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O FIM DO MUNDO

Simone Kobachuk

PERSONAGENS

Uma pessoa;
Outra pessoa.

Texto de teatro para dois atores. A ação é atemporal. As rubricas referentes ao cenário e propostas cênicas
são complementares ao texto. Mesmo assim, fica aqui a liberdade de expressão do encenador.

PRÓLOGO

No centro do palco, um cubo gigante, com rodinhas, para viabilizar seu movimento. Nele, portas e escadas
em todos os lados. Um dos lados terá uma tela para projeções de imagens. Música em volume alto, estilo
techno, referência de urbanidade contemporânea. Luz simulando uma danceteria. Os dois personagens
encenam uma coreografia que denote agressividade. Uma briga sem contato físico. A situação é confusa e
forte no sentido da desavença. Pausa da música e da iluminação frenética. Uma luz clara e intensa ilumina
a cena substituindo a luz anterior. Neste exato momento os personagens dão um tapa na face, um do
outro. Todo este momento é simultâneo. Os tapas são realizados no ato do silêncio e da luz intensa que
substituiu a iluminação frenética anterior. No silêncio, as personagens se afastam lentamente. Cada qual
num extremo do palco.

UMA PESSOA — Eu.

OUTRA PESSOA — Eu.

UMA PESSOA — Amo!

OUTRA PESSOA — Eu amo!

UMA PESSOA — Sou eu…

OUTRA PESSOA — …Estou aqui!

UMA PESSOA — Quem…

OUTRA PESSOA — …Só!

UMA PESSOA — Tenho nos olhos sangue!

OUTRA PESSOA — Onde está o fogo?

UMA PESSOA — Quem? Este já não existe mais!

OUTRA PESSOA — Todos estão mortos?

UMA PESSOA — Somos apenas o reflexo! Menos que um espelho. Sem matéria, apenas lembrança!

OUTRA PESSOA — Mas estamos aqui! Temos uma chance!

Música. Lentamente os personagens aproximam-se e desenvolvem uma coreografia lenta simulando o tapa
na face da cena anterior, mas desta vez, fazem uma carícia e abraçam-se. Blackout. O lado de projeções do

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cubo recebe as imagens durante a voz em off. São imagens de miséria, fome, guerra, destruição, vida
urbana, seguidas de imagens de partes do corpo humano em clôse — pés, mãos, lábios, olhos…

TEXTO EM OFF — A origem do princípio é o nada. Surge a luz! A vida. Do conflito e do desejo, explosões de
idéias. Apenas a vontade de ser! Uma grande vontade que entra em ebulição, em eclosão. Tudo num
expandir permanente... Expandir e arrefecer, expandir e arrefecer… Essa origem cósmica dá ao homem um
selo eterno à violência. Destruição não criativa. A morte nos atos do impensável. A tragédia da história
desta civilização. Como um Zeus, o ser humano em existência enraivecida. Não resistimos às tentações de
Pandora! Fomos condenados!

Silêncio.

UMA PESSOA (Sentado, esperando o tempo passar.) — Hum…Como é tudo igual!

OUTRA PESSOA (Em pé, andando pra lá e pra cá sem parar, anciedade) — …é só o tempo… o tempo que
não passa…

UMA PESSOA — …O tempo que passa frenético a nossa frente e rí como uma criança, frente a um palhaço.

OUTRA PESSOA — Podíamos seguir em frente!? A gente poderia viver um pouco!

UMA PESSOA — Viver? E o que você acha que estamos fazendo?

OUTRA PESSOA — Eu acho que estamos esperando o tempo passar, só isso...

UMA PESSOA — ... E rir! Esperamos o tempo que rí e o vento da esperança pra nos levar ao alto, mais alto
possível. Num vôo alçado para além deste nada.

OUTRA PESSOA — Voar... Seria ótimo... Ver de cima, tudo que não enxergamos daqui. Já pensou? Vamos...
Vamos voar para o mais alto possível? Temos que ir! Quem sabe, o que encontraremos aqui estando lá? As
vezes, lembraremos daqui com um sabor doce e quente. Nossa casa! Temos que ir para encontrar o aqui!

UMA PESSOA — Não se pode nem metaforizar que você começa a delirar? E para onde você acha que nós
podemos ir? Eu não tenho dinheiro, não tenho carro, não tenho vontade, não tenho coragem, não tenho
idéias, não tenho nada! Nada! Só tenho você aí me enchendo o saco com esse papo de bonzinho que não
leva ninguém a lugar algum! Eu não tenho asas!

OUTRA PESSOA — A sim! Muito bonito, parabéns pessoa, você pode até não ter nada além do meu papo
que lhe incomoda tanto. Mas eu vejo que algo a mais você tem… haaa… tem sim! Você tem feridas
sangrando que nunca param de escorrer, e não percebe que isso te cega, te imobiliza. Você desistiu!

UMA PESSOA — Desistí! Não quero apanhar mais. Não aguento mais a dor... Meu sangue se perdendo
entre o ontem e um possível amanhã. Acontece que eu vivo no presente, e hoje?... Hoje não tenho nada, a
não ser...

OUTRA PESSOA — Você tem é excesso de verborragia, excesso de intelectualidade, auto-piedade, excesso
de cultura inútil, depressão, você tem é depressão, tpm cerebral ou qualquer coisa inútil que te faz ficar
assim! Mas tem que saber que se ninguém nos falou que seria fácil, o melhor a fazer é tentar... Tentar!

UMA PESSOA — Muito bonito, e agora que você vomitou todas as suas angústias, podemos continuar em
silêncio?

OUTRA PESSOA — Tudo bem, ficaremos assim. Parados, estáticos fingindo ser uma pedra, um nada...
ninguém...

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Silêncio total. Outra pessoa inicia um conjunto coreográfico integrado com vocalizações e respiração
alterada que inclui movimentos estravagantes e caretas muito estranhas (grotesco). Uma pessoa fica
observando tudo com explícita análise sobre as esquisitices que vê.

UMA PESSOA (Com visível despreso.) — Mas o que significa isso!

Outra pessoa não responde e continua com a evolução de seus movimentos.

UMA PESSOA — Pára!

Outra pessoa pára e olha para uma pessoa numa posição congelada.

UMA PESSOA — Pára! Pára com isso, já não basta a nossa situação?

Outra pessoa recomeça sua coreografia estranha mas num movimento mais lento e sempre olhando para
uma pessoa. Conforme uma pessoa dá o texto a seguir, outra pessoa lentamente desestrutura sua
coreografia, se contorce de dor, começa a chorar até abraçar uma pessoa ao final de seu texto.

UMA PESSOA (Começa a se desesperar e chorar.) — Eu não aguento mais! Não aguento, não te aguento,
não me aguento mais! Eu não quero mais nada! (Olha para a plateia e grita.) Não aguento mais ninguém!
Vão embora! Eu não quero mais! Acabou! Vocês acham bom, ficar aí sentados nesta poltrona confortável
enquanto assistem placidamente todo o meu desespero? Meu espetáculo? Sai! Sai! Sai daqui…

Chora compulsivamente, é abraçado por outra pessoa e ambos caem ao chão do palco chorando. Silêncio.

OUTRA PESSOA — Desculpa...

UMA PESSOA — Não tenho nada que desculpar.

OUTRA PESSOA — Me desculpa, vai. Eu exagerei, Não precisava ficar me movimentando daquele jeito. Eu
sei que você não gosta!

UMA PESSOA — …Tenho medo. Você fica parecendo uma pessoa louca. Eu tenho medo da loucura. Medo
de perder o controle. Eu tenho medo…Do fogo... Da insanidade...

OUTRA PESSOA — …Sei, sei, não precisa falar mais nada. Me desculpa. Não vou mais brincar disso.
Prometo! (Levantando o ânimo.) Pronto! Está prometido. Nunca mais vamos brigar por causa disso. Eu não
vou mais fazer essas coisas com você, tá?

UMA PESSOA — … Nunca mais?

OUTRA PESSOA — Só de vez em quando!

UMA PESSOA — … Quê?

OUTRA PESSOA — Tá bem, só uma vez por ano!

UMA PESSOA — …A não! Você está começando tudo novamente!

OUTRA PESSOA — …É só brincadeira, você está precisando relaxar! Vai… Rí um pouco aí!

UMA PESSOA — Não tenho motivos para rir!

OUTRA PESSOA — Claro que tem. Todo mundo sempre tem motivos para rir.

UMA PESSOA — Eu não sou todo mundo. Não tenho mundo. Só sou ninguém, estatística!

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OUTRA PESSOA — Hei! Não fale assim, eu estou aqui, estamos juntos nessa lembra?

UMA PESSOA — Eu não consigo mais te ver. Não enxergo mais. Não lembro mais. Se olhar faz parte de um
lembrar, mesmo que imediato, eu me esquecí... Não vejo mais nada.

OUTRA PESSOA — Olha pra frente, procure enxergar. (Uma pessoa olha para a direção indicada.) Olhe
bem, tem algo aí! Você vê? E daí? O que você vê?

UMA PESSOA — Ver? Eu vejo umas pessoas aí olhando pra nós, só isso!

OUTRA PESSOA — Viu? Tem sempre alguém que olha por nós! Nunca estaremos sozinhos!

UMA PESSOA — Será?

OUTRA PESSOA — Ah…Pare com isso. Eu sei que você é uma pessoa criativa. Vamos em frente, deve haver
um lugar melhor!

UMA PESSOA — Isso é besteira. Crença de consolação.

OUTRA PESSOA — Então vamos inventar! Vamos inventar o novo. Criar um estado de alegria, paixão
criativa! Vamos mudar. Seguir em frente rumo ao novo, ao desconhecido. Vamos nos aventurar. Desbravar
novas terras, descobrir! Mas vamos, por favor, vamos sair deste marasmo. Eu quero mudanças, quero
chances, quero o fogo!

UMA PESSOA — Você quer que eu invente? Então tá bem. Que tal inventar um pouco mais de dignidade
pra nós? Que tal tirar as cicatrizes do meu corpo? As rugas das minhas frustrações? A falta de afeto que me
mata a cada minuto, a cada instante… Porquê eu não sei viver assim! Não tenho essa velocidade da tal vida
contemporânea. Não bebo com as pessoas certas, não tenho amigos influentes, não sei fazer política de
boa vizinhança, não sei falar das coisas certas nas horas certas e não tenho nenhum horizonte a não ser o
fato de que devo esperar que sobre alguma migalha pra mim. Sou como um urubu, daqueles que a gente
vê em documentário de bicho, aqueles que esperam os leões comerem a carne boa pra se contentarem
com a carniça que sobrou, e estou farto! Estou de saco cheio de ser obrigado a manter um sorriso na face
só pra agradar os outros e tentar ganhar alguma sobra!

OUTRA PESSOA — Não fala assim, isso só pode piorar tudo. De que adianta tudo isso?

UMA PESSOA — Você quer que eu minta? Posso mentir e sorrir. É isso que a gente faz mesmo!

OUTRA PESSOA — Mas sei que tem um jeito, deve haver um lugar para nós. Nem que seja longe. A gente
podia ir, vamos procurar! Sei lá, vamos pra Europa? Ou talvez você ache melhor irmos para os Estados
Unidos?

UMA PESSOA — Ah sim, porquê ser duro em euro ou dólar deve ser mais chique né? Ou você realmente
acredita que do outro lado do planeta vai mudar alguma coisa? Porquê eu, sinceramente, acho que a
gente só vai trocar de língua, ou melhor, trocamos de idioma e ainda lucramos os terroristas! (Risada meio
histérica.)

OUTRA PESSOA — Você é muito baixo astral. Vamos arrumar as nossas coisas e partir!

UMA PESSOA — Partir pra onde? Você não me escutou? Você é surdo, cego ou idiota mesmo?

OUTRA PESSOA — Vamos apenas caminhar, procurar um pouco de emoção, aventura, vamos apenas
tentar nos sentir vivos. Vamos ver pessoas, conhecer histórias, buscar intenção e beleza! Amor! Vamos em
busca do nosso sentir. Não posso mais aceitar ser apenas um reflexo, uma miragem. Eu sou uma pessoa,

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eu existo, tenho o direito, não, eu tenho o dever de ser completo e existir pleno e em total harmonia com
meus sonhos!

UMA PESSOA — É… uma vez eu já sonhei.

OUTRA PESSOA — Vamos construir, vamos inventar, sei lá, venha… Venha conhecer um lugar que não sei
onde fica mas sei que existe. É onde os sonhos se realizam! Vamos, não podemos ficar aqui parados, temos
que fazer acontecer...

UMA PESSOA — ...Mas pra onde? Pra onde vamos?

OUTRA PESSOA — Sei lá! (Apontando para os lados, para frente e para traz, para cima e para baixo.) Pra
onde você prefere? Pra lá ou pra cá? pra cima? pra baixo? Voltar ou ir em frente? Vamos ver até onde
podemos chegar!

UMA PESSOA — Pra lá! (Aponta para o cubo.)

ROTEIRO DE CENA

A cena a seguir é sem texto e permite grande exploração no processo de montagem. Abaixo, segue um
modelo de sequencia, apenas ilustrativo, para uma melhor compreenção do conteúdo da cena.

Ambos olham em direção ao cubo e seguem.

A JORNADA

Andam em torno dele dando muitas voltas, analizando-o com visível medo e curiosidade. Batem no cubo
inspecionando possíveis sons internos. Giram-no.
Tentam abrir suas portas que parecem estar trancadas. Estas portas devem ficar fechadas até o final do
espetáculo. Tentam escala-lo.

OS OBSTÁCULOS

Cansam-se. Brigam com o cubo. Desistem. Retomam a pesquisa. Sentem-se incomodados. Uma série de
situações cênicas serão geradas a partir da relação deles com o cubo. A interferencia da forma no espaço é
evidente. As personagens estabelecem uma relação direta com este cubo conferindo-lhe vida. Esta é a
única cena que apresentará a dupla numa ação conjunta, motivados por um mesmo interesse.

UMA PESSOA — Mas não tem ninguém aí!

OUTRA PESSOA — Talvez não tenha sido um bom caminho. Pode ser um lugar proibido. Talvez seja uma
propriedade particular. Quem quis vir para cá foi você... Mas olha, não se preocupe, a gente está em
movimento e é assim mesmo...

UMA PESSOA — Tá…tá… eu sei. (Continua instigado com o cubo.) Olha… Olha lá!

OUTRA PESSOA — O quê?

UMA PESSOA — Lá em cima, olha! Olha!

OUTRA PESSOA — É mesmo… O que é aquilo?

UMA PESSOA — Parece uma porta.... E está aberta!

OUTRA PESSOA (Corre para subir no cubo mas não consegue.) — É alto, me ajuda, não consigo subir.

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UMA PESSOA — Calma. Você vai subir assim?

OUTRA PESSOA — Como, subir assim?

UMA PESSOA — Não tem medo? Não sabemos o que pode ter lá.

OUTRA PESSOA — Nunca soubemos. Você até agora não entendeu nada mesmo né? Nós nunca soubemos
o que tinha “LÁ”.

UMA PESSOA — Foi você mesmo que falou que podia ser um local proibído, particular e coisas mais.

OUTRA PESSOA — Se for, só poderemos descobrir indo... Se ficarmos, jamais saberemos.

UMA PESSOA — Vamos voltar! Já vimos o suficiente.

OUTRA PESSOA — Voltar? Não dá pra voltar. Este é um caminho sem volta. Quem decide seguir, perde, no
pó da terra árida, a memória do caminho passado...

UMA PESSOA — Pois eu vou voltar. Esse teu versinho mirrado não me ilude. Eu sei por onde vim e posso
voltar quando quizer.

OUTRA PESSOA — Então tá. Tchau. Se você acha que pode é porque pode né? Vai, segue o caminho
inverso e tenta chegar onde partiu! Hahahahahaha... E depois o cego aqui sou eu. Vai, tenta voltar...
Tchau.... Vai... Ficarei te esperando...Hahahaha...Tchau....

Uma pessoa apanha suas coisas e sai resmungando.

UMA PESSOA — Tchau! Caminho inverso... Papo de louco.... (Debocha o outro.) Ha ha ha... Ficarei
esperando...

Sai resmungando de cena enquanto outra pessoa fica observando. Silêncio. Derrepente uma pessoa volta à
cena pelo outro lado do palco.

OUTRA PESSOA — Olha só quem está aí... Que bom te ver!

UMA PESSOA — Mas... eu... eu voltei? ...Fiz o caminho inverso... Mas como?

OUTRA PESSOA — Eu avisei...

UMA PESSOA — Eu quero voltar!

OUTRA PESSOA — Mas não tem como! Não existe caminho de volta. Você ficará andando em círculos e
retornando sempre para o mesmo lugar. Vai paralizar o teu movimento neste círculo. Você vai repetir o
mesmo de antes, mas no agora. Voltar para o antes, não é uma opção válida.

UMA PESSOA — Mas.. Eu...

Fica em silêncio total. Compreede a realidade e fica triste.

OUTRA PESSOA — Não fica assim, não adianta chorar... Respire...

UMA PESSOA — ...Respirar o que? Você nos coloca nessa estrada pra quê? De onde eu tirei a idéia de te
seguir? Não quero estar aqui, não quero estar com ninguém, você me irrita! eu te odeio! Me deixa em paz,
eu quero chorar, quero gritar, quero morrer, quero gritar!

OUTRA PESSOA — Para!

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UMA PESSOA — Parei.

OUTRA PESSOA — Então, podemos continuar?

UMA PESSOA — Tem uma porta lá.

OUTRA PESSOA — Sim, vamos lá, vamos entrar e ver, fazer acontecer...

UMA PESSOA — ...É muito alto, não tem como subir.

OUTRA PESSOA — Será?

UMA PESSOA — Vamos ver se nas nossas coisas tem algo pra nos ajudar a subir.

Continuam o esforço e a procura de uma solução.

VOZ EM OFF — Somos imagem e semelhança de uma idéia. Somos o nada em frenética expanção!

OUTRA PESSOA — Quê?

UMA PESSOA — Hã? Eu não falei nada!

OUTRA PESSOA — Acho que estamos fazendo alguma coisa errada... Talvez...

UMA PESSOA — ...Você não sabe o quer! Primeiro quer, depois tem medo. Que é que há? Que é que há?
Deixa pra lá! Você quer, mas fica em cima do muro!

OUTRA PESSOA — Eu não quero confusão. Só quero seguir, ir em frente, subir, quero me encantar,
acreditar que há uma solução. Isso não significa que eu não tenho meus medos.

UMA PESSOA — Vai, procura. Pra subir nessa coisa aí precisamos de uma escada.

OUTRA PESSOA — E você acha que eu tenho uma escada aqui na minha mochila?

UMA PESSOA — Claro que não, nós precisamos é de uma idéia. Não é assim que você fala? Precisamos
inventar algo novo, qualquer coisa que nos eleve, entendeu? Será que vamos trocar os papéis bem agora?

OUTRA PESSOA — Já sei! Um elevador!

UMA PESSOA — Quer parar de perder tempo com brincadeira. A questão aqui é séria!

OUTRA PESSOA — Haaaa… Agora é assunto sério. Não vale brincar!? E você tinha falado que era bobagem
a gente viver, encontrar emoção, brincar, relaxar, buscar aventura… Que papo é esse agora? Aqui tua
seriedade não vale nada!

UMA PESSOA — É que agora estamos num contexto sócio-filosófico envolto a um projeto de suma
importância.

OUTRA PESSOA — O quê? Que papo furado. Vai começar a complicar agora? não, porquê eu estava
motivado, querendo seguir novas rotas, desbravar terras desconhecidas e você me encheu o saco pra ficar.
Agora vem me falar desse jeito? Projeto de suma importância? Contexto... O que mesmo?

UMA PESSOA (Cético.) — Você quer ou não quer subir?

OUTRA PESSOA — Sim.

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UMA PESSOA (Tira de dentro da mochila uma corda e joga para outra pessoa.) — Então vai!

OUTRA PESSOA — Olha! De onde você tirou isso?

UMA PESSOA — Da mochila.

OUTRA PESSOA — Isso eu sei, só não sabia que você tinha trazido uma corda. Olha... Sabe que você não é
tão mal assim né?

Outra pessoa pega a corda, faz um laço e tenta enlaçar a porta que está aberta, uma pessoa também
tenta. Após várias tentativas não conseguem. Param, pensando numa solução.

UMA PESSOA — Precisamos é de um gancho, se não, não subimos.

OUTRA PESSOA — Vamos fazer um?! Você tem aí alguma coisa de metal pra gente envergar? Vou procurar
também.

Procuram em suas mochilas.

UMA PESSOA — Tem! Pega aí! Garfo...Faca... Colher ... Agulha... Faca... E isto!

Uma Pessoa tira da bolsa uma arma, aponta para o outro.

OUTRA PESSOA — Para! Tá doido é? Pra que você tem essa arma?

UMA PESSOA (Com sadismo no olhar.) — Que foi? Você tem medo? Não gosta de brincar? Bam… Bam…
(Finge que atira.)

OUTRA PESSOA (Outra pessoa reage se protegendo.) — Para… Para!

UMA PESSOA — Agora nós vamos parar! Vamos acabar com tudo! Você vai morrer agora! Aqui!

OUTRA PESSOA — Credo, que é isso? Agora é você que tem que parar com essa brincadeira sem graça!

UMA PESSOA — Isso não é brincadeira! Chega disso tudo. Você vai morrer!

OUTRA PESSOA — Que é isso? eu não te fiz nada.

UMA PESSOA — Você nasceu! Me chateou, você me enlouqueceu!

Vai aproximando-se lentamente sempre apontando a arma em direção da cabeça do outro.

OUTRA PESSOA — Hei... Eu só queria...

UMA PESSOA — ...Cala essa tua boca. Morre com dignidade cara. Você vai morrer agora porque eu quero,
sou eu… Eu que mando na tua vida. Você me sacaneou com suas brincadeirinhas imbecis, com seus verbos
babacas, sua pseudo generosidade, seus gestos de mentira. Tudo é uma farça! Só acontecem coisas se
forem pra privilegiar alguém! Agora, eu serei o beneficiado, sou eu que vou lucrar!

OUTRA PESSOA — Lucrar? O que é que você vai ganhar com a minha morte?

UMA PESSOA — Diversão! Emoção! Vou sentir medo de apertar o gatilho, pânico de ser descoberto,
remorso de ter matado alguém, tristeza de perder você e finalmente vou sentir glória! Aleluia, serei Deus
uma vez na vida! Não era você que queria divertir-se? Não era você que queria emoção? Está aí! Neste
momento você está vivendo a maior emoção da tua vida!

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OUTRA PESSOA — Mas você e eu estamos juntos. Estamos vivendo porquê eu quiz andar, quiz sair do
marasmo que estávamos. Você não aguentava mais esperar algo que jamais aconteceria, você sabe disso!
Partimos juntos nesta jornada rumo à descoberta de um novo horizonte. Somos descobridores
desbravando um mundo irreconhecível, incompreencível. Somos amigos! Juntos estamos buscando uma
chance!

UMA PESSOA — Chance? Você ainda está falando de chance? Chance pra quem? Pra você, é viver ou
morrer cara! Essa é a tua chance!

OUTRA PESSOA — Você é louco... Nós estamos construindo, estamos tentando!

UMA PESSOA — Isso é mentira! Você sabe que não passa de uma pulga, nós somos larva, destas
rastejantes que não fazem nada, e você sabia disso o tempo todo!

OUTRA PESSOA — Não é verdade, eu sou gente, nós somos gente. Somos seres humanos em busca de
humanidade. O fogo não apagou. A chama ainda corrói nossas almas no sentido da paixão, em nossos atos.
Somos gente que sente, que sofre. Não podemos nos contentar com as sobras. Temos o direito de
plantar...

UMA PESSOA — ...Plantar onde? Você vai morrer, ha ha ha ha ha... Você partiu num alucinado vôo rumo
ao suicídio. Eu é que não morrerei com você. Bam...Bamm... Vai, encolha-se, Ha ha ha ha... Você deveria
saber onde iria chegar com todo esse rompante. Movimento... Ha ha ha, teu movimento te matará. Você
não queria voar? Bam...Bam... Vôa amigo, voa bem alto nos braços da morte. O mundo é plano e você vai
despencar agora no inferno das intenções! Vai mergulhar na cachoeira do fim do mundo!

OUTRA PESSOA — Não precisa ser assim. Isso não é justo, chegamos tão longe...

UMA PESSOA — Justiça? Você quer justiça? Pra isso existir tem que explodir esse planeta cara. Fale de
justiça para os milhões de crianças que morrem de fome todos os dias. Fale de justiça para os pais que não
tem trabalho. Pra todos os que não tem onde morar. Para todos aqueles que assim como eu chegam a
loucura por não saberem mais quem são, ou melhor, fale de justiça para os idiotas assim como você que
insistem em sonhar, criar, lutar, caminhar, seguir em frente. Fale de justiça então, para aqueles que
seguem achando que a miséria, a destruição e as injustiças, acontecem por conta dos outros. Aqueles que
preferem a neutralidade e o conforto da conivência muda.

OUTRA PESSOA — Mas você... Você está querendo me matar, está se transformando num assassino e...

UMA PESSOA — ... E assumindo uma posição. Saindo de cima do muro. Estou sendo autêntico, estou
sentindo raiva, muita raiva e expressando essa raiva!

OUTRA PESSOA — Você pode mudar isso. Criar asas imaginárias. Lutar pelo fogo. Estamos aqui, frente a
porta desconhecida. Podemos agir de outra maneira. A alma do mundo é mais forte do que nossas
intenções.

UMA PESSOA — ...Preciso gritar, preciso sentir, você vai morrer e isso me faz sentir. Me sinto mais vivo
frente a sua morte!

OUTRA PESSOA — Eu não quero morrer, quero viver, respirar. Quero amar e me sentir amado. Eu quero
sentir a vida. Você não está percebendo que o sentimento de minha morte em você, nada tem a ver com
vida. Você morrerá em minha morte. Não pense que este ato ficará impune...

UMA PESSOA — ...Ha ha ha ha ha... Você acredita mesmo que eu tenho medo de punição? Você acha que
alguma punição será maior do que a que minha vida exerce sobre mim? Eu vivo em estado de punição
desde que nascí... Ha ha ha ha...

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OUTRA PESSOA — Quando o teu sentido sobre a vida mudar, moldado pelo gesto impensado da conquista
da morte, você vai saber de qual punição estou falando. Ninguém jamais será o mesmo após provar o
amargo sabor da destruição.

UMA PESSOA — Eu não me importo. Aliás, estou saboreando cada minuto deste melancólico diálogo. Vai,
continua, você está me proporcionando mais prazer. Chora um pouco vai, isso poderá fortalecer a cena.
Implora, pede pra eu não te matar. Se sou um tipo que está assumindo sua pseudo psicopatia, isso tudo só
poderá reforçar minha decisão sobre o que pretendo fazer com a sua vidinha de merda!

OUTRA PESSOA — Eu vejo estrelas que brilham como um pulsar. Um pulsar que me aguarda, no momento
em que você se resolver por este gatilho. Mesmo sendo fantasia, este é o sonho que me acalenta neste
momento. Vou morrer? Talvez sim? Talvez não? Só você saberá. Mas sei, que neste exato momento, uma
onda de energia invade o meu ser. É como se neste momento, eu estivesse sentindo mais vida do que
jamais sentí. Você tem razão, estamos vivendo emoção, você com a sua e eu com a minha. Agora eu
enxergo qual é o meu verdadeiro lugar nesta história... Não quero trocar de personagem. Não quero ter
uma arma nas mãos para me sentir vivo, não quero me defender de qualquer jeito. Há de ter uma
fronteira real, mesmo que invisível, entre o bem e o mal. Um mal desnecessário e com o qual eu não quero
compactuar. Tudo é apenas uma questão de decisão. Você, na ignorância do seu ato, está me ajudando a
enxergar como jamais acreditei ser possível. Eu acredito no movimento, acredito nos sonhos, acredito nas
mudanças, acredito no milagre do nascimento, acredito no amor, acredito na dor, acredito na miséria,
acredito na generosidade, acredito na misericórdia. Eu acredito é na vida!

UMA PESSOA — Eu me defendo...

Numa ação muito rápida, impulsionado pela raiva do que está escutando, uma pessoa atira.

UMA PESSOA — O que foi que eu fiz? Não!

Corre para amparar outra pessoa que está caído no chão com sangue escorrendo.

UMA PESSOA — Desculpa, não morre, não morre. Não morre, não morre, fica comigo, não fecha o olho,
fica, fica comigo, não morre, o que foi que eu fiz, desculpa. Não era para fazer isso, isso não tinha que
acontecer...

OUTRA PESSOA — Você... você escutou?... Um som... Explosão... E... Eu... Acho que a porta se fechou...
Agora não...Não... Poderemos mais tentar entrar... Podem tê-la trancado... Olhe se você tem aí... Algo de
metal... Na mochila... Devemos ter algo para fazer um gancho... vamos subir... subir alto... o mais alto
possível... eu quero ir...

UMA PESSOA — ...Não, não vá por favor ! Fica, fica comigo... Não fale mais nada, fica aqui, não morre, não
morre por favor, eu preciso de você comigo. Meu Deus... O que foi que eu fiz... Meu Deus... O que está
acontecendo...

OUTRA PESSOA — Ouça... música...

UMA PESSOA (Levanta-se para espantar não sabe quem, briga lutando com o ar.) — Saiam daqui, saiam,
vão embora, nada aconteceu, vão embora. A culpa é de vocês, vão embora, deixem meu irmão em paz, ele
quer ficar aqui comigo, sai, sai...

OUTRA PESSOA — ... São lindos ... Estão aqui ... São... Eles são...Quentes...Eu...Vou...Quero...Voar...
Alto...Eles choram...Por você...

Fecha os olhos.

UMA PESSOA — Não... Você não pode ir. Volta! Volta! Fica comigo! Não quero ficar só. Acorda! Acorda!

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Olha para todas as direções procurando no invisível e na platéia.

UMA PESSOA — Quem são vocês? Quem são vocês? Porque levaram meu irmão? Tragam ele de volta.
Quem está aí? Quem está aí?????? Eu quero mudar de personagem. Não quero ser quem eu sou. Por que
vocês fizeram isso? Levem eu. Me levem. Quero ir com ele. Não posso ficar aqui. Volta...

Silêncio absoluto. Depois de um tempo, uma pessoa reaproxima-se do morto, suja suas mãos no sangue e
olha-as. Passa as mãos nos olhos.

UMA PESSOA — Tenho meus olhos em sangue... Já não enxergo nada...

Começa a arrumar o morto com muito cuidado.

UMA PESSOA — Você dorme. Dorme... Eu sinto frio... Estou congelando. Sinto o frio tomar conta do meu
corpo. É tudo branco, gelo. Estou endurecendo e você dorme, você dorme... Vôa nos sonhos deste sono
profundo... E eu? E eu? Porque estou congelando? Tudo é tão frio...Responde... Responde agora... Faz frio,
muito frio. Não vejo nada, eu não enxergo...

Uma pessoa levanta-se e olha o cubo. Corre para ele e gira-o em frenético movimento de desespero. Em
determinado momento, sobe por uma escada, entra para dentro do cubo pela porta superior, que estava
aberta, sai pela lateral onde tinha outra porta na altura do chão. Descobre outra porta, entra e sai
frenéticamente por todos os lados do cubo que tinham portas deixando claro que não ha nada dentro do
cubo. Entra e sai sem parar, batendo as portas, subindo e descendo do cubo. Chama e procura por outra
pessoa como que numa alucinação.

UMA PESSOA — Onde você está? Eu estou aqui! Venha, eu estou esperando, onde você está? Eu não te
encontro, onde está você? Apareça! Para de brincar... Vem, vem rápido, onde está você? Aparece. Eu...
Você... Eu... Onde estou... Você? Eu... Tem alguém aí? Tem alguém aí? Onde você foi? Onde estamos?

Continua procurando outra pessoa em todas as direções do cubo até conscientizar-se de que não há nada
nem ninguém. Longa pausa.

UMA PESSOA — É só silencio. Estou cansado. Não há nada. Não há nada aqui. Ninguém. Nem reflexo, nem
lembrança... Só o frio que me corrói a alma, paraliza a ação e atormenta o coração. Só Destruição. Tenho
meus olhos cegos pelo sangue.

Uma pessoa volta-se o morto. Pega-o e carrega-o até o cubo, entrando por uma porta. Começa,
lentamente a fechar todas as portas, gira o cubo deixando à frente o telão de imagens. Lentamente sobe e
no alto do cubo começa a construir uma forma que simula as velas de uma Nau fixando–a. Imagens de
uma imensa cachoeira projetada no telão.

UMA PESSOA (Abrindo uma luneta e observando à sua frente.) — Terra a vistaaaaaa...

VOZ EM OFF — Nas grandes velas do tempo... Rumo ao desconhecido, o Homem conquista o novo.
Perdeu-se na memória do fogo. Os heróis estão mortos! Congelados nas ações impensadas, cegos ao
horizonte do medo, mudos na opressão dos monstros. As asas estão ao vento. Arrastadas no oceano da
miséria. O sonho é invisível. Somos divinos em nossas decisões. Imortais em nossas intenções. O mundo é
plano! É preciso querer entendê-lo como um globo gigante para acreditarmos nas infinitas possibilidades
de descobertas que ainda estão em nós...

Blackout.

Fim.

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