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CRÍTICA DA RAZÃO

PRÁTICA
Immanuel Kant

Tradução baseada na edição original dç 1788,


com introdução e notas de
VALERJO ROHDEN

i í/íí/ m o r ti n s f o n t e s
SÃO PAULO 2016
í \iii ahnt /*i( p u tiU ru íiii orig i/Kijm en ie em alemão com a lit u b
K U i T l K D E R P R A K T IS C H E N V E R N U N F T .
f 'n /iv rí^ li! ^ 2(Ki2. L iv ra ria M a rtin s Fanten Ed itora .Ltd a .,
São Pautej, pa ru a presente edição.

I® e d i ç ã o 2Ú02
4 Í e d i ç ã o 2 016

Tradução
wif/f/o «owoew
R e v is ã o g r á f i c a
/l/mZj/tö/ /'Vutjçvj
H elena Gtrimcirãcs B ittencourt
Iveie Hatista d/iy StiiltOS
P r o d u ç ã o g rá fic a
G e m ld n A lves
P a g im tç ã o
Siucíitt 3 D esenvolvim ento E diíoriül

[lu c ila |ii(i'ni:ici<Hi:ttN d c C uU ilogsiçrio n a P u b lic a ç ã o (CLP)


( (T m u in i llru v ilc iru rio L iv ro , S P , B ra s il)

K .m i|. Irim iiiliiii'1. 1724-IK lW .


C i i i iiii dn m/.;in priliicn / Innnunucl K art ; tradução baseada na
7
n liv iiu ni i^itiu! tk- I SS. cum iniroduçào e notas VaJcrio Rohdcn, -
iril. 1
Sjiii 'milo : lldliora W M F Martins Fontes, 2016. — (Clâ-ssi-
i-ns WMI-)

T ílu ln o r ig in a l: K ritik d e r P ra k tis c h e n V e rn u n ft

ISBN 97R-a5^t69-002:-3
I . E L k a 2 . F ilo s o f ia a le m ã 3 . F ilo s o f ia r n o d e m a - S é c u lo 18
4 . R a r ä o I R n h d e n , V a le r io . Tl. T í t u l o . 111. S é r ie .

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I n d io : para catálogo sistemáticos


l . K a n t : F ilo s o f ia a f e m ä : O b r a s f ilo s ó f ic a s 193

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tí-mail: info@wmfmartinsfontes.com.br http://www.wmfmartimJbHies.com.br
índice

tnlnxinção à edição brasileira .................................. IX


I <iriiosc da Critica d a r a z ã o p r á t i c a ................. IX
■ !;inílude e autonomia............................................. XIV
\ A primeira edição de 1788 como base da tra­
dução......................................................................... XXVII

Hitftiografia.................................................................. XLIII
I. lídições alemãs da Crítica d a r a z ã o prática.... XLIII
!. Sobre a filosofia moral de Kant............................. XLV1
V Principais abreviações usadas de obras de Kant. LX

m ologia................................................................... LXI

CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA

Prefácio ........................................................................................ 3
Introdução - Da ideia de um a crítica da razão p rá ­
tica. ................................................................................................. 25

1‘RIMEIRA PARTE - Doutrina dos elementos da ra­


zão prática p u r a ........................... 29
I’KIMEIRO LIVRO
Aiidfitica da razão prática pura
rilw eim <xtpüulo - Das proposições fundamentais
(I.i vazão prática p u ra............................................... ..... 31
Si I. D efinição............................................................ ..... 31
A notação.................................................................. 33
§ 2. Teorema 1........................................................... ..... 36
§ 3- Teorema II.......................................................... ..... 37
Corolário................................................................... 38
Anotação 1.......................................................... .....38
Anotação 11......................................................... .....42
§ A. Teorema III......................................................... .....45
A notação..................................................................45
§ S. l’mNemn I.......................................................... .....47
§ (>. l'i'nMcma II......................................................... .....48
Aiu ilação..................................................................49
§ 7. l.ei lunclamental da razão prática p u ra ..............51
A notação............................................................ .....51
Corolário...................................................................53
A notação............................................................ .....53
$ 8. Teorema IV......................................................... .....55
Anotação 1.......................................................... .....56
Anotação II......................................................... .....58
l'mu lamentos determinantes materiais práticos
no | >i rtu ípici da m oralidade......................... ......... .....65
I I >;i dedução das proposições fundamentais
da razão prática p u ra ....................................... .....67
II I ):i lãruidade de a razão pura ter no uso prá-
lico uma ampliação que no uso especulati­
vo não lhe é por si possível........................... .... 80
Si'yjii/</<> Capítulo - D o c o n c e i t o t l e tu n o b j r i o d a
i a / a o p r á t i c a p u r a .....................................................................

Talma das categorias "da liberdade relativamente


aos conceitos de bom e m a u ................................. l(K>
I >a típica da faculdade de julgar prática p u ra .... H)<S
ícn eiro Capítulo —Dos motivos da razão prática
p u ra ......................................................:..................... 114
lílucidação crítica da analítica da razão prática
p u ra ............................................................................. 144

SEGUNDO LIVRO
Dialética da razão prática pura

1’rimeiro Capítulo - De uma dialética da razão prá­


tica pura em geral..................................................... 175

Segundo Capítulo - Da dialética da razão pura na


determinação do conceito de sumo bem .......... 179
I. A antinomia da razão p rática....................... 184
II. Supressão crítica da antinomia da razão prá­
tica...................................................................... 186
III. Do primado da razão prática pura em sua
vinculação com a razão especulativa.......... 194
IV. A imortalidade da alma como um postula­
do da razão prática p u r a ............................... 197
V. A existência de Deus como um postulado
da razão prática p u ra ..................................... 200
VI. Sobre os postulados da razão prática pura
em geral............................................................ 212
VH. Como é possível pensar uma ampliação da
razão pura, desde um ponto de vista práti­
co, sem com isso ao mesmo tem po ampliar
o seu conhecimento como especulativo?... 215
VIII. Do assentimento proveniente de uma ca­
rência da razão p u r a ....................................... 227
IX. Da proporção, sabiamente adequada à des-
tinação prática do homem, de suas facul­
dades de co n h ecer.......................................... 234

SEGUNDA PARTE - Doutrina do método da razão


prática p u r a ............................... 237

Conclusão ........................................................................ 255

Apêndice ........................................................................... 259


Notas manuscritas de Kant em seu Handexemplar
da Critica da razão prática (1788)

índices .............................................................................. ...267


índice de au lo res........................................... .......... ...269
tilo ssá rio .................................................................... ...271
Concordância de pág in as...........................................289
Introdução ã edição brasileira

1. Gênese d a Crítica da razão prática

A presente Crítica da razão prática (1788, abreviatu­


ra: KpV) é a segunda dentre três Críticas que Immanuel
Kant (1724-1804) escreveu, mas que ele inicialmente pre­
tendera reunir todas numa única obra1. Embora não tenha
executado o plano nesses termos, mas, por exigência dos
assuntos, tenha-o desdobrado em três obras autônomas, a
Crítica da razão pura (1781, abreviatura: KrV) não deixou
de incluir o esboço de uma moral2, sem abrir um espaço
equivalente para a crítica do gosto. O Prefácio à segun­
da edição dessa primeira Crítica justificava a crítica à me­
tafísica especulativa como meio para dar lugar a uma
metafísica prática. Nem esta orientação do segundo Prefá­
cio correspondeu à nova expectativa, gerada desta vez peia
notícia veiculada na Allgemeine Literaturzeitung, n° 276,
de 21 de fevereiro de 1786, de acordo com a qual a se-

t, Cf. a carta de Kant 3 Marcus Herz, de 21 de Fev. de 3772. In: KANT,


I. Dissertação de 1770 / Carta a Marcus Herz (esta traduzida por Antônio
Marques). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985, p. 142.
2. O ponto de vista é defendido tam bém por ALL1SON, H. Kanl's
’l bm ry o f Freedom. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

IX
Immanuel Kant

guntla ediçào da Crítica da razão pura (1787) incluiria


uma crílica prática3. Aliás, em toda a correspondência até
a seguncla edição tia Crílica da razão pura, cujo Prefá­
cio é datado de abril dc 1787, Kant jamais fez m enção da
inlençào dc escrever uma obra separada que viesse a
cham ar sc Crítica da razão prática. Referia-se sempre
apenas ;i objrlivos de escrever uma metafísica da morai,
que ele executou independentemente daquela, com suas
(Inmdivgung zur Metaphysik der Sitten (.Fundamentação
da uiclaßsica dos costumes, 1785, abreviatura: Grundle­
gung) e Metaphysik der Sitten (Metafísica dos costumes,
1797, abreviatura: MS). Todavia no curto espaço de tempo
de dois meses após aquela segunda edição da Crítica da
razão pura Kant surpreendentem ente anunciava, em car­
ta de 25 de junho de 1787 a Christian G. Schütz, a con­
clusão da redação de uma obra específica, intitulada Crí­
tica da razão prática 4. Em carta de 28 de dezem bro de
1787 a Carl R. Reinhold, quando esta segunda Crítica de fato
apareceu (embora constando como publicada em 1788),
Kant mencionava pela primeira vez em conjunto as três
Críticas. K no IVefãcio à Crítica da faculdade do ju ízo
( 1790, abreviatura: /Cf/), em que esta faculdade é apre­
sentada como mediadora entre natureza e liberdade (ob-

3. "Ä Crilioi th inziio cspcvulaitva pura, contida n a primeira edição,


■.k'rwtenl'.ii'-Hcsi, iv.i sc^untla ediçio, ainda uma Crítica da razão prática
pura, t|ue títuáo pode servir tanto para assegurar o princípio da moralida­
de contra as ofajeções Feitas ou por fazer-se com o para com pletar o todo
das investigações críticas que têm de anteceder o sistema da filosofia da
razão pura." Apud VORLÄNDER, K. Zur Entstehung der Schrift. In: KANT,
l. Kritik der praktischen Vernunft. Hamburg: Felix Meiner, 1993, p. XII.
4. “Concluí a minha Crítica da razão prática, de modo que penso
enviá-la na próxima semana a Halle para a impressão.” KANT, I. Brief-
irccbsel. I lamhurg: Felix Meiner, 1986, p. 320.

X
Critica d a razão (m íiica

p■(<i.s das duas Críticas anteriores), ele anunciava o U t i i i í


mu do .sua tarefa crítica com as seguintes palavras; "(iom
i;.s<>lermino, portanto, toda a minha tarefa crítica. Passarei
.viu demora à tarefa doutrinal... É óbvio que nào liave
ia aí nenhuma parte especial para a faculdade do juízo,
puis com respeito a ela a crítica tomou o lugar da teo­
ria; é óbvio, no entanto,, que, segundo a divisão da Filo-
:.i i( ia em teórica e prática e da filosofia pura nas mesmas
parles, a metafísica da natureza e a metafísica da moral
S/iien> s constituirão aquela tarefa.”6
Knfim, a Crítica d a r a z ã o p rá tica nasceu de um ama-
durecimento crítico de suas concepções teóricas e práti­
cas, mas vacilou por algum momento a respeito de seu
conteúdo, ou seja, se ela se limitaria a uma resposta às crí-
licas dirigidas contra a sua Fu n dam en tação d a m etafísica

5. Levei em conta o hábito, mas submeto à discussão que se venlia a


corrigir a tradução de Sitten, em Kant, por “mora]” e não por "costumes”.
Ni.slu concordo com a tradução inglesa de Mary Gregor da corresponden­
te obra de Kant, Metaphysik, d e r Sitten, por The M etaphysics o f Morats. Na
•■pina tardia da A u fklärung (Esclarecimento/Iluminismo), o termo latino
tuotvs foi refletido filosoficamente e passou a dizer respeito à ideia e aos
I irincípios de uma possível vontade pura. Kant mesmo observou, na citada
i 'I iva de 1797; "A pala vra alemã Sitten bem como a latina m ores significam
■ipcnas maneiras e modos de vida, enquanto a razão ordena com o se deve
.ij;ir, ainda que não se encontrasse nenhum exemplo correspondente” (MS.
Iniroduçào AB 10 / Ak 21ó). 'Wolfgang Kersting observa no mesmo sentido:
"< > termo alemão Sitten (costumes) não pode encontrar nenhum lugar em
11111:1 filosofia moral da autolegislação da razão" (KERSUNG, W. verbete Sit-
II In: KITTER, J. / GRÜNDER, K. H istorisches W örterbuch d e r P hilosophie.
I >:innstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1995, v. 9, p- 899. Cf. no
mesmo sentido TUGENDHAT, E. Vorlesungen ü b er Ethik. 2. ed. Frankfurt:
Niilirkamp, 1994. 2? lição, p. 34 e & lição, pp. 98-9).
6. KANT, I. Kritik d e r Urteilskraft / Crítica d a fa c u ld a d e ä o ju íz o . 2.
cd. Tnd. Valerio Rohden e António iMarques. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1995. B X, trad., p. 14.
Immanuel Kant

das costumes. Na já mencionada carta a Reinhold, logo após


o surgimento da Crítica da razãoprãtica, Kant escreveu:
“Neste pequeno livro são eliminadas várias contradições
que os partidárias do antigo supõem encontrar em minha
crítica; contrariamente, .sfio postas de modo suficientemen­
te claro ante os olhos aqueias <contradições> em que eles,
se nao quiserem abandonar seu velho remendo, inevita­
velmente se em aranham por si.”7
Mais conhecida a este respeito é a crítica de Gottlob
Augusi Tittel, ao qual Kant, sem o citar pelo nome - como,
aliás, procedeu com todos os seus críticos, com exceção
apenas de Thomas W izenmann8 refere-se no Prefácio
à Crítica da razão prática. Tittel acusou Kant de abusar
de terminologias abstratas, tentando reduzir a moral a uma
fórmula, que não acrescenta nada ao que já sabemos so­
bre conceitos e casos singulares dos quais foi abstraída.
Argn mentando que uma fórmula nâo me diz o que é bom,
mas apenas recomenda em geral “faz o que é bom (de in­
teresse com um)”, ele pergunta: “Deve, pois, toda a refor­
ma moral de Kanl: porventura limitar-se apenas a uma
nova fórmula?" (,S'o// denn die ganze kantische Moralre-
jh n n d ma nur a u f eine neue Formel sich beschränken?)9.
Segundo ele, a própria fórmula do imperativo categórico
apenas parece nova, pois em verdade não acrescenta nada
ao ja conlieeido princípio: “Age de tal modo que pela tua

7. KANT. I. Hríijwtxhsel, p. 334.


H. Cl, KANT. I. Kritik der praktischen Vernunft, A 259.
9, TITTlíl, <i. A, Uber Herrn Kant's Moralreform. Frankfurt und Leip­
zig'. I’liilili'f, I7S(>, l{r|irntlut;;~iO do texto original, Bruxelas: Culture et Civili-
salion, IW ), p. .15, Aur.ulcço a Üraiton G. de Souza ter-me presenteado,
túndu vm Irm pn, i'om ossii cópia do livro de Tittel, Sobre os outros críti­
cos cf, IvnTNIíU, II. / KUAMülí, K. (Ed.). Materialien z u Kants 'Kritik der
p m k l i s c b & l V e n m u ß ' . I'ninkl'urt: Suhrkamp, 1975. Prefácio, pp. 9-29.

XII
Crítica dói razão fyi'aiicd

ii ,in e máxima de ação (tom ada no seu lodo c imivcrs.i


l|il.nlr) .i perfeição seja prom ovida!” (p. 36). !Jor isso, ro n
( Im, ii.io se deve disputar sobre fórmulas. O pom o d;i dis
1 1 ir<li:i, no entanto, se encontra na contraposição de mn;i
11 Hu v p çào moral fundada num a razão acusada d e supra
lium ana e antinatural versus um a concepção m oral fun-
i Lu l;i na felicidade. O p o n to central, segundo Tittel - das
ist der Punkt (p. 51) é que, sen d o o interesse p ela fe-
Iii i<I:ide o suprem o interesse hum ano, ele tem de sercom -
p.itivel com uma legislação que se pretenda com o moral,
r.m função disso, am or de si e razão identificam -se no
princípio da m oralidade (cf. p. 56; veja a respeito deste
equívoco a seção seguinte desta Introdução). Kant tinha
rn/ào para incom odar-se com um crítico que, um ano de-
11<>is da publicação da Grundlegung, lançava um detalha­
do com entário de 93 páginas que reduzira sua contribui­
ção moral a uma frustrada questão de linguagem (que
significa, por exem plo - perguntava enfim Tittel uma
autonomia em Vista de si m esm a e não do objeto, e sem
conceito de objeto? “Significa somente: eu quero, porque
quero” [ich will darum, weil ich will, p. 65]), portanto,
.sem encontrar nenhum reconhecimento pelo que ele p re­
tendera apresentar com o novo: sua reform ulação precisa
do princípio da moralidade.
A propósito do sucesso dos discípulos e amigos de
Kant, de demovê-lo de limitar a sua segunda Crítica a uma
obra meramente polêmica contra os detratores de sua con­
cepção moral, escreveu Vorländer: “Em relação a esses n u ­
merosos críticos, Kant parece ter pretendido inicialmen­
te escrever uma réplica meramente polêmica. No entanto
diversos discípulos e amigos, como Biester e Schütz, de-
moveram-no de desperdiçar seu precioso tem po com tais

XIII
Immanuel Kant

ninharias”"’ convencendo-se Kant enfim, conforme o


Prefácio, de que só uma minuciosa crítica da razão prá­
tica e de seu m odo de pensar con.sequen.te podia desfa­
zer, sob clara luz, aqueles equívocos.
O título da Crítica da razão prática foi mencionado
pela primeira vez no Prefácio da Fundamentação da me­
tafísica dos costumes (1785), mas nesta sob a forma ain­
da preliminar de uma “crítica da razão prática pura”. Essa
Grundlegung , afora o fato de dar o primeiro passo para a
tão prometida metafísica da moral, constituiu uma espécie
de introdução às questões da Crítica da razão prática.

2. Finitude e autonom ia

Ao analisar esse Prefácio da Grundlegung, Rüdiger


Bittner considerou a questão do fundam ento das leis mo­
rais com o um problema legado à Crítica da razão práti­
ca: “As leis morais têm que ter um fundamento. O único
fundamento que sobra para elas é a razão. Esta não mora
nem no céu nem nu terra."11Justificando esta carência de
solo d;i razão, ele descartou-One todo fundamento externo:
“O mundo, a natureza, o sentido interno possuem tão p o u ­
ca atiloridade moral quanto Deus.”12 Por esse motivo a éti-

10. VORI.ANDMH, K. Z u r E n ts te h u n g dei- S chrift, p . XVI


11. BiTTNlX N. Das I Intcrnelimen einer Gaindlegung zur Metaphy­
sik der Sitten, ln: HÖFFE. O. (Ed.) .'Grundlegung z u r Metaphysik der Sitten’.
Ein koopei~atiwr Kommentar. Frankfurt: Suhrkamp, 1989, p. 27.
12. BITTNER, R. Das U nternehm en einer G rundlegung zur Me­
taphysik der Sitten, p. 27. Tugendhat, em seus textos éticos, cem insisti­
d o na atribuição de um caráter teológico substitutivo à razão kantiana,
caracterizada pela acentuação, em vez do caráter intersubjetivo, de um ca-

XIV
Crílica da razão

<.1 de Kant não pode ter outra base que a ;ml< momia, dr
iintnslnida na Crítica da razão prática a parlird r uni f(H
ttnu cia razão.
O texto da Grundlegung que, a meu ver, expressou
.1 formação dessa consciência da autonomia foi o seguín
ir: “Se ora lançarmos um olhar retrospectivo sobre todos
n.s esforços empreendidos até hoje para descobrir o prin-
( ipio da moralidade, não nos admiraremos ao ver que to­
dos eles necessariamente tinham de falhar. Via-se o ho­
mem ligado a leis pelo seu dever, mas não ocorria a nin­
guém que ele estava sujeito só à sua própria legislação,
embora esta legislação seja universal.”13 Por isso dizer que
como último fundamento para a lei moral resta a razão, sem
dizer o que a razão significa, parece limitar-se a uma inter­
pretação literal da mesma. Bittner, no entanto, observou
corretamente que o sentido interno, a natureza ou Deus
não fundam a lei moral, porque constituem ou um fun­
dam ento insuficiente ou um fundamento externo dela-.

niter puro e absoluto das obrigações. Neste sentido voltou recentem ente
a afirmar: "Eu não sou o primeiro que considera a razão pura em Kant o
substituto de D eus” (TUGENDHAT, E. Ética e justificação. Veritas, Porto
Alegre, v. 44, n? 1, p. 8, mar. 1999). Veja-se, no entanto, o que Kant escre­
veu a respeito em suas lições Sobre pedagogia: “Quão infinitamente impor­
tante, porém, é ensinar as crianças desde a infância a detestar o vício, não
som ente pelo fato de que Deus o proibiu, mas porque ele é em si mesmo
detestável’1(KANT, I. Über Pädagogik, A 24-25). Em resumo, a moral não é
fundamentalmente uma questão de Teologia mas de razão. É o que nos
ensina a própria KpV em A 232.
13. KANT, I. Grundlegung z u r Metaphysik der Sitten. BA 73 (abrevia­
tura: Grundlegung):. Cf. a respeito, e tam bém sobre a questão da autono­
mia na ética kantiana: ROHDEN, V. Interesse da razão e liberdade. São
Paulo: Ática / Ensaios 71, 1981, pp. 153 s.; HENRICH, D. Selbstverhäitnißge.
Stuttgart: Reclam, 1982, pp. 6-56; BITTNER, R. Moralisches Gebot und A u­
tonomie. Freiburg/M ünchen: Karl Alber, 1983.

XV
Im m anuel Kant

"Só lis Jeis que emergem de uma legislação própria pos­


suem capacidade de obrigar.”14 Todavia, para que isso va­
lesse, seria necessário, segundo esse intérprete, que os
sujeitos agentes nâo apenas tivessem uma razão mas fos­
sem exatamente razào. É certamente verdade que o h o ­
mem não apenas possui uma razão mas também a é. Só
que ele não se identifica imediatamente com ela, por ter
também corpo e inclinações, as quais possuem como ca­
racterística dom inante sua insaciabilidade e constituem
com o tais um constante desafio ao domínio da razão.
Descle a Antiguidade a moral requereu, para poder ins­
taurar-se, um controle das apetições pela razão. Portan­
to, enquanto o homem for um ente racional finito, ele ja­
mais será santo; na melhor das hipóteses, empenhar-se-á
pela virtude, que a Crítica da razão prática definiu como
a “disposição moral em luta”15. Quer dizer, o vir bonusi<sde
Kant é o homem em luta contra sua propensão de trans­
formar o amor de si no princípio objetivo da açao. Devido
a sua consciência da finitude humana, a ética kantiana é
uma ética do dever, que como tal implica uma autocoerção
da razão, mas que toma também dever e liberdade inter­
namente compatíveis. Sem a admissão desta compatibilida­
de, cairemos na heteronomia ou na presunção de um es-
pontaneísmo moral. A compatibilidade entre dever e liber­
dade culmina numa compreensão autônoma e nào teológi-

L4, HITTNF.R, R. Hns Unternehmen einer Grundlegung zur Metaphy­


sik der Sitten, p. 20,
15. KANT, I. KpV A 151.
26. A expressão é característica da ética de Cícero, q u e substituiu os
dogmata dos estoicos pelos progressos morais concretos. Cf. CÍCERO,
M. T.D e qfficiís, I 7, I I I 18 (trad. bras. Dos deveres. São Paulo: Martins Fon­
tes, 1999).

XVI
Crílica da razão frnjlim

i.i (heterônom a) do próprio princípio crislao da moral:


"... O princípio cristão da própria morai não é d r modo
.il)'iim teológico (heteronomia) mas autonomia tia razan
pralica pura por si mesma.”17
Contra as ilusões da heteronomia e do espontaneísmo
moral, a crítica prática justifica-se como necessária. Já no
1'ivfácio à 2? edição da Crítica, da razão pura Kant criti­
cara o dogmatismo daqueles que têm “a presunção de avan­
çar sozinhos em seu conhecimento puro a partir de con­
ceitos... sem investigação do modo e do direito como a
razão chegou a ele”18. O mínimo que, segundo a Crítica
da razão prática , se esperaria dos envolvidos em tal pre­
sunção seria que apresentassem publicamente tais ßupos-
los conhecimentos para exame e apreciação: “Eles querem
provar, muito bem! Eles podem prová-los e a crítica de­
porá a seus pés, como vencedores, todas as suas armas.
(Juid statisP Notint. Atqui licet esse beatis. Portanto, já que
não o querem, presumivelmente porque não o podem, te­
mos de retomar em mãos aquelas armas para procurar
fundar no uso moral da razão os conceitos de Deus, liber­
dade e imortalidade, de cuja possibilidade a especulação
não encontrara suficiente garantia.”19 Na Crítica da razão
prática, portanto, Kant retoma as armas da crítica para es­
clarecer o enigma de como se p o de contestar um^uso
transcendente das categorias no domínio teórico e admi-
li -lo no domínio prático. A perplexidade quanto a essa
pixnêns;ãQ3ê^5ârêcê^s.egundõ^eIê.,!se_s£_procede ä/TSna
análise completa da razão .prática. .Essa análise mostrará

17. KANT, I. KpV A 232.


18. KANT, I. Kritik der reinen Vernunft, B XXXV.
19. KANT, I. KpVA 7-8. Cf. a respeito a nota do tradutor.

XVH
.Immanuel Kant-

âmbito da razão prática não se faz nem iim uso


q u e \riQ
teórico nenujüri-u50..tcanscendente- das categorias,\ísto_é,
com vistas à extensão do conh_eamento ao„suprassensível,
m aj que elas têm jjm objeto prático imanente^ na medida
em que entram numa determinação a priori da vontade,
\que produz o seu objettA A razão prática não conhece ob­
jetos dados mas os p ro d u z\E a questão da Crítica torna-se
então uma questão de quem jdeterm ina a vontade a essa
produção de objetos, se unicam rate j-im ^razão pura ou
uma razào empiricamente, .condicionada.' Uma razão pura
é uma razão que nos, determina jivre dç^motivos empíricos
ou particulares, ou de vantagens que se possam obter de
uma tal prática. Uma razão empírica ç uma razão que se
reduz a instrumento de nossos interesses, çstabelecendo
teoricamente (com base no conhecimento de experiên­
cia) os meios ou as regras de como satisfazê-los.
Segundo o parágrafo inicial da Crítica da razão prá­
tica , não se trata de criticar uma razão prática pura mas
apenas de saber se uma tal razão pura existe. E, se ela
existe, ela torna-se a “norma para a crítica de todo o seu
uso”-8. A razão torna-se praticamente crítica de um seu uso
empírico, inadequado à fundamentação da moralidade,
desde que saibamos que ela de fato existe. Disto, que ela
existe, nós chegamos a saber pela lei morai de nossa ra­
zão, como um factum™. Esse factum , que se nos apre-

20. KANT, [. KpV K 4,


21. Sobre o conceito de faclum da razão ct‘. ALMEIDA, G. A. iíant e
□ "facto da razão”: “cognirivisino" ou “dedsiorusm o" moral? Studki Kantia-
na, Rio de Janeiro, v. 1, ri? 1, pp. 53-81, set. 1998; do mesmo autor: Crítica,
dedução e facto da razào. Anufytica, Rio de Janeiro, v. 4, n? 1. pp. 57-84,
5999; ZINGANO, M. A. A. Faü de la raison et acte de la Hberté chez Kani.
Cahiers de Fonlenay, n? 67/68, pp. 209-32, set. 1992; LOPARJC, Z. Sobre

xvm
Crílica d a razau

mediante uma reflexão sobre_no.ssas maxima.s emtm


I>ihu i'pios de vida, tem duas conseqüências sumamenie
n ‘levantes: 1) conduz a uma reavaliação de Lodo o sisiema
il.i razão pura, inclusive.da razão-teórica; 2) conduz a uma
t nlica da pretensão de nosso am or de si de converter-se
m i princípio objetivo e., como tal, contraditório da ação.
Rm relação ao primeiro aspecto, Kant observou no pa-
i .ii’,rafo inicial da Dedução da razão prática que o factum
i |ue se admite na consciência da lei moral é o factum da
auionomia de nossa vontade, isto é, de que as leis, cujo
caráter obrígante reconhecemos, vinculam-se indissolu-
velmente à consciência de liberdade da vontade22. OraTas­
sim como a consideração da uri idade d a razão requer o
prévio estudo das partes, razão teórica e razão prática —
em concordância, aliás, com a ordem de nosso conheci-
11 ienío2i —, esse factum repercute, a partir da análise, da ra.-.
/ lio prática, sobre uma reinterpretação do sistema. Por.quê?,
Porque,, na. medida em que uma. lejLapodíctica da .razão
it ática prova a realidade da liberdade, converte esta liber-
da4e.no fecho de abóbada de todo o edifício de .um siste-
ma da razão pura, qu ejn clu i agora razão teórica e razão
prática*1. A reinterpretação do sistema a partir da Crítica
da razão prática dá-se pela consideração de que a liber-

i inLerpretação de Rawls do fato da razão. In: FELIPE, S. T. Justiça como


i’/juiäade. Fundamentação e interlocução polêmicas (Kant, Rawls, Ha-
hermas). Florianópolis: Insular, 1997, pp. 73-85; do m esmo autor: O fato
ila razão - um a interpretação semântica. Analytica, Rio de Janeiro, v. 4,
n'.’ I, pp. 13-55, 1999.
22. KANT, 1. KpVA 72.
23. Paul Natorp, em sua introdução à Crítica da razão prãiica, es-
i-reveu a propósito: “A razãó pura, de acordo com os conceitos d e Iíant,
apresenta L im a perfeita unidade, mas não em si, e sim só na consideração
ik' um todo divisível” (Ak, Anmerkungen zu m Band V\ p. 491).
24. IÍANT, I. K pV A 4.

XIX
Im manuel Kant

dade humana, como fundamento de nossas ações e má­


ximas, é conhecida como existente na prática moral. E a
partir deste conhecimento prático converte-se num proble­
ma teórico insolúvel. Não se converte num problema prá­
tico e .sim teórico, porque se trata de dois pontos de vista
diversos, segundo os quais o conhecimento teórico trata
da ordem cio ser, e o conhecimento prático, da ordem do
dever-ser. Q uer dizer, neste último caso não se trata do
domínio do dado e sim do fazer prático, para cuja expli­
cação a razão teórica, voltada para a experiência, não de­
senvolveu recursos adequados. A liberdade tornazSe_para
a razàoespeculaüva uma simples ideia platônica, que Kant
já na Crítica d a ra zã o p u ra criticou desde um ponto de
vista prático. Desde este ponto de vista a ideia não é uma
ficção mas umi arquétj^q_de_ação._.Çomo decqirência do
factum da razão prática^ as ideias teóricas tom am legi­
timidade como arquétipos q u e . perm item julgar nossas
ações. Portanto a Crítica da razão prática reordena os con­
ceitos. Ou seja, na medida em que a dem onstração da
realidade da liberdade tom a esta o fecho de abóbada do
sistema da razão pura, a Crítica da razãoprãtica comple­
ta a com preensão do sistema kantiano.
Mas-a. bi]tj:a^Qnse^uência_cpnç_ernente ao factum da
razão é que a consciência da realidade da liberdade tor­
na a razão prática crítica em relação a uma^xetensão inde­
vida da mesma cie legislar empiricamente sobre a ação:
“Pois a ra/ão pura, st: antes de mais nada tiver sido prova­
do que uma tal razão existe, nào precisa de nenhum a crí­
tica. É ela própria que contém a norma para a crítica de
todo o seu uso."-“ O reconhecimento da existência da ra­
zão pura legitima a crítica à razão empírica. A tarefa da_

25. KANT, I. KpV A 30.

XX
_ Crítica da razão jinilívii

i itiu’.i consiste na “obrigação de deter a pivsunç-.u» tjrf ra


mu n u p i ricamente condicionada/de querer, ela so r cs
>lusívãmente, fornecer o fundamento determ inanlr d.i
cMiii:)de”Â,/M as essa presunção é uma ilusão.
À critica dessa ilusão prática confere-lhe um nome
\tti vimeris-. solípsismo. Esta é uma interpretação que pro­
ponho a partir da tradução do termo Selbstsucht. Assim
i n ino o term o latino solípsismus com põe-se dos elemen-
l< solus + ípse, o termo alemão Selbstsucht compõe-se de
V'!hsi (si mesmo) + Sucht (mania), ou seja, expressa uma
irlação patológica consigo mesmo. Com isso quero dizer
i |i ic a Crítica da razão prática , como crítica de uma ilusão
I>rática solipsista, envolve, por outro lado, uma compreen­
são da razão prática pura como não solipsista. Jjm-síntese:
I ) a Crítica da razão prática deu o nome de s.olipsismõ ao
sistema çías inclinações, guiadas pelo princípio deyämor de
si ou da'felicidade própria/ Esse solipsismo prático envolve,
<te um lado, unia forma do amor de si chamada de amor-
próprio e equivalente à sua forma grega philautia e, de ou-
iroLuma forma de amor de si chamada de presunção e cor­
respondente ao que Kant chamou em latim de arrogãntia:
“Todas as inclinações em conjunto (que tam bém podem
ser reunidas em um razoável sistema, e cuja satisfação cha­
ma-se então felicidade própria) constituem o solipsismo
<Selbstsucht> (solipsismus). Este é ou o solipsismo do
amor de si, Üle uma benevolência acima de tudo em rela­
ção a si mesmo (philautia), ou o solipsismo da complacên­
cia em si mesmo (arrogantia), Aquele se cham a partícu-
larmente de anjor-próprio <Eigentiebe>,, este, de presunção
<Eigendünkel >.1,27 2) A concepção de uma razão prática

26. KANT, I. KpV A 31.


27. KANT, I. KpV A 129.

XXI
Im m anuel Kant

não solipsista é admitida e justificada na seguinte passa­


gem da Doutrina da virtude-, “Pois toda a relação moral-
prática para com os hom ens é uma relação dos mesmos
na representação da razão pura, isto é, das ações livres
segundo máximas que se qualificam para um a legislação
universal e, portanto, não podem ser solipsistas <selbst-
súchlig> (t'.\: solipsismo prodeuntes).”28
Os equívocos do solipsismo moral são determináveis
como^ílusôes da razão prática empírica^É curioso que o
capítulo da Critica da razão prática sobre os “motivos da
niy.âo prática pura” trate destes no plural, já que só pode
haver uir\ motivo compatível com ela, o da ação por d e ­
ver. Na verdade os seus outros pretensos motivos con­
cernem à ilusão de que se possa seguir a lei moral por
simples inclinação ou pelo mero prazer de segui-la. Mas
esta suposição contém duas implicações: 1) de que a lei
deixa de ser a determinação imediata da vontade, na m e­
dida em que praticamos a ação boa por inclinação e não
por dever; 2) que essa forma, de proceder arranca-nos da
condição de seres finitos e aLribui-nos uma santidade
espontânea da vontade, ao contrário de sua propensão
<Hang>ll>para o mal, a que somente a virtude em luta
consegue sobrepor-se. Não é por isso casual que desde
os Antigos a moral caracterizou-se essencialmente pelo
domínio da razão sobre as paixões e nâo pela simpatia,
compaixão, solidariedade, próprias da escola do Moral Sen-

2S, KANT, I. Metaphysik der Sitten / Tugendlehre, Alt 51, A 120


(;il>ri'vi;iluni: MS/T). Para maior orientação sobre o assunto, v. nesra tra-
iluçâo a nula correspondente ä p. A 129.
29. ,S obre o conceito de Hang com o uma predisposição contingen-
ir n mal cf. KANT, 1. Die Religion innerhalb der Grenzen der blaen
Vermut/), A M>--U / )! 39-48 (abreviatura: Religion).

XXII
Crítica d a razão fm ltk u

•.«' inglesa. A citação de algumas poucas p a ssa ^ n s ba.sln


I marcar essas posições. A primeira abre o terceiro ra
Iuiulo. dos motivos, e coloca o valor moral da açao n.i
imediatidade da determinação da. razão: “O essencial de
h ido o valor moral das ações depende de que a lei mora!
determine imediatamente a vontade.”30 Sem esta determi-
n.K/ao imediata o próprio conceito de razão prática é pos-
ln em causa. Se não há determ inação imediata, a razão
ii.io é pura e, se ela não é pura, não é uma determina-
1,-jo suficiente da vontade, ou seja, admite determinações
concorrentes da vontade31. O que está em jogo, no caso
de uma determinação insuficiente da vontade pela razão
Iu ira, é a própria existência de leis morais: “Se se admite
i |i le a razão possa conter um fundamento praticamente
Mi! idente da vontade, então existem leis práticas, do contrá­
rio todas as proposições fundamentais práticas tom am-se
simples máximas."3* Ora, que os princípios práticos redu­
za m-se a máximas significa uma pretensa universalização
de princípios subjetivos, baseados em inclinações. A lei
prática, deixando de ser a determinação imediata ou sufi­
ciente, deixa de existir. A contrapartida disso é uma éti­
ca de tipo estético, como na seguinte passagem: “É mui-
I() bonito, por amor aos homens e por participante bene­
volência, fazer o bem a eles ou por amor à ordem ser jus-
U>, mas isso não constitui ainda a autêntica máxima moral
de nossa conduta, adequada à nossa posição de homens
entre entes racionais, quando, por assim dizer como vo­
luntários, arrogamo-nos com soberba fatuidade a nào nos

30. KANT, I. K pVA 126.


31. Cf., p. ex., as críticas de Kant à pretensa convergência de razão
í‘ em oção em Schiller: KANT, I. Religion . nota ß 11/A 10.
32. KANT, 1. K pVA 35-36.

XXIII
Im manuel Kant

importar com as representações do dever; e, com o que


independentes de mandamento, querer fazer m eram en­
te por prazer próprio aquilo para o que nenhum m anda­
mento ser-nos-á necessário."33
A atitude estética dispõe o homem a uma busca es­
pontânea de si mesmo, em vez de um controle do amor-
-próprio, que o converteria num aceitável amor de si ra­
cional. Este am or de si racional coadunar-se-ia com o
preceito evangélico de um am or ao próximo com o a si
mesmo mas não seria espontâneo, porque envolveria
contrariedade e compatibílizaçâo do amor de si recípro­
co de cada um mediante uma lei da razão.
Se não nos deixarmos determinar imediatamente pela
lei (= ação por dever) mas nos conformarmos apenas le­
galmente com ela, com o motivo posto em algo diverso,
isto implicará, de um lado, o abandono do espírito da lei
e, de outro, a admissão de motivos concorrentes diversos
da lei, tornando a lei heterônoma. Qual seria então ain­
da o valor dc uma ação não mais determinada em vista
dela mesma? Na nossa condição de entes finitos, a auto­
nomia está comprometida com o dever. Elevamo-nos ao
nível da racionalidade como sujeitos de um mundo moral,
se ao mesmo tem po formos seus súditos e não simples­
mente seu soberano, o que do contrário significaria uma
presunçosa negação de nossa condição de criaturas. Na
formulação tio princípio moral lcantíano, a locução adver­
bial “ao mesmo Lempo” tem uma importância fundam en­
tal. Nós devem os escolher máximas que possam valer
ao mesmo tempo como leis universais, o que significa que
sejam capazes de autonom ia ou, num a segunda versão

33. KANT, !. KpV h 146.

XXIV
Critica da razão p rá tica __

dessa lei, não devemos tomar os outros soim ailr c o m o


meios mas sempre ao mesmo tempo como fins. Kam pru~
■.,i ro ín Isso uma ética finita, que envolve um dever, mas
1 1 >nvspondente a condição de um ser hum ano c a p a z de
autonomia e por isso digno de respeito. E é este o senli-
d o mais alto da moralidade kantiana: de formular uma
i <meepção moral que exige o respeito incondicional pelo
m t humano enquanto capaz de autonomia, ou de formu­
lar uma concepção que faz “do pensam ento do dever -
que abate toda a an-ogância e todo o vão amor-próprio -
<>princípio de vida suprem o de toda a moralidade do ho­
mem”-'4. A desconsideração desses limites caracteriza-se
rmiu) "transgressão dos limites que a razão prática pura
estabelece para a hum anidade”35. Kant dá a essa trans­
gressão os nomes de exaltação, fanatismo, arrogância e
jthilauHa. Segundo o livro da Religião dentro dos límiles
da simples razão (1793), essa transgressão dos limites da
ra/.ào envolve o estabelecimento de princípios diversos
(lt >s da própria razão, que mediante uma inversão de mo-
livos caracteriza-se como o mal propriam ente dito. Den­
tre os diversos níveis de propensão para o mal, o tercei­
ro nível consiste, nas palavras de Kant, no seguinte: “A
maldade (vitiositas,pravitas) ou, se quisermos, a corrupção
■l<> coração hum ano é a propensão do arbítrio a máxi­
mas de preterir o motivo da lei moral a outros motivos
<uao morais). Ela pode chamar-se também perversidade
(/teiversitas) do coração humano, porque inverte a ordem
em relação aos motivos morais e, embora com isso pos-
:.am ainda subsistir sem pre ações boas (legais),, a manei­

34. KANT, I. KpVA 153-


35. KANT, T. KpVA 153.

XXV
ím m anuel Kant

ra de pensar é corrompida em sua raiz (na disposição


moral) e o homem é por isso cham ado de m au.”36
Os textos práticos, como vemos, completam com m a­
tizes diversos a Crítica da razão prática na evolução de
suas concepções. O importante, porém, independente-
menle de qualquer diferenciação secundária, é que a ética
kunünna do dever é, enquanto ética finita, uma ética au­
tônoma, adversa a perfeições fictícias, e que encontra a
sua melhor prova de verdade na ética do Evangelho. Ou
seja, “que ele, primeiramente pela pureza do princípio
moral mas ao mesmo tempo pela sua conformidade com
os limites de entes finitos, submeteu toda a boa conduta
do homem à disciplina de um dever posto ante seus olhos,
o que não o deixa vaguear entre sonhadas perfeições
morais, e impôs, tanto à presunção quanto ao am or-pró­
prio, que gostariam de ignorar seus limites, barreiras de
humildade (isto é, do conhecimento de si)”37. Nesta m e­
dida o conceito kantiano de autonomia é um conceito
humano e não um conceito abstrato. Devido à própria fi-
nitude humana e, portanto, à propensão do homem de
pôr constantemente em xeque a sua própria autonomia, a
razão humana é ativa e reflexiva, não pode cristalizar-se
em hábitos e instituições, mas precisa a todo o m om en­
to partir do novo;, ou seja - para usar uma expressão de
W, Kersting —, encontra-se, enquanto razão moral, em re­
volução permanente38. Mesmo que esta revolução não se

.16. K.ANT, í. Religion, B 23.


37. KANT, l. KpV A 153-154. O grifo é do tradutor.
38. A expressão “revolução perm anente" foi atribuída p o r ele à dis­
posição morai. Cf, KERSTING, W. verbete Sitte. In: RITTER, j. / GRÜN­
DER K. Historisches Wörterbuch der Philosophie, 1995, v. % p. 900. A ex­
pressão "revolução”, atribuída à disposição e à m aneira de pensar moral
com o equivalente de um renascim ento ou nova criação, encontra-se tam­
bém na Religião B 54/A 50.

XXVI
Crítica da razão firríliCít____

mnlm ula com uma revolução política nem a legilime, a


im >t,tlid;ide situa a consciência humana sobre o terreno
ilt mu desafio de constante renovação, alimentada pela
Imv.i de uma autonomia comprometida com a liberdade
ili lodo ser humano.

3 ■A p rim e ira edição d e 1788


como base da tradução

lista tradução da Crítica da razão prática guia-se


pelo lexto original da primeira edição, que se identifica
m ino: Critik der praktischen Vernunft von Immanuel
Kam. Riga: bey Johann Friedrich Hartknoch, 1788, tam-
Iicm intitulada de “edição A” e referida, no que se segue,
i i >mo “1® edição”.
Aliás, as seis primeiras edições dessa obra, feitas
pelo mesmo editor, são chamadas de “edições originais”,
e sua identificação é variada: a 2? edição, de 1792” , é cha­
mada de “A2” ou, seguindo a lógica de Kehrbach, tam­
bém de “B”; a 4* edição, de 1797, é chamada de “A4” ou
I a 5a ed., de 1818, é cham ada de “A5”; e a 6? edição,
de 1827, é chamada de “A6”. Paralelamente a elas suce­
deram-se as reimpressões de 1791, 1795, 1796 e 1803''®-
A edição (1792) saiu com 2.000 exemplares, ao in­
vés dos costumeiros 1.000; trouxe algumas correções, vá­
rias delas problemáticas e supostamente de segunda mão.
Nâo há evidências de que tenha existido uma 3a edição.

39. Nas Anmerkungen der Bände I-V, d a Academia, p. 488, constou


r noneam ente para a 2a ed. a data de 1793, em vez de 1792.
40. Não consegui localizar e examinar, na Alemanha, a reimpressão
<tr 1803. A reimpressão de 1796 apresenta um a curiosa inclusão de novos
Mihfítulos a seções e parágrafos, além de um prim eira glossário.

XXVII
Im manuel Kant

Temos conhecim ento apenas de que, após um suposto


intervalo de cinco anos, surgiu pelo mesmo editor a 4*
edição de 1797. É pouco provável que em relação ã 3f edi­
ção, se ela realmente não existiu, tenha ocorrido alguma
confusão com as várias reimpressões (1791, 1795, 1796),
já que estas provieram de outros editores. Mesmo assim
ofereciam um prato de ambigüidades: a primeira reim­
pressão trazia: Neue Auflage, Frankfurt und Leipzig 1791\
e a seguinte.- Neueste Auflage, Frankfurt u n d Leipzig
f 795. A propósito da suposta edição, Kehrbach escre­
veu no Prefácio à sua edição da Kritik der praktischen
Vernunft (1878); "Uma 3a edição é, em verdade, m en­
cionada por Rosenkranz, Hartenstein e Kirchmann, mas
provavelm ente não existiu. Hartenstein declara tam bém
expressamente não ter conseguido obter a 3? edição. De
sua edição completa de 1867 não se consegue depreen­
der se ele teve em mãos a 3a edição.”41 Vejamo-lo toda­
via em suas fontes e por partes. No Prefácio a sua edição
da KpV de 1838, Hartenstein admitiu a existência da 3?
edição, mas afirmando um pouco diversamente de Ker-
bach, que não pôde tê-la tido em mãos. Depois de afir­
mar a existência de seis edições originais, com as res­
pectivas datas, à exceção da 3?, acrescentou: “Para a pre­
sente edição comparei com a I a edição do ano de 1788
ainda a 2tl do ano de 1792 e a 4? do ano de 1797.; não
pude íer em mãos um exem plar da 3? edição.”12 Na edi-

41. KANT, 1. Kritik derfirak/iscben Vernunft. Text der Ausgabe 1788


(A), unter Berücksichtigung der 2. Ausgabe 1792 (B) und der 4. Ausgabe
1797 (D). H erausgegeben von Karl Kehrbach. Leipzig: Philipp Reclam,
1878, p. V.
42 IMMANUEL KANTS Werke. Sorgfältig revidierte G esamtausgabe
in zehn Bänden. Vierter Rand. G rundlegung zur Metaphysik d er Sitten,
Kritik der praktischen Vernunft, nebst den Abhandlungen zur Philoso­
phie und Geschichte, Leipzig.- Modes und Baumann. 1838, p. VII.

XXVIII
Crítica da razão práUcu

y.10 de 1867, ele na verdade nem sequer vollou aos u t-


mos de 1838, mas manteve, 30 anos mais tarde, a convir
1. ao de que a 3* edição existiu: “Uma segunda edição saiu
rm 1792; a ela seguiram-se durante a vida de Kant até o
ano de 1797 ainda uma terceira e uma quarta.”43
A opção de basear a presente tradução principalmen-
ir no texto original da 1? edição emergiu e consolidou-se
no decurso da própria tradução. Utilizando inicialmente
as edições standard da KpV (Academia, Vorländer, Weis-
chedel), o contato com o exem plar original disponível
na Biblioteca da Universidade de Freiburg, que pelo
seu estado de conservação não pôde ser copiado e mi­
crofilmado, levou-me à utilização da cópia impressa fei­
ta a partir do exemplar original disponível na Biblioteca
da Universidade de Erlangen-Nürnberg, reproduzido pelo
Harald Fischer Verlag'“. Nessa cópia descobri algumas
incongruências com as edições standard , que inicial­
m ente atribuí a imperfeições destas, e que com uniquei
em congresso. Mas logo me corrigi, ao consultar o exem­
plar original da Biblioteca da Universidade de Münster e
reexaminar o exemplar de Freiburg, concluindo ainda mais

43. IMMANUEL KANTS Sämtliche Werke. In chronologischer Rei­


henfolge herausgegeben von G. Hartenstein. Fünftel' Band. Leipzig: Leo­
pold Voss, 1867, Prefácio. - Kirchmann, p o r sua vez, seguindo Hartens­
tein, diz quase com suas palavras, m as com o se conhecesse a 3. edição-.
"Seguiram-se entào durante a vida de Kant ainda três edições de 1792 a
1797. Kam nào introduziu nenhum a m udança nessas edições posteriores
<à lf>, tam bém nào escreveu nenhum outro Prefácio além do primeiro,
enfim todas as edições concordam entre si no texto e nas notas." (KANT,
I. Kritik der praktischen Vernunft, H erausgegeben und erläutert v o n j. H.
v. Kirchmann. Berlin: L. Heimann, 1869, Prefácio.
44. Critik der praktischen Vernunft von Immanuel Kant. Riga, bey
Johann Friedrick Hartknoch, 1788. Repr. Nachdruck. Erlangen: Harald
Fischer Verlag, 1984.

XXIX
Im manuel Kant

estranham ente que a divergência, se existia, teria que lo~


calizar-se entre as próprias edições originais. Esse para­
doxo foi desfeito com o apoio do Prof. Dr. Jens Kulen-
kampff e do filólogo clássico Prof. Dr. Severin Koster,
ambos da Universidade de Erlangen-Nürnberg, que (a meu
pedido, o segundo pela intermediação de meu amigo e
filólogo clássico de Freiburg, Prof. Dr. Eckard Lefevre)
constataram a existência, no texto original disponível na
Biblioteca daquela Universidade, de correções manuscri­
tas correspondentes às discrepâncias apontadas, O Prof.
Koster analisou e datou as correções, situando-as no iní­
cio ou o mais tardar antes da primeira metade do século
XIX. Em viagem de pesquisa à Alemanha entre julho e
agosto de 2001, descobri, mediante a comparação de ma­
nuscritos, a autoria dessas correções como sendo de Paul
Joachim Sigmund Vogel (1753-1834) - um dos ex-pro­
prietários do exem plar original da KpV antes de seu in­
gresso definitivo no acervo da Biblioteca da Universida­
de de Erlangen entre 1810 e 1818, e que antes disso per­
tencera também à biblioteca da Faculdade de Teologia
da mesma universidade'15. Desta Faculdade Vogel foi
professor catedrático a partir de 1808, depois de ocupar
a cátedra de Filosofia Kantiana na Universidade de Alt-
dorf a partir de 1797*.

45. A Bihlioieca cia Universidade de Erlatigen-Nürnberg não conhe­


cia a procedência do exem plar i|iio possuía.
46. As principais infortnuvútfK sobre Vogel enGontram-sc em LEDER,
K. Universität Alldciij: zu r Theologie dar Aufklärung. Die Theologische Fa­
kultät in Altdorf 1750-1809. Nürnberg: Spender, 1965, pp. 318-36. Cf.
utrnbém WITTERN, R. Die Professoren und Dozenten der Friedrich-Ale­
xander-Universität Erlangen 1743-1960. Teil 1: Theologische Fakultät /
Juridische FakultäL. Erlangen, 1993, onde à p. 84 consta o dado divergente
mas m enos confiável de que ele teria assumido a cátedra d e Filosofia Crí­
tica em Altdorf a partir de 1799.

XXX
CrUica da razao Jrredica

A descoberta das correções manuscritas dc Vot;cl no


i Hi-mplar da KpV, coincidentes com o período final d;i
■id.i de Kant e até agora desconhecidas do publico c.s
I ii vi;ilixado"7, levou-me ainda à constatação de que gran-
»Ir parte das correções dessa obra, que haviam sido atri­
buídas principalmente a Hartenstein, além de outras que
Vuiiânder mesmo se auto-atribuía etc., foram correções
Ir das originalmente por Vogel, As poucas coincidências
dessas correções de Vogel com as de Grillo (1795)* e as
v,u ias coincidências das correções de Hartenstein (1838 e
IKíi7) com as de Vogel parecem ã primeira vista ter sido
t ,isuais, contando com um desconhecim ento m útuo en~
(li- eles. Neste aspecto a pesquisa está inconclusa. Maio-
ic.s detalhes do andam ento e dos resultados da mesma
csiào sendo comunicados em trabalhos específicos^.
A pesquisa incluiu o exame direto de todos os exem ­
plares disponíveis das seis edições originais, das suas reim­
pressões e das demais edições da KpV dos séculos XIX e
XX, o que foi importante para uma avaliação mais pre­
cisa das diferenças do texto ou das alterações propostas
desde a sua publicação. Este trabalho, contudo, se arti­
culou - e tem nisto a sua principal limitação - a partir da

47. Embora Vogel tenha-se correspondido com Kam, não consegui


.ipumr se as correções resultaram de alguma comunicação de Vogel coro ele.
48. Cf. as correções de Friedrich Grillo no Philosophischer Anzeiger,
Halle, n. 41-48, pp. 327 s., 1795.
49. Uma primeira comunicação sobre o assunto foi apresentada em
palestra ao IX Internationaler Kant-Kongress em Berlim n o dia 29/3/2001 e
publicada com modificações em seus anais: ROHDEN, V. Ciceros form u-
íii und Kants “neue Formel" des Moralprinzips, ln: GERHARDT, V. u. A,
Kant und die Berliner Auftitärung, v. 3, p arte 2, pp. 302-11, que comple-
lei com um tratam ento tm is específico em conferência ao III Congresso
Kam Brasileiro em Itatiaia no dia 6/11/2001: “O exem plar de Erlangen da
(,'ritica da razão prática. Análise de algum as correções”.

XXXI
Im m anuel Kan!

avaliação da importância das correções de Vogel em re­


lação com as demais correções conhecidas.
Tais antecedentes permitem-nos identificar a primei­
ra razão para adotar o texto original de 1788 como base
desta tradução e sua reedição em nosso meio: a admissi­
bilidade, a partir do exame da correspondência e princi­
palmente do Handexemplar de Kant, de que ele releu
apenas a 1? edição da KpV,, sem um maior envolvimento
com as suas edições subsequentes50. Nesse bem conser­
vado Handexemplar constam somente quatro correções
manuscritas, das quais apenas a primeira foi acolhida na
2? edição51. Esta trouxe algumas outras correções, várias
problemáticas e supostamente de segunda mão. A 4a edi­
ção, com autorização de Kant, reproduziu fielmente a
primeira, mas com uma alteração correta ( derselben/des-
seben, cf. a nota do tradutor em A 142) e uma falsa ( See-
lenrube/Seelenunrube , cf. a nota em A 68), além de al­
guns novos erras. As edições posteriores, nomeadamente
as de Hartenstein, Kehrbach e da Academia, sem esque­
cer a fiel reprodução feita por Weischedel, privilegiaram a
1? edição de 1788w. Mas parece que Kant não fez uma re-

50. Cf. a respeito tam bém WEISCHEDEL, W. (Ed.). Kant Werke.


Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1968, v. 7, p. 884, e NA-
TORP, P. Anmerkungen zu den Bernden I-V, Ak, p. 498.
51. O elenco dessas correções em seu H andexemplar da K pV é o
seguinte: à p. 44, linha 26, ele acrescentou oberes (superior): kein <oberes>
Begebnmgsitermögen-, à p. 48, linha 9, ele acrescentou sie ist Cela é): al­
lein <sie ist> die Wortbestimmung; à p. 141, linha 15, ele substituiu braucht
(necessita) por beruht (assenta/baseia-se): a u f dem bloben Interesse...
<beruht>; à p. 238, linha 11, ele acrescentou nicht (nào): also zw a r
<nicht> das spekulative.
52. Adickes e Wille fizeram apreciações de conjunto dessas alterações:
ADICKES, E. Correkturen und Conjekturen zu Kants ethischen Schriften.

XXXII
Crítica da m ztjii jinitii «

It-iliir;i sistemática da 1? edição, do contrário u t í j ni>l;i


ilo nuinis passagens duvidosas, como por exem plo ;i d;i
p A .Z25, linha 20, onde constou eine oberste der Natur,
t (in- deveria ter sido eine oberste <Vrsache> der Natur (a
li.ise anterior começa com: Diese oberste Ursache). A 21
nliçao corrigiu mal essa mesma passagem para oberste
Av//nr (natureza superior). As demais edições originais re~
(ornaram o texto imperfeito da l í edição. Cada uma das
edições originais incidiu em outras espécies de erros de
impressão, considerados decorrentes do desleixo com
que foram impressas55. Ante a iminência da 4? edição da
Kf>Vre o convite que lhe dirigiu o Editor, de manifestar-se
,se queria introduzir modificações ou um novo prefácio
,i nova edição, Kant pediu duas semanas de tem po para
refletir sobre o assunto, mas ao mesmo tem po que con-

KuntitudienV, especialm ente pp. 211-4, 1901; Wll.LE, E. Conjecturen zu


Kants Kritik der praktischen Vernunft. Kanlstudien VIII, pp. 467-71, 1903.
Sobre as diferentes edições m encionadas cf. o respectivo elenco ao final
desta Introdução.
53- A respeito afirmou Hartenstein: “Todavia nessa obra encontrou-se
um núm ero m aior de passagens, em relação às quais - se uma edição, ou
seja, a 2? não ofereceu a versão correta - tinha que surgir a suspeita de
um erro de im pressão que se reproduzia da V: até a 4?, c assim também
ii 5'. e & edições, passagens que por isso davam ensejo a uma correção,
que o mais das vezes se oferecia espontaneam ente e quase nunca se es­
tendia além de um a letra ou de uma palavra.” HARTENSTEIN, G. Prefácio
ao v. IV de Immanuel Kant’s Werke; Leipzig. Modes und Baumann, 1838,
p. VII. Kirchniann concordava com esse ponto de vista ao afirmar,- “Mas
todas as edições <da KpV> foram im pressas com igua! negligência e con­
têm um grande núm ero de erros d e impressão." KIRCHMANN, ). H. Prefá­
cio a Immanuel Kant's Kritik derpraktischen Vernunft. Berlin: L. Heimann,
18Ó9- Kehrbach repetiu o mesm o p o n to de vista. Cf, KEHRBACH, K.
Prefácio do Editor. Kritik der praktischen Vernunft von Immanuel Kant.
Leipzig: Reclam, 1878, p. VI.

XXXIII
Im m anuel Kam

siderou eventuais correções como carentes cie maior im­


portância ou de difícil execução devido a sua idade, dei­
xou que a nova edição reproduzisse a primeira5''. Portan-
to foi a versão cia 1? edição a que fç^orrigida^p_or_Ka_nt_e
pelos demais revisores; e ela que foi constantemente.,
restabelecida o u adotada com o ponto de_ referência para
qualquer discussão crítica a respeito do.texto da Crítica
da razão prática. E disso podem os inferir como segun­
da razão para basear a tradução no exem plar da V. edi­
ção original, que é pela comparação com ela das edições
standard, e mesmo da até aqui imaginada reprodução fiel
do exemplar original, do Harald Fischer Verlag, am pla­
mente adotada na Alemanha, que o seu aparato crítico se
revela carente de revisão e de atualização.
A edição bilíngüe, a ser publicada pela Editora Mar­
tins Fontes, vem acom panhada do texto original de 1788
fornecido como microfilme pela Biblioteca da Univer­
sidade de Münster. A opção pelo exem plar original de
Münster justifica-se como alternativa às alterações e ano­
tações manuscritas encontradas e reconhecidas com o in­
troduzidas por Vogel no exemplar origina] de Erlangen’5.
Merece assinalar-se que o exem plar de Münster, repro­
duzido pela Martins Fontes, pertenceu à princesa Amalia
Fürstin von Gallitzín (1748-1806) - ligada ao círculo con­
tem porâneo de Kant - em conseqüência de cujo fato a
Diretora da Biblioleca, Sra. I. Kießling, comunicou-me por
ocasião da remessa do microfilme: Das Buch gehört hier

54. Cf. a carta a Johann Friedrich Hartknoch, de 28/01/1797. In:


KANT, Í. Briefwechsel. 3? ed. Hamburg: Felix Meiner, 1986, p. 721.
55. Essas correções, com exceção de duas, foram todas eliminadas
na cópia feita pela Editora Harald Fischer, Erlangen, 1984.

XXXIV
______________ Crítica da razão prcifka

tu i/cr Bibliothek durch seine Provenienz in mcbrjiit ha'


Umsicht zu den besonders schätzenswerten Ik'släiitivit
||mii sua proveniência, o livro inclui-se aqui soh v;irin,s
,i‘.|«rU)S entre os acervos particularmente m erecedores
ilr proteção). A princesa possuía em sua vasta b ib lio lo
i ,1 .is obras completas originais de Kant, mas o exem plar
il.i Kritik derpraktischen Vernunft foi justamente o único
>1.1 biblioteca que sobreviveu, chegando até nós através
i !i■sua presente reprodução direta na edição bilíngüe.
I'.irccer-me-ia por isso justo considerar a princesa a musa
ilrsia edição brasileira da Crítica da razão prática ,4.

Sb. Para maior conhecim ento da im portância do exem plar original


i|iir aqui é seguido e reproduzido, convém, acrescentar que a Princesa
i'i ii i Gallitzin era tam bém autora de um livro Abhandlung vom Belohnen
um!Slmfen (Tratado sobre prêmio e castigo). Ela correspondia-se assidua-
iiirnic com o filósofo holandês Franz Hemsterhuys (1721-1790); era ami-
j;.i dc j. G. Hamanii (1730-1788), residente em Königsberg e freqüentador
d.i casa de Kant (cf. HAMANN, J. G. Briefwechsel. Fünfter Band 1783-
1785. Ed. por A. Henkel. W iesbaden: Insel, 1965. p.ex. pp. 345 etc.), de
);. 11. Jacobi (1743-1819) e de Thomas W izenmann (1759-1787, cf. KpV A
.1'i‘JiO, Visitou J. W. G oethe (1749-1832) em Weimar, por duas vezes em
I jW e 1792. Para com pletar o quadro de sua atraente personalidade,
luiiscrevo uma citação de carta de Carolina Michaelis, mais tarde Caroli-
iii1 Schlegel-Schelling, à amiga Julie von Studniz, de 3.9.1781: "Nous avons
h i niw visite bien stngulière C’est une princesse de. GaUitzin, don't epoux
i'i! etmbassadeur de ta cour de Russie ä la Haye. Une dame fort savanle
({iti. <;sl vetue d ’une espêce de draperiegrecque, les cheveux coupäs, de sou-
lirn (ilals, q u ’oni uoit rarement sans un domesttque, quiporte une demie
dottzaine degrands livres en folio, qui va se baigner avec une suite d e 6 ä
i'i messieurs en plein four dans notre Leine etc f.. J Elle doit avoir beaucoup
de Sumières, d ’esprit et de connoissances. Elle lit Homere en original, et ä
Hofgeismar d'ou eile ment, eile se l ’a fa it porier au bain tous les matins.
/. ./je ne dis rien de ce que la princesse avec son métierde savanle neglige
itii.ssi son epoux.” Esta citação foi extraída do catálogo da exposição: Amur
lin Fürstin von Gallitzin (1748-1806) “Metrie Seele ist a u f der Spitze mei-

XXXV
_ Im m anuel Kant

Por outro lado, a presente tradução da Crítica da ra­


zão prática não alimenta a presunção de ser em todos
os sentidos melhor do que as demais traduções existen­
tes. Mas procurou exceder-se no esforço para que o tex­
to de Kant: fosse entendido e reproduzido filosoficamen­
te. Num balanço deste em preendim ento imagino que pu­
desse ter lido maior garantia de êxito num trabalho em
parceria, com que fui honrado, na tradução da Crítica
da razão pura, na pessoa de Udo Baldur Moosburger e,
na Crítica da faculdade do ju ízo , na pessoa de Antônio
Marques. Falhas, no entanto, fazem parte mesmo de tra­
duções conceituadas, e nâo seria eu, infelizmente, a po­
der eximir-me delas.
Beck logrou expressar-se, em sua tradução inglesa,
num estilo claro e conciso. Mas ele declarou, em sua Note
on the revised edition (1993, p. XXII), que usara como tex-
to-base alemão a edição da Academia, de 1922. Todavia
uma com paração cie sua tradução com a edição de Vor­
länder permite observar que - (embora a primeira edição
de Vorländer seja anterior à da Academia, mas se bene­
ficiando posteriormente desta) - Beck incidiu em geral
nos mesmos erros de Vorländer, e que não são erros da
Academia. Por exemplo, onde na edição original e na edi­
ção da Academia consta Selbstliebe (amor de si, cf. A 125
e Ak 70, linha 33), Vorländer equivocadam ente escreveu
Selbsthilfe (auto-ajuda, cf. p. 83) e Beck belping itselficf. a
respectiva p. 74). Onde nas edições A 204 e Ak 113 cons-

ner Feder”. Austeilung zu m 250. Geburtstag in der Universitäts- und Lan­


desbibliothek Münster vom. 28. August bis zu m 2. Oktober 1998. Heraus­
gegeben von Petra Schulz in Zusammenarbeit m it Erpho Bell. Münster:
Ardey, 1998.

XXXVI
Critica da razão pratica

lim reine (pura), Vorländer, do mesmo modo e sein ne


iiimma justificação, escreveu eine (uma: durch eine
hv Vernunft, cf. p. 131), e Beck, seguindo-o, escreveu
<i": h y a practical reason (cf. p. 119)” .
A edição francesa de Luc Ferry e Heinz Wismann,
ent re outros aspectos, traduziu reine praktische Vernunft
Iii n raison pure pratique , em vez da forma correta “ra-
AK>prática pura”. Às vezes procedeu diversamente (p. ex.
p, 789, linha 4), com o se isso fosse indiferente. E onde o
"puro” foi excluído por Kant e pelas demais edições ale-
n u.s, como na chamada que antecede o título do capítu­
la II, essa tradução o incluiu. Ela tampouco respeitou,
i-Mi geral, a distinção entre sollen (dever-ser) e müssen
(ter que), que é essencial em Kant, nem a distinção en-
iir Selbstliebe (amor de si) e Eigenliebe (amor-próprio,
jibilautia, cf. p. ex. p. 741 = A 151, e p. 712 = A 153). A
indução portuguesa de Artur Morào, ao lado de um bom
desem penho estilístico, forneceu a paginação da 1? edi-
c.io original, embora nem sempre a tenha seguido. Aliás,
u que pareceu sua carência principal, não ofereceu ne­
nhuma nota sobre as inúmeras variantes de texto entre
.iquela edição original e as edições usuais alemãs. Afora
isso, incidiu nos mesmos problemas da tradução france-
n;i em relação às expressões reine praktische Vernunft e,
si »bretudo, em relação a sollen e müssen. Sobre outras di­
ferenças remeto o leitor às notas de rodapé.

S7. Um pouco tardiam ente e após a entrega da m inha tradução à


Ivi Uli>ra, tomei conhecim ento da nova e apreciada tradução inglesa: Criti-
ijiit1a f Practical Reason, trad. de Mary J, Gregor, com introdução de Allen
Wood, ln: KANT, I- Practical Philomphy. Cambridge: Universily Press,
!'«(>, pp. 133-271.

XXXVII
Im manuel Kant

A tradução das obras de Kant para o latim, especial­


mente da segunda edição da Crítica da razão p u ra , foi
um desejo expresso de Kant. Na mesma carta a Christian
G. Schütz, de 25 de junho de 1787, em que mencionava
pela primeira vez urnio a obra quanto o título exato e o
término da. redução da Critica da razão prática, Kant re­
feria-se ao trabalho de tradução de Friedrich G. Born
(1743-1807, professor titular de filosofia em Leipzig) e ao
que ele entendia ser essencial na tradução de sua obra-,
“Meu editor encom endou ao Prof. Bom a tradução da 2?
edição da minha Crítica ao latim.”58 Em verdade, o próprio
Born oferecera-se, em carta de 7 de maio de 1786, para a
tradução das obras de Kant ao latim clássico antigo, a co­
meçar pela primeira Crítica59. E aí Kant fez a Schütz o pe­
dido de zelar para que a tradução se preocupasse m enos
com a elegância estilística do que com sua con'eção es-
colástica; “O Sr. foi muito bondoso de oferecer-se para
revisar a tradução aprontada por ele, no caso em que ela
lhe fosse enviada em fascículos, para adaptar o estilo -
que talvez se preocupasse excessivamente com a elegân­
cia - mais à correção e precisão escolástica, ainda que
não tâo latina clássica.”60
A presente tradução tenta mais a “correção e preci­
são escolástica" do que a elegância de uma tradução in­
dependente de sua forma original. Certamente se deve
procurar combinar ambos os ideais, mas concretizando o
segundo em decofrência do primeiro, que é sua conditio
sine qua non. Se toda obra hum ana deve tentar expres­

s a KANT, I. Briefwechsel, p, 320.


59. KANT, I. Cf. Briefwechsel, p. 848.
60. KANT, I. Briefwechsel, p. 320.

XXXVIII
Crítica da rnzão p iv lk n

.,11 se (anto em termos de verdade quanto de Ix/leza, esta,


in i entanto, pode constituir-se n u m /o g o d a verdade mas
l.nu.iis num jogo da falsidade“ .
Ao encerrar este trabalho quero agradecer a coope-
i .içjo mais próxima de algumas pessoas e instituições: dos
i nlegas Guido Antonio de Almeida (UFRJ), Marco Antô­
nio de Avila Zingano (USP), Marcos Lutz Müller (UNI-
UAMP), Draiton Gonzaga de Souza (PUCRS); de Raquel
d.i Silva Rodrigues (então bolsista de aperfeiçoam ento
do CNPq/Conselho Nacional de Desenvolvimento Cien-
ulico e Tecnológico) e de Peter Naumann; do Prof. Dr.
Ivkard Lefèvre (Diretor do Departamento de Filologia Clás­
sica da Universidade de Freiburg), do Prof. Dr. Jens Kulen-
kampff e do Prof. Dr. Severin Koster (Universidade de
Mrlangen-Nürnberg), do Prof. Dr. Eckart Förster (Univer­
sidade de Munique), da Sra. I. Kießling (Diretora da Bi­
blioteca da Universidade de Münster) e do Dr. Keunecke
( I Jiretor da Biblioteca da Universidade de Erlangen-Nürn­
berg); do Arquivo da Martin-Luther-Universität Halle-Wit-
irnberg, dos Editores da revista Kantstudien, da Funda-
çao de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do
Nul/FAPERGS, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadê­
mico/D AAD e do Conselho Nacional de Desenvolvimen­
to Científico e Tecnológico/CNPq.
As ideias desta Introdução foram debatidas com o
colega Nythamar Fernandes de Oliveira (PUC-RS). Gran­
de parte do presente trabalho foi executada, na condi-

6 l. ‘Ela <a poesia> joga com a aparência qvie ela produz à vontade,
•srni contudo enganar através disso" (KANT, I KU B 215, trad. bras. p. 171.
Ct. a respeito ROHDEN, V. Aparências estéticas nào enganam - sobre a re-
l.it;âo entre juízo de gosto e conhecim ento em Kant. In: DUARTE, R. [Org.J.
Itrfa, sublime e Kant. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998, pp, 54-86),

X XX K
Im manuel Kant

ção de professor titular aposentado, com bolsa de pes­


quisa do CNPq vinculada ao Departamento de Filosofia
tia Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS.
Alegro-me: no entanto, de ter podido concluí-lo na Uni­
versidade Luterana do Brasil/ULBRA, a cujo meio, pelo
convite de retorno à atividade docente, o Pró-Reitor Prof.
Dr. Nestor Beck me integrou,
Como termo deste empreendimento forneço em Apên­
dice o texto das anotações pouco conhecidas que se en­
contram manuscritas na última página, última capa in­
terna e folha avulsa do exem plar pessoal de Kant - seu
Handexemplar62 da lf edição da Critik der praktischen
Vernunft. Não incluídas na edição da Academia, elas fo­
ram publicadas por Gerhard Lehmann na revista Kant-
siudien , de cuja edição me servi para a sua tradução. Se­
ria presunção querer vertê-las a partir de sua pouco legí­
vel letra manuscrita. Às anotações, além de retomarem al­
guns temas da Crílica da razão prática, satisfazem nosso
desejo de saber em que pensava Kant ao reler seu exem­
plar. A sorte tle ainda o possuirm os deve-se ao gesto de
Kant, de ao término de sua vida tê-lo dado de presente
ao amigo Wasianskif’3, propiciando-lhe com isso um rumo

62. O term o Handexemplar significa exem plar de uso do autor,


exem plar manual. Dito isto, passarei n o que se segue a usar o term o con­
sagrado alemão, pela sua vinculação privilegiada com Kant.
63 Ehregott Andreas Christoph Wasianski (1755-1831), diacono em
Königsberg, encarregado de executar o testam ento de Kant, cuidou deie
;ité sua morte, escrevendo e publicando poucos meses depois: Im m a­
nuel Kant in seinen letzten Lebensjahren. Ein Beitrag z u r Kenntnis seines
<,'bantklers und häuslichen Lebens aus dem täglichen Umgange mit ihm
(liiniimiitol Kant em seus últimos anos de vida. Urna contribuição para o
c<wl)ffimcnto da seu caráter e vida fam iliar a partir da convivência diá­
ria com <•!('). Königsberg: Nicolivius, 1804.

XL
Crílica du r&zàv prCilUM

ilih-ivnte cios outros exem plares pessoais, líssr Hnml


i •vi 'nipiar representou, nas posteriores mãos de Schopcn-
Ii.ukt, “uma incalculável relíquia de Kant”fr1.
Para nós, que vivemos distantes de Königsberg e
1’unktiirt, a relíquia incalculável que temos em mãos é a
I ir<ipria Crítica da razão prática, da qual, como testem u­
nhas de sua universalidade e pelo em penho a que nos
desafia, esperam os colher os maiores frutos.

64. Schopenhauer recebeu de um dos sucessores de Wasianski, Ed.


Krüger, conselheiro de Bismark em Frankfurt, o Handexemplar da Criti-
i <t dtt razão prática. Segundo a narração de sua conversação sobre Kant
(Lilcida de 1857, Schopenhauer declarou: “Eu possuo urna incalculável re­
líquia dele.” E, dizendo isso, trouxe um livro, "Trata-se do Handexemplar
d,i Kritik der praktischen Vernunft, que ele usou em sutis aulas, com ano-
LH óes <ftandbemerkungetí> de sua própria mão. Devo este tesouro à
aniabüidade de um amigo, mas só em prestado, pois tive de prom eter-lhe
i H)<-■ele depois de minha morte tinha de retornar aos proprietários." (Cf,
( íKIlíSEBACH, Ed. Schopenhauers Gespräche und Selbstgespräche... Ber­
lin1. I:. Ilofm ann und Co. 1898, apud VAHINGER, H. Mitteilungen. ICants
I laiKlexemplar der 'Kritik der praktischen Vernunft'. Kantstudien , v. 2, p,
i>«, 1899).

XLI
B ibliografia

1. E dições alem ãs da Crítica da razao prática65

1. ORIGINALAUSGABE / Edição original (A): Critik


iIrr praktischen Vernunft von Immanuel Kant. Riga: bei
|i>hann Friedrich Hartknoch 1788.
2. 2? edição: Riga 1792; 4? edição: Riga 1797 (nâo se
Inn conhecimento de uma 3'-' edição); y. edição: Leipzig
IN 18; 6a edição: Leipzig 1827.
3- Reimpressões: Frankfurt/Leipzig 1791 (com uma
lisLa de correções tipográficas), 1795, 1803; Graz 1796.
4. ROSENKRANZ: Immanuel Kant’s Sämtliche Werke.
I'tl. por Karl Rosenkranz e Friedrich Wilhelm Schubert, v.
8. Ed. por K. Rosenkranz, Leipzig, 1838, pp. 103-318.
5. HARTENSTEIN: Immanuel Kant’s Werke. Edição
completa em 10 volumes, cuidadosamente revista. Ed.
por G. Hartenstein, v. 4. Leipzig, 1838, pp. 95-290.

(n Estes dados baseiam-se principalmente nas informações biblio-


j'i'ilicüs de Heiner Klemme (veja abaixo sob rí’ 9), pp. XlX-XXi; e em HINS­
KI!, N. /-WEISCHEDEL, V. Kant-Seitenkonkordanz. Darmstadt; W issen­
schaftliche Buchgesellschaft, 1970, pp. 144. Para inform ações comple-
nu'iuares a respeito, cf. as observações de P. Natorp ein Anmerkungen
tlcr Bände l-V , Ak pp. 489-509. As letras maiúsculas indicam a denomina-
habitual das principais edições.

XL1U
Im m anuel Kant

6. HARTEN STEIN: Immanuel Kant’s Sämtliche Werke.


lim ordem cronológica. Ed. por G. Hartenstein, v. 5. Leip­
zig 1867, pp. 1-169 (2? ed. 1867).
7. KIRCHMANN: Kritik, der praktischen Vernunft. Ed.
e com entada por Julius Hermann von Kirchmann. Ber­
lin, 18Ó9 (3? ed. Heidelberg, 1882; 4a ed. Leipzig, 1897 =
Philosophische Bibliothek v. 7; Comentários v. 8).
8. KEHRBACH: Kritik der praktischen Vernunft. Ed.
por Karl Kehrbach, Prefácio do Ed. datado de 1878 (= Re-
clams Universal-Bibliothek n? 1111-1112), contendo o tex­
to da I a edição de 1788 (A), tom ando em consideração a
2? edição de 1792 (B) e a 4? edição de 1797 (D).
9. VORLÄNDER: Kritik der praktischen Vernunft. Ed.
com uma introdução, bem como índice de autores e glos-
,s;1rio de Karl Vorländer. Leipzig 1906 (5a ed. 1929, = 5't a
9:' ed. na Philosophische Bibliothek v. 38; 10a ed. 1.990;
edição do jubileu pelos 125 anos da Ph.B., como v. 2 de
Iruimmuel Kanl-, Die drei. Kritiken, com uma bibliografia
de I leiner Klemme, 1993).
10. AKADEMIE-AUSGABE: Kants gesammelte Schri­
ften. Ed. pela Königlich Preußischen Akademie der Wis­
senschaften, v. 5. Ed.. por Paul Natorp. Berlin 1908; 2a ed.
1913, pp. 1-163; Anotações {Anmerkungen) pp. 489-512
(489-511). Reimpressões: Berlin. 1961; 2a ed. 1969- Edi­
ção de bolso: Kants Werke. Akademie Textausgabe. Ber­
lin 1968. Anotações (Anmerkungen der Bände 1-V) cra
volume separado, Berlin 1977.
11. CASSIRER: Immanuel Kant’s Werke. Em colabo­
ração com H. Cohen, A. Buchenau O. Bueck A. Görland,
li. Kellermann. Ed. por Ernst Cassirer, v. 5, Berlin 1914,
A'/;Ked. por Benzion Kellermann, pp. 1-176; variantes
pp. 569-81.

XLIV
Crítica da razàu fyrálit ü __

12. Immanuel Kant’s Sämtliche Werke in sechs Häu -


«A'//. I'xl. pelo grão-duque Wilhelm Ernst, v. 5. Kd. por
l*i-Iix Gross, Leipzig 1920.
I.i Kants Werke in drei Bänden , tom ando por ba,sc
,i rd. da Preußischen Akademie der Wissenschaften, ed.
<■ mir. por August Messer, v. 2, Berlin/Leipzig ca.1925,
P P . 107-570.
14. Kritik der praktischen Vernunft. Antiga edição
de Kehrbach. Ed, por Raymund Schmidt. Leipzig, 1929
ifdigoes ulteriores: Leipzig, 1957 etc. = Reclams Univer-
'.,tl IBibliothek; n? 1111-1113).
15. WEISCHEDEL: Immanuel Kant. Werke in sechs
Händen. Ed. por Wilhelm Weischedel, v. 4, Wiesbaden, 1956
(Frankfurt, 5! ed. 1983- Paralelamente na Wissenschaftliche
buchgesellschaft, Darmstadt: edição especial em 7 volu­
mes, 1998 (inclui no v. 7 o dicionário de C.C.E. Schmid).
Hdiçôes de bolso: Kant. Werke in zwölf Bänden, v. 7, Frank­
furt: Suhrkamp, 1968; reimpressões 1974 etc.; Immanuel
Kant Werke in zehn Bänden. No v. 6, Darmstadt: Wis­
senschaftliche Buchgesellschaft, 1968, ed. especial 1983-
16. Kritik der praktischen Vernunft. Ed. por Joachim
Köpper. Stuttgart, 1961, etc. = Reclams Universal-Biblio-
iliek n? 1111-1113, depois n° 1111.
17. Kritik derpraktischen Vernunft / Grundlegung zur
Metaphysik der Sitten. Ed. por Martina Thom, Leipzig, 1978
<2“ ed. 1983) = Reclams Universal-Bibliothek, n? 704.

Quando não houver outra indicação, as referências


c citações de textos de Kant apoiar-se-ão na edição de
W. Weischedel: KANT, I. Werke in zehn Bänden. Ed. por
Wilhelm Weischeclel. Darmstadt: Wissenschaftliche Buch­
gesellschaft, 1968. As da Crítica da razão prática apoiar-

XLV
fm m ttnuc ’1Ktinf

M- .ui diivtamentc no l a l o da piimvira edição original


fe d k a o “A">. reprodu/.ida na cdieão hilínfítio de.sta tradu
c.ui: KANT. I ( J itih itcr [ » a k ü s i hcu Vernunft. Riga: be\
Johann Friedrich Hanknoch, H.SH.

J. S o h r v a f i l o s o f i a m u r a l de K a n t 1'

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Crítica da razão prática

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LEX
.Immanuel Kant

3■ P rin cipais abreviações u sa d a s de o b ra s de Kanl

EF —Zum ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf


CÀ pa 2 perpétua. Um projeto filosófico)
Fortschritte — Welches sind die wirklichen Fortschritte,
die Metaphysik seit Leihnizens un d Wolffs Zeiten in
Deutschland gemacht hat? (Quais são os efetivos pro
gressos que a Metafísica alcançou na Alemanha desde
os tempos cie Leibniz e Wolff?)
Grundlegung - Grundlegung z u r Metaphysik der Sitten
(Fundamentação da metafísica dos costumes)
KpV - Kritik der praktischen Vernunft (Crítica da razão
prática)
K rV - Kritik der reinen Vernunft (Crítica cia razão pura)
KU - Kritik der Urteilskraft (Crítica da faculdade do juízo)
MS - Die Metaphysik der Sitten (Metafísica dos costumes)
MS/R - Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre (Pri­
meiros fundamentos metafísicos da doutrina do direito)
M S/T - Metaphysische Anfangsgründe der Tugendlehre
(Primeiros fundam entos metafísicos da doutrina da
virtude)
Prolegomena - Prolegomena z u einer jeden künftigen
Metaphysik, die als Wissenschaft wird auftreten kön­
nen (Prolegômenos a toda metafísica futura que possa
apresentar-se como ciência)
Religion - Die Religion innerhalb der Grenzen der blo­
ß e n Vernunft (A religião dentro dos limites da sim­
ples razão)

LX
Cronologia1

172-1. 22 de abril: nascimento de Immanuel Kant em Kö­


nigsberg como o quarto de nove filhos do seleiro
Johann Georg Kant (nascido em 1683) e de sua es­
posa Anna Regina (nascida em 1697).
1730. Ingresso na escola primária.
1732-1740. Estudos de ginásio no Collegium Fredericianum,
dirigido pelo pastor Franz Altert Schultz (1692-1762),
também professor titular de Teologia da Universi­
dade de Königsberg. Estudo dos autores antigos e
da língua latina.
1737. Morte da mãe.
1740-1746. Estudos de Filosofia, Matemática e Ciências Na­
turais na Universidade de Königsberg. Influência do
mestre wolffiano Martin Knutzen (1713-1751) e fre­
quência às aulas de Teologia de Franz Aibert Schultz.
Mora fora da casa dos pais e sustenta-se com aulas
particulares.

1. No estabelecimento desta cronologia foram consultados: SCHULTZ,


11. Kant. 3? ed. Hamburg: Rowohlt, 1969; GULYGA, A. Im m a n u e l Kant,
iT.inkfurt-. Insel, 1981; GERRESHEIM, E. (ovg.). Im m a n u el K an t 1724/1974,
Kun! als p o litisch er D enker. Bonn-Bad Godesberg-. Inter Nationes, 1974;
OG 15 - Handlexikon. Berlin: Ullstein, 1964; Caygill, H. D icio n á rio Kant.
Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

LXI
___________________________Immanuel Kant.______________________

1746. Morte do pai. Primeira publicação: Ideias para umtt


verdadeira avaliação dasforças vivas. O livro corne
ça com uma epígrafe de Sêneca e contém no Pre­
fácio a conhecida frase: “Sobre isto me fundo. Já tra
cei o caminho que quero seguir. Principiarei minha
carreira e nada me impedirá de prossegui-la" (A IX).
1746-1755. P'receptor ein diversas famílias dos arredores
de Königsberg.
1755. O btenção sucessiva dos títulos de Mestre e Dou­
tor com a dissertação Sobre ofogo. No mesmo ano,
obtenção do título de Livre-Docente com a tese
Nova elucidação dos primeiros princípios do conhe­
cimento metafísico. Início de atividades de livre-do-
cência na Universidade de Königsberg.
1756. Escreve dois ensaios e um livro sobre o terremoto
de Lisboa e defende em disputa pública a Mona-
dologia física.
1761. Martin Lampe, ex-soldado do exército prussiano,
torna-se por mais de 40 anos criado de Kant.
1762-1764. Johann Gottfried Herder (1744-1803) freqüenta
as aulas de Kant.
1764. Kanl recebe o segundo prêmio por sua Investiga­
ção sobre a distinção dos princípios da teologia
natural e da morai. O primeiro prêmio foi conce­
dido a Moses M endelssohn (1729-1786). - Kant
rejeita o convite do governo para assumir uma cá­
tedra de Arte Poética.
1765. Obtém o primeiro emprego público fixo como vice-
bíbliotecário na biblioteca real do castelo de Kö­
nigsberg.
1769. Rejeita convites para professor titular em Erlangen
e Jena, na expectativa de obter uma cátedra em
Königsberg.

l x ii
Crítica du razão prática ,__

I Torna-se professor titular regular de Metafísica v


Lógica na Universidade de Königsberg, mediante
a apresentação em disputa pública da dissertação
Sobre as formas e princípios do m undo sensível e
inteligível.
I !11. Kant abandona as atividades d.e bibliotecário. Ex­
põe pela primeira vez, em carta a Marcus Herz, as
linhas fundamentais de sua concepção cia Crítica
da razão pura.
1775. Publica: Das diversas raças dos homens.
178 1. Crítica da razão pura.
Prolegômenos a toda metafísica futura que possa
apresentar-se com,o ciência.
1784. Ideia de uma história universal de um ponto de
vista cosmopolita.
1785. Fundamentação da metafísica dos costumes.
I7HÓ. Kant é escolhido Reitor da Universidade. Nestas
condições, depois da morte de Frederico o Gran­
de, presta as homenagens da Universidade ao no­
vo rei Frederico Guilherme II, que lhe confere uma
condecoração especial. Publica: Primeiros princí­
pios metafísicos da Ciência Natural, bem como Iní­
cio presumível da história hum ana , e ainda Que
significa orientar-se no pensamento? É eleito mem­
bro da Academia de Ciências de Berlim.
1787. Adquire uma casa própria em Königsberg. Segunda
edição da Crítica da razão pura.
1788. Segunda gestão como Reitor. Publicação da Crítica
da razão prática, bem como Sobre o uso de princí­
pios teleolõgicos na Filosofia.
1789. O escritor russo Nikolai Karamsin (1766-1826) faz
uma visita imprevista a Kant, que o acolhe afavel­
mente por três horas.

LXIII
Immanuel Kant

1790. Crítica da faculdade do juízo.


1791- Fichte visita Kant pela primeira vez.
1793. A religião nos limites da simples razão. Publica ;tín
da Sobre a expressão corrente: “Isto pode ser conv
to na teoria, mas nada vale na prática
1794. Conflito com o serviço de censura da Prússia. Redil
ção progressiva da atividade docente. Kant torna
se membro da Academia Imperial-Russa de Cicn
cias de São Petersburgo.
1795. À p a z perpétua.
1796. Abandono da atividade docente. Última aula em 23
de junho.
1797. Metafísica dos costumes, com duas partes: Primeiros
princípios metafísicos da doutrina do direito, e Pri­
meiros princípios metafísicos da doutrina da virtude.
1798. Antropologia de um ponto de vista pragmático.
Publicação também de O conflito das faculdades.
Kant torna-se membro da Academia de Ciências,
Literatura e Arte de Siena.
1799. Declaração contra Fichte.
1800. Debilitamento físico. O aluno e diãcono Wasianski
assume os seus cuidados. Outros alunos começam
a organizar a publicação de suas lições. Jäsche edi­
ta a Lógica de Kant.
1802. Rink edita a Geografia física de Kant.
1803- 9 de abril: última carta de Kant. Outubro: primeiro
adoecimento grave. Rink edita as lições Sobre Pe­
dagogia.
1804. 12 de fevereiro, 11 horas: morte de Kant. Sepul-
tamento em 28 de fevereiro. Rink edita Quais são
os verdadeiros progressos da Metafísica desde os
tempos de Leibniz e Wolff?

LXIV
Crítica da razãopm licct ___

Setembro: Wasianski, a quem Kant pre.senlc:it':t com


seu exemplar pessoal da Crítica da razão prálica,
publica: Immanuel Kant em seus últimos anos dc
vida. Uma contribuição para o conhecimento dc
seu caráter e vida fam ilia r a pa rtir da convivência
diãria com ele.

LXV
CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA
[3] Prefácio

O presente tratado esclarece suficientemente por que


tu,i;i C ríti^ n ã o éi^itu lad^C n rtca da razão prática p u ra 1
/
nus simplesmente Crítica da razão prática em geral, aif>
( I;i que o seu paralelismo com a crítica da razão especula-
iívli pareça requerer o primeiro título. Ela deve meramen­
te ciêrno nstrar y^ue há uma razão prática pura/1. em vista
( Iissc^ritica toda a sua táciildade prática/ Se ela o conse­
gue, nao precisa criticar a própria faculdade pura para ver
se a razão não se excede, com uma tal faculdade pura,
numa vã presunção (com o certamente ocorre com a razão
especulativa). Pois, se ela_£nq.uanto razão pura, é efetiva­
mente prática, prova sua realidade e_a de seus_conceitps
pelo ato2 e toda a arguicào dessa possibilidade é vã.

1. Sobre a questão da tradução da expressão reine praktische Ver-


iumft e sua justificação, cf, ROHDEN, V. Razão prática pura. Dissertatio,
Pelotas, n. 6, pp. 69-98, verão de 1997.
2. O termo Tat provém do verbo tun, traduzindo-se preferentemente
por “ato”, com o significado de feito ou de resultado de urna ação. Mas Le­
wis White Beck o traduziu para o inglês por action-, It will show its reality
und tbat ofits concepts in actinn (cf. KANT, I, Critic of Praclical Reasan. New
York: MacmiUan, 1993, p. 3). Na Metafísica dos costumes (cit. MS') o termo
Tat é definido como ação produtora de um efeito, conscientemente pratica-
d;i por uma pessoa, e em que tanto o efeito com o a ação podem ser-lhe

3
Immanuel Kant

\4] Com esta faculdade fica doravante estabelecida


também a liberdade transcendental e, em verdade, na­
quele sentido absoluto em que a razão especulativa, no
uso do conceito de causalidade, a necessitava para sal­
var-se da antinomia em que inevitavelmente cai ao que­
rer pensar, na série da conexão causai, o incondicionado;
conceito esse que ela, porém, podia fornecer só proble-
maticamente, com o não impensável, sem lhe assegurar
a respectiva realidade objetiva, unicamente para não ser
contestada em sua essência, mediante pretensa impossi­
bilidade do que ela tem de considerar válido, pelo me-
nos enquanto pensável, e não ser precipitada num abis­
mo de ceticismo.
O ra, o conceito de liberdade, j iajng£Üda -em que sua
realidade é provada por uma lei apodíctica da razão prá-
i ica, constitui o fecho de abóbada de todo o-ediSdo de um
sislema da razào pura, mesmo da razão especulativa, e to­
dos" os demais conceitos (os de Deus e de imortalidade),
que p e rm a n e c e m , sem sustentação nésta^.última>. Cflm o
simples ideias, seguem-se agora a ele e obtêm com ele e
a traves dele consistência e realidade objetiva, isto é, a [5]
j?os.sibüidade dos mesmos é provada pelo Jato-xlcT qt ie-a
liberdade efetivamente existe ;_pois esta ideia manifesta -
se pela lei moral.

imputados ícf. MS AB 22). Kant mesmo usa aí, para Tat, o termo Ak!
(noutras vezes actus). Mais expressivamente ainda ele escreve pouco
depois: “Imputação em sentido moral é o juízo, pelo qua! alguém é con­
siderado causa ( causa libera) de uma ação, que entâo se chama ato
( factum.) e está subordinada a leis” (MS AB 29). Sobre a relação entre
'lat e factum cf. ALMEIDA. G. Kant e o "facto da ra2ão": “cognitivism o”
ou “doei,sionismo” moral? Studia Kantiana, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, pp.
5S s., .se!. 199H.

4
Crítica da razão prática

Mas a liberdade é também a única entre todas :is


Ideias da razão especulativa de cuja possibilidade sabemos
ii priori, sem, contudo, ter perspiciência3 dela, porque cia

3- N o original: ohne sie doch eínzuseben. Reelaboro aqui o que já


i ilisLTvara sobre o termo Einsicht e seu correspondente latino perspicien-
Hn cm KANT, I. Crítica da faculdade do ju íz o 2? ed. Trad. Valerio Roh­
den c Antônio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, pp.
ii'i-7. ~ 1) O termo perspicientia foi empregado filosoficamente por Cíce-
m no sentido de um conhecimento completo de algo. Cf. CÍCERO, De
officiis I, 15 (trad. bras. Dos deueres, Martins Fontes, São Paulo, 1999.) Cf.
l.mibém GEORGES, K. E. Ausführliches Lateinisch-Deutsches Handwör­
terbuch. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1988, v. 2, p.
11)44, Segundo Georges, no domínio literário o verbo perspicere foi usa­
do por PLAUTO, Cure. 144 G. Perspicuitas, no sentido de clareza, foi
usado por PLÍNIO 37, 79- - 2) Kant empregou o termo predominante-
mente no sentido de Cícero - que o vinculara praticamente a prudência
r sabedoria - ao distinguir, na Reflexão 426, entre perceptio , cognitio,
\cientia, intellectio, perspicientia e compreensio. A o termo perspicientia
K:mt acrescentou: Einsehen ( durch Vernunft) (perspiciência (pela ra-
/:ín)|. Na reflexão 437 distinguiu entre os princípios do Einsehen e do
Verstehen (compreender), observando: “A faculdade de julgar a priori (con­
cluir) é a razão. Einsehen “ (Cf. K A N T ’S Gesammelte Schriften. Berlin:
Walter de Gruyter, 1923, v. XV, pp. 170 e 180, respectivamente; cf. tam-
licm KANT, I. Lógica. Trad. de Guido de Almeida. RJ; Tem po Brasileiro,.
1992s p. 82, Ak 65; ou: Manual dos cursos de lógica geral. Trad. Fausto
Castilho. Campinas/Uberlândia: TFCll-UNTCAMP/EDUrU, 1998, p. 111).
Num esboço de carta do verão de 1792 ao principe A. von Beloselsky,
Kant observou: “ A esfera da perspicacité é a da perspiciência <Einsicht>
sistemática da interconexão da razão dos conceitos em um sistema” (cf.
K AN TS Gesammelte Schriften, v. XI: Briefwechsel v. II, p. 346. Cf. a res­
peito também KANT, I., Opus posíumum, Tradução, apresentação e notas
de François Marty. Paris: PUF, 1986, p. 234). - 3) A língua alemã utiliza
cmno equivalente de perspicientia / Einsicht o termo Durschauung /
durchschauen = ver através de, ter uma visão perspicaz, penetrante, in-
lerna, portanto desveladora, p. ex., daquilo que normalmente se oculta,
mi escl.arecer-se sobre algo, ter clareza. Para durchschauen possui ainda
i is equivalentes durchsehen, durchblicken, durchlesen.—4) Correspon­
dentemente, talvez pudéssemos adotar em português, para Einsicht /
duschen, ver com perspicácia, ter uma visão penetrante ou perspicaz,

5
Immanuel Kant

c a condição4 da lei moral, que conhecemos <wissen>. A n


ideias de Deus e de imortalidade, contudo, nâo são con
dições da lei moral mas somente condições do objeto |6|
necessário de uma vontade determinada por essa lei, islo
é, do uso meramente prático de nossa razão pura; porta n
lo nâo podemos tampouco afirmar acerca daquelas idéias,
não quero simplesmente dizer a efetividade mas sequer a
possibilidade de conhecê-las e ter perspiciência delas,
Apesar disso, elas sâo as condições da aplicação da von­
tade moralmente determinada a seu objeto, que lhe foi
dado a priori (o sumo bem). Consequentemente, sob este
aspecto prático a sua possibilidade pode e tem que ser ad-

evidência. Mas, por outro lado, talvez pudéssemos incorporar “perspi-


ciència” com o um termo técnico para expressar uma forma de conheci­
mento racional. Contaríamos com o antecedente do tradutor latino de
Kant, Bom, que, na tr adução da Crílica da razão pratica , empregou paru
Einsicht o termo latino perspicientia e, para einseben, perspicere, p. ex.,
na seguinte passagem: Nun est aber alle menschliche Einsicht zu Endt'
IK/>V A 81): Atqui omnis humana perspicientia haaret (cf. IMMANUEUS
KANTII. Critica rationispracticae. Tracl. lat. Fredericus Gottlob Born. Lip-
siae: Engelhard Benjamin Schwickerti, MDCCLXXXXVII, p. 39. Confesso
alguma hesitação na adoção de um termo alheio ao uso comum, feita,
no enlanto, na esperança cie que o leitor possa vir a oferecer sua própria
eonirilmíçâo a respeito. Para tanto convém ler a resposta de Kant, neste
Prelado, a crílica de que ele pretendesse introduzir uma “nova lingua­
gem" n;< Mnr.il (<’í, K[>V h 19 s.J.
I, Para que nau ,se imagine encontrar aqui inconsequências, quan­
do agora denom ino a liberdade condição da iei moral e depois, no tra-
lailn, iiliriini que a lei moral seja a condição sob a qual primeiramente
podemos loruar nos consclciiles da liberdade, quero apenas lembrar que
a liberdade e Nem duvida a wlin i'sseiidi da lei morai, mas que a lei m o­
ral c a n ili n da liberdade. Pois, se a [ei moral não fosse pen­
sada anifs daramenle em nossa razão, jamais nos consideraríamos auto­
rizados a admllir algo eomo a liberdade (ainda que esta não se contradi­
ga). Miifi, st' uao exibisse liberdade alguma, a lei moral não seria de
modo algum eiiconln ivd em nós. (K )

6
____ Crítica äa razão jirtilh ti

miikln, sem que se a conheça e se tenha dela uma per.spi


i ii'iu'ia teórica. Para a última exigência basta, dc um pon
i>>de vista prático, que ela não contenha nenhuma impos
mI íilidade intema (contradição). Ora, aqui se encontra, cm
comparação com a razão especulativa, um fundamento
meramente subjetivo do assentimento, que, todavia, é ob-
|elivamente válido para uma razão igualmente pura mas
I irática, com o que e mediante o conceito de liberdade é
I m )porcionada realidade objetiva às ideias de Deus e de
imortalidade e <é proporcionada> a faculdade, antes, a
necessidade subjetiva (carência da razão pura) de admi-
i i Ias, sem que com isso, todavia, a razão seja ampliada no
conhecimento teórico, mas que apenas a possibilidade,
que antes nâo passava de problema e aqui [7] se toma as­
serção, seja dada, e assim o uso prático da razão é co-
iicctado com os elementos do uso teórico. E esta carência
nào é, por assim dizer, uma necessidade hipotética de um
<ibjetivo qualquer da especulação - de que se tenha de
admitir algo caso se queira eleva.r-se à completude do uso
da razão na especulação — mas é uma necessidade legal
de admitir algo, sem a qual não pode ocorrer o que se
deve pôr incessantemente com o objetivo de sua conduta.
Seria certamente mais satisfatório para nossa razào
especulativa resolver aqueles problemas por si e sem es-
ics rodeios, reservando sua perspiciência para o uso práti­
co; só que as coisas não se passam tão bem assim com
,i nossa faculdade especulativa. Aqueles que se vanglo­
riam de tais conhecimentos elevados não deveriam abs­
ter-se <deles> mas apresentá-los publicamente para exa­
me e apreciação. Eles querem provar; muito bem!, eles
podem prová-los e a crítica deporá a seus pés, com o ven­
cedores, todas as suas armas. Quid statis?Nolinl. Atqui li-

7
Immanuel Kant

cd esse beatis\ - Portanto, já que de fato não o querem,


presumivelmente porque não o [8] podem, temos que re-
loim r em mãos aquelas armas para procurar e fundar no
uso moral da razão os conceitos de Deus, liberdade e imor-
tãlidade7 de cuja pò^fiiDffctcTê' *;í^■spea ii acao-n ão. en ( nc-m-
suficiente garantia.
Aqui também se esclarece, antes de mais_nada_ o eniq-
ma da Crítica, de como segaossa-eonteslaurealidade obie-
tiva ao uso suprassensível _dag categorias e contudo conce-
der-ihes6 essa realidade com respeito aos objetos da razão

5. HORÄCIO, Sãliras 1, 1, 19- A frase de Horãcio situa-se no con­


texto de uma descrição da insatisfação de cada um com a própria sorte,
imaginando sempre mais feliz o outro do que a sí próprio: o velho guer­
reiro considera mais feliz o comerciante, e este ao soldado, o agricultor
considera mais feliz o advogado, e assim inversa e indefinidamente. O
Poeta imagina então que um deus, satisfazendo esses desejos, diga-,
muito bem, troquem os papéis! Ao que se seguem, na citação de Kant,
as três últimas palavras de Júpiter, com o comentário de Horácio: "'En­
tão, por que hesitais?’ Eles renegariam o desejo; e contudo poderiam
lornar-se agora tão felizes!” (cf. HORAZ. Sämtliche Werke. Lateinisch und
deutsch. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1993, pp. 254-5).
Cimlbrme se pode verificar nesse texto e, comparativamente, em outras
edições du KpV, a edição de Vorländer transcreve nolunt em vez de no-
ii):!. que aliás consta em todos os manuscritos, com exceção d o Bernen-
sls onde se lê nolent (segundo carta de Eckhard le fèv re ao Tradu-
Ini; rl. tamliem KANT, I. Kritik der praktischen Vernunft. Ed. Karl Vor-
l.liuln. 11ji[11!üfiL>: Felix Meiner, 1993, p. 5). Em sua determinação do
n u h rlh i de salira em llorãd o, E. Lefèvre cita uma definição recente de
<iuM.tv A. Sivrk: ela ê ‘‘uma lentutiva de desacreditar, que envolve indig-
n,ii, ii i r i ui nu ilii, liem m i n o uma espécie e forma de apresentação com o
mein Mijii-.-.tivn par.i alcançar o assentimento do leitor” ( upud LEPÈVTíli,
lí, Itoni lU, hhr lnt tiiiyjisicisi hci! Rnm. München: Beck, 1993, p. 87).
As v.illi.i.'. de llo ia rlo lein lim senlido predominantemente moral: ex­
pressam o t n n i l o ile v i i Li correio, chamado entre o.s romanos vita beata
r r n l i v n s } ’, i i ,H ' ' s f i i i h l l w o i i l t i , mas s o l ) L i m a forma argumentativa nega

li Vil, de insaii-.lai, ai i com o desiino em decorrência cia cupidez.


(i. t.idinanii propor ihm (a ele), referindo-o a uso.

8
Crítica da razào jiräticit

prática pura: pois de início, enquanto ne conhece um uil


uso prático só pelo nome, isto necessariamente tem de
parecer inconseqüente. Mas, se agora, por uma análise
completa da razão prática7, se compreende que a men­
cionada realidade não culmina aqui de m odo algum nu-
ina determinação teórica das categorias e numa extensão
do conhecimento ao suprassensível, mas que com isso so­
mente se quis dizer que, sob este aspecto, em toda parte
convém a elas um objeto; assim, quer porque elas estão,
contidas a priori na necessária determinação da vontade,
quer porque estão inseparavelmente ligadas ao objeto
dessa determinação, [9] aquela inconsequência desapa­
rece; pois se faz daqueles conceitos um uso diverso do
que a razão especulativa necessita. Contrariamente se ma­
nifesta agora uma confirmação, sequer esperável antes e
muito satisfatória, do modo de pensar conseqüente da crí­
tica especulativa, no seguinte fato: visto que esta reco­
mendava expressamente considerar os objetos da expe­
riência enquan tojais, e entre, eles inrhisive o nosso pró­
prio sujeito, com o válidos somente enquanto fenômenos.
ioda vi a recor ncnda va .pôr-1hes CQmoJfundamento coisas
em si mesmas, portanto não considerar todo o supra-sen-
sível
_
com o ficcão' '*e seu
....... " 11 * ' . ' 11 u 1
conceito com o* -----
-■ — ’ - ' — •
vazio
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de conteú-
— ■»—1
~

doj^|i__rai'â(j_p£át.ica--ebté«>*ag€>f.a430t.srmesma;-e-sen:i-.tej-
;icerlado um compromisso com a razão especulativa, rea-
Iidade para um objeto suprassensível-da categoria de cau­
salidade..-a sabeR-da-Hberdadt/lcmbora- com o conceito
prático, também só para o uso prático), portanto confir-

7. “Razão prática” consta aí para der letzteren, que a Ak, baseada


<-m Adickes, substituiu pnra des letzteren Cdo último), significando então
M o uso prático da. razão”.

.9
fmmanueí Kaftl

ma mediante um fa ctu m 8 o que ]á meramente podia ser


pensado. Ora, com issQajifiimâg.ãa.ao,mesmo tempo etv
ii-.inha.jembora indiscutível, da crítica especulativa»^ de
que até o sujeito pensante seja pata si mesmo, na intuição
i111erna p fesmente fenörneno^-akanca-agora na Cri-
tica da razão' pm ticctizmbém. a sua plena confirmarão,
a ponto de 110J sa iui-.de- ehcuar a ela mesmo que a Crír,
lica anterior não tivesse também provado^de m odo al­
gum esta proposição9.
Deste m odo com preendo também por que as obje-
yões até agora mais graves que me apareceram contra a
Crítica giram precisamente em torno destes dois eixos:
ou seja, por um lado, da realidade objetiva das categorias
aplicadas aos noumena10, negada no conhecimento teó­
rico e afirmada no conhecimento prático, e, p or outro, da
exigência paradoxal de, enquanto sujeito da liberdade,
considerar-se noumenon , ao mesmo tempo, porém, com

8. Emprega-se, com o o fez Kant - excepcionalmente com letra


maiúscula na K p V -, a forma latina factum, para distingui-la de Tatsache,
'iüto” em seu sentido empírico. A forma germanizada Faktum , adotada
posteriormente, não é de Kant. Cf. adiante também o Corolário ao § 7,
KpV A 56, e A 96, e ainda as Reflexões 6809 e 7131, Ak v. XIX, pp. 168
r 255, respectivamente, etc. Constata-se também em textos de J. Derrida
0 uso do termo latino factum.
9. A união da causalidade, enquanto liberdade, com a causalidade
enquanto mecanismo da natureza, sendo a primeira estabelecida pela lei
moral e a segunda pela lei naWral e, na verdade, em um e mesmo sujei-
In, o luimem, é impossível sem representar a este, em relação com u lei
moral, com o ente em si mesmo, e em relação com a lei natural, porém
1i mm íenômeno, aquele na consciência pura e este na consciência em pí­
rica. Nem isto a contradição da razão consigo mesma é inevitável. 0 0
ii). I'.iti relação aos termos singular e plural noumenon / noumena,
•ii li >l.i se a sua lorma grega, com o Kant em geral também o fez; cf., p,
■■s.. A/ P li »M/A 235.

10
Crítica da razào /inifka

visias ã natureza considerar-se fenôm eno em sua própria


eimsciência empírica. Pois enquanto não se Ibrmava ain­
da nenhum conceito determinado de moralidade e liber­
dade não se podia [11] supor que coisa por um lado se
queria pôr, enquanto noumenon, com o fundamento do
pielenso fenômeno, e, por outro lado, se em gerai tam­
bém é possível formar ainda um conceito dele, quando
a nles se haviam consagrado todos os conceitos do en-
lendimento puro, no uso teórico, exclusivamente aos sim­
ples fenômenos. Somente uma crítica minuciosa da ra-
/ao prática pode remediar toda esta má interpretação e
pôr em clara luz a maneira de pensar conseqüente11, que
justamente constitui a sua máxima prerrogativa.
Basta isto para justificar por que, nesta obra, os con-
eeitos e proposições fundamentais <Grundsätze>lJ da ra­
zão especulativa pura, que já sofreram sua crítica parti­
cular, são aqui às vezes submetidos de novo à prova, o
que, aliás, não convém muito ao curso sistemático de
uma ciência a ser constituída (já que coisas ajuizadas, jus-
la mente, só têm que ser referidas e não ser de n ovo dis­
cutidas), o que, porém, aqui era permitido e mesmo ne­
cessário; porque com aqueles conceitos a razao é conside­
rada em trânsito para um uso totalmente diferente do que
ela lá fez deles. Semelhante [12] trânsito, porém, torna
necessária uma comparação do uso antigo com o novo
para distinguir bem a nova via da anterior e, ao mesmo
lempo, permitir observar a sua interconexão. Portanto con­
siderações dessa espécie, entre outras aquelas que foram
novamente dirigidas ao conceito de liberdade mas no uso

t i. Cf., no mesmo sentido, KANT, I. Crítica da faculdade do juízo,


Trad.. p. 141, B 158.
12. Cf. a nota do tradutor em A 26.

11
i-ttnmmtic! Kau!

[n.ilh i' il.i i.i/..ui [Mira, nào ,s erão \ istas c o ilio obstácu los
1111c■ |>< 'ivi'iiiu r;i só d e v e m servir pura p reen ch e r lacunas
. 1.1 ■.i■,11 11 i.i 11 iik i >da razà<> esp ecu la tiva ( pc>is este é ci>ni
1111■111 cm seu o b je t iv o ' e . c o m o sói a c o n te c e r em uma
I.' in.-,i 11 u.a o precipitada, para d e p o is ainda c o lo c a r estacas
> 1 1 ii iii a loiK-.s. mas serão vistas c o m o v e rd a d e iro s m ein
í ! 11 r. q u e tornam o b s e rv á v e l a in le rc o n e x á o d o sistema
i p erm iiem ler at;e>ra em sua real a p re sen ta çã o a perspi
i n'i icia'1d e c< >nceit< xs que lá pu deram ser re p res en ta d o s s< >
I in ib lem a ticam en ic. F.stu a d vertên cia c o n c e rn e principal
m ein e a o c o n c e ito cie lib erd a d e, acerca d o qual se tem
Mnr o b serva r co m estranlie/a q u e ainda tantos se van
'.‘J tiriam d e su a1 perteiia p ersp iciên cia e d e serem capa
/cs de e x p lic a ra possibilidade tia mesm a"', na m ed id a em
ipu- co n sid era m o c o n c e ito .M niplcsm entc so b o asp ecto
p s ic o ló g ic o . en q u a n to, se anles o tivessem co n s id e ra d o
i-\alam enle sob o asp ecto transcendental. |15] teriam q u e
tei c o n h e c id o tanto a sua in dispen sabilidadc. c o m o c o m
. cito p rob lem á tico n o uso c o m p le to da raxáo especulali-
\.i bem c o m o a lotai in com prcen sibilidade d o m esm o e,
'|iiaiulo d e p o is se dirigissem co m e le ao uso prálico, ju.s-
u m c iilc lerium q u e ter c h e g a d o p o r si ã releriila d e te rm i­
nai ao d o liliim o relativam en te a suas p r o p o s iç õ e s iunda-
11n'Miais, acerca tle cuja determ in a çã o eles. aliás, q u erem
t.i>> ,i ci m lra g o s k > en ten d er-sc. O c o n c e ito d e lib erd a d e
i a [ H ilra de escân dalo para Io d o s os empirista.s mas tam

I - 11 ! i i i n M i i n i'i >rns4^' iiH t i t v * ). m i I i m u u i i u l i i-< > p < »r mu t p ; ir r i )

í ! 11 1m n r ; i / ; u i i ‘li m i n . 1 •<i ~u 1p . t n . ! ,

I ‘ [■..u M ih u u ' k ' i kl» i d i. í ii H V i t t !.

I'* i I 1r «I.i f. j Cr.1 (.‘i l u u t ' S i't íi ist« m) ( f t W / l h ' H U I.i r v ji-

11111' I lll “ III..I» li ' li.li' {/(*//í(.'//1tJIJr|U'Ml KI). ÍVUTkll ' JH t t ÍU>. I J.
I M1ll ■1i » i:. a I .'lu \ 'n
( 11/'/( ft r/l t n r ih ' ß ' h i ' l u II

I ■■ in a chave das mais .sublimes proposivoe.-, Innd.inn-nui1.


pi.üicas pant moralistas críticos, que com ivso-iem .1 p<-i
pieiencia d e qu e precisam proced er de in»«.In ne» »-■■-..1
n.unenie racional. I’or causa disso advirto o leiior .1 m.10
lep.irar com olh o s fut>idios o que na conclusão da A m
liiica é dito sobre esse co iiccilo.
Ten h o »,|ue deixar aos versados ein sem ellu nte tra­
balho ajui/ar se um lal sistema. cotn o o que aqui ê dc-
.envolvido sobre a ra/ào prática pura a partir da crítica da
i.i/.ao. envolveu muito 011 pouco esforço, principalmente
para não talhar o ponto de vista exato desde o qual o to­
do da mesma pod e ser corretamente maçado. O que. 114]
na verdade, pressupõe a íiiihtaiueit/açào ikt metafísica
i/uvcostumes, mas só na medida em que esta chega a c o ­
nhecer provisoriam ente o principio d o d ever e indica e
instifica uma fó rm ula determinada deste1-: atora isso uni

P . I 111 irilin )’’ i|in.' i|iutí:i i-Nprc-iar aliyi em <.l<,'^.it><m*) iíi-m-úi pu-
I 'iK':u ;i(i. levv (IH-IIk h' .noiU- -tlij i'lr iiil-Mitij pi »sa Irr inuyiir.uli i. an
ll/i-r c|lie m ia nao lui .[|í[\:-.L. nl;[tlri ni-nlulil! prU'ii 11')"t<i novo da iiíoralitla
•Ir mas MimoTU' uniu nova Itirmula. \U». qiiciiT t‘ f|Ui‘ i|ucria inn-rnki/.ir r.iin-
lH-m m m no\ a proj*«.k.ii 1 11L1kI-Miil-111.11Je Iml.i a itu nalul-rk1 <<|iit
ivinia-la pvla priim-ira m vv i.JuiIU. pmvm. -..ilv '' >pu- '-i;;iií1h ,i para 11
1'iak‘iiiaiit í 1 11111.1 lijrmula. ,1
]>;Ji".» i.'Xó.nlar nm.i i,n>'la t li-n ■ri 1no .1 Ik.mi'
s.iiaincntf v nao tk-i\a mnl<>f{rjr «> «(Lie ilr v r n r leiu >■ nau f >n.-.kk:‘iara
uma liinimia. ijui* la/ ÍM< >in lii \iMas ,1 toilii (1 ik-u-i i-ni líóral. .ri min aifju
■' M x n i i I * a í i i i ‘ V 1.1is| i.l. 1r1s r I <.-■! !l\)
1 ) eril i'..ai ,n 1íjii.il Ka 11.I x- ivU-i v nv.->Sil ujua vliai miu-.m.' <h >11Uil' Ao
ii--i Tiiri-) t !~.VJ Islíjj, n nisvlhoro k'-aasin ! i viu Kai I.M'uh»'. adv^rsario
■:.! i-i ii a ik- kaiTt atk'pti >tlt >n ulaínii hiímiim v\>ir.< t n m u itv.'s1 ri1 |. (1 11
I vi.li.-t ( 1~IM I S i l r . Mjntii.'»'11.Ic1 [íHr unia po lõ m iia iv-fvnsai>
. ila. ( r i a m tUt
u f . t i t i f>nrci. .mu.nja iv>r k.inl nu A jh -ikIíiv : » « <t I. mais a
II '.'-.pvili) n:t l arl a tli.- ( ('p,in i -a l\aiu ilv I.i.- . I 1 * ) li-\u >.14111 n u m n v-
,.111 li ii: '| rrir.t.. l i. A. •(In>>-lh’>r>i h ttiiíi- \ ii> n ilii:b > rw . 1 r.m klm i > Iv ip
'•i;;: U-v tlvi: ( .i'briliU'm flâ llir:, l-S(i Kaill pivivin k'U iv-pMiuk-; lln 1 , li
.■'urtlo iriiii i.iria ik- I, I,. Hk'Mi’r. ik' I I o. I -S(> u i. K Á ^ I. I. l í r k j i i C i hst-i
I !.ii niiiirtii 1 IvIín Mviik i'. P)Hfi. pp. i9 'í s.. id i, .-Í1IS' i- i-f 1( 1).

15
Immanuel Kant

tal sistema subsiste por si próprio. Um argumento válido,


pelo qual a divisão de todas as ciências práticas com vis
tas à completude não foi anexada, como o fez a crítica d.i
razão especulativa, pode encontrar-se também na natuiv
za desta faculdade racional prática. Pois a determinação
específica dos.deveres com o deveres [15] humanos, para
dividi-los, somente é possível se antes o sujeito dessa de
terminação (o homem) for conhecido segundo a natureza
que ele efetivamente detém, embora apenas na medida
em que é necessário com relação ao dever em geral; vai
determinação, porém, não pertence a uma Crítica da ra­
zão prática em geral, que só deve indicar completamen­
te os princípios de sua possibilidade, de seu âmbito e li­
mites, sem referência particular à natureza humana. Por­
tanto a divisão pertence aqui ao sistema da ciência e não
ao sistema da crítica.
Espero ter satisfeito, no segundo capítulo da Analítica,
a um certo crítico18, amante da verdade e arguto, nisso por­
tanto sempre digno de respeito, em sua objeção à Funda­
mentação da metafísica dos costumes, de que nela o concei­
to de bom não foi estabelecido antes do princípio moral
(como, de acordo com sua opinião, [16] teria sido neces-

18. Este critico chamou-se Hermann Andreas Pistorius (1730-1798),


paslor nu ilha de Rügen e prior na ilha de Fehmarn, ambas no mar Báíti-
co, que escrevou duas recensões anônimas, a primeira, aqui referida: PIS-
TOKUJS, H. A. Rezension von Kant’s "Grundlegung zur Metaphysik der
Sitten". Allgemeine Deutsche Bibliothek, v. 66, pp. 447-63, 1786 (cf. «obre
a autoria do texto a carta de O. jenisch a Kant, de 14.6.1787, KANT, I.
Briefwechsel, p. 316); e a segunda: PISTORIUS, H. A. Rezension der ‘Kri­
tik der praktischen Vernunft’. Allgemeine Deutsche Bibliothek, v. 117, pp.
78-105, 1794. Os textos podem ser lidos em B1TTNHR, R. / GRAMER, K.
(Ed.). Materialien zu Kants “Kritik der praktischen Vernunft”. Frankfurt:
Suhrkamp, 1975, pp. 144-60 e pp. 161-78, respectivamente

14
Crítica da razão f>rà!ic(t

■.,ii i ( d o mesmo modo tomei em considei';K/;l° várias


ih objeções, que [17] me chegaram às niiios de j >;uU*
dr pessoas que deixam ver que a investigação da verda­
de lhes é cara (pois aqueles que só têm [18] ante os olhos

I '■). Poder-se-ia ainda replicar-me por que também nâo elucidei an-
Icn n conceito de faculdade de apetição ou de sentimento de prazer; se
I ii vii que esta objeção seria injusta, porque tal elucidação, d o modo
, i mm é fornecida na Psicologia, justamente deveria poder ser pressupôs-
l,i. Mas certamente aí mesmo a definição poderia ser estabelecida de
i i ii ii Io lal que o sentimento de prazer fosse colocado como fundamento da

i Irlrrminação da faculdade de apetição (como também efetiva e geralmen-


ir costuma acontecer), pelo que porém o princípio supremo da filosofia
) indica necessariamente teria de acabar sendo empírico, o que conaido
[cm de ser decidido em primeiro lugar e é refutado completamente nesta
i niica. Por isso quero fornecer esta elucidação aqui do m odo com o ela
teil! de ser, para, com o é justo, deixar este ponto controverso inicialmen-
lc pendente. - Vida é a faculdade de um ente de agir segundo leis da fa­
culdade de apetição. A faculdade de apetição é a faculdade d o mesmo
u n e de ser, mediante suas representações, causa da efetividade dos ob-
ji-ios destas representações. Prazer é a representação da concordância d o
objeto ou da ação com as condições subjetivas da vida, isto é, com a fa­
culdade da causalidade de uma representação com vistas à efetividade
dt- seu objeto (ou da determinação das forças do sujeito à ação de pro­
duzi-lo). Mais eu não necessito, com vistas à Crítica de conceitos que são
pedidas emprestados à Psicologia; d o resto desincumbe-.se a própria crí­
lica. Nota-se [17] facilmente que a questão, se o prazer tem de ser posto
sempre com o fundamento da faculdade de apetição, ou se também soh
certas condições ele somente se segue à determinação dela. fica median-
le esta elucidação pendente; pois ela se com põe de meras características
d o entendimento puro, isto é, de categorias, que não contêm nada em­
pírico. Uma tal cautela é muiLo recomendável em toda a Filosofia e, não
nbstante, é frequentemente descurada, ou seja, de não se antecipar em
seus juízos, mediante temerária definição, antes da completa análise do
conceito, que frequentemente é alcançada só muito tardiamente. Tam­
bém se observará, durante todo o curso da Crítica (tanto da razão teóri­
ca com o da pratica), que nele se encontra um múltiplo ensejo para com­
pletar algumas deficiências no antigo curso dogmático da Filosofia e cor­
rigir erros que não são notadas antes, com o quando se faz com concei­
tos um uso da ra2ão que concerne ao todo dela. (K )

15
iitltniuiih'! Sani _

sou iintigo sislema. e untre os quais já se decidiu dt .m


lem ã o u q u e d e v e ser a p ro v a d o ou d es a p ro va d o . ii;m ivi
\ in dicam nenhu m a discussão q u e pu desse com rariar m d
o h je liv o p riv a d o i: e asi-am con tin u arei p r o c e d e n d o .
Sc o q u e im p oria c a d eterm in a çã o d e unia laculd.i
d e particular da alma hum ana se g u n d o suas íó n lcs, o m
le u d o s e limilc.s, en tão. d e a c o rd o c o m a nau ireza d o rn
n h e c im e n lo luunano. näo-,; .sc p o d e l o i m 'a i r d e o u iro
m o d o q u e tlu.s partes d e k r . i!e suu c.\ula e c o m p le u
Lip ivsen ia cà o ( na m ed id a d o q u e seja p o ssíve l, seg u n d o
;i siuiaçiio' atual d e n ossos e le m e n to s -1 j;i a d q u irid o s d,i
m esm a). Mus li;í aiiula um se g u n d o cu id a d o , q u e c mai.s
lilu sn lico o a rq u itetôn ico , li saber. de cb in p rccn d cr corre
la m en te a ideia d o to d o e u partir dein abarcar co m a vis
[.i. cm uma laeu tdadc raciona! pura. tcxjas aquelas partes
im sua ivla ca o recíproca m cdúinle a deri\ a çã o das m esm as
d o c o iic e iio d a q u o lc tod o. I> (e e x a m e c [19| t>arajilia s o ­
nn i iu • e p< >.v<i\ rl pela mais íiilim a fam iliaridade com o sis
{eitia. i- aqi n l< q u e se .ii« >rreccram co m a prim eira in-
'i c mi ’ ii .111 p iiii.iiu o u-io ci >iisideraiam q u e a a q u isiçã o
de.s.-va l.miiliar ii l.ule \ .ik'ssc a pena - n ao alcançam o s e ­
g u n d o d egra u . a saber. a v isã o gera l. q u e c um reto rn o
'.in ie iii'o a o q u e arues io i d a d o analilicam ente. c n ào é
iicn lu im m ilagre se en contraifi p o r toda a parte inconsc
qu encias am da q u e as lacunas qu e estas d eix a m presum ir

Je J.' olk -;ic> i U vÃMliU») iiic h ls UÍ.UÍ.M


Jt. Kuru: ih'tyi'ffn'H fi-ln iiu*sijki. tlvivi», pr«nu>nu- Mturtin«*. "nmutli
iIi;iv:ir^' m* j>c »cU*íj:í < m uv*|>< jik K 'i *i,!S k ’nim in»»4* K lo iv r m i
:i,i. n v ( ii ■f jIiu.i i <m f - r l v m i f t t i * 1{ ' ' > h Ik \ i m i ' r U w i . i r ;.in .i.u m a s t l i I i i h »

i r n / i - ' i ' . ' r t i U ; u 'u M , u l v > t, •>n i« > ( I j ■>i» -i i r 11 a s 1i';u N k c k - n | r . n u v :- o

;\ V\i^nuinl ><.* poriiinu^sl !


\ 1 H‘t.1 I k l t t T ; a m l K V I U K T l U . * ?

Kl
(.'MU i< i Ui fr! ,il r- />!, Il!t ,1

ii.il'M.' achem no sistema m e s m o mas apenas em mm |n■■


1 'ii.i in co e ren te o r d e m d e ideias.
\ à o m e p r e o c u p a m in im a m e n te a o b je ç ã o . .1 iv-.pn
i " d e s te tratado. d e q u e r e r in trod u zir uma nova língua
;,;cnr, p o rq u e o m o d o d e co nh ecim en to aproxim a-se aqui,
l " ‘t si. da popularidade. F.sta ob jeçã o nào podia tampouco
■«correr, acert a da primeira Crítica, a algu ém q u e não a lo-
llieo u s im p le s m e n te mas -a e x a m in o u a fundo. Produ/ii
n i ilicialmente novas palavras. q u a n d o a lin gu a gem já nào
it-m nenhuma carência d e e x p re ssõ es [20] paru co n c eitos
datlos, é um es íb rc o pueril para disiinguir-.se entre a m u l­
tidão. q u a n d o n ão m e d ia n te p e n s a m e n t o s n o v o s e v e r ­
dadeiros. m ediante um trapo n o v o so b re a vesrc antiga,
se. pois. os leitores daqu ela obra c o n h e c e r e m e x p r e s ­
sões mais popu lares, q u e. c o n tu d o , sejam tão a d e q u a d a s
•io p e n s a m e n t o c o m o aquelas m e p a re c e m ser. ou p o r ­
ventura sc atreverem a p rovar a nulidade destes próp rios
pen sam entos, p o r co n s egu in te ao m e s m o (e m p o d e cada
expressão q u e o designa, eles c o m isso m e tornariam mui­
lo d e v e d o r p o r a q u e le p rim eiro aspecto, pois eu q u e r o
.1 p en a s ser e n t e n d id o , poreni em r e la t a o ao s e g u n d o as­
p e c to lornar-se-iam b e n e m e r e n t e s da Filosofia. Mas. e n ­
quanto .aqueles pensamentos ainda estiverem tle pc. d m i-
d o muito q u e pudessem encontrar-se para eles e x p r e s ­
sões a d eq u a d a s e c o n t u d o mais correntes-'1.

-í/í. Ob|i_v,K f J l ' í i . V TitU'f. v. Im iuK'ih ;i itui.i uni ,\ 1 l.


- I. Ví|LlÍ \ M K ' p lV O i. l l | V 111; i i > u l n t j l .i r , lí. |5,11■!; L W l l \ , l d r t 'llU 'F i

' líi i R i ri<i < i t l i '{ ,r < !ü u (‘l Í i c b L v i í > J j I;i1nj i n l i srj >t'; l : i.t: n i di* li'^ iin .is r v p iv *
»i*s. q iK 1 u s o >lhi m i n ii m.i \ in h > t 11 k I: k U i | «um i ki< ' <lt in. ii t r,u , iss.ir i i
1 ' i ! a f . ' i i ' j :i i/ki-i i v m r u - n i . ,\ \ s im . ci;i i ; i h u , i J.i^ i .U vlm h f i ^ d .i im / lu i

] >r;iLk';i. ^ »h w niu ln du ui< >duli< feidiv licitti c ilid tu l_? 11<u pr.tik ( m [\ ;i
iD r iik ’ pn.^.sjxt*] v L-jo iOti] n i í u s u [i.n^iuMií/o ^'t*muin í i n it,s-
fin"! Lii'n iu iu c.jj.Li.■a >v'i.i sul isc^urnu.- d n d rU M 'L 1d o ct>nir,irio íu j d o e r.
hiuutmuvl fciliil

| ’ 11 I »esu- m o d o os princípios a p r io r i du dun.-' l:u nl


- 11d< ( ! ( i m iiv u ) - tlu | 2 2 | fn a ilc k iÜ L - tk- f u n h m ' r c d a I.i
i i l i l . n l c f U ■.ip i.'iic ;'u i — L'.sr;iri;im d o r a v a n U ' dt.\scobei'U i>; r

'■>J ' “ " ‘i ♦ 11♦ i- p r im tir t j i lt w - a u m !ii a r a c ju if r 1t j u o i'.m j d e a t <M'd< ) r n i i. »


' " in ' IM 1.1 j > r i - M T i t ^ U p j ' . H K a p O S S lw l

in- i 11■■ . t n s i »lut. .ic i d v ln ijiis - u .h p i K t j i i v M i u i s d ;» O v f » m i ’i r ' u f da M iv r iim .i i

• M - i- in u i" M j i t ü l h . a r ( > f. ) U v ' i v i #» v » > f i i r . i i/ m i.il jv U iv ik í.i .t u m a t«-i

1 ii i H 'c f f v u u K M U f n a ra *a ». o ll u i t . i '1 . 1 i- s s i d r k * r V iK '; i d t* s U ' a i i l u ad> -

....... .iMriMüU-pk- vMr;inll.l lasrilvin Iv rll i|lk ' 111,1 ma! Mílul. .u*
M • In i iM iN iim o m n iim \>*rm . p " r r U 'i n p l i > a u m < »radnr t.(|
i u i t i i ii Jfjjl 11«iVMS p.lI.MT,!'* r »u jUHf< »f** d t' p.ll; I \ 1. l \ .U \ | 'n K '\ . i

*'il i i iii - d i ilj r f ic ilo Mm Mi.Mll U UII dl-»'} d n is i'MSi-’.-i «, < ai|'Ul t V i l r
1 i i'- »> . *si- .ilp,(iL’iu <_iui.T pvrdv.M su.i iv p ili,u iJfc j d r (ii'iid iir. n in ^ u r in pc»(<•
i i '*[M-di-íp. V(|ui st.- ira ia ^ im ^ n U ' d a Ji^ lfru L K i d"-> iin p o f t iiiv o s id U i'iuidd
me '[im k d k 'K T iiim .m u ^ p n )h Ii* i)K H tca s. s is s iT lu r ic n s c a p u d ic u c u * [)»» nu
II" n i‘ *dt' n u la ^)11 ^ i i f lU D lp .iiV l a> !\li »rai* tlV
I ■ il>' t r t m d f\ t’ rs.j's ^-sri iin*i i \ ) ’ v ii )fu .js. íJisim yAU a kk'W tL* sa h e v io ria d a iK*
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i i. n ü lv m a la rd i.-a \a . pude-v*»- c k s i^ n a j' u n - llio r n nat u i\ n a v k T is ii
* " »I i ■ -sna i\st i>3a .) M as a t A p i v ^ a n p o s t iü a d u tl.i r.\ y a n 'p ra lii'a p u ia ^ a
■|ii> m .jis .m u la ;n ulia ’ «.-ns^iar u tn a !:iN a m kM 'piVUK at 1. ») \ia iu lo m 1o m lu M
■In ••*in -c‘I.i (i ■Mjj.niluadu <jui; us j x íMi»!-.idns -da maHaJiínu a runa pn.s
r ns rjiiais a iivi|v >vlani r^ a v/ a .ip o d u iu a . M íh ou*s. pu>n.i(am ,i
pi r iíífíjJLÍatfc* d o u m a u ç u i . v ' m i > j i <» n l i u.-« i r k ' a n i t a i ^ ' anu.'.v. tt
■ m i h i p k - n a x 'o r U '^ a t a m i p p o s s K x - I. jv itv m . p o . s iu la a p ‘

U iid .td » d f um i i K s n » > u l e I j c i k t* d .i u n u n a l i d . K k ' t . U a í.m a > a p a r

i ; ' d« l«-is p r a iii'a > i a i ^ r t l u (it a> . p o i u i n m m ju k o iv .- jv a r a <» l i m tk * u m a ra

i ■ | 'i.11k .j ; p fiis . t u m W i/iu i. '.*>(a c k T iv /a via p i^ .s ii> ilit u id r [K is k ffa J a rnii»


i< iinidi» .il'jjifii {co.Hca. ta'up\'iui> ;])mdKii<.'a, i.sit-j i.’-. Jim j ■fs.su.latk.’
■1 i:i 1•' id.i i ,i[u vj.sias a:> i-ihk'io. í'ia> u m a s u p ^ s ic a o n i'if x v ir ia t*m s'iMa
•I- • '.um um ]mm -,{ nhset^fint ia J f sua> k*}^' nf)|Vli\'as. p< n v m p ra lir^ s- )MM
"u u iN v .ijH ivas u m a fiip iV jfx .' /fc*cv.ssaria. X ái» < . : ? LUX’nni r ai
u« u lm m a i v | i [ , * m ilh e >r p a isi i.'sia n c w s ^ k K n lv M jh jc lix ii. t r u n ik lt ) \ c i
^ i ■\> n i l • ii u . i} idit m>i ( 1\ l

' M m « ii'- f r iir h'f'H uh' I. [it >ck' [ia V

IS
(J'/fii ii i/ti >'if ,'ü ’i

•I' -i>-mimados, segundo as co n d io «.-s. a c\icn.'..n • «• |.’.i|


limites de seu uso; o com isso, porém . eslafia a.v-eiii.id<>
■. I u n d a m e n to se g u ro para Lima lilosolia sjsicm.iih .1 i.m
i'' teórica q u a n io prática, c o m o ciência.
Mas nada p io r poderia su ced er a estes e s lo rç o s d< >.
|iu- sc a lguém fizesse a descoberta inopinada d e q u e nao
I 1.1 Mein p o d e h aver c m paric algum a um c o n h e c im e n to
,; /■rmri. 1-ste perigo. lo d a via . inexislc. Scria n m iD s i al-
■ucin quisesse p r o v a r pela razão q u e n ào li;i ra zã o algu-
: . . P.ois apenas di/em os qu e c o n h e c e m o s algo pela razão
1 1 1

r estamos co nscien tes d e q u e ta m b ém leriam os p o d i d o


■* mhece-lo, m e sm o q u e não nos tivesse o c o r rid o assim na
|2 i| experiência: p o r con s egu in te c o n h e c im e n to d a razão
i- c o n h e c im e n l o a [> rlu ri são o mesmo;. O u c r c r e x to r q u ir
necessidade d e uma p r o p o s iç ã o da experiência <c.x jit in ii-
1 r ( U / i u m i e querei' o bter c o m esia ta m bém verdadeira
uni\crsalidade para um juízo i.sem a qual não há raciocí­
nio algum. p o r co n s eg u in te t a m p o u c o c o n c lu s ã o a par­
tir da analo gia, a qual c p e l o m e n o s uma presumida uni-
\c rsa lida de e n ecess id a d e objetixa e. portanto. s<.-mprc
p r e s s u p õ e a esta), é Lima tra m a c o n ir a d ic a o . Subsmuir
a n ecess id a d e o b jetiva q u e sb se encontra c m juízos ii
/iriuri. pela n ecessida de subjetiva, isto é. o hábito, signi­
fica n egar à razão a fa cu ld a d e d e julgar sobre o o bjeto,
isto é. d e c o n h e c e r 11 e le e a o q u e lhe c o m p e t e e signifl-
■: a. p o r e x e m p lo , nào dizer, acerca d a q u ilo q u e freq u e n -
ic m e n te e s e m p re seguia d e um certo estado precedente.
<|Lie se possa c o n c lu ir deste à q u e l e ( p o i s islo significaria
necessidade objetiva e c o n c e ito de uma vinculaçao a jx rio -

••Tinir. à j{iw p v d ru -p i u n e s " U |u i* ix t ^ i im p t iK s iv d ). c t . t ' L \ ( ' l'l 'S.


f \l. (<_. 3st-t*i 11 /V/Ni/ I 1, 1 1

19
Immanuel K a m ..

ri) mas que só se permite esperar casos semelhantes (de


como se passa com os animais), isto é, rejeitar o concvtii >
de cansa, no funclo, com o falso e [25] com o simples pen
sarnento enganoso. Querer remediar esta falta de validade
objetiva e de validade universal,, dela resultante, medianlr
o lato de que em verdade não se veja nenhum fundamen
lo paia alribuir a outros entes racionais um modo diverso
de repre,sei ilação, .se isto fornecesse uma conclusão va
lida, eitiao nossa ignorância contribuiria, mais do que Co
d:i a reflexão, para a ampliação de nosso conhecimento.
Pois. pelo simples fato de que nào conhecemos outros
eitles racionais além do homem, teríamos direito de ad­
mitidos com o constituídos do m odo com o nos conhece­
mos, isto é, nós os conheceríamos efetivamente. Não men­
ciono aqui uma única vez que nâo é a universalidade do
assentimento que prova a validade objetiva de um juízo (is­
to é, a sua validade com o conhecimento), mas que, mes­
mo que aquela casualmente estivesse certa, este ainda não
poderia fornecer uma prova da concordância com. o ob­
jeto; que, muito antes, só a validade objetiva constitui o
fundamento de uma concordância universal necessária.
[26] Hume também se sentiria muito bem neste sis­
tema do empirismo universal em proposições fundamen­
tais <Grundsãtzen> M; pois ele, com o se sabe, não exigia

26. Este é um caso visível - nem sempre o é - em que, num mesmo


|v.tr:íj?rafo, os termos Grundsatz e Prinzip são tomados com o sinônimos.
N : í o obstante, para salvaguardar a índole do texto de Kant em geral e lor-

viável em outros casos a própria tradução, os dois termos serão em


v>rr;il trnduzidos por «proposição fundamental" e “princípio", respectiva-
nifiiic. Veja-se, por exem plo, a seguinte passagem: "Esta justificação dos
|ii'iufipí<is <Prinzipien> morais como proposições fundamentais <Grund-
stll-v ■de ttm:i razão pura...” (KpV A 164; cf. também A 57, A 72 e A. 82). Na
i .'rtlit n dri mzãt) pura encontramos uma diferenciação análoga-. “A propo-

20
_____ Crílica .da razàn jnalii n

ii.ida mais do que, em vez de toda a significaçan ohjeii


v;i tia necessidade no conceito de causa, lõssc lklinit UI.i
mim significação meramente subjetiva, a saber, o habiln,
p;ira negar à razão todo o juízo sobre Deus, liberdade e
imortalidade; e ele soube certamente muito bem, quando
r.r lhe concederam somente os princípios <Prinzipieti > ,
iulerir daí conclusões com toda a concisão lógica. Mas tão

sli/fio fundamental <Grundsatz> da unidade sintética da apercepçào é o


princípio <Prinztp> supremo de todo o uso do entendimento" (KrV B
I .tó, trad. 3- ed. 1987, p. 82). Mais expressiva ainda é a passagem.- Einige
nvnige. Grundsätze, welche die Geometer voraussetzen... dienen... nicht
als Prinzipien (algumas poucas proposições fundamentais [aqui. no sen­
tido de axiomas] pressupostas pelos geômetras... não servem com o prin­
cípios. (K rV B 16, trad. 3. ed. 1987, p. 31). Peter .Rohs, em sua.s conside­
rações teóricas- sobre a KrV, acentuou o caráter preposicional dos Grund­
sätze• “Daßgewisse Sätze (die Grundsätze),.. - que certas proposições (as
proposições fundamentais)... antes, formulam condições sob as quais uni­
camente tornam-se possíveis leis de experiência objetivamente válidas”
(ROHS, P, Transzendentale Logik. Meisenheim: Anton Hain, 1976, p. 214).
O termo Grundsatz foi introduzido na Filosofia e na linguagem científica
por Christian W olff (.Mathematisches Lexicon, 1716) corao tradução de
"axioma” (cf. RITTER, J. [Ed.], Historisches Wörterbuch der Philosophie.
Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1974, v. 3, p. 923). Kant
empregou-o nesse sentido em KpV A 167, embora no sentido de axioma,
segundo ele, o termo diga respeito apenas à parte dos princípios intuiti­
vos, com exclusão dos princípios discursivos. J. C. Schottel, segundo II.
Paul, deu-lhe antes (1641) um sentido gramatical de lex vei regula funda­
mentales. A propósito, Kant utilizou numa mesma fra.se, na Kp V A 110,
com o três expressões diferentes, Prinzip , Grundsatz e Grundregel (regra
fundamental). Pela mesma época, segundo J. e W. Grimm, Grundsatz
passou a ser usado no sentido de princípio prático: “ein man von grund-
sätzen" (um homem de princípios). Kant entendeu o princípio com o
uma espécie de proposição fundamental, reservando-lhe um sentido pre-
ferentemente objetivo: Maxime heißt ein subjektiver Grundsatz. Hin objek­
tiver beißt Prinzip. Eine Regel, die das Subjekt sich zum Prinzip macht,
heißt Maxime (Máxima significa uma proposição fundamental subjetiva.
Uma proposição fundamental objetiva cliama-se princípio. Uma regra, que
o sujeito estabelece para si .como princípio, chama-se máxima. KANT, I.
Logik Dohna-Wundlacken. Ak v. XXIV.2, 1966, p. 738).

21
Immanuel Kant

universal nem mesmo Hume fez o empirismo, a ponln


de incluir nele também a Matemática. Ele considerou :ts
proposições dela analíticas e, na medida em que isso fos
se correto, elas de fato seriam também apodxcticas, ainda
que não possa ser tirada daí nenhuma conclusão - acer­
ca de uma faculdade da razão - de também na Filosofia
proferir juízos apodícticos, a saber, juízos que fossem sin­
téticos (com o a proposição da causalidade). Mas, se se ad­
mitisse universalmente o empirismo dos princípios, então
também a Matemática seria incluída nele.
127] Ora, se esta entra em desacordo com aquela razão
que só admite proposições fundamentais empíricas, como
é inevitável na antinomia, já que a Matemática prova ir­
refutavelmente a dtvisibilidade infinita do espaço, coisa
que o empirismo não pode, porém, conceder: então a má­
xima evidência possível da demonstração está em mani­
festa contradição com as pretensas conclusões a partir de
princípios da experiência, e então se tem que perguntar,
como o cego de Cheselden27: que é que me engana, a vis-
la ou o sentimento? fPois o empirismo funda-se sobre uma
necessidade scnlida; o racionalismo porém sobre uma ne­
cessidade da qual se tem perspiciência.) E assim o em­
pirismo universal revela-se como o autêntico ceticismo,
que falsamente se atribuiu a Hume num sentido tão ili­
mitado-“1, uma vez que ele pelo menos deixou, [28] na Ma-

27. CHESELDEN, W., anatomista inglês - citado também por Goethe


e autor de Osíeografia e de Anatomia do corpo humano (esta traduzida paia
o alemão em 1790) narrou em Phit. Tmnsactions, 1728, XXXV 447 a ope­
ração de um cego, de cuja. descrição, segundo Natorp, Kant teria tomado
conhecimento numa tradução de Abraham Gottheit' Kästner (1719-1800) da
obra inglesa de Ótica: SMITH, E. Vollständiger Lehrbegriff der Optik i 1755).
28. Nomes que designam o adepto de uma seita envolveram em to­
dos o.s tempos muita rabulice; mais ou menos como se alguém dissesse.-

22
Crítica da razão prälicn

lemática, uma segura pedra de toque da expcriêiu ii, m


quanto aquele não permite absolutamente nenhuma pc
dra de toque da mesma Ce que sempre só pode ser eiux >u
trada em princípios a priori), embora a experiência nao
conste de simples sentimentos mas também de juízos.
Com efeito, já que nesta época filosófica e crítica di­
ficilmente se pode tomar aquele empirismo a sério, e ele
presumivelmente é proposto somente para o exercício da
faculdade de julgar e para, mediante contraste, colocar
em mais clara luz a necessidade de princípios racionais a
priori-, assim se pode sempre ser grato àqueles que quei­
ram empenhar-se por este trabalho, que afora isso nào
é propriamente instrutivo.

N. é um idealista. Pois, embora ele não apenas admita enfaticamente mas


insista que a nossas representações de coisas externas correspondam ob­
jetos efetivos de coisas externas, ele conaido quer que a forma da intuição
das mesmas não seja inerente a elas mas somente ao ânimo humano. (K )

23
[29 ] Introdução
Da ideia de uma crítica da razão prática

O uso teórico da razão ocupava-se com objetos da


simples faculdade de conhecer, e uma crítica, da mesma
com vistas a este uso concernia propriamente só à facul­
dade de conhecer pura, porque esta provocava a suspeita,
que depois também se confirmava, de que ela facilmente
se perde, acima de seus limites, entre objetos inalcançáveis
ou entre conceitos reciprocamente discordantes. Com o
uso prático da razão já se passa diferentemente. Neste a ra­
zão ocupa-se com fundamentos determinantes da vontade,
a qual é uma faculdade ou de produzir objetos correspon­
dentes às representações, ou de então determinar a si pró­
pria para a efetuação dos mesmos (quer a faculdade física
seja suficiente [30] ou não), isto é , de determinar a sua cau­
salidade. Pois neste caso a razão pode pelo menos bastar
para a determinação da vontade e, na medida em que se.
trata somente do querer, possui sempre realidade objetiva.
Aqui, portanto, a primeira questão é se a razão pura basta
por si só para a determinação da vontade ou se somen­
te enquanto razão empiricamente condicionada eíã pofle
ser um~fundamento determinante da -mesma-".. Qra. aqui se

29. N o exemplar original de Erlangen consta a correção de Vogel:


desselben (d o mesmo), que neste caso remete ao termo masculino Wille
(vontade). A edição da Academia manteve a forma original derselben (da

25
_Immanuel Kant _

apresenta um conceito de causaljdade, a sabfiiyde libci’-


dM eTiustiíica H x T p e lã ^ H ^ cã ^ r razão pura, embora ii)
cãpãz~He uma exibição empíricar-Ç-se-doravante puder
mos encontrar razões para provar que e sta-proprieda dr
de fato convém à vontadejTumana_(e assim também à von
tade de todos o.s entes,racionais)- entâgiLcom issp prova
do não apenas que a razão pura pode ser prática, mas que
LinjcamerUe el;L£ não a razão.limitada..empmcameijte é in
contJ_i<it)n;ihneiTte_prátiça. Consequentemente teremos que
ejaborar ivào nina crítica da razão pratica pura, mãssomêiv
te da raxáo prática em geral. Pois a rãzacTlpüraT^^aREes
de mais nada li ver .sido provado que uma tal razao ejdS-
te, nàTTjypécís^de nenhuma crítica. E,.elg_própria que con-
tem a norma panTT â fn c ^ ê T !o fl5 o seu uso. Portanto- [31]
-a Crítica da razão frâtica em geral tem a obrigãçatTdêTte^
ter a presunção da razão empiricamente concüciôná3a~de
qLiererTHä~ioe exclusivarnente, fornecer o fundamento "de­
terminante __da vontade.. O uso da razão pura, se se concluir
que uma tal razão existe, é m ü q jmenteinranente; crugo em­
piricamente condicionado, que se arroga ao domínio abso­
luto, é, ao contrário. tjjS srendêMelTnmnifesta-se em p re-
tcnsòes e mandamentos que excedem totalmente seu do­
mínio, twe coosisic.Dted^Beflte- n a ..g ^ ^ que
podia ler sido__diU> sobre a.ru2ão pura no.uso especulativo.
Todavia, vislo que se trata sempre ainda da razâo pu­
ra, cujo conhecimento se encontra aqui à base do uso prá-

raesma), que neste caso com o em Kant remete ao termo feminino Ver­
nunft (razão). Por uma sucessão de equívocos, Rellermann (1914)
atribuiu a autoria da correção a Vorländer (1906), que por .sua vez a
atribuiu a Hartenstein (1838, 1867), onde contudo em ambas as edfções
não consta correção alguma mas a versão original de Kant: derselben. Em
português, p eio fato de "vontade" e “razão” serem ambos femininos, a
explicitação daquela diferenciação vai depender de interpretação filosó­
fica. Cf. também as notas A 1.2 e A 142.

26
Crílica du razáu fa íilím ____

lico, a divisão de uma Crítica da razão prática k*r.í de ser


disposta, segundo o plano geral, conformemente ;i crílica
da razão especulativa. Teremos de contar, pois, com uma
doutrina dos elementos30 e uma doutrina do m étodo da
mesma, e naquela, com o primeira parte, com uma analí­
tica enquanto regra da verdade, e uma dialética enquanto
apresentação e resolução da ilusão em juízos da razão prá­
tica. Só que a ordem na subdivisão [32] da Analítica será,
por sua vez, a inversa da que se encontra na crítica da
razão especulativa pura. Pois na presente, partindo de pro­
posições fundamentais, passaremos a conceitos e apenas
destes, se possível, aos sentidos; quando, ao contrário, na
razão especulativa começávamos dos sentidos e tínha­
mos que terminar nas proposições fundamentais. A razão
disso se encontra, por sua vez, no fato de que agora tra­
tamos de uma vontade e temos de considerar a razão não
em relação com objetos, mas com esta vontade e sua cau­
salidade, já que as proposições fundamentais da causali­
dade não condicionada empiricamente têm que consti­
tuir o ponto de partida, segundo o qual pode ser feita a
tentativa de pela primeira vez estabelecer nossos concei­
tos do fundamento determinante de uma tal vontade, de
sua31 aplicação a objetos e por fim ao sujeito e sua sensi­
bilidade. A lei da causalidade a partir_da liberdade, isto
é, qualquer proposição fundamenta_Lprática_ pura, consti­
tui aqui inevitavelmente o com eço e determina os objetos
;U,>.s_quais-eM.a proposição unicamente pude ser referida:- .

30. N o original-. Elementarlehre, literalmente “doutrina elementar",


mas que Kant entendeu com o uma investigação de elementos (das re­
gras de verdade e da ilusão em juízos da razão prática pura). Mais adian­
te Kant expressar-se-á em termos de praktische Elementarbegriffe (concei­
tos elementares práticos; cf. KpV A 116).
31. Kant: ihrer (de sua), Adickes Vorländer: ihre (sua). Natorp: und
ihre (e sua).

27
[ 33] Primeira Parte
D ou trin a dos elementos
da razão prática p u ra
[35] Primeiro Livro
Analítica da razão prática p u ra

Primeiro Capítulo
Das proposições Jundamenttais
da razão prática pura

f 1. Definição

Proposições fundamentais práticas são proposições que


contêm uma determinação universal32 da vontade, <deter-

32. A opção de traduzir allgemein por “universal” e não por “geral”,


com o o fez a maioria das traduções, com exceção da latina de F. G. Bom,
leva em conta a distinção estabelecida por Kant entre o "geral" em sentido
“comparativo”, relativo e empírico, próprio do conhecimento a posteriori, e
o “universal” em sentido estrito ou a p riori , próprio do conhecimento de
princípios ou leis {cf. KpV k 63). Mas a pretensão de estender este sentido
de universalidade às máximas pode parecer problemática. Todavia, se a
máxima consiste num princípio de ações e se o procedimento segundo
princípios é racional, toda razão implica algum tipo de universalidade e a
questão torna-se: que tipo de universalidade envolve a máxima com o um
princípio prático? A máxima kantiana não se enquadra nem numa genera­
lidade obtida indutivamente, nem numa universalidade quantitativa da lei
prática {cf., desde este ponto de vista, Grundlegung BA 58 e KpV A 35 e A
63), extensiva à vontade de todos os entes racionais. Enquanto princípio
subjetivo, ela tampouco se identifica com a universalidade subjetiva a priori

31
Immanuel Kant

minação> que tem .sob si35 diversas regras práticas. Essas


proposições são subjetivas ou máxitnaSj se a condição for
considerada pelo sujeito como válida somente para a von-,
tade dele; mas elas sâo objetivas ou leis práticas, se a coi>_
ciição for conhecida com o objetiva, isto é, com o válida
pura a vontade' de todo ente racional.

dtw juizi» cslclicos, extensiva intersubjetivamente a toda a esfera dos que


jultíiim Uí. KU li 24 e B 157, trad. bras. pp. 59 e 340, respectivamente, e ain­
da KjjV A 211). Nem por isso a subjetividade da máxima, enquanto princí­
pio de agir de um indivíduo, tem o sentido de uma limitação contingente,
própria do “propósito” (Vorsatz), e sim o sentida de pôr para sí uma re­
gra, adotando-a com o sua, o que significa adoção de um princípio (cf. em
A 26 a nota sobre Grundsatz). Uma argumentação ainda mais forte na
mesma direção partiria da liberdade de arbítrio, conforme a Religion BA
105. A Reflexão 5237, que distingue regra, lei e máxima, confirma esta in­
terpretação: “A regra concerne somente ao m odo com o aquilo que se quer
deve acontecer; a lei contém o imperativo do que deve acontecer (d o fim);
a máxima é a lei subjetiva, isto é, aquilo que a gente propôs universalmente
a si mesmo de fazer (die Maxime ist das subjective Gesetz, d.i. das, was
man sieb seihst allgemein zu ihun vorgesetzt hat." Ak v. XVIU, pp. 127-8).
A Altfiemcinbeit da máxima concerne então a uma vontade que quer agir
sempre, nào ajiena.s hoje, dc uma determinada maneira, direcionando sua
vida como um iodo c definindo o tipo de homem que quer ser. Como uma
aunidcicrmiii.n.ui ainda nao necessariamente moral, a partir de uma ex­
periência dc imiiulo, a máxima adquire a universalidade de uma regra que
se escullic para ioda a vida, embora com a possibilidade de revogá-la ou
infringi Ia. A vontade, no caso da máxima, é racional porque a universal­
idade, pela qual ela se determina e projeta uma forma de vida, é uma t o ­
talidade. Sobre essa concepção da máxima cf. sobretudo BITTNER, R.
Maximen. In: F U N K E , G. (Ed.). Akten des 4. Internationalen Kant-Kon-
gresses.- Kant-Studien, Sonderheft U, 2, pp. 485-98, 1974.
33. Kant: eine allgemeine Bestimmung..., die. (uma determinação uni­
versal.,., que). As traduções nào logram deixar clara a referência a Bestim­
mung (determinação), evidente em alemão, do pronome relativo feminino
die (que), que se segue a Wille (vontade), o qual em alemão é masculino. A
expressão unter sich haben (ter sob si) significa, segundo o dicionário
Wahrig, “ser responsável por". Enfim, para ser exato, é a determinação e
não a vontade que é responsável por diversas regras práticas.

32
Critica da razão jivaltia

Anotação'*

■Sc se admite que a razão pura possa conter um IiiihI.ihii-m


li i praticamente suficiente para a determinação [36] da vc>iii:uli■1,
i'iii;i<) existem leis práticas; do contrário todas a,s propnsiçi »■:,
Imulamentais práticas tornam-se simples máximas. Numa vonla
Jc <Ic um ente racional, patologicam ente afetada, p o d e encon
lia rse um conflito das máximas com as leis praticas conhecidas
I n >r ete próprio. Por exem plo, alguém pode tomar p or máxima
não tolerar impunemente nenhum insulto, e ao m esm o tempo
k t a perspiciência de que isso não constitui nenhuma lei práti­
ca mas somente sua máxima, e que, contrariamente, enquanto
rcjjra para a vontade de todo ente racional, não pode concordar
consigo própria em uma e mesma máxima. No conhecim ento
iialural os princípios do que acontece (p o r exem plo, o princí­
pio da igualdade de ação e reação na comunicação d o m ovi­
mento) sã.Q. 9p. m esm o .tem podeis da,naturezappoLsjç»^p».da
razão é aí teórico v?determ inado pela natureza- do dbjetôí N o

34. A tradução segue aqui a diferenciação de J. e W. Grimm, para os


quais anmerken, annotare significa notam apponere, isto é, apor notas a
um texto prévio, enquanto bemerken não pressupõe nenhum texto. Toda­
via anmerken também pode ser usado neste segundo .sentido. H. Paul cha-
mou a atenção de que especialmente nos séculos XVII e XVIII Anmerkung
era utilizada no sentido de Bemerkung, observaiio. As traduções costumam
adotar, para Anmerkung , "escólio". Curiosamente, porém, Kant na Lógica,
ao tratar dos escólios (Scholien), acrescentou-lhes a título de comentário
uma Anmerkung (cf. ivgikjãsche A 176 Ak 112). O tradutor agradece a
Marcos Lutz Müller a advertência sobre a tradução de Anmerkung.
35. O texto original é mais sutil: Wenn man annimmt, daß reine Ver­
nunft einen praktisch, d. i. zu r Wilktisbestimmung hinreichenden Grt.nn!
in sich enthalten könne. Um fundamento “prático” liga-se à determinação
da vontade, mas, apresentado de um modo adverbial, líga-se a “suficiente”:
“pratlcamente-suficiente” , enquanto uma determinação da razão puni. C.l.
adiante a repetição dessa forma de expressão: Diese Idee praktisch-, d. i. für
die Maxime unseres vernünftigen Verhaltens, hinreichend zu bestimmen...
(K pV A 194).

33
Immanuel Kant

conhecimento prático, istoé. naguelg que tem a ver sitnplesmeiv


te com fijndamentgs determinantes da vontade, as proposições
fundamentais que formamos não são ainda Jeis, às quais.inesziia-
velmente nos submetemos, porque no que é prático ajcazãojein
a ver com o sujeito, ou seja., com a faculdade de apetição,,cqn.i
cuja natureza particular a regra pode conformar-se de múltiplos
modos. - A regra prática é sempre um produto da razão, porque
ela prescreve com o visada a ação enquanto meio para um efei­
to. Mas para um ente, cuja razão'não é total e exclusivamente o
fundamento determinante da vontade, essa regra constitui um
imperativo, isto é, uma regra que é caracterizada por um dever-?
-ser, o qual expressa a necessitação objetiva da-* ação e significa
que, se a razão determinasse totalmente a vontade, a ação ocor­
reria inevitavelnxeíite..segundo essa regra. Portanto os imperati­
vos valem 'objetivamente', [37] e diferem totalmente das máximaS^
enquanto proposições fandamçntfris ^ihjetivas Mas aqueles ou
determinam as condições da causalidade do ente racional, en­
quanto causa operante, simplesmente com vistas ao efeito e ao
que é suficiente para o mesmo, ou determinam somente a von ­
tade, quer ela seja suficiente ou não para o efeito. Os primeiros
seriam imperativos hipotéticos e conteriam simples preceitos de
habilidade; os segundos, ao contrário, seriam imperativos cate­
góricos e, unicamente eles, leis práticas. Portanto máximas, em
verdade, são proposições fundamentais mas não imperativos" Os
imperativos mesmos, se são condicionados - isto é, não deter­
minam a vontade simplesmente enquanto vontade mas somente
com vistas a um efeito apetecido, isto é, são imperativos hipoté­
ticos em verdade são preceitos práticos mas nào leis. As últi­
mas têm que determinar a vontade enquanto vontade, ainda an­
tes que eu pergunte se realmente tenho a faculdade requerida
para um efeito apetecido ou qu e coisa m e importa fazer para

36. Adickes propõe zur (a). Mais adiante encontraremos expressa jus­
tamente esta variante: Nötigung... zu einer Handlung (necessitação a uma
ação. Cf. K p V A 57).

34
Crílica da ntzàu jm u k ti

|iMiiltixMo; por conseguinte elas têm de .svr ( aicj;i h Ic.i;., d<i


iin iii.iiio não são leis; porque lhes falta a necessidade i|iu-, m -
d evi1mit prática, tem que ser independente de condições p.iii>
Indicas, por conseguinte, de condições contingentemente adc
h'iiii's à vontade, Se, por exem plo, dizeis a alguém que cie Icm
di- trabalhar e econom izar na juventude para não sofrer priva-
11 >rs 11a velhice, então este é um preceito prático correto, e ao
mesmo tem po importante, da vontade. Mas se v ê facilmente
i[iic aqui a vontade é remetida a algo diverso, do qual se pres-
Mipõe que ela o apeteça, e esta apetição tem que ser deixada
ii i.s cuidados do próprio agente, quer ele preveja aindà outros
u-cursos além dos bens adquiridos por ele mesmo, quer ele
nao espere tornar-se velho, quer ele pense de algum dia, em
ruso de necessidade, mal poder socorrer-se. A razão, da qual
unicamente [38] pode surgir toda a regra que deva conter ne­
cessidade, em verdade põe necessidade também neste seu pre­
ceito (pois sem isso ele nâo seria nenhum imperativo), mas esta
c uma necessidade apenas subjetivamente condicionada e não
sc pode pressupô-la em todos os sujeitos no mesmo grau. Mas
pura a sua legislação requer-se que ela necessite pressupor-se
simplesmente a si mesma, porque a regra só é objetiva e uni­
versalmente válida se vale independentem ente d e condições
subjetivas e contingentes, que distinguem um ente racional de
outro. Ora, se dizeis a alguém que ele jamais d eve prom eter
algo enganosamente, então esta é uma regra que concerne m e­
ramente à sua vontade; os objetivos que o hom em possa ter
podem tanto ser alcançados por ele ou não; o simples querer
é que deve ser determinado de m odo completamente a priori.
por aquela regra. Agora, se se considera que esta regra seja pra­
ticamente correta, então eia é uma lei, porque ela é um impe­
rativo categórico. Portanto leis práticas referem-se unicamente
à vontade, sem consideração d o que é realizado através da cau­
salidade da mesma, e pode-se abstrair desta última (enquanto
pertencente ao mundo sensorial) para as ter com o puras.

35
Immanuel Kant

f 2. Teoremtf?11

T od os os princípios práticos, q u e pressupõem un/ol>


jeto (m atéria) da faculdade d e apetição,£om o fundaraen
to determ inante da vontade, são n o séu conjun to em p í­
ricos c nào p od em forn ecer nenhum a lei prática..
Entendo por matéria da facu ldade d e apetição um
ob jelo, cuja efetividade é apetecida. Ora, se o apetite por
esse o b je lo 139] antecede a regra prática e é a con dição
para-“ fazer dela um princípio p róp rio, neste caso d ig o
(em prim eiro lugar): este princípio é então sem pre em p í­
rico. Pois o fundam ento determ inante d o arbítrio é nes­
te caso a representação d e um ob jelo, e é aquela relação
dessa representação com o sujeito pela qual a faculdade
de apetição é determ inada à efetiva çã o d o m esm o. Mas
uma tal relação com o sujeito chama-se prazer na efetivi­
dade de um objeto. Portanto este prazer teria que ser pres­
suposto co m o con dição da possibilidade da determ ina­
ção d o arbítrio. Mas não se p o d e con h ecer a p rio ri de

37. O termo Lehrsatz foi introduzido na Filosofia por WOLFF, C.


Mathematisches íexicon, 1716, com o tradução alemã de “teorema" (cf.
UrTTF.K (fid.). Historische.y Wörterbuch der Philosophie, 1980, v. 5, p.
17-1). Sij>iiific(iu lambém tc.se, embora cm Kant o teorema, Com« um dos
clemenlos principais de um sislcmu (Logik Palitz. Ak v. XXTV. 2, 1966, p,
582), incliiii lese v rii-njcmsirnvslo (cf. ib. LogikJãsche. A 176 Ak 112). De­
vido bs sucessivas menções, nestas notas, das contribuições terminológi­
cas de Christian WolíT, convém acrescentai' que ele, com o seguidor de
Christian Thomasius (.1655-1728), decidiu lecionar e escrever parte de
suas obras em alemão, em vez do latim então em voga, tomando-se com
isso o fundador da terminologia filosófica alemã (cf. METZLER, J. B.
Metzler-Philosophen-Lexikon. Stuttgart; Metzler, 1989, p. 824).
38. zu (para) é acréscimo de Grillo, introduzido também por Vogel
no exemplar de Erlangen e igualmente adotado por Hartenstein, Rosen­
kranz e demais edições.

36
Críiictt t.Ut titzdtt it

nrnlnnna representação de qualquer objclo, seja ela qu:il


11H. se ela se vinculará ao prazer ou dcspra/cr ou st* srr.i
Indiferente a ele. Portanto em tal caso o limd;mu-nl< ><lc
leiminante do arbítrio, e por conseguinte também o piin
rtpio material prático que o pressupunha como condição,
irm que ser sempre empírico.
Ora, vjsto q u e (em segundo lugar) um principio .que
:«• funda somente sobre a .condição .subjetiva da recep­
tividade de um prazer ou desprazer (que sempre só po­
de ser conhecido empiricamente e não pode ser válido
igualmente para todos os entes racionais) em verdade p o ­
de servir, para o sujeito que possui essa condiçãoJncom o
.sua59 máxima, mas não_seryjr a_esta, mesma, com o lei^por-
que lhe falta necessidade [40] objetiva, que tem de ser
conhecida a priori ), um tal princípio jamais pode forne­
cer uma lei prática.

f 3■ Teorema II

T o d o s os prin cíp ios práticos m ateriais são, en q u a n to


tais, n o seu conjunto d e uma e m esm a espécie e inclu em -se
n o p rin cíp io geral d o a m o r d e si o u da felicid a d e própria.
O p razer decorren te da representação da existência d e
um a coisa, na m e d id a e m q u e d e v e ser um fu n d a m en to
d eterm in a n te d o a p etite p o r essa coisa, fu n d a -se so b re a
re c e p tiv id a d e d o sujeito, p o rq u e e le d e p e n d e da e x is tê n ­
cia de u m o b jeto; p o r co n segu in te e le perten ce a o sen tido
(s e n tim e n to ) e n â o a o e n te n d im e n to , q u e ex p re ssa um a
referên cia da re p res en ta çã o a um o b je to se g u n d o co n c e i-

39. NatOTp, em concordância com Grillo, pondera a substituição de ih-


rer^diese por seiner-dieses. referindo-se neste caso explicitamente a “sujeito” .

37
Immanuel Kant

tos, mas n a o a o su jeito s e g u n d o sen tim en tos. Portan to


e le é p rá tico s o m e n te na m e d id a e m q u e a sen sação d c
a gra d o q u e o sujeito esp era da e fe tiv id a d e d o o b je to d e
term ina a fa c u ld a d e d e a p etiçã o . O ra, a c o n s c iê n c ia jju e
um en te racional tem d o a g ra d o da v id a e q u e a c o m p a ­
nha in in terru p la m en te toda a sua ex istên cia é, p o ré m , a
felicidade;', !.• o p rin cíp io d e Lornar_esta o fu n d a m en to jd e -
term inante su p rem o d o arbítrio é o p r in c íp io d o a m o r d e
si, A.ogn io d o s o s p rin cíp io s m ateriais, q u e p õ e m o fu n ­
d a m e n to d eterm in a n te [4 1 ] d o arbítrio n o p ra ze r o u d es­
p razer a ser sen soria lm en te sen tid o a partir da e fe tiv id a ­
d e d e q u a lq u er o b jeto , sào tota lm en te da m esm a e sp écie,
na m e d id a e m q u e -p e r te n c e m n o seu -co n ju n to a o p rin ­
cíp io d o a m o r d e si o u da fe lic id a d e própria.

Corolário

Todas as regras práticas materiais põem o fundamen­


to determinante da vontade na faculdade de apetição infe­
rior e, se nao houvesse nenhuma lei meramente formal da
vontade, que a determinasse suficientemente, não poderia
tampouco ser admitida uma faculdade de apetição superior.

Anotação I

Temos de surpreender-nos de como homens, afora isso


perspicazes, possam c*rer encontrar uma diferença entre a fa­
culdade de apetição inferior e a faculdade de apetição superior
com base na origem que as representações, vinculadas ao senti­
mento de prazer, tenham nos sentidos ou no entendimento. Pois,
se nos perguntamos pelos fundamentos determinantes da ape-

38
Crüica du m z ti» (>mth w

i)i ,In i.' os colocam os em um esperado a g r a d u d e alj’<» q u a l


q u e r, nào nos interessa de onde a r e p r e s e n t a ç ã o d e s s e o b je t o
dcIriimUc provém mas somente de quanto ela delcila. Sc um.i
d'| ncNcniação, mesmo tendo sua sede e origem no i nlrndi
mciiiii, s ó pode determinar o arbítrio p elo fato de pressupor
um sentimento de prazer no sujeito, então o Fato de ela s e r um
hmdamento determinante do arbítrio é totalmente dependen­
te da natureza do sentido interno, ou seja, de que este pode se r
.ilrlado por ela com agrado. Além disso, [42] quer as represen­
taç õ e s dos objetos sejam heterogêneas, quer elas sejam repre­
sei ilações d o entendimento e mesmo da razão em oposição às
u 'presentaçôes dos sentidos, apesar disso o sentimento de pra-
/a' r, pelo qual única e propriamente aquelas constituem o fun­
damento determinante da vontade (o agrado, o deleite que dis­
so se espera e impele à atividade para a produção do objeto),
nào somente é da mesma espécie, na medida em que sempre
só pode ser conhecido empirieamente, mas também na m edi­
da em que ele40 afeta uma e idêntica força vital que se exterio-
riza na faculdade de apetição, e sob este aspecto não p o d e ser
diferente, senão em grau, de outro fundamento determinante.
Do contrário, com o se poderia fazer uma comparação de mag­
nitude entre dois fundamentos determinantes totalmente diver­
sos quanto ao modo de representação, para preferir aquele que
mais afeta a facuidade de apetição? Um m esm o hom em pode
restituir, sem ter lido, um livro instrutivo que só uma v e z lhe cai
às mãos, para não perder a caçada, ir em bora em m eio a um
belo discurso para nâo chegar tarde demais à refeição, abando­
nar uma conversação racional, que ele afora isso aprecia mui­
to, para sentar-se à mesa de jogo, e até despedir um pobre, em
cuja ajuda eíe afora isso sente prazer, porque justamente ago­
ra não tem no bolso mais dinheiro d o que precisa para pagar

40. Na 1?, 4“-6? edições constou er ( “ele", pronome pessoal masculi­


no singular), na 2f edição es (forma neutra do pronome), concordando
então com Gefühl (sentimento); adotado também por Hartenstein e Ak.

39
Immanuel Kant

o ingresso para o teatro. Se a determinação da vontade depen ■


de do sentimento de agrado ou desagrado que ele por algum
m otivo espera, então lhe é inteiramente indiferente através de
que m odo de representação é afetado. Para decidir-se pela es­
colha só ihe imporLa quão forte, quão duradouro, quão facil­
mente adquirido e quão frequentemente repetido seja esse agra­
do. D o mesmo m odo com o [43] àquele que necessita ouro
para pôr em circulação é totalmente indiferente se a sua ma­
téria, o ouro, foi escavada da montanha ou se surgiu da areia,
contanto que por toda parte seja aceita p elo mesmo valor, as­
sim nenhum hom em pergunta, quando apenas o agrado da
vida o interessa, se se trata de representações do entendimento
ou do sentido mas somente quanto e quão grande deleite elas
pelo máximo de lempo llie proporcionam. Somente aqueles que
querem conleslar à razão a faculdade de determinar a vonta­
de sem pressuposição de nenhum sentimento podem desviar-
se do rumo de sua própria definição, declarando com o intei­
ramente indiferente aquilo que eles mesmos antes reduziram a
um e mesmo princípio. Assim se considera, por exem plo, que
também no simples exercício de força física, na consciência da
sua fortaleza de alma para a superação dos obstáculos que se
contrapõem a nosso propósito, na cultura dos talentos do espí­
rito, etc. possa encontrar-se deleite, e nós com direito chama­
mos isto de satisfações e regozijos mais finos, porque estão mais
em nos.so poder que outros, não se desgastam, antes, fortale­
cem o sentimento para um go zo ainda maior dos mesmos e,
enquam o regozijam, a o mesmo tempo cultivam. Todavia fazê-
los passar por um m odo diverso de determinação da vontade
do que simplesmente p elo sentido, p elo fato de pressuporem,
para a possibilidade daqueles deleites, um sentimento estabe­
lecido em nós para isso com o condição primeira dessa compla­
cência, é exatamente com o se ignorantes que gostam de m e­
ter-se na Metafísica pensassem a matéria tão finamente, tào re-
quintadamente, que eles mesmos gostariam de sentir vertigens
sobre ela, e então cressem ter desse m odo inventado um ente

40
Crítica du raziht j>mth a

rspirilual e, contudo, extenso. Se com lipicum, para ili-wmiiu;ii-


.1 vontade, expom o-nos na virtude [44] ao simple.s d r l r í i e tpa ■
i-l.i promete, nào podem os depois censurá-lo pelo laio de mn
■liderar este deleite totalmente h om ogêneo aos mais rudes .sen
iii los: pois não se tem absolutamente razão para imputar-lhe <|iie
live.sse atribuído as representações, pelas quais este sentimento
seria suscitado em nós, meramente aos sentidos corporais, líle,
lanio quanto .se pode supor, procurou a fonte de muitas dessas
representações igualmente no uso da faculdade de conhecer
.superior; mas isto não o impediu e tampouco podia impedi-lo
de, segundo o mencionado princípio, considerar com o totalmen-
le h om ogêneo o próprio deleite, que aquelas representações
porventura intelectuais nos outorgam, e mediante o qual elas
unicamente podem ser fundamentos determinantes da vontade.
Ser conseqüente é a maior obrigação de um filósofo e é, con-
ludo, o que mais raramente se encontra. As antigas escolas gre­
gas dão-nos disso mais exemplos do que encontramos em nos­
sa época sincretista, em que é forjado um certo sistema de co­
ligação de proposições fundamentais contraditórias, repleto de
improbidade e superficialidade, porque ele se recomenda m e­
lhor a um público que se contenta em saber de tudo um pouco
e em suma nada, e ser com isso apto em tudo. O princípio da
felicidade própria, por mais entendimento g razão que se. p.oíj--
sa usar nele, não com preenderia mesmo assim nenhum,putrq
Fundamento determinante da vontade além dos que convêm
à faculdade dç/apetição inferior e, portanto, ou não existe n e­
nhuma faculdade déUpetição <superior>41, ou a razão puratem
que~seFpor si só prática, isto é, tem que p o d er determinar a
vontade pela simples forma_da regra prática, sem pressuposi­
ção de nenhum sentimento,, por conseguinte sem representa­
ções do agradável ou desagradável enquanto matéria da facul-

4 L Kant, na 1? edição: kein Begehrungsvermögen. N o seu Hand­


exemplar consta a intercalação manuscrita oberes (superior), ficando:
“nenhuma faculdade de apetição superior".

41
Immanuel Kant

dade de apetição, que sem pre é uma .[45] condição .empírica


dos princípios. Só então a razão, na medida em que determi
ria por si mesma a vontade (não está a serviço das inclinações),
é uma verdadeira faculdade de apetição superior, à qual a fa­
culdade de apetição, detenninável patologicamente, está subor­
dinada, e é efetivamente, até especificam ente distinta desta, a
ponto de a mínima mescla dos impulsos da última prejudicar-
lhe a força e excelência, do mesmo m odo com o o mínimo de
empírico, com o condição em uma demonstração matemática,
reduz e aniquila sua dignidade e importância. A razão em um a
lei prática determina imediatamente a vontade, não mediante
um sentimento de prazer e desprazer imiscuído nela ou mes­
mo nessa lei, e somente o fato de ela com o razão pura poder
ser prática possibilita-lhe ser legislativa.

Anotação II

Ser feliz é necessariamente a aspiração de todo ente ra­


cional, p orém finito e, portanto, um inevitável fundamento de­
terminante de sua faculdade de apetição. Pois o contentamen­
to com toda a sua existência não é obra de uma posse origi­
nária e uma bem-aventurança, que. pressuporia uma consciên-
cia cle sua autossuficiência independente, mas um problema,
imposto a ele por sua própria natureza finita, porque ele é car.
rente e esta carência concerne ã matéria de- sua faculdade de-
apetição, isto é, a algo referente a um sentimento de prazer e
desprazer que jaz subjetivamente à sua base, mediante o qual
é determinado aquilo que e le necessita para o contenta mcnto
com o seu estado. Mas, justamente. porque esse..fundamento
determinante material p o d e ser conhecido ..pelo. sujeito ..apenas
de m odo em pírico, é impossível considerar essa tarefa uma
lei, porque esta enquanto objetiva teria de conter, em todos os
casos e para [46] todos os entes racionais, exatamente o mesmo
fundamento determinante da vontade. Pois, embora o conceito

42
____ Crítica cia razáu fim tiui

ilc felicidade se encontre por toda a parle como I iiiw Lniirnhi


( I.i relação prática dos objetos com a faculdade do aprl k/ai j, i -li ■
11 Miludo é somente o título geral dos fundamentos delerminaii
ir:; subjetivos e não determina nada especificamente, e é tllslu
i|iu' todavia e unicamente se trata nesta questão prática e sem
<iij:i determinação ela não p o d e absolutamente ser resolvida.
< )u seja, aquilo em que cada um costuma colocar sua felicida­
de tem a ver com o seu sentimento particular de prazer e des-
I xazer e, até num e mesmo sujeito, com a carência diversa de
mudanças desse sentimento; e portanto uma lei subjetivamen-
i c necessária (enquanto lei natural) é objetivamente um princí-
pio prático muito contingente, que em sujeitos diversos pode
e tem que variar muito, por conseguinte jamais p o d e fornecer
uma lei, porque o apetite de felicidade nâo tem a ver com a
lorma da conform idade à lei^mas unicamente coni a maieri.i.
ou seja, se e com quanto deleite posso çontar na observância
da lei. Princípios d o amor de si na verdade podem con téí re-
gras gerais de habilidade (de encontrar meios para objetivos),
mas em tal caso são meros princípios teóricos12 (p o r exem plo,
de com o [47] aquele que gosta de comer pão tem que inventar
um m oinho). Mas preceitos práticos que se fundam sobre eles
não podem ser nunca universais, pois o fundamento determi­
nante da faculdade de apetição funda-se sobre o sentimento
de prazer e desprazer, que jamais pode ser admitido com o di­
rigido universalmente aos mesmos objetos.
Mas, posto que entes racionais finitos pensassem geralmen­
te de m odo uniforme também sobre o que tivessem de admitir
com o objetos de seus sentimentos de deleite e dor e mesmo so-

42. Proposições que na Matemática ou na Ciência N;itural são d e­


nominadas práticas deveriam propriamente chamar-se técnicas. Pois es­
sas ciências não têm nada a ver com a determinação da vontade; elas in­
dicam somente o múltiplo da ação possível, o qual basta para produzir
um determinado efeito, e são, portanto, tào teóricas com o todas as pro­
posições que afirmam a conexão de uma causa com um efeito. Ora, se
alguém deseja o último, também tem que admitir a primeira. (K )

43
Immanuel Kant

bre os meios de que têm de servir-se para alcançar os primeiii is


e impedir os demais, ainda assim eles nâo poderiam de modo al
gum fazer o princípio do amor de si passar por uma lei prátic:i;
pois essa unanimidade seria ela mesma, apesar disso, somenlv
contingente. O fundamento determinante continuaria valendo só
subjetivamente e sendo simplesmente empírico, e não teria aque­
la necessidade que é pensada em cada lei, ou seja, a necessi­
dade objetiva a partir de fundamentos a priori-, pois de m odo
algum se teria de considerar essa necessidade com o prática, mas
meramente como física, a saber, que a ação seria coagida tão ine­
vitavelmente por nossa inclinação como o bocejo ao vermos ou­
tros bocejar. Poder-se-ia, antes, afirmar que não existe absoluta­
mente lei prática alguma mas só recom endações com vistas a
nossos apetites, d o que <afirmar que> princípios meramente
subjelivos se elevassem à categoria de leis práticas, que possuem
perfeitamente necessidade objetiva e não meramente subjetiva, e
que têm de ser conhecidas a priori pela razão e não pela expe­
riência (p o r mais empiricamente geral que esta também possa
ser). Mesmo as regras de fenômenos concordantes somente são
denominadas leis naturais (por exemplo, as mecânicas) se as co­
nhecemos efetivamente a priori, ou [48] se admitimos (com o nas
leis químicas) que elas seriam conhecidas a priori a partir de fun­
damentos objetivos, caso a nossa perspiciência avançasse mais
profundamente. Todavia, no caso de princípios práticos mera­
mente subjelivos, é tomado expressamente com o condição que
em sua base lenhain de encontrar-se, nào condições objetivas,
mas condições subjetivas do arbítrio; por conseguinte, que só
podem ser representadas sempre com o simples máximas, ja­
mais porém com o leis práticas. Esta última Anotação parece ser
à primeira vista um simples verbalismo; <ela é> ,â, contudo, a
determinação verbal da mais importante diferença que pode
ser considerada em investigações práticas.

43. "Ela é ” (sie isí) Faltou e foi acrescido por Kant em scu Hand­
exemplar.

44
Critica da razátt praiit tt

f 4. Teorema III

Sç...um..ente .racional d e v e representar su:i.s maximas


roiiio leis universais práticas, en tão e le som cnU ' pode iv
I >icsentá-las c o m o p rin cíp ios q u e c o n tê m o liin d a m etiU i
<Irlcrm inante cia vo n ta d e 'não seg u n d o ã.m atéria, mas sim
I >k\smente s e g u n d o a fo rm a ;
Ä m atéríavde u m p r in c íp io p rá tico é <> o b je io da vo n
lade. ‘E sté~ õ b jeto o u é o fu n d a m en to~ 'd eterm in a n te da
von ta d e, o u n ã o o é. Se e le é o fu n d a m en to d eterm in an -
le da m esm a, en tão a regra da v o n ta d e estaria subm etida
a uma c o n d iç ã o e m p írica (ã re la ç ã o da re p res en ta çã o d e-
lerm inante c o m o sen tim en to d e p ra zer e d esp ra zer), co n -
sequentemente não seria nenhuma lei prática. O ra. se se
separa, d e u m a lei to d a ,a m atéria, isto é, t o d o o b je to da
v o n ta d e (e n q u a n to fu n d a m e n to d eterm in a n te), d e la n ã o
resta [49] sen ã o a sim p les form a\d e u m a le g is la ç ã o u n i­
versal. L o g o , um en te racion al ou n ã o p o d e absolu tam en ­
te rep resen ta r seus p rin cíp io s p rático-su b jetivos, isto é,
suas m áxim as, a o m e sm o te m p o c o m o leis universais, ou
tem d e adm itir q u e a sim p les fo rm a d o s m esm o s, seg u n ­
d o a qu al eles convêm à legislação universal, torn a -os p o r
si só um a le i prática.

Anotação

Sem instrução o entendimento comum não pode distin­


guir qual forma na máxima presta-se, e qual não, a uma legis­
lação universal. Por exemplo, adotei com o máxima aumentar a
minha fortuna através de todos os meios seguros. Agora se en­
contra em minhas mãos um depósito, cujo proprietário faleceu
e não deixou nenhuma manifestação escrita a respeito. Nntu-

45
Immanuel Kant

ralmente este é o caso de minha máxima. Q uero saber agora


somente se aquela máxima pode valer também com o lei pr:i
tica universal. Aplico-a, pois. ao caso presente e pergunto st'
ela poderia admitir a forma de uma lei, por conseguinte, se eu
mediante minha máxima poderia fornecer ao mesmo tempo
uma tal lei; que seja permitido a qualquer um negar um de­
pósito, cujo assentamento ninguém p o d e provar-lhe. Dou-me
conta imediatamente de que um tal princípio enquanto lei
destruir-se-ia a si mesmo, porque faria com que não existisse
absolutamente depósito algum. Uma lei prática, qu e eu reco­
nheça com o tal, tem que qualificar-se a uma legislação univer­
sal; esta é uma proposição idêntica e, pois, por si clara. Ora, se
digo: minha vontade está sob uma lei prática, então não posso
apresentar minh.ii inclinação (p o r exem plo, no presente caso,
minha cobiça) com o o fundamento detenuinante de minha von­
tade apto a uma [50] lei prática universal; pois essa inclinação,
completamente equivocada no sentido de que devesse prestar-
-se a uma legislação universal, tem que, muito antes, sob a for­
ma de uma legislação universal, destruír-se a si mesma.
Por isso é estranho - uma vez que o apetite à felicidade
é geral e que, por conseguinte, geral é também a máxima pela
qual cada um põe a felicidade com o fundamento determinan­
te de sua vontade - que tenha p o d id o ocorrer a homens sen­
satos fazer isso‘H passai' por Lima lei prática universal. Pois, visto
que, contrariamente, Lima lei natural universal torna tudo unâ­
nime, neste caso, se se quisesse dar à máxima a universalidade
de uma lei, seguir-se-la aqui o extrem o reverso da unanimi­
dade, o pior conflito e o inteiro aniquilamento da própria má­
xima e cie seu objetivo. Pois a vontade de todos não tem então
um e mesmo objeto, mas cada um tem o seu (seu bem-estar
próprio), que em verdade pode até casualmente compatibili­
zar-se com os objetivos de outros, que eles igualmente repor­
tam a si mesmos, mas a longo prazo não é suficiente para.uma

44. Kant: es (neutro), Adickes, considerando es (isso) incompreensí­


vel, propõe sie (ela), então referindo-se a “máxima".

46
Crílica da mzáo ftnilica _

li I. |«)it(iK- ;is exceções que eventualmente ac é íncultado a l'a-


/<•! ;.;u> intermináveis e nâo p od em absolutamente ser abran
(«Idas elf m odo determinado em uma regra geral. Desse modo
dc.‘i('obre-se uma harmonia que é semelhante àquela, q u e
iiiiu certa sátira retrata, da concórdia de aimas de dois cônju­
ges prestes a arruinar-se: Ó prodigiosa harmonia, o que ele
quer, também ela o quer etc., ou o que é narrado acerca d o com ­
prometimento do rei Francisco I com o imperador Carlos V: o
q u e meu irmão Carlos quer ter (M ilão), também eu quero tê-lo.
fundamentos determinantes empíricos não se prestam a ne­
nhuma legislação externa universal, tampouco à interna; pois
r;ida um45 funda [51] a inclinação sobre seu4S sujeito, mas um
outro indivíduo funcla-a sobre outro sujeito e, em cada sujei­
to mesmo, ora uma inclinação, ora outra tem a influência pre­
ponderante. Encontrar uma lei que sob essas condições as re­
gesse globalmente, a saber, com uma unanimidade de todas
as partes, é simplesmente impossível.

jT 5- Problema471

Na suposição de que unicamente a simples forma le­


gislativa das máximas seja o fundamento determinante su-

45. Kant: jeder, Hartenstein Jener (aquele).


46. Nas edições 4a a 6* constou ein (uni).
47. Kant: Aufgabe. A tendência seria de traduzir esse termo por "ta­
refa", não fosse o fato de a partir de WOLFF, C. Mathematisches Lexicon,
171.6, ter-se tomado con-ente o seu uso no sentido de “problema” a ser re­
solvido teoricamente. Assim Kant, p. ex., nos Progressos da Metafísica, pôs
com o título de seção: Auflösung der akademischen Aufgabe..:. Resolução
do problema acadêmico (cf, Fortschritte A 109, negrito do tradutor). Em À
paz perpétua encontram-se explícitas, num sentido prático, as expressões
alemãs e latinas Kunstaufgabe {problema tecbnicum) e sittliche Aufgabe
(problema morale) (cf, EF B 88). iMas diversamente se lê, p. ex., a expres­
são eine Aufgabe zu befolgen com o “executar uma tarefa” (cf. KpV A I4n.).
..Immanuel Kant

ficiente de uma vontade: encontrar a natureza daquela


vontade que somente é determinável através dela.
— Já que a simples forma da lei pode ser representada
exclusivamente pela razão e, por conseguinte, não é ne-
nlmni'c >bjeto dos sentidos, consequentemênte"Hmpouc(.)
faz parte dos fenômenos, assim a representação.dessa
forma com o fundamento determinante da vontade é db
versa de todos os fundamentos determinantes dos even­
tos na natureza segundo a lei da causalidade, porque nes­
tes os próprios fundamentos determinantes têm que_ser
fenômenos. Mas, se nenhum outro fundamento determi­
nante da vontade, a não ser meramente aquela forma le:
gislativa universal, pode servir a esta com o lei, então uma
tal vontade tem que ser pensada com o totalmente inde-
pendente.da lei natural dos fenômenos, a saber, da lei da
causa lidadò em suas relações sucessivas*. Uma tal inde­
pendência, porém, chama-se liberdade no sentido mais
estrito, isto é, transcendental. Logo [52] uma vontade, à
qual unicamente a simples forma legislativa da máxima
pode servir de lei, é uma vontade livre.

f 6. Problema I I

Na suposição de que Lima vontade seja livre,, encon­


trar a lei que unicamente se presta para determiná-la ne­
cessariamente.
Já que a matéria da lei prática, isto é, um objeto da má­
xima, jamais pode ser dada senão empiricamente, mas a
vontade livre tem que ser independente de condições em-

48. Adickes considera que “em suas relações sucessivas" viria me­
lhor depois de “fenômenos".

48
Crítica da razão /milirti

pirk'iis (isto é, pertencentes ao mundo sensorial l c, eonm


<!<>, determinável, assini uma vontade livre tem que menu
11:11', independentemente da matéria da lei, um lundamen
i<> (.leterminaate-m-IeD Nesta, todavia, não está coi itul« >,
.ilem da matéria da, lei, nada,JUais,que a forma legislai i
va. Logo :a forma legislativa, na medida em que está con-
lida na máxima, é a única coisa que pode constituir um
fundamento.determinante da vontade^9.

Anotação

Portanto liberdade e lei prática incondicionada referem-se


reciprocamente. Ora, aqui eu não pergunto se elas também de
fato são diversas e se, muito antes, uma lei incondicionada não
é simplesmente a consciência de si de uma razão prática pura,
mas esta totalmente idêntica ao conceito positivo d e liberdade;
e sim <pergunlo> onde com eça o nosso conhecim ento ..do in­
condicionalmente prático, se pela [53] liberdade ou pela lei prá­
tica. Pela liberdade ele’0 não pode começar; pois nem podemos
tornar-nos imediatamente conscientes dela, porque seu51 pri­
meiro conceito é negativo, nem podem os inferi-la da experiên­
cia, pois a experiência só nos dá a conhecer a lei dos fenôm e­
nos, por conseguinte o mecanismo da natureza, o exato oposto
da liberdade. Logo é a lei morai,'1da qual. nos tornamos ime­
diatamente conscientes (tão logo projetamos para nós máximas
da vontade), que se oferece primeiramente a^nós e que, na

49- Vorländer alega que Hartenstein alterou des Willens (da von ­
tade) para: des freien Willens (da vonLade livre). Mas a .sua 1? edição de
1838, p. 129,. reproduziu fielmente Kant. A proposta de alteração ocorreu
somente na edição de 1867.
50. Kant: es (pronome neutro), corrigido por Vorländer para sise (pro­
nome pessoal feminino), para concordar com o termo feminino Erkennt­
nis (conhecimento).
51. Kant: sein, Ak: ihr (dela).

49
Immanuel Kant

m edida em que a razão a apresenta com o um fundamento de­


terminante sem nenhuma condição sensível preponderante, an-
tesL totajmente independente delas, conduz diretamente a<^con-
ceito de liberdade.-Mas com o é possível também a consciência
daquela lei moral? Podemos tornar-nos conscientes de leisprá-
ticas puras do mesmo modo com o somos conscientes dqApro-
posições 1'undamentais teóricas puras, na medida em que pres­
tamos iiteriçáo á necessidade com que a razão as prescreve a
nós'’- e à eliminação de todas, as .condições empíricas, à .qual
aquela nos remete. O conceito de vontade .pura surge das pri­
meiras, assim com o a consciência de um entendimento puro, do
úkimo,:\ Que esta seja a verdadeira subordinação de nossos
conceitos e que a moralidade descubra-nos primeiro o conceito
de liberdade, que, por conseguinte, a razão prática seja a primei­
ra a colocar à razão especulativa com esse conceito o mais in­
solúvel problema, para mediante o m esm o conceito pô-la no
máximo embaraço, aclara-se já p e lo seguinte: visto que a par­
tir do conceito de liberdade nada p o d e ser expíicado nos fe­
nômenos mas que aqui o mecanismo natural sempre tem que
constituir o fio condutor, que além disso também a antinomia,
da razão pura, sc; ela quiser elevar-se ao incondicionado na sé­
rie das causas, lanto num caso com o no outro enreda-se em re­
presentações 15-11 inconcebíveis, enquanto o último (m ecanis­
m o) pelo menos possui utilidade na explicação dos fen ôm e­
nos, assim jamais se teria chegado à façanha de introduzir a.
liberdade na ciência, se a lei moral, e com ela a razão prática,
nào tivesse sobrevindo e impingido a nós esse conceito/Mas
também a experiência confirma essa ordem dos conceitos em
nós. Supondo que alguém alegue que sua voluptuosa inclina-

52. A tradução segue Adickes, segundo o qual, ao invés d e “wo­


mit sie uns die Vernunft vorschreibf, é melhor “womit die Vernunft sie
uns vorschreibt’ .
53- Kant: aus dem letzteren (d o último). Natorp propõe aus den
letzteren (das últimas), para concordar com “proposições fundamentais
teóricas puras” .

50
Crítica da razâo prático

V;i<> seja-lhe totalmente irresistível no momento um <|mi n nbje


io querido e a ocasião correspondente lhe ocorram, pi-i^timar
lhe se, no caso em que se erguesse perante a casa cm que clr
encontra essa ocasião uma forca para suspendê-lo logo apos .1
<>ozada volúpia, ele então não dominaria sua inclinação. Nào se
precisa de muito tempo para adivinhar o que ele responderia.
1'erguntai-lhe, porém, se, no caso em que seu governante sob
ameaça da mesma inadiada pena de morte lhe exigisse prestar
um falso testemunho contra um hom em honrado, que ele sob
pretextos especiosos gostaria de an'uinar, se ele então, por
maior que possa ser seu amor à vida, considera possível ven ­
cê-lo. Se ele o faria ou não, talvez ele não se atreva a assegu­
rá-lo; mas que isso lhe seja possível, tem que admiti-lo sem h e­
sitação. Portanto ele julga que pode algo pelo fato de ter a cons­
ciência de que o deve, e reconhece em si a liberdade, que do
contrário, sem a lei moral, ter-lhe-ia permanecido desconhecida.

f 7. Lei fundamental da razão prática pura

Age de tal modo que a máxima de tua vontade pos­


sa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma
legislação universal.

[55] Anotação

A Geom etria pura tem postulados com o proposições prá­


ticas que, porém, nada contêm além da pressuposição de que
se pode fazer algo se porventura fosse exigido que se deva fazê-
-lo, e estas são suas únicas proposições que concernem a um
ser existente. Trata-se, pois, de regras praticas sob uma condição
problemática da vontade. Mas aqui a regra diz: deve-se simples­
mente proceder de certa maneira. Logo a regra prática é incon-
dicionada, por conseguinte representada a priori com o proposi-

51
Immanuel Kant

ção categoricamente prática, pela qual a vontade é absoluta-


mente e imediatamente determinada (pela própria regra prátí
ca, que portanto aqui é lei). Pois uma <razão> pura, em si razfu»
prática’4, é aqui imediatamente legislativa. A vontade é-pensa­
da com o independente de condições empíricas, por conse­
guinte com o vontade pura1” , determinada pela simples forma
da lei, e e.sl't' fundamento determinante é considerado a con­
dirão suprema de todas as máximas. A coisa é bastante estra­
nha c não tem equivalente em tod o o restante conhecim ento
prático. Pois o pensamento a priori de uma possível legislação
universal, que, portanto, é meramente problemático, é orde­
nado incondicionalmente com o lei, sem tomar algo empresta­
do da experiência ou de qualquer vontade exterior. Mas não se
trata tampouco de um preceito, segundo o qual deve o con er
uma açao pela qual um efeito apetecido é possível (pois então
a regra seria sempre condicionada fisicamente) e sim de uma
regra que determina a priori meramente a vontade com res­
peito à form a de suas máximas; e neste caso não é impossí­
vel pelo menos pensar uma lei - a qual serve meramente à
form a subjetiva das proposições fundamentais - com o funda­
mento determinante mediante a forma objetiva de uma lei em
geral. Pode-se denominar [56] a consciência desta lei funda-
m entalu m factuni da razão, porque não se p o d e sutil mente
inferi-la de dados antecedentes da. razão, por exemplo, da cons­
ciência da liberdade (pois esta consciência não nos é dada pre­
viamente), mas porque ela se im põe por si mesma a nós com o
uma proposição sintética a priori, que nào é fundada sobre ne­
nhuma intuição, seja pura ou empírica, se bem que ela seria
analítica se se pressupusesse a liberdade da vontade, para_p-

54. N o original, “reine, an sich praktische Vernunft”. A tradução re­


produz com menos elegância a ênfase dada pelo texto à expressão “em
si razão prática”. A ed. Ak, em desacordo com a edição original e sem o
justificar, grifou também o adjetivo reine (pura),
55. Segundo Adickes, em vez de "vontade pura" tem que ser aí “von­
tade livre”.

52
Crítica du razão /milii n

que porém se requereria como conceito positivo u11i.t niliiii.io


intelectual, que aqui de modo algum se pode udmilir. t .<miIih I' >,
para consideràr esta lei como inequivocamente ibidsi, prn i;..i
se observar que ela não é nenhum fato empírico nuis o miín >
factum d.a razão pura, que deste modo se proclama como i mI
ginariamente legislativa (sic volo, sie jubeo)*.

Corolário

A razão pura é por si só prática e dát(ao homem) uma


lei universal, qne chamamos de lei moral.

Anotação

O faeium antes mencionado é inegável. Basta desmembrar


o juízo que os. homens proferem sobre a conformidade de suas
ações a leis: entào se descobrirá sempre que, seja o que for que
a inclinação entrementes possa também expressar, a sua razão
contudo, íntegra e coagida por si própria, atém sempre a má­
xima da vontade, em uma ação, à vontade pura, isto é, a si pró­
pria, na medida em que ela se considera como a priori práti­
ca. Ora, este princípio da moralidade, devido justamente à uni­
versalidade da legislação que o torna o supremo fundamento
determinante fonnal da vontade sem consideração de todas as
diferenças57subjetivas [57] da mesma, esclarece a razão ao mes­
mo tempo como uma lei para todos os entes racionais, na me­
dida em que de modo geral tenham uma vontade, isto é, uma
faculdade de determinar a sua causalidade pela representação

56. O verso com pleto é: Hoc volo, sie iubeo, sitpfo ralione voltm-
tas ( “É isto que eu quero, ê assim que ordeno: por razão baste a minhíi
vontade.1'JUVENAL ípoeta romano, 60-127 d.C.J. Sátiras VI, 223. A tradu­
ção da frase é de Guido de Almeida).
57. Na 6? ed. constou no .singular Verschiedenheit (diferença).

53
Immanuel Kant

de regras, por conseguinte, na medida em que são capazes de


ações segundo proposições fundamentais, por conseguinte tam­
bém segundo princípios práticos a priori (pois só estes têm
aquela necessidade que a razão exige para a proposição funda­
mental). Esse princípio, poitanto, não se restringe meramente a
homens mas concerne a todos os entes finitos que têm razão
e vontade, antes, com preende até o ente infinito enquanto in­
teligência .suprema. No primeiro caso, porém, a lei tem a forma
de um imperativo, porque naquela, em verdade enquanto ente
racional, pode pressupor-se uma vontade pura58, mas, enquan­
to um ente afetado por carências e causas motoras sensíveis,
nenhuma vontade santa, isto é, uma vontade que não fosse ca­
paz de nenhuma máxima conflitante com a lei moral. Por con-
.seguinle a lei mora! ó naqueles um imperativo que ordena ca­
tegoricamente, porque a lei é incondicionada; a relação de uma
tal vontade com esta lei é uma dependência sob o nom e de
obrigação, porque significa uma necessitação —ainda que pela
simples razão e suaw lei objetiva — a uma ação que por isso se
chama dever, porque um arbítrio afetado patologicamente (em ­
bora não determ inado pela afecção, por conseguinte também
sempre livre) comporta um desejo que emerge de causas subje­
tivas e por isso. também p o d e contrapor-se frequentemente ao
fundamento determinante objetivo puro; logo, precisa de uma
resistência d.a razão prática, enquanto necessitação moral, que
pode ser denominada eoerção interior, mas intelectual. Na Inte­
ligência .sumamente .suficiente, o arbítrio é com razão represen­
tado com o incapaz de uma máxima que nào pudesse® ser ao
mesmo tempo objetivamente [58] lei, e o conceito de santidade,
que por isso lhe convém, na verdade não a sobrepõe a todas

58. Segundo Adicltes, também aqui se deve ler “livre" era vez de
“pura” .
59- Kant: dessen, corrigido inicialmente por Vogel, no exemplar de
Erlangen, para deren (fern,), para concordar com Vernunft (razão);
seguido por Hartenstein, Vorländer e Iíellermann.
60. Kant: konnte (podia), Ak: könnte (pudesse).

54
Crítica da razão fmilk a

;is leis práticas mas a todas as ieis pm ticam aik: iv.slnlivüs, pur
conseguinte à obrigação e ao dever. Esta santidade da vnni.i
de é, todavia, uma ideia prática que necessariamente tem <le sei
vir com o arquétipo, cuja aproximação iníinita é a única coisa que
compete a todos os entes racionais finitos e que a lei moral pura,
([tie por isso m esm o se chama santa, lhes mantém constante
e corretamente ante os olhos, Estar seguro do progresso até o
infinito de suas máximas e de sua imutabilidade com vistas ao
desenvolvim ento constante, isto é, a virtude, é a coisa mais ele­
vada que uma razão prática finita p o d e conseguir; a qual, por
sua vez, pelo menos com o faculdade naturalmente adquirida,
jamais pode estar acabada, porque a segurança em tal caso não
se converte nunca em certeza apodíctica, e com o persuasão é
muito perigosa.

f 8. Teorema IV
x
A autonomia da vontade é o^ único princípio de to­
das as leis morais e dos deyerçs conformes, a elas.: con­
trariamente, toda a heteronomia« do arbítrio não. só, não
funda obrigação alguma mas.,. antes, contraria o princípio
da mesma e .da moralidade da vontade. Ou seja, o único
princípio da moralidade consiste na independência de
toda a matéria da lei (a saber, de um objeto apetecido) e,
pois, ao mesmo tempo na determinação do arbítrio pela
simples forma legislativa universal, da qual uma máxima
tem que ser capaz. Mas aquela independência [59] é liber­
dade em sentido negativo, porém esta legislação própria da
razão pura e, enquanto tal, razào prática, é liberdade em
sentido positivo. Portanto a lei moral não expressa senão
a autonomia da razão prática pura, isto é, daftl liberdade,

61. Natorp sugere die (a),

55
Immanuel Kam

e esta é ela mesma a condição formal de todas as máxi


mas, sob a qual elas unicamente podem concordar com
a lei prática suprema. Se por isso a matéria do querer,
qual não pode .ser senão o objeto de um apetite ligado à
lei, entra na lei prática com o condição de possibilidade d:i
mesma, decorrerá daí uma heteronomia do arbítrio, ou
seja, uma dependência da lei natural de seguir um impul­
so ou inclinação qualquer, e a vontade não se dá ela mes­
ma a lei mas somente o preceito para a persecução racio­
nal de leis patológicas; a máxima, porém, que desse m o­
do jamais pode conter a forma universal-legislativa, não
só não institui desse m odo nenhuma obrigação mas con­
traria ela mesma o princípio de uma razão prática pura e
com isso, portanto, também a disposição moral, ainda que
a ação que deriva dela devesse ser conforme à lei.

Anotação I

Portanto jamais se pode computar com o lei prática um


preceito prático, que comporta uma condição material (por [60]
conseguinte, empírica). Pois a lei da vontade pura, que é livre,
põe esta numa esfera inteiramente diversa da empírica, e a ne­
cessidade que ela expressa, já que não deve ser nenhuma neces­
sidade natural, tem que consistir, portanto, meramente em con­
dições formais tia possibilidade de uma lei em geral. Toda a
matéria de regras práticas depende sempre de condições sub­
jetivas, que não lhe“ proporcionam nenhuma universalidade
para entes racionais, a não ser a condicionada (n o caso de que
me apeteça isto ou aquilo, que tenho de então fazer para tor-
ná-lo efetivo), e que giram globalm ente em torno do princípio
da felicidade própria. Ora, certamente é inegável que todo o que-

62. Natorp Sugere ihnen (lhes).

56
Crílica da mzim ftniflrn

irr K-nha de possuir também um objeto, por consef;uinic iiin;i


m.iicria; mas esta nem por isso é o fundamento delcrminai ile e
i condição cia máxima; pois, se o é, então esta nào se deixa
apresentar em uma forma universalmente legislativa, por<|iir
iicsle caso a expectativa da existência d o objeto seria a causa
dcierminante d o arbítrio e a dependência da faculdade de ape-
liçao da existência de uma coisa qualquer teria de ser posta en-
lan com o fundamento do querer, dependência que sempre só
pode ser procurada em condições empíricas, nâo podendo
por isso jamais fornecer o fundamento para uma regra neces­
sária e universal. Assim a felicidade de outros poderá ser o ob­
jeto cfa vontade de um ente racional. Mas, se ela fosse o fun­
damento determinante da máxima, ter-se-ia de pressupor que
encontramos nâo apenas um deleite natural no bem-estar de
outros, mas que também temos necessidade dele, com o no ca­
so da índole simpatética entre bs homens. Mas não posso pres­
supor esta carência em todo ente racional (em Deus, de m odo
algum). Logo, a matéria da máxima pode em verdade perma­
necer, mas ela nâo [6 l] tem que ser sua condição, pois d o con­
trário esta não se prestaria a uma lei. Portanto a simples for­
ma de uma lei, quew limita a matéria, tem que ser ao mesmo
tem po uma razão para acrescentar esta matéria à vontade mas
nào para6’ pressupô-la. Seja a matéria, por exem plo, minha fe­
licidade própria. Se atribuo esta a cada um (co m o no caso de
entes finitos, de fato, me é permitido fazer), ela somente pode
tomar-se uma lei prática objetiva se incluo na mesma a felici­
dade de outros. Logo, a lei de prom over a felicidade de outros
nào surge da pressuposição de que aquela65 seja um objeto pa­
ra o arbítrio de cada um, mas simplesmente do fato de que a
forma da universalidade, que a razão necessita com o condição

63. Vorländer coirige welches para welche, remetendo com isso a


“forma" em vez de “lei".
64. Natorp sugere a supressão de zu (para).
65. Kant: dieses, neutro, remete a “ lei” . Vorländer aventa diese (esta),
para remeter a “felicidade".

57
Ininmiiiie! K ant

par-i tlur li u n u m áxim a d o am o r dir -st a v a lid a d e o h ieliva i U•


uma lei. lniTU-.sc n lu nd am en to 'determ inante da vontade; e pm*
Tanto nào. era u <>bjelO i .1 le lk id a d e d e 1m tro s) o fund am en li >d r
Lennlnlinle e. miii a simple--. 11mín. 1 egal. p cia q.:a- 01: lim ilav.i
m inlta n ia \im :i Itm dada •* J h v a im lin a cä o p;ll':i p rá p ié ia r Nie
a u m v e is.ilk h u le J e im ia k-i e desk- m o d o lo rn n-la ad equada
,1 r,i/,in |hm 11» a |Hira a p a iiir de cuja liim taçím . então., e não a
p ailu ilit a iii-M i t i i f d e um motivu. e x lcrio r. o c o n c e ilo de obri
>>:K'iio. de ■.•.•••leinler a m ;i\im a do m eu a in o r de si"' tam hein ii le
11c■111. 1c11■ i |t 11[ 111( t,-,. li i'iK ai nem e p o d e ria '1' surgir.

Anotação II

( ) c s a lc ri niosto di > p rin c ip io d a m o ralid ad e é 1o rnar o p n n


.■.'ipií j da fdis-adacic p ró p ria fu n d am en to d c le n n in a m e da vou
lade, para o q u t . corno m ostrei !em q u e se c o m p u ta re m
Ueral lutlo n q u e n õ e <>nandam enlo delerm inanU . q u e d e v e ser
\ i r de k i f iü q u a lq u e r oLiira coisa q u ê na form a legislativa da
m .ix iiiij M,i-. ' ‘ste |(*2 | di/N .icoriio <\\ iiic is ijv il > n ào é sim p ie s-
11 i.ei 11e i< igiv i ei iiiii j 11 j-n iri' regras e m p in ca m e n te c o n d ic io n a ­
da» tjiie. n ao obaianic. st- queria e lev ar .1 p rin cíp io s de con h evi-
i.nenlíi necessários.. nia.s prálicu; e. m - a \< j/. tia ra /à o em relação
a v o n ia d e tnu> In,sse uio clara, Uuj inirunsterivel, uio p c r e c p u v d
iiie sm ii a;i Im m e m nuu.s c o m u iu . «ele arruinaria c r JinpieEamenle
,t iih iraiit!;t<ie: e< >ttio tal. porém , d e so p ode ainda n iam er-se nas
v s | h -i í i L k i les desci iiv. e rla n le s das esco las, q u e hCio su licie n te -
iiK.ai[e a u v \ itlas para Ia A “1 -se surdas aquela vo z celeste, co m o
fim de fiian ier um a lenna que nao cvisia n enhum a p re o cu p a ção .
Se um la m ilia r de lua estima p resum isse justifiCLir-se junio
a ii p eio p riiie rim e m o de um lal.só testem unho. a leg an d o em

6c 1. T n id u c ji 1 literal de m e i n e r S e lh s llie iie u l . ad ia m e . t-m A I * ). ;i n c ia


i lu Ira d u to r >t>biv n> e in p re jjn s d n e rs tis d o s tt-mios S e lb s tlie b e [a m o r de
d| e l :ií> e i!h e h e h im u r- p ró p rid ■.
6^. A ed , A k . s e g u in d o N a lo rp . (.■tmifít' k a n n t e p ara k a n n t e (p o d ia l.

^8
í ! (//( I I , lt l l, t rh ' ( 11,'llk ■I

i n im eiro lugar o d ever sagrado da Iclicidade p i■'|<i i.< . ■ ....... ..


:,i--.se a seguir todas as vantagens que o b te w pm - i .> nu m■
m en cio n an d o a pru d ência q u e o b serv o u para .i.-,.e'.',m n . |<
1 i.k > ser d esco b erto. m esnn» p o r ti, a qu em revela .11 M-f.it , fr,
' luicam enre para poder negá-ip sem pre; en tão, p o iem . n m 1
m aior seried ad e afirm asse sjvie praticou Mm verdadeiro devei di
hum anidade: n e sse m o m en to ou lhe 1 irias na cara ou ivtu.i
n a - com re jx ilsa , ainda q ue. no c a so de alguém q u e tenha di
ngfdc« suas p ro p o sicó es fu n d am entais tn en m ien ie fiara íts \an
M -je-is pr-iprias. n à o tiv e sse s nada a o b je ta r con tra e.ssa regra
■1 ■p ro ced er O u. siin on d o que alguém vos rccome.i:ide c o in o ca-
M.'in> uma pessoa a quem pudessei.-. t\>rtliar ce g a m e n te to d o s
. >s n -K v is negócio--. e, para insptrar-vo-. c:<mí tartÇ». lo u v asse-n
■mo rim hom em pru d en íe. q u e en te n d e m agistralm en te do
.m eiv sse próprio, t lam bem co m o ,ui na p esso a infatigavelm en-
le ath*a. q ue n ão d eixava passar nenhum :.’ o p o rtu n id a d e sem
aproveitá-la para j s s o ; fin alm en te, para T63! <|uu n a o se snieF-
puseSsem apreunst v s devidas a um inieres.se privado griwsei-
louvasse-t 1 tle como sabia \tvei refinadamente procuran
do o seu deleite nào na acumuíacao de dinhein-» nu na voiup-
luoM'Jaue brutal t-, sim. na-ampliação tle seus conhecimentos,
eiii unia bem selecionada e iasmiliva convivência, cjue p ro cu ­
rava deleite uiesmo no atendimento dos necessitado*, .masque
vle resto não tosse e.scfupuiaso quarito aos meios (que, alias,
tomam o seu \aiur ou desvalur somente do fim), procedendo
com dinheiro e haveres estranhos como se lossem seus tào Io«;j
soubesse que podia taxe-lo sein ser desc< iberto c impedido: ctt-
(âçi ou acrediiai'ieis que o recomendante esta zombando de vós
•011 que eie perdeu o juízo. - T J q clara e nilidamclllc e-slao .se
parados os limites da moralidade e doa.mor de si, que mesmi •
o olho mais coniuni nào pode d eixai de d istin g u ir se algo- pet
lence a um ou a outro, As poucas observaçóes que se seguem
podem certamente parecer supérfluas no caso de unia verdade
tào evidente, contud o .servem ao menos para propiciar maior cla­
reza ao juízo da razào hu m an a con-ium.
_____________________________________________________ Im m anuel K a n t _______________________________________________

O princípio da felicidade pode, sem dúvida, fornecer má­


ximas mas jamais aquelas que se prestassem parãTlêís dá von­
tade, mesmo que se tomasse a felicidade geral como objeto. Poi.s,
visto que o conhecimento desta assenta sobre meros dados de
experiência, 11111:1 vez que cada juízo a respeito depende muilo
da opinião de cada um, que além disso é ainda muito mutá­
vel, assim pode bem haver regras gerais mas jamais universais,
isto é, regras que na média sào muiLo frequentemente certas
mas não que sempre e necessariamente têm que ser válidas; por
conseguinte nenhuma lei prática pode fundar-se sobre elas.
Justamente porque äqui um objeto do arbítrio tem que <ser><ii
posto como fundarnento [64] da sua regra e, pois, precedê-la,
esta não podejefeyir-se. senão ao que se recomenda® e, por­
tanto, à experiência, fundando-se sobre ela, e então a diversi­
dade do juízo tem que ser interminável. Logo, este princípio não
prescreve as mesmas regras práticas a todos os entes racionais,
embora elas na verdade se situem sob um título comum, a sa­
bei, o da felicidade. A lei moral, porém, só é pensada como ob­
jetiva e necessária, porque deve valer para qualquer um que tem
razão e vontade.
A m á x im a d o a m o r d e si (p r u d ê n c ia ) a p e n a s a c o n s e lh a ; a
lei da m o ra lid a d e o rd e n a , l íá , p o ré m , um a g r a n d e d ife re n ç a
c n lr e a q u ilo q u e se n o s a c o n s e lh a e a q u ilo p a ra o q u a l s o m o s
o b rig a d o s.
A q u ilo q u e d e v e s e r fe ito s e g u n d o o p rin c íp io da a u to n o ­
mia d o arb iirio d ev e co n sid erar-se, p ara o e n te n d im e n to m ais c o ­
m um , c o m o laeil e lo la lm c n le livre d e h e sita çã o ; a q u ilo q u e d ev e
fa z e r-s e s o b a p r e s s u p o s iç ã o da h e te r o n o m ia d o m e s m o d e ­
ve c o n s id e r a r -s e d ifícil e r e q u e r c o n h e c im e n t o d o m u n d o ; isto
é, a q u ilo q u e é d e v e r a p r e s e n ta -s e p o r si m e s m o a q u a lq u e r
u m ; m a s o q u e traz v e rd a d e ira e d u ra d o u ra v a n ta g e m , s e e sta

68. Segundo Vorländer (o único a incluir a alteração) ficou suben­


tendido werden. Mas se trata originalmente de um acréscimo manuscrito
de Vogel no exem plar de Erlangen.
69- Hartenstein propõe, em vez de empfiehlt, em pfindet (.sente).

60
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ihi imporiam lanibém
1'lcilvi* mu objeto apetc ..,n> de que cuia um
devesse procurar tornai _ ..cria tolo; pois nunca se «mie
•i . i a alguéin aquilo que ele já por si inevitavelmente quer. 'lei*
m' ia que simplesmente ordenar-lhe ou, antes, oferecer-lhe re-
iii as de procedimento, porque ele nâo pode tudo o que quer.
I'i ii cm ordenar a moralidade sob o nome de dever é totalmen-
ic racional; pois, em primeiro lugar, ninguém quer de bom gra­
do obedecer a seu preceito se ele repugna às inclinações, e as
regras de procedimento quanto à maneira de alguém poder se-
guir essa lei não precisam ser aqui ensinadas; pois aquilo que
ele em relação a ela quer71, ele também o pode.
Aquele que perdeu no jogo pode perfeitamente aborrecer-
sc consigo mesmo e com sua imprudência, mas, se ele está cons­
ciente de que no jogo enganou (embora tenha ganho com ele),
lem que desprezar-se a si mesmo tão logo ele se compare com
a lei moral. Portanto esta tem que ser algo diverso do princí­
pio da felicidade própria. Pois ter de dizer a si mesmo; eu sou

70. Na 6? ed. bestimmte (determinada).


71. Na 2? ed. tun will (quer fazer).

61
Im m anuel Kant.

O princípio da felicidade pode, sem dúvida, fornecer má­


ximas mas jamais aquelas que„se prestassempáralèis da von­
tade, mesmo que se tornasse a felicidade geral como objeto. Pois,
visto que o conhecimento desta assenta sobre meros dados dc
experiência, uma vez que cada juízo a respeito depende muito
da opinifto de cada um, que além disso é ainda muito mutá­
vel, assim pode bem haver regras gerais mas jamais universais,
islo ó, rogr.i.s que na média são muito frequentemente certas
mas nào que sempre e necessariamente têm que ser válidas; por
conseguinte nenhuma lei prática pode fundar-se sobre elas.
Justamente porque aqui um. objeto do arbítrio tem que <ser>m
posto como .fundamento [64] da sua regra e,. pois, pre.çedê-la,
esta não pode referir-se senào ao que- se recomenda* e, por­
tanto, à experiência, fundando-se sobre ela, e entào a diversi­
dade do juízo tem que ser interminável. Logo, este princípio lião
prescreve as mesmas regras práticas a todos os entes racionais,
embora elas na verdade se situem sob um título comum, a sa­
ber, o da felicidade. A lei moral, porém, só é pensada como ob­
jetiva c necessária, porque deve valer para qualquer um que tem
razao e vontade.
A máxima do amor de si (prudência) apenas aconselha; a
lei tia moralidade ordena. I lá, porém, uma grande diferença
enlre aquilo que se no.s aconselha e aquilo para o qual somos
obrigados.
Aquilo que deve ser feito segundo o princípio da autono­
mia do arbítrio deve considerar-se, para o entendimento mais co­
mum, como fácil e totalmente livre de hesitação; aquilo que deve
fazer-se sob a pressuposição da heteronomia do mesmo de­
ve considerar-se difícil e requer conhecimento do mundo; isto
é, aquilo que é dever apresenta-se por si mesmo a qualquer
um; mas o que traz verdadeira e duradoura vantagem, se esta

68. Segundo Vorländer (o único a incluir a alteração) ficou suben­


tendido werden, Mas se traia originalmente de um acréscimo manuscrito
di’ Vogel no exemplar de Erlangen.
69, Hartenstein propõe, em vez de empfiehll, empfindet (sente).

60
-------------------------- t.rilica du m zã ti jm íiic a _____ __ . _

ilcvc rsiender-se a toda a existência, está sempre envolto em


■iliM wridade impenetrável e requer muita prudência para adap-
l.ii' ;i regra prática correspondente71’, através de hábeis exce-
i iics c ainda assim de um modo apenas sofrível, aos fins da
vida. A lei moral, entretanto, ordena a cada um a mais estrita
i >!isi-rvância. Logo, para o ajaizamento do que segundo ela pre­
nsa ser feito nào tem que haver tanta dificuldade, a ponto de
que até o entendimento mais comum e menos exercitado, mes­
mo sem experiência do mundo, não soubesse lidar com ele.
Satisfazer ao mandamento categórico da moralidade eslá
(i >do o tempo em poder de cada um; satisfazer ao preceito em­
piricamente condicionado [65] da felicidade, raramente, e nem
(lc longe é possível a qualquer um, sequer com vistas a um úni­
co objetivo. A causa <disso> é que no primeiro caso só importa
:i máxima, que tem de ser genuína e pura, enquanto no segun­
do importam também as forças e a faculdade física cie tornar
efetivo um objeto apetecido. Um mandamento de que cada um
devesse procurar tornar-se feliz seria tolo; pois nunca se orde­
na a alguém aquilo que ele jã por si inevitavelmente quer. Ter-
se-ia que simplesmente ordenar-lhe ou, antes, oferecer-lhe re­
gras de procedimento, porque ele não pode tudo o que quer.
Porém ordenar a moralidade sob o nom e de dever é totalmen­
te racional; pois, em primeiro lugar, ninguém quer de bom gra­
do obedecer a seu preceito se ele repugna às inclinações, e as
regras de procedimento quanto à maneira de alguém poder se­
guir essa lei não precisam ser aqui ensinadas; pois aquilo que
ele em relação a ela quer71, ele também o pode.
Aquele que perdeu no jogo pode perfeitamente aborrecer-
se consigo mesmo e com sua imprudência, mas, se ele está cons­
ciente de que no jogo enganou (embora tenha ganho com ele),
tem que desprezar-se a si mesmo tão logo ele se compare com
a lei moral. Portanto esta tem que ser algo diverso do princí­
pio da felicidade própria. Pois ter de dizer a si mesmo: eu sou

70. Na &, ed. bestirrimte (determ inada).


71. Na 2? ed. tun will (quer fazer).

61
-____ Im m anu el K ant

uma pessoa indigna, conquanto tenha enchido minha carteira,


tem que ter um outro padrão de medida do juízo que aplau­
dir a si próprio e dizer: eu sou um homem prudente, pois en­
riqueci o meu cofre.
Finalmente, na ideia de nossa razão prática há ainda algo
que acompanha a transgressão de uma lei moral, a saber, a sua
punibiiidade. Ora, ao conceito [66] de pena enquanto tal não
se pode de modo algum vincular a participação da felicidade.
Pois, embora aquele que castiga possa perfeitamente ter ao
mesmo tempo a boa intenção de dirigir a punição também para
esse fim, todavia enquanto punição, isto é, como simples mal
<Übet>, tem que antes justificar-se por si mesma, de modo que
o punido, se ficasse nisso e ele tampouco visasse algum favor
oculto por trás desse rigor, tem que ele mesmo reconhecer que
isso lhe ocon-eu de modo justo e que sua sorte corcesponde per­
feitamente a sua conduta. Toda punição enquanto tal tem que
conter, em primeiro lugar, justiça, e esta constitui o essencial
desse conceito. A ela, na verdade, pode ligar-se também bonda­
de, mas o punível, depois de seu procedimento, não tem a mí­
nima razão para contar com ela. Portanto a punição é um mal
<übel> físico, o qual, mesmo que enquanto conseqüência na­
tural nào se vinculasse ao moralmente mau <Bõsen>, todavia,
enquanto conseqüência segundo princípios de uma legislação
moral teria de estar vinculado a ele. Se, pois, todo o crime, mes­
mo sem considerar as conseqüências físicas para o agente, é por
si punível, isto é, arruina (pelo menos em parte) a felicidade,
então seria manifestamente absurdo dizer: o crime consistiu pre­
cisamente em que ele incorreu numa punição enquanto pre­
judicou sua felicidade própria (o que, segundo o princípio do
amor de si, teria que ser o verdadeiro conceito de todo o cri­
me). Deste modo a punição tornar-se-ia a razão para denomi­
nar algo um crime e a justiça teria que consistir, muito antes,
em abster-se de toda a punição e em impedir mesmo a puni­
ção natural; pois então não haveria na ação mais nada mau, por­
que os males, que do contrário se seguissem a ele e em vir­
tude dos quais, unicamente, a ação chamar-se-ia má, seriain do-

62
(,'ndca d a razão p rática

i'ivante [67] contidos. Querer, porém, depois disso considerar


ioda a punição e recompensa somente como urna engrenagem
mecânica na mão de um poder superior, que desse moclo de­
vesse servir unicamente para pôr em ação os entes facionais
com vistas a seu objetivo final (a felicidade), é um mecanismo
demasiado visivelmente supressor de toda a liberdade cie sua
vontade, para que fosse necessário deter-nos nisso.
Mais sutil ainda, embora tão igualmente inverídica, é a ale­
gação daqueles que admitem um certo sentido peculiar moral -
o qual, e não a razão, determinasse a lei mora! e segundo o
qual a consciência da virtude vincular-se-ia imediatamente a
contentamento e deleite, a do vício, porém, à dor - e que assim
submetem tudo à aspiração da felicidade própria. Sem reto­
mar aqui o que foi dito acima, quero somente assinalar a ilu­
são que ocon'e nisso. Para representar o faltoso como atormen­
tado, mediante a consciência de suas faltas, pela perturbação
de ânimo, eles têm que representá-lo já antes, cle acordo com
a mais elevada base de seu caráter, como moralmente bom, pe­
lo menos era algum grau, bem como representar já antes como
virtuoso aquele que se regozija com a consciência de ações
conformes ao dever. Logo, o conceito de moralidade e de dever
tinha de preceder toda a consideração deste contentamento e
nào pode ser de modo algum derivado do mesmo. Ora, se tem
que avaliar antes a importância do que chamamos dever, a au­
toridade da lei moral e o valor imediato que a sua observância
dá à pessoa, a seus pr.óprios olbos, para sentir aquele conten­
tamento na consciência de sua conformidade ao mesmo7- e a
amarga censura, se é que se pode censurar, por sua transgres­
são. Logo, nâo se [68] pode sentir este contentamento ou a per­
turbação73 de alma antes do conhecimento da obrigação e tor­
ná-los fundamento da última. Já se tem de estar pelo menos a

72. Vorländer corrige derselben, que supostamente remete ao feminino


Pflicht (deverj, para demselben, que então remeteria ao neutro Gesetz (lei).
73. Da 2? à &, ed, Seefcwufe (quietude de alma), em vez de Seelenun­
ruhe (perturbação de aJma), restabelecido por Natorp e mantido pela ed. Ak.

63
Im m an u el Kant

meio caminho de um homem honesto para fazer-se uma sim­


ples representação daquelas sensações, De resto não nego que,
assim como graças ã liberdade a vontade humana é imediata­
mente determinável pela lei moral, também a prática mais fre­
quente conforme a esse fundamento determinante pode en­
fim produzir subjetivamente um sentimento de contentamento
consigo mesmo; muito antes, pertence ao próprio dever cultivar
e fundar aquilo que de modo próprio merece unicamente cha­
mar-se sentimento morai; mas o conceito de dever não pode ser
deduzido dele, do contrário teríamos de imaginar um sentimen­
to de uma lei enquanto tal7,1 e tomar objeto da sensação aquilo
que .somente pode ser pensado pela razão, o que, mesmo não
devendo ser uma trivial contradição, suprimiria inteiramente to­
do o conceito de dever e colocaria simplesmente em seu lugar
um jogo mecânico de inclinações mais refinadas, que às ve­
zes cairia em desavença com as inclinações mais grosseiras.
Se agora comparamos a nossa suprema proposição funda­
mental formai da razão prática pura (como uma autonomia da
vontade) com todos os princípios materiais da moralidade <admi-
tido.s> ale aqui, podemos representar-nos todos os princípios res­
tante.s enquanto tais eni um quadro, através do qual são efeti­
va o simultaneamente esgotados todos os demais casos, com
exceção de um único caso formal7', e assim visivelmente com­
provar que é vão procurar um outro princípio além do que foi
agora apresentado. - Ou seja, todos os fundamentos ..determi­
nantes possíveis da vontade são ou meramente subjetivos e,
pois, empíricos, ou Lambém objetivos e racionais; ambos,_po.-
rém, externos ou internos.

74. Kant: als eines solchen (enquanto tal). Adickes considera neces­
sário substituir esta expressão por statt ein es solchen , ficando então: “sen­
timento de uma lei, ao invés de uma tal Heil”.
75. Natorp, apoiado por Vorländer, considera insatisfatória a cons­
trução da frase kantiana. Segundo ele, “formal” deveria vincutar-se a
“princípio”, e nào a "caso”.

64
Critica da razão prãticu

l inulametitos determ inantes m ateriais p rá tico s


no p rin cíp io da m oralidade

Subjetivos

externos internos

IviltKÜÇão Constituição civil Sentimento físico Sentimento


iM'j'.unilu (segundo (segundo mora!
Miniuiijínc) iVlandeville) Epicuro) (segundo
Hutchcson)

Objetivos
ilitcrnos externos

Perfeição Vontade de Deus


(segundo (segundo
Wolff Crusius
e as estoicos) c outros moralistas
teológicos)*

76. As obras aqui consideradas são, ncsptxtivnincnle, de MANDIiVIl.-


I.E, B. Inquiry into Moral Vtrtue, 1723; Kl iTCI IfiSON, I- íiitjuiry (imeer-
ning lhe Originai o f our Ideas of Virtue or Maral Goadness, 1725; WOLFP,
C. Ontologia, § 128; CRUSIUS, C, A. Anweisung, vernünftig z u leben,
1744 (cF. a respeito a traduçào inglesa, de L. W. Beck, da Critic of Practi-
CälReason, p. 41. Cf. complementanriente a tradução l'rancesa, de 1„ Fcny
e H. Wismann, da Critique d e la raison p ratiqu e , p. 1492).

65
Im m anu el Kant

[70] Os fundamentos determinantes que se situam no pri­


meiro grupo são, no seu conjunto, empíricos e obviamente não
se prestam de modo algum ao princípio universal da moralida­
de. Mas os do seguado grupo fundam-se sobre a razão (pois a
perfeição enquanto qualidade das coisas e a perfeição supre­
ma representada em substância, isto é, Deus, são ambas pen-
sáveis somente através de conceitos racionais). Porém o pri­
meiro conceito, ou seja, o de perfeição, pode ser tomado ou em
sentido teórico, e então não significa senão a completude^ie
cada coisa em sua espécie (perfeição transcendental) ou de uma
coisa simplesmente enquanto coisa em geral (perfeição meta­
física), e disso nâo pode tratar-se aqui. Mas o conceito de per­
feição em sentido prático é- a aptidãq_ou suficiência de uma
coisa para toda sorte de fins.. Esta perfeição, coma.qualidade do
homem, conseqiientemente interna, não é senão talento je, o
que o fortalece ou completa, habilidade. A perfeição suprema
em substância, isto é, Deus, consequentem ente externa (co n ­
siderada de um ponto de vista prático), é a. suficiência .deste
ente para todos os fins em geral. Se, pois, tiverem de ser-nos
dados ; mk \ s lins, ein relação aos quais o conceito de perfei­
ção (de uma pcileiçào interna em nós próprios ou de uma e x ­
terna cm Deus) pode unicamente lornar-se fundamento deter-
minante da vontade, todavia um fim enquanto objeto, que
tem de preceder a determinação da vontacle mediante uma re­
gra prática e conter o fundamento da possibilidade de uma tal
determinação, por conseguinte a matéria da vontade tomada
com o fundamento determinante desta é sempre empírica, por
conseguinte pode servir ao princípio epicurista da doutrina da
felicidade, jamais porém ao princípio racional puro da doutri­
na da moralidade e do dever (do mesmo m odo com o talen­
tos e sua prom oção, [71] somente porque contribuem para as
vantagens da vida, ou a vontade de Deus, se a concordância
com ela foi tomada com o objeto da vontade sem um prece­
dente princípio prático independente de sua ideia, somente pela
felicidade que disso esperamos podem tornar-se causa motriz

66
Critica d a ra z ão p rática

d.i vontade); assim segue-se, primeiro, que todos os princípios


-m111! estabelecidos são materiais, segundo, que eles compivcn-
ilrm todos os princípios materiais possíveis, e disso, fimlmen-
h\ a conclusão: visto que princípios materiais sào inteiramen­
te impróprios para a lei moral suprema (com o ficou provado),
11 princípio prático formal da razão pura, segundo o qual a sim-
I>les forma de uma legislação universal possível através de nos­
sas máximas tem que constituir o fundamento determinante su­
premo e imediato da vontade,-é„o único princípio possível que
é apto para imperativos categóricos, jsto é, para leis práticas
(que tornam ações um dever}, e em geral para o princípio da
moralidade, tanto no ajuizamento com o também na aplicação
:'i vontade humana, na determinação da mesma.

I
[72] Da dedução das proposições
fundamentais da razão prática pura

Esta Analítica demonstra que a razão pura pode ser


prática - isto é, pode determinar j>or si a vontade incle-
pencientemente"üe todo o empírico e isto-na verdade
mediante um facturn, no qual a razão pura deveras se
prova em nós praticamente, a saber, a autonomia"'7 na pro­
posição "fundamental da moralidade, pela qual ela deter­
mina a vontade ao ato. — Ela mostra ao mesmo tempo
que este fãctum vincula-se indíssoluvelmente à consciên­
cia da liberdade da vontade, antes, é idêntico a ela; e me­
diante a qual a vontade de um ente racional, que como
pertencente ao mundo sensorial se reconhece, do mes­

77. Tradução literal; melhor seria: “a saber, o da autonomia" (cf., por


analogia, a nota a A 159).

67
Im m an u el Kam

mo modo que outras causas eficientes, como necessaria­


mente submetido às leis da causalidade, contudo no do­
mínio prático, por outro lado, a saber, enquanto ente em
si mesmo é ao mesmo tempo consciente de sua existên­
cia delerminável em uma ordem inteligível das coisas, na
verdade nâo de acordo com uma intuição particular de
si mesmo e sim de acordo com certas leis dinâmicas que
podem determinai- a causalidade do mesmo ente no mun­
do sensorial; pois foi provado suficientemente em outro
lugar7" que a liberdade, se ela nos é atribuída, transpor­
ta-nos a uma ordem inteligível das coisas.
[73] Ora, se comparamos com isso a parte analítica
da crítica da razão especulativa pura, mostra-se um no­
tável contraste entre ambas. Nesta não são proposições
fundamentais mas uma intuição sensível pura (espaço e
tempo) o primeiro dado que tornou possível um conhe­
cimento a priori e, em verdade, somente para objetos dos
sentidos. — Proposições fundamentais sintéticas a partir
de simples conceitos e sem intuição eram impossíveis, mui­
to anle.s, só podiam ocorrer em referência àquela intuição
que era sensível, por conseguinte também só em referên­
cia a objetos da experiência possível, porque unicamente
os conceitos do entendimento vinculados a essa intuição
tornam possível aquele conhecimento que chamamos ex­
periência. — 1’ara além dos objetos de experiência, por­
tanto de coisas enquanto noumena , foi com pleno direito
negado à razão especulativa todo o positivo de um co­
nhecimento. - Esta, contudo, conseguiu tanto resultado,
que salvaguardou o conceito de noumena, isto é, a pos­
sibilidade, antes a necessidade, de pensá-los e, por exem-

78. Na Fun dam en tação d a metafísica dos coslumes , segundo nota


cie Vorländer.

68
Crílica d a razão prática

.sliIvoll contra todas as objeções a admissibilidade da


liberdade, considerada negativamente, como totalmente
eumpalível com aquelas proposições fundamentais e li-
inilnções da razão teórica pura, sem com isso ciar a conhe­
cer algo determinado e que se estendesse a tais objetos,
11; i medida em que, muito antes, cortou totalmente qual­
quer perspectiva nesse sentido.
[74] Contrariamente a lei moral fornece, ainda que
nenhuma perspectiva, contudo um factum absolutamen-
le inexplicável a partir de todos os dados do mundo sen-
sorial e de todo o âmbito de nosso uso teórico da razao.
I'.sfie factum oferece indícios de um mundo inteligível
puro e até o determina positivamente, permitindo-nos co­
nhecer algo dele, a saber, uma lei.
Essa lei deve propiciar ao mundo sensorial, enquanto
natureza sensível (no que concerne aos entes racionais),
a forma de um mundo inteligível, isto é , de uma nature­
za suprassensível, sem com isso romper seu7S: mecanismo.
Ora, a natureza é, no sentido mais universal, a existência
das coisas sob leis. A natureza sensível de entes racionais
em geral é a existência das mesmas sob leis empirica-
mente condicionadas, por conseguinte é heteronomia pa­
ra a razão. A natureza suprassensível dos mesmos entes
é, ao contrário, a sua existência segundo leis que são^n-
dependenjes dc toda.a condição-.empírica/que, por con­
seguinte, pertencem à autonomia da razão pura. E visto
que as leis, segundo as quais a existência das coisas de­
pende do conhecimento, são práticas, a natureza supras­
sensível, na medida em que podemos formar um con­
ceito dela, não é senão uma natureza sob a autonomia da

79. Vogel, no exemplar de Erlangen, é o único a corrigir je n e r ihrem


para je n e r in ihrem.

69
Im m an u el Kant

razão prática pura. Mas a lei dessa autonomia é a lei mo­


ral, que é, portanto, a lei fundamental de uma natureza
suprassensível e de um mundo inteligível [75] puro, cujo
equivalente deve existir no mundo sensível, mas sem ao
mesmo tempo violar as lei.s do mesmo. Poder-se-ia cha­
mar aquela de natureza arquétipa <urhildliché> (natura
arcbetypa'), que conhecemos apenas na razão, esta porém
de natureza éctipa <nachgebildete> (natura eciypa), por­
que contém o efeito possível da ideia da primeira enquan­
to fundamento determinante da vontade. Pois a lei morai
efetivamente nos transporta, em icleia, a uma natureza em
que a razão pura, se fosse acompanhada da sua corres­
pondente faculdade física, produziria o sumo bem, e ela
determina nossa vontade a conferir ao mundo sensorial
a forma de um todo de entes racionais.
Que esta ideia efetivamente se encontre, por assim
dizer, sob a forma de esboço como modelo para as de­
terminações na nossa vontade, confirma-o a mais comum
observação de .si mesmo.
Se a máxima de acordo com a qual tenho intenção
de prestar um leNleiminho for examinada pela razão pra-
lica, vejo sempre como cia seria se valesse como uma lei
universal da natureza. Sob tal forma, obviamente, qual­
quer um seria coagido à veracidade. Pois não é compatí­
vel com a universalidade de uma lei natural admitir asser­
ções como probatórias e, não obstante, como deliberada­
mente falsas. Do mesmo modo a máxima que adoto [76]
acerca da livre disposição sobre minha vida é imediata­
mente determinada, se me pergunto como ela teria cle ser
para que uma natureza se mantenha segundo uma lei da
mesma. Em uma tal natureza obviamente ninguém po­
deria arbitrariamente pôr fim à sua vida, pois tal disposi­
ção não constituiria nenhuma ordem natural duradoura,

70
Criiica d a yazüo p m /ia :

i ii mesmo se daria em todos os demais casos. <>rj, 11:1


l u i u i r / a eletiva, do modo como eia é um objeio da e\
prnrnria, a vontade livre nâo é, porém, determinada es
l><mlaneamente àquelas máximas que por si mesmas pu
d i 11 fundar uma natureza segundo leis universais, ou
q n c lambém por si conviessem a uma natureza ordena­
da de acordo com elas; muito antes, são as inclinações
I ii ivadas que em verdade constituem um todo natural se­

cundo leis patológicas (físicas) mas não uma natureza que


uniram ente fosse possível mediante nossa vontade segun-
dn leis práticas puras. Nâo obstante, pela razão somos
<■<mscientes de uma lei à qual todas as máximas são sub­
metidas, como se uma ordem natural tivesse que surgir ao
mesmo tempo de nossa vontade. Logo, essa lei tem que
mt a ideia de uma natureza nào dada empiricamente e,
r<intudo, possível pela liberdade, por conseguinte de uma
natureza suprassensível à qual conferimos realidade ob-
jt -i iva pelo menos numa perspectiva prática, porque en­
quanto entes racionais puros a consideramos objeto de
nossa vontade.
[77] Portanto a diferença entre as leis de uma natu­
reza à qual a vontade está submetida, e as de uma nature­
za que está submetida a uma vontade (com vistas ao que
dela tem relação com ações livres), depende de que na­
quela os objetos têm que ser causas das representações
que determinam a vontade, enquanto nesta a vontade de­
ve ser causa dos objetos, de modo que a sua causalidade
colocou o seu fundamento determinante meramente na
faculdade racional pura, a qual por isso também pode ser
chamada de razâo prática pura.
Logo, são muito diversos os dois problemas: como
a razão pura pode, por um lado, conhecer a priori objetos

71
Im m anuel K ant

r, por mitro, como ela pode ser imediatamente um fun-


il.iinrnio determinante da vontade, isto é, da causalida­
de do ente racional com vistas à efetividade dos objetos
(simplesmente mediante o pensamento da validade uni­
versal de suas próprias máximas, enquanto lei™).
O primeiro problema, enquanto pertencente à crítica
da razão especulativa pura, requer que se explique antes
como são possíveis a priori intuições, sem as quáis ne­
nhum objeto pode em parte alguma ser-nos dado e, por­
tanto, tampouco ser conhecido sinteticamente; e sua so­
lução consiste em que elas todas são somente sensíveis,
por isso tampouco concedem a possibilidade de um co­
nhecimento especulativo que avance além do que alcan­
ça a experiência possível [78] e que, pois, todas as pro­
posições fundamentais daquela razão prática81 pura não
conseguem mais do que tornar possível a experiência de
objetos dados ou daqueles que podem ser dados ao in­
finito, mas jamais são dados completamente.
O segundo problema, enquanto pertencente à Críti­
ca da razâo prática , não exige explicação de como os
objetos da faculdade de apetição são possíveis, pois isso
fica, enquanto problema do conhecimento natural teóri­
co, aos cuidados da crítica da razão especulativa, mas so­
mente de como a razão pode determinar a máxima da von-
lade: se isto ocorre somente mediante representações
empíricas82 como fundamentos determinantes, ou se tam­
bém a razão pura seria prática e uma lei de uma possível

HO Vorländer propôs Gesetze Cieis).


S I. Kant. praktische, corrigido por Grillo para spekulative (esp e-
culaliva).
H2, Ksinf: em pirischer Vorstellung (representação empírica), corrigi­
do i n i i I l-.iriensicin, só na ed. de 1867, não na de 1838, cf. p. 150. Natorp
(Akt ilr.'ii oiiNidiTM as diferenças entre amba.s as edições de Hartenstein.

72
(.'n 'tic a d a ra z a o /) ra lic a

Miili in iialural, nào cognoscivel de modo alj’iim empiii


■.um•ulf. A possibilidade de uma tal nalureza siipra.ssen
.im I c u j o conceito possa ser simultaneamente o f u m l a
iin i i l o d a efetividade da mesma mediante a nossa v o n
i idi' livre, não precisa de nenhuma intuição apriori (de
m u m u n d o inteligível), que neste caso, enquanto supra-
.1'ii:.ivel, teria de ser impossível também para nós. Pois o
q u e importa é somente o fundamento determinante do
q u e i e r nas suas máximas, se aquele é. emgíriço ou é um
i m i e e i l o da razão pura (da sua conformidade a leis em
/■eial) e como ele pode ser este último. Se a causalidade
i r.i vontade basta ou não para a efetividade dos objetos/
e .il.no que fica ao critério do ajuizamentojdos princípios.
|7‘>| teóricos da razão enquanto investigação da possibi­
lidade dos objetos do querer, cuja intuição, portanto, na
i |i ii •stão prática nào constitui de modo algum um momem
lo da mesma. Trata-se aqui não do sucesso mas somente
d,i determinação da vontade e do fundamento determi­
na nie da máxima da mesma enquanto vontade livre. Pois,
\e somente ante8-’ a razão pura a vontade é conforme às
leis, então seja como for a execução da sua faculdade, quer
e la surja ou não efetivamente segundo essas máximas da
legislação de uma natureza possível, disso não se ocupa
absolutamente a Crítica, que investiga aí se e como a razão
pura pode ser prática, isto é, imediatamente determinan-
le da vontade.
Neste assunto, portanto, ela pode sem objeção come­
çai’, e tem de fazê-lo, a partir de leis práticas puras e de
Mia efetividade. Mas, em vez da intuição, põe-lhes como
l undamento o conceito de sua existência no mundo in-

83. Kant: fü r (para), que segundo Adickes tem que ser substituído
hoje por vor (ante),

73
Im m anu el Kan!

teligível, ou seja, da liberdade. Pois este conceito não sig­


nifica outra coisa, e aquelas leis somente são possíveis em
relação à liberdade da vontade, mas sob a pressuposição
dela são necessárias, ou inversamente: a liberdade é ne­
cessária porque aquelas leis como postulados práticos sào
necessárias. Ora, não se pode explicar ulteriormente como
é possível esta' consciência das leis morais ou, o que é a
mesma coisa, como é possível a [80] consciência da li­
berdade;' na crítica teórica somente se pode defender a
sua admissibilidade.
A exposição da proposição fundamental suprema da
razão prática acaba de ocorrer, mostrando-se primeiramen­
te o que ela contém, que ela subsiste por si totalmente
a priori e independentemente de princípios empíricos e,
então, no que ela se distingue de todas as demais propo­
sições fundamentais práticas. Com a dedução, isto è, com
a justificação de sua validade objetiva e universal e com a
perspiciência da possibilidade de uma tal proposição sin­
tética a priori, não se pocle esperar avançar tão bem como
se deu com as proposições fundamentais do entendimen­
to leórico puro, Pois estas se referiam a objetos de expe­
riência possível, a saber, a fenômenos, e podia-se provar
que somente pelo fato de que estes fenômenos são sub­
metidos às categorias em conformidade com aquelas leis,
podem ser conhecidos como objetos da experiência, por
conseguinte que toda a experiência tem de ser conforme
a essas leis. Com a dedução da lei moral não posso, po­
rém, tomar um tal caminho. Pois nâo se trata do conhe­
cimento da natureza dos objetos, que de qualquer modo
podem ser dados alhures à razão, mas de um conheci­
mento na medida em que ele pode ser o fundamento da
existência dos próprios objetos e na medida em que a ra-

74
Crílica d a ntzào ftrtifU'j-t

.m. .iir.ivés da [811 mesma04, possui causalidade cm um


■nu- racional, isto é, se trata da razão pura que pode ses
.......:íidcrada um a facu ld ad e q u e determ ina i m c d i a l a m r n
ir ,i vontade.
< >ra, toda a perspiciência humana termina tão logo
li Iil íamos aicançad.o as forças fundamentais ou faculdades
111mi l:imentais, pois sua possibilidade não pode ser conce­
bida por nada, tampouco pode ser também forjada e ad-
miiidu arbitrariamente. Por isso no uso teórico da razão
',<i a experiência pode conceder-nos o direito de admiti-
l.i. l iste sucedâneo, de aduzir provas empíricas em vez de
1111ui dedução a partir de fontes cognitivas apriori, foi-nos,
Ih»rém, tirado também aqui relativamente à faculdade da
i.i/.:io prática pura. Pois aquilo que precisa ir buscar na ex­
periência o argumento de sua possibilidade tem que, de
.icordo com os fundamentos de sua possibilidade, ser de­
pendente de princípios da experiência, mas é impossível
considerar como tal, já em virtude de seu conceito, a razão
pura e contudo prática. Também a lei moral é dada quase
como um factum da razão pura, do qual somos conscien-
les a priori e que é apodicticamente certo, na suposição de

84. Kant: das Erkenntnis... / ein Erkenntnis (neutro acus.: o conhe­


cimento... / um conhecim ento), ...durch dieselbe (fern, acus.: pela mes-
m:í). Como a diferenciação entre die Erkenntnis (fern.: conhecim ento) e
i I í l s Erkenntnis (neutro: sentença judicial) só se estabeleceu a partir do

scculo XVin (Pfeifer), portanto desconsiderada no presente caso, diesel­


be, com o feminino, só poderia referir-se a “existência” e não a ''conheci­
mento", como, aliás, o fizeram as traduções, sem consideração de concor­
dância. Desde este ponto de vista, Hartenstein e Vorländer corrigiram o
referido pronome para dasselbe (neutro), que então concordou com “co­
nhecimento”. Mas a Ak, embora advertindo que Kant em A 52 empregou
Erkenntnis no feminino e que essa troca pode ocorrer nele, prudente­
mente, como Weischedel, manteve o texto original, que também é segui­
do na presente tradução.

75
Im m anu el K ant

que também na experiência não se podia® descobrir ne­


nhum exemplo em que ela fosse exatamente seguida. Lo-
gcTa realidade objetiva da lei moral nào pode ser prova­
da por nenhuma dedução, por nenhum*5esforço da razão
teórica, especulativa ou empiricamente apoiada, e, [821
pois, ainda que se quisesse renunciar à certeza apodíctica,
<nem> ser confirmada pelaK? experiência e deste modo ser
provada a posteriori e, contudo, é por si mesma certa.
Mas algo diverso e inteiramente paradoxal <Widersin-
nisches>m substitui esta inutilmente procurada dedução
do princípio moral, a saber, que ele mesmo serve, inver­
samente, como princípio da dedução de uma imperseru-
tável faculdade que nenhuma experiência tinha de8’ pro­
var, mas que a razão especulativa (para encontrar entre as
suas idéias cosmológicas, segundo sua causalidade, o in-
condicionado e assim não contradizer a si mesma) tinha
de admitir pelo menos como possível, ou seja, a da liber­
dade, da qual a lei moral, que nâo necessita ela mesma
cie nenhum fundamento que a justifique, prova não ape­
nas a possibilidade mas a efetividade em entes que reco­
nhecem essa lei como obrigatória para eles. De fato a lei
moral é uma lei da causalidade mediante liberdade e, por­
tanto, da possibilidade cie uma natureza supra-sensívei, as­
sim como a lei metafísica dos eventos no mundo senso-

85. Na lí e da 4a à 6“ edições, konnte (podia); na 2“. könnte (pudes-


■se), adotado por Vorländer e pela Ak.
86. Kant; alle Anstrengung, mas de acordo com Aclickes devendo
entender-se com o kein e Anstrengung (nenhum esforço) e a seguir, ao in­
vés de durch Erfahrung (por experiência), au ch durch Erfahrung nicht
(tampouco por experiência), aliás, no sentido de Grillo (cf. nota abaixo).
87. Grillo propõe durch kein e (por nenhuma).
88. Na 2?, 5“ e 6-? edições constou Widersinniges.
89. Natorp conjetura “pode’’ ou ‘'podia”.

76
(,'rífica d a rtizáo pnilii d

ii.il era uma lei cia causalidade da natureza sensível; logo


.1«|iicta determina aquilo que a filosofia especulativa tinha
d c deixar indeterminado, a saber, a lei para uma causali
d a d e cujo conceito na última era só negativo.e, portanto,
pmporciona a este, pela primeira vez, realidade objetiva.
IH31 Esta espécie de credencial da lei morai - visto
que ela mesma é estabelecida como um princípio da de­
dução da liberdade enquanto uma causalidade da razão
pura, uma vez que a razão teórica era coagida a admitir
I iclo menos a possibilidade de uma liberdade - é, em vez
de toda a justificação a priori, plenamente suficiente à
Miplementação de uma carência da liberdade. Pois a lei
II utrai prova satisfatoriamente sua realidade também para
,i critica da razao especulativa, pelo fato de que ela acres­
centa a uma causalidade pensada só negativamente, cuja
possibilidade era para aquela inconcebível e, contudo, ne­
cessário admitir, uma determinação positiva, a saber, o con­
ceito de uma razão imediatamente determinante da von­
tade (mediante a condição de uma forma legal universal
de suas máximas), e assim consegue dar à razão, que se
excedia com suas ideias sempre que queria proceder es-
peculativamente, pela primeira vez realidade objetiva, em­
bora apenas prática, e converte o seu uso transcendente
em um uso imanente (de ser ela mesma uma causa atuan-
te^ no campo da experiência .mediante .ideias).
A determinação da causalidade dos entes no mundo
sensorial jamais podia ser, enquanto tal, incondicionada
e, nâo obstante, para toda a série das condições neces­
sariamente tem que haver algo incondicionado, por con­
seguinte também uma causalidade que se determine in-

90. Kant; w irkende Ursachen (causas atuantes), correção atribuída a


I Uirtenstetn, mas que originalmente é cie Vogel, no exemplar de Erlangen.

77
Im m anu el K ant

teiramente por [84] si. Por isso a ideia de liberdade, como


uma faculdade de absoluta espontaneidade, não era uma
carência mas, no que concerne a sua possibilidade, uma
proposição fundamental analítica da razão especulativa
pura. Todavia, visto que é absolutamente impossível for­
necer em qualquer experiência um exemplo adequado a
ela, porque não pode encontrar-se entre as causas das coi­
sas como fenômenos nenhuma determinação da causali­
dade que fosse absolutamente incondicionada, assim po­
díamos defender somente o pensamento de uma causa
agente livre enquanto aplicamos este a um ente no mun­
do sensorial, contanto que elepor outro lado seja também
considerado como noumenon-, <isto> na medida em que
mostrávamos que não é contraditório considerar todas as
suas ações como fisicamente condicionadas, contanto que
elas sejam fenômenos, e considerar ao mesmo tempo a
causalidade das mesmas como fisicamente incondiciona-
das, contanto que o ente agente seja -utji ente inteligível,
e assim tornar o conceito de liberdade üm princípio re-
gulativo da razão; mediante o que, na verdade, não co­
nheço o que seja o objelo ao qual semelhante causalida­
de é atribuída mas removo o obstáculo enquanto, por um
lado, na explicação dos acontecimentos do mundo, por
conseguinte lambem das ações de entes racionais, faço
justiça ao mecanismo da necessidade natural, de retroce­
der do condicionado à condição até o infinito, por outro
lado, porém, mantenho aberto à [85] razão especulativa
o lugar vazio para ela, ou seja, o inteligível, para transfe­
rir a ele o incondicionado. Mas eu não podia realizar es­
te pensamento, isto é, transformá-lo, sequer segundo sua
possibilidade, em conhecimento de um ente agindo des­
se modo. Ora, esse_lugar vazio é preenchido pela razão
prática pura através de uma determinada lei da causalida-

78
Crítica, d a razào fn dlica

i li rm uni mundo, inteligível (mediante .liberdade), ou se


|.i, |ui;i lei moral. Com isso, na verdade, em nada c inrre
11ii Iilnela a razão especulativa com vistas a sua perspi
( inicia, mas com vistas ao asseguramento de seu p roble
mal im conceito de liberdade, para o qual é obtida aqui
n alidade objetiva e, se bem que somente prática, todavia
nuíiibitável. Mesmo o conceito de causalidade, cuja apli-
r,h,';io e, por conseguinte, também a significação propria­
mente só se verifica em referência a fenômenos para co­
nectá-los a experiências (como a Crítica da razão pura o
I nova), não é por ela ampliado de modo que estenda seu
i rs<í para além dos limites mencionados. Pois, se ela tives­
se isso em vista, então teria de querer mostrar como a
relação lógica de razão e conseqüência pode ser usada
sinteticamente em uma espécie de intuição diversa da sen­
sível, isto é, como uma causa noumenon é possível; o
que ela não pode absolutamente efetuar e como razão
prática tampouco toma em consideração, na medida em
que ela apenas põe o fundamento determinante da cau­
salidade [86] do homem enquanto ente sensorial (que é
dado) na razão pura (que por isso se chama prática) e,
portanto, não utiliza o próprio conceito cle causa, de cuja
aplicação a objetos para fins do conhecimento teórico
ela aqui pode abstrair totalmente (porque esse conceito
é encontrado sempre a priori no entendimento, indepen-
t lentemente mesmo de toda a intuição), não para conhe­
cer objetos e sim para determinar em geral a causalidade
em vista dos mesmos, logo sob nenhum outro ponto de
vista prático; e por isso pode transferir o fundamento de­
terminante da vontade para a ordem inteligível das coi­
sas, na medida em que ela ao mesmo tempo e de bom
grado confessa nâo entender que tipo de determinação
o conceito de causa possa ter para o conhecimento des-

79
Im m an u el K ant

tas coisas. Certamente ela tem que conhecer de um modo


determinado a causalidade com vistas às ações da vou
tacle no mundo sensorial, pois do contrário a razão pní
tica não poderia produzir efetivamente nenhum ato. Mas
o conceito que ela faz cie sua própria causalidade como
noumenon ela não precisa determiná-lo teoricamente pa ­
ra o fim do conhecimento cie sua existência suprassensível
e assim, pois, poder conferir-lhe significado. Pois signi­
ficado ela obtém sem isso, embora só para o uso prático,
a saber, pela lei moral. Também do ponto de vista teóri­
co esse conceito permanece sempre um puro conceito de
entendimento, dado a priori, que pode [87] ser aplicado
a objetos, quer eles sejam dados sensivelmente ou nâo
sensivelmente; se bem que, no último caso, ele nào tenha
nenhum significado e aplicação teórica determinada mas
é simplesmente um pensamento formal, contudo essen­
cial, do entendimento acerca de um objeto em geral. O
significado que a razão lhe proporciona pela lei morai
é meramente prático, já que a própria ideia da lei de uma
causalidade (da vontade) tem causalidade ou é seu fun­
da me nto determ inante.

II
Da faculdade 'Jl de a razão pura ter
no uso prático uma ampliação que no uso
especula tivo não lhe é p o r si possível

No princípio moral estabelecemos uma lei da causa­


lidade que ultrapassa o fundamento determinante desta

91. Na Introdução à M etafísica dos costumes Kant definiu Befugnis


{facultas mornlis), em relação com o conceito de lícito, com o ‘-a liberda-

80
Crítica d a m z à o [m if/ca

p a r a além de todas as condições t i o m u n d o m - i i m


m Ii i i h . i

\rl c pensamos a vontade segundo o modo como cia c dc


lei minável enquanto pertencente a um mundo inleligivcl,
p< ii conseguinte, o sujeito dessa vontade (o homem) n a o
■iiinplcsmente enquanto pertencente a um puro mundo d o
mlmdimento., embora, sob este aspecto, como desconhc-
i ido a nós (como podia ocorrer [88] segundo a crítica da
u / a o especulativa pura), mas também determinamos a
von lade com vistas à sua causalidade mediante uma lei
<|uc não pode ser computada entre nenhuma lei natural

*Ir i|iie não é limitada por nenhum imperativo oposto, a ela” (MS AB 21),
i ) Irr mo Befugnis, atualmente feminino e usado por Kant como masculi-
(iii, ( ostumeiramente traduzido por “direito”, é aqui traduzido por “facul-
11;11k-’1, de acordo com a sugestão latina de Kant e sobretudo porque B e­
fugnis pertence propriamente à exposição do conceito de direito, inclu­
sive de moral: “A todo o dever corresponde um direito <Recht>, conside-
ud o como faculdade <Befugnis> (,facultas moralis generatim), mas a nem
luilo o dever correspondem direitos <Rechte> de um outro (facultas juri-
i/lcci) de coagir alguém; esses, porém, se chamam particulannente cleve-
rrs jurídicos (MS/T A 8, Ak 383). Mais clara Fica essa diferença quando
K:int, na Introdução à Doutrina dó direito, estabelece que todo direito
ríucula-se a uma faculdade <Befugnis> de coagir: se uma coerção é jus-
i:i, então “com o direito <Rechte> conecra-se ao mesmo tempo, de acor­
do co m o princípio de contradição, uma faculdade <Befugnvs> de coagir”
<.MS/R B 35, Ak 231). Mesmo que Kant afirme a seguir que o direito não
sr constitui de dois elementos, da Verbindlichkeit (obrigatoriedade) e da
Ihfugnis (faculdade) de coagir, sem a distinção desses termos não se po­
deria sequer traduzir Kant quando afirma: “Recht und Befugnis zu zw in­
gen bedeuten ein erlei“ (direito e faculdade de coagir significam o mes­
mo. MS/R AB 36, Ak 232). Igualmente perderiam senlido Lima expressão
como rechtliche Befugnis (faculdade jurídica) e a definição, no caso nào
lautológica, de liberdade jurídica, apresentada em à p a z perpétua-, “Liber­
dade externa (jurídica) é a faculdade <Befugnis> de não obedecer a ne­
nhuma lei externa à qual eu não tenha podido dar meu assentimento"
(/:'/* B 21), Sobre a tradução de Befugnis por “legitimidade” cf. a Crítica
da facu ld ad e do ju íz o , B 363, trad. bras., p. 256, Cf. tb. a Crítica d a ra­
zão pura, trad. bras, 3“ ed,, 1987, p. 74, B 116.

81
..Imm a n uel K a n t

do mundo sensorial,. portanto estendemos o nosso, conlu'


cimento para além dos limites do92 último, cuja pretensão,
aliás, a Crítica da razão çura declarou em toda a especu
lação como nula. Ora^como é possíveHmificar aqui o uso
prático da razão pura com o uso teórico da mesma com
vistas à determinação do limite de sua faculdade?
David Hume, do qual se pode dizer que iniciou toda a
contestação® dos direitos de uma razão pura que tornavam
necessária uma investigação completa da mesma, concluiu:
o conceito de causa é um conceito que contém a neces­
sidade da conexão da existência do diverso e, em verda­
de, na medida em que é diverso, de modo que, se A é pos­
to, conheço algo inteiramente diverso dele, B, que tam­
bém tem que necessariamente existir. Mas a necessidade
só pode ser atribuída a uma conexão enquanto ela é co­
nhecida a priori; pois a experiência só daria a conhecer,
acerca de uma vinculação, que ela existe mas não que ela
necessariamente exista desse modo. Ora, diz ele, ê impos­
sível conhecei' a priori e como necessária a vinculação en­
tre uma coi.sa e outra [89| (ou entre uma determinação e
outra inteiramente diversa dela), se não são dadas na per­
cepção. Logo, o próprio conceito de causa é mentiroso e
enganador e é, para dizê-lo do modo mais brando, uma
ilusão ainda desculpável, na medida em que o hábito (uma
necessidade subjetiva) de perceber como associadas, se­
gundo sua existência, certas coisas ou suas determinações

92. Kant: des {genit. neutro), correção de Hartenstein para d er (ge-


nit. feminino), referindo-o a Sinnenwelt (mundo sensorial).
93- Vorländer, seguido pela Ak. consideraria meihor o plural An­
fechtungen (contestações), para concordar com m achten (tornaram). O
texto de Kant, em vez disso, leva a uma vinculação entre Rechte (direi­
tos) e m achten.

82
Crítica d a razàtt jirtilk/i

m.il:; frequentemente colaterais ou sucessivas imprreepli


'irlnienlc, é tomado por uma necessidade ohjc(iv;i de por
m>s próprios objetos uma tal conexão, e assim o comviiu
i Ir causa é adquirido furtivamente e não legitimamcnlc, an
le.s, lampouco pode ser alguma vez adquirido ou abona
i Im, porque ele exige uma conexão em si nula, quiméri-
i ,i, não sustentável por nenhuma razão, e à qual jamais
I><>ile corresponder algum objeto. - Assim, pois, primeira­
mente com vistas a todo o conhecimento que concerne à
existência das coisas (portanto com exclusão ainda da Ma­
le mãtica), o empirismo foi introduzido como a única fon-
le dos princípios, mas com ele, ao mesmo tempo, o pró­
prio ceticismo mais implacável com vistas a toda a ciên­
cia natural (enquanto filosofia). Pois, de acordo com tais
Iiroposições fundamentais, jamais podemos inferir de de-
lerminações dadas das coisas, segundo sua existência, uma
conseqüência (pois para isso requerer-se-ia o conceito
i le causa, que contém a necessidade de uma [90] tal co­
nexão) mas somente esperar, de acordo com a regra da
faculdade da imaginação e como de costume, casos se­
melhantes, expectativa essa que, porém, jamais é segura,
por mais frequentemente que ela se realize. De fato de
nenhum acontecimento poder-se-ia dizer: tem de ter-lhe
antecedido algo a que ele necessariamente seguia, isto é,
ele tem de possuir uma causa; e, portanto, por mais fre­
quentes casos que se conhecessem, em que algo seme­
lhante ocorreu, a ponto de que se tivesse podido deduzir
disso uma regra, nem por isso se poderia admiti-lo como
sempre e necessariamente ocorrido desse modo, e assim
.se tem que também deixar seu direito entregue ao puro
acaso, no qual cessa todo o uso da razão; o que, pois, es­
tabelece solidamente e torna irrefutável o ceticismo rela­
tivamente às conclusões que se elevam de efeitos a causas.

83
-------- Immanuel Kant

A Matemática saiu-se bem ainda por tanto tempo, por-


<|iu■11ume achou que suas proposições fossem todas ana-
ImVas, isto é, que progredissem de uma determinação a
oulVa por identidade, por conseguinte segundo o princípio
de contradição (o que, porém, é falso, posto que elas, an-
le.s, são todas sintéticas e conquanto, por exemplo, a Geo­
metria nào tenha a ver com a existência das coisas mas
somente com a sua determinação a priori em uma intui­
ção possível, ela todavia passa, como que também me­
diante conceitos causais, de uma determinação A a uma
determinação totalmente diversa B, mas [91] como necessa­
riamente conectada com aquela). Porém aquela ciência,
tão enaltecida pela sua certeza apodíctica, tem que final­
mente sucumbir também ao empirismo em proposições
fundamentais, pela mesma razão por que Hiime pôs o há­
bito em vez da necessidade objetiva no conceito de cau­
sa, e tem que, independentemente da admissão de todo
o seu orgulho, moderar suas ousadas pretensões de exigir
a priori a aquiescência, bem como esperar5" o aplauso,
para a validade universal de suas proposições* do favor
dos observadores, que como testemunhas não recusariam
confessar que aquilo que o geômetra expõe como princí­
pios eles sempre também o tivessem percebido desse mo­
do, consequentemente, embora não fosse necessário, do­
ravante permitiriam esperá-lo assim. Deste modo o em­
pirismo humiano nas proposições fundamentais conduz
lambém inevitavelmente ao ceticismo, mesmo em relação
a Matemática, consequentemente em todo o uso teórico
científico da razão (pois este pertence ou à Filosofia ou
.1 Maiemãtica). Se o uso comum da razão (em um tão ter-

‘M. Iv.inl: erwarten, Natorp: zu erwarten.

84
Crílica d a reizt)o {jràttca

uvrl soçobramento, como o que se vê suceder ;ii i,s nirn


miv.s do conhecimento) se sairá melhor e, muilo anles, n.i< >
m ' enredará ainda mais irreparavelmente precisamente
ne.sia destruição de todo o saber, se,, por conseguinte, das
mesmas proposições fundamentais não tem de resullar
um ceticismo [92] universal (que certamente porém só atin­
giria os eruditos), é o que <eu>95 quero deixar ao próprio
ajuizamento de cada um.
Ora, no que concerne à minha elaboração na Crítica
ãa razão pura, que na verdade foi propiciada por aque­
la doutrina humiana da dúvida e que, contudo, avançou
muito mais, abrangendo todo o campo da razão teórica
pura no uso sintético, por conseguinte também daquilo
que se chama metafísica em geral, procedi do seguinte
modo em relação à dúvida do filósofo escocês concer­
nente ao conceito de causalidade. Htime procedia de mo­
do perfeitamente correto, quando (como, aliás, também
acontece quase por toda parte), ao tomar os objetos da
experiência por coisas em si mesmas, declarava o con­
ceito de causa como uma enganosa e falsa fantasmago-
ria; pois acerca de coisas em si mesmas e de suas deter­
minações enquanto tais nâo se pode ter nenhuma pers­
piciência de como, pelo fato de algo A ser posto, algo di­
verso B também necessariamente tenha de ser posto e,
portanto, ele não podia de modo algum admitir um tal co­
nhecimento a priori de coisas em si mesmas. O perspicaz
senhor podia, ainda menos, permitir uma origem empí­
rica desse conceito, pois ela justamente contradiz a neces­
sidade da conexão que constitui o essencial do concei­
to de causalidade; por conseguinte o conceito foi pros-

95- 2? ed., seguida por Hartenstein., acrescenta ich: “ich Jedem".

85
.Im m anuel Kant

crito e em seu lugar entrou o hábito no observar o cur­


so das percepções.
[93] De minhas investigações, porém, resultou que os
objetos, com os quais temos a ver na experiência, não são
de modo algum coisas em si mesmas mas somente fe­
nômenos, e que - conquanto com coisas em si mesmas
não se possa absolutamente prever, antes, é impossível
ter a perspiciência de como, se A for posto, deva ser con­
traditório que B, que é totalmente diverso de A, nâo seja
posto (a necessidade da conexão entre A como causa e B
como efeito) - pode-se muito bem pensar que os obje­
tos enquanto fenômenos têm que necessariamente vin­
culasse de algum modo em uma experiência (por exem­
plo, com respeito às relações de tempo) e não podem
ser separados sem contradizer aquela vinculação, pela qual
é possível essa experiência, na qual eles são objetos e
na qual sâo cognoscíveis apenas a nós. E assim se pas­
sou também de fato; de modo que não só pude provar
o conceito de ca Lisa .segundo sua realidade, mas também
deduzi-lo como conceito a priori em virtude da necessi­
dade de conexão que ele comporta, isto é, demonstrar a
sua possibilidade a partir do entendimento puro, inde­
pendentemente de fontes empíricas e assim, após a eli­
minação da fonte do empirismo, anular em sua raiz a sua
inevitável conseqüência, a saber, o ceticismo, primeiro em
relação à Ciência Natural e então também, devido ao que
se segue perfeitamente das [94] mesmas razões, em rela­
ção à Matemática, duas ciências que sâo referidas a obje­
tos da experiência possível; e com isso pude desfazer ca­
balmente a dúvida total em tudo aquilo de que a razão
teórica afirma ter perspiciência.

86
Crítica d a ra z ã o j)r<}(ic<(

Mits que se passará com a aplicação dcsl;i >ri;i


>l,icausalidade (e* assim também de todas as demais, p ois
■.cm cias não se pode levar a cabo nenhum conhccimcii
h> do que existe) a coisas que não sâo objetos de c,\pe
i inicia possível, mas se encontram além dos limites desía?
1'nis eu somente pude deduzir a realidade objetiva destes
conceitos em relação aos objetos da experiência possível.
Mas precisamente este fato, de que apenas neste caso os
salvei, de que provei que através deles podem, contudo,
pcnsar-se objetos, embora nâo se possam determiná-los a
l>riori: é isto que lhes dá um lugar no entendimento puro,
pelo qual eles são referidos a objetos em geral (sensíveis
ou nào sensíveis). Se alguma coisa ainda falta, então se
n ata da condição da aplicação destas categorias, e sobre-
luclo da causalidade, a objetos, a saber, a intuição, que, se
não é dada, torna impossível a aplicação para fim do co­
nhecimento teórico do objeto enquanto noumenon. Por-
lanto, se alguém a tenta (como também ocorreu na Críti­
ca da razão pura), é totalmente impedido; não obstante,
o fato de [95] que a realidade objetiva do conceito sem­
pre se mantém pode ser usado em relação aos noumena
mas sem poder minimamente determinar teoricamente
esse conceito e desse modo produzir um conhecimento.
Pois, que esse conceito também em referência a um obje­
to nâo contém nada impossível, foi provado pelo fato de
que lhe estava assegurada a sede no entendimento puro
para toda a aplicação a objetos dos sentidos; e se bem que,
referido a seguir a coisas em si mesmas (que nào podem
ser objetos da experiência), ele não seja suscetível de ne-

96. A I a ed. esqueceu-se do parêntese inicial: corrigida por Gril­


lo e também por Vogel no exemplar de Erlangen.

87
Im m an u el Kant

nhuma determinação para a representação de um objeto


determinado para o fim de um conhecimento teórico, mes­
mo assim ele podia sempre ainda ser suscetível de uma
determinação para sua aplicação a algum outro fim qual­
quer (talvez prático), o que não ocorreria se, de acordo
com Hume, esse conceito de causalidade contivesse algo
impossível de pensar-se em parte alguma.
Ora, para encontrar esta condição da aplicação do
mencionado conceito de noumenon, basta que nos lem­
bremos por que nâo estamos satisfeitos com sua aplicação
a objetos de experiência mas gostaríamos de aplicá-lo tam­
bém a coisas em si mesmas. Pois então se mostra logo que
não é um fim teórico e sim prático que torna isso uma ne­
cessidade. Para a especulação, mesmo que [96] tivéssemos
sucesso nela, nâo faríamos nenhuma verdadeira aquisi­
ção no conhecimento da natureza e, em geral, em rela­
ção aos objetos que porventura nos possam ser dados,
mas quando muito ciaríamos um grande passo do sensivel­
mente condicionado (onde já nos ocupa suficientemente
permanecer junto a ele e percorrer diligentemente a ca­
deia das causas) ao suprassensível, para1-*7 completar e
limitar nosso conhecimento do lado das ratões, embora
sempre restasse não preenchido um infinito abismo en­
tre aquele limite e o que conhecemos e tivéssemos dado
mais atenção a uma vaidosa mania de questionamento do
que a um sólido desejo de saber.
Mas, além da relação em que se encontra com objetos
(no conhecimento teórico), o entendimento possui tam­
bém uma relação com a faculdade de apetição, que por

97. Kant: und (e); na 2“ ed. substituído por um (para), não manti­
do da 4“ ã (f. ed., incluído na reimpressão de 1796 e na correção manus­
crita de Vogel, depois amplamente incorporado.

88
Critica d a ra z ão f>ráfh:a

i'.mi sr chama vontade, e chama-se vontade pura na mr


ilida em que o entendimento puro (que em lal caso clia
ma se razão) é prático mediante a simples reprcsenlaç;i< >
i Ir uma lei. A realidade objetiva de uma vontade pura ou,
n <|ue é a mesma coisa, de uma razão prática pura, é da-
i l.i a priori na lei moral como .que mediante um factum'-^
pois é assim que se pode denominar uma determinação
i l:i vontade que é inevitável, embora não dependa de prin-
i ipios empíricos. No conceito de vontade, porém, já está
ennLido o conceito de causalidade, por conseguinte no
<lr uma vontade pura o conceito [97] de uma causalidade
com liberdade, isto é, não determinável segundo leis
da natureza, consequentemente incapaz de uma intuição
empírica como prova de sua9fl realidade, todavia, justifica
perfeitamente, na lei prática pura a priori, a sua realida-.
de objetiva, porém (como se pode facilmente vê-lo) não
para o fim do uso teórico e sim do uso prático da razão.
Ora, o conceito de um ente que possui vontade livre é o
conceito de uma causa noumenon ; e, de que este con­
ceito não sè contradiga, está já assegurado pelo fato de
que o conceito de uma causa - enquanto surgido total­
mente do entendimento puro, assegurado ao mesmo tem­
po, pela dedução, de sua realidade objetiva com vistas aos
objetos em geral e com isso independente, segundo sua
origem, de todas as condições sensíveis, portanto nâo li­
mitado a fenômenos (a não ser no caso em que se qui-
sesse^ fazer um determinado uso teórico"1'1deles) - <que

98. seiner (genit. masc.), referido a eines reinen Willens (dt1 unia
vonlade pura; cf. Vorländer).
99- Natorp aventa sollte (devesse).
100. Kant: ein theoretischer bestimmter G ebrauch (um uso determi­
nado teórico); melhor seria; ein bestimmter theoretischer G ebrauch (um
u.so teórico determinado. Cf. Vorländer).

89
Im m anuel Kant

esse conceito> com certeza pode101 ser aplicado a coisas


enquanto puros entes de razão. Visto, porém, que a essa
aplicação não pode atribuir-se nenhuma intuição, a qual
sempre só pode ser sensível, assim a causa noumenon é,
em relação ao uso teórico da razão, um conceito, ainda
que possível e pensável, todavia vazio. Ora, com isso tam­
pouco reivindico conhecer teoricamente a natureza de um
ente na medida em que possui uma vontade pura; basta-
me [981 com isso apenas qualificá-lo como um tal ente, por
conseguinte apenas vincular o conceito de causalidade
com o de liberdade (e, o que lhe é inseparável, com a lei
moral enquanto fundamento determinante da mesma),
cuja faculdade efetivamente me compete graças à origem
pura e não empírica do conceito de causa, enquanto não
me considero facultado a fazer disso nenhum outro uso
senão em relação à lei moral, que determina a sua rea­
lidade, isto é, a fazer disso somente um uso prático.
Se eu, com Hume, tivesse eliminado do conceito de
causalidade a realidade objetiva no uso prático102, nào so-
menle eru relação às coisas em si mesmas (ao suprassen­
sível), mas também em relação aos objetos dos sentidos,
então esse conceito teria perdido todo o significado; des­
se modo, enquanto conceito teoricamente impossível, ele
seria declarado totalmente inútil, e, como de nada também
não se pode fazer nenhum uso, o uso prático de um con­
ceito teoricamente-nulo teria sido totalmente absurdo. Ora,
o conceito de uma causalidade empiricamente incondi-
cionada é, na verdade, teoricamente vazio (sem uma intui-

101. Kant-, kön n e ; alterado por Vorländer para könnte (poderia).


102. A ed. Ak (Schöndörfer), na suposição de que Kant tenha feito,
nessa passagem, um emprego equivocado do termo “prático”, corrigiu-o
para “teórico”.

90
Crílica d a ruzàu fmilictt

çan que lhe convenha), contudo sempre pnssm-l, r rclc


iv se a um objeto indeterminado; em contra pailidn, po
ivm, lhe é dada significação na lei moral, poriam o cm uni.i
relação prática, de modo que em verdade nào possuo nc
nluima intuição que lhe determinasse a realidade teórica
objetiva, mas [99] nem por issó ele deixa de ter uma apli­
cação efetiva, que pode apresentar-se in concreto em d is-
Ix isições ou máximas, isto é, ter realidade prática que pode
ser indicada; o que, pois, é suficiente para sua própria le­
gitimidade com vistas aos noumena.
Mas esta realidade objetiva de um conceito intelectual
puro no campo do suprassensível, uma vez introduzida,
fornece doravante a todas as demais categorias, conquan­
to só na medida em que elas se encontram em vinculação
necessária com o fundamento determinante da vontade
pura (com a lei moral), também realidade objetiva, embo­
ra nenhuma outra que a apenas praticamente-aplicável e
que, no entanto, nào tem a mínima influência sobre a am­
pliação dos conhecimentos teóricos desses objetos, en­
quanto perspiciência da natureza dos mesmos pela razão
pura, Como, aliás, veremos também a seguir, essas catego­
rias referem-se sempre e somente a. entes enquanto inte­
ligências, e nestas somente à relação da razão com a von­
tade, por conseguinte sempre e somente ao prático, e não
se arrogam a nenhum ulterior conhecimento das mesmas;
mas seja que propriedades, pertencentes ao modo de re­
presentação teórico de tais coisas suprassensíveis, pos­
sam ser aduzidas çm vinculação com aquelas, estas conse­
quentemente não sâo no seu conjunto computadas como
saber mas somente como faculdade (em sentido prático,
mas de modo algum como necessidade) de admiti-las e

91
Im m anu el Ka.nl

pressupô-las, [100] mesmo onde <se admitem>'"' cnu\s


suprassensíveis (como Deus) segundo uma analogia, islo
é, segundo a relação racional pura, da qual nos servi im >s
praticamente com vistas à relação sensível, e assim, pdu
aplicação ao suprassensível mas somente de um ponto dr
vista prático, não se favorece minimamente a razão teõ
rica pura a um arrebatamento transcendente.

Segundo C apítulo
D o conceito de tun ob jeto
da ra z ã o p rá tic a p u ra

Entendo por um conceitolfMda razão prática a repre­


sentação de um objeto como um efeito possível pela liber­
dade. Ser um objetojdo conhecimento .prático enquanto
tal significa, portanto, somente a referência da vontade à
ação, pela qual esse objeto ou seu contrário seria torna­
do efetivo, e o ajuizamento se algo é ou não um objeto
da razão prática pura é somente a distinção da possibi­
lidade ou impossibilidade de querer aquela ação/pela
qual, se tivéssemos a faculdade para tanto (o que a expe-

103. annim m t (admite). Historicamente tomado com o acréscimo de


Hartenstein, também proposto por Adickes e igualmente adotado por
Kehrbach, Kirchmann e Vorländer; não adotado pela Ak, mas que do
mesmo modo o atribuiu a Hartenstein. Na verdade constou antes no
exemplar de Erlangen e foi uma correção inicial de Vogel.
104 Alterado por Vorländer para “por um conceito de objeto” e,
pela Ak, para “pelo conceito de um objeto". No entanto a construção de
Iíant “um conceito da razão prática” parece ter sentido: a razão prãLica
nào se representa diretamente objetos mas conceitos (dc objetos inexis­
tentes), a serem realizados pela liberdade e, antes deles, regras com o
motivos para a ação (cf. abaixo KpV A 105 e, ainda, A 29 e 32).

92
___ CríticiJ d(A nizúa f)râ!icti

u< m i.i Icm dc julgar), um certo objeto tornar sc ia 11011


1 1* üvm. Sc o objeto é aclmítido como fundamcnlo driiT
miii.mlc de nossa faculdade de apetição, então a sua pus
■»iNIid.klc física mediante o uso livre de nossas força,s icm
i|r anicccder o ajuizamento se ele é ou não um objeto
>l.i u /.an prática. Contrariamente, se a lei a priori pode ser
11 nr.idcrada como o fundamento determinante da ação e
r-.t.i, poilanto, como determinada pela razão prática pura,
fui.id o juízo se algo é ou não um objeto da razão prá-
Mi a pura é totalmente independente da comparação com
no:..',a faculdade física, e a questão é somente se nos é
11<'(11 iíi ido querer uma ação que é dirigida à existência de
um objeto., no caso em que este estivesse em nosso po-
dia. Por conseguinte a possibilidade moral tem que pre-
<<•! Irr a ação; pois neste caso não é o objeto e sim a lei
il.i vontade o fundamento determinante da ação.
Portanto os únicos objetos de uma razão pratica são os
i li ■bom e mau10'5'. Pois pelo primeiro entende-se um obje-
Hi necessário da faculdade de apetição; pelo segundo, da
l.icnldade de aversão, ambos, porém, de acordo com um
princípio da razão.
Se o conceito de bom nâo deve ser derivado de uma
lei prática precedente mas, antes, servir de fundamento a
rsia, então ele só [102] pode ser o conceito de algo cuja
existência promete prazer e deste modo determina a cau­
salidade do sujeito à realização do mesmo, isto é, deter­
mina a. faculdade de apetição. Ora, visto que é impossí­
vel ter a priori a perspiciência de qual representação será

105. Kant procede a uma substandvação de adjetivos, distinguindo,


se segue, entre o bom (das Gute), o mau (das Böse), o agradável
i h> f j L i e

(fias Angenehme), o desagradável (das Unangenehme) e o útil (das Nütz­


liche), com o em outras ocasiões distinguiu entre o belo t das Schöne) e o
verdadeiro (das Wahré).

93
_ ImDHiuitcl An 11/

•u i >mpanhada de pnizcr e d e qual. a o contrario. .será a c o m ­


panhada d e desprazer. assim caheria unicam en te à exp e­
riência eslipular o q u e .seja im ed iatam en te b om u mau.
-\ p ropriedade d o sujciio. em reiacào à qual. u n ic a m m i r.
esta exp eriência p o d c ser feita. é o s e n t i m t m o d e prazer
e desprazer, en qu anlc > receptividade p erten cen te a o -sen-
iid<> intem o. c desic mode. o eonceilti d o <-|ik* é imediata-
mevue I'hmii remeleria stJiiiente aquiln c o m q ue a .--.ca>a-
eilt > de de leite esui ii»u-dialaniente ' mcniada e : > «.nuviUi
d o sunpiesmente mau leria de relerir-se unicam ente ätjui-
i.o q ue pru'Mici im ediatam ente der. Mas p<ifquo iMX» ja
>iiiraria o wso lin^uisticn. < di si uu^i e .> njirncliiv'trl ■■io
bum. c o desagradável 'Jo- mau. e evi^v ; luc ^c’,ni ni;ul
iai.ii sem pre .iiui>:ad< is pc-ia ra/an, por conseguinte. (uct.lúm-
le eonceiios. que sc d eixam c o m u n ic a r u n iversalm en te w
■Mi’ mediante slinpies scnsacao. que m.* 'imiia a ■ilnefos |;^li-
leilosi 11 imii\ iduats ■- -u-a rec ep ln idade. ^mhora n or -a
ik-smos i n a / r r r i i ik-spra/.c:- p.áo possam s e r c l j w i o n vin-
nladi'.s ii: rt 11i.i[.j11n■ri11■.i n.cülmma ivpresvniai ãi - d e um
I ibjeli ' t! * ■111|'S< -|| ; ■jlli- .1 ■. h "VS( •I I I .1 P( M
" J ‘ 'int )
111 [idan n ’i ii i !!'>■'! !i‘ ■■ ii. anu,' lisii nlo p r.aico ■11n scnM-
n in ii i ■di :n , u.a it a in na na b o m . •.q u e v ■an mein nara
, i jj;raila\ ei e man * ■> {ue e vau sa d t> desa.nradi > e da d< m
(lois o a |ui/a.meiitt» da ; c ! a u i o dt»- m eios ,i jins p e rte n c e
liduNun eim vn le ii ’ a / ä o . Mas. em h o ra u n icam en te a ra-
•\n > '.era. capaz-de (ur a perspiciência da c o n e x ã o d o s juck \s
. ('in seu.s <;ijjv.iivos fdc nn >do qt;ie lamix-nl se podei iy -ie-
l'inir a \xm.tadf p d a lacald ade d os lins, na medida e m uue
V'|es sem pre sät> fundanu-nt«is determ inantes eia. kicuidaüe
, !(,■ apenVáo sej/u-ntlo princípios), assim pois as máximas.

11Jíi. N.i ctlitfEo tocitiniuf AU- 'StiiWiuur+mi pi»r


■^ithivkh' ísuj^ifi j.s■)
.

Vi
t ;níü (í t/ti mztH >pruiii <t

Ii 11 ii .i■. qm- di c<uressem sim p lesm en te co m o m eios 1 1<>


ii ih i m' i i iih eilo de b om jam ais co n teriam id iiih >>1>|eu i
t i ''iil.u k ' algo bom [Kir si m esm o mus sem p re ap en as
i >.ii . i oiilrLi coisa qualquer: o bom sem p re seria m eram cn ir
■ ntil »• aquilo pura q u e cie serv e Leria de e n co n tra r se
' ii Lr. .r» \e/.es ibru' da v o n tad e. na sen sa çã o . O ra. se esta
m |jiaim> se n sa çã o ag rad ável liyt?s*e q u e ser distínguida
I' ■i ' nu ciio cie bom . en tão nào haveria em nenhum a par-
:• i l ; i im ediatam ente b om , m as o h o n j teria q u e ser pro-
ii.i.ul't so m en te nos m eios para algo di\erso, a saber.
I' ii I algum ag rad o q u a lqu er.
I uma antiga fórmula das escolas: S ib il tipjx'tinms. uisi
■/(h nitinitr hmii: uihilctrçrsamur. nisisub n/lioiie nui/i 11;
i.i tem um uso f r e q u e n t e m e n te co rre to mas freq u en -
.• m e n le ta m b é m tnuiro prejud icial ã l'ilo st>l'ia. p o r q u e as
■,|'ir,ssóes cio hotü e n ia li c o n lè m |10 -11 im u niibiguida
d ■ ■le q u e ê culpada a Ümitaçao cia língua e pela <|l 1*1i s:it >
.um eli\ érs cie uni d u p lo sentido: p o r isso elas c o l o c a m as
’i i'. praticas n u m circ u lo v ic io so e c o a g e m a S'iiosolia
■|i u n o u.so cias m e sm as p o d e p e rc e b e r bastante b e m a di-
.' r.ivlade cio c o n c e i t o na m e sm a palavra, mas n ã o p o d e
■ ucontrar n e n h u m a expres.são particular c o r r e s p o n d e n t e
[i ; lagem a i'ilosotiai a distin ções sutis, s o b re as qu ais de
i " .is. n a o -,e pt-xJe pô r-se d e a co rd o , na medida e m q u e a
■iili ten ça n à o podia ser imediatamente* designad a p o r ne-
•ilmma e x p r e s s ã o c o n v e n ie n t e " 5'.

11.» , _\ ;lí) i J X ' k * v n i c :?s , l J « o M / n .ic ) f i l T r :i/ .iu < li ■ u m ] >t 111 i l.i•> ( If^ a

j 1 J i i k t it í. í. v ; iIL it i « V fu » ' i.- in m i/ . a < i J v liiii in .il

1uíí, A k m i l W s u , .i u v p i v s x i o s a f) n U im ii' tu u n v .n in k i <T|iii\m :j l 5i us

I i lw h .1 i' s i ^ n i l í l ; i i : n o n n< i v p r c s e n l . m i í j» jiÍv ío o m im b o m c.- p o r i j t i c

•• . i p u l u f c m o h iq iiv iv m t js ): r iiiL s i L i m l v i i l i n 'v « i i p i / u v i / m g i s p o rq u e no>

if p ic s c iiu u iio s c o m o b o m . i k 1 sal n iu t ln u u t> a p i - i i u - s ^ - ja o h L in ^ h i

»Iw r ii -* » •.k,U * n i i í i i u n i t ’ <,h> i / o m - v i i n t h » u b j i M o c o m o h o n i . n u t» k_t.>ntviín


hH+tUittftfl kmu

\ iínuua j l c n i à t a n :i s t u i de c o n ta r c o m e x p r e s s õ e s
qUc njio di.‘s<. uram ess.i hclero<;cncid ad e. I’ara :n|lii31j t[ii«.-
os latinos dc-nominam c o m uma única palavra htiinm i. ela
rx>>sui d ois co n c eito s lx-m divers« ss e tain hcm duas oxpres-
>õc*> u :i I n n . * n i d i v e r s i s : par:i tirnunu d a p o ssu i G ute
v IX/ihf <h< im c h cm -e sta r> e . para intthtui. Böse 0 Übel
e m;il-cM:ir inl« »minie»- <ou Wirf» < d o r a f l i c ä o » : de
!iit)(,!() q u e .sc iraia |lí>5 | d e d o is a ju iz a m e n to s lo ia im e n
k .* cli^ crsi).s st- ent unia acfuí c o n s i d e r a m o s o sei) Gute c

Böse < o seu earaier iiom e m a u > nu <> nns.se> W ob! «,* Weh
<I '/«'/•)' <o n o s s o e.siad« > dt- i x j n v c s i a r c mal-esrar>. Dis.su
j:i s c s e y u e q u e a p r o p o s iç ã o p sico ló g ic a a n ic r io r c. p e lo
n ieuos, a m d a im iito in c e rta se lor iradu/ida assini: nào
a p e t e c e m o s n a d a scnä< >c< >ni vi.stas a n o s s o Wohl e Web
'ih v m -csra r c jna[-cMar>. con tra r k u n t n tc . sc a aprc.senra-
mims a s s in i: n à o q u e re m o s , d e a c o r d o c o m Lima instru ção
da r a /a n . n a d a s e n a o na m e d id a em q u e o c o n s i d e r a m o s
N u n .'.‘nl ■o u m au ^/«'í.vcX ela t o m a - s e in d u b ila v elm en -
ic i i i i a r . a n ii ic s iii o ir m p ii. e x p r e s s a s ç d e m o d o total-
riu11111■i 1.111 i
< > Ufv/i/<>ii I /><■/- Ix in c.siai t mj m al-csiar> sem pre sisi-
mlii a mu- ni c uma iv lerciicia a n o s s o c s ta d o d e agrado
oii d esagrado'" . d e pra/.cr *" e dor. c s c p o r isso a p e t e c e ­
mos ou dciesiamOs um o b jclo . isto o co rre so m e n te na nie-
dida ein t|Ue e l e c referido á nossa sensibilidade e a o sen-

ik l n n r i si-|.i i i k i i t t l . i m i T i i u d e k - n i n n . i n i i - J a . i [ i f l v T :n Li ( d a u i u i i n k ' ] ; i « n
i ' l t ' i l i * ii s i i h r t i l i t n u ' h m / i . uh p i ' t i i i c i n i i . i m i , s i j i n i l i c . i i ' i . i q u t ' t f iH ' i ' r n ii &
-1l.mi "ioli :i i d c i . i i k - 1 h ii n (,- um M - j i m i d i >. i- n i c o n s i i i u C i i c i a t l r s s a I l I l ki q m .1
km du jitv i v d ^ r 11 i | li i ' iv r c i ' i m i i sv.'U h i n d . i H . m i l f > d c k ' n n i n a n l f : Í K )
111*1 l.ik 'n ih ik -n lr AiiHrhliiliíbhctl I a”i'.ld:lbilidadi‘> I nri-HliehiuliLh
t Llt'^l^rat Ijfiilid :k k * 1
I IÍ1. Rani: W'rifniigri)-. t>i\vriann.-nic di: l.nsl (“]h iiv .it '. cm .iju rjli.
I i‘l^illlltn-11. t im in p r iw r mHvmwLiI. 0 m l jjctal Ira ju zii.k i pm' •dek-ik-". Puh
'« h ih i jív iu t o Ins! i n i l i i i U iiiilx n i c> prayt-r i^k-iicu. i.|iir i- rc llrx h o.

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i.rtv a ('! < ki iu;í/'j p iia n </

........... i ili 11 le | )i a/cr c despra/.er que eie p R nlu/ Mas >i < ,///<■

■ II /ih m ' hom CHI mau> signiliea Sempre lllll. l ic lc ie in i.l


Mnii.ii.k-. n.i medida cm que esia c determ iiiad.i pela lei
■l.i i . i /. u ) ,i l a / e r d e a l - g o s e i l o b j e t o : a l i a s a v o n t a d e j a m a i .

■ !' ■!' ’i n m y i l a i m e d i a t a ment i. - p c k > o b j c l o e s t i a r c p i c s c i i


....... riu i^ e li nfa (acuidade de hi/.cr de Lima regra da r.t
i ' 1 .1 t .aisy m irturu d«.- Lima ;k ;ih ip c lu quäl- -um objeh j
l - "1' - i Mi T i a i - s ç e h / m o>. P o n a r u o o l u m i u m a u s ã o p r o
p i u n i ' . ii k ■ r e f e r i d o s a a c ó e s , n â o a o e s t a d o , d e sei>sacao
. I i | |o o } pt\s.soa. e s c a l g o tle\ t-ss.e s e r s i m p l e s m e n t e < c c m
■" h ' . . ç n i i d o . s e i n L i l i o n o r c o n d i c a o ) b o m o u m a u o u lid< >
pi 'i i-ii e n l ã o s c r ia s o m e n t e o m o d o d e aefto, a m á x i m a
■i.i \ ■•iii-adc t . p o r c o n s e g u i n t e . a p r ó p r i a p e s e t a agonie
■ hi i.i h o m e m bom ou m a u , n á o p o r e m u m a eqisa. qtu
1 " mU i ia s e f . e i l a m a d a a s s i n i.
1 i r t un i o s e p o d a ! s o m p i v i a d o P s t o i c o . q u e e i n m e i o
t mi. a - inivn.Sii.s d o r e s d e g o l a g r i l a v a : d o r . t u a i n d a p o -
■h ^ >rturar-me tanto, clí c o n lu d i.' jamais i_oni essarei q.ue
.cj.is algo mau ikxxkÚv. uialttinV. fie tinha ra/ào. O que ele
■niia era um mal-estar, o isto traía o seu grito; mas que por
■ ><’. s'e lhe atribuísse algo mau. não tinha ele motivo al
" , iim para conceder: pois a dor não d im in ui ' minimamen-
I' ■<j valor de sua pessoa mas só o valor de seu esiado l m.i
miica mentira da qual ele tivesse sido consciente teria que
li -i aba lid o sua coragem: mas a dor servia som cnie de eu
•c|o p a r a e l e v a - l o q u a n d o s e c o n s c i e n l i / a \ a d e q u e el a
i i . i o o 1 - t o r n a r a c u l p a d o d e n e n h u m a ,u , i o ui|i i.-.la e pi h

so. m e re c e d o r d e castigo

Ml. Vn< >rp d\cnlj Rw/in^crh1ubn 111nii.i 1


I I 2 K : l n I : .>( c ( i ‘ í: i 1. .(< n 'i ’u t ' m i p .iu ih ) t ( u ). n l K i.lli i l r i l U ’ | u d ^ ' > ;..vl I ' l 1

■ ^ •111p 1.ji tk- l;.rl;,iM” L-n. ; u h. i l , uj . . i u i m l v m pni I I . i r i f n>K* i [ T- ;■ ó t f i . i i Mr i . i il.i-,

' ' III i IL'.S ]1l >Ml' í Í' Tivs.


______ Immcinuei Kant

( ) (|ur (.levemos denominar bom tem que ser, no juí­


zo <le lodo homem racional, um objeto da faculdade d.e
.11 teliçao, e o mau tem que ser aos olhos de qualquer um
nhjeln cie aversão; por conseguinte, para esse ajuizamen-
l<>reinier-.se, além do sentido, ainda [107] a razão. O mes­
mo se passa com a veracidade em oposição à mentira,
com a justiça em oposição à violência, etc. Mas podemos
denominar um mal algo que, todavia, qualquer um tem
de ao mesmo tempo declarar bom, às vezes mediatamen-
le, às vezes até imediatamente. Aquele que se permite a
prática de uma operação cirúrgica sente-a, sem dúvida,
como um mal; mas pela razão ele e qualquer um a decla­
ra boa. Mas, se com alguém que gosta de provocar e per­
turbar pessoas amantes da paz as coisas acabam indo mal
e ele é despedido com uma boa dose de golpes, então isto
certamente é um mal, mas qualquer um o aprova e con­
sidera-o em si bom, mesmo que nada decorresse uite-
riormente dele; antes, mesmo aquele que os sofre tem de
reconhecer em sua razão que se lhe faz justiça, porque
cie vê aqui precisamente posta em prática a proporção
entre o bem-estar e a boa conduta, que a razão inevita­
velmente lhe apresenta.
O nosso bem e mal certamente tem muita importância
no ajuizamento de nossa razão prática e, no que concer­
ne a nossa natureza como entes sensíveis, tudo depende
de nossa felicidade, se esta é ajuizada, como sobretudo a
razão o exige, não segundo a sensação passageira mas se-
j’.undo a influência que esta contingência tem sobre toda
a nossa existência e o contentamento com [108] ela; mas
nem ludo em geral depende disso. O homem, enquanto
prrtence ao mundo sensorial, é um ente carente e nesta
medida sua razão tem certamente uma nâo desprezível

98
Crílica d a ra z ã o p rática

iii' nmbênda, de patte da sensibilidade, de cuidar do inle-


n ",',c il:i mesma e de propor-se máximas práticas lambem
i mi vista da felicidade desta vida e, se possível, também de
11n i.i vida futura. Apesar disso, ele não é tão inteiramente
,mimai a ponto de ser indiferente a tudo o que a razão
pi n si mesma diz e de usá-la simplesmente como instru­
mento de satisfação de sua carência enquanto ente sen-
‘.oiial. Pois o fato de ele ter uma razão não eleva, abso-
liilamente, o seu valor sobre a simples animalidade, se a
la/ao dever servir-lhe somente para o fim daquilo que o
instinto executa nos animais. Neste caso ela não passa­
da de uma maneira peculiar da qual a natureza se tivesse
M-rvido para equipar o homem para o mesmo fim ao qual
ela determinou os animais, sem o determinar a um fim su­
perior. De acordo, portanto, com esta disposição natural
uma vez encontrada nele, ele certamente precisa cia razão
para tomar sempre em consideração o seu bem e mal, mas
ele, além disso, a possui ainda para um fim superior, a
saber, não somente para refletir também sobre o que é
em si bom ou mau e sobre o que unicamente a razão
pura, de modo algum interessada sensivelmente, pode jul-
j ’;ir, mas para distinguir [109] este ajuizamento totalmen-
le do ajuizamento sensível e torná-lo condição suprema
i lo"! último.
Este ajuizamento do bom <Guten> e mau <Bõse> em
si, ã diferença d.o que só relativamente a bem-estar <Wohl>
ou mal-estar <Übel> pode ser denominado bom, depen­
de dos seguintes pontos: ou um princípio da razão é já

113. Vorländer admite que se trate de uma referência a “bom e


mau”. Noite e Natorp alteram des para der, permitindo uma refcrcncia a
"ajuizamento sensível”.

99
Im m an u el Kant

em si pensado como o fundamento determinante da von­


tade, sem consideração de possíveis objetos da faculdade
de apetição (logo, meramente através da forma legal da
máxima), e então aquele princípio é uma lei prática a prio­
ri e a razão pura será admitida como sendo por si mes­
ma prática; a lei, então, determina imediatamente a von­
tade, a ação conforme a ela é em si mesma boa e uma
vontade, cuja máxima é sempre conforme a essa lei, é
absolutamente e em todos os sentidos boa e a condição su­
prema de todo o bem. Ou então um fundamento deter­
minante da faculdade de apetição precede a máxima da
vontade, que pressupõe um objeto de prazer e despra-
zer, por conseguinte algo que deleita ou provoca dor, e a
máxima da razão de promover aquele e evitar este deter­
mina as ações segundo o modo como elas, relativamen­
te a nossa inclinação, são boas, por conseguinte só me-
diatainente (com respeito a um outro fim,, como meio para
o mesmo), e estas máximas então jamais podem chamar-
-se leis mas preceitos práticos racionais. O próprio [110]
fim, o deleite que procuramos, não é, no último caso, algo
bom <eiu (lulí’S>, mas um bem-estar <Wohl>, nâo um con­
ceito tia razão mas um conceito empírico de um objeto
da sensação; apenas o uso do meio correspondente, isto
é, a ação (porque para isso é requerida reflexão racional),
chama-se, contudo, boa, mas não absolutamente e sim só
em relação a nossa sensibilidade, com vistas a seu senti­
mento de prazer e desprazer; a vontade, porém, cuja má­
xima é com isso afetada, não é uma vontade pura, a qual
somente concerne àquilo em que a razão pura pode ser
por si mesma prática.
Este é o lugar para elucidar o paradoxo do método
em uma crítica da razão prática, ou seja, que o conceito
de bom e mau não tem que ser determinado antes da lei

100
Critica da razão p r á tic a ___

11mii .11 (110 fundamento da qual1J4 ele aparentemente alc


tn i.i que ser posto), mas somente (como aqui tamhem
ni orre) depois dela e através dela. Ou seja, se n ão .sou
IM'i.M'inos também que o princípio da moralidade é uma
h'i |mra, determinando a priori a vontade, então, para nà< >
iiliuiiir proposições fundamentais de modo inteiramen-
li ■i>.rat nito {gratis), teríamos de, pelo menos inicialmente,
ilci\ar indecidido se a vontade tem fundamentos deter­
minantes meramente empíricos ou se ela tem também fun-
i lamentos determinantes puros a priori-, pois contraria
h h Ias as regras fundamentais do modo de proceder filo­
sófico [111] admitir já previamente como decidido aquilo
sobre que antes do mais se tem que decidir. Ora, suposto
que quiséssemos começar do conceito de bom, para de­
duzir dele as leis da vontade, então este conceito de ob-
jeio (como bom) declararia o mesmo, simultaneamente,
ci >mo o único fundamento determinante da vontade. Vis-
ln que este conceito não tinha115 como sua norma nenhu­
ma lei prática a priori, assim a pedra de toque do bom ou
mau nâo poderia ser posta em nenhuma outra coisa que
na concordância do objeto com nosso sentimento de pra­
zer ou desprazer, e o uso da razão somente poderia con-
si.siir, em parte, em determinar esse prazer ou desprazer
ua inteira interconexão com todas as sensações de minha
existência e, em parte, em determinar os meios de conse­
guir para mim o objeto das mesmas. Ora, já que somente

114. dem er, correção atribuída a Hartenstein, embora não conste etil
m i ;iedição de 1838, p. 171, e também seguida nesta tradução. A constru­
ção de Kant, dem es, implicaria a tradução: “no fundamento do qual esta
lei..." - o contrário, portanto, do que a frase pretenderia dizer e em disso­
nância com o restante da mesma.
I IS. Kant: hatte, Hartenstein: hätte (teria).

101
_______ _ . / i i n i i í i n i l c / K i t M ___ ____— ___ _____

pela experiência p o d e decidir-se o q u e seja c o n f o r m e c o m


o sentimento d e prazei', mas q u e a lei prática su postam en ­
te d e v e fundar se sobre ela c o m o c o n d ic ã o . e n tã o a p o s ­
sibilidade d e leis práticas n p r i o r i ficaria diretam en te e x ­
cluída. p o rq u e se supunha necessário d es co b rir antes um
o b j e t o para a v o n ta d e. cu jo c o n c e i t o c o m o c o n c e i t o cie
a lg o Iíomi icria de t o iis iiiu ir o fu n d a m e n t o determ in a n te
geral. em bora em pírico, da \'onrade. Kntreianlo era neçes-
sarii i investigar ames se nào havia ta m h ém uni fu n dam en -
io deie i'm in a n ie n p r io r i da \o n t a d e to qual [112] jamais
teria siv li i en contrado e m nenhum outro lugar q u e e n l uma
lei pratiVu pura e. na v e r d a d e , na m e d id a c m q u e esta.
s em con s id era çã o cie um o h jeio . prescrev e lis m áxim as a
sim ples form a legal). Mas visto q u e já se pusera c o m o
fu n da m en to d e ioda a lei prálica um o b je t o s e g u n d o c o n ­
ceitos d o f';c;m c mau. mas q u e esse, sem uma lei a n te c e ­
dente. so podia ser pen sado seg u n d o conceitos empíricos,
assim ja se linha d e a n t e m ã o afa stado a p o ssib ilid a d e d e
sequ er pensar uma lei pnilica pura; já q u e d o contrário, se
se 1iv esM antes i nv e si i g . i d o esl.i lei analiticainenie. ter-se-ia
eiK'i »llli.ld« • q u e n.*i i e o e o i k elU i d e b o m e.’.K|U;UUo o b -
je.n >■i |i ii • d e i e n i imi.i e |oi i ia pt issrvel a lei moral, mas tjue
i m ei s. miei ite e a lei moral q u e a m e s d e t u d o determ in a
e l oni . i p o s s í v e l o c o n c e it o d e b o m . na m e d id a e m q u e
esie m e re c e a b so lu ta m en te esse n om e.
i ’sta anotação, q u e ■concerne m e ra m en te a o m é t o d o
das in\ e s iig a c ò e s morais supremas, e im portante. ív!a e s ­
cla rece d e v e z o fu n d a m e n to o r ig in a m e d e todas as con-
lusões dos filosofos acerca d o principio su prem o da moral.
!’ois cies p ro cu ra v a m um o b je t o da v o n ta d e para fa/e-lo
niaiena e funiiaincnlo d e uma lei (a qual e n tã o deveria ser
o fundamento determinante da vontade, não imediatamen-
'e mas m e d ia n te a q u e le o b je t o re m e t id o a o sen tim en to

102
(■:rfltc a i U i r a z iin jn 't t lH t<

■ '(■ j 11. l / i ‘ [' OU H 131 d e s p r a z e r V , e n q u a n t o pr i 11 k ■j 11 > d e w


'I um K r i n v e s t i g a d o Li ma k ‘i q u e d e t e r m i n a s s e i i j > r m r f e
in i' ■■ I i . i i.i m e n t e a v o n t a d e e qLi e, d e a e o r d d t u m <.■ 1 . 1. d(
i' i n nnas.se p e la p r im e ir a \ e z o o b je lo . O r a . e le s p i v U - m i n

■ ' ' I' » . i i ' e s l e o b je t o d o p ra z e r. qLie d e v e r in l o r n c c c r o v o n

■ ■ ii' > - . u p r e i l i c ) d e b o m , n a Je lie id a d e . n a p e r fe iç ã o . n o s e n

ihivm io" m o r a l oli n a v o n t a d e cie D e u s : a s s im a s u a p r o -

I" fiK .io l u n d a m e n t a l c o n s is t ia s e m p r e n u h e t e r o n o m i a

■ ‘ 'Ir.s t i n h a m q u e i n e v i t a v e l m e n l e e n c o n t r a r c o n d i ç õ e s

' H ip iric a s p a r u u m a lei m o r a l: p o r q u e e l e s p o d i a m d e ­

n o m i n a r b o m o u m a n s e u o b je t o , e n q u a n t o f u n d a m e n t o

■ I- l e i m i n a n t e i m e d i a i o d a v o n t a d e , s ó s e g u n d o s u a r e la -

■ io. i m e d i a t a c o m o s e n t im e n to , o q u a l é s e m p r e e m p ír ic o ,

'm e n t e Lima lei form al, isto c . u m a lei q u e n â o p r e s c r e

w ,i r a z ã o n a d a m a is d o q u e a F o rm a d c su a le g is la ç ã o u n i-

w -rsal c o m o c o n d i ç ã o s u p r e m a d a s m á x i m a s , p o d e s e r a

/ • r in r i u m f u n d a m e n t o d e t e r m i n a n l e d a r a z ã o p r á lic a . Q s

\ n iig o s . l o d a \ ’i a . c o m e t e r a m a b e r t a m c n l c cs.sc e r r o . p o r

i n v m a p o s t a d o a slki i n v e s t i g a ç a o m o r a l l o l . i l m e n i c n.i

di i c r m m a ç ã o d o c o i i c c i t o d e s u m o h e in , p o r c o n s e g u i n t e

di- u m o b j e t o q u e d e p o i s t c n c i o n a v a m t o r n a r f u n d a m e n

n ' d e l e r m i n a n t e d a v o n t a d e n a lei m o r a l; u m o b j e i o q ric

■' i b e m m a is ta rd e , q u a n d o a Ici m o r a ] é p e la p r im e ir a v e z

‘ ’i i f i r m a d a p o r si m e s m a e ju s iific a d a r o m o iL in d a in c n -

' 1 d e l e r m i n a n t e i m e d i a t o d a v o n t a d e , p ô d e s e r a p r e s e n ­

t a d o c o m o o b je t o á v o n t a d e a g o r a |1 1 4 ) d e i e r n i i n a d a /t

p ru > ri s e g u n d o s n a í o r m a ; c c o m o q u e q u e r e m o s o c u p a r -

i.io.s na D ia lé tic a d a r a z ã o p rá lica p u r a . O s m o d e r n o s , e n

iir o s q u a i s a q u e s t ã o d o s u m o b e m p a r e c e le r c a í d o e m

d i-s u s o . p e l o m e n o s c o m o a lg o s e m im p o r tâ n c ia , o c u l t a m

■< ' b i- \ p r e s s õ e s v a g a s ( c o m o c m m u it o s o u t r o s c a s o s ) o

ll<>. k:m[: G f s e f . Z i ' 1 n; i k ' i ) . c.-xjitís^íalt-s p u r f k l r i c / i i s k - i n.

1(0
Im m an u el Kant

mesmo erro; eie, contudo, se deixa ver em seus sistemas,


ja que ele então trai por toda parte uma heteronomia da
iav,ao prática, da qual jamais pode surgir uma lei moral
<»rclcnando universalmente a priori.
Ora, visto que os conceitos de bom e mau, enquanto
conseqüências da determinação a priori da vontade, tam­
bém pressupõem um principio prático puro, por conse­
guinte uma causalidade da razão pura, eles não se referem
originariamente, por assim dizer, como determinações da
unidade sintética do múltiplo de intuiçôes dadas em uma
consciência, a objetos, como os conceitos puros do enten­
dimento ou as categorias da razão utilizada teoricamente,
muito antes, os pressupõem como dados; mas tais con­
ceitos são no seu conjunto modos <modi> de uma úni­
ca categoria, ou seja, da de causalidade, na medida em que
o seu fundamento determinante consiste na representa­
ção racional de uma lei da mesma, que, enquanto lei da
liberdade, a razão dá a si mesma e deste modo prova-se
a priori como prática. Todavia, visto [115] que as ações,
por um lado, de fato submetem-se a uma lei, que não é
nenhuma lei da natureza mas uma lei da liberdade, con­
sequentemente pertencem à conduta de entes inteligíveis,
por outro lado, enquanto eyentos no mundo sensorial per­
tencem também aos fenômenos, as determinações de uma
razão prática só poderão ocorrer em relação aos últimos,'
consequentemente de fato em conformidade com as ca-
legorias do entendimento, mas não em vista de um uso
u-órico das mesmas, para subordinar o múltiplo da intui­
ção (sensível) a uma consciência a priori, e sim somen­
te para submeter o múltiplo das apetições à unidade da
ei msciência cie uma razão prática^ ou de uma vontade pu-
ia tt fuiuri, que ordena na lei moral.

104
Critica d a razão práíicu

líssus categorias .da liberdade, pois assim queremos


i In ii >ininá-las em vez daqueles conceitos teóricos, cnquan-
h 11 alegorias da natureza, têm uma visível vantagem sobre
r. ullimas, pelo fato de quejestas.são somente formas de
I ii 'nsamento, que mediante conceitos universais designam
.ipriias im leten ninada inenle objetos em geral para cada
liiluiçáo possível a nós; aquelas117, ao contrário, visto que
i i Hiccrnem à determinação de um arbítrio livre.(ao qual,
n.i verdade, não pode ser dada nenhuma intuição de mo-
i li i perfeitamente adequado, mas o qual - coisa que não
i >ei >rre com nenhum conceito d.o uso teórico de nossa fa-
i uIdade de conhecer - tem por fundamento uma lei prá-
líea pura [116] a priori), como conceitos elementares prá­
ticos possuem dada como fundamento, em vez da forma
da intuição (espaço e tempo), que não reside na própria
razão mas tem que ser tirada de outro lugar, ou seja, da
sensibilidade - a forma de uma vontade pura na razão, por
conseguinte na própria faculdade de pensar; desta manei­
ra, pois, ocorre que, como em todos os preceitos da razão
prática pura só se tem a ver com a determinação da von­
tade, não com as condições naturais (da faculdade práti­
ca)118 de execução de seu objetivo, os conceitos práticos a
priori tornam-se, em relação ao princípio supremo da li­
berdade, imediatamente conhecimentos e não precisam
esperar por intuições para obter significado, e. em verda­
de por esta singular razão de que eles mesmos produzem
a efetividade daquilo a que se referem (a disposição da
vontade), o que não é de modo algum o caso dos concei-

117. Kant: diese (estas). A tradução segue Adickes, que propõe jen e
( aquelas).
118. A Ak, em suas Anmerkungen t-V, p. 503, aventa que teria sido
mais razoável um deslocamento de “(da faculdade prática.}” para depois
de ‘execução de seu objetivo”.

105
Im m anuel Kam

lew teóricos. Só que se tem de observar bem que essas


categorias concernem somente à razão prática em geral
e deste modo procedem, em sua ordem, das categorias
ainda moralmente indeterminadas e sensivelmente con­
dicionadas àquelas que, enquanto sensivelmente incon-
dicionadas, são determinadas meramente pela lei moral.

[ 1 1 7 ] Tá b u a d a s c a te g o ria s da lib e rd a d e
re la tiv a m e n te a o s c o n c e ito s de hom e m au

1.
Da quantidade
Subjetivamente, segundo máximas
(opiniões da vontade do indivíduo)
Objetivamente, segundo princípios (preceitos)
Princípios t,i priori da liberdade, tanto objetivos quanta subjetivos (leis)

2 3.
Da c/tifi/ú/ac/c Da relação
Regras práticas de execução A personalidade
(prauceptivae )
Regras práticas de omissão Ao estado da pessoa
( prohibitivqe )
Regras práticas de exceções Reciprocamente, de uma
íexceptivae ) pessoa ao estado das outras

4.

M odalidade
O lícito e o ilícito
O dever e o contrário ao dever
Dever perfeito e dever imperfeito

106
Crílica d a ra z ã o prática

11 IK| Observar-se-á logo que nessa tábua a liberdade


r 11 ii i,siderada uma espécie de causalidade, que, porem,
n.n i esia subordinada a fundamentos determinantes empí
\ii ( relativamente a ações possibilitadas por ela como le­
in mieiios no mundo sensorial, que ela consequentemen­
te ■.( ■refere às categorias de sua possibilidade natural, em-
I mh. i cada categoria seja tomada tão universalmente que
II Inndamento determinante daquela causalidade pode ser
idmilido também fora do mundo sensorial, na liberdade
enquanto propriedade de um ente inteligível, até que as
e.negorias da modalidade introduzam, mas só problema-
ilmmente, a passagem de princípios práticos em geral aos
In incípios da moralidade; os quais podem então ser pela
primeira vez apresentados dogmaticamente pela lei moral.
Nào acrescento aqui mais nada para a elucidação da
presente tábua, porque ela é por si suficientemente com­
preensível. Tal divisão, baseada em princípios, é, devido
lanto à sua solidez quanto à sua compreensibilidade, mui-
lo útil a toda a ciência. Assim, por exemplo, ,satie-.se ime­
diatamente, a partir da tábua apresentada e de seu primei­
ro nümérõ, de onde se tem de começar nas considerações
praticas: das máximas"que cada um funda sobre sua incli­
nação; dos preceitos que valem para uma.espécie de en-
les racionais, na medida em que eles se põem de acordo
sobre certas inclinações; e finalmente da lei que vale para
todos, sem consideração de suas [119] inclinações etc.
Deste modo abrange-se com a vista o inteiro plano com­
pleto do que se tem a executar, inclusive cada questão da
filosofia prática a que se tem de responder e, ao mesmo
tempo, a ordem que se tem de seguir.

107
Immanuel Kant

Da típica da faculdade de julgar prática pura

Os conceitos de bom e mau determinam pela primei


ra vez um objeto à vontade. Mas eles mesmos subnir
tem-se a uma regra prática da razão, a qual, se é uma r;i
zão pura, determina a priori a vontade com respeito a seu
objeto. Ora, para saber se uma ação possível a nó&jia sen­
sibilidade seja o caso que esteja ou nâo sob a regrà, re­
quer-se uma faculdade de julgar prática, pela qual aqui­
lo que na regra foi dito universalmente (in abstracto) é
aplicado in concreto a uma ação. Mas, visto que uma regra
prática da razão pura comporta, primeiro, enquanto prá­
tica, a existência de um objeto e, segundo, enquanto re­
gra prática da razão pura, necessidade com respeito à exis­
tência da ação, por conseguinte é uma lei prática e, em
verdade, nâo uma lei natural mediante fundamentos de­
terminantes empíricos mas uma lei da liberdade, segun­
do a qual, a vontade deve ser determinável independen­
temente de todo o empírico (simplesmente pela represen­
tarão de unia lei [ 120J em geral e de sua forma), embora
iodos os rasos de a^óes possíveis que venham a ocorrer
possam ser somente empíricos, isto é,. pertencentes à ex­
periência e à natureza: assim parece absurdo querer en-
conLrar no mundo sensorial um caso que - já que ele,
nessa medida, está sempre submetido somente à lei da na­
tureza - contudo permita a aplicação a si de uma lei da
liberdade, e ao qual a ideia suprassensível do moralmente
borti, que deve ser aí apresentada in concreto, possa vir a
ser aplicada. Logo, a faculdade de julgar da razão prática
pura está submetida exatamente às mesmas dificulda­
des da razão teórica pura, a qual, entretanto, para sair

108
___C .rU ic a d a r a z ú a p r u lic it

i li’l r. iinliii ii m ão um m eio; ou seja"1', vi.su > quo ivlalivn-


11n nie .ui u.so teórico tratava-se cie intuições, as quais
11 umciu is de entendimento puros pudessem ser aplicados,
mh lições (conquanto apenas de objetos dos senLidos)
j ii ii t e m .ipesar disso ser dadas a priori, por conseguinte,
in h |iu•concerne à conexão do múltiplo nas mesmas, elas
I ii ii Inn ser dadas (enquanto esquemas) conformemente
Hin conceitos de entendimento puros a priori. Contraria­
mente o moralmente bom é, quanto ao objeto, algo su-
I nassensívei, para o qual, portanto, não pode ser encon-
li.nIo algo correspondente em nenhuma intuição sensí-
wl, e a faculdade de julgar sob leis da razão prática pura
parece estar por isso submetida a dificuldades, peculia-
H's, baseadas no fato de que uma lei da liberdade deve
mt [121] aplicada a ações como eventos que acontecem
no munclo sensorial è nessa medida, portanto,, perten­
cem à natureza.
Aqui, entretanto, se abre novamente uma perspecti­
va favorável à faculdade de julgar prática pura. Na sub-
Minção sob uma lei prática pura de uma ação possível a
mim no mundo sensorial não se tem a ver com a possi­
bilidade da ação enquanto um evento no mundo senso­
rial; pois esta concerne ao ajuizamento do. uso teórico, .da
razão segundo a lei da causalidade, um conceito-intelec­
tual puro para o qual ela. tem um esquema, na-intuição, sen­
sível. A causalidade física, ou a condição sob-a qual- ela.
se encontra, faz parte dos conceitos da natureza, cujo
esquema a faculdade de imaginar transcendental projeta.
..Aqui, porém, nâo se trata do esquema de um caso segun­
do leis, mas do esquema (.se esta palavra for aquLadequa-
119- Vogel, no exemplar de Erlangen, acrescentou weil (porque):
weil nämlich, da... (ou seja porque, visto...).

109
Im m anuel Kant

da) de uma lei mesma, porque a determinação da vonln


de (não danwação em relação a seu sucesso), unicamen
te através da lei e sem outro fundamento determinante,
liga o conceito de causalidade a condições totalmente di
versas, daquelas que constituem a conexão da naturezu.
À lei natural, enquanto lei à qual os objetos de intui­
ção sensível como tais estão [122] submetidos, tem de cor­
responder um esquema, isto é, um procedimento univer­
sal da faculdade da imaginação (de apresentar a priori
aos sentidos o conceito intelectual puro, que a lei deter­
mina). Mas à íei da liberdade (enquanto uma causalidade
de modo algum condicionada sensivelmente), por conse­
guinte, também ao conceito do incondicionalmente bom,
não pode ser atribuída nenhuma intuição, portanto ne­
nhum esquema para o fim de sua aplicação in concreto.
Consequentemente a lei moral não possui nenhuma outra
faculdade de conhecer mediadora da aplicação da mesma
a objetos da natureza, a não ser o entendimento (não a fa­
culdade da imaginação); o.qual pode atribuir a uma ideia
da razão não um esquema da .sensibilidade mas uma lei
e, conludo, uma lal que possa ser apresentada in con­
creto a objetos dos sentidos, por conseguinte uma lei na­
tural mas somente segundo sua forma, enquanto lei para
o fim da faculdade de julgar, e a essa lei podemos por
isso chamar de tipo <Typus> da lei moral.
A regra da faculdade de julgar sob leis da razão prá­
tica pura é esta: pergunta a ti mesmo se poderias de bom
grado considerar a ação, que te pr.op.ões,. como possível
mediante a tua vontade, se ela devesse ocorrer segundo
uma lei da natureza da qual tu mesmo fosses uma parte.

120. Hartenstein e a Ak corrigem d er (da) para d ie (a).

110
C ritic a d a razão p r á tic a _

Segundo essa regra, efetivamente, qualquer um ajuíxa se


:i.s ações são moralmente boas ou mas. Assim se diz: .se
cada um [123] se permitisse- enganar onde crê alcançar o
seu proveito, ou se considerasse autorizado a abreviar sua
vida tão logo o acometesse um completo tédio dela, ou se
olhasse com inteira indiferença para a necessidade de ou­
tros, e, se tu também pertencesses a uma tal ordem de coi­
sas, como irias estar de bom grado nela com o assenti­
mento de tua vontade? Ora, cada um sabe bem que, se
ele se permite secretamente a fraude justamente porque
nem todos também a praticam ou se ele sem ser notado
é desumano, nem por isso todos também o seriam ime­
diatamente contra ele; por isso esta comparação da má­
xima de suas ações com uma lei natural universal não é
tampouco o fundamento determinante de sua vontade.
Mas esta lei é, contudo, um tipo do ajuizamento daquela
máxima segundo princípios morais. Se a máxima da ação
não_é constituída de modo tal que resista à prova na for­
ma de uma lei nauiral em geral, ela é moralmente im­
possível. Mesmo o entendimento mais comum julga des­
se modo-, pois a lei da natureza é encontrada sempre
como fundamento de todos os seus juízos mais comuns,
até dos juízos de experiência. Portanto ele a tem sempre
à mão, só que, nos casos em que a causalidade deve ser
ajuizada a partir da Uberdade, aquela lei da natureza faz
meramente o papel de tipo de uma lei da liberdade, por­
que, sem ter à mào algo que pudesse tomar como exem ­
plo no caso da experiência, ele não conseguiria, na apli­
cação, fazer uso da lei de uma razão prática pura.
[124] Portanto é. também permitido servir-se da natu­
reza do mundo sensorial como tipo de uma natureza inte­
ligível,. desde que eu nâo transfira a esta as intuições e o
que depende delas mas refira a ela simplesmente a forma

tu
tiiiw iiinif/ Kenn ___________________________________

da <milnruiuludc a leis era geral (cujo conceito se encon


u.i i.nnlK-iii no mais purom dos usos da razão, mas nào
pude ser conhecido de um modo a priori determinado
M'iiiio com vistas ao uso prätico puro da razão). Pois leis
enquanto lais, de onde^quer que elas tirem os seus fun­
damentos determinantes, são sob esse aspecto idênticas.
! )e resto, visto que absolutamente nada de todo o iii-
Icligível a não ser a liberdade (mediante a lei moral), e
csia liberdade também somente enquanto é tuna pressu­
posição inseparável da lei moral, e além disso todos os
objetos inteligíveis, aos quais a razão, instruída por aque­
la lei, porventura ainda pudesse conduzir-nos,, não pos­
suem ulteriormente para nós nenhuma realidade senão
para o fim da mesma lei e do uso da razão prática pura,
esta porém estando legitimada e necessitada de usar a na­
tureza (segundo a sua forma intelectual pura) como tipo
da faculdade de julgar, assim a presente observação ser­
ve para impedir que o que pertence simplesmente à tí­
pica dos conceitos não seja computado entre os próprios
conceitos^ Portanto esta típica, enquanto típica da faculda­
de de julgar, preserva do empirismo da razão prática,, o
qual coloca [125J os conceitos práticos de bom e mau
meramente em conseqüências da experiência (da cha­
mada felicidade), se bem que esta e as infinitas conse­
qüências úteis de uma vontade determinada peto amor de
si1- - se essa vontade se fizesse ao mesmo tempo lei na-
iura! universal - pode todavia servir como tipo ínteira-

121. Hartenstein e a Ak corrigiram reinsten (no mais puro) para £8-


iiiríiisífu (no mais comum).
122. Vorländer (1993, p 83) fez constar erroneamente Selbsthilfe, em
viv itr S\'íbsitiebe, no que foi acompanhado pela tradução inglesa de I .
V p . 7- 1.

112
Critica d a razão prálica

mriilr adequado ao moralmente bom mas não o igual u


i ".Ir. A mesma típica preserva também do misticismo d;i ra
,n> prálica, a qual1* torna esquema aquilo que servia ape
i i . i n como símbolo, isto é , atribui intuições efetiva.s r ,
......ludo, não sensíveis (de um invisível reino de Deus)
.1 .iplicaçào dos conceitos morais e perde-se no infinito
in s íiberschwengliche>. Adequado ao uso dos concei-
ti i.'. morais é apenas o racionalismo da faculdade de jul-
g.ir, (|ue não tira da natureza sensível mais do que também
.1 tazfio pura pode por si pensar, isto é, a conformidade a
Iris, e não introduz no suprassensível senão o que, inver-
■..iniente, se deixa apresentar efetivamente mediante ações
imi mundo sensorial segundo a regra formal de uma lei na-
lural em gerai. Entretanto o resguardo contra o empiris-
ii 10 da razão prática é muito mais importante e recomen­
dável, porque124 o misticismo ainda é compatível com a
pureza e sublimidade da lei moral e, além disso, não é pre­
cisamente natural e adequado à maneira de pensar co­
mum estender [126] a sua faculdade de imaginação alé
intuições suprassensíveis, por conseguinte, deste lado o
perigo não é tão geral; contrariamente, o empirismo ex-
Icrmina na raiz a moralidade de disposições (nas quais,
porém, e não simplesmente em ações, consiste o elevado
valor que a humanidade pode e deve obter para si atra­
vés delas) e substitui o dever por algo completamente di­
verso, a saber, um interesse empírico, com o qual as in­
clinações em geral travam relações recíprocas e, por isso

123. Kant: welche (a qual), que Hartenstein e a Ak alteram para wel­


cher (o qual), referido então a “misticismo”.
124, Kant: womit (com o que), alterado por Hartenstein e a Ak para
weil (porque). A correção original é, no entanto, de Vogel no exemplar
de Erlangen.

113
h in n u n u e l K a n t

mesmo, também com todas as inclinações que (tomem


elas o feitio que quiserem), se são elevadas à dignidade de
um princípio prático supremo, degradam a humanidade e,
como elas12-, contudo, são tão favoráveis à índole de todos,
o empirismo é por isso muito mais perigoso que toda a
insânia da razão <Scbwârmerei>u&, que jamais pode cons­
tituir um estado duradouro de um grande número de se­
res humanos.

Terceiro Capítulo
D os motivos da ra zã o p rá tica p u ra

O essencial de todo o valor moral das açoes depen­


de de que a lei moral determine imediatamente, a vonta­
de. Com efeito, se a determinação da vontade acontecer
conforme à lei moral, mas somente através de um senti­
mento, seja [127] ele de que espécie for e que tenha cle
ser pressuposto para que a lei moral se torne um funda­
mento determinante suficiente da vontade, por conseguin­
te não por causa da lei, nesse caso a ação em verdade
conterá legalidade mas não moralidade. Ora, se por moti­
vo (eíaier animi)ni entender-se o fundamento determinan-

125. Adickes propõe eliminar d a sie (com o elas) e Natorp, reduzi-


lo ao sie Celas). Vogel apenas estranha a expressão, sublinhando-a.
126. Recorre-se aqui, para traduzir o termo Schwärmerei, a uma ex­
pressão latina de Kant, em carta de 1792: “Schwärmerei - qui cum ralione
insaniunt...” (KANTS Gesam melte Schriften, v. XI. B riefw echsel , v. II, p.
345). Born traduziu aí Scbivãrmerei por fan aticoru m im an ia, e A. Morào,
por “exaltação mística". Cf. a esse respeito a nota do tradutor em A 153-
127. Na controvérsia sobre a tradução do termo Triebfeder, unia coisa
é certa-, que aqui, onde de acordo cnm o título do capitulo se trata dos
Triebfedern d er reinen prakt ischen Vernunft, o termo Triebfeder é tomado

114
Crítica d a ra z ã o p r á tic a _

i> ',iil>iciivo da vontade de um ente, cuja ra/fio nao é, j:i


j >*>i mi.i natureza, necessariamente conforme á lei obje-
ilv.i, cnlão disso se seguirá, primeiramente, que náo se

in i M'iiiltlo de motivo. A fonte da controvérsia sobre a tradução desse icr-


......... ■■■ide em que Kant, inicialmente, na F u n dam en tação d a m etafísica
■An . ttstnmes, distinguiu entre Triebfeder (literalmente “mola propulsora"),
■i uiii •11111 “fundamento subjetivo de apetência" e Bewegungsgrund (literal-
niftiic "razão movcnte”), como um “fundamento objetivo do querer", mere-
i riuli» entào apenas este o nome de “motivo5 (cf. Grundlegung BA 63, e
l iiiibriii HECK, L. W. A Commentary on K ant’s C ritiqueof PracticalReason,
l< 'H). A origem dessa distinção remonta, contudo, a Baumgarten, para
quem Triebfedern des Gemüts (elateres qnim i ) dividein-se em sinnliche
iriei federn ( Stimuli) e Bewegungs-Gründe (jnotivd), determinando estes úl-
llmus a Faculdade dc apetição superior. Na Metaphysik d er Sitten Vigilan-
iltts, cujas notas datam dc 1793/94, essa distinção é mantida. Segundo o tex-
h >c com base na dupla natureza humana, Triebfeder tomado com o causa
iin/mlsiva divide-se cm Stimuli, que o homem segue em comum com os
.ii limais - arbitrium brutum, também chamado Triebfeder der Natur, e >nn-
lin.t = arbitrium liberum-, "Um molivum é sempre uma causa impulsiva
n ii >ral" (Ak. v. XXVn, p. 493). Ele tem a ver diretamente com a razão e fun­
da-se na capacidade de o homem determinar-se a si mesmo pela raxíio.
Mas que Kant não usou o termo Triebfeder Linivocamente, nem mesmo nu
Grundlegung , mostra-o uma outra passagem dele, onde esse termo c u.sa-
i In em sentido moral (cf. Grundlegung BA 126). Triebfeder passa, pois, a
identificar-se com Bewegungsgrund, tomando ambos o sentido de um fun­
damento determinante subjetivo da ação. Triebfeder significa então tanto
motivos morais quanto “outros motivos como os do proveito”, portanto
Triebfedern d er Vernunft (motivos da razão) e Triebfedern d er Sinnlichkeil
( motivos da sensibilidade). Para completar este quadro, a Critica d a razão
prática estende o sentido de Beiuegungsgrund também a motivos não
morais (cf. KpV A 231, A 271, bem como as Reflexões 6651, 6718, Ak v.
XiX, pp. 124 e 140, sobre motiva m oralia e motiva der Klugheit (prudên­
cia), e enfim Über den Gemeinsprucb,.,. [Theorie und Praxis] A 218 s. Em
resumo, se, de acordo com L. W. Beck, Kant na Critica d a raz ão prática
“is using Triebfeder 'an the sense in whlch the F o u n d a tio n defined Bew e­
gungsgrund ”, nâo há razão para, pelo menos em relação à KpV, traduzir
ambos esses termos diversamente um do outro, com a diferença apenas
de que, na presente tradução, sempre que o último caso ocorrer, o ter­
mo “motivo” virá acrescido da menção do termo Beuiegungsgrund.

115
Im m anuel K an t _

pode atribuir à vontade divina motivo algum, mas que o


motivo da vontade humana (e da vontade de todo128 en­
te racional criado) jamais podeus ser algo diverso da lei
moral, por conseguinte que o fundamento determinante
objetivo tem de ser sempre e unicamente o fundamento
determinante ao mesmo tempo subjetivamente suficien­
te da ação, desde que esta não deva satisfazer apenas a
letra da lei sem conter o seu espírito130.
Logo, como nào se tem que procurar nenhum outro
motivo para o fim da lei moral e para lhe granjear influên­
cia sobre a vontade, em cujo caso o motivo da lei moral
pudesse ser dispensado, por que tudo isto [128] ensejaria
uma pura hipocrisia sem efetividade, e é até grave per­
mitir que com'31 a lei moral concorram ainda outros moti­
vos (como os do proveito), assim não resta senão apenas
determinar cuidadosamente de que modo a lei moral tor­
na-se motivo e, na medida em que o é132, que coisa acon­
tece à faculdade de apetição humana enquanto efeito da­
quele fundamento determinante sobre a mesma lei. Pois
o modo como uma lei1pode ser por si e imediatamente
fundamento determinante da vontade (o que com efeito
é o essencial de toda a moralidade) é um problema in­
solúvel paia a razão humana e idêntico à <questão>: como..

128. Kant: jed em , alterado por Vorländer para jen em (daquele).


129. Kant-, könne. Adickes propõe dü rfe (se permite), e justifica-o
em suas Korrekturen u n d K onjekturen , p. 213: “Nào se trata de relações
faeticas mas de um ideal, não de um ser mas de um dever-ser,"
130. Pode-se dizer de cada ação conforme à lei, que, contudo, não
ocorreu por causa da lei, que ela seja moralmente boa apenas segundo
a letra, mas nào segundo o espírito (segundo a disposição). (K)
131. Literalmente, "ao lado da” ( neben des).
132. Kant.- sie es ist. Adickes; es sie ist-, e justifica a inversão sob a
alegação de que é a lei moral que é o motivo.

116
Crítica da razúo prática

( h iv .ivH uma vontade livre. Portanto não lem os q u e in-


•lli ii<i /iriori o fundamento a partir do qual ;i Iri moral
IHi ii hiy. m i si um motivo mas, na medida em que d:i o
i . 11 que ela efetiva (ou, para dizer melhor, tem de eíel.i -
ii i m > 'mimo.
< > L'ssencial de toda a determinação da vontade pela
li i 11Kii .il é que ela, enquanto vontade livre - por conse­
gui nu ■, não apenas independente do concurso de impul-
■II'. sensíveis mas, mesmo com a rejeição de todos eles
i |K-I:i ruptura com todas as inclinações, na medida em
i|Hi- pudessem contrariar aquela lei - , é determinada sim-
I iliwinente pela íei. Nessa medida, portanto, o efeito da
Iri moral com o motivo é apena.s negativo e esse motivo,
enquanto tal, pode ser conhecido a priori. Pois toda a
inclinação [129] e cada impulso sensível é fundado sobre
um sentimento, e o efeito negativo sobre o sentimento
(pela ruptura com as inclinações) é ele mesmo um sen-
limento. Consequentemente podem os ter a priori a pers-
I liciência de que a lei moral enquanto fundamento deter­
minante da vontade, pelo fato de que ela causa dano a
t(«.las as nossas inclinações, tem de provocar um senti­
mento que pode denominar-se dor, e aqui temos, pois,
i > primeiro caso, talvez também o único, em que podía­
mos determinar a partir de conceitos a p rio ri a relação
de um conhecimento (neste caso, de uma razão prática
pura) com o sentimento de prazer e desprazer. Todas as
inclinações em conjunto (que certamente po„dem ser tam­
bém compreendidas em um razoável sistema e cuja sa­
tisfação chama-se então felicidade própria) constituem» o
solipsismo <Selbstsucht> (solipsismus). Este consiste ou no
solipsismo do amor de si, com o uma benevolência para
consigo mesmo sobre todas as coisas (phílautid), ou no

117
fmmanuel Kant

solipsísmo da complacência em si mesmo ( arrogantia ),


Aquele se chama especificamente amor-próprio e este,
presunção'®. A razão prática pura apenas causa dano ao

133. Selbstsucht (subst. fem.) eqüivale hoje a egoísmo e interesse pri­


vado, mas Iíant identificou o termo a uma forma prática de solipsísmo, que
antecedeu em um século a concepção do solipsísrtio teórico. Eigendünkel,
aqui traduzido por “presunção", foi entendido por Kant com o sinônimo de
arrogância. Sobre estas distinções, particularmente entre amor de si (Selbs­
tliebe) e amor-próprio {Eigenliebe), é mais clara a Metafísica dos costumes:.
“Moderação nas pretensões em gerai, isto é, livre limitação do amor de si
de um homem pelo amor de si <Selbstllehe> de outros chama-se modéstia;
a falta desta m oderação (imodéstia), em relação ao merecimento de ser
amado por outros, chama-se amor-próprio <Eigenliebe> (phílautia). Mas a
imodéstia da exigência de ser respeitado por outros chama-se. presunção
<Eigendünkel> (.arrogantia)'' (MS/T A 139, Ak 462). Sobre a história des­
sas distinções c£ DIERSE, U. / KNOCHE, S. Selbstliebe. In: RITTER, J. /
GRÜNDER, K. CEd,). Historisches Wörterbuch der Philosophie, 1995, v. 9,
pp. 466-87; ALBRECHT, M, Selbstsucht. In: Idem, ib., pp. 535-9; GABRIEL,
G. Solipsismus. In: Idem, ib., pp. 1018-23; MUNOZ DELGADO, V. Amoui-
propre, amour de soi. ln-. RITTER, J. CEd.). Historisches Wörterbuch der Phi­
losophie, 1971, v. 1, pp. 206-9. Cf. ainda: W OOD, A. W. Self-Love, Seli-Be-
n evo len ce and Self-Cunceit. In: ENGSTROM, S. / WHITING, J. (E d.). Aris-
tolle, Kant and the Stoics. Cambridge University Press, 1996, pp. 141-61.
Ein relação u l/'il'ni/ e a o humanismo cristão, cf. LAFOND, J. Avatars de
riHiiiiiinisoii' clnviii-ri ( IS‘X)-17I0). Amour de soi et ainour-propre. In: HEI-
NHKAMP, A. /.eil>uis v! hl Uvnaissunce. Wiesbaden: Franz Steiner, 1983, pp.
76-90. Esse antor rivniiK-iida, sobre a relação entre amour-propre e phi-
l/inlitt ent l'laluo e Aristóteles, MESNAKD, J. Les origines grecques de la
nolion dumoui-propre. Diotima, n" 6, pp. 129 36. Segundo Lafond, Leib-
niz (Nachlaß Phil. IV 13b) considerou o amour de soi com o um amour-
-propre bem entendido e considerou o amour-propre com o um desregra-
mento d o amour de soi. Mas de Agostinho a Rousseau o amour-propre, di­
versamente do amour de soi, foi visto sob um signo negativo. Os seguintes
autores trataram recentemente da questão d o solipsísmo teórico e prático
em Kant, mas ignorando a própria perspectiva crítica de Kant a respeito,
iá mencionada; KUHLMANN, W. Solipsismus in Kants praktischer Philo­
sophie und die Diskursethik. In: SCHÖNRICH, G. / KATO, Y. (Ed.). Kani in
der Diskussion der Moderne. Frankfurt: Suhrkamp, 1996, pp. 360-95; HÖFFE,
O. Eine republikanische Vernunft. Zur Kritik des Solipsismus-Vorwurfs. In:
SCHÖNRICH, G. / KATO, Y. (Ed.). op, dt., pp. 396-407.

118
___Crítica da razào prálica

um ii p ro p rio na rneclicla em que ela o íimiLa - enq ua n-


im i l i I h i .i I e ativo em nós ainda antes da lei moral — ape-
n i . ,i condi vão da concordância com esía lei, em cujo
ii mi i cm ao cie denomina-se a m o r de s i racional. Mas ela
« i nn cerie/a abate a presunção, na medida em que todas
i , >‘\ij'irncias de autoestima que precedem a concordân-
i i,i i om a lei moral [130] são nulas e totalmente ilegíti-
iii,i'.. n.i medida precisamente em que a certeza de uma
i Ir.pi isição que concorda com essa lei é a primeira com
1 11<.ii i de todo o valor da pessoa (com o logo o esclare-
■i irmos melhor), e toda a impertinência ante a mesma
■ I.ilsn e contrária à lei. Ora, a propensão à autoestima
• i ipcrlence às inclinações, com as quais a lei moral rom­
pe, i ui medida em que a autoestima depende meramente
d.i moralidade134. Portanto a lei moral abate a presunção.
Porem, visto que esta iei é aigo em si positivo, a saber,
,i forma de uma causalidade intelectual, isto é, da liberda­
de, assim, na medida em que eJa, em contraste com uma
i oni ra-atuação subjetiva, a saber, as inclinações em nós,
enfraquece a presunção, é ao mesmo tempo um objeto
i le respeito e, na medida em que ela até a abate, isto é, a
humilha, é um objeto do máximo respeito, por conseguin-
le também o fundamento de um sentimento positivo que135

134. A Ak e também Görland, Noite, W ille e Adickes substituem Sitt-


!n /ikcil (m oralidade) por Sinnlichkeit (sensibilidade). Mesmo que a su-
I « i.siçào de um erro tipográfico pareça procedente, uma interpretação
. .iriilusa, senào prudente, sugeriria a manutenção do texto original de
K.mt, pois não se exclui que ele tivesse tido aí em mente uma auroesti-
i : i ; i racional, resultante do controle das inclinações. N o exemplar original

ilr lírlangen, no entanto, Vogel fez constar, antes de “depende” , nicht


inan), permitindo com isso a manutenção de Sittlichkeit.
135. Na 1* ed.: Gefühls des..- Traduzido de acordo com a 21 ed.,
considerada correta por Hartenstein: Gefühls, das...

119
______ hnmunutíi Kan!

não possui origem empírica e será conhecido a priori. Lo­


go, o respeito pela lei moral é um sentimento produzi­
do por um fundamento .intelectual, e esse sentimento- r
o único que conhecemos de m odo inteiramente a prio
ri e de cuja necessidade podemos ter perspiciência.
Vimos no capítulo anterior que tudo o que se ofere­
ce, antes da lei moral, como objeto da vontade é excluíck >
por essa própria lei, enquanto condição suprema da razão
prática, dos fundamentos determinantes da vontade [1311
sob o nome de bem incondicionado, e que a simples for­
ma prática, que consiste na aptidão das máximas à le­
gislação universal, determina primeiramente aquilo que
é bom em si e absolutamente e funda a máxima de uma
vontade pura, que unicamente e em todo o sentido é boa.
Ora, nós encontramos nossa natureza de entes sensíveis
constituída de m odo tal que a matéria da faculdade cie
apetição (objetos da inclinação, quer da esperança ou do
m edo) impõe-se em primeiro lugar, e o nosso si-mesmo
<Selbsi> determinável patologicamente, embora por suas
máximas seja totalmente inapto à legislação universal, não
obstante, corno se constituísse todo o nosso si-mesmo
<unser ganzes Selbst >, empenha-se por tornar antes vá­
lidas suas exigências com o se fossem as primeiras e ori­
ginais. Esta propensão a fazer de si mesmo, com base
nos fundamentos determinantes subjetivos de seu arbítrio,
o fundamento determinante objetivo da vontade em ge­
ral pode ser chamada de amor de si, o qual, se se conver­
te em legislativo e em princípio prático incondicionado,
pode ser chamado de presunção. Ora, a lei moral, a qual,
unicamente, é verdadeiramente (a saber, sob tadoíLos.as.-„
pectos) objetiva, exclui totalmente a influência_çlo. amor.
de si sobre o princípio prático supremo e rom pe infini­
tamente com a presunção,.que prescreve com o leis as-con-

120
(J rífic a d a m zà u (y n d k ct

tili.««". *iiv;is d o 1*’ am or de si. O que, pois, cm nosso


I<i m ] i i í o | I .■'i2 1 juízo rom pe com a nossa presunção Immi-
I'i iii;u\to, a lei moral inevitavelmente humilha lo d o
Iii >iiii'tii iKi medida em que ele compara com ela a pro-
P> ii'..io sensível de sua natureza. Aquilo cuja representa-
t. tu, <-ii(|iianto fundamento determinante de nossa vontade,
Iminílli.i nos em nossa autoconsciêneia, enquanto é po-
■IIi\ o <■ 0 lunclämento determinante desperta por si respeí-
n» a lei moral é também subjetivamente um funda-
tiH'iiiM de respeito. Ora, visto que tudo o que se encontra
(tu amor de si pertence à inclinação, mas que toda a in-
i Im.içuo depende de sentimentos, por conseguinte, que
n que no amor de si rom pe com todas as inclinações em
11 iiijunto tem, precisamente por isso, necessariamente in-
llurnda sobre o sentimento, assim compreendemos como
e possível ter a priori a perspiciência de que a lei moral
i ia medida em que exclui as inclinações e a propensão
•i iorná-las condição prática suprema, ou seja, <exdui> o
.mior de si de toda a participação da legislação suprema
venha a exercer um efeito sobre o sentimento, que de
um lado é meramente negativo e, de outro, na verdade em
u-laçào ao fundamento limitante da razão prática pura,
e positivo, para o que não se precisa de m odo algum ad-
miiir uma espécie particular de sentimentos sob o nome
<le sentimento prático ou moral, precedendo a lei moral
c servindo-lhe de fundamento.
[133] O efeito negativo sobre o sentimento (d e desa­
grado) é, com o toda a influência sobre o mesmo e com o
cada sentimento em geral, patológico. Mas como efeito da
consciência da lei moral, consequentemente em relação

136. Alterado pela Ak, de des, que remetia a “influência”, para der,
(|uc remete a “amor de si” . A correção foi proposta por Adidtes.

121
Sminanuel Kant

a uma causa inteligível, a saber, o sujeito da razão práti


ca pura, enquanto legisladora suprema, esse sentimento
de um sujeito racional afetado por inclinações chama-se
em verdade humilhação (desdém intelectual), porém em
relação ao fundamento positivo da mesma, a lei137, chama
-se ao mesmo tempo respeito pela lei; para com esta lei
não se encontra absolutamente sentimento algum, mas no
juízo da razão o afastamento de um obstáculo, na medida
em que rem ove uma resistência, é igualmente estimado
com o uma promoção positiva da causalidade. Por isso
esse sentimento pode também denominar-se sentimento
de respeito pela lei moral, porém, a partir de ambos os
fundamentos em conjunto, sentimento moral.
Portanto a lei moral, assim com o ela mediante a ra­
zão pura prática é fundamento determinante formal da
ação e, assim como ela, em verdade, é também fundamen­
to determinante material mas somente objetivo,idos obje­
tos da ação sob o nome de bom e mau, do mesmo m odo
ela lambem é fundamento determinante subjetivo138, istoé,
molivo para essa ação, na medida em que ela tem influên­
cia sobre a moralidade1'1’ do sujeito e provoca um senti­
mento que é favorável à influência da lei sobre [134] a
vontade. Não há aqui no sujeito nenhum sendmento_ari^

137. A úítercalação de Gesetz (le i) entre vírgulas foi estabelecida por


HaíTenstein.
138. Grillo, mais para o uso da língua alemã, reelaborou a frase de
ICant desta passagem: "Das moralische Gesetz also, als form aler Bestim­
mungsgrund der Handlung, durch praktische reine Vernunft, auch als
materialer, aber nur objektiver Bestimmungsgrund der Gegenstände der
Handlung, unter dem Name des Guten und Bösen, ist auch subjektiver
Bestitfimungsgrund” etc.
139- Kant-, Sittlichkeit (moralidade); Ak, Nolte e Wille: Sinnlichkeit
(.sensibilidade).

122
Crílica da razão p rã tia i _______

u vcdente que tendesse à moralidade. Pois islo é impos-


■•tvfl, uma vez que todo õ sentimento é sensível; o moli
vu da disposição moral, porém, tem que ser livre de toda
a condição sensível. Muito antes, o sentimento sensorial
que funda todas as nossas inclinações é, na verdade, a
fondição daquela sensação que chamamos respeito, mas
a causa da determinação desse sentimento encontra-se na
laxão prática pura e por isso esta sensação não pode, efn
virtude de sua origem, chamar-se de patologicamente pro­
duzida e sim de praticamente produzida; pois, p elo fato
de que a representação da lei moral impede a influência
( Io amor de si e a ilusão da presunção, é diminuído o obs-
láculo à razão prática pura e é produzida, no juízo da ra­
zão, a representação da superioridade de sua lei objeti­
va sobre os impulsos da sensibilidade e, por conseguinte,
pela eliminação clo seu contrapeso, é relativamente au­
mentado o peso da lei (concernente a uma vontade afe­
tada pela sensibilidade). E assim o respeito pela lei não é
um motivo para a moralidade mas é a própria moralida­
de, considerada subjetivamente com o motivo, enquanto
a razão prática pura, pelo fato de abater todas as exigên­
cias do amor de si opostas a essa, proporciona autorida­
de à lei, que agora unicamente tem influência. Ora, sobre
isso cabe observar que, assim como o respeito é um [135]
efeito sobre o sentimento, por conseguinte, sobre a sen­
sibilidade de um ente racional, ele1* pressupõe essa sensi­
bilidade, logo, também a finitude dos entes aos quais a lei
moral im põe respeito, e que a um ente supremo ou tam-

140. Iíant; ts (forma neutra), alterado por Vorländer para sie, referi­
do ao feminino Achtung (respeito). Como forma neutra, concordaria com
Gefühl (sentimento).

123
Immanuel Kant

I ícin a uni ente livre de toda a sensibilidade, para o qual


portanto esta tampouco possa constituir um obstáculo à
razão prática, não p od e ser atribuído respeito pela lei.
Portanto este sentimento (denominado sentimento
moral) é produzido unicamente pela razão. Ele não serve
para o ajuizamento das ações ou mesmo para a fundação
da própria lei moral objetiva, mas simplesmente com o m o­
tivo para fazer desta a sua máxima. Mas com que nome
se poderia cunhar mais convenientemente esse estranho
sentimento, que não pode ser comparado com nenhum
sentimento patológico? Ele é de natureza tào peculiar, que
parece estar à disposição unicamente da razão e, na ver­
dade, da razão pura prática.
Respeito sempre tem a ver somente com pessoas e
nunca com coisas. Estas podem despertar em nós incli­
nação e, tratando-se de animais (p or exemplo, cavalos,
cães etc.), até amor ou também medo, com o o mar, um
vulcão, um animal de rapina, mas jamais respeito. Algo
que já se aproxima mais deste sentimento é a admiração,
e esla enquanlo alelo, o assombro, [136] também pode ter
a ver com coisas, por exem plo, com montanhas que se
elevam aie o céu, a ma^nilude, o grande número e a dis­
tância dn.s corpos celestes, a força e velocidade de mui-
los animais ele. Mas tudo isso nào é respeito. Um homem
pode ser também um objeto de amor, de m edo ou de ad­
miração até o assombro e nem por isso ser um objeto de
respeito. Seu humor brincalhão, sua coragem e força, seu
poder pela posição que desfruta entre outros podem ins-
pirar-me semelhantes sensações, mas falta sempre ainda
respeito para com ele. Fontenelle141 diz; Diante de um no-

141. Bemard ie Bouvier de Fontenelle (1057-1737), tilóscsfo popu-


lur francês.

124
Crítica da razão, prática

Im i n me c u rv o , mas meu espírito não se curva, lúi pos--


'■i i h n\sivnltir: diante de um homem humilde e cidadao-
■ niiiuni, 110 qual percebo uma integridade de caráter nu-
m.i medida tal como não sou consciente em relação a mim
mu miiu, meu espírito se curva, quer eu queira, quer não,
■ .mula mantendo a cabeça erguida a ponto de não lhe
ilrls.ii despercebida minha preeminência. Por que isso?
Sm exem plo mantém ante mim uma lei que aniquila mi-
nli.i presunção, quando a comparo com minha conduta e
i ii|ii cumprimento, por conseguinte sua praticabilidade,
\ej<> provada ante meus olhos pelo ato. Ora, eu posso até
mesmo ter consciência de um grau idêntico de integri-
i Lide em mim e, nâo obstante, o respeito permanece. Pois,
\isto que no homem todo o bem é sempre deficiente,
|I .^71a lei tornada Lntuível mediante um exem plo aniqui-
l.i sempre meu orgulho, para o qual a pessoa que vejo
anle mim e cuja impureza, que sempre se possa ain­
da atribuir-lhe, não me é tão conhecida com o a minha a
mim que, portanto, me aparece em uma luz mais pura,
lornece um padrão de medida. Respeito é um tributo que
nao podemos recusar ao mérito, quer o queiramos ou não;
podemos, quando muito, abster-nos dele exteriormente
mas não podemos evitar cle senti-lo interiormente.
O respeito a tal ponto nâo é <ist so wenig> um sen-
i imento de prazer, que só de mau grado se cede a ele em
relação a um ser humano. Procura-se descobrir algo que
possa aliviar-nos de seu fardo, alguma censura para nos
compensarmos da humilhação que sofremos com um
tal exemplo. Mesmo os mortos, principalmente quando
seu exem plo parece inimitável, não estão sempre prote­
gidos contra essa crítica, Até a própria lei moral, em sua
solene majestade, está exposta a essa tendência de pre-
caver-se do respeito contra eia. Porventura se pensa que
immauuel Kant

sc deva atribuir a uma outra causa a razâo pela qual .sc


gostaria de degradá-la a uma inclinação familiar e pela
qual se empenhe tanto em torná-la um preceito clilelo
de nosso bem-entendído interesse, além do fato de que
se queira livrar-se [138] do respeito intimidante que (ao
severamente nos mostra nossa própria indignidade? Mas,
por outro lado, a tal ponto não há nisso <ist so wenii>>
um desprazer, que, se uma vez se abdicou da presunção
e se concedeu influência prática àquele respeito, não se
pode ver-se saciado da majestade dessa lei, e a alma crê
elevar-se na mesma medida em que vê a lei santa eleva­
da sobre si e sobre sua frágil natureza. Certamente tam­
bém grandes talentos e uma atividade proporcional a eles
podem suscitar respeito ou um sentimento análogo; é
também inteiramente adequado dedicá-lo a eles, e então
a admiração parece idêntica àquela sensação. N o entan­
to, se se observa mais de perto, nota-se que, com o per­
manece sempre incerto que parte tem, na habilidade, o
talento inalo e que parte tem nela, por zelo próprio, a cul­
tura, assim a razão representa-nos a habilidade presumi­
velmente com o fruto tia cultura, portanto com o mérito,
o que rebaixa sensivelmente nossa presunção e/ou censu­
ra-nos a respeito, ou impõe o seguimento de tal exem plo
do moclo com o ele nos convém. Esse respeito que de­
monstramos por uma tal pessoa (propriamente pela lei que
o seu exem plo nos apresenta) não é, pois, simples ad­
miração; o que também se confirma pelo fato de que a
turba comum de admiradores abandona [139] todo o res­
peito por alguém (p or exemplo, Voltaire) ao se crer de al­
gum m odo informada sobre a maldade de caráter de um
tal homem, enquanto o verdadeiro homem culto ainda
sente sempre esse respeito, pelo menos do ponto de vis-

126
Critica da razão p rã lica ____

I.i de .seus talentos, porque ele mesmo está envolvido cm


11n1:i atividade e vocação que de certo modo torna sua imi
l.icao uma lei.
Portanto o respeito pela lei moral é o único e ao
mc.srno tempo indubitável m otivo moral, do mesmo mo-
1 1<i que este sentimento não se dirige a algum objeto se-
n.10 a partir desse fundamento. Em primeiro lugar, a lei
moral determina objetiva e imediatamente a vontade no
im/o da razão; mas a liberdade, cuja causalidade é de-
icmiinável simplesmente pela lei, consiste precisamente
< ni que ela limita todas as inclinações, por conseguinte
.1 c.sli ma da própria pessoa, à condição do cumprimento
dc sua lei pura. Ora, essa limitação promove um efeito
mibre o sentimento e produz uma sensação de desprazer,
que pode ser conhecida a priori a partir da lei moral. Mas,
\isio que eSa neste caso é apenas um efeito negativo,
que, enquanto surgido da influência de uma razão prá-
iica pura, causa dano principalmente à atividade do su-
|<’ito, na medida em que as inclinações são fundamentos
dcierminantes deste, logo prejudica o pensamento de seu
vaior pessoal (que sem uma concordância com a lei mo-
i.il é reduzido a nada), assim o [140] efeito dessa lei so-
I ii i ■ o sentimento é simplesmente humilhação, da qual,
porlanto, certamente temos perspiciência a priori, mas
nao podemos conhecer nela a força da lei prática pura
enquanto motivo e, sim, somente a resistência contra mo-
itvos da sensibilidade. Porém, visto que a mesma lei é
apesar disso objetiva, ou. seja, é, na representação da ra-
/.a< >pura, um fundamento determinante imediato da von-
i.nlc, que, consequentemente, essa humilhação só ocorre
ida li vãmente à pureza da lei, assim a redução das exigên-
i i.i.s da autoestima moral, ou seja, a humilhação é, do lado
'.citsivel, uma elevação da estima moral, isto é, prática

127
Immanuel Ka.nl

da própria lei e, do lado intelectual, é, em uma palavra,


respeito pela lei, portanto também, quanto à sua causa in­
telectual, um sentimento positivo que é conhecido a prio­
ri. Pois toda redução de obstáculos de uma atividade v
promoção dessa mesma atividade, Mas o reconhecimen­
to da lei moral é a consciência de uma atividade da razão
prática a partir de fundamentos objetivos, que nâo expres­
sa o seu efeito em ações simplesmente porque causas
subjetivas (patológicas) a impedem. Portanto o respeito
pela lei moral tem que ser considerado também um efei­
to positivo, embora indireto, da mesma sobre o sentimen­
to, uma vez que ela enfraquece a influência prejudicial
das inclinações pela humilhação da presunção, por con­
seguinte, enquanto fundamento subjetivo da atividade,
[141] isto é, enquanto motivo para o cumprimento da lei1"12
e enquanto fundamento de máximas de uma conduta con­
forme a ela. D o conceito cle m otivo surge o de interesse;,
que jamais pode ser atribuído senão a um ente dotado
de razão e significa um motivo da vontade, na medida em
que esle c representado pela razão. Visto que numa von­
tade momlnuwilc boa a própria lei tem que ser o motivo,
o interesse moral e um interesse não sensorial puro da
simples razão prálica. Sobre o conceito de interesse Fun­
da-se também o de máxima: Esta, portanto, somente é au­
tenticamente moral se clepende'4-5do mero interesse que

142. Kant: desselben. Hartenstein (1838, p. V IIÍ) equivocadamente


remeLeu a correção a essa passagem, quando deveria remctê-la a A 142,
linha 14, (v. nota correspondente),
143. Kant CA): braucht... a u f (brauchen = necessitar, utilizar), cor­
rigido na 2? ed. para beruht ( “repousa"; beruhen a u f significa também
“depender de”). A correção teve por origem o Handexemplar de Kaiil,
foi feita também por Grillo e Vogel e foi incluída nas subsequentes
edições originais e demais edições da KpV.

128
_____ „ Critica da razão jyn'tfica____

. h mui pela observância da lei. Mas todos os Iren coucei


ln i m de motivo, o de interesse e o de máxima, so podem
iplii .11 :;r :i entes finitos. Pois eles pressypõem no seu con
|iinii i iiin;i limitação da natureza de um ente, uma vez que
i « i nidiçao subjetiva de seu arbítrio nao concorda por -si
n M .11 i i com a lei objetiva de uma razão prática; uma ca-
ii in li de ser impelido por algo à atividade, porque um
i >1i'.i.u iilo interno contrapõe-se a ela. Portanto eles não
piiilrm aplicar-se à vontade divina.
Assim há algo peculiar no ilimitado apreço pela lei
nn >i.iI pura, despida de [142] todo o proveito, pelo m odo
• <hiu>a razão prática no-la representa para sua observân-
i l,i, c cuja voz faz estremecer mesmo o mais temerário
ii.msgressor, coagindo-o a ocultar-se ante sua contempla-
\.i< >, de modo que ninguém precisa admirar-se de consí-
drrar insondável para a razão especulativa essa influência
dr uma ideia meramente intelectual sobre o sentimento
i' de, com isso, ter de satisfazer-se com o fato de que se
possa, ainda assim, ter uma perspiciência a priori de que
.... Uil sentimento encontre-se indissoluvelmente vincu­
lado à representação da lei moral em todo ente racional
linilo. Se esse sentimento de respeito fosse patológico e,
portanto, um sentimento de prazer fundado sobre o sen-
lido inLerno, então seria inútil descobrir uma vinculação
1 1<i respeito1* com qualquer ideia a priori. Pois bem, é 145
nu! sentimento que concerne meramente ao prático c que,

144, Kant: derselben. Na 2” ed. alterado para desselben, adotado por


l Lmunstein, então se referindo a “sentimento”. Natorp (Als,) considerou
i iirrtito é manteve o texto da 1! ed.
145. Kant: ist (e). Atribuída a Hartenstein e adotada por Vorländer,
: alteração para: ist es (trata-se de) foi originalmente proposta por Vogel
im exemplar de Erlangen.

129
Immanuel Kant

em verdade, é inerente à representação de uma lei uni


camente segundo sua forma e não em decorrência de al­
gum objeto da mesma, por conseguinte não pode ser
computado nem com o deleite nem como dor e, contud« >,
produz um interesse pela sua observância que chamamos
de interesse moral, como aiiás também chamamos propria­
mente de sentimento moral a capacidade de tomar um tal
interesse pela lei (ou o respeito pela própria lei moral).
Ora, a consciência de uma livre submissão da vonta­
de à lei, contudo vinculada a. uma [143] inevitável coerção
que é exercida sobre todas as inclinações, porém apenas
pela própria razão, é o respeito pela lei. A lei que exige e
também inspira esse respeito não é, com o se vê, nenhu­
ma outra que a lei moral (pois nenhuma outra exclui to­
das as inclinações da imediatidade de sua influência sobre
a vontade). A ação que, de acordo com essa lei e. com ex­
clusão de todos os fundamentos determinantes da incli­
nação, é objetivamente prática chama-se dever, o qual,
em virlude dessa exclusão, contém em seu conceito uma
nccessiiaçfio prálica, isl.o é, uma determinação a ações,j>or
mais a contragosto que elas possam acontecer, O senti-
metuo que emerge tia consciência dessa necessitação não
é possível patologicamente, no sentido de um sentimento
que fosse produzido por um objeto dos sentidos, mas só
praticamente, isto é, mediante uma antecedente determi­
nação (objetiva) da vontade e uma causalidade da razão.
Logo este sentimento, enquanto submissão a uma lei, isto
é, enquanto mandamento (o qual, para o sujeito afeta­
do sensivelmente, anuncia coerção), não contém nenhum
prazer mas com o r.al contém, muito antes, um desprazer
na ação. Contrariamente, porém, visto que essa coerção
é exercida simplesmente pela legislação da razão de cada

130
Crítica da razão prúUcct .

mui i .if .sentimento contém inclusive elevação, o o eleito


mli|i*iivo sobre o sentimento, na medida em que a ra/.ao
I h.11l i .t pura é sua única causa, pode, portanro, chamar
ii simplesmente autoaprovação em relação à [144] lilli-
ma, enquanto sem nenhum interesse reconhece mo-no.s
II >1in i deLerminados unicamente pela lei. Desde então to-
m.iiiMis consciência de um interesse totalmente diverso,
piuduxido subjetivamente através dela, que é puramen­
te pralico e livre e não é obra eventual de uma inclina-
i, ,u i que nos aconselha a assumi-lo em uma ação confor­
me ao dever, mas que a razão ordena absolutamente pela
lei prática e também efetivamente realiza.; mas por isso
leva um nome totalmente peculiar, ou seja, o de respeito.
Portanto o conceito de dever exige na ação, objetiva­
mente, concordância com a lei, mas na.sua máxima, sub-
jeiivãmente, respeito pela lei, com o o único m odo de d e­
terminação da vontade pela lei. E disso depende a dife-
lença entre a consciência de Ler agido conformemente ao
dever e a de ter agido por dever, isto é, por respeito à lei,
cuja primeira forma de consciência (;.i legalidade) é pos­
sível mesmo que apenas as inclinações tivessem sido os
Inndamentos determinantes da vontade, enquanto a se­
gunda fonna (a moralidade), o valor moral, tem que ser pos-
la unicamente em que a ação ocorra por deve)-, isto é, sim­
plesmente por causa da lei1'16.

146. Se se examina exatamente o conceito de respeito por pessoas,


dn m odo com o foi exposto antes, descobre-se que o respeito depende
sempre da consciência de um dever que um exem plo nos mostra e que,
p< iiTanto, o respeito jamais pode ter outro fundamento que o moral e que
r muito bom e, do ponto de vi.sta psicológico, até muito útil ao conhe­
cimento do homem, sempre que usamos essa expressão, prestar atenção
;i deferência secreta e admirável e, além. disso, frequente, que o homem
em seus ajuizamentos confere à lei moral. (K )

131
Im m a nuel K a n t

[145] É da maior importância, em todos os ajuizamen-


tos morais, prestar atenção com extrema exatidão ao prin­
cípio subjetivo de todas as máximas, para que toda a m o­
ralidade das ações seja posta na necessidade das mesmas
p or dever e por respeito à lei, não por amor e afeição àqui­
lo que as ações devem realizar. Para os homens e todos
os entes racionais criados a necessidade moral é neces­
sitação, isto é, obrigação, e toda ação fundada sobre ela
tem de ser representada com o dever, não porém com o
um m odo de procedimento já espontaneamente querido
por nós ou que possa vir a ser querido com o tal147. É como
se nós alguma vez - sem respeito pela lei, o qual se vin­
cula ao temor ou pelo menos à apreensão com a trans­
gressão - pudéssemos chegar por nós mesmos, tal com o
a divindade inteiramente independente, à posse de uma
santidade da vontade como que mediante uma concordân
cia, tornada natureza e jamais removível, da vontade com
a lei moral pura (a qual, portanto, já que nunca podería-
m os1'" ser tentados a [146] Cornar-nos infiéis a ela, enfim
pudesse até deixar de ser um mandamento para nós).
Com dVilo, a lei moral é, para a vontade de um ente
sumamente perleilo, uma lei cie santidade mas, para a
vontade de todo ente racional finito, é uma Lei do dever,
ela necessitação moral e da determinação das suas ações
mediante o respeito por essa le i e por veneração de seu
dever. Não se tem que admitir outro princípio subjetivo
com o motivo; pois do contrário a ação certamente pode
ocorrer do m odo com o a lei a prescreve, mas, já que ela
em verdade é conforme ao dever porém não ocorre por

147. Grillo propôs vírgula,


148. Kant: können-, correção da Ak (N o ite ) para könnten (p o d e ­
ríamos).

132
________ Crílica da razão prdtiai _

i li 'vi 'i, ,i disposição para ela, que nessa legislação própria


i i ii ■nie importa, n ão é morai.
T, muito bonito, por amor aos homens e por paiiui
p.inU' benevolência, fazer o bem a eles ou, por amor a
niticin, .ser justo, mas isso não constitui ainda a autêntica
m.idma moral de nossa conduta, adequada a nosso pon­
to ilc vista de homens entre entes racionais, quando por
.iv.im dizer com o voluntários arrogamo-nos com soberba
Limit lade a não nos importar com as representações do
i Ir ver e 1® com o independentes de mandamento, querer
l,i a t meramente por prazer próprio aquilo para. o qual
iirnhum mandamento [147] ser-nos-ia necessário. Nós es-
i.imos subordinados a uma disciplina da razão, e em todas
as nossas máximas não temos de esquecer-nos da nossa
sujeição à mesma, de nada subtrair-fhe1511ou. d e ,p o r uma
ilusão de amor-próprio, restringir a reputação da lei (em ­
bora ela seja dada por nossa própria razão) pelo fato cie
que pomos o fundamento determinante de nossa vonta­
de, ainda que conform e com a lei, em algo diverso da
própria lei e do respeito por ela. Dever e obrigação são
as únicas denominações que temos de dar a nossa rela­
ção com a lei moral. De fato somos membros legislantes
de um reino moral possível pela liberdade, representa­
do pela razão prática para o nosso respeito, mas ao mes­
mo tempo seus súditos, não o seu soberano, e o desco­
nhecimento de nossa posição inferior como criaturas, bem
como a negação, por presunção, de respeito à lei santa é
já, segundo o espírito, uma deserção dela, mesmo que a
sua letra fosse observada.

149. Kant: und uns als (e nos, com o), corrigido pela Ak. (Rosen­
kranz, Hartenstein) para und, als (e, como).
150. Kant: ihr nichts zu entziehen. Vogel elimina o "zu", aliás uma
correção exclusiva dele.

133
im m anuel Kant

Com isso, porém, concorda perfeitamente a possibi


lidade de um tal mandamento: ama a Deus acima de tutlo
é teu próxim o com o a ti mesmo151. Pois 11 i<S| com ó man
damento ele exige respeito por uma lei que“ordena amor
e nâo deixa ão cuidado de uma escolha arbitrária fazer
deste^um princípio. Mas amor a Deus com o inclinação
(amor patológico) é impossível, pois Deus não é ne­
nhum objeto dos sentidos. O mesmo amor, na verdade,
é possível para com o homem mas nâo pode ser orde­
nado; pois o homem nâo tem a capacidade de amar al­
guém meramente por mando. Portanto somente o amor
prático é com preendido naquele núcleo cie todas as leis.
Amar a Deus significa, neste sentido, praticar de bom gra­
do seus mandamentos; amar o próxim o significa praticar
de bom grado todos os deveres para com ele. Mas o man­
damento que torna isso uma regra nâo pode tampouco
ordenar que se tenha essa disposição em ações confor­
mes ao dever, mas simplesmente que se aspire a isso.
Pois um mandamento de que se deva fazer algo de bom
grado é ein si contraditório, porque, se já sabemos es­
pontaneamente o que nos obriga a fazer algo, se além
disso também fôssemos conscientes de fazê-lo esponta­
neamente, um mandamento correspondente resultaria to­
talmente desnecessário e, se de fato o fazemos mas não
precisamente de bom grado e, sim, somente por respeito
à lei, um mandamento que precisamente tornasse esse
respeito um motivo da máxima atuaria exatamente de en­
contro à [149] disposição ordenada, Portanto aquela lei

151. Com essa lei forma um estranho contraste o princípio da feli­


cidade própria, que alguns querem tornar a proposição fundamental su­
prema da moralidade. Ela soaria assim: Ama a ti mesmo sobre todas as coi­
sas, mas a Deus e teu próxim o por amor a ti. (K )

134
Crítica da razão prãf ic a ___

il> iniLis ;is leis, com o todo o preceito moral do Kvange-


IIii i. .ipiv.scnta a disposição moral em toda a sua perlei-
i ii i ili i modo com o ela enquanto ideal de santidade nao
i .níiif.ivcl por nenhuma criatura, contudo é o arquétipo
itn i |ii:11 devemos aspirar aproximar-nos e, em um in in -
Ir iiu p lo mas infinito progresso, aspirara ela igualar-nos.
i m :<ej;i, se uma criatura racional pudesse alguma vez
i lirjvir a praticar todas as leis morais inteiramente de bom
Hi.ulo, isso eqüivaleria a que não se encontrasse nela se­
q u e i a possibilidade de um apetite que o 152 estimulasse
.1 desviar-se delas; pois o domínio de um tal apetite sem-
pie custa sacrifício ao sujeito, portanto requer autocoer-
(, .in, isto é, necessitação íntima para o que não se faz in­
teiramente de bom grado. Mas a esse grau de disposição
moral nenhuma criatura consegue elevar-se. Pois, visto
que se trata de uma criatura, por conseguinte sempre de­
pendente em relação ao que ela15’ reclama para o intei-
i'i >contentamento com o seu estado, ela jamais pode ser
totalmente livre de apetites e inclinações, as quais, por­
que dependem de causas físicas, não concordam por si

152. Kant: ihn (acus. mase. = o), que Hartenstein substituiu por es,
prlo tato de aquele nào concordar com o neutro Geschöpf (.criatura). No
enianto Weischedel, Vorländer e Ak mantiveram a forma original mascu­
lina. sob alegação da Ak de um caso semelhante, presumivelmente acei-
uvel, em A 139: sein Beispiel, (seu exem plo),
153. Kant: er (nom. masc, = ele), corrigido por Grillo para es, com
vistas a.o neutro Geschöpf (criatura) e adotado pela Ak. Tratando-se de
irès artigos semelhantes na mesma frase, Vorländer, contudo, nào os situou
corretamente em relação ao texto da 1? edição e à correção de Grillo.
Mas seu equívoco parece ter provindo de Hartenstein (cf. 1838, p. VIII e
197). Mais precisamente: A 149, linha 12: Kant ihn, Hartenstein es; linha
18: Kant was er, corrigido por Grillo para was es-, linha 20: Kant kann es,
enquanto Hartenstein e Vorländer atribuíram a Kant er, e presumem cor­
rigi-lo para es. Na verdade, confundiram os casos da.s linhas 18 e 20,

135
_ h n u i a n n v t KattI

mesmas com a lei moral, que possui fontes totalmente cli'


versas, por conseguinte tornam a todo momento neces­
sário, com respeito às mesmas, fundar a disposição de suas
máximas sobre necessitação moral, não sobre pronta sub­
missão mas sobre respeito, que exige o cumprimento [15<>|
da lei mesmo que ele nâo ocorra de bom grado, não so­
bre amor, que não envolve nenhuma recusa interna da
vontade à lei, conquanto tornem necessário fazer para si
deste último, a saber, do simples amor à lei (já que ela
então deixaria de ser mandamento e a moralidade, que
com isso se converteria subjetivamente em santidade, dei­
xaria de ser virtude), o objetivo constante, embora inal-
cançável, de seu empenho. Pois naquilo que estimamos
muito, mas que, contudo (pela consciência de nossas fra­
quezas), tememos, transformam-se - pela maior facilidade
em satisfazê-los - o mais reverente temor em inclinação
e o respeito em amor; pelo menos seria esta a consuma­
ção de uma disposição consagrada à lei, se alguma vez
fosse possível a uma criatura alcançá-la,
Essa consideração não tem em vista aqui tanto repor­
tar a conceitos evidenles o citado mandamento evangé­
lico para deicrminaro fimatismo <Schwãrmerei> religioso,
em lace do amor a Deus, quanto determinar também ime-
dialamenle de modo preciso a disposição moral em re­
lação aos cleveres para com os homens e impedir ou, se
possível, prevenir um fanatismo <Schwãrmerei> meramen­
te moral que contagia muitas cabeças. O nível m orai,-e®
que o homem (d e acordo com toda a nossa perspiciên­
cia,. também cada criatura racional) se situa, é o.do.-respei­
to pela lei moral. A disposição que o obriga a observá-la:'
é a de cumpri-la [151] por dever, não por espontânea in­
clinação e por esforço porventura não ordenado, assu-_
miclo por si e de bom grado; e seu estado moral, em que„

136
Crítica da razão prática

i li |ii ii Ir cada vez encontrar-se, é o de virtude, isto é,


iK i li:.) h >,siviio moral em luta e não o de santidade, na
I n• irn,s;i posse de uma completa pureza das disposições
1 11 \niii;ide. É puro fanatismo <Schivãrmerei> monil e
h <|<ibiamento de presunção dispor os ânimos, mediante
im llamento, a ações com o nobres, sublimes e magnâni-
ni.t:., levando-os à ilusão de que nâo fosse dever, isto é,
n-.priio pela le i- e u jo jugo (o qual, contudo, pelo fato de
.ri nos imposto pela própria razão, é suave), e, embora
I ri miragosto, teriam de suportar - que constituiria o fun-
il.iinnuo determinante de suas ações e sempre ainda os
Im milha, na medida em que o seguem (obedecem -no);
* i >ino se, contudo, aquelas ações não fossemIWesperadas
1 1<'les por dever e sim por simples mérito. Pois não se tra-
i.i apenas de que eles, por imitação de tais atos, ou seja,
,i partir de um tai princípio, não tivessem satisfeito mini­
mamente o espírito da lei, que consiste na disposição de
■.iibmeter-se à lei e não na conformidade da ação à lei
óirja qual for!5í o princípio), e que ponham o motivo pa­
tologicamente (na simpatia ou ainda na pbilaulia) e nào
moralmente (na lei); eles desse modo produzem uma le­
viana, superficial e fantástica [152] maneira de pensar, que
consiste em lisonjear-se de uma espontânea bondade de
‘.rii ânimo, que nâo precise nem de aguilhão nem de freio
r para o qual m o se necessite sequer um mandamento
r, além disso, se esquecem de sua obrigação, na qual de­
veriam pensar antes que no mérito, Podem bem enalte-
rrr-se, sob o nome de atos nobres e sublimes, ações de

154. Kant: würde (fosse), corrigido por Hartenstein para würden


(fossem).
155. Kant: welches, coirigido por Rosenkranz e Hartenstein para
tivlebes es.

137
immanutíl Kam

outros que ocorreram com grande sacrifício e, na verdade,


meramente por amoroso dever e certamente só enquanto
existem rastros que permitam supor que elas ocorreram
totalmente por respeito a seu dever e não por impulsos
do coração. Mas, se se quiser representá-las a alguém
com o exemplos a serem seguidos, então se tem que de
m odo absoluto utilizar o respeito pelo dever (enquanto
o único sentimento moral autêntico) com o motivo: estel%
preceito severo e sagrado, que não deixa ao cuidado de
nosso vão amor de si jogar com impulsos patológicos (na
medida em que são análogos à moralidade) e fazer-nos
algo bom sobre a base do mérito. Basta que investigue­
mos bem, para logo encontrarmos para todas as ações
dignas de elogio uma lei do dever que ordena e nâo dei­
xa na dependência de nosso arbítrio o que possa ser agra­
dável à nossa propensão. Esta é a única maneira de pen­
sar que forma moralmente a alma, porque somente ela
é capaz de proposições fundamentais firmes e rigorosa­
mente determinadas.
[153! Se fanatismo <Schwârmerei> 's1, no significado
mais geral, é uma transgressão dos limites da razão hu-

1%. Na l ! 2J edi<,;ões; diese (esta); nas edições seguintes: die (a),


ciií aniUw us oi.sos, referidos ao Feminino Vorschrift (preceito).
1S7. O Lerino Schwärmerei, formado a partir de Schwarm (enxam e)
e schwärmen (dispersar-se, vaguear), no contexto de disputas intercon-
fessionais da Jieforma, é aplicado em sentido pejorativo aos respectivos
adversários e só é compreensível metaforicamente. Com base nisso, W.
Schröder observou que esse conceito não encontra uma expressão con­
gruente fora da língua alemã: "Apesar de cenas intersecções semânticas,
sào estranhos aos termos latinos fanatismus, m th usiasmus, bem com o a
seus termos correspondentes franceses e ingleses <ou portugueses>, os
dois momentos com os quais a metáfora energizou o conceito Schwär-
merei" (SCHRÖDER, W. Schwärmerei. In.- RITTER, J./GRÜNDER, K. His-

138
_______Crítica da razão jm isícti_______ __ ____ _

iimim, empreendida sobre a base de proposições Unida-


nu ni.ns, então o fanatismo moral é essa transgressão dos
limites que a razão pura prática estabelece para a Ituma-
nli l.i< le, pelos quais proíbe pôr o fundamento determinan-
l< .iibjelivo de ações conformes ao dever, isto é, o mo­
m o moral das mesmas, em qualquer outro lugar que na
|i|o|>ria lei e pôr a disposição <Gesinnung>, que desse
m o d o c introduzida nas máximas, em qualquer outra par-
n que no respeito por essa lei, por conseguinte ordena
l,i/cr tio pensamento do dever - que abate toda a arro-
H.meia e toda a vã philautia - o princípio de vida supre­
m o d e toda a moralidade no homem.
Se assim é, então não apenas romancistas ou educa­
d o r e s sentimentais (ainda que se oponham zelosamente

hnlsi bes Wörterbuch der Philosophie, 1992, v. 8, p. 1478). Por outro lado
l( N p n em a n n observou, a propósito do termo “fanatismo”: “De um modo
l',ri;il os termos Fanatismus, Enthusiasmus e Schwärmerei são inicial-
iiwíilt' usados, na Inglaterra e Alemanha, com o sinônimos, e apenas mais
Midi’ .são diferenciados através de sutis discussões" ÍSPAEMANN, R. Fa-
luiisch, Fanatismus. In: RITTER, J./GRÜNDER, K. Historisches Wörter-
hiirh der Philosophie, 1972, v. 2, p. 905). Ora, se compararmos as passa-
l'.rns em que esses termos ocorrem na Crítica da razãóprãlica, para nos
.ilrrmos apenas a esta obra, notaremos que Suas diferenças parecem ir­
relevantes, se não sutis. Veja-se, p. ex., Schwärmerei em KpV A 153, e
l'ditijHzismus em KpV A 244-245. De qualquer modo, pela atenção que
K.iiH dispensou ao assunto em diversas obras, o recurso a termos como
Vxultação” ou “fanatismo” para traduzir Schwärmerei é um insatisfatório
paliativo. Kant mesmo encarregou-se de uma aproximação entre esses
irim os ao escrever: “De m odo totalmente diverso se passa com Fànati-
her ( Visionär; Schwärmer). Este é propriamente um enlouquecido por
uma suposta inspiração imediata e uma grande intimidade com as forças
ivlestes. A natureza humana não conhece ilusão mais perigosa” (KANT,
I. Versuch über die Krankheiten des Kopfes, 1764, Ak v. II, p. 267. Além
disso, Vorländer, na edição da Philosophische Bibliothek, v. VIII, publi­
cou alguns pequenos ensaios dos anos 1788-1791, entre os quais Ober
Schwärmerei und die Mitteln dagegen.

139
Immanuel Kant

ao sentimentalismo), mas às vezes até filósofos, e os maih


severos entre todos, os estoicos, estatuíram um fanatis
mo moral em vez de uma austera mas sábia disciplina dos
costumes, ainda que o fanatismo dos últimos fosse mais
heroico e o dos primeiros de natureza mais insossa e lan
gorosa. E, sem dissimulação, pode-se dizer com toda. a
verdade, acerca da doutrina moral do Evangelho, que_ele,
primeiramente pela pureza do princípio moral, mas ao
mesmo tempo pela sua conformidade [154] com os limi­
tes de entes finitos, submeteu toda a boa conduta do ho­
mem à disciplina de um dever posto ante seus olhos, que
não a deixa vaguear entre" sonhadas perfeições morais,
e impôs tanto à presunção quanto ao. amor-próprio, que
gostam de ignorar seus limites, barreiras da. humildade
(isto é, do conhecimento de si). .
Oh dever! Sublime e grande nome, que não com-
preendes15* em ti nada benquisto que comporte adulação
mas reivindicas submissão, contudo tampouco ameaças
com algo que para mover a vontade provocasse no âni­
mo aversão natural e o atemorizasse, porêm simplesmen­
te propòes uma lei que por si encontra acesso ao ânimo
e que, iodavia, mesmo a contragosto granjeia para si ve-
neraçào (embora nem sempre observância), ante a qual
iodas as inclinações emudecem, mesmo que secretamen­
te se oponham a ela™: qual é a origem digna de ti e onde
se encontra a raiz de tua nobre linhagem, que altivamen­
te rejeita todo o parentesco com inclinações e de cuja raiz
descender constitui a condição indispensável daquele va­
lor que unicamente os homens podem dar a si mesmos?

158. Kant: fassest, Grillo: befassest.


159. No Handexemplar cie Iíant, a partir de nichts drohest (tampouco
ameaças) até o fim da alínea consta um risco vertical a lápis na margem.

140
Critica da razão prática___

N.m pode ser nada menos do que aquilo que eleva


ii homem ,s obre si mesmo (com o parte do mundo sen-
(Mit.il). que o conecta a uma ordem de coisas que so o
fiiirm lm iento pode pensar e que ao [155] mesmo tem-
IMi it ■{11 sob si o inteiro mundo sensorial, e com ele a exis­
tência cmpiricamente determinável do homem no tempo,
I ii'in com o a totalidade completa dos fins (a qual unica-
meulr é adequada a leis práticas incondicionadas com o a
lei moral). Não é outra coisa que a personalidade, isto é,
.1 liberdade e independência do mecanismo de toda a na-
Ktrcxa, considerada ao mesmo tempo como faculdade de
i n
ii ente submetido a leis peculiares, a saber, leis práticas
puras dadas por sua própria razão; portanto a pessoa en­
quanto pertencente ao mundo sensorial está submetida a
■■na própria personalidade, na medida em que ela perten­
ce ao mesmo tempo ao mundo inteligível; nào é de sur-
I neender então que o homem enquanto pertencente a
ambos os mundos tenha cie considerar seu próprio ente,
rm relação a sua segunda e mais alta destinaçào, com ve­
neração e as leis da mesma com o máximo respeito.
Ora, diversas expressões que indicam o valor dos ob­
jetos segundo ideias morais fundam-se sobre essa ori-
j',em, A lei moral é santa (inviolável). O homem ê deveras
bastante ímpio, mas a humanidade em sua pessoa tem que
ser santa. Em toda a criação tudo o que se queira e so­
bre o que se exerça algum poder também pode ser usa­
do simplesmente com o meio; somente o homem, e com
ele cada criatura racional, é [156] fim em si mesmo. Ou
seja, ele é o sujeito da lei moral, que é santa em virtude
da autonomia de sua liberdade. Por causa dela justamen-
le toda vontade, mesmo a vontade própria de cada pes­
soa voltada para si mesma,, é [imitada à condição da con­

141
Jmmanuvt Kant

cordância com a autonomia do ente racional, ou sc ja, dr


não se submeter a nenhum objetivo que não seja possi
vel segundo uma lei que pudesse surgir da vontade do
próprio sujeito que a padece; portanto de jamais usar cslr
simplesmente com o m eio mas ao mesmo tempo como
fim. Com razão atribuímos essa condição até à vontade dl
vina em relação aos entes racionais no mundo, com o suas
criaturas,, na medida em que ela se funda sobre a perso­
nalidade dos mesmos, pela qual, unicamente, eles são fins
em si mesmos.
Esta ideia de personalidade, despertadora de respei
to, que nos coloca ante os olhos a sublimidade de noss;i
natureza (segundo sua destinação), na medida em que
ela ao mesmo tempo nos deixa notar a falta de confor­
midade de nossa conduta em vista da mesma e com isso
abate a presunção, pode ser observada natural e facilmen­
te até pela razão humana mais comum. Não descobriu
às vezes todo homem, mesmo o apenas medianamente
honesto, que ele deixou de praticar uma mentira, afora
isso inofensiva, pela qual ele ou podia livrar-se de um ne­
gócio incôm odo ou até [1571 ser útil a um amigo queri-
do e benemérito, simplesmente para não precisar despre­
zai-se secretamente ante seus próprios olhos? Um homem
honrado, na máxima desgraça da vida, que ele teria p o ­
dido evitar desde que não se importasse com o dever,
não mantém ainda a consciência de que ele, nâo obs­
tante, preservou e honrou em sua pessoa a dignidade da
humanidade, que ele nào tem de envergonhar-se ante si
mesmo nem tem razão para temer o escrutínio interno
do autoexame? Este consolo não é felicidade e tampou­
co a mínima parte dela. Pois ninguém desejará a ocasião
para isso, e talvez nem mesmo uma vida em tais circuns­

142
Crítica dá mzâo fjmlica

tâncias. Mas ele vive e não pode suportar ser a seus pró­
prios olhos indigno da vida. Portanto esta tranquili/ação
interna é meramente negativa em relação a tudo o que
possa tomar a vida agradável; ou seja, ela é o afastamen­
to do perigo de decair no valor pessoal, depois que o va­
lor de seu estado já foi completamente abandonado por
ele. Ela é o efeito de um respeito por algo totalmente di­
verso da vida, em comparação e contraposição com o qual
a vida, muito antes, com todo o seu agrado, não tem ab­
solutamente valor algum. Ele só vive ainda por dever e
nâo porque encontra na vida o mínimo gosto.
[158] Desse modo constitui-se o autêntico motivo da
razão prática pura; ele não é outro que a própria lei m o­
ral pura, na medida em que ela nos deixa perceber a su­
blimidade de nossa própria existência suprassensível e
produz subjetivamente nos homens - que ao mesmo
tempo são conscientes de sua existência sensível e da de­
pendência, vinculada a ela, da sua natureza, como tal mui­
to afetada patologicamente - um respeito por sua supe­
rior destinação. Ora, a esse m otivo deixam mesmo ligar-
-se tantos atrativos e agrados da vida, que só por isso a
mais prudente escolha de um epicurista racional e que
refletisse sobre o máximo bem-estar da vida declarar-se-
-ia a favor da boa conduta moral, e pode ser até aconse­
lhável ligar essa perspectiva de um alegre go zo da vida
àquela suprema e já por si só suficientemente determi­
nante causa motora; mas <isto> somente para manter o
equilíbrio dos aliciamentos que o vício em contrapartida
não tem necessidade de dissimular e não para pôr aí, se­
quer em sua mínima parte quando se trata do dever, a
verdadeira e própria força motriz. Pois isso eqüivaleria a
querer tornar impura em sua fonte a disposição moral. A

143
i iuitltiiiin’/ Kim;

\en era h ilid a d e d<> d e \ c*r nào 11-ni nada a \ c r com o >/o
da \ ic k i ela lern m iu lei peculiar. u>ivu> ram bem seu I o n .
pv-ciiliar. e, por m a is ^ u c se q u ise sse v e rle r nmlio.s rm
Uiiia m esina \a silh a . para. j l ^ y j n iisiu ra d u s, o le re ce Io-,
p u r a.sciin d i/e r in n iu n iedtcam en to á alm a dt.vnte. am
bos imediatamente1so separam por si e. se assim nào pro
cedern. o p rim e iro nàt> !a / a b so iu ia m e n ie ereiio . e. poi
rivais que a \ ida ii>ica g a n h a sse tin ii ixso aljuim a iorca.
a \ kla m oral cles\ an e cer-se -ia in e p a ra \ clm ente.

Jílucidaçào crítica d a analítica


da razão p rática p u r a 1""

r.nicilcio pu r e l uc i d a ç ã o crílica d e u m a ciência (ni de


1.1 nui s e c à o tlula. q u e ctm.süuii p o r si u m .si.siema. a in-
s estijjaçào L- itislil k a ç à o cie p o r cjiif ela lem cie pussui r
c x a t a ni e nl c esja l o n n a sistemática ç n e n h u m a ouira. se
a c o m p a r a m o s c o m um uiairo Msieina q u e l enha c o m o
tmulamenli > uma- l a m t d a d e d e co nh e c e r semelhante. Ora.
,i i a/ao praliV.i iem x -h i ü i l n n d a m e n l o a me-ana lacukl a-
i le i le' o h 1 1irrei q u e a i a / ao t-.peei Ilai i\ a na me di d a ..em
(|iic .i ii il i, i ' - a o ra/.ao pura l ' or i aui o a di l erenya cia ior-
ma mmv'iirali* .i d e u i i i .i e m r e l . n a o a <t i a> outra terá cie1
-n ili leimiiLid.; p H a . o mpai ac. à‘.> d e a mb a s . c o m a iri-
Jic,u~i' ■ d o iv.speclivo lun.clanieni:<*
A \naii!iea da: ra/ao k ó ric a pura ocupava-se eom o
i'o tilie : inu/nlo d os obietos |K>0j que possam se r dado.s ao

Im i . j ).i:T ,i| t i ' t M i i i . t M - c i i : K . ü i i M i.iiii .iin e n ií- M r K i r i l i n . u L i ,n > u

'filí.. i -o i ': 11 i in U "\ i-ilí ■ i . r í i l .il< ■ P, i ; i ' >11\e-'. m:i^ n.l ^ i ' r - I.iUi1o m N Í I u í
IIIIII , . Sri-.i* •• 1...................... i i H i m i -,1 -1 >]>!■;■ i m l u i - i p r im c iri > li\ rn , D .i . i n i l u i i .1.

Iiil i 1 \irtih ■!'/.■! II1/H.Ü t l r r i v i i h U ’ I I. ,\U jí. ' « l i.

I I I
í' f i l i a i rli! / W l i f i i I U ( t Hi ,!

■ii' i ii lu i ieni< i- c tinha deC( >niccai' pela iiihncao. |n h mim


■ ■ 11nu■1pi ’f(juc esta c sempre sensi\ r i ) pela m-i i.sil >i1hI.i
I' e ,i pLLi'1 ir daí pela primeira \ez avanear ;iU■ unirei
i'< i i |í is objetos dessa intuição). e só após o tralamenin
I' nnhos era-lhe permitido terminar nas proposições lun
il.mimlais. Conirariamenlu. porque a razãa práliea nào se
■I 1111.1 com objetos paia conhecê-los mas com sua prn-
I ii i.i lacuidade (.lu icoriibnnem enie ao seu conhecimcn-
i' i; inrn;i-l(5s eletivos, isto é. tem a ver com uma vontade
■ iii i- uma causalidade na medida em q u e a razão eontóm
■i i n d a m en to determin ante desta, já que ela. co n s eq u e n -
■ m e n t e , n ã o p o d e indicar nenhum o bjeto da intuição mas
■]" >rqu e o c o n c c i i ó d e cau salidade e o n lé m s e m p r e a rc-
li-reiK ia a uma lei q u e determina a existência d o múltiplo
n.i iv la c ã o de um c o m o u t r o > enc|iianto razão prática p o ­
le indicar s o m e n te uma lei da in tu içã o 1
' : assim uma cri-
lu j da Analítica da. razão prática p u r a " ', na m e d id a e m
q u e esta de\ e ser uma ra za o praiiea ( i p iv e o p r o b le m a
prop ria m en te dito), tem q u e c o m e ç a r da possibilid ade de
p r o p o s iç õ e s fu ndamentais praticas <i j u i o r i . t im aiiu nii-
a partir daí ela p o d ia avançar a c o n c e it o s d o s o b je t o s de
uma ra/.áo prática, isto ç, a os d e a b so lu ta m en te b o m v-
mau,, pitra pela primeira v e z fo rn ecê-los em a c o r d o c o m
aquelas p r o p o s i ç õ e s fu ndamentais Ipoi.s esses, en q u a n -
ii i b e m e mau. nào p o d e m ser da do s antes daquek-s prin-
i. ipios p o r n enhum a Iacu idade d e eonhucur). e s o m e m e
então Q jiilimo capitulo, concernente [161] á relação tia ra

líii, K,inT; {h'Cst'il-M'ii (t-ij nik’^nu)


Itó . Y.uo.rp í \.k > í.‘í w s k k x j Ili l ;i fconmrkiuiií kjnii;in:i K riiik 'ticr
I mtfviik' (icty^ihi'U-... M ipondr' nuis rn rivto Kríílh tbys^iih'U.. u fic h i* rfu 1
- W . u l l k { h ' . \ i t f y i l f r i h ‘f . U if th fih isf ' t/nm a i].i o p n >hlr
■:l.i |>rtipili11k ■riTc_' dito <l:i Anisliiii n ).
____________________________ Im m a n u el K a u t ___ _____________

zão prática puralM com a sensibilidade,e à suaJn(luC'iu'iiL


necessária (co gnoscível a p rio ri) sobre a mesma, isU> i\
concernente ao sentimento moral, podia.encerrar e>sa
!'parte. Assim, pois, a Analítica da razão pura präticajdividju
bem analogicamente à <da> teórica o âmbito completo Ue
todas as condições de seu uso, porém em ordem inver
„sa. A Analítica da razão pura_tgórica foi dividida, em lis
tética transcendental e Lógica transcendental,, a da ra^ào
prática, inversamente, em Lógica e Estética da. razão, prã
tica pura (se me for permitido, simplesmente por razões
de analogia, utilizar aqui essas denominações, afora ís^cj.
inadequadas). A Lógica, p or sua v e z, foi dividida lá_em
Analítica dos conceitos e Analítica das proposições funda-
mentais e aqui, em Anajítica das proposições fundamen­
tais e Analítica dos conceitos. A Estética ainda tinha lá duas
partes, devido, ao duplo m odo de intuição sensível; aqui
a sensibilidade de modo-algum, será considerada .corno
capacidade.de. intuição mas simplesmente com o senti­
mento (q u e pode ser um fundamento subjetivo da ape-
tência), e em relação a ele a razão prática pura não per­
mite nenhuma divisão uíterior. .
Também se pode ter perfeitamente perspiciência da
razão pela qual essa divisão em duas partes e sua subdi­
visão não Ibi aqui efetivamente levada a cabo (assim como
de início, mediante o exem plo da primeira, se podia ser

164. Kant aqui, no espaço de uma página, fez um uso desordena­


do das expressões, ora reine praktische Vernunft (razão prática pura),
ora praktische reine Vernunft (razão pura prática), ora theoretische reine
Vernunft (razão pura teórica), e por fim mais duas vezes reine praktis­
che Vernunft (razão prática pura). Cf. o já referido artigo do tradutor a
respeito (A 3), em que foi mostrado que essa ordem de adjetivos não é
indiferente, com o parece aqui, embora caiba ao tradutor, antes de tudo,
respeitar a gramática da língua.

146
Crítica da razão prática

Induzido ;i tentar). [162] Pois, visto que aqui é a razão pura


■|iir <• considerada no seu uso prático, por consegui nie,
|i.n lindo de proposições fundamentais a p rio ri e não de
limd.imentos determinantes empíricos, a divisão da Ana-
liilc.i tia razão prática pura terá de resultar semelhante à
' I*■um silogismo, ou seja, procedendo do universal na pre­
missa maior (d o princípio moral), mediante uma subsun-
<.i< i, iui premissa menor, de possíveis ações (com o boas
( m más) sob aquela, à conclusão, ou seja, à determinação
Milijeliva da vontade (a um interesse pelo bem pratica-
iiu'iile possível e à máxima fundada sobre aquele). Aque-
k que pôde convencer-se das proposições que ocorrem
i ia Analítica deleitar-se-á com tais comparações; pois elas
mm razão propiciam a expectativa de poderem talvez
tun dia levar à perspiciência da unidade de toda a facul­
dade da razão pura (tanto da faculdade teórica com o da
prática) e deduzir aido de um princípio, o que é a inevi-
iiivel necessidade da razão humana, que somente encon­
tra plena satisfação numa unidade completamente siste­
mática de seus conhecimentos.
Pois bem, se considerarmos também o conteúdo do
conhecimento, que podemos ter de uma razão prática pu­
ra e através da mesma, segundo o modo como o expõe a
sua Analítica, então se encontram, ao lado de uma notável
analogia entre ela e a razão teórica, diferenças [163] não
menos notáveis. Em relação à razão teórica, a faculdade
de um conhecimento racional puro a p rio ri poderia165 ser
provada de m odo totalmente fácil e evidente, mediante
exemplos das ciências (nas quais, visto que elas por um
uso metódico põem seus princípios à prova de m odo tão
diverso, nâo se precisa recear, com o no conhecimento

165. Grillo alterou könnte para konnte (podia).

147
hinuuiuicl Kail!

comum, uma mistura secreta de fundamentos cognitivos


empíricos). Mas que a razão pura, sem mistura de nenhum
fundamento determinante empírico, também seja por si
só prática tinha que poder demonstrar-se a partir do uso
prático mais comum da razão, na medida em que se abc >•
nava a proposição fundamenta] prática suprema com o
uma proposição que toda razão humana natural, enquan­
to inteiramente a p rio ri e sem dependência de nenhum
dado sensível, reconhece com o a lei suprema de sua von ­
tade. Primeiro se tinha que estabelecer e justificar essa
proposição fundamental segundo a pureza de sua origem,
mesmo no juízo dessa razão comum, ainda antes que a
ciência pudesse tomá-la em mãos para fazer uso dela,
com o se fosse um factum que antecede toda a argumen­
tação sutil sobre sua possibilidade e sobre todas as con­
seqüências que se desejassem tirar dela. Mas esta circuns­
tância também pode explicar-se perfeitamente a partir do
que foi alegado pouco antes; porque uma razão pura prá­
tica tem de partir necessariamente de proposições fun­
damentais, que, pois, têm de ser postas, enquanto [164]
dados primeiros, com o fundamento de toda a ciência e
não se originar pela primeira vez clela. Mas esta justifica­
ção tios princípios morais com o proposições fundamen­
tais de uma razão pura também podia ser perfeitamente
conduzida com suficiente certeza pelo simples apelo ao
juízo do entendimento humano comum, porque todo o
empírico, que quisesse introduzir-se furtivamente em nos­
sas máximas com o fundamento determinante da vonta­
de, dá-se imediatamente a conhecer pelo sentimento de
prazer ou de dor, que, na medida em que suscita apeütes,
é-lhe necessariamente inerente. Mas a razão prática pura
opõe-se terminantemente a admiti-lo com o condição em
seu princípio. A heterogeneidade dos fundamentos deter-

148
Crítica da razao prática

miiMiiU-N (empíricos e racionais) torna-se, medianlr esla


n ■i-.iciH-ia de uma razão praticamente legislativa contra
hwl.i .1 mescla de inclinação, tão cognoscível, tào exeelsn
»* '..ilienle através de uma peculiar espécie de sensação,
tjm ■ porém, não precede a legislação da razào prática
m,i.\ muito antes, é produzida unicamente por ela e, na
sridade, com o uma coerção, ou seja, pelo sentimento
ilf um respeito com o nenhum homem tem por inclina-
11 ies, seja de que espécie forem, mas sim pela lei, a pon-
in de ninguém, mesmo o entendimento humano mais co­
mum, dever deixar de perceber momentaneamente, em
um exemplo apresentado, que mediante fundamentos era-
Imicos [165] do querer na verdade se pode aconselhá-
li i a seguir seus impulsos, mas jamais pretender que obe­
deça a uma outra lei que a lei prática pura da razão.
Ora, a distinção da doutrina da felicidade (cujos prin­
cípios empíricos constituem todo o fundamento, sem. na­
da acrescentar à segunda) da doutrina da moralidade é a
primeira e mais importante ocupação da Analítica da ra-
/:io prática pura, na qual ela tem de proceder tão exata­
mente e, por assim dizer, tão meticulosamente com o o
C.cômetra em seu trabalho. Vem também ao encontro do
liló.sofo - que aqui (com o sempre, no conhecimento da
razão mediante simples conceitos, sem construção dos
mesmos) tem de lutar com dificuldade maior, porque ele
não pode pôr nenhuma intuição com o fundamento (de
um puro166 noumenon ) - o fato de ele, quase com o o quí­

166. Kant-, reinem Noamen (a um puro noumenon), Incorreto, segun-


(lu Nact>rp (Ak), que, ao invés de reinem,.supõe seinem (a seu noumenon),
enquanto Adickes por sua vez supõe que Kant tivesse estrito von einem
Ule tim noumenon). Na tradução é seguida a sugestão de Kellermann,
"i'iiiem reinen'', considerada por Vorländer a mais correta.

149
.Im m a n uel K aní

mico, poder fazer a todo o momento um experinicniu


com a razão prática de cada homem, para distinguir o ftm
damento determinante moral (puro) do fundamento dc
terminante empírico; ou seja, acrescentando à vontade
afetada empiricamente (p or exem plo, daquele que gos
taria de mentir porque poderia167 obter algo com isso) a
lei moral (com o fundamento determinante). É como quan
do o analista adiciona álcali à solução de terra calcária
nolftt ácido muriático; o ácido abandona imediatamente a
cal, combina-se [1 66] com o álcali e a cal precipita-se ao
fundo. D o mesmo modo, se um homem, que comumen
te é honesto (ou que desta vez se coloca apenas em pen­
samento no lugar de um homem honesto), é confrontado
com a lei moral, na qual ele conhece a indignidade de um
mentiroso, imediatamente a sua razão prática (no juízo so­
bre o que ele deveria fazer) abandona o proveito, une-se
ao que lhe mantém o respeito por sua própria pessoa (à
veracidade), e o proveito, depois de ser separado e de­
sembaraçado de toda aderência à razão (a qual somente1'0
se encontra totalmente do íado do dever), é então pesa­
do por cada um para entrar em vinculação com a razão

167. K.uii: t&uni (pode).


168. N;i I» cd. e da 4? à (t. constou in (em ), enquanto na 2a
. ed. foi
modificado para im (no).
]69- Kant: nur (somente). N o exemplar da 1“ ed., da Biblioteca da
Universidade de Erlangen-Nürnberg, ele foi corrigido a mão para nun
(agora), segundo o descobri, por Paul Joachim Sigmund Vogel. Trata-se
de uma correção única em toda a história da KpV e desconhecida até
aqui, embora incluída furtivamente na cópia impressa dessa edição, na
série Kant im Original, da editora Harald Fischer (1984). A correção é sig­
nificativa pelo fato de a dinâmica do experimento de Kant com a razão
prática parecer reclamar com o correta essa alteração. Cf. passagem seme­
lhante em KpV A 44 s. e A 158 s., e principalmente a seção 3 da Intro­
dução a esta edição brasileira.

150
Critica da razão prática

ui hI.i cm outros casos, só não naqueles em que ela pu-


•l< contrariar a lei moral, que a razão jamais abandona
nu;, se une a ela do m odo mais íntimo.
Mas essa distinção do princípio da felicidade e do prin-
i i|in i tia moralidade nem por isso é imediata oposição en-
lu' ,mibos,.e a razão prática pura nào quer que se abando­
nem a.s reivindicações™ de felicidade mas somente que,
i.m logo se trate do dever, ela não seja de m odo algum
h >m. ida em consideração. Sob certo aspecto pode ser até
ilrvrr cuidar de sua felicidade: em parte, porque ela (e a
i'.so pertencem habilidade, saúde, riqueza) contém meios
p.ira o cumprimento do próprio dever e, em parte, por­
que sua falta [167] (p or exemplo, pobreza) envolve ten-
l.içoes à transgressão de sèu dever. Só que prom over a
■.u i felicidade jamais pode ser imediatamente um dever,
tnenos ainda um princípio de todo o dever. Ora, já que
Iodos os fundamentos determinantes da vontade, com
r\ceção da única lei prática pura da razão (a lei moral),
no seu conjunto empíricos, logo pertencem com o tais
.10 princípio da felicidade, eles têm que ser todos segre­
dados da proposição fundamental moral suprema e ja­
mais incorporados com o condição, porque isto suprimi­
ria todo o valor moral, tanto quanto a mistura empírica
com axiomas111 da Geometria suprimiria toda a evidên­
cia matemática - a máxima excelência que (segundo o

170. Kant: Anspniche. O lem io Anspruch significa, num sentido


;iinchi não enfraquecido do .século XVIII, "uma exigência juridicamente
fundamentada” (II. Paul). Logo, a utilização desse termo por Kant signifi-
i ' : i , nesse contexto, o seu reconhecimento da legitimidade da busca hu­

mana da felicidade.
171. Kant: Grundsätzen-, termo introduzido por Wolff, no sentida
inicial de axioma (cf., junto a A 26, a nota d o tradutor sobre Grundsatz
i' Prinzip).

151
hnnm tutci Kunt

juízo cie Platão) a Matemática contém e que p re m ir im ■■


m o toda a sua utilidade.
Em vez da dedução do princípio supremo da ra/.nt
prática pura, isto é, da explicação da possibilidade d r l.il
conhecimento a priori, nada mais, porém, podia ser ullr
riormente alegado senão que, se se tivesse a perspicirn
cia da possibilidade da liberdade de uma causa eficim
te, ter-se-ia também a perspiciência talvez nâo apenas di
possibilidade mas inclusive da necessidade da lei m oul
enquanto lei prática .suprema de entes racionais, aos qual',
se atribui liberdade da causalidade de sua vontade; pelo
fato de que ambos os conceitos estão tão inseparavelmrn
te vinculados, poder-se-ia definir a liberdade prática Laut
bém pela independência da vontade [ 1 6 8 ] de toda ou ira
lei, com exceção unicamente da lei moral. Todavia não se
pode de m odo algum ter perspiciência relativamente ;i
possibilidade da liberdade de uma causa eficiente, prin
cipalmente no mundo sensorial — felizmente! - contan
to que possamos estar suficientemente assegurados de
que nào ocorra nenhuma prova de sua impossibilidade
e que ora, necessitados pela lei moral, que postula isso,
precisamente por isso estejamos também legitimados a
admiti-la. Como apesar disso há ainda muitos que con­
tinuam crendo poder explicar essa liberdade segundo
princípios empíricos, com o qualquer outra faculdade na­
tural, e considerá-la uma propriedade psicológica, cuja
explicação consistisse unicamente numa investigação mais
exata da natureza da alma e dos motivos da vontade, em
vez de considerá-la um predicado transcendental da cau­
salidade de um ente que pertence ao mundo sensorial
(d e que, a seguir, de fato unicamente se trata),, e deste
m odo suprimir a esplêndida abertura que a razão prática

152
Crítica da razão jirãikti

I >111 i nun propicia17- mediante a lei moral, a saber, a abrr


I i i i .i,i um inundo inteligível pela realização do conceito
ii» ii.t l:,so transcendente de liberdade, e com isso suprimir
i pKipri.i lei moral, que não admite absolutamente ne­
nhum fundamento determinante empírico, de m odo que
'ji torna necessário acrescentar aqui ainda algo para pre-
(timtir contra essa ilusão e para a apresentação do empi-
i I m i i o cm toda a nudez de sua superficialidade.

1169] O conceito de causalidade enquanto necessida­


de natural, à diferença da causalidade enquanto liberdade,
i umvrne somente à existência das coisas na medida em
que ela é detemiinável no tempo, por conseguinte, das
11 >i.sas com o fenômenos em oposição à causalidade delas
i ( >mo coisas em si mesmas. Ora, se são tomadas as deter­
minações da existência das coisas no tempo por determi­
nações das coisas em si mesmas (que é o modo de repre­
sentação mais habitual), a necessidade na’7a relação causai
nao pode de modo algum unificar-se com a liberdade; mas
cia.s se opõem contraditoriamente entre si. Pois da primei­
ra .segue-se que cada evento, consequentemente também
cada ação que precede um determinado momento, está
necessariamente sob a condição daquilo que era no tem­
po precedente. Ora, visto que o tempo passado não está
mais em meu poder, cada ação que pratico tem que ser
necessária mediante fundamentos determinantes que não
estão17'1em meu poder, isto é, jamais sou livre no momen­
to em que ajo. Com efeito, ainda que eu admitisse toda a
minha existência com o independente de qualquer cau-

172. Kant: widerfährt. Grillo propôs gejj/ebén wird ou versebaft'wird.


173. N o original A: in Cem), corrigido pela Ak para im ("n o ” , no
caso “na").
174. Kant: sein (estar), Ak: sind (estão).

153
frnmanuel Kant _

sa estranha (porventura de Deus), de modo que os I h m


damentos determinantes de minha causalidade e alé dr
toda a minha existência nào fossem absolutamente ev
ternos a mim: isso não transformaria minimamente aqiie
ía necessidade natural em liberdade. Pois a cada momenii >
estou sempre sob a necessidade de ser determinado 11701
a agir mediante aquilo que não está em meu poder, e a <i
parte p riori - série infinita dos eventos, que eu sempre
só prosseguiria segundo uma ordem já predetermina tl.i
e não iniciaria espontaneamente em parte alguma, seria
uma cadeia natural constante, portanto minha causalida
de jamais seria liberdade.
Logo, se se quer atribuir liberdade a um ente cuja exis
tência é determinada no tempo, neste caso pelo menos
não se pode excluí-lo da lei da necessidade natural de to
dos os eventos em sua existência, por conseguinte tam­
bém de suas ações; pois isto eqüivaleria a entregá-lo ao
cego acaso. Mas, com o essa lei diz respeito inevitavel­
mente a toda causalidade das coisas na medida em que
sua existência é delerminável no tempo, então, se esse
fosse o modo segundo o qual também se teria de repre­
sentai' a existência dessas coisas em si mesmas, a liberdade
teria de ser rejeitada com o um conceito nulo e impossí­
vel. Por conseguinte, se ainda se quiser salvá-la, não resta
outro caminho senão atribuir a existência de uma coisa,
no caso em que seja determinável no tempo, por .conse­
guinte também a causalidade segundo a iei d_a ncceàsi
dade natural, simplesmente j o fenômenô4 porém_atribuir
a liberdade ao mesmo ente enquanto coisa em si mesma.
O que é certamente inevitável, desde que sé queira ao
mesmo tempo conservar ambos os conceitos entre si ad­
versos; só que na aplicação, se se quiser explicá-los com o

154
__________ _ Crítica da razão p rá tica _________

mudos cm uma e mesma [171] ação e, portanlo, explicar


> ■ própri a união, manifestam-se grandes dificuldades
<11h- parecem tornar uma tal união inviável.
Sr digo acerca de um_homem que comete um furto:
> ".tr alo é um resultado necessário segundo ja lei natural ^
da <.1 usa 1idade^a partir dos fundamentos determinantes
• > Ifin po precedente,, neste_çasq era impossível que <ele
diasasse de reali2ar-se; com o pode então o ajuizamento
'.ri'.iindcj a lei moral produzir, neste caso, uma alteração e
jucssLipor que tal ato, não obstante, tivesse_podido deÍ-_
sar dt^realizar-se, porque a lei diz que ele deveria ter sido
1:viI ado,. isto.é,.com o.pode aquele, nc.>mesmo momento
r com vistas à. mesma ação, denominar-se. .totalmente li­
vre, se naq.uele momento e com vistas à mesma açãojele,
contudo, encontra-se_submetido a uma inevitável neces­
sidade natur,>,l? É um mísero subterfúgio procurar unia eva­
siva numa simples adaptação do modo dos fundamentos
delerminantes de sua causalidade, segundo a lei natural,
a um conceito comparativo de liberdade (de acordo com
o qual às vezes se chama efeito livre aquilo cujo funda­
mento natural determinante encontra-se internamente no
ente operante, por exemplo, aquilo que um corpo lança­
do executa quando ele está em livre movimento, em cujo
caso se recorre à palavra liberdade, porque ele, enquan­
to se encontra em voo, não é impelido externamente por
algo; ou, assim com o chamamos também de movimento
livre o movimento de um relógio, porque ele mesmo m o­
ve os seus ponteiros e, portanto, não precisa [172] ser im­
pelido externamente, do mesmo m odo que as ações do
homem, embora sejam necessárias pelos seus fundamen­
tos determinantes que as precedem no tempo, são chama­
das livres porque se trata de representações internas pro-
Immanuel Kant

duzidas por nossas próprias faculdades, mediante cujas


representações elas são apetites gerados segundo silu.r
ções que os ensejam e, por conseguinte, são ações produ
ziclas segundo nosso próprio arbítrio), Com esse subteiiu
gio alguns sempre ainda se deixam entreter e deste modo
supõem ter resolvido com um pequeno verbalismo aquele
difícil problema, para cuja solução milênios trabalha rum
em vão e que, por isso, dificilmente poderia ser encon
trada tão na superfície. Ou seja, na questão daquela liber
dade, que tem de ser posta com o fundamento de todas
as leis morais e de sua correspondente imputação, nâo se
trata de se a causalidade determinada segundo uma lei
natural seja necessária por fundamentos determinantes
que jazem no sujeito ou fora dele e se, no primeiro caso,
ela é necessária por instinto ou por fundamentos deter­
minantes pensados racionalmente. Se essas representações
determinantes, de acordo com a confissão dessas próprias
pessoas, têm, contudo, o fundamento de sua existência no
tempo e, em verdade, no estado anterior e este, por sua
vez, de novo em um estado precedente, etc., então essas
determinações, quer sejam sempre internas, quer tenham
unia causalidade psicológica e não mecânica, [173] isto é,
produzam unia ação mediante representações e nâo m e­
diante movimenlo corporal, trata-se sempre de fundamen­
tos determinantes da causalidade de um ente enquanto
sua existência é determinável no tempo, por conseguinte
sob condições necessitantes do tempo passado, as quais,
quando o sujeito deve agir, não estão mais em seu poder,
que, pois, em verdade comportam liberdade psicológica
(se se quiser utilizar esta palavra a respeito de um encadea-
mento meramente interno das representações da alma) e,
contudo, necessidade natural. Por conseguinte elas nâo
dão margem a nenhuma liberdade transcendental, que tem

156
Crítica da razão prática ____

■I*■:■<■!' pensada com o independência de lodo <> empiri


>11 c portanto cia natureza em geral, quer ela .seja mnsi-
dri.ula objeto do sentido interno simplesmente nu tem-
I ii», i <11 também simultaneamente'do sentido externo|Wno
f,| i.K/0 e no tempo. Sem esta liberdade (no último e autên-
iii ( i sentido), a qual unicamente é a priori prática, nenhu­
ma lei moral e nenhuma imputaçao segundo a mesma é
P< i.ssivel. Precisamente por isso também toda a necessi­
dade dos acontecimentos no tempo segundo a lei natu-
ia! da causalidade pode chamar-se de mecanismo da na-
luivxa, ainda que com isso não se entenda que as coi-
■..is a ele submetidas tivessem de ser efetivas máquinas
maleriais. Aqui se presta atenção somente à necessidade
( I.i conexão dos eventos em uma série temporal, do m odo
i Dino ela se desenvolve de acordo com a [174] lei natu-
i.il, quer se chame o sujeito, no qual esse transcurso se dá,
dr automaton materiale , já que a maquinaria é movida
pela matéria ou, com Leibníz, de automaton spirituale, já
■|iie ela é movida por representações. F., se a liberdade
de nossa vontade não fosse nenhuma outra que a últi­
ma (isto é, a psicológica e comparativa, nào a transcen­
dental, quer dizer, absoluta ao mesmü tempo), então ela
no fundo não seria melhor que a liberdade de um assador
giratório, o qual, uma vez posto em marcha, executa por
si os seus movimentos.
Ora, para suprimir, no caso exposto, a aparente
lradájãojíntie.jaiecanisma- .natutaLe, jßbe£dada=&f» -uma,-e

175- Kant: äußeren Sinne, c o rrig id o p o r G rillo para des äußeren


Sinnes. Vorländer atribuiu a Hartenstein a correção para d ei'äußeren Sinne.
Na verdade, esta fo i uma proposta d e Hartenstein na .sua 2? ed. d e 1867.
lírn 1838, p. V III e 213, eJe escreveu, apenas acrescentando a Kant um V :
äußeren Sinnen.

157
___________ Im n tiiin w l K ant _ _ _________ -

mesma ação, é. preciso que aos recordemos do que loi.i


dito jaa Crítica da razão pura ou do qu ejielu se sc).>uc
que a necessidade natural, que não p od e coexislir com
a liberdade d o suieito.._é ^trib.uída simplesmente às 4c
terminações daquela coisa que está submetida às condi
ções de tempo, consequentemente só ao17í> que perlen
ce ao sujeito agente enquanto fenômeno, logo, na inc
dida em que os 'IxindaM é n to s ^ ^ W j^Tmántes cKTcit l,i
ação do mesmo se situara, naquilo que pertence ao tem
po passado e não estã mais em meu poder (para o qnr
também têm de ser computados seus atos jã praticados
e o seu caráter, determinável por eles a seus próprios
olhos,, enquanto fenômeno). Mas o mesmo [175J sujeilo
que. por outro .lado, é também Consciente de si com o
coisa em si mesmaj considera do mesmo, m odo sua exis­
tência enquantolíãó está submetida a condições de tçm
po mas a si mesmo somente com o determinável por leis
que ele mesmo se dá pela razão, e nesta sua existência
nada precede a determinação de sua vontade mas cada
ação e em geral cada determinação de sua existência,
mutável de acordo "com o seniido ínicrno. e mesmo toda
a seqüência serial de sua existência como ente de sentidos
nào pode, na consciência de sua existência inteligível,
passar senão por conseqüência, jamais por fundamento
determinante de sua causalidade enquanto noumenxm.
Ora, sob este aspecto o ente racional de cada ação coi>

176. Na Xt e d ição consta dem (a o ), e nào den , c o m o o pretendeu


Vorländer; den constou em Hartenstein, Iíeh rbach e Kirchmann; substituí­
d o p o r Vorländer e p ela Alt p o r áen.en (àquelas), neste caso referindo-se
a “ determ inações". A correção foi atribuída pela A k a Vorländer, q u e tam­
b ém a assumiu c o m o própria, em bora tenha sido origin alm en te d e V ogel
n o e xem p lar de Erlangen.

158
Crítica da razão prática

liaria à lei cometida por ele, ainda que ela com o fenôm e­
no seja no passado suficientemente determinada e, nes-
l,i medida, necessária, pode com. direito dizer que e le 177
poderia tê-la evitado; pois ela, com todo o passado que
,i determina17“, pertence a um único fenôm eno de seu ca-
i , i ler que ele conquista para si mesmo e de acordo com
11 qual ele, enquanto causa independente de toda a sen-
.'.ibilidade, imputa-se a causalidade daqueles fenômenos.
Com isso também concordam perfeitamente os vere-
i liei os judiciais daquela maravilhosa faculdade em nós que
denominamos consciência moralm. Um homem pode dis-

177. Kant: er ( “e le ” , masc.), tanto aí c o m o lo g o abaixo “ele (er) en-


i|ii:inlo causa in d ep en d en te” ; e m am bos d everia ser es (n eu tro), c o m o ob-
:,i Tva Vorländer, para concordar c o m vernünftiges Wesen (en te racional).
178. F. Maity, sem razão, supòe que a passagem seja gramaticalmen-
ir equívoca, d e m o d o que tam bém se pudesse com m uito sentido dizer:
v i;i (a ação), com tod o o passado que e/a determ ina” . Mas esta possibi­
lidade não é dada senão na parte final da frase, desde a perspectiva d o
■iiníter (in teligível). Cf. M AR TY, F. La naíssance de la métaphysique- cbez
hiiiil Paris: Beauchesne, 1980, p. 263 ( o destaque é d o tradutor),
179- O termo Gewissen significa consciência moral, que com o tal se
dislingue do simples Bewußtsein (consciência e m gerai). Mas Kant, c om o
•inlfiiorm ente Baumgarten, cuja obra de filosofia prática ele com entou, uti­
lizou o termo latino conscientia c o m o equivalente a Gewissen. Tam bém em
português o term o “consciência" p o d e significar faculdade d e julgam en-
lus morais. O inglês, analogam ente, em p rega consciousness (Bewußtsein)
r ainscience (Gewissen). Baumgarten entendeu a conscientia c om o uma
laculdade d e autoím putação d e ações: Cum conscieniia sit actus, vélfa-
cuUas, ve! habitus Jacta sibi ímputandi et his teges aplicandi... (con sciên ­
cia é o ato ou a Faculdade ou o hábito d e imputar-se fatos e de aplicar
Iris a estes). (Cf. Erläuterungen Kants zu G. Baumgartens In itia pfoiloso-
jibiaepracticaeprimae. A k v. X3X, pp. 89-91.) Kant, na Metafísica das cos-
[mnes/Doutrina da virtude, expressou-se d e m o d o semelhante: In einer
( it'nnssenssache (causa conscientiam tangens)... (MS/T A 102). Eie dell-
niu-a aí com o a consciência (Bewußtsein) de um tribunal interior: “Cons-
ciOncia moral <Gewíssen> é a consciência <Bewußtsein> de um fo r o inte-

159
Im m a n u v! Kam

simular o quanto ele quiser, para dourar [176] perante mI


mesmo um comportamento ilegal do qual se recorda, e
declarar-se nâo cuípado a seu respeito, como se se traias
se de um engano não premeditado e de um simple« de.s
cuido que jamais se pode evitar totalmente, consequenk1'
mente de algo em que fosse arrastado pelo caudal da nr
cessidade natural; ele descobre, contudo, que o advogado
que fala em seu favor de modo algum consegue fazer ca
lar o acusador nele, tão logo ele se dê conta de que no
momento em que praticava a injustiça estava de posse do
seu juízo, isto é, no exercício de sua liberdade e, apesar
disso, ele explica o seu delito a partir de certo mau h;i
bíto contraído por crescente abandono do cuidado para
consigo próprio até o ponto em que p od e considerá-lo
uma conseqüência natural do mesmo, sem que isto, con ­
tudo, possa assegurâ-lo contra a autorrepreensão e a cen­
sura que ele próprio se faz. Pois sobre isso se funda tam­
bém o arrependimento relativamente a uni ato cometido
há bastante tempo, em toda recordação dele; uma sensa­
ção dolorosa, produzida por disposição moral e que é pra­
ticamente vazia, na medida em que ela nâo pode servir
para tomar o acontecido não acontecido, e que seria até
absurda (com o Priestley'™, enquanto autêntico fatalista,
que procede consequentemente, também o declara e em
relação a cuja franqueza ele merece mais aplauso do

rinr no hom em ('diante d o qual os pensam entos acusam-se ou descul-


p:mi « ' r iv ip n x iin ie iu e T ( MS/T A 99). Mas, o qu e é importante, a cons­
ciência moral (cnm o, aliás, tam bém a an im alidade) é no h om em uma dis­
p osição (Autuai') constitutiva, d ev id o à qual c ie não p o d e portar-se de
m od o itioralmcnk- indiferente, sob pena de abdicar d e sua humanidade.
tHO. Joseph Priestley (1733-1S04), naturalista inglês, d escob rid or d o
o x ig ê n io i' da assimilação das plantas, publicou The D octrtne o f Philoso­
phien! Newss/ly lUiislraíect (1777).

1.60
_ Critica da razão prãiiça

*|iM' aqueles que - enquanto afirmam de fato o mecanis-


iDi i <I;i vonLade, em palavras, [177] contudo afirmam a sua
lll ii n lade - sempre ainda querem ser considerados favo-
i m-i:; a liberdade pelo fato de a incluírem em seu sistema
>nMirlista, embora sem poder tornar concebível a possi-
I all« lade de uma tal imputaçao), mas enquanto dor é per-
iniamente legítima, porque a razão, se se trata da lei de
in iv,a existência inteligível (da lei moral), não reconhece
dlliavnça de tempo e pergunta somente se o evento me
prrtm ce com o ato, a seguir, porém, vincula-lhe sempre
nu iralmente a mesma sensação, quer ele tenha ocorrido
aflora ou há muito tempo. Pois a vida dos sentidos tem,
iati relação à consciência inteligível de sua existência (da
lil x-rdíide), unidade absoluta de um fenômeno, o qual, na
medida em que contém simplesmente fenômenos da
disposição concernente à lei moral (do caráter)., tem que
■.cr ajuizado não segundo a necessidade natural que lhe
pertence com o fenôm eno mas segundo a espontaneida­
de absoluta da liberdade. Portanto podemos admitir que,
:;r nos fosse possível ter uma tão profunda perspiciência
da maneira de pensar de um homem do m odo com o esta
'.r mostra através de ações tanto internas com o externas,
a ponto de que cada motivo para ela, mesmo o menor, do
mesmo modo com o ocorre com todos os seus estímulos
externos, fosse-nos conhecido, poderíamos futuramente
calcular a conduta de um homem, com a certeza de um
eclipse lunar ou solar e, todavia, [178] afirmar a propósi-
lo que o homem seja livre. Ou seja, se ainda fôssemos ca­
pazes de uma outra visão (mas que certamente não nos
Idi concedida, em vez da qual temos apenas o conceito da
razão), quer dizer, de uma intuição intelectual do mesmo
sujeito, então, contudo, perceberíamos que toda esta ca-

161
Immanuel Kam

deia de fenômenos em relação ao que sempre e sonicnlr


pode dizer respeito à lei moral depende da espontanch
dade do sujeito com o coisa em si mesma, de cuja delei-
minação não pode absolutamente ser dada nenhuma ex ­
plicação física. Na falta dessa intuição, a lei moral asse-
gura-nos desta diferença entre a relação de nossas ações
com o fenômenos com o ente de sentidos de nosso su­
jeito e aquelas pelas quais este ente de sentidos é refe ■
rido ao substrato inteligível em nós. Sob este ponto de
vista, que é natural conquanto inexplicável para nossa ra­
zão, podem também justificar-se ajuizamentos que, em-
bora proferidos com toda a retidão, à primeira vista pa­
recem com justiça totalmente conflitantes. Há casos em
que homens desde a infância, até sob uma educação ao
mesmo tempo vantajosa a outros, revelam, contudo, uma
maldade tão precoce e continuam a crescer nela até a ida
de adulta, que sào tomados por um malvado inato e com
uma maneira de pensar incapaz de qualquer melhora;
todavia são juigaclos [179] pelo que fazem e deixam de
fazer e repreendidos pelos seus crimes com o culpados;
e, mais ainda, elas mesmas Cas crianças) consideram esta
censura completamente fundada, com o se elas, apesar da
a elas atribuída desesperançosa constituição natural de
seu ânimo, permanecessem tão responsáveis com o todo
outro homem. Isto não poderia ocorrer se -não pressupu­
séssemos que tudo o que emerge de seu arbítrio (com o
sem dúvida cada ação praticada intencionalmente) tem
com o fundamento uma causalidade livre que desde cedo
expressa seu caráter em seus fenômenos (as ações), os
quais, em virtude da uniformidade da conduta, dão a co­
nhecer um nexo natural que, porém, nâo toma necessá­
ria a qualidade viciosa da vontade, mas, muito antes, é a

162
Critica da razão prática

11 in'.i'i 11k■ncia de proposições fundamentais más c imu-


) in t,, livremente assumidas, as quais só tornam a vonla-
dr (.mio mais reprovável e condenável.
Ma.s está ainda pendente uma outra dificuldade acer-
i .i il.i liberdade, na medida em que ela deve unir-se ao
tin i .mismo natural em um ente que pertence ao mundo
■li mm irial; uma dificuldade que, mesmo depois de tudo o
loi concedido até aqui, ameaça a liberdade de com-
It|i li i naufrágio. Diante desse perigo, porém, uma circuns-
l n iria fornece ao mesmo tempo esperança de uma saída
Irli/ para a afirmação [180] da liberdade, ou seja, o fato de
qiir essa dificuldade pressiona muito mais fortemente (na
n ‘idade, com o veremos em seguida, unicamente) o sís-
Irm.i, no qual a existência determinável no espaço e no
ii 'iiipo é tomada pela existência das coisas em si mesmas,
I»<ii tanto ela não nos coage a abandonar131 a nossa mais
cm visa pressuposição da idealidade do tempo com o sim­
ples forma da intuição sensível, consequentemente com o
'.ímples m odo de representação que é próprio do sujei-
i<> enquanto pertencente ao mundo sensorial e, pois, so-
mente requer sua união com essa ideia.
Ou seja, se também se admite que o sujeito inteligí­
vel ainda pode ser livre em relação a uma ação dada, con­
quanto ele com o sujeito que também pertence ao mundo
sensorial seja mecanicamente condicionado em relação
a ela, parece que, tão logo se admita que Deus enquanto
m ie originário universal seja a causa também da existên­
cia da substância (uma proposição a que jamais se pode
renunciar sem ao mesmo tempo renunciar ao conceito de
I )eus com o ser de todos os entes e, com isso, à sua total

181. Kant: aufzugehen ; Hartenstein; aufzugeben.

163
Im m anuel K a n t

suficiência, à qual tudo na Teologia diz respeito), ter-se ;i


também1"2 de admitir que as ações do homem tenham <>
seu fundamento determinante - o que excede totalmen­
te o seu poder - naquele Ser, ou seja, na causalidade de
um Ser supremo1^3 distinto dele e do qual a sua existên
cia e a determinação total de sua causalidade dependem
de modo absoluto. Deveras, [181] se as ações do homem,
da maneira com o elas pertencem às suas determinações
no tempo, não fossem simples determinações dele enquan­
to fenôm eno mas enquanto coisa em. si mesma, a liber­
dade não se salvaria. O homem seria uma marionete ou
um autômato de Vaucanson'"4, fabricado e posto em mo-
vimento pelo mestre supremo de todas as obras de arte;
e a consciência de si fá-lo-ia certamente um autômato
pensante, no qual, porém, a consciência de sua esponta­
neidade, se fosse1*5tomada pela liberdade, seria um sim­
ples engano, enquanto ela apenas comparativamente me­
rece ser chamada assim, porque as causas determinan­
tes próximas de seu movimento e uma longa série delas,
em verdade, são internas, mas a última e suprema é en­
contrada totalmente em mão estranha. Por isso eu não ve-

IH2. Nm 2! ed. lultou auch (também). A lé m disso, na 1? ed. o pon­


to d ep o is de c‘inräum en (ad m itir) é inadequado. C orrigido p o r Grillo e
|x>r Vogel pam "einräumen, die". Vorländer seguiu Hartenstein: “einräu­
men; d ie ".
183. Kant: höchsten Wesens. A distinção feita adiante entre höchster
e oberster, aplicada a “ sumo b em ” e “b em su p rem o” , respectivam ente (cf.
K p V A 198 e a nota d o tradutor a resp eito), não se justifica em relação a
Deus, c o m o Ser suprem o, pois naquele caso a distinção fundava-se numa
d iferenciação entre dois elem en tos d o sum o bem.
1.ö4. A. Vaucanson, d e G ren ob le, e x p ô s p ela prim eira vez, no ano
d e 1738 e m Paris, figuras automáticas, utilizadas frequ en tem en te p elos
materialistas para téntar confirm ar suas hipóteses mecanicistas.
185. Kant: wird (fo r ).

164
Crl)lcß da razào prálfca

|n i o ino aqueles que sempre ainda insistem ein tomar


it inpo e espaço por determinações pertencentes ã exis-
(i in i.i das coisas, querem evitar aqui a fatalidade das ações
»m. :.<■ lát) decididamente (com o o fez o, afora isso, pers-
jiii.iz Mendelssohn186) admitem ambos como condições
m'<essa riamente pertencentes somente à existência de en-
i> ■. liniios e derivados mas não à existência do ente ori­
ginário infinito, <coíno> querem justificar a si mesmos de
<m> te lomam essa autorização para fazer uma tal distinção
r mesmo com o querem sequer [182] evitara contradição
que cometem, ao considerar uma existência no tempo co­
mo determinação em si necessariamente aderente às coi-
■ui.'i Imitas, uma vez que Deus é a causa dessa existência
mas nào pode de modo algum evitar ser a causa do tem-
|x i (ou espaço) mesmo (porque esta, como condição ne-
iv.ssãria, tem que ser pressuposta a priori à existência das
coisas), consequentemente sua causalidade em relação à
existência dessas coisas tem que ser condicionada mes­
mo quanto ao tempo, em cujo caso então todas as con-
ii adições acerca dos conceitos de sua infinitude e inde­
pendência têm de inevitavelmente apresentar-se. Con­
trariamente à diferença da determinação de um ente do
mundo sensorial, é-nos totalmente fácil distinguir a deter­
minação da existência divina com o independente de to­
das as determinações temporais, bem com o distinguir a
existência de um ente em si mesmo da existência de uma
coisa no fenômeno. Por isso, se não se admite aquela idea-
Iidade do tem po e do espaço, resta unicamente o espi-
nosismo, no qual espaço e tempo são determinações es­

186. Moses Mendelssohn (1729-1786), em s w s Morgenstunden odor


íilwr das Dasein Gottes (1785).

165
„ittiijKtiíttpl Kan/ —

senciais (.Io Ser primeiro, po ré m as coisas depenricnii


deste (portanto também nós m esm os) não são stil>M.m
cias e sim meros acidentes inerentes li ele; porque, se <■-.
xis coisas c o m o seus eleitos existem simplesmente im
tempo, qu e seria a condição de sua exisLència em si. i.un
I>êm as ações desses emes teriam de ser meramente ac«»■■■
suas (|iie ele exercesse em algum lugar ou tempo qn.il
quer. Por isso o f 183] espinoSismo. a pesar da ahsuidi
dade de sua ideia fundamental. conclui beni mais con
vineentemenle do que pode ocorrer se g u n d o a teoria da
criacao, se i is entes tomados p< »r Mibsiäncias e existente*,
em si no tempo sao c< msiderndos eleitos de uma cau
Sa si ipi ema e. i ( >i it i id<). i lai i s;n i et snsiderados a o mesirn >
lempi i p en em entes1 ao- Sei primeiro e ã sua ação. ma-.
|x ti .si 1 1 >11 it i .si íl vsiãnciiis.
\ ivm iliu ao da dil ictlidnde mencionada ocorre sucin
u! e damnu-nte da maneira seguinte: se a existência n<>
lempo é lim simples m od o d e representação sensível dos
enles pensantes no mundo. consequentemente não lhes
concerne enquanto .coisas em si mesmas, então a eriaçao
Jesses eiiU'.s é uma criação ele coisas em sj mesmas, por
q u e o conceito d e criarão não pertence ao m od o de iv
prese-ntacão sensível da existênc ia e à causalidade mas so
p o de ser referido aos i t oi une ri a. por conseguinte, se de
entes no m u n d o sensorial digo q u e são criados, então e
nessa medida os considero c o m o n < > n m e n a . Assim, d o
mesmo m odo que seria uma conlradicào dizer que Deus
e um .criador de fenômenos, e também contraditório di­
zer que eie c om o Criador seja causa de ações no m u n ­
do sensorial, por conseguinte enquanto fenômenos, em-

IS "’ . I l.iru .-iiM L 'in ; t n v - . t v n u ti/s ç o n v i o l . d i s p e n s á v e l e m p t ir u iy u é . s .

IS H , f f f f o o r i g ( p i - r t L - i i c e n l e s l 0 :ii r é , s e i i n i i t l e I k ir le n .s t e in

tftfi
r n t i m iln in ^ iin jireilw n

i i i ’ 1' ■ |.i tau.su d a e x is ie n c ia d o s e n ic s a g c n i e s <en


im *>.i.. >:• ' t n i h ' n a ) Ora, se é po ssível ( n o casi > de .idmilir
■ . ■' 11 ii1■1 1 K ■ a existê n c ia n o t e m p o c o m o a lg u q u e \.iK■
mH ■!' m enic para fe n ô m e n o s , n à o para coisas e m si mcs
mi i i iliím ar ,i liberdade, [184J sem d e trim en to d o m e c a-
" i n i i . iuinr.il d a s a ç õ e s e n q u a n t o l e n ô m e n o s , e n t a o o
i ii.' di q u e o.s enie.s a g en tes são. criaturas n à o p o d e fãzer
>11 11 f ( 'iimima diferença, p o r q u e a criação c o n c e r n e à sua
i .i i ■:u i.í im eligível e n à o à sensível e, portanto, n à o p o -
l' i i \iMa c o m o f u n d a m e n t o dete rm in an te d o s fen ô-
<n. ii ' o q u e , p o ré m , o correria d e m o d o totalmente di-
■ i .>' -.<• tis entes m u n d a n o s existissem c o m o coisas e m
i nu m i u s no t e m p o , já q u e o c ria d o r d a substância tor-
ii ii m ’ i.i a o m e s m o t e m p o o a u lor d e t o d o o m e c a n ism o
in .,i substância.
1. d e a importância d a a b stra ç ã o d o ( e m p o ( e tio es-
I' i. ni, levada a c a b o na crítica da razão especulaii\a pura
■ tu u . l u à o à existência das coisas e m si m esm as
I >ir-.se-á q u e a resolu ção da dificuldade aqui exposta
H. i i i .i muitos o b stáculos internos e q u e n ã o é se q u e r
ir.. i h\el d e uma a p re se n ta ç ã o clara. Mas p o r acuso al­
uiu.i mitra, q u e se lenLou ou po.ssa tentar, é mais fácil e
. . nuprecnsível? Antes, po de r-se -ia dizer q u e o.s mestres
■I. >;m\ki1 Í(.:os tia Melatísica leriam p r o v a d o mais a sua as-
ni. i i que a sua fraqueza no lato de ter afastado t a n lo q u a n -
i.. possível da vista este ponte.» dilícil, na esperança de
■|U. se n ã o falassem dele. t a m p o u c o alguém facilmente
p. ir.nia nele. Se se d e v e auxiliar uma ciência, então tn-
l r is dificuldades têm d e ser descobertas e têm d e ser
procuradas. até aquelas [1851 qu e tão secretamenLe ainda
i i Morvam, pois cada unia delas apela a um expedienLe
rn u- não p o d e ser encontrado sem proporcionar ã c iênc ia

;:i '
Immamtel Kant

um aumento, quer na abrangência, quer na certeza, me«


diante o qual, portanto, mesmo os obstáculos tornaniM*
meios de promoção da solidez da ciência. Contrariamen*
te, se as dificuldades Forem intencionalmente ocultadas
ou afastadas por meios paliativos, elas cedo ou tarde ir­
rompem em males incuráveis que levam a ciência à ruí­
na de um com pleto ceticismo.

4 * *

Já que propriamente apenas o conceito de liberda


de, entre todas as ideias da razão especulativa pura, al
cança tào grande ampliação no campo do suprassensí-
vel, se bem que somente em relação ao conhecimento
prático, pergunto-me: donde lhe adveio, com exclusivida­
de, uma fecundidade tão grande, tanto que as demais cer­
tamente podem designar o lugar vazio para possíveis en­
tes de entendimento puros mas não podem por nenhum
meio determinar o conceito delas? Compreendo logo que,
como nâo posso pensar nada sem categoria, esta também
tem que ser procurada primeiro na ideia de liberdade, da
razão, com a qual me ocupo e que é aqui a categoria de
causalidade, e com preendo qu e1*9, embora ao conceito
racional de liberdade, [186] enquanto conceito transcen­
dental, nào possa ser atribuída nenhuma intuição corres­
pondente, todavia ao conceito do entendimento (a cau­
salidade), para cuja síntese aquele conceito exige o incon-
dicionado, tem que ser dada antes uma intuição sensível,
pela qual lhe é primeiramente assegurada a realidade
objetiva. Ora, todas as categorias são divididas em duas

189- Kant: daß ich , wenn gleich (que eu, embora), corrigido por Ro­
senkranz e Hartenstein para: und daß, wenngleich.

168
Critica da razão prálicci

fcl.iv.i"., .is matemáticas, qu e concernem sim plesm ente à


ii11h I.ii Ir i lu .síntese na representação cios objetos, e ;is di
Miimlr;is, <|ue concern em à unidade da síntese na repre-
« iii.ii, ,ii i da existência dos objetos. As primeiras Cas da
1111 1111i11:iiIc e da qu alidade) contêm em qualquer tem p o
i i mi . i M i nesc cio hom ogêneo, na qual o incondicionado pa­
ri <i <inidicionado dado à intuição sensível n o espaço e
ni i Irm p o não p od e ser d e m od o algum encontrado, uma
w t e11k■ ele m esm o tinha qu e190, por sua vez, pertencer
in r.spaço e ao tem po e, portanto, ser sem pre de n ovo
11 m dirionado™ . Por isso tam bém na dialética da razão
In >i ira pura am bos os m odos opostos de encontrar para
rlrs o incondicionado e a totalidade das con dições eram
I,iIm is. As categorias da segunda classe (as da causali-
I I.i■Ir c da necessidade d e uma coisa) não requeriam de
mm Io algum essa h om ogen eid ad e (d o con d icion a d o e
i l.i condição da síntese), p orq u e aqui não se d e v e 1'“ re-
pirscntar a intuição co m o com posta a partir de um múl-
IIpio nela mas só segundo o m o d o co m o a existência d o
nbjclo con dicion ado correspondente a ela é acrescida à
rsi.sicncia da [ 187] condição (enqu anto conectada com
ria no entendim ento). E neste caso era perm itido pôr
Iiiira o universalm ente co n dicion ado no m undo senso-
11.11(tanto com vistas à causalidade quanto com vistas à
ryistência contingente das próprias coisas) o incondicio-

190. Kant: mußte (tinha que), alterado por Hartenstein e Natorp para
nlt'lßlr (teria que).
191. Kant: wieder unbedingt (de novo incondicionado), corrigido por
Niiinip p-ara wiedenim bedingt (por sua vez condicionado), e por
I l.iriuastein para wieder bedingt (d e novo condicionado), Na verdade, a
1 nnvyão já é de Vogel no exemplar de Erlangen.
192. Alterado por Hartenstein de soll (d eve) para sollte (deveria).

169
Im m a n u el K an t

nado - embora, afora isso, desconhecido - n o 193 mundo


inteligível e tornar a síntese transcendente. Por isso iam
bém na dialética da razão especulativa pura julgou-se que
ambos os m odos aparentemente opostos entre si de
encontrar o incondicionado para o condicionado - por
exemplo, de pensar, na síntese da causalidade, para o con
dicionado na série das causas e efeitos do mundo sen­
sorial, a causalidade que não é ulteriormente condicio­
nada sensivelmente -„d e fato não se contradizem-, .e qui;
a mesma ação, que enquanto pertencente ao mundo serr^,
sorial é sempre sensivelmente condicionada,.isto é, meca­
nicamente necessária, pode ao.mesmo tempo, enquanto
pertence à causalidade do ente agente com o parte do
" -»v 1

mundo inteligívél, ter também com o fundamento unw


causalidade sensivelmente incondicionada,. portanto ser
pensada com o livre. Ora, tudo dependeu meramente de
que esse poder fosse transformado em um ser, isto é, de
que se pudesse provar em um caso efetivo, como que atra­
vés de um factum , que certas ações, quer elas sejam efe­
tivas ou também só ordenadas, isto é, praticamente ne­
cessárias, pressupõem uma tal causalidade (a intelectual,
sensivelmente incondicionada). Não podíamos esperar en­
contrar essa [188] conexão em ações efetivamente dadas
na experiência como eventos do mundo sensorial, porque
a causalidade por liberdade sempre tem que ser procura­
da fora do mundo sensorial, no inteligível. Outras coi­
sas, além dos entes sensíveis, não são dadas à nossa per­
cepção e observação. Logo, não restou senão que por­
ventura seja encontrada uma proposição fundamental da
causalidade que seja incontestável e, em verdade, objeti-

193. Kant: in der, Grillo: in die.

170
_ Crítica da razão prática

\ I, que exclua de sua determinação toda a condição st n


mw‘I, i.slo é, uma proposição fundamental na qual a razjo
.
i i ivcorre ulteriormente a algo diverso como fundamen
i o

li i i lelcnninante em relação à causalidade, mas o qual du


nu‘%ma já contém através daquela proposição fundamen­
tal r nu cujo caso, portanto, enquanto razão pura ela mes­
ma é prática. Esta proposição fundamental, porém, não
n-quer nenhuma busca nem invenção; ela encontra-se há
miiilo tempo em toda a razão humana e incorporada a
.na essência, e é a proposição fundamental da moralida­
de, l)cntanto_aqueIa,.causalijciade .incon.dicÍQnada e sua fa-
i uIdade, a liberdade com esta, porém, um ente (eu mes­
mo) que pertence ao mundo inteligível - é não apenas
pensada indeterminada e probiematicamente (o que já a
i.i/ào especulativa podia descobrir como factível), mas é
,ué determinada em relação à lei de sua causalidade e co­
nhecida assertoricamente; e deste modo a efetividade do
inundo inteligível foi-nos dada e, em verdade, determina­
da de um ponto de vista prático'; [189] e esta determinação,
que de um ponto de vista teórico seria transcendente (ex-
iravagante), é, de um ponto cíe vista prático, imanente. Mas
nao podíamos efetuar um passo semelhante com respei-
lo à segunda ideia dinâmica, ou seja, a de um Ser neces­
sário. Sem a mediação da primeira ideia dinâmica não po­
díamos elevar-nos a ele a partir do mundo sensorial. Pois,
se quiséssemos tentá-lo, precisaríamos ter ousado o salto
i le abandonar tudo o que nos foi dado e alçar-nos àqui­
lo do qual tampouco194 nos é dado algo, mediante o que
pudéssemos intermediar a conexão de um tal ente inte­

194. K ant auch nichts (tampouco/também nada). Grillo propôs a


supressão de auch (também), fitando: “d o qual nada nos é dado” .

171
-Im m a n u e l Kant

ligível com o mundo sensorial (porque o Ser necessário


deveria tornar-se conhecido com o dado fora de nós), o
que, contrariamente, com o agora parece demonstrai-si', e
perfeitamente possível com respeito a nosso próprio .su­
jeito, na medida em que ele mesmo se reconhece, de um
lado, com o ente inteligível (em virtude de sua liberdade)
determinado pela lei moral e, de outro, com o atuando 110
mundo sensorial de acordo com essa determinação. Uni­
camente o conceito de liberdade concede que não eleve»
mos sair de nós para encontrar o incondicionado e inte­
ligível para o condicionado sensível. Pois é nossa própria
razão que reconhece a si mediante a lei prática suprema
e incondicionada e ao ente, que é autoconsciente dessa
lei (nossa própria pessoa), com o pertencente ao mundo
puro do entendimento e, em verdade, com a determinação
[190] até do m odo com o ele enquanto tal pode ser ope-
rante. Assim se toma compreensível por que em toda a
faculdade da razão somente o domínio prático possa ser
o que nos eleva acima do mundo sensorial e proporcio­
ne conhecimentos de uma ordem e conexão suprassen-
sível, mas que precisamente por isso podem ser estendi­
dos somente tão longe quanto exatamente é necessário
ao ponto de vista prático puro.
Seja-me permitido, nesta ocasião, chamar ainda a aten­
ção sobre uma coisa apenas, a saber, que cada passo que
se dá com a razão pura, mesmo no campo prático, em
que a especulação sutil de m odo algum é tomada em con­
sideração, concorda todavia tão precisamente e em ver­
dade espontaneamente com todos os momentos da críti­
ca da razão teórica, como se cada um fosse projetado com
refletido cuidado simplesmente para proporcionar confir­
mação a esta. Uma tal concordância tão exata - de m odo

172
Crítica da razão prãlicci

il)>Hin artificial mas (com o a gente pode convencer-se a


<il mesma, contanto apenas que queira prosseguir as in-
morais até seus princípios) espontaneam ente
i in i ml nível - das mais importantes proposições da razão
jii.ilii :i com as observações, que frequentemente parecem
itm usiado sutis e desnecessárias, da crítica da razão es-
I d • uLiLiva, surpreende e assombra e fortalece a máxima,
|.i i Ir milras conhecida e enaltecida, de em toda investi-
H'K'io científica prosseguir seu caminho com toda a exa-
llil.io <• largueza [191] possível, sem se voltar para o que
i Ia porventura pudesse infringir fora de seu campo,
in,in, na medida do possível, executando-a por si só, ver­
dadeira e completamente. Uma observação reiterada con-
w iu vu -m e de que, se a gente levou estes195 assuntos a
K'iiho, aquilo que no m eio do caminho pareceu-me por
yiv.es muito duvidoso acerca de outras doutrinas estra­
nhas , lâo logo eu afastei por longo tempo dos olhos essa
duvida e prestei atenção meramente ao meu assunto até
ijiii1 cie estivesse concluído, finalmente de um modo
inesperado concordava perfeitamente com aquilo que,
>n'in a mínima consideração por aquelas doutrinas, sem
|uirialidade e preferência por elas, por mim mesmo en-
ii mirara. Os escritores poupariam muitos erros, de mui-
i<i esforço desperdiçado (pois ele se fundava em ilusão),
i Irsde que somente pudessem decidir-se a proceder com
tiin pouco mais de largueza.

195. Kant: diese Geschaffte. A correção abreviada de Grillo dieses


i ifsch. foi transformada por Vorländer e pela Ali em: dieses Geschäfte.

173
[ 192] Segundo Livro
Dialética da razão prãtica p u ra

Prim eiro Capítulo


/V uma dialética da razão prática pura em geral

A razão pura, quer seja considerada em seu uso espe-


i ulalivo ou em seu uso prático, tem sempre a sua dialé-
lic.i; pois ela reclama a totalidade absoluta das condições
|i,ira um condicionado dado, e essa só pode absolutamen-
lr encontrar-se em coisas em si mesmas. Mas, visto que
t<>dos os conceitos das coisas têm que ser referidos a intui-
>os que entre nós, homens, jamais podem ser senão sen-
Niveis, por conseguinte não deixam conhecer os objetos
rumo coisas em si mesmas mas simplesmente com o fe-
ilômenos, em cuja série do condicionado e das condições
o incondicionado jamais pode ser encontrado, assim, da
.iplicação_dessa ideia racional [193Jxía totalidade das con­
di çõesjgorconseguinte, do incondiaonado) aTenômenos
s 11rge u m a inçviiávelviíúsâoNcom o se "eles.fossH n Z oiS as
i-m si mesmas (pois, na falta de uma crítica preventiva, se­
rão sempre tomados por tais), <ilusão>, porém, que jamais
seria notada como enganosa se ela própria não se traísse156

196. Kant: verrieten (traíssem). Vorländer atribuiu a correção a Rosen­


kranz e Hartenstein para verrietbe, enquanto em Grillo já constou vetrielh.

175
Immanuel Kam .

por um desacordo da razão consigo mesma na aplicarão


a fenômenos de sua proposição fundamental, de pressu­
por o incondicionado para todo o condicionado. Deste
»modo, porém._aaa2ãá.é.cDa.gida^in¥estigar de oncle ess:i
ilusão surge e de que modo se pode pôr termo a ela, n
que nãp pode ocorrer senão mediante uma crítica c o m ­
p leta -de to,da.a,iaculdadejaciaaaJLp,Uia; de m odo que a
antinomia da razão pura que se evidencia em sua dialé­
tica é de fato o mais benfazejo extravio em que a razão
humana jamais tenha podido cair, na medida em que ela
finalmente nos impele a procurar a chave para sair des­
se labirinto, a qual, uma vez encontrada, ainda descobre c>
que não se procurava e de que, contudo, se carece, a sa­
ber, uma perspectiva sobre uma superior e imutável or­
dem das coisas na qual já agora nos encontramos e na qual
doravante podemos ser instruídos, mediante determinados
preceitos, a prosseguir a nossa existência em conformida­
de com a suprema destinação da razão.
[ 1941 O modo com o, no uso especulativo da ra?.5o
pura., d e ve ser re solv ida._aq.uelíudiaiética-natural e e v i­
tado. o....erro,decorrente. cie.uma ilusão,-de-jesto natosal,
pode .enconirai-stí deiall\ada.inente-.na,-aátíca_dessa_Êa-
culda.de. Mas com a razão no seu uso prático as coisas
não se passam melhor. Co-mo-razão .prática pura ela pro-
çura para o praticamente xondieionado, (que.depende._de
inçlinagpesxjde .uiaa carência natiltalj- igualmente o jn-
condicionadç^e, em verdade, não com o ftindamentp_de-
terminante da vontade; mas, ainda que este tenha sido
dado (na lei moral), ela procura a totalidade incondicio-
nada do objeto da .razão ,prática .pura 4 ob .q. nome.,dê. su­
m o bem. /

17Ö
Critica da razão prática

I n-terminar essa ideia de um m odo praticamente su-


lli 11'MU' para a máxima de nossa conduta racional1"' e a
11<ii11 ri 11a da sabedoria e esta, por sua vez, enquanto ciên-
i l,i. r filosofia no sentido em que a palavra foi entendida
I h li i:; AnLigos, entre os quais eia era uma indicação do
i f iinviio em que o sumo bem deve ser posto e da con*
■liu.i mediante a qual ele deve ser adquirido. Seria bom
«ii1maniivéssemos o antigo significado dessa palavra com o
um.i doutrina do sumo bem, na medida em que a razão
,r,|ui.i chegar nela à ciência. Pois, de um lado, a ineren-
ii’ condição limitadora seria adequada à expressão grega
1111 k 1.significa amor à sabedoria) e, contudo, ao mesmo
h'ui|X) suficiente [195] para compreender sob o nome de
lili >,sofia o amor à ciência, por conseguinte, a todo o co­
nhecimento especulativo da razão, na medida em que
rir 0 útil a esta tanto em vista daquele conceito quanto
do fundamento determinante prático, mas sem perder de
vista o fim principal em virtude do qual, unicamente, ela
pode chamar-se doutrina da sabedoria. De outro lado,
i.unpouco faria mal dissuadir198 a presunção daquele que
ousasse arrogar-se ele mesmo o título de filósofo, se já
pela definição se lhe antepusesse o padrão de medida da
.mloestima que moderará muito suas exigências; pois
m t um professor de sabedoria poderia bem significar
algo mais do que ser um aluno, que ainda não chegou
l.io longe para guiar a si mesmo e, muito menos, a ou­
tros com a segura expectativa de um fim tão elevado; sig­
nificaria um mestre no conhecimento da sabedoria, que

197. A frase de Iíant contém um refinamento simplificado pela tra-


1 11H,'ào; Diese Idee praktisch-, d. i. fü r die Maxime unseres vernünftigen Ver­
hallens, hinreichend zu bestimmen... (cf. KpV A 35).
198. Kant; abzuschrecken (dissuadir). Grillo propôs nieder zu schla­
uen (ab'ater).

177
Immanuel K a nt .____

quer dizer mais do que uma pessoa modesta arrogarã a


si própria, e a Filosofia, assim com o a própria sabedoria,
permaneçeria ela mesma ainda um ideal que objetiva­
mente só na razão é representado de m odo completo,
mas subjetivamente para a pessoa é somente a meta de
sua incessante aspiração, cuja posse, sob o presunçoso
nome de filósofo, somente está legitimado a pretendê-lo
aquele que também pode apresentar em sua pessoa, a tí­
tulo de exem plo, o infalível efeito da mesma aspiração
(n o dom ínio [196] de si mesmo e no indubitado interes­
se que ele toma principalmente p elo bem geral), o que
também, os Antigos exigiam para poder merecer aquele
nome honroso.
Só temos ainda uma advertência a adiantar, relativa­
mente à dialética da razão prática pura, no ponto da d e­
terminação do conceito de sumo bem (a qual, se a sua
resolução for bem sucedida, permite esperar, tanto quan­
to a resolução da ra2ão teórica, o efeito benéfico pelo qual
as contradições da razão prática pura consigo mesma,
expostas lealmente e sem dissimulação, coagem à crítica
completa de sua própria faculdade).
A lei moral é o único fundamento determinante.jia,
von tade pu ra. Mas já q li e. este é jraeramenteJora^l-Ca-sa--
ber, exigeTíiiicamente a forma da -máxima com o -uniTer-
salmente legislativa), ele, enquanto fundamento d eterm i­
nante, abstrai de toda a matéria, p or conseguinte, de todo
o objeto do querer, .togo, por mais que .o .sumo bem seja-
sempre o objeto total de uma razão prática pura, isto é,-
de uma vontade pura, nem por isso ele deve ser tomado
pelo seu fundamento determinante e a l.eLmQral,. unica­
mente, tem que ser considerada o fundj.roentCMaaxä. to-
mar para si com o objeto aquele sumo. bem e a sua reali-'
zação ou p r o m o ç ã o ife t a é uma advertência relevante em

178
_________ Crítica da razão p rá tica ___________ ____________

mui i .im> 1197] tão delicado com o o da determinação de


l>ilin ipios inorais, em que também a mínima interpivta-
ç io cirónea Falsifica as disposições. Pois da Analítica sc
i uni lui que, se antes da íei moral se admite com o l'un-
il.mirnii) determinante da vontade qualquer objeto sob o
h. ui u■do bem, e então "sé deduz dele o princípio prático
mi] nvino, este em tal caso redundaria sempre em hetero­
nomia c eliminaria o princípio moral.
Mas é evidente que, se no conceito de sumo bem a
li'i moral já está compreendida corno condição suprema,
m l ao o sumo bem nào é simplesmente objeto, mas tam-
Isrm o seu conceito e a representação de sua existência
I ki.ssíve) mediante a nossa razão prática é ao mesmo tem­
po o fundamento determinante da vontade pura; porque
rnlao a lei moral — já efetivamente incluída e pensada
i o n juntamente nesse conceito - e nenhum outro objeto
determina a vontade segundo o princípio da autonomia.
Ksln™ ordem dos conceitos da determinação da vonlade
não pode ser perdida de vista, porque do conLrário a
jicnte compreende-se mal a si mesma e crê contradizer-
:;c onde, entretanto, tudo se encontra, lado a lado, na
mais perfeita harmonia.

[198] Segundo Capítulo


Da dialética da razão pura na determinação
do conceito de sumo bem

O conceito de sumo <Hâcbsten> contém já uma am­


bigüidade, que, se não se presta atenção a ela, pod e en­
sejar contendas desnecessárias. Sumo pode significar o

199. Na 1? e 2“ edições: diese (esta); da 4? ä 6?: die (a).

179
_ Immanuel Kant

supremo ( supremum) <das Oberste>m ou também o am


sumado (consumm atuni). O primeiro é aquela condição
que é ela mesma inconclicionada, quer dizer, não está m u -
bordinada a nenhuma outra (originarium ); o segundo r
aquele todo que não é nenhuma parte de um todo ain­
da maior da mesma espécie (perfectissimum), Que a vir­
tude (com o o merecimento a ser feliz) seja a condição
suprema de tudo o que possa parecer-nos sequer dese­
jável, por conseguinte também de todo o nosso concur­
so à felicidade, portanto seja o bem supremo, foi prova­
do na Analítica. Mas nem p or isso ela é ainda o bem
com pleto e consumado, enquanto objeto da faculdade
de apetição de entes finitos racionais; pois para sê-lo re­
quer-se também a felicidade e, em verdade, não apenas
aos [199] olhos facciosos da pessoa que se faz a si mes­
ma fim, mas até no juízo de uma razão imparcial que
considera aquela felicidade em geral no mundo com o
fim em si. Pois ser carente de felicidade e também digno
dela, mas apesar disso não ser participante dela, não
p od e coexistir com o querer perfeito de um ente racio­
nal que ao mesmo tempo tivesse todo o poder, ainda
que pensemos um tal ente apenas a título de ensaio.
Ora, na medida em que virtude e felicidade constituem
em conjunto a posse do sumo bem em uma pessoa, mas

200. Kant distingue neste parágrafo os conceitos de höchster Gut e


oberster Cut, acrescentando a este último o adjetivo latino supremum,
Para marcar essa diferença de expressões, justificada no texto, traduz-se
a última expressão, oberster Gut, por “bem supremo" e a primeira, höchs­
ter Gut, com base numa longa e antiga tradíçào latina, por “sumo bem ” .
A essa tradição Kant mesmo remete no capitulo anterior (cf. KpV A 194
s.). Quer dizer, o bem supremo chama-se virtude, com o o bem parcial
mais alto do sumo bem, o qual por sua v e z incluí, além daquela, lambém
a felicidade.

180
- Crítica da razão prática

.(in i mu isso também a felicidade, distribuída bem exa-


litnn nii■cm proporção à moralidade (enquanto valor da
)m‘. n),i c do seu merecimento de ser feliz), constitui o su­
mo Im ii de um inundo possível, assim este <sumo bem>
íilHiulii a o todo, o bem consumado, no qual, contudo, a
\iiiiit lc c sempre como condição o bem supremo, porque
ili ■n.io lem ulteriormente nenhuma condição acima de si,
i in|ii.mio a felicidade, sem dúvida, é sempre algo agradá-
\>I .11>que a possui mas não algo que é por si só, absolu-
tm icnlc e sob todos os aspectos, bom, porém pressupõe
].i mpic com o condição a conduta legal moral.
I Hias determinações necessariamente vinculadas em
inn ci mceito têm que estar conectadas com o razão e con-
m ■! |i icncia e, em verdade, de m odo que esta unidade seja
11 msiderada ou como analítica (conexão lógica), ou como
Miik-lica (vinculação real), aquela segundo [2001 a lei da
li Inil idade e esta segundo a lei da causalidade. A conexão
il.i virtude com a felicidade pode ser, pois, ou entendida
dc modo que a aspiração a ser virtuoso e o concurso ra­
cional à felicidade não fossem, duas ações diversas mas
i i nnpletamente idênticas, já que em tal caso não precisa-
i ía ser colocada com o fundamento da primeira nenhuma
máxima diversa do fundamento da segunda; ou aquela co­
nexão é assentada sobre o fato de que a virtude produ-
/.u ;.i felicidade como algo diverso da consciência da pri­
meira, do mesmo m odo a causa produz um efeito.
Entre as escolas gregas antigas havia propriamente
:;o duas que, na determinação do sumo bem, em verdade
seguiam o mesmo método, na medida em que não deixa­
vam virtude e felicidade valer como dois elementos diver­
sos do sumo bem, por conseguinte procuravam a unida­
de do princípio segundo a regra da identidade, mas por

181
Immanuel Kan!

sua vez se separavam no fato de que, dentre ambos, es


colhiam diversamente o conceito fundamental. O e p io i
rista dizia: ser autoconsciente de sua máxima que conduz
à felicidade, eis a virtude; e o estoico-, ser autoconsciente
de sua virtude, eis a felicidade. Para o primeiro a prudên
cia eqüivalia à moralidade; para o segundo, que escolhia
uma denominação superior para a virtude, unicamente a
moralidade era verdadeira sabedoria,
[201] Tem-se que lamentar que a perspicácia desses
homens (a qual ao mesmo tempo se tem de admirar
pelo fato de que eles já tão cedo tentaram todos os ca­
minhos imagináveis de conquistas filosóficas) era tão de­
safortunadamente aplicada ao esquadrinhar uma identi­
dade entre conceitos extremamente desiguais, com o o
de felicidade e o de virtude. Todavia convinha ao espíri­
to dialético de suas épocas - o que até hoje seduz, às
vezes, pessoas sutis - suprimir diferenças essenciais e
jamais unificáveis em princípios, mediante a tentativa de
transformá-las em conflito de palavras e a simulação de
uma aparente unidade de conceito simplesmente .sob de­
nominações diversas; e isto costuma atingir aqueles casos
em que a unificação de fundamentos desiguais situa-se
tão profunda ou elevadamente ou requereria uma trans­
formação tão completa das doutrinas, afora isso admitidas
no sistema filosófico, que se tem m edo de envolver-se
na diferença real e se prefere tratá-la com o falta de uni­
dade em simples questões formais.
A o procurarem perscrutar uma identidade entre os
princípios práticos da virtude e da felicidade, ambas as
escolas nem por isso eram tão unânimes no m odo com o
queriam extorquir essa identidade, antes, se separavam in­
finitamente uma da outra, enquanto uma punha seu prin-

182
____ Crítica ãa razão prática

i i|>|i i «li i lado estético e a outra do lado lógico, aquela na


. 4hihi im ria da carência [ 2 0 2 ] e esta na independência
. 1 1 i.i. ai i prática de todos os fundamentos determinantes
<i n ,i\rí.\. Segundo o epicurisia. o conceito de virtude en-
i Mhiiava se já na máxima de prom over sua própria feli-
i idiule; contrariamente, segundo o estoico, o sentimento
il< Irlii idade já estava contido na consciência de sua vir-
mdi-, Mas o que está contido em um outro conceito, em
11 'n l.ide, é idêntico a uma parte do continente mas não
in h it li), e, além disso, duas totalidades podem ser espe-
i II Iran lente distintas entre si, embora elas, em verdade, se
• i m.'.iiiuam da mesma matéria, a saber, quando as partes
hii ambas são vinculadas a um todo de m odo totalmen-
i< diverso. O estoico afirmava.que,a. vinude é .o sumo
lirm lotai, e a felicidade_apenas a consciência, da sua po.s-
■i1 n m io pertencente a,o estado do sujeito. O epicurista
ilirmava que a felicidade é o sumo bem total e a virtude
Mimente a.forma da máxima de concorrer a. ela, a sabei',
n>' uso racional dos meios para a mesma.
Ora, a partir da Analítica^ficou claro que as máximas
da virtude,são completamente heterogêneas em relação
,i seu princípio prático supremo e,.longe__de_serem unâ­
nimes, apesar de pertencerem a um.sumo. bem com o fim
di- torná-lo-possível, a rigor elas-limitam-se e__prejudicam-
nc intttttaíneítteTTtmto-íio-me^mo.sujeitP. Portanto [203] a
i |taestão de como o sumo bem é praticamente possível per­
manece, apesar de todas as tentativas de convergência
alé aqui, um problema sem solução. CL.q.u.s*porém, a tor-
na um problema de difícil solução.ibi mostrado, na Ana-
liiica, a saber, que felicidade e morahdade são.,, quantoji
sua espécie, dois elem entos do sumo bem totalmente, d i-
versos e que, portanto, a sua vinculação não pode ser co-

183
Immanuel Kant

nhecicía analiticamente (com o se aquele que procura drs-


se m odo a sua felicidade descobrisse nesta sua condula
com o virtuoso mediante uma simples resolução de seus
conceitos, ou se aquele que desse m odo segue a virtude
descobrisse já na consciência de uma tal conduta ipso
facto com o feliz), mas é u m a . síntese dfe co nceitos. Toda
via, visto que essa vinculação e~conhecida com o a prio­
ri, por conseguinte de m odo praticamente necessário,
consequentemente não pode ser conhecida com o inferi­
da da experiência e que, pois, a possibilidade do sumo
bem não depende de nenhum princípio empírico, assim
a dedução desse conceito terá de ser transcendental. É a
p rio ri (moralmente) necessário produzir o sumo bem me­
diante a liberdade da vontade; logo, também a condição
de possibilidade do mesmo tem que depender meramen­
te de fundamentos cognitivos a priori.

[204] I
A antinom ia da razão prática

No sumo liem,, que para nós é prático, isto é, efeti­


vamente realizável por nossa vontade, virtude e felicida­
de são pensadas com o necessariamente vinculadas, de
sorte que uma não pode ser admitida pela razão prática
pura201sem que a outra também lhe pertença. Ora, essa
vinculação (com o cada uma em_gera]i)_é ou atvalítioajju

201. Kant: eine durch reine praktische Vernunft. Na ed. Vorländer


(1993, p. 131) constou erroneamente: eine...eine (uma...uma), em vez de
eine... reine (uma... pura). L. W. Beck, na tradução inglesa (p, 119), inad­
vertidamente seguiu Vorländer no mesmo equívoco: one cannot he assu-
med by a practicaí reason (negritos do tradutor). As edições Weischedel
e Ak reproduziram fielmente o texto original.

184
_____ Crítica da razão prática

tinii Hra. já que essa.yipçulaçâojdada nâo pode ser


tin iIii k ,i, » « n o acaba -de».sei- mostrado,.ela tem .que .ser
|n nvidu ;.imiticamente e, em verdade, com o conexão da
iilLi .,1 i 'Din o efeito, porque e:l a diz respeito a um bem- "■
n. isu» é,..àquilo-que^-pQsjíwei-mediaxil^uma_açâo.
IV111. 1111 (> o li o apetite d& feiícidaflfr tem que ser .a .causa,
«in iniz de máximas. da-sgitujd^ .ou,ajDa^aãnu...da.'5âã^d0
Um t|iiv ser a.causa eficiente da fe]ici4aáe. O primeiro
* , i r absolutamente impossívelr porque (com o-foi-pro-
i m

i,nIn n;i Analítica) máximas que põem...o., fundamento


•Iririminante da vontade na aspiração,á. sua. .felicidade
ii,k i n;i<> de m odo algum morais e não podem fun-darne-
nliuma virtude. Mas o segim do çajio c jam bcm im p ossí­
vel, porque toda a conexão prátícajdas.ç^US^Ç dos e fe i-
in.\ no inundo, com o resultado da- [205]-,de.tenixú'iação_da
v< mii:ide, não se guia segundo
i,i>lê mas segundo o conhecimento xlas leis. naturais e se-
1'imdo a faculdade física-de usá-las para seus propósitos,
i ousequentemente ,/ào pode ser esperada nenhuma co-
ursáo necessária, e suficiente ao sumo bem, .da felicida­
de com a virmde no mundo, através da mais.estrita.oh-
servância das leis.jiiorais f Ora, visto que a promoção do
■>wmo bem, que contém esta conexão em seus conceitos,
r um objeto aprioristicamente necessário de nossa von-
l.ide e interconecta-se inseparavelmente com a lei moral,
,i impossibilidade do primeiro caso tem que provar tam-
I ><-m a falsidade do segundo. Portanto, se o sumo bem for
impossível segundo regras práticas, então também a lei
moral, que ordena a promoção do mesmo, tem que ser
fantasiosa e fundar-se sobre fins fictícios vazios, por con­
seguinte tem que ser em si falsa.

185
Immanuel Kanl

II
Supressão crítica da antinom ia da razão prática

Na antinomia da razão especulativa pura encontra-se


uma semelhante colisão entre necessidade natural e liber­
dade na causalidade dos eventos no mundo. Ela foi afas­
tada mediante a prova de que não se trata de nenhuma
verdadeira [206] colisão, se considerados (como, aliás, de­
vem ser considerados) os eventos e mesmo o mundo em
que eles se produzem somente com o fenômenos; pois
um e mesmo ente agente tem com o fenômeno (mesmo
para seu próprio sentido interno)2“ uma causalidade no
mundo sensorial que sempre é conforme ao mecanismo
natural, mas com respeito ao mesmo evento, na medida
em que a pessoa agente considera-se ao mesmo tempo
com o noumenon (com o inteligência pura, em sua exis­
tência não determinável segundo o tempo), pode conter
um fundamento determinante daquela causalidade segun­
do leis naturais, que é livre mesmo de toda a lei natural.
Ora, o mesmo se passou com a presente antinomia
da razão prática pura. A primeira das duas proposições,
de que a aspiração à felicidade produz um fundamento
de disposição virtuosa, é absolutamente falsa; a segunda,
porém, de que a disposição à virtude produza necessa­
riamente a felicidade, não é falsa de modo absoluto mas

202, A eliminação, nas edições alemãs Ak e Vorländer, com exceção


da edição Weischedel, das vírgulas anterior e posterior a als Erscheinung
(corno fenôm eno) leva ao risco de uma compreensão equivocada do tex­
to. Não se trata de que “um ente agindo no mundo com o fenôm eno tem
uma causalidade” (cf. trad. Beck, p. 114.) e sim, de que “um ente agente
tem, com o fenômeno, uma causalidade". Isto permite compreendê-lo, logo
a seguir, também com o noumenon.

186
_ Crítica da razão prática ________

« i ti.i medida em que ela for considerada a forma da cau-


•mIi« l nI'' no mundo sensorial.é. por conseguinte, se eu ad
tuM' 1 u i'\isiir nele com o a única espécie de existência tio
ttiir i.icioiKil, portantQ é só condicionalmente falsa. Mas,
vi .In que eu não apenas estou facultado a pensar a mi-
nli.i rxisiência também com o noumenon ê m u m mundo
di i m l rudimento, porém tenho átéTia lei moral um fun-
d.imniiu deu.Tmina.nto. puramente intelectual-de minha
i nr„ilidade (no mundo dos [207] sentidos), não é im-
IMiv.ivrl que a moralidade da disposição tenha-um-nexo,
■u' M,M) imediato, contudo rnediatcUalravés de uui autoi irt
ii lir.ivrl na natureza/e, em verdade, necessário com o cau-.
■ui, mm a felicidade como _efeitdi;no mundo sensorial, cuja
\11h 111ação em um a.natureza ,que.é simplesmente o bjeto
dl I.1, sentidos jamais pode ocorrer de outro. m odo senão
11 ml ingentemente e não p od e bastar para o sumo. bem.
Portanto, apesar destj-t aparente colisão de uma razão
puiiica consigo mesma/o sumo bem é o fim supremo ne-,
• rssário de.uma vontade determinada moralmente/um
verdadeiro objeto da mesma; pois ele é possível pratica­
mente, e as máximas da última, que em sua matéria se fe -
íerem a ele, .têm realidade objetiva que através., daquela
.mlonomia foi inicialmente encontrada na vinculaçlô.„díi
nu iralidade com a felicidade ^segundo um alei. ..universal.,
mas a partir de um simples .mal-entendido, porque-se to­
mou a relação entre os fenôm enos por urna. rei a çuo„ .das
eoisas em si mesmas com esses fenôm enos.
Se nos vemos necessitados a procurar a uma tal dis-
lància, a saber, na conexão com um mundo inteligível, a
possibilidade do sumo bem - esta meta de todos os d e­
sejos morais, assignada pela razão a todos os entes ra­
cionais —tem [208] de causar estranheza que, apesar di.s-

187
.Immanuel Kant

so, os filósofos tanto da Idade Antiga quanto da Moderna


tenham podido encontrar a felicidade numa proporção
totalmente adequada à virtude já nesta vida (n o mundo
sensorial), ou tenham podido deixar-se persuadir de .ser
conscientes dessa proporção. Pois tanto Epicuro quanto
os estoicos sobrepuseram a tudo a felicidade que na vida
surge da consciência da virtude, e o primeiro nào estava
tão vilmente intencionado em seus preceitos práticos,
com o se poderia concluir dos princípios de sua teoria que
ele precisava para explicar e não para agir ou como mui­
tos, induzidos pela expressão “ volúpia” para contenta­
mento, a interpretaram; mas ele incluiu a mais desinte­
ressada prática do bem entre os modos de go zo da mais
íntima alegria, e a moderação e sujeição das inclinações,
do m odo com o o mais rigoroso filósofo moral sempre as
possa exigir, pertencia conjuntamente a seu plano de
deleite (p elo qual ele compreendia o coração constante­
mente jovial); com isso ele divergia principalmente dos
cstoicos apenas no fato de que ele punha nesse deleite
o motivo que os últimos em verdade legitimamente rejei­
tavam. Pois, de um lado, o virtuoso Epicuro, assim com o
ainda hoje muitos homens moralmente bem-intenciona­
dos, conquanio sem refletirem assaz profundamente so­
bre seus princípios, caiu no erro de pressupor já a dispo­
sição virtuosa naquelas pessoas às quais ele queria indi­
car antes o motivo à [209] virtude (e, de fato, o homem
honesto não pode considerar-se feliz se não está previa­
mente autoconsciente de sua honestidade, porque, no
caso daquela disposição, as censuras que nas transgres­
sões ele seria necessitado por sua própria mentalidade fa­
zer-se e a autorreprovação moral privá-lo-iam de todo o
go zo do agrado que, afora isso, seu estado possa conter).

188
,___ Crítica da razãoprxítíca

|rn(M i.mti i ;i questão é: por meio de quê torna-se pela pri-


tlt» H ' ' c/ possível uma tal disposição e mentalidade de
t i.ii i ) valor de sua existência, já que antes da mesma
Hfl'i i'iii■(miraria no sujeito absolutamente nenhum sen-
lllii' iili' por tun valor moral em gerai? Por mais propícia
tjiir .1 lelicidade no estado físico da vida possa ser, o ho-
Ihi ni vinuoso certamente não estará contente com a vida
ii.io lór consciente de sua honestidade em cada ação;
1111-. |mi:i fazê-lo pela primeira vez virtuoso, por conse-
^nliiii1ainda antes que ele estime tão alto o valor morai
ilr '.tia existência, pode-se enaltecer-lhe a tranqüilidade
tl,.i alma que surgirá da consciência de uma honestidade
ji.ii.i a qual ele, contudo, não tem nenhum sentimento?
Mas, por outro lado, aqui se encontra a razão para
um erro de sub-repção (vitium subreptionis) e, por as-
lilm dizer, para uma ilusão ótica na autoconsciência da­
quilo que se faz à diferença daquilo que se sente, que
mesmo a pessoa mais experimentada não é [210] total-
mriile capaz de evitar. A disposição moral está necessa-
lümente vinculada a uma consciência da determinação
d.i vontade imediatamente pela lei. Ora, a consciência de
uma determinação da faculdade de apetição é sempre o
limdamento de uma complacência na ação, que é pro­
duzida através dela; mas este prazer, esta complacência
m i si mesma, não é o fundamento determinante da ação,
mas <ao con trário a determinação da vontade imediata­
mente e apenas pela razão é o fundamento do sentimen-
lo de prazer e aquela permanece uma determinação prá-
lica pura, não uma determinação estética, da faculdade
de apetição. Ora, visto que esta determinação produz in-
lernamente exatamente o mesmo efeito de um impulso
a atividade que um sentimento de agrado, que é espera­

189
Immanuel KatH

do a partir de ação apetecida, teria produzido, assim 1.1 ■


cilmente vemos aquilo que nós próprios fazemos coiim
algo que sentimos apenas passivamente e tomamos n
motivo moral por um impulso sensível, com o coslunu
acontecer na chamada ilusão dos sentidos (aqui do .sen­
tido interno). É algo muito sublime na natureza human,i
<o> ser determinado imediatamente a ações por uma In
racional pura e até a ilusão de considerar o subjetivo des­
sa determinabilidade intelectual da vontade como algo es­
tético e com o efeito de um particular sentimento orgâniet i
(pois um sentimento intelectual seria uma contradição)
É também de grande importância [211] chamar a atenção
para essa propriedade de nossa personalidade e cultivai
do melhor m odo possível o efeito da razão sobre esse
sentimento. Mas também é preciso precaver-se cie, me­
diante inautênticos elogios a esse fundamento determ i­
nante moral enquanto motivo - na medida em que se lhe
atribuem sentimentos cle alegrias particulares com o fun­
damentos (qu e contudo são só conseqüências) como
que por um falso contraste, degradar e desfigurar os ver­
dadeiros e autênticos motivos e a própria lei. Respeito e
não deleite ou go/o da felicidade é, portanto, algo para
o que não é possível nenhum sentimento posto com o fun­
damento antecedente da razão (porque este seria sempre
estético e patológico); enquanto consciência da imediata
necessitação da vontade pela203lei, ele não é nem sequer
um analogon do sentimento de prazer, enquanto, em rela­
ção com a faculdade de apetição, ele produz exatamente
o mesmo resultado mas a partir de outras fontes. Mas uni­
camente através deste m odo de representação pode-se ah

203. Kant; durch (por), correção de Vorländer: durchs (pela).

190
___ Crítica da razão prática

* itiK ti 11 q u e sc procura, a saber, que ações não ocorram


itju li.r. «'in c( mcordância com o dever (em conseqüência
dt •< iiIUmcmIcw agradáveis) e, sim, por dever, o que lem
iU <i i 11 verdadeiro fim de toda a cultura moral.
M.r. nao se tem uma palavra que não designasse um
)|iir> i t nim i a “felicidade” , porém indicasse uma compla-
H ih i.i rui sua existência, um analogon da felicidade
tjiiT i n n de acompanhar necessariamente a [212] cons-
«li in l.i tl.i virtude? Sim! Esta palavra é “autocontentamen-
tit , i nu ■i in seu sentido próprio sempre alude somente a
h i i i . i complacência negativa em sua existência, na qual

m i .liii( »consciente de nâo carecer de nada. A liberdade


i ,i i i msriência dela com o uma faculdade de seguir com
Id i 11« ii ulerante disposição a lei moral é independência de
Im lliiiições, p elo menos enquanto motivos determinan-
li ‘i c.r bem que não enquanto afectantes) de nosso ape-
|iii r, n;i medida em que sou autoconsciente dela no cum-
t'iliiH-ulo de minhas máximas morais, é a única fonle de
iimi imutável contentamento necessariamente ligado a eia,
* qm - nâo depende de nenhum sentimento particular. Es-
m ei mientamento pode chamar-se intelectual. O conten-
l.imnilo estético (impropriamente chamado assim), que
ili-pi-nde da satisfação das inclinações por mais finamen­
te que elas possam vir a ser forjadas, jamais pode ser
ídrt[iiado ao que se imagina a seu respeito. Pois as incli-
n.u'i ie.s mudam, crescem com a proteção que se lhes con-
i n Ir e deixam um vazio ainda maior do que se pensara
pn-rncher. Em virtude disso são sempre penosas para
iuti ente racional e, se ele não consegue corrigir-se delas
li >}',<>, coagem-lhe o desejo a livrar-se delas. Mesmo uma
inclinação ao que é conforme ao dever (por exem plo, à
i .ividade) pode, em verdade, facilitar muito a eficácia das

191
Immanuel Kant

[213] máximas morais mas não pode produzir nenlumu


delas. Pois nesta, se a ação nào deve conter simplesmni-
te legalidade mas também moralidade, tudo tem de eslar
voltado para a representação da lei com o fundamento de­
terminante, A inclinação, quer seja de boa índole ou lv.hi,
é cega e servil, e a razão, onde se tratar da moralidade,
não tem que simplesmente representar a menoridade da
mesma, mas, sem a tomar em consideração, tem de cuid:ir
totalmente sozinha como razão prática pura de seu próprU >
interesse. Até este sentimento de compaixão e de meiga
participação, se precede a reflexão sobre o que é dever
e torna-se fundamento determinante, é penoso mesmo a
pessoas bem-pensantes, confunde suas refletidas máximas
e provoca o desejo de livrar-se dele e de submeter-se uni ­
camente à razão legislativa.
A partir daí pode-se compreender com o a consciên­
cia desta faculdade de uma razão prática pura possa pro­
duzir pelo ato (a viitude) uma consciência da supremacia
sobre suas inclinações e com isso, portanto, da indepen­
dência das mesmas, consequentemente também da insa­
tisfação que sempre acompanha estas e, pois, uma com ­
placência negaliva com sen estado, isto é, contentamento,
que em sua origem e um contentamento com sua pessoa.
A própria liberdade torna-se desse m odo (ou seja, indire­
tamente) capaz de um gozo, [214] que não pode chamar-
-se felicidade, porque ele não depende da adesão positiva
de um sentimento e tampouco, para falar precisamente,
pode chamar-se bem-aventurança, porque ele não contém
independência completa de inclinações e carências con­
tudo é semelhante à última, na medida em que pelo me­
nos sua determinação de vontade pode manter-se livre da
influência delas e, pois, pelo menos quanto a sua origem,

192
Crítica da razão p rá tica _______

0 <u ilnj',0 ;i autossuficiência que se pode atribuir someii-


lt d i Nrr supremo.
I i'-v.-i resolução da antinom ia da razão pura pratica
»»'(■He m1que em prop osições fundamentais práticas po-
ilr ,i1imaginar pelo menos com o possível uma vinculação
HiHhi.iI i ■necessária entre a ton sciên cia da m oralidade e
m ii i ii i conseqüência dela - a expectativa d e uma felicí-
i! idr proporcionada k mesma (m as certamente n em por
Um i .linda conhecê-la e ter uma perspiciência,da-.mesma).;
11.mirarlamente, que p rop osições fundamentais d o gran-
)«■ im m lo de felicidade d e m od o algum p o d em produzir
tu' u.ilidade; que, portanto, o bem supremo enquanto pri-
iiii Ira con dição d o surpo bem constitui auxroralidadà e
ijin\ contrariamente, ^ ‘felicid.adç em verdade constitui o.
niyundo elem en to d o m esm o/contu do de m od o tal que
rsl.i seja a conseqüência m oralm ente condicionada, em-
huiii necessária,,.da primeira. U nicam ente nesta suhordi-
h .iç iio o sumo bem é o ob jeto total da razão prática pura,
1 qual necessariamente tem d e representa-lo co m o po.->-
*in i -I, porque éj-im mandamento da mesma contribuir com
i nd o o possível para/a.sua. [ 215] produção. Mas, \dât&jqtíe
,i possibilidade d e uma tal vinculação d o con d icion a d o a
■.ii.i condição pertence_inteiramente.à. relação suprassen-
.ivel das coisas e não p o d e absolutam ente ser dada se­
cundo leis d o m undo sensorial, apesar d e a consequên-
i i.i prática dessa ideia, ou seja, as ações qu e objetivam
Inrinr efetivo o sumo bem , pertencerem -ao m undo-sen-
-.i irinl: assjm.procxiraremos apresentaros JundamentoS-da-
(|iu‘la possibilidade, prim eiro, em vista d o que se encon-
li.i imediatamente em nosso p o d e r e então, em segundo
Iui',ar, no que a razão nos o ferec e com o com plem entaçao
.1 ih >ssa incapacida.de-.relâtivaixLente,à..possibiIidade d o su-

193
.Immanuel Kam.

mo bem (necessário segundo princípios práticos) e t|i n*


não se .encontra em n.qsso. poder.

III
D o prim ad o da razão prática pura
em sua vinculação com a razão especulativa

Pelo primado entre duas ou mais coisas, .vinculada*


pela razão entendo a prerrogativa de uma d e ser o pri.
nieiro fundam ento determinante da vinculação com tadis
as demais. Num sentido mais.estrito e prático, ele signiJi
ca a. prerrogaliva do interesse de uma coisa, na-m edida
em que o interesse das demais está. subordinado a ela.
U|ue nào pode ser preterida por [216] nenhuma outra). A
cada faculdade do ânimo pode atribuir-se um interesse,
isto é, um princípio que contém a condição sob a qual,
unicamente, o exercício da mesma é promovido. A ra zai^
com o a faculdade^ doSjprinçípioSj determina o interesse
de todas as faculdades do ânimoLmas determina a si pró­
pria o seu204. O interesse d e seu uso especulatiyoxonâis-
te no conhecim ento do objeto até os princípios supremos
a priori, e o do uso prático na determ inaçã o ,da-vontadc
em relação ao fim ^ t im o e complgtQ, Aquilo que é reque­
rido para a possibilidade de um uso da razão em geral, a
saber, que os princípios e afirmações da mesma não têm
de contradizer uns aos outros, nao constitui nenhuma par-

204. L. Ferry e H. Wismann propõem, para a oração coordenada


.sindética adversativa, das ihrige aber sich selbst, uma outra tradução, quc1
parece errônea, por substituir nela o sujeito “razão” por “interesse”: mais
le sien se determine lui-même (cf. K A N T , Oeuvrespbüosophiques, II. Pa­
ris: Gallimard, 1985, p. 754 e nota p. 1504).

194
__ Crítica da razão prática

i. <|. .eu inu-iesse mas é a con d ição em geral para se ter


mu t i .i .Mci; só a am pliação e não a sim ples concordância
p tnrsma é com putada co m o interesse da razão.
d ,i i.i/ao prática não fo r p erm itid o admitir e pensar
iiih h ii l.ii li >nada além d o qu e a razão especulativa a par-
iii .|. Mia perspiciência p o d ia p o r si oferecer-lh e, então
> .t i i• iii i.i o prim ado. Mas, posto qu e ela tivesse por si
I ii 11n i|in >s originários a priori, com os quais estivessem in-
>» p a u w lm e n te vinculadas certas posições teóricas que,
. i xiIih h I. sc subtraíssem a toda a perspiciência possível da
ii ii t especulativa (ainda que, em verdade, não tivessem
im il >i-iii de contradizê-la), então a questão é: qual [ 217]
«mu n w ir é o su prem o (e , não, qual teria d e ceder, p ois
um ii.io contradiz necessariam ente o ou tro); < ou seja, a
i|iH",un> se a razão especulativa, que nada 205sabe d o que
•i i.tAio prática lhe p ro p õ e admitir, tem d e acolh er essas
(im posições e se, conquanto sejam para ela excessivas,
l> in iIr procurar unificá-ias com seus conceitos co m o uma
|n iv,r r.stranha transferida a ela; ou se ela está justificada
,i '.<•)i,uir obstinadam ente o seu p róp rio interesse partícu­
la i r, d e acordo com o cânon <Kanonik>M d e Epicuro,
h'|n(ar co m o vazia racionalização tudo o q u e n ão deixa
. i iiíficar sua realidade objetiva através d e ex em p lo s evi-
ilm irs apresentáveis na experiência - ainda qu e isso, en-
in iiç a d o com o interesse d o uso prático (pu ro), não fosse
riu si contraditório co m a razão teórica - sim plesm ente
I« irqtie efetivam ente prejudica o interesse da razão espe-

.JOS. N a 11 edição, e da 4? à 6?, constou nicht (n ão ); na 2f, nichts


iii.ntiii, adotado pela Ak.
206. O cânon, literalmente a canônica, equivaleu no epicurismo ao
i(iir ;i filosofia grega chamava de “lógica”. Canon é também o título de
uma obra de Epicuro (341-271 a.C.).

195
Immanuel Kant

culativa, na medida em que suprime os limites que t*sl,i


pusera a si própria e a abandona a todo o sem-sentido oti
desvario da faculdade de imaginação.
Com efeito, na medida em que a razão prática eu
quanto patologicamente condicionada, isto é, simplesmcn
te administrando o interesse das inclinações sob o prinei
pio sensível da felicidade, fosse posta como fundamento,
essa reclamação à razão especulativa absolutamente mio
ocorreria. O paraíso de Maomé ou a união fundente com
a divindade dos teósofos e místicos, de acordo com o sen
tido de cada um, imporiam à razão os [218] seus mons­
tros, e seria igualmente tão bom não ter absolutamente
razão alguma com o abandoná-la desse modo a todas íih
espécies de sonhos. Todavia, se a razão pura pode ser por
si prática, e efetivamente o é, como a consciência da lei
moral o apasa, então se trata sempre de uma e mesma ra-
zão que/sejade um ponto dê vista teórico ou prático, jul-
ga segundo princípios a priori, .com isso fk a x la n x q u e ,
embora sua faculdade, do primeiro ponto clejvista, „oA°
baste para estabelecer afirmativamente certas proposições,
que, no entanto, tampouco a contradizem, tâpJogQ-essa.s
mesmas proposições pertençam inseparavelmente. ao4n-
teresse prático da razão pura, <ela>*’7tem de assumi-las,
em verdade como uma oferta estranha a ela, que não pip-
veio de seu solo mas está suficientemente certificada^e
ela tem de procurar compará-las e çonectárla.s com.tudo
o que ela com o razão especulativa tem çm seu poder.; to­
davia, resignando-se com q fato de que elas não. são pers-
piciência sua ç? contudo, extensões de seu uso em alguma
outra perspectiva, a saber, a perspectiva prática^ o., que

207. Sie (ela, a razão), adotado por Vorländer. Em Iíant faltou o su­
jeito da frase.

196
Crítica da mzão prática

»•in i i li■ ii K i.clojilgum contraditório ao seu intercssi*, que


Hh iiiitr 11;i limitação da temeridade especulativa.
1'niüulo, na vinculação,,da razão..especulativa pura
um ,i i.izno prática pura em vista de um.conhecimento,
11 li li 11.1 mma ó primado) pressupondo-se que essa vin-
iil.ii,,in não seja porventura contingente e [219] arbitrá-
|)t in,r. I mídada a p rio ri sobre a própria razão, por con-
m iHiinir .seja necessária. Pois sem esta subordinação sur-
itil.i uni desacordo da razão com ela mesma; porque, se
11 < lii.viun meramente agregadas (coordenadas) uma à
<uii,i ,i primeira fechar-se-ia estritamente em seus lími-
i". r nau assumiria nada da última em seu dom ínío mas
■ i i, <i hiludo, estenderia seus limites sobre todas as coisas
■, irinpiv que sua carência o reclamasse, procuraria com-
<ii riuliT aquela dentro dos seus limites. Porém não se
unir ik- modo algum exigir da razão prática pura estar
tiil >i ii< linatla à ragão especulativa e, pois, inverter a or-
li iii, porque todo o interes^e é por fim prático e mesmo
i liileivsse da razão especulativa é somente condiciona-
In r unicamente no uso prático é completo.

IV
A imortalidade da alma como um postulado
da razão prática pura

A realização do sumo bem no mundo é o objeto ne-


• >",s,iiio de uma vontade determinável pela lei moral. Nes-
■i,i vontade, porém, a conformidade plena das disposições
,i Iri moral é a condição suprema do sumo bem. Logo, ela
iiin que ser tão possível quanto o seu objeto, porque [220]
i l.i c,sl;i contida no mesmo mandamento que ordena a

197
Immanuel Kant

prom oção dele. Mas a plena conformidade davontade .1


lei moral^é santidade',‘'uma perfeição da qual nenhum enlt1
racional do mundo sensorial.é. capaz em nenhum mu
mênto de sua existência. Porém, visto que aii^da^assim rl.i
é necessariamente requerida com o prática, ela sometm/
pode ser encontrada em um progresso que avança ao In
finito em direção àquela conformidade plena, e é necrh
sário, segundo princípios da razão prática pu.ra, assumil
um tal prosseguimento prático como o objeto real de n«.s
sa vontade.
Entretanto este progresso infinito somente é possi
vel sob a pressuposição de uma existência e personali
dade do mesmo ente racional perclurável ao infinito (a
qual se chama imortalidade da alma). Logo, o sumo bem
é praticamente possível-somente-sob »-pressuposição da
imortalidade da alma.; por conseguinte, esta, enquanto, in-
separavelmente vinculada ã lei moral, é um postuladoda
razão prática pura,(pelo qual entendo uma proposição
teórica mas indemonstrável enquanto tal, na medida em
que ele é inseparavelmente inerente a uma lei prática que
vale incondicionalmente a priori ).
A proposição da clestinação moral de nossa natureza,
de poder alcançar a plena conformidade com a lei moral
unicamente em um [221] progresso que avança ao infini­
to, é da máxima utilidade não simplesmente com respei­
to à presente complementação da incapacidade da razão
especulativa mas também em relação à religião, Na falta
dessa proposição, ou a lei moral é totalmente degradada
de sua santidade, na medida em que por um artifício se
a torna indulgente e desse m odo adaptada a nossa com o­
didade, ou também se ilude o seu chamamento e ao mes­
m o tempo a expectativa de uma destinaçào ínalcançável,

198
Crítica da razão prática

mu ii j.i, ilc uma esperada aquisição plena da santidade


»(/i vi ml,ii U\ perdendo-se em exaltantes sonhos leosóli
n i '1 i|iii1eimlradizem totalmente o conhecimento do .si.
I*i*i tuii'imedio de ambas apenas é impedida a aspiração
m> i ■..11111■:i observância exala e sem exceção de um ri-
li< m imi, n;i() indulgente e, contudo, não ideal mas verda-
i|> li' i mandamento da razão. Somente o progresso ao in-
llniln, d r degraus mais baixos aos mais altos da perfei-
i ii ii >i.i!, é possível a um ente racional mas finito. O pro-
Mi« /.o inl i nito, para o,.qual a condi.ção. temporal na^alç'“
11 .serie para nós interminável o todo da conformi-
■I <i li com a lei moral, e a santidade, que seu mandamen-
it • im essantemente exige para ser conforme à sua justiça
im p.niicipaçâo do sumo bem que ele determijaa a. cada
tim, pode ser totalmente encontrada em uma intxiição in-
irlri lunl singular da existência de [222] entes racionais.
* * i pk■unicamente pode convir à criatura, em relação à es-
I*' i.iiiça dessa participação, é a consciência de sua pro-
í ,id,i disposição para —a partir de seu atual progresso do
|ii( n para o moralmente melhor e d o propósito imutável,
l o m u d o conhecido a ele por esse meio - esperar uma
n l i c r i o r continuação ininterrupta desse progresso, por
iiuts que sua existência possa durar mesmo além desta
\li l,i c assim ser plenamente adequado à [223] vontade

’.tlH. liníretanto mesmo a convicção da imutabilidade de sua díspo-


111, ,ii i no progresso para o bem parece ser em princípio impossível a uma
i li.idn.i l'.m virtude disso a doutrina religiosa cristã fá-la derivar também
■li i iiu-.sino espírito que gera a santificação, isto é, esta firme resolução e
muh Ha ;i consciência da perseverança no progresso moral. Mas natu-
i iliiii-nie também àquele que tem consciência de, por uma longa parte
•U mi.i vida até o seu fim, ter perseverado no progresso para o melhor e,
. in vi'i dade, a partir de autênticos motivos <.Beiuegungsgninde> morais,
■ ) um miíido ter a consoladora esperança, ainda que não a certeza, de que

199
Immanuel Kant

de Deus (sem indulgência ou remissão, que não combiiu


com a justiça), em verdade jamais aqui ou em qualquci
previsível momento futuro de sua existência, mas só na in
fmitude de sua duração (abarcável unicamente por Deus I.

V
A existência de Deus como um postulado
da razão prática pura

Na análise precedente a lei moral conduziu ao pro­


blema pratico, imposto simplesmente pela razão pura seni
nenhuma participação de motivos sensíveis, a saber, da ne­
cessária eompletude da primeira e principal parte d o su­
mo bem, a moralidade, e, com o esse problema só pode ser
resolvido inteiramente em uma eternidade, conduziu ao
postulado da imortalidade. Essa mesma lei tem de reme­
ter também, tâo desinteressadamente com o antes a par­
tir de uma simples razão imparcial, à possibilidade do se­
gundo elemento do sumo bem, a saber, a felicidade [224]
adequada àquela moralidade, ou seja, à pressuposição da
existência de uma cansa adequada a esse efeito, isto é,

ele aler-sc-á a esses princípios em uma existência que se prolongue para


além desta vida, e, embora ele aqui a seus próprios olhos jamais será jus-
lo, nem no caso de um esperado crescimento futuro da perfeição de sua
natureza e com ela também de seus deveres, ele, apesar disso, poderá es­
perar ter nesse progresso - que, embora diga respeito a uma meta que re­
mete ao infinito, para Deus vale todavia com o posse - uma perspectiva de
um futuro de beatitude; pois esta é a expressão de que a razão se serve
para designar um bem-estar completo, independente de todas as causas
contingentes do mundo, bem-estar que como a santidade é uma ideia que
pode ser contida somente em um progresso infinito e na sua totalidade,
por conseguinte jamais é alcançado plenamente por uma eriaaira. (K )

200
Crítica da razão prática

I*h iiiil.it ,i existência de D eus com o necessariamente per


li h> i nlr ,i possibilidade do sumo bem (que com o objelo
tlt nnv„i vontade está necessariamente vinculado à legis
mora) da razão pura). Queremos apresentar de mo-
>li i i i mvincente esta interconexão.
1 rlk k la d e é o estado de um ente racional no mundo
11 ii ,i o qual, no lo d o cie sua existência, -tudo se passa se­
gundo seu desejo e vontade e depende, pois, da concor-
il.lm i.i da natureza com to d o p seu fim, assim com o com
ir, Imidamentos determinantes essenciais de sua vonta-
ili 1ira, a lei moral com o uma lei da Uberdade ordena
m< Jianle fundamentos determinantes que devem ser to­
talmente independentes (com o motivos) da natureza e
ili concordância da mesma com nossa faculdade de
i|H'lk;ao; porém o ente racional agin^lo no mundo não é
.in mesmo tempo causa do mundo e da própria nature­
za l.ngo, não há na lei moral o mínimo fundamento
Ima uma interconexão necessária entre a moralidade e
a h-Ik idadey'proporcionada a ela, de um ente pertencen-
le ao mundo e por isso dependente dele, o qual justa-
inrnlc por isso não pode ser por sua vontade causa des-
..i natureza e torná-la,, no que concerne à sua felicidade
i 1a partir das próprias forças, exaustivamente [225] con-
Mirdante com suas proposições fundamentais práticas.
N.io obstante, no problema prático da razão pura, isto é,
i li i necessário empenho em favor do sumo bem, uma tal
li ilerconexào é postulada como. necessária: nós devem os
I >r<»curar promover o sumo bem (o qual, pois, tem de ser
possível). Portanto é postulada também a existência de
uma causa cia natureza distinta da natureza em conjunto,
e que contenha o fundamento dessa interconexão, a sa-
lier, da exata concordância da felicidade c om ^ m o ra li-'

201
.Immanual Kant

da de. Esta causa supremaj porém, deve conter o fundi ■


mento da concordância da natureza não simplesmente
com uma lei da vontade dos entes racionais, mas çpiu
representação dessa lei, na medida em que estes a pònn
para si com o fundamento determinante supremo da vou
tade, portanto não simplesmente com os costumes seguii
do a forma, mas também com a sua moralidade como
motivo <Bewegungsgrund> dos mesmos, isto é, com a
sua disposição moral. Logo, o sumo bem só é„possível no
mundo na medida em que for admitida uma <causa>2UÍ' su­
prema da natureza que contenha uma causalidade ade­
quada à disposição moral, Ora, um ente que é capaz (.Il­
ações segundo a representação de leis é uma inteligên
cia (um_ente racional), e a causalidadede um tal ente se1--
gundo esta representação das leis é uma vontade do mes-
m o^Logo a causa suprema da natureza, na medida eni
que tem de ser pressuposta [ 2 2 6 ] para o sumo bem, c
um ente que mediante entendimento e vontade çsa cau­
sa (consequentemente o Autor) da natureza, isto. é, Deus.
Consequentemente o postulado da possibilidade do sumo
bem derivado (d o m elhor m undo) é ao mesmo tem po

209. Kant, na 1? «J . escreveu: oberste derNalur. N ão o corrigiu pos­


teriormente cm seu Handexemplar. O acréscimo Ursache costuma ser
atribuído a Grillo e Hartenstein, mas já constou antes deste na correção
manuscrita de Vogel sobre seu exemplar de Erlangen. Na 2! ed. original
constou: oberste Natur (natureza suprema), seguida apenas pela reim
pressão de 1796. Hartenstein, tanto em 1867 quanto em 1838, P- VIII,
equivocou-se ao dizer que na 1? e 2í edições constava oberste Natur e
que oberste der Natur era uma versão da 4? edição. Ao contrário, conu>
observei, oberste Natur é uma expressão da 2? ed., enquanto na 1? cons­
tou oberste der Natur, que foi restabelecida da 41 à 6“ edições. É provável
que Kant, na releitura de seu exemplar da KpV, nâo tenha percebido a fa­
lha e, por razões principalmente de idade, orientou o editor a reeditar na
4? edição o texto da 1“.

202
Crítica da razão prática

n (Hi .luLuIu da efetividade de um sumo bem originário,


nu ■ 11, d.i existência de Deus. Ora, a promoção do sumo
Iimii i i,i |>,irã nós um clever, por conseguinte não apenas
um i Lii nldacle mas também uma necessidade, vinculada
<iM11> i t cmno carência, de pressupor a possibilidade cles-
m 'itinio bem, o qual, uma vez que só ocorre sob a con-
ilh i>i il.i existência de Deus, vincula sua pressuposição
In n'p.n.ivelinente com o dever, quer dizer, é moralmente
im11 v,,u in admitir a existência de Deus.
l,u raso de observar aqui que essa necessidade m o
h I subjetiva, isto é, uma carência, e não objetiva, ou seja,
i l i i nr,si na um dever; pois não pode haver absolutamen-
I» ui ii dever de admitir a existência de uma coisa (por-
t|iu' i;,io concerne meramente ao uso teórico da razão).
I.impuuco se entende com isso que a admissão da exis-
li tu i.i de Deus com o um fundamento de toda a obrigação
t in seja necessária (pois uma obrigação, com o foi
‘tulli ienlemente provado, depende apenas da autono-
nil.i da própria razão). A o dever cabe aqui somente o
t iiipruho para a produção do sumo bem no mundo, cuja
|ntv.ibilidade, pois, pode ser postulada [227] mas não é
1 1 ur.iderada pela nossa razão com o pensável senão sob
[ ni iposição de uma inteligência suprema. Portanto a
,nlmissão de sua existência está vinculada à consciência
i Ir nusso dever, conquanto esta admissão mesma perten-
\.i .i razão teórica, com respeito à qual, unicamente, ela,
11 ur.iderada com o fundamento explicativo, pode chamar-
'.!■ hipótese mas, com referência à inteligibilidade de um
i il ijrlo (o sumo bem ) dado a nós pela lei moral, por con-
'irj',uinte de uma carência de um ponto de vista prático,
pode chamar-se fé e, na verdade, fé racional pura, por­
que .simplesmente a razão pura (tanto segundo o seu uso
Iroiiro com o prático) é a fonte da qual ela surge.

203
Immanuel Kant

A partir desta dedução torna-se doravante concebí­


vel por que as escolas gregas jamais podiam chegar à so­
lução de seu problema da possibilidade prática do sumo
bem: porque elas sempre faziam da regra do uso que a
vontade do homem faz de sua liberdade um fundamento
único e por si só suficiente de sua possibilidade, sem pre­
cisarem para tanto, na sua opinião, da existência de Deu.s,
Em verdade eles procederam corretamente ao estabele­
cer o princípio da moral, independentemente desse pos­
tulado, por si mesmo, unicamente a partir da relação d:i
razão com a vontade, e, por conseguinte, o fizeram condi­
ção prática suprema d o sumo bem; mas nem por isso ele
era a condição completa da possibilidade [228] do mesmo,
Ora, os epicuristas, na verdade, tomaram como princípio
supremo um princípio totalmente falso da moral, a saber,
o da felicidade, e substituíram a lei por uma máxima da
escolha arbitrária segundo a inclinação de cada um: mas
nisso procederam, ainda assim, de m odo bastante conse­
qüente ao igualmente rebaixar seu sumo bem proporcio­
nalmente ao nível pouco elevado de sua proposição fun­
damental, e não esperaram nenhuma felicidade maior do
que a que deve ser obtida pela prudência humana (à qual
pertencem também a temperança e moderação das incli­
nações), que, com o se sabe, tem de revelar-se de m odo
suficientemente pobre e muito diversamente de acordo
com as circunstancias; sem contar as exceções que suas
máximas tinham de incessantemente conceber e que as
tornam inaptas para leis. Os estoicos, ao contrário, esco­
lheram de m odo totalmente correto o seu princípio prá­
tico supremo, a saber, a virtude com o condição do sumo
bem, mas enquanto representavam o grau dela, requerido
para a lei pura da mesma, com o plenamente alcançável

204
Crílica da razão pratica

m ,i,i vida, não somente elevaram demasiadamente a ca


im (i Lu Ir moral do homem sob o nome de sábio para alem
d> h idi >s os limites de sua natureza e admitiram algo que
• Miliadíz todo o conhecimento dos homens, mas princi-
It.iluieiiie não quiseram de m odo algum considerar tam-
) tem ,t validade do segundo elemento pertencente ao su-
iw li lie m , ou seja, a felicidade, com o um objeto particular
i I.i I.ti uIdade de apetição [229] humana, mas tornaram o
■n u snhio, na consciência da excelência de sua pessoa to­
talmente independente da natureza (com vistas a seu con-
it inamento), igual a uma divindade, enquanto em verda­
d e () expunham mas não o submetiam a males da vida (ao
m e s m o tempo o apresentavam também livre do mal); e
.iv.ii n efetivamente eliminaram o segundo elemento do su­
m o bem, a felicidade própria, enquanto o puseram sim-
I desmente na açào e no contentamento com seus valores
pessoais e, portanto, o incluíram na consciência cia manei-
i , i de pensar moral, no que, porém, teriam podido ser su-

luírntemente refutados pela voz de sua própria natureza.


A doutrina do Cristianismo210, ainda que nâo seja con­
siderada como doutrina religiosa, fornece, sob [230] esse

210, Supõe-se geralmente que o preceito moral cristão não ofereça


iiciiluiina vantagem, relativamente a sua pureza, sobre os conceitos morais
i I.jn e.stoicos; todavia a diferença entre ambos é muito visível. O sistema
•••.loico fez da consciência da fortaleza de alma o eixo em torno do qual
iihIii.s as disposições morais deviam girar e, embora os seus discípulos na
verdade Falassem de deveres e também os determinassem muito bem, pu-
11h;i oi o motivo e o fundamento determinante propriamente dito da von-
l.uk' em uma elevação da maneira de pensar acima dos motivos inferio­
res dos sentidos, que são poderosos graças apenas às fraquezas de alma.
I . o y o , a virtude consistia entre eles num certo heroísmo do sábio que se

eleva sobre a* natureza animal do homem e basta-se a si próprio, pro­


põe deveres aos outros, mas ele mesmo sobrepõe-se** a eles e não está
submetido [230] a nenhuma tentação d é transgressão da lei moral. Mas

205
Immanuel Kant

aspecto, um conceito de sumo bem (d o reino de Deus)


que, unicamente, satisfaz à mais [231] rigorosa exigência
da razão prática. A lei moral é santa (inflexível) e exige
santidade moral, embora toda a perfeição moral que o
homem pode alcançar seja sempre somente virtude, ist< >
é, disposição conforme à lei por respeito a esta, conse­
quentemente consciência de uma propensão contínua à
transgressão, pelo menos à impureza, isto é, à adição de
muitos motivos <Bewegungsgriínde> espúrios (não mo-

eles não podiam fazer cudo isto se tivessem representado esta lei na pu­
reza e rigor com o o preceito do Evangelho o faz. Se por ideia entendo
uma perfeição à qual não pode .ser dado nada adequado na experiência,
nem por isso as idéias morais são algo transcendente, isto é, tais que não
pudéssemos jamais determinar suficientemente o seu conceito ou acerca
cio qual é incerto se lhe corresponde sempre um objeto, com o as ideias
da razão especulativa, mas seivem, enquanto arquétipos de perfeição
prática, com o norma indispensável da conduta moral e ao mesmo tempo
com o critério de comparação. Ora, se considero a moral cristã desde seu
lado filosófico, ela, comparada com as ideias das escolas gregas, aparece­
ria assim: as ideias dos cínicos, dos epieuristas, dos estoicos e dos'1*’’ cris­
tãos são: a simplicidade natural, a prudência, a sabedoria e a santidade. Os
filósofos gregos distinguiram-se entre si em relação ao caminho para che­
gar a elas, a ponto de os cínicos considerarem suficiente a elas o enten­
dimento humano comum, os outros, somente o caminho da ciência, am­
bos, contudo, consideraram suficiente o simples uso das forças naturais. Â
moral cristã, porque estabelece o seu preceito (com o, aliás, tem de ser)
tão puta e inabalavelmente, tira do homem a confiança de pelo menos
nesta vida ser-lhe plenamente conforme, mas também a **" reergue de
m odo que, se agimos tão bem quanto está em nosso poder, podemos es­
perar que o que não está em nosso poder favorecer-nos-á de outra for­
ma, quer o saibamos de que m odo, quer nâo. Aristóteles e Platão distin­
guiram-se somente em relação à origem de nossos conceitos morais. (K )
"die (a), acréscimo de Hartenstein,
** Na I ! e da 4? à ó? edições; erhoben , na Z1.-. erhaben.
*** Na l í e da 4í à 6? edições: des (d o); Ak: ífer(d os).
»«.* es ( refe,rido a confiança), mantido pela Ak; Natorp propõe
ihn, referido a homem.

206
__ Crítica da razão prática _

i ii .1 ,i u l >MTvância da lei, consequentemente uma aulo-


»'. 11111.1 vinculada à humildade; e, pois, em relação à santi­
dade qrn* ;i lei cristã exige não deixa, de resto, à crialura
•ti'ii.t« >uiii progresso ao infinito, mas pela mesma razão a
1i : i : ! H i i m n esperança de uma duração infinita. O valor de
uni.i disposição plenamente conforme com a lei moral é
HilHnlo, porque toda a felicidade possível, no juízo de um
'*.il n<i c onipotente distribuidor da mesma, não tem nenhu­
ma i miia limitação senão a falta de conformidade de entes
i aciona is a seu dever. Mas a lei moral por si não promete
nenhuma felicidade; pois esta, em conformidade com con-
» riiu.s de uma ordem natural em geral, nâo está necessa-
ii.i mente vinculada ao cumprimento da mesma lei. Ora,_a
dtmirina moral cristã complementa essa falta (d o segun-
11<>elemento indispensável ao s.umo bem ) pela apresenta­
rão do m u n ^ ^ e ^ q u e e p te s ; racionais consagram-se com
ioda a alma à lei [232] moral, com o o reino de Deus no
qual natureza.e. moralidade chegam a uma harmonia por
:>i inesma estranha a cada um dos dois, mediante um Au-
li ir santo que toma possível o sumo bem derivado. A san­
tidade dos costumes já lhes é indicada nesta vida com o
norma, mas o bem-estar consentâneo a esta, a beatitude,
i ■representado com o alcançável somente em uma eterni­
dade; porque aquela tem de ser sempre em cada estado o
arquétipo de sua conduta, e o progredir em direção a ela
c possível e necessário já nesta vida: esta, porém, sob o no-
me de felicidade, não pode absolutamente ser alcançada
neste mundo (n o que depende de nossa capacidade) e
por isso torna-se meramente objeto de esperança. Apesar
disso o princípio cristão da própria moral não é de mo-
<!o algum teológico (p or conseguinte heteronomia) mas
autonomia da razão prática pura por si mesma, porque

207
Immanuel Kant

ela não torna o conhecimento de Deus e de sua vontade


fundamento dessas leis mas somente do acesso ao sunm
bem sob a condição do cumprimento das mesmas, e Ha
nâo põe sequer o motivo propriamente dito do cumpri
mento das primeiras nas suas desejadas conseqüências
mas unicamente na representação d o dever, em cuja fiel
observância unicamente consiste a dignidade do alcance
das últimas.
[233] Dessa maneira a lei moral conduz, mediante o
conceito de sumo bem enquanto objeto e fim terminal da
razão prática pura, à religião, quer dizer, ao conhecimen­
to de todos os deveres com o mandamentos divinos, itíio
enquanto sanções, isto é, decretos arbitrários2'1,, p or si pró­
prios Kontingentes, de uma,vontade estranha/e, sim, en­
quanto leis essenciais de cada vontade livre por si mesma
.mas_que apesar disso têm que ser consideradas, manda­
mentos do Ser supremo, porque somente, de, uma von ­
tade moralmente perfeita (santa e benévola), ao. mesmo
tempo onipotente, podemos esperar alcançar o .sumo bem
que_a lei moral torna dever p ô rco m o objeto de nosso.es-
forço_e, portanto, esperar alcançá-lo mediante concordân-
cia com essa Vontade. Por isso também aqui tudo perma­
nece desinteressado e fundado simplesmente sobre o de­
ver; sem que se permita"113que temor ou esperança sejam
postos no fundamento com o motivos, os quais, se se tor­
nam princípios, aniquilam todo o valor moral das ações. A
lei moral ordena-me fazer do sumo bem possível no mun­
do o objeto último de toda a conduta. Mas eu nào posso

211. Kant, willkürliche... zufällige, alterado por Hartenstein, segui­


do por Vorländer, para willkürlicher... zufälliger (d e decretos arbitrários...
contingentes). A Ak manteve o texto de Kant.
212. Kant: durften (se permitisse).

2.08
Crítica da razâo prática

•I« i n cliiu ar isso senão pela concordância de minha


Hii.idr com a de um santo e benévolo Autor do mun-
l'i, i' conquanto no conceito de sumo bem corno um
itidii, no qual a máxima felicidade é representada [2341
íhiiii vinculada na mais exata proporção com a máxima
medida de perfeição moral (possível em criaturas), a rni-
nli.i Iclicidatle própria esteja também induíd^, não é, con-
liidn, ela mas a lei moral (a qual, muito antes, limita ri-
ii(i ii i imi mente sob condições a minha ilimitada aspiração
l hii ela) o fundamento determinante da vontade que é
dlil)\ida ã promoção do sumo bem.
l‘or isso a moraj. ta-inpoiico é propriamente a doutrina
dc como nos fazemos fe lizes mas dçr com o devem os tor-
11,11 nos dignos,da.felicidade. ,§ó se a religião é acrescida
,i i'|;t, realiza-se também a esperança de tomar-nos algum
dl.i partícipes cía felicidade na proporção em que cuida-
11)■>s de nâo ser indignos dela.
Alguém é digno da posse de uma coisa ou de um es-
i . k I o , se o fato de ele encontrar-se nessa posse concorda

min o sumo bem. Pode-se agora ver facilmente que toda


,i dignidade tem a ver com a conduta moral, porque esta
<(institui, no conceito de sumo bem, a condição de todo o
mais (que pertence ao estado), a saber, da participação da
leiicidade. Ora, disso segue-se que jamais se tem de tratar
.1 moral em si com o uma doutrina da felicidade, isto é,_
como uma diretriz sobre o modo de tornar-se participante
ila felicidade; pois ela tem a ver meramente com a [235]
condição racional {conditio sine qua non ) da última, e nâo
com um meio de adquiri-lav Mas, se a moral (que simples­
mente im põe deveres e não fornece regras para desejos
interesseiros) tiver sido exposta completamente, só então
depois que o desejo moral, que se funda sobre uma lei,

209
Immanuel Kant

foi despertado a prom over o sumo bem (trazer o reino


de Deus a nós), desejo que não pôde ocorrer antes a ne­
nhuma alma interesseira, e para cujo fim foi dado o pas­
so à religião - essa doutrina morai pode chamar-se tam­
bém doutrina da felicidade, porque a esperança dela só
começa com a religião.
Disso pode-se também concluir que, se for pergun­
tado pelo fim último de Deus na criação do mundo, não
se tem de mencionar a felicidade dos entes racionais nela
mas o sumo bem, que acrescenta ainda uma condição
àquele desejo destes entes, a saber, a de ser digno da fe­
licidade, isto é, a moralidade dos mesmos entes racionais,
a qual unicamente contém o padrão de medida de acor­
do com o qual eles, unicamente, podem esperar tornar-
-se participantes da primeira pela mão de um sábio Autor.
Pois, visto que a sabedoria, considerada teoricamente,
significa o conhecimento do sumo bem e, praticamente, a
conformidade da vontade ao sumo bem, não se pode atri­
buir a uma sabedoria independente suprema um fim que
fosse [236] fundado simplesmente sobre a benevolência.
Pois somente se pode pensar adequadamente o efeito des­
ta benevolência tem relação à felicidade dos entes racio­
nais) sob as condições limitadoras da concordância com
a santidade'’13de sua vontade enquanto conforme com o

213. Com isso e para marcar a peculiaridade desses conceitos, ape­


nas observo ainda que, peJo fato dc atribuírem-se a Deus diversas pro­
priedades cuja qualidade também se considera adequada às criaturas,
com a diferença que lá elas são elevadas ao sumo grau, p. ex., poder,
ciência, presença, bondade etc., sob as denominações de onipotência,
onisciência, onipresença, bondade perfeita etc., há contudo três que, ex­
clusivamente e sem indicação complemenlar de grandeza, são atribuídas
a Deus e são todas morais: ele é o unicamente santo, o unicamente bem-
-aventurado, o unicamente sábio, porque estes conceitos já implicam a ili-

210
_ _ Critica da razão pratica

iimtu bem originário. Por isso aqueles que puseram o fim


>l.i ei iação na glória de Deus (sob a pressuposição de que
n.ii i .sc pense esta antropomorficamente com o inclina
.ii i ;i ,ser louvado), talvez tenham encontrado o melhor
lei mo. Pois nada glorifica mais a Deus do que - o que e
.1 coisa mais estimada no mundo - o respeito por seu
mandamento, a observância do sagrado dever que sua lei
n < im p õ e , se [237] a ela se acrescentar seu maravilhoso
I (l.ii io de coroar uma tal bela ordem com uma correspon­
dei iic felicidade. Se esta última coisa (para falar à manei-
i .i Iuimana) torna-o amável, ele é pela primeira um obje-
iu de adoração. Mesmo os homens por sua boa obra p o ­
dem em verdade obter amor, mas por ela apenas jamais
|><idem obter respeito, de sorte que a máxima beneficên­
cia somente os honra se for exercida com dignidade.
O fato de que, na ordem dos fins, o homem (e com ele
h >do ente racional) seja fim em si mesmo, isto é, jamais pos­
sa .ser usado por alguém (nem mesmo por Deus) simples­
mente com o meio, sem que ele mesmo seja com isso ao
mesmo tempo fim, que, portanto, a humanidade em nos­
sa pessoa tenha de ser a nós mesmos santa, segue-se do­
ravante por sí, porque ele é o sujeito da lei moral, por con­
seguinte daquilo que é em si santo, somente em vista do
qual e também em concordância com o qual algo pode
em geral ser denominado santo. Pois esta lei moral funda-
se sobre a autonomia de sua vontade, como uma vontade
livre que, de acordo com suas leis universais, necessaria-

milação. De acordo com a ordem dos mesmos, ele é pois também o san-
lo legislador (e criador), o bondoso governante (e sustentáculo) e o justo
juiz: três propriedades que contêm em si tudo aquilo p elo qual Deus tor-
n.i-se o objeto da religião e de acordo com as quais as perfeições metalí-
.sieus são por si acrescentadas na razão. (IO

211
Immanuel Kant

mente tem de ao mesmo tempo poder concordar cum


aquilo ao qual deve submeter-se.

[238] VI
Sobre os postulados da razão prática pura em geral

Todos esses postulados partem da proposição funda


mental da'moralidade, que não é nenhum postulado mas
uma lei pela qual a razão determina <i>mediatamente-111
a vontade;' esta vontade, precisamente por ser determina­
da desse modo, com o vontade pura, exige essas condi­
ções necessárias ao cumprimento de seu preceito. Esses
postulados não são dogmas teóricos mas pressuposições
em sentido necessariamente prático, loao. e m 'verdaBe,
<não>2H ampliam o nosso conhecimento. e.5peculaüyqrfnas
conferem realidade objetiva às ideias da razão especula­
tiva em geral (mediante sua referência ao domínio práti­
c o ) e justificam conceitos, cuja possibilidade el_a, do.con­
trário, nem sequer poderia a rrogar^se-afirmar-
Esses postulados^são o,s da. iniortalidade^ da liberda­
de, considerada positivamente (enquanto causalidade-de
um ente pertencente ao mundo inteligíyei),..e_.da existên-.'
cia de Deus. O primeiro decorre da condição praticamen­
te necessária da adequação da duração à completude do
cumprimento da lei moral; o segundo, da necessária pres-

214. Kant: mittelbar imediatamente), corrigido por Hartenstein para


unmittelbar (imediatamente) e adotado pela Ak.
215. Na edição original faltou o “não", acrescentado por Kant em
seu Handexemplar. Esta correção manuscrita de Kant foi feita a tinta, à
diferença das demais.

212
Crít ica da razão p rá tica ___

11|m .u, ,n 1 da independência do mundo sensorial e du i;i-


. uli l,n Ir *k' determinação de sua vontade segundo a |239|
|i i de um mundo inteligível, isto é, da liberdade-, o t c r e c i
m i , i l.i mressidade da condição de um tal mundo inteligí-

*'l |ura que exista o sumo bem mediante a pressuposição


li i -,i m m bem independente, isto é, da existência de Deus.

i > ponto de vista do sumo bem, necessário median-


h o respeito pela lei moral, e a daí decorrente, pressupo-
■ii ,t<>da realidade objetiva do sumo bem conduz, portan-
lo, .11ra vés de postulados da razão prática,. a. conceitos .que
i ia/ao especulativa em verdade podia apresentar com o
|iiol »lemas mas que ela nâo podia resolver. Portanto, 1)
t Ir conduz ao problema, em cuja solução a ra/áo não p o ­
dia .senão cometer paralogismos. a saber, o da imorta.li-
i l,n le, porquê lhe faltava o traço da persistência para com-
plrlar o conceito psicológico de um sujeito último, neces-
Yiriamente atribuído, na consciência de si, à alma para a
irpresentação real de uma substância, o que a razão prá­
tica consegue, pelo postulado de uma duração requerida
para a conformidade com lei moral no sumo bem, en-
<|uanto fim total da razão pratica, 2) Ele conduz àquilo d.o
qual a razão especulam a. nâo continha senão.antinomia,
<uja solução ela podia fundar somente sobre, um concei­
to, em verdade pensável problematicamente mas para
ria indemonstrável e independente, quanto a sua reaiida-
i le objetiva, a saber, a ideia cosmológica [240] de um mun­
do inteligível e a consciência de nossa existência no mes­
mo, mediante o postulado da liberdade (cuja realidade
ela mostra pela lei moral e, com essaj ao mesmo tempo
a lei de um mundo inteligível, sobre o qual a razão espe­
culativa podia somente cha^nar a atenção mas nào poclia
determinar seu conceito). 3) Ele consegue significação (de

2t3
Immanuel Kant

um ponto de vista prático, isto é, enquanto uma condiçai >


da possibilidade do objeto de uma vontade determinada
por aquela lei) para aquilo que a razão especulativa, cjd
verdade, tinha d.e pensar mas tinha de deixar indeterml
nado com o simples ideal transcendental, o conceito tco
lógico do Ser. primeiro com o princípio supremo do sumo
bem em um mundo inteligível, mediante uma legislaç;ni
moral detentora de poder no mesmo.
Mas desse modo o nosso conhecimento é efetivamciv
te ampliado pela razão prática pura, e aquilo que para a
razão especulativa era transcendente é na, rãzão. prática
imanente? Certamente, mas só de um ponto de vista prá-,
tico. Pois por ele em verdade não conhecemos, segundu-
o que são em si mesmo, nem a natureza de nossa alma,
nem o mundo^inteligível, nem o Ser supremo, mas apenas
unificamos seus conceitos_no conceito prático de sumo
bem enquanto objeto de nossa vontade e de um modo
totalmente a priori- pela razão pura,, mas só .mediante,, a
lei m o ra le também apenas em referência.à, m e s im je la -
tivamente ao objeto que ela ordena. [241] Mas com isso
não se tem a perspiciência de como a liberdade sequer se­
ja possível e de com o se deva representar teórica e posi­
tivamente essa espécie de causalidade, mas somente se
postula, através da lei moral e para o fim dela, que uma
tal causalidade existe. O mesmo se passa com as demais
ideias, que nenhum entendimento humano algum dia
perscrutarâ quanto à sua possibilidade, mas também acer­
ca das quais nenhum sofisma jamais arrebatará a convic­
ção, mesmo do homem mais comum, de que nâo são ver­
dadeiros conceitos.

214
„ Crítica da mzcioprática

VII
< atuo <; possível pensar uma ampliação da razão
jrura, desde um ponto de vista prãtico,
sem com isso ao mesmo tempo ampliar
o seu conhecimento como especulativo?

r.im não nos tornarmos demasiado abstratos, quere-


iv.sponder a esta pergunta imediatamente p or uma
i|ill< ;it,;ao ao caso em questão. - Para ampliar praticamen-
h um conhecimento puro, tem que ser dada a priori uma
l n u i h ; u o , isto é, um fim com o objeto (da vontade) que,

l i i i li-pendentemente de todas as proposições fundamen-

ni'. irológicas2'6, é necessariamente representado com o


I n.ilifo por um imperativo (categórico) que determina ime-
111.il.imente a vontade; e esse é aqui o sumo bem. Mas este
n.ii i é possível sem pressupor três conceitos teóricos (para
11*. quais, por serem simples conceitos [242] puros da ra-
,u i, não se deixa encontrar nenhuma intuição correspon-
iIniie, por conseguinte, pelo caminho teórico, nenhuma
ir.il idade objetiva), a saber, liberdade, imortalidade e Deus.
fogo, pela lei prática, que ordena a existência do sumo
hrm possível num mundo, é postulada a possibilidade da­
queles objetos da razão especulativa pura, cuja realidade
i >1ijetiva esta não lhes podia assegurar; mediante o que,
I ii )is, o conhecimento teórico da razão pura certamente
nhlém um crescimento, mas que consiste simplesmente
ei ii c j ue aqueles conceitos, afora isso problemáticos para
«■Ia (só pensáveis), agora são declarados assertoricamen-

216. Grillo propôs, em vez de “teológicas”, “teleolõgicas". A Ak,


I uviendendo seguir Hartenstein, corrigiu para “teóricas”. Na verdade, a
ronvção de Hartenstein constou apenas na sua 2? ed. de 1867; na 1?, de
IK.1H, p. 257, constou a versão de Kant “teológicas”.

215
Immanuel Kant

te com o conceitos aos quais efetivamente convêm ob je


tos, porque a razão prática precisa fatalmente da exis
tência deles para a possibilidade de seu objeto, o suiim
bem, em verdade absolutamente necessário sob o aspe<
to prático, e porque a razão teórica é com isso justifica
da a pressupô-los. Mas esta ampliação da razão teórica
não é nenhuma extensão da especulação, isto é, para do
ravante fazer dela, de um ponto de vista teórico, um iisi <
positivo. Pois, já que com isso não se conseguiu pela ra
zão pratica senào que aqueles conceitos são reais e têm
efetivamente os seus (possíveis) objetos, mas que, além
disso, nenhuma intuição deles nos é dada (o que tam
pouco pode ser exigido), assim nâo é possível nenhuma
proposição sintética mediante esta concedida realidade
dos mesmos. Consequentemente, de um [243] ponto de
vista especulativo essa abertura não nos auxilia em nada
mas certamente auxilia, em relação ao uso prático da ra­
zão pura, para a ampliação deste nosso conhecimento. A,s
três ideias da razão especulativa já mencionadas não são
em si ainda nenhum conhecimento; são, contudo, pen­
samentos (transcendentes) nos quais nada é impossível.
Ora, mediante uma lei prática apodíctica elas, enquanto
condições necessárias da possibilidade do que esta orde­
na tomar-se p or objetos, obtêm realidade objetiva. Isto é,
nós somos instruídos por aquela lei que essas ideias têm
objetos, sem, contudo, podermos indicar com o o concei­
to delas refere-se a um objeto, e isto tampouco é ainda um
conhecimento desses objetos; pois com isso não podemos
de m odo algum julgar sinteticamente sobre essas ideias,
nem determinar teoricamente sua aplicação, por conse­
guinte, fazer com elas qualquer uso teórico da razão, no
que propriamente consiste todo o conhecimento espe-

216
Crítica da razão p rá tica _______

■mI Hl\ i 11 l.i mesma. Mas, apesar disso, o conhecimento leó-


iii n, cm verdade não desses objetos e sim da ra/áo em
et mI, Ioi ampliado,, na jnedida -em..que pelos postulados
(.i i i i <o;, (oram, contudo/uados. objetos.àquelas ideias, _en-
|u ml o por eles um pensamento meramente problemáti-
■o n l i i e v c pela primeira.vez realidade objetiva. Portanto
Mito n ata de nenhuma ampliação do conhecimento de
Mhjeios supras.sensíveis dados., mas de uma ampliação da
m 10 teórica e [244] do conhecimento da mesma em re-
] K ,n i a o supra-sensível em geral, na medida em que ela,

d i ■r coagida_a conceder que tais objetos existem, sem,


iiii Li vi a os determinar mais proximamente, por _ç.onse-
Huniie, sem ela mesma poder ampliar esse conhecimen-
|o i li >.s objetos (que agora lhe foram dados a partir de ra-
-i ies práticas e somente para o uso prático), a razão teóri-
i ,i pura, portanto, para a qual todas aquelas ideias são
li.mscendentes e sem objeto, deve esse incremento uni-
i ,imente ã sua faculdade prática pura. Aqui elas se tornam
Imanentes e constitutivas, enquanto elas são fundameiv
los da possibilidade217 d.e tornar efetivo o objeto necessá­
rio da razãó prática pura (o sumo bem), uma vez que sem
In,so elas são transcendentes e são princípios meramente
ivgulativos da razão especulativa, que não lhe impõem
.kImitir um novo objeto para além da experiência mas
m»mente aproximar-se da completude de seu uso na ex­
periência. Porém, se a razão está uma vez de posse des­
se incremento, ela torna-se, enquanto razão especulativa
( propriamente só para assegurar seu uso prático), nega-
liva, isto é, procedendo com aquelas ideias não de modo

217. A pontuação original (onde consta um ponto) é aqui obvia­


mente equivocada. A correção foi feita por Hartenstein e Vorländer, mas
;;cm registro de que foi originariam ente apontada por Grilio.

217
Immanuel Kant

extensivo mas purificante, para deter, de um lado, o anlm


pomorfismo com o fonte da superstição ou com o unia am
pliação ilusória daqueles conceitos mediante unia |nr
tensa experiência e, de outro lado, o fanatismo <Fcuittti
zismus> que ela21fi promete através de uma intuição mi
pra-sensível [245] ou de sentimentos semelhantes. Todm
esses são obstáculos ao uso prático da razão pura, cuja sal
vaguarda, portanto, certamente pertence à ampliação dr
nosso conhecimento de um ponto de vista prático, ou'"'
que a este contradiga ao mesmo tempo aclmitir que, dr
um ponto de vista especulativo, a razão não ganhou mí
nimamente com isso.
Para cada uso da razão em relação a um objeto k;'u >
requeridos conceitos do entendimento (categorias), sem
os quais nenhum objeto pod e ser pensado. Estes podem
ser aplicados ao uso teórico da razão, isto é, a semelhan
te conhecimento somente na medida em que ao mesmo
tempo lhes seja atribuída uma intuição (qu e sempre c
sensível) e, portanto, simplesmente para representar por
meio deles um objeto de experiência possível. Ora, aqui
são, porém, idéias cia razão - que não podem ser ciadas
em experiência alguma o que eu teria de pensar me
clianle categorias, para conhecê-lo. Entretanto não se tra­
ta aqui tampouco do conhecimento teórico dos. objetos
dessas ideias, mas somente de que elas em geral têm ob­
jetos. Esta realidade é obtida pela razão prática pura e,
relativamente a isso, a razão não tem outra coisa a fazer
senão simplesmente, pensar aqueles objetos por m eio de

218. A saber, a ampliação (Vorländer).


219. Kant-, oder, alterado por Hartenstein para ohne (sem ) e ado­
tado pela Ak. A correção original é, no entanto, de Vogel no exemplar
de Erlangen.

218
Crítica da razao prático

.»1*7(1 >ií.iís; o que é perfeitamente possível, com o, além


li > m.i í . s, mostramos claramente sem precisai- cie intuição
in> in M-nsível nem suprassensível), porque as [246] cule-
!■<>>)i.ii, irm sua sede e origem, independentemente e un-
ii i de ioda a intuição, no entendimento paro meramente
tiqii.iulo faculdade de pensar, e elas sempre significam
,i mu -nie um objeto em geral, seja de que m odo ele nos
i tu ssa sempre ser dado. Ora, na medida em que as catego-
il.r. ilevem ser aplicadas àquelas ideias, nenhum objeto
nn verdade pode ser-lhes dado na intuição. E7 não obs-
i . i i iit ■. pelo fato de que um tal objeto existe220, que, por con-

.i'j'.iiinle, a categoria não seja aqui vazia com o uma sim­


ple:, Ibrma de pensamento mas tenha significado,, é-lhes
■.iilicicntemente assegurada, mediante um objeto que a
i.i/.no prática indubitavelmente oferece no conceito de
.nino bem, a realidade dos conceitos pertencentes à pos-
‘.ll iiI iclacie do sumo bem, sem, contudo, produzir por esse
inescimo a mínima ampliação do conhecimento com ba-
■.»■ ein princípios teóricos.

* * *

Se depois disso estas ideias de Deus, de um mundo


inteligível (d o reino de Deus) e da imortalidade forem de-
urminadas por predicados derivados de nossa própria
naiureza, não se pode ver essa determinação nem com o
sensificação daquelas ideias racionais puras (antropomor-
risino.s), nem com o conhecimento transcendente de ob-
jcios suprassensíveis; pois esses predicados não são ne-

220. A Ak vê na frase uma incongruência de dois sujeitos: “p elo


i.ilo - existe” e "a realidade dos conceitos" (cf. Anmerkungen derBãnde
/ K p. 505).

219
Immanuel Kant

nhum outro senão o [247] entendimento e vontade e, im


verdade, considerados em relação recíproca do moiln
com o têm de ser pensados na lei moral, portanto soiurir
te enquanto for feito deles um uso prático puro. Todo u
mais que é psicologicamente inerente a eles, isto é, ii ;i
medida em que observamos essas nossas faculdades em-
piricamente em seu exercício, é então abstraído (por exem
pio, que o entendimento do homem é discursivo, que suas
representações são, pois, pensamentos e não intuições,
que estas seguem-se uma à outra no tempo, que sua von ­
tade é sempre acometida de uma dependência do con­
tentamento com a existência de seu objeto etc., o que não
pode ser o caso do Ser supremo). E deste m odo nada
mais resta dos conceitos, pelos quais pensamos um ente
intelectual puro, do que é diretamente requerido para a
possibilidade de representar-se uma lei moral, por con­
seguinte, em verdade um conhecimento de Deus mas so­
mente em sentido prático, mediante o qual, se fizermos a
tentativa de ampliá-lo para um conhecimento teórico, ob­
teremos do mesmo um entendimento que não pensa mas
intui, uma vonlade que é dirigida a objetos, de cuja exis­
tência o seu contentamento não depende minimamente
(não quem nem sequer citar, dos predicados transcenden­
tais, por exemplo, uma magnitude da existência, isto é, uma
duração, que, porém, não ocorre no tempo, como o único
meio possível de representar uma existência com o [248]
magnitude), puras propriedades das quais não podemos
fazer absolutamente nenhum conceito apto ao conheci­
mento do objeto, e desse m od o somos instruídos a que
elas jamais podem vir a ser utilizadas para uma teoria de
entes suprassensíveis e que, portanto, sob este aspecto,
não somos absolutamente capazes de fundar um conhe-

220
Crítica dei razão prática

( tim nii) especulativo mas de apenas limitar o ncii ii .so a


l*i tlli ,i ( Ia lei moral.
r..',U‘ úlLimo aspecto é tâo óbvio e pode ser cão cl;ir:i
mu uh1provado pelo fato de que se pode desafiar sem rc
( fio iodos os pretensos naturais eruditos acerca de Deus
n<ilítrlicbe Gottesgelehrte> (uma esquisita expressão)'"11
ii i ii.nem uma única propriedade determinante deste seu
i 'I i|<'io ( para além dos meros predicados ontológicos), seja
i|n m iondim ento ou da vontade, na qual não se pudes-
<i piovar incontestavelmente que, se [249] abstraímos de
i ndo o antropomorfístico nela, somente nos resta a sim-
I ili Vt palavra, sem poder vincular a ela o mínimo conceí-
h i pelo qual fosse permitido esperar uma ampliação do
<onliecimento teórico. Mas, no que concerne ao prático,
i<"ila nos ainda, das propriedades de um entendimento e
iIr uma vontade, o conceito de uma relação à qual a lei
pr.ilica (qu e justamente determina a priori esta relação
11<i entendimento com a vontade) proporciona realidade
objetiva. Uma v ez ocorrido isto, será conferida também
II vil idade ao conceito do objeto de uma vontade deter­
minada moralmente (ao de sumo bem ) e, com ele, às con­
dições de sua possibilidade, as ideias de Deus, liberdade
i- imortalidade, mas sempre só em referência â prática da
lei moral (para nenhum fim especulativo).

221. Erudição é propriamente apenas o conjunto das ciências histó-


rifits. Consequentemente somente o professor de teologia revelada pode
denominar-se um erudito acerca de Deus. Mas, se quiséssemos denomi-
u;ir erudito também o detentor de ciências racionais (Matemática e Filo-
Ncifía), embora isto já estivesse em desacordo com o sentido do termo
(segundo o qual é computado com o erudição somente aquilo que tem
de ser completamente ensinado e que, pois, não se pode descobrir por si
mesmo pela razão), assim o filósofo,, com seu conhecimento de Deus
m ino ciência positiva, certamente poderia fazer uma figura demasiado
mim para deixar-se chamar por isso de erudito. (K )

221
Immanuel Kanl

Depois dessas advertências pode-se agora eneoniin


também facilmente a resposta à importante quesiáo: s< n
conceito de Deus pertence à Física (p or conseguinle l.im
bém à Metafísica, com o única detentora dos princípios pu
ros a priori da primeira, em sentido geral), ou se e mu
conceito próprio da Moral. Explicar arranjos da naHmv.i
ou sua transformação pelo recurso a Deus com o Am«x
de todas as coisas não é, no mínimo, uma explicação Iim
ca e é, em todo caso, uma confissão de que sua filosnlu
chegou ao fim; pois, se é coagido a admitir algo, [250) d< i
que, de mais a mais, não se tem conceito algum, para |>t >
der formar-se um conceito da possibilidade daquilo qtii
se vê diante de si. Mas pela Metafísica § através de inli
rências seguras é impossível chegai', do conhecimento de.s
te munclo, ao conceito de Deus e à prova de sua existên
cia, porque teríamos de conhecer este mundo como a mai;.
perfeita totalidade possível, por, conseguinte conhecei
para este fim todos,os mundos possíveis (para poder com
pará-los com este) e, pois, ser oniscientes, para dizer que
eia somente era possível por meio de um Deus (com o le
mos de representar este conceito). Mas conhecer comple
tamente a existência deste Ser a partir de simples concei
tos é absolutamente impossível, porque cada proposição
existencial, isto é, que diz de um ente do qual form o um
conceito que ele existe, é uma proposição sintética, isto
é, uma proposição pela qual saio daquele conceito e digo
dele mais do que era pensado no conceito, ou seja, que
para esse conceito no entendimento é posto ainda fora do
entendimento um objeto correspondente, cuja descoberta
obviamente é impossível por qualquer inferência. Portan­
to só resta à razão um único procedimento para chegar a
esse conhecimento., ou seja, aquele em que ela enquanto

222
Critica da razão-prática

ii im |>nr;i determina o seu objeto partindo do princípio


iipi ciiin de seu uso prático puro (enquanto esie uso,
iti h i di.vso, é dirigido simplesmente à existência de algo
i oiiiu conseqüência [251] da razão). E então se mostra,
Htio Mmiente em seu incontornável problema, a saber,
il i necessária. orientação da vontade ao sumo bem, a ne-
- * .‘.ul,ide de admitir um tal Ser primeiro em referência à
I >i r.'.il lilidade desse bem no mundo, mas, o que é o mais
iim i .iv c I, mostra-se algo que pela via da natureza faltava

ii itilmcnte ao avanço da razão, ou seja, um conceito exa-


l.iitirnic determinado desse Ser primeiro. Visto que co-
iiln ■( ( 'iiios apenas uma pequena parte deste mundo e que,
m m o s ainda, podemos compará-lo com todos os mun-
ilu,s possíveis, assim podem os muito bem inferir de sua
iiulnn, conformidade a fins e magnitude, um sábio, be-
m v o l o , poderoso etc. Autor do mesmo, mas não sua onis

<inicia, infinita benevolência, onipotência etc. Até se pode


iiiuilo bem conceder que se está facultado a complemen-
l.ir essa inevitável falta por uma consentida e inteiramente
u/.oável hipótese^ a saber, que, se em tantos fragmentos
ipic se oferecem ao nosso conhecimento mais próxim o
luilliam sabedoria, benevolência etc., em todos os demais
i »correrá o mesmo e que, portanto, é razoável atribuir ao
Anlor do mundo toda a perfeição possível; só que_essas
n:io são inferências, pelas quais damos alguma impressão
dr nossa perspiciêncía, mas são apenas faculdades que
nos podem ser concedidas e que, contudo, carecem de
uma ulterior orientação para fazer uso delas. Portanto
pela via empírica [252] (da Física) o conceito de Deus per­
manece sempre um conceito imprecisamente determina­
do da perfeição do Ser primeiro, para considerá-lo ade­
quado ao conceito de uma divindade (com a Metafísica,

223
Immanuel Kant

porém, em sua parte transcendental não se consegue ,il>


solutamente nada).
Se tento então comparar esse conceito com o ob|rin
da razão prática, descubro que a proposição funda mm
tal moral somente o m admite com o possível sob li pie;,
suposição de„um Autor do mundo de suma perfeição. I li
tem de ser onisciente para poder conhecer minha comlu
ta até o mais íntimo de minha disposição, em todos h'i
casos possíveis e por todo o futuro; onipotente, para mi
torgar-lhe as convenientes conseqüências e, dcTme.smit
modo, onipresente, eterno etc. Por conseguinte a lei m< >
rai determina pelo conceito de sumo bem, com o ohjelo
de uma razão prática pura, o conceito de Ser primeim
como Ser supremo, o que o curso físico (e o superiormeu
te continuado, curso metafísico) e, pois, todo o curso c.s
peculativo da razão não conseguiu realizar. Logo, o enu
ceito de Deus é um conceito não originalmente peilen
cente à Física, isto é, destinado à razão especulativa .m;is
pertencente à Moral, e o mesmo pode dizer-se também
dos demais conceitos racionais, dos quais acabamos d r
tratar com o postulados da mesma no seu uso prático.
[253] Se na história da filosofia grega não se encontra,
além de Anaxágoras, nenhum claro vestígio de uma teo­
logia raciona] pura, a razão disso não se encontra em que
os antigos filósofos carecessem de entendimento e per.s-
piciência para elevarem-se a ela pela via especulativa, ao
menos com a ajuda de uma hipótese totalmente racional.
Que podia ser mais fácil e mais natural do que o pensa­
mento, que se apresenta por si a qualquer um, de admitir,
em v e z de um grau indeterminado de perfeição de di-

222. Kant: ihn, referido a “conceito", também mantido pela Ak, en­
quanto Natorp aventa a forma neutra es, para referi-la a “objeto”.

224
Critica da razão prática

« t ..ei t .insas do mundo, uma única causa racional, doía-


l i dr Unia a perfeição? Mas os males no mundo parece-
i im IInv. objeções demasiado importantes, para se con.si-
ilt i.inan justificados a uma tal hipótese. Por conseguinte
■I* a ei'vi‘Ili ram justamente entendimento e perspiciência
m i l.ili i de que não se permitiram aquela hipótese e, mui-
t'i anirs, procuraram por toda parte, nas causas naturais,
»■ i i.u 11 )odiam encontrar entre elas a qualidade e o poder
mi |iicridos para entes originários2®. Mas depois que esse
perspicaz progredira tanto nas investigações, tratan­
do lili (soFicamente mesmo objetos morais, sobre os quais
mili<>:; povos jamais fizeram mais que tagarelar, eles cles-
■ulu iram pela primeira vez uma nova carência, ou seja,
h i i i . i carência prática, à qual não faltou fornecer-lhes de­

lia uiinaclamente o conceito de Ser primeiro, enquanto a


u.-.ut especulativa limitou-se a ser espectadora, no má-
liin >leve ainda o mérito de adornar um conceito que não
|-!S 1 1nascera em seu solo,, e de promovê-lo com uma série
i li ■confirmações extraídas da contemplação da natureza,
i|iic agora pela primeira vez se puseram em evidência, tal­
vez não de prom over o prestigio desse conceito Co qual
|a eslava estabelecido) mas, muito antes, apenas a osten-
i.ieao com uma pretensa perspiciência teórica da razão.

* * *

A partir dessas advertências o leitor da crítica da ra-


/.«) especulativa pura convencer-se-á totalmente de quão
iliamente necessária, quão vantajosa foi para a Teologia
r a Moral aquela penosa dedução das categorias. Pois uni-

223. Kant: zu Unvesen-, Hartenstein aventa: zum Urwesen (para o


'n'i |>11meíro).

225
hnmanuel Kant

camente por ela pode impedir-se de, pondo-as im cn


tendimento puro, tomá-las com Platão por inata.s r lim
dar sobre elas presunções exorbitantes com teorias du
suprassensível que não se sabe com o vão terminar, m.r.
tornando com isso a Teologia uma lanterna mágica de
imagens fantasiosas. Mas, se elas são tomadas por adqui
ridas, pode-se impedir que com Epicuro .se limite cada c
todo o em prego das mesmas, inclusive o seu uso de um
ponto de vista prático, meramente a objetos e funda meu
tos determinantes dos sentidos. Então, depois que a Cnií
ca provou naquela dedução, primeiro, que elas não s;io
de origem empírica mas têm sua sede e fonte a p rio ri no
entendimento puro; segundo, também que, com o elas sáu
referidas a objetos em geral, independentemente de sua
intuição, [255] elas em verdade realizam o conhecimcn
to teórico somente na aplicação a objetos empíricos, en
tretanto, aplicadas a um objeto dado pela razão prática
pura, servem também para o pensamento determinado do
suprassensível, todavia somente na medida em que este
for determinado meramente por aqueles predicados que
pertencem necessariamente ao propósito prático puro,
dado a priori , e à sua possibilidade2**. A limitação especu­
lativa da razão pura e a ampliação prática da mesma con-
duzem-na, pela primeira vez, àquela relação de igualdade
em que a razão em geral pode ser usada convenientemen­
te; e este exem plo prova, melhor do que qualquer outro,
que o caminho para a sabedoria, se deve ser assegurado e
não tornar-se intransitável e desorientante, tem que pas­
sar, em nós, homens, inevitavelmente pela ciência, do que,

224. Segundo a Ak, a frase ressente-se de uma falta de conclusão. Cf.


Anmerkungen der Bände }-V, p. 505.

226
Critica da razão prática

Imurm de que esta conduza àquele objetivo só se


|.i hIi - i i >nvencer-se depois da completude da mesma.

vni
D o assentimento proveniente
de uma carência da razão pura

I imã carência2-' da razão pura em seu uso especula-


ih n ct tnduz somente a hipóteses, mas a [256] .da razão
IH.nica pura conduz a postulados’» pois, no primeiro caso,
' levo-me do derivado na série das razões tão altamente
i|ii,mu> eu quero e preciso de uma ausência de (undarnen-
im ■ Ilngrundes>22i, não para dar realidade objetiva àque-
|t■derivado Cpor exemplo, à vinculaçào causai das coisas
i mudanças no mundo) mas somente para satisfazer com-
plrla mente a minha razão investigadora em relação ao

225. Distintamente de Notwendigkeit (necessidade em sentido tógi-


t H. formal, empírico etc.), Bedürfnis tem sentido de carência, siynifican
iti ■1 1«• modo geral uma necessidade prática subjetiva. D e acordo com isso
i* n.i linha dp que observou H. Paul, de que o termo até o século XIX sig­
nificou Dürftigkeit (indigência), F. G. Born traduziu o termo kantiano
|Mt,i o latim por Indigentia, L.W Beck para o inglês por need, e L. Ferry
r II. Wismann para o francês por besoin. Sobre as bases tanto objetiva
i|n;inio subjetiva da carência, em sentido prático, cf. principalmente,
.Hlunte, a nota sobre Wizenmann, KpV A 259 c ainda A 263.
226. De acordo com a 1?, e da 4? à &. edições. Na 2‘. edição, adota-
i I.i p d a Ak, constou Urgrundes (d e um fundamento originário) Cf. tam-
tii-m a nota de Kant a seguir, onde consta Urgrund, A versão da 2“ ed.
i Urgrundes') foi também proposta por Grillo. Segundo W. T. Krug (1832-
IK.W, ambos os termos Ungrvnd e Urgrund eram tomados na época
ci mio rnetafisicamente equivalentes. Mais recentemente Heidegger enten
ili-u Un-Grund n o sentido negativo de fundamento ilusório. Cf. TRAPPE,
T. verbete UngrundAJrgrund. In; RITTER, ). et alii. Historisches Wörter­
buch der Philosophie, 2001, v. 11, pp. 167-71,

227
Immanuel Kant

mesmo. Assim vejo na natureza diante de mim uni.i m


dem e conformidade a fins e, para assegurar-me t U• mi.i
efetividade, não preciso avançar até a especulação 111.1>i
somente, para a explicar, pressupor uma divindade c< >m< i
sua causa; pois, visto que a inferência de um efeito a imu
causa determinada, principalmente determinada dr um
m odo tão exato e tão completo, é sempre insegura e pie
cária ao tennos de pensar em Deus, uma tal pressupôsi<,,.n >
não pode ser levada adiante senão até o grau da optniai >
maximamente razoável para nós homens3*7, [257] Con
trariamente, é Lima carência da razão prática pura, funda
da sobre um dever, tornar algo (o sumo bem ) o objeto de
minha vontade para promovê-lo com todas as minhas lot
ças, em cujo caso porém tenho de pressupor a sua pos
sibiiidade, por conseguinte também as condições corri'«
pondentes, a saber, Deus, liberdade e imortalidade, porque
por minha razão especulativa não posso provar estas con
dições, se bem que tampouco refutá-las, Este dever funda
se sobre uma lei, sem dúvida totalmente independenie
dessas últimas pressuposições e apodicticamente certa por
ela mesma, a saber, a lei moral; e nessa medida não care­
ce cie nenhum ullerior apoio mediante uma opinião teó­
rica sobre a natureza interna das coisas, o fim secreto da

227. Mas nem aqui poderíamos tomar com o pretexto, uma carência
da razão, se não se encontrasse ante os olhos um conceito problemático
mas inevitável da razão, a aaber, o de um Ser absolutamente necessário.
Este conceito quer ser agora determinado e nisto consiste, se a cie se acres­
ce o impulso à ampliação, o Fundamento objetivo de uma carência d.a ra­
zão especulativa, a saber, de determinar mais proximamente o conceito
de um Ser necessário que deve servir a outros seres com o Fundamento
originário <3.írgrund> e, portanto, de caracterizar esse Ser de algum modo.
Sem tais problemas necessários precedentes, não há carências, pelo menos
da razão pura; as restantes são carências da inclinação. (K )

228
Crííica da razão prática

r■I« in cosi nica ou de um governante que a presida, para


Im iil.n nos d.o m odo mais perfeito a ações incondicio-
m111in Iili■ conformes a leis. Mas o efeito subjetivo dessa
I« I i mi seja, a disposição conforme a ela e por seu meio
nml ii-i ii necessária de promover o sumo bem praticamen-
I-1|ii risível pressupõe, contudo, pelo menos que este seja
jmv.ivel, do contrário seria praticamente impossível pro-
! um .ilingir o objeto de um conceito que no fundo fosse
i li i r sem objeto. Ora, os postulados referidos [258] con-
■ iiirm somente às condições físicas ou metafísicas, em
«iiii.i palavra, às condições de possibilidade do sumo bem
i |iii ■se encontram na natureza das coisas, mas não em vis-
l m Ic um propósito especulativo qualquer e, sim, de um
I li n necessário da vontade racional pura que aqui não es
i ulhc mas obedece a um inflexível mandamento da razão,
i|tic lem objetivamente seu fundamento na natureza das
II ii,sãs do modo como elas têm de ser universalmente ajui-
.idas pela sua razão, e não se funda porventura sobre a
Inclinação, que de m odo algum está autorizada a admitir
Imediatamente, para o fim do que desejamos a partir de
lundamentos meramente subjetivos,os meios correspon­
dentes com o possíveis ou sequer o objeto com o efetivo,
l .i >jío, essa é uma carência desde um ponto de vista abso­
lutamente necessário e justifica sua pressuposição, não
-.iinplesmente com o hipótese permitida mas corno pos-
i ulado desde um ponto de vista prático; e, concedendo-
se que a lei moral pura enquanto mandamento (e não
enquanto regra de prudência) obriga inflexivelmente a
qualquer um, o homem honesto pode perfeitamente di-
/,(T: eu quero que exista um Deus, que minha existência
neste mundo seja, também fora da conexão natural, ain­
da uma existência em um mundo inteligível puro, enfim,
que inclusive minha duração seja infinita, eu insisto nisso

229
Immanuel Kant

e não deixo que me privem dessa fé; pois este é o i m n n


caso em que meu interesse, pelo fato de não me sei' |>n
mitido relaxá-lo, inevitavelmente determina meu juízo snu
[259] prestar atenção a argumentações sutis, por mem r.
que eu estivesse em condições de responder-lhes ou ilr
opor-lhes outras mais plausíveis22“.

228. N o Deutsches Museum, de fevereiro de 1787, cncontra-xe uni


ensaio de um espírito muito fino e lúcido, du recentemente falecido \VI
zenmann* - cuja morte prematura é lastimável. - onde ele £ontesl;i a l.i
culdade <Befttgnis> de deduzir de uma carência a realidade objclivii di
seu objeto e elucida seu assunLo com o exem plo de um enamorado i|ih 1
lendo enlouquecido por uma ideia de beleza, que não passava de i i u i .i

quimera cie seu cérebro, queria concluir <daí> que um tal objeto efellv.i
mente existe em algum lugar. Dou-lhe perfeitamente razào em todos i»i
casos em que a carência funda-se sobre a inclinação, qne jamais podr
postular necessariamente a existência de seu objeto em favor daquele
que é afetado por eia e, muito menos, contém uma exigência válida pai.i
qualquer um, sendo por isso um fundamento meramente subjetivo de
desejos. Mas aqui se trata de uma carência da razão a partir de um limda
mento determinante objetivo da vontade, a saber, que brota da lei moral
a. qual obriga necessariamente cada ente racional, portanto autoriza tl
priori a pressupor na natureza as condições adequadas a ela e torna ;In
últimas inseparáveis do uso prãlico com pleto da razão. E um dever lor
nar eletivo o sum o bem de acordo com a nossa máxima força; por isso
ele também tem de ser possível; por conseguinte é também inevitável
pressupor para todo ente racional no mundo aquilo que é necessário a
sua possibilidade objetiva. A pressuposição é tão necessária quanto a lei
moral, em relação à qual ela também unicamente é válida. (K )
” O artigo de Thomas Wizenmann (1759-1787), publicado no Deutsches
Museum de fev. de 1787 (I, 1 16-156), intitulava-se: An den Herrn Professor
Kant von dem Verfasser der Resultate Jacobi’scber und Mendelssohn’scht-r
Philosophiet e consistia numa réplica ao artigo de Kant, Was heisst; sich im
Denken orientieren? (Que significa orientar-se no pensamento?), publica­
do na Berlinische Monatsschrift de out. de 1786. Wizenmann foi o único
crítico mencionado nominalmente por Kant na Crítica da razão prálicu.
Pois só as questões objetivas colocadas por seus adversários lhe interessa­
vam, e não o entrar em controvérsia com eles.

230
Crítica da razão pratica

* * *

l’ara evitar falsas interpretações no uso de um con-


i'lln ainda tão inusitado com o o de uma fé [260] racio­
nal juaiica pura, seja-me permitido acrescentar ainda uma
íiii iI. k . i o . - Deveria quase parecer que esta fé racional

■ |.i rl.i mesma anunciada aqui com o mandamento, a sa-


I» i, de admitir o sumo bem com o possível. Porém uma fé
«|!i■■ í.rja ordenada é um disparate. Mas basta lembrar-se
d i anirrior discussão sobre o que se requer com o admis-
ilwl no conceito de sumo bem e perceber-se-á que de
ii mdo algum é permitido ordenar a admissão dessa possi­
bilidade e que nenhuma disposição prática exige conce-
ilc Ia, mas que a razão especulativa tem de reconhecê-la
ii-111 ser consultada; pois certamente ninguém poderá que-
iii afirmar que o merecimento - concordante com a lei
iih uai - de um ente racional no mundo a ser feliz seja em
'il impossível em vinculaçâo com uma posse dessa feSici-
il.ule proporcional àquele merecimento. Ora, em. relação
m primeiro elemento do sumo bem, ou seja, o concer-
ni'nie à moralidade, a lei moral dá-nos simplesmente um
mandamento, e a possibilidade de pôr em dúvida esse
11 unponente335’ eqüivaleria a pôr em dúvida a própria lei
moral. Mas, no que concerne ao segundo elemento da­
quele objeto, ou seja, à felicidade exaustivamente com
lt mne com aquele merecimento, a possibilidade, em ver­
dade, de em geral concedê-la não carece absolutamente
de um mandamento, pois a própria razão teórica nada
inn contra ela: somente [261] o modo com o devem os
representar uma tal harmonia das leis naturais com as da

229- Kant: Bestandst.ücks. Grillo cortou o *‘s" final.

231
Immanuel Kant

liberdade comporta algo acerca do qual uma escolha i1


procedente, porque a razão teórica não decide nada a iv.v
peito com certeza apodíctica, e em relação a ela pode lia
ver um interesse moral que seja determinante.
Eu dissera anteriormente que, baseada num simpk\s
curso natural do mundo, a felicidade exatamente propor­
cionada ao valor moral não pode ser esperada no mun­
d o e230 deve ser considerada impossível e que, pois, s<>11
este aspecto, a possibilidade do sumo bem só pode sei
concedida sob a pressuposição de um Autor moral do
mundo. Abstive-me deliberadamente da limitação desse
juízo às condições subjetivas de nossa razão, para só en­
tão fazer uso dela quando o m odo de seu assentimento
devesse ser determinado mais de perto. De fato a citada
impossibilidade é meramente subjetiva, isto é, a nossa ra­
zão considera impossível a ela tornar concebível a si, se­
gundo um simples curso natural, uma interconexão tão
exatamente adequada e exaustivamente conforme-a-fins
entre duas ocorrências do mundo que se dão segundo
leis tão diversas, se bem que ela em verdade - com o em
tudo o que, além do mais, na natureza é conforme-a-fins
- tampouco possa provar segundo [262] leis naturais uni­
versais, isto é, mostrar suficientemente, a partir de funda­
mentos objetivos, a impossibilidade dessa interconexão.
Todavia entra agora em jogo um fundamento de de­
cisão de outra espécie para resolver a hesitação da razão
especulativa. O mandamento de promover o sumo bem
é fundado objetivamente (na razão prática), e a possibi­
lidade do mesmo em geral é igualmente fundada objeti­
vamente (na razão teórica, que nada tem contra isso).

230. Grillo propôs a substituição de und (e ) por ", m ühin" (vírgula


+ “por conseguinte”).

232
Crítica da razão prática

I iMii'i.mto o m odo como devemos representar essa pos-


ill tllltlade, se de acordo com leis naturais universais sem
iiili í.jhitj Autor da natureza que a presida, ou se somcine
i li ■,11 ( >rdo com sua pressuposição, não pode ser deck lido
i »I i|n ivumente pela razão. Aqui se apresenta agora uma
II Htdiçáo subjetiva da razão.- a única maneira teoricamen­
te |><issível a ela, e ao mesmo tem po unicamente compa-
in H com a moralidade (que está submetida a uma lei ob-
ji i iva da razão), de representar a exata concordância do
n ino da natureza com o reino da moral com o condição
11.1 |li iN.sibilidade do sumo bem. Ora, visto que a promo-
I ,i<i do mesmo, e, pois, a pressuposição de sua possibili­
dade, é objetivamente (mas somente em decorrência da
u/ao prática) necessária, que ao mesmo tempo, porém,
>,)!>(-' a nós a escolha da maneira com o queremos repre-
'.rniá-lo com o possível, mas na qual um livre interesse da
i ,i/.ao prática pura decide pela aceitação de um sábio Au-
loi do mundo: assim o princípio que no caso [263] de­
in mina o nosso juízo é, em verdade, subjetivamente en­
quanto carência mas também ao mesmo tempo enquanto
meio de promoção daquilo que é objetivamente (pratica­
mente) necessário, o fundamento de uma máxima do as-
íi ■nlimento de um ponto de vista moral, isto é, uma fé ra­
ciona) prática pura. Esta, portanto, não é ordenada, mas -
enquanto determinação livre de nosso juízo, compatível
i <>m o propósito moral (ordenado) e, além disso, coneor-
dante com a carência teórica da razão de admitir aquela
i-xistência e de pô-la com o fundamento do uso da razão
surgiu ela mesma da disposição moral; portanto ela po­
de às vezes vacilar mesmo entre pessoas bero-intencio-
nadas, mas jamais cair na descrença.

233
Immanuel Kant

IX
D a proporção, sabiamente adequada
ä destinação prática do homem,
de suas faculdades de conhecer

Se a natureza humana está destinada a aspirar prl< \


sumo bem, também a medida de suas faculdades de n>
nhecer, principalmente a relação delas entre si, tem que
ser admitida como conveniente a esse fim. Ora, a crítica da
razão especulativa pura prova a máxima insuficiência des
ta [264] para resolver, conformemente a seu fim, os mais
importantes problemas que lhe são apresentados, ainda
que ela não desconheça os acenos naturais da mesma ra­
zão, que não lhe podem passar despercebidos, bem como
os grandes passos que ela pode dar para aproximar-se des­
se grande objetivo que lhe é posto, sem, contudo, algu­
ma vez o atingir por si mesma com o auxílio do máximo
conhecimento da natureza. Portanto parece que a natu­
reza aqui nos proveu somente com o uma madrasta em re­
lação a uma faculdade necessitada para o nosso fim.
Ora, supondo-se que neste caso ela tivesse sido con­
descendente com nosso desejo e tivesse-nos outorgado
aquela capacidade de perspiciência ou esclarecimento que
gostaríamos de possuir, ou em cuja posse alguns até ima­
ginam encontrar-se efetivamente, qual seria, de acordo com
todas as aparências, a conseqüência disso? A não ser que
nossa natureza interna fosse ao mesmo tempo alterada,
as inclinações, que de fato sempre têm a primeira palavra,
iríam pretender primeiro a sua satisfação e, vinculadas à
reflexão racional, a sua máxima e mais duradoura satisfa­
ção possível, sob o nome de felicidade; a lei moral teria a
palavra depois, para manter aquelas em seus limites con-

234
Critica da razão prática

■i niriik-s e até para submetê-las em conjunto a um fim su


In in >i, que não tomasse em consideração nenhuma i n d i -
ii.u.a<». Mas, em vez do conflilo que agora a disposição
nu >i.tl lom de sustentar com as inclinações e no [2 65] qual,
•li |><n's de algumas derrotas, contudo pode conquistar-.se
ms poucos uma fortaleza moral de alma, Deus e a eter-
nld.ulc, com sua terrível majestade, encontrar-se-iam inces-
..mlemente ante os olhos (pois aquilo que podem os pro-
\ar completamente vale para nós, em relação à certeza,
i.11 no quanto no-lo asseguramos pela vista). A transgressão
■1.1 lei seria certamente evitada, o ordenado seria pratica­
do; inas com o a disposição desde a qual as ações devem
i h <»rrer não pode ser infundida p or nenhum mandamen-
i<i e com o o aguilhão da atividade está aqui lo go à mão e
r exterior, portanto, com o a razão nâo precisa impor-se
I ii ímeiro pelo trabalho para, mediante representação viva
da dignidade da lei, reunir forças com vistas à resistência
as inclinações, assim a maioria das ações conformes à lei
i icorreria por medo, poucas por esperança e nenhuma por
dever, porém não existiria um valor moral das ações, do
qual, aos olhos da suma sabedoria, depende unicamen­
te o valor da pessoa e mesmo o valor do mundo. Portanto
a conduta do homem, enquanto a sua natureza continuas­
se sendo com o atualmente é, seria convertida em um sim­
ples mecanismo, em que, com o no jogo de bonecos, tudo
gesticularia bem mas nas figuras nâo se encontraria, con­
tudo, vida alguma. Ora, visto que conosco as coisas pas­
sam-se bem diferentemente, visto que com todo o esforço
de nossa razão [266] temos uma muito obscura e ambí­
gua perspectiva do futuro, o Governante do mundo per-
inite-nos apenas presumir e não avistar ou provar clara­
mente sua existência e sua glória. Contrariamente a lei

235
.. Immanuel Kant

moral em nós, sem nos prometer algo com certeza ou


ameaçar-nos, exige-nos um respeito desinteressado, m:i.s
de resto, se esse respeito tomou-se operante e clominan
te, permite pela primeira vez e só por esse m eio pers
pectivas no reino do suprassensível mas ainda só com
uma pálida visão: desse m odo p od e haver verdadeira
disposição moral imediatamente consagrada à lei, c a
criatura racional pode tornar-se digna da participação tio
sumo bem, que é conveniente ao valor moral de sua
pessoa e não simplesmente às suas ações. Portanto aqui
lo que o estudo da natureza e do homem nos ensina .su­
ficientemente poderia também aqui estar certo: que a in-
sondável sabedoria, pela qual existimos, não é menos
digna de veneração naquilo que ela nos negou cio que
naquilo que ela nos concedeu.

236
[267] Segunda Parte
D o u trin a do m étodo
da razão prática p u ra
|2ó9] Pela Doutrina do m étodo da razão prática pu-
i ,inão se pode entender o m odo de proceder (tanto na
ii'llrxtio quanto na exposição) com proposições funda­
mentais práticas puras com vistas331 a um conhecimento
i'lm tifico das mesmas, o que, aliás, só no <campo> teó-
ilco chama-se propriamente de m étodo (pois o conheci­
mento popular precisa de uma maneira mas a ciência, de
m n método, isto é, cle um procedim ento segundo prin­
cípios da razão, pelo qual, unicamente, o múltiplo de um
runhecimento pode tornar-se um sistema). Muito antes
miender-se-á por esta doutrina do método o m odo como
■<r pode proporcionar às.leis da razão prática pura acesso
■m) ânimo humano, influência sobre as máximas do mes­
mo, isto é, cõm ose pode fazer a razão objetivamente prá-
llcn também subjetivamente prática. j:.
Ora, em verdade é evidente que aqueles fundamen-
11>s determinantes da vontade - a imediata representação
d.i lei e o objetivamente necessário cumprimento da mes­
ma com o dever —, que única e propriamente tornam mo-

231. Kant: in Absicht auf. Segundo H. Paul, essa expressão foi to-
in.iihi no século XVIII, e ainda em Thomas Mann, em sentido eqiuvalen-
(r ,10 uLual in Hinsicht auf. com vistas a, do ponto de vista de.

239
Immanuel Kant

rais as máximas e dão-lhe um valor moral, têm qu r .sei


representados com o os autênticos motivos das ;i^*<«■*«,
porque, do contrário, sem dúvida se produziria [2701 lc
galidade das ações mas não moralidade das disposições
Entretanto não tem dç parecer tão claro., muito antos, ,i
primeira vista tem de parecer totalmente improvável .1
qualquer um que mesmo subjetivamente aquela apresçn
tação da virtude pura possa ter mais poder sobre o Sm
m o humano e fornecer um m otivo de longe mais.. forlr
para efetuar mesmo aquela legalidade, das ações e pr< i
duzir resoluções mais vigorosas que façam preferir a lei,
por respeito puro a ela, a’ qualquer outra .consideração,
mais do que todas as seduções que alguma vez possam
exercer-se*12 a partir de miragens de deleites e de tudo
aquilo que se queira computar com o felicidade, ou tam­
bém mais do que todas as ameaças de dor e de males,
Não obstante as coisas de fato, se passam assim e, se a na­
tureza humana não fosse constituída dessa maneira, tam-
pouco^uni m odo de representação da lei produziria al­
guma vez, por rodeios e por meios que; recomendassem,
a moralidade da disposição. Tudo não passaria de puru
hipocrisia, a [çuseria odiada ou até desprezada,, ainda-que
fosse seguida em proveito próprio. A letra da lei^legali-
ctade) seria encontrãvei em nossas ações, mas o .espíri­
to Has mesmas-j^jde m odo algum em nossas disposições

232. A Ak e Vorländer admitem a falta aí de um outro verbo puni


“mais d o que... felicidade". Vorländer propõe entspringen (.surgir): “pos­
sam .surgir a partir de miragens”. Parece, no entanto, que o verbo wirken
(atuar, exercer-se) possa valer não apenas para a segunda parte da dis­
junção "ou também exercer-se mais... males” mas para o todo dela.
233. Kant: derselben, referindo-se neste caso a “ações", corrigido
por Noite para desselben, para referi-lo a “lei" ( “o espírito da mesma"),
adotado pela Ak.

240
Crítica da razão prática

hlm nalidade),. E uma vez que, com todo o nosso esforço,


ii.iM podemos em nosso juízo livrar-nos inteiramente da
i.i/.m, inevitavelmente teríamos de aparecer a nossos pró­
prios olhos [271] com o homens indignos e abjetos, por
m,un que ante o foro interior tentássemos compensar essa
li.... ilhação mediante uma fruição dos deleites que uma
Iri natural ou divina admitida por nós tivesse vinculado,
tli ■acordo com o nosso delírio, com o mecanismo de sua
I h»I u'ia, que se guiasse simplesmente pelo que a gente faz
',1111 preocupar-se com os motivos <Bewegungsgründe>
pelos quais o faz.
Certamente não se pode negar que, para colocar pela
piimeira vez nos trilhos do moralmente-bom um ânimo
inculto ou mesmo degradado, precisa-se de algumas ins-
u iições preparatórias para atraí-lo por seu próprio pro­
veito ou atemorizá-lo pelo dano; só que tâo logo este
mecanismo, estas andareiras tenham produzido algum efei-
ti >, o motivo <Bewegungsgrund> moral puro tem que ser
levado integralmente à alma, motivo que, não só pelo fa­
li i i.le ser o único que funda um caráter (uma conseqüen­
te maneira de pensar prática segundo máximas imutáveis)
mas também porque, ensinando ao homem a sentir sua
própria dignidade, ele confere ao ânimo uma. força, não
esperada por ele mesmo de libertar-se de todo o apego
sensível, na medida em que este quer tornar-se dominan­
te, e de encontrar para os sacrifícios que ele representa
uma rica compensação na independência de sua nature­
za inteligível e na grandeza de alma, à qual [272] ele se
vê destinado. Portanto queremos provar, por observações
que cada um pode fazer, que esta propriedade de nosso
animo, esta receptividade de um interesse moral puro e,
por conseguinte, a força motriz da representação pura da

241
Immanuel K a nt.

virtude, se for transposta convenientemente ao com^iu


humano, é o motivo mais poderoso e, no que depcmlr
da duração e exatidão rio"cumprimento de máximas nu i
raís, o único motivo para o bem. Neste caso, contudo, Icm
que ser lembrado ao mesmo tempo que, se essas ob.sn
vações provam somente a efetividade de um tal scnli
mento e não um melhoramento moral levado a cabo ali.i
vés dele, isto não prejudica - com o se fosse uma vnzi.i
quimera - o único m étodo de, mediante uma simples iv
presentação pura do dever, tomar subjetivamente práll
cas as leis objetivamente práticas da razão pura. Pois,
visto que esse m étodo nunca foi posto em prática, Iam
pouco a experiência pode apresentar indícios de seu iv
sultado mas apenas se podem exigir provas da recepliv!
dade de tais motivos, que agora quero expor brevemcn
te, para então esboçar em poucas palavras o m étodo tia
fundação e da cultura de autênticas disposições morais.
Se se presta atenção ao curso das conversações em
sociedades heterogêneas, que não se constituem [273] sim­
plesmente de sábios e de sutis raciocinadores mas tam­
bém de homens de negócio ou de mulheres, observa-se
que,, além do narrar e do gracejar, ainda um outro entre­
tenimento encontra aí lugar, a saber, o arrazoar: porque,
se o primeiro deve comportar novidade e interesse, em
pouco tempo se esgota, enquanto o segundo torna-se fa­
cilmente insosso. Mas entre todo o arrazoar não se en­
contra um que suscite mais a adesão das pessoas - que,
do contrário, logo se aborrecem com toda argumentação
sutil - e introduza uma certa vivacidade na sociedade, do
que o arrazoar sobre o valor moral desta ou daquela ação,
que deve constituir ojcarátende qualquer-pessoa. Aque­
les aos quais, do contrário, toda a sutileza e profundidade

242
Crítica da razão prática

'i< ilnc questões teóricas é árida e aborrecida, logo tomam


[ 1111 e na conversação quando se trata de estabelecer o
i iinicudo moral de uma boa ou má ação narrada e .são
i n i esalos, tão profundos, tão sutis em descobrir tudo o
que pudesse diminuir ou sequer tornar suspeita a pure-
,i i Ir intenção e, por conseguinte, o grau de virtude na
lue.sma, como, aliás, não se espera deles com respeito a
nenhum objeto da especulação. Nesses ajuizainentos po-
i li ■se frequentemente ver transparecer o caráter das pró-
I ii i.is pessoas que juigam sobre outras, dentre as quais al­
gumas, enquanto exercem a sua função judicativa princi­
palmente sobre pessoas mortas, parecem inclinadas [274]
preíerentemente a defender o bem, que é narrado acer-
■:l desta ou daquela ação das mesmas, contra todas as
.leusações ofensivas de impureza e, enfim, a defender o
ic dal vaior moral da pessoa contra a acusação de dissimu-
Lição e de maldade oculta; outras pessoas, ao contrário,
pensam mais em denúncias e incriminações que contes-
lem esse vaior. Apesar disso nem sempre se pode atribuir
,is últimas a intenção de quererem, com raciocínios sutis,
eliminar completamente a virtude de todos os exemplos
i los homens para torná-la com isso uma palavra vazia,
mas frequentemente se trata só de um bem-intencionado
rigor na determinação do verdadeiro conteúdo moral se­
cundo uma lei incomplacente, na comparação com a qual
e não comparada com exemplos reduz-se muito a pre-
sLinção no <campo> moral, e a humildade, por assim di­
zer, não é simplesmente ensinada mas sentida num pro­
fundo exame de consciência de cada um. Todavia se pode
frequentemente observar entre os defensores da pureza
de intenção nos exemplos dados que também lá onde há
Lima suposição de probidade eles gostariam de limpar a

243
Immanuel Kanl

mínima mancha, com base no motivo <Bewegungsgrmul


de que, se a veracidade de todos os exemplos fosse <|in".
tionada e a pureza de toda a virtude humana negada, cnI i
não seja finalmente considerada uma simples quimu.i i
assim todo o empenho até ela seja menosprezado anim
vaidosa afetação e enganosa presunção.
[275] Nâo sei por que os educadores da juventude iu <1
fizeram já há tempo uso dessa propensão da razão de pm
ceder com prazer mesmo ao exame mais sutil de ques|< k\n
práticas levantadas e por que, depois de terem tomat In
por base um catecismo puramente moral, nâo esquadri
nharam as biografias de épocas antigas e modernas com
o propósito de terem à mão exemplos para os deveivs
apresentados, nos quais, principalmente pela comparação
de ações semelhantes em circunstâncias diferentes, eles
puseram em atividade o ajuizamento de seus educandos
para observar o menor ou maior conteúdo moral dos mes­
mos. Com isso eles mesmos verão a juventude mais pre ­
coce, que, aliás, é ainda imatura para toda a especulação,
tornar-se em pouco tempo muito perspicaz e não menos
interessada, uma vez que ela sente o progresso de sua fa­
culdade de julgar. Mas, o que é mais importante, podem
com certeza esperar que a prática frequente em conhecer
a boa conduta em toda a sua pureza e aprová-la e, con­
trariamente, em observar com lástima ou desprezo mesmo
o menor desvio dela, embora até aí seja exercido somente
umaí jogo da faculdade de julgar no qual as crianças pos­
sam competir entre si, contudo deixa, de um lado, uma im­
pressão duradoura de apreço e, de outro, de repulsa, que

234. Vogel, no exemplar de Erlangen: als ein. A correção foi também


introduzida por Hartenstein, a quem Vorländer e Natorp (A k) atribuíram
sua autoria.

244
Crítica du razão prática

|ir|i i simples hábito de considerar frequentemente |276| as


,K,i ><\s com o dignas de aprovação ou repreensão consli-
luniam na vida futura uma base segura de probidade. I )e-
-.< ■ji >somente poupá-lõs de exemplos das ações ditas n o -
Ixvs (ultrameritórias), que tanto desperdiçam nossas pu­
blicações sentimentais, e reportar tudo simplesmente ao
dever e valor que um homem pode e tem de dar a seus
próprios olhos pela consciência de não o ter transgredi­
do, porque o que acaba em desejos vazios e nostalgia de
uma perfeição inatingível produz meros heróis de roman­
ces, que, enquanto se prevalecem de seu sentimento de
C.nmdeza excessiva, dispensam-se da observância da obri­
gação comum e corrente, que então lhes parece apenas
ii isígnificantemente pequena2” .
[277] Se, porém, se perguntar que é entao propria­
mente a moralidade pura, na qual se tem de testar com o
metal de ensaio o conteúdo moral de cada ação, tenho
de confessar que somente filósofos podem tornar duvi­
dosa a decisão sobre essa questão- pois na razão huma­
na comum ela está há tempo decidida, em verdade não
por fórmulas gerais abstratas mas pelo uso costumeiro,^

235. É totalmente recomendável louvar ações que se distinguem


pela humanidade e disposição grandes, desinteressadas e compassivas.
iVIas aqui nào se deve prestar atenção tanto à elevação de alma, que é
muito fugaz e passageira, quanto à submissão tio coração ao dever, do
que se pode esperar Lima impressão mais duradoura, porque ela envolve
princípios <Grundsâtze> (aquela porém apenas exaltações). Basta refle-
lir um pouco e encontrar-se-á sempre uma culpa em que se incorreu de
.iljjuma maneira em relação ao gênero humano (ainda que fosse apenas
.iquela de que, pela desigualdade dos homens na constituição civil,
lruem-se vantagens, devido às quais outros têm de suportar privações),
pura não reprimir o pensamento do dever pela imaginação de mérito,
inspirada no amor-próprio. (K )

245
Immanuel Kant

quase com o a diferença entre a mão direita e j . m ão rs


querda. Portanto queremos primeiro mostrar a cararlr
rística provadora da virtude pura em um exem plo e, en
quanto nos representamos que ele tenha sido porvenlii
ra apresentado a um menino de dez anos para ajui/.i
mento, ver se ele também por si, sem ser instruído pelo
mestre, teria que julgar necessariamente do mesmo modi >.
Conte-se a história de um homem honesto que se q n c i
instar a aderir aos caluniadores de uma pessoa inocenie
e, além disso, carente de posses (com o talvez Ana Bolena,
acusada por Henrique VIII, da Inglaterra). Oferecem-,st'
vantagens a ele, isto é, grandes presentes e um alto poslo
e ele as recusa. Isto causará simples aplauso e aprova çiu >
na alma do ouvinte, pois se trata de proveito. Começa-se
então com ameaça de perdas. Entre esses caluniadores
[278] encontram-se seus melhores amigos, que agora lhe
retiram sua amizade, parentes próximos que ameaçam - a
ele (que não tem posse) - deserdá-lo e poderosos que em
cada lugar e circunstância podem persegui-lo e meiin
drá-lo, um soberano que o ameaça com a perda da liber­
dade e da própria vida. Mas, para que a medida da ad­
versidade seja completa e para deixá-lo sentir também u
dor que somente o coração moralmente bom pode sen­
tir de maneira verdadeiramente íntima, represente-se a
sua família ameaçada de extrema necessidade e penúria,
implorando-lhe transigência; represente-se a ele mesmo,
embora reto, contudo dotado de órgão de sentidos não
empedernidos e insensíveis à compaixão e à necessida­
de própria, em um momento em que ele deseja jamais ter
vivido o dia que o expôs a uma dor tão inexprimível, to­
davia permanecendo fiel, sem vacilar e duvidar, a seu pro­
pósito de honestidade: então o meu jovem ouvinte ele-

246
Crítica da razão prática

*,n .';r á, gradualmente, de uma simples aprovação ;i ad


n111.k;;kj e desta à estupefação, finalmente, à máxima ve
iin.u ao e a um vivo desejo de poder ser ele mesmo um
l.il Iminem (embora certamente nâo na sua circunstância);
r, 110 entanto, a virtude é aqui a tal ponto valiosa somen-
h- porque ela custa tanto, e não porque ela traz alguma
i ( »iiipensação. A total admiração e mesmo o esforço para
,i v.rmelhar-se a esse caráter dependem aqui [279] total-
ii u'nie da pureza do princípio <Grundsatzes> moral, a
i |H;i I pocle ser representada com o saltando diretamente
.i< i.s olhos somente porque dos motivos da ação é afasta-
iId mdo o que os homens possam computar somente
m m o felicidade. Portanto a moralidade tem que ter tan-
l(i mais força sobre o coração humano quanto mais pura
Ha lor apresentada. D o que, pois, segue-se que, se a lei
moral e a imagem da santidade e virtude deverem exer-
iv r por toda parte alguma influência sobre a nossa alma,
i moralidade2* somente poderá exercê-la na medida em
i |iie ela for posta pura, sem mescla de intuitos do próprio
I K-m-estar, com o motivo no coração, porque é no sofri­
mento que ela se mostra do modo mais eminente. Aqui­
lo, porém, cuja remoção fortalece o efeito de uma força
motriz tem que ter sido um obstáculo. Consequentemen-
le toda a mistura de motivos tomados da felicidade pró­
pria é um obstáculo à consecução da influência da lei
moral sobre o coração humano. - Afirmo, além disso, que,
se mesmo naquela ação admirada, o motivo <Bewegungs-
!>nmd> desde o qual ela ocorreu era a alta consideração
do seu dever, então justamente este respeito pela lei, não
porventura uma pretensão à opinião íntima de grandeza

236. Kant: sie (ela), Vorländer aventa es, então referido à lei moral.

247
Immanuel Kant

e de nobre e meritória maneira de pensar, tem diin.i


mente sobre o ânimo do espectador a máxima força, c< m
seqüentemente o dever e não o mérito tem que ter sol mi 1
o ânimo a influência não somente mais determinada mai»,
se ele for representado [280] à luz correta de sua invin.
labilidade, também a influência mais penetrante.
Em nossa época — quando se espera alcançar sobn1
o ânimo, com sentimentos langorosos e compassivos <m
ambiciosos e enfatuados, com presunções que tornam o
coração antes débil que forte, mais do que se espera al
cançar sobre ele pela representação sóbria e séria do itr
ver, que é mais adequada à imperfeição humana e ao
progresso no bem - a alusão a este método é mais que
necessária. Propor a crianças a título de m odelo açòrs
com o nobres, magnânimas e meritórias, na crença de poi
uma infusão de entusiasmo conquistá-las para as m es­
mas, é completamente contraproducente <ziveckwídrif>>.
Pois, visto que elas se encontram ainda muito distantes
da observância do dever mais comum e inclusive do cor­
reto ajuizamento do mesmo, isto eqüivale a dizer que por
vezes se faz237 delas seres fantásticos. Mas também entre
uma parte mais instruída e experiente dos homens esse
pretenso motivo tem sobre o coração o efeito, que por
esse meio se quis realizar238, se não prejudicial pelo menos
de m odo algum autenticamente moral.
Todos os sentimentos, principalmente os que devem
causar um esforço tão incomum, têm que produzir o seu
efeito no instante de sua veemência e antes que se acal­
mem, do contrário não produzem efeito algum; depois

237. Kant: zu machen. Grillo propôs a eliminação do zu.


238. Kant: zuwegebringen. Grillo propôs>: heruorbringen.

248
Crítica da razão prãtica

illv.n 1281.] o coração retorna espontaneamente ao seu


mu ivimcnto vital natural e moderado e, por conseguinte,
in .ii na languidez que lhe era antes peculiar, porque na
\eu lade lhe era oferecido algo que o estimulava mas na-
i l.i i |i.ie o fortalecesse. Princípios <Grundsãtze> têm que
H't estabelecidos sobre a base de conceitos;, todos os ou-
iii i.s fundamentos podem realizar somente veleidades, que
li.in podem proporcionar à pessoa nenhum valor moral,
in'in sequer uma confiança em si mesma, sem a qual a
i ( msciência de sua disposição moral e de um tal caráter,
n .sumo bem no homem, não pode de m odo aLgum rea­
lizar-se. Ora, esses conceitos, se devem tornar-se subjeti­
vamente práticos, não têm que ficar parados diante das
Íris objetivas da moralidade para admirá-las e para apre-
i ia-!as em relação à humanidade, mas têm que considerar
,i .sua .-representação em relação ao homem, e çua indivi­
dualidade; porquanto aquela lei aparece numa forma em
verdade sumamente digna de respeito mas não tão apra­
zível, como se ela pertencesse ao elemento com o qual o
homem está naturalmente acostumado e, sim, do modo
rom o ela o coage a abandonar, não sem abnegação, esse
elemento e envolver-se em um elemento mais elevado,
no qual ele com incessante receio de recaída só com es-
lorço pode manter-se. Em uma palavra, a lei moral recla-
11ia cumprimento por dever e não por uma predileção que
11:10 se pode e não se.dçye absolutamente pressupor.

[282] Vejamos agora, no exemplo, se na representação


de uma ação com o nobre e magnânima encontra-se mais
I<>rça motriz subjetiva de um motivo do que se este é re­
presentado simplesmente como dever em relação à grave
lei moral. A ação pela qual alguém com o máximo risco de
vida procura salvar pessoas do naufrágio, enfim perdendo

249
Immanuel Kant

eie mesmo a sua vida nela, de um lado, em verdade, e o m


siderada um dever mas de outro, e na maior parle d.tt
vezes, é também considerada ação meritória, conludn n
nosso grande apreço pela mesma é enfraquecido cxlic
mamente pelo conceito de dever para consigo mesmo, que
aqui parece sofrer alguma espécie de dano. Mais decisivi ■
é o sacrifício magnânimo de sua vida pela preservaçai >
da pátria, e, contudo, permanece algum escrúpulo sobir
se é um dever tão perfeito consagrar-se a esse propúsiin
por si mesmo e sem ser mandado, e a ação não tem em
si a plena força de um m odelo e de um impulso à imiia
ção. Mas, se se trata de um dever impreterível, cuja trans
gressâo viola a lei moral em si e sem consideração do
bem-estar humano e, por assim dizer, pisa com os pés sim
santidade (semelhantes deveres costumam chamar-se de
veres para com Deus, porque imaginamos nele o ideal da
santidade em substância), neste caso dedicamos a mais
perfeita estima ao seu cumprimento, com o sacrifício de
tudo aquilo que alguma vez possa ter um valor para a
mais íntima [283] de todas as suas inclinações, e conside­
ramos nossa alma fortalecida e elevada por um tal exem ­
plo, se por ele podemos convencer-nos de que a nature­
za humana é capaz de uma tão grande elevação acima de
tudo o que a natureza alguma vez possa fornecer em ter­
mos de motivos para o seu oposto: Juvenal apresenta uni
tal exem plo numa gradação que permite ao leitor sentir
vivamente a força do motivo que reside na lei pura do de­
ver enquanto dever:

Esto bonus miles, tutor bonus, arbiter idetn


Integer; ambiguae si quando citabere testis
Incertaeque rei, Pbalaris licet imperet, ul sis

250
- Crítica da razão prática

l'itlsus, et admoto dielet periuria tauro,


Summum crede nefas animam praeferre piulori
lilpropter vitam vivendiperdere causasm.

St- pudermos introduzir em-nossa ação algo.de.lison-


|rin> quanto ao que é...meritório, então o motivo, já con-
ii in alguma mistura de amor-próprio, portanto tem algum
.ipoio do lado da sensibilidade. Mas submeter aid o uni-
■,i mente à santidade do dever e tornar-se consciente de
i |i u* se pode fazê-lo porque a nossa própria razão reconhe-
11 ■ isto com o seu mandamento e diz que.se deve fazê-lo,
m.unifica elevar-se totalmente sobre o mundo sensorial e
<■, na mesma consciência da lei também com o motivo,
inseparável de uma faculdade que domina a [284] sensi­
bilidade, ainda que nem sempre vinculada com um efei-
ln, o qual, contudo, também pela mais frequente ocupa-
<.‘;io com esse motivo e as tentativas inicialmente pequenas
do seu uso, dá esperança de realização daquela faculda­
de, para produzir em nós aos poucos o máximo interes­
se, todavia um interesse moral puro2®, por sua realização.

239- JUVENAL. Sátiras VIII, versos 79-84: “Sê um bom soldado, um


Ikiiii tutor e também um juiz imparcial; se alguma vez fores solicitado
0 >mo testemunha em um assunto duvidoso e incerto, então mesmo Fálaris
pode ordenar-te um perjúrio, em presença do touro incandescente; <to-
1l:ivia> considera um sumo crime preferir a vida à honra e por causa da
vida perder a razào de viver.” - Fálaris foi, em torno de 560 a .C , tirano
de Agrigento na Sicília. O artista Perillus teve que confeccionar-lhe um
lourtí de bronze para nele serem mortos malfeitores mediante fo g o aceso
debaixo dele (cf. Vorländer, em nota à edição da KpV, 1993, pp. 181 s.).
240. Natorp aventou a substituição d o adjetivo reine (fero. de
puro”), constante no texto, pelo correspondente advérbio rein (pura­
mente), ao que corresponderia então " a máximo interesse, mas pura­
mente moral” . Vorländer, porém, advertiu a propósito que já na KpV A
272 encontra-se a mesma expressão emes reinen moralischen Interesses
(d e um interesse moral puro).

251
_ litniiíii/iic! Kftu!

Pwilanto o método toma o seguinte curso. Primeiro .'n


li-.ila somente de tomar o ajuizainento segundo leisjini
rais Lim a ocupação natural; que acompanhe todas as no-,
sas próprias ações livres bem como a observação cias a ç o o
livres cie outros, e com o torná-la um hábito e .aguçá-lu, u i
meclida em que antes se pergunta se a ação é objetiva
mente conforme à lei moral, e à. qual, em cujo caso, com
efeito, se distingue a atenção àquela lei, que fornece mc
ramente um fundamento da obrigatoriedade da lei que r
de fato obrigante (leges obligandi a legibus obligantibns)'"
(com o, por exemplo, a lei daquilo que a carência dos Im
mens exige de mim, em oposição à que o direito dos mes
mós me exige, onde a última prescreve deveres essenciais
mas a primeira só deveres acidentais), e assim sc ensina
a distinguir deveres diversos que se reúnem em unia ação.
O outro ponto ao qual a atenção tem de dirigir-se é a ques­
tão se a ação tem de ocorrer também (subjetivamente)
[285] em vista da lei moral e se, portanto, ela não tem
unicamente a retidão moral com o ato mas também, valor
moral com o disposição concorclante com a sua máxima.
Ora, não há dúvida alguma de que esse exercício, bem
com o a consciência de uma - dele proveniente - cultura
de nossa razão que julga meramente sobre o prático,
tem de produzir aos poucos, um certo interesse, inclusive
pela lei. da mesma, por conseguinte por ações moralmen­
te boas. Pois nós nos afeiçoamos finalmente àquilo cuja
contemplação deixa-nos sentir o uso ampliado de nossas
faculdades de conhecimento, o qual é prom ovido princi­
palmente por aquilo em que encontramos retidão moral;
porque a razão, com a sua faculdade de determinar a

2.4 J. Leis de obrigação, disLintas de leis que obrigam.

252
Critica da razão prática

n h 1/1 segundo princípios o que deve acontecer, só pode


.1 nur se liem em uma tal ordem de coisas. Um observa-
.ti >i <la natureza, contudo, afeiçoa-se finalmente a objetos
i|ui- t Ir início chocam seus sentidos, se descobre neles a
Kunde conformidade a fins de sua organização e deste
m m mIo nutre a sua razão na contemplação deles; e Leibniz
ic.iiuiiu diligentemenLe à sua folha um inseto que ele ob-
a vara cuidadosamente ao microscópio, porque ele se
i ( msiderou instruído pela sua contemplação e com o que
ilulia fruído um benefício dele.
Mas esta ocupação da faculdade de julgar, que nos
deixa sentir nossas próprias faculdades de conhecer, não
).ÍH6| é ainda o interesse pelas ações e pela sua moralida-
i k■mesma. Ela faz simplesmente com que a gente de bom
f.rado se entretenha com tal ajuizamento e dá à virtude
mi à maneira de pensar segundo leis morais uma forma
de beleza que é admirada mas nem por isso procurada.
I lítndatureí algei)2i2\ com o <aliás> tudo aquilo cuja con-
leinplação produz subjetivamente uma consciência da har­
monia de nossas faculdades de representação e na qual
sentimos fortalecida toda a nossa faculdade de conheci­
mento (entendimento e faculdade da imaginação), pro­
duz uma complacência que também pode comunicar-se
a outros, em cujo caso, todavia, a existência do objeto per­
manece-nos indiferente enquanto essa complacência é
t cmsiderada somente o ensejo para percebermos a supe­
rior disposição dos talentos em nós, acima da animalida­
de. Pois bem, o segundo exercício inicia o seu ofício,, a
saber, tornar perceptível çm exemplos, na apresentagão

242. Probitas laudaíur et alget (a honestidade é louvada e sente


irio). JUVENAL, Sátiras I, 74.

253
fw t iit n it t c ! K a u /

viva d a tlisposicio m<>nil, a p.ure/a cia vontade, inii i.ilim <■


rc a p en as cduki .sua perle it/a«> negaliva, na m edida ein >|u>
n i! i>1: i ; n, . u i i i niii > ( k'\ er nao entra c o n u i fiaiclamenh >■!■
le r m m a u ie .ilist ilulam cnle n en h u m m o t iv o das i i ul mi
i nes. 1>c.Mc m o d o o a p re n d iz c, c o n tu d o , m a n lido .ih n
hi ,i o » l s c i e n c i a d e smi liberda de, lí. ainda cjlk- ev.a
iujni tu p m \ o q u e nnui se n s a ç ã o inicia! d e clor. Ux l . nu
p c [o lato d e q u e priva a q u c le a p re n d iz da c o c r ç a o -in
d e carências verdadeiras, au m e s m o t e m p o anuncia l!i<
unia libertação d o v a ria d o [2 8 7 | d c s c o n t c n t a m e n u > em
q u e iodas e.ssas carênc ias o en red a m e o â n im o e lorn.nln
r c c e p liv o à sensação de c o n ten ta m en to a partir d e onh i
lontes, Mas o c o ra ç ã o c lib e r a d o e a liv ia d o d e um fanl>>
q u e s e m p r e o pressiona .Hcvretainenlc. se Ibr d e s c o L i
ra e m d e c is õ e s i n o n i s puras. das quais ,sào aprcsentaJ'
e x em p lo s. uma faculdade interna a o iionienl. q u e eie n.m
cunliecui p e r fe ita m e n te antes. a liberda de in te rio r d e de
sem haraçar-se d e lal m o d o da impeUiosa lmperlinen« i.i
das inclinações, q u e abso lu ta m ente nenhuma. niesim > i
mais benquista, len ha inlluOncia sobre Lima resolucao p.n.i
a cjtial d e v e m o s servir-nos aiiora da nossa ra/iltj. lim um
caso. e m q u e so u o único a sa ber qjiic ten h o a injii.siu .i
d e men lado e em q u e — náo obstante- a li\ re confissão Ja
m esm a e c> o fe r e c im e n t o d e reparação en co n tre m uma
iáo grande oposição- na \aidade. no interesse p r i v i d o .
m e s m o na. afora i.sso. nào ilc^ítniia aversã o contra :iqnc
!e cU|ó .direito é p o r man re.sirintíido —. posso. contudi i.
nao nie importar c o m io d a * essas-dificuldades: em Lal ca.-.n
certam ente está contid a uma consciência d e in d ep en d eu
cia das in clinações e da fortuna e a co n s ciên cia da po-,
x ibilida de d e bastar-se a .si m esm o , q u e p o r Io d a parle,
u n ib e m sob o utro p o n t o cie vista, m e é .salutar, E a^m.i
( n t ic u !,/íí i ' m f t t i [ m i i i i i i

, i .1 > d c v e p p e lo v a lo r p o s itiv o q tie o c u m p r im e n to da

m i. m ,i nos d e ix a sen tir, e n c o n t r a um acesso m a is l ãc i l

I » >• • r e s p e i t o p o r n ó s m e s m o s n a c o n s c iê n c ia de nossa

liU ul , ul e. S o b r e e s t e r e s p e i t o , [2 8 8 J s e e i e 0 h e m e s l a b e -

!■ ' i ' l ' i , s c o h o m e m n a d a l e m e m a is fo r t e m e n t e q u e : n o

n u r in te rn o d e c o n s c iê n c ia , eo n s id e n u -.s e d e s p r e z ív e l e

i' pt. i \ a v e l a s e u s p r o p i ' i o s o l h o s . p o d e o r a e n x e r t a r - s c t o -

‘ l.i d i s p o s i ç ã o m o r a l I x x t : p o r q u e e s t e é o m e lh o r, n ies-
m > ' li u n i c o g u a r d a p a r a p r e s e r v a r o a n i m o d a i n t r u s ã o d e

im p u ls o s ig n ó b e is e p e rn ic io s o s .
t .uni isso eu qu is referir-m e s o m e n te às m áxim as mais
■ ' i .ms da d ou trin a d o m é to d o acerca d e um a cultura e
■ -,iacu io m orais. Já q u e a m u ltip lic id a d e d o s cleveres re-
•juet' ainda d e te rm in a ç õ e s p articu lares pura cada e s p é c ie
•W s e esta constituiria uma vasta tarefa, d escu lp a r-m e-ào
• num a ohra c o m o esta, q u e é ap enas um e x e rc íc io p re ­
liminar, lim ito-m e a esses traços fundam entais.

CO NCLU SÃO

O u as coisas ench em o ítnim o cie adm iração e v e n e -


i.tçao sem pre n ova e crescente, qu an to mais fre q ü e n te e
1insistentem ente a reflexão ocupa-.se Com elas: o ccu cs
tivhido acima de mim c a lei moral em mim. N à o m e cabe
l 'tocLirar e sim plesm ente presumir ambas com o envoltas
■ iii obscuridade, o li no iransrendente além de meu hori-
/<mie; vejo-as 12891 ante mim e eonecto-as imedialamen-
u com a consciência cie minha existência. A primeira
i om eça no lus^ar que ocu po no mundo sensorial exter-
im c estende a conexão, em que nie encontro, ao imen-
■,;imonle grancte com mundos sobre mundos e sistemas
Immanuel Kant

de sistemas e, além disso, ainda a tempos ilimiladn.s di'


seu movimento periódico, seu início e duração, A
gunda começa em meu si-mesmo <Selbst> invisível, nu
minha personalidade, e expõe-me em um mundo que tem
verdadeira infinitude, mas que é acessível somente a< >rn
tendimento e com o qual (mas deste m odo também .m
mesmo tempo com todos aqueles mundos visíveis) rn 11
nheço-me, não com o lá, em ligação meramente conlin
gente mas em conexão universal e necessária. O primcim
espetáculo de uma inumerável quantidade de n u m d o íi
com o que aniquila minha importância enquanto criutm.i
animal, que tem de devolver novamente ao planeta (um
simples ponto no universo) a matéria da qual ela se ím
mara, depois que fora por um curto espaço de tempo ( i i ; h *
se sabe com o) dotada de força vital. O segundo esprla
culo, ao contrário, eleva infinitamente meu valor enquati
to inteligência, mediante minha personalidade, na qual ,i
lei moral revela-me uma vida independente da anima li
dade e mesmo de todo o mundo sensorial, pelo menos <>
quanto se deixa depreender da determinação conforme
a fins de minha existência por essa lei, que não está cír
cunscrita a condições e limites [290] dessa vida mas pc
netra o infinito.
N o entanto admiração e respeito podem, em veixla
de, estimular a investigação mas não. substituir a sua fui
ta, Que é que se precisa, pois, fazer para pôr em marcha
esta investigação de m odo útil e adequado à sublimida
de do objeto? Exemplos p odem servir aqui de adver
tência, mas também para a imitação. A contemplação do
mundo começou do mais grandioso espetáculo que sé»
os sentidos humanos podem sempre oferecer e que só <>
nosso entendimento, em sua vasta abrangência, pode sem

256
Crítica dcf razão prática

|nr mi portar perseguir, e terminou - na astrologia. A mo-


iiil e< uneçou na mais nobre propriedade da natureza hu-
iii.m.i, cujo desenvolvim ento e cultura voltam-se a uma
utilidade infinita, e terminou - no fanatismo <Schwãrme-
iri ■ou na superstição. Assim se passa com todas as ten­
tativas ainda rudes, nas quais a parte mais nobre do ofí-
i li i depende do uso da razão, que não se verifica por si
i i u v m i i o , com o o uso dos pés, pelo exercício freqUente,

|nindpalmente se ele concerne a propriedades que não


podem apresentar-se tão imediatamente na experiência
11 hi mm. Mas depois que, embora tardiamente, entrou em
vi ij>:i a máxima de examinar antes bem todos os passos
que a razão se propõe dar, e de não a deixar seguir o seu
curso de outro modo que na linha de um m étodo bem
n‘Metido anteriormente, o [291] ajuizamento do sistema do
universo tomou uma direção totalmente diversa e, com
cn.su, ao mesmo tempo uma saída incomparavelmente

mais feliz. A queda de uma pedra, o movimento de uma


limda, resolvidos em seus elementos e nas forças que ne­
les se mostram e elaborados matematicamente, produzi-
i , m
i enfim na estrutura do mundo aquela perspiciência
clara e imutável para todo o futuro, que pela observação
continuada só pode esperar ampliar-se sempre mas ja­
mais deve temer que tenha de voltar atrás.
Aquele exem plo <Beispiel>Ui pode aconselhar-nos a
encetar agora este caminho no tratamento das disposições
morais de nossa natureza e dar-nos esperança de um bom
exito semelhante. Pois temos à mão os exem plos da ra-
zão que julga moralmente. Ora, analisando-os em seus

243. Sobre a diferença de sentido entre os termos alemães Beispiel e


liwmpel, cf. MS/T A 168, Ak 480, nota.

257
hnmanuei Kant

conceitos elementares, propondo-se - medianlr reprii


dos ensaios sobre o entendimento coimim - 11a il.i
Matemática, um procedimento contudo semelhante ;i Oni
mica, de separar o empírico do racional suscetível de eu
contrar-se neles, podem ambos os elementos ser com i <i
teza reconhecidos por nós em sua pureza e no que c.iil.i
um possa por si só realizar. Deste m odo pode em p.utr
evitar-se a desorientação de um ajuizamento ainda rude r
pouco exercitado e, em parte (o que é de longe mais nr
cessário), as extravagâncias do gênio, pelas quais, como
sói acontecer com os adeptos da pedra da sabedoria, ,srm
nenhuma investigação metódica [292] e nenhum conlir
cimento du natureza são prometidos tesouros sonhado,1,
e são dissipados tesouros verdadeiros. Em uma palavn,
a ciência (buscada criticamente e introduzida metódica
mente) é a porta estreita que conduz à doutrina da subc
doria, se por esta não se entender simplesmente o que se
deve fazer mas o que deve servir de norma a mestres piir.i
aplanar bem e demarcadamente o caminho da sabedori;i,
que cada qual deve seguir, e proteger a outros de ca mi
nhos falsos; uma ciência cuja guardiã tem que permane­
cer sempre a Filosofia, em cuja investigação sutil o pú­
blico não tem de tomar nenhuma parte, mas certamente
nas doutrinas, que após uma tal elaboração podem tor­
nar-se pela primeira vez verdadeiramente claras a ele.

258
Apêndice

INo (as manuscritas de Kant em seu Handexemplar


da Crítica da razão prática (1788)

A publicação, a seguir.; de notas manuscritas de Kant


que se encontram ao fin a l de seu Handexemplar da Crí-
lica da razão prática parece constituir um complemento
natural a uma edição e tradução que procurou identifi-
( ar-se com a recuperação da discussão em relação com
sua fonte original.
Essas notas manuscritas, que excluem aqui aquelas
correções feitas p o r Kant ao longo do texto, circunscre-
rem-se, do fin a l da última página A 292, à sua última ca-
!>a interna e a uma folha solta. Embora nelas se abordem
/rês conjuntos de questões, a sua divisão em três seçõesfeita
f>or Gerhard Lehmann levou, antes, em conta aquela dis­
tribuição física no Handexemplar.
Apenas o título da folha avulsa requer algum escla­
recimento: Quaestio Stolpiana. Com o legado do holandês
Janus Stolpe, falecido em 7753, criou-se um instituto, que
a cada dois anos conferiria um prêmio por trabalhos vin­
culados a questões de filosofia da religião e filosofia mo­
ral, e cujas especificações temáticas foram transcritas p o r

259
Immanuel Kant

Lehmann: “O conteúdo dos textos deve variar: uma tv-


deve mostrar-se, a partir da contemplação do mundo <riu
do ou de algumas partes dele, que um ser eterno, infinito,
separado da matéria, sábio e onipotente criou~o a jx/iln
do nada e o conserva; outra ve z deve-se lançar lu zso h tv
a excelência da doutrina moral cristã do modo com o .m1
encontra nos livros do N ovo Testamento, e a sua prcenii
nência sobre todas as doutrinas morais humanas. Ao mrs
m o tempo deve-se poder resgatar e demonstrar a concar
dância da doutrina moral cristã com a filosófica, e cvh‘
brar sua beleza e aceitabilidade.. .’nM Kant interessou st'
algumas vezes pelo prêmio; assim, p o r exemplo, explicihi
mente na Reflexão 41, v. 17, p. 435 e na Reflexão 600H, r
18, p. 422, da edição da Academia, Curiosamente voltou
ao assunto em uma dessas notas manuscritas, teoriat
mente vinculadas ao conteúdo de sua segunda Critica.
Por uma razão de clareza e segurança, a tradução dos
textos manuscritos f o i feita a partir de sua publicação por
Gerhard Lehmann: LEHMANN, G. Kants Bemerkungen im
Handexemplar der Kritik der praktischen Vernunft. Kan)
Studien, v. 72, n. 2, pp. 132-9, 1981 (os textos ocupam as
páginas 137-9). Agradeço ã Direção da revista Kant-slu
dien a autorização para uso dessa edição. A guarda do
Handexem plar encontra-se desde 1910 aos cuidados do
Arquivo da Martin-Luther-Universität Halle- Wittenberg.
Agradeço ãquela Universidade, na pessoa da Sra. K. Keilet;
a grata oportunidade de ter podido consultá-lo.

244. Apud LEHMANN, G. Kants Bemerkungen im Handexemplar


der Kritik der praktischen Vernunft, pp. 133 s.

260
Crítica da razão prática

Ä vontade pura é seu próprio fim, mas a afetada por


inclinações, nâo. Se do homem for dito: ele é fim em si
mesmo, isto não significa: ele é seu próprio fim, mas sem-
I mc além clisso® fim da natureza, um simples m eio tanto
il.i natureza quanto de outros entes.

Se uma metafísica enganosa é uma tentativa de conbe-


( r r acima dos limites de uma experiência possível, uma
icligião fantástica é uma tentativa de atuar acima dos obje-
ti >s de uma experiência possível e mediante as forças que
encontram além daqueles limites.
Assim com o a razão especulativa torna-se, na teoso-
l ia, transcendente, porque seus princípios que podem ser
rcgulativos unicamente em relação ao uso da experiên­
cia são então elevados a constitutivos: do mesmo modo a
razão prática pura torna-se transcendente se ela pensa
exercer ações sobre o suprassensível, sobre a divindade
em uma religião com o culto. Toda a [faculdade]“ ’ enfa-
luação de forças da natureza (portanto também de nos­
sas próprias), que porém não atuam segundo leis da natu­

245. Kant: sondern auch jederzeit auch. A expressão “além disso"


iraduz a repetição talvez involuntária de dois advérbios auch (também),
limbora aparentemente repetitivo, o procedimento poderia servir para res­
saltar um aspecto essencial da gramática moral kantiana; do “não só mas
lambém".
246. Kant: Vermögen, riscado. Os colchetes neste texto significam que
Kant escreveu uma palavra e riscou-a a seguir. Já o sinal <...> significa o
acréscimo de uma palavra pelo Tradutor.

261
Immanuel Kant

reza, é superstição de uma receptividade dos efeitos ein


nós, mas não mediante causas na natureza, é uma ins.i
nia da razão ( NB ruptura da lei moral). Todo o efeito
esperamos produzir no mundo através de Deus é supers
tição. Cremos então atuar sobre Deus, e este efeito é (rans
cendente à nossa prática religiosa da conformidade <N< >s
sas representações da conformidade> 247que esperamos dai
ã vontade divina com a nossa são consideradas conslilu
tivas e transcendentes, já que elas são [meramente] ima
nentes e meramente regulativas, para tornar a nós mesmos
conformes com a vontade divina. Toda a religião desta es­
pécie é [uma tentativa delirante] com o que [para] fazer
magia ou feitiço. Aquilo que não se deixa efetuar media 11
te forças que são outorgadas à nossa natureza, espera-se
conseguir mediante uma determinação de certas forças
sobre a natureza através de nossos desejos ou de certas
fórmulas e observâncias. Verdadeira religião é a disposi­
ção ao cumprimento de todos os deveres (que só podem
ser exercidos no mundo) como mandamentos divinos (não
os mandamentos divinos (d e seu arbítrio) com o um de­
ver). A razão moral para considerã-Ios deste m odo é a
impossibilidade de representar o objeto de nossa [median­
te] vontade seguidora da lei moral, o sumo bem, com o
possível apenas através de nossa vontade; e sem Deus,
que conecta a outra parte [pela] à lei moral, o sumo bem
viria a ser uma idéia vazia, o que levaria ao levantamen-

247. A frase de Kant está truncada. Lehmann propôs a seguinte


complementação, depois do acréscimo de um ponto <■>: “Nossas repre­
sentações da conformidade da vontade divina com a nossa são conside­
radas constitutivas e transcendentes..." ( Unsere Vorstellungen von der
Gemäßheit des göttlichen Willens mit dem unsigen werden als konstitutiv
und imnsebunt angesehen...). Minha tradução incorpora essa sugestão
de Lehmann, adaptando-a ao texto de Kant.

.262
Crítica da razão prática

li i de objeções de lado da especulação contra a disposição


moral. Não temos outra coisa a fazer do que cuidar que
n< >,s tornemos homens melhores. A felicidade, bem com o
i deficiência de nossa faculdade para, com todo o nosso
esforço, tornar-nos dignos da mesma, temos de deixar aos
i i lidados de Deus e confiar nisso, quer conheçamos o mo­
do como Deus o faz (o que é tanto melhor), quer não; as-
Min não podem os ter influência sobre Deus para deter­
miná-lo a tal, mas somente zelar para mediante uma boa
conduta tornar-nos dignos [de tudo] daquilo que não se
encontra em nossas forças. Este é o lim ite348 de quanto
mu homem pode julgar pela razão; pois de acordo com
i.Nso ele também tem de vir a ser julgado futuramente en­
quanto homem natural.
O proveito que o Estado tem da liberdade das cons­
ciências em assuntos de religião, em decorrência da since­
ridade que pode vincular-se unicamente a ela, enquanto
a falta de liberdade corrompe o caráter. <...>
Uma religião natural (considerada objetivamente) tem
<le ser contraposta não à revelada (que também só pode
ser [a] natural), mas à artificial, isto é, à religião erudita.
Dignidade somente coabita um objeto do respeito,
liste não é nenhum outro que aquele que é legislação em
relação com aquele que lheM9 obedece. Ora bem, o homem
e um ser sensível (obrigado) consciente como ente de sen-
lidos, que portanto a si mesmo <...>2W

248. Kant: So viel kann der Mensch durch Vernunft uriheilen.


249. Kant: a u f den, der ihm (com aquele que lhe), reinere a
(Gegenstand(objeto). Mas objet© do respeito é aí identificado com “obje-
lu que é legislação”.
250. A frase foi interrompida por Kant

263
Immanuel Kant

III

Quaestio Stolpiana < > A n dentur251[obligatio] ojjkht


ad quae obligari hominem demonstrari non possil ntsi
posita anim i imortalitate. 1. Todos os deveres são dessa
espécie; pois jamais sé pode considerar o dever com o |im
portante] determinante da yontade, sem ao mesmo leiitft'
vincular-lhe a esperança da imortalidade. 2, Nenhum de
ver é tal que comporte obrigatoriedade apenas na medi
da em que pressuponha a imortalidade da alma, pois leri.i
de tratar-se então de um dever no qual alguém se obriga;-,
se a prestar serviço a outros [retribuir] depois de sua mor
te, com o o assumir a celebração de missas pela alma de
alguém que estipulou algo a respeito no testamento, n
que porém é um dever imaginário. 3- Daquele que nega
a vida futura jamais pode provar-se a obrigação para qual
quer ação, não porque faltem motivos mas porque o oh
jeto da ação, a saber, o bem que se estende ao infinilo
de acordo com esses princípios seria desse m odo unia
simples quimera.
Um caso (d o dever) parece ser de tal tipo que a obri
gatoriedade em relação a ele só ocorre sob a condição cia
pressuposição da vida futura, e este <caso> é o dever de
evitar o suicídio. Pois visto que através deste, se não h;í
outra vida, meu estado não será alterado, mas até meu pró
prio si-mesmo <Selbst> termina, assim esta ação é, como
a última de tudo o que eu posso fazer, carente de conse­
qüências, quer relativamente a meu valor ou [ainda] des-

251. Kanc, no manuscrito: detur, no singular, em Função d o termo


obligatio■.que ele depois riscou e substituiu por offícia, no plural. Lehmann
em função disso corrigiu aquele verbo para dentur. Tradução: “Se há devi 1
res em relação aos quais não possa ser demonstrado que o homem é obri
gado, a menos que se introduza <posita> a imortalidade da alma."

264
Crítica da razão prática

v .iln r pessoal, quer relativamente a meu [Nachte] proveito


( m dano; com o aliás de m odo geral uma existência por si
<.u Iir u e contrária à infinitude da duração que posso ima­
ginar, nenhuma existência momentânea sem um mundo
luiuro pode ter absolutamente algum valor. Mas já que,
.iprsar disso enquanto eu viver, desdenhar esta vida e a
mim mesmo não pode ser concebido sem indignidade,
.iNsim a suposição, vinculada à consciência de meu dever,
i li• uma outra vida pertence ao valor de minha existência;
. ii Iuí, pois, em contrapartida, não é a expectativa de um
i miro mundo o fundamento da consciência do dever mas
inversamente252, todavia de modo tal que este dever nâo
pode obrigar sem comportar ao mesmo tempo a posição
da imortalidade.

252. D evido às muitas correções e intercalaçôes, a frase de Kant


li íiimu-se complicada e foi por isso traduzida segundo a sua reelabo-
i.k ík) proposta por Lehmann. O texto de Kant é o seguinte: Da aber dem
ungeachtet, i o lange ich lebe, dieses leben und mich selbst wegzuwerfen
ein Vorsatz ist, der ohne [VernJ .Nichtswürdigkeit nicht gefasst werden
hin, so fä h rt die mit dem. Bewußtsein meiner Pflicht zugleich (verbun­
dene Vermuthung einer längeren Dauer) /die Vermuthung eines an -
deren) meines Lebens [welches] (als) zum Werthe meines Daseytis gehörth
hiy sieb. Hier ist also wiederum nicht die [Ilojfnungl Erwartung einer
inideren Welt der Grund des Beu'ustseyns der Pflicht, sondern umgekehrt,
... A sua reformulação por Lehmann [cf. p. 134) é a seguinte: Da aber dem
ungeachtet so lange ich lebe, dieses Leben und mich selbst wegzuwerfen
ein Vorsatz ist, der ohne Nichtswürdigkeit nicht gefaßt werden kann, so
gehört die mit dem Bewußtsein meiner Pflicht verbundene Vermutung
eines anderen Lehens zum Werte meines Daseins; hier ist also wiederum
nicht die Erwartung einer anderen Welt der Grund des Bewußtseins der
!flicht, sondern umgekehrt ...

265
índice de autores*

Autores relacionados por Vorländer

Anaxágoras, 253- Epicuro, 43, 69, 70, 208, 217,


Antigos, os, 43 s., 103-6, 113 s., 254.
193-6, 227 s., 253 s. Espínnsa, 182,
Aristóteles, 230 n. Estoicos, 21-2 n., 69, 106, 153,
Cheseldcn, 27. 201 s., 228 s. xi., 229 s. n.
Cínicos, 230 n. Fontenelle, 136.
Crusius, 69. H enrique VIII, 277.
l-.picuristas, 158, 190 ss., 228 s., Horácio, 7 n.
229 s. n Hum e, 26, 27, 90, 95, 98.

* Os números de páginas constantes neste índice de Autores são os


da primeira edição original de 1788 CA), também referidos n o texto da
edição brasileira. Já os algarismos romanos do índice de autores citados
pelo tradutor remetem às páginas da Introdução brasileira. Tanto o índice
de Autores com o o Glossário seguem, com algumas alterações do tradutor,
o conteúdo dos índices de Kart Vorländer, constantes em sua ediçào: KANT,
I. Kritik der praktischen Vernunft, Neunte Auflage, Herausgegeben und
mit Einleitung sow ie einem Personen- und Sachregister versehen von Karl
Vorländer. D er Philosophischen Bibliothek Band 38, Leipzig: Felix Meiner,
1929. Na tabela “Concordâncias de páginas”, os números da edição Vorlän­
der loram, no entanto, atualizadas de acordo com a 10? edição de 1993,
da mesma Editora. Os direitos públicos de tradução e reprodução desse
índice e Glossário foram reconhecidos pelo seu Editor, em correspondên­
cia com o tradutor.

269
Immanuel Kant

Hutcheson, 69. Místicos, os, 217.


Juvenal, 56, 283, 286. Platão, 153, 230 n, 253-4.
Leibniz, 174, 285. Pristley, 176.
M andeville, 69. Vaucanson, 181.
M aom é, 217. Voltaire, 139.
M endelssohn, 181. W izenm ann, 259 n.
M ontaigne, 69. W olff, 69.

Autores citados pelo tradutor


Adiekes, XXXII. Loparic, Z., X VIII
Allison, H., IX. Marques, A., IX, XI.
Alm eida, G., XV III, 3, 56. Marty, F., 5.
Baumgarten, 5. Müller, M. L., 35.
Beck, L W., XVIII, 3, 127. Natorp, P., XI.
Bittner, R., X II, XIV, XV, XVI, Paul, H., 3.
15, 35. Pistorius, H., 35.
Born, F. G., 5, 35. Plauto, 24.
Cicero, X VI, 5. Rohden, V., XV, XXXI, XXXTV,
Cramer, K., XII, 15. Rohs, P., 26.
Funke, G., 35. Schopenhauer, XLI.
Hamann, XXXV. Thomasius, C., 38.
Hartenstein, XX XIII. Tittel, G., X II, 15, 19.
Henrich, D., XV. Tugendhat, E., XI, X IV s., 5.
Herz, M., IX. Vorländer, K., X, XIV.
Hinske, N., XLIII. Wasianski, X.
H oräcio, 7. W eischedel, W., XXXII, XLIII.
H um e, 25. W ille, X X X III.
Kersting, W., XI, XXVI. Wittern, R., XXX.
Kirchmann, XXIX. W olff, C., 5, 26, 38, 51.
Klem m e, H., XLIII. Zingano, M., XVIII,
Lefèvre, E., 7.

270
Glossário

As pãginas referidas após os verbetes remetem diretamente às


páginas da primeira edição original (A), que também se en­
contram nesta edição brasileira. A substituição das páginas da
edição Vorländer peias da edição original foi feita pelo tradutor,
após consulta ao texto caso a caso. Asteriscos após uma pa­
lavra remetem ao respectivo verbete.

A 46, 61, 63s., 129, 152-4, 283;


am or de si racionai, 129.
Acidentes (A k z id en z en ), v, Amor-próprio ( E ig en lie b e), v,
“substâncias”. “am or de si”.
Admiração (B e w u n d e r u n g £>, Analítica (A nalytik) 1. da razão
135, 138, 278, 288. prática pura, 13, 16, 31, 35, 72,
Agrado, o (A n n e h m lich k e it, 197, 203; elucidação crítica da
d i e ), agradável, o mesma, 159; especialm ente,
{ A n g en eh m e, d a s ) em 165; 2. da razão especulativa
oposição ao bom*, 40 s., 45, pura, 31, 72, 159
102-105, 157. Analíticos ( a n a ly t i s c h e ) e
Alma ( S eele) com o sujeito sintéticos, m étodo, 19; juízos,
último, 239. 26; unidade (co n exão), 199,
* Elevação de { S e e le n e r h e b u n g ), 204; conhecim ento, 203.
276 n. Analogia { A nalogie), 24.
• Fortaleza de (S e e le n s tã fk e }, Anim alidade (T ierh eit), a no
43, 229 n , 265, 271. hom em , 108.
• Perturbação de ânimo, v. Animo (G em ü t), perturbação
“ânim o”. de, 67.
Amor (L iebe), patológico da Antinomia (A n tin o m ie) da razão
inclinação e prático do especulativa pura, 4, 27, 53,
respeito, 144-54; cf. 135, 237. 193, 205, 239; da razão prática,
* Amor ao próxim o, v. 204; sua supressão, 205-15.
“próxim o”. Antropomorfismo
Amor de si (S e lb stlie b e ) (opos. (A n th r o p o m o r p h ism u s ), 236,
m oralidade), princípio do, 40, 244, 246, 249.

271
Immanuel Kant

Apetição, faculdade de fundam ento determinante d.i


(Begebrungsvermõgen), def., razão prática pura, 197; seu
16 n,, 22 , 36 , 101 ; inferior e objeto necessário, 242 ss.; c
superior, 41, 44; form a e fim total, 239 ; sua prom ováo
matéria da mesma, 38 s., 44; objeto necessário de nossa
faculdade de apetição e vontade, 205, 207 s., 219, 22">
prazer, 16 s, n. ss., 257. Sua possibilidade
A p r io r i (o p o s. em p írico), 23; prática pela liberdade da
cf 88 . vontade, 202; sua dedução
Arqu étip o {Urbild), 58; cf. 75, transcendental, 202 ss.
149, 229 n. s., 232. Suprem o e consumado, 198;
Arrazoar ( räsonieren ), 273. originário e derivado, 226,
Arrep end im en to (Reue), 17Ó. 233, 235 s., 239; total, 202; v.
Arrogância (A rroganz), 153; cf. tam bém “reino de D eus” .
“presunção” . Bem-aventurança ( Seligkeit),
Autocontentam ento 214. 232, 223 n.
{Selbstzufriedenheit), 212; Bem-estar e mal-estar ( Wohl e
cf. 213. Übe0, v. “b om ” (e mau).
A utom a ton materiale e Bom, o bom (gut , das Gute) é o
spirituale, 174; cf. 181. objeto da razão prática, 10Ü;
Autonom ia ( Autonom ie ) da em opos. ao agradável, 102;
vontade ou da razão prática ao útil, 103; ao bem-estar, 104,
pura c o m o princípio suprem o 109; mediatamente (para
da m oralidade, 58 s., 72-3 s., qualquer coisa) e
226, 232, 238 ; da liberdade, imediatamente
156. Cf. 58, 197; simplicidade (absolutamente) bom, 102 s.,
deste princípio, 64. 162; o último refere-se a
pessoas, não a coisas, 106. Seu
conceito é primeiramente
B
determinável mediante a lei
moral, 15, 102, 110 , l 6l s.
Bem, sumo ( höchstes Gut)
ob jeto a p rio ri da vontade
determ inada moralmente, 6; C
cf. 75, 194; entre os Antigos e
M odernos, 113, 194. Dialética Caráter (Charakter), def., 271;
da razão prática pura na moral, 281; p e lo qual surge,
determ inação d o m esm o, 196, 174 s.; ajuizamento do
198 s. Ele é ob jeto e não m esm o, 273.

272
Crítica da razão prática

<:;irência ( Bedürfnis ) da razão livre, 179; da razão (pura),


pura (= necessidade 115 s.; cf. 143, 161 s. etc.
.subjetiva), 6, 162, 226, 256; C eticism o (Skeptizismus), 4, 27,
especialmente, 257 n., 259 n. 89 s., 185.
Km oposição ao direito, 284; Céu {Himmel), o céu estreia do
:i razão (carência sensível), sobre mim, 186,
202. C iência ( Wissenschaft) e
Catecism o ( Katechismus), Filosofia, 21, 91, 194, 292; e
moral, 275. sabedoria, 194, 230 n., 255,
<iategorias (Kategorien)., 1. da 292; e razão, 163; procurada
tlaLureZa, 115; ou do criticamente e introduzida
entendimento, inaplícãveis m etodicam ente, 292.
aos noumena, 7, 93 s., 186; Coalizão, sistema de
sua dedução, 254; divisão em ( Koalilionssystem), 27;
matemáticas e dinâmicas, 186. tentativas, 203.
Caraterísticas d o Coisa em si (D in g an sich), cf.
entendim ento puro, 17 n.; “fe n ô in e n o ”i
possibilitantes da experiência, Colisão (Widerstreit), cf.
80, 93; cf. 114, 170 s.; 2. da “antinom ia” .
liberdade, 115 s.; sua tábua, C om paixão (M itleid), 213.
117; cf. 20 s. n., 94, 119. C om placência ( Wohlgefallen ),
( >.iusa e efeito ( Ursache und estética, 286; c. em nós
Wirkung) (v. “causalidade”), m esm os, distinto de
Causalidade ( Kausalität), 1 . da benevolência, 129, 285 s.;
natureza (= mecanismo da negativa, 213-
natureza, 10 n., 174), 4, 10 n., C ondição ( Bedingung ), form al
51, 72, 81, 114, 121, 169 s., da lei prática, 59, 61; v.
206, 256; psicológica e “razão” (con dições da).
mecânica, 173. Sua C onform idade a fms
contestação por Hume, 26, 88 ; (Zweckmäßigkeit) da
2 . empiricamente- natureza, 251, 261 , 285.
incondicionada da vontade ou C onform idade a leis
da liberdade (também; com o, (Gesetzmäßigkeit) (universal)
a partir de, p or Üterdade), 4, da razão em geral, 78, 125;
10 n., 16 n „ 30, 32, 36-7, das ações, 151.
76 s., 82, 117, 122, 169 s., C onh ecim ento (Erkenntnis)
186 s., 207 s., 225 s.; teórico, 94; prático, 6 , 31, 36,
intelectual, 130, 188, 206 s.; 55, 99, 185; a priori, 24, 73,

273
Immanuel Kant

77, 167; im possível além da • Crítica da razão prática


experiência, 23, 73, 246 s. (K ritik der praktischen
etc.; am pliação d e um p on to Vernunft), 3, 9, 17 n,, 7H,
d e vista prático, 241 s.; v. 288.
"facuidade de con h ecim en to” , • Crítica da razão pu ra ( Kritik
C onsciência ( Bewußtsein), pura der reinen Vernunft), 7 s., 17
e empírica, 10 n.; sua n., 19, 29 s., 73, 77, 86 s., 92,
unidade, 114-5; consciência 94, 174, 184, 190, 194, 254,
d e minha existência, 289. 263.
Consciência moral (Gewissen),
denunciante e julgadora, 176.
D
Conseqüente ( konsequente ],
m o d o de pensar
Dedução (Deduktion) (d ef., 8( 1).
( Denkungsart ), 9, 11, 271; a
1 . das prop osições
máxim a obrigação d e um
fundamentais da razão prátir;i
filó.sofo, 44; dos Epicuristas,
pura, 72.87; cf. 93, 168; 2 .
248. transcendental d o sumo bem,
Constituição ( Verfassung), civil,
203, 227 ; 3 . das categorias,
69; cf. 275 n. 254; 4. da liberdade, 82.
Contentam ento ( Zufriedenheit) D efinições (D efinitionen),
estético e intelectual (ou temerárias, 17 n.
autocontentam ento), 212 s.; D eleites ( Vergnügen ), 102, 105;
cf. 67, 229, 287. duração e grau, 43; mais
Criação ( Schöpfung ), conceito finos e mais rudes, 43 s.;
de, 180, 182 s., 225, 236. quanto ao restante, cf.
Criatura, a (Geschöpf, das), 149. “agra d o” , “p razer” .
Crim e/crim inoso ( Verbrechen, Desigualdade ( Ungleichheit) dos
Verbrecher), 66 , 1.79. homens, 276 n.
Cristianismo (Christentum), sua Deus (G oti), não condição da lei
doutrina religiosa, 223 n., moral mas som ente d o sum o
229; seu principio moral, 229 bem , 5, 240; a saber, c o m o
n., 231 s.; cf. “Evangelho". fundam ento da concordância
Crítica ( Kritik ) distinta de de m oralidade e felicidade,
sistema, 8 ; cf. 15; da ciência, 225 s.; p or isso som ente
15; c, da razão prática pura, 3, idéia, 99; ou postulado*, 22
9 s.; sua tarefa, 15 s.; cf. 30. n., 223 ss.; sua admissão não
Ideia, 29-32 ; divisão, 31 . é d ever mas som ente
Obras d e Kant: carência necessária, 226; seu

274
■Crítica da razão prática

ron ceito pertencente à Moral, p erfeito e im perfeito, 117; sua


não à Física, 249 ss,; não venerabilidade, 158;
cognoscível conceitualmente, santidade*, d e ve r e obrigação,
250 s.; mas só m oralmente 146, 15.2; d everes ao m esm o
necessário, 226. Suas tem p o c om o m andam entos
propriedades, 235 s. n., 247 s. divinos, 233. A apóstrofe de
Deus com o ser prim eiro Kant ao dever, 154.
universal, 180, 252 ss.; Autor Dever-ser, o ( Sollen, das), 7, 36;
d o mundo, 207, 225; e em dever-ser e poder, 54, 171, 283.
verdade Autor moral, 251, Dialética ( Dialektik ) da razão
261; ideal de santidade em prática pura, 31, 114, 192 ss.;
substância, 282; cf. 145; na determ inação d o sum o
totalmente suficiente, 180; bem , 198 ss.; dialética natural
autossuficiente, 214; infinito, da razào especulativa pura,
220; distribuidor da 186, 192 s.
felicidade, 221 , 231, 235; cf. Dignidade ( Würde) d o hom em ,

251, mas não fundam ento de 271; da humanidade, 156; da

nossa obrigação moral, 124 lei moral, 265. Cf. tb. 234.

s., 226 s. Sua terrível Dinâmicas, leis, 72.


Disposição ( Gesinnung ), m oral
majestade; 265- Adoração e
am or d e Deus, 236; cf. 150;
autêntica, 126, 149 s., 210 ,
272 etc.
m ediante o qu e Deus tom a-
Divisibilidade ( Teilbarkeit) d o
se ob jeto da religião, 236 n.
espaço, 27.
• Erudito acerca de Deus
D ogm ático (.dogmatischer),
( Gottesgelehrter), 248, 248 n.
curso da Filosofia, 17 n.
Dever ( Pflicht ), deL, 57, 64,
Doutrina moral (Sittenlebré)
143; fórm ula d e seu
Copos, doutrina da felicidade),
princípio, 13 s. n,; divisão,
70, l6 5 s., 234 s.; doutrina
14; cf.21 n., 117; o único
moral cristã, 230 n., 231 .
sentim ento moral, 68 , 152;
em opos. à carência, 226; a
impulsos d o coração, 152, E
274 s., 276 n.; ações “nobres
e meritórias” , 276 ss.; Educação ( Erziehung ),
inclinações*, ações contrárias princípios da, 69, 137, 153,
ao dever, 20 n., 117. Por 158, 178, 271, 275 ss., 278.
d ever em opos. a con form e Elementos, doutrina dos
ao dever, 144 s., 158, 211; ( Elementarlehre ), (op o s.

275
Immanuel Kant

doutrina d o m étod o*), da Erudição ( Gelehrsamkeit),


razão prática pura, 33-266; erudito (gelehrter), (op os.
sua divisão, 31. ciência racional, filó s o fo ),
E m pírico ( empirisch ) = 248 n.; cf. 92 .
pertencente ao m undo Escolas (Schulen), filosóficas,
sensorial, 52; cf. 119 s. 62; cf. 28 n.
Empirismo ( Empirismus), Espaço (Raum ), 27; quanto ao
sistema d o e. universal, 26 s.; mais, cf. “te m p o ” .
88 ss.; sobre o qual .se funda, Espírito (Geist) (op os. letra) tia
27; da razão prática, 124 s.; lei, 127, 127 n., 147, 151, 270.
sua superficialidade,. ] 68. Espontaneidade (Spontaneität ),
Empiristas ( Empiristen ), 13. absoluta da liberdade, 84,
Ente/ser racional 178, 181.
Esquema (Schema), def., 122;
( Wesen/vernünftiges Wesen)
cf. 120; em opos. a lei, 122;
em geral, à diferença d o
esquem a d e uma le i mesma,
hom em , 25, 30, 3.6, 45, 57,
121.
146, 150, 156, 237.
Estética (Ästhetik), da razão
Entendim ento (Verstand) =
teórica pura e da razão
faculdade de pensar, 245;
prática pura, l ó l .
discursivo, 247; sua relação
Eternidade (Ewigkeit), sua
com a intuição, 245; com a
majestade, 265.
faculdade da imaginação,
Eu (Ich ), v. “sujeito” (pensante),
286; com a razão, 96; com a
Evangelho (Evangelium), sua
vontade, 96; entendim ento
doutrina (preceito), 148, 150-1,
puro, 53, 94, 254; = razão, 96;
229 n.; cf. “Cristianismo” .
comum, v. “entendim ento Exem plos ( Beispiele),. seu efeito
humano". sobre a m oralidade, 276 ss.;
• Entes dotados de prem onitórios, 291.
entendim ento, puros, 97; = Existencial, proposição
noumena*. (Existentialsatz), 250.
• Mundo de entendim ento Experiência (Erfahrung), def.,
(Verstandeswelt), puro, 87; 73; em opos- à razão, 24, 47,
c o m o fundam ento e 64 etc,; ã necessidade, 88;
arquétipo d o mundo experiência possível, 73, 77,
sensorial, 65, 74; cf. 206 e 80, 94 s., 244 s.; com um , 290;
(m u n d o ) in teligível’ . sua pedra de toque, 28.
Entusiasmo (Enthusiasmus), Exposição (Exposition) (op o s.
279. d ed u çã o") da lei moral, 80,

276
Crítica da razao prática

F doutrina da m oralidade, 70,


165 s., 234.
liictu m da razão prática pura, • M erecim en to de ser feliz
9, 56 s., 72 s., 74; com o qu e (Glückwürdigkeit), 198, 234,
um f., 81, 96, 163, 187. 265,
I';iculdade da im aginação (v. Fenôm eno ( Erscheinung ), opos.
“ im aginação”). a coisa em si, 9 s., 9 n., 51,
i';iculdade de con hecim ento, 18, 84, 93, 132 s., 169 s., 188-9; é
24, 29; pura, 29- determinável no tem po, 169 s.;
l'acuidade d e julgar ef. noumena.
{ Urteilskraft), prática, 119 s.; Filosofia ( Philosophie ), seu
sua regra, 122; típica, 119-20; n om e, 194; = doutrina da
cf. 275, 285, 291. sabedoria enquanto ciência,
I''acuidades fundamentais (v. 194 s.; = doutrina d o sumo
“forças”). bem (entre os A n tigos), 194;
l'';matismo ( Fanatizismus ), 244. filosofia sistemática com o
líxaltação ( Schwärmerei), ciência, 23; prática, 16 n., 23,
126, 153, 290; moral, 153; 119; dogmática, 17 n.; F. e
heróica e langorosa, ib. Cf. Matemática, 26; e erudição,
nota d o tradutor em 153. 158 n.; F. com o guardiã da
Fatalista (Fatalist), 176. ciência, 292.
he (Glaube), fé racional (v. Filósofo ( Philosoph ), 195, 248 n.
“razão” , fé da). Fira (Zweck) e m eio, v. meio*.
Felicidade (Gluckselligkeif), def., O rdem dos fins, 237. Fim em
40, 224; cf. 129, 264; a si mesmo, 156, 237; a
aspiração de todos os totalidade com pleta dos fins,
homens, 45; em piricam cntc 155; cf. “conform idade a fins” .
condicionada, 46, 64 s,; geral, Física ( Physik) e T eolog ia , 249,
63; própria, 40, 44, 60, 6 l s., 252.
65 s., 198 ss., 279; estranha, Forças/faculdades fundamentais
60 s. N em tudo em geral ( Grundkräfte ,
d epen de disso, 107, O pos. a Grundvermögen), 81.<