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Imprensa, Espaço Público e Literatura Completo

O documento descreve o contexto histórico do jornalismo e da imprensa no Brasil desde o século XVI até meados do século XIX. Aborda os antecedentes da atividade impressora no Brasil, a censura prévia, a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808 e o início da imprensa no país. Também discute as primeiras publicações, o estilo de texto utilizado e a formação da opinião pública no período.

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Carlos Eduardo
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Imprensa, Espaço Público e Literatura Completo

O documento descreve o contexto histórico do jornalismo e da imprensa no Brasil desde o século XVI até meados do século XIX. Aborda os antecedentes da atividade impressora no Brasil, a censura prévia, a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808 e o início da imprensa no país. Também discute as primeiras publicações, o estilo de texto utilizado e a formação da opinião pública no período.

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JORNALISMO UFSC PROF. DR.

ALISSON MACHADO
Antecedentes
A atividade impressora surge no séc.
XVI com a chegada dos europeus.

Censura prévia aos impressos pelo


poder civil (Ordinário e Desembargo do
Paço) e pela Igreja (Santo Ofício).

Censor: cargo com parâmetros


religiosos, políticos e morais para a
interdição de obras.
Antes de 1808: mais de 300 obras, incluindo livros e impressos anônimos
relatando festejos, acontecimentos, antologias, índices e manuscritos de
temas variados como poesia, agricultura, medicina, botânica, discursos,
sermões, relatos de vigem, prosa, gramáticas.

Tendência de negação dos prelos em Pernambuco


durante a ocupação holandesa no séc. XVII. Poucos
registros sobre um impressor, no Recife, em 1706,
que teria estampado letras de câmbio e orações.
Quarenta anos depois, tipografia de Antônio da
Fonseca chegou a publicar quatro pequenas obras.
Tipografias instaladas pelos jesuítas no começo do séc. XVIII nas Missões
(território que hoje pertence a Argentina e Paraguai).

A ênfase no atraso, censura e oficialismo não é suficiente para dar conta da


complexidade das características.

Circulação de estudantes brasileiros na Europa, bem como comerciantes,


traficantes de humanos e navegadores.

Práticas de leitura em voz alta e coletivas (leitura dos bandos e pregões dos
atos do governo), leitura da Igreja e no âmbito comunitário.

Circulação de manuscritos: cartas, correspondências particulares, cópias de


textos...
O começo da imprensa no Brasil

O jornalismo brasileiro foi oficialmente fundado com a chegada da corte


portuguesa ao Brasil, em 1808.
A imprensa foi uma das instituições que o príncipe regente Dom João e a
rainha Dona Maria tiveram de transplantar para Brasil após se instalarem no
Rio de Janeiro, assim como os tribunais de Justiça, escolas de ensino
superior, abertura dos portos, fundação do Banco do Brasil, repartições
públicas e a academia militar.
Durante três séculos, a metrópole proibira a instalação de tipografias e a
impressão de obras no Brasil.

Em 1778: O Gazeta de Lisboa circulava na América portuguesa; 15 periódicos


durante o governo do Marquês de Pombal (1750-1777): divulgação cultural,
científica, literária e histórica.

Em 1808: necessidades da administração pública; função da colônia sediar o


poder real, foi criada uma Impressão Régia e autorizada a circulação da
Gazeta do Rio de Janeiro, ambas cópias de instituições deixadas em
Portugal.
Correio Braziliense (1808-1822)

Primeira publicação circulou em 1808. Hipólito da Costa editou o


Correio Braziliense ou Armazém Literário, em Londres, onde viveu
como exilado.
Jornal clandestino que defendia o
projeto de um Império luso-brasileiro.

Hipólito se colocava como um


correspondente para informar ao Brasil
o que acontecia na Europa.
Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822)

Inaugurou a impressão no Brasil e a circulação


regular de periódicos que passaram a ser impressos
e se tornaram, gradativamente, acessíveis a um
público mais amplo.
Réplica da Gazeta de Lisboa, lançada para divulgar
periodicamente os atos do governo. Era vigiada no
Brasil pela censura, funcionando como órgão do
governo, apesar de suas declarações em contrário.
Seguia o padrão das gazetas europeias que
circulavam na esfera do Estado Absolutista.
Tanto a Gazeta quanto o Correio defendiam a forma de governo
(monarquia), a mesma dinastia (Bragança), apoiavam o projeto de união
luso-brasileira, repudiavam as ideias de revolução e ruptura, padronização
da crítica à Revolução Francesa.

A Gazeta do Rio (por volta de 1821), antes mesmo


do Correio, passa a defender a modernidade
política e se manifestar a favor da independência.

O Patriota, edição da Imprensa Régia de 1813 uma


das primeiras revistas divulgando assuntos de
interesse no momento, divulgação das ciências,
letras e de notícias internacionais.
Notícia não tinha o mesmo sentido de informação
nova e recente que passou a ter a partir do século XX.

Notícia era ilustração, esclarecimento, conhecimento


de algo até então sabido. Não importava se o não
sabido era temporalmente próximo ou distante.
Qual era o contexto socioeconômico e cultural do Brasil
naquela época?

Expansão comercial com a transformação do Brasil em sede da coroa


portuguesa, significou um aumento expressivo da população, incluindo de
estrangeiros;
Ampliação do comércio, expansão da burocracia oficial, necessária ao
funcionamento do reino em novas terras, intensificaram-se as atividades
econômicas e culturais;
A criação de redes administrativas, de transportes, de mercadorias, de
produção e circulação dos impressos, difundindo interesses, ideias, palavras
de ordem: crucial para a formação dos espaços públicos.
1820: revoluções constitucionalistas na Espanha e
Portugal. Decreto de 21 de setembro de 1820 da Junta
do Governo da Revolução Constitucional Portuguesa
estabelecendo a liberdade de imprensa e 13 de
outubro estabelecendo a liberação da circulação de
impressos portugueses fora de Portugal.

D. João VI assina o decreto suspendendo a censura prévia para a


imprensa em 2 de março de 1821, no Rio de Janeiro.

1820 a 1840: Explosão das palavras impressas pelo território, como uma
época marcada pelo processo da independência, de consolidação da
monarquia e da formação do Estado Nacional.
Do ponto de vista territorial: o Brasil (ainda não consolidado como Estado
Nacional), no final dos anos de 1820, era constituído por três grandes espaços:
o Oeste Marítimo (que incluía o Grão-Pará, o Maranhão e as demais províncias
do Norte); os Governos Gerais do Leste (Bahia e os governos de Sergipe,
Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul); e os Governos do
Interior: Minas, Goiás e Mato Grosso.
O Brasil tinha 13 centros urbanos com condição jurídica de cidade: Rio de
Janeiro, a cidade imperial, e mais 17 vilas. A Bahia possuía o maior número de
cidades (5) e vilas (26), projetando sua influência administrativa sob os
governos de Sergipe e Espírito Santo, cada um com um distrito. Em seguida
vinha Mato Grosso, com três cidades, incluindo a capital Vila Bela. O Grão-Pará
contava com uma cidade (a capital) e 14 vilas. O Rio Grande do Sul não tinha
nenhuma cidade, possuindo apenas duas vilas, oito cantões e 11 paróquias.
Emergência da opinião pública no Brasil (anos 1820 e 1821),
contexto que antecedeu a Independência e marcou mudanças
significativas na estrutura política da Península Ibérica e de
seus domínios na América.
Quem escrevia nos jornais não era
chamado de jornalista, mas de redator ou
gazeteiro, enquanto os jornais eram
comumente denominados de gazeta,
folha ou periódico. Eles diferiam dos
pasquins, folhas volantes e avulsas,
quase sempre anônimas e sem
continuidade.
Qual era o estilo de texto utilizado?

Estilo panfletário, que expressou uma das fases mais criativas e


vigorosas dos debates políticos mundiais e da imprensa brasileira em
particular, e veio a desaparecer na segunda metade do século XX.
Missão política e pedagógica.

Eficácia por várias características interligadas: capacidade de convencer


e de atacar, espírito mordaz e crítico, linguagem literária, sátira,
requerendo ao mesmo tempo densidade doutrinária e ideológica e
agilidade para expressar em situações específicas e circunstanciais.
Jornalismo político
Imprensa desde cedo legitimada como instrumento indispensável da
prática política, como agente a serviço do processo de construção do
Estado brasileiro conduzido principalmente por elementos oriundos
da aristocracia rural, dos quadros estatais, das profissões liberais e
do clérigo.

Configuração que predominou estrutural e discursivamente durante


o período imperial.
Relação entre livros e jornais periódicos
Os jornais eram vendidos em livrarias custando
muito mais barato que os livros.

Transcrição de longos trechos de livros.

Os pontos de venda e circulação da imprensa tiverem


impacto no desenvolvimento dos estilos urbanos.

Tipografias e livrarias compunham um comércio no


sentido ampliado; vendiam produtos diversos como
roupas, louças, bijuterias, perfumes, papelarias,
remédios e boticários, mármore.
Formação da Opinião Pública
Público: oscila entre três possibilidades de sentido : o “povo”, a
sociedade esclarecida e o Estado português.

Objetivamente, é restritivo às camadas econômica e culturalmente


bem situadas.

Seus integrantes, em grande parte, pertenciam aos quadros


administrativos do Estado, um perfil de público não só imaginado,
mas concretamente identificável e homogêneo.
Formação da Opinião Pública

Espaço público alicerçado na força da palavra impressa. Palavra


envolvida na construção de uma identidade nacional abrangente.

Busca de um projeto global de consolidação das instituições político-


jurídicas brasileiras.

déc. 1860: observa-se uma abertura qualitativa da discursividade


pública, dos seus interesses, integrantes, da natureza de suas
intervenções e dos formatos das publicações informativas em geral.
Formação da Opinião Pública
Despontam jornais desvinculados de um explícito compromisso partidário,
atuando como agentes políticos singulares, não necessariamente
instrumentalizados por partidos.

Organização autosustentável por meio das vendas de assinaturas, avulsas e de


espaço publicitário.

Emergência de formatos próprios, autonomia em relação às demais instâncias


políticas e estatais.

Legitimação do discurso jornalístico: atribuição de faculdades educativas,


moralistas e um engajamento à causa nacional (idealismo evolucionista e
iluminista)
Até as últimas décadas do séc. XIX, não se pode falar em
alcance massivo e tampouco plural das publicações então
existentes.

Em meio ainda marcado por relações escravistas e pelo


analfabetismo, o campo de luta e tensões dos setores
letrados (academias, escolas e também a imprensa) exclui
totalmente as classes subalternas e até mesmo alguns
importantes setores das classes dominantes.
final do séc. XIX: introdução de rotativas, linotipos e bobinas
de papel, aliada ao formato standard.

O jornalismo começa a assumir características mais


empresariais, aumentam as tiragens e modifica-se o próprio
processo de trabalho e estilos de redação (notícia literária
entre 1890 e 1920), desamarras dos compromissos político-
doutrinários.

Analfabetismo, a censura, a lenta urbanização do país e o


precário desenvolvimento dos serviços de comércio e
indústria.
Jornal do Commercio do Rio de
Janeiro, 1827, (através do
suplemento Folhetim, em 1838)
como um dos primeiros
periódicos do país que
tematizam questões culturais.
As colônias de imigrantes
europeus passam a forjar seus
próprios espaços de
informação.

Kolonie-Zeitung (Jornal da
Colônia) publicado em 1862,
de circulação semanal entre
os moradores da Colônia
Dona Francisca (Joinville).
Incluía atividades sociais da
vida na colônia, culturais, de
grupos artísticos, atos
religiosos e afins.
Folhetim-novelesco, os periódicos
começam a criar suplementos – mês,
quinzena ou semana, dependendo da
periodicidade dos mesmos – para veicular
produções literárias basicamente em
forma de poesia, contos ou novelas.

Veículos (revistas e variedades), que


tematizam basicamente questões
literárias, com rápidas notícias e notas de
entretenimento, circulam aos domingos,
tornando-se leitura domingueira.

O Guayba (RS, 1856 – 1858)


A criação da indústria e do mercado de consumo está associada

ao processo de urbanização emergente e criação do público

potencialmente consumidor só a partir do início do século XX.


RJ, 1880: expanção da esfera pública literária e artística

Experimentação da pluralidade dos discursos e práticas e do moderno ambiente


urbano.

Passagem do predomínio de um jornalismo político para um autossustentável,


informativo e diversificado tematicamente: torna-se uma instituição com
critérios e procedimentos próprios de estruturação, funcionamento e
manifestação pública.
RJ, 1880: expanção da esfera pública literária e artística

Jornalismo como um processo de reflexividade do interior da própria cidade,


monitora, transforma e manifesta as dinâmicas sociais.

Descoberta da cidade, da vida urbana, de suas vicissitudes e regras de


autoreflexividade.

As causas imediatas da urbanidade carioca são reveladoras dos novos


perímetros da discursividade pública.
Profundo relacionamento entre imprensa, literatura e sociedade

Inclusão da vida privada, dos distintos universos culturais e das várias


linguagens e estéticas expressivas.

Abertura concreta do olhar público para territórios velados pela


marginalização social, então incluídos e chamados a participar mesmo
que de forma indireta e restritiva, da referencialidade construída pela
imprensa.
A história de como a cultura passou a adquirir o status de notícia
nos jornais diários no Brasil não poderia ignorar o Correio da
Manhã (RJ, 1901 até 1974), como um dos mais prestigiados
espaços de mídia impressa do país. Correio trazia seções voltadas
ao campo cultural, como a letras, artes, teatro e outros eventuais
setores destacados.
Entrada em cena do rádio, a partir de 1922

Sua difusão em quase todo o território nacional formando largas audiências


contribuiu para iniciar grandes populações nas regras de referencialidade e interação
das estruturas de comunicação.

Analfabetos, segmentos economicamente excluídos e distanciados do circuito das


grandes cidades passaram a decodificar um conjunto de formatos e conteúdos
próprios da radiofonia.

Uma forma de aprendizado e inserção numa esfera ampla de construção de


identidades de ambição nacional, a princípio alimentada por conteúdos da vida
privada.
Relação entre jornalismo e literatura

A narrativa jornalística acaba por incorporar ou mesmo renovar o texto


literário (e vice-versa).
A imprensa foi um laboratório da poesia e do romance nacional.
Consagração de um modelo de belas artes, baseado em nomes como
Machado de Assis, José de Alencar e Olavo Bilac (entre a crônica,
editoriais e o artigo)
Modelo francês de análise e comentário.
Relação entre jornalismo e literatura
Ao invés de construir contos e poemas para ilustrar os jornais, o repórter
moderno precisa escrever reportagens, entrevistas, corrigir textos, editar
páginas, chefiar redações, trabalhando como "jornalistas braçais".

Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade.

Levaram para a imprensa os preceitos da literatura moderna, mesmo


antes da estruturas de lide, sublide e pirâmide invertida do modelo norte-
americano.
João do Rio, considerado nosso primeiro repórter:
O literato do futuro será o repórter.

1899, começa a trabalhar no A Tribuna e para o A Cidade do Rio.


(aos 18 anos presenciou a transição da imprensa artesanal para a
industrial)
Jornalismo investigativo, sobre o cotidiano da cidade e sobre o
comportamento humano. Com o fim da influência romântica a
imaginação ficcional abria passagem para o senso de realidade
jornalística
Método de apuração moderno: busca e questionamento das
fontes, circulação nos diversos bairros da cidade em busca de
histórias, diversidade de assuntos, uso privilegiado das descrições
in loco.
Mundos dos feitiços (religiões de matriz africana), igreja
positivista, marotinas, fisiólatras, evangélicos, Associação Cristã
de Moços, satanistas, exorcismos, sacerdotisas do futuro, culto do
mar, Nova Jerusalém, espiritismo, sinagogas.

1904, Gazeta de notícias.


A alma encantadora das ruas, 1908.

Pequenas profissões, os tatuadores, orações, cores, vendedores e


músicos ambulantes, cocheiros, olha para a miséria, as prostitutas,
trabalhadores da estiva, famintos, mendigos e olha para a prisão, onde a
rua termina, "crimes de amor", galeria de presos, dias de visitas, versos,
mulheres detentas.
Descreve a cidade urbana, luminosa, Rio moderno, consumista, também
a cidade da desordem, do fora da lei, do bizarro, dos invisíveis, dos
marginais, dos pivettes e gatunos. Do esplendor da rua à Rua da
Amargura "interminável, que atravessa as cidades, países, continentes,
vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideias, em que se
insultam todas as verdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus
passou".
Vida vertiginosa (1905-1910, lançado em 1911)

Automóvel, estrangeiros, o povo, os estudantes, as modern girls, o


trabalho doméstico (crise dos criados), vida privada, mundo da
jogatina, dos ilícitos, a miséria, feminismo, política, linguagem,
emoções, cotidiano em 1920.
A era do automóvel.

E, subitamente, é a era do automóvel. O monstro transformador


irrompeu, bufando, por entre os descombros da cidade velha, e como
nas mágicas e na natureza, aspérrima educadora tudo transformou
com aparências novas e novas aparições. [...] Para que a era se
firmasse fora precisa a transfiguração da cidade. Ruas arrasaram-se,
avenidas surgiram, os impostos aduaneiros caíram, e triunfal o
automóvel entrou, arrastando desvairadamente uma catadupa de
automóveis. Agora, nós vivemos positivamente nos momentos do
automóvel, em que o chauffeur é rei, é soberano, é tirano. [...]
Automóvel, senhor da era, criador de uma vida nova, ginete
encantado da transformação urbana, cavalo de Ulisses posto em
movimento por Satanás, gênio inconsciênte da nossa metamorfose!
A milésima segunda noite na Avenida
Paulista, 1945, Joel Silveira.

Pioneiro da grande reportagem (Os


Sertões, Estado de São Paulo, 1902).

A reportagem surge como uma válvula de


escape à censura imposta pelo Estado Novo
(Vargas, 1937-1946). Sem poder falar em
política, os jornais abriam espaço para
temas menos cadentes.

Correspondente da II Guerra, durante 10


meses na Itália, junto à FEB a mando de
Chateaubriand (dono dos Associados).
A milésima segunda noite na
Avenida Paulista, 1945, Joel
Silveira.

Anos 40, Granfinos em São Paulo.

Casamento de Filly, filha do conde


Matarazzo, "conde Chiquinho"
com o jovem milionário João Lage.

Casamento de Nadir Ramos e José


Tedeschi, operários das indústrias
Matarazzo.
Um dia no cais, João Antônio
(Revista Realidade, 1968)

Armazéns, guindastes, navios


imensos, bondes, caminhões,
bares, boates, hotéis, vozeiro nas
calçadas. A zona do cais de
Santos, um dos maiores portos
do mundo. Nesse cenário em que
marinheiros, crianças, mulheres,
se agitam dia e noite, João
Antônio viveu um mês. E trouxe,
de lá, êste conto-reportagem.
A cidade, os prédios, os morros dormem de todo. Cais não dorme.
Não se apaga. Lá pelos cantões, um que outro ôlho aceso fica no
rabo da manhã. E fica. O botequim é xexelento, velho encardido. E
teima que teima plantado. Agüenta suas luzes, esperto, junta
mulheres da vida que não foram dormir, atura marinheiros, bêbados
que perturbam, gringos, algum cachorro sonolento arriado à porta de
estrada. Recolhe cantores cabeludos dos cabarés, gente de polícia
doqueira, marítima e à paisana. E mistura viradores, safados,
exploradores de mulheres, pedintes, vendedores de gasparinos,
ladrões, malandros magros e sonados. [...]
- Vai lavar roupa, sua fedorenta!
Rita Pavuna e Odete Cadilaque se pegam. Duas das que zanzam
trabalhando na noite, conluiadas nos trampos...
Anos 60-80: Enquanto a América Latina vivia as
intensidades do realismo mágico, aqui os anos de chumbo
germinavam o romance-reportagem.

Os intelectuais julgavam pertencer a uma classe


intermediária, entre a elite e o proletariado.
Função declarada: preparar as bases para a revolução
social, política e cultural.
Muito da ficção dos anos de chumbo foi escrita por gente
que trabalhava nas redações.
Jornalista como grande personagem
da ficção no período:
A festa, Ivan Angelo.
Cabeça de negro, Cabeça de papel,
Paulo Francis.
Um novo animal na floresta, Carlinhos
Oliveira.
O inferno é aqui mesmo, Luís Vilela.
Um cão uivando para a lua, Antônio
Torres.
Setembro não tem sentido, Joao
Ubaldo Ribeiro.
Jornalista como um observador privilegiado do período
Forte sentimento de frustração frente à realidade social

A profissão faz alcóolatras, jogadores, impotentes,


solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa ou
do poder, e por isso, rodeados de inimigos, detratores e
desafetos por toda a parte. [...] Provavelmente, só por si, a
profissão não faça essas desgraças e devastações, mas
sim, os infelizes que a procuram, fracassados em outros
meios, já chegam a ela doentes, impregnados,
neurastênicos, ansiosos, atrapalhando-se com espectros
e manias. Isso. Agora a profissão apressa bem esses
processos.
João Antonio, Abraçado ao meu rancor, 1986
Por ser menos censurada, a literatura passou a
exercer a função de informar: origens do
conto-reportagem, do livro-reportagem.

José Loureiro, que transformou uma reportagem


não publicada na Folha de São Paulo no romance
Infância dos mortos, de onde surgiu o filme Pixote,
a Lei do Mais Fraco (Babenco, 1980)

Retrato da violência, criminalidade e prostituição


sobre adolescentes em situação de rua de São
Paulo.
Anos 90-00: repórteres-autores como escritores profissionais

Perfil profissional egresso da universidade;


Literatura como espaço de experimentação formal e de reflexão sobre o real;
Diferença entre a ficção para autores na ditadura e a ficção para autores
contemporâneos;

Culturas profissionais competitivas, vários tipos de mídia, disputa pelo leitor (o


leitor de classe média) são fenômenos que contribuem para a estandartização
dos noticiários;

Lógica da concorrência, da produtividade, a crise econômica (déc. 90),


enxugamento das redações, dificultam a liberação do repórter da pauta diária,
contribuindo para que os jornais tenham, cada vez menos grandes reportagens;

Dilemas da modernidade, desencantamento político, individualismo,


desterritorialização, desemprego, consumo em si mesmo.
Redescobertas do Brasil:
experiências narrativas que
abandonam as fronteiras
naturalizadas entre a objetividade
jornalística e a subjetividade literária.

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