Você está na página 1de 9

Os Sistemas de Comunicações Móveis

Os sistemas de comunicações móveis celulares são uma das aplicações das


radiofrequências com mais impacto na nossa sociedade.

Estes sistemas têm como objectivo proporcionar um canal de comunicação entre


utilizadores cuja posição é desconhecida e que possam estar em movimento sem
qualquer restrição de localização. Para tal, é necessária uma infra-estrutura de
telecomunicações complexa, cujos elementos visíveis para o público são os terminais
móveis (vulgarmente designados por “telemóveis”) e as antenas das estações base,
que fazem a interface entre o utilizador e o sistema.

Os sistemas de comunicações móveis celulares são uma das aplicações das


radiofrequências com mais impacto na nossa sociedade (basta pensarmos no número
de pessoas que usam o telefone móvel no seu dia a
dia).

As estações base não são mais que um


conjunto de diversos equipamentos que trocam
informação com os terminais móveis. De entre os
equipamentos que constituem uma estação base, os
mais visíveis são as antenas (apenas uma ou várias)
e o mastro de suporte (figura 70). É importante
salientar que só as antenas emitem radiação
activamente.

Figura 70: Antena e mastro de


suporte.

As estações base distribuem-se


geograficamente segundo uma rede de forma
mais ou menos regular, ao contrário do que
acontece por exemplo com a distribuição das
antenas de difusão de rádio e televisão. Isto
acontece porque os sistemas de
comunicações móveis são bidireccionais, ou
seja, o terminal móvel para além de receber
Figura 71 informação da estação base também transmite
sinais no sentido inverso. Assim, e como a capacidade de alcance do terminal móvel é
limitada, as estações base têm de estar distribuídas regularmente para garantir que
em qualquer local seja possível comunicar, ou seja, para que haja “cobertura” num
dado local.

Esta situação é semelhante ao sistema de iluminação pública, em que os postes


de iluminação estão distribuídos de uma forma regular de modo a garantir que cada
local seja devidamente iluminado.

Cada estação base é capaz de estabelecer ligação com um número limitado de


terminais móveis, dizendo-se portanto que a sua capacidade é finita. Dependendo do
número de chamadas a efectuar num dado local, assim haverá mais ou menos
estações base nesse local. É por este motivo que nos centros urbanos, caracterizados
por um maior número de utilizadores, existem mais estações base do que nos meios
rurais.

As Antenas

As antenas das estações base estão tipicamente montadas em torres e mastros,


ou no topo e nas fachadas de edifícios. Não é raro encontrar também instalações em
postes de iluminação pública, em depósitos de água, no interior edifícios, etc.

As antenas não emitem radiação de igual forma em todas as direcções do


espaço, o que significa que o nível de radiação não é o mesmo em toda a área
circundante à antena. Esta propriedade é designada por direccionalidade da antena.

Nos sistemas de comunicações móveis celulares usam-se geralmente dois tipos


de antenas: as antenas ominidireccionais e as antenas directivas. Estes dois tipos de
antena diferem principalmente na forma como distribuem a radiação no espaço. À
representação espacial dos níveis de radiação de uma antena chama-se diagrama de
radiação (figura 72).

Figura 72: Diagramas de radiação de uma antena omnidireccional (à esquerda) e de uma antena directiva
(5)
(à direita)
(5)
Imagens obtidas através do programa EMF-Visual, Antennessa.
Na figura 72 à esquerda representa-se o nível de radiação emitido por uma
antena omnidireccional. As zonas a sombreado concentram a radiação emitida. Pode-
se observar que, no plano horizontal, a radiação é distribuída da mesma forma por
todo o espaço. Por outro lado, na figura 20 à direita, em que se representa a radiação
proveniente de uma antena directiva, observa-se que a radiação é essencialmente
distribuída numa direcção bem definida do espaço.
Uma característica comum a estes dois tipos de antena, que se pode constatar
na figura 72, é o facto de a radiação ser geralmente inclinada para o solo.

Normalmente, distinguem-se duas zonas de radiação dos CEM provenientes de


uma antena: a zona próxima e a zona distante (figura 73). A zona próxima vai desde a
antena até à distância de alguns comprimentos de onda e caracteriza-se por
apresentar uma relação bastante complexa entre os campos eléctrico e magnético. A
zona distante estende-se desde o limiar da zona próxima até ao infinito e caracteriza-
se por os campos eléctrico e magnético apresentarem uma relação bem conhecida e
serem perpendiculares entre si.

Figura 73: Zona distante e zona próxima de uma antena.

Cobertura Electromagnética

O nível de radiação proveniente de uma antena de estação base num


determinado local depende essencialmente de três factores: potência radiada pela
antena, direccionalidade da antena e distância em relação à antena.

A forma como é feita a distribuição das estações base faz com que a potência
por elas radiada seja baixa, de modo a evitar interferências. Este é outro factor que
diferencia as estações base das estações de difusão de rádio e de televisão,
caracterizadas por potências radiadas bem mais elevadas.

Tal como se pode visualizar na figura 74, a intensidade do campo


electromagnético radiado por uma antena diminui rapidamente com a distância,
tipicamente com o inverso desta. Isto significa que a densidade de potência associada
ao campo electromagnético se reduz de um factor de 4 sempre que se duplica a
distância em relação à antena da estação base. A densidade de potência num local dá
uma medida da energia que pode ser absorvida por um tecido biológico exposto à
radiação de uma fonte electromagnética.

Figura 74: Diminuição da intensidade da emissão com a distância em relação à antena.

Aspectos que influenciam os níveis de exposição à radiação

Transmissão descontínua

Os sistemas de comunicações móveis não estão a transmitir em contínuo


quando se está a efectuar uma comunicação, apesar de isto ser imperceptível para os
utilizadores. Isto é feito para que vários utilizadores possam utilizar em simultâneo o
mesmo canal de comunicação (cada um transmitindo num intervalo de tempo
diferente), aumentando assim a capacidade do sistema e a autonomia da bateria do
telefone móvel. Este mecanismo da transmissão descontínua faz com que o nível de
emissões médio de um telefone móvel seja menor, pois este só está a emitir em
alguns instantes de tempo, não emitindo nos restantes.

Controlo de potência

O controlo de potência é um mecanismo utilizado pelos sistemas de comunicações


móveis onde a potência de emissão se adapta ao mínimo necessário para estabelecer
e manter a ligação. Quando se está a utilizar o telefone móvel para efectuar uma
comunicação, este entra em diálogo com a estação base e em cada momento adapta
a sua potência de emissão ao mínimo para conseguir chegar até à estação base (e
vice-versa), aumentando a potência de emissão no caso de haver obstáculos no
percurso entre o telefone móvel e a estação base ou de aumentar a distância entre
ambos, e diminuindo quando acontece a situação oposta.

Ao ser utilizado o controlo de potência, os níveis de exposição vão ser diminuídos,


pois o telefone móvel reduz a potência de emissão para o nível mínimo necessário
para manter a ligação, diminuindo também assim os fenómenos de interferência e
aumentando a própria autonomia da bateria do telefone móvel.

Inquietação da população

As fortes inquietações da população relativamente às comunicações móveis


situam-se em dois planos:

1. Telemóveis – a proximidade imediata entre a antena do telefone e o crânio, durante


a conversação;

2. Estações base – a sua multiplicação no nosso ambiente próximo.

De facto, a explosão do número de consumidores desta tecnologia implica a


instalação de um número crescente de antenas de estações base, sobretudo em meio
urbano, no sentido de garantir uma cobertura óptima num ambiente rico em obstáculos
físicos. Tal conduz ao aparecimento de antenas nos telhados dos prédios
(macrocelulares), ou instaladas na fachada de imóveis ou no interior de locais ou
espaços públicos - micro ou picocelulares (figura 75).

Figura 75: Antena instalada no interior de um espaço público.


“Os telemóveis constituem uma fonte de radiações importante para o cérebro
dos utilizadores, dado que o telemóvel é colocado junto à cabeça durante a
conversação. Por outro lado, enquanto a antena difunde energia em permanência, o
telemóvel emite sinais, sobretudo quando está a ser utilizado e durante períodos
limitados.” (6)

Como já foi referido, as radiações emitidas por uma antena de estação base não
se propagam normalmente na vertical, mas quase horizontalmente, com ligeiro ângulo
de inclinação, pelo que o feixe principal é inclinado para baixo, só atingindo o solo a
uma distância que pode variar entre 50 e 200 metros em zonas urbanas, dependendo
de determinados parâmetros. O trajecto deste feixe de radiação constitui a zona onde
a intensidade emitida pela antena é máxima. As exposições mais intensas não se
situam, portanto, imediatamente abaixo da antena, mas sim a distâncias entre os 50 e
os 200 metros, aproximadamente. Para distâncias superiores a intensidade de
emissão volta a diminuir (figura 76).

Figura 76: Emissão a partir de uma estação base.

Assim, pode concluir-se que a antena quase não radia para a zona abaixo da
qual está instalada, pelo que não é pelo facto de se encontrar instalada no cimo de um
prédio ou no átrio de uma escola que os seus habitantes (do prédio ou a população
escolar) serão mais afectados, bem pelo contrário (figura 77). No perímetro mais
próximo da antena o sinal não chega com tanta intensidade.

Figura 77

(6)
DGS, Sistemas de Comunicações Móveis – Efeitos na Saúde Humana, op. cit.
Por outro lado, no que respeita às antenas instaladas nas paredes e fachadas
dos edifícios, os seus diagramas de radiação estão orientados para o exterior, pelo
que as pessoas presentes no interior dos edifícios não ficam expostas.
Não podemos esquecer ainda o facto de as paredes e os telhados constituírem
um obstáculo físico à propagação dos CEM, reduzindo-os no interior das habitações. É
por isso que um telemóvel funciona melhor ao ar livre do que no interior de uma
habitação.

Como já foi supracitado, a densidade de potência radiada diminui muito


rapidamente com a distância (mais concretamente, com o quadrado da distância).
Dado que as antenas têm sido instaladas a uma grande altura, a potência está já
bastante atenuada quando as ondas atingem o solo.

A potência radiada é apenas a necessária para garantir a cobertura de uma área


desejada (podendo rondar os 60-70 W), permitindo que se estabeleça a ligação. A
distâncias de 30 metros, os níveis de exposição da população são inferiores a 5% em
relação aos limites que estão considerados na Recomendação do Conselho.

No que respeita aos telemóveis, a situação é diferente. De acordo com estudos


realizados, a intensidade máxima do campo eléctrico produzida junto à cabeça de um
indivíduo que se encontre próximo de um telemóvel (durante a conversação) pode
atingir cerca de 100 V/m, ao passo que a exposição da população a campo eléctrico
proveniente de uma estação base é muito menor – a intensidade máxima pode ir até
cerca de 5 V/m, isto é, 20 vezes inferior.

Portanto, é possível admitir que, a uma distância de cerca de 50 metros da


antena de estação base, os valores do campo eléctrico e do campo magnético são
inferiores em 50 a 100 vezes aos valores do campo eléctrico e do campo magnético
medidos a uma distância de 2,2 cm de um telemóvel.

No entanto, estes resultados deverão ser analisados com algumas reservas. Nas
proximidades da fonte de radiação (o que se verifica durante a conversação ao
telemóvel), existem outros factores que caracterizam melhor a exposição individual,
dado que a medição do campo eléctrico não oferece, por si só, indicação quanto à
quantidade de energia que é efectivamente absorvida pelo organismo.

A utilização de um auricular, pelo facto de afastar o telemóvel da cabeça durante


a conversação, é um acessório extremamente útil e apresenta características
preventivas. Nesta situação, a zona mais exposta do organismo humano será aquela
que se encontra mais próxima do telemóvel.

No caso particular das crianças, tem sido sugerido que a absorção da radiação é
superior, não só porque a cabeça é mais pequena mas também porque a radiação
penetra mais facilmente numa caixa craniana mais fina. Assim, a utilização dos
telemóveis pelas crianças deverá ser feita com algumas restrições.

Não podemos esquecer o facto de que os adultos de hoje, porque começaram a


utilizar os telemóveis numa idade já mais avançada, terão um tempo de exposição aos
CEM por eles gerados bastante inferior ao tempo de exposição das crianças, que os
começaram a utilizar muito mais precocemente (figura 78). Devem, assim, os pais
ponderar em relação aos potenciais riscos inerentes à intensa utilização de um
telemóvel pelas crianças.

Figura 78

Um outro aspecto que deve ser realçado é o facto de a potência radiada por uma
antena de estação base ser tanto menor quanto menor for a zona de cobertura, zona
essa designada de “célula”. Para que as zonas cobertas por cada antena de estação
base sejam menores, maior terá de ser o número destas. Daqui se pode concluir que,
para que a intensidade das radiações diminua, cada operador deverá instalar o maior
número possível de antenas de estação base no território! Quanto mais densa for a
rede de antenas de estação base montada pelos operadores, menor será a potência
emitida por cada uma. Como se estará mais próximo de uma delas quando se
pretende utilizar um telemóvel, mais facilmente o utilizador se ligará à rede.

Por outro lado, o próprio telemóvel conseguirá, nessas circunstâncias, emitir com
uma potência mais reduzida, o que será benéfico em termos da diminuição dos
valores do campo electromagnético gerado em torno da cabeça do utilizador.
Quando um telemóvel tem dificuldade em efectuar uma ligação, por se encontrar
em más condições de recepção, aumenta automaticamente a sua potência de
emissão para fazer face a esta situação, o que faz aumentar os valores da intensidade
de radiação.