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INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS

Departamento de Filosofia
Disciplina: Ética
Curso: BACH
Prof. Daniel Toledo
Semestre/ano: 1º/2018
Aula 4:
Moral social e livre-arbítrio
A moral, ou – caso se prefira – a moralidade enquanto conjunto dos princípios
morais, é estritamente funcional por ser essencialmente composta para atender ao
arranjo do tecido social, conferindo ao mesmo a coerência comportamental que deve
contribuir significativamente para sustentar e organizar a estruturação coletiva das
culturas por meio das definições conjuntas de posturas de seus indivíduos. Por isso,
inclusive, é que podemos constatar como as revoluções sociais, culturais e políticas ao
longo da história sempre estiveram intrinsecamente ligadas à necessidade de
reformulações das moralidades predominantes em cada época.
Essa relação deve ser compreendida, antes de tudo, como uma via interativa de
mão-dupla: na mesma medida em que a sedimentação de determinadas formas de
comportamentos influenciam de maneira determinante a produção e consolidação dos
valores sociais, as noções de sociedade que se formam por meio dessa dinâmica também
retroagem sobre os indivíduos fundamentalmente através da imposição de seus ditames
estatutários.
O tipo de relação que se estabelece entre o indivíduo e o social depende de
maneira vital do campo moral na medida em que é nesta dimensão que se pré-formam
aqueles valores que se tornarão veículos de disseminação e consolidação dos
regramentos pelos quais cada cidadão assume-se como sujeito a disposições gerais não
submetidas às suas preferências pessoais.
Vista a partir desse enquadramento, uma conduta nunca é, a rigor, única e
exclusivamente de caráter pessoal, posto ser tomada por um indivíduo sempre em
confrontação com seu meio social e também porque acarretará inevitavelmente em
ações que produzirão consequências sobre este mesmo ambiente conjunto.

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Como principal argumento corroborativo para a tese de que a moral é vital para
a malha social, muitos estudiosos lançam mão do levantamento de que não há ou houve
cultura conhecida em que seus povos pudessem prescindir totalmente de um
determinado conjunto de regras comportamentais ou mesmo de “tábuas de valores”
prévia e coletivamente estabelecidos para a constituição de sua organização grupal,
mesmo quando esta se dá em níveis ainda rudimentares.
Dito de maneira mais direta, deve tornar-se evidente que a preservação da ordem
social depende em significativa medida da valência conjunta de determinados valores
fundamentais tomados como parâmetros ou referenciais de conduta.
Diante disso, contudo, não devemos perder de vista que, por mais que se acentue
o caráter impositivo dessa normatividade coletiva de matriz externa, a validade da
mesma sempre dependerá, ainda que em maior ou menor medida, das condições, da
aceitação ou acolhimento íntimo dessa impostação por parte daquela consciência moral
em sua relativa autonomia de exercício.
Não obstante, essa autonomia revela-se ainda mais relativa quando observamos
que ela se move em culturas condicionadas por uma atmosfera moral que nos influencia
por todos os lados de maneira também imperceptível. Influência tão vigorosa, ainda que
tácita (e em muitos casos o vigor advém justamente de sua inobservância!), que em
muitas situações faz com que ajamos moralmente de uma maneira mecânica ou mesmo
quase “instintiva”.
Frente a isso, em se confrontando com esse caráter culturalmente impositivo das
leis heterônomas, a consciência moral, movimentando-se por meio de sua margem de
ação, deve dotar o indivíduo da capacidade de uma participação o mais livre e
consciente possível acerca de seu papel diante das instâncias reguladoras que o cercam,
tornando-se, em certa medida, também responsável pelas mesmas.
Neste sentido, as dissidências morais também acabam, de uma maneira ou de
outra, contribuindo para o atendimento desta tarefa. Isto porque determinadas ações
morais podem atingir consequências divergentes e até mesmo contrárias às intenções
iniciais que motivaram tais atos.
Não obstante esta possibilidade de que os efeitos excedam suas causas iniciais, é
inegável que toda ação moral dá-se dentro de uma relação de causa e efeito. Sendo
assim, toda forma de moralidade é, em alguma medida, necessariamente teleológica.
Isto porque não pode haver ação ou postura moral que, motivada resolutamente,
prescinda de qualquer finalidade em última instância. E é justamente este

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condicionamento que torna a ação moral um ato humano engendrado sob condições
lógicas e racionais, posto não poder haver nenhuma atividade ordenada pelo homem que
não se deixe reger por uma causa orientada para determinado fim. No caso da ação
moral, os próprios valores a serem atingidos são também aqueles que atuam como causa
motivadora do próprio ato que para eles se volta.
Levando em consideração que aquele conteúdo ideativo da moralidade (já por
nós aqui trabalhado) é uma meta que não pode ser esgotada em si mesma justamente por
atender à função de referência maximamente ideal, cada finalidade moral realizada
como tal constitui-se como uma etapa dentro de uma possível progressão moral que,
justamente por responder à constante necessidade de aperfeiçoamento comportamental
do ser finito que somos, nunca pode ser plenamente consumada. Daí se poder dizer que
é o próprio fato de ser a elaboração da consciência moral uma tarefa inacabável que a
torna um desafio constante.
De toda forma, se não houvesse esta possibilidade construída dentro de nosso
horizonte ideativo, também não haveria, dentro de nosso universo fático, a possibilidade
de resoluções, isto é, de praticar ações de maneira voluntária. Com isto, deve-se abrir
aqui para o entendimento de que a faculdade ideativa é imprescindível para a
transcendência moral que se efetiva dentro de nossa realidade concreta.
Esta possibilidade da voluntariedade é que dá margem para a subsistência do
livre-arbítrio racionalmente exercido e ainda torna a ação moral distinta das demais
práticas meramente naturais (de ordem estritamente sensível-fisiológica). É somente
mesurando nossas ações e posturas mediante determinada ordenação de valores acolhida
por nossa consciência moral que podemos controlar racionalmente os efeitos conjuntos
de nossos atos e formas de comportamento.
Pois o ato moral implica a consciência de um fim, assim como a decisão de
realizá-lo. Mas esta decisão pressupõe, por sua vez, em muitos casos, a
escolha entre vários fins possíveis que, em certas ocasiões, se excluem
mutuamente. A decisão de realizar um fim pressupõe a sua escolha dentre
outros. A pluralidade de fins exige, por um lado, a consciência da natureza
de cada um deles e, ao mesmo tempo, a consciência de que, em uma situação
concreta dada, um é preferível aos demais, o que significa também que um
resultado ideal, não efetivo ainda, é preferível a outros possíveis1.
A própria interiorização das normas morais externas, para além de um mero
acolhimento passivo, deve passar pelo crivo de escolhas resolutas justificadas pela
própria consciência moral a partir dos seus princípios normativos adotados também

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VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Barcelona: Editorial Crítica, 1984, p. 75.

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mediante ato de reflexão deliberada. Por isso a consciência moral se nos apresenta como
a mediadora entre a moralidade concreta e os fundamentais princípios éticos normativos
intrínsecos ao espírito humano. Ela é assim a interseção prescritiva entre o subjetivo e o
objetivo, entre o teórico e o prático, bem como entre a dimensão formal e o conteúdo
concreto.
E é somente após empreender todo este processo de concatenação que a
consciência moral pode reconhecer aqueles que são os seus verdadeiros deveres morais.
Deveres estes que podem acarretar conflitos entre os regramentos morais externamente
instituídos e os princípios normativos éticos. Dilemas que trazem em si a propriedade de
conduzir a consciência moral a uma situação de crise ou coagi-la a ceder diante da
imposição de normas circunstanciadas para evitar essa crise2.
De toda forma, esta consciência só pode reagir a esta condição na medida em
que se reconhece responsável, isto é, tão logo responda pelas ações através das quais
interage com o seu meio e pelos efeitos produzidos por estes atos sobre este mesmo
meio. Esta interação corresponde à própria dinâmica de transcendência aqui em questão,
posto que, quando ainda estava mais próximo de seu estado de natureza, ou seja, ainda
despojado deste tipo de consciência de si em relação com o outro, o homem primitivo
era em muito condicionado por seus reflexos instintivos diante dos fenômenos naturais
aos quais estava sujeito.
E é justamente por se alojar entre essas duas instâncias antropológicas, a do
estado de natureza (sociedades primitivas) e a do estado de cultura (civilizações
desenvolvidas), que a moralidade, mesmo em seu estágio abstrato embrionário, precede
as demais codificações comportamentais e institucionais que dela derivarão ao longo da
história humana. Explica-se assim, por via deste caráter de transcendentalidade, a
necessidade de ter havido modelos e padrões comportamentais colocados em práticas
coletivamente antes mesmo que estes pudessem ser formulados por meio das mais
variadas formas de convenções culturais.

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A teoria casuística (casuísmo) do direito, por exemplo, constituiu-se, historicamente, como uma
tentativa definitiva de solucionar, debalde, essa crise através da projeção de uma espécie de tabela de
relações de causa e efeito entre as intenções e os resultados de cada ato como instrumento ou artifício por
meio do qual o agente moral pudesse se assegurar previamente da maneira mais precisa em sentido lógico
do grau de moralidade a ser depreendido de cada ato em relação ao resultado provocado por essa ação,
desconsiderando, para isso, todo e qualquer contexto de sentido no qual se inserem essas relações! Tratar-
se-ia então de um modelo “matematizável” para a estruturação e hierarquização interna da moralidade,
uma padronização de formatação que não permitiria qualquer desajuste entre a intenção, a ação e o efeito
morais que devem sempre se apresentar enquadrados previamente em fórmulas lógicas específicas de
classificação e condução!