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“NÓS SOMOS IGUAIS DE DIFERENÇA ...

”: UMA 5ª SÉRIE FALA SOBRE


RACISMO
Marcos Grzygorczyk

RESUMO
Neste trabalho é abordada a visão que uma 5ª série têm sobre o racismo. Após a teorização
do tema e a descrição do material formulado para discuti-lo com os alunos e coletar os dados,
são analisadas as respostas obtidas. O trabalho foi realizado com uma 5ª série do Colégio
Estadual Profª Linda Salamuni Bacila, instituição localizada em um bairro periférico de Ponta
Grossa. Surgem neste artigo as concepções que estes estudantes possuem sobre o tema, os locais
em que adquiriram tal conhecimento e as manifestações racistas já presenciadas por eles. Estes
aspectos são relacionados, respeitando as especificidades do meio social dos envolvidos, com
idéias e posicionamentos sobre o racismo existentes no país. Discute-se, ainda, o papel da
escola enquanto meio gerador de um posicionamento anti-racista e sugerem-se formas para que
o ensino desta temática se torne mais significativo para os alunos.

PALAVRAS – CHAVE: racismo, práticas racistas, ensino, escola.

INTRODUÇÃO E OBJETIVOS GERAIS

Este trabalho é resultado da proposta de “Oficina de História V”, disciplina que


compõem a grade curricular do curso de Licenciatura em História na Universidade
Estadual de Ponta Grossa. Proposta esta, que prevê a formulação de material didático, a
aplicação deste em escola e a reflexão sobre os resultados da utilização do que foi
confeccionado. Há neste processo a “intencionalidade” de coletar dados, aproximando
desta maneira o ensino da pesquisa.
O tema escolhido para a produção foi o racismo, e de forma mais específica,
suas concepções e práticas cotidianas. Com a temática escolhida desenvolvi um
pequeno caderno com conteúdos e atividades relacionadas. A 5ª série (6º ano) foi
optada para desenvolver o trabalho. Esta opção decorreu do desejo de perceber como
esta faixa etária, em específico, percebe o racismo e suas manifestações. Existem
poucas publicações sobre o assunto e as existentes não focam o aluno em si, mas
objetos externos presentes em suas práticas, como livros didáticos, Literatura infanto-
juvenil, televisão etc. Obviamente a utilidade destes trabalhos é inconteste, aponto
apenas restar uma “brecha” passível de pesquisa: a apropriação que as crianças /
adolescentes fazem de qualquer objeto que porte idéias relacionáveis ao racismo e / ou
que tratem deste assunto. Apropriação esta que é resultante da própria vivência do
aluno, fruto não só dos “bens” que consome (livros, música, televisão), mas dos meios
sociais à que pertence: sua vida familiar, as relações com amigos, convívio escolar etc.
Estou certo de que meu trabalho não conseguirá abarcar esta problemática a
ponto de perceber a existência e os processos de formulação desta “apropriação” e,
sequer é esta minha pretensão. Em uma escala bem menor, todavia, talvez seja possível
notar quais as reações dos alunos às atividades propostas e exemplos mostrados. Para
tanto servirão as respostas coletadas dos exercícios desenvolvidos e o vídeo que será
gravado para análise das atividades “mais práticas”.
Tentar perceber quais as concepções de racismo destes jovens e se consideram
algumas práticas preconceituosas (ou não) tem outro objetivo adjunto. Este é, de forma
resumida, apontar algumas maneiras de os professores (conhecendo os pressupostos dos
alunos) trabalharem este conteúdo sem recaírem em simplificações ou na polarização1:
“o racismo é ruim – o não racismo é bom.” Esta “valorização”, apesar de sua boa
intencionalidade, acaba tornando o próprio conceito “racismo” algo abstrato, afastado
de seus contextos e manifestações. Seria algo próximo, apesar deste exemplo ser pífio,
dos conceitos “bem” e “mal”: todos conhecem o valor, o peso de cada um dos termos,
mas ninguém, a bom grado, é capaz de defini-los de forma completa. O mesmo parece
ocorrer, principalmente na mídia, com o racismo e suas práticas, se um sujeito ou
“veículo2” é considerado (ou de fato o é) racista ele é, de forma rápida, taxado e
circunspecto ao “pólo social” ruim, ao “mal”. Deixo claro que, discordando desta
qualificação imediata, não pretendo negar ou defender o racismo. Ao contrário, entender
“racismo” como processo social ao invés de repassar um “juízo de valor” parece ser
mais útil para entendê-lo e combatê-lo de forma efetiva.

CONCEITUALIZAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO

O racismo deve ser entendido, sempre, como prática excludente. Indiferente ao


processo social em que se forme é violento. A nuance que o processo formativo
ocasiona está na forma de violência, que pode ser física ou simbólica. Sendo simbólica

1
Esta discussão surge ao tratar a mídia em: SILVA, Alexandre Rocha da. A Dispersão na Semiótica das
Minorias. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2001.
2
Por veículo entenda-se “objeto portador de mensagem direcionada a um público”.
a violência não se torna um ato menos agressivo ou prejudicial, visto que rejeita o
indivíduo ou grupo “alvo” inferindo a estes a inferioridade e, até mesmo, restringindo
sua participação efetiva em segmentos da vida social.
Há diferenças entre os conceitos de “preconceito”, “discriminação” e “racismo”.
Apesar de diferenciá-los no caderno que será trabalhado com os alunos, não creio ser
necessário descrevê-los extensamente, pois o racismo sendo caracterizado em sua
formulação por princípios que seriam “naturais” ou “biológicos” de determinado grupo
(“raça”) engloba os demais conceitos e os direciona ao grupo inferiorizado. A prática
racista é preconceituosa por inferir na valorização de um grupo em detrimento de outro
e é também discriminante por ocasionar a diferença de tratamento entre os indivíduos
pertencentes a um grupo, ou “raça”, diferente. O conceito optado para este trabalho foi o
de WIEVIORKA3 que define:
“O racismo consiste em caracterizar um conjunto humano
pelos atributos naturais, eles próprios associados às
características intelectuais e morais que valem para cada
indivíduo dependente desse conjunto e, a partir disso, pôr
eventualmente em execução práticas de inferiorização e de
exclusão”. (WIEVIORKA, ano, p.9)

É válido lembrar sobre este processo de “associar características à grupos” a tese


de ELIAS4, para quem as características inferidas ao grupo discriminado são
diametricamente opostas ao que o grupo “discriminador” considera suas próprias
qualidades. À medida que as características dos dois grupos mudem as formas de
diferenciá-los também mudam.
Pensando desta forma podemos afirmar a existência não de um racismo, mas de
diversas formas de racismo que, apesar de suas proximidades ideológicas, manifestam-
se de maneiras diferentes.
Havendo diferentes “racismos” alguns autores, como o já citado Michel
Wieviorka, procuram diferenciar e classificar os tipos de “racismo”. Dentre os
principais tipos surge o “racismo declarado” que é expresso pelos atores que o praticam
e que pode ou não levar a atitudes mais extremas como a segregação (no nazismo ou no
apartheid na África do Sul). Outra forma é o “racismo velado”, ou “sem atores”, onde
sabe-se de sua existência e prática, mas a maioria da população não se assume enquanto

3
WIEVIORKA, Michel. Racismo: Uma Introdução. São Paulo: Perspectiva, 2007.
4
ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 2000.
racista. Este modelo, por vezes chamado de “cordial” predomina no Brasil onde se tem
“preconceito de não ter preconceito”5.
A existência desta prática “não assumida” é explicada por DaMATTA, para este
autor a resposta está na forma organizacional da sociedade brasileira desde seu período
colonial. O Brasil, para ele, era extremamente hierarquizado e esta hierarquia
sustentava-se em “formalismos jurídicos”. Posto de outra maneira, não era (ou ainda,
não é) uma sociedade que privilegie a ação individualista como ocorre nos Estados
Unidos. Cada grupo, bem como os indivíduos que o compõem, sabendo “o seu lugar”
na vida social não apresenta “riscos” à hegemonia do outro grupo6.
Esta forma de explicação, apesar de certa tendência à ser “estruturalizante”, não
deixa de ser condizente com a de inúmeros outros intérpretes. Carlos Hasenbalg, por
exemplo, ao estudar os mecanismos de exclusão nos faz parecer que a discriminação
racial, como comportamento efetivo e observável na ação dos sujeitos, pode ser
deduzida das estruturas sociais7. Florestan Fernandes aponta o racismo enquanto um
“resíduo”, uma reminiscência do sistema escravagista brasileiro. Para ele isso demonstra
a incapacidade do governo e das elites brasileiras em sobrepujar as “persistências” do
passado8. Suas teorias foram seguidas por boa parte da escola paulista de Sociologia,
que em seus primórdios era claramente influenciada pelo marxismo.
As obras desta escola sociológica e os textos que tiveram sua influência
constituem boa parte da produção sobre o tema no país. Após meados da década de 80
e nos anos 90 a produção voltou-se aos micro mecanismos da exclusão. O racismo passa
a ser estudado em suas manifestações e em espaços específicos: em livros, no mercado
de trabalho, na mídia etc. Destes estudos podemos desprender um conceito interessante:
a lógica do “racismo conceito / racismo prática” como um processo de “retro
alimentação”. O racismo como conceito ideológico gera as manifestações práticas que,
por sua vez, o mantém enquanto ideologia.
Recentemente com a implantação de políticas públicas favoráveis ao público
negro, como as cotas em instituições públicas de ensino superior e a obrigatoriedade do
5
BASTIDES e FERNANDES, 1955. Apud. GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito
Racial: Modos, Temas e Tempos. São Paulo: Cortez, 2008.
6
DaMATTA, Roberto. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro: Rocco.
1987.
7
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito Racial: Modos, Temas e Tempos. São Paulo:
Cortez, 2008. P. 98
8
Idem. Pp. 76-79.
ensino de história e cultura afro brasileira nas escolas, tornou o debate em torno das
relações raciais mais visível.
Apesar das diferenças há como dividir as produções do período em dois grupos
principais: os que defendem essas políticas afirmativas e os que a condenam. Para os
“defensores” tais políticas vem reparar uma “divida histórica” que o país tem com os
negros, sua concepção de racismo é, portanto, de que ele constrói-se historicamente e
relaciona-se diretamente com as condições sociais (e mesmo econômicas) atuais.
Quem condena tais políticas as categoriza como insuficientes ou como
desnecessárias. O grupo que afirma a desnecessidade é mais radical por defender que o
racismo não é “forte” no país e/ou que as diferenças sociais não são devidas a quesitos
raciais9.
Nas mídias de massa (por exemplo, a Rede Globo e a Revista Veja) o debate
toma forma controversa. Com a implantação e adaptação das políticas públicas essas
mídias reagem, se apoiando em afirmativas como: o conceito de raça em que estas
políticas se baseiam não existe; não há dívida histórica com a população negra a ser
reparada que é o principal pressuposto a justificar a implementação de cotas. Ou ainda,
apesar de existir esta dívida tais políticas não serem a solução adequada. Estas posições
sustentadas pelas mídias citadas (que possuem grande alcance de público) se inserem
em uma nova fase de debates sobre o tema, pois abrem espaço a uma tréplica
acadêmica10. Toda esta discussão pode ser vista de duas formas: de forma negativa por
as mídias de massa influenciarem nas pessoas o surgimento de uma posição negativa
sobre as cotas e demais políticas afirmativas. De outra forma pode ser positiva por
apontar que existem no país, além do racismo, paradigmas de interpretação das relações
raciais que o sustentam e que devem ser analisados para que possam ser
desestruturados.
Este trabalho surge em um momento que estes debates, ao menos nas mídias de
massa, parecem estar esmaecendo. Creio ser possível perceber, não só pelas linhas
acima, mas por outras possíveis leituras que tenham feito, que trata-se de um tema
polêmico, visto que nem em suas representações há consenso. É, entretanto, algo cuja
9
Ver tais críticas em: FRY, Peter; MAGGIE, Yvonne; MAIO, Marcos Chor; MONTEIRO, Simone;
SANTOS, Ricardo Ventura (Orgs.). Divisões Perigosas: Políticas Raciais no Brasil Contemporâneo.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
10
CERRI, Luis Fernando. Notas críticas aos argumentos contra cotas para negros nas universidades
públicas. In FIUZA, Alexandre Felipe; CONCEIÇÃO, Gilmar Henrique da. Política, Educação e
Cultura. Cascavel: EDUNIOESTE, 2008.
discussão (e ensino) se faz necessária não devido a leis ou a obrigatoriedade, mas para
fazer dos alunos cidadãos críticos, cientes da realidade que participam, característica
que é apregoada em currículos escolares e congêneres e muitas vezes deixada de lado.

DESCRIÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO

A “cartilha” construída destina-se ao uso com 5ª séries / 6º ano do ensino


fundamental. A proposta deste não é servir enquanto conteúdo único a ser aplicado e
não substituí a utilização de outros materiais. A intenção é a de ser uma espécie de
“guia” para se trabalhar o tema “Racismo” em séries de baixa faixa etária.
Pensando na faixa etária específica a linguagem do texto foi adaptada e foram
utilizadas imagens. As ilustrações não são, entretanto, gratuitas e podem ser trabalhadas
enquanto parte complementar do conteúdo escrito.
O conteúdo divide-se em duas partes. Na primeira apresento as definições de
preconceito, racismo e preconceito de cor. Os conceitos foram, basicamente, adaptados
do trabalho de GUIMARÃES11. A segunda parte objetiva esclarecer os alunos sobre as
manifestações do racismo. Destaca-se que este nem sempre é um processo visível, como
em casos de violência física, mas, pode também ocorrer de formas sutis. Esta forma de
“preconceito velado” é mostrada como sendo comum no Brasil e alguns de seus
aspectos são exemplificados. O racismo é pensado neste trecho como processo
histórico, originário, no caso do nosso país, da prática escravista e da falta de políticas
públicas para integrar o negro à sociedade após a abolição da escravidão.
As atividades, propriamente, são sete e também podem ser divididas em dois
momentos. As duas primeiras são perguntas diretas e objetivam perceber as concepções
que os alunos possuem sobre o racismo e como estas foram formadas. As demais são
construídas sobre imagens de propaganda, uma “anedota”, duas músicas, um vídeo e
fotos de brancos e negros. Sua intenção é demonstrar, de forma mais prática, como as
manifestações racistas podem surgir. Trabalha-se nesta parte, basicamente, a construção
de estereótipos. Como objetivo próprio ressalto o interesse em perceber as reações à
estes estereótipos para fins de pesquisa e a análise da construção, e possível
desconstrução, dos mesmos nos alunos.

11
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito Racial: Modos, Temas e Tempos. São Paulo:
Cortez, 2008.
Em todos os momentos segue-se o pressuposto de PRATS12, para quem o
conhecimento histórico posto como acabado tem infinitamente menos valor formativo
para o aluno que a percepção de como chega-se àquele conhecimento. Seguindo esta
lógica, os conteúdos e atividades apenas têm uma real importância se puderem ser
trabalhados (desconstruídos) pelos alunos. A aprendizagem conceitual e o nível de
abstração exigido, gradativamente maior a cada série, também foram pensados de
acordo com este autor. A abstração e apreensão de conceitos são, mesmo que menores
nesta idade, uma meta a ser seguida, pois evita as simplificações demasiadas e o ensino
de um conteúdo através da simples repetição.
As atividades, seguindo esta mesma lógica, foram pensadas em sua construção
como, e necessariamente, pontos de partida para a discussão sobre preconceito e, de
forma mais específica, para a percepção e desconstrução dos estereótipos que,
originários de idéias racistas também são a base de sustentação deste conceito. Este
conhecimento será construído no aluno, não através desta cartilha, mas do diálogo entre
professor e aluno, caso este debate não ocorra as atividades aplicadas, por si só, serão
inúteis.
Não se espera que as respostas dadas estejam certas, mas que, partindo delas seja
possível refletir o assunto. As formas como o professor pode conduzir a apresentação do
material encontram-se em caderno separado (“manual do professor”). Presumo ser
possível realizar a apresentação em duas horas / aulas.

APLICAÇÃO E RESPOSTAS

A aplicação do material foi feita durante o mês de novembro deste ano no


Colégio Estadual Professora Linda Salamuni Bacila, instituição esta localizada na vila
Jardim Monte Carlo, região periférica de Ponta Grossa. Da turma com que trabalhei, 5ª
série “A”, estavam presentes 36 alunos, todos com idade de 11 e 12 anos. Segundo o
PPP do colégio seu corpo de alunos é constituído, basicamente, por crianças e
adolescentes da própria região, de classe econômica baixa, cujos pais trabalham em
empresas locais ou como autônomos (principalmente como vendedores ambulantes ou
catadores de recicláveis) e têm renda familiar de aproximadamente um salário mínimo.

12
PRATS, Joaquín. Ensinar História no Contexto das Ciências Sociais: Princípios Básicos. Educar,
Curitiba, Especial, p. 191-218, 2006. Editora UFPR.
No bairro o acesso à Internet ainda é bastante restrito e a leitura de impressões
periódicas também é pequena. Os principais espaços e meios de aprendizagem são a
escola, a televisão e a própria família. Estas condições sociais e espaços de
aprendizagem específicos refletirão na maioria das respostas dadas às questões
propostas.
Ao relatarem o que sabiam sobre o racismo a totalidade dos alunos concorda que
é a diferenciação por “raça” ou por “cor”. Alguns dos termos que surgem nestas
descrições para caracterizar as relações racistas são: “não gostar”, “não aceitar” e “se
incomodar”. O conceito geral de racismo parece ser bem conhecido. O tom geral é de
um posicionamento contrário à prática e a ênfase dada, em cerca de 30 % das respostas,
é a de que somos todos iguais. Esta preocupação em destacar a igualdade repete-se em
outras pesquisas com o mesmo assunto no país13 e talvez seja reflexo da assimilação do
discurso constituído e constantemente repassado de que o Brasil é uma “democracia
racial”.
Sobre o espaço em que aprenderam sobre o que é racismo e preconceito há
apenas três grupos de respostas diferentes: cerca 70% dos alunos diz ter sido na escola,
20% afirma que foi com a família e os 10% restantes com a televisão. Estas respostas
evidenciam que, ao menos para estes alunos, a escola é o local onde o racismo é mais
debatido. Apesar de não atribuirmos um “papel redentor” à educação, deixando de lado
outros espaços do convívio social, isto talvez exemplifique porque algumas pesquisas
apontam que quanto maior a escolaridade é maior a rejeição ao racismo14.
Respondendo se já presenciaram algo que tenham considerado racista apenas
20% das respostas foi negativa. A grande maioria, portanto, afirma ter notado práticas
racistas em seu cotidiano, o que é preocupante, pois pode demonstrar como tais práticas
são comuns em nossa sociedade. Ao descreverem o que viram ou ouviram apenas em
um caso surge a violência física (segundo a aluna ela viu um grupo chutando um negro
devido à sua cor). As demais respostas podem ser divididas em dois grandes grupos: os
que ouviram frases e expressões pejorativas sobre negros e os que conhecem alguém
que ignora ou foge do convívio com pessoas negras.

13
SOUZA, Ana Lúcia Silva; CROSO, Camilla (coord.). Igualdade das relações étnico-raciais na
escola: possibilidades e desafios para a implementação da Lei 10639/2003. São Paulo: Peirópolis,
2007. Pp. 45-49.
14
TURRA, Cleusa; VENTURI, Gustavo. Racismo Cordial. São Paulo: Ática, 1995.
Outro fator preocupante que surge é a colocação, em cerca de 30% das respostas,
de que tais práticas ocorrem no próprio âmbito escolar: alunos que evitam conversar ou
sentar próximos a colegas negros, por exemplo. A escola enquanto espaço de
sociabilização de crianças e jovens vindos de núcleos familiares diferentes pode,
portanto, converter-se também em local onde surgem tensões raciais. MENEZES afirma
que “A relação estabelecida entre crianças brancas e negras numa sala de aula pode
acontecer de modo tenso, ou seja, segregando, excluindo...15”
Uma resposta consensual é dada à pergunta “Como as pessoas se tornam
racistas?”. Os alunos dizem que o racismo é aprendido com “os outros”, com “as outras
pessoas”. De forma específica apenas uma resposta cita a mídia e outra os pais. A
perpetuação da prática do racismo, portanto, é vista como fruto de uma aprendizagem
social, mas não há sujeitos definidos. Racista é “o outro”. Esta idéia talvez exista por,
conforme dito anteriormente, o racismo no país apresentar-se de forma “velada” (sem
atores). A grande maioria da população concorda em que há racismo, mas pouquíssimos
admitem tal prática16.
Em outra atividade foi proposto aos alunos que ligassem a foto da pessoa ao que
eles considerassem a profissão ou ocupação daquela pessoa. Foram listadas dez
profissões consideradas boas ou ruins, devido à remuneração ou status que geram. Para
cada uma destas ocupações havia um negro e um branco, isto não foi falado aos alunos
previamente. O objetivo deste exercício não era o de acertar as respostas, mas de refletir
sobre como existem estereótipos na sociedade. Não há, a priori, profissões de negros ou
profissões de brancos, existem “n” fatores que podem vir a definir qual a ocupação da
pessoa: talento, formação adequada, condições econômicas favoráveis ou desfavoráveis
etc., mas a cor da pele não pode ser vista como um destes fatores.
Esta atividade pretendia suscitar a percepção de que apesar de negros e brancos
terem, teoricamente, as mesmas capacidades para o desempenho de qualquer função na
realidade isso não ocorre devido a fatores sociais, dentre os quais a existência de
estereótipos racistas. Pretendia, ainda, verificar se os próprios alunos não teriam
interiorizado tais estereótipos, relacionando desta maneira os negros às “piores”
profissões e os brancos às “melhores”.

15
MENEZES, Waléria. O preconceito racial e suas repercussões na instituição escola. In.
http://www.fundaj.gov.br/tpd/147.html
16
TURRA, Cleusa; VENTURI, Gustavo. Racismo Cordial. São Paulo: Ática, 1995.
No total das respostas as fotos de pessoas negras foram relacionadas 56% das
vezes às piores ocupações e 44% às melhores. A diferença não parece tão grande.
Analisando, todavia, as ocupações tidas como “ruins” surge um dado interessante: as
que são ruins, porém “socialmente aceitas”, como faxineiro ou metalúrgico, são
relacionadas tanto a brancos como a negros. As ocupações “não-aceitas” são atribuídas,
entretanto, preponderantemente aos negros: em “traficante” 75% das fotos ligadas são
de negros e em “mendigo” 70%.
Este dado provavelmente resulte de estereótipos existentes na sociedade e que
são, por vezes, transmitidos através das mídias de massa e, como afirma LOPES: “... a
televisão está implicada na reprodução de representações que perpetuam diversos
matizes de desigualdade e discriminação.17” As condições econômicas dos alunos
envolvidos neste trabalho que, conforme já citado, pertencem a classes baixas, talvez
tenha influído na atribuição do estereótipo discriminatório. As fotos de negros
apresentadas, com isso, não são relacionadas a profissões de baixa remuneração
consideradas “lícitas”, mas o são majoritariamente as “não-lícitas”.

CONSIDERAÇÕES

A aplicação da cartilha conforme previsto foi possível em duas horas/aula.


Enquanto material de auxílio para o ensino mostrou-se útil, pois os alunos mostraram-se
interessados tanto com o tema quanto com as atividades em que foram utilizadas
músicas, vídeos e imagens. Como material para obtenção de dados, entretanto, ficou
um pouco limitada. As questões propostas talvez devessem ter sido melhor formuladas,
tentando buscar informações mais específicas e pessoais, pois nas respostas que
surgiram as práticas racistas aparecem como sendo conhecidas pelos alunos e mesmo
presentes em seu cotidiano. Uma abordagem que visasse de forma mais específica como
estas práticas se desenvolvem nas vidas destes alunos teria tornado este trabalho mais
rico.
O racismo é visto por estes alunos, de forma geral, como algo errôneo, que não
deveria acontecer. Consiste, basicamente, em “não gostar” ou “evitar” pessoas de outra
cor. A relação entre este “algo errado” (o racismo) e “as pequenas coisas erradas”

17
LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. Telenovela brasileira: uma narrativa sobre a nação.
Revistas Eletrônicas de Ciências da Comunicação. v. 9, n. 26, p. 17-34, 2003. In.
http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/Comedu/issue/view/305
(algumas práticas racistas) não é feita de forma imediata. E estas “pequenas coisas”
aparecem como presentes nas próprias experiências vividas de cerca de 80% deles.
As formas discrimatórias que citam terem presenciado constituem-se, na grande
maioria, em uma linguagem ofensiva e em evitar relações pessoais com negros. Ambas
as formas são extremamente prejudiciais ao grupo discriminado, pois disseminam
estereótipos negativos e impedem que haja um convívio social igualitário.
A escola é, para a grande maioria, o espaço onde aprenderam sobre o racismo.
Por outro lado cerca de 30% dos alunos dizem ter notado atos discriminatórios entre os
próprios colegas de escola. Este dado é preocupante, pois os alunos (com 11 e 12 anos),
teoricamente, estão em “... processo de desenvolvimento emocional, cognitivo e social,
que podem incorporar mais facilmente as mensagens com conteúdos discriminatórios.”
18
Isso nos leva a pensar a ver a escola tanto como um espaço de disseminação quanto
como meio eficiente para diminuir o preconceito.
Para que o aspecto positivo deste papel do ensino em “combater o racismo”
torne-se mais eficaz é necessário que ao abordar o tema não seja dissociado o conceito
de sua práxis. Se o racismo gera práticas que executadas o fortalecem, em uma espécie
de retroalimentação sistêmica19, não há como compreendê-lo satisfatoriamente sem
analisarmos seus “motivos” e suas manifestações. Não basta dizermos a nossos alunos
que “todo mundo é igual” e que “o racismo é ruim”, devemos tentar explicar da melhor
forma possível os contextos históricos em que as ideologias racistas surgiram e como se
dá sua manutenção na sociedade. As formas em que as práticas racistas se expressam
podem ser exemplificadas. Para tanto é possível partir das experiências dos alunos, pois
(e infelizmente) este não parece ser um problema do qual estejam resguardados.

REFERÊNCIAS

18
MENEZES, Waléria. Op. Cit.
19
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito Racial: Modos, Temas e Tempos. São Paulo:
Cortez, 2008. P.99
- CERRI, Luis Fernando. Notas críticas aos argumentos contra cotas para negros
nas universidades públicas. In FIUZA, Alexandre Felipe; CONCEIÇÃO, Gilmar
Henrique da. Política, Educação e Cultura. Cascavel: EDUNIOESTE, 2008.
- DaMATTA, Roberto. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. Rio
de Janeiro: Rocco. 1987.
- ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
- FRY, Peter; MAGGIE, Yvonne; MAIO, Marcos Chor; MONTEIRO, Simone;
SANTOS, Ricardo Ventura (Orgs.). Divisões Perigosas: Políticas Raciais no Brasil
Contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
- GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito Racial: Modos, Temas e
Tempos. São Paulo: Cortez, 2008.
- LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. Telenovela brasileira: uma narrativa sobre
a nação. Revistas Eletrônicas de Ciências da Comunicação. v. 9, n. 26, p. 17-34, 2003.
In. http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/Comedu/issue/view/305
- MENEZES, Waléria. O preconceito racial e suas repercussões na instituição
escola. In. http://www.fundaj.gov.br/tpd/147.html
- PRATS, Joaquín. Ensinar História no Contexto das Ciências Sociais: Princípios
Básicos. Educar, Curitiba, Especial, p. 191-218, 2006. Editora UFPR.
- SILVA, Alexandre Rocha da. A Dispersão na Semiótica das Minorias. São
Leopoldo: Ed. Unisinos, 2001.
- SOUZA, Ana Lúcia Silva; CROSO, Camilla (coord.). Igualdade das relações étnico-
raciais na escola: possibilidades e desafios para a implementação da Lei
10639/2003. São Paulo: Peirópolis, 2007.
- TURRA, Cleusa; VENTURI, Gustavo. Racismo Cordial. São Paulo: Ática, 1995.
- WIEVIORKA, Michel. Racismo: Uma Introdução. São Paulo: Perspectiva, 2007.