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J ò rn Rusen

Raz ã o histó rica


Teoria da hist ória:
os fundamentos da ci ê ncia hist órica

Tradução
Estevão de Rezende Martins

EDITORA
Equipe editorial : Airton Lugarinho ( Supervisão editorial ): Fá tima Rejane
de Meneses ( Acompanhamento editorial ): Sonja Cavalcanti ( Preparação
de originais): Mauro Caixeta de Deus e Sonja Cavalcanti ( Revis ã o ):
Fá tima Rejane de Meneses, Sonja Cavalcanti e Yana Palankof (índice):
Eugê nio Felix Braga (Editora ção eletró nica ): Leonardo Branco ( Capa ).

Copyright © 1983 hy Vandenhoeck & Ruprecht .


Copyright © 2001 hy Editora Universidade de Bras ília, pela tradu ção.

Título original: Historische Vernunft: Grundziige einer Historik I : Die


Grundlagen der Geschichtswissenschaft

Impresso no Brasil

Editora Universidade de Brasília


SCS Q. 02 Bloco C n- 78 Ed. OK 2- andar
70300-500 - Brasília. DF
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Ficha catalogr á fica elaborada pela


Biblioteca Central da Universidade de Bras ília

R íisen , J õ rn
R 951 Razão histó rica : teoria da histó ria : fundamentos da
ci ê ncia hist ó rica / J õ rn R íisen ; tradu çã o de Estev ã o
de Rezende Martins. - Brasília : Editora Universidade de
Bras í lia , 2001.
194 p.

Tradu ção de: Historische Vernunft: Grundziige einer


Historik T: Die Grundlagen der Geschichtswissenschaft
ISBN: 85-230-0615-x

1. Ci ê ncia hist ó rica. 2. Histó ria - teoria . I . Martins.


Estev ão de Rezende . II. Título.

CDU 930.1
Cap ítulo 3

Cient ífica — a constitui çã o met ódica da


ci ê ncia da hist ó ria

Eles amam a verdade,


mas descubra-a quem puder.
Voltaire1

No capítulo precedente expuseram-se os crit é rios de verdade


do pensamento histórico com a intenção de esclarecer, a partir deles, o
que significa fazer hist ória como ciê ncia. A passagem da garantia de
validade em geral, que ocorre por princípio em toda narrativa
hist órica, para a garantia de validade característica da hist ória como
ciência será tratada sob o t ítulo de “Científica”. É necessá rio, contudo,
afastar alguns possíveis mal-entendidos. O t ítulo “Cient ífica” apro-
xima nossas considera ções de um tipo de pensamento conhecido
como “cientificismo”. Chama -se de “cientificismo” uma determinada
interpreta çã o da especificidade e do significado das ciências. Nessa
interpreta ção, as ciê ncias sã o tratadas isoladamente do mundo
existencial dos que as praticam e dos que sã o por elas atingidos.
Nessa forma de isolamento, elas se põem como a ú nica inst â ncia,
no â mbito da cultura humana, em que se pode obter conheci-
mento universal . Modelo, medida e paradigma de tal conhecimento
universal , vá lido independentemente do contexto em que é obtido e
aplicado, é o conhecimento das ciê ncias naturais exatas. Pensar

Voltaire, Lettre à Madame la Marquise du Deffant , 18.5 .1772, Oeuvres


compl ètes de Voltaire, vol. 48: Correspondance 1772-1774, 1882, p. 99 (Carta
n- 8548).
96 J õm R ú sen

“cientificisticamente” quer dizer, pois, n ã o apenas monopolizar a


verdade no sentido de uma validade estritamente universal no
campo do conhecimento cient ífico, como també m fixar a verdade
segundo determinados crit é rios de cientificidade, obtidos a partir
de algumas ciê ncias e estendidos normativamente a todas as de-
mais.
N ão se tenciona, aqui, nem uma coisa nem outra - nem o iso-
lamento da ciê ncia dos pressupostos e das condições de seu mundo
concreto, nem sua normalização a partir do modelo das ciê ncias
exatas. Pelo contr á rio: a ci ê ncia da hist ória , como forma peculiar
_
. ,do pensamento hist ó rico, deve ser entendida, praticada e funda -
mentada a partir dos pressupostos e das condi ções de seu mundo
existencial , e n ã o interpretada como isolada e independente dele .
^^ Ao mesmo tempo, sua peculiaridade deve ser evidenciada e defen -
dida das tentativas de dilu í-la, reprimi -la ou mesmo abandon á-la,
numa adaptação acr ítica aos padrões reflexivos de outras ciê ncias.
^ Apesar de tudo, a escolha do t ítulo "Cient ífica” se deve ao fato
de que pelo menos um aspecto do cientificismo pode ser preserva -
do, malgrado toda a crítica à sua unilateralidade: o elemento que
consiste na pretensão de verdade pr óprio à cientificidade do conhe-
cimento e em sua fundamentação numa determinada forma de ga -
rantia de validade aplicá vel a toda e qualquer ciê ncia. Com isso
n ã o se deseja afirmar que a ci ê ncia da hist ória pretenda deter o
monopólio do ú nico conhecimento hist órico válido, mas sim deixar
claro em que consiste a pretensã o específica de validade que surge
com a cientificização da história e em que consiste essa cientifici -
za ção. Tampouco se deve definir a cientificidade da ci ê ncia da
história com par â metros de cientificidade obtidos mediante genera-
lização dos procedimentos de outras ci ê ncias. A cientificidade da
ciê ncia da hist ória deve ser estabelecida e descrita justamente no
que tem de peculiar , que produz o constructo significativo chamado
“ hist ória”. Por esse motivo, a abordagem da cientificidade da ci ê ncia
da história num capítulo intitulado “Cient ífica” tem de ser precedida
pelo exame da base existencial dessa ciê ncia .
De outro lado, poré m, n ão se pode dizer o que significa a “cienti -
ficiza çã o” do pensamento hist órico se nã o se levar em conta uma
característica marcante sua, que o conduz, para além de seu mundo
existencial , à forma específica de reflex ão da ci ê ncia da história.
Raz ã o hist ó rica 97

Para colocar essa especificidade em evid ência , n ã o basta insistir


naquela peculiaridade da ciê ncia da hist ó ria que a distingue das
demais ci ê ncias, mas deve-se explicitar também o que o pensa -
mento histó rico tem em comum com o pensamento que, em geral ,
se denomina “cient ífico”. Esse elemento comum n ã o pode ser bus-
cado nas características que diferenciam as ciências umas das outras,
mas sim nas propriedades gerais do pensamento científico, que
valem como princípios de todas as ciê ncias (e que talvez por tão
óbvias passem nã o raro despercebidas, quando certas ciê ncias preva-
lecem, por força dos resultados tecnológicos de seus conhecimentos).
Partindo-se do ponto em comum da pretensão de verdade, tra-
tar -se-á das diferen ças ( por certo n ão negadas nem subestim
adas)
entre o pensamento hist ó rico n ão especificamente cient ífico e o espe-
cificamente científico. A “Cient ífica” trabalha, pois, com o pressu -
posto de as diferen ças n ão decorrem de critérios de verdade diversos,
embora modulem diversamente o grau de pretensão de verdade
levantado por todas as hist ó rias.
Isso parece paradoxal , pois como a histó ria como ciê ncia se
distinguir á das demais formas do pensamento hist órico se n ã o re-
querer uma determinada verdade exclusiva para si? Esse paradoxo
é, todavia, meramente aparente, pois a diferença está no modo e na
forma, com os quais a hist ó ria como ci ê ncia formula as funda -
menta ções que , em princí pio, est ão em todas as hist ó rias. Hist ória
como ciê ncia é a forma peculiar de garantir a validade que as
histórias, em geral , pretendem ter. Histórias narradas com especi -
ficidade científica são histórias cuja validade está garantida mediante
uma fundamentaçã o particularmente bem feita .
Indica -se, assim , a propriedade do pensamento sobre a qual
repousa o cará ter científico do conhecimento: trata-se de um pen -
samento que, mediante suas regras met ódicas, cuida de que as
pretensões de validade das sentenças que enuncia sejam bem sus- i
tentadas argumentativamente. “ Ciê ncia ” é entendida , aqui , no sen -
tidomaisjtmplo do termo, como a slunà ctásopêrações intelect jfc)
reguladas metodicamente, mediante as quais se pode obter conhe-
^
uã -
cimento com pretensões seguras de validade. O pensamento histó rico-
cient ífico distingue -se das demais formas do pensamento hist ó-
rico n ão pelo fato de que pode pretender à verdade, mas pelo modo
como reivindica a verdade , ou seja , por sua regula çã o met ódica .
NP-
*
4
98
—7} — J õ rn Rusen

‘ Ç A cientificidade no â mbito das operações da consciê ncia hist órica e


/ , no â mbito da narrativa hist órica consiste , por conseguinte, na re-
gulação met ódica dessas opera ções, desse narrar histórico. Ci ê ncia
é método
^
Com isso n ão se est á pensando em nenhum mé todo determi-
nado, como por exemplo o m é todo matem á tico das ci ê ncias natu -
rais, mas sim numa regulaçã o do pensamento, pela qual se possa
garantir a pretensão de validade de suas senten ças. Essa regula çã o
consiste na incorpora çã o sistem á tica da d ú vida sobre a validade de
senten ças como fator constitutivo do pensamento . Corresponden -
temente, as fundamenta ções que resolvem as d ú vidas fazem parte
igualmente sistem á tica do processo cognitivo, n ão apenas caso a
caso (11a eventualidade de ocorrer cá e lá alguma d ú vida ), mas de
forma contínua, ao longo de todos os conjuntos de sentenças acerca
de determinados problemas e fatos. Em que consistem as regula -
ções met ódicas do pensamento cient ífico referentes aos diversos
campos de conhecimento depende da especificidade das pretensões
de validade suscitadas em cada um dos muitos â mbitos de aplica -
çã o do pensamento.
Para se entender, pois, o que a hist ória é, como ci ê ncia , n ã o se
pode partir de um determinado ideal de ciê ncia, atribuindo aos pro-
cedimentos met ódicos de uma ou mais ci ê ncias ( por exemplo, da
f ísica teórica) valor paradigmá tico para as demais. E preciso apreen-
der a peculiaridade de cada forma de pensamento existente 110
mundo concreto, antes de efetivar, nelas, uma id é ia da regulaçã o
met ódica do pensamento v á lida (formal e) uniformemente. Essa ou
aquela ci ê ncia pode, ent ã o, ser exemplar pelo modo e pela forma
com que leva às ú ltimas consequ ê ncias as garantias pré vias de va-
lidade existentes no mundo concreto, enunciando , por conseguinte ,
sentenças e conjuntos de senten ças fortes e consistentes. As regras
de procedimento e os sistemas de regras para produ çã o do conhe-
cimento próprio a cada especialidade, constitu ídos nesse processo,
n ã o podem ser transpostos, sem mais nem menos, de um campo
para outro; requer -se, para eventual transposiçã o, a exist ê ncia pré-
via de garantias iguais ou semelhantes de validade nos processos
elementares e gen éricos da interpreta çã o, de si pr ó prio e do mundo,
pelo homem.
Raz ã o histó rica 99
V -í >

O pensamento hist ó rico é cient ífico, portanto, à medida que


. £ <- .
ÇJj V
procede metodicamente. E ele procede metodicamente à medida J í * .

s
que as fundamenta ções de suas pretensões de validade se tornam
parte integrante da própria hist ória . As hist órias sã o especifica -
mente cient íficas, por conseguinte, quando a fundamentaçã o siste-
má tica de sua pretensão de validade é parte essencial delas mesmas,
ou seja, quando elas são narradas de forma contirmamente funda-
J\
mentada.
Narrar fundamentadamente , como forma especif ícamente cient í-
fica do pensamento hist ó rico, significa pois, proceder metodica -
,

mente ao rememorar o passado humano a fim de orientar o agir e o


sofrer no tempo presente . Esse procedimento met ódico ser á des-
crito a seguir . Não se busca , contudo, apresentar o m é todo hist óri -
co como um sistema sofisticado e altamente complexo de regras de
pesquisa , mas apenas abordar os princ ípios da metodização do
pensamento hist órico como princípios. Tenciono explicitar a ciê n -
cia como m é todo no ponto em que a especificidade do pensamento
hist órico est á fundada , isto é, nas opera ções gerais e elementares da
consciê ncia histórica , da narrativa hist ó rica . Trata -se da capacidade
do pensamento hist órico de garantir, mediante fundamentaçã o, a
validade das sentenças que enuncia sobre o passado humano.
Est á definido, assim, o percurso das considera ções que se se-
guir ã o: desejo refletir sobre as três perspectivas, com as quais a
validade das hist órias é garantida mediante fundamenta çã o, per -
guntando- me se e como ocorre, pode ocorrer e deve ocorrer, nelas,
a metodizaçã o.
No caso do pensamento hist ó rico, esse procedimento é pouco
problem á tico, quando se trata da rela çã o com a experiência. ( Da í
ser o respectivo item relativamente curto.) Nesse particular, os
problemas específicos à história como ciê ncia n ã o se situam no
plano dos princ ípios, mas sim na transposiçã o diferenciada desses
princípios para um sistema coerente de regras de pesquisa denomi -
nado “ mé todo histórico”. N ão é essa , contudo, a quest ã o em debate
aqui ; trat á-la-ei mais adiante. O ponto, aqui, restringe-se a caracte-
rizar a abrangê ncia e a especificidade da metodiza çã o do pensa -
mento hist ó rico no momento de sua constitui çã o nos processos
existenciais da narrativa histórica. Somente quando isso tiver sido
Raz ão histó rica 101

seus conte ú dos empíricos são fundamentadas, destarte, com a ope-


ra çã o tipicamente hist ó rica da valida çã o.
A pertin ê ncia empí rica das hist órias funda-se, pois, no fato de
que seus enunciados sobre o que foi o caso, no passado, estã o ga-
rantidos pela experi ê ncia do que ainda subsiste, no presente, desse V;'
passado, referido como testemunho fundamentador da
realidadev
passada. O â mbito dessa experi ê ncia é amplo: vai do ouvir dizer à - ,

^^
^
documenta çã o precisa . Nada do que pertence ao âmbito dessa ex -
periê ncia pode ser fundamentado fora das situa ções existenciais em
que as hist ó rias são narradas: à experiê ncia pertence tudo o que o
narrador e seus destinat á rios entendem como fazendo parte dos
dados reais de sua vida pr á tica concreta.
Como ciê ncia, a hist ó ria baseia-se no fato de que a opera çã o
basilar do testemunho pela experiê ncia é metodizada. Uma vez
metodizada de maneira especificamente cient ífica , essa opera ção
basilar assume a forma da pesquisa hist órica. O pensamento histó-
rico faz-se cient ífico ao se submeter, por princípio, à regra de tor -
nar o conte ú do empírico das histórias controlá vel, ampliá vel e
garantirei pela experiê ncia.
O que ocorre com a rela ção das histórias com a experi ência
quando ela se transforma em pesquisa ? Em primeiro lugar, essa
relação torna-se visível: os fatos histó ricos são distinguidos dos
significados que lhes sã o atribu ídos no contexto interpretativo de
uma hist ória. Sua facticidade pura torna-se objeto de uma operação
intelectual própria. Com isso, o que se chama de “ experi ê ncia ”,
como instâ ncia autenticadora da validade de sentenças empíricas, é
precisado e restringido: experi ê ncia é , por princípio, apenas o que
_
pode e deve ser reconhecido, por qualquer um , como um dado em -
pírico.
A metodização da relaçã o das hist ó rias com a experi ê ncia sob
a forma da pesquisa é , portanto, inicialmente restritiva: os histo-
riadores abstraem da atribuiçã o de significado e da constituiçã o de
sentido elementos essenciais do pensamento hist ó rico e isolam o
conte ú do empírico das hist ó rias. Dessa maneira eles limitam o â m -
bito das sentenças capazes de validação sobre o que efetivamente
foi o caso, no passado. Admitir-se -iam como experi ê ncias apenas
as constatações que pudessem ser controladas, intersubjetivamente,
quanto à sua credibilidade como testemunhos do passado. Teste -
Razã o histó rica 103

hist óricas podem ser desmentidas pela inst â ncia controladora


*
das fontes. E justamente nesse processo que a pesquisa hist ó ri -
ca leva a novo saber , a conhecimentos surpreendentes sobre o
passado. A rela çã o metodizada com a experi ê ncia do pensamento
histórico-cient ífico conduz a um saber com o qual, pode-se mes-
mo dizer , nunca se teria sonhado.
Se submetermos a narrativa hist órica à regra met ódica da pes-
quisa hist órica, se examinarmos e controlarmos os fatos do passado
mediante a experiê ncia do que deles ainda subsiste, d á-se, ent ã o,
algo de decisivo para o car á ter científico da narrativa histórica: as
hist ó rias, sob a diretriz de uma relação met ódica com a experiê n -
cia, inserem -se, com seus conte ú dos factuais, na linha do progresso
do conhecimento.
O que se quer dizer com “ progresso do conhecimento”? As
hist ó rias que se baseiam em pesquisa apresentam o passado huma-
no como um constructo de fatos que pode ser superado, a todo
instante, por novas pesquisas. Essas hist ó rias sã o sempre relativas a
outras, melhores; elas são provisórias, elas se superam, remetendo
sempre a novas pesquisas, que trazem novos resultados e que tor -
nam necessá rias novas hist ó rias.
A pesquisa serve para garantir o conte ú do empírico das hist ó-
rias. Isso n ão quer dizer, poré m , que as hist órias baseadas em pes-
quisa proclamem, de uma vez por todas, o que foi o caso, de modo
que a orienta çã o no tempo que se fizesse com elas fosse definitiva
e infal ível para todo o sempre. Por certo se pode confiar nos fatos
referidos por essas hist ó rias na medida em que se baseiam em ex-
peri ê ncias do que ainda subsiste, no presente, do passado. De outro
lado, contudo, o procedimento metódico da pesquisa coloca em
movimento um processo cont ínuo de obten çã o de informações
novas e melhores sobre o passado humano, cuja interrupção é im-
possível enquanto a narrativa das hist órias estiver submetida à re-
gra met ódica do controle e da ampliação do conte ú do empírico das
hist órias mediante experi ê ncia.
A metodizaçã o da rela ção com a experiê ncia obt é m , portanto,
um resultado paradoxal: as hist órias cujo conte ú do empírico est á
particularmente bem assegurado pela pesquisa sã o, com respeito a
esse mesmo conte ú do, por princípio, hist órias relativas. Elas menti -
riam , se se apresentassem como definitivas, ou seja, justamente
104
J õ rn Rusen

como o senso comum espera que aconteça , quando é a ciê ncia que
fala. A verdade das histórias cujo conte ú do empírico se baseia em
experi ê ncia torna -se uma grandeza evolutiva , quando a rela ção
com a experi ência se faz de modo metódico e sistem á tico: ela é
absorvida pelo processo de crescimento constante de saber hist órico.
Pode-se denominar a passagem à versão cient ífica da narrativa
hist ó rica, no que diz respeito a seu conte ú do empírico, de passa-
gem de uma certeza insegura para uma certa insegurança. Insegu -
ramente certas são todas as histórias cuja pertin ê ncia empírica
pretende que n ã o existe razã o alguma para ter d ú vidas. Esse é o
caso da maior parte das hist ó rias narradas na vida quotidiana . Essa
certeza - que é també m autoritá ria - é superada (e reconhecida,
subseqiientemente, como insegura ) quando chega o momento de se
elencar as razões que devem demonstrar ter ocorrido assim, e n ã o
de outra forma , o que se enuncia como tendo sido o caso no passa -
do. Por princípio, sempre que as razões sã o enumeradas, a perti -
nê ncia empírica das hist ó rias adquire o estatuto de uma certa
insegurança, pois a pesquisa , como processo de fundamenta çã o,
revela-se como procedimento constante de correçã o de erros e ob-
ten çã o de novas informações sobre o passado, de forma tal que não
se pode afirmar, definitivamente, que esse ou aquele episódio ocor -
reu assim e não de outro modo.
O pensamento hist ó rico somente se insere no movimento do
progresso do conhecimento quando destaca expressamente o con -
te ú do empírico das histórias e distingue-o das normas que lhe atri-
buem sentido e com as quais, a partir dos fatos, se constroem
( mediante narrativa) as histórias. Essa distin ção tem certamente
algo de artificial , j á que os fatos, no processo da narrativa, nunca
sã o puros em si, mas articulados em um contexto temporal que é
mais que meramente factual: nas histó rias, os fatos sempre est ão
inseridos nas determina ções de sentido da vida prá tica atual . So-
mente quando os fatos são artificialmente isolados das normas que
lhes atribuem significado para a determinaçã o de sentido da vida
prá tica atual é que as opera ções met ódicas específicas da pesquisa
hist órica põem -se e mant ê m-se em ação. As histó rias baseadas
nessas opera ções adquirem uma característica especial: elas sã o
verdadeiras (no sentido de pertinentes empiricamente) també m para
aqueles que n ã o aceitam sua pretensã o de sentido e significado.
Razã o hist ó rica 105

Se o conte ú do empírico de uma hist ória revela os traços da


pesquisa hist órica a que é devido, ent ã o pode ser isolado da rela çã o
estrita com as normas atribuidoras de significado e com as idéias
instituidoras de sentido em que se encontra, pois é parte de uma
hist ó ria . No pensamento hist órico-cient ífico, essa relação n ã o é
assim t ão estrita que os fatos hist óricos nã o possam adquirir uma
certa vida aut ónoma: como resultados de pesquisa , eles ganham
uma utilidade que vai além da finalidade historiográfica inicial por
força da qual foram obtidos. Enquanto metodicamente garantidos,
podem migrar para outros contextos historiográficos, sendo associa-
dos a outros fatos, pesquisados para finalidades historiogr áficas
diferentes, para constituir novas histórias. ( A transposição n ão
pode acontecer, no entanto, de maneira arbitr á ria, uma vez que as
perspectivas de significado e de sentido se referem a tipos diferen-
tes de fatos e n ão- coincidem.) Como objeto de uma pesquisa hist ó-
rica regulada metodicamente, o conte ú do empírico das hist órias
torna-se conte ú do de um saber hist órico que n ã o se esgota nas his-
t órias que devem ser narradas para satisfazer as carê ncias atuais de
orienta ção no tempo. A pesquisa, como processo de obtençã o de fatos
sobre o passado, n ão pode ser pensada sem essas car ê ncias de
orientação, mas produz resultados que v ã o bem al é m delas. Como
ciê ncia, a história fornece sempre mais saber hist órico do que é
estritamente necessá rio à orientação temporal da vida prá tica atual .
Com a pesquisa, o saber hist órico desenvolve vida pró pria , su-
\
pera a funcionalidade historiogr áfica por for ça da qual foi produzi -
do e_ torna -se - para empregar o termo t écnico adequado - livre de
valores .
Essa expressã o é extremamente ambígua e ser á explicada com
mais vagar 11a ú ltima parte deste capítulo. No momento, ela quer ^^
dizer apenas que os fatos do passado, controlados e garantidos pela
experiência, podem ser inseridos em constelações historiogr áficas
diferentes, a que conferem pertin ência empírica, com (relativa)
independê ncia quanto às diversas pretensões de validade normativa
e narrativa daquelas. ( Um testemunho liter á rio dessa autonomia do
conteú do empírico das hist ó rias é dado pelos textos que , em si, nã o
sã o histórias no sentido técnico do termo, mas apresentam resulta-
106 J õ rn Rusen

dos de pesquisa produzidos para hist órias possíveis, ainda n ã o re-


digidas como tais.)
Muitos historiadores tendem a ver, no superavit de saber hist ó-
rico produzido pela pesquisa hist órica para al é m das carê ncias de
orientaçã o da vida pr á tica atual, o produto propriamente dito da
ciê ncia da hist ória. Mas ser á que a ciência da hist ória libera o pen -
samento hist órico dos liames da atribui çã o de significado e da
constitui çã o de sentido, em que o narrar hist órias insere todo o
saber hist órico, ao servir à orientaçã o da vida humana pr á tica no
tempo ?
Essa pergunta tem mais do que um mero alcance ret órico. N ão
resta d ú vida de que a pesquisa tem vida pr ó pria na produ çã o do
saber factual, sem o qual os fatos não se encaixariam no contexto
de uma hist ória nem se refeririam às carências de orienta çã o da
vida prá tica . Muitos trabalhos de pesquisa n ã o são realizados com
a finalidade de se escrever uma hist ória, mas para preencher uma
lacuna de conhecimento, para resolver um problema resultante de
pesquisas anteriores ou , simplesmente, porque se est á curioso por
descobrir o que, afinal, foi o caso no passado. No entanto, só se
pode reconhecer à pesquisa autonomia, no sentido de independ ê n -
cia das opera ções intelectuais hist ó ricas da atribuição de significa -
do e da constitui çã o de sentido, se se deixar de ver que ela nada
mais é do que um procedimento met ódico de garantir a validade de
hist ó rias. Muitos pesquisadores tendem a considerar sua pr á tica
como puro fim em si mesmo. Eles reconhecem nos resultados da
pesquisa hist órica o estatuto de um saber que possui sentido e valor
por si mesmo, at é mesmo independentemente de sua aplicação
historiogr áfica. N ão podemos negar a essa concepção uma motiva-
ção para o desempenho da pesquisa . Afinal , o procedimento para a
obtenção metodicamente regulada de fatos hist óricos é diferente do
procedimento pelo qual a historiografia produz um texto, com o
qual é possível a orienta çã o no tempo.
Os fatos obtidos pela pesquisa seriam , todavia, pura e sim-
plesmente sem sentido e significado se n ão fossem obtidos como
fatos destinados à transformação em hist ó rias, isto é, em rememo-
rações indispensá veis à vida . Em sua pura facticidade , os fatos
históricos n ão sã o nada hist ó ricos; como informa ções sobre o que
foi o caso no passado, eles ainda n ã o representam o que só é obtido
Raz ã o histó rica 107

pela pesquisa hist ó rica, ou seja: um saber sobre o passado humano,


no qual este é conhecido como hist ória , no qual, por conseguinte,
os “feitos” sã o insculpidos no contexto de significado e de sentido
de uma “ hist ó ria ”.
Naturalmente, os fatos obtidos pela pesquisa podem ser inseri
dos em outros contextos de saber e conhecimento, como, por exem-
-
plo, nas formas de pensamento t ípicas das ciê ncias n ã o-hist óricas,
nas quais se utiliza o saber hist ó rico sem consideração particular
pelo cará ter histórico desse saber. Apesar disso, a pesquisa hist ó ri -
ca vive de que os fatos obtidos por ela se inserem ( potencialmente)
em histó rias com significado e sentido. Se a ci ê ncia da hist ó ria se
entendesse como um empreendimento destinado exclusivamente a
extrair informações dos vest ígios do passado humano (das fontes,
pois) sobre o que foi efetivamente o caso no passado, ent ã o ela
seria t ã o sem sentido quanto se fosse vista isoladamente do con -
texto narrativo em que é conformada por idéias constituidoras de
sentido e normas atribuidoras de significado.3 Os resultados da
pesquisa hist órica nunca sã o tomados por si sós, mas sempre como
produtos das fontes em determinados contextos historiogr á ficos.
Alé m disso, uma compreensã o da ci ê ncia da hist ó ria em que pre-
valecesse uma “ neutralidade de valores” dos fatos pesquisados
abstrairia dos fundamentos existenciais do pensamento hist ó rico;
sem esses fundamentos, poré m , n ã o se pode mais entender por que
o pensamento histórico deveria submeter-se à disciplina da pesquisa.
Quanto mais claramente o conte ú do empírico das hist ó rias
aparece como quest ão de uma regulaçã o met ódica do pensamento
histórico e pode ser distinguido dos demais componentes impor-
tantes das hist ó rias, tanto mais é necessá rio destacar a interdepen-
d ê ncia entre todos esses componentes. Do contr á rio surgiria a falsa
impressã o de que a hist ó ria, como ci ê ncia , nada teria a ver com
esses outros componentes e limitar -se-ia a recuperar fatos do pas-
sado humano dentre os seus vest ígios ainda subsistentes no pre-
sente. É no contexto dessa interdepend ê ncia que o trabalho de

J
Esse tipo de isolamento est á presente na famosa tese de Max Weber, segundo a
qual a histó ria seria, tomada por si só, sem as relações valorativas do historiador ,
um “caos”, uma “ infinitude sem sentido do fluxo do mundo” (ver anteriormente
p. 68 e nota 13 do cap í tulo II.)
108
J õ rn Rusen

pesquisa desenvolve sua potencialidade: a da pertin ê ncia empírica


específica do pensamento histórico, quando metodiza sua relação
com a experiê ncia .
Em resumo, a quest ão do significado da metodização da rela-
çã o com a experi ê ncia como constituiçã o metodol ógica da hist ó ria
como ciê ncia pode ser respondida da forma seguinte: as hist ó rias
tornam-se cient íficas, com respeito à sua pertinê ncia emp írica, se
suas narrativas obedecem às regras da pesquisa hist ó rica. Essas
regras submetem o pensamento histórico à obrigação de tornar o
conte ú do emp í rico das hist órias control á vel , ampli á vel e garantirei
pela experiência. A história como ciência produz, com essa meto-
dizaçã o da relaçã o com a experi ê ncia , um progresso constante do
conhecimento.

A metodização da relação com as normas

Com seu conteú do significativo, as hist órias buscam , 11a vida


humana prá tica atual, determinados objetivos com respeito ao futuro.
Esses objetivos, essas inten ções t ê m de ser formuladas especifica-
mente, para serem compat íveis com as mudanças experimentadas
do homem e de seu mundo. O conteú do significativo de uma história
é plausível , por conseguinte, à medida que os processos temporais
do passado, tornados historicamente presentes, possam ser conce-
bidos como pré-hist ó ria dos processos temporais nos quais os des-
tinat ários das hist órias t ê m a intenção de realizar suas ações.
Para as inten ções a se realizarem no futuro, sã o determinantes
as normas que estabelecem o que deve suceder. Tais normas trans-
formam a intencionalidade do agir humano em inten ções determi -
nantes dã a çã o. São normativamente pertinentes as hist ó rias que,
por conseguinte, fundamentam 0 significado do passado, 110 pre-
sente, com normas que est ã o na base das inten ções determinantes
do agir de seus destinat á rios (assim, por exemplo, para os inte-
grantes de uma determinada classe social que tencionem libertar -se
combativamente do jugo de uma outra classe, todas as histó rias,
nas quais o passado apareça como luta de classes, sã o normativa -
mente pertinentes).
Raz ã o histó rica 109

Hist órias cujo significado é posto em d ú vida t ê m de funda-


mentar por que razã o o conhecimento daquilo que trazem do pas-
sado humano para o presente é importante para a orienta çã o da
vida humana pr ática atual no tempo. Elas só superam as d ú vidas
quando demonstram que as normas requeridas para avaliar seu
significado são igualmente normas que os cé ticos utilizam para
fundamentar suas pró prias intenções de agir futuro. Se as hist órias
forem postas em d ú vida quanto à import â ncia do passado por elas
trazido para o presente, para a orienta ção futura do agir atual , tais
d ú vidas somente podem ser resolvidas se e quando forem explici -
tadas e fundamentadas as normas que tornam o presente aberto ao
passado e o passado articul ável com o presente. O que significa
regular metodicamente a rela ção das hist órias com as normas, de
maneira tal que d ú vidas quanto ao significado das hist ó rias sejam
sistematicamente resolvidas? Existe, na prá xis do historiador , algo
que demonstre que a relação do pensamento hist órico com as nor -
mas possa efetivar -se de modo cient ífico?
Com efeito, analogamente à pesquisa com relação à experiê n -
cia, há um modo especificamente científico da relação com as
normas no pensamento hist órico: a reflexão sobre o referencial .
Os historiadores nã o discutem apenas se determinadas asser -
ções sobre o que foi ou nã o o caso no passado est ã o ou n ã o garan -
tidas empiricamente, mas polemizam també m - e intensamente -
sobre se esses fatos (supondo-se que tenha havido acordo sobre
eles) sã o postos na perspectiva correta. O debate cient ífico ocupa-
se igualmente, e por certo não de modo marginal , em saber se, e at é
que ponto, os fatos obtidos mediante pesquisa se articulam com
outros fatos para formar um processo temporal coerente que cor -
responda às car ê ncias de orientaçã o (ou à s orientações já ativas) no
tempo presente. Esse processo temporal é conhecido correntemen -
te, na sua vincula çã o com o presente , como “ perspectiva hist órica”.
Como cientistas, os historiadores polemizam també m sobre a cor -
reção das perspectivas históricas em que inserem os fatos passados
obtidos mediante pesquisa. Tais pol ê micas entre cientistas seriam
vãs, se não fossem travadas sob estritos crit é rios cient íficos. Há
regras met ódicas a serem obedecidas pelo debate sobre perspecti -
vas, de modo que ele ocorra de forma especificamente cient ífica ?
Em resposta a essa pergunta pode-se remeter ao arsenal de argu -
110
Jõ rn Rusen

mentos utilizado pelos historiadores em suas pol ê micas acerca da


perspectiva correta , que transcorre perfeitamente de acordo com
regras, isto é, em passos argumentativos control á veis. A expressão
“reflexão sobre o referencial ” designa esse arsenal argumentativo e
suas regras de funcionamento.
“ Reflex ã o sobre o referencial ” consiste tanto numa regulação
^

doprocesso do conhecimento histórico, pela qual as perspectivas


desse conhecimento sã o evidenciadas e articuladas com as opções
normativas da vida prática dos historiadores e de seus destinat á rios,
como no estabelecimento de uma rela çã o de crítica e complemen-
taridade argumentada entre as m ú ltiplas perspectivas que necessa-
riamente constata.
Quanto à relação com as normas, o primeiro passo da cientifi-
cidade do pensamento histórico ocorre com a compreensão de que
os fatos do passado só podem ser trazidos ao presente mediante
uma ordenação de perspectivas chamada “ hist ó ria ”. Toda hist ória
tem uma perspectiva . O passado humano pode, pois, por princí pio,
aparecer como história em diferentes perspectivas, malgrado o
mesmo conjunto de fatos. Com o passo da reflex ão sobre o refe-
rencial , na qual a perspectiva de cada conhecimento histó rico é
evidenciada , a ci ê ncia da hist ória d á , quanto à pertin ê ncia normati -
va das hist órias, um passo an álogo ao que deu com respeito à pes-
quisa na rela çã o com a experiê ncia: a garantia de validade das
hist órias em referê ncia à relaçã o com a experi ê ncia levou , de in í-
cio, à constatação de que o conte ú do empírico das hist ó rias é , por
princípio, super á vel e aperfei çoá vel . O mesmo acontece com o
reconhecimento do car á ter perspectivo do conhecimento hist órico:
é nele que malogram todas as pretensões de exclusividade norma -
tiva que desembocariam, por sua vez, 11a pretensão de que as nor -
mas atribuidoras de significado o fariam para a história em sua
totalidade, vale dizer: para uma história que, em princípio, n ã o
careceria de complementa çã o alguma.
També m no caso da regula ção da rela ção com as normas, a
cientificiza çã o do pensamento hist órico significa que se deu o
passo de uma certeza insegura para uma certa insegurança. Exis-
tem hist ó rias que, pelo tipo de sua rela çã o com as normas, d ã o a
imagem de que reproduziram o passado, hoje , tal como ele real -
mente aconteceu , sem deixar margem de d ú vida acerca de seu
Raz ã o histó rica 111

significado para o presente . Ao revés, todas as hist ó rias que ten -


cionam fundamentar sistematicamente seu teor normativo admitem
logo de in ício que o significado que atribuem ao passado por elas
apresentado aos contempor â neos sempre pode ser avaliado de outra
maneira . A “certeza insegura ” é um dogmatismo da narrativa hist ó-
rica que opera como se n ã o existisse qualquer outra perspectiva
possível , diferente da que adotou sobre o passado. Proceder cienti -
ficamente significa superar o dogmatismo, ou seja, dar o passo para
a incerteza segura de que n ã o h á uma perspectiva total que abranja
tudo. Ela n ã o existe, porque a rela çã o contempor â nea com as nor -
mas, com a qual as histórias ( mediante representações de continui -
dade) rememoram o passado, n ão pode de modo algum realizar -se
aqu é m ou independentemente dos referenciais adotados pelos his-
toriadores e seus destinat ários na vida prá tica presente.
No lugar da falsa segurança do dogmatismo na relaçã o com o
presente, entra , no â mbito da regula çã o especificamente cient ífica
da relação das histórias com as normas, a relatividade dos referen -
ciais. Essa relatividade inaugura a possibilidade de argumentar-se
racionalmente sobre as perspectivas do conhecimento hist órico.
O significado que é atribu ído ao passado pelas hist órias, no
contexto de sua relação com o presente , só pode ser fundamentado
na medida em que essa rela çã o com o presente for explicitada e
tornada plausível com base nas normas que, como atribuidoras de
significado, sã o relevantes para ela . Com tal explicitaçã o, fica claro
que se trata de pontos de vista nos quais car ê ncias e interesses
foram transpostos para intenções e, como tais, expressos. Se as
pretensões de validade das hist ó rias devem ser fundamentadas de
forma met ódica quanto a seu teor normativo, ent ão isso nada mais
quer dizer do que n ã o perder de vista justamente essa depend ê ncia
do pensamento hist ó rico com respeito às carê ncias e aos interesses
de seus sujeitos. A cientificiza çã o do pensamento hist ó rico no pla -
no da rela çã o com as normas n ã o é possível sem se admitir o enrai-
zamento desse pensamento na vida pr á tica contempor â nea e lev á -lo
a sé rio 11a regula çã o met ódica que torna cient í fico o pensamento
hist órico. As normas atribuidoras de significado t ê m de ser levadas
em consideração 110 ponto exato em que surgem: nas necessidades
de orientaçã o contemporâ nea dos homens, para poderem viver.
Essa orienta çã o est á sempre condicionada por carê ncias e interes-
112 Jorn Rusen

ses que sã o satisfeitos no agir ou prejudicados quando a a çã o é


impedida. Somente quando as normas, que atribuem significado às
hist órias cuja pertinê ncia normativa se analisa, sã o situadas na vida
pr á tica de seus autores e destinat á rios fica-se sabendo do que se
trata, quando se fala em perspectivas das histó rias: trata-se do refe-
rencial adotado pelos autores e destinat á rios das hist órias na vida
social de sua época .
E a partir do referencial presente que se elabora a perspectiva
do passado em que este, afinal, aparece como hist ória. “Referencial”
quer dizer o modo e a maneira com que os homens (indivíduos,
grupos, sociedades, culturas) experimentam e interpretam sua pr ó -
pria situação em intera çã o com os demais. Como experiê ncia de
chances prévias de agir, eles são objetivos; eles são transpostos, ao
mesmo tempo, poré m, para inten ções de agir , ou seja , sã o també m
subjetivos. Na elabora çã o de perspectivas para as hist ó rias, o refe-
rencial de seus autores e destinat ários atua mediante normas, com
as quais eles exprimem a experiê ncia social das oportunidades de
a ção e das experi ê ncias de sofrimento transpostas para as intenções
do agir e para a resistê ncia ao malogro. S ão també m essas normas
que decidem o que é importante saber do passado e o que pode ser
esquecido.
<3-
Em muitas hist ó riasj essa depend ê ncia da perspectiva histórica
quanto a referenciais, mediada pelas normas, é t ã o natural , que ela
nem se torna consciente; dessa forma, uma fundamentação especí-
fica da perspectiva adotada em cada uma delas e a abordagem do
referencial dos autores e destinat á rios - do qual a perspectiva de-
corre - parecem totalmente supérfluas. No entanto, se as hist órias
devem ser narradas de modo especificamente cient ífico quanto a
seu significado, ou seja , se as pretensões de validade relativas a
esse significado devem ser fundamentadas na forma de uma regu -
la çã o metódica , ent ã o a perspectiva dessas hist ó rias tem de ser
posta em evid ê ncia, as respectivas normas atribuidoras de sentido
tê m de ser enunciadas e os referenciais sociais inseridos nessas
normas t ê m de ser explicitados.
Nesse procedimento, o conteú do significativo das hist órias é
isolado de sua articula çã o íntima com o conte ú do empírico e anali -
sado por si . Esse isolamento (artificial) pode deitar certa luz sobre
Raz ã o histó rica 113

a assim chamada “ neutralidade de valores’ do conhecimento


'

hist ó rico.
Isolados um do outro os conte ú dos emp í rico e normativo das
hist ó rias, fica claro que nenhuma consequ ê ncia narrativa decorre
do puro conte údo empírico de uma hist ória. A demonstração, pela
pesquisa , do que foi o caso no passado n ã o enseja conclusão algu -
ma sobre os elementos normativos do agir atual com respeito ao
futuro. (J á Max Weber havia tratado dessa quest ão com toda a cia - \ - '
reza necessá ria).4 Fica claro també m que “ neutralidade de valores”
n ã o quer dizer que as normas e os valores n ã o desempenhem papel
de import ância no conhecimento hist ó rico e que o historiador n ã o k

tenha de ocupar -se deles . Pelo contrá rio! Os fatos do passado obti - ^
dos pela pesquisa empí rica somente se articulam para formar o '

constructo significativo de uma hist ória, isto é, o conhecimento


hist ó rico só é possível se e quando se atribui aos fatos um signifi - V
^
cãdo para a orientação 11a vida prá tica 110 tempo presente; sem o
recurso a normas e valores , isso é totalmente imposs ível .
Somente quando os conteúdos empírico e normativo forem
isolados artificialmente e diferenciados um do outro pode-se indi -
car com precisã o maior do que trata a “ neutralidade de valores” do
conhecimento hist órico. O conhecimento hist ó rico est á livre de
valores 11a medida em que n ã o se pode deduzir de seu conte ú do
empírico instru ção alguma aplicável ao agir atual. Pode-se dizer ,
pois, que nenhuma normatividade decorre diretamente da pertin ê n -
cia empírica das histórias. Deve-se acrescentar, todavia, que as
normas atuam nos processos do conhecimento hist ó rico na medida
em que regulam a relação com o presente, ú nica a possibilitar que
os fatos do passado adquiram perspectiva hist ó rica , e na qual estes
estejam conformados como uma “história” cognoscível.
A primeira etapa da metodiza çã o da rela çã o normativa é , por
conseguinte, a da desestabilização. A certeza que as hist órias pos-
suem quanto a seus conte ú dos significativos, quando esses não
est ão fundados em normas inquestionadas, torna -se insegura , pois
sã o as próprias normas atribuidoras de significado que passam a ser
objeto de an á lise e a revelar -se como pontos de vista articuladores

4
Weber, Die “Objektività t” sozialwissenschaftlicher und sozialpolitisclier
Erkenntnis, Gesammelte Aufsãtze zur Wissenschaftslehre (4 ), p. 149 ss.
116
J õ rn Rusen

maior de generalidade . Elas exprimem, no contexto das posições


assumidas ao longo da socializa çã o humana , da luta social por
oportunidades de vida, pontos em comum com os referenciais dos
homens que vivem em sociedade e que concorrem entre si. Tais nor-
mas n ã o calam simplesmente os referenciais (a paz dos cemit é rios
n ã o é uma norma adequada à vida!), mas exprimem uma rela çã o
especial entre eles; os diversos sujeitos sã o integrados em rela ções
sociais supra-ordenadas, inseridos em um contexto social que con-
sidera os diferentes referenciais adotados pelos diversos sujeitos
(indiv íduos, grupos, mas també m macroestruturas) como seu pró-
prio referencial comum . Se essas relações sociais supraordenadas
forem enunciadas de modo normativo, os conflitos que resultam da
diversidade de referenciais no interior das relações poderão ent ã o
ser solucionados de forma consensual , mediante a aplica çã o de
tais normas. A solu çã o só é possível , contudo, se a rela çã o social
supra-ordenada tiver sido acatada pelas partes em conflito como
uma norma aplic á vel a todos, indistintamente. (Assim, por exem-
plo, no conflito social entre gê neros , considerando-se a norma da
humanidade como igualdade, pode-se criticar de maneira plausível
a desigualdade de oportunidades de vida e fundamentar uma redis-
tribuição dos papé is sociais do homem e da mulher).
Instaura -se, assim , na vida humana prá tica , da qual defluem as
diferentes perspectivas do conhecimento hist ó rico, a possibilidade
de encontrar-se pontos de vista nos quais essas perspectivas se in-
tegrem numa perspectiva abrangente. No plano da regulação metó-
dica do pensamento hist ó rico, pode -se falar de wn crit ério para a
capacidade de generalização de normas. Esse crit é rio fornece o
princípio regulativo da ampliação das perspectivas mediante a re-
flexã o sobre os referenciais, ou seja: poder e dever examinar as
normas que, nas rela ções atuais, vigem nas diversas perspectivas
hist ó ricas quanto a sua aptid ã o a serem integradas em normas e
sistemas de normas mais abrangentes. Com isso, as diversas pers-
pectivas poder ão igualmente ser integradas entre si, de acordo com
o significado das hist ó rias que manifestam .
Dependendo da inser çã o dos referenciais na realidade social ,
que conduz a diferentes relações normativas da narrativa hist órica
presente, é necessá rio recorrer a formas diferentes de sociabilidade
para descobrir uma perspectiva global que abranja esses referenciais.
Raz ã o histórica 117

No caso dos matizes individuais (por exemplo, pesquisadores de


temperamento diferente ), pode tratar -se de um pequenino passo
para al é m da perspectiva pessoal em direçã o a uma relaçã o social
imediatamente supraordenada ( por exemplo, pertencer à mesma
escola historiográfica, com um parâ metro comum de avaliação de
significados). Pode-se tratar , no entanto, de divergê ncias de refe-
renciais profundas, originadas em diferenças culturais marcantes.
Nessa hipótese, é muito mais dif ícil encontrar um par â metro ( nor-
mativo) comum , com o qual as diversas perspectivas hist óricas se
compensem e se deixem integrar em uma perspectiva mais abran -
gente. Em princípio, poré m , é sempre possível encontrar tal par â-
metro, pois lidamos com referenciais de sujeitos em um contexto
de intera çã o. E sujeitos só podem interagir se dispuserem de possi-
bilidades m ínimas de fazer entender aos outros, com os quais
interagem , o que buscam com suas a ções. Isso acontece mesmo no
caso de um conflito duro entre os sujeitos interagentes, pois eles
t ê m de pô r-se de acordo pelo menos sobre que itens ou pontos
quanto aos quais não podem entender-se.
Conseguindo-se relacionar as perspectivas com esses parâ me-
tros, de modo que elas se ampliem mutuamente (criticamente),
tornam-se possíveis as hist órias com as quais os sujeitos com refe -
renciais diferentes se orientam no tempo. Comparadas a essas
histórias, aparecem como muito menos plausíveis aquelas que con -
sideram os referenciais dos outros exclusivamente se se ajustarem
à sua perspectiva , sem que os demais possam identificar-se com
ela . Hist ó rias com perspectivas abrangentes t ê m boas razões para
pretender uma validade maior - validade essa que est á diretamente
relacionada a seu significado.
A metodiza çã o da rela çã o com as normas como processo de
cientificização do pensamento histórico significa, pois, que as
perspectivas das histórias podem ser ampliadas, se os referenciais
que lhes servem de fundamento forem refletidos de acordo com
pontos de vista normativos abrangentes. Essa reflexã o é feita sob a
id é ia regulativa da capacidade de universaliza çã o das normas. Ela
conduz ao controle, à ampliaçã o e à garantia do significado das
hist ó rias.
Na história como ci ê ncia, a amplia çã o das perspectivas me-
diante a reflexã o sobre os referenciais é um recurso de longo prazo,
118 Jorn Rusen

como a dura ção do progresso cognitivo na e pela pesquisa. Isso


deve ser entendido formal e materialmente: formalmente, na medida
em que a metodização da relação com as normas institucionaliza ,
no conhecimento histó rico, a reflex ã o sobre referenciais; material-
mente, porque, na vida real, adotam -se ininterruptamente novos
referenciais, que levam a novas perspectivas, e essas novas pers-
pectivas têm de ser integradas com as anteriores.

A metodizaçã o da rela çã o com as id éias

E possível garantir també m o sentido das histó rias mediante a


regula çã o met ódica do pensamento histórico ? Existem garantias
cient íficas para a validade do sentido que o conhecimento hist órico
vê nos processos temporais de mudan ça do homem e de seu mun -
do? Essas perguntas podem ser formuladas també m de modo pro-
vocativo: as senten ças hist ó ricas podem ser também cient íficas
justamente como históricas? Se somente a síntese narrativa da ex -
peri ê ncia e do significado constitui materialmente a “ hist ó ria ”, e se
essa síntese narrativa é um processo de formaçã o de sentido, no
qual id éias s ã o relevantes como pontos de vista má ximos da orien-
ta ção existencial dos homens, ent ã o a hist ó ria como ci ê ncia pode
responder a essas perguntas.
Os historiadores que se consideram cientistas tendem a ver a
formação de sentido na narrativa como algo estranho à ciê ncia. Por
isso rejeitam , no mais das vezes, a tese de que os conhecimentos
históricos que produzem , como cientistas, ou seja, as hist órias,
constituam , em princípio, constructos narrativos, narrativas. Os
historiadores preferem ver nas narrativas formas mais antigas de
historiografia e chegam a admitir que a consciência hist ó rica, antes
de se revestir dos paramentos do conhecimento cient ífico, tem al -
guma coisa a ver com a opera çã o mental e com o ato lingu ístico da
narrativa. Mas t ã o logo se trate de caracterizar seu of ício como
científico, distanciam -se de imediato da tese acerca do car á ter nar -
rativo dos conhecimentos que produzem, ou que o resultado final
que obt ê m se exprima em narrativas. Sentem -se provocados pela
argumenta çã o que parece colocar seus resultados de pesquisa e sua
historiografia no mesmo plano que uma historiografia que julgam
Raz ã o histó rica 119

ultrapassada (a exemplo da grande historiografia narrativa de um


Leopold von Ranke). Com todos os instrumentos modernos que
desenvolveu ( m é todos quantitativos, estruturais, sociológicos, etc.), o
pensamento hist ó rico afastou-se, e muito, do que se chama comu -
mente de historiografia “narrativa” e que se exemplifica , sobretudo,
com a prosa narrativa da historiografia cl ássica do século XIX.
Parece , pois, que a cientificidade da ci ê ncia moderna da hist ó-
ria se situaria n ã o mais no que ela narre, mas sim descreva , analise,
explique. A garantia de validade da hist ó ria como ci ê ncia teria ,
ent ã o, de trabalhar com a tese de que o sentido do conhecimento
histórico n ão se formaria em operaçã o narrativa alguma da consciê n -
cia e de que os elementos narrativos do pensamento hist ó rico viriam
a ser gradativamente abandonados.
Essa concepçã o pode ainda apoiar-se em um argumento a mais.
O processo da constituição de sentido pela narrativa teria a ver, em
primeiro lugar , com literatura, com a qual a ci ê ncia da hist ória de -
certo també m se ocupa, j á que seus textos para apresentar a história
possuem sempre um aspecto liter á rio. No entanto, a cientificidade
da história estaria prejudicada se os princí pios da recuperaçã o do
passado, como hist ó ria , no presente, fossem meros princípios da
narrativa liter á ria e n ã o os da racionalidade constitutiva da hist ó ria
como ciência, cujas operações met ódicas distinguem-se claramente
da narrativa literá ria . A qualidade do historiador n ã o poderia ser
medida pela qualidade de seu estilo, mas pela qualidade de seu
entendimento.
O pensamento histórico se torna cient ífico 11a medida em que,
em seu processo de constitui çã o de sentido, os elementos e fatores
narrativos diminuem e os elementos e fatores n ão narrativos aumen-
tam ? Respondida essa quest ão afirmativamente, 0 rigor cient ífico do
pensamento hist órico seria identificado com o afastamento das for-
mas existenciais concretas da consci ê ncia hist ó rica . Ora, tal resposta
causaria mais problemas do que solucionaria , pois o que significaria
dizer que a ciência da hist ória n ão narra mais, apenas descreve, ana-
lisa e explica , e continua procedendo historicamenteT

5
A esse respeito, leiam -se as argumentações nestes dois volumes: Kocka/Nipperdey
(eds.), Theorie wui Erzahlimg in der Geschichte (3); S. Quandt/H. Sussmuth (eds.),
Hisí orisches Erzàhlen. Formen und Funktioneiu 1982.
120
J õ rn Rusen

Em si , as opera ções da descri ção, da an álise e da explica ção


n ão são específicas da hist ó ria. Se forem elas entendidas como
modos do pensamento hist ó rico, e se a especificidade desse pen -
samento estiver estabelecida nas operações de constituição de sen-
tido da narrativa hist ó rica , ent ã o descrever , analisar e explicar sã o
modos da própria narrativa hist órica. Eles n ã o sã o exemplos para -
digm á ticos dos elementos não narrativos que concorrem para o
pensamento hist ó rico, em seu processo de cientificiza çã o , mas d ã o
testemunho de que a narrativa hist órica se torna especificamente
científica, e de que modo. Eles podem ser entendidos como mani -
festações de uma “ racionalidade narrativa”.6
Em que consiste essa “racionalidade narrativa”? Ela aparece ,
na pesquisa hist ó rica e na historiografia, como utilização de siste -
mas de pensamento de tipo te ó rico, de modelos, de tipos ideais -
em suma: de constructos intelectuais, que de forma alguma foram
extra ídos das fontes, mas sã o elaborados e constru ídos pelos histo-
riadores, a fim de poderem interpretar conceituai e historicamente
os resultados da pesquisa nas fontes. Nesse ponto, a cientificiza çã o
do pensamento hist órico relacionada com o sentido das hist ó rias
vem à baila: a metodiza çã o da constitui çã o do sentido hist ó rico
consiste em uma teoriza çã o construtiva, com a qual o sentido de
uma hist ó ria pode ser explicitado , control á vel pela explica ção, e
ampliado, aprofundado e garantido pelo controle.
O que significa, ent ão, regular científica e metodicamente a
síntese narrativa e instituidora de sentido entre experi ê ncia e signi -
ficado? A narrativa histórica torna-se especificamente cient ífica
quando obedece a uma regra que imponha ao narrador (historiador)
explicitar e fundamentar os crit é rios ( as id é ias) que determinam ,
para ele, a instituição de sentido, as seleções de fatos e significados
que se fazem com eles e a síntese entre ambos. Como fator de
constituição de sentido, as hist ó rias t ê m sempre um “fio condutor”,
seguido pelo desenvolvimento da narrativa, que fixa come ço e fim
e que estipula como se deve conceber a passagem do começo ao
fim. Ao longo desses fios condutores , a síntese entre experiê ncia e

6
Ainda sobre essa questão, ver Rusen , Wie kann man Geschichte verniinftig
schreiben ? Ú ber das Verh áltnis von Narrativit ã t und Theoriegebrauch in der
Geschichtswissensschaft, in: Kocka/Nipperdey (eds.), Theorie undErzàhlung (3 ).
Razã o histó rica 121

significado se produz como uma narrativa em fluxo. Tais fios con -


dutores determinam o que é representado como continuidade no
processo do tempo e estipulam quais orienta ções as hist órias po-
dem oferecer ou n ão. O cará ter científico do pensamento histórico
depende do modo como esses fios condutores organizam o conhe-
cimento hist ó rico. Esse car áter consiste na possibilidade de isolar
esses fios condutores e de explicit á-los e fundament á-los de forma
relativamente independente do conte ú do emp írico e do significado
concretos de uma hist ória. Em sua relativa autonomia, esses fios
condutores se revestem do car á ter de teorias hist óricas .
*
E discutível que se possa denominar “teorias ' tais explica ções.
'

Se se entender como teoria apenas um saber legaliforme, como


produzido por muitas ci ê ncias naturais, ent ã o esse conceito n ão
pode ser utilizado para designar o que se est á expondo aqui .7 Eu
contesto vigorosamente , por é m , que seja racional restringir o senti -
do do termo “ teoria" ao conhecimento de regularidades legalifor -
mes à moda das ci ê ncias naturais. No m ínimo essa pr á tica
terminológica contradiria o que se entende habitualmente por teoria
na linguagem comum dos cientistas, inclusive dos historiadores, ao
se distinguir entre “ teoria" e “empiria". Isso quer dizer que, nas
ci ê ncias, d ão-se diversas formas de enunciados:8 de um lado , sen -
ten ças relativamente gerais e abstratas, referentes a contextos
abrangentes e , de outro, senten ças empíricas concretas, que de-
signam o particular que , de certa maneira, preenche os contextos
gerais. Não resta d ú vida de que a ciência da história emprega am -
bos os tipos de senten ça ; é possível , pois, distinguir claramente as
sentenças teóricas das demais.
Se tomarmos o texto do capí tulo “Sistem á tica" da Teoria da
hist ória ( Historik) de Droysen , constataremos que o autor expõe as
diretrizes com as quais se ordena , sistematiza , esclarece, torna pen -
sá vel a incomensurá vel massa dos dados empíricos do passado
humano. Do mesmo modo abstrato e gené rico, Jakob Burckhardt
desenvolve, nos cap í tulos de suas Consideraçõ es sobre a hist ória

7
Ver també m H. Lubbe, Wieso es keine Theorie der Geschichte gibt, in : Kocka/
Nipperdey (eds.), Theorie wut Erzàhltmg (3), p. 65-84.
8
Ver anteriormente [ p. 16-17, Intr.] e J. Kocka. Theorieorientierung and Theori -
eskepsis in der Geschichtswissenschaft (5).
122
Jorn Rusen

universal, os três potenciais e os seis condicionamentos que formam


uma rede de pontos de vista diretores, com a qual o manancial da
experi ê ncia hist órica pode ser domesticado e ordenado. A elabora -
ção dessas perspectivas orientadoras requer igualmente que se
explicite e fundamente seus princ ípios determinantes; nada impe-
de, pois, que se chame a respectiva sistematização de “ teoria” ou
“ te ó rica ”. A tradição do uso terminol ógico da expressã o “teoria ”
confirma isso com toda clareza: as teorias eram os constructos
intelectuais com os quais se buscava explicitar e fundamentar os
crité rios determinantes do conhecimento. ’ É justamente isso que
'

ocorre quando os crité rios com os quais se arma o constructo signi-


ficativo de uma história a partir de fatos e normas são explicitados
e fundamentados, um a um e em seu conjunto sistem á tico, no curso
da metodização da constituição narrativa do sentido do pensamento
hist órico. Al é m disso, a pró pria pr á tica da ciê ncia da hist ória depõe
em favor do uso do termo “ teoria ”: fala-se constantemente de teo-
rias, entendidas como constructos intelectuais relativamente abs-
tratos e gerais, com os quais a experiê ncia histórica é apreendida e
ordenada , com os quais se organiza o trabalho concreto de pesquisa
empírica (ou seja : constructos que levam à pesquisa e n ão que des-
viem dela !). "1
A teorização do sentido das hist órias é inevitá vel, se o pensa-
mento hist ó rico se submeter às regras met ódicas do controle, da
amplia ção e da garantia de sua relação com a experiê ncia e do
significado que atribua à quelas. Em ambos os casos, como se viu
anteriormente, o conte ú do empírico e o significado est ã o submeti-
dos a regras met ódicas específicas, de forma que n ã o podem ser
sintetizados na unidade de uma histó ria sem um procedimento
met ódico pr ó prio.
Ao contr á rio desses procedimentos met ódicos diferenciados,
as histórias contadas de modo n ã o cient ífico apresentam suas de-
terminações de sentido, no mais das vezes, no fluxo mesmo da

9
Cf . J . Ritter , Die Lehre vom Ursprung und Sinn der Theorie bei Aristoteles,
Metaphysik und Polií ik. Studien zu Arisíoteles und Hegel , Frankfurt , 1969, p. 9-
33.
10
Cf. sobretudo Kocka , Theorien in der Sozial- und Gesellschaftsgeschichte (vide
nota 2 da Introdu ção).
Raz ã o histó rica 123

narrativa. Elas pressupõem as idéias com as quais organizam nar -


rativamente a experi ê ncia hist ó rica , em geral sob a forma de um
senso comum partilhado pelo narrador e por seu público. O narrador
apela a esse senso comum em suas hist ó rias, mas n ã o o apresenta
diretamente como tal, ou seja, como relativamente independente
daquilo que ele narra como sendo a histó ria do passado humano.
A pretensão de validade das hist órias narradas de forma não
cient ífica , ou de forma ainda n ão plenamente cient ífica , pode ser
caracterizada como “segurança incerta ': “segurança” na medida
*

em que o narrador e o p ú blico tê m como ponto de partida concepções


de sentido adotadas pelas histórias que são natural mente aceitas por
ambos; “ incerta porque essas concepções s ã o meramente pressu -
*
*

postas e não legitimadas.


Se a atribuiçã o de sentido foi metodizada , essa seguran ça apa -
rece logo como incerta, pois a d ú vida crítica tem de ser aplicada a
essas “ naturalidades prévias ’, o que acarreta que elas logo deixem
*

de ser “ naturais”. Nas palavras de Droysen, trata-se de “estabelecer


de novo e de modo seguro, mediante controle e fundamenta çã o”, 11
os crit é rios de sentido da narrativa hist órica. També m aqui, na pas-
sagem dessa certeza tornada insegura para a metodiza çã o da atri -
buiçã o de sentido, a consciê ncia hist ó rica permanece marcada por
uma certa inseguran ça . Essa inseguran ça decorre da necessidade de
explicitar e fundamentar os fatores determinantes do processo de
atribui ção de sentido da narrativa hist órica. Isto é, os prós e os
contras desses fatores t ê m de ser pesados por argumenta ções, nas
quais eles j á n ão são mais grandezas fixas de crité rios naturais,
ó bvios, da orienta ção temporal , mas est ã o expostos à força do me-
lhor argumento.
Ser á poss ível argumentar cientificamente no campo de con -
te ú dos t ã o carregados de prefer ê ncias e cosmovisões, como é o
caso da orienta çã o dos homens no tempo ? O projeto de uma meto-
diza çã o da atribui çã o de sentido n ã o seria uma forma h íbrida da
ci ê ncia especializada , que pretenderia possuir compet ê ncia de tipo
metaf ísico?
Diante dessa quest ã o, a ci ê ncia da hist ó ria n ão pode ceder à
tenta ção da megalomania nem subestimar-se . Ela n ã o deve sobre-

11
Droysen , Historik, in : R. Hubner (ed .) (4 ), p. 32.
124
Jõ rn Rusen

carregar-se com uma competência de atribuição de sentido cujo


elevado preço seria uma lament ável ideologização. E mesmo que
n ã o ocorra uma ideologizaçã o direta , o risco de manipula ções
ideológicas a que se expõe é muito grande. Tampouco deve ela
fugir da quest ã o que, afinal, decide sobre o cará ter histórico dos
conhecimentos que produz. Para que a ci ê ncia da hist ória seja pos-
sível, os crité rios de sentido que emprega t ê m de ser formulados
cientificamente, ou seja: têm de ser teorizados. Por essa razão é
necessá rio examinar o que significa teorizar, de modo especifica -
mente cient ífico, os crité rios de sentido decisivos para o conheci -
mento histórico.
Teoriza çã o n ão significa que os historiadores devam inventar
crité rios de sentido. (Se assim fosse, eles se tornariam “ profetas”,
como afirmou Max Weber ' 2 - um papel que lhes cairia mal.) Os
crit é rios em quest ã o j á est ão presentes no horizonte de sua forma -
çã o, dados previamente como realidades culturais de primeira or-
dem. O problema est á na maneira como são empregados, em serem
formulados pelo historiador de modo que sejam adequados à regu -
la çã o met ódica.
Regulação metódica significa, em primeiro lugar, que os fato-
res de constituiçã o do sentido do conhecimento hist ó rico podem ter
sua utilidade testada e ser , eventualmente , aperfei çoados. Tal teste
pode, com efeito, ser realizado; é possível constatar se e at é que
ponto as diretrizes do pensamento hist ó rico, explicitadas teorica-
mente , podem refletir , em si , o progresso cognitivo mediante a
pesquisa histórica e a ampliação de perspectivas mediante a refle-
xã o sobre referenciais. Os crit é rios da constitui çã o narrativa de
sentido são mais ú teis que outros uma vez que levam em conta ,
mais amplamente que quaisquer outros, esses dois movimentos do
pensamento hist ó rico. Mas é necessá rio dar um passo adiante: as
determina ções de sentido do conhecimento hist ó rico n ão aparecem
só depois de que se fez um levantamento met ódico dos fatos e uma
reflex ão met ódica sobre os referenciais. O levantamento e a refle-
x ão são feitos, isso sim , necessariamente a partir das diretrizes de
sentido do pensamento hist órico, são provocados e mantidos em
movimento por elas. A raz ã o disso é simples: as diretrizes de
12“
M. Weber, Wissenschaft ais Beruf, Gescmunelte Aufsátze zur Wissenschqftslehre
(4), p. 609.
Razã o histó rica 125

sentido - como carê ncias de orienta ção no tempo transpostas para


as quest ões hist ó ricas e para as perspectivas quanto ao passado
humano - est ã o na origem do pensamento hist órico.
Que crité rio permite decidir sobre a utilidade dos diversos fios
condutores de histórias, de modo que se possa dizer qual deles pro-
duzirá uma hist ó ria com mais sentido ?
O sentido de uma hist ó ria é medido pelo grau de seu ê xito em ,
estabilizar a identidade de seus destinat á rios ao longo das mudan -
ças no tempo. Constru ções significativas da continuidade hist órica
devem ser testadas, por conseguinte, para se saber se e até que y
ponto o “eu ” ou o “ n ós” a que se destinam vivenciam , por intermé-
dio do sentido das hist órias que elaboram, uma consolidação de
suas identidades. Consolidar identidades mediante consciê ncia
hist órica significa aumentar a acumula ção de experiê ncias signifi -
cativas das mudanças do homem e de seu mundo, no tempo, com
as quais e pelas quais os sujeitos humanos (11a prá tica das relações
sociais com os demais) exprimem quem sã o e o que pensam ser os
outros. De acordo com o campo da experiência hist ó rica que venha
a ser tido como significativo para o presente e que possa influenciar a
formaçã o da identidade como continuidade hist órica , mede-se tam-
bé m 0 horizonte temporal em que os agentes podem situar seu res-
pectivo “eu ”, no longo prazo, em meio àc s mudanças do mundo e de
si mesmos. Assim, por exemplo, histórias gerais podem reduzir a
grosseria das atitudes preconceituosas com respeito a outras cultu -
ras; elas podem mostrar que as mudanças transculturais, no tempo,
são relevantes para o auto-entendimento de seus destinat á rios, e
contribuir , assim, para que seus destinat á rios estabilizem sua iden -
tidade cultural mediante o reconhecimento do ser outro de outras
culturas, conscientes dos muitos pontos em comum . Essa concepçã o
hist ó rica da identidade cultural pode ser vista como uma consoli-
da çã o mais abrangente do que uma identidade que consista no me-
nosprezo do outro, com o fito de valorizar sua pr ó pria import â ncia
(como ocorre em muitas histórias que se articulam na l ógica do
nacionalismo).13

13
Cf ., a esse respeito, J . Riisen , Die Kraft der Erinnerung im Wandel der Kultur.
zur Innovations- und Erneuerungsfunktion der Geschichtsschreibung, in : B.
Cerquiglini/H.- U. Gumbrecht (eds.), Der Diskurs der Literatur- und Sprachhisíorie.
Wissenschqftsgeschichte a/ s Vorgabe einer Neuorientierung , Frankfurt, 1983.
126 J õrn Rusen

A consolidação da identidade consiste 11a amplia çã o do hori -


zonte nas experiê ncias do tempo e nas inten ções acerca do tempo,
no qual os sujeitos agentes se asseguram da permanê ncia de si
mesmos na evolu ção do tempo. O ponto extremo dessa consolida-
ção da identidade é a “ humanidade ”, como supra-sumo dos pontos
1

comuns em sociedade, com respeito à qual os diversos sujeitos


agentes, no processo de determina çã o de suas pró prias identidades,
determinam as dos outros de forma tal que estes se reconhecem
nelas. Esse crit é rio de sentido, “ humanidade”, fornece o parâ metro
para se constatar a consolidação da identidade em que desembocam o
progresso cont ínuo do conhecimento mediante a pesquisa histórica
e a amplia çã o cont í nua das perspectivas mediante a reflex ã o
hist ó rica sobre referenciais. Conseguiu -se, assim, um princípio
com o qual a institui çã o de sentido pelo conhecimento hist ó rico est á
metodicamente regulada , ou seja, com o qual ela pode ser organiza-
da como forma especificamente cient ífica do pensamento hist órico.
A quest ã o sobre se e como o sentido das hist órias pode ser
fundamentado de modo especificamente cient ífico mediante regras
met ódicas pode ser respondida , em resumo, da seguinte maneira:
as hist órias tornam -se cient íficas, com respeito à pertin ência narra-
tiva, quando suas narrativas obedecem às regras da teoriza çã o
construtiva. Essas regras submetem o pensamento hist órico ao im -
perativo de controlar, ampliar e garantir o sentido das hist órias por
recurso a teorias. A hist ória como ciê ncia promove, com a metodi-
zação da rela ção com as idéias, uma consolida ção duradoura da
identidade.

Partidarismo e objetividade - as potencialidades racionais da


ci ê ncia da histó ria

A cientificização do pensamento hist órico conduz inevitavel-


mente a um problema , relativo à sua função 11a vida pr á tica: a
cientificiza ção não colocaria o pensamento hist órico em contradi-
ção com sua função de orientaçã o da vida pr á tica ? Esse problema é
comumente debatido sob 0 t ítulo de “ partidarismo e objetividade”.
Por “partidarismo” entende-se a depend ê ncia do pensamento
hist ó rico de carê ncias de orienta çã o causadas por interesses prá ti -
Raz ão histórica 127

cos. Essas carê ncias de orienta çã o e esses interesses aparecem


sempre em situações precisas do agir, em circunst â ncias e condi-
ções particulares; o conhecimento hist órico tem de guiar-se por
elas, se tencionar exercer sua funçã o orientadora. Isso significa,
simplesmente, que hist órias por princípio tomam e t ê m de tomar
“ partido”, se quiserem ser , de fato, hist órias. Pois se elas realizam a
tarefa de estabilizar a identidade de seus destinat á rios no fluxo do
tempo mediante a mem ória hist órica expressa em representa ções
de continuidade, ent ã o est ã o diretamente relacionadas com as dife-
rentes posições existentes na vida social contemporâ nea , na qual a
identidade dos membros da sociedade est á determinada por uma
posi ção nela. Em princípio, é esse o caso ( mesmo se das mais varia-
das formas). Assim sã o as hist órias, por exemplo, com as quais bur-
gueses querem assegurar sua identidade burguesa 11a vida social ,
apresentando-se como cr íticas das rela ções feudais de dominação,
partid á rias como hist órias da emancipa ção pol ítica . Basta pensar-se
na historiografia do Iluminismo ou do liberalismo alemão pr é - 1848
para confirmar essa abordagem.
' Objetividade” significa , inversamente, que as hist órias pre-
^
tendem possuir uma vaíidade )que vai muito alé m dessa relação
funcional com posições eventuais de seus autores e destinat á rios na
vida social . A cientificiza ção do pensamento hist órico leva a um
conhecimento hist ó rico universalmente v á lido, isto é, a hist órias
com que se pode concordar, porque seu conte ú do empírico, seu
significado e seu sentido est ão particularmente bem fundamentados.
O que significa, ent ão, essa pretensão de validade das histórias,
ampliada pela cientificização, com respeito à sua função orientado-
ra ? Se as hist órias pretendem ser objetivas, porque sã o intersubjeti-
vamente control á veis - ent ão n ão estariam elas liberadas de todo
interesse particular, seguindo apenas 0 interesse geral na verdade,
sem olhar para a esquerda ou para a direita (ou seja l á para onde
for, quando se tratar de oposi ções existentes 11a vida prá tica da soci-
edade contempor â nea) ?
Objetividade do conhecimento hist ó rico significa que se pode
aceit á -lo porque, em princí pio, ele pode ser testado, regularmente,
quanto à sua pretens ã o de validade. Mas essa pretensã o de validade
n ão levaria à perda da rela çã o com os destinat á rios, constitutiva des-
se mesmo conhecimento ? As hist órias n ã o são contadas uma vez
128 Jòrn Riisen

por todas, para toda a eternidade, mas surgem sempre em fun çã o de


determinados problemas de orienta çã o temporal , de determinadas
é pocas e de determinados homens. O que fazer com essa determi-
na çã o, com essa rela ção direta das hist órias com o aqui e agora das
carências de orientação dos homens que agem e sofrem os efeitos
de a ções, se o pensamento hist ó rico quer alcan çar validade univer -
sal com sua cientificização? A cientificizaçã o n ã o romperia essa
rela çã o? O pensamento hist órico n ã o perderia a vivacidade que
adquire por sua função orientadora prá tica ? Se as hist órias ampliam,
pela operaçã o met ódica da reflex ão sobre referenciais, a plausibili-
dade normativa de seus significados, então não perderiam elas
tanto mais significado quanto mais dependam da rela çã o normativa
com o presente, no que diz respeito às normas concretas e extre-
mamente diversificadas que as car ê ncias de orienta ção t ípicas do
presente dirigem à experiê ncia hist ó rica ? E se elas ampliam seu
sentido at é o grau de validade universal pr ó prio à ci ê ncia, ent ã o
n ã o perderiam elas sua fun çã o nos processos da vida pr á tica em
que se forma a identidade humana ? Se elas adotam o crit é rio supe-
rior de sentido “ humanidade nas constru ções teóricas com que
57

ampliam suas pretensões de validade para o sentido que enunciam,


ent ã o n ã o perderiam elas o sentido para aqueles cujo “eu ou “ n ós
'5 55

vê m em primeiro lugar na vida pr á tica concreta e que n ã o se situam


no vasto horizonte da “ humanidade”?
Todas essas perguntas n ão sã o jogos de palavras teóricos, mas
radicalizam um problema que n ã o se pode ignorar quando se quer
saber o que significa pensar histórico-cientificamente. Pensar his -
toricamente significa que o sujeito desse pensamento traz sua sub-
jetividade, suas carê ncias e seus interesses, sua tend ê ncia à auto-
afirmaçã o para o processo cognitivo no qual o passado humano é
reconhecido como história. Pensar histórica e cientificamente signi-
fica que essa subjetividade é justamente superada em benef ício de
uma objetividade 11a qual o conhecimento hist ó rico pode ser, por
princípio, objeto de assentimento por parte de todo e qualquer
sujeito; sua validade já n ã o seria mais dependente de tal ou qual
qualidade subjetiva de seus destinat á rios, pela qual estes se distin -
guiriam de outros destinat á rios ( potenciais). O que se entende aqui
por objetividade é uma situa çã o extremamente simples, que se
pode exemplificar com as sentenças matemá ticas: elas valem por
Razão histórica 129

completo independentemente de a cor da pele ser branca ou negra ,


de algu é m ser um intelectual marxista ou burgu ês, homem ou mu -
lher. Isso é t ã o claro que só uma extrema m á vontade viria a discu -
tir essa validade universal. No caso do conhecimento hist ó rico, as
*
coisas n ã o sã o t ão claras. Pelo contr á rio, elas sã o muit íssimo pol ê- í
micas. A razã o disso est á menos na possibilidade de os historiadores " Vo
serem mais limitados do que os cientistas naturais, mas sobretudo $
no fato de que as carê ncias e os interesses subjetivos, sob a forma
de crit é rios de sentido e de normas significativas, sã o fatores do t
conhecimento histó rico.
Que isso seja assim n ã o pode ser posto em d ú vida . Um olhar
sobre a hist ória da ci ê ncia demonstra -o sobejamente. Chega a ser
divertioo constatar como a visã o hist órica evidencia o quanto cer-
tas obras historiogr áficas sã o dependentes de referenciais, embora
seus autores proclamem alto e forte terem enfim encerrado a época
da dependência da historiografia de referenciais e procedido de
modo puramente objetivo. ( Esse divertimento pode transformar-se
facilmente em um pequeno susto, quando se constata que esse tom
confiante da convicçã o ingé nua da pró pria objetividade e do parti-
darismo dos outros pode ser ouvido ainda hoje.)
A afirmação de que se deseja proceder sem qualquer precon -
ceito subjetivo n ã o tenciona , contudo, fraudar conscientemente os
destinat á rios, mas revela uma atitude cujos benef ícios para o aper -
fei çoamento do conhecimento hist ó rico n ã o podem ser negados.
É sabido que as hist órias sempre sã o escritas e reescritas, de acordo
com o contexto social em que vivem os historiadores e seu p ú blico.
E igualmente sabido, todavia , que as hist órias n ã o sã o apenas rees-
critas, mas també m - ao menos na perspectiva de longo prazo -
mais bem escritas, desde que a metodiza ção de sua garantia de
validade se tornou cient ífica. Elas se tornam melhores no sentido
de que, ao longo do desenvolvimento da história como ciê ncia , n ós
passamos conhecer o passado melhor e com mais precisã o. Como
se articulam essas duas facetas?
Objetividade e partidarismo excluem -se a tal ponto que só se
pode escolher um em detrimento do outro, ou ser á que poderiam
ser articulados de forma que n ã o se contradigam , mas se condicio-
nem reciprocamente ? Essa quest ã o sugere duas respostas possí veis:
130 J õrn Rusen

uma pressupõe que objetividade e partidarismo se excluem e a ou-


tra afirma o contr á rio.

(1) A tese da exclusã o m ú tua é fundamentada com o argu -


mento de que o partidarismo do conhecimento hist ó rico se
baseia em normas e crit é rios de sentido que nao podenfser
enunciados de forma universal , pois refletem os respecti-
vos referenciais dos sujeitos agentes em seus contextos
pr á ticos de vida. As normas e os critérios de sentido em
que se baseia o partidarismo de uma hist ória seriam sempre
particulares. Eles est ã o permanentemente expostos às mu -
dan ças das constela ções de interesses, engajados at é numa
luta constante pela prevalê ncia de certas pretensões sobre
outras, sendo com isso incapazes de uma fundamenta ção
que admita um assentimento universal.14 A objetividade
das histórias, como capacidade de receber um assentimento
universal, só seria alcançá vel para alé m dessas normas e
desses crit é rios de sentido particulares. O pensamento his-
t ó rico só se tornaria cient ífico quando fosse liberado, me-
diante regula ções metódicas, da particularidade de normas
e-crité rios de sentido que acarretam o partidarismo.

Isso parece, à primeira vista, plausível , pois a metodiza ção da


rela çã o com a experiê ncia produz um saber hist órico vá lido inde-
pendentemente das convicções subjetivas dos que possuem esse
saber e o utilizam para orientar sua vida pr á tica no tempo. Ora , a
simples informa çã o obtida das fontes n ã o é suficiente para isso.
É imperativo articular as informa ções brutas das fontes, de modo
que se reconheça o que mudou no passado, seu “como” e seu “ por-
qu ê”. Aqui est á o cerne do viés subjetivo: normas atribuidoras de
significado na rela ção contempor â nea conduzem o conhecimento
hist órico à submissão das perspectivas. Crit érios de sentido tam-
b é m influenciam as decisõ es sobre quais, dentre as mudan ças
temporais do homem e de seu mundo no passado, devem ser in -
clu ídas em contextos históricos.

14
Essa posi ção foi vigorosamente defendida por Max Weber em seu famoso en -
saio sobre a objetividade ( vide nota 5 da Introdu çã o).
Razã o histó rica 131

Para excluir o partidarismo perturbador dos processos com que


trabalha o conhecimento hist órico, são propostos diversos proce
dimentos met ódicos.
-
O mais radical consiste em recusar quaisquer “ ju ízos de valor”
no â mbito do conhecimento histórico. Ao historiador seriam proi-
bidas, no campo de sua ciê ncia , todas as senten ças que articulem
significados e sentidos dos fatos do passado humano . 1' Ao seguir
essa estratégia de elimina ção, o conhecimento histórico se restrin-
giria a um somat ó rio de fatos fora da configura çã o de uma hist ória ,
pois hist ória é justamente a constela ção de fatos hist ó ricos em que
o passado ganha significado e sentido para o presente. Numa tipo-
logia de gê neros, poder-se-ia dizer que a historiografia regrediria
para uma cronografia . Um conhecimento hist ó rico livre de valores, v\ q
que resultasse do banimento completo de ju ízos de valor do campo
^
V
do pensamento hist ó rico / somente seria possível ao preço da des
9
£ traição do car á ter especificamente istórico do conhecimento)"V
^
hist ó rico. Sem ju ízos de valor, os constructos de sentido de uma
hist ó ria n ã cfpoderiain mais ser elaborados , mas ter-se-ia apenas um
amontoado de fatos sem sentido ou significado, sobre o qual nin -
gu é m poderia dizer a que veio, nos espaços da mem ória humana .
Para responder a essa objeção, admitiu -se que normas e crit é-
rios de sentido tenham a ver com o pensamento hist ó rico e que n ã o
podem ser eliminados. Para desvencilh á-los, todavia , da pecha do
partidarismo, propôs-se n ã o mais a eliminação, mas uma liberação
total. Um espectro o mais amplo possível das mais diversas normas
e crit é rios de sentido cuidaria de que se dispusesse do maior n ú me-
ro possível de perspectivas nas quais o passado humano apareça
como hist ó ria. 16 Destarte , seria apenas necessá rio deixar de lado as
parcialidades, as omissões, os exageros, etc. que se devem às atitu -
des, aos interesses e às carê ncias subjetivas dos historiadores e de

b
Assim , por exemplo, D . Junker, Uber die Legitimit ã t von Werturteilen in den
Soziahvissenschaften und der Geschichtswissenschaft, Historische Zeitschrift
211 (1970), p. 1-33; D. Junker / P. Reisinger , Was kann Objektivií cií in der
Geschichtswissenschaft heissen, und wie ist sie mõ glichl (7) .
16
Assim , por exemplo, W. Mommsen , Der perspektivistische Cbarakter historis-
cher Aussagen und das Problem von Parteilichkeit und Objektivit ã t historischer
Erkenntnis, in: Koselleck/Mommsen /Riisen (eds.), Objektivitàt und Parteilichkeit
(3) , p. 441- 468.
132 J õ rn Rusen

seu p ú blico (ou nem pensar neles), a fim de obter um conheci-


mento hist órico objetivo, amplamente purificado de seus momen-
tos subjetivos. Quem tentar isso, com seriedade, logo verificará que
n ão funciona bem assim , pois o que sobrasse de “conhecimento
objetivo” n ão passaria de um conjunto de fatos que continuaria
precisando ser transposto para uma histó ria , de modo a poder valer
como conhecimento hist órico.
O mesmo vale para o procedimento de ganho em objetividade
no qual se acredite poder simplesmente subtrair, do estudo da his-
toriografia , o referencial subjetivo do respectivo autor. També m
aqui o saber remanescente sobre o passado humano perderia , com
essa subtraçã o, seu cará ter hist ó rico, ficando sem sentido e signifi-
cado.
Uma terceira possibilidade de libertar o conhecimento hist óri -
co do espectro da subjetividade consistiria em reduzir essa subjeti-
vidade à faculdade de atribui ção de significado e de constitui çã o de
sentido que é própria ao homem como ser-espécie. 1 ' Se as normas
e os crit é rios de sentido, que fazem do conhecimento hist ó rico uma
tomada de posi ção para a satisfaçã o de determinadas carê ncias,
inten ções e interesses, puderem ser enunciadas como constantes
antropológicas a serem colocadas no lugar das normas e crit é rios
dependentes de referenciais, ent ã o ter-se-ia resolvido, de uma tacada
só, o inconveniente de que o conhecimento hist ó rico fosse depen -
dente de fatores subjetivos incapazes de gerar consenso. Posições
não seriam mais tomadas em benef ício desta ou daquela intenção,
deste ou daquele referencial da vida pr á tica concreta contemporâ -
nea , mas exclusivamente em favor do referencial do homem como
homem , como espé cie, e das respectivas inten ções, compartilhadas
pelos homens como integrantes de uma mesma espécie. O passado
humano seria rememorado, ent ã o, de forma igualmente plena de
significado e de sentido para todos os homens . Com isso perdem -
se, no entanto, as diferenciações com base nas quais hist ó rias sã o
necessárias como meio de constituição das identidades. A espécie,
como grandeza pr é e a -hist órica , n ã o é apta a organizar o sentido
da narrativa histórica , pois n ã o leva em conta a identidade com

17
Cf. indicações nesse sentido em Faber, Theorie der Geschichtswissenschaft (4),
p. 205 ss.
Razã o histó rica 133

respeito à qual esse sentido se constr ói. Antes pelo contr á rio: uma
determinação pré ou a-histórica, pela espécie, dissolve essa identi-
dade na uniformidade indiferenciada da grandeza abstrata de uma
“ natureza” humana .
Em resumo, pode-se constatar que a neutralização da subjeti-
vidade do pensamento histó rico, ocasionadora de partidarismo, que
se busca em benef ício de uma objetividade especificamente cient í-
fica, tem um efeito bumerangue: sempre que a subjetividade no
pensamento hist ó rico deva ser neutralizada metodicamente, torna-se
evidente que ela é indispens á vel.
Do malogro das tentativas de alcançar objetividade no conhe-
cimento hist órico mediante exclusão da subjetividade responsável
pelo partidarismo pode-se tirar a conclusão que essa objetividade é
uma quimera , um “belo sonho”. ls Se o conhecimento hist ó rico n ão
pode constituir-se sem normas e id éias, e se essas normas e id éias
engendram , simultaneamente, partidarismo, ent ã o elas n ão podem
ser ignoradas. O historiador n ão deve ter mais consci ê ncia pesada
por causa delas - essa é a consequência -, mas assumi-las e ser
conscientemente partid á rio. O imperativo de um pluralismo irres-
trito est á vinculado a essa consequ ê ncia - em vez de organizar o
conhecimento histó rico na forma de um saber v á lido universal e
uniformemente para todos, que o podem utilizar de igual maneira
( embora para finalidades diferentes, em cada caso), tratar -se-ia
ent ã o apenas de elaborar o maior n ú mero poss ível de versões do
mesmo conjunto de fatos do passado humano, a fim de que o maior
n ú mero possível de posições, carê ncias e interesses obtenha uma
orienta çã o hist ó rica pró pria .
Em compara ção com o pluralismo que foi examinado no item
precedente, com relação à ampliação das perspectivas mediante a
reflexão sobre referenciais, o pluralismo descrito anteriormente
pode ser chamado de pluralismo deficiente , pois deixa de lado a
quest ão da verdade.
As histórias sã o verdadeiras aqui na medida em que se vincula -
rem às diversas posi ções, carê ncias e aos interesses atuais. Isso
corresponde à função orientadora das histórias, mas n ão basta para
satisfazê -la . As diferentes posições, carê ncias e interesses com que

Cf. Beard , That noble dream , The American Histovical Review 41 (1935), p. 74 87.
i
-
134 J õrn Rusen

a historiografia se vincula n ã o são grandezas paralelas e desarticuladas


entre si, a que se pode recorrer arbitrariamente para elaborar pers-
pectivas hist ó ricas. Pelo contr á rio, elas se encontram em permanente
correlaçã o, concorrem entre si quanto à legitimidade ou reconhe-
cem -se mutuamente, rivalizam umas com as outras. Em todo caso,
a correla çã o é inegá vel , pois somente nas intera ções sociais os re-
ferenciais podem ser adotados, as carê ncias subjetivas articuladas e
os interesses particulares levados em conta . As hist órias narradas
com base em um pluralismo deficiente n ã o consideram essas cor -
relações. Elas frustram sua utilidade justamente na luta por reco-
nhecimento no interior da sociedade, no qual deveriam servir à
tradu ção das posições, das carê ncias e dos interesses nele inscritas
em outras posi ções, carê ncias e interesses em cuja correla çã o seja
possível justificar, legitimar, mas també m criticar e rejeitar posi-
ções abusivas.

2) Se a objetividade cient ífica do pensamento hist órico n ã o


tem como constituir-se a partir do silenciamento ou da
neutraliza çã o do fator subjetivo - do partidarismo - e se,
de outro lado, tampouco o abandono da pretensã o de uma
validade supra-ordenada aos referenciais n ã o basta para dar
conta do partidarismo, tem -se ent ã o a quest ã o acerca da
possibilidade de desenvolver a objetividade cient ífica a
partir do pró prio partidarismo.

Essa quest ã o tem sua razã o de ser, pois n ã o est á definido, de


in ício, que os fatores subjetivos do pensamento histó rico, que est ão
na base de seu partidarismo, sejam infensos a uma regula çã o met ó-
dica . Existindo neles elementos capazes de ser (metodologicamen -
te) desenvolvidos para constituir a objetividade do pensamento
hist ó rico, n ão h á por que neutralizá-los, mas sim desenvolvê-los.
Uma hipó tese como essa n ã o é abstrusa , porque na opera çã o exis-
tencial consciente do narrar hist órico j á se encontram argumentos
verazes. Mais do que n ã o contradizer a fun çã o de orienta ção pr á ti-
ca das histórias narradas, esses argumentos sã o indispensá veis à
sua efetiva ção. A id é ia da ciê ncia surge justamente no momento
em que esses argumentos sã o identificados. Todo historiador deve
considerar digna de reflex ã o a possibilidade de a argumenta ção
Raz ã o hist ó rica 135

racional , que busca o consenso e que é determinante da cientifici -


dade do pensamento hist órico, começar no ponto em que o pensa -
mento hist ó rico conforma seu partidarismo. Sendo assim, n ão se
impõe ver a objetividade e o partidarismo como contradit órios, mas
a objetividade resultaria de uma racionaliza çã o especificamente
cient ífica do partidarismo.
Com essa estrat égia de argumentação, abandona-se a id éia de
uma objetividade absoluta do conhecimento hist ó rico, vale dizer,
alcan çá vel independentemente da subjetividade do historiador e de
seus destinat á rios. Pretensões de validade absoluta são problem á ti-
cas, de qualquer maneira, no pensamento cient ífico. Esse abandono
deve ser tanto mais f ácil quanto se pode demonstrar, simultanea -
mente , que o conhecimento hist ó rico pode pretender uma validade
maior ou menor, ou seja, possuir um grau maior ou menor de obje-
tividade segundo o referencial , as carências e os interesses a que
corresponda . •
E possível distinguir diversas varia ções do partidarismo no
pensamento hist ó rico e analis á-las, comparativamente, quanto ao
progresso cognitivo que promovem ? Pode-se responder que sim, se
pensarmos que o melhor referencial é aquele com o qual se tem a
maior visão de conjunto. No entanto, pode-se demonstrar ser mais
objetiva , dentre as diversas formas de partidarismo, aquela que
produza uma história mais completa do que outras histórias parciais.
O melhor referencial, “portador de objetividade” por conseguinte,
leva a hist ó rias que orientam melhor no tempo do que as demais
hist ó rias, pois incluem e superam os resultados destas. Com essas
distinções é perfeitamente possível recomendar, em nome da obje-
tividade científica, tal partidarismo e tal outro n ão.
Esse argumento é atrativo, pois parece indicar uma sa ída do
incomodo dilema entre objetividade e partidarismo. Ele falha,
contudo, quando se quiser indicar referenciais à pr á tica cient ífica
sob a alegação de que eles possibilitariam conhecimentos históricos
particularmente frutíferos, pois só a posteriori se pode constatar
que referencial possibilita o melhor conhecimento. Para o processo
de um pensamento hist ó rico, poré m, que desde o in ício tenciona
ser o mais objetivo possível, no sentido da maior abrangê ncia pos-
sível, a indicação de referenciais n ão deveria ser consequência do
conhecimento histórico obtido, mas um pressuposto seu .
Razã o histó rica 137

rico, as mesmas id éias que constituem a hist ória como um processo


temporal determinado das mudan ças do homem e de seu mundo.)20
E tentador querer regular a rela çã o entre objetividade e parti-
darismo com o aux ílio de um saber desse tipo. Com ele pode-se, no
m á ximo, ser partid á rio de boa vontade, pois nele o partidarismo é
considerado condi çã o necessá ria da objetividade cient ífica Esse .
saber é , no entanto, altamente problem á tico, pois ele pressupõe que
j á se reconheça, nele, a hist ória que só poderia ser conhecida por
seu intermédio. Lidamos, aqui, com um cí rculo vicioso, de que só
se pode escapar de duas formas: de um lado, admitir-se-ia a possi-
bilidade de n ão se poder saber, j á de in ício, a partir de que referen-
cial a objetividade é alcan çá vel ; de outro lado, admitindo-se que se
parte de decisões dogmá ticas pré vias sobre a correla çã o entre refe-
rencial e objetividade decorrentes de uma instâ ncia pré e paracien-
t ífica, ou seja, extrínseca à ciê ncia da hist ó ria (pois é a esta que o
referencial seria imposto, uma vez que ela nã o o poderia produzir
diretamente, já que é requerido previamente, para possibilitar a
objetividade).
A primeira sa ída seria a adoção camuflada do pluralismo de
que já tratamos. A segunda consistiria em um dogmatismo incom -
pat ível tanto com o partidarismo subordinado, na medida em que
este tem a ver com decisões pró prias aos sujeitos, quanto com a
objetividade hist órica, na medida em que seria imposta arbitraria -
mente uma inst â ncia particular como sendo o universal , cassando a
quaisquer outras a possibilidade de atuar com sentido (e partido
pr óprio) no processo do conhecimento hist ó rico.
Ambas as sa ídas para o problema da rela ção entre partidarismo
e objetividade resultam , pois, insatisfat órias. Indica isso uma apo-
ria do pensamento hist ó rico ou deficiê ncias estruturais da argu -
menta çã o exposta até agora ? Creio que se trata de deficiê ncias
estruturais.
Elas se encontram nas tentativas de se alcan çar a objetividade
pela nega ção da subjetividade, pela desconsidera ção da subjetivi-
dade partid á ria do historiador e de seu p ú blico, desde o in ício,
como condição da objetividade. Elas est ã o também na proposta

20
J . Riisen , Theorien im Historismus, in : R íisen /Stissmuth (eds.), Theorien in der
Geschichtswissenschaft (3), p. 13-33, especialmente p. 25 s.
138
J õ rn Rusen

inversa, de determinar a objetividade como fun çã o do partidarismo,


sem levar a sé rio o argumento da metodização. Os defensores des-
sas posições opostas n ão acertaram o ponto fulcral de ambos os
casos, do qual poderiam aprender: a subjetividade n ão é, de forma
alguma , extrínseca às regras met ódicas do pensamento hist ó rico,
mas deve ser tomada como princ ípio dessa regula çã o e, como tal ,
aplicada. De um lado, a objetividade é vista como procedimento
met ódico de neutralização da subjetividade, sem que se pergunte se
e at é que ponto justamente a subjetividade poderia ser valorizada
pelo procedimento met ódico que busca a objetividade. Inversa -
mente, a capacidade cognitiva do partidarismo subjetivo é inter-
pretada pelos outros como possibilidade de alcançar objetividade,
esquecendo-se que tais potencialidades só podem ser garantidas se
transpostas para regras metódicas.
A seguir, gostaria de examinar a quest ão se as regras metódi -
cas constitutivas da hist ória como ci ê ncia n ã o lograriam , ao mesmo
tempo, tanto assegurar a objetividade quanto preservar e utilizar a
subjetividade, sem a qual não se pode pensar historicamente. A esse
propósito gostaria de recordar as diversas perspectivas em que a
validade das hist ó rias é fundamentada . Essa diferencia ção parece-
me indispensá vel para poder determinar que fatores subjetivos in-
fluenciam o pensamento histórico (e de que modo), assim como se
e at é que ponto, com rela çã o a essas perspectivas, pode-se alcan çar
a objetividade como validade universal do conhecimento hist ó rico.
Com efeito, é possível estipular três diferentes crit érios de
verdade do pensamento hist ó rico de acordo com tr ês modos diver-
sos de objetividade. Essa tripla objetividadecaracteriza as hist órias
que obedecem aos preceitos metódicos da cientificizaçã o.
;

I) O pensamento hist órico, ao referir-se a experi ê ncias , obe-


dece às regras met ódicas da pesquisa hist órica e se insere

^
no movimento do jprõ êsso co itlVoT; transformando-
^
em conhecimento histórico sob a forma de histórias caracte-
rizadas pela objetividade de fundamentação . Objetividade
L
^
de fundamenta çã o21 significa a propriedade de as hist ó rias

21
Tomo a expressão “objetividade de fundamentação” de H. Liibbe (Geschichtsbe
griff mui Geschichí sinteresse , 4, p. 173 ss.)
-
Razã o histó rica 139

valerem , com respeito a seus conte ú dos empíricos , inde -


pendentemente do significado queTEes seja atribuído ou do
sentido que tenham na orientação temporãTda vida
prá tica contempor â nea. Essa independ ê ncia é expressa ,
como se disse antes, pela expressã o “ livre de valores”. Na
objetividade de fundamenta ção, o partidarismo aparece
apenas de forma negativa. Uma objetividade comum de
fundamenta çã o só se constitui, para al é m dos m ú ltiplos
partidarismos, quando as hist órias tratam de conte ú dos
empíricos do passado semelhantes ou an á logos. Com sua
objetividade de fundamentação, as hist órias põem -se de
través aos diferentes significados e sentidos que lhes sã o
atribu ídos. Seja lá de que forma for com que se afirme par -
tidariamente, a subjetividade precisa estar em condi ções de
dar conta da pesquisa - isto é, os significados e sentidos
atribu ídos ou institu ídos t ê m de estar organizados, em seu
partidarismo, de tal forma que possam apreender e assumir
o progresso cognitivo da pesquisa hist órica.

O progresso cognitivo pela pesquisa n ão se d á , por é m , inde-


pendentemente das carê ncias e interesses por posições sociais,
transpostos para as atribuições de significado e de sentido, mas é
posto em movimento para tornar plausível uma história que se re-
lacione a essas car ê ncias, interesses e posi ções. Isso tem conse-
qu ê ncias para as opera ções mentais do partidarismo: a atribui çã o
de significado e sentido tem de serorganizada , nos processos do
conhecimento histórico, de forma que o progresso cognitivo pela
pesquisa hist órica seja posto e mantido em movimento por ela. Um
partidarismo que representasse obst á culo ao progresso cognitivo
n ão seria mais plausível: as hist órias que fossem narradas segundo
ele sã o empiricamente frágeis. Isso vai de encontro à finalidade,
propriamente dita , do partidarismo: ela tenciona produzir histórias
com as quais os agentes queiram consolidar suas identidades no
longo prazo. A identidade, plena de experi ê ncia , tem de ser articu -
lada pela mem ória hist ó rica e inserida na interaçã o social . Um par -
tidarismo que impeça a plena experiê ncia , que ponha obst á culos à
pesquisa hist órica e a todas as surpresas (boas ou m ás) que ela pos-
sa fazer acerca do que foi o caso no passado, é um mau partidaris-
Razã o histó rica 141

sibilidades de ampliar o significado das histórias relacionadas a


referenciais. A objetividade de consenso n ã o faz desaparecer as
normas de que decorrem as perspectivas que marcam interesses e
car ências conflitantes. A objetividade de consenso é promovida por
uma modifica çã o das normas que abrem as perspectivas em que os
diversos referenciais, carê ncias e interesses são expressos. Pode -se
chamar essa modificaçã o de “universalização” e enfatizar, com
isso, que se trata de uma ampliação das perspectivas hist ó ricas.
Não se opera, contudo, uma universaliza ção no sentido da abstra -
çã o dos referenciais, das carê ncias, dos interesses e das inten ções
concretamente existentes. Trata-se, isto sim, de uma concepção de
princípios normativos com os quais a diversidade dos referenciais,
car ê ncias, interesses e intenções é abordada como uma rela ção
recíproca , na qual possuem uma relativa justificação. Tem -se, pois,
uma normalização em que referenciais sã o identificados, carê ncias
articuladas e inten ções formuladas de modo que outros referenciais,
carê ncias, interesses e inten ções sejam reconhecidos (em uma rela -
çã o recíproca). “ Consenso”, na rela çã o normativa do pensamento
hist órico, é um princípio regulativo que submete a subjetividade
partid á ria do historiador e de seu p ú blico à obriga çã o do reconhe-
cimento. Essa obrigaçã o consiste no reconhecimento dos outros
referenciais e interesses quando se afirma o pr ó prio referencial ,
buscam -se os pr ó prios interesses, etc.
Um pensamento hist órico que segue a regra da reflex ão sobre
referenciais, com o fito de ampliar perspectivas, submete suas pró-
prias normas e perspectivas aos prós e contras da argumenta çã o.
Elas se tornam, pois, criticá veis, se se demonstrar que n ã o condu -
zem à ampliação alguma de perspectivas. As perspectivas fechadas
à amplia ção podem ser denominadas “ unilaterais”.
O que significa, ao certo, “ unilateral ”? Seria lament á vel que as
perspectivas do conhecimento hist órico fossem identificadas com
unilateralidade . Só faz sentido colar a pecha de unilateral a um
determinado conhecimento na medida em que ele se distinga de
outro, que não possua a unilateralidade criticada . No entanto, como
todo conhecimento hist órico est á numa determinada perspectiva, a
unilateralidade do pensamento hist ó rico é, de certa maneira , tam-
bé m uma perspectiva, mas n ã o absoluta.
142 J õrn Rusen

O crit é rio para uma cr ítica das normas que desemboque na pe-
cha de unilateralidade é a capacidade de consenso das normas que
reflitam os referenciais. A linguagem da tradi ção chama de “ é ticas”
as normas caracterizadas pela capacidade de gerar consenso. A meto-
dização da relação com as normas, que torna cient ífico o pensamento
hist ó rico, tem por premissa , pois, que a forma çã o do consenso so-
bre as posições na vida social, sobretudo quando de grande diver-
sidade , pode dar -se na intera çã o entre os homens e sempre e
mediante uma argumentação racional ( pode-se cham á -la de reco-
nhecimento social ). Quem negar essa premissa abandona as pers-
pectivas do pensamento histórico à irracionalidade de uma luta
pelo poder e desconsidera as possibilidades de a ci ê ncia delinear o
passado humano, racionalmente, como uma hist ória relevante para
o presente.
Da inserçã o das normas significativas do pensamento histórico
na arquitetura de uma argumenta ção desse tipo geram-se impulsos
para a pesquisa. Quer -se mais e melhor do passado humano talvez
porque o saber atual não baste para garantir historicamente o ne-
cessá rio e almejado reconhecimento. Por exemplo: a aproxima çã o
entre as diversas confissões religiosas, na Alemanha , promoveu
uma série de pesquisas sobre a Reforma protestante, por parte de
historiadores cat ólicos da Igreja , com as quais se construiu uma
outra imagem de Lutero;22 assim també m se terá um novo relacio-
namento entre os gê neros, como consequ ê ncia do progresso dos
movimentos de emancipação da mulher, que trouxe uma ampliaçã o
de perspectivas para as pesquisas sobre a mulher na hist ó ria , reve-
lando empiricamente relações mais complexas entre os gê neros do
que as que faziam aparecer a mulher como mera vítima de opressão.

III) O pensamento hist ó rico, ao referir-se a idéias, obedece às


regras met ódicas da teoriza çã o construtiva e se insere no
movimento de consolidação da identidade, transformando-se
em conhecimento hist ó rico na forma de hist ó rias caracteri-
zadas pela objetividade construtiva. Objetividade constru -

"
Cf. H. Lutz, Zum Wandel der katholischen Luther- Interpretation , in: Kose-
Ileck/ Mommsen / Riisen (eds.), Objektivitàt und Pavteilichkeit (3), p. 173-198,
especialmente p. 192 s.
Raz ã o histó rica 143

tiva significa a propriedade das hist órias de articular, me-


diante seu sentido, a identidade de seus destinat á rios por
meio de uma argumentação comunicativa dirigida pela
id é ia regulativa da humanidade como comunidade univer-
sal de comunicação.

Esses termos altissonantes n ão devem ser mal entendidos


como um discurso solene da teoria da hist ó ria, afastado da prá tica
quotidiana . Trata-se do seguinte: as representa ções de continuidade
do pensamento histórico que concorrem para a constituição da
identidade fundam-se em determinadas id é ias que fazem do tempo
uma determinação de sentido para a existê ncia humana. Essas idéias
decidem sobre a consist ê ncia temporal da identidade humana: elas
definem o que os homens entendem por si mesmos quando se
afirmam como duradouros no fluxo do tempo. Esse “eu ” ou “nós”
n ã o é uma grandeza fixa e material como a cor da pele ou uma
impressão digital, mas um dado da consciê ncia, sempre dependen-
te , por conseguinte, das operações desta. Nessas opera ções, as ex-
periê ncias que os homens t ê m de si mesmos nas rela ções com os
outros e os projetos que elaboram para esse relacionamento fun-
dem -se 11a unidade de um “eu ”. A perman ê ncia no tempo desse
“eu ”, de que dependem o medo de perdição dos homens e sua es-
peran ça de auto-realiza çã o, é o tema do pensamento hist órico.
Neste , as id éias atuam como diretrizes m á ximas seguidas pela
consciê ncia ao produzir a unidade e a permanê ncia 110 tempo desse
“ eu ” ou “ n ós”.
Metodização da rela ção com as idéias significa, portanto, sim-
plesmente que essas operações da consci ê ncia , que se d ã o no â m -
bito do pensamento intencional, tê m de obedecer às regras l ógicas
que constituem uma argumentação racional orientada para o con-
senso. Tem -se , assim , de in ício, que as id é ias formadoras de senti-
do, critérios m á ximos de sentido do pensamento hist órico, devem
estar expressas com precisã o conceituai e que a estruturaçã o do
pensamento hist ó rico delas decorrente deve ser explicitada. O pro-
gresso do conhecimento pela pesquisa e a ampliaçã o de perspecti-
vas pela reflex ã o sobre referenciais só podem dar -se de forma
sistem ática e ter os passos de sua argumentação controlados no
quadro dessa estrutura çã o. A objetividade construtiva significa , por
144
Jõrn Rusen

conseguinte, que as hist órias t ê m de ser transparentes à s argumen -


ta ções e fundamenta ções que tratem das representa ções de conti-
nuidade que fa çam sentido e dos elementos dos processos
temporais que tenham a ver com estas. Essa transparê ncia é ques-
t ão formal, ou mesmo “ l ógica ” , se se preferir.
A objetividade construtiva da teorizaçã o n ã o quer dizer que as
idé ias formadoras de sentido empregadas pelos historiadores no
pensamento hist órico devam ser formuladas de modo universal -
mente válido. Como profissionais especializados, eles n ã o det ê m
essa competê ncia.23 No entanto, se o historiador n ã o quiser mera-
mente pressupor a utilidade das id éias significativas que utiliza
para sua vida social pr á tica , mas sim abord á-la claramente, é-lhe
necessá rio um crit ério de avaliação. Onde a ci ê ncia da hist ória
pode ir buscar um crit é rio desses ? Esse crit é rio só pode provir , para
um pensamento hist ó rico que se quer cient ífico, do pr ó prio proces-
so de cientificizaçã o do pensamento hist órico: de um determinado
tipo de pensamento, formalmente operante como comunica çã o
racional, argumentativa e buscando consenso. Na pr ó pria metodi -
za çã o do pensamento hist ó rico deve haver algo de ideal, a partir do
que. se pode investigar as idéias formadoras de sentido e averiguar
se e at é que ponto essas id éias podem e devem organizar um pen -
samento hist órico que se queira científico.
Com efeito, a forma de uma argumentação racional voltada
para o consenso, constitutiva da hist ória como ci ê ncia , é sustentada
por um princípio regulativo que pode ser empregado como crit é rio
de avaliação das id éias formadoras de sentido hist órico. Numa ar -
gumenta çã o racional , os interlocutores que argumentam n ã o se
comportam de modo arbitr á rio, mas assumem uma atitude pré via
de reconhecimento m ú tuo. Essa atitude consiste em atribu írem-se
mutuamente a mesma capacidade de argumentar racionalmente e a
disposi çã o de resolver as quest ões de interesse comum empregando
essa capacidade. A atitude de reconhecimento diz respeito, em
princí pio, a todos que estejam dispostos a participar dessa comuni -
ca çã o. Essa disposi çã o de todos deve ser suposta , també m em prin -
cípio, o que se traduz na caracteriza çã o de certas senten ças como

23
Vide p. 124 ss.
Raz ã o histó rica 145

universalmente vá lidas: essa pretensã o de validade pressupõe uma


capacidade universal de comunicaçã o.24
Trata-se aqui, por certo, de uma representa çã o ideal muito
abstrata do relacionamento dos homens entre si. Mas justamente
por ser t ã o abstrata e por valer, afinal , para todo ser vivo falante, ou
seja, para toda a humanidade como espécie, e també m por ser vin -
culante e incondicionada (independentemente de ser ou n ã o res-
peitada nesse ou naquele caso particular) para todos os que
queiram comunicar-se entre si de modo argumentativo e voltado
para o consenso, é que essa representação se constitui como excelente
crit ério de controle das idéias históricas formadoras de sentido.
As hist órias que passam por essa prova podem pretender vali-
dade cient ífica para seu sentido. À luz da id éia regulativa expl ícita
de uma argumenta çã o voltada para o consenso, isso significa que
as representações de continuidade, decisivas para a forma çã o da
identidade, são constru ídas de forma tal (e, por princípio, devem
ser sempre constru ídas) que pelo menos n ã o contradigam a repre-
senta çã o da humanidade como comunidade universal de comuni-
ca çã o ( n ã o devem , por exemplo, ser chauvinistas).
A objetividade construtiva é, pois, mais que uma mera deter -
minação formal, relativa à transparê ncia da arquitetura das histórias.
Ela é relevante també m para o conte ú do das id é ias formadoras do
sentido do pensamento histórico: essas id é ias tê m de obedecer ao
princípio da humanidade como comunidade universal de comuni -
ca çã o, ou seja, articular a identidade de seus destinat á rios, em suas
representa ções de continuidade, de modo que ela esteja sempre
aberta ao reconhecimento da identidade de todos os outros.
N ão se quer dizer com isso que todas as histórias devam seguir
a mesma id é ia , que todas devam entrar no mesmo figurino ideal.
Isso contradiria o crité rio da utilidade ideal dos crit é rios de forma-
çã o de sentido: esses crit é rios t ê m de organizar as hist ó rias de
modo que carê ncias de orienta çã o particulares, vinculadas a refe-
renciais precisos, possam ser satisfeitas. Essa particularidade não
24
Decerto de forma extremamente simplificada, resumo aqui os principais argu -
mentos de Habermas e de Apel . Cf . as versões abreviadas apresentadas pelos
pró prios autores, in : W . Oelmuller (ed .), Malerialien zur Normendiskussion ,
vol . 1, Trauszemlentalpliilosophische Nonnenbegriindungen (Paderborn, 1978)
(a posi ção de Habermas encontra-se na p. 123 ss. e a de Apel na p. 160 ss.).
146 J õ rn Rusen

pode ser sacrificada em benefício de uma carê ncia de orienta çã o


quimérica, vazia, de uma humanidade universal e abstrata; os crité-
rios t ê m de levar em conta , na articula çã o da identidade dos
homens pelo pensamento hist ó rico, suas particularidades. Decisiva
é a forma com que o fazem, na qual a identidade do outro nã o é
negada na vida social comum , mas ( em princí pio) reconhecida.
A determina çã o de sentido das hist ó rias requer a amplia çã o das
perspectivas pela reflex ã o sobre referenciais e o progresso cogniti -
vo pela pesquisa . Em ambos os casos, as experiê ncias e os signifi -
cados sã o inseridos em representa ções hist ó ricas da continuidade
que abrangem os referenciais e reconhecem os horizontes do en -
tendimento humano mediante a mem ória hist órica.
Articulada a narrativa hist órica com a id éia da humanidade
como princí pio de comunica çã o, o sentido da hist ó ria narrada
adquire uma dimensão na qual seu conte ú do empírico e seu signi-
ficado se inserem no movimento do progresso cognitivo e da
amplia çã o de perspectivas. Naturalmente, a humanidade é uma
comunidade de comunicação de fato. A pesquisa histórica é desafia-
da , no entanto, a produzir um saber que enuncie o que a humanida -
de efetivamente foi, uma vez que ela deve ter sido algo que se
gostaria de representar como comunidade de comunicação. Algo
semelhante ocorre com a reflexã o sobre referenciais: o super á vit de
sentido da humanidade como princ ípio regulativo da comunidade
de comunicaçã o põe o pensamento hist ó rico no movimento da am-
plia çã o de perspectivas, no qual os elementos comuns, que abran -
gem referenciais diversos e possibilitam a comunicaçã o como
reconhecimento m ú tuo, evidenciam-se mais e mais. Ent ão n ão faz
mais sentido, por exemplo, escrever uma história da Alemanha da
perspectiva do Estado nacional, assim como uma perspectiva me-
ramente européia deixaria de corresponder às expectativas atuais
referentes a uma hist ória da Alemanha, cuja plausibilidade estaria
comprometida sem levar em conta o Terceiro Mundo.
As trê s formas de objetividade hist órica descritas n ã o sã o
paralelas e estanques, como tampouco o são os três crit é rios de
pertinência sobre os quais repousam, de modo que fosse possí vel
checá-las, consecutivamente , nos procedimentos cient íficos da
hist ó ria ou averiguar se e at é que ponto determinados conheci-
mentos hist óricos sã o cient íficos (ou , ainda, se podem ter sua cien -
Raz ã o histó rica 147

tificidade aperfeiçoada ). A objetividade construtiva é uma síntese


das duas outras formas da objetividade hist órica. Essa síntese n ã o
pode ser constru ída a posteriori, depois de a pesquisa histórica e a
reflex ão sobre referenciais garantirem sua própria objetividade .
Pelo contr á rio, é a síntese que assegura a possibilidade desses dois
tipos de garantia de objetividade e de sua articula çã o. Os tr ê s tipos
de objetividade constituem um todo sistemá tico na forma de um
contexto de media çã o m ú tua . Pode-se denominar esse contexto de
potencialidades racionais do pensamento histórico, de que este se
apropria ao proceder cientificamente. Essas potencialidades seriam
uma resposta à pergunta sobre o que significa pensar, racional-
mente , a hist ória.