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Era uma vez, um garoto...

“Está bem”, disse o professor. “Não tenha pressa”.


O menininho, de pé diante da classe, estava tendo um momento terrível, lendo uma
história para seus colegas.
“A c-c-casa foi p-p-pinttttada de br-branco”, leu no livro de texto.
Ele sofria de um problema de gagueira que surgia sempre que se encontrava sob a
menor tensão ou pressão. Ficar de pé diante da classe era humilhante para ele.
Depois das aulas os colegas caçoavam e zombavam dele até sentir vontade de sair
correndo e esconder-se.
Aos cinco ou seis anos ficou aparente para tal garoto e para os que o conheciam que
tinha um grave problema. Quando estava calmo, ou com um amigo chegado, podia falar
por vários minutos sem gaguejar. Mas quando sentia medo ou tensão, a condição se
manifestava de novo.
A gagueira aparecia de forma mais pronunciada quando se encontrava na presença
de uma figura importante ou em um lugar público. No geral gaguejava quando ia dizer
uma ou duas palavras. Mas havia ocasiões em que se levava uma eternidade para dizer
uma oração inteira.
Quando pequeno e alguém chegava para ver seu pai, rapidamente se escondia
debaixo da mesa ou da cama para que não se risse dele. Não suportava a idéia de que
alguém o caçoasse por causa de seu impedimento.
Na escola, à medida que os anos se passavam raras vezes se oferecia
voluntariamente para responder a uma pergunta. Quando lhe pediam que fizesse uma
apresentação oral, essa era uma experiência dolorosa. A situação ficava especialmente
difícil durante a época de exames.
Os professores ameaçavam castigar quem risse enquanto ele falava. Conseguia
terminar de ler antes que seus companheiros caíssem na risada, mas depois das aulas,
um ou dois deles passavam perto caçoando, fazendo de conta que eram gagos.
Eles não sabiam o quão profundamente estavam ferindo os sentimentos do tal
garoto. Talvez não pretendessem, mas o deixava tão zangado que às vezes até pensava
em se vingar.
A maioria dos professores eram muito amáveis e compreensíveis. Certo dia um
deles colocou os dedos em seus ouvidos, pensando que se não ouvisse qualquer ruído
externo poderia falar sem gaguejar. Se o ajudou de alguma forma, não foi por muito
tempo.
O aspecto mais devastador da gagueira foi o prejuízo para sua auto-estima. O
prejudicou tanto quanto um problema físico. Ele quase podia sentir sua personalidade
sendo destruída.
Durante a adolescência a gagueira continuou. Ele tentava encontrar maneiras
engenhosas para ocultar sua dificuldade. Algumas vezes, tratava de exercer o domínio
da mente sobre o corpo. Descobrira que se não pensasse continuamente em seu
problema, podia falar por um bom tempo sem maiores manifestações. Mas quando
começava a gaguejar, perdia completamente o controle.
Fazia todo o possível para evitar conversas com pessoas que pudessem provocar
essa reação nervosa. É claro que falar em público era algo que jamais pensava em fazer.
Certa noite, na Igreja, o garoto foi surpreendido com um pedido em público para
que lesse alguns versos da bíblia. Quem o chamou não imaginava que ele tinha um
grave problema de gagueira.
Havia mais de duas mil pessoas naquela noite. Ele queria recusar, mas temia
desapontá-los. Seus olhos se fecharam e ele disse: “Ó Deus, se fizer isso vou cair no
ridículo”.
Na noite em questão, apanhou o microfone e começou a ler em voz alta. Depois de
haver lido duas ou três linhas, zás! Foi golpeado. Lágrimas começaram a encher seus
olhos e ficou paralisado de pânico.
Nunca mais pediram para ele ler a bíblia em público.
Durante aqueles dias começou a freqüentar um estudo bíblico que se reunia nas
manhãs de Sábado. Havia aproximadamente vinte pessoas. Como parte do ensino, o
líder do grupo começava de um lado da sala e pedia a cada aluno que lesse um versículo
ou dois da Escritura. A seguir comentava sobre o texto e passava para a pessoa seguinte
no círculo. Quando estava quase na hora de ler, o garoto se levantava silenciosamente e
ia para o banheiro. Semana após semana, durante quase um ano, usou a mesma tática.
Ele ficava aguardando do lado de fora da sala até que passasse a sua vez. Depois voltava
ao grupo.
Finalmente, o professor chamou-o de lado para falar. Percebi que se achava um
tanto aborrecido. Ele disse: “Olhe, esta é uma classe. Você está sempre indo ao banheiro
na mesma hora”.
Ele sabia o que o garoto estava fazendo. Todos sabiam.
O garoto não suportando mais aquela situação, desistiu de freqüentar o tal grupo.
Pois bem, poucos anos depois, o garoto um pouco mais velho, porém ainda com sua
dificuldade, se viu numa embaraçosa situação, chamada “Garotas”.
Ser caçoado por um menino era humilhante, mas ser caçoado por uma garota era
como cair num abismo com infinita profundidade.
Ele se sentia muito acanhado simplesmente por olhar para as garotas. Evitava ao
máximo qualquer contato que porventura, necessitasse de sua fala.
Quando alguma garota se aproximava, mesmo para pedir uma caneta, suas pernas
tremiam, sua boca secava, seu corpo suava, seu abdômen se contraia, sua respiração
ficava mais forte e seu coração tão rápido que quase se ouvia as batidas. Era inevitável.
Em suma, a vida do garoto sempre esteve muito prejudicada, não importa em que
área, seja social, familiar, escolar, com o seu próprio eu, enfim.
Para o garoto parece uma luta incessante contra sigo mesmo, e talvez seja.
Será o fim...?
Ou um novo começo...?
O garoto precisava apenas de uma resposta.

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