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Vida interior

Ao fim de tanto tempo ela olhava para trás e ria-se com a vida que
conseguia ainda ter. Deitava a cabeça na almofada e sentia um estranho
conforto, afinal familiar, conhecido de sempre, mas esquecido por si mesma,
derivado à vida que decidira em tempos tomar.
Suspirava de alivio quando caía em si. No sentido literal de cair em si. De
deixar de viver a vida alheia. O seu descanso era o primeiro encontro consigo
próprio, o seu verdadeiro momento de regresso ao ponto de partida, “de onde
nunca devia ter saído”, pensou. Mas apesar de tudo saíra desse ponto de
partida. Qual? O da consciência de si própria, de uma eterna felicidade, de uma
abnegação de tudo o que existia à sua volta. De tudo? Da vida alheia. Dos
“valores contemporâneos”, o “estilo de vida” a “luta”. Tudo à sua volta era uma
redoma fraca de valores sustentados pela ideia fixa das convicções. E ela
embarcava nessa ilusão alheia, seguia-lhe o rumo, estimava-lhe valor, sucesso,
boa aventurança e embarcava na vida dos outros. Até um dia. O dia em que
descobriu que tudo o que procurava estava dentro dela.
E o que haveria de estar de estar dentro dela?
Afinal todo o mundo que procurava fora. Todas as coisas que tinha visto
eram projecções de si mesma no exterior, até as próprias palavras eram frutos
dos seus pensamentos. As palavras que construía ao longo dos dias eram o
resultado de pensamentos anteriores. Resultado de sentimentos anteriores,
palavras feitas da verdadeira matéria que é a vida. Toda a sua vida, diria anterior
tinha sido passada na jornada feita de um pesadelo alheio. O pesadelo dos
outros, da confusão imposta pelo interesse mesquinho. Era um infortúnio alheio
que conspirava contra ela, muito pouca gente conseguia suportar a sua vida
serena e altiva, verdadeira em si mesma, e esse processo genuíno que a levava
a si mesma perdurava e aumentava em consciência de si, na consciência da
única pessoa que vivia, ela própria. Tudo o que passava a sua volta não tinha
nenhuma importância, a não ser o que ela lhe dava. Tudo á sua volta parecia ser
de outro modelo que não o que ela sentia, e maior parte da gente não a
suportava por isso, vivia em lugares comuns e iam para lugares comuns, como
se isso fosse um valor inesperado.
Ela sabia quem era, desde nova, desde que aprendera e nunca
esquecera a fazer perguntas a observar os astros e os animais. As pessoas e as
coisas da terra. Ela tinha conseguido passar pelo meio da vida sem lhe tocar, ou
não tocar no que não tinha nenhuma importância. Metade da vida tinha sido feita
a observar o mundo seu redor. A experimentar-lhe o significado. A estimar o seu
valor e a sua presença. A conhecer os seus segredos, que afinal não existiam.
Metade da vida tinha sido serenidade, palavras e conhecimento. Tudo havia
ainda por vir. Sempre soube que um dia havia de encontrar um lugar de refugio
para um mundo que se tornava cada vez mais louco e enlouquecido. Afinal não
tão louco quanto ela, que agora que se tomava em consciência sabia que
loucura era viver fora dos próprios sentidos, pensando que havia sentido nos
outros. Nas palavras dos outros nos feitos dos outros nos sentimentos dos
outros. Esses por vezes benévolos e simpático quando se faziam tomar pelos
seus, quer dizer, quando ela se identificava com os sentimentos alheios.

Por isso foi demasiado o tempo que ficava sozinha, frustrada pelas
atitudes dos outros, do juízo dos outros, dos insultos e dos actos. Das palavras
imponderadas e desconhecedoras, aflitas. Afinal tinha sido um problema dela
ter-se deixado instaurar pela vida alheia. Ter-se deixado penetrar por um mundo,
que afinal ela ajudara a criar mas que em essência já não a representava. Em
nada. Ela olhava para trás e já nem sequer conseguia estimar nenhum
sentimento de repúdio. Apenas olhava para a sua vida passada e para a gente à
sua volta e dizia a si mesma que a vida já não a representava, tal como estava
encenada.
O que é que podia ser feto para alem do que ela fazia? O que poderia ter
tido melhor vida para além do que fazia. O que seria agora, para onde iria, como
sobreviveria. A sua vida não tinha nunca sido uma vida de luta muito menos de
oferta. Aprendera cedo a olhar apara as coisas e saber que elas lhe tinham sido
delegadas para a sua administração. Isso fazia-a soberana da sua própria vida.
Fazia-a conhecer o que era quem era o que queria como queria viver.
Agora ela pausava em si mesma. Julgava que tinha percebido alguma
coisa acerca do mundo e das coisas que lhe pertenciam, Julgava que tinha de
ira a algum lado crescer de alguma maneira apenas para agradar aos outros
para ser aceite para pertencer a alguma coisa para ver o mundo de outro
prisma, dates julgava que tinha de agradecer a alguém para ser vista para viver
para ter uma vida segundo a fantasia que entretanto criara para si mesma.
A vida não era o que ela julgava ser, por isso nunca encontrara nada que
a levasse até si própria.
Tudo o que a vida lhe havia prometido não estava nunca onde ela
procurava. Não estava nem diante de si mesma, como em tempos julgava. Tinha
sido uma vida de constante labuta da franca demanda e procura maneiras de
procurar algures, maneiras de ver algures onde quer que fosse o que procurava.
Toda a sua vida teria sido mais fácil se ela continuasse assim. Se ela
continuasse a supor que a vida era onde ela pensava que era. Tudo teria sido
muito mais fácil se tudo fosse como ela supusera que fora em tempos como a
sua consciência lhe passava uma rasteira e lhe criava uma armadilha cada vez
que ela supunha ser outra coisa qualquer ara alem do que ela supusera em
tempos ser.

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