Você está na página 1de 14

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO

CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE SINOP


DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL

FENÔMENO DOS TRANSPORTES I


4º SEMESTRE

PROFESSOR:
ANDRÉ LUIS CHRISTOFORO

MONITORES:
ANDERSON RENATO VOBORNIK WOLENSKI
ANELIZE BORGES MONTEIRO

SINOP
2008
2

CONTEÚDO DA DISCIPLINA

- Conceitos Fundamentais;
- Estática dos Fluidos;
- Conceitos Básicos para a Análise de Escoamento;
- Princípio de Conservação de Massa;
- Segundo Princípio Fundamental da Termodinâmica;
- Princípio de Conservação de Energia;
- Escoamentos Potenciais;
- Equação de Bernoulli;
- Semelhança Dimensional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- POTTER, Merle C.; Wigggert, David C. “Mecânica dos Fluidos”. Ed 3.


Editora Thomson.

- NETO, Azevedo. “Manual de Hidráulica”. Ed. 8. Editora Edgard Blucher


LTDA.

- BRUNETTI, Francisco. “Mecânica dos Fluidos”. Editora Pearson.


3

1 - CONCEITOS FUNDAMENTAIS

1.1 - INTRODUÇÃO

Fenômenos de Transporte ou Mecânica dos Fluidos é a ciência que estuda o


comportamento físico dos fluidos, assim como as leis que regem esse comportamento. São
muitos os campos de aplicação que envolvem conhecimentos sobre os fundamentos de
Mecânica dos Fluidos, como:
• Construção de Máquinas;
• Meteorologia;
• Acústica;
• Transporte;
• Agricultura;
• Medicina;
• Aerodinâmica, etc.
O desenvolvimento da Mecânica dos Fluidos foi iniciado antes de Cristo.
Houve uma época obscura até o Renascimento quando as aplicações, sem o perfeito
conhecimento do comportamento dos fenômenos, poderiam ser consideradas mais arte do que
propriamente ciência. Depois dessa época, começaram muitas aplicações no ramo da
hidráulica. A partir do século XVI, conhecimentos hidráulicos foram estabelecidos
inicialmente através de experimentação e, pouco a pouco, estudos matemáticos começaram a
confirmar algumas teorias propostas. Lentamente, nos séculos XVII e XVIII, os
conhecimentos se foram acumulando e o grande desenvolvimento apareceu no fim do século
XIX, chegando ao atual estado, firmada como ciência.
Muitos homens se dedicaram a esse ramo das Ciências. Alguns têm seus nomes
lembrados através de princípios, leis, coeficientes e unidades de medida como Newton, Euler,
Bernoulli, D’ Alembert, Navier, Stokes, Prandtl entre outros.
Basicamente, os fenômenos de transporte ou de transferência que ocorrem na
natureza e que são de interesse para o presente curso são: transferência de massa, de calor e de
temperatura. O fenômeno de transporte é caracterizado pela tendência ao equilíbrio, que é
uma condição onde não ocorre nenhuma variação.
Os fatos comuns a todos os processos de transporte são:
4

a) Força Motriz: o movimento no sentido do equilíbrio é causado por uma diferença


de potencial;
b) O Transporte: alguma quantidade física é transferida;
c) O Meio: a massa e a geometria do material onde as variações ocorrem afetam a
velocidade e a direção do processo.
Como exemplo de transferência de calor, e, por condução, lembrando que troca
de calor em um sistema pode ocorrer também na forma de convecção e irradiação, podemos
⎛.⎞
citar a Lei de Fourrier. A Lei de Fourrier diz que o fluido de calor ⎜ q ⎟ aplicado em um meio
⎝ ⎠
físico é diretamente proporcional ao coeficiente de condutividade térmica do material (k ) , à

área da seção através do qual p calor flui ( A) , medida perpendicularmente ao fluxo e a razão

de variação da temperatura (T ) com a distancia ( x ) , na direção x do fluxo de calor, sendo

expressa pela equação (1.1) e representada por intermédio da Figura (1.1) .

. dT
q = − k . A.
dx
Eq. (1.1)

Admitindo-se "Q" como unidade de quantidade de calor, "T " como unidade

de temperatura, " L" como unidade de comprimento, as variáveis envolvidas na eq.(1.1)


assumem as seguintes unidades:
. Q
*q =
.
q .dx Q.T −1 .L
T *K = = 2
= Q.T −1 .T −1 .L.L− 2
A.dT L .T
* A = L2
Q
K = Q.T −2 .L−1 ⇒ K =
dT T T 2 .L
* =
dx L

A exemplo da transferência por quantidade de movimento, podemos citar o


exemplo de um fluido estando entre duas placas, em que uma delas se movimenta. O processo
de transferência de quantidade de movimento faz com que as camadas de fluido adjacentes à
placa se movimentem com velocidade próxima a da placa, tendendo a um estado de equilíbrio
5

onde a velocidade do fluido varia de “V” na superfície da placa em movimento até zero na
superfície da placa estacionária.
Em se tratando do fenômeno de transferência de massa, podemos citar o
exemplo de uma gota de corante sendo colocada em um recipiente com água e o processo de
transferência de massa faz com que o corante se difunda através da água, atingindo um estado
de equilíbrio, facilmente detectado visualmente.

1.2 – DEFINIÇÃO DE FLUIDO

Fluido é uma substância que se deforma continuamente, quando submetida a



uma força tangencial F t constante qualquer ou, em outras palavras, fluido, diferentemente de
sólidos, é uma substância que, submetida a uma força tangencial constante, não atinge uma
nova configuração de equilíbrio estático, assim como ilustra a Figura (1.2).

1.3 – TENSÃO DE CISALHAMENTO – LEI DE NEWTON DA VISCOSIDADE

Tensão de cisalhamento média é a razão da componente tangencial da força


⎛→⎞
⎜ F ⎟ pela área da superfície onde atua, como expressa a equação (1.2) e como ilustra a Figura
⎝ ⎠
(1.3).

Ft Eq. (1.1)
τ=
A

Obs.: F n é a componente de

F normal à superfície.
6

Na experiência das duas placas, ver Figura (1.2), nota-se que a linha de fluido
em contato com a placa estacionária, pelo princípio da aderência, possui velocidade nula, e, a

linha de fluido em contato com aplaca que se move, sobre a ação da força constante F t ,
também, pelo princípio da aderência, move-se com a mesma velocidade da placa, sendo
assim, a velocidade entre as placas varia V = c te ≠ 0 para 0. Portanto, existem forças internas
entre as infinitas camadas de fluido adjacentes de maneira a assegurar o equilíbrio dinâmico
→ →
(∑ F = 0 e V = c te ≠ 0) entre as camadas de fluido e a força F t aplicada à placa superior.

Dessa forma, como existem forças de reação no fluido, sendo percebidas pela variação da
⎛→ ⎞
⎜ Ft ⎟
velocidade das linhas de fluido com a profundidade, surgem então as tensões ⎜ ⎟⎟ entre estas
⎜ A
⎝ ⎠
camadas de fluidos, assim como ilustra a Figura (1.4).

Newton descobriu que em muitos fluidos a tensão de cisalhamento é


proporcional (∝) ao gradiente de velocidade. Disto, pode-se traduzir a Lei de Newton da

Viscosidade, assim como expressa a equação (1.3) .

τ
dV τ = c te Eq. (1.3)
τ∝ ou dV
dy
dy

Os fluidos que obedecem a essa Lei são ditos Newtonianos e são em grande
maioria, como a água, o ar, os óleos, etc., e os demais, como os plásticos, são chamados de
fluidos Não Newtonianos. O estudo desses últimos envolvem conceitos de reologia, que não
serão tratados neste curso.
7

1.4 – VISCOSIDADE DINÂMICA OU VISCOSIDADE ABSOLUTA

O coeficiente de viscosidade dinâmica é a constante responsável por


transformar a relação entre tensão de cisalhamento τ e a taxa de variação da velocidade em
relação a “y”, em uma equação, assim como expressa (1.4).

dV
τ = µ. Eq. (1.4)
dy

Admitindo-se “L” como unidade de comprimento, “F” como unidade de força


e “T” como unidade de tempo, as unidades das grandezas componentes da Eq. (1.4) ficam:

L
F τ
*τ = = F .L− 2 *
dV T
= = T −1 *µ = = F .L− 2 .T
L dV
dy L
dy
As unidades de µ em alguns sistemas de unidade são:
Kgf .s
• MK*S (técnico): ;
m2
N .s
• MKS Giorgi ou S.I.: ;
m2
dyn.s g .cm
• CGS: 2
= poise ; 1 dyn = 1 .
cm s2

Sobre a viscosidade, é importante salientar que:


• A viscosidade não é uma propriedade observável em um fluido em repouso, pois
qualquer que seja a força tangencial (experiência das duas placas), ele se deforma, e, com o

movimento do fluido, ela faz sentir seu efeito, criando condições de equilibrar a força F t

externa (Equacionamento Dinâmico: ∑ F = 0 e V = c te ≠ 0) ;
• A viscosidade dinâmica possui um valor diferente para cada fluido e varia, para um
mesmo fluido, principalmente em relação à temperatura;
• Nos líquidos, a viscosidade diminui com o aumento da temperatura, enquanto que nos
gases a viscosidade aumenta com a temperatura.
8

1.4.1 – SIMPLIFICAÇÃO PRÁTICA

Em fluidos cuja espessura da camada é “pequena”, o perfil de velocidade pode


ser aproximado para a forma linear, assim como ilustra a Figura (1.5), ficando a tensão de
cisalhamento expressa pela Eq. (1.5).

V0 dv
∆ ABC ≅ ∆ DEF ⇒ =
ε dy

dv V Eq. (1.5)
∴τ = µ . = µ. 0
dy ε

1.5 – O CONTÍNUO

As propriedades e o comportamento dos fluidos podem ser estudados sob um


ponto de vista molecular; é como se procede na teoria cinética dos gases. Todavia, a mecânica
dos fluidos, para suas aplicações em ciência e tecnologia, não está interessada nos aspectos
moleculares, mas sim em manifestações macroscópicas médias e mensuráveis de conjuntos de
moléculas ou átomos. Por isso adota-se o conceito de contínuo, uma idealização que imagina
uma distribuição contínua de matéria, o que simplifica muito as análises.
Com tal conceito, as propriedades macroscópicas têm um valor definido em
cada ponto do espaço.
9

1.6 – MASSA ESPECÍFICA ( ρ ) E PESO ESPECÍFICO (γ )

Massa específica é a razão da massa de fluido pela unidade de volume que o


contém.

m
ρ= Eq. (1.6)
V

Por análise dimensional, utilizando FLT , tem-se:

F F
F = m.a ⇒ m = = −2
= F .L−1 .T 2 ⇒ V = L3
a L.T

F .L−1 .T 2 1
∴ρ = = F .L− 4 .T 2 Obs. : V = (volume específico )
L3
ρ

Peso específico é a razão entre o peso de uma massa de fluido pelo volume que
a contém.

G P m.g
γ= Eq. (1.7 ) Obs . : γ = = = ρ .g
V V V

Por análise dimensional, tem-se:

G = F ; V = L3 ⇒ ∴ γ = F .L−3

1.7 – PESO ESPECÍFICO PARA LÍQUIDOS (γ r )

Peso específico de um líquido é a razão do peso específico de um líquido pelo


peso específico da água.

γl
γr = Eq. (1.8) γr → adimensional
γH O
2
10

1.8 – VISCOSIDADE CINEMÁTICA

É a razão do coeficiente de viscosidade dinâmica ( µ ) pela massa específica

( ρ ) do fluido.
µ
υ= Eq. (1.8)
ρ

Por análise dimensional, tem-se:

F .L2 .T
µ = F .L .T ;
−2
ρ = F .L .T −4 2
∴υ = ⇒
F .L−4 .T 2
L2
⇒ υ = F .F −1 .L− 2 .L4 .T .T − 2 = L2.T −1 = , em que ‘L’ e ‘T’ são grandezas cinemáticas, daí
T
o nome, viscosidade cinemática.

1.9 – FLUIDO IDEAL

Fluido ideal é aquele com viscosidade nula. Por essa definição conclui-se que é
um fluido que escoa sem perdas de energia por atrito. É claro que nenhum fluido possui esta
propriedade, no entanto, será visto no decorrer do estudo que algumas vezes será interessante
admitir essa hipótese, ou por razões didáticas ou pelo fato de a viscosidade ser um efeito
secundário do fenômeno.

1.10 – FLUIDOS COMPRESSÍVEIS E INCOMPRESSÍVEIS

Os fluidos podem ser classificados, no que diz respeito à compressibilidade,


em duas grandes classes: líquidos e gases. Um líquido é praticamente incompressível com um
volume definido, tomando a forma do recipiente em que está contido, apresentando uma
superfície livre. Um gás é muito compressível e expande-se indefinidamente se não existem
esforços externos; o equilíbrio é possível apenas quando ele está completamente envolvido
num recipiente. Em estudos de escoamentos -compressíveis e incompressíveis- ao invés de
classificação de fluido. Tal classificação depende de parâmetro de escoamento.
11

1.11 – TENSÃO SUPERFICIAL

Certos insetos conseguem caminhar sobre a superfície da água, que se


comporta como uma película tensa e elástica, apenas deformada nos pontos onde se apóiam as
patas do inseto. Essa propriedade dos líquidos, chamada tensão superficial, é devida às forças
de atração que as moléculas internas do liquido exercem juntos às da superfície. As moléculas
situadas no interior de um líquido são atraídas em todas as direções pelas moléculas vizinhas
e, por isso, a resultante das forças que atuam sobre cada molécula é praticamente nula. As
moléculas da superfície do líquido, entretanto, sofrem apenas atração lateral e inferior. Esta
força para o lado e para baixo cria a tensão na superfície, que faz a mesma se comportar como
uma película elástica, assim como ilustra a Figura (1.6) .

Vamos determinar uma expressão para o cálculo da tensão superficial atuante


em uma gota d’água. Para isso, façamos um corte imaginário nessa gota separando-a em duas

partes. Para que as partes da gota estejam em equilíbrio, surgem tensões internas (σ i ) para
equilibras com as externas ou as superficiais, assim como ilustra a Figura (1.7).

F P = P .A

FS = τ .L
∆F
σ=
∆L
12

Onde:
Fp – Força de Pressão;
Fs – Força de Superfície;
σ – Força por unidade de comprimento (Tensão Superficial).

Logo:

∑F x
= 0 ⇒ FP − FS = 0 ⇒ FS = FS ⇒ σ .L = P. A

P.r
⇒ σ .2.π .r = P.π .r 2 ⇒ σ = Eq. (9)
2

1.12 – MÓDULO DE ELASTICIDADE VOLUMÉTRICO ( E )

Expressa a compressibilidade de um líquido em função da variação da pressão.

− V0
E= .∆P Eq. (10)
∆V

Em que:

V0 − Volume inicial;

∆P − Variação de pressão;
∆V − Variação de volume.

Obs.: Sabendo-se que o volume diminui, observa-se que a massa específica do


fluido tende a aumentar nos casos de compressibilidade. Para alguns sistemas de unidade, o
módulo de elasticidade fica:
13

N
• MKS Giorgi ou S.I.: ( Pa ) ;
m2
Kgf
• MK*S : .
m2

Por análise dimensional, tem-se:


3
L F
E = 3 . 2 = F .L− 2
L L

1.13 – CAPILARIDADE

É a propriedade dos fluidos de subir ou descer em tubos muito finos. Esta


capacidade de subir ou descer resulta da capacidade de o líquido molhar ou não a
superfície do tubo.
Quando um líquido entre em contato com uma superfície sólida, este é sujeito a
dois tipos de forças que atuam em sentidos contrários: a força de adesão e a força de
coesão. A força de adesão tem a ver com a afinidade do líquido para a superfície sólida, e
atua no sentido de o líquido molhar o sólido. A força de coesão tem a ver com a coesão do
próprio líquido, e atua no sentido oposto. Se a superfície sólida for um tubo de raio
pequeno, como um capilar de vidro, a afinidade é tão grande que o líquido sobe pelo
capilar. No caso do mercúrio, acontece o contrário, pois este não tem afinidade com o
vidro (a força de coesão é maior). A tendência do líquido de subir pelo capilar resulta da
diferença de pressão gerada pela interface curva entre a fase líquida e a fase gasosa.
Consideremos um tudo capilar contendo água, assim como ilustra a Figura
(1.9).
14

O valor da altura ‘h’ da coluna d’água no tubo é expresso por:


∑ F y = 0 ⇒ σ .L.senα − P = 0 ⇒; P = γ .V e V = π .r 2 .h

2.σ .senα
⇒ σ .L.senα = γ .V ⇒ σ .2π .r.senα = γ .π .r 2 .h ⇒ h = Eq.(1.11)
γ .r

Obs.: para a água, considerar α = 90º .