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Husserl – roteiro

Husserl, histórico:
- No início, simpatia pelas ciências positivas, pela onipotência da ciência [K-S, 23]
- Em 1880 revigora-se a crítica ao conhecimento. Reaparece o “sujeito pensante”
com o sujeito puro (kantiano); depois, o sujeito concreto (Bergson, Dilthey) [K-
S,23]
- Brentano o influencia:
Todos os fenôms. Psíquicos têm uma intencionalidade;
Cria a fenomenologia: o estado psíquico tem a percepção; ele existe tal como
percebe a si mesmo.
Há um “vivido”, que não tem nada a ver com algo genético, metafísico [K-S,25]

As fases de Husserl:
1. logicismo essencialista;
2. idealismo transcendental;
3. vitalismo historicista [Z,17]

Reforma o cartesianismo:
- Descartes tentou o conhecimento através do sujeito, o Cogito, mas H. o acha
insuficiente; a evidência de toda ciência é o percebido; refuta-se a crença de
uma realidade em si mais real que o mundo vivido e de natureza matemática
[R,40].
- Hume é o empirista que considera o sujeito; seu erro foi não conduzir sua
pesquisa até uma evidência primeira (a redução transcendental), ao “mundo
vivido” [R,42]. A “evidência primeira” cobre o mundo vivido em geral... Pessoas e
coisas são realidades fluentes... mas tudo ocorre num só e mesmo mundo [R,42].

Crítica ao idealismo:
- Kant: “Uma consciência imutável condiciona a organização de nossas
experiências” (sob “formas puras”) [K-S,29]; Para Kant, o mundo é imanente ao
sujeito; [MP,FP,10].
- Husserl: “É preciso romper a familiaridade com o mundo” [MP,FP,10].
- A fenomenologia não é só “pura consciência” mas reflexão baseada “na coisa”
[MP. FP, 4].
- A consciência viva exprime e dá sentido à experiência; a expressão é animada por
um sentido anterior ao ato próprio, da intenção de significar. [K-S,29]
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- Sobre a coisa em si: Kant fala: um dado é possível mas os homens não têm
condições de conhecer a origem. Husserl, ao contrário, vincula a consciência à
coisa: não há consciência “esvaziada”, não há o em si da consciência. [Lyo,34]

Crítica ao positivismo lógico:


- Diz o PL: “No princípio está a significação”. Diz Husserl: No princípio está a
experiência de nós mesmos. [MP,FP,14].

Combate ao psicologismo e ao pragmatismo [Lyo,9]

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1º Período: Investigações Lógicas:


- O lógico não depende do humano, tem uma verdade inerente [K-S,27]; [porém] no
plano da lógica podem ocorrer equívocos (uma lógica pode ser vazia). Para corrigi-
los é preciso uma intuição sensível [Lyo,22].
- Não opera com leis mas com ideais [K-S,27];
- Trabalha com uma “evidência”; uma essência surge com o invariante de uma
multiplicidade [K-S,27]
- Chega-se a uma “ontologia formal”, construção de puras idealidades, sem o
recurso das intuições sensíveis mas apoiada em conceitos e leis da evidência; É
uma ontologia não-metafísica, baseada nos “vividos” do pensamento lógico e do
conhecimento [K-S,28]
- Propõe uma psicologia descritiva voltado ao fenômeno vivido e não voltada à
consciência interna: uma ciência não-empírica da subjetividade [K-S,29]
- O saber científico (“a verdade”) depende da consciência: a certeza é algo
subjetivo; a verdade é uma crença que teve sucesso; as leis não são
absolutamente verdadeiras [Lyo,16]

A fenomenologia, def.

O fenômeno:
- Ele é apenas o “vivido”, nada tem a ver com “objeto em si”. [K-S,33]
- Para os antigos, fenômeno era a unidade entre o ser e o aparecer, e tb.
“aparência enganosa” (Platão: “mundo sensível”); para Hume, o fenômeno está
separado da coisa; para Kant há o fenômeno e a coisa em si (noumeno), que é o
limite da pretensão do fenômeno, algo fora do alcance da razão humana, o
incogniscível; o fenômeno, ao contrário, é o objeto da experiência [Z,17]. Para
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Hegel, o ser e/ou o Absoluto é cogniscível (=Espírito). Para Husserl, ser =


fenômeno (tudo que se dá para a experiência atual é coisa verdadeira). No
aparecer do fenômeno dá-se a essência [Z,20].

A fenomenologia:
- Essências: estudo das essências, repondo-as na existência [MP, FP, 1]; as
essências não existem independentemente das coisas. Não há um amarelo fora do
muro amarelo. [Lyo,17]. A essência é o invariante.[Lyo,18]; fenomenologia é a
ciência das essências, e essência são as maneiras de aparecer o fenômeno; ela
não vem da comparação ou abstração de várias: para proceder à comparação é
preciso ter captado a essência, o que nelas é semelhante [Z,21].
- Descrição: procedimento que busca descrever, não explicar, nem analisar [MP,
FP,3]
- “Retorno às coisas”, é o que propõe numa época em que a juventude estava
saturada de especulações.... Uma filosofia da essência e do objeto. [K-S,13]; É
“explorar o dado, o que se percebe” sem forjar hipóteses...É apenas descrição
[Lyo,10]
- É crítica da ciência; é busca de bases sólidas e de “saída da ciência” [Lyo,11];
- O transcendental: é como se apresenta o objeto em geral [Lyo,29]; quer dizer,
sempre como “intencionalidade”, sempre como um “objeto para” uma consciência
[Lyo,21] (Transcendental é diferente de transcendente: aquele é interior, ideal;
este, é exterior, real. [Z,19]). Fenomenologia é “vivência imediata da
consciência”, que não aceita pressupostos das ciências empíricas (noções
matemáticas, físicas,etc.); não aceita a primazia do racional (Galileu), que só leva
a “objetividades ideais” [Z,30].

Fenomenologia (transcendental):
- É o contínuo “pôr a descoberto” nos níveis que constituem o mundo; é a
reconstituição do mundo [K-S,53]; é o “conhece-te a ti mesmo”, o penetrar do
homem dentro de si mesmo (é interpretação de si mesmo e é vivência do eu
transcendental) [Z,35].
- Estudo das vivências da consciência, os diferentes significados do ser e do
existente à luz das funções da consciência [Z,19]. A consciência deve passar da
atitude ingênua (ciências positivas) à transcendental (consciência que constitui o
mundo como fenômeno puro) [Z,30]; é análise das vivências intencionais da
conscência para aí perceber o sentido dos fenômenos [Z,34-35]; é o estudo da
constituição do mundo da consciência [Z,35], é a ciência descritiva eidética da
consciência pura transcendental [Z,41].
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- É teoria dos fenômenos puros ou da consciência pura [Z,35].

Consciência:
- Em H., consciência é intencionalidade, ela ultrapassa o fenômeno psíquico da
percepção interna.
- É a “expressão fenomenológica dos vividos intencionais” [K-S,33]; o que lhe
importa é a percepção imanente: as experiências vividas, dadas diretamente à
consciência.[Z,32].
- Expressão: a filosofia de H. é a do movimento (de algo pré-existente e epurrá-lo
para frente) na direção do Ser ou [movimento] como necessidade de expressão;
o que é não pára no seu ser-aí, procura manifestar-se (pedras, flores, insetos,...)
[R,52]. O universo não-humano nos é inconcebível, sem sentido, pois todo sentido
é expressão de sentido dirigida à consciência [R,53]. A expressão é pelo corpo
(O corpo fala); a palavra, por sua vez, é enganosa: seu sentido é móvel [R,55]; dá
a impressão de ser relativamente estável, de ser “arsenal de significações”, mas
as “provisões” são mortas e é sempre preciso refazê-las... Criar, reinventar a
linguagem [R,56]. Codificações lingüísticas dão a ilusão de significações prontas e
diretas, entesouradas em livros, fórmulas. [R,57]. A palavra tem também a
função de verdade (= posse de um equivalente dos fenômenos) mas ela nunca
“encerra o mundo”, apenas o expressa [R,57].
- É o conjunto de todas as vivências (=unidade), é percepção interna... é o “ser
consciente” (=subjetividade) e é vivência intencional (= um rio); ela não é
substância, alma, mas atividade [Z,32].

Intencionalidade da consciência [ é o voltar-se a algo, jamais a coisa ser “em si


mesma”]

- A consciência é intencionalidade, quer dizer, ela é sempre “consciência de algo”


[Z,30]. A I. da consciência é sua capacidade de transcender, de dirigir-se a algo
outro que não si mesma [Z,32]
- Em Kant, fala-se de uma unidade do mundo anterior ao conhecimento, unidade
entre imaginação e entendimento. Em Husserl, a consciência, por exemplo, não é
duplicação de um pensamento absoluto mas “projeto do mundo”, voltado a um
mundo que ela não abarca mas em cuja direção ela segue. [MP,FP,15]; É reflexão
que parte do Cogito e se orienta às coisas (do cogito ao intentio) [Z,19].
- Intenção é uma atividade, operação real que implica uma relação causal.[K-S,32]
Tampouco é uma “relação interna” (psicológica) mas envolve duas coisas: um
conteúdo vivido e um objeto. [K-S,33]
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- Na I. não se trata da influência da consciência sobre o objeto; não é uma


intervenção [K-S,32]; é a doação de sentido [Lyo,34]; ver um objeto não é
reproduzi-lo na mente, é “visá-lo”, dar sentido, é revelação [Lyo,32]

Sentido e significação da consciência

- O sentido: O I.T. é a experiência perceptiva que irá prescrever o sentido que


tomarão as coisas no mundo. A consciência é doadora de sentido, ela abriga o
objeto e é fonte de sentido [K-S,45]; a consciência dá sentido às coisas, é o
homem cravando suas garras na trama dos acontecimentos [R,53-54]; Há um
processo de constituição, uma redescoberta de sentido no mundo [K-S,46];
Estamos, por isso, “condenados ao sentido”: assim funciona a fenomenologia,
confrontando perspectivas, confirmando percepções, fazendo aparecer o sentido
[MP,FP,18]. Sentido (os sentidos) e significação: a consciência “dá sentido” às
coisas; a consciência faz o equilíbrio entre uma filosofia antiga (eidética) e uma
consciência cristã (transcendental) [Z,41].
- Noema e noese: A percepção capta o sentido imanente, o noema, como se capta a
“objetividade” do objeto, a saber, pela unidade das diferentes aparências. A
síntese nunca se dá, é sempre ideal, um desenvolvimento sem fim, um telos para
onde tendem as coisas [ Peirce] [K-S,46]; A intencionalidade são dois fatos: o
conhecer (noese), como dar sentido, e a coisa mesma (noema), ou então, um
conhecer orientado à subjetividade, outro, à constituição da objetividade na
subjetividade [Z,30].
- Exemplo da macieira: Para a consciência comum há a macieira real e a macieira
representada; para H., não é um nem outro, só há a macieira-enquanto-percebida.
Aqui a macieira aparece pelos matizes do real; a árvore “em carne e osso” é
correlato intencional de vivência... uma multiplicidade de dados da sensação
reduzindo-se a uma unidade de sentido/.../Ela é noema (conteúdo noemático da
vivência) resultante da noese (do ato de consciência).[Z,30]
- Significação: Compreender é considerar todos os detalhes; a “poeira dos fatos”
desenha um certo agir, um acontecimento./.../As diferentes visões levam a um
“núcleo único de significação” [MP,FP,17]. Significações são “unidades ideais”, são
independentes, são “unas” em relação à diversidade de imagens e de enunciados.
Por ex., uma “gramática geral” acima da língua empírica... Ela é a ponte entre a
matéria sensível e o universo conceitual. [K-S,29].
- Observação de uma árvore: ela é “fluxo incessante de esboços” que só se
apreende unilateralmente.[Lyo,26]
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Eu transcendental e o mim psicofísico:


- Há duas instâncias distintas: o eu transcendental (je) e o mim psicofísico (moi).
[K-S,51]. Há um eu da redução (eu puro) e um eu concreto, imbricado no mundo
[Lyo,25]. Na duplicidade do Eu (transcendental e psicológico) trata-se do mesmo
Eu: o Eu fenomenológico é um desdobramento do Eu do espectador
desinteressado. [Lyo,29].

Comunicação é o outro penetrar na minha esfera primordial. A intersubjetividade


transcendental forma o Nós-sujeito. [K-S,53]

Intuição:
- Diferente de Kant (intuição sensível: captada pelo ser), em Husserl, intuição é o ir
às coisas mesmas, é preciso a presença do objeto. [K-S,31]

Mundo vivido (Lebenswelt):


- Para corrigir Descartes, H. propõe que se parta do mundo percebido [Lyo,23];
- Do mundo vivido parte “o que eu sei” para se chegar “às coisas mesmas” [MP, FP,
4].
- Lebenswelt é o mundo pré-científico (o que fornece as condições de
possibilidade da ciência), que se opõe ao Wissenswelt, mundo do saber. [Z,47].
Lebenswelt não é o mundo ao qual dirigimos nossos atos mas é a suspensão disso
e a concentração no próprio modo de vida. Lá se dão as “formações de sentido”
originárias de onde derivam as ciências; é um a priori [Z,48]. É o regresso a um
mundo anterior à conceituação metafísica e científica (o pensamento matemático
tentou encaixar o mundo em formas pré-existentes).[Z,49]. É uma realidade rica,
polivalente, complexa [Z,50]; não é a “soma dos objetos” mas o mundo subjetivo
de onde emerge a atividade humana [Z,50]. “É o diálogo que mantenho com o
mundo em redor e que constitui toda realidade de meu ser”, é o nó das
proposições que o mundo faz..., o nó das iniciativas e das respsotas... é a vida com
suas alegrias, penas, trabalhos e folgas [R,42].
- Há uma “ciência do Lebenswelt”, da subjetividade: por ela se vê o mundo e como
ele adquire sentido [Z,49].

Horizonte:
- É a mediação sujeito(consciência) – objeto; é o nexo global, condicionador-
determinante do sentido da intencionalidade subjetiva [Z,51].

O real:
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- ele deve ser descrito, não construído. O que eu sinto, percebo, capto não são “o
mundo” (são imaginações). O “mundo” é apenas um fundo sobre o qual os atos se
destacam. [MP, FP, 6].
- O real só existe como função das coisas que o roldeiam. A vida perceptiva é
expressão, nem passiva nem objetiva. Nossos sentidos nunca copiam o real, o
informam [R,65].

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Após as Investigações:

Redução fenomenológica/ Epoché (suspensão do juízo): passa-se das “coisas que


fascinam” para a “consciência que olha”. Desafio: estudar como as coisas vem a dar-
se, elas mesmas, na consciência. [K-S,39]; no início há o senso comum, que é a
“atitude natural” [Z,36].

- Dois significados da Epoché: negativo, ao se isolar a consciência como resíduo


fenomenológico; positivo, ao fazer emergir a consciência como radicalidade
absoluta. [Lyo,28]. Reduzir é recusar-se a ser cúmplice do movimento do mundo;
é, antes, admirá-lo (Fink). [MP, FP,10].
- Pôr entre parêntesis: A consciência olha-se a si mesma, transforma a direção do
olhar, levanta o véu que ocultava ao Eu sua verdade e que lhe dá acesso a um novo
modo de existência [Lyo,29]
- Filtro do Cógito: Redução não é mais “voltar às coisas” mas regressar à
consciência que temos do mundo. [K-S,35]. É a redução de todo o ser ao ser-
fenômeno, a passagem de tudo pelo filtro do Cogito. [K-S,38]. A reflexão toma
distância para ver brotar as transcendências; ela distende os fios intencionais
que nos ligam ao mundo [MP,FP,10]. Toda redução é eidética [ essência], é a
captação do “puro fenômeno” e não de seu momento singular, empírico [K-S,38].
A subjetividade cognoscente torna-se fonte do conhecimento objetivo [K-S,36]
- As coisas não existem ‘em si’:Não posso chegar ao conhecimento se eu for uma
ilha de consciência fundada sobre si mesma, se as coisas existem “em si” [K-
S,36]
- Conhecimento trans-subjetivo: Ou seja, pode-se chegar a um conhecimento
trans-subjetivo. O Cogito é superior às ciências positivas, à matemática, pois seu
objeto transcende à experiência em que é captado. [K-S,36]

a) redução transcendental ou eidética (neste caso, retira-se o que não é essencial)


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- É um ato de recuar: recua-se para um campo aquém de nosso engajamento no


mundo; retrocede-se do fato de nossa existência (Dasein) para a natureza de
nossa existência (Wesen). [MP,FP,11]. “É preciso que eu me despoje dos aportes
segundos da educação, cultura, história, geografia, vida social, etc., para
descobrir de novo o solo constante de toda minha vida: a correlação primeira do
eu com o mundo [R,44-45]. Quando penso mundo, penso mundo para mim,
experimentado por mim [R,45].
- A filosofia desconecta nossa existência no mundo: o mundo aparece “tal como ele
é”, antes de qualquer retorno a nós. [MP,FP,11,13].
- A filosofia “passa pelas essências”: essências é o campo da idealidade (aquilo com
o qual comparamos nossa existência) [MP,FP,11]

b) Aplicado ao ego/alter (O outro):

- Contra o solipsismo: Não existe só minha presença mas tb. um espectador


externo (fato desprezado pelo Cógito). [MP, FP, 9]. O outro é evocado por H.
para resolver o problema do solipsismo [K-S,48]
- Intersubjetividade: Minha consciência não se reduz à consciência que tenho de
existir; ela envolve tb. a consciência que possa ter do outro./.../ O Cógito não
substitui o mundo. A subjetividade transcendental é tb. intersubjetividade.
[MP,FP,9]. O mundo objetivo apóia-se numa comunidade intersubjetiva,
“comunidade intermonádica” [K-S,48]. O mundo comum é uma síntese de mônadas
[Z,38].
- A comunidade intersubjetiva forma-se – como nos objetos – por sínteses de
identificação: o outro me subtrai o que parecia ser exclusivo a mim; no estranho
eu percepciono que outro(s) percepciona(m) a “minha” natureza [K-S,52]. O
idealismo transcendental instala-se na intersubjetividade transcendental [Z,37],
pois não há só o Eu mas seu contraposto, o alter ego [Z,37].
- (Mas isso é contraditório: Por um lado, se pensa numa “comunidade constitutiva
de seu próprio mundo”, por outro, trabalha-se com um sujeito transcendental
radical (= tudo reduzido ao ego). [Lyo,36-37])
- Redução da redução: Tampouco o outro existe como um “já-aí”. Também ele é
captado quando surge na minha experiência. Opera-se aqui uma “redução da
redução”: devo depurar de meu universo tudo que possa vir de outrem [K-S,49]
- O outro é diferente da coisa: Mas o alter não é o mesmo que a coisa: coisa é
unidade ideal de sentido (unidade de múltiplas aparências), enquanto o alter é
transcendência imanente em mim, irrompe da minha experiência, constitui-se a
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partir de mim [K-S,51]; O “outro” não pode ser explicado como o é “a coisa”. Não
dá para reduzir sua existência real a um “correlato intencional” [Lyo,36].
- Einfühlung: O outro é outra forma de se chegar à realidade, a saber, pela
Einfühlung do corpo do outro [Z,37].

Tese geral da existência:


- Há duas certezas na filosofia: a de que existe o mundo em que a consciência vive
(mundo da experiência) e a de que existe o “eu sou”, cartesiano, subjetivo,
transcendental. [K-S,39]
- Há uma “tese geral da existência”, a fé ingênua na realidade e na permanência do
mundo. [K-S,41]. Vejo o mundo e acredito encontrá-lo (percepção imediata), mas
ele é brumoso [Lyo,24]. Mas o mundo, eu o constituo! [K-S,41]. O sujeito (como o
mundo) constitui-se continuamente [Z,36].
- Devo, então, descobrir a realidade como existente, suspendendo o mundo
[Lyo,24-25]. A “tese geral” deve ser substituída por uma reflexão que questiona,
colocando-se a tese “entre parêntesis”, eliminando as certezas, não tomando
posições, atuando como expectador sem interesse. Assim obtém-se de volta a
vista diante da cegueira. [K-S,41].
- Eu “reduzo” o mundo (o ignoro) mas, mesmo assim, algo pemanece, subsiste [K-
S,43]
- Há o objeto e a consciência. A coisa percepcionada é um complexo de múltiplos, é
a unidade de múltiplos [K-S,44]. Não há a “coisa verdadeira” por trás dela; a
realidade só é captada “sob uma face”; ela é sempre incompleta; qualquer objeto,
mesmo “em pessoa”, pode ser ou não ser o objeto que pretende ser. [K-S,44]
- Nega-se a “tese do mundo” (“há coisas”) e aceita-se a “tese do eu”, do vivido (há
uma consciência como ser absoluto). [K-S,44]

Apodítico e não-apodítico:
- Há dois planos: o da contingência da coisa dada, nível não-apodítico (= a coisa
pode não ser) e o da necessidade do Eu puro, nível apodítico (= a vivência só pode
ser) [Lyo,27];
- A essência se atinge (a) purificando o fenômeno do que lhe é inessencial
(buscando o invariante), sendo ela o “sentido ideal” do objeto, [Lyo,36]; ou (b) da
essência purificada ruma-se para as evidências apodíticas, isolando-se o eu e
seus atos [Z,37]. Assim se chega à redução transcendental. [Z,37].

Subjetividade transcendental: caminhos para [Um “quase-método”]


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- Três condições: ausência de pressupostos (são as reduç]ões, a eliminação do


mundo exterior, é o partir “das coisas” [Z,21]; o caráter a priori: há um a priori
universal (= a consciência), há um sentido que pode ser percebido [Z,23]; a
evidência apodítica: a adequação completa entre intenção e dado [Z,27].
- O método parte de uma atitude sem pressupostos, analisa fatos da consciência,
não tem cosmovisões, permanece no fenômeno e na subjetividade; é descritivo,
não há inferências, teorias cumulativas; não há conhecimento empírico
contingente mas apoio em essências; leva a uma certeza, é um saber a priori;
procura sua raiz na atividade filosófico-científica [Z,41].

Verdade:
- Percepção é acesso à verdade, diferente do idealismo que funda uma evidência
absoluta que ilumina o mundo [MP,FP,14]. A ciência é ingênua, ela crê na verdade,
busca uma realidade independente, perde de vista o mundo vivido; ora, a
objetividade não passa de um acordo entre consciências [R,61]. A filosofia é
interrogação; o fenômeno é rodeado por um ambiente obscuro [R,59].
- Verdade nunca é adequação pensamento/objeto, mas “experiência vivida da
verdade”, isto é, evidência, momento em que a coisa se dá em “carne e osso”
[Lyo,39].
- Já a experiência é diferente: às vezes temos a experiência mas não a evidência
(“sentimos a coisa”) [Lyo,40]. As experiências “atualizam-se”: uma anterior
(ilusória) é substituída por outra mais atual. Não há “experiência verdadeira”
[Lyo,41].

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Terceira Fase: A história

A crise da humanidade européia. Husserl, até então indiferente aos problemas


coletivos, muda de postura [R,32].
- Anteriormente (1913-1931, de Idéias até Meditações) centrou-se no sujeito
enquanto suporte do ato de consciência, como instância constituinte de sentido
[Z,44]. No final (1930-38: A Crise) busca trabalhar a história, busca evidências
pré-lógicas, mundo de valores, sentido da existência pessoal, coletiva [Z,44];fala
em nome da humanidade [R,32]
- Causa da crise: fracasso das ciências na compreensão do homem; para H., há uma
idéia-fim, um telos intrínseco na atividade filosófica do Ocidente [Z,45], há uma
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crise das ciências, que é a crise do humanismo como projeto racional


(esqueceram-se do Lebenswelt).
- Razão: a filosofia deve aparecer o sentido ou a carência de sentido de todo o
resto; há que se buscar a razão: o problema do sentido e do valor, da existência
e da história são um problema da razão [R,33]. A razão não como aparelho de
conhecimento mas como algo vinculado à vida: é a essência de nosso devir, nossa
realização futura, curso do devir humano [R,34]. Ela está vinculada à ação; é uma
missão: o homem deve dominar seu destino, apoderar-se de si e da história
[R,34]
- Estrutura: a razão propõe que se elabore uma nova síntese, a “unificação de
nosso destino num nível superior”, que se integre os elementos dispersos, que se
organize os amorfos... A estrutura “razão”, que a humanidade elabora, é o
reatamento da lei da progressividade universal [R,35].
- Dos gregos ao presente: Os gregos buscavam a certeza... O Renascimento
reduziu o Projeto de esclarecimento a uma ciência rigorosa universal, à
matemática [R,38]. Como Galileu, que achou que certos (ou, todos) fenômenos do
mundo poderiam ser subsumidos à geometria euclideana. Que o mundo exterior
seria apenas a aparência exterior ou imagem do único mundo real, matemático
[R,38]. Ocorre que a geometria euclideana não funda mas é fundada pelo mundo
percebido[R,39].
- Subjetividade: as ciências objetivas esqueceram-se dos seres conscientes... e
era preciso recuperar a subjetividade esquecida [R,40]

A história
- História é o sentido sedimentar que nos leva à essência da História; a História é
inteligível; a humanidade era sujeito e não sabia [K-S,57,59];