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Romantismo
O romantismo, mais do que uma revolução literária, marcou uma mudança na maneira de se olhar para os problemas da vida e do pensamento. Esse movimento, que repercutiu desde a segunda metade do século XVIII até a segunda metade do século XIX, é fruto de uma revolução histórico-cultural que abrangeu ³a filosofia, as artes, as ciências, as religiões, a moral, a política, os costumes, as relações sociais e familiares, etc.´ (Massaud Moisés, 2008, p. 169). Vejamos, resumidamente, quais foram essas transformações: ‡ Revolução Industrial; ‡ Burguesia em ascensão; ‡ Definem-se as classes: a nobreza, a grande e a pequena burguesia, o velho campesinato, o operariado crescente; ‡ Diminuição do poder das oligarquias reinantes em favor das monarquias constitucionais ou das repúblicas federativas; ‡ Aparecimento do Liberalismo em política, moral, arte, etc. ‡ A aristocracia de sangue aos poucos sede espaço na pirâmide social à burguesia, invertendo os papéis e estabelecendo uma nova escala de valores, marcada pela posse do dinheiro e não mais pelo famoso ³sangue azul´. ³Segundo a interpretação de Karl Mannheim, o Romantismo expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas: a nobreza, que já caiu, e a pequena burguesia que ainda não subiu: de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento´ (Bosi, 2006, p. 91). ‡ Domínio amplo das formas burguesas de viver e pensar; ‡ Profissionalização do escritor: ser escritor torna-se uma profissão remunerada (desaparecem os mecenas), e a relação com o público muda. O escritor produz, e o leitor paga para consumir. Temas literários: ‡ Revolta contra as regras, modelos e normas neoclássicas em defesa da total liberdade da arte. Os românticos propagam a ³impureza´ dos gêneros literários, misturando-os; ‡ Em lugar do equilíbrio clássico, preferem o caos; ‡ Substituição da visão macroscópica da arte, ou seja, do universalismo clássico, por uma visão microscópica, centrada no ³eu´. Daí o subjetivismo e individualismo que contamina a arte romântica. Nas palavras do crítico Massaud Moisés, ³à semelhança de Narciso, o romântico contempla a si próprio, como se estivesse permanentemente voltado para um espelho real ou imaginário, e faz-se espetáculo de si próprio´ (2008, p.169). Sendo assim, a realidade é captada pelo romântico por meio de seu prisma pessoal; ‡ Ao culto da Razão, os românticos opõem a emoção, as razões do coração, substituindo o racionalismo pelo sentimentalismo; ‡ A insatisfação com o mundo é uma das constantes dos artistas românticos. Idealizadores, não se adaptavam à realidade, rebelando-se contra ela, por meio de atitudes revolucionárias, ou buscando a fuga, num escapismo que se projetou de diversas formas: morbidez, desejo de morrer, vida boemia, culto da solidão, gosto pelo passado, lugares exóticos e longínquos; ‡ Imerso no seu caos interior, o romântico desenvolve os sentimentos de melancolia e tristeza. O tédio repetido conduzia-o à angústia e ao desespero: é o chamado ³mal do século´; ‡ Em seu escapismo, o romântico recorre, assim como os árcades, à Natureza. Porém, no Arcadismo, ela é apenas decorativa, enquanto que no Romantismo ela é expressiva, individualizada, personificada, atuando como reflexo do estado de espírito do ³eu´ do poeta, pois este a toma como confidente e consoladora de suas amarguras. Nos escritores românticos ³o universo fictício constitui prolongamento do seu

Alencar. 2006. espiritualismo. que precisa se redescobrir. Descontentes com seu próprio tempo. pureza. ³que assume dimensões titânicas (Shelley. costumes. restos de civilizações. a cor local. ‡ Na necessidade de se criar um passado heróico. Vigny)´ (Bosi. 128-129) afirma que ³O romance romântico brasileiro dirigia-se a um público mais restrito do que o atual: eram moços e moças provindas das classes altas e. de escritores de origem humilde. em 1838) em busca do nosso passado. Bosi (2006. Pedro II deu grande apoio às pesquisas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (criado nos fins da Regência. Término do Romantismo no Brasil: Seu fim. eram os profissionais liberais da corte ou dispersos pelas províncias: eram. Recife e Rio de Janeiro (Macedo. na antiga colônia. Poesia romântica: Romantismo ± Brasil Início do Romantismo no Brasil: A publicação de Suspiros Poéticos e Saudades. Os escritores valorizavam os temas nacionais. e filhos de comerciantes luso-brasileiros e de profissionais liberais (Pereira da Silva.. os românticos buscam no passado os valores. Pra esses leitores. Joaquim Norberto. ‡ Diferentemente do contexto europeu. Casimiro de Abreu. Fagundes Varela. uma trama rica de acidentes bastava para um bom romance. Pedro Luís). tendo como características dessa economia o latifúndio. ‡ Sobre o público a que se dirigiam os escritores do Romantismo. 95). é marcado pelas publicações de Memórias Póstumas de Brás Cubas. ‡ Os escritores românticos também são responsáveis por reinventar o heroi. o escravismo e a economia de exportação. e de O Mulato. portanto. de Machado de Assis.2 ego´ (Massaud Moisés. etc. por sua vez. Castro Alves. enfim. p. de uma história em comum que nos . 171). p. por ruínas. egresso do colonialismo. 92) ³O romance colonial de Alencar e a poesia indianista de Gonçalves Dias nascem da aspiração de fundar em um passado mítico a nobreza recente do país´. respectivamente. As exigências mais fortes desses leitores eram ³reencontrar a própria e convencional realidade e projetar-se como herói e heroína em peripécias com que não se depara a média dos mortais´. Sílvio Romero). ‡ Quem eram os românticos? Os intelectuais brasileiros do período romântico eram filhos de famílias abastadas do campo. foi considerada pela historiografia literária o marco inicial do Romantismo Brasileiro. que julgam perdidos para sempre na sociedade em que vivem. no romantismo. 0 identificasse enquanto povo de uma mesma Nação. fruto de uma necessidade de autoafirmação da pátria. povos estranhos. Segundo Alfredo Bosi (2006. em 1836. Álvares de Azevedo. ainda era uma jovem (acabava de conquistar sua independência) nação agrária. ‡ Com a emancipação política do Brasil passa a surgir. mítico e lendário. o passado histórico. 2008. a Natureza deformada pelas suas emoções. excepcionalmente. Wagner) sendo afinal reduzido a cantor da própria solidão (Foscolo. o sentimento nacionalista. p. Foram raros os casos. sendo. lugares exóticos. como Teixeira e Sousa e Manuel Antônio de Almeida. uma tradição que sustentasse o entusiasmo nacionalista descobriu-se o índio. obras que inauguraram o Realismo e o Naturalismo. Os nossos narradores iam aclimando à paisagem e ao meio nacional os esquemas de surpresa e de fim feliz dos modelos europeus. que iam receber formação jurídica (quase nunca médica) em São Paulo. por Gonçalves de Magalhães. medievalismo. Bernardo Guimarães. que substituiu nas literaturas americanas a figura do cavaleiro medieval da literatura europeia. Franklin Távora. o Brasil. ainda não havia se desenvolvido no Brasil o binômio urbano indústria/operário. lirismo. p. ‡ O gosto pelo passado. médias. um tipo de leitor à procura de entretenimento´. é também aspecto do escapismo romântico. Gonçalves Dias. Sendo assim. encontrando uma identidade própria. de Aluísio Azevedo.

Destacam-se: José de Alencar. gestos. etc. Casimiro de Abreu. ‡ 2. Joaquim Manuel de Macedo. volta ao passado histórico. Gonçalves de Magalhães fundou. previsíveis). morte.ª Geração (indianista ou nacionalista): Valorização da natureza e da figura do índio como heroi nacional. ultra-romantismo): Exagero na exposição dos sentimentos. roupas.3 ‡ 1. Principais escritores: Gonçalves Dias. egocentrismo. Bernardo Guimarães. sendo o responsável pela nossa primeira publicação romântica: Suspiros poéticos e saudades (1836). negativismo boêmio. Sales Torres e Pereira da Silva. ‡ Romance urbano: Fotografa com fidelidade os ambientes. linearidade das personagens (estereotipadas. Sousândrade. religiosidade. intenção moralizante). águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. pois ela se restringe apenas a reproduzir o clima da época. Ficção romântica Características gerais: maniqueísmo. cenas. seus hábitos.ª Geração Romântica (Principais Poetas) Gonçalves de Magalhães: Gonçalves de Magalhães é considerado o introdutor do romantismo no Brasil. Taunay.ª Geração (condoreira. social. comunhão entre a natureza e os sentimentos das personagens. revista brasiliense. Tobias Barreto. costumes e instituições. daí ser conhecida como geração hugoana. Volta-se para a caracterização exterior das personagens: atos. Magalhães provou sistematicamente os ideais do novo movimento e o repúdio aos modelos . Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social. Destacam-se: José de Alencar. O termo condoreirismo é consequência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. Guimarães. Em Paris. libertária): Geração que apresenta tendências do Realismo. Nesta revista. a fim de idealizá-lo. por introduzir uma literatura mais voltada para os problemas regionais. Seu livro e data de publicação foram escolhidos pela história da literatura como marco inicial do movimento romântico brasileiro. Destacam-se nessa vertente: José de Alencar. o Sertão de Minas e de Goiás. elevação de sentimentos e nobreza de caracteres (triunfo do bem. ‡ 3. Principal representante: José de Alencar. Contudo. juntamente com Porto Alegre. Principais escritores: Álvares de Azevedo. 1. detalhes de costumes e de cor local. Araújo Porto Alegre. os Pampas Gaúchos. Franklin Távora. Gonçalves de Magalhães. palavras. Bernardo ‡ Romance regionalista: Explora as paisagens e costumes de regiões do interior brasileiro. a Niterói. pessimismo. Manuel Antônio de Almeida. medievalismo. Representada por: Castro Alves.ª Geração (mal-do-século. o Pantanal Mato-Grossense. visava à construção de um heroi mítico nacional na figura do índio. essa volta ao passado não possui pretensões analíticas. Junqueira Freire. tais como o Nordeste. Fagundes Varela. tomado como símbolo e elemento formador da nacionalidade. complicação sentimental (final feliz retardado por situações adversas). sobretudo do Rio de Janeiro. ‡ Romance histórico: Volta-se para o passado histórico remoto. políticos e sociais. ou para o passado lendário. ‡ Romance indianista: Diretamente relacionado ao romance histórico. também em 1836. individualismo. costumes e tipos humanos extraídos da burguesia. diálogos. tédio.

nós te enviamos. *Esta publicação foi motivo de polêmica com José de Alencar. constante desde os árcades. e no futuro. poesias (1862) Cânticos fúnebres. p. e de esperanças em Deus. Maranhense e filho de português com cafusa (mestiça de negro e índio). espelho da consciência crítica do grupo compilador da Niterói. sobretudo o Modernismo. que trata de uma retomada com algumas ampliações de toda a nossa história cultural descrita por alguns escritores estrangeiros. Tal origem parece ter influenciado na construção de uma obra que buscou conquistar uma identidade estritamente brasileira. continuava escrevendo com influência da cartilha clássica. pois ainda que teorizasse como romântico. . ³o mito do bom selvagem. Gonçalves Dias foi quem consolidou de fato o movimento. servindo. Outros Uma das coisas vinculadas pela revista foi o ensaio redigido por Gonçalves de Magalhães ³Sobre a História da Literatura do Brasil´. após pesquisas na Amazônia. ensaios (1876) Comentários e pensamentos (1880) Gonçalves Dias: Teatro Antonio José ou O Poeta e a Inquisição (1838) Olgiato (1839) Poema épico Confederação dos Tamoios (1856). 2006. acabou por fazer-se verdade artística´ (História concisa da literatura brasileira.4 clássicos. Poesia Lírica: Suspiros Poéticos e Saudades (1836) Se Gonçalves de Magalhães foi o introdutor do Romantismo no Brasil. Magalhães foi apelidado como ³O Romântico Arrependido´. O prólogo de Suspiros Poéticos e Saudades é considerado o primeiro manifesto teórico do nosso Romantismo. Não é a toa que Gonçalves Dias é um dos maiores expoentes de nossa literatura indianista. cheio de amor pela Pátria. um Dicionário da Língua Tupi (1858). poesias (1864) A alma e o cérebro. Reparem no nacionalismo. segundo Alfredo Bosi. tratado filosófico (1858) Urânia. sobretudo o referente à mitologia pagã. inclusive. dubiedade não permitida pela estrutura épica. 105). É de Gon çalves Dias também a iniciativa de escrever. fundamentando as bases de uma poesia realmente brasileira.´ Porém. já que com ele. Gonçalves Dias dizia ser descendente das três raças que formaram a etnia brasileira. de modelo para os períodos posteriores. OBRA Os mistérios (1857) Fatos do Espírito Humano. que contestou a validade de uma forma já ultrapassada. de entusiasmo por tudo o que é grande. ideal pátrio e religiosidade expressa nas suas últimas palavras: ³Vai [livro]. bem como o paradoxo que a obra de Magalhães instaura ao defender tanto o índio com o catequizador.

sou forte. é uma das características mais marcantes de sua poesia. intercalando versos curtos e longos como se reproduzisse no ritmo o aumentar e diminuir da tempestade. A coma então luzente Se agita do arvoredo. É importante ressaltar. Reparem na força do ritmo nestes versos retirados do poema ³I-Juca Pirama´ (que significa ³aquele que vai morrer´). o poeta versou sobre vários outros temas.] A expressão do ritmo. Nas selvas cresci. e n¶amplidão do espaço . S¶esquiva Rutila. com versos breves e bem construídos. mas bela. pois nesta composição o poeta faz uso desde o verso dissílabo ao extenso alexandrino. poesia saudosista. que narra índio Tupi que é aprisionado timbiras. a história do pelos inimigos poema épico da litera tura sabiamente todos os metros poéticos existentes na língua portuguesa. produzindo poesia religiosa. De negro a tingir. Em A Tempestade temos um inigualável exemplo deste virtuosismo. do poeta maranhense: ³Meu canto de morte. E trêmulo E puro Se aviva. O céu. Sou filho do Norte. multiplicidade que comprova a riqueza temática de sua obra. Gonçalves difere-se potencialmente do grupo de Magalhães ao conferir à sua poesia ritmo e cadência ágeis. De luz.. Guerreiros. na qual está facilmente identificada a relação interdependente entre a forma e o conteúdo: Um raio Fulgura No espaço Esparso.. onde cresce. descendo Da tribo tupi. Que agora anda errante Por fado inconstante. em contraposição aos versos mais prosaicos e menos trabalhados de Magalhães. [. O poeta soube empregar Um som longínquo cavernoso e ouco Rouqueja. No ar s¶encapela Já pronta a rugir! Não solta a voz canora No bosque o vate alado. Meu canto de morte.´ ³I-Juca Pirama´. ouvi: Sou filho das selvas. Sou bravo.5 Além da poesia indianista. Sua simpatia pelo índio deriva. ao contrário de Alencar que concebia o colonizador com certa simpatia. poesia egótica e lirismo amoroso. além do fato de ter descendência indígena. Gonçalves Dias abominava-o. Guerreiros.. Que um canto d¶inspirado Tem sempre a cada aurora. selecionamos alguns trechos desta obra. Seduz! [. Oh! vede a procela Infrene. ouvi. da sua convivência com os indígenas durante parte de sua infância no Maranhão. que. E o vate um canto a medo Desfere lentamente. em Gonçalves Dias. nasci.] Um ponto aparece. Da tribo pujante. Guerreiros. ainda. Sentindo opresso o peito De tanta inspiração. Que o dia entristece. Abaixo. É mudo quanto habita Da terra n¶amplidão. No que se refere à sua literatura indianista.. é considerado o indianista mais perfeito brasileira. Guerreiros. vendo como símbolo do terror e da exploração indígena.

E a curva altiva Sublima ao céu. Entre as poesias de sua lírica amorosa destacamos ³Se se Morre de Amor´. Que alpestres cimos mais veloz percorre. Palpita. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade! . A poesia saudosista de Gonçalves Dias é marcada pela contemplação da natureza como manifestação divina e como confidente das angústias. E nas turvas ondas rolam Grossos troncos a boiar! O córrego. Na poesia lírico-amorosa o tema do amor é tratado de maneira pessimista e trágica. e dentro em pouco Do Norte ao Sul. qu¶inda há pouco No torrado leito ardia.] Cresce a chuva. saudades e solidão do poeta. sentimentalismo. Eis outro inda mais perto. E treme E cai. É já torrente bravia. Enquanto a noite pesa sobre os mares.] A folha Luzente Do orvalho Nitente A gota Retrai: Vacila. Eu morro sufocado em terra estrangeira.6 morre. atroa. os rios crescem. ² dum ponto a outro corre: Devorador incêndio alastra os ares.. que faz uma sátira da europeização da nossa terra e cultura: Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Mais grossa Hesita. [.] Nas águas pousa. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. tendo como motivo principal o ³amor não correspondido´. estoura. Inda outro arqueia. Exemplo clássico desta poesia é a famosa ³Canção do Exílio´.. [. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Troveja. O poeta teve seu pedido de casamento negado pelo pai de Ana Amélia por motivos de preconceito com relação à sua cor e à sua posição social. cubistas. entre elas está a de Murilo Mendes. Que da praia arreda o mar. Mais desbotado. inda mai s rouco. [. tais como pessimismo. individualismo. É neste segmento de sua poesia que encontramos alguns lugares-comuns do romantismo.. Tal visão é analisada por parte da crítica como decorrente de uma frustração amorosa pessoal do poeta. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista.. os sargentos do exército são monistas. Quase apagado.. Como embotado De tênue véu. Pobres regatos s¶empolam. ³O Vate´. insatisfação. os filósofos são polacos vendendo a prestações.. INTERTEXTUALIDADE: A ³Canção do Exílio´ foi tema de várias paráfrases. E a base viva De luz esquiva. ³Lira Quebrada´ e ³A Minha Musa´. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

. O primeiro se deve ao fato de essa geração do romantismo ter levado ao extremo (e. O poema acima. desejo de evasão.] Álvares de Azevedo foi o escritor mais bem dotado da segunda geração romântica. muitas vezes. modalidade tipicamente romântica. O segundo termo se deve ao fato de os poetas da segunda geração romântica adotarem um estilo de vida inspirado na vida e na obra do poeta inglês Lord Byron (a saber: vida boêmia. Entre as características de suas poesias estão o egocentrismo. erotismo difuso e obsessivo e negativismo boêmio. Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. [. tomando como principais eixos temáticos: amor e morte. Essa combinação de sentimentos foi denominada ³mal-do-século´ (mal du siècle).é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. a fantasias mórbidas e. entusiasmo e tédio. e escrevam nela: Foi poeta ..sonhou . à maneira dos cancioneiros medievais. pessimismo e angústia. levada. do fumo e do sexo). Lembranças de morrer Quando em meu peito rebentar-se a fibra. poesia erudita. Álvares de Azevedo (1831 ± 1852) . Como o desterro de minh'alma errante.7 Além dessas. o poento caminheiro . Sombras do vale.. Protegei o meu corpo abandonado.] Se uma lágrima as pálpebras me inunda. os poemas são escritos em português arcaico. Os poetas desse período conduziram ao extremo a concepção romântica de exacerbação da sentimentalidade. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Que o espírito enlaça à dor vivente. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto. satanismo. É pela virgem que sonhei.e amou na vida. desilusão adolescente. ainda.] Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida. melancolia. quase sempre. O crítico Alfredo Bosi (História consisa da literatura brasileira) fornece-nos um Segunda geração romântica ± Álvares de Azevedo Nos anos seguintes ao amadurecimento da tradição literária nacionalista. até ao ridículo) os ideais de subjetividade. O byronismo é caracterizado pelo narcisismo. o teatro do poeta maranhense rompe o padrão clássico.Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro. egocentrismo.. À sombra de uma cruz. Se um suspiro nos seios treme ainda. noites da montanha Que minha alma cantou e amava tanto. Por fim. A melancolia e a presença constante da morte são temas que percorrem toda sua poesia. produzindo não uma tragédia. por vezes. um dos mais conhecidos e citados. é um exemplo disso. Se viveu... tédio. pessimismo. foi por ti! e de esperança De na vida gozar dos teus amores. [.. à autocomiseração. E no silêncio derramai-lhe canto! [. Na obra ³Sextilhas de Frei Antão´. Outros termos utilizados para se referirem à segunda geração romântica é ³ultraromantismo´ e ³byronismo´. Gonçalves Dias produziu. mas um drama. voltada para o vício e os prazeres da bebida... dúvida e ironia.. a poesia brasileira começa. no que chamamos de segunda geração romântica. intimismo. individualismo e idealismo preconizados pelo Romantismo. a se enviesar por terrenos de extremo subjetivismo. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! Só tu à mocidade sonhadora Do pálido poeta destes flores. Onde o fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade .

coração!. Qu¶esperanças... Esse dado fica bastante evidente na principal obra do poeta: Lira dos Vinte anos. matéria impura.. pálidas crenças. que vemos desenvolver um verso mais solto. traços precursores do modernismo. A primeira e terceira parte dessa obra revelam um Álvares de Azevedo casto. negros devaneios.: O Poeta Morimbundo. só terá para ele solução na morte. Diante da frustração de não viver o amor profundamente desejado... com a qual se cessariam todas as suas angústias: ³A dor no peito emudecera ao menos/ Se eu morresse amanhã´ (Se eu morresse amanhã). fúnebre clarão. até mesmo. Mas algo bastante curioso e particularizante da obra de Álvares de Azevedo é que ela parece estar fundamentada em um projeto literário baseado na contradição. e minha vida Tu vias desmaiar. É Ela. Por tua causa desespero e morro. Eu morro! eu morro! Leviana sem dó. surpreendentemente. o ator Fernando Seixas declama um belo poema de Álvares de Azevedo intitulado Por que mentias?. Mas. São exemplos dessa vertente os contos macabros de A Noite na Taverna e alguns versos febris de O Conde Lopo e do Poema do Frade. Mas no meu peito Lábio de morte murmorou ± É tarde! Outra tendêcia temática do poeta é a que se refere a uma atmosfera de sonhos e evasão. a juventude configurase para o poeta como uma fase. à curta duração da vida do poeta contrapõe-se a intensidade de sua produção literária. sentimental. leito pavoroso. tomado de contradições e medos adolescentes. É na segunda parte da Lira. Para Bosi. Pousa a mão no meu peito. água impura.. longo pesadelo.8 apanhado léxico da obra do jovem Álvares que retrata esse estado depressivo da existência: ³pálpebra demente. em sua obra... com tendências mais liberais. irônicos.. Traços de satanismo também se encontram na vasta e diversificada obra desse tão jovem poeta (Álvares de Azevedo morreu de tuberculose aos 21 anos). e.. desespero pálido. face macilenta. contraditoriamente. ainda. Por fim. bem como para a maioria da crítica. É Ela. enganosas melodias. Relacionando-a à temática romântica do amor idealizado. astro nublado.. tábuas imundas. Se minha face pálida sentias Queimada pela febre?. revela-nos traços mais irreverentes. idealista. Tais características levou alguns críticos a considerar que Álvares de Azevedo já apresentava. sem cor. boca maldita. Namoro a cavalo). alguns dos mais belos versos de Ávares de Azevedo ³são versos para a morte´. uma espécie de auto-ironia. por que mentias? Sabe Deus se te amei! sabem as noites Essa dor que alentei. produção esta que nos legou alguns dos mais belos versos escritos em língua portuguesa. temos o contraste entre o sonhar o amor. É Ela. que tu nutrias! Sabe este pobre coração que treme Que a esperança perdeu porque mentias! Vê minha palidez: a febre lenta.. Vale ressaltar que o tema do amor e o retrato da amada são quase sempre tratados por Álvares de Azevedo com especial erotismo. meu Deus! E o mundo agora Se inunda em tanto sol no céu da tarde! Acorda. por conter versos de crítica jocosa ao amor romântico (ex.. Todo esse negativismo e pessimisto que assola a alma do poeta. tênebras impuras. tremendal sem fundo. por que mentias?1 . Por que mentias. O vídeo abaixo é de uma cena da novela transmitida em 2005 pela Rede Record ³Essas mulheres´. mais prosaico. que se desenvolve num paradoxo típico do amor idealizado: o medo de amar impede-o de amar. deserto lodaçal. sem viço. como estes do poema Virgem morta. noite lutulenta. a segunda parte. Nela. leviana e bela. a bela virgem (única esperança e motivo que o mantém vivo) e a não realização desse amor. Este fogo das pálpebras sombrias.. Leviana sem dó. anjo macilento´. por que mentias? Acordei da ilusão! a sós morrendo Sinto na mocidade as agonias.

o condoreirismo tão bem desenvolvido futuramente por Castro Alves. Legado acerbo da ventura extinta.Ah! no entanto. . já não vives! Correi. O porvir de teu pai! . Com o lirismo bucólico de sua fase mais madura. mas tem medo de amar. o que faz com que seus versos sejam de uma inocente ingenuidade e simplicidade.varou-te a flecha do destino! Astro. são exímio retrato dessa temática da saudade. que retrata a sua relação com a virgem desejada como um jogo de amor e medo.Crença. Eras o idílio de um amor sublime. No entanto. pelo espírito de exaltação nacionalista. o escravo´. Os versos que transcrevemos mais acima. Mas o melhor da produção literária de Fagundes Varela encontra-se nos versos voltados para a dicotomia cidade/campo.caíste!. o poeta também fixou o mito do paraíso americano da liberdade em ³Vozes da América´. O amor também não escapa à pena do poeta. Mas. terreno em que sua obra alcança a completude. tornando-o o poeta mais conhecido da segunda geração romântica. bem como pela ascessibilidade de sua linguagem. Varela também foi precoce em introduzir o tema do negro.engoliu-te o temporal do norte! Teto. . que sonhos. Morre aos 21 anos. em ³Mauro.. as poesias de Casimiro de Abreu agradavam mais aos leitores menos exigentes. inclusive o do índio. que flores. só aprofundado mesmo na futura geração romântica. tendo publicado um único livro de poesias: As Primaveras (1859). já precedia. oh! lágrimas saudosas. Pomba. mais do que seus contemporâneos. sendo marcada pelos impulsos emotivos de um jovem adolescente. a inspiração. Casimiro de Abreu caiu no gosto do público pelo seu verso fácil e cantante. Da mesma forma. da infância e da família. já deixado de lado pelos românticos de seu tempo. Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor. o que fez dele o poeta romântico mais popular de sua geração. Eras a estrela Que entre as névoas do inverno cintilava Apontando o caminho ao pegureiro. a pátria. há quem o admire justamente pela simplicidade de suas composições. sem grandes complexidades filosóficas ou psicológicas. Varela é autor de versos de inspiração patriótica (³O estandarte auriverde´). O poeta ama e até é amado. Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras. correi. Apesar disso ser alvo de fortes críticas ao poeta. O tema mais constante de sua poesia foi a saudade da pátria longínqua.9 Segunda geração romântica . o poeta descreve os costumes e os modismos da roça.outros poetas Casimiro de Abreu (1839 ± 1860) Meus oito anos ³Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida. . essa temática é desenvolvida sem muita profundidade.. Eras a glória. Fagundes Varela (1841 ± 1875) Cântico do calvário ³Eras na vida a pomba predileta Que sobre um mar de angústias conduzia O ramo da esperança. tuberculoso. Eras a messe de um dourado estio. Teve uma curta produção literária. . com os quais.]´ Poeta da segunda geração romântica de menor destaque. retirados de seu mais famoso poema. Debaixo dos laranjais! [. Pelo ritmo musical de seus versos. Dúbios archotes que a tremer clareiam A lousa fria de um sonhar que é morto!´ Fagundes Varela explorou todos os temas românticos.

Castro Alves) . ó morte. eu amo-te e não temo: Por isso. ² Dessa alma vã e desse corpo enfermo. vem. Deixai a terra ao Anteu. ³Mimosa´... para Alfedo Bosi (História concisa da literatura brasileira) significa no poeta ³a aversão radical a integrar-se no ritmo da vida em sociedade´. Tu és o nada. mas. fiando aquém da síntese conteúdo-forma´ (História concisa da literatura brasileira). em sua maioria.. na qual. Sua obra pode ser mais propriamente caracterizada como autobiográfica. ó morte. Ninguém vos rouba os castelos Tendes palácios tão belos. Poema que deve ser visto à parte é o ³Cântico do Calvário´ (transcrito parcialmente logo acima). Sua poesia. apenas três estrofes). fortemente centrada no ³eu´ não apresenta grandes qualidades formais. sem nenhuma vocação e com uma sexualidade latente e reprimida. Morte ³Pensamento gentil de paz eterna Amiga morte. pois quereis a praça? Desgraçada a populaça Só tem a rua de seu. Leva-me à região da paz horrenda. Amiga morte. ³A Flor de Maracujá´. É marcante em seus versos o conflito do poeta entre a vida religiosa e a revolta com tudo o que presenciou dentro dela.. Sua única obra de poesia. veja o poema ³Morte´. Varela se mostra original e particular.. retratam a angústia do indivíduo atado a uma falsa vocação. tem mais valor de testemunho sincero das experiências do autor do que valor propriamente estético. caindo. que muitas vezes o levaram a desejar a morte. leva-me contigo. Mas essa sua atração pelo campo é paradoxalmente alternada com uma intensa vida boêmia.´ Terceira geração romântica ³A praça! A praça é do povo Como o céu é do condor É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor! Senhor!..´ (³O porvo ao poder´. viveu atordoado pelo enclausuramento forçado. finalmente. do prazer que nos custa a dor passada. ³no genérico. o que. do qual retiramos. Tu és a ausência das moções da vida. eu quero-te comigo. como bem notou Alfredo Bosi. Junqueira Freire Junqueira Freire tornou-se monge por razões familiares. Leva-me ao nada. Tu és o termo De dous fantasmas que a existência formam. ³Inspirações do Claustro´. mais acima. no prosaico e no cerebrino. Pensamento gentil de paz eterna.] Por isso. consciência do pecado e sentimento de culpa. Seus versos.. vem. [. já que trata examente dos problemas do poeta com o sacerdócio.10 São exemplos de poemas sobre esse tema: ³Antonico e Corá´.. Trata-se de uma exímia elegia composta em versos brancos. Daí seu intenso pessimismo e tristeza. vista pelo poeta como alívio e paz eterna (como exemplo. Os desejos carnais ardentes do poeta aparecem em seus versos como sexualidade reprimida. escrito em memória do filho que falecera ainda recém-nascido.

ainda. poeta do romantismo. coletivo massificador) podem frequentar. o lugar público. Entre as principais características da poesia da última geração romântica. dirigindo-se para muitas pessoas. que as figuras utilizadas no percurso do poema leva-nos a lê-lo de forma exaltada. incitará também à mudança o pecurso de nossa literatura. a igualdade social e reformas que venham a tornar o mundo melhor. Grande é a influência. Fala dos homens e para os homens. assim como a águia. ainda. os poetas do período acreditavam ter eles também capacidade de enxergar mais longe e tomaram para si a missão de transmitir o que viam ao povo. como não podia de ser. Esses ideais. a rua). o eu-lírico não fala a favor de si mesmo. Mas antes de falarmos mais detalhadamente das características que marcaram os veros dos poetas da terceira geração romântica. ‡ Há ênfase na função apelativa da linguagem.11 O poema acima pertence a Castro Alves. A primeira denominação é devido à forte influência que a obra de Victor Hugo exerceu nos poetas brasileiros da época. tornou-se símbolo da terceira geração do romantismo. são chamados ironicamente de ³Senhor´) com um lugar público (a praça. diferentemente das tendências seguidas pelos poetas que o precederam. listamos abaixo as mais gerais: ‡ Poesia de fundo social. ao improviso. como na segunda geração romântica. Observe que esses versos em muito se distinguem do nacionalismo indianista dos primeiros poetas da escola romântica. A desigualdade social é colocada em pauta quando o poeta contrasta os lugares luxuosos e privados (castelos. justiça e igualdade. Trata-se de versos improvisados pelo poeta em um comício republicano de que participava e que fora dissolvido pela polícia. que pode ser associada ao alto voo. alcança as praças. palácios) dos homens de grandes posses (que. horizontes largos. condoneira. A segunda é uma metáfora do ideais elevados dos jovens poetas: ³condor´ é o nome de uma ave que voa acima das Cordilheiras dos Andes. Outra analogia que se pode fazer com essas avessímbolo é com a ideia de liberdade. convém que lembremos um pouco do contexto social e político que as motivaram. defensora da República e do Abolicionismo. é considerada uma geração de transição. na qual a história da literatura situa o poeta. mais importantes do que as suas crises existenciais internas. cuja obra toma como eixo temático a liberdade. aliados à fase não muito favorável do regime monárquico. por se mostrar mais preocupada com a realidade social. neste período. como protesto. Quer ser ouvida e. marginalizados e negros escravos. em alto e bom tom. abolicionistas e republicanas se difundem entre a população mais esclarecida. assim como distancia-se substancialmente do individualismo mórbido e angustiante dos poetas da segunda geração romântica. pois os problemas do mundo passam a ser. o republicanismo. mas do povo. para ocupar a praça. A terceira geração romântica. para que este também se conscientizasse de seus ideais de liberdade. a democracia. Ideias liberais. A poesia dessa época recusa o lamento introspectivo e individualista da geração que a precede. Assim como essas aves. o falcão e o albatroz. vão mudar os rumos políticos do país e. lugar onde as pessoas de menores posses (repare que o poeta os denomina ³povo´. portanto. . os versos desse período estão voltados para os pobres. do poeta francês Victor Hugo. A terceira geração do romantismo também foi chamada hugoana ou. pois nela podemos ver brotar as primeiras tendências do que posteriormente a história da literatura veio a chamar de Realismo. fato que motivou-o. Esses apontamentos gerais que fizemos do poema de Castro Alves são exemplos das características mais marcantes da terceira geração romântica. por isso mesmo. por isso. e de preferência para um grande público. Repare. o poder monárquico no Basil passara por um processo de forte enfraquecimento. Além disso. Perceba que no poema de Castro Alves. para o poeta. A poesia deixa de ser introspectiva. Entre as décadas de 1860 e 1870. Esta ave. por isso. de voos altos e. comum a todos e. tão cara aos poetas da terceira geração. o que leva o país a um clima de agitações políco-sociais.

Além disso. cuida da edição de seu primeiro livro. A relação entre os amantes. a insurreição dos negros de Palmares. o que levou ao desenvolvimento de ideais democráticos e o de repulsa pela ³moral do senhor-e-servo´. Foi por isso chamada ³poesia de comício´. Quer convencer o outro e. Morre um ano depois desta publicação. antíteses retumbantes e apóstrofes violentas. na Faculdade. com 24 anos. revelaram o gosto pela frase pomposa e retórica grandiloquente. Matricula-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo. o que o leva a amputá-lo. *Intertextualidade: O poema citado logo no início do tópico inspirou o famoso samba ³Um frevo novo´. O samba. Além disso. e acima de todas a campanha contra a escravidão´. em suas virtudes e pecados. Os dois últimos acabaram sendo ofuscados pelo brilho reluzente do primeiro. Terceira Geração Romântica: Castro Alves (1847 ± 1871) Nascido no Estado da Bahia. Já na adolescência. bem como pela nova condição do Brasil. único a ver publicado: Espumas Flutuantes. junto com o colega Rui Barbosa. a mulher passa a ser vista. Sousândrade e Tobias Barreto. onde se juntou a Tobias Barreto e participou ativamente da vida literária acadêmica. tocável. Em viagem para o sul do país com a atriz. o que leva Castro Alves a voltar para a Bahia. considerado o maior poeta da terceira geração romântica. Dessa forma. Para esquecer a perda. que aos poucos deixava de ser puramente rural para se urbanizar. Castro Alves foi inovador justamente pelo seu epos libertário. abusaram das hipérboles.12 os lugares públicos. começando. agravou-se. o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça ² as lutas da Independência na Bahia. Neste período. em 1871. para tanto. O rompimento com Eugênia deixa o poeta desolado e. o papel civilizador da imprensa. na mesma turma que Rui Barbosa. na cidade que hoje leva seu nome. em busca de melhora. as multidões. em negação ao amor platônico das gerações anteriores. que começa com os versos ³A praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião´. Tinha uma vida amorosa intensa. ‡ Com relação às figuras de linguagem mais empregadas. Estudou na Faculdade de Direito do Recife. original na obra do poeta será também os seus versos de substância amorosa pela franqueza e realismo no exprimir das paixões e desejos e na descrição erótica da mulher. os poetas dessa geração ousaram nas metáforas. Fortemente influenciado por Victor Hugo. Os poetas que mais se destacaram desta geração foram: Castro Alves. acontece de fato e a atmosfera casta e divina na qual a mulher é envolvida nas gerações passadas é substituída por uma atmosfera de sensualidade e erotismo. que lhe rendeu boa parte dos seus versos líricos. simples e gracioso na ventura. promove um nítido diálogo com os versos do célebre poeta baiano. como ser carnal que é. assim falou de Castro Alves o também poeta Manuel Bandeira. de Caetano Veloso. quando o poeta tinha apenas dezesseis anos. . mais uma vez. ‡ A mulher deixa de ser idealizada para ser apresentada de forma concreta. Castro Alves fez seus primeiros estudos em Salvador. Castro Alves conhece José de Alencar e Machado de Assis. a tuberculose que se manifestara já no ano de 1863. hospedando-se em fazendas de parentes. da qual se pode destacar o romance com a atriz Eugênia Câmara. juntam-se à sua obra lírico-amorosa intensos e dolorosos versos. a alcançar notoriedade. Bastante debilitado. o poeta distrai-se em caçadas e em uma delas fere o pé com um tiro de espingarda. ³Vulgarmente melodramático na desgraça. não economiza retórica e eloquência. Castro Alves produzia precocemente seus primeiros versos.

o de alcançar multidões. Vale lembrar que o tom oratório dos versos de Castro Alves deve-se a um propósito pragmático dos seus cantos. Hoje em meu sangue a América se nutre Condor que transformara-se em abutre. é quase sempre concebido como um mulato com sensibilidades de um branco. Esse exagero advém das influências de sua época. na poesia de Castro Alves. as apóstrofes violentas. nela mesma. com esses e outros recursos. É essa a missão do poeta. como verdadeiros discursos. o tom grandiloquente de seus cantos. tornou-se o poeta por excelência dos escravos.. irmã traidora Qual de José os vis irmãos outrora Venderam seu irmão. [. ambos pertencentes ao livro Os Escravos. de Steven Spielberg: Vozes d¶África Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo... pecando. alcançar. Mas o poeta baiano não foi o primeiro da literatura brasileira a tomar como herói o negro escravizado. Ainda hoje são. bem como suas dores e amores.. Onde estás. Ave da escravidão. ao dar ao negro uma atmosfera de dignidade lírica. Seus poemas são escritos com a intensão de serem declamados em praça pública. destacam-se dois longos poemas com os quais. não tendo para a sociedade nenhum valor mítico. No primeiro. Castro Alves atingiu ³a maior altura de seu estro´: ³Vozes d¶África´ e ³O Navio Negreiro´.. ocasionalmente. segundo Manuel Bandeira. De sua poesia social. sendo inclusive chamado de ³O Poeta dos Escravos´.] Cristo! embalde morreste sobre um monte Teu sangue não lavou de minha fronte A mancha original. já que o negro. ao contrário do índio. pelo excesso e mau-gosto. Enquanto poetas de gerações românticas anteriores tomaram o índio como herói. Inspirado por Victor Hugo.13 Na poesia social. Envolvendo-se em todos os acontecimentos históricos de sua época.. Eu . em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito. Senhor! De teu potente braço Role através dos astros e do espaço Perdão p'ra os crimes meus! Há dois mil anos eu soluço um grito. Basta. humanitária e nacionalista. as antíteses constantes. Meus filhos . acabando em verborragia vazia. era tido como ser sem-alma. ³a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira´. por vezes. Seus versos de temática social.alimária do universo. Abaixo... esquecendo-se. Castro Alves o fez com o negro. .pasto universal.. ancorada em combinações sonoras sem nexo. foi vate e profeta ao anunciar a abolição da escravatura e a instauração do regime republicano. de tom oratório e de excepcional comunicabilidade. transcrevemos trechos do poema ³Vozes d¶África´ e indicamos um vídeo com uma declamação de trechos do poema ³O Navio Negreiro´ com o ator Paulo Autran e imagens do filme ³Amistad´. Escolha não muito tranquila. teatros e grandes salas. temos o continente escravizado a implorar justiça de Deus e no segundo temos o evocar dos sofrimentos dos negros em um navio que transportava escravos da África para o Brasil. verdade seja dita. aproximamse da retórica. porém. por fado adverso.. ele soube.. Castro Alves foi o arauto da liberdade e da justiça. enfim. nas palavras de Manuel Bandeira. Ela juntou-se às mais. Devido a isso. o negro. as hipérboles e metáforas ousadas. a de anunciar a todos o ³Novo Mundo´. por outro. da qual a oratória era a menina dos olhos. Que embalde desde então corre o infinito.. Mas. a de persuadir a todos da necessidade de mudança. Ao mostrar a sua bravura e coragem. Castro Alves eleva o negro ao mesmo patamar do branco e do índio literário. se por um lado o jovem poeta abusou forçosamente da superposição de imagens e de aposições. Senhor Deus?. Castro Alves exibe toda a sua eloquência épica. Daí a épica retumbante de seus versos.

. . Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz..... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar. Perante a noite confusa. audaz!. Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares. Senhor Deus! Se é loucura. tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala. severa Musa.. Meu Deus! Senhor. Musa libérrima. Navio Negreiro (fragmento) Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós. meu Deus!!. por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?...14 escuta o brado meu lá no infinito... Dize-o tu.

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