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Dificuldades no processo de aquisição do espanhol como segunda língua em alunos do 1º ano do ensino médio

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Ms. Adriana Bonumá ** Mercedes Parcero*** Luciana Gómez****

Resumo:

As dificuldades de aquisição do espanhol como segunda língua em alunos do 1º ano do Ensino Médio possibilita um estudo aprofundado dos problemas de pronúncia mais freqüentes e graves na Língua Espanhola. A vibrante foi escolhida para ser pesquisada por ser de difícil pronunciação. A partir de um estudo bibliográfico e de campo, foram comparadas transcrições fonéticas do espanhol e do português para reconhecer as causas e, posteriormente, encaminhar a possíveis soluções. Dessa forma, os alunos do Ensino Médio não serão os únicos beneficiados, pois isso servirá para a formação dos acadêmicos desta universidade que estão se graduando, resultando num trabalho que traz sua contribuição em âmbito social.

INTRODUÇÃO
A pesquisa intitulada Dificuldades no processo de aquisição do espanhol como segunda língua em alunos do 1º ano do ensino médio tem por objetivo reconhecer as causas que levam estudantes brasileiros a terem dificuldades de pronunciar a vibrante. Ao produzir de forma errada o som da vibrante, o aluno está não só dificultando sua comunicação com alguém como também dizendo uma nova palavra, pois o som da nossa vibrante, que é pronunciada no lugar da vibrante espanhola, corresponde ao som do “jota” espanhol, por isso a importância desse estudo. Para que se alcance o objetivo principal dessa pesquisa, faz-se necessário estudar a Teoria Fonética e Fonológica, pois somente conhecendo o funcionamento dos órgãos responsáveis pela fala, o processo pelo qual se reproduzem os sons, podem-se identificar as causas de determinadas limitações cujos estudantes apresentam. Além de conhecer os fundamentos das teorias já citadas, a Aquisição da Linguagem tem papel fundamental para entender de que maneira o falante assimila um novo idioma. Para chegar ao
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ponto mais específico desta pesquisa, a dificuldade da pronúncia da vibrante, um estudo minucioso é feito sobre a vibrante brasileira e a espanhola. Logo após esse estudo bibliográfico, resta coletar material que comprove a dificuldade da pronúncia da vibrante. É a partir de aulas expositivas que o material será conseguido e, conseqüentemente transcrito em português, em espanhol e da maneira que o aluno pronuncia. Dessa forma, será possível fazer uma análise diante dos dados até então conseguidos e apontar todas as causas que levam o aluno brasileiro a errar a pronúncia da vibrante espanhola. O artigo será organizado em quatro partes fundamentais, que são: a revisão bibliográfica, com o estudo das teorias, da aquisição da linguagem e da vibrante brasileira e da espanhola; a análise das transcrições das palavras coletadas a partir do gravador; a conclusão, onde se encontrarão as causas da dificuldade apontada nesta pesquisa; a bibliografia, em que estará a referência de todo o material consultado.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA TEORIA FONÉTICA
A Fonética é a ciência que estuda a produção da fala, os sons como entidades físicoarticulatórias isoladas. Analisa e descreve as particularidades articulatórias, acústicas e perceptivas dos sons da linguagem. Sua unidade é o som da fala ou o fone. Ela nos oferece os recursos para fazer descrições, classificações e principalmente transcrições dos sons da fala humana. Para que o som da fala se concretize, alguns órgãos têm de agir sobre a corrente de ar vinda dos pulmões. As condições necessárias para a fala em si são de responsabilidade dos órgãos da fala, o

Pesquisa de Iniciação Científica Professora da disciplina de Língua Portuguesa do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Professora da disciplina de Língua Espanhola do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Aluna do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da PUCRS – Câmpus Uruguaiana.

Hífen, Uruguaiana, v. 28, n. 53, p. *-**, jan./jun., 2004.

que oferece a corrente de ar e uma caixa de ressonância. O fluxo de ar pode encontrá-la fachada ou aberta. o véu palatino cola-se à parede posterior da faringe. onde adquire a ressonância característica das articulações. e as cavidades supralaríngeas. a corrente expiratória entra na cavidade faríngea. Primeiramente. uma figura do aparelho fonador e de todos os seus componentes que permitem a reprodução da fala. Suspenso no entrecruzar desses dois canais fica o véu palatino. em virtude de estarem aproximados ou afastados os bordos das cordas vocais. Quando abaixado. a laringe. Quando levantado. de determinar a natureza oral ou nasal de um som. As articulações produzidas denominamse. conhecidas pelo nome de cordas vocais. por esse motivo. sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume. onde se localizam as cordas vocais. que são a faringe. A glote. e. pois todos são fundamentais para que haja a continuidade da ação da fala. que funcionam como caixas de ressonância. Ao sair da laringe. conseqüentemente. ao atravessar a glote.aparelho fonador. penetra na traquéia e chega à laringe. divide-se. matéria-prima da fonação. o ar força a passagem através das cordas vocais retesadas. e a corrente de ar escoa pelas fossas nasais. que fica na altura do chamado pomo-de-adão ou gogó. surdas. uma encruzilhada. por via dos brônquios. onde. o ar se escapa sem vibrações laríngeas. A seguir. é a abertura entre duas pregas musculares das paredes superiores da laringe. chamadas nasais. O aparelho fonador é constituído de pulmões. a boca e fossas nasais. o ar expelido dos pulmões. No segundo caso. então. . fazendo-as vibrar e produzir o som musical característico das articulações sonoras. costuma encontrar o primeiro obstáculo à sua passagem. deixando livre apenas o conduto bucal. órgão dotado de mobilidade capaz de obstruir ou não o ingresso do ar na cavidade nasal. O funcionamento desses órgãos se dá de maneira contínua e recíproca. brônquios e traquéia. relaxadas as cordas vocais. As articulações assim obtidas denominam-se orais. sobretudo da língua. graças aos movimentos dos órgãos ativos. que são os órgãos que fornecem a corrente de ar. que lhe oferece duas vias de acesso ao exterior: o canal bucal e o nasal. No primeiro caso. que produz a energia sonora utilizada na fala.

o estudo das impressões acústicas e de suas interpretações no processo de decodificação. a Tabela Fonética Internacional. isto é. serão encontrados termos que se equivalem. No que segue. .Cabe à Fonética descrever os sons da linguagem e analisar suas particularidades articulatórias. ou examinando-se a percepção da onda sonora pelo ouvinte. na transcrição fonética. focalizando-se os efeitos acústicos da onda sonora produzida pela corrente de ar em sua passagem pelo aparelho fonador. mas que. A produção dos sons é assim estudada de dois ângulos diversos: partindo do falante. A Fonética considera os sons independentemente de suas oposições paradigmáticas. pois trabalharemos com dois idiomas que têm sons diferentes. o alfabeto fonético internacional será muito importante. Para registrar as análises fonéticas. faremos uso de uma transcrição convencional que nos permite sintetizar diferentes pronúncias. acústicas e perceptivas.

Podemos denominar esse fenômeno como neutralização. Como. que é o processo pelo qual a vogal final tem seu valor neutro em relação a outro. Então. a fim de reconhecer traços distintivos. enfim. por exemplo. leis gerais que norteiam a fonologia. estaremos automaticamente excluindo outro. A combinação de consoantes e vogais resultará na construção das sílabas. teremos condições de identificar a sua estrutura fonética. A Fonologia tem como fonte de estudo o fonema.TEORIA FONOLÓGICA Já que a Fonética se preocupa com a produção dos sons da fala. mas não altera em nada o sentido de determinada palavra. E é a partir delas que se podem classificar os diferentes grupos de fonemas. Podemos exemplificar essa premissa a partir do emprego de fonemas vozeados ou não. pode-se analisar combinações sintagmáticas. temos duas palavras foneticamente semelhantes. sem modificar seu significado. que seriam os fonemas. por ela estar ao lado de uma consoante nasal. para que possam apresentar diferenças. A partir do fonema. no caso da palavra “pasta”. nota-se que um fonema terá determinada pronúncia dependendo do contexto onde ele está. PREMISSA 2 . junto de outras sílabas. devem ser simétricos. Exemplo: PREMISSA 4 [ ‘ torto ] [‘ tortu ] Seqüências características de sons exercem pressão estrutural na interpretação fonêmica de segmentos suspeitos ou seqüenciais de segmentos superiores Ao analisar uma determinada língua. o vozeamento. Esses traços possibilitam ao falante construir inúmeras palavras e ao ouvinte reconhecer a palavra que está sendo dita. o próximo fonema a ser aplicado deve acompanhar o desvozeamento do anterior. ou seja. sendo que a primeira tem um fonema desvozeado e a outra um fonema vozeado. ao utilizar um recurso. que. social e cultural do falante. [ ‘pala ] PREMISSA 3 Os sons tendem a flutuar [‘ bala ] Dependendo da posição de um fonema. formará palavras. apontando as similaridades. Quanto aos fonemas que o precedem ou sucedem. há quatro premissas na fonologia. de acordo com o fonema anterior ou posterior. existe um par simétrico. conseqüentemente. por exemplo. Os fonemas se organizam dentro da cadeia da fala como consoantes e vogais. Outro fator decisivo na modificação de um som é a nasalização de uma vogal. que se distingue apenas por uma peculiaridade ou classificação fonológica. Podemos entender por premissa um postulado. utilizando os paradigmas. PREMISSA 1 Os sons tendem a ser modificados pelo ambiente em que se encontram Partindo de uma estrutura sintagmática. Pasta dd Rasga vv [ ‘ pasta] [ ‘ Xazga] Por [ s ] ser um fonema desvozeado. Segundo Pike (apud CRISTÓFARO. é imprescindível o domínio e a utilização da teoria fonética e fonológica para esta pesquisa. 1999). a ordem em que os fonemas estão dispostos nas palavras. Por isso. aspectos que denotem uma diferença entre esses dois fonemas para que não sejam confundidos. Isso nos mostra que essas duas palavras não têm o mesmo significado. com seus casos e peculiaridades. Os sistemas sonoros tendem a ser foneticamente simétricos Os paradigmas são diferentes recursos que nos possibilitam formar novas palavras. Já na palavra “rasga” ocorre o fenômeno ao contrário. sendo que. existem diferentes combinações e isso acarretará na maneira com que será articulado determinado fonema. Após essa análise. utilizando o corpo fonético e aplicando-o nos estudos da fonologia. poderão obter-se informações suficientes para reconhecer a estrutura dessa língua. como. Podemos perceber isso em diferentes situações. além da posição onde se encontra o fonema dentro da sílaba e da palavra. Como podemos perceber no exemplo abaixo. ele pode sofrer alteração na sua pronúncia. Esse fenômeno depende da posição geográfica. em que cada componente fonológico é pronunciado por vez. poderá se reconhecer quais são as divergências entre a vibrante portuguesa e espanhola. Os fonemas. a Fonologia estudará esses sons em diferentes contextos. a articulação. para cada fonema.

as aulas de linguagem devem ser voltadas para a liberação e crescimento dessa capacidade inata. Uma evolução dada a partir de uma base. O desenvolvimento da linguagem acontece naturalmente. internalizou as regras com apoio na gramática universal. O cérebro também perde material neural nessa fase. Basta sermos humanos para ter a propensão para a linguagem. É a gramática universal inata que permite à criança o aprendizado da língua. chegando ao estágio de uma estrutura sintática binária. aprende de forma seletiva. nasceriam falando. a capacidade lingüística da criança desenvolve-se sem qualquer produção lingüística identificável. Se os seres humanos permanecessem na barriga da mãe por um período proporcional àquele de outros primatas. Para que essa se desenvolva e cresça.AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Nascemos programados geneticamente com uma estrutura interna lingüística. A criança. sobre as quais nunca ouviu. pois o homem é um ser lingüístico. mas esse aprendizado sob forma de crescimento lingüístico. em meio a todos os lapsos que a fala possui. é necessário que o homem nasça normal e viva num ambiente falante. uma estrutura lingüística genérica. sem levar em conta as mudanças biológicas que facilitam o desenvolvimento lingüístico e ocorrem nos primeiros meses de vida da criança. escolhendo por etapas as diferentes palavras. criar e produzir novas e diferentes frases. exatamente a idade na qual os bebês começam a falar. manejando regras que sabe. Temos um impulso inato para a comunicação e. aprender a língua se torna algo automático e até inevitável. onde se localizam as sinapses. O estágio dos balbucios é marcado por . uma estrutura gramatical genérica que permite o desenvolvimento de qualquer língua (esquema lingüístico específico). As sinapses também diminuem a partir dos dois anos até a adolescência. c) estado final estacionário: é a etapa em que se encontra a criança entre cinco e seis anos. Completou a internalização das regras gramaticais. quando a atividade metabólica se equilibra com a do adulto. uma estrutura inata que é ativada pelo meio social. 2002). a criança é gramaticalmente adulta. o peso do cérebro e a espessura do córtex cerebral. particularmente nas regiões responsáveis pela linguagem (PINKER. A gramática universal é que permite essa evolução natural. pois internalizou a gramática da língua. os bebês humanos nascem antes de seus cérebros estarem completamente formados. com uma base lingüística genérica (linguagem). nasceriam aos dezoito meses. pela aquisição das palavras de conteúdo. condições. mas o tamanho da cabeça. a maneja com desenvoltura. ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Por que os bebês não nascem falando? Segundo Pinker (2002). primeiras palavras e aquisição de gramática exijam níveis mínimos de tamanho cerebral. É a estrutura inata que os humanos possuem que permite à criança falar. pode ser que a aquisição da linguagem dependa de uma certa maturação cerebral e que as fases de balbucio. Distinguem-se três etapas desse crescimento: a) estado mental inicial: como se encontra o cérebro da criança ao nascer. mesmo porque seria impossível aprender qualquer língua através de teorias e regras explicitadas. No estágio pré-lingüístico. Entre cinco e seis anos. acompanhando o amadurecimento gradual da criança. sabe a língua. dessa maneira. A aquisição da linguagem verbal se dá gradualmente. base para todas as gramáticas particulares. Sabe intuitivamente. geneticamente herdada. A criança se manifesta como um eco seletivo.Todo o indivíduo possui uma base lingüística sobre a qual a língua se desenvolve. e isto se dá devido à estrutura interna inata lingüística que possuímos. E como isso é possível? A gramática universal é que nos permite. não adquire tudo o que ouve ao seu redor. de conexões a longa distância e de sinapses. É um conjunto de propriedades. possuímos uma gramática universal. Nesse momento. identificar o que é regular e extrair as regras geradoras. portanto. os neurônios já estão formados e já migraram para as suas posições no cérebro. É o balbuciar dos bebês de aproximadamente seis meses que sinaliza o começo da aquisição da linguagem. caracteriza-se pelo estágio da “fala telegráfica”. b) estado mental intermediário: a criança começa a crescer lingüisticamente. regras e princípios universais. É um adulto lingüístico. BALBUCIANDO É comum dividir o estágio inicial da aquisição de linguagem em duas fases: prélingüística e lingüística. Dessa forma. acompanhando o crescimento biológico e psíquico global. consegue extrair as regras exatas para formular as suas próprias frases. continuam a aumentar no primeiro ano de vida. Internaliza gradualmente o sistema gramatical. Uma criança normal pode aprender qualquer língua. quando criança. atingiu a maturidade lingüística. O cérebro do bebê muda consideravelmente depois do nascimento.

sons fáceis podem se tornar difíceis na presença de outros sons. que coletivamente constituem o conceito expresso pelo termo. Acessando essa e outras propriedades do sistema semântico da criança. Apesar dos detalhes da explicação serem controversos. O SURGIMENTO DA SINTAXE A partir do estágio de duas palavras. autores como Allport (1924 in STILLINGS. 1987) ressalta que a ordem que os sons aparecem durante o período de balbucio é. que são pronunciadas de maneira um pouco diferente da dos adultos. mas tarde no seu desenvolvimento fonológico. posteriormente. Por exemplo. Por outro lado. Em alguns casos. é possível examinar o desenvolvimento sintático. também querem dizer coisas diferentes com elas. Muitos pesquisadores perceberam que as crianças parecem expressar significados complexos com suas expressões curtas. nós temos que considerar a questão da natureza do significado. McNeil (1970 in STILINGS. as suas falas se limitam a uma palavra. geralmente. a superextensão e subextensão. nesse estágio. afirmam que os balbucios sinalizam o começo da habilidade de comunicação lingüística da criança. a hipótese de que as crianças aprendem o significado de uma palavra através da união de várias características semânticas. 1987) para a aquisição semântica envolve. mesmo que a primeira hipótese sobre aquisição de linguagem seja de que a criança simplesmente adquire sons e significados. a fala da criança seria composta de duas palavras da classe aberta ou uma palavra da classe aberta e uma da classe pivô. Uma hipótese popular sobre os padrões das expressões de duas palavras (BRAINE. através das experiências das crianças na comunidade lingüística. Como no caso da aquisição fonológica. mesmo nos primeiros estágios de aquisição. Essa subdivisão dependerá da fala de cada criança. as crianças produzem suas primeiras palavras. 1987) mostraram que as primeiras referências das crianças partem sistematicamente em duas direções particularmente opostas àquelas da comunidade falante dos adultos. a investigação das primeiras palavras da criança indica que o conhecimento adquirido por aquelas de um ano de idade toma a forma de um sistema rico de regras e representações. desse modo toda palavra usada sozinha pertencerá a classe aberta. Muitos fatores contribuem para essa pronúncia não usual: alguns sons parecem estar fora da escala auditiva das crianças. Alguns. Se uma criança. [g] e [i]. consoantes posteriores e vogais anteriores. PRIMEIRAS PALAVRAS Segundo Stillings (1987). aparecem cedo nos balbucios das crianças. Como esses sistemas abstratos foram deduzidos. Por exemplo. as crianças usam as palavras para referenciar inapropriadamente um vasto número de objetos. respectivamente. mas decrescem quando seu léxico se torna similar ao dos adultos. é comum ver crianças que possuem desenvolvimento lingüístico adiantado mas que não conseguem pronunciar o [r]. Esse uso da linguagem indica que o desenvolvimento conceitual da criança tende a ultrapassar seu desenvolvimento lingüístico nos primeiros estágios da aquisição. como [k]. o conceito resultante estará excessivamente generalizado ou excessivamente restrito. as crianças usam as palavras de uma maneira extremamente restrita. embora muitas vezes não sejam a língua que a criança irá. existem evidências de que as crianças adquirem uma representação abstrata durante o aprendizado da sua língua. mesmo que seja de maneira rudimentar. os sons oferecem o repertório no qual a criança irá identificar os fonemas da sua língua. Em outros casos. Por exemplo. muitas vezes. que aparece há poucos meses delas completarem um ano. . Algumas vezes. Clark (1973 in SYILLINGS. são usados em alguma das línguas do mundo. crucialmente. falar. Crianças nessa fase. já que no estágio de uma palavra elas utilizam palavras da classe aberta. 1987) e Anglin (1977 in STILLINGS. as diferenças entre a gramática da criança e a do adulto são compreensíveis. A explicação de Clark (1973 in STILLINGS. associa muitas ou poucas características a um termo. Durante esse estágio. principalmente. Por exemplo. Nesse estágio. 1987). Dessa forma. erradamente. criando um drástico limite para um conjunto de referenciais permitidos. 1987) diz que as crianças organizam seu vocabulário em duas classes lexicais chamadas de pivô e aberta. Sons que são difíceis para a criança detectar tornam-se difíceis para elas aprenderem. por dependerem da maturação de alguns nervos. Superextensão e subextensão são bem freqüentes nos primeiros diálogos das crianças. contrária àquela que eles aparecem nas primeiras palavras da criança. 1963 in STILLINGS. Em particular. Nesse estágio. Assim. é importante esclarecer que tipo de conhecimento a criança deve dominar durante o processo de aquisição de linguagem.uma variedade de sons que. a idéia de que as crianças constroem conceitos através de algum tipo de conceitual primitivo é mais aceitável. o primeiro estágio verdadeiramente lingüístico da criança parece ser o estágio de uma palavra. crianças no estágio de uma palavra freqüentemente omitem o som das consoantes finais. além de pronunciar as palavras de maneira diferente. uma criança usa a palavra cachorro para designar apenas o cachorro da família.

omitindo pequenas palavras como determinantes e preposições. assim como a decrepitude da idade é o preço pelo vigor da juventude" (PINKER. a complexidade da gramática que gerencia essas palavras torna-se mais complexa. 1987). sugerindo que a gramática da criança seria mais bem descrita através das funções das palavras. continua sendo deficiente em relação à dos adultos (crianças de dois e três anos). falaríamos em agente e ação. O discurso das crianças dessa idade é descrito como discurso telegráfico. Essa relação semântica (algumas vezes chamada de relação temática) aparentemente começa no estágio de duas palavras. 1987) é que a primeira gramática das crianças está baseada na suposição de que toda relação sintática está correlacionada com uma relação temática. Até os deficientes auditivos têm mais facilidade de aprender a língua de sinais antes da fase adulta. toda seqüência nome-verbo seria interpretada como agente-ação e similarmente para outras seqüências sintáticas. A partir desse ponto. mesmo que demorem mais a aprender estruturas mais complexas. é o som que os alunos produzem no lugar da vibrante múltiple espanhola. encontradas na floresta ou em lares de pais psicóticos. Após o estágio de duas palavras. após aprender a regra de formação. Em vez de sintagma nominal e verbal. elas simplesmente imitam a formação do verbo. que já viviam há pelo menos dez anos nos Estados Unidos. com o passar do tempo. No caso de crianças selvagens. A VIBRANTE DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL A vibrante no Brasil possui muitas variedades. que são características de determinadas regiões do país e que dependem da posição em que se encontram na palavra. no entanto. por exemplo. são raros os casos de pessoas que chegam à puberdade sem tê-la adquirido. A psicóloga Elissa Newport e seus colegas testaram estudantes e professores da Universidade de Illinois. Outra sugestão dada por Berwick e Weinberg (1983 in STILLINGS. diferentes engenhocas podem ser produzidas na oficina. Alguns pesquisadores. no entanto. e. existem problemas com as estruturas que não seguem uma regra geral. mais tarde. no início. elas também possuem uma gramática diferente da dele. quanto mais velho. Porém. mas como regra. alcançando a convenção adulta de maneira bem rápida (entre os seis e sete anos). tais como o declínio da atividade metabólica e do número de neurônios durante o início da vida escolar e a estagnação no nível mais baixo do número de sinapses e da atividade metabólica por volta da puberdade. Obviamente produzem sentenças mais breves. Uma explicação plausível seriam as alterações maturativas que ocorrem no cérebro. acabam aprendendo a forma certa. mesmo que seja através da memorização. elas podem aprender a se comunicar de forma clara ou não. Pense na metamorfose e nas mudanças maturacionais não como exceção. isso não será mais possível. Além das diferenças de pronúncia e significado. A inépcia lingüística de turistas e estudantes talvez seja o preço a pagar pela genialidade lingüística que demonstramos quando bebês.) presentes na língua. 2002. dependendo da idade em que foram encontradas. elas simplesmente a aplicam para todos os verbos. pior era a assimilação da nova língua. como Bloom (1970 in STILLINGS. Uma explicação para essa regressão é que. sobretudo sua fonologia. geralmente. não sendo apenas imitações das do adulto. p. propuseram que a relação temática é a primeira relação estrutural importante que a criança usa para construir expressões com mais de uma palavra. ALÉM DO PALAVRAS ESTÁGIO DE DUAS Embora os estágios de uma e duas palavras não tenham um início e um final determinados. no entanto. À medida que o MLU (média de palavras por expressão) aumenta. aprendem as regras de construção (negativa. Além disso. aperfeiçoando sua pronúncia. PRÓXIMAS FASES DE DESENVOLVIMENTO .O ponto é que justaposição de palavras não implica relação semântica entre elas. como a voz passiva. A qualquer hora. o que gera o inevitável sotaque. O sistema lingüístico da criança nessa fase também é diferente do adulto. 378). nascidos na Coréia e na China. A maioria dos adultos nunca chega a dominar uma língua estrangeira. generalizando a regra dos verbos regulares. A partir desse ponto. passiva etc. dependendo da necessidade do momento. existem características confiáveis para identificá-los. nos primeiros estágios de desenvolvimento. O PONTO CRÍTICO Todos nós sabemos que é muito mais fácil aprender uma segunda língua na infância. além da maioria delas serem sentenças inovadoras. as crianças expandem seu vocabulário. é comum as crianças dizerem eu trazi. 1987) e Bowerman (1973 in STILLINGS. aprendendo seu sistema fonológico e morfológico. Desse modo. Quanto à língua materna. A vibrante fricativa velar desvozeada é representada pelo símbolo [ X ] na fonética.

e por dois r. provavelmente inexistente no vocabulário dos hispanohablantes. PALAVRA RÁPIDO ROPERO RUPERTO JARRA AHORRAR CORRECTO HIERRO GORRA CARRO JARRÓN ANÁLISE Para que seja possível fazer uma análise e apontar as causas das dificuldades dos falantes brasileiros. estabelecer uma relação entre os dois idiomas. já mostrado na Revisão Bibliográfica. o estudante não pronuncia a vogal que vem logo após à vibrante de maneira aberta. Enrique. por isso comparamos as duas. No caso desta pesquisa. Isso explica a dificuldade dos alunos. para tanto as palavras estarão transcritas em português. Ela se encontra em início de palavras. que é a língua. percebe-se que elas são articuladas de formas diferentes. roca. Ortograficamente responde bem à grafia r quando se encontra em posição inicial de palavra. [ p é r o ]. etc. torreón. . [ ‘ õ X a ]. nesse caso ela se assemelha a vibrante fricativa alveolar brasileira. As transcrições utilizam o alfabeto fonético internacional. [ t o r é r o ]. Se produz como tal quando se encontra no princípio de palavra. o aluno está falando uma palavra nova. início de sílaba ou precedida das consoantes [ n. pois a partir delas se percebe a pronúncia errada dos alunos. faz-se necessária a transcrição fonética das palavras escolhidas para serem gravadas e estudadas. etc. Alguns idiomas utilizam símbolos diferentes para cada som. rico. então. que se caracteriza pela formação de duas ou mais oclusões do ápice da língua contra os alvéolos. [ r ó k a]. ou à grafia rr. Foneticamente é transcrita pelo símbolo [ r ]. [ ‘ X i k o ]. não percebendo que esse som já representa uma outra consoante espanhola. os alvéolos. torrero.O som dessa consoante se produz a partir da vibração do articulador ativo. no caso de carro. Precisa-se. Além de pronunciar errado. perro. torre. honra. início de sílabas e entre vogais. e do articulador passivo. [ e n r í k e ]. no caso de rato e aurora. TRANSCRIÇÕES PORTUGUÊS ESPANHOL [‘Xapido] [‘rapido] [‘Xope o] [‘ropε ro] [‘Xupe to] [‘rupε rto] [ ‘ x a r a] [‘∞ aXa] [ ao‘Xa ] [ao‘rar] [ k o ‘ X e k t o] [ko‘rε kto] [ i‘ eXo] [i‘ε ro] [‘goXa] [‘g] ra] [‘kaXo] [‘karo] [∞ a‘Xõ] [xa‘r] ] EQUIVOCADA [ ‘ x a p i d o] [‘xopero] [ ‘ x u p e r t o] [‘xaxa] [ao‘xar] [ k o ‘ x e k t o] [i‘exo] [‘goxa] [‘kaxo] [xa‘xo ] Pode-se perceber que no momento que o aluno pronuncia a vibrante espanhola como a vibrante brasileira ele está cometendo um erro muito sério. ou seja. ou em medial precedida de n ou l. A VIBRANTE DA LÍNGUA ESPANHOLA NA ARGENTINA E URUGUAI Existem dois tipos de vibrantes no espanhol. Exemplos: [ ‘ t o X e ]. o jota. Exemplos: [ t o r e ó n ]. como deve ser. No momento que se identifica a produção do som da vibrante brasileira e da espanhola. em espanhol e da maneira que os alunos pronunciam as palavras espanholas. isso será discutido após a transcrição das dez palavras que apresentam a vibrante. pois elas exercem as mesmas funções mas são produzidas de maneiras distintas. quando se localiza em posição medial na palavra. produzir o som da vibrante brasileira no lugar da vibrante múltiple. É representada na ortografia pelo r. a que nos interessa é a vibrante múltiple. que ao ter dificuldade de pronunciar a vibrante espanhola a substituem pela vibrante brasileira. l ]. pois é o som do jota espanhol.

Petrópolis: Vozes. Fonética e fonologia do português. Petrópolis: Vozes. início de palavra. Introdução a estudos fonológicos do português brasileiro. os símbolos fonéticos de ambas não têm plena correspondência. BENTES. 1979. 2002. Yonne. Esse fator dificulta a aquisição desse idioma pelos falantes brasileiros. Madrid: Gredos. Como podemos ver na palavra “hierro” da tabela. Castelar de. Isso torna o processo de aquisição da língua estrangeira lento. Elementos de fonética general. Thaís Cristófaro. Problemas de lingüística descritiva. Introdução à fonética. 1962. São Paulo: Cultrix. Abstract: REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SOSA. 1999. FERNÁNDEZ. PAIS. QUILIS. MUSSALIM. 1996. 1977. GAYA. mas isso só ocorre quando a vibrante é pronunciada corretamente. Anna Cristina. 1973. SILVA. CAMARA JR. Futuramente. 1977. Manual de lingüística. Samuel Gili. às vezes pode até ser impossível se este não tem um referencial em seu idioma. com os dados alcançados nesta pesquisa será possível ou não encontrar as soluções para essa limitação. 1990. CALOU. La entonación del español: su estructura fónica. ele terá sérias dificuldades para produzir um som que não lhe é conhecido. 1999. América. CONCLUSÃO Os estudos bibliográficos e de campo possibilitaram arrecadar material suficiente para encontrar algumas causas da dificuldade de pronúncia da vibrante múltiple em alunos do primeiro ano do Ensino Médio. Leda. 2001. pois mesmo estando nos mesmos . Fundamentos da lingüística contemporânea. LEITE. MALMBERG. A principal causa é não termos nenhum som semelhante à vibrante espanhola no nosso idioma que atue nas mesmas posições da vibrante múltiple. locais dentro da palavra as vibrantes são transcritas com símbolos diferentes. Bertil. LOPES. LUFT. como vimos na tabela de transcrições. em português a vogal “e” é fechada e em espanhol é aberta. São Paulo: Contexto. Leonor Scliar. ROSSETTI. A análise das transcrições das palavras da tabela possibilita reconhecer as causas da dificuldade encontrada pelos alunos brasileiros de produzir a vibrante múltiple. Novo manual do português. Joaquim Mattoso. Iniciação à fonética e à fonologia. que serão assinaladas a seguir. Porto Alegre: EDIPUCRS. Madrid: CSIC. sete anos. Introdução à lingüística. 1960. Dinah. CABRAL. por isso a produção de um som que não conhecemos se torna difícil e também porque o nosso aparelho fonador não está capacitado para produzi-lo. variabilidad/ dialectología. 1966. porque se pronunciarmos a vibrante brasileira não poderemos produzir a vogal aberta e é impossível pronunciar a vibrante múltiple e logo a vogal fechada. pois desde pequenos aprendemos a produzir os sons do nosso idioma e o nosso aparelho fonador se molda conforme os exercícios que faz para produzir a fala. Edward. Se esse aparelho já está acostumado a reproduzir determinados sons e o falante já é um adulto lingüístico. Celso Pedro. Para encontrar a causa dessa limitação. Madrid: Cátedra. A. Para compreender Saussure: fundamentos e visão crítica. Curso de fonética y fonología española. Porto Alegre: Globo. pela qual alunos brasileiros passam. Lisboa: Europa. não tem facilidade de adquirir uma segunda língua e sim uma língua estrangeira. Resta apenas unir todos os dados conseguidos até o momento e destacar as principais causas da dificuldade. a partir dos estudos prestados aqui se pôde perceber que alunos maiores de sete ou oito anos vão adquirir o espanhol como língua estrangeira e não como segunda língua.. Antonio. Rio de Janeiro: Zabar. fase onde a criança já é considerada um adulto lingüístico e. BISOL. Fernanda. São Paulo: Cortez.Isso significa que o aluno brasileiro não consegue produzir a vibrante múltiple e acaba prejudicando a clareza da pronúncia. Petrópolis: Vozes. Lisboa: Livros do Brasil. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. Levará muito tempo e certo trabalho para que o aluno consiga produzir esse som com naturalidade. Pode-se identificar que os alunos têm limitações quanto à pronúncia da vibrante múltiple. Joseph. a partir desse momento. Porto Alegre: Globo. Juan Manuel. Além de não existir um fonema compatível à vibrante múltiple na nossa língua. 1979. Cidmar Teodoro e outros. pois no ensino médio os estudantes já têm o seu aparelho modelado conforme os sons que adquiriu até os seus seis. A fonética. CARVALHO. É possível concluir que o título desta pesquisa está equivocado. como está no título da pesquisa. 1999. precisamos estudar essa consoante a partir da nossa língua. sílaba e intervocálica.

Curso de lingüística geral. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Leda. 2000. Porto Alegre: Sagra. TASCA. CUNHA. Maria. LUNKES. Luiz Carlos. POERSCH. PRETI. Alfabetização e lingüística. Fonologia e variação: recortes do português brasileiro. CAGLIARI.br/ginape/publicacoes/trabalhos/Ren atoMaterial/aquisicao. 1990.nce. Dino. SILVA.htm> . São Paulo: Contexto. 1962. Sociolingüística: os níveis de fala. São Paulo: Edusp. 1999. São Paulo: Cultrix. Marlice Teresinha. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. BISOL. São Paulo: Scipione. 2001. 2002. Porto Alegre: EDIPUCRS. Suportes lingüísticos para a alfabetização. Cláudia. Thaís Cristófaro. 1999. Celso. Santa Maria: CEUNIFRAN.ufrj. 2001. Nova Gramática do português contemporâneo. O espaço do doméstico: uma postura da educação que se abre para uma realidade pistêmica complexa. Brescancini. Jose M.SAUSSURE. Ferdinand. <www.