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Trabalho de: Patrícia Alexandra César Monteiro

Up201908220

Preâmbulo

No que toca à ligação do tema escolhido a um tema do plano de estudos da


Unidade Curricular, começaria por dizer que este tema enquadraria o estudo da
indústria portuguesa, porém não se enquadra totalmente na descrição sumariada
no Sigarra uma vez que o tema presente está descrito como as regras de
produção e as categorias profissionais. O tema abarca em si a indústria na
mesma em que trata as empresas industriais, mas em nada se foca nas categorias.
Foca-se sim na questão dos privilégios e monopólios na produção e
comercialização de bens e manufaturas, exemplos primordiais estes sendo os
vinhos e a Companhia Real e o comércio colonial, esclavagista e também de
cacau e outros produtos alimentícios com a Companhia do Grão-Pará.

Utilizando a Bibliografia Obrigatória da Unidade Curricular em questão,


foquei-me na obra da direção de Mattoso, a História de Portugal, volume 4, para
ser mais exata, e a partir daí, da leitura efetuada e com a ajuda da docente
cheguei a uma questão central que é abordada neste trabalho, nos conformes dos
temas.
1. Introdução
1.1 Tema e cronologia

O reinado de D. José I anuncia profundas mudanças políticas na sociedade


portuguesa, sendo a de maior importância a assunção do governo político. De
acordo com José Sutil esta época de governação pode-se dividir em três fases:

1) 1750-1758, início do reinado de D. José e do poderio de Sebastião José


de Carvalho e Melo. Fase esta que permitiu o crescimento do Marquês de
Pombal uma vez que se deu um processo de protagonização do Estado e
dos seus órgãos judiciais, concelhios e governamentais.
2) 1759-1765, consolidação do poder, marcadas pelas tentativas do Marquês
de reforçar o seu poderio e consolidar a sua governação. Deu-se nesta
fase a criação da Intendência-Geral da Polícia e implantou um sistema
mais estruturado a nível nacional de imposição dos impostos, o Erário
Régio.
3) 1766-1776, reforma pombalina que coincide com a nomeação do
desembargador José Seabra da Silva para o cargo de procurador da
Coroa. Reformas estas que tiveram influência em diversos campos:
propriedade, organização familiar, campo religioso, fomento da
agricultura e da indústria, a laicização da prática social e a formação de
novas elites económicas e políticas.

Quanto a esta divisão ela não é algo consensual uma vez que de acordo com
Jorge Borges de Macedo (1982) a governação do Marquês a nível legislativo pode-se
separar em duas fases: a primeira que culmina em 1761 com a criação do Real Erário
(ou Tesouro Geral) que trata o combate ao fluxo contrabandista que causavam prejuízos
às companhias e procura reorganizar o sistema de impostos e esta fase foca-se na
fiscalização e na natureza judicial, integrando-se na política económica de criação de
grandes companhias do comércio que assenta na organização das atividades económicas
na base de monopólios e privilégios. Os impostos e a sua organização no que diz
respeito à cobrança e a alfândega foram também pontos de grande importância nesta
primeira fase de governação que termina em 1770 aquando da gravíssima crise
económica que assolou o país metrópole e as colónias. A segunda fase adquire
preocupações diferentes pois o clima que era vivenciado também teve as suas mutações
e dá início a, por exemplo à primeira reforma da Junta do Comércio de 1771. Torna-se
também necessária nesta fase a criação de um alvará que contemple a fiscalização do
contrabando, feito este em maio de 1774. (Madureira, 1997)

O fomento industrial que teve nesta altura pode-se considerar uma das respostas
à crise que o país estava a passar, porém não foi criado exclusivamente como resposta,
mas sim como parte de um plano mais complexo de redução da dependência das
importações, reforçando o comércio colonial chegando ultimamente a uma redução do
atraso que se via a sentir no país. (Serrão, 1998) A indústria pombalina ficou conhecida
por este mesmo motivo, pela caracterização fortemente mercantilista e protecionista do
comércio nacional, mas de que forma terão os privilégios sido um elemento de criação
de empresas industriais? E de que forma estes se ligam ao ideal protecionista do
Marquês? Isto é, no meio protecionista de que forma poderá ter integrado a atribuição
de tais privilégios no plano a longo prazo de libertação do país da dependência e que
papel desempenham esses privilégios como fatores na criação das Companhias.

1.2 O Marquês

Para conhecer a obra há que conhecer o autor e o mesmo se aplica aqui. Para
compreender a política pombalina há que primeiro compreender o homem, porém,
convém ressaltar que conhecer o homem não é atribuir-lhe a si toda a hegemonia da
época e considerar o seu ser omnipotente. O que é procurado é apresentar a sua origem
e ressaltar as suas medidas. Como Macedo escreveu “Pombal pertence à sua época, ao
Estado dentro do qual serviu, às classes de que dependeu, ao ambiente histórico e criou
e orientou.” (Macedo, 1982, pp.31)

Nasceu a 13 de maio de 1699, em Lisboa. Berço nobre, mas não abastado,


estudou Direito em Coimbra. Casou-se, a primeira vez, aos 23 anos com uma viúva sem
filhos que acaba por falecer, quando este se encontrava em Inglaterra, 16 anos depois.
Em 1745 casa novamente com uma duquesa austríaca com quem teve sete filhos. Subiu
ao poder em agosto de 1750, como ministro e permaneceu na atividade governamental
até 27 de fevereiro de 1777, data esta que se assinala, pois, a rainha D. Maria I tinha
pedido a sua demissão. Demissão esta que era somente simbólica uma vez que o seu
poderio já tinha diminuído consideravelmente antes disto chegando inclusive a ser
vedada a entrada na câmara. Morre somente 5 anos depois, em 1782, em Pombal.
1.3 Mercantilismo

O mercantilismo é a doutrinação ou o conjunto de medidas que predominam na


interpretação dos conceitos económicos entre o fim do século XV e o fim do século
XVIII, de acordo com Falcon que vai de encontro à opinião de Serrão naquilo exposto
no seu Dicionário da História de Portugal. O Mercantilismo é marcado por diversos
subtipos e deve ser separado do conceito de época mercantilista.

Quanto aos subtipos existem três grandes núcleos do Mercantilismo: o espano-


italiano, o francês e o anglo-holandês. O espanhol, bulionismo, tomava medidas
protecionistas de proibição de exportação de metais preciosos do México e Peru para o
seu entesouramento enquanto ao mesmo tempo se regulamenta a moeda, o câmbio e se
*controla e proíbe as importações, o seu mercantilismo é essencialmente metalista e
regulador alfandegário.1 Na Itália também se viu presente este pensamento
protecionista da economia e foca-se no papel da população e da indústria no fomento
económico e esse mesmo fator se verá presente no mercantilismo francês devido à falta
de minas para produção de riquezas procurando então proteger a indústria nacional. Por
sua vez o mercantilismo anglo-holandês foca-se em manter a balança do comércio,
essencialmente na compensação da produção para garantir o excesso de exportação
sobre as importações. O Mercantilismo português pode-se chamar uma união destes três
subtipos mencionados acima e pode-se dividir em três fases: a primeira desde o século
XVI até meados do século XVII, influenciado principalmente pelo mercantilista
hispano-italiano. A segunda vai de meados de XVII até meados do século XVIII, de
maior influência francesa com luzes de influência inglesa e a última fase marca-se a
partir do reinado de D. José, o mercantilismo é fortemente criticado. A época pombalina
insere-se na segunda fase do mercantilismo português e por sua vez o Marquês de
Pombal, pelas sua cartas de Londres e pela obra Relação dos Gravames, demonstra um
caracter fortemente mercantilista pela sua consciência da necessidade de controlar o
comércio e indústria portuguesa, valendo-se pela intenção de organizar companhias
monopolistas de forma a controlar o comércio de forma sistemática e realizar assim um
verdadeiro fomente económico e industrial investindo-os de privilégios para assim
também conseguir fechar o comércio, acabando com o comércio livre restringindo-o a
um nicho monopolista dotado. Tendo em conta esta filosofia da proteção do comércio

1
MÓNICA, Maria Filomena; BARRETO, António - Dicionário da História de Portugal. Vol. 4 [S.l.] :
Figueirinhas, [s.d.]. ISBN 0000019181411.
nacional Marquês de Pombal foca-se na criação de Companhias dotadas de privilégios
para deste modo conseguir não só controlar a própria economia e mercado como
também a fomentar e assegurar a sua qualidade, como é exemplo a Companhia da
Agricultura das Vinhas da Beira do Alto Douro que tinha como uma das suas funções a
caracterização hierárquica dos seus vinhos tendo em conta a sua qualidade, de primeira,
segunda ou terceira qualidade.

2. A política pombalina

2.1 Contextualização

O Marquês surge-nos na historiografia como uma figura central e importante na


vida económica, social e política da época tendo em conta a sua influência na
organização comercial e do fomento industrial com a criação de companhias tronadas de
diversos privilégios que incentivaram a economia. [tempo de pombal, p29]
Extremamente focado no sistema monopolista, isto é, nos contratos, companhias,
privilégios, era necessário um controlo extremamente restrito da economia e fechar o
mais possível este círculo de modo a melhor controlá-lo, tornando-o mais prometedor.

De acordo com Jorge Borges de Macedo (1981) a governação do Marquês a


nível legislativo pode-se separar em duas fases: a primeira que culmina em 1761 com a
criação do Real Erário (ou Tesouro Geral) que trata o combate ao fluxo contrabandista
que causavam prejuízos às companhias e procura reorganizar o sistema de impostos e
esta fase foca-se na fiscalização e na natureza judicial, integrando-se na política
económica de criação de grandes companhias do comércio que assenta na organização
das atividades económicas na base de monopólios e privilégios. Os impostos e a sua
organização no que diz respeito à cobrança e a alfândega foram também pontos de
grande importância nesta primeira fase de governação que termina em 1770 aquando da
gravíssima crise económica que assolou o país metrópole e as colónias. A segunda fase
adquire preocupações diferentes pois o clima que era vivenciado também teve as suas
mutações e dá início a, por exemplo à primeira reforma da Junta do Comércio de 1771.
Torna-se também necessária nesta fase a criação de um alvará que contemple a
fiscalização do contrabando, feito este em maio de 1774. (Madureira, 1997, pp.49)

Para a compreensão do papel da indústria e consequentemente o seu


condicionamento é preciso compreendê-la nas suas áreas geográficas. Tirando os
núcleos metropolitanos da produção industrial é também notável a presença de
indústrias em zonas do interior nomeadamente em Trás-os-Montes, Beira Alta e
Alentejo especialmente no que toca à tecelagem de lã e seda, a cerâmica, saboaria, ferro
e madeira e aí era presente um clima de protecionismo persistente na questão dos
privilégios atribuídos de modo a abater a concorrência externa e melhorar o esquema
manufatureiro. [inserir referência problemas da história, pag 144] Por exemplo, para
melhorar o núcleo e organização comercial criou-se a Real Fábrica de Panos, esta que se
focava no comércio e manufatura têxtil e previa a melhoria do gado para produção de
matéria-prima. Outro caso foi a criação da Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre que,
quando oficialmente construída em 1779, cerca de 72,5% dos seus elementos estavam
distribuídos numa área circundante à cidade.

De acordo com Macedo são frequentes a menção a uma má situação financeira


do estado, porém é notável que na primeira fase governamental de Pombal se revelava
prosperidade que vai desaparecendo com a crise financeira que lhe segue. A atividade e
organização económica monopolista sofreu a intervenção de novas camadas que
claramente tinham interesse em adquirir um papel ativo no comércio e a extinção da
Companhia do Corisco auxiliou nessa recensão do estado absoluto e de um mercado
mais livre, permitindo a participação da população. A exclusividade vai-se perdendo,
mas a minoria que ainda detinha o monopólio uniu-se a Pombal para conservar o
usufruto da exclusividade e tenta-te limitar os seus principais benefícios criando-se
grandes companhias. “A legislação comercial baseada no privilégio e no monopólio
caracteriza, neste plano, a governação pombalina” (Macedo, 1982, pp.47) A inovação e
extensão do sistema de privilégios exclusivos foi feita para manter lucros do alto
comércio colonial e internacional na perspetiva de uma ameaça da sua partilha pela
multidão de concorrentes aos grandes grupos usufrutuários.

2.2 Atribuição de privilégios

Madureira considera na sua obra que podemos considerar três ciclos na


concessão de exclusivos: 1) 1750-1777, ciclo fiscalizador onde o nosso ensaio se situa.
2) 1778-1809, a liberalização. 2) 1810-1834, o automatismo seletivo. Este primeiro
período insere-se num clima fortemente focado na atribuição de privilégios. O foco
principal das decisões dos deputados da Junta do Comércio é no foro protecionista na
medida em que para se obter despacho favorável pode-se considerar requisito
indispensável que prometa não só monopólio nacional, mas também uma coligação com
a diminuição ou total proibição da importação.

O Marquês procura, inicialmente, criar as indústrias que o país tinha em falta,


atribuir-lhes privilégios de índole alfandegária e eliminar assim a concorrência
estrangeira de onde se costumava importar assim que conseguisse a autossuficiência.
Alguns produtos proibidos entre 1757 e 1788 foram: tecidos de seda e derivados,
objetos manufaturados de mercearia e de latoaria, solas, couros, atanados, setores da
chapelaria, louça, botões, linho, algodão e até as sedas italianas e chinesas. Pombal
também proíbe a exportação de ouro, solidificando a sua economia pelas vias do
entesouramento.

Esses privilégios eram inclusive de fácil usufruto a qualquer fábrica que fosse
licenciada, podendo ser isenta de pagar direitos de entrada de matéria-prima e em casos
de dispersão industrial por subsetores (como, por exemplo, em pequenas oficinas) terão
direito a uma isenção também de quaisquer deveres adicionais nas alfândegas.

As autoridades têm aqui um fator ativo na fiscalização pois ao atribuir


privilégios é feito por mútuo acordo e como tal o outro lado do acordo terá que ser
cumprido. Se tal não acontecer o infrator seria levado à Junta para ser ouvido. Este
acompanhamento e fiscalização permitiram não só um maior controlo dos desvios da
conduta, mas também se tornaram possíveis devido ao número baixo de ocorrências.

3. As companhias

Uma companhia é uma sociedade ou empresa cujo capital está dividido em ações
cuja transação é livre e cujos membros recebem através da divisão dos lucros.

Através do controlo já acima mencionado das limitações do acesso ao


monopólio foram-se criadas diversas Companhias em diversas áreas nutridas de
diversos privilégios. Será em algumas delas que nos iremos debruçar as seguir. Porém,
antes de passarmos a isso é de saber que as companhias não foram um exclusivo
pombalino, existia já antes do governo do ministro diversas companhias nutridas de
privilégio como é exemplo a Companhia do Corisco. Companhia esta que foi criada em
1723, sendo o seu foco o comércio esclavagista e de contrabando com apoio da Coroa,
porém dissolveu-se poucos anos depois. Outra Companhia criada dentro da mesma área
de comércio foi a Companhia do Cachéu, criada em 1675 no reinado de D. Pedro II.
3.1 Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro

A criação da companhia deu-se no âmbito do fomento económico pombalino, de forma


a não só garantir a exímia qualidade dos vinhos, derivado isto da crise que adveio da
adulteração dos vinhos que consequentemente diminuiu a exportação para a Inglaterra,
procurando assim sustentar a reputação dos vinhos, a cultura da vinha e beneficiar o
comércio, mas como também de garantir a produção e comercialização do vinho
controlando a predominância inglesa nesta atividade. Macedo incide no facto de em
1731, através do Porto da Figueira, terem saído sem contrabando nem patente do vinho
do Porto, 4000 pipas para Inglaterra e como forma de reparar e conter os resultados
dessa concorrência, criou-se a Companhia.

Esta companhia, pelos seus estatutos e alvarás amplificados que lhe seguiam,
deveria ser considerada como uma companhia de proteção comercial. Serviu como
único meio a que puderam alcançar os produtores das regiões vinícolas circundantes
para proteger assim o seu valor económico que tinha sido abalado pelo desenvolvimento
de novas regiões produtoras que o tratado e o consumo colonial causaram. A
intervenção do estado não se fica pela sua criação e procede a posteriores cedências de
privilégios num esforço de conquistar a hegemonia comercia do vinho do Porto.
Privilégios estes que foram:

1) Alvará 16-11-1760, privilégio da transformação do vinho em aguardante no


Minho, Trás-os-Montes e Beira bem como a instalação de alambiques para
transformação dos vinhos dos lavradores (excetuando fábricas existentes)
2) Alvará 30-12-1760, autorização da Companhia “fazer devassas” e agir por
intermédio dos juízes contra os transgressores dos privilégios concedidos
3) Alvará 24-11-1764, o estatuto social dos acionistas é elevada
4) Alvará 16-1-1768, o controlo das regiões privilegiadas estende-se em defesa da
“natural pureza”
5) Alvará 17-10-1769, medidas contra armazenistas estranhos à Companhia e ao
comércio estabelecido que acabavam por monopolizar a produção dos vinhos e
pretendiam vendê-los fora dos controlos da Companhia
6) Alvará 16-11-1771, “diz não se ter “até agora bastantemente domado a obstinada
ingratidão e a perniciosa contumácia dos que se atreveram a perturbar a
observância de todas as sobreditas leis e providências com as fraudes que nesta
lei são proferidas”” devido ao facto de se continuarem a falsificar os vinhos
produzidos, diminuindo o calibre e qualidade do prestado vinho, colocando em
perigo o “bom nome da marca”.
7) Alvarás 5-2-1772, 10-4-1773, 4-8-1776, onde se dá a autorização à Companhia
do controle das regiões da agricultura de vinhas em todo o Minho, Trás-os-
Montes e Beira, passando não só a controlar a produção como também o
transporte.
“Ordeno que os lavradores que tiverem produção de vinhos nos terrenos
remotos da Beira Alta: como são todos morados da Guarda, Fundão, Trancoso e
outros semelhantes possam livremente dar consumo nos próprios terrenos aos
vinhos e aguardentes deles fabricadas e transportá-las para as províncias não
compreendidas no privilégio exclusivo da Companhia, enquanto ela não
estabelecer fábricas maiores ou menores nos referidos sítios. No caso, porém,
que os sobreditos lavradores da Beira queiram transportar as suas aguardentes…
o não poderão fazer sem guia e licença da Companhia”.

Como se nota, a Companhia controlava toda a região produtora de vinhos no Norte e o


comércio do vinho do Porto estava não só defendido como era o hegemónico (se não o
único) no comércio externo. Mas, tais tentativas de alcançar a hegemonia susteve
resistência popular e inglesa e a defesa da Companhia, apoiada pelo governo, estendia-
se além das fronteiras nortenha inclusive notável na pretensão dos nortenhos no
mercado de vinhos sulistas após a separação do mercado do Brasil. Como forma de
controlar a revolta popular Pombal ordenou que todos que fossem pedir crédito à
Companhia assinassem um “termo e contrato” e caso o recusassem não receberiam
qualquer empréstimo pois era somente devido aos que pretendiam integrar a
Companhia.

Esta companhia era um autêntico estado dentro de um estado pois era dotado de
um corpo político e “uma sociedade mercantil, um corpo de economia política”…”com
meios próprios da autoridade própria” (Vital Moreira) [inserir cit] isto é, tinha uma
jurisdição própria dotada de um tribunal próprio graças a um Juiz da Conservatória que
tinha como responsabilidade a organização na regulamentação da produção e comércio
vinícola, na cobrança de impostos por delegação estatal, na realização de obras públicas
e inclusive no ensino técnico.

Tinha como funções demarcar terrenos do Alto Douro em que vinho de


desembarque devia ser produzido (vinho do Porto), a qualificação dos vinhos
produzidos no distrito da demarcação (em primeira, segunda ou terceira categoria), o
controlo da genuinidade e qualidade do vinho de embarque, procurando controlar e
diminuir as adulterações aos vinhos para assegurar a boa qualidade e bom nome,
taxação do vinho de primeira e segunda categoria (uma vez que a terceira era designado
por vinho separado) de acordo com o volume da produção e a procura do mercado. Foi
também imputada da cobrança de um imposto para pagar um salário aos professores
régios, cuja fonte eram taxas sobre os vinhos e aguardentes, administrado por uma Junta
da Fazenda.

Como sociedade anónima a Companhia era dotada de um capital inicial, capital


este de 1.200.000 cruzados dos quais, no mínimo, metade deveria ser em dinheiro e não
ações e cujo “primeiro objecto da Companhia é de completar o seu capital social o mais
depressa possível, a fim de confundir os seus adversários” afirma Sebastião Carvalho e
Melo. “A Companhia deu lucro e conseguiu ampliar o seu raio de ação, armando
diversos navios com destino ao Brasil e às ilhas” (Falcon) Porém, ainda que tivesse tido
um papel determinante no desenvolvimento económico nortenho, a Companhia
continuou a sofrer de ataques e motins, extinguindo-se finalmente em 1853.

3.2 Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão

A Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão ou Companhia


Geral foi um outro exemplo das medidas monopolistas de Pombal. Criada em 1755 pelo
alvará régio. O foco desta companhia era o comércio colonial, com foco no lucro aos
acionistas e competia-lhe assegurar que as zonas sob sua alçada eram desenvolvidas,
abastecidas e cujo comércio era fomentado. Tornou-se num dos principais interlocutores
em vastas zonas do Brasil.
Em termos de privilégios, aqui novamente se vê a forte presença e mais uma vez
como grande elemento de criação destas companhias. A sede desta companhia ficava
em Lisboa e era praticamente intocável pelos tribunais na medida em que seria
necessária uma intervenção régia para tal. Os oficiais do Estado não tinham qualquer
papel ativo ou ação sobre “a gente de mar e guerra” (Macedo, 1982) que por sua vez,
para controlar o contrabando, somente podiam sair do Reino para os Estados atribuídos
com as frotas da companhia. Dentro dos seus privilégios tinham também direito a um
foro de nobreza aqueles que dirigissem a companhia. De início afirma-se que o sangue é
compatível com o comércio. A verdade é que vão criar uma proveniência da “nobreza
civil” isto é, proveniente do serviço ao Estado que vai evoluindo para toda uma retórica,
procurando justificar esta realidade e salvaguardar os títulos.

Juntando o poderio, privilégios e o monopólio que a Companhia detinha, ela


ameaçava o direito individual à propriedade e mercado daí foram criadas cláusulas de
forma a tentarem proteger os colonos de um ambiente económico totalitário:

1) Tentou-se criar liberdade de venda para a metrópole utilizando as frotas da


companhia
2) Proibição das companhias entrarem no comércio retalhista
3) Fixação de uma margem de lucro para as vendas no Brasil tendo em conta o
preço de custo em Portugal

Ainda que honrosas as tentativas de controlo do abuso a verdade é que tais não
se viram totalmente cumpridos. Há notícias de diversas denúncias de casos em que
foram recusados a particulares carregarem as suas mercadorias nos navios por desculpa
de sobrecarga, sendo obrigados a aceitar os preços oferecidos por se tratar de produtos
perecíveis. A proibição de estabelecimento de comércio retalhista em pouco ou nada
serviu uma vez que essa medida não abarca o facto de os feitores da companhia serem,
em nome pessoal, retalhistas, portanto, beneficiam da posição privilegiada como
membros da Companhia de qualquer maneira. O terceiro ponto também apresenta
lacunas, a indexação pode ser mutada pela imposição de ganhos adicionais na
negociação dos termos do crédito. Toda esta falta de controlo e liberdade de exploração
levou ao aumento do monopólio da Companhia às custas da população.

Madureira na sua obra sobre o mercado português explica também que, numa
altura em que o Estado se procura estabelecer fortemente mercantilista e procura
organizar a contabilidade, esta Companhia demonstra ter os seus estratos e contas
anotados de uma forma desorganizada e sem rigor. Apresenta erros de sintaxe, uma
estrutura confusa e desagregado. Os critérios são nulos, ficando à vontade do autor de
impor da forma que melhor achar. “A leitura das contas é difícil e granular.”
(Madureira, 1997). Para explicar melhor aquilo que Madureira nos apresenta utilizarei o
quadro que ele disponibiliza na sua obra
Como é possível ver e como aponta Madureira, a partir de 1766 os lucros
começam a cair consideravelmente e a distribuição dos dividendos é acelerada a partir
de 1762-1763 tendo em conta o fundo de capitalização. Deu-se uma subida de 14.29%
de 1761 para 1762 e de 18.75% de 1762 para 1763, uma subida abismal se contarmos
que no ano anterior o percentual de subida se focava nos 3.1%.
No final do período pombalino é retirada aos acionistas o privilégio da isenção
dos impostos de décima e em 1774 os lucros ficam sujeitos “à derrama total”. A
Companhia ainda que passe for momentos problemáticos consegue-se manter segura e
os seus acionistas fora do risco da crise gerada pelo declive económico. Ainda assim o
comércio acaba por evoluir e a Companhia tem que aprender a conviver com essas
mutações, a concorrência das Antilhas, a baixa dos preços no comércio internacional e a
inflação dos preços dos escravos tornam as atividades baseadas no trabalho intensivo
menos atrativas. Porém, o regime de monopólio favorece a adaptação às novas
conjunturas pois o produto de maior procura nos mercados é apropriado pelo
monopólio, acabando com a liberdade de comércio e o exclusivo do transporte com
poderes civis torna possível um congruente exclusivo comercial. “O balanço das
actuações das companhias apresenta um saldo positivo a favor da autoridade do Estado
e da repressão do contrabando e um deficit no desenvolvimento económico das
colónias”, portanto, como já mencionado inúmeras vezes acima, as Companhias
serviam como instrumento de controlo da economia e proteção estatal, reforçando não
só o poder central como também o poderio sobre a economia nacional.

Sedimenta-se aqui um núcleo de indivíduos que se aproveita dos privilégios e do


acesso ao monopólio para conseguirem adquirir para si altos lucros e benefícios.

4. Conclusão

Neste ensaio não foram tratadas todas as companhias criadas por Pombal, decidi
focar-me em duas delas por acreditar que se tratava das duas mais mencionadas nos
livros tratados. A questão orientadora focava-se essencialmente na questão dos
privilégios como fator da criação das companhias, mas também na sua ação para a
construção de uma sociedade mercantilista e considero que isso é facilmente observável
no que já falamos das duas companhias. É clara a presença de benefícios e privilégios,
especialmente no que toca a benefícios fiscais como isenção de impostos e de pagar
direitos alfandegários, a imunidade judicial pois ora adquirem a sua própria estrutura
jurídica como foi o caso da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro
ora somente será possível alcançarem a justiça através de intervenção régia que,
relembro, era imprescindível para que qualquer tribunal pudesse interagir com a
Companhia do Grão-Pará e Maranhão. Ao nutrir estas companhias de privilégios,
Pombal procurava também assegurar que manteria o comércio livre de concorrência,
como é exemplo a medida de assegurar que todos os que pedissem empréstimos à Real
Companhia Velha (Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro)
assinarem um termo de exclusividade com a Companhia, proibindo-se assim que outras
empresas adquirem capital por seu meio, e ao mesmo tempo que assegurava esse
exclusivo comercial conseguia adquirir um controlo da própria companhia, tornando-a
dependente do investimento e controlo régio, consequentemente dos seus alvarás. Tendo
em conta que o país se estava a restruturar de uma destruição massiva de uma parte do
país e da sua tentativa de restruturação, pode-se afirmar que o controlo absolutista do
país serviu, para Pombal, como forma de controlar e tentar suavizar os efeitos deste
desastre e da crise subsequente.
BIBLIOGRAFIA

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