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Águas de Julho

Por Alessandra Sousa

Quando eu era pequena morava em uma casinha verde na esquina da rua. Minha rua era muito movimentada, exatamente como deveria ser uma rua qualquer em um bairro da periferia de uma cidade pequena. No final da tarde as pessoas se acomodavam a frente das casas para contar as fofocas do dia ou simplesmente para ver o sol se pôr por entre as casas a sua frente. Não havia nenhum lote vago e todas as casas eram grudadas entre si por seus respectivos muros. Cada uma delas tinha uma cor particular e a cada dois anos todo mundo se juntava para renovar a as pinturas, assim a rua sempre tinha uma cor viva e alegre. Por ser uma rua pequena comportava poucas famílias, acho que dez ou onze ao todo e todo mundo se conhecia. Era interessante como eles sempre se organizavam para fazer algum evento ou coisa parecida. As festas de final de ano eram sempre as mais animadas. A gente fechava a rua, juntava as mesas de todas as casas no centro, e cada família ficava responsável por alguma coisa. Minha mãe sempre fazer o frango ao molho que aprendera com minha avó e meu pai comprava sempre muita cerveja pra passar o Ano Novo em grande estilo, como ele sempre dizia. Vinha gente de todo o canto, amigos, conhecidos, família que morava em outro lugar. A rua era tomada por uma multidão de gente que cantava e dançava e festejava. Todos juntos unidos em uma só família. Mais não era só a festa. As pessoas, a solidariedade a alegria estampada em cada rosto ali presente, era isso que fazia ser tudo tão bom. Em meio a tanta gente eu me sentia segura como se todos ali se protegessem e se amassem. A senhora que morava na ultima casa do lado esquerdo, a alguns anos atrás perdeu o marido e se viu em dificuldades financeiras. Ouvi dizer que ela passou fome por ter vergonha de pedir ajuda. Era uma senhora muito bondosa, já deveria estar na casa dos 70 anos e não teve filhos. Seu falecido marido sempre distribuía chocolate pra gente na páscoa. Eles eram

A senhora da ultima casa a esquerda passou em frente da casa da esquina em frente a minha e ouviu a mulher de cabelos ruivos gemer de dor e os dois recém-nascidos chorar. O marido dela trabalhava em uma usina hidrelétrica a norte do estado e só estava em casa de quinze em quinze dias. Eu lembro que ele ficou tão agradecido que ofereceu um jantar pra todo mundo da rua. Lembro que certa vez um ladrão entrou na casa do casal que tinha três filhas mulheres. Uma vez a mulher que morava na outra casa de esquina em frente a minha caiu e quebrou a perna. depois que o marido dela morreu e ela ficou nessa dificuldade toda. Era a única casa da rua que não tinha um muro. Alem disso vira e mexe fazíamos bazares. Os outros se revezavam para levar coisas aos bebes e a mulher nos hospital. Quem conseguisse mais ganhava algum prêmio comprado pelos adultos. O mais velhos apostavam corridas de carros. Eles morava ao lado da senhora da ultima casa da esquerda. automaticamente a gente chamava de vovô e vovó. como ralis. por isso a facilidade dele de invadir o local. Todo mundo trabalhando junto. pai das meninas. O senhor. Foi uma confusão que só. Meu pai teve essa idéia. na fazenda de um dos vizinhos. estava na casa juntamente . Eu me lembro do rosto de cada umas daquelas pessoas e do tanto que nós éramos felizes daquele jeito. E foi assim que ajudamos a senhora da ultima casa a esquerda a vencer a depressão e viver melhor. que sempre era entregue a alguém que precisava. Eles tinha uma casal de gêmeos recém-nascidos. Os perdedores pagavam uma quantidade de cestas básicas estabelecidas antes da corrida. Logo a rua toda se imobilizou para ajudar. A mulher gorda que morava mais acima e tinha cinco filhos cuidou do pequeninos. Nos crianças arrecadávamos alimentos. surgiu a idéia das festas solidárias. ela já estava bem. em gratidão. a senhora da ultima casa a esquerda foi junto pra que ela não ficasse sozinha. As mulheres faziam concursos de tortas e ganhavam dinheiro com a venda. Quando o marido dela chegou. O solteiro que morava ao lado da minha casa se ofereceu pra levar a mulher ao hospital. Bem.o casal mais velho da rua. arrecadávamos roupas e ali entre a gente fazíamos a nossa parte pra fazer do mundo um lugar melhor. A partir daí passamos a fazer gincanas e competições.

Era a hora de trocar a família da rua pela família de sangue. No final quem pegou o ladrão foram nossos vizinhos e o maldito do homem tinha uma arma de brinquedo. andar a cavalo. Eu lembro que essa semana em especial foi espetacular. O que o ladrão não sabia era que a casa possuía uma entrada pela lateral que não era usada. Você pode imaginar o quanto era assustador. a gente passava de casa em casa arrecadando doces e depois íamos brincar de pique esconde. Eu esqueci completamente do mundo lá fora e aproveitei cada instante naquele lugar. A tardezinha todos se caracterizavam de monstros horríveis. Rever os primos e tios. Cavalguei pelos pastos a tardizinha com meu avô pra ver o por do sol de cima da colina. As casas eram todas enfeitadas a caráter e existia uma competição que elegia a casa mais assustadora. como em todos os outros anos. muitos policiais e gente. minha família viajava para a casa da minha avó em outra cidade. Fiz tudo que uma criança feliz poderia fazer. como acontece nos estados unidos. Tudo isso era muito bom até o dia em que tudo acabou. e todo mundo da rua ficou muito preocupado. . Foi uma confusão que só. Em julho de um ano qualquer. A nossa rua era a única que tinha o dia das bruxas. brinquei de bete e pique esconde por entre a plantação de jabuticabeiras. As meninas estudavam comigo na escola municipal duas quadras abaixo e a gente sempre ia juntas. banhar no rio. Todo mundo saiu bem depois do susto e o ladrão foi preso. A gente passava uma semana incomunicável ao ritmo da natureza na fazenda da vovó. já de noite você ir procurar pessoas fantasiadas de vampiros e múmia e personagens realmente horripilantes. A polícia foi chamada. Nós crianças éramos sempre os jurados. Fui pescar com meus tios. Quando as meninas contaram isso para os policiais armaram uma tática para retirar o casal lá de dentro.com sua esposa e ficaram reféns do homem. Sempre tinha alguém que gritava. Quando chegamos estava um movimento enorme em frente a casa. Era um ritual continuo que a gente nunca deixou de fazer. e gente chorando. Dormi embaixo da mangueira que tinha no quintal.

eu pedi a minha mãe que a gente ficasse mais uma dia. Eu vi o homem incrédulo descer do carro e correr em direção ao local onde ontem estava a sua casa. Da minha casa sobrou apenas uma viga no lugar. Minha mãe soltou um grito de pavor. Desesperado ele começou a cavar com as próprias mãos e a gritar incessantemente o nome de sua esposa. Nós paramos no posto de sempre para almoçar e pegar um cochilo. A tragédia havia acabado de acontecer. Depois de muita insistência minha de dos meus avós.No dia de voltar. Só que todo mundo que eu conhecia morava naquele lugar que eu não reconhecia mais. mas era a única com uma inclinação de 50°. para os bombeiros e pra todo mundo que eu conhecia que pudesse ajudar. De repente alguém bateu muito forte no carro que eu estava. E já de tardezinha quando estávamos chegando em casa uma chuvinha fininha começou a cair inofensiva no cansaço da viajem. Minha rua era pequena. Minha mãe me mandou ficar dentro do carro e ligar para a polícia. Quando olhei pra traz percebi que o moço que trabalhava na barragem estava voltando pra casa e se deparou com tamanha destruição. Nós almoçamos a galinha caipira da vovó e no domingo bem cedinho pegamos o caminho de casa. Durante a viajem meu pai colocou aqueles modões que ele adorava escutar enquanto estava dirigindo. Era horrível ver todas as casas retorcidas e embaixo de escombros. Quando eu olhei pela janela tive a visão mais horrível que uma criança de doze anos poderia ter. O lugar onde ficava a minha rua agora era uma rastro de lama e entulho. empurrando meu carro pra frente com toda a força. No susto eu bati coma cabeça no painel e fiz um corte na testa. . eles resolveram ficar mais um dia. Ficávamos em cima do morro e nunca tivemos problemas com alagamentos. não tinha ninguém ali pra ajudar. Ouvi meu pai se desesperar e sair do carro correndo atrás de algum sobrevivente. Eu estava dormindo no banco e acordei no susto. já que ela só iria trabalhar na segunda e ainda era sexta. De repente meu pai deu uma freada brusca.

Se matou. Todos os outros morrem dentro de suas casas junto de sua família. Tenho saudades daquele tempo e ainda me pergunto por que esse tipo de tragédia acontece com pessoas boas que fazem o bem para o mundo. eu mesma não conheço muita gente que mora ali. choro. Uma semana depois de tudo isso o homem que trabalhava na barragem pulou do ancoradouro. A gente se mudou mais pro centro da cidade. Eu e minha família agradecemos a Deus por ter nos salvado daquela tragédia. Durante as buscas algumas outras pessoas se machucaram. mas não somos como uma família. dessa vez pra tirar dali os sonhos e esperanças das pessoas que morreram soterradas. O que acontece foi que a chuva do sábado foi tão intensa que continuou no domingo. A mulher foi encontrada abraçada aos filhos e todos os outros foram encontrados juntos das pessoas que amavam. Se tivéssemos voltado no sábado como previsto inicialmente estaríamos entre as vitimas do deslizamento.Alguns minutos depois chegou a policia e os bombeiros. Essa rua que eu moro agora é muito maior que a outra. Hoje aquele lugar é um mundo de lembranças e tristezas pra mim. meu pai. De vez em quando ainda voltamos ao local para rezar pelas pessoas que morrerão ali. Mais que depressa um deles me fez um curativo e eu lhe disse que meus pais estavam ali tentando achar alguém vivo. São todos muito ocupados. A senhora que morava na ultima casa da esquerda foi primeiro corpo que foi encontrado. A terra não agüentou a minha rua e a engoliu. não se vê gente na porta das casas à tardezinha. estava com a foto do marido nas mãos. Será que Deus reclama a presença dessas . Não agüentou perder a mulher e os filhos. Tudo o que tinha ali deslizou para baixou se sobrepondo um em cima do outro e criando uma avalanche de lama mortal. a depressão foi tanta que ele tirou a própria vida para acabar com a dor. apenas quatros sobreviveram. Toda vez que vou lá. Eu. minha mãe e o homem que trabalhava na barragem. A defesa civil interditou aquela área toda e até hoje ninguém mais mora lá. A chuva não parou até a segunda feira de manha e o risco de novos deslizamentos interrompida as buscas varias vezes. Uma confusão de gente invadiu a rua. De todas as dez ou onze famílias que moravam ali.

.pessoas antes da hora para que elas façam o bem no céu também? Acho que essa pergunta é algo que eu só vou conseguir responder quando morrer.

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