações
Institucionais e Governamentais é um elemento que indica a sua crescente
profissionalização.
Uma série de instituições de ensino oferecem cursos de curta duração,
de extensão e cursos de pós-graduação lato sensu, especialmente volta-
dos aos profissionais de Relações Institucionais e Governamentais. Entre
eles, pode-se citar: Como Fazer Relações Governamentais e Institucionais

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(Aberje), Relações Governamentais no Brasil (Insper), Relações Institucio-
nais e Governamentais (ABRIG/IEL), Comunicação e Gestão de Crises
(ABRIG/Sagres), Relações Governamentais – Estratégias de Comuni-
cação com o Governo (Faculdade Cásper Líbero), MBA em Economia e
Gestão – Relações Governamentais (FGV/IDE5), MBA em Direito e Re-
lações Governamentais (UniCeub), MBA em Ciência Política – Relações
Governamentais (UDF), MBA em Relações Institucionais (Ibmec) e MBA
em Relações Institucionais e Governamentais (Mackenzie).
Diferentemente das pesquisas citadas anteriormente, a realizada por
GALVÃO & MEDEIROS (2018), em sua primeira fase, teve como obje-
tivo mensurar o tamanho da área. Utilizando-se da descrição da ocupação
contida na C.B.O.6, da definição oferecida pelo Projeto de Lei nº 1202/2007
e da literatura especializada, eles consideraram em sua amostra todos os
profissionais que atuam, de maneira remunerada ou não, no relacionamento
com os poderes públicos para defesa de interesses em políticas públicas, seja
para análise, sugestão, formulação ou fiscalização. Os autores optaram por
contemplar apenas as associações de classe e as entidades sindicais como
organizações de defesa de interesses. Para isso, somaram todas aquelas cujas
atividades incluíam organização sindical, associação de defesa de direitos
sociais e organização associativa patronal e empresarial. Importante notar
que não fazem parte da amostra profissionais que atuam em empresas priva-
das, organizações não governamentais, consultorias e organismos interna-
cionais, devido ao fato de não haver dados consistentes a ser coletados.

5 A FGV possui turmas em São Paulo, em Brasília e no Rio de Janeiro.


6 De acordo com a C.B.O., consideram-se profissionais de Relações Institucionais e Governa-
mentais aqueles que “atuam no processo de decisão política, participam da formulação de políti-
cas públicas, elaboram e estabelecem estratégias de relações governamentais, analisam os riscos
regulatórios ou normativos e defendem interesses dos representados”. Ver: http://www.mtecbo.
gov.br/cbosite/pages/pesquisas/BuscaPorTituloResultado.jsf. Acessado em 13/09/2018.

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Para operacionalizar o estudo, utilizaram duas bases de dados secun-
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s dários: RAIS/CAGED, para identificar o universo de entidades, e CNAE
(Classificação Nacional de Atividade Econômica), para definir a quantida-
de de profissionais em atuação. Além desses dados, realizaram um survey
com 270 profissionais questionando o tipo de organização onde o profissio-
nal atua e a quantidade de profissionais que atuam na área.
Os autores identificaram 40.274 associações de classe e entidades sin-
dicais em funcionamento7. Segundo os autores desse estudo, atualmente há
96 mil profissionais atuando em Relações Institucionais e Governamentais
no Brasil. Em São Paulo, existem 28.214 profissionais atuando, o que corres-
ponde a 30% do total, seguido de Minas Gerais (11.412) e do Rio de Janeiro
(8.341) em segundo e terceiro lugares.
Apesar de termos esse abrangente e complexo sistema oficial e extrao-
ficial de representação de interesses em pleno funcionamento, ainda é baixo
o número de profissionais que afirmam exercer a atividade de Relações Ins-
titucionais e Governamentais. Essa questão fica evidente quando se acessa a
base de dados do LinkedIn, rede de relacionamento voltada ao mundo dos
negócios, no qual profissionais apresentam sua expertise e buscam fortale-
cer seu networking em busca de oportunidades. Lá existem cerca de 8 mil
profissionais que declaram exercer a atividade de Relações Institucionais e
Governamentais (GALVÃO & MEDEIROS, 2018). Fica evidente tam-
bém quando se observa que a ABRIG, associação que deveria representar

7 É interessante notar que os resultados da pesquisa refletem como a comunidade de relações


institucionais e governamentais brasileira é ainda profundamente marcada pelo sistema ofi-
cial de representação de interesses criado por Getúlio Vargas na década de 1930. Tal sistema
é composto por sindicatos, federações e confederações, tanto de trabalhadores quanto de em-
presários. Paralelamente ao sistema oficial, foi sendo criado um sistema extraoficial, composto
por associações extracorporativistas que também representam os interesses de trabalhadores e
empresários (SANTOS ET AL., 2017). Esse sistema tende a se transformar de maneiras ainda
imprevisíveis, haja vista que a reforma trabalhista aprovada em 2017 tornou facultativa a contri-
buição compulsória.

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todo esse universo, recentemente comemorou ter aumentado em 532% o
número de seus filiados em dois anos, saindo de 79 para 422 sócios (COU-
TINHO, 2018). As razões para essa discrepância ainda carecem de investi-
gação, constituindo-se em uma interessante agenda de pesquisa.
A inexistência de uma base de dados abrangente com informações
confiáveis e passíveis de generalização também torna desafiador traçar o
perfil do profissional de Relações Institucionais e Governamentais.
Algumas evidências, contudo, deixam ver que transformações profun-
das quanto ao perfil e ao papel dos profissionais de Relações Institucionais e
Governamentais vêm ocorrendo, como aponta CURY NETO (2018).
Alguns fatores auxiliam a compreender as razões dessas transforma-
ções. Se, de um lado, as empresas privadas se viram obrigadas a potenciali-
zar suas estruturas de compliance e a desenvolver uma cultura de integri-
dade devido ao aprimoramento de um arcabouço jurídico anticorrupção
internacional e nacional mais rigoroso e abrangente, de outro, a Operação
Lava Jato redefiniu a forma como elas enxergam seu relacionamento com
o governo. Ademais, há uma compreensão mais clara de sua parte sobre a
relevância das relações institucionais e governamentais para alavancagem
dos negócios (FLEISHER E HARRIS, 2017). Devido a esses fatores, e à
disponibilidade crescente de aprimoramento profissional via educação for-
mal (GOZETTO & THOMAS, 2017; GOZETTO & MACHADO,
2018), empresas privadas e associações setoriais, sobretudo as extracorpo-
rativistas8, têm buscado no mercado executivos sêniores de Relações Ins-
titucionais e Governamentais completamente alinhados com as regras de
compliance, detentores de uma forte perspectiva de negócios e capazes de
implementar ações de defesa de interesses de forma planejada e estratégica.

8 BRASSCOM (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Co-


municação), ABRAMAT (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) e
CITRUSBR (Associação Nacional de Exportadores de Sucos Cítricos) são bons exemplos.

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Dados compartilhados pela Vittore Partners – consultoria especiali-
c o m u n i c aç ão e r e l aç õ e s g ov e r na m e n ta i s / i n s t i t u c i o na i s zada na recolocação de executivos de Relações Institucionais e Governa-
mentais no mercado de trabalho – sustentam esse argumento. No último
ano essa consultoria recolocou no mercado dez executivos (seis diretores,
três gerentes sêniores e um gerente médio). Esse número representa uma de-
manda 80% maior em comparação ao período que compreende de 2014 a
2016. Outro dado relevante diz respeito à busca por profissionais maduros
e com experiência sólida para dirigir e gerenciar áreas pré-existentes. No en-
tanto, um elevado número de empresas privadas tem demonstrado interesse
em construir áreas dedicadas às Relações Institucionais e Governamentais
e para isso precisam atrair executivos experientes já em atuação. Segundo
CURY NETO (2018), esse movimento tem trazido alguns desafios.
“O primeiro deles é a falta de profissionais sêniores, qualificados e com
esse novo perfil, por se tratar de um mercado muito restrito. A consequência
disso é a inflação na remuneração dos profissionais atuais e a constante dan-
ça de cadeiras entre eles, principalmente em segmentos específicos como o
farmacêutico, por exemplo.”
Segundo a Vittore Partners, para estar apto a fazer parte desse seleto
grupo de profissionais seniors é preciso possuir um perfil pessoal e compor-
tamental que contemple: Ética, Diplomacia, Comunicação e Persuasão, Li-
derança, Flexibilidade e Resiliência e Criatividade.
Quando se compara o que os dados dessas pesquisas mostram e a per-
cepção que a opinião pública possui acerca da atividade de lobby e dos pro-
fissionais que a realizam, é possível ter uma dimensão de quanto se avançou
na última década.
Ainda há um longo caminho a ser trilhado, mas as perspectivas de
crescimento, profissionalização e relevância da área nas organizações são
excelentes.

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Bibliografia

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