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TÍTULO: AS REPRESENTAÇÕES DE ÁFRICA NOS FILMES INDICADOS NOS

MANUAIS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA

ANA CLÁUDIA DO CARMO CEDRAZ1


Mestranda do PPGEAFIN-Uneb
claudiacedraz2009@hotmail.com

Resumo: O cinema contemporâneo ocidental insiste em representar o continente africano como


um lugar que ainda não alcançou o progresso, e permanece longe de se tornar um modelo de
civilização. O presente artigo tem como objetivo discorrer sobre as representações de África,
existentes em duas narrativas fílmicas: O Jardineiro Fiel e Amor sem Fronteiras, filmes estes
que são sugeridos nos manuais didáticos de Geografia adotados pelas escolas do Ensino Médio
de Valente, município localizado a 246 quilômetros de Salvador, Bahia. Marcado pelas
representações eivadas de estereotipias, o continente africano é apresentado de forma
homogênea, caracterizado por discursos e imagens distorcidas dos povos africanos, focando
nos aspectos negativos, como atraso, selva, guerras, genocídios, fome, calamidades naturais,
AIDS, doenças endêmicas etc. Para este trabalho foram feitas análises dos filmes indicados na
seção “outras fontes de reflexão e pesquisa” do livro Fronteiras da Globalização e do livro
Contato Geografia e revisão bibliográfica de autores que discutem questões relacionadas com
a Geografia e a História do continente africano. A importância deste trabalho reside no fato das
produções cinematográficas ainda serem ferramentas de valor inestimáveis para os professores
que fazem uso de sua exibição em sala de aula ou as indica para serem vistas em casa, como
complementação dos conteúdos trabalhados na escola. Além disso, a pesquisa potencializa uma
discussão sobre o estabelecimento de fronteiras entre o que é ficção e o que de fato é História
da África, visto que muitos professores insistem em estabelecer conexões indevidas entre as
narrativas dos filmes e a História. Também é importante ressaltar que o livro didático ou os
filmes indicados por eles não devem ser vistos como monumentos inquestionáveis e que seu
uso independe da ação e performance do docente.
Palavras-chave; Representações, África e Produções Cinematográficas.

Abstract: Western contemporary cinema insists on representing the African continent as a


place that has not yet made progress, and remains far from becoming a model of civilization.
This article aims to discuss the representations of Africa, existing in two film narratives: The
Faithful Gardener and Love Without Borders, these films that are suggested in the textbooks of
Geography adopted by high schools in Valente, a municipality located at 246 kilometers from
Salvador, Bahia. Marked by the riddled representations of stereotypes, the African continent is
homogeneously presented, characterized by distorted discourses and images of African peoples,

1
Graduada em Geografia, especialista em Gestão e Educação Ambiental, mestranda do Programa de Pós-
graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras (PPGEAFIN) - UNEB, campus I. Professora da
rede estadual da Bahia e da rede municipal de Valente.
9
focusing on negative aspects such as backwardness, jungle, wars, genocide, famine, natural
calamities, AIDS, endemic diseases etc. . For this work we analyzed the films indicated in the
section "Other sources of reflection and research" of the book Borders of Globalization and the
book Contact Geography and bibliographical review of authors who discuss issues related to
the geography and history of the African continent. The importance of this work lies in the fact
that film productions are still invaluable tools for teachers who make use of their screenings in
the classroom or indicate them to be seen at home as a complement to the content worked at
school. In addition, the research potentiates a discussion about establishing boundaries between
what is fiction and what is in fact history of Africa, since many teachers insist on establishing
undue connections between film narratives and history. It is also important to emphasize that
the textbook or the films indicated by them should not be seen as unquestionable monuments
and that their use is independent of the teacher's action and performance.

Key words; Representations, Africa and Film Production.

INTRODUÇÃO

O presente artigo teve como propósito analisar como os filmes indicados nos livros
didáticos de Geografia adotados pelas escolas de ensino médio da rede estadual do município
de Valente, BA contribuem para a construção de representações sobre o continente africano.
Além dos filmes indicados, este trabalho buscou entender como os conteúdos com foco para o
ensino de história e da geografia africana são abordados nos livros didáticos de Geografia
adotados nas escolas públicas do Ensino Médio no município supracitado.
O município de Valente conta com três escolas estaduais de ensino médio, O Colégio
Estadual Cesar Borges que adota o livro Contato e Geografia, O colégio Estadual Luciberto
Oliveira dos Santos que adota o livro Fronteiras da Globalização e o Colégio Estadual Wilson
Lins que também adota o livro Contato e Geografia. Livros estes que serviram de base para o
presente estudo que busca analisar como os filmes sugeridos nos manuais didáticos analisados
representam o continente africano. Vale salientar que os livros adotados nas três escolas, trazem
como sugestão o mesmo filme, O Jardineiro Fiel. Para enriquecer ainda mais esta pesquisa foi
questionado aos professores da disciplina de Geografia das escolas já mencionadas, quais outros
filmes eles costumam usar como ferramenta pedagógica para trabalhar questões relacionadas a
África Subsaariana, e os professores relataram que costumam trabalhar o filme Amor sem
Fronteiras que também será analisado neste artigo.
9
A África ainda é apresentada nos manuais didáticos e no cinema através de filtros
ideológicos que na maioria das vezes retratam o continente de forma homogênea, caracterizado
por discursos e imagens distorcidas dos povos africanos e enfocando sempre os aspectos
negativos, como atraso, selva, guerras, genocídios, fome, calamidades naturais, doenças
endêmicas, etc. Por ser muitas vezes, a única fonte de informação dos alunos e de alguns
professores das escolas públicas, o livro didático, assim como as produções cinematográfica
contribuem com a construção de estereótipos que povoam a imaginação das crianças e dos
adolescentes que assimilam as imagens negativas como verdades absolutas. Para,
BITTENCOURT, 1997.

O livro didático, no entanto, continua sendo o material didático referencial


de professores, pais e alunos que, apesar do preço, consideram-no referencial
básico para o estudo; e em todo o início do ano letivo as editoras continuam
colocando no mercado uma infinidade de obras, diferenciadas em tamanho e
qualidade (BITTENCOURT, 1997:)

Por conta da importância dada aos livros didáticos é necessário que a sua escolha seja
feita de forma criteriosa e por profissionais que estejam atentos a uma série de fatores que
podem comprometer a informação apresentada. Quando se trata de analisar a forma como a
África é apresentada nos manuais didáticos ou nas produções cinematográficas é inevitável
perceber o viés eurocêntrico com que os conteúdos são abordados. Entretanto, para além das
questões colocadas sobre as representações do continente africano e seus povos nos livros
didáticos e nos filmes consumidos pelos estudantes do ensino médio da rede estadual de
Valente, o presente texto também busca analisar como estas representações impactam de forma
negativa na autoestima da população negra das escolas analisadas. Para CHARTIER2

As percepções do social não são de forma alguma, discursos neutros:


produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, politicas) que tendem a
impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar
um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas
escolhas e condutas. (CHARTIER, 1990: 17)

2
No Livro A História Cultural: entre práticas e representações, Roger Chartier esclarece que as lutas de
representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um
grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção de mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. (P.
17).
9
Os livros didáticos de Geografia ainda são considerados ferramentas indispensáveis tanto
para os professores quanto para os alunos. Além dos conteúdos e das imagens que estes trazem,
pode-se verificar nas páginas auxiliares que os autores trazem a cada conteúdo ou a cada
unidade, uma lista de documentários, livros, sites e filmes que podem ser usados para enriquecer
o debate em sala de aula e contribuir no processo de ensino/aprendizagem. O presente artigo
tem como objetivo discorrer sobre as representações de África existentes em duas narrativas
fílmicas: O Jardineiro Fiel e Amor sem Fronteiras, filmes estes que são sugeridos pelos
professores da rede estadual e nos manuais didáticos de Geografia adotados pelas escolas do
Ensino Médio de Valente, município localizado a 246 quilômetros de Salvador, Bahia. Para
SOARES; FERREIRA, 2008.

O filme torna-se matéria de sala de aula, servindo como objeto de estudo e


conhecimento. Em hipótese alguma o filme substitui o professor. Sua
“leitura” correta está condicionada a um conhecimento prévio, sujeita à
orientação do professor. Confrontar veracidade com verossimilhança — real
versus aparência do real — é uma das responsabilidades do professor que
evitará a trilha de um caminho equivocado e cuja ausência poderá reduzir a
erros de abordagem diante do fascínio e da facilidade da história recriadas
em imagens. Às vésperas do século XXI, constituímos sociedades dotadas não
apenas de textos escritos e falados, mas de um vasto conjunto de imagens. Um
filme não é um livro. No entanto, estática ou em movimento, uma imagem
pode ser “lida” de maneira similar a um texto escrito. Quando um filme é
apresentado ao público, ele surge como o resultado de uma intertextualidade
que combina diferentes linguagens: textos orais — a palavra falada ou
cantada —, escritos — letreiros e legendas — e visuais — a própria imagem
projetada, os cartazes publicitários, a propaganda dos jornais, entre outros.
É justamente essa riqueza e multiplicidade de linguagens que vem
despertando a atenção dos historiadores (SOARES; FERREIRA, 2008, p. 10-
11).

Os filmes produzidos pela indústria cinematográfica projetam para o Brasil e para o


mundo, imagens e discursos negativos sobre o continente africano e seus habitantes, indo na
contramão do que é discutido nos trabalhos trazidos pela historiografia mais recente, a exemplo
da Coleção História Geral da África, que mostra diferentes civilizações, inovações
tecnológicas, migrações, potencial econômico, dentre outras questões. Por serem mercadorias
facilmente recebidas, os filmes fazem o expectador se sentir como se estivesse assistindo um
espetáculo real. O elemento responsável por esta impressão é a realidade do movimento das
imagens, que corrobora para aceitação do “real”.
9
África em cena: o que é ficção e o que é História?

Em meados dos anos 1970, o historiador da terceira geração dos Annales3, Marc Ferro
(1971) foi um dos expoentes a utilizar filmes como objeto de estudo. Pois, para ele, os antigos
historiadores só utilizavam os documentos tidos como oficiais. Os historiadores e pesquisadores
não davam nenhuma importância aos filmes, acreditando se tratar de mera diversão ou
entretenimento. Segundo verificou FERRO, 1988

Esse pensamento foi aos poucos perdendo espaços com os teóricos da “Nova
História”. O cinema aumentou seu estatuto de simples diversão, arte ou
entretenimento e desenhou-se como fonte histórica, ou seja, “o filme é
abordado não como uma obra de arte, porém como um produto, uma imagem-
objeto, cujas significâncias não são somente cinematográficas” (FERRO,
1988, p, 203).

É válido salientar que quando fazemos a análise de uma produção cinematográfica, não
estamos analisando somente os aspectos técnicos da obra, mas todo um contexto histórico, o
que estava inserido em seus discursos, na sua narrativa, em suas imagens. Como salienta
Schvarzman (2007), “O foco sai da tela para a sala, para o espectador, as significações
simbólicas do cinema, a frequentação e as práticas sociais. Isso agregou rigor aos estudos de
cinema, ampliou o foco, e tornou mais ricas as abordagens”.

É cada vez maior o número de professores que lançam mão dos recursos tecnológicos
como software, mapas digitais, exibição de filmes 4 e outras ferramentas para enriquecer as aulas
e envolver os educandos no processo pedagógico. Assim, quando o assunto é o continente
africano, muitos filmes são indicados para encetar debates sobre a situação social, econômica e
cultural dos diversos países deste continente, ou seja, os filmes “nos deixam vestígios concretos

3
A primeira geração dos Annales foi o ponto de partida para as novas abordagens da história, amplia o campo
historiográfico sobre o estudo do mundo rural, fazendo comparações entre a França e a Inglaterra, algo novo
do ponto de vista tradicional “acostumado” a escrever sobre temas mais restritos.

4
É de conhecimento que o cinema não é apenas para lazer. Constitui-se também numa importante fonte de
conhecimento e reflexão. A Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais (SEEMG) afirma que os filmes
podem ser ferramentas interessantes para serem utilizadas na Educação. Ressalta que podem ser usados como base
para trabalhar conteúdo curricular ou para levantar debate sobre questão relevante para o estudo da disciplina
(Minas Gerais, 2016) e podem ser trabalhados em sala de aula de forma interdisciplinar. Com base em um filme,
podem ser realizadas atividades extracurriculares, e há a possibilidade de utilizá-los como material de suporte
9
do passado”. Por fim, vale ressaltar, a importância da fonte cinematográfica para a História
Cultural, segundo José D’Assunção Barros,

A fonte cinematográfica, particularmente a fonte fílmica, torna-se


evidentemente uma documentação imprescindível para a história cultural
uma vez que ela revela imaginários, visões de mundo, padrões de
comportamento, mentalidades, sistemas de hábitos, hierarquias sócias
cristalizadas em formações discursivas e tantos outros aspectos vinculados
aos de determinada sociedade historicamente localizada (BARROS, 2012, p.
68)

Um continente com uma diversidade econômica e cultural tão grande, a África é


apresentada nos filmes, como um lugar de atraso, selvagem e pobre, herança do sistema de
escravidão racial imposto pelos colonizadores no chamado tráfico atlântico. Não se trata de
negar os fatos ocorridos e os problemas que assolam a maioria dos países do continente, o que
está em pauta neste debate é como os aspectos negativos são destacados nas produções
cinematográficas que tenham como foco o continente supracitado, enquanto os aspectos
positivos, suas riquezas naturais, minerais, a diversidade de povos e culturas, são
negligenciados ou relegados a segundo plano.

No livro Fronteiras da Globalização: o espaço geográfico globalizado, da editora Ática,


edição 2017, os autores Lucia Marina Alves de Almeida e Tercio Barbosa Rigolin, trazem no
capítulo cinco, o conteúdo “África subsaariana e América Latina”, no qual eles descrevem os
problemas que afetam os países da África subsaariana destacando a exclusão social, tecnológica
e econômica desta região no mundo globalizado. Como já foi citado neste artigo os autores
optam por enfatizar os aspectos negativos a exemplo da fome, epidemias, conflitos e guerras
civis que afligem estes países. Os autores continuam a narrativa reforçando o drama da Aids,
a baixa expectativa de vida, as altas taxas de mortalidade e as péssimas condições que vive a
população destes países.

O livro Contato e Geografia da editora Quinteto edição 2016, dos autores Rogério
Martinez e Wanessa Pires Garcia Vidal traz no capítulo “O subdesenvolvimento”, as
características dos países subdesenvolvidos destacando, como no livro anterior, os aspectos
negativos a exemplo da fome, das guerras, da exclusão tecnológica e econômica. E entre os
países citados, o destaque maior vai para os países do continente africano.
9
Diante de uma narrativa repleta de estereotipias e representações a respeito de um
continente tão diverso, a questão que colocamos para debate é: a quem de fato interessa a
perpetuação da ideia de inferioridade dos povos africanos? Como as imagens e os textos
apresentados nos livros didáticos contribuem para a construção de uma ideia negativa e
inferiorizada da população negra? Ainda segundo CHARTIER, 1990

...esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre


colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se
enunciam em termos de poder e de dominação. As lutas de representações têm
tanta importância como as lutas econômicas para compreender os
mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do
mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. (CHARTIER, 1990:
17).

No fim do capítulo dos livros mencionados, na seção outras fontes de reflexão e pesquisa
os autores sugerem alguns filmes para fomentar o debate dos conteúdos estudados: Escolhemos
duas narrativas fílmicas, Amor sem Fronteiras e O Jardineiro Fiel, filmes estes que serão
analisados neste artigo.

O filme Amor sem Fronteiras, dirigido por Martin Campbell e estrelado por Angelina
Jolie e Clive Owen, foi lançado no Brasil em 2004. O filme conta a história de Sarah Jordan,
uma americana que se torna ativista e o médico Nick Callahan que trabalha nos campos de
refugiados da Etiópia. Amor Sem Fronteiras é um romance em um drama. O drama está
relacionado as atrocidades vividas pelas vítimas da fome, da guerra, das dificuldades em levar
ajuda aos países pobres e os dilemas vividos pelos voluntários das ONGS. Mas, o mais
importante da história é mostrar as péssimas condições que vive a população nos campos de
refugiados e a falta de sensibilidade dos governantes, e que muitos insistem em ignorar.

O longa começa em um jantar beneficente na Inglaterra e logo as cenas mudam para


cenários catastróficos em um campo de refugiados na Etiópia. A narrativa segue mostrando a
pobreza extrema, falta de saneamento básico, violência, fome, guerras e as inúmeras doenças
que assolam a região. Diferente da maioria dos filmes, este tem vários países como cenário.
Nos deteremos aqui com a análise da Etiópia por questões óbvias. Capuzzo (1986) salienta: O
público elegeu no decorrer deste século, o cinema como porta-voz de um mundo além dos
limites do real, idealizando na sua missão de eternizar uma poética visual que apreendeu da
vida a dinâmica da ciência e do saber, aliada aos corações dos poetas (CAPUZZO, 1986, p. 38).
9
Como a maioria dos filmes que tem como foco o continente africano, Amor sem
Fronteiras segue a mesma linha, constrói os estrangeiros como heróis, dispostos a morrer para
salvar a população africana, enquanto os africanos são apresentados como vítimas, incapazes
de lutarem pela liberdade de seus territórios. Também destaca a corrupção nos governos destes
países e o descaso das autoridades perante a situação local. Para (AVELINO; FLÓRIO, 2013,
p.7)

O cinema é compreendido como uma linguagem imagética constitutiva do


tecido social e que apresenta o imaginário do cineasta e suas representações
do cotidiano vivido com as tensões, conflitos e embates da realidade social,
assim como a construção dos personagens e de suas múltiplas tramas são
representações de mundo do cineasta que demonstram seus valores,
comportamentos e sentimentos (AVELINO; FLÓRIO, 2013, p)

Diante deste cenário cabe aos professores encetarem debates a respeito dessas
representações, e dos interesses que estão por traz da perpetuação da ideia de uma África
homogênea, instável, incivilizada e pobre. Para isso, é importante a leitura do livro Memórias
da África; a temática africana em sala de aula, onde percebemos que os autores têm como
objetivo mostrar a África como um continente rico e diverso e os africanos como protagonistas
da sua história e não apenas como seres passivos ou coadjuvantes da colonização europeia.

O filme O Jardineiro Fiel foi lançado em 2005, ganhador de um óscar e de um globo de


ouro é baseado na obra de John Le Carré e foi dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. A
narrativa conta a história da ativista Tessa (Rachel Weisz) e sua atuação em comunidades
pobres e cheias de pessoas doentes, no Quênia. O trabalho de Tessa, é uma pedra no sapato para
autoridades e empresários da indústria farmacêutica, que testam um novo medicamento na
África. Com a morte da ativista, o principal suspeito é o médico foragido que estava junto da
expedição. Em seguida, o marido de Tessa resolve descobrir o que realmente aconteceu com
sua esposa. O filme é desdobrado sob a ótica de diversas questões éticas; principalmente no que
se refere à utilização de pessoas pobres para experimentações no ramo da indústria
farmacêutica.

O filme expõe chagas muito vivas na história da África, o diretor usa as imagens externas
para reforçar a situação de pobreza extrema que vive grande parte da população queniana. A
falta de saneamento básico, as péssimas condições de moradia e a situação precária dos
9
hospitais ou centros de saúde ficam evidentes logo nos primeiros vinte minutos do longa. Assim
como o conteúdo exposto no livro Fronteiras da Globalização a narrativa segue destacando a
corrupção no governo, as altas taxas de mortalidade, as vítimas da Aids e outras mazelas.

Esta é sem dúvidas uma obra-prima do cinema mundial, a atuação dos atores, e a
qualidade técnica do filme é inquestionável. A discussão que encetamos neste artigo é a respeito
do quanto estas narrativas, os diálogos, imagens, trilhas sonoras, dentre outras questões,
fundamentam e potencializam as representações existentes sobre a África. A análise do filme
O jardineiro fiel nos leva a constatação da existência de visões errôneas e corrompidas sobre a
África e os seus habitantes. Podemos verificar em várias cenas a submissão do povo queniano,
como se estes fossem passivos frente aos problemas que assolam a região. Além disso, como
na maioria dos filmes que tem como foco o continente supracitado, o herói é sempre um homem
branco, europeu, que chega para salvar os africanos.

Analisando de diferentes perspectivas a narrativa fílmica em questão, o continente


africano está sempre em oposição ao ocidente, sob o aspecto de lugar selvagem, caótico, repleto
de doenças e permeado pela insegurança. As pessoas dos países desenvolvidos apenas vão até
o continente em busca de matérias primas para o aprimoramento da tecnologia ocidental, este
roteiro é percebido em muitos filmes que trazem a África como cenário.

Marc Ferro falou de uma contra História que seria construída tanto pelo cinema como por
outras formas de expressão, contradizendo a História institucionalizada (FERRO, 1992: 79), e
neste caso, as representações que são postas pelo cinema, muitas vezes usufrui mais status de
institucional do que a ensinada nas escolas.

Considerações finais

Neste artigo procurei mostrar as possibilidades de entender o continente africano a partir


das suas representações, e de como estas sugerem efetividades que não se confirmam, quando
comparadas com as descrições e realidades existentes na historiografia produzida recentemente
por historiadores e africanistas.

É bom destacar que a maior parte dos filmes que tem como cenário principal a África,
destacam sempre os aspectos negativos, como se este continente fosse totalmente inexequível.
9
São representações que trazem consigo ideias contaminadas de valores etnocêntricos, e que
mostra de modo subjacente, um continente homogêneo, desprovido de diferenças.
Ao analisar os filmes sugeridos nos manuais didáticos de geografia adotados pelas escolas
de ensino médio da rede estadual de Valente-BA, pude perceber que estes trazem uma África
insegura, corrupta, pobre e incapaz de gerir seus próprios problemas, reforçando a ideia de que
o continente precisa da Europa para sair da situação de subdesenvolvimento e ingressar no
sistema financeiro global.
O objetivo deste artigo não é condenar o uso das produções cinematográficas como
ferramenta pedagógica, mas chamar a atenção para a importância do professor enquanto
mediador deste processo. Tantos os filmes quanto os livros didáticos trazem em suas narrativas,
visões etnocêntricas que precisam ser questionadas e analisadas por professores e alunos que
buscam uma educação libertadora.

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