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O MITO PERSA

Os persas, as famílias de parsis e de medos, surgem na história da


Mesopotâmia com força, relevando o império assírio e ocupando
as suas capitais durante um breve período. Assim Nínive cai em
seu poder no ano 606 aC e Babilônia passa a ser parte dos seus
domínios no ano 538 a C, sob Ciro II; os persas criam por sua vez
um império ainda maior e poderoso que se estende por quase
todo o território da Ásia Menor, englobando desde a fronteira
natural com o sub-continente índio pelo Este, o Cáucaso pelo
Norte, a península arábica pelo sul e as costas do Mediterrâneo
pelo Oeste, incluindo nos seus extensos domínios as colônias
adscritas à esfera de influência grega.

Esta extensão geográfica e a diversidade de povos submetidos à influência


política persa vai fazer nascer uma nova religião composta, em partes
iguais, pelas tradições indo-iranianas e pelos mitos particulares de cada
uma das zonas englobadas no novo e grande Império, numa muito vasta e
mutante crônica, com altos e baixos militares, mas com uma história
brilhante que se estende por mais de um milênio, através das dinastias
aquemênides (até ao ano 330 a. C.), arsácidas (até ao ano 224) e
sassânidas (até ao ano 654), até o momento em que a nova força religiosa
e conquistadora do Islã termine, pela força das armas e quase
completamente, com a rica tradição mitológica persa, acabando também
com a religião que tinha sido fundada por Zaratustra no século VII aC,
exposta nos textos do Avesta, a base ideológica persa que permitiu a
coesão do extenso e duradouro império a partir da última dinastia, a
sassânida, e que seria mais tarde aumentada e reformada com a nova idéia
do maniqueísmo.

ZARATUSTRA

Muito pouco se sabe em verdade da verdadeira história de Zaratustra, de


Zoroastro, como o chamaram os gregos, e apenas se pode supor, pelo que
se conta sobre a sua vida eremita e contemplativa, que devia ter sido um
clérigo-cantor estático, um zaotar, dos que se isolavam para, na sua solidão
e com a ajuda de substâncias tóxicas ou alucinogênias, tentar entrar no
transe que lhes permita ascender às regiões superiores da divindade, até
converter-se, como ele próprio o descreve, num Saoshyans, num sábio.
Supõe-se que nasceu ao redor do 628 aC na antiga cidade de Rhages, na
Pérsia, no atual Irã que agora se chama Rayy. Segundo a lenda, conta-se
que Zaratustra nasceu com o sorriso no seu rosto, como presságio da
felicidade que trazia o predestinado menino. Calcula-se que morreu no ano
551 aC, mas não se sabe com certeza onde aconteceu a sua morte nem se
conhecem muitos mais dados da sua vida. O que sim nos transmitiu foi a
sua revelação, que -aos trinta anos de idade- teve do deus único, Ahura, o
Ormuz que chegou também pela mão dos gregos. Zaratustra já recebeu
uma mensagem divina aos vinte anos de idade, quando Deus lhe ordenou
que abandonasse a sua vida familiar para sair à procura doutra forma de
vida, entregue à verdade e ao auxílio dos que nada possuíam, dando
comida, bebida e refúgio do fogo aos humanos e animais que necessitassem
deles. Após sete anos de retiro eremítico, Zaratustra alcança finalmente a
perfeição e é premiado com a mensagem divina que lhe trazem os arcanjos
ao alcançar o estado de êxtase perfeito, levando-o à presença de Ahura.
Essa revelação está escrita no livro do Avesta, que foi, além de um texto
sagrado, uma rebelião contra o politeísmo inicial, uma revolta contra a
antiga ordem dos persas.

A MENSAGEM DA CRIAÇÃO

Ahura falou a Zaratustra e lhe revelou a verdade sobre a criação, sobre a


sua criação de um universo tirado pela sua vontade do nada, para evitar
que o mundo se deslizasse para o abismo do Erjana Veja criado pelo deus
da morte Ahriman, para esse território gelado no qual os dez meses de frio
apenas são contrariados pelos dois escassos meses de sol, desse mundo
maldito em que o curto verão não chega a aquecer suficientemente para
permitir a vida. Por isso, para nós os humanos, o deus Ahura criou o
paraíso, Ghaon, o lugar onde mora Sughdra, onde florescem as rosas e
cantam os pássaros; mas Ahriman tentou desbaratar a sua beleza, criando
os insetos que atacam as plantas e os animais. Ahurada fez aparecer depois
a cidade santa de Murú e Agra Manyú a infestou com todos os vícios e mais
a mentira que tudo corrompe. Ahura não desfaleceu e criou a cidade
exemplar de Bachdi, rodeada de campos férteis, pastos povoados com
todas as classes de gado, uma rica e florescente cidade à qual Agra Manyú
enviou as suas feras e bestas para devorarem o gado que pastava nos
viçosos pastos de Bachdi. Mas Ahura contra-atacou construindo a cidade
religiosa de Nisa, que Ahriman rodeou com a nuvem da dúvida, para
corromper a sua fé. De novo Ahura retomou o seu trabalho criador e pôs
em pé a próspera e laboriosa cidade de Harojú, a qual Ahriman mandou a
negligência para empobrecê-la. E a luta sempre continua, com Ahura
criando bondade e virtude por um lado, e Ahriman pela sua parte,
destruindo continuamente a obra sagrada com a sua maldade. Ahura
também explica a Zaratustra que é Agra Manyú quem espalha sem trégua
entre as criaturas terrestres a mentira e a maldade.

O TEXTO SAGRADO DO AVESTA

Segundo a religião zoroástrica, anterior em séculos ao texto sagrado do


Avesta, ao livro composto muito tempo depois da morte de Zaratustra,
talvez no século III da nossa era, sobre a base do que pregou o sábio e
santo reformador, Ahura, o deus do bem e da verdade mantém uma luta
cíclica contra o demônio Ahriman, contra a personificação do mal e da
mentira. É uma longa batalha iniciada com aquela luta permanente da
criação e que vai durar um total de doze mil anos, uma guerra com
resultados desiguais e mutantes, na qual de três em três mil anos se vai
produzir uma volta na sorte dos adversários. Assim Ahura, ou Ormuz, e as
suas tropas vencerão em duas ocasiões, sendo em outras duas o triunfo
para o exército do seu adversário Ahriman, para terminar definitivamente,
decorridos os doze mil anos de combate, com a vitória de Ahura, do bem
sobre o mal, da verdade sobre a mentira, da luz sobre as trevas. Será
também o dia em que se produzirá o cataclismo universal que marca o fim
dos tempos, quando chegar o momento em que um meteoro caia dos céus
e venha chocar contra a nossa terra, como juiz e carrasco da humanidade.
Após o seu choque, o planeta ver-se-á envolvido num abrasador mar de
metal fundido purificador, mas o sofrimento não será igual para todos, vivos
e mortos ressuscitados, dado que o fogo insuportável da penitência se
repartirá segundo a justiça divina, para fazer cumprir a penitência exata
que corresponde a todos e cada um dos seres humanos. Terminado o
purgatório sobre a face da terra, chegado o momento em que todos os
homens tenham expiado as suas faltas, se acabará o sofrimento e todos os
seres humanos alcançarão a imortalidade prometida por Ahura, passando a
habitar no seu reino eterno do bem e da luz.

ANTECEDENTES DO ZOROASTRISMO

Quando o zaotar recebe a visita do arcanjo da sabedoria, de Bou mano,


com o qual vai ser iniciado nos segredos da criação e na essência única do
deus Ahura, também é ensinado a comportar-se de acordo com a sua divina
vontade, dado que recebe o prontuário sacro da forma em que devem ser
as relações do homem com os vivos e os mortos, como há que queimar os
restos mortais e não entregá-los sacrilegamente à terra, como há que
cuidar dos animais domésticos, como deve ser o comportamento do ser
humano com o fogo e a água, com os metais e a terra, com a vegetação e
os seus frutos. Zaratustra recebe, pois, a ciência infusa, o conhecimento
total de Deus,mas não é uma cerimônia fácil, dado que Ahriman também
quer desbaratar esta obra e ataca o zoatar com as suas tentações,
oferecendo-lhe todos os bens da terra em troca da sua promessa de não
atacar o mal e os seus enviados. Zaratustra, tocado pela luz e a verdade,
rejeita a oferta demoníaca e lança-se a pregar a palavra sagrada, a religião
do único Deus verdadeiro. E a sua palavra se rodeia da auréola ganha com
a prova inequívoca dos seus muitos milagres e assombrosos fatos, pois ele,
com a graça de Ahura, já é Shaoshyans, um sábio que conhece todas as
respostas a todas as perguntas ainda não formuladas, como soube
responder com palavra justa ao malvado, ao demônio que ele descobre e
sobre o qual é o primeiro em advertir a sua presença, em anunciar ao
mundo do perigo da sua existência, com tanto êxito que até os reis ouvem
a sua mensagem e fazem sua a doutrina invocada pelo santo Zaratustra
quem, de novo, segundo o pouco que dele se sabe, nunca ocupou cargos
públicos nem arrecadou fortuna ou poder, pois o simples fato do
desconhecimento do lugar onde morreu, ou como foi honrado após sua
morte, vem ser suficiente demonstração de que o homem de fé venceu o
possível chefe religioso.

UMA RELIGIÃO DE ESTADO

O zoroastrismo serviu de motor para a conquista do império pela dinastia


sassânida. Com eles no trono, o Avesta tomou a sua forma definitiva, com
salmos, mandamentos, relatos sagrados, orações e liturgia. O Avesta fala-
nos da complicada composição militar e política das hostes do bem e mal;
no exército de Ahurada, e com ele no Conselho, estavam os seus seis
ministros, os arcanjos Amchaspends: Ardibibich, encarregado do fogo;
Bahman, encarregado dos animais; Chariver, a cargo dos metais; Jordad,
das águas; Murded, ministro do reino vegetal, e Sipendarmich, senhor da
terra. Por baixo dos ministros estava a legião dos anjos Yazata e a outra
das mulheres-anjos. O exército do mal, sob o comando do demônio
Ahriman, tinha a sua corte dos diabos, ou Divs: Aechma, encarregado da
ira; Akono, a cargo das tentações; Indra, que se encarregava das almas
condenadas ao inferno; Naosijaita,que insuflava a soberba nos humanos;
Sorú,o encarregado de aconselhar o mal aos dirigentes e de induzir o crime
nos súditos. Em baixo deles estavam os demônios menores, masculinos e
femininos,que se encarregavam de todas as ações perversas que os seus
chefes Divs lhes encomendassem. O ser humano herdou o castigo merecido
pelo preço dos primeiros pais, Yima e Yimé, que se levantaram contra o seu
deus, julgando-se iguais, embora este lhes tivesse dado a vida e o
conhecimento, construído o Paraíso e salvo do Dilúvio. O ser humano, pois,
agora tinha que fazer com que a sua vida decorresse pelo reto caminho,
ouvindo os conselhos dos arcanjos e anjos e rejeitando as tentações e as
provocações de demônios e diabos. No final da sua vida, a alma tinha que
passar a ponte de Chinvat, onde sofria a pesagem definitiva, para ver se
prevaleciam as boas ações ou se, pelo contrário, o condenavam as suas
culpas, como no julgamento do mito egípcio, mas com a diferença de que, à
passagem das almas, a ponte se alargava e tornava reta para os bons e
estreita e tortuosa para os pecadores, que terminavam por cair dela e
submergir-se nas profundidades do inferno eterno.

MITRA, O DEUS CELESTIAL

Assim como os deuses gregos tinham passeado entre os céus e a terra, sem
deixar de morar em ambos, Mitra é o primeiro deus exclusivamente
celestial, morador das alturas inalcançáveis para os mortais,guarda das
regiões destinadas às almas que triunfam nas duras provas do último
julgamento e condutor do seu trajeto através das sete esferas. Mitra tinha
nascido na união entre índios e iranianos, e assim vê-se como aparece entre
as linhas dos textos sagrados índios, nos Vedas, mas também o Avesta
persa o faz seu, embora custe muito fazer com que o monoteísmo
zaratustriano deixe que uma nova figura divina entre no escasso espaço
que deixam as duas forças opostas e complementares do bem e do mal, de
Ahura e de Ahriman. Mitra já existia na Babilônia conquistada pelos persas
e nessa cidade, agora residência de inverno da nova corte, se misturam os
seus dados originais com os da antiga divindade babilônica de Shamash, o
deus do Sol; também com a influência astronômica e astrológica dos
assírios, o céu persa, o céu dos três planos, se enriquece e passa a ser um
firmamento composto por sete esferas,incorporando os reinos do Sol, da
Lua e dos astros e estrelas, os sete planos por onde hão de transitar as
almas, com a sábia e benfeitora guia de Mitra. Mas Mitra, apesar da sua
importância, não é nenhuma divindade principal, é apenas um dos
veneráveis, dos santos que acompanham Ahura-Mazda e que estão a seu
lado na sempiterna luta. Mitra tem o seu lugar preciso na montanha
fendida, onde se apóia a ponte que leva as boas almas para o céu, porque
ele é o deus desse céu, o deus da salvação para as almas dos mortais.

O TRIUNFO DE MITRA

No seu contato com o mundo grego, o deus solar dos assírios e o deus
auxiliar dos persas, Mitra, passa a enriquecer-se com os dons pessoais de
três deuses olímpicos: Apolo, Hermes e Hélios. Mitra se engrandece e
aproxima do modelo clássico ao receber graças divinas de Apolo, deus da
juventude, da beleza e das artes; de Hermes, mensageiro dos deuses; de
Hélios, o mesmo deus do Sol, por sua vez outra encarnação de Apolo.
Depois de ter sido helenizado, o renovado Mitra é levado em triunfo pelos
legionários romanos, originários ou destacados, da Ásia Menor para Roma,
lá, no coração de um império onde os deuses gregos latinizados estão
languidecendo, o novo e apaixonante culto a Mitra se assenta com força
entre a classe militar e os seus imperadores, muitos deles surgidos da
própria milícia legionária, e ao estar protegida por tão influente casta,
converte-se num dos principais,construindo-se templos subterrâneos, os
mitreus, por todo o império romano, onde se adorava Mitra como o guarda
desse universo celestial, matando o touro que, no Avesta, tinha sido criado
por Ahura-Mazda e morto por Ahriman, de cujo corpo tem que brotar toda a
vida que há sobre a Terra, o touro que é fonte de vida para o reino animal e
para o reino vegetal. Com essa invocação de Mitra tauróctone, o deus das
almas também se torna divindade da vida que renasce constantemente, da
vida que brota estacionalmente. Outras vezes aparece saindo da rocha
afundada onde a ponte das almas tem a sua base, leva numa mão a faca
com que tem de sacrificar o touro e na outra uma lanterna. Também vemos
Mitra saindo entre as folhas de uma árvore, conseguindo que a água,
também fonte de vida, brote abundantemente com a sua divina presença.

OS MITREUS

Nos santuários de Mitra, nas grutas artificiais subterrâneas que são os


mitreus, se representa uma concepção religiosa independente. O culto de
Mitra é um culto mistérico, muito mais atraente e apaixonante do que o já
periclitado culto oficial aos muitos e diferentes deuses que se foram
assentando no super-povoado panteão romano. Resulta muito indicativo o
fato de que os mitreus se vão estendendo centripetamente, dos postos
avançados da legião, nos frontes permanentemente abertos, onde existe
perigo de invasão, onde está o melhor do exército romano, para o interior
do Império, sempre seguindo as linhas militares, para terminar
implantando-se em Roma com um caráter muito marcado de culto ao rei,
ao imperador. O deus aparece como matador do touro sobre o asse central.
Veste uma túnica curta, capa e gorro frígio e, na sua mão direita,está a faca
com que mata o touro,enquanto do sangue que brota da ferida do pescoço
surge uma mata de espigas. Sobre a ala central está a abóbada ritualmente
perfurada por onde entra a luz, de modo que essa luminária imita as
estrelas do céu que está encomendado ao deus,enquanto o Sol, que um dia
foi parte da personalidade de Mitra, além da Babilônia, passa a um segundo
plano como auxiliar ou acento do poder divino de Mitra, para ser
simplesmente um fiel discípulo seu, como o eram os novos acólitos da
imaginaria mitraica romana, Cautes e Cautopates, outras duas figuras
solares que aparecem como um par de jovens vestidos também com
clâmide cingida à cintura e gorro frígio, para que não haja a menor dúvida
da sua pertinência ao cortejo mitraico, Cautes com a tocha para acima,
como símbolo de juventude, de primavera, de amanhecer; Cautopates com
a sua tocha para abaixo, como recordatório da senilidade, do outono e do
ocaso.
O MISTÉRIO DE MITRA

Na reserva e exclusividade dos reduzidos mitreus celebrar-se-ía o mistério


da vida e ressurreição, o culto mistérico de Mitra, o triunfador sobre a
morte e dador de vida, o condutor de almas e o salvador dos humanos. O
mistério de Mitra deve reconstruir-se também pelos restos arqueológicos,
artísticos, dos mitreus, pois não há mais dados que os que se desprendem
do que nas suas paredes e memória ficou gravado; celebrar-se-íam os
banquetes de união entre os iniciados e também se celebrariam as provas
de admissão à iniciação, que tinha que cobrir sucessivamente sete provas
para chegar ao máximo, dado que se tratava de celebrar a passagem da
alma humana pelas sete esferas planetárias, como no devido momento
instituíram os assírios sobre o culto persa. Os sete graus eram estes:

2.º o oculto sob o


1.º o corvo 3.º o soldado 4.º o leão 5.º o persa
véu nupcial

6.º o mensageiro do Sol 7.º o pai

Após as provas correspondentes, umas de piedade, outras de doutrina,


outras físicas, após essa passagem pelos sete graus, o fiel podia considerar-
se dentro do clã de Mitra, do grupo dos iniciados no culto mistérico, com o
tácito diploma de fidelidade e pertinência ao Senhor do céu; porque nestes
cultos mistéricos, a idéia era (e continua a ser nas maçonarias e outros ritos
iniciáticos e simbólicos) a de fazer passar o iniciado pelas provas de
dificuldade crescente, fazendo-o avançar gradualmente pela depuração
terreal, antecipando-se às provas após a morte, ganhando tempo ao mais-
além, fazendo no templo o que se supõe que a alma que tivesse passado as
sete esferas planetárias da mão de Mitra teria tido que fazer para alcançar a
vida eterna.

MITRA APAGA-SE, JESUS ACENDE-SE

A grande festa do renascimento mitraico celebrava-se grandiosamente em


Roma no mês de Dezembro, exatamente no dia 25, desde que Júlio César
deu o seu visto ao calendário definitivo que teria de reger no seu Império.
César fixou esse dia 25 de dezembro como o dia oficial do solstício de
inverno e, anos mais tarde, o imperador Aureliano, no ano 274, fixou o 25
de Dezembro como o dia dedicado a celebrar o nascimento do Sol, quando
chegava a data do solstício de inverno e o dia, após ir encurtando-se,
começava o seu crescimento que o levaria ao máximo, ao anual e renovado
solstício de Verão. Como muito acertadamente aponta Isaac Assimov nos
seus estudos comparativos sobre os textos bíblicos e o evangelho, a nova e
triunfante igreja cristã, assentada também na mesma Roma que teve que
combater e pela qual foi combatida, não teve mais remédio que aceitar a
popularidade de Mitra e tentou substituí-lo com um Jesus menino nesse dia,
embora tivesse que decorrer uma boa parte do século IV para que se
chegasse a considerar o Natal como algo estabelecido. A partir dessa
declaração da igreja cristã, da igreja de Jesus, o seu nascimento era o que
tinha que celebrar-se anualmente no dia 25 de Dezembro desde agora, e
para não deixar detalhes soltos, "deixou grávida" Maria com uma
antecedência de nove meses exatos, de modo que a sua Anunciação se
celebraria no dia 25 de Março, quando Isabel estava no seu sexto mês de
gravidez, com o qual se colocou o nascimento de João o Batista três meses
(mais ou menos) por atrás da Anunciação, com tanta sorte que o seu
calculado nascimento caiu muito perto do solstício de Verão, em 24 de
Junho, fazendo com que com a discutida e discutível figura de João Batista,
o primo, ou o irmão suposto e não admitido de Jesus, outro suposto
Messias, ocupasse o outro grande espaço pagão por onde se podia escapar
uma grande parte da nova paróquia tão duramente conquistada,
contrapondo com êxito as novas divindades aos mais antigos e assentados
cultos.

A GRANDE RELIGIÃO DE MANI, O MANIQUEÍSMO

Mani (o Manes dos gregos) nasceu em 14 de Abril do ano 216 no sul da


Babilônia, numa família arsácida. O seu pai, Patik, ouviu a chamada divina e
retirou-se dos prazeres da mesa, odiando a carne e o vinho, como odiou o
sexo, para unir-se à seita dos batistai, como lhes chamavam os gregos, ou
Al, como lhes chamavam os árabes. Com o seu pai Patik Mani viveu até à
idade de vinte e um anos, para depois separar-se dele e dos baptistai; a
explicação da sua separação dessa seita é dada pelo mesmo Mani, ao narrar
que o seu anjo gêmeo, ou da guarda, lhe veio comunicar, em 7 de Abril de
228, que devia sair dela aos vinte e quatro anos de idade, coisa que ele fez
um dia desse mês de Abril que marca constantemente os fatos da sua vida,
exatamente o 19 de Abril do 240. Imediatamente, Mani converte-se no
Apóstolo da Luz, no Paracleto dos gregos, anunciando a nova religião
revelada, da qual ele é o seu profeta, como o foram Adão, Zaratustra, Buda
e Jesus. Vai de um lado para o outro do império sassânida e a sua religião
alcança tal magnitude que se estende da Pérsia ao limite ocidental da
Hispania e da Gália por Ocidente, e ao limite oriental de China no ano 675,
e conhecendo lá a sua consagração como religião oficial ao ser decretada
pelo mesmo imperador, ao mesmo tempo que ordena o primeiro bispo
maniqueu. Depois, com o decurso do tempo, voltam as tradicionais religiões
chinesas a impor-se à que chegou da Pérsia e o maniqueísmo acaba no ano
843, quando se proíbe na China, mas fica assentada com força em regiões
como Fukiem e Formosa até o século XIV. Noutras zonas da Ásia, como no
Turquestão, o maniqueísmo continua vivo durante séculos e só termina a
sua presença quando Gengis Kan o invade nos princípios do século XIII.

O DUALISMO DE MANI

Com a inegável base da dualidade entre Ahura e Ahriman, com as


aportações dos hereges Marção e Bardesanes, com a herança gnóstica da
iluminação interior, Mani constrói a sua teoria religiosa dos dois princípios e
os três momentos, na qual se funda todo o seu credo. Mani diz que há duas
substâncias antagônicas, a Luz e a Escuridão, os dois princípios que nunca
foram criados e que sempre existiram, eternos e iguais, que vivem em duas
regiões separadas do infinito. O reino de Deus, o da Luz, se encontra no
Norte, no Este e no Oeste; o reino do mal está no sul, talvez porque ao sul
de Pérsia esteja somente o deserto da Arábia e a solidão do mar, e que nas
outras três direções, pelo contrário, se encontre o mundo habitado e
habitável. Deus, a Luz, é o Pai de Grandeza; o mal é o Príncipe das Trevas.
No mundo do Pai de Grandeza reinam as quatro notas harmoniosas da paz,
a pureza, a doçura e a compreensão; no mundo do Príncipe das Trevas só
há os quatro vícios da desordem, a estupidez, a abominação e a hediondez.
Por sua vez, o mundo do Pai de Grandeza compreende cinco moradas:
entendimento, razão, pensamento, reflexão e vontade, habitadas por
inumeráveis leões, criaturas do bem. Antagônico em tudo, o mundo do
Príncipe das Trevas é um poço onde se encontram, um sobre outro, os
seguintes estratos de fumo, de fogo que consome, de vento destrutivo, de
lodo e de escuridão, nos quais se encontram os cinco Arcões, chefes de
cinco classes de repulsivas criaturas infernais. Pois bem, estes dois mundos
separados foram no PASSADO, quando estavam bem afastados, na sua
estrita dualidade, as substâncias: Espírito e Matéria, Bem e Mal, Luz e
Escuridão. No tempo MÉDIO, misturaram-se as substâncias numa confusa
amalgama, mas o Pai de Grandeza não abandonou o seu obra e lutou pelo
resgate da verdade, por isso nos resta a grande esperança do FUTURO,
quando a força do Pai de Grandeza restabelece a dualidade primordial e se
voltam a separar as substâncias nos seus respectivos domínios; estes são,
pois, os três momentos que aponta a doutrina do maniqueísmo, os três
momentos que, junto com os dois princípios, são o dogma único no que tem
que acreditar aquele que queira, de verdade, a salvação eterna da sua
alma.

O MITO DA LUTA MANIQUEIA

No Presente, a Escuridão trata de conquistar a Luz; por isso, o Homem


Primigênio, o filho da Mãe da Vida, trata de combatê-la com a ajuda dos
seus cinco filhos, de Ar, Vento, Luz, Água e Fogo, que fazem de seu escudo
e armadura; decidido, vai para os abismos, onde os seus filhos são
devorados pelos demônios e a luz se mistura com a matéria.

Há uma segunda criação que nos vai trazer a salvação, é a do Espírito Vivo,
que também se conhece como Amigo da Luz, ou Grande Arquiteto, e ele
vem acompanhado pelos seus cinco filhos: Ornamento de Esplendor, Rei de
Honra, Adaman de Luz, Rei de Glória e Atlas. O Espírito Vivo vai ao Reino da
escuridão, mete-se no mais profundo e grita; o seu grito é ouvido pelo
Homem Caído, nesse momento as duas divinas hipóstases, as duas divinas
pessoas, a da chamada e a da resposta, se produziram. O Espírito Vivo
entra no mais recôndito da Escuridão, com a sua mão direita toma a do
Homem Primigénio, estabelecendo o cumprimento litúrgico maniqueu. Sai
da sua prisão o Homem e regressa para o Paraíso de Luz, o seu mundo
celestial; deste modo, o Homem Primigênio é o primeiro em cair e o
primeiro em salvar-se.

Mas a alma ficou na Escuridão e Deus tem que organizar o mundo visível
para conseguir a sua salvação, com a ajuda do Espírito Vivo e dos seus
cinco filhos, castigando os Arcões; construindo com a sua pele os céus; as
montanhas com os seus ossos; a terra com a sua carne e os seus
excrementos; assim, dão forma a um Universo de dez firmamentos e oito
terras.
Com a Luz que se misturou com a Matéria, podem-se fazer três partes; da
primeira, a que permaneceu pura, faz-se o Sol e a Lua; a pouco impura
serve para construir as estrelas; o resto, impuro, terá que esperar a terceira
criação para se limpar, à chegada do Terceiro Mensageiro.

O Terceiro Mensageiro constrói uma máquina com engrenagens de Ventos,


Água e Fogo. Com ela tirou a Luz apanhada na Escuridão e, todos os meses,
nos primeiros quinze dias, sobem as partículas de Luz salva, que são almas,
em Colunas de Glória até à Lua. Na outra quinzena, as almas passam da
Lua para o Sol, e de lá continuam o seu caminho para o Novo Paraíso.

Além disso, o Terceiro Mensageiro aparece no Sol, como mulher excitante e


nua aos Arcões, e estes ejaculam, e do sêmen que cai na terra brotam os
filhos que devolvem a Luz engolida. Às Bruxas e Sereias aparece no Sol
como um homem nu e atraente, e estas abortam.

O sêmen que caiu no mar converte-se em monstro marinho, mas o Adaman


de Luz atravessou-o com a sua espada. O sêmen que caiu na terra fez
crescer cinco árvores das quais nascerá o resto das plantas.

Mas a Matéria engendrou dois diabos, Ashacun e Namrael, para devorarem


os restos dos demônios abortados, para evitar que a Luz escapasse, e
tantos devoraram que da Luz engolida nasceram Adão e Eva. Em Adão é
Jesus o Resplendor quem infunde a Consciência. Mas os descendentes de
Adão e Eva se alimentaram na copulação e na procriação, seguindo os
ditados da Matéria. Só os castos se salvarão.

Virá o Apocalipse e a Terra arderá durante 1.468 anos. O resto da Luz


subirá ao céu, enquanto se apaga o mundo visível e a Matéria e os
demônios descem ao seu eterno presídio, a um poço sem fundo, para que
Luz e Escuridão fiquem separadas também para sempre.