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M it o l o g ia

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Índice

Pág.
Mitologia Universal 01

Mito 01
Mitologia 01

Mitos Teogônicos 02

Mitos Cosmogônicos 03

Mitos Escatoló gicos 04

Mitologia Grega 05

Mitologia Romana 07

Mitologia Egípcia 09

Mitologia Chinesa 16

Mitologia Indiana 23

Mitologias Pré-Colombianas 30

O Segredo dos Astecas 32

Incas – Misticismo e Fé 37

Os Mayas 44

Vocabulário Maya 53

Mitologia Japonesa 54

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MITOLOGIA UNIVERSAL
MITO

s.m. (Do gr. mythos, palavra expressa, discurso, fá bula, pelo b. lat. mythus.) 1. Relato ou
narrativa de origem remota e significação simbó lica, que tem como personagens deuses,
seres sobrenaturais, fantasmas coletivos, etc. 2. Narrativa de tempos fabulosos ou
heró icos; lenda.

MITOLOGIA

s.f. (Do gr. mythologia.) 1. Estudo sistemá tico dos mitos. 2. Conjunto de mitos de uma
determinada cultura transmitido pela tradição (oral ou escrita).

Presentes em todas as culturas, os Mitos situam-se entre a Razã o e a Fé, mas sã o considerados
sagrados. Os principais tipos de mito referem-se àorigem dos deuses, do mundo e ao fim das
coisas. Distinguem-se mitos que contam o nascimento dos deuses (Teogonia), mitos que
contam a criaç ã o do mundo (Cosmogonia), mitos que explicam o destino do homem após a
morte (Escatologia) e outros. Segundo alguns especialistas, os mitos encarnam fenô menos
fundamentais da vida: o Amor, a Morte, o Tempo, etc., e certos fenô menos, como as
Florestas, as Tempestades, tê m sempre um mesmo valor simbólico, seja qual for a civilizaç ã o
considerada.

Vê nus, Sátiro e Cúpido

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MITOS TEOGÔ NICOS

Em muitas mitologias, delineiam-se hierarquias


de deuses, cada uma com um ou mais deuses
supremos. A supremacia pode ser partilhada
pelos membros de um casal, ou ser atribuída
simultaneamente a dois ou trê s deuses distintos.
Pode também variar com o tempo, segundo
circunstâncias históricas, como por exemplo o
domínio de um povo sobre outro ou o
predomínio de determinados interesses e
atividades (de tipo agrícola, guerreiro etc.). Sã o
freqüentes os relatos de deuses supremos, por
vezes identificados como criadores originais do
mundo, que a seguir ficam inativos e deixam o
governo a cargo de outro deus ou deuses. Em tais
casos, a supremacia significa perfeiç ã o,
autonomia, onipotê ncia (relativa), mas nã o
unicidade, como é o caso nas religiões monoteístas. Na Mitologia Grega, segundo a
apresentaç ã o de Homero, Zeus é o "pai dos deuses e dos homens". Essa expressã o nã o
significa que ele seja um deus criador, mas sim representante da figura do patriarca familiar.

Os trê s grandes deuses escandinavos que ocupavam posiç ã o superior no grande templo de
Uppsala eram Odin, Thor e Frey. Segundo o historiador das religiões Georges Dumézil, eles
representavam as trê s funç ões da sociedade indo-européia: autoridade, poder e fecundidade.
Odin era o deus da suprema autoridade cósmica, pai universal, rei dos deuses e senhor do
Valhalla (a morada final dos guerreiros mortos em combate). Thor era o deus guerreiro e do
trovã o, correspondente ao deus védico Indra. É representado como um gigante de barba ruiva,
e os mitos narram seus festejos pela vitória sobre as forç as do caos. Durante o período das
migraç ões e do florescimento dos viquingues (entre o século IX e XI da era cristã ,
aproximadamente), em que predominava o ideal guerreiro, a primazia sobre os deuses era
atribuída a Thor. Frey era o deus da fecundidade, representado com um falo de proporç ões
exageradas. Governava a chuva e o brilho do sol e, conseqüentemente, o crescimento das
plantas e as colheitas. No panteã o hinduísta, há uma entidade divina tríplice - a Trimurti -
formada pelos deuses Brahma, Vishnu e Shiva, criador, conservador e destruidor do universo,
respectivamente. Em certos aspectos, Brahma é um deus personificado; em outros, é um
princípio impessoal e infinito. Vishnu é o deus social por excelê ncia e destruidor daqueles que
ameaç am a boa ordem, enquanto Shiva representa a selvageria indomada. O interesse pelas
próprias origens motivou a formaç ã o de mitos sobre os grandes ancestrais dos povos ou
fundadores da sociedade. Na Mitologia Asteca, Huitzilopochtli conduziu seu povo até o lago
Texcoco, onde se fundou a Cidade do México. A inimizade entre Tezcatlipoca e Quetzalcóatl
representa a luta entre o povo asteca e o tolteca, e, quando este foi derrotado, o deus dos
vencidos passou a figurar em lugar preeminente do panteã o asteca. A tendê ncia a incorporar
os deuses dos povos conquistados é comum entre os povos politeístas.

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MITOS COSMOGÔ NICOS
Dentre as grandes interrogaç ões que o homem permanece incapaz de responder, apesar de
todo o conhecimento experimental e analítico, figura, em todas as mitologias, a da origem da
humanidade e do mundo que habita. É como resposta a essa interrogaç ã o que surgem os
Mitos Cosmogô nicos. As explicaç ões oferecidas por esses mitos podem ser reduzidas a
alguns poucos modelos, elaborados por diferentes povos. É comum encontrar nas várias
mitologias a figura de um criador, um demiurgo que, por ato próprio e autô nomo, estabeleceu
ou fundou o mundo em sua forma atual. Os mitos desse tipo costumam mencionar uma
matéria preexistente a toda a criaç ã o: o oceano, o caos (segundo Hesíodo) ou a terra (nas
Mitologias Africanas). A criaç ã o ex Nihilo (a partir do nada, sem matéria preexistente) já
reflete algum tipo de elaboraç ã o filosófica ou racional. A cosmogonia chinesa, por exemplo,
atribui a origem de todas as coisas a Pan Gu, que produziu as duas forç as ou princípios
universais do Yin e Yang, cujas combinaç ões formam os quatro emblemas e os oito trigramas
e, por fim, todos os elementos. No hinduísmo, o Rigveda descreve graficamente o nada
original, no qual respirou o Um, nascido do poder do calor.

A água é o elemento primordial mais freqüente das cosmogonias, sobretudo nas Mitologias
Asiáticas e da América do Norte. A consolidaç ã o da terra se faz pela aç ã o de um
intermediário (espírito ou animal) que a retira do fundo da água e introduz no mundo um
elemento de desordem ou de mal. A criaç ã o a partir do nada, unicamente pela palavra de
Deus, aparece claramente no livro bíblico do Gê nesis (associado, por sua vez, as Mitologias
Mesopotâmicas) e em cosmogonias polinésias. Outras cosmogonias apresentam a origem
divina do cosmo como emanaç ã o: por exemplo, a partir do suor, do sê men ou do sangue de
um deus. Outro mito cosmogô nico muito difundido (no Pacífico, na Europa e no sul da Á sia)
é o do ovo primordial. Na tradiç ã o hindu, a oraç ã o do mundo é simbolizada pela quebra de
um ovo. Alguns ciclos cosmogô nicos se referem a um par ou casal primevo, geralmente o céu
e a terra, que tiveram de ser separados violentamente para tornar possível a vida no espaç o
intermediário. Essa separaç ã o dolorosa se verifica em outros modelos, nos quais se menciona
um sacrifício inicial ou uma batalha entre seres superiores, de cujos membros esquartejados
brotam o cosmo e a vida terrestre. Na grande lenda babilô nica da criaç ã o, o Enuma Elish,
Tiamat, personificaç ã o do mar, é morto por Marduk, o deus protetor da Babilô nia, que entã o
constrói o universo a partir dos despojos daquele e cria os homens com o sangue de Kingu,
outro deus rebelde. O "hino do homem primordial", nos Vedas, fala de Prajapati - o senhor
dos seres, mais tarde identificado com o deus Brahma - como o homem cósmico cujo corpo é
sacrificado e do qual surge a variedade do mundo das formas. Outros mitos, por fim,
descrevem o surgimento da humanidade a partir das profundezas da terra (mitologia dos
índios Zuni, da América do Norte) ou a partir de uma rocha ou de alguma árvore de
importância cultural.

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MITOS ESCATOLÓ GICOS
Ao lado da preocupaç ã o com o enigma da
origem, figura para o homem, como grande
mistério, a morte individual, associada ao temor
da extinç ã o de todo o povo e mesmo do
desaparecimento do universo inteiro. Para a
Mitologia, a morte nã o aparece como fato
natural, mas como elemento estranho à criaç ã o
original, algo que necessita de uma justificaç ã o,
de uma soluç ã o em outro plano de realidade.
Trê s explicaç ões predominam nas diversas
mitologias. Há mitos que falam de um tempo
primordial em que a morte nã o existia e contam
como ela sobreveio por efeito de um erro, de castigo ou para evitar a superpopulaç ã o. Outros
mitos, geralmente presentes em tradiç ões culturais mais elaboradas, fazem referê ncia à
condiç ã o original do homem como ser imortal e habitante de um paraíso terreno, e apresentam
a perda dessa condiç ã o e a expulsã o do paraíso como tragédia especificamente humana. Por
fim, há o modelo mítico que vincula a morte àsexualidade e ao nascimento, analogamente às
etapas do ciclo de vida vegetal, e que talvez tenha surgido em povos agrícolas.

A idéia do julgamento dos mortos, sua absolviç ã o ou condenaç ã o predominou no antigo


Egito. Conforme descrito no papiro Ani, o coraç ã o do morto era levado àpresenç a de Osíris
num dos pratos de uma balanç a, para que fosse pesado em comparaç ã o com o que se
considera justo e verdadeiro: uma pena do deus Maat (simbolizado pela figura de um
avestruz) era posta no outro prato da balanç a. Os Hebreus, ao contrário, nã o tinham, até o
século II a.C., uma idéia clara a respeito de um julgamento último e seu correspondente
castigo ou recompensa: os escritos do Antigo Testamento mencionam apenas uma existê ncia
ultraterrena num mundo de penumbra (sheol). Similarmente, o pensamento mítico grego,
conforme explicitado por Homero, concebia a morte como uma desintegraç ã o, da qual apenas
uma espécie de fantasma (eidolon) descia ao Hades, onde levava uma existê ncia infeliz e
inconsciente. Já os mistérios de Elê usis, ao contrário, prometiam aos iniciados a felicidade
supraterrena, enquanto a filosofia platô nica e o orfismo (seguindo, provavelmente, tendê ncias
orientais) anunciavam a reencarnaç ã o. Zoroastro (século VI a.C.) falou de Chinvat, uma ponte
a ser atravessada após a morte, larga para os justos e estreita para os perversos, que dela caíam
no inferno. O zoroastrismo posterior elaborou a idéia de prê mio e castigo, de ressurreiç ã o dos
mortos e de purificaç ã o final dos pecadores.

Os mitos retratam freqüentemente o fim do mundo como uma grande destruiç ã o, de natureza
bélica ou cósmica. Antes da destruiç ã o, surge um messias ("Ungido") ou salvador, que resgata
os eleitos por Deus. Esse salvador pode ser o próprio ancestral do povo ou fundador da
sociedade, que empreende uma batalha final contra as forç as do mal e, após a vitória,
inaugura um novo estágio da criaç ã o, um novo céu e uma nova terra. Os mitos da destruiç ã o
escatológica manifestaram-se tardiamente, na literatura apocalíptica judaica, que floresceu
entre os séculos II a.C. e II d.C., e deixou sua marca no livro do Apocalipse, atribuído ao
Apóstolo Joã o. Exemplo típico de mito de destruiç ã o (embora nã o no fim dos tempos) sã o as
narrativas a respeito de grandes inundaç ões. É bastante conhecido o episódio do Antigo
Testamento que descreve um dilúvio e o apresenta como castigo de Deus àhumanidade. Esse
tema tem origens mais remotas e provém de Mitos Mesopotâmicos. Em quase todas as
culturas pré-colombianas encontram-se também mitos a respeito de dilúvios.

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MITOLOGIA GREGA
A Mitologia Helê nica é uma das mais geniais concepç ões que
a humanidade produziu. Os gregos, com sua fantasia,
povoaram o céu e a terra, os mares e o mundo subterrâneo de
Divindades Principais e Secundárias. Amantes da ordem,
instauraram uma precisa categoria intermediária para os
Semideuses e Heróis. A mitologia grega apresenta-se como
uma transposiç ã o da vida em zonas ideais. Superando o
tempo, ela ainda se conserva com toda a sua serenidade,
equilíbrio e alegria. A religiã o grega teve uma influê ncia tã o
duradoura, ampla e incisiva, que vigorou da pré-história ao
século IV e muitos dos seus elementos sobreviveram nos
Cultos Cristã os e nas tradiç ões locais. Complexo de crenç as e
práticas que constituíram as relaç ões dos gregos antigos com
seus deuses, a religiã o grega influenciou todo o Mediterrâneo
e áreas adjacentes durante mais de um milê nio. Os gregos
antigos adotavam o Politeísmo Antropomórfico, ou seja,
vários deuses, todos com formas e atributos humanos. Religiã o muito diversificada, acolhia
entre seus fiéis desde os que alimentavam poucas esperanç as em uma vida paradisíaca além
túmulo, como os heróis de Homero, até os que, como Platã o, acreditavam no julgamento após
a morte, quando os justos seriam separados dos ímpios. Abarcava assim entre seus fiéis desde
a ingê nua piedade dos camponeses até as requintadas especulaç ões dos Filósofos, e tanto
comportava os excessos orgiásticos do culto de Dioniso como a rigorosa ascese dos que
buscavam a purificaç ã o.

No período compreendido entre as primeiras incursões dos povos helê nicos de origem Indo-
européia na Grécia, no início do segundo milê nio a. C., até o fechamento das escolas pagã s
pelo imperador bizantino Justinianus, no ano 529 da era cristã , transcorreram cerca de 25
séculos de influê ncias e transformaç ões. Os primeiros dados existentes sobre a religiã o grega
sã o as Lendas Homéricas, do século VIII a. C., mas é possível rastrear a evoluç ã o de crenç as
antecedentes. Quando os indo-europeus chegaram àGré cia, já traziam suas próprias crenç as e
deuses, entre eles Zeus, protetor dos clã s guerreiros e senhor dos estados atmosféricos.
Também assimilaram cultos dos habitantes originais da península, os Pelasgos, como o
oráculo de Dodona, os deuses dos rios e dos ventos e Deméter, a deusa de cabeç a de cavalo
que encarnava o ciclo da vegetaç ã o. Depois de se fixarem em Micenas, os gregos entraram em
contato com a civilizaç ã o cretense e com outras civilizaç ões mediterrâneas, das quais
herdaram principalmente as divindades femininas como Hera, que passou a ser a esposa de
Zeus; Atena, sua filha; e Á rtemis, irmã gê mea de Apolo. O início da filosofia grega, no
século VI a.C., trouxe uma reflexã o sobre as crenç as e mitos do povo grego. Alguns
pensadores, como Heráclito, os Sofistas e Aristófanes, encontraram na mitologia motivo de
ironia e zombaria. Outros, como Platã o e Aristóteles, prescindiram dos deuses do Olimpo para
desenvolver uma idéia filosoficamente depurada sobre a divindade. Enquanto isso, o culto
público, a religiã o oficial, alcanç ava seu momento mais glorioso, em que teve como símbolo o
Pártenon ateniense, mandado construir por Péricles. A religiosidade popular evidenciava-se
nos festejos tradicionais, em geral de origem camponesa, ainda que remoç ada com novos
nomes. Os camponeses cultuavam Pã , deus dos rebanhos, cuja flauta mágica os pastores
tentavam imitar; as ninfas, que protegiam suas casas; e as nereidas, divindades marinhas. As
conquistas de Alexandre o Grande facilitaram o intercâmbio entre as respectivas mitologias,
de vencedores e vencidos, ainda que fossem influê ncias de caráter mais cultural que

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autenticamente religioso. Assim é que foram incorporadas àreligiã o helê nica a deusa frígia
Cibele e os deuses egípcios Ísis e Serápis. Pode-se dizer que o sincretismo, ou fusã o pacífica
das diversas religiões, foi a característica dominante do período Helenístico.

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MITOLOGIA ROMANA
Os romanos ultrapassaram todos os outros povos na
sabedoria singular de compreender que tudo está
subordinado ao governo e direç ã o dos deuses. Sua
religiã o, porém, nã o se baseou na graç a divina e sim
na confianç a mútua entre Deuses e Homens; e seu
objetivo era garantir a cooperaç ã o e a benevolê ncia
dos deuses para com os homens e manter a paz entre
eles e a comunidade. Entende-se por religiã o romana
o conjunto de crenç as, práticas e instituiç ões
religiosas dos romanos no período situado entre o
século VIII a.C. e o começ o do século IV da era
cristã . Caracterizou-se pela estrita observância de ritos
e cultos aos deuses, de cujo favor dependiam a saúde
e a prosperidade, colheitas fartas e sucesso na guerra.
A piedade, portanto, nã o era compreendida em termos
de experiê ncia religiosa individual e sim da fiel
realizaç ã o dos deveres rituais aos deuses, concebidos
como poderes abstratos e nã o como Divindades Antropomórficas. Um traç o característico dos
romanos foi seu sentido prático e a falta de preocupaç ões filosóficas acerca da natureza ou da
divindade. Seus preceitos religiosos nã o incorporaram elementos morais, mas consistiram
apenas de diretrizes para a execuç ã o correta dos rituais. Também nã o desenvolveram uma
mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter legalista e
conservador contentou-se em cumprir com toda exatidã o os ritos tradicionalmente prescritos,
organizados como atividades sociais e cívicas. O ceticismo religioso chegou a ser uma atitude
predominante na sociedade romana em face das guerras e calamidades, que os deuses, apesar
de todas as cerimô nias e oferendas, nã o conseguiam afastar. O historiador Tacitus comentou
amargamente que a tarefa dos deuses era castigar e nã o salvar o povo romano. A índole
prática dos romanos manifestou-se também na política de conquistas, ao incorporar ao próprio
panteã o os deuses dos povos vencidos. Sem teologia elaborada, a religiã o romana nã o entrava
em contradiç ã o com essas deidades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados uma
doutrina própria. Durante a república, no entanto, foi proibido o ensino da Filosofia Grega,
porque os filósofos eram considerados inimigos da ordem estabelecida. Os valores
dominantes da cultura romana nã o foram o pensamento ou a religiã o, mas a retórica e o
direito.

Com as crises econô micas e sociais que atingiram o mundo romano, a antiga religiã o nã o
respondeu mais às inquietaç ões espirituais de muitos e, a partir do século III a.C., começ aram
a se difundir religiões orientais de rico conteúdo mitológico e forte envolvimento pessoal,
mediante ritos de iniciaç ã o, doutrinas secretas e sacrifícios cruentos. Nesse ambiente
verificou-se mais tarde a chegada dos primeiros cristã os, entre eles os apóstolos Pedro e
Paulo, com uma mensagem ética de amor e salvaç ã o. O cristianismo conquistou o povo, mas
seu irrenunciável monoteísmo chocou-se com as cerimô nias religiosas públicas, nas quais se
baseava a coesã o do estado, e em especial com o culto ao imperador. Depois de sofrer
numerosas perseguiç ões, o cristianismo foi reconhecido pelo imperador Constantinus I no
ano 313 d.C. Sã o escassas as fontes que permitem reconstruir a vida da primitiva Roma,
pequena cidade-estado que se formou por volta do século VIII a.C. A descriç ã o mais antiga é
do historiador romano Marcus Terencius Varrã o, do século I a.C., mas seu testemunho já
mostra a grande influê ncia da Cultura Grega, que motivou a reinterpretaç ã o da tradiç ã o

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religiosa. No período de formaç ã o original, a religiã o dos romanos já apresentava
características utilitárias, em que as preocupaç ões se centravam na satisfaç ã o das necessidades
materiais, como boas colheitas e a prosperidade da família e do estado em tempo de paz e de
guerra. Entre os deuses mais importantes dessa época estã o Júpiter, deus do céu, o maior
deles; Marte, deus da guerra; Quirino, protetor da paz, identificado depois com Romulus; e
Juno, cuja funç ã o principal era dirigir a vida das mulheres. Outras deidades menores eram
figuras vagas de funç ões limitadas e claramente definidas. Como os deuses maiores, tinham
poderes sobrenaturais e, pelo culto adequado, podiam ser induzidos a empregá-los em
benefício dos adoradores. A curiosidade dos romanos, porém, nã o passava desse ponto: os
deuses nã o tinham mitos, nã o formavam casais e nã o tinham filhos. Os romanos nã o tinham
também uma casta sacerdotal; seus ritos eram executados com meticulosa exatidã o por chefes
de família ou magistrados civis. Essas atividades clericais, porém, eram reguladas por
colégios sacerdotais.

Na segunda metade do século VI a.C., os Etruscos conquistaram a cidade de Roma e


introduziram nas práticas religiosas o culto às estátuas dos deuses, os templos, a adivinhaç ã o
mediante o escrutínio das entranhas de animais sacrificados e do fogo e maior solenidade nos
ritos funerários. O primitivo calendário religioso lunar, de dez meses, foi substituído pelo
calendário solar de 12 meses. Nesse período ocorreu a incorporaç ã o de deuses que nã o eram
apenas etruscos. Júpiter ganhou como consortes Juno e Minerva, uma uniã o que resultou da
influê ncia grega, já que as duas deusas foram identificadas como Hera e Atena, mulher e
filha de Zeus. Vênus e Diana surgiram de fontes italianas. Entre os deuses incorporados ao
panteã o romano por influê ncia etrusca estã o Vulcano, deus do fogo, e Saturno, divindade de
funç ões originais obscuras. O Período Republicano, do século V ao século I a.C.,
caracterizou-se pela ampliaç ã o da influê ncia da cultura grega, cujos mitos revitalizaram os
deuses romanos ou introduziram novas divindades, como Apolo, que nã o tinha um
equivalente romano geralmente reconhecido, e Esculápio. Outro costume importado da Grécia
foi convidar os deuses para o banquete sagrado, o Lectisternium, no qual eram representados
por suas estátuas e associados em casais, como Júpiter e Juno, Marte e Vê nus etc. As figuras
juntas nos banquetes formaram o grupo grego popular e típico de 12 deuses. Foram
introduzidos ainda cultos orgiásticos do Oriente Médio, como o da deusa Cibele, a Grande
Mã e, e o de Dioniso, que em Roma foi identificado como Baco. O imperador Augustus quis
reavivar os cultos tradicionais - ele mesmo foi divinizado após a morte - e reconstruir os
templos antigos. A crescente demanda por uma religiã o mais pessoal, porém, que nem as
religiões tradicionais gregas nem as romanas eram capazes de satisfazer, foi atendida por
vários cultos do Oriente Médio, que prometiam a seus seguidores o favor pessoal da
divindade e mesmo a imortalidade se certas condiç ões fossem atendidas, entre elas a iniciaç ã o
secreta em ritos misteriosos. O primeiro deles foi o de Ísis que, embora de origem egípcia,
sofreu modificaç ões em sua passagem pela Gré cia. Depois veio o culto de Atis, consorte da
Grande Mã e, e por último o de Mitra, de origem Persa, que se tornou o predileto dos soldados
romanos. No último período do Impé rio Romano, desenvolveu-se de forma particular o culto
ao Sol, e o imperador Aurelianus proclamou como suprema divindade de Roma o Sol
Invicto. Mas essas tentativas de reavivar uma religiã o que sempre servira aos interesses do
estado fracassaram, ante a expansã o do Cristianismo que, em 391, foi declarado religiã o
oficial do estado pelo imperador Theodosius I, que suprimiu o culto tradicional.

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MITOLOGIA EGÍPCIA
Como em todas as civilizaç ões antigas, a
Cosmogonia ocupa a primeira parte dos textos
sagrados egípcios, tentando explicar com a fantasia e
o relato milagroso tudo quanto se escapa do reduzido
âmbito do conhecimento humano. Para os egípcios,
como para o resto das grandes religiões, a criaç ã o do
Universo faz-se de um único ato da vontade
suprema, a partir do nada, da escuridã o, do caos
original. O seu criador chama-se Nun e era o espírito
primigê nio, o indefinido ser que tinha tomado o
aspecto do barro. Este barro que aparece com tanta
freqüê ncia em todas as mitologias junto dos
parágrafos das criaç ões de deuses e de homens, a
matéria-prima por excelê ncia dos oleiros e (por
assimilaç ã o) a matéria lógica para os deuses
criadores, nã o era senã o a terra e a água próximas
dos antigos povoadores do mundo. Por isso o barro
Nun foi o berç o espiritual, a primeira forç a em que ia
tomando forma o novo espírito da luz, Ra, o disco solar, pai de tudo o que habita sob os seus
raios. Da vontade de Ra vã o nascer os dois primeiros filhos diferenciados da divindade: sã o
Tefnet e Chu. Ela é a deusa das águas que caem na terra e ele é o deus do ar, e os dois filhos
estarã o com o grande pai Ra no firmamento, compartilhando a sua glória e o seu poder e
ajudando-o na longa e eterna viagem. Mas também Chu e Tefnet vã o continuar a obra iniciada
por Ra, criando da sua uniã o outros dois novos filhos, os dois sucessores da última geraç ã o
celestial: o deus da terra Geb, e a sua irmã e esposa, a deusa do céu Nut, para que eles relevem
àprimeira geraç ã o e criem a terceira, a que vai estar na terra do Egito.

Os filhos de Geb e Nut, os quatro filhos do Céu e da Terra, dois homens e duas mulheres
(embora haja versões que dã o um quinto filho, chamado Horoeris), formam a primeira
geraç ã o de seres que vivem no solo do Egito, os quatro primeiros deuses que se ocupam dessa
terra escolhida e que velam por ela, ou que entram no mundo egípcio para completar o
binô mio do bem e do mal, da vida e da morte. O primeiro dos homens e o mais velho dos
quatro, Osíris, é o deus da fecundidade, a divindade que representa e sustenta a continuidade
da natureza; ele é quem faz nascer a semente, quem a amadurece e quem agosta os campos;
Osíris é o princípio da própria vida. Ísis, a sua irmã e esposa, reina em igualdade sobre o
extenso domínio do Nilo, em perfeita harmonia com o seu irmã o, formando o casal positivo
do binô mio. Se Osíris se encarrega de proporcionar a vida aos humanos, Ísis está sempre à
frente, após a invenç ã o de todas as artes necessárias para desenvolver a vida, desde a moagem
do grã o até às complexas regras e leis da vida familiar. Neftis, a segunda irmã e a mais
pequena de todos, nã o podia ter a sorte de Ísis, a sorte de ser esposa do bom e belo Osíris; por
isso Neftis ficou àmargem da felicidade; também por isso era a representaç ã o do resto do país
útil, a deusa das terras menos felizes, as terras secas junto dos campos de cultivo; as parcelas
de sequeiro que nã o tinham a sorte de ser regularmente inundadas pela água e pelo limo do rio
nas suas cheias anuais. Set, o segundo homem e o terceiro dos filhos, é a criatura que
pressagiou o seu destino ao nascer prematuramente, dado que abriu o ventre da sua mã e Nut,
fazendo-a sofrer cruelmente; Set é o deus da maldade, o espírito negativo e o representante do
deserto sem vida, a personificaç ã o da morte.

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Naturalmente, Set odeia desde a infância o primogê nito Osíris; esta é a fábula constante do
bom irmã o diante do mau; é a lenda exemplificadora do mau assassinando o bom, tentando
evitar a sua clara superioridade, tentando apagar com a morte a distância entre ambos. Mas
continuemos com a história dos quatro filhos de Geb e Nut, e digamos que Set casou com a
sua irmã Neftis, mantendo a tradiç ã o iniciada pelos seus antecessores divinos. Mas Neftis foi
esposa do malvado Set também mau grado seu, porque ela amava Osíris, e deste casamento
nã o surgiu nenhum filho, porque Set tinha que ser forç osamente estéril pela sua maldade. Mas
nã o sucedeu a mesma coisa com Neftis, dado que ela sim, conseguiu ter um filho e,
precisamente um filho de Osíris. Para conseguí-lo, embebedou o seu irmã o e deitou-se com
ele. Esse filho nasceria mais tarde e seria conhecido com o nome de Anúbis. Neftis amava
tanto Osíris e tanto desprezava o seu marido que, quando se produziu o seu assassínio, a boa e
infeliz Neftis fugiu do seu perverso marido, para poder estar ao lado do amado, junto da sua
irmã Ísis, ajudando-a no embalsamamento. Após aquele momento, Ísis e Neftis
permaneceriam sempre unidas à morte, acompanhando o piedoso defunto na sua sepultura,
para proporcionar-lhe a ajuda que necessitasse no outro lado da morte. Ao assassinar Osíris,
Set só conseguiu divinizar ainda mais o seu odiado irmã o, porque o Osíris triunfante sobre a
morte ia estabelecer-se como a personificaç ã o divina do ciclo, e voltaria a nascer e morrer
eternamente, reinando na vida eterna do céu e deitando sobre o seu traidor irmã o na terra, ao
ficar com as suas posses e ser a figura amada pelas duas irmã s Ísis e Neftis, a figura adorada e
homenageada por todos os egípcios, a divindade bondosa que governava as estaç ões e o
benéfico Nilo em proveito dos homens.

Nã o foi demasiado difícil a Set terminar com a vida do seu bom irmã o, o grande rei Osiris,
apesar da constante vigilância que Ísis mantinha sobre as suas idas e vindas, dado que ela sim
conhecia bem o seu malvado irmã o e nã o confiava de maneira nenhuma nas suas artes.
Depois de tentar uma e outra vez assassiná-lo sem ê xito, finalmente Set tramou um plano que
lhe permitia iludir Ísis e assim mandou construir uma caixa muito rica e bela, com o tamanho
exato do seu irmã o. Com a caixa em seu poder, Set organizou uma grande festa, à qual
convidou Ísis e Osíris, junto com outras setenta e duas personagens, que nã o eram outras que
os seus aliados no sinistro plano. Terminada a festa, Set comentou que tinha idealizado um
jogo, que consistia em ver quem de todos os presentes cabia melhor naquela magnífica arca, e
para o feliz tinha reservado um grandioso prê mio. Os convidados provaram sorte, mas
nenhum dava o tamanho adequado, de maneira que chegou a vez de Osíris e ele sim, enchia
completamente o buraco da caixa. Mas nã o havia tal prê mio; os presentes lanç aram-se em
tropel e encerraram o rei dentro dela; depois lanç aram-na ao Nilo e o rio arrastou a caixa e a
sua carga para o mar. Ísis saiu em perseguiç ã o do baú e Neftis uniu-se ela rapidamente na
procura, enquanto Set e as suas seis dúzias de cúmplices celebravam precipitadamente a
suposta vitória do usurpador. As duas irmã s entretanto, encontraram a caixa onde Osíris tinha
sido encerrado e comprovavam que já era simplesmente um cadáver. Com os seus tristes
lamentos e prantos, as irmã s comoveram os deuses e estes decidiram trazer de novo àvida ao
infeliz Osíris, mandando-as que amortalhassem o seu corpo embalsamado em ligaduras,
dando assim a pauta para o posterior rito funerário, ou que reunissem os seus restos para
poder insuflar de novo a vida no seu destroç ado corpo, segundo a versã o correspondente.

Também se conta, em outros relatos sagrados, que a arca tinha saído para o mar quando Ísis
chegou àfoz do Nilo, e só terminou a sua viagem na muito longínqua costa da Fenícia, indo
de encontro a um tronco que crescia à beira do Mediterrâneo, muito próximo da cidade de
Biblos. a árvore, milagrosamente, cresceu num instante, englobando o féretro flutuante no seu
tronco para dar-lhe o último abrigo. Movido pelo destino, o rei de Biblos viu aquela
gigantesca árvore e mandou cortar o seu tronco e com ele ordenou construir uma coluna para

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o seu palácio. Mas Ísis soube também do portentoso fato e empreendeu a viagem até chegar à
cidade de Biblos, onde pediu ser recebida pelo rei, para fazer-lhe saber a razã o da sua penosa
expediç ã o. O rei ouviu o relato da rainha e ordenou imediatamente que lhe fosse devolvido o
caixã o onde repousavam as restos mortais do bom Osíris. Concedido o seu desejo e com o
caixã o em seu poder, regressou sigilosamente para o Egito, nã o sem antes tentar ocultar o
cadáver do infeliz esposo da maldade de Set. Mas Set, senhor da noite e das trevas, deu com
ele e voltou a tentar terminar com a ameaç a que Osíris representava, fazendo com que os seus
restos fossem dispersos por todo o imenso e intransitável delta do grande rio. De novo Ísis
empreendeu a procura dos restos de Osíris nos pântanos do Nilo e, um a um, reuniu outra vez
o cadáver. Quando os conseguiu, tomou a forma de uma grande ave de presa e pousou-se
sobre os despojos, batendo as suas asas até que com o seu ar benfeitor insuflou uma vida
renovada em Osíris. O esposo ressuscitado tomou-a e a boa Ísis ficou grávida de Hórus, o
filho que teria de vingar o pai assassinado e restauraria a ordem divina no Egito. Mas,
enquanto chegava o momento do nascimento de Hórus, Ísis ocultou-se de Set nos pantanosos
terrenos do delta do Nilo.

Osíris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente em Ísis e dela nasceu
felizmente Hórus em Jenis. Com a presenç a devota da sua mã e foi educado no maior dos
segredos, preparando-se com esmero e paciê ncia o sucessor do rei assassinado no seu
esconderijo do Delta, enquanto a mágica Ísis o cobria com a impenetrável couraç a dos seus
conjuros, esperando até que chegasse a hora da vinganç a definitiva. E esta hora chegou, mas a
luta entre Set e Hórus seria longa e angustiosa; uma briga que aparecia nã o ter fim, na qual
um e outro infringiam tanto mal como o que recebiam do seu adversário. Tã o penoso era o
combate que Tot, o deus da Lua e a divindade da ordem e a inteligê ncia, se apiedou dos
combatentes e interveio para mediar na disputa, levando a ambos perante o tribunal dos
deuses e fazendo comparecer também Osíris, para que todos pudessem ouvir as razões de um
e dos outros. O tribunal sentencia que, na causa entre Set e Osíris, seja Osíris quem recupere o
reino que teve em vida, e acrescenta à sua coroa a parte do país que originalmente
correspondeu ao seu irmã o e assassino. Na longa e controversa vista da briga entre Set e
Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juízes celestiais terminaram por sentenciar
o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de Osíris recuperava
o que correspondia pela sua linhagem: a sucessã o no trono de Egito. Assim, o filho era
reconhecido pela divindade como soberano indiscutível, dentro da tradiç ã o clássica que
adjudicava aos reis e aos reinos um sentido de vontade divina. Por estas duas sentenç as Set
perde o seu poder, conquistado com enganos, mas nã o é castigado senã o afastado do mundo;
Set passa a ser também uma divindade necessária ao ser acolhido por Ra, divindade solar,
para que se ocupe nos céus de alternar a noite com o dia e deixe que sejam os reis os que
governem sobre a terra. Hórus, por sua vez, engendra quatro filhos: Amsiti, Hapi, Tuemeft e
Kevsnef; embora nã o se especifique com exatidã o quem pode ser a mã e, se é que existe tal
(há quem dizem que sã o filhos de Hórus e da sua mã e Ísis). Estes filhos, que acompanharã o
Osiris nos julgamentos aos mortos, também cuidam dos quatro pontos cardeais e se ocupam
de velar pelas necessidades e pela saúde das entranhas de Osíris.

Como costuma contar-se em todos os mitos, uma vez passada a primeira época de harmonia,
as criaturas terrestres, os seres privilegiados criados pela simples vontade de Ra, deus
supremo, levantaram-se contra o seu senhor. Eram as sucessivas lutas à morte entre os
inimigos da terra e as comitivas celestiais, lutas tã o ferozes que foram desgastando as energias
de Ra, até o fazer perder a sua forç a e babar. Com essa baba caída da sua boca, Ísis formou
um barro e com ele construiu o áspide que -colocado no caminho do deus- envenenou Ra.
Feito isto, Ísis apresentou-se diante do ferido, prometendo o antídoto em troca de que a

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divindade revelasse o seu nome secreto. Ra resiste enquanto pode agüentar a dor terrível, e
trata em vã o de esquivar a resposta, pois sabe que o nome da coisa e o poder sobre ela sã o
uma única coisa. Mas afinal, vencido pela crescente dor, Ra tem que aceitar e dizer ao ouvido
de Ísis esse nome que agora também ela vai conhecer, comunicando-lhe com esse ato a sua
forç a total. Uma vez vencido por Ísis, o enfraquecido Ra vai ser também o alvo de outros
ataques dos seres humanos, e a sua vinganç a, através da deusa Sekhmet, a mulher-leoa que
encarnava a guerra, é tã o terrível que quase termina com a humanidade, embora seja maior o
amor que sente pela sua obra criadora, apiedando-se dos aç oitados humanos justamente a
tempo, ao enviar uma chuva de cerveja vermelha que cobre toda a superfície do planeta,
confundindo Sekhmet, que a toma por sangue e trata de saciar a sua sede de morte com ela,
embriagando-se com o vermelho líquido de tal maneira que deixa de executar a sentenç a de
morte que Ra tinha decretado para os humanos. Depois deste ato de compaixã o para com os
seus desagradecidos filhos da Terra, Ra retira-se para sempre de todo o relacionado com os
assuntos de governo, cedendo ao filho do seu filho Chu, o bom Geb, representante divino do
planeta, o poder sobre o globo terrestre e quem sobre ele habita, pessoas, animais ou vegetais,
mas sem o abandonar à sua sorte, dado que Ra se compromete a ajudá-lo com os seus
conselhos e perpétua vigilância.

Já conhecemos Tot quando interveio nos pleitos divinos entre Osíris, Hórus e Set, levando a
sua arbitragem ao tribunal dos deuses, mas fica por definir a sua origem, o seu poder, dado
que ele era o ser que reinava sobre todo o Universo com a sua sabedoria e punha nele a
ordem. O grande Tot é identificado com a posse de todos os conhecimentos mágicos e
considerado inventor da palavra, criador da escritura, o ser superior que manejava os
conceitos e possuía, pois, o poder sobre os seres e as coisas inanimadas. Por essa ordem, era o
deus natural dos muito importantes e onipresentes escribas de Egito, o grupo dos mais
significados funcionários de todo o reino, dos homens que contavam e relacionavam todos os
atos, os que catalogavam as posses de reis e senhores, e os que narravam as crô nicas de cada
época. Tot, por sua parte, estava encarregado, como escriba, em fazer a relaç ã o dos reis
presentes, passados e futuros. Ele conhecia o destino dos rebentos reais e apontava qual deles
reinaria pela vontade dos deuses sobre todo o império do Nilo e quanto duraria o seu feliz
reinado. Tot determinava assim tudo o que estava escrito (pela sua própria mã o) que devia
suceder, ele era a personificaç ã o do destino omnisciente. Desposado com Maat, deusa da
justiç a e filha de Ra, formava um casal que compreendia todo o âmbito da justiç a, pois ele
exercia-a sobre os deuses e os seres vivos, e Maat presidia o julgamento dos mortos, junto
com Osíris. Também se apresenta Tot casado com outras duas esposas de ascendê ncia divina,
Seshet e com Nahmauit, e era considerado o pai de outros dois deuses menores, Hornub, filho
havido com a primeira, e NeferHor, na sua uniã o com a segunda, e gozava de um mê s com o
seu nome, consagrado a ele, situado no princípio de cada ano.

Se importante era a alma universal de Tot, Amon converteu-se no rei dos deuses a partir da
capitalidade de Tebas, no poder divino aos faraós e no deus único e oficial do Egito,
substituindo-se a partir do trono o culto ao cansado e enfraquecido Ra no transporte do disco
solar ao longo do arco celestial. Amon, com um critério coerente com a importância do astro
solar, passou a ser o deus da vida, da criaç ã o, da fertilidade. Quando desaparecia no céu
visível, Amon passava a iluminar a noite dos mortos, o outro lado da vida. Depois, com o
reinado de Amenofis (auto-batizado Akhaenaton), Amon foi substituído por Aton, um
derivado do deus criador, Atum, que doador da vida original foi converter-se na representaç ã o
do sol de Poente e de lá, por vontade do faraó, no deus único. Mas ainda mudando de nome
continuava a ser o mesmo deus solar, e pouco custou -após a morte do herege rei Akhaenaton-
devolver-lhe o velho nome e as antigas atribuiç ões, para recuperar a sua identidade inicial de

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Amon e ultrapassar os limites do império egípcio, sendo adotado como deus supremo nos
povos vizinhos da Líbia, Núbia e Etiópia, convertendo-se em deus oracular no seu grande
templo situado no meio das arenas desérticas da Líbia. O grande Amon, casado com a deusa
Mut, teve um filho, Jons, que passou de ser uma divindade lunar secundária para converter-se
em permanente acompanhante do seu pai nas diárias travessias a bordo da barca solar. Com
Mut e Jons, completa-se o panteã o tebano e fecha-se completamente a sagrada trindade dos
deuses de Tebas, àsemelhanç a do trio formado por Osíris, Ísis e Hórus.

Se grande era o poder dos deuses e quase tanto o dos seus designados, os faraós, o mundo da
morte era, em definitiva, o que governava a vida dos humanos, dado que toda a vida se
orientava a cumprir com o custoso rito do enterramento, da preservaç ã o do corpo do defunto e
do reuniã o dos muitos bens que deviam acompanhá-lo na sua marcha para a vida eterna. Além
de todo este cortejo de móveis, barcas rituais, imagens do morto, efígies dos deuses menores e
maiores, alimentos, livros de oraç ões e conselhos, devia permanecer o corpo, tã o intacto como
se soubesse fazer, porque ainda nã o se tinha chegado a abstrair a idéia da "alma", e só se
identificava a possibilidade da vida após a morte com a conservaç ã o do aspecto humano. Por
isso, nos enterros mais privilegiados conservavam-se embalsamadas por separado, junto da
múmia igualmente embalsamada, as vísceras do defunto, dado que nã o resultava possível,
pela sua rápida deterioraç ã o, mantê -las dentro do cadáver. Aqui desempenhavam um papel
decisivo os quatro filhos de Hórus, dado que -como faziam com as entranhas de Osíris - eles
cuidavam do bom estado das vísceras humanas e as protegiam de qualquer perigo que pudesse
ameaç á-las. As quatro repartiam as suas funç ões da seguinte maneira: Amsiti estava ao
cuidado da vasilha que continha o fígado; Hapi velava pela urna onde se encontrava o
pulmã o; Tuemeft vigiava o estô mago do defunto; e, finalmente, Kebsnef cuidava do vaso no
qual se conservavam os intestinos. Mas os quatro filhos de Hórus nã o estavam sozinhos
nestas transcendentais tarefas de ultra-tumba, dado que Ísis acompanhava Amsiti; Neftis
estava com Hapi; Tuemeft cumpria a sua missã o junto de Neith, a deusa das águas do Nilo; e
Selket, divindade do Delta e que tinha criado o grande Ra, estava com Kebsnef.

Osíris, com Hórus, Tot e Maat e os seus quarenta e dois assessores especializados nas
quarenta e duas faltas que deviam ser calibradas, (sete vezes seis, um número duplamente
mágico), presidia as cerimô nias do estrito julgamento dos mortos. Ante ele eram pesadas as
boas e as más obras do defunto, a alma ou resumo da sua vida, e julgava-se essa relaç ã o de
pecados ou virtudes. Mas nã o terminava o trâmite com a pesagem e defesa do defunto; após
essa primeira parte, se passava a contrastar se o exposto tinha sido certo e tudo o julgável
tinha sido trazido àluz. A veracidade do julgamento da alma era verificada com a pesagem
minuciosa e precisa do coraç ã o, colocado na balanç a diante de uma leve pena, e bastava que
esse coraç ã o fosse o que inclinasse a balanç a para o seu lado para que se condenasse o morto
na verdadeira prova final, sendo condenado a padecer todos os sofrimentos possíveis,
imobilizado na escuridã o da sua tumba ou imediatamente o seu corpo devorado por uma
aterradora divindade, Tueris, uma criatura com cabeç a de crocodilo e corpo de hipopótamo
que aguardava pacientemente o mentiroso. Se tudo estava a favor do defunto, Osíris
premiava-o com o renascimento e a passagem para a vida eterna. Mas junto dele estavam
outras duas divindades especializadas no ciclo da morte: Anúbis, filho de Neftis e Osíris,
embora criado e educado por Ísis, e Upuaut, um antigo deus da guerra. Os dois aparecem
sempre com cabeç a de chacal, ou de cã o (especialmente Anúbis) acompanhando Osíris no
transe do julgamento como seus primeiros auxiliares. Eram dois seres acostumados a cuidar
dos mortos, um por ter ajudado no seu dia a embalsamar o cadáver de Osíris, e o outro por ter
tido que fazê -lo em tantas ocasiões, quando guiava as expediç ões guerreiras e devia cumprir o
ritual com os seus guerreiros falecidos em combate.

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Embora fundamental para a vida em Egito, o grande rio, o Nilo, nunca chegou a ter uma
divindade que o representasse no panteã o nacional em igualdade de condiç ões com os outros
deuses, e só contou com o deus Hapi, que nã o era o mesmo que oficiava como filho de Hórus,
dado que este tinha rasgos híbridos de mulher e de homem e luzia roupas de barqueiro do rio,
tendo a sua morada numa caverna próxima da primeira catarata, a mais de mil quinhentos
quilô metros da foz. Outras partes do rio tiveram quase mais importância do que Hapi, como
foi o caso da grande corrente de água que conformava o rio - Satis - representada por uma
mulher tocada com a tiara branca do alto Nilo e o arco e as flechas nas suas mã os, que era
esposa da divindade da primeira catarata - Jnum - um deus com cabeç a de carneiro, embora
haja que precisar que foram quatro os diferentes Jnum venerados sobre as águas do Nilo.
Também era esposa do Jnum da primeira catarata a deusa Anukit, a divindade que
representava o estreitamento do rio àsua passagem pelas gargantas rochosas de Filae e Siena,
ou o deus dos lagos -Hersef- que aparecia aos homens com o corpo de um homem e a cabeç a
de um borrego. Sabek, com cabeç a de crocodilo, era a divindade das inundaç ões benfeitoras,
filho da deusa Neith, protetora das terras fecundas do Delta. Para as terras secas do Egito
existia também uma divindade masculina específica, Minu, relacionada com a proteç ã o dos
viajantes que cruzavam as solitárias e calorosas arenas do deserto, e também encarregado da
fecundidade dos campos e do gado. Nejbet, como mulher tocada com a tiara branca, ou em
forma de abutre que voava sobre a cabeç a dos reis, era a deusa protetora do Alto Egito.
Hathor, além de ser a vaca criadora de tudo o visível e a protetora das mulheres e a
maternidade, também estava situada no limite entre as terras férteis e as secas, oferecendo das
figueiras a água e o pã o aos mortos que se aproximavam do seu terreno para fazer-lhes saber
que eram bem-vindos.

Se a alegre e feliz Hathor tinha a forma de uma vaca, o seu animal companheiro devia ser o
muito relevante deus Á pis, o boi divino adorado desde os primeiros tempos da existê ncia do
Egito, embora nã o chegasse à sua categoria celestial. Nã o é de admirar esta representaç ã o
animal dado que todos os deuses egípcios tinham uma característica animal que geralmente
portavam nas suas figuraç ões em lugar da cabeç a humana, quer fosse uma de falcã o, como no
caso de Hórus; de chacal ou cã o, como a que distinguia Anúbis; de leoa, como a que
personificava a deusa Sekhmet; de vaca, como às vezes levavam Ísis e Neftis; de bode, como
podiam luzir Ra e Osíris; a cabeç a de gato que diferenciava Bast e Mut; a de ganso que era a
de Amon; o íbis e o macaco que encarnavam o supremo Tot; o escorpiã o que representava o
espírito da deusa Selket, ou o fê nix triunfal, que era a melhor forma de dar a conhecer a
eternidade da alma dos dois grandes deuses Ra e Osíris. Mas o boi Á pis era um verdadeiro
animal, selecionado entre os seus congê neres de acordo com umas marcas sagradas que
deviam exibir, para servir de centro do seu culto; era cuidado no seu templo de Mê nfis
durante vinte e cinco anos, se chegasse a alcanç ar tal idade, depois era afogado e mumificado,
para dar lugar ao seu sucessor. Mas junto da magnificê ncia do boi Á pis, nã o há que esquecer
o escaravelho sagrado, o Jepri, representaç ã o viva e múltipla do deus do sol e venerado em
todos os cantos do Egito, sendo uma das representaç ões mais freqüentes da divindade solar,
que faz parte essencial da civilizaç ã o egípcia e que está imortalizado entre os signos
escolhidos para a linguagem escrita.

Como pudemos ver, na envolvente da muito importante civilizaç ã o egípcia se gera grande
parte dos conhecimentos que vã o fazer parte das culturas mediterrâneas. Como é natural,
também no Egito nascem grande parte dos mitos recolhidos posteriormente pelos povos
próximos, por hebreus e cristã os na Bíblia e pelos muç ulmanos no Corã o. Egito é o berç o da
gê nese hebraica, é a primeira cultura que trata de sintetizar a criaç ã o do mundo e o seu barro
original, é aceita para explicar também os diferentes credos que se elaboram a partir do seu.

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Egito é, sobretudo, o berç o indiscutível do monoteísmo, do futuro deus único; do Egito, esta
proposta sai para o norte com os hebreus que viviam e trabalhavam para os faraós; os cristã os
retomam-na e os muç ulmanos elaboram-na com novos dados, conservando o núcleo dos
relatos bíblicos e acrescentando os elementos cristã os posteriores na sua singular recopilaç ã o
do relato dos livros santos; também lá, com Set e Osíris, está a origem do mito de Caim e
Abel como o vai estar o de Maria, nos primeiros séculos do cristianismo, da diocese de
Alexandria, como mã e do menino Jesus, à qual se passa a denominar Rainha dos Céus,
aproveitando o fervor que esta imagem levanta nos fiéis egípcios, mantendo-a igual a Ísis
quando era adorada com o seu filho-irmã o Osíris nos braç os como prova do seu contínuo
renascimento. Ainda mais importante: a vida depois da morte é outra das grandes idéias,
talvez a fundamental, sobre as quais gira o espírito religioso egípcio, e essa promessa de vida
eterna de uma melhor vida para os justos.

Se se quer encontrar a melhor aportaç ã o da mitologia egípcia às religiões posteriores, há que


procurá-la na grande esperanç a que implica o seu sistema de julgamento dos seres humanos.
A recompensa imensa que os sucessivos deuses únicos (Jeová, a Trindade, Alá) vã o oferecer
aos hebreus, aos cristã os e aos muç ulmanos, é a mesma que se descreve no Egito com o relato
do julgamento de Osíris e a possibilidade da eternidade feliz; ao sair do seu contexto
faraô nico original democratiza-se e torna-se acessível a todos os fiéis por igual, ou mais
concretamente, é oferecida com maior seguranç a a quem mais sofre, a quem menos possuí e
desfruta nesta vida terrena, sendo a de Osíris a primeira idéia que o homem forja sobre a
existê ncia de um ser superior que tem que julgar os méritos e deméritos de cada um de nós.
Com Osíris estã o os seus quarenta e dois assessores, e deles nasce e fortalece-se a idéia do
pecado estabelecido, a regra da religiã o exata e canô nica, que toma corpo nos livros que no
futuro querem ser norma inapelável. Para os cristã os, as tríades dos deuses egípcios (Osíris,
Ísis e Hórus, ou Amon, Mut e Jons) consolidam-se e mantê m-se no conceito trinitário do seu
deus. Egito, inicialmente isolado pelo deserto e pelos terrenos pantanosos do Delta, abre-se
aos gregos e aos romanos e, através de Roma, a sua última dominadora, após a guerra entre os
dois grandes rivais na luta pelo Império, Julius Caesar e Marcus Antonius, junto de Cleópatra,
a rainha grega dos últimos dias da sua existê ncia independente e grandiosa, termina por
exportar para o Oriente próximo e para o Ocidente inteiro a base do seu ideário mítico,
quando parece que o seu poder já se extinguiu para sempre.

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MITOLOGIA CHINESA
Quanto à mitologia de todo este vasto território do
continente asiático, pode constatar-se que, realmente,
talvez seja uma cópia da própria organizaç ã o
hierarquizada da sociedade chinesa, pois assim como
havia um governante máximo à frente de cada
dinastia, também devia adorar-se um deus único e
supremo, o qual recebia, ao mesmo tempo,
obediê ncia e reverê ncia por parte das outras deidades.
Alguns dos seus chefes religiosos foram
considerados, entre a legendária populaç ã o chinesa,
como seres imortais ou encarnaç ões da denominada
"Origem Primeira", deidade que fazia parte de uma
trindade de deuses com poderes para vencer o mal e
os seus representantes. No entanto, o panteã o chinê s
conta com uma grande variedade de deuses. E até os
fundadores de grandes movimentos religiosos
tiveram em conta o ancestral -rico e variado- de todos
os estados feudais assentados em território chinê s,
para confeccionar os seus dogmas e assertos. A povoaç ã o agradeceu, na prática, este detalhe
dos seus iluminados, pois elevou à categoria de mito tanto o autor como a sua obra. Deste
modo, arraigará entre a populaç ã o o mítico conceito denominado "tan", cujo simbolismo é tã o
rico que ultrapassa a sua origem primigénia; "tan" significa "caminho", "via". É um princípio
guiador de tudo quanto existe e do universo inteiro. Pelo "tan" há verdade, e sabedoria, e
harmonia. Sucede a mesma coisa com a introduç ã o da moral como único aspecto regulador de
qualquer relaç ã o social, quer seja pública ou privada, que deveria desembocar, por obrigaç ã o,
numa ética do altruísmo, do desprendimento, da solidariedade, do respeito e da tolerância
entre os humanos.

Tratar-se-ia de erradicar a beligerância, o ódio e as guerras e, ao mesmo tempo, substituí-los


pelo amor universal e a paz. Há que acrescentar, além do mencionado, outros aspectos que
completarã o este panorama, real e mítico ao mesmo tempo. A populaç ã o deste imenso
território chinê s também adorava os fenô menos da natureza, as suas forç as desatadas;
comemorava o espírito dos antepassados; acudia a consultar os oráculos e participava de um
ritualismo rico em sacrifícios e esoterismo mágico. Muito especialmente, se pretendia uma
longevidade perene -o mito da eterna juventude- que, mais tarde, aparecerá em todas as outras
culturas e civilizaç ões, especialmente na mitologia greco-latina. A verdade é que o povo
chinê s tinha um deus especialmente dedicado a procurar juventude e viç osidade a todos os
que lho rogassem e, por isso, lhe ofereceram contínuos sacrifícios e preces. Esta deidade
chamava-se Cheu-Sing e era a encarregada de guardar a vida dos humanos, pois, entre outras
coisas, tinha poder para fixar o dia em que tinha de morrer uma determinada pessoa. Mas,
segundo a crenç a popular, se podia mudar a vontade deste deus oferecendo-lhe sacrifícios e
participando nos diversos rituais na sua honra. Tudo isto indica que era possível estender os
anos de vida, bastava que Cheu-Sing prolongasse a data que tinha marcado de antemã o e, pelo
mesmo motivo, ampliasse, assim, o tempo de vida daqueles mortais que mais fidelidade lhe
tivessem demonstrado.

No entanto, segundo as narraç ões mitológicas do povo chinê s, há uma deidade superior,
criadora do mundo e de tudo quanto existe, rei dos mortais e dos outros deuses. Recebe o

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nome genérico de "Venerável Celeste da Origem Primeira" e há já muito tempo -uma
eternidade- que delegou todo o seu poder num dos seus discípulos e, ao mesmo tempo,
segundo dos trê s deuses - denominados os "Trê s Puros"- que compõem a trindade chinesa. O
nome deste deus, que realiza a pesada tarefa que lhe encomendou o seu mestre, é "Senhor do
céu". E chegará um dia em que também ele deixará que o seu sucessor leve a cabo o trabalho
de ordenar e governar o universo inteiro. Mas, por agora, é o último dos "Trê s Puros", e é um
deus que se evoca pelo nome de "Venerável Celeste da Aurora". Para levar a cabo a ingente
tarefa encomendada pelo primeiro dos deuses, o seu discípulo contava com a ajuda de outras
deidades afins. Por exemplo, narra o relato mítico que o segundo dos deuses, isto é, o "Senhor
do céu", delegava determinadas funç ões no "Segundo Senhor", um deus muito célebre e
popular porque travava, a quem o invocava, os maus espíritos. Enviava contra estes o "Cã o
Celeste", que os perseguia com raiva e nã o permitia que assustassem os humanos. Também
havia deusas de segunda ordem que tinham como missã o predizer a possibilidade de
casamentos estáveis. A elas acudiam muitos jovens para consultá-las acerca das qualidades do
seu futuro marido e também sobre a conveniê ncia ou nã o de casar-se.

O anterior nã o faz senã o avaliar a teoria defendida por quase todos os investigadores da
mitologia. Estes, com respeito às lendas chinesas, afirmam que o imanente e o transcendente
sã o uma mesma coisa, dado que, realmente, a organizaç ã o entre os deuses é similar àestrutura
da sociedade dos humanos. Aqueles se servem de outros mais inferiores para levar a cabo as
suas tarefas mais custosas; sucede a mesma coisa entre os mortais, pois os governantes se
servem de subordinados -ministros, funcionários, etc.- para levar a cabo as suas realizaç ões
em pró do bem geral do seu povo. Tanto os deuses como os governantes devem procurar o
bem material e moral dos humanos, pois, caso contrário, o universo e o mundo albergariam
unicamente ruindade e desgraç a. Portanto, segundo explicam as narraç ões dos mitos chineses,
a atenç ã o e a própria existê ncia dos deuses e dos governantes sã o absolutamente necessárias.
Mas os governantes tê m que demonstrar sabedoria em todos os seus atos. E os deuses devem
cumprir com diligê ncia a missã o que lhes foi encomendada pelos seus mestres ou pelos
deuses superiores. E, assim, existiam deidades que se encarregavam de apontar as boas e más
aç ões dos humanos e, ao mesmo tempo, deviam procurar levar ao mundo dos mortais a maior
felicidade possível. A encomenda de distribuir paz, felicidade e alegria entre os humanos era
uma tarefa invejável que nenhuma deidade eludia.

Outros muitos deuses menores ajudavam a deidade superior "Deus do céu"; era o seu dever e
a sua única funç ã o. Deste modo, o paralelismo com a estrutura da sociedade humana era uma
realidade tangível, pois estes deuses inferiores cumpriam os mandatos da deidade que estava
por cima deles e esta, por sua vez, devia obediê ncia àseguinte de grau superior. Assim até
chegar ao mais poderoso de todos, por cima do qual ainda existia outro deus que tinha
delegado nele as suas funç ões -a pesada carga de governar- mas que, nã o obstante, continuava
sendo o mais poderoso de todos os deuses do panteã o chinê s. O mundo mitológico, portanto,
tinha sido construído de acordo com os mesmos critérios usados nas próprias sociedades
humanas. Aqui, o soberano -que tinha por cima dele os deuses- organizava o seu território e
publicava as suas leis com a ajuda -com certeza, obrigatória- dos seus súditos, que se
encontravam perfeitamente organizados por categorias e deviam cumprir fielmente os
mandatos dos seus superiores. Portanto, humanos e deuses se organizavam sob uma estrutura
similar; daqui que, segundo a mitologia chinesa, até as mais fúteis funç ões se encontravam
encomendadas a uma deidade. Por exemplo, quando os cidadã os tinham cometido faltas
graves contra os seus congê neres, ou contra os deuses da sua tribo, deviam elevar súplicas à
deidade que perdoava os pecados e que conferia, de novo, a paz de espírito aos que já tinham
sido purificados.

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A populaç ã o da ancestral China chamava Ti-kuan ao deus que perdoava os pecados e,
segundo a crenç a popular, era o "Agente da Terra" que formava tríade com outros dois
deuses; o "Agente do céu" e o "Agente da água". Todos os desejos, e necessidades, dos
humanos ficavam satisfeitos assim que estes invocavam o deus apropriado. Por tudo isso, o
número de deuses familiares era considerável. Mas nã o só cada casa, mas também os bairros,
circunscriç ões, povoaç ões, cidades e territórios contavam com os seus deuses protetores. As
próprias deidades se ocupavam de que tudo funcionasse perfeitamente; e assim os deuses do
lugar guardavam a terra, a rua, a casa e todos os seus moradores. Em todos os lares havia uma
imagem do "Deus do lar" que, geralmente, aparecia sob a figura de um anciã o com barba
branca. No desenho -impreciso e carregado de colorido aberrante- aparecia também uma
mulher, que se venerava como esposa do "Deus do lar", rodeada de animais domésticos, tais
como porcos, galinhas, cã es, cavalos, etc., que cuidava e dava de comer. Nestes desenhos, que
os chineses colocavam no interior das suas casas para adorar o verdadeiro espírito das figuras
que lá apareciam, o artista tinha respeitado também a essê ncia hierárquica da mitologia destes
povos do longínquo oriente, pois a verdade é que, em qualquer caso, o "Deus do lar"
permanecia sempre sentado e relaxado sobre um colorido trono. Em compensaç ã o, a mulher
estava em pé, preocupando-se dos labores domésticos, neste caso do cuidado dos animais que
havia em casa. Isto indica que o "Deus do lar" tinha subalternos, por assim dizer, nos quais
delegava a sua própria funç ã o de cuidar pessoas e fazendas.

A mitologia chinesa conta com um lugar de perdiç ã o, similar ao que entre os greco-latinos se
denominará Tártaro, Hades ou Inferno. Segundo a tradiç ã o popular chinesa, a alma dos
mortais é conduzida a esse lugar de perdiç ã o para ser julgada e, como no mito clássico
aparece o feroz cã o Cerbero custodiando as gigantescas portas do Tártaro, também aqui há um
encarregado de controlar a passagem para o interior de tã o tétrico lugar: o "Deus da Porta". Se
tudo estivesse em regra, a alma podia passar e toparia imediatamente com o deus de "Muros e
Fossas", que era o encarregado de submetê -la ao primeiro, e mais benigno, dos julgamentos.
No entanto, os interrogatórios duravam perto de cinqüenta dias -exatamente quarenta e nove,
que era um número pleno de conotaç ões simbólicas entre muitos povos do extremo oriente:
"Este é o prazo de que necessita a alma de um morto para alcanç ar definitivamente a sua nova
morada. É a terminaç ã o da viagem", durante os quais a alma permanecia retida nos domínios
do deus de "Muros e Fossas". Este pode condená-la ou deixá-la em mã os do seguinte juiz. Se
acontece o primeiro, a alma pode ser aç oitada ou atada pelas suas extremidades superiores a
uma tábua que a aprisiona o pescoç o.

De qualquer maneira, a alma terá que passar, agora, à presenç a do "Rei Yama", que se
encarregará de decidir, após um novo interrogatório, se aquela é uma alma justa ou um alma
pecadora. Se for o primeiro, a alma será enviada para um dos paraísos chineses -o que se
encontra na "Grande montanha" ou o denominado, de maneira pomposa, a "Terra da Extrema
Felicidade de Ocidente", onde gozará de liberdade e felicidade eterna-, dado que aqui tudo se
encontra embebido da presenç a do Buda. Se, pelo contrário, o "Rei Yama" sentenciou que se
trata de uma alma pecadora entã o esta será arrojada para o abismo dos infernos para que lá
purgue as suas culpas. Depois de sofrer dores e castigos sem fim, a alma chegará, por fim, ao
décimo lugar de perdiç ã o. Uma vez aqui será obrigada a reencarnar-se e poderá escolher entre
um animal ou um humano. Se se reencarnar num animal, nem por isso perderá o seu antigo
sentir humano e, pelo mesmo motivo, sofrerá quando a maltratem ou quando a matem. Por
exemplo, pô de escolher renascer como porco e, portanto, nã o durará muito sem ser
sacrificado, em cujo caso a dor do animal é a mesma que sentiria o humano ao qual pertencia
a alma antes de reencarnar-se. No entanto, ninguém reparará nisso pois o porco nã o poderá
exprimir a sua dor e o seu sofrimento, de forma humana, dado que a alma reencarnada, antes

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de sair do décimo Inferno e dirigir-se para o lugar onde se encontra a "Roda das Migraç ões",
deve beber o "Caldo do Esquecimento" para, assim, guardar segredo obrigatório -pois nada do
passado poderá já entã o recordar- de tudo quanto lhe aconteceu na sua digressã o infernal. Esta
beberagem, segundo a lenda dos povos do longínquo oriente, era preparada pela deusa que
habitava na misteriosa casa edificada àsaída do Inferno. Todas as almas que abandonassem
aquele lugar de perdiç ã o tinham que beber o "Caldo do Esquecimento" pois só entã o lhes
seria permitido continuar para a frente e chegar à "Roda das Migraç ões", para assim
consolidar a sua reencarnaç ã o.

Algumas versões explicam, nã o obstante, que as almas dos mortos, antes de chegarem à
presenç a do deus de "Muros e Fossas", recebiam a ajuda de Abida, deidade que tinha
encomendada a tarefa de aliviar a todos os humanos àhora da morte, pois acolhia as almas
puras e purificava as impuras. Também se diz que o Tártaro era um lugar de perdiç ã o, sim,
mas constituído por cidades cheias de funcionários e também de vários edifícios que eram
como sedes dos diferentes tribunais perante os quais tinham que comparecer as almas dos
mortos para serem julgadas. O próprio palácio do Rei Yama encontrava-se numa das cidades
principais do mundo infernal e, ao lado deste soberbo -e, ao mesmo tempo, tétrico edifício- se
levantavam as diversas edificaç ões que albergavam no seu interior as terríveis câmaras de
tortura e suplício. Esta mítica cidade chamava-se Fong-tu e tinha uma entrada principal,
denominada "Porta do Mal"; no extremo oposto, ficava protegida e resguardada por um
pustulento rio -posteriormente, também entre os mitos greco-latinos aparecerá o rio
Aqueronte, cujas turvas, lodosas e fedorentas águas, rodearã o o lugar de perdiç ã o chamado
Tártaro, que contava com trê s pontes, as quais constituíam outros tantos acessos a Fong-tu,
embora pelo lado contrário desse para a zona principal. A primeira ponte estava construída em
ouro maciç o e só os deuses podiam atravessá-la. A segunda ponte era de prata e estava
reservado às almas que tinham sido justas.

A terceira ponte era muito mais comprida e estreita do que as anteriores e atravessá-la
resultava perigoso, pois carecia de corrimões para se agarrar. As almas que tinham sido
perversas e viciosas estavam obrigadas a atravessá-la e, se caíssem no fedorento rio, seriam
imediatamente trituradas por monstros que tomavam a aparê ncia de serpentes de bronze e de
raivosos cã es de ferro. A mitologia dos povos do longínquo oriente contava, também, com
lugares de felicidade e de dita, isto é, com paraísos. Como já se indicou, o da "Grande
Montanha" era um deles. O outro era a "Terra da Extrema Felicidade de Ocidente", e,
geralmente, era o lugar escolhido por "Rei Yama" para enviar aquelas almas dos mortais que
tinha encontrado inocentes e que, pelo mesmo motivo, considerava justas. O primeiro dos
paraísos estava habitado pela "Dama Rainha" (a quem a tradiç ã o mítica fazia esposa do
poderoso "Senhor do céu" que, no cimo da montanha mais alta, tinha construído o seu
grandioso palácio; este era um edifício fabuloso -contava com mais de nove andares-, rodeado
de jardins com plantas e flores aromáticas e permanentemente verde. Aqui crescia, oculto
num lugar recô ndito, a mítica "Á rvore da Imortalidade"; dos seus frutos se alimentavam os
bem-aventurados, isto é, aqueles que tinham levado uma vida reta e justa e que, portanto, nã o
tinham enganado nem maltratado nenhum dos seus semelhantes. Por tudo isso lhes era
permitido conviver com as deidades denominadas "Imortais". Era muito comum, entre as altas
esferas da sociedade chinesa, tais como os seus monarcas e classes poderosas, dar culto -nos
inícios da primavera e da estaç ã o outonal- ao Céu, àTerra, ao Deus da Guerra e ao grande
mestre Confúcio. Também as duas luminárias eram objeto de adoraç ã o entre a populaç ã o do
ancestral território do extremo oriente.

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Tanto o Sol como a Lua eram astros considerados como personificaç ões de certas deidades. E
nã o só os imperadores e a classe poderosa mas também o povo apoiava o culto às citadas
luminárias; pelo qual a veneraç ã o à Lua e ao Sol ficava convertida, ao mesmo tempo, em
culto oficial e popular. Eram ofereciam sacrifícios aos citados astros coincidindo com ano par
ou ímpar. Os anos ímpares estavam consagrados ao Sol e os anos pares à Lua. Ambas as
luminárias apareciam também relacionadas com os dois princípios essenciais. O Sol era
princípio ativo e, portanto, era associado com o "Yang"; ao passo que a Lua era princípio
passivo, pelo qual aparecia sempre relacionada com o "Yin". Para a populaç ã o chinesa, estes
dois princípios tinham uma importância capital. Se concebia a eternidade como um círculo
que carecia de um princípio e que nã o tinha fim. O "Yang" e o "Yin" estavam dentro dela,
como duas forç as que se necessitam mutuamente e, pelo mesmo motivo, em vez de opor-se,
se complementam. Na mitologia dos povos do extremo oriente, portanto, tudo se encontra
estruturado com antecedê ncia -nã o há lugar para improvisaç ões e se rejeita qualquer tipo de
intuiç ã o-, e classificado em itens que se sobrepõem, a maneira de arquivo, para dar lugar a
emoç ões, paixões, tendê ncias e necessidades.

Outros mitos dos povos orientais -especialmente entre a populaç ã o que seguia os ensinos de
Buda, o "Iluminado"- explicavam que o Tártaro se encontrava num lugar escuro e subterrâneo
e, segundo a crenç a popular, tinha umas características bastante contraditórias. Havia oito
infernos de fogo e outros oito de gelo. E ambos produziam nos condenados torturas pelo calor
ou torturas pelo frio. No entanto, também existiam -distribuídos em cada um dos quatro
pontos correspondentes aos infernos principais, tanto de fogo como de gelo- outros lugares de
perdiç ã o inferiores que, em ocasiões, supriam os dezesseis principais. Contudo, nã o se sabia
com certeza o sítio exato onde estes lugares de perdiç ã o iam surgir. Apareciam tanto -o que
sempre sucedia de forma repentina- na profundidade de um vasto e verde vale como no pico
de uma montanha; até uma árvore milenar podia converter-se subitamente em sede de um
destes infernos inferiores. À s vezes surgiam no próprio espaç o e o ar abrasava ou gelava os
condenados. Por outro lado, todas as condutas estavam controladas pelos ajudantes e
funcionários do "Juiz do Averno", que se sentava num trono duro encaixado entre duas
estantes de pedra. Na da sua esquerda encontra-se o "Julgador que vê tudo"; é uma figura
feminina que penetra com a sua vista no mais recô ndito do pensamento daqueles que
comparecem para serem julgados. À direita situa-se o "Julgador que cheira tudo"; trata-se de
uma figura masculina que tem como funç ã o descobrir, com o seu fino olfato, qualquer aç ã o
injusta ou imoral que tenha cometido o mortal que comparece para ser julgado. Portanto,
como se pode comprovar, nã o há escapatória possível para os condenados, dado que todas as
suas aç ões foram "vistas e cheiradas".

Embora, para reduzir a pena, estivesse permitido que os vivos intercedessem em favor dos
condenados, o que requeria sempre uma atuaç ã o inteligente e um mestre budista como
mediador. Toda a natureza, segundo a tradiç ã o popular, devia ser cuidada e mimada e
resguardada, e preservada de qualquer mal, dado que através dela se manifestavam as
diferentes deidades. Fenô menos naturais como o raio, o trovã o, a chuva torrencial, o vento
forte. .., deviam a sua apariç ã o a uma deidade menor. E, assim, Yun-t Ong tinha a funç ã o de
reunir as nuvens, depois de tê -las formado, e era invocado com certa freqüê ncia como o
"jovem deus que reúne as nuvens". Também contavam os povos do extremo oriente com a
"Dama do céu Sereno", que tinha a missã o de limpar todo o espaç o, uma vez que a chuva
parava. Se dizia que afastava as nuvens com o seu hálito purificador. Outra deidade,
considerada como um agente celeste, era Tien-kuan, que se encarregava de levar ao mundo
dos humanos a maior felicidade possível. Em ocasiões era associada com a "Mã e dos
Relâmpagos" e, entã o, recebia o nome de Tien'mu. A lenda dos povos do extremo oriente

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explica que Tien'mu produzia o raio servindo-se de dois espelhos. Também o ruído
ensurdecedor do trovã o era produzido por uma deidade menor; recebia o nome de "Senhor do
trovã o" e, por isso, estava considerado como o amo e dono do ruído.

Também se venerava, especialmente entre as classes poderosas, o deus da riqueza. Em quase


todas as casas dos ricos havia nã o só um desenho com o nome do deus gravado em caracteres
ideográficos, mas também uma efígie representativa da deidade. Deste modo, sempre o
consideravam próximo deles e podiam dirigir-lhe as suas preces com assiduidade, na crenç a
de que, assim, nunca se veriam reduzidas a sua fortuna e o seu patrimô nio. O deus das
riquezas era conhecido pelo nome de T'saichem; o seu poder era superior ao das outras muitas
deidades similares e até tinha designados numerosos deuses para o servirem e levarem a cabo
as tarefas que aquele considerasse mais duras e difíceis. Outro aspecto muito importante, que
também estava regulado e protegido por uma deidade, era o estamento familiar com todas as
suas implicaç ões. A intimidade da família, e as relaç ões pessoais entre todos os seus
membros, ficavam a salvo de críticas adversas, proferidas por pessoas nã o integrantes do
grupo familiar. De tudo isto se encarregava o deus T'sao-Wang e, em troca, recebia todos os
dias o reconhecimento dos seus protegidos. Era freqüente, entre as famílias da populaç ã o do
extremo oriente, honrar o deus que se erigia em seu protetor, por meio de um ritual que
consistia em queimar varetas de incenso, ao mesmo tempo que se invocava o nome do deus
T'sao-Wang, duas vezes; uma quando começ ava o dia e outra ao anoitecer.

Cada profissã o, ofício e trabalho, tinham a sua deidade protetora. Entre todos estes deuses, a
tradiç ã o popular destacava o deus das letras e da literatura, ao qual se atribuía uma obra de
conteúdo simbólico e emblemático. Era conhecido pelo nome de Wen-t'chang e, segundo a
lenda, antes de chegar a obter a distinç ã o de protetor das letras e da literatura já tinha passado
por dezessete existê ncias; o dezessete estava concebido, entre os orientais, como um número
repleto de significaç ã o mágica e esotérica. O livro que tinha escrito o próprio deus era, por
assim dizer, uma espécie de biografia e nele se indicava o dado das dezessete reencarnaç ões,
ou novos nascimentos. Também se davam pautas a seguir para agir com moralidade e retidã o
e, geralmente, se louvava o saber e a inteligê ncia sobre quaisquer outros aspectos. Segundo a
mitologia dos povos do extremo Oriente, a interpretaç ã o dos caracteres ideográficos do livro
escrito pelo deus Wen't-chang leva a considerar à sabedoria por cima de quaisquer outros
aspectos. Mediante o saber e a inteligê ncia se pode superar qualquer obstáculo e, ao mesmo
tempo, equilibrar qualquer sofrimento. A sabedoria, segundo explica na sua obra o deus das
letras e da literatura, é como uma espécie de "Candeeiro da câmara escura", o que significa
que até nos momentos mais difíceis da vida, quando vemos tudo negro, quando nos achamos
encerrados na "Câmara escura" deste mundo dos mortais, sempre existirá a luz do
"Candeeiro" que proporciona o saber e a inteligê ncia para, assim, tornar possível uma nova
procura, uma soluç ã o inédita. Outro dos deuses principais que a populaç ã o oriental venerava
recebia o nome de Fo.

Este era um deus superior aos anteriores, pois ocupava o primeiro lugar entre as outras
deidades que compunham a tríade da Felicidade. A sua importância, dentro da mitologia
chinesa, era acrescentada porque representava, ao mesmo tempo, a Hierarquia, a Fortuna e a
Honra. A ele acudia quem sentia o peso de um destino e um azar adversos; também os
governantes solicitavam de Fo que os guiasse no momento de legislar, para que nenhuma
norma injusta saísse da sua cabeç a nem fosse permitida no seu reino. Era solicitado, além
disso, por todos aqueles que tinham sido objeto de escárnio e desonra, mediante engano. Ao
parecer -e segundo a crenç a popular-, Fo devolvia-lhes a sua honra perdida, pois por algo era
um deus principal. O mito relativo a este deus poderoso nos fala do seu nascimento

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portentoso, da forma em que surgiu da costela direita da sua mã e que, segundo conta a lenda,
tinha sonhado antes que um belo elefante branco a possuía.

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MITOLOGIA INDIANA
Nos assentamentos urbanos do vale do Indo, entre os restos
da civilizaç ã o precursora de Harappa, nas ruínas das
altamente evoluídas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro,
encontraram-se as imagens em terracota e em selos de
cerâmica de diversas divindades que bem podem
considerar-se como precursoras das posteriores
representaç ões bramânicas. Esta cultura, que já se
comunicava regularmente com a mesopotâmica no século
XXIV aC, tinha o touro como animal emblemático
principal, dada a abundância das suas representaç ões,
certamente como garante da fecundidade e como símbolo
da vida após a morte; o touro ou boi sagrado compartilhava
a sua popularidade, a julgar pelo número de achados, com
uma deusa-mã e que também estaria a cargo da proteç ã o da
fecundidade, de um modo similar ao que o faria séculos
mais tarde a deusa Devi, esposa de Siva, uma figura da
qual esta deusa inominada do vale do Indo pô de ser
antecessora. O ubíquo e predominante touro sagrado
aparece também em outras representaç ões de perfil perante uma pira ritual, como o fará
depois uma das advocacias de Siva, Nandi; assim como outra representaç ã o do touro sagrado,
em lugar preeminente junto de outros animais, pode ser, por sua parte, assimilada àposterior
advocacia de Siva como protetor dos animais, o deus Pashupanti. Outros animais
emblemáticos terrestres e aéreos também aparecem profusamente na cerâmica de Harappa, e
sã o, naturalmente, os mesmos elefantes, tigres, serpentes, búfalos, águias, macacos, etc., que
continuarã o sendo parte importante das personificaç ões zoomórficas dos deuses do panteã o
indiano.

Mas a primeira apariç ã o histórica é a que nos vem colhida pelos Vedas, as obras escritas em
sânscrito do ritual religioso elaboradas pelos arianos, um povo chegado à Índia vindo do
noroeste entre os séculos XVI e XIII (aC). No grupo dos "arya", dos nobres, estavam as trê s
castas dos bramanes ou homens da religiã o, os ksatriya ou guerreiros, e a última casta dos
vaisya ou povo; com eles, mas a uma grande distância social, estavam os sudra ou vassalos,
os que nã o eram "arya", mas iam junto dos nobres. Esta obra do Veda, do conhecimento, que
começ a com o livro do Rig Veda, livro que se devia ter escrito para o século XX (aC), se
continua com o Yajur Veda, contendo o primeiro ritual, o Sama Veda, no qual figuram os
cantos religiosos, e o Atarva Veda, o tratado da religiã o íntima para uso privado dos fiéis. O
Rig Veda, com mais de 1.000 hinos e 10.000 estrofes, nos fala de um Universo composto por
duas partes: Sat e Asat. Sat é o mundo existente, a parte destinada às divindades e à
humanidade; Asat, o mundo nã o existente, é o território do demô nio. Em Sat está a luz, o
calor e a água; em Asat só há escuridã o, porque os demô nios vivem nela, na noite. O Sat, o
mundo visível e existente, está composto por trê s esferas: a superior do firmamento, o ar que
está sobre as nossas cabeç as e o solo do planeta onde vivemos. Mas a criaç ã o deste Universo
nã o foi só um ato gratuito, um ato de vontade divina; pelo contrário, a construç ã o do mundo
que agora habitamos necessitou de uma luta heróica e decidida entre as forç as do ar e as
forç as da matéria, porque o Universo é um lugar belo que só se pô de conseguir com o esforç o
que representa o combate entre as forç as do bem e as forç as do mal.

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Entre os assura, os seres espirituais, havia uma grande rivalidade que se manifestava na briga
entre os deuses aditya e os demô nios raksa. Esta briga desembocou, finalmente, numa luta que
resolverá o domínio do mundo dos assura, através do confronto direto entre os campeões dos
dois bandos, entre o deva Indra, um filho do Céu e da Terra, que morava no ar, e Vritra, o
dono dos materiais necessários para construir o Universo. O deva, o deus Indra, era um aditya
escolhido pelos seus companheiros para representá-los no combate no qual devia vencer o seu
campeã o de uma vez por todas. O seu oponente, Vritra, era um danava ou raksa; o seu
antagonismo vinha de longe, até tal ponto que se tornou necessário chegar a iniciar o combate
definitivo, aquele do qual sairá o chefe indiscutível. O deva Indra, após beber a bebida
sagrada, o soma, cresceu tanto que os seus pais, Céu e Terra, tiveram que afastar-se para lhe
deixar espaç o; por isso ele habitava no ar da atmosfera que ficou aberta com a sua separaç ã o.
Indra foi armado com o raio (vayra) por Tvastri, o ferreiro dos deuses, e fortaleceu-se ainda
mais tomando outros trê s grandes jarros de soma, mas a luta foi longa e difícil, porque Vritra,
onde andava o filho de Danu, era nada menos que uma gigantesca serpente que vivia nas
montanhas, dado que é sabido que as forç as do mal gostam de tomar o aspecto da serpente.
Indra, com ou sem a ajuda de Rudra e dos maruts, divindades do vento, que nisso há versões
diferentes, combateu Vritra até conseguir destroç ar-lhe o lombo com o vayra; e nã o se deu por
satisfeito, pois Indra também acabou com a mã e Danu, que caiu ao morrer sobre o cadáver do
representante do mal. Mas do mal nasceru o bem e, assim, do seu ventre nasceram as águas da
terra, até encherem os oceanos, de cujo calor saiu o Sol; e com o Sol, o ar, a terra firme e os
oceanos, já foi possível construir o Universo, pois se possuíam todos os materiais requeridos,
e se deu forma definitiva ao Sat dos deuses e das suas criaturas, enquanto o Asat invisível
ficava para sempre afastado e relegado àsua nã o-existê ncia.

Os trê s deuses encarregados de velar pelo Sat desde o momento da sua criaç ã o sã o Dyaus,
Indra e Varuma. Dyaus está a cargo da primeira esfera cósmica, a concavidade do
firmamento; Indra da segunda, do ar da atmosfera e dos elementos e meteoros que nela
acontecem; Varuma encarrega-se da terceira esfera, da qual a ordem cósmica estabelecida
rege na terra. Indra, o aditya Vritahan, o campeã o aditya que matou Vritra, já o conhecemos
pela sua faç anha de libertar as águas e construir o mundo. Dyaus Pitr, o Céu Pai, é o esposo
do fecundador de Prtivi Matr, a Terra Mã e; Dyaus o Grande é o espírito benfeitor supremo do
dia e da luz. Varuma, o deus que está em todos os lados, é também o chefe dos adityas, os
filhos de Aditi, a deusa virgem do ar; Varuma cuida do rito da verdade divina, e fá-lo
zelosamente da Terra e da Lua, isto é, mantém-se vigilante no dia e na noite, ajudado na sua
constante missã o protetora pelas estrelas como zelador que é da ordem sagrada no Universo
visível, do Sat, embora o deus solar Mitra siga substituindo-o nas tarefas diurnas, de um modo
auxiliar, pelo menos na Índia, dado que o Mitra transferido para o Ocidente, primeiro através
da Babilô nia e mais tarde da Pérsia, converte-se num deus principal. Varuma é o deus sábio
que conhece tudo o que já aconteceu e tudo o que tem de suceder. Da sua garganta brotam as
águas das sete fontes do céu, de onde vê m à terra para formar os grandes rios do planeta.
Dyaus Pitr, donde talvez sairá o Zeus grego, é o deus supremo do Céu. Varuma também
velava pelos mortos, paraíso no qual reina junto com o primeiro humano nascido e falecido, o
bom Yama, e com a sentinela dos dois cã es protetores das almas, Syama e Sabala. O deva
Indra, desposado com a deusa Indrani, era uma divindade caprichosa, embora fosse o deus
principal dos humanos, e os seus caprichos manifestavam-se com mulheres, homens ou
animais, tanto que a divindade Gautama teve que enfurecer-se com a sua atitude e chegou a
desmembrá-lo, embora mais tarde os seus divinos companheiros se ocupassem de recompor o
seu corpo desfeito.

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Entre os aditya estavam também Mitra, do qual já se falou, Baga, Amsa, Daksa e Aryaman,
junto de Indra e Varuma, formando o septeto básico; também se costumava pô r um oitavo
aditya, o errante Martanda, que, com o seu contínuo andar pelo céu, era simplesmente uma
divindade astral, o Sol, Surya, desposado com a deusa da Aurora, Uchas, uma deusa bondosa
e benfeitora. A serviç o dos adityas estavam os cavaleiros ou Asvins, divindades menores que
tinham os seus domínios na escuridã o de cada noite, dispensadores do orvalho no seu correr
celestial e outorgadores de muitos mais bens espirituais e corporais. Os centauros Gandharva
vigiavam o sumo sagrado do Soma, que era, além disso, outro deus de importância nas
cerimô nias sagradas. Estes centauros Gandhava eram do mesmo modo umas divindades
tutelares das almas emigrantes na metempsicose. Os Gandharva estavam unidos às mais belas
divindades, as perturbadoras Apsara, ninfas da água e concubinas dos deuses maiores.
Precisamente um Gandharva, Visvavat, foi o pai do primeiro mortal. Visvavat estava casado
com Saranya, a filha do ferreiro dos deuses, Tvachtar, o mesmo que proporcionou o raio a
Indra para lutar com Vritra. Deste casamento nasceram Yama e a sua irmã gê mea, e esposa,
Yami. Os Gandharva também se ocupavam da escolta do deva Kama, deus do amor e esposo
de Rati, deusa da paixã o amorosa. Na mitologia bramânica, Kama, foi morto por Siva, dado
que tinha tentado distraí-lo nas suas meditaç ões, seguindo as maliciosas instruç ões da mutante
deusa Parvati, esposa de Siva; mas foi devolvido àvida pelo mesmo Siva, ao ouvir a pena que
invadia a apaixonada viúva Rati. Depois da sua misericordiosa ressurreiç ã o, Kama passou a
tomar a nova denominaç ã o de Ananga.

Os Marut, os deuses dos ventos, filhos do deus Rudra e da deusa Prasni, tinham grande poder,
tanto como o dos temporais devastadores que vinham das montanhas, ou o dos ventos
carregados de água benéfica que apareciam estacionalmente na época das chuvas, que era
simplesmente o urinar dos cavalos de Rodasi, a outra esposa do seu pai Rudra, ou o da sua
mã e, a vaca Prasni. Mas os Marut nã o estavam sozinhos no reino dos ares, pois o deus Savitar
era quem fazia com que se levantasse o vento, se pusessem em movimento os raios do sol e
fluíssem as águas dos rios, porque ele próprio era o movimento e até o próprio Sol, embora
entã o tomasse o nome de Surya. O deva Puchan, armado com uma lanç a de ouro,
encarregava-se de unir o destino dos seres vivos e de cuidar deles em todo o necessário para o
seu sustento, assim como de guiá-los nas suas viagens pelo bom caminho. Mas o culto mais
popular, o que atraía os mais abundantes sacrifícios dos fiéis, os crauta do ritual, dirigiam-se
preferentemente a Agni ou Anhi, o deus vermelho do fogo, o dos sete braç os e trê s pernas, o
que estava em todos os lugares onde se fizesse fogo. Anhi era filho da uniã o entre o Céu e a
Terra e, posteriormente, foi adscrito àuniã o entre o Céu e Brama. Anhi estava casado com
Svaha, que o fez pai de trê s filhos: Pavaka, Pavamana e Suc. Ao redor deste deus formou-se
uma muito especializada e importante casta sacerdotal, pois só ela se considerava capaz de
dirigir-se a ele com rezos e cânticos específicos, uma ordem sacerdotal que daria mais tarde
nascimento à casta superior dos bramanes, precisamente os responsáveis de que a religiã o
popular que se colhia nos livros do Veda fosse deslocada em favor do mais completo e
complexo corpus do culto bramânico, uma mistura de religiã o e metafísica que se converterá
também no regulamento quotidiano para os crentes, fazendo dele uma forma de vida
totalizadora do religioso e o doméstico.

Da uniã o dos Veda e do ritual sagrado elaborado de cima pela classe sacerdotal, nasceu a
nova doutrina bramânica, na qual revelaç ã o e costume se sintetizavam para formarem um
único corpo de regras que preside toda a vida dos fiéis, que vai desde os livros revelados, os
quatro Veda, os livros ascéticos do Aranyaka, os religiosos Bramanes e os litúrgicos
Upanisads, aos livros escritos pelo homem para compendiar o conhecimento humano, os que
tratavam da astronomia, da arte e da linguagem, os Vedangas, as leis reunidas nos Dharma e

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os Sutras, os livros de relatos legendários Puranas, e as epopéias do Ramayana e o
Mahabharata, onde se encontra o texto védico do Bhagavad Gita, que nos ensina as trê s vias
sagradas de acesso ao conhecimento pela contemplaç ã o, as obras e a devoç ã o religiosa. O
bramanismo contempla na sua base o mistério da Trimurti, a trindade do absoluto, do Eu ou
atman, como criador de toda a existê ncia e possuidor de todas as ideias. O Eu existe nas suas
trê s pessoas complementares: Brama, o criador, Visnú, o conservador e Siva, o destrutor. Mas
também o Eu, o Único, coexiste ao mesmo tempo nas duas naturezas unidas, na mortal e na
imortal, porque as duas naturezas sã o simplesmente uma única essê ncia, o último princípio, o
atman. Por isso o deus que conhece tudo e que tudo experimenta é, antes de mais, a ubíqua
presenç a universal, quer seja em criatura viva ou em coisa inanimada. E os humanos nã o
somos senã o reflexo dessa dupla natureza mortal e imortal a um tempo, todos os humanos
somos um eu pessoal, mais a parte proporcional do Eu total, a esse eu ao qual devemos tentar
unir-nos, para alcanç ar a paz eterna, a harmonia com o último princípio, para poder aspirar a
ser felizes nesta vida contingente e eternos na vida transcendente.

Enquanto Brama ficava estabelecido num plano metafísico, as outras duas personificaç ões do
Trimurti, Siva e Visnú, convertiam-se em figuras queridas e temidas, nos santos visíveis aos
qual havia que recorrer num caso concreto, nas pessoas divinas mas humanizadas das quais se
podiam contar lendas e acreditar em prodígios, porque os deuses que se assemelham aos
homens nos seus defeitos e nas suas virtudes sempre estã o mais perto deles. Visnú, por
exemplo, foi o herói amado, o ser celestial que descia continuamente ao mundo ao qual tinha
dado vida com o seu hálito divino, para livrá-lo do mal, que também tentava perpetuar-se
sobre a sua superfície, aproveitando cada uma das novas recreaç ões. As suas faç anhas
aparecem relatadas nos circunstâncias e esses textos penetram profundamente no fervor
popular, porque nã o há coisa melhor do que poder contar as muitas histórias do deus valente e
bondoso. Siva, por ser o deus destrutor da trindade bramânica, viu-se impelido a adotar papéis
cada vez mais terríveis e assim, transformado radicalmente desde o seu primitivo caráter de
deva benfeitor, chegou a representar o deus implacável a quem se encomendava a ingrata
tarefa da destruiç ã o, mas nem por isso deixava de dar o melhor de si em benefício das grandes
causas, embora tivesse que repetir uma e mil vezes o sacrifício. Também se fez em breve
assumir ao terrível Siva a tutela da fecundidade, e os signos fálicos elevaram-se por todo o
território da Índia em sua honra, num patrocínio lógico de compreender, porque ao ser um
deus tã o poderoso e valente, nã o podia deixar de ser o homem desejável ao qual dirigir-se
com devoç ã o, para rogar-lhe que comunicasse a graç a da sua forç a e vigor aos filhos
esperados.

Há muitos milê nios o deus Visnú começ ou a sua carreira mitológica como mais uma
divindade da natureza, talvez como um deus solar, mas foi galgando postos constantemente,
passando para um lugar de máxima importância na trindade trimurtiana, para o segundo lugar,
atrás do grande Brama. Agora Visnú está àespera da última encarnaç ã o do seu ciclo, depois
de ter tido nove das dez previstas pelo plano bramânico, tendo já passado pelas do peixe que
salvou Manú do dilúvio, a tartaruga que obteve a bebida sagrada do amrita, o javali que
voltou a salvar a terra do novo dilúvio, o leã o que castigou o blasfemo demô nio Hiranya,
Trivikrama, o Brâmane anã o dos trê s passos, o Parasurama que venceu os chatrias, o Rama
exemplar que se narra no Ramayana, Rama Chandra, o príncipe negro Krisna, Buda. A
décima será o acontecer do gigante com cabeç a de cavalo branco, de Visnú como Kalki, vindo
à Terra para a batalha definitiva contra o mal, quando se acabe o mundo e Siva apareç a
também sobre as ruínas do dia do fim do mundo. Nas populares e muito belas epopéias sacro-
poéticas do Ramayana e do Mahabharata, Visnú já se converte no verdadeiro protagonista da
lenda, relegando Brama, o que fora poder eterno, para um segundo plano, enquanto ele se

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aproxima mais e mais do fervor popular e habita nas moradas paradisíacas rodeado pelo amor
eterno de um milhar de incondicionais pastoras celestiais, as Gopis, e na companhia de
Laksmi, divindade do amor, da ciê ncia e da sorte, segundo nos contam os textos do
Ramayana. Quando Visnú desce à terra para acompanhar os humanos, fá-lo geralmente
incorporando-se em um deus de quatro braç os, braç os que portam o disco, o maç o, a concha
ou a trompeta, e a espada ou o lotus, emblemas que sã o representaç ões das suas faculdades e
virtudes, como sã o os símbolos do Sol, da forç a, do combate contra o mal e o seu justo
castigo, respectivamente.

Siva é a terceira pessoa do Trimurti, embora para os seus fiéis ele seja a primeira e
incontestável divindade trinitária. Casado com a também impressionante deusa Parvati, a
montanha, que conhece muitas advocacias, desde a de Sati, ou esposa, e Ambiká, ou mã e, até
àde Kali, a negra, a deusa da morte. Com a sua esposa Siva habita nas regiões que formam o
teto do mundo, no Himalaia, no cima do monte Kailas. Naturalmente, um amor como o da
deusa Parvati e o deus Siva nã o podia deixar de ser grandioso e conta-se que, quando por fim
Siva e Parvati se uniram pela primeira vez, todo o planeta estremeceu num gigantesco
terremoto. O deus Siva apresenta-se às vezes perante os homens nu e coberto com a cinza da
ascese, com toda a pureza do seu ser, adornado com o sinal inconfundível de um terceiro olho
vertical no meio da fronte, com o qual vê tudo, símbolo da sua onisciê ncia, e com o cabelo
preso num grande carrapicho, o mesmo que parou a queda da deusa Ganga, a deusa das águas
sagradas do rio Ganges, na Terra, absorvendo com a sua estóica dor essa imensa quantidade
de água, que era tã o necessária para a vida do povo indiano. Outras vezes aparece
completamente coberto de serpentes, para apontar inequivocamente a sua imortalidade, e
armado com o arco Ayakana e o Jinjira, mais o raio e um machado, porque entã o é a
personificaç ã o do tempo, o deus destrutor. Quando aparece como deus da justiç a, fá-lo
montado num touro branco e o seu corpo está coroado por cinco cabeç as e um número par de
braç os, entre dois e dez, empunhando numa das suas mã os um tridente no qual estã o enfiadas
duas cabeç as. Na fronte destaca-se a marca de uma lua em quarto crescente, o seu cabelo
vermelho eleva-se como uma tiara e a sua garganta é azul, para recordar que é o Nilakantha, o
herói que salvou o mundo de todo o veneno vomitado por Vasuri, o rei das serpentes, e o
apanhou na sua mã o para bebê -lo depois, queimando a sua garganta divina com a peç onha,
antes que deixar que os homens morressem pelo seu efeito.

O príncipe Siddharta Gautama, conhecido pela posteridade como Buda (Iluminado), viveu
entre os anos 550 e 471 (aC). Nasceu ao norte de Benarés, em Kapilavastu, com o anúncio
feito a Maia, sua mã e, segundo nos conta a sua lenda, de que a sua vida seria a de um rei de
corpos, um Kakravartin, ou a de um pastor de almas, um Buddah. Nasceu o prodigioso
menino através do costado de Maia, auxiliado por Indra e acompanhado de duas serpentes das
águas, duas Nasa, que criam vastas fontes de água quente (Nanda) e fria (Upananda) para
lavar a criatura prodigiosa, que perderá uma semana depois a sua mã e. O seu pai, o viúvo rei
Suddhodana, decidiu rodeá-lo de tudo o mais belo que estava ao seu alcance, para evitar que
fosse o homem espiritual que se tinha profetizado, apartando-o daquilo que lhe pudesse fazer
pensar nas misérias humanas e pondo-o nas mã os da sua cunhada e nova esposa
Mahaprajapati. Mas Siddharta, no seu retiro perfeito, chegou a ver e a reconhecer o
sofrimento alheio, soube da doenç a e da morte e, sobretudo, viu num asceta a perfeiç ã o que o
pai queria proporcionar-lhe com presentes e prazeres. Foram os seus quatro encontros: com a
velhice, com a doenç a, com a morte e com a serenidade. Entã o, e após vencer qualquer classe
de tentaç ões postas pelo seu pai, o príncipe Gautama, que tinha casado com a mais bela das
donzelas, com Gopa, e já tinha um filho, decidiu seguir o exemplo do asceta, abandonando o
mundo de esplendor do seu pai. Segundo se conta, Siddharta tinha vinte e nove anos quando

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decidiu abandonar tudo para procurar a verdade, e ainda passou outros seis anos percorrendo a
Índia na companhia do seu fiel Chandaka, procurando essa serenidade admirável no anô nimo
frade, mas o seu esforç o nã o se via recompensado pelo ê xito; nã o tinha encontrado o mestre
procurado nem alcanç ado o estado desejado. Por fim, na solidã o de uma noite de Bodh-Gaya,
quando se encontrava praticamente à beira da desesperanç a, sob os ramos da árvore Bo,
Gautama foi iluminado e, com a forç a da verdade, o Buddha começ ou o seu caminho de
pregaç ã o àboa gente que encontrava no seu caminho. A sua verdade era simples, nada há de
permanente num Universo mutante, num Universo no qual os nossos atos, e nã o os deuses,
nos premiam ou castigam com um novo nascimento em que o nosso ser, emigrado, alcanç ará
um estado mais perfeito ou mais imperfeito, segundo os méritos da nossa própria vida,
segundo tenha sido de triunfal a sua luta contra os anseios e as paixões.

A doutrina de Buda desenvolveu-se com forç a na Índia e fora dela, mas, pouco a pouco, a sua
implantaç ã o no território onde nasceu foi perdendo forç a, mudando-se com mais vigor para o
outro lado dos confins do norte, no reduto inacessível do Tibete, e atravessando mais tarde
para o este, chegando àpenínsula da Indochina, àChina, Mongólia, Coréia e Japã o, para ficar
definitivamente assentada no Extremo Oriente. Também com o decurso do tempo, a doutrina
simples e quase ateia de Buda se foi enriquecendo com elementos alheios, dando ao asceta
Buda uma dimensã o divina da qual ele teria fugido envergonhado e confuso, e pondo junto
dele toda uma corte de deuses tradicionais, até fazer crescer da mera idéia filosófica da
renúncia todo um bosque de personagens mitológicos, onde permaneciam parte do Brama
original e, sobretudo, do Indra do culto védico, agora reduzidos a pessoas santas do budismo e
transformados até no seu aspecto, com Indra batizado Sacra, àfrente de uma ordem celestial
de trinta e trê s deuses, àespera de receber a ordem de Buda para ir em sua ajuda com o vayra
sagrado, para lutar a seu lado contra Mara, o novo demô nio da tentaç ã o, o rei dos prazeres.
Este Mara, que reina na Terra, no Inferno e nos seis andares inferiores do Céu, tem sob as
suas ordens um exército de demô nios e serve-se das suas trê s filhas, Sede, Desejo e Prazer,
como avanç adas do seu mundo de pecado. O príncipe iluminado, vencido pela necessidade de
uma religiã o que se adaptasse àtradiç ã o indiana, transformou-se num deus múltiplo no tempo,
no protótipo da transmigraç ã o incessante, numa pessoa divina que tinha vivido em muitas
ocasiões, como se o personagem sagrado se tivesse encharcado também da essê ncia de Visnú
e das suas circunstâncias, num deus que operava milagrosamente e que se multiplicava na
Terra em outros seres humanos, dado que, mediante o exato cumprimento da sua doutrina, ia
dando lugar ao nascimento de inumeráveis Bodhisattvas, daqueles humanos santificados que
iriam progredindo no caminho da transmigraç ã o, até chegarem a ser também outro novo Buda
numa futura reencarnaç ã o, quando os seus méritos acumulados assim os recompensassem
com a divindade.

Também se viram desde os Veda os antigos Gandharva, mas agora a cargo da música do Céu,
e fizeram-no como auxiliares de um dos quatro Lokapalas, os soberanos dos quatro rumos.
Estes Lokapalas estã o a cargo dos pontos cardeais: no Norte está Kubera, com os também
tradicionais Yaksas, os antigos auxiliares de Siva; no Este Dhritarastra, governando sobre os
Gandharva; no Sul está Virudhaka, senhor dos pequenos gê nios anões; no Oeste o senhor é
Virupksa, com as suas serpentes aquáticas Nasa, donas da chuva. Junto dos demô nios de
Mara e das suas filhas, que conhecem as trinta e duas magias das mulheres e as sessenta e
quatro dos desejos, há outras criaturas infernais, desde os desgraç ados espíritos emigrantes
Pretas, míseras almas penadas, ao legendário Davadatta, o primo de Buda e traidor, passando
por Hariti, a deusa da doenç a negra, da varíola, mã e de quinhentos demô nios, que foi
transformada numa mulher bondosa por Buda, ao ver o amor que sentia pelos seus filhos.
Com estes e muitos mais deuses, o asséptico corpo primigê nio do ascetismo budista foi-se

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enchendo de personagens locais, cobertos de atributos e também de ornamentos e, ainda mais,
se foi tornando mais e mais barroco àmedida em que, nos diferentes lugares da Á sia, se ia
apropriando de divindades locais para o seu novo panteã o, como é o caso dos mais
representativos Bodhisattvas, Mitreya, Manjusri e Tara (que tinha sido deusa da energia na
Índia e passa a ser encarnaç ã o de Buda) no Tibete, ou a multidã o de divindades existentes
associadas a Buda ou aos Bodhisattvas na China e Japã o. Buda, o asceta histórico original,
esvai-se perante a série de Buddahs que já alcanç aram o Nirvana, o repouso eterno, e ele só é
o Gautama ou o Sakiamuni, e nã o haverá mais até chegar o Mitreya do último tempo,
enquanto uma nova família de Buddahs celestes reina num também novo e heterodoxo
Paraíso encravado no mais elevado. Finalmente, o budismo doutrinal evoluiu, transformando
a sua essê ncia tanto como o seu aspecto formal, e do metta da serenidade chegou-se ao bhakti
da sensibilidade e do amor, para que no karma também se inscrevam a renúncia e os
sacrifícios, abrindo-se o ser humano, da individualidade primigénia do budismo até chegar à
doutrina da necessidade de transferir a graç a alcanç ada por um mesmo para os outros, para o
próximo.

Quase mil anos depois de Buddah, na mesma época em que nasce o hinduísmo, Nataputta ou
Vardhamana, alcunhado Mahavira (o Grande) e Jina (Vencedor), funda o Janismo. Em efeito,
era filho de uma personalidade, mas aos trinta anos morreram os seus pais e esse
acontecimento levou-o a repartir as suas riquezas e sair à procura da verdade numa longa
peregrinaç ã o que desembocou numa rebeliã o religiosa contra o bramanismo. O Janismo é
uma religiã o sem deuses e que procura alcanç ar na transmigraç ã o a paz do espírito, nas suas
duas vertentes; digambara e svetambara, a nudez total ou hábito branco. O janista leva vida
eremita, com a esmola como simples forma de supervivê ncia e o respeito extremo a qualquer
ser vivo, com um especial ê nfase na proteç ã o dos animais, para alcanç ar a liberdade pelo
triratna: conhecimento, fé e virtude. A fé alcanç a-se com a leitura dos Agamas do Mahavira; a
virtude exige nã o matar, nã o roubar, nã o mentir, a castidade e a renúncia total. Para o janismo,
o Universo divide-se em duas partes: uma material, sem vida (adjiva) e outra viva (atman),
que se liberta da matéria pelo dharma das suas obras e fica apanhada no karma das suas faltas,
no seu caminho para a perfeiç ã o do siddha, o nirvana janista.

O sincretismo sij foi fundado pelo guru Nanak nos finais do século XV, procurando a uniã o
de hinduísmo e Islã . O guru Arjam escreveu em gurmuji, em pujabi, o que seria depois o texto
sagrado do Adigrant, recompilando os ensinos de Nanak sobre um único deus e um mundo
sem castas, no qual as almas conhecem a reencarnaç ã o em virtude da perfeiç ã o e da pureza
que tenham sabido conseguir na sua vida anterior. E assim se reencarna o guru Nanak nos
sucessivos gurus que governam o culto sij. A obra de Arjam foi escrita, precisamente, numa
época de perseguiç ã o muç ulmana, o que levou este grupo religioso punjabi a transformar-se
em temíveis guerreiros. À parte da humildade e da sinceridade, a alimentaç ã o omnívora
(perante o vegetarianismo hindu e os alimentos proibidos dos muç ulmanos) e rejeitar a
divisã o em castas, os sijs distinguem-se pelos seus turbantes e pela obrigaç ã o de conservar
sempre o seu cabelo.

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MITOLOGIAS PRÉ -COLOMBIANAS

A B C D E F G H
I J K L M N O P Q
R S T U V W
As religiões da América pré-colombiana, àépoca do descobrimento, variavam desde formas
animistas primitivas, com cultos estreitamente ligados à natureza, até sofisticados panteões
mitológicos que, nos casos mais avanç ados -- impérios asteca e inca --encontravam-se
provavelmente próximos do monoteísmo. A evoluç ã o maior ocorreu fundamentalmente em
duas grandes regiões culturais -- América Central, o México inclusive, e regiões andinas --,
cujas sucessivas civilizaç ões tenderam a integrar de maneira sincrética, em novos sistemas, os
deuses e concepç ões religiosas preexistentes. Cabe notar, no entanto, que povos da América
do Norte e outras regiões sul-americanas criaram mitologias próprias originais.

No que se refere ao México e à América Central, as manifestaç ões religiosas arcaicas


adquiriram firmeza nos panteões das grandes culturas teocráticas -- dirigidas por sacerdotes
que controlavam os calendários e os ritos -- do horizonte clássico e especialmente no centro
sagrado de Teotihuacan, que, entre os séculos I e VI d.C., difundiu por toda a regiã o o culto
ao deus civilizador Quetzalcóatl, criador do homem. No século VII, a chegada dos toltecas --
povo guerreiro cujo sanguinário deus Tezcatlipoca, o Sol noturno, expulsou Quetzalcóatl,
segundo conta a lenda -- provocou a destruiç ã o de Teotihuacan.

Sua cultura, no entanto, perdurou em grande parte na civilizaç ã o maia do Yucatán, que
sofreu também o influxo de grupos toltecas fiéis a Quetzalcóatl, conhecido pelos maias com o
nome de Kuculkán. Outras importantes divindades maias eram Itzamná, senhor dos deuses e
filho do primeiro criador Hunab-Ku; e Chac, deus da chuva equivalente ao Tlátoc asteca. O
texto sagrado em língua quiche Popol-Vuh constitui uma fonte de inapreciável valor sobre a
mitologia maia, cuja variedade se ampliava ainda mais ao se desdobrar cada divindade em
quatro figuras relacionadas aos pontos cardeais.

A integraç ã o das culturas anteriores conferiu extraordinária riqueza à mitologia asteca,


correspondente a um regime teocrático dominado pela figura do rei em que as concepç ões
guerreiras, políticas e religiosas formavam um todo unitário. A cosmogonia asteca, de caráter
fatalista, considerava que o mundo se achava em seu quinto estado, após a destruiç ã o dos
quatro anteriores, crenç a que fundamentava, a prática de sacrifícios humanos, cujo propósito
era proporcionar sangue ao Sol para que sua luz nã o se apagasse. Veneravam-se popularmente
inúmeros deuses menores, com o objetivo de alcanç ar sua proteç ã o frente aos desastres
naturais. As trê s divindades principais do panteã o eram Quetzalcóatl, Tezcatlipoca, protetor
dos jovens guerreiros e feiticeiros, e Huitzilipochtli, o Sol diurno, deus supremo das antigas
tribos astecas, senhor da guerra e adorado também pelos camponeses como protetor das
colheitas. Além deles, existiam divindades próprias das diversas classes sociais e profissões, e
outras que encarnavam forç as cosmogô nicas, embora se tenha observado que durante o século

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XV começ aram a se desenvolver algumas tendê ncias dualistas e, em menor medida,
monoteístas.

As civilizaç ões andinas também desenvolveram complexos sistemas religiosos, embora


seus panteões mitológicos nã o tenham alcanç ado a multiformidade dos da América Central.
As manifestaç ões artísticas de culturas que floresceram durante o primeiro milê nio antes da
era cristã , entre elas a de Chavín, com suas representaç ões de animais totê micos e grotescas
figuras antropomórficas, mostravam já acentuados traç os de elementos religiosos e simbólicos
associados a cultos da natureza que seriam depurados por civilizaç ões posteriores, como as de
Huari e Tiahuanaco, esta última centro de um importante movimento religioso.

A religiã o inca, estatal e teocrática, divinizava o imperador como "filho do Sol". Soube,
no entanto, assimilar as divindades e crenç as dos povos conquistados para assegurar a unidade
política do império, o que explica a convivê ncia de ritos populares junto da religiã o oficial
encarnada pelo panteã o inca.

X Y Z a b c d e
f g h i j k l M n
o p q r s t u w
x y z

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O SEGREDO DOS ASTECAS

Pedra do Sol: o monólito mais célebre da civilização

Assim como os seus antecessores incas, os astecas fascinam a arqueologia e despertam


suposiç ões em torno do seu desaparecimento. Comunidade marcada pelo trabalho e pelas
crenç as religiosas, os astecas habitavam a regiã o de Astlán, a noroeste do México. Sucessores
diretos da linhagem dos toltecas, os astecas inicialmente formavam uma pequena tribo de
caç adores e coletores que, em 1325, se deslocou em direç ã o à zona central mexicana e
desenvolveu uma agricultura moderna e de subsistê ncia. Entre as invenç ões dos astecas,
constam a irrigaç ã o da terra e a construç ã o dos "jardins flutuantes" - cultivo de vegetais em
terrenos retirados do fundo dos lagos. A construç ã o das chinampas (nome dado a esses
jardins) era feita nos lugares mais rasos dos lagos. Os astecas demarcavam o local das futuras
chinampas com estacas e juncos, enchiam-nos com lodo extraído do fundo do lago e
misturavam com um tipo de vegetaç ã o aquática que flutuava no lago. Esta vegetaç ã o formava
uma massa espessa sobre a qual se podia caminhar. Estas tecnologias foram essenciais para a
fundaç ã o e sobrevivê ncia de Tenochtitlán.

Tenochtitlán, capital do império asteca, era bela e bem maior que qualquer cidade da Europa
na época. Esta metrópole teve seu apogeu de 400-700 d.C. Com suas enormes pirâmides do
Sol e da Lua (63 e 43m de altura, respectivamente), sua Avenida dos Mortos (1.700m de
comprimento, seus templos de deuses agrários e da Serpente Plumada, suas máscaras de pedra
dura, sua magnífica cerâmica, ela parece ter sido uma metrópole teocrática e pacífica, cuja
influê ncia se irradiou até a Guatemala.

Sua aristocracia sacerdotal era sem dúvida originária da zona dos Olmecas e de El Tajín,
enquanto a populaç ã o camponesa devia ser composta por indígenas Otomis e outras tribos
rústicas. A religiã o compreendia o culto do deus da água e da chuva (Tlaloc), da serpente
plumada (Quetzalcoatl) símbolo da fecundidade agrária e da deusa da água (Chalchiuhtlicue).
Acreditavam na vida após a morte, em um paraíso onde os bem-aventurados cantariam sua
felicidade resguadardos por Tlaloc.

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Ascensão e derrocada

O império inca foi construído em apenas um século (XIV). A derrocada veio tã o rapidamente
quanto a sua ascensã o. Em nome da Igreja Católica e da Monarquia do Velho Mundo, os
conquistadores espanhóis Hernández de Córdoba, Grijalva e Hernán Cortés, chegaram em
1517 no México, conquistaram e destruíram a civilizaç ã o Asteca, erguendo sobre as ruínas do
templo de seu deus mais importante, uma catedral cristã . A prisã o do Príncipe Montezuma e
sua submissã o direta a Hernán Cortés e Fernán Pizarro. Humilhado e submetido aos favores
dos espanhóis, Montezuma foi decepado.

Por incrível que possa parecer, a civilizaç ã o asteca simplesmente desapareceu. Várias sã o as
hipóteses para sua "fuga". Uma delas alega que o massacre dos astecas teria impelido os
membros da civilizaç ã o a debandarem para a Floresta da América Central. Outra hipótese,
coadunada por ufólogos e fanáticos em discos voadores, afirma que os astecas eram seres
extraterrestres ou produtos híbridos, que teriam retornado aos seus planetas de origem, assim
que a missã o tivesse sido concretizada. Poucos indícios revelam o paradeiro desse povo
misterioso. Entretanto, por volta de 1988 uma equipe de reportagem de uma TV de El
Salvador encontrou um achado um tanto desconcertante. Incrustadas na parede de um templo
estavam escritas, em náuatle (língua tradiocional dos astecas), as palavras: "Nós voltaremos
no dia 24 de dezembro de 2.010".

A Arte Asteca

As ruínas astecas indicam muito mais grandeza do que qualidade. Sua arquitetura era menos
refinada que a dos maias. Milhares de artesã os trabalhavam continuamente para construir e
manter os templos e palácios. Pequenos templos se elevavam no topo de altas pirâmides de
terra e pedra, com escadaria levando aos seus portais. Imagens de pedra dos deuses, em geral
de forma monstruosa, e relevos com desenhos simbólicos, eram colocados nos templos e nas
praç as.

A mais famosa escultura asteca é a Pedra do Sol, erradamente conhecida como Calendário de
Pedra Asteca. Está no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. Com 3,7 m de
diâmetro, a pedra tem no centro a imagem do deus sol, mostrando os dias da semana asteca e
versões astecas da história mundial, além de mitos e profecias.

Os astecas eram artesã os hábeis. Tingiam algodã o, faziam cerâmica e ornamentos de ouro e
prata e esculpiam muitas jóias finas em jade.

Cultura e Religião de um povo místico

Dezoito deuses. O politeísmo dos astecas estava configurado na crenç a em divindades


representativas para cada uma das funç ões. Acreditavam em um deus que monitorava o vento,
outro que monitorava o sol, outro que cuidava das plantaç ões e assim por diante. A religiã o e
o Estado estavam tã o unidos na sociedade asteca que as leis civis tinham por trás de si a forç a
da crenç a religiosa. Quando entravam em guerra, os astecas lutavam nã o só por vantagens
políticas e econô micas, como também pela captura de prisioneiros. Estes eram sacrificados
aos muitos deuses. A mais importante forma de sacrifício consistia em arrancar o coraç ã o da
vítima com uma faca feita de obsidiana, ou vidro vulcânico. À s vezes, os sacerdotes e
guerreiros comiam a carne da vítima.

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Huitzilopochtli, a divindade asteca favorita, era o deus da
guerra e do sol. Exigia o sacrifício de sangue e de coraç ões
humanos para que o sol nascesse a cada manhã . Outros
deuses importantes eram Tlatoc, da chuva; Tezcatlipoca, "o
espelho fumegante", do vento; e Quetzalcoatl, "a serpente de
plumas", deus do conhecimento e do sacerdócio. Segundo as
lendas astecas, Quetzalcoatl havia atravessado o mar
velejando, mas um dia voltaria. Os deuses exigiam
cerimô nias especiais, oraç ões e sacrifícios a intervalos
determinados ao longo do ano e em ocasiões especiais.

Após as guerras, o mais bravo dos prisioneiros era


sacrificado. Para isso, caminhava até o altar do templo
tocando uma flauta e acompanhado de belas mulheres.

NOME DO DEUS REPRESENTAÇ Ã O COMENTÁ RIOS


CENTEOTL Deus com chifre
COATLICUE "Mulher-serpente"
EHECATL Deus do vento
HUEHUETEOTL Deus do fogo Considerado o deus mais
antigo da Mesoamérica
HUITZILOPOCHTLI Deus da guerra/Sol Principal guardiã o da metrópole
asteca de Tenochtitlan
MICTLANTECUHTLE Deus da morte
OMETECUHLTI Criador da vida na Terra Sua esposa era OMECIHUATL
QUETZALCOATL "Serpente-Plumada" - deus da Um dos mais significativos
civilizaç ã o e aprendizado deuses astecas. Representa
a forç a da natureza.
TEZCATLIPOCA Deus da noite e da magia Deus supremo. Associado
também com o destino dos
homens e com a realeza.
TLALOC Deus da chuva e da tempestade Outro dos deuses mais
cultuados no Antigo México
TONATIUH Sol Considerado como primeira
fonte de vida
TONANTZIN A Terra, a "honorável avó"
XILONEN "Jovem espiga-de-milho" Associado com o governo
CHICOMECOATL "Sete serpentes" Associado com o governo
XIPE TOTEC Deus da primavera e do replantio
XIUHTECUHTLE Deus do fogo

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Histó ria e cultura do povo do Sol

O Homem de Jade, uma das misteriosas relíquias dos astecas

Os astecas, de acordo com sua própria história lendária, surgiram de sete cavernas a noroeste
da Cidade do México. Na verdade, esta lenda diz respeito apenas aos tenochca, um dos grupos
astecas. Esta tribo dominou o Vale do México e fundou Tenoochtitlán, que se tornaria a
capital do império asteca, por volta do ano 1325 d.C. Conta a lenda que o deus Huitzilopochtli
conduziu o povo a uma ilha no Lago Texcoco. Ali viram uma águia, empoleirada num cacto,
comendo uma serpente. Segundo uma profeciam, este seria o sinal divino para o local da
construç ã o de sua cidade.

Os tenochca começ aram com um pequeno templo e logo tornaram-se os líderes da grande
naç ã o asteca. A primeira parte da história asteca é lendária. Mas o resultado das escavaç ões
arqueológicas e os livros astecas servem de base para um relato histórico verídico. A história
possui um registro bastante autê ntico da linhagem dos reis astecas, desde Acamapichtli, em
1375, a Montezuma II, que era o imperador quando Hernán Cortés entrou na capital asteca em
1519.

Montezuma de início acolheu os espanhóis, mas depois conspirou contra eles. Cortés entã o
aprisionou o imperador. Os astecas rebelaram-se contra os invasores e Montezuma foi morto
no levante. Cortés, com quase mil soldados espanhóis e a ajuda de milhares de aliados
indígenas (tribos inimigas dos astecas), finalmente conquistou os astecas em 1521. Sua vitória
foi fácil. Enqüanto os espanhóis possuíam armas de fogo, cavalos e armas de ferro, os astecas
praticamente lutavam com as mã os. Outro fator que propiciou o domínio por parte dos
espanhóis foi crenç a, evidentemente equivocada, de que os espanhóis seriam na verdade o
deus Quetzalcoatl e seus seguidores, regressando, como rezava a lenda.

O império asteca caiu imediatamente após a conquista. As doenç as européias terminaram por
assolar a populaç ã o e dizimar milhares de pessoas. Os espanhóis arrasaram completamente o
centro cerimonial de Tenochtitlán e usaram a área para seus prédios públicos. Derrubaram
templos astecas e erigiram igrejas católicas.

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Cotidiano

A maioria dos astecas vivia como os índios de hoje, nas mais remotas aldeias do México. A
família morava numa casa simples, feita de adobe ou pau-a-pique e coberta de sapê . O pai
trabalhava nos campos com os filhos mais velhos. A mã e cuidava da casa e treinava as filhas
nos afazeres domésticos. As mulheres passavam a maior parte do tempo moendo milho numa
pedra chata, a metate, e fazendo bolos sem fermento, as tortillas. Também fiavam e teciam.
Os alimentos preferidos eram a pimenta, o milho e o feijã o - que produziam em larga escala
para consumo. As roupas eram feitas de algodã o ou de fibras das folhas de sisal. Os homens
usavam tanga, capa e sandálias. As mulheres trajavam saias e blusas sem mangas. Desenhos
coloridos nas roupas revelavam a posiç ã o social de cada asteca. Os chefes de aldeia usavam
uma manta branca e os embaixadores carregavam um leque. Em geral, os sacerdotes se
vestiam de negro.

Educação

Os sacerdotes tinham controle total sobre a educaç ã o. O império asteca era provido de escolas
especiais, as calmecas, que treinavam os meninos e meninas para as tarefas religiosas oficiais.
As escolas para as crianç as menos disciplinadas eram chamadas de telpuchcalli, ou "casas da
juventude", onde elas aprendiam história, tradiç ões astecas, artesanatos e normas religiosas.

Os astecas registravam os acontecimentos mais importantes em livros feitos de papel


preparados com folhas de sisal. Estes livros eram enrolados como pergaminhos ou dobrados
como mapas. Os astecas nã o possuíam um alfabeto. Criaram uma espécie de escrita em
logogrifo, usando imagens e caracteres simbólicos.

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INCAS - Misticismo e fé
Rodrigo Craveiro

Conta a história que os primeiros incas surgiram em forma de duas lendas bem conhecidas. A
primeira dizia que Tayta Inti ou o Pai Sol, observando o caos e a perdiç ã o que prevaleciam na
Terra, decidiu enviar ao planeta duas crianç as, com o objetivo de estabelecer a ordem. Elas
surgiram as águas do Titicaca, o lago mais alto do mundo, e carregavam uma espécie de
estátua dourada, presente de seus pais. O nome do primeiro inca era Manko Qhapaq; sua irmã
era Mama Oqllo.

De acordo com a tradiç ã o, a estátua foi enterrada na montanha Wanakauri, a sudeste de


Cuzco. A interpretaç ã o desta lenda tem um suporte favorável, já que sugere que Manko
Qhapaq representa uma naç ã o inteira do povo Tiawanako. Eles viveram na regiã o de Titicaca
e eram conhecidos por suas terras férteis. Ainda assim, os Tiawanako foram surpreendidos
pela superpopulaç ã o e pela escassez de alimentos, o que os obrigou a bater em retirada rumo a
uma terra mais promissora. Sabe-se também que a possível capital do Estado de Tiawanako
era Taypiqala, que teria sido destruída pelos guerreiros Aymara, vindos do sul do Peru. As
invasões obrigaram o povo Tiawanako a fugir em direç ã o ao vale de Cuzco. Já foi provado
que os Tiawanako tiveram uma participaç ã o decisiva na formaç ã o de Tawantinsuyo, o Estado
que abriga Cuzco.

A segunda lenda é conhecida como "Irmã os Ayar" e indica que, de trê s janelas da montanha
Tamput'oqo (a 25 kms de Cuzco) teriam saído quatro irmã os. Eram eles: Ayar Manko (Manko
Qhapaq), Ayar-Kachi, Ayar-Auka e Ayar-Uchu. Cada um deles trouxe sua esposa. Eles
caminharam até Cuzco, onde apenas as mulheres e Manko Qhapaq fundaram a cidade, em
nome de Teqsi Wiraqocha e do Sol.

Organização Política

É incontestável que o estado inca teve uma organizaç ã o social e política peculiar. Seu chefe
de Estado era o Inka ou Sapan Inka, também conhecido como Sapan Intiq Churin ("O Único
Filho do Sol"), que tinha uma esposa com o nome de Qoya. De um modo mais compreensível,
pode-se dizer que o nome "Inka" equivale a "Rei"; e "Qoya" significa "Rainha". De acordo
com a tradiç ã o andina, tanto Inka quanto Qoya eram descendentes diretos do Deus Sol. Para
perpetuar sua linhagem divina, o Inka era obrigado a casar com sua irmã . O "Sapan Inka"
também tinha um número limitado de concubinas e filhos. A tradiç ã o conta que Wayna
Qhapaq tinha mais de 400 crianç as. Este privilégio era dado somente para o Inka.

O Inka era o chefe religioso e político de todo o Tawantinsuyo. Ele praticava a soberania
suprema. Pesava o fato de que o Inka era venerado como um deus vivo, pois era considerado
o Filho do Sol. Seus súditos seguiam suas ordens com total submissã o. Aqueles que
conviviam com ele se humilhavam em sua presenç a, em ato de extrema reverê ncia. Apenas o
mais nobre homem da linhagem Inka podia dirigir a palavra ao Inka e repassar as informaç ões
aos outros súditos. Algumas das mulheres do Império Inca coletavam cabelo e saliva do Rei,
como forma de se protegerem de maldiç ões. Ele era carregado em uma maca dourada e suas
roupas eram feitas de pele de vicunha da mais alta qualidade. Somente ele usava o simbólico
Maskaypacha ou uma insígnia real, espécie de cordã o multicolorido. Grandes adornos
dourados pendiam de suas orelhas, o que acabava por deformá-las. O imperador inca usava
ainda uma túnica que ia até os joelhos, um manto banhado a esmeralda e turquesa, braceletes
e joelheiras douradas e uma medalha peitoral que trazia impresso o símbolo do Império Inca.

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Os historiadores ainda nã o chegaram a um consenso sobre o número exato de incas que
governaram Tawantinsuyo desde sua fundaç ã o. Alguns cronistas sugerem que eles fossem 14
ao todo, outros apostam no quantitativo de número 13. A tradiç ã o reconhece os primeiros oito
reis, de Manko Qhapaq até Wiraqocha, como os Inka místicos. Até a chegada dos
conquistadores espanhóis, cinco reis governaram um dos impérios mais misteriosos e
fascinantes de toda a história.

Pachakuteq governou de 1438 a 1471 e foi sucedido por Tupaq Inka Yupanqui, que ficou no
poder de 1471 a 1493. Depois, seguiram no reinado Wayna Qhapaq (1493-1527), Waskar
(1525-1532) e finalmente Atawallpa (1527-1533). A dinastia inca nã o acabou com a chegada
dos espanhóis invasores, mas abriu caminho para o surgimento da naç ã o Quéchua. Movido
por interesses diplomáticos, Pizarro nominou Toparpa ou Tupaq Wallpa como o novo Inka,
envenenado quando viajava até Cuzco. Mais tarde, o direito ao trono foi oferecido a Manko
Inka ou Manko II,outro filho de Wayna Qhapaq que, em 1536, começ ou uma longa guerra
para retomar o comando de Tawantinsuyo. Ele acabou sendo assassinado por dois seguidores
do conquistador espanhol Almagro e foi substituído pelo filho, Sayri Tupaq, que morrem em
Yucay, após traiç ã o dos conquistadores. Titu Kusi Yupanqui, irmã o de Sayri Tupaq, foi
denominado novo Inka. Sua primeira aç ã o no poder foi se dirigir até Vilcabamba, com o
objetivo de continuar a guerra. Vitimado por uma doenç a, Titu Kusi morreu e foi sucedido
pelo irmã o Tupaq Amaru. Mas Amaru foi seqüestrado pelo capitã o espanhol Martin Garcia
Oñas, que acabou se casando com a sobrinha de Amaru. Tupaq Amaru foi levado até Cuzco e
executado em praç a pública. Era o ano de 24 de setembro de 1572 e o conquistador Viceroy
Francisco de Toledo se regozijava diante da execuç ã o sumária. Após 36 anos de guerra, os
conquistadores do Velho Mundo adquiriam todos os direitos sobre a terra sagrada dos incas.

Os Deuses dos Incas

VIRACOCHA: (Ilha Viracocha Pachayachachi), (Esplendor originário, Senhor, mestre do


mundo), foi a primeira divindade dos antigos Tiahuanacos, proveniente do Lago Titicaca.
Como o seu homô nimo Quetzalcoatl, surgiu da água, criou o céu e a Terra e a primeira
geraç ã o de gigantes que viviam na obscuridade. O culto do Deus criador supunha um conceito
intelectual e abstrato, que estava limitado à nobreza. Semelhante ao Deus Nórdico Odín,
Viracocha foi um deus nô made, e como aquele, tinha um companheiro alado, o condor Inti,
grande profeta.

INTI: (o Sol), chamado "Servo de Viracocha", exercia a soberania no plano superior ou


divino, do mesmo modo que um intermediário, o Imperador, chamado "Filho de Inti", reinava
sobre os homens. Inti era a divinidade popular mais importante: era adorado em muitos
santuários pelo povo inca, que lhe rendiam oferendas de ouro, prata e as chamadas virgens do
Sol.

MAMA QUILLA: (Mã e Lua), Esposa do Sol e mã e do firmamento, dela se tinha uma estátua
no templo do Sol. Essa imagem era adorada por uma ordem de sacerdotisas, que se espalhava
por toda a costa peruana.

PACHA MAMA: "A Mã e Terra", tinha um culto muito idolatrado por todo o império, pois
era a encarregada de propiciar a fertilidade nos campos.

MAMA SARA: (Mã e do Milho).

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MAMA COCHA: (Mã e do Mar)

As lendas incas

A Primeira Criaç ão: "Caminhava pelas imensas e desertas pampas da planície, Viracocha
Pachayachachi, 'o criador das cosas', depois de haver criado o mundo em um primeiro ensaio
(sem luz, sem sol e sem estrelas). Mas quando viu que os gigantes eram muito maiores que
ele, disse: - Nã o é conveniente criar seres de tais dimensões; parece-me melhor que tenham
minha própria estatura! Assim Viracocha criou os homens, seguindo suas próprias medidas,
tal como sã o hoje em dia, mas aqueles viviam na obscuridade".

A Maldiç ão: Viracocha ordenou aos hombres que vivessem em paz, ordem e respeito.
Entretanto, os homens se rendeream àvida ruim, aos excessos, e foi assim que Deus criador
os maldisse. E Viracocha os transformou em pedras ou animais, alguns caíram enterrados na
Terra, outros foram absorvidos pelas águas. Finalmente, despejou sobre os homens um
dilúvio, no qual todos pereceram.

A Segunda Criaç ão: Somente trê s homens restaram com vida, e com o objetivo de ajudar
Viracocha em sua nova criaç ã o. Assim que o dilúvio passara, "o mestre do mundo" decidiu
dotar a Terra com luz e foi assim que ordenou que o sol e a lua brilhassem. A lua e as estrelas
ocuparam seu ligar no vasto firmamento.

Religião

Como muitos outros elementos da cultura andina, a religiã o dos incas é um produto da
convivê ncia milenar do homem com a natureza. Em síntese, é uma religiã o que o homem nã o
pode explicar, demonstrar ou dominar, pois trabalha como fenô menos ou poderes superiores
incontroláveis. Dessa forma, uma serpente que com uma picada conseguisse causar
convulsões e morte em um homem era considerada sagrada. Um puma, o mais poderoso
animal da fauna andina, era considerado como deus pelos incas.

Os trovões e raios que causavam fogo e destruiç ã o também eram venerados. Dúzias de outros
elementos andinos tinham características de divindades.

A religiã o é definida como a uniã o dos valores e crenç as morais, que seguem uma conduta
social individual. De qualquer modo, a prática de rituais coloca o homem em contato com o
divino. Segundo informaç ões baseadas em arqueologia e fatos históricos, os altos sacerdotes
incas reuniam-se anualmente em um templo de Huayna Picchu. Ali, eles ofereciam a
ayahuasca - uma bebida feita da decocç ã o de duas plantas amazô nicas - a uma jovem virgem.
Tomavam da poç ã o mágica e evocavam os espíritos da natureza. A virgem era sacrificada e
seu sangue derramado no altar, uma forma de devoç ã o ao Deus Sol. As próprias virgens se
sentiam honradas em serem escolhidas para o ritual.

Como conseqüê ncia de sua divisã o social, havia na sociedade inca uma cosmovisã o privada
para a nobreza e outra para o povo plebeu. Os templos incas sempre permaneciam protegidos
e trancados. Em termos gerais, considerava-se que todos estavam subordinados a uma
entidade invisível, eterna e onipotente, que recebera o nome de Wiraqocha. Alguns
historiadores afirmam que o nome real desse deus era Apu Kon Titi Wiraqocha ou talvez Illa
Teqsi Wiraqocha. Alguns estudantes peruanos acreditam na probabilidade de que este mesmo
deus era identificado pelos nomes de Pachakamaq e Tonapa.

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Visão cosmopolita do Universo

O deus Wiraqocha estava acima dos trê s mundos da cosmovisã o peruana. Os incas
acreditavam na existê ncia do Hanan Pacha, um mundo no espaç o sideral e chamavam de Kay
Pacha a superfície da Terra. Eles afirmavam ainda que o Ukhu Pacha era um mundo situado
abaixo do solo, uma espécie de inferno. O Inka era considerado como o Sapan Intiq Churin ou
o "Único Filho do Sol". Esta era a principal razã o para que cada cidade ou vilarejo inca
tivesse templos dedicados ao seu culto. O mais importante templo - todo banhado a ouro - era
o Qorikancha. Na religiã o quéchua, considerava-se que a Lua era uma deidade feminina,
identificada com a prata e esposa do Deus Sol. O mais importante sacerdote na sociedade inca
era o Willaq Uma. Em condiç ões normais, o cargo de Willaq Uma era ocupado pelo irmã o ou
o tio do Rei.

Um estudo de Luis E. Valcarcel indca que todos os deuses, menos Wiraqocha, surgiram do
Hanan Pacha. Ali também estariam os espíritos de incas nobres também. Daquele mundo,
teriam vindo os incas, como crianç as do Sol. Dois seres mitológicos estabeleceram uma
comunicaç ã o regular entre os diferentes mundos; do Ukhu Pacha saiu todo o mundo terrestre -
ou Kay Pacha - e eram projetados através do Hanan Pacha. Daí se vê um pouco da relaç ã o
com o catolicismo. Os católicos acreditam que após a morte, o espírito vá para o céu. Esses
seres mitológicos ou espirituais eram representados na forma de duas serpentes: Yakumama
(mã e d'água), que ao chegar àTerra fora transformada em um grande rio e teria voltado ao
mundo sob a forma de um raio. A outra cobra era Sach'amama (Mã e Á rvore), que tinha duas
cabeç as e caminhava verticalmente, com a aparê ncia de uma "velha árvore". Ao chegar ao
mundo celestial, Sach'amama foi transformada em um K'uychi (arco-íris), que era relacionado
com a fertilidade.

A Terra ou a Mã e Terra, conhecida como Pachamama, ainda é objeto de cultuaç ã o em todas


as montanhas andinas. As estrelas também ocuparam um lugar preponderante na religiã o pré-
hispânica. Muitas estrelas e constelaç ões, tais como a estrela Ch'aska ou Vê nus, ou a
constelaç ã o Pleíades tinham características divinas. Atualmente, alguns seguidores da religiã o
inca ainda usam algumas constelaç ões para a previsã o do futuro: de acordo com o brilho das
estrelas, é possível saber se o próximo ano será repleto de chuvas, prosperidade, alegria ou
desastres.

Muitos historiadores indicam que Waka ou Guaca era um santuário usado para a veneraç ã o de
deuses regionais ou locais. Considerava-se que a vida de uma pessoa ou uma dinastia pudesse
emergir de um rio, uma montanha, um pássaro ou um puma. Quem nascia dos rios era
denominado de Crags; quem provinha das montanhas, era chamado de Orkjo. A arte de
embalsamamento teve grande desenvolvimento no Peru pré-hispânico. Toda a pessoas que
morria era mumificada, nã o importasse a qual classe social pertencia. A única diferenç a era
que as múmias das pessoas comuns eram depositadas nos cemitérios; enqüanto que as
múmias dos nobres eram reservadas em Wakas (templos). As Mallki (múmias) eram objetos
de adoraç ã o e serviam comunidades inteiras como se estivessem vivas. Outro elemento
importante na religiã o inca eram os Wayke, ídolos ou representaç ões de pessoas nobres,
esculpidos em metais e geralmente em tamanho natural. Restos de intestinos dos falecidos
parentes eram colocados em uma caixa e depositados no peito da estátua. Os metais nã o
tinham qualquer valor econô mico na sociedade inca; apenas valores cerimoniais.

Há referê ncias de que a sociedade inca praticava oraç ões, abstinê ncia sexual e festividades, e
entendia o conceito de pecado. As casas de família tinham amuletos que buscavam trazer

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prosperidade e boa sorte. Chamados de Wasiqamayoq ou Ulti, eram esculpidos em pedra e
tinham diferentes formas e cores. Normalmente tinham formas de concha, onde as pessoas
colocavam vinho ou ayahuasca durante as cerimô nias chamadas de "haywarisqa" (cerimô nia
de oferendas).

Oferendas e sacrifícios

As oferendas consistiam em diferentes elementos, como comida, ayahuasca, Aqha (bebida


alcoólica fermentada a partir do milho), lhamas e porcos. As oferendas líquidas eram
colocadas em fontes chamadas de Phaqcha, e a ayahuasca e o sangue de animais eram
irrigados no templo, como sacrifício. Os animais eram sacrificados para que se buscasse
prever o futuro pelo estudo de suas vísceras, coraç ã o, pulmões e outros órgã os. Alguns
historiadores espanhóis - normalmente padres católicos - escreveram que em circunstâncias
especiais sacrifícios de crianç as eram praticados (estudiosos peruanos alegam que essa
posiç ã o da Igreja Católica visava atenuar as atrocidades cometidas pelos conquistadores
espanhóis, em nome do Cristianismo). O padre Vasco de Contreras y Valverde, usando de
diversos documentos em 1649, assegurou que quando o Wayna Qhapaq morreu "seu corpo foi
trazido para a cidade, onde em seu funeral quatro mil pessoas foram assassinadas...".
Garcilaso Inca de la Vega escreveu: "Eles nã o tinham sacrifícios relacionados à carne ou
sangue humano, mas abominavam isso e abominavam o canibalismo. Os historiadores que
disserem o contrário estarã o incorrendo em erro grave".

Atualmente, já se sabe que algumas províncias Quéchua praticavam sacrifícios humanos;


Huaman Poma, entre 1567 e 1615, escreveu que Capacocha era o nome de uma crianç a
sacrificada com uma ano de idade, enquanto que Cieza de Leon acredita que esse seja o nome
dado a todos os presentes e oferendas de seus ídolos; Pedro Sarmiento de Gamboa escreveu
que "Capaccocha era a imolaç ã o de duas ou mais crianç as do sexo masculino ou feminino".
Supõe-se que os sacrifícios humanos tenham ocorrido nos templos incas mais importantes.

Em 1992, Johann Reinhard informou a respeito de restos de um corpo humano encontrados


em altas montanhas andinas. O padre Cobo escreveu em 1639 que quando os garotos eram
sacrificados, "eles eram estrangulados com uma corda, ou por socos initerruptos e eles eram
queimados; algumas vezes, os incas tornavam-no bê bados, antes de matá-los". Quando os
espanhóis chegaram ao Peru, a reduç ã o sistemática dos indígenas e de suas idolatrias estava
evidente.

Uma das metas principais dos espanhóis era tentar extirpar totalmente os "bruxos" da religiã o
de Tawantinsuyo. Quando as "Reduç ões de índios" foram estabelecidas em 1572 por Viceroy
Toledo, (para alguns peruanos, foi um grande organizador; mas tirano e perverso para muitos
outros). Os espanhóis se concentraram em quatro esforç os quando da conquista das tribos
quéchua: estabelecer o controle ou escravizar os índios, fazer com que os incas pagassem
pesados tributos àCoroa Espanhola, estabelecer o controle moral e alterar a religiã o dos incas.
A religiã o dos incas, que se caracterizava por animista, começ ava a ganhar traç os católicos.
Os mais importantes templos incas foram queimados e demolidos. Uma Inquisiç ã o foi
instaurada e os sacerdores "Willaq Uma" e "Tarpuntays" foram considerados como feiticeiros
e, por isso, submetidos àdura lei da Igreja Católica.

Todo o seguidor de seitas ou religiões diferentes do catolicismo era reprimido ou mesmo


assassinado. Entre os colonizadores, haviam pensamentos diferentes sobre os homens andinos
e sua religiã o. A mais famosa disputa em torno de dados religiosos foi travada entre o

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missionário espanhol e historiador Bartolome de las Casas (1474-1568) e o também escritor
espanhol Juan Gines de Sepulveda (1490-1573). De las Casas sugeriu a necessidade
imperativa de evangelizar o povo do Novo Mundo, em concordância com os preceitos
cristã os.

Gines de Sepulveda admitiu que o indígena andino teria de ser evangelizado, mas antes teria
de ser humanizado. Sepulveda queria dizer que o componente de uma das civilizaç ões mais
ricas do mundo devia ser tratada como animal e passar por um processo de humanizaç ã o.
Tradicionalmente e oficialmente considera-se a religiã o oficial peruana como sendo a
católica. Como Carmen Bernard diz, "os incas nã o sã o povos fossilizados. Sua imagem é
ainda vívida nas mentes que eram excluídas de todo o poder político. Essa imagem dos incas é
real para a história ou serve como uma proposta alegórica? Nã o importa. Ela vive nos
coraç ões daqueles a quem o mundo moderno parece ter sido esquecido ou rejeitado..."

Macchu Picchu – A cidadela dos Andes

Durante o início da primeira década do século XX, vários exploradores da América do Sul
procuravam por ouro e outros tesouros da extinta civilizaç ã o inca. Hiram Dingham acabou
descobrindo quase que por acaso, em 1911, uma pequena cidade, no topo dos Andes. Ali,
conta a lenda vivia somente uma família. Era Macchu Picchu, a cidadela perdida dos incas.

Ninguém sabe como e porque Macchu Picchu foi construída. Fincada em um local de
dificílimo acesso, a cidade mais conhecida dos incas desenvolvia papel fundamental no
império Inca. Pensava-se que a construç ã o da cidade tivesse sido ordenada pelo Pachacuti
Inca, como uma oferenda real ou divina, pelo ano de 1460. Sua existê ncia era sempre mantida
em segredo. Após a morte de Pachacuti, o poder foi legado aos seus familiares e a cidade
passou a ser visitada por sacerdotes incas até a invasã o da Espanha. Com a exceç ã o daqueles
que viviam na cidade, poucas pessoas tinham permissã o oficial para transpor os limites e
entrar em Macchu Picchu.

Carcomidos pelas doenç as (trazidas pelos europeus), pela guerra civil e outras atrocidades, os
incas começ aram a abandonar a cidade, que ficou esquecida nos últimos dias do Império Inca.
Alguns historiadores relatam o encontro de Digham com uma única família - mã e e filha
pequena. "A crianç a tinha rosto tã o lindo, como jamais eu vira", teria dito Digham. Quando
Manco Tupac começ ou a guerra contra espanhóis em 1536, poucos incas pensavam que a
cidade poderia ser usada como forte. Tupac e seu exército operaram de muitas montanhas ao
redor da cidade. Mas a despeito da astúcia de Tupac, os espanhóis tinham pesadas armas.
Manco Tupac e seu exército se debandaram em direç ã o à Floresta Amazô nica, onde se
instalaram em Vilcabamba. Este foi o último forte inca. Em pouco tempo, toda a populaç ã o
do Império foi dizimada. Como contam algumas lendas, Capac e Atahualpa levaram o
conhecimento da produç ã o de ayahuasca - aya=alma; huasca=vinho (o vinho das almas) aos
povos indígenas. Atualmente, pelo menos 79 tribos amazô nicas fazem uso da bebida sagrada
e algumas religiões também a utilizam como instrumento de desenvolvimento espiritual,
como a UDV (Uniã o do Vegetal), Barquinha e o Santo Daime.

Desde a queda de Vilcabamba, a antiga cidade de Macchu Picchu foi deixada abandonada e
esquecida. A própria floresta tomou o cuidado de abraç ar as ruínas da cidade e escondê -la
para os próximos séculos. As construç ões de pedra de Macchu Picchu eram muito bem feitas -
indicando que a cidade provavelmente tinha importância religiosa. Muitos túmulos também
foram encontrados próximo ao monte, na floresta. A estrutura da cidade inclui residê ncias,

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templos, jardins, um palácio real e locais para banhos cerimoniais. Cerca de duas mil pessoas
viviam ali.

Há indícios da existê ncia de uma outra cidade, chamada de Maranpampa pelos arqueólogos.
Os cientistas trabalham com a hipótese de que Maranpampa esteja oculta em algum local
próximo a Macchu Picchu. Possíveis ruínas dessa cidade teriam sido descobertas em 1986. A
cidade de Paikhikhin também foi descoberta em 1997 e se localizava na Amazô nia Brasileira.
Teriam os incas se refugiado em território brasileiro?

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Os Mayas
É importante salientarmos que os historiadores n ão conheceram a Autêntica
Civilização dos Mayas, refiro-me a Civilização Serpentina, ou aos que
viveram em Mayab. Conheceram apenas uma civiliza ção em declínio, já exposta
e entregue aos Dzules do seu tempo, portanto as informações históricas
precisam ser compreendidas como apenas a visão que os historiadores
tiveram, o que é diferente da realidade.

Os maias nã o chegaram a formar um império unificado. Existiram em diversos centros


praticamente independentes (com alguns costumes em comum), cada um dos quais tendo o
seu crescimento, apogeu e decadê ncia. Isoladas e distantes da influê ncia européia, as cidades
maias cresceram e sua cultura teve um grande desenvolvimento. A decadê ncia dos maias
aconteceu por volta do século XIII, bem antes da invasã o espanhola, que ocorreu no final do
século XV. Dentre as culturas pré-colombianas, a dos maias foi a que mais se desenvolveu em
vários campos: arte, educação, comércio, arquitetura, matemática e astronomia. Como
curiosidades, confira o esporte nacional.

Nestas peç as da cultura maya, vemos aspectos interessantes. Homenagens aos Deuses Mayas
da chuva e um exemplo de suas oferendas.

A sociedade

Tendo em vista a natureza dos documentos analisados pelos arqueólogos nã o é fácil recompor
em detalhe a organizaç ã o da sociedade maia. De qualquer forma, sabe-se que apresentava
grupos sociais com características bem definidas indicando estratificaç ã o social.

Os maias dividiam-se em províncias autô nomas que eram verdadeiras cidades-Estado (como
nos informa Alberto R. Lhuillier). Nelas a maior autoridade era o halach uinic. Ele
desenvolvia funç ões religiosas e políticas sendo o seu cargo de natureza hereditária.

Os sacerdotes eram responsáveis pelos sacrifícios, faziam oferendas, estudavam astronomia,


faziam calendários e liam escritos, em suma, concentravam uma grande parcela do poder.

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Eram muito temidos sendo responsáveis pela imposiç ã o dos prê mios e castigos e,
principalmente, pela transmissã o das tradiç ões.

Uma espécie de nobreza desfrutava de privilégios, atuava na administraç ã o da cidade.


Possuíam terras e supõe-se que nã o pagavam tributos.

Muito abaixo dos sacerdotes estã o os guerreiros, e artesã os que se dedicam à confecç ã o de
uma série de objetos muitos deles de uso ritual. Os comerciantes, se é que existiam como
grupo social, nã o tinham expressã o.

Os camponeses dedicam-se a tarefas mais rudes, ou seja, eram responsáveis pela agricultura e
pelas construç ões.

As propriedades comunais, forneciam alimentos para a família dos camponeses e também


para os sacerdotes e nobres. A eles cabia também trabalhar nas construç ões dos centros
cerimoniais, transportando pedras com as quais erguiam pirâmides, faziam terraç os, campos
de pelota e templos.

Muitos desenhos representam nativos sem que se possa saber com seguranç a se seriam
sacrificados ou escravizados. "Os cronistas da época da conquista deixaram algumas
informaç ões em seus escritos. Eles informam que a condiç ã o de escravo podia ser resultado
de uma pena (adultério ou homicídio), por nascimento (pais escravos), prisioneiro de guerra,
órfã o destinado ao sacrifício pelo seu tutor ou ter sido comprado por um comerciante."

A civilizaç ã o maia passou por tantos períodos, por tantas transformaç ões; sofreu inúmeras
interferê ncias de outras tradiç ões indígenas, que fica difícil pensar nã o ter sofrido a sociedade
maia grandes alteraç ões na sua forma de organizaç ã o social. Acredita-se, por exemplo, que
num primeiro momento da vida em Tikal, as tarefas eram distribuídas de maneira pouco
rígida permitindo mobilidade entre os afazeres necessários àvida do grupo.

Provavelmente em Chichén Itzá na sua fase marcada pela presenç a tolteca a situaç ã o tenha
sido diferente, a sociedade bem mais estratificada e, provavelmente, com menor mobilidade.

A Pirâmide de Chiché n Itzá :

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Essa Pirâmide possui uma grande simbologia Esotérica, com seus nove degraus principais e
sua escadaria lateral que funcionava também como calendário.

Costumes e vestuá rio

A roupa dos sacerdotes era rica. Usavam peles de jaguar, mantos vermelhos, plumas e
adornos incrustados com jade.
O uso do ornamento era tã o freqüente, que entre a nobreza era costume o uso de pedras semi-
preciososas nos dentes.

As Cidades

Os maias habitaram uma área que compreende hoje parte do México (os estados de Yucatán,
Campeche, Tabasco e Chiapas), a Guatemala e Honduras. Calcula-se que 15 milhões de
habitantes viviam em uma área de aproximadamente 325 000 quilô metros quadrados tendo
como eixo a península de Yucatán.

A regiã o é comumente dividida em: Terras Altas (Guatemala e faixa úmida do Pacífico até El
Salvador) e Terras Baixas que se dividem em Terras Baixas do Sul (Tabasco no golfo do
México, Honduras no litoral do Caribe), tendo como expoente em Petén, onde se
concentraram o mundo Maya e as Terras Baixas do Norte que correspondem àpenínsula do
Yucatán.

As primeiras aldeias em território maia datam de de 1500 a.C. Nas regiões de Chiapas e
Guatemala encontramos uma cerâmica rica em ornamentaç ã o. Mas é por volta de 800 a.C.
que vemos um povoamento mais intenso nas Terras Baixas.

A cerâmica em Petén data de 800-600 a.C indicando que o homem dominara uma natureza
adversa e criara condiç ões para se estabelecer nesta regiã o. No ano 600 a.C., pelo que indicam
as escavaç ões, Tikal é povoado. Ali, em 200 a.C. desenvolver-se-á a construç ã o de um grande
centro cerimonial. Ele sofrerá alteraç ões durante 10 ou 12 séculos até transformar-se na maior
cidade da área maia.

A importância de Tikal é grande em funç ã o das modificaç ões que ocorreram. Elas indicam o
surgimento de um estilo regional, qualificado como maia, e que influirá nas Terras Baixas.

Tikal é uma cidade totalmente envolvida pela floresta tropical, exemplo de cidade maia. Teve
grande florescimento entre 435 e 830. A área central da cidade possuía por volta de 3000
construç ões. Templos, palácios, campos para jogos de bola e banhos a vapor foram algumas
das funç ões reconhecidas pelos arqueólogos para as construç ões escavadas. Encontraram-se
também centenas de túmulos contendo oferendas, cisternas e lugares para guardar víveres.
Dentre os objetos achados, vale a pena destacar a obsidiana esverdeada, típico artigo de
exportaç ã o de Teotihuacan, que nã o existia na área maia.

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Para termos uma idéia do porte de algumas construç ões, vale a pena citar como exemplo o
templo IV construído por volta de 741 com 72 metros de altura. Quanto às construç ões civis,
a disposiç ã o era diferente: trê s ou quatro quartos seguidos e a luz só entrava pela porta. A
cozinha ficava fora, em uma espécie de alpendre e pelo desconforto dessas peç as muito
escuras imagina-se que grande parte das atividades eram realizadas externamente.

Em Tikal notam-se bem confluê ncias culturais. Um dos seus soberanos "Céu tormentoso"
(426-456), soube expressar muito bem a aproximaç ã o cultural fazendo-se desenhar (na estela
31 de Tikal) com dois guerreiros mexicanos em cujos escudos podia-se ver Tláloc (deus
mexicano), ao mesmo tempo em que ele usava roupas tipicamente maias.

A estrutura urbana da cidade de Tikal é importante de ser compreendida na medida em que


estará presente em outras cidades. Como nos lembra um importante estudioso das cidades
indígenas, Jorge Hardoy, "seu aspecto nã o é ordenado como de Teotihuacán, mas seus
construtores criaram efeitos atraentes edificando "largos calç adões que desembocavam quase
que invariavelmente em uma praç a que garantia uma perspectiva majestosa".

Quando Tikal entra em declínio florescerã o outras cidades como Palenque, Copán, Piedras
Negras, Uxmal, Chichén Itzá, etc., cada qual apresentando sua marca específica.

Nas Terras Baixas, Piedras Negras é um espaç o onde podemos contemplar em detalhe a arte
maia. Sã o 7 200 monumentos produzidos ao logo de 200 anos (608-810), onde uma série de
relevos nos permite conhecer um pouco mais dessas culturas.

Uma das cenas representadas nesses relevos, por exemplo, é uma reuniã o do conselho.
"Diante de jovens nobres e de membros das famílias reinantes, um grupo de dignitários está
sentado no solo, enquanto, do alto de um trono ricamente ornamentado, em cujo rebordo
apóia sua mã o, o príncipe se inclina em direç ã o aos mais idosos de seus conselheiros".

Palenque é uma cidade localizada na serra de Chiapas. Sua arquitetura e escultura sã o


surpreendentes. Por exemplo: a água que chega até a cidade foi canalizada em alguns lugares
através de aquedutos subterrâneos. Embora algumas soluç ões possam surpreender, nã o
devemos olhar isoladamente cada um dos elementos arquitetô nicos desta cidade.

A renovaç ã o está presente no aspecto geral da cidade no que se refere àem leveza e harmonia
de proporç ões.

Como conseguiram leveza arquitetô nica nas construç ões? Aumentar os espaç os interiores, e
criando aberturas em forma de "T", que permitiram a entrada de luz. Entre as construç ões
importantes vale a pena mencionar o chamado "palácio" com sua torre de observaç ã o, o
templo das Inscriç ões e o mais fantástico túmulo real conhecido no mundo maia.

Copán ao lado de Tikal e Palenque compõem os maiores expoentes da civilizaç ã o maia,


reunindo os elementos culturais que sã o o seu cerne: arquitetura e escultura. Do ponto de vista
científico, coube a Copán o mais perfeito domínio da astronomia.

O calendário maia elaborado em Copán pelos seus astrô nomos é de uma precisã o admirável,
superando os calendários europeus produzidos na mesma época. Em Copán realizavam-se
reuniões de astrô nomos vindos de regiæes distantes. Este é o ponto alto da cultura maia.

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Em torno da precisã o do calendário maia poderemos fazer inúmeras perguntas. Por exemplo:
como elaboraram cálculos tã o gigantescos e complexos? Como desenvolveram em tã o alto
nível o conhecimento matemático necessário à astronomia? Poderemos saber o grau de
precisã o dos maias ao construir o calendário, mas nã o podemos demonstrar os caminhos
seguidos para chegar até ele.

Em suma, cidades como Tikal, Cópan, Quiriguá, Pedras Negras, Uaxactum, Palenque,
Yaxchilan, situadas no sul do México, Guatemala e Honduras, caracterizam a regiã o maia
marcada pela presenç a de grandes centros urbanos.

Feitas estas observaç ões de caráter mais geral podemos penetrar no universo maia analisando
suas formas de organizaç ã o social, política e religiosa.

O declínio da cultura maia (Já degenerada)

Por volta de 800 d.C., por motivos ignorados as civilizaç ões das planícies do sul irã o
desaparecer. Só sobreviverã o os maias do norte do Yucatán. Provavelmente catástrofes como
secas ou inundaç ões, terremotos ou epidemias tenham alterado o tê nue equilíbrio responsável
pela produç ã o de alimentos necessários ao abastecimento da regiã o.

As guerras entre grupos ou mesmo migraç ões também podem ter desorganizado o equilíbrio
das populaç ões estabelecidas nas Terras Baixas. Mas, entre as hipóteses, a mais extravagante
(mas possível) de todas diz respeito à auto-destruiç ã o. Os sacerdotes prisioneiros de uma
visã o fatalista do mundo, construíram a partir dos astros o fim da própria cultura. Ou seja,
prevendo o fracasso, conduziram a história de suas cidades para essa direç ã o.

Chichén Itza, Uxmal e Mayapán haviam formado uma alianç a para manter o domínio da
península. Mas, no início do século XIII com a queda de Chichén Itzá, termina o ciclo da
cultura maia.

Da cultura maia restará apenas o cálculo curto e parte da tradiç ã o mantida através da repetiç ã o
oral. Os livros de Chilam Balam recolherã o algumas profecias embora muito da cultura maia,
embora suas formas diferenciadas de expressã o, tenha se perdido no seu declínio.

Alguns pequenos grupos dos descendentes índios, que formavam esses Estados decadentes,
sobreviverã o embora mantendo-se isolados. Mas, o que de fato ocorreu com relaç ã o a essa
área foi um processo de mexicanizaç ã o, onde as marcas culturais passaram a ser impostas
pelos astecas e chichimecas.

A conquista espanhola

Os maias viviam um período de franco declínio quando os espanhóis chegaram àAmérica.


Por volta de 7 séculos antes da chegada dos conquistadores das cidades maias foram
abandonadas e invadidas pela floresta grande parte tropical fenecendo parcela significativa da
cultura de que os maias eram depositários.

Na península do Yucatán e Guatemala os espanhóis entraram em contato com alguns


sobreviventes de uma cultura em decadê ncia. Aliás, como nos lembra o grande antropólogo
Miguel Léon Portilla, em 1511, ou seja, 11 anos antes de Cortés iniciar sua expediç ã o para
conquistar a cidade do México (Tenochititlan) uma caravela encalhou e seus dois

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sobreviventes chegaram às costas do Yucatán. Um deles de nome Gonzalo Guerrero casou
com uma índia optando por viver entre os maias e o outro Jerô nimo de Aguilar vinculando-se
mais tarde à expediç ã o de Cortés servirá como interprete entre Cortés e sua "amante" índia
Malinche.

A conquista do Yucatán, de fato, só terá início em 1527 sendo concluída em 1546. Foi feita
por 300 homens acompanhados dos tlaxcaltecas. Durante esses anos, foram submetidas as
populaç ões de cakchiqueles, quichés, tzutujiles, entre outros. Vale a pena notar que os quichés
tentaram se opor ao domínio espanhol, mas foram derrotados e massacrados.

Assim como os astecas referem-se a presságios funestos os maias também possuem textos
proféticos. Os textos maias sobre a conquista referem-se às profecias, especialmente os livros
de Chilam Balam de Chumayel , de Tizimín e de Maní.

Os testemunhos indígenas sobre as conquistas do Yucatán estã o em grande parte incluídos


nos livros de Chilam Balam.

A memó ria da conquista

Sã o poucos os documentos indígenas que sobreviveram à conquista. A cristianizaç ã o da


América fez-se acompanhar de um grande esforç o para eliminar todo material que pudesse
favorecer manifestaç ões idolátricas.

Restaram apenas trê s livros produzidos pelos indígenas antes da conquista. Os outros livros
que se referem à cultura maia e, entre eles, os chamados livros de Chilam Balam, sã o
adaptaç ões que os padres fizeram à língua maia do Yucatán, descrevendo antigos costumes
indígenas e a confluê ncia entre a cultura indígena e a cultura espanhola.

Os temas tratados nos livros sã o de diversas naturezas: 1. textos de caráter religioso 2. textos
de caráter histórico, tendo em vista as cronologias maias 3. textos astrológicos 4. Rituais 5.
medicinais e, também, 6. novelas espanholas escritas em língua indígena.

Devo confessar, leitor, que enquanto escrevia sobre o passado pré-colombiano uma profecia
de Chilam Balam voltava sempre àminha mente. Parecia a voz da consciê ncia exigindo que
uma última mensagem fosse escrita.

Obedeci à ordem deixando para vocês desvendarem este último mistério:


" No hay verdad en las palavras de los extranjeros"
(Profecia de Chilam Balam, que era cantor na antiga Man í)

A língua maia

Sã o inúmeros os dialetos falados na área correspondente ao Yucatán, Guatemala, El Salvador


e Belize. De qualquer forma, os lingüistas dividem-nos em dois grandes ramos: o huasteca e o
maia. Este segundo ramo se subdividiu em outras línguas (como o Chol, Chintal, Mopan, etc).
A língua maia, falada no Yucatán, sofreu inúmeras transformaç ões com as invasões toltecas e
também devido às influê ncia da língua nahuatl falada pelos astecas.

Em seus monumentos deixaram uma série de inscriç ões que até hoje nã o foram decifradas.
Infelizmente muitos documentos maias foram destruídos chegando até nós apenas trê s livros.
Sã o eles o Códice de Dresde, o Códice de Madri e o Códice de Paris.

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Os livros maias eram confeccionados em uma única folha que era dobrada como uma sanfona.
O papel era feito com uma fibra vegetal coberta por uma fina camada de cal. O conteúdo
desses livros sã o de natureza calendárica e ritual, servindo para adivinhaç ões.

Um dos cronista que viveu na época da conquista, o Bispo Diego de Landa, refere-se aos
livros que os maias utilizavam permitindo-lhes saber o que havia sucedido há muitos anos.
Portanto, a escrita representava um elemento importante na preservaç ã o de suas tradiç ões
culturais. Mas, infelizmente grande parte deles foram destruídos como se pode constatar na
afirmaç ã o do próprio bispo:

"...Encontramos um grande número de livros escritos nesses caracteres, e


como nada tivesse a não ser flagrantes superstições e mentiras do demônio,
nós os queimamos a todos".

Atividades agrícolas e comerciais

Os Maias cultivavam o milho (trê s espécies), algodã o, tomate, cacau, batata e frutas.
Domesticaram o peru e a abelha que serviam para enriquecer sua dieta, à qual somavam
também a caç a e a pesca.

É importante observar que por serem os recursos naturais escassos nã o lhes garantindo o
excedente que necessitavam a tendê ncia foi desenvolverem técnicas agrícolas, como terraç os,
por exemplo, para vencer a erosã o. Os pântanos foram drenados para se obter condiç ões
adequadas ao plantio.

Ao lado desses progressos técnicos, observamos que o cultivo de milho se prendia ao uso das
queimadas. Durante os meses da seca, limpavam o terreno, deixando apenas as árvores mais
frondosas. Em seguida, ateavam fogo para limpá-lo deixando o campo em condiç ões de ser
semeado. Com um bastã o faziam buracos onde se colocavam as sementes.

Dada a forma com que era realizado o cultivo a produç ã o se mantinha por apenas dois ou trê s
anos consecutivos.

Com o desgaste certo do solo, o agricultor era obrigado a procurar novas terras. Ainda hoje a
técnica da queimada, apesar de prejudicar o solo, é utilizada em diversas regiões do
continente americano.

As Terras Baixas concentraram uma populaç ã o densa em áreas pouco férteis. Com produç ã o
pequena para as necessidades da populaç ã o, foi necessário nã o apenas inovar em termos de
técnicas agrícolas, como também importar de outras regiões produtos como o milho, por
exemplo.

O comércio era dinamizado com produtos como o jade, plumas, tecidos, cerâmicas, mel,
cacau e escravos, através das estradas ou de canoas.

A arquitetura e o urbanismo

As pirâmides em geral estavam cobertas de vegetaç ã o sendo necessário que os arqueólogos


abrissem clareiras para restaurá-las. Ao estudá-las descobriram que as primeiras pirâmides
recobriam outras pirâmides. Esse costume de recobrir uma construç ã o com outra corria
também com relaç ã o aos pisos.

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As casas construídas em grupo eram cobertas de sapé e sempre estavam próximas de
plantaç ões de milho.

Inúmeros caminhos faziam a ligaç ã o entre as casas e um templo que poderia ser de pequenas
dimensões. Em dias determinados, a populaç ã o daquela regiã o se encontrava para trocar
produtos, fazer oferendas, e participar de cerimô nias religiosas.

Os caminhos eram movimentados por homens que carregavam milho e outros produtos que
poderiam ser trocados nas cidades. Mas o tráfico mais complicado era o de pedras necessárias
as construç ões.

Nos inúmeros templos os sacerdotes realizavam cultos ligados à fertilidade do solo. Os


centros rituais de maior importância eram muito freqüentados tanto por jovens que iriam ser
sacerdotes, como por artífices que construíam monumentos, produziam cerâmica e teciam.

A vida dos maias era ritualizada e, neste sentido, é difícil separar o político e o econô mico do
religioso. Os rituais eram organizadores do cotidiano, da guerra e dos sacrifícios. Os maias
sempre estavam preocupados com a presenç a dos seus deuses.

Você pode perguntar, leitor, como sabemos da importância dos rituais. Em primeiro lugar, a
presenç a marcante de inúmeros centros cerimoniais é um forte indício. Ou seja, a freqüê ncia,
as dimensões e a localizaç ã o desses centros sã o bastante significativas da importância que
possuíam na vida daquela populaç ã o. E, em segundo lugar, as pinturas murais, esculturas e
decoraç ões de vasos elucidam muitas questões sobre a vida dos antigos maias.

O calendá rio

A precisã o do calendário maia é muito grande, e que nos conduz a uma reflexã o sobre
conhecimento científico propriamente dito.

O ponto de partida, sem dúvida alguma, sã o as estaç ões do ano responsáveis pelo ciclo da
vida. E, como tais alteraç ões estã o vinculadas a fenô menos celestes, os astrô nomos maias
passaram a especular o cosmo. Através de investigaç ões puderam conhecer o movimento dos
astros montando dois calendários: um de significado ritual de 260 dias dividido em 13 grupos
de 20 dias e um calendário solar de 365 dias com 18 grupos de 20 dias mais cinco dias.

Os dois calendários acabavam por se encontrar a cada 52 anos quando começ ava um outro
ciclo. A estes dados acrescentaram outros referentes a Vê nus, as fases lunares e eclipses
conseguindo com todo esse esforç o, cálculos bastante precisos.

Para construir todo este quadro de reflexã o eram indispensáveis os cálculos. E, para realizá-
los, produziram um sistema numérico. Assim, os maias conceberam um sistema que tinha
como base 20. Os símbolos utilizados eram uma barra para indicar 5, um ponto para indicar a
unidade e uma espécie de concha alongada para indicar o zero.

As inscriç ões glíficas que dizem respeito a números foram interpretadas faltando ser decifrado
o "glifo-emblema". Provavelmente caracteres gravados referem-se a certas festas e profecias
relacionadas com as datas, as quais se constituem em presenç a constante nos monumentos.
Todo esse universo lógico marcado pelos cálculos se fazia acompanhar por uma leitura do
"horóscopo". De acordo com a data do nascimento, era previsto o "destino" do recém-nascido.

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Se o dia nã o era de bom agouro, cabia ao sacerdote encontrar maneiras de ultrapassar aquela
dificuldade. Neste sentido, o sacerdote possuía a chave do tempo com a qual construiu uma
filosofia fatalista. O mundo podia ser destruído porque seria recomposto mantendo-se assim
uma perspectiva cíclica que marcava o ritmo da história.

Cronologia

O interesse em confeccionar um calendário vinculava-se também a uma necessidade de


definir datas.

Todos os acontecimentos que lhes pareciam importantes tinham suas datas fixadas em relevo
numa pedra. Apesar desta preocupaç ã o constante com a cronologia predominava entre os
maias a busca infindável de suas origens míticas que se sobrepunha àrealidade.

Evidentemente, os arqueólogos, preocupados em datar objetos e culturas, tentaram estabelecer


uma relaç ã o entre a cronologia maia e a cronologia cristã . As conclusões sã o discutíveis.
Neste sentido, para nã o nos confundirmos, é melhor tomar a data de 2 500 a.C. como uma
data inicial a partir da qual se iniciaria a longa trajetória dos maias. Esse pressuposto é apenas
uma hipótese didática e nã o possui comprovaç ã o prática.

Esporte Nacional

O jogo de pelota (pok ta pok), praticado por todas as


civilizaç ões pré-colombianas, era o esporte nacional
maia, como provam as quadras construídas para esse fim.
Para esse povo, o jogo tinha caráter sagrado e cósmico,
simbolizando a luta da luz contra as sombras, através de
seus deuses, e o movimento dos astros no firmamento.

Em um campo retangular de 70m de largura por 168m de


comprimento, catorze jogadores arremessavam uma
pesada bola de borracha através de anéis de pedra,
fixados nos dois lados do campo. A bola só podia ser
movimentada com a cabeç a, braç os e pernas, sendo
proibido o toque de mã os.

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Vocabulá rio
Das palavras Mayas empregadas nos livros segundo e terceiro (“O Vô o da Serpente
Emplumada”).

AHAU - Deus, homem divino, rei, “Deus-Rei”, “Grande Senhor”.

BALCHE - Bebida que se extrai de uma arvore em Yucatán e que se fermenta. Também
significa árvore escondida.

CENOTE - Poç o de água subterrânea. O Cenote Sagrado existiu em Chichen Itzá e era lugar
de cerimô nias místicas.

COZUMIL - Pequena ilha de frente a Península de Yucatán que significa “Terra das
Andorinhas”. Atualmente se chama Cozumil. Esta ilha foi indubitavelmente a sede de um
seminário ou escola esotérica da cultura Maya.

DZULES - Senhores; este nome se deu aos espanhóis nos primeiros tempos da conquista.

KATUN - É poca ou período da cronologia Maya. Pequeno século Maya, de 20 anos de 360
dias.

KUKULCAN - Grande instrutor divino, ‘Serpente com Plumas’ equivalente ao Quetzalcoatl


Nahoa.

MANI - “Tudo passou”. Também é o nome de uma famosa cidade Maya que nos tempos da
conquista foi sede dos Reis Xiu e o último refúgio da civilizaç ã o Maya e de sua cultura
religiosa.

PAUAH - “Os que distribuem ou dispersam o jorro da vida”. Quatro espíritos celestiais.

TZICBENTHAN - “Palavra que há de obedecer”.

SAC-NICTÉ - Branca Flor.

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MITOLOGIA JAPONESA
Criação da terra. O mito de Izanagui e Izanami

A mitologia japonesa relata que a apariç ã o do gê nero humano na terra se deu sob forma
divina. No princípio tudo nã o passava de uma massa viscosa e indistinta no oceano. Deste
mar surgiu algo semelhante a um broto de junco e desabrochou. Deste surgiu uma divindade.
Simultaneamente, duas outras criaturas divinas, masculina e feminina, emergiram. Pouco se
comenta sobre o trio original, mas gerou deuses e deusas na terra celestial. Após um período
incontável de tempo, surgiu o par de energia divina Izanagui e Izanami.

Certa ocasiã o, os deuses deram a Izanagui uma lanç a enfeitada e confiaram-lhe a tarefa de
criar o Japã o. O casal desceu de Takama no Hara (Planície Celeste) por "uma Ponte Lanç ada
do Céu" (Ama no Hashi Date) – geralmente associada ao arco-íris. Pararam no meio dela para
observar a terra viscosa lá embaixo. Do alto da ponte, o jovem Izanagui mergulhou sua arma
divina dentro da viscosidade flutuante, "agitando em forma de círculo, e ao retirar, deixou
respingar da ponta gotas salgadas que caíram da lanç a e, sobrepondo-se, se cristalizaram
formando ilhas. Vendo as ilhas que acabaram de criar, Izanagui e Izanami atravessaram o
Ama no Hashi Date (Ponte Lanç ada do Céu), e desceram para lá, onde fizeram um acordo
entre si, eregindo o "Augusto Pilar Celeste" na ilha de Ono Koro, para criar mais ilhas e
assim, deram origem ao arquipélago japonê s. O capítulo 6 do Kojiki descreve várias ilhas:
"Assim a terra de Iyo foi denominada Ehime". A primeira ilha que o casal divino deu àluz foi
awaji, e, em seguida, a ilha de Shikoku.

Izanagui e Izanami casaram-se e aprenderam a arte de fazer amor olhando um par de garç as
(tsuru) em acasalamento. Estas aves brancas sã o ainda relacionadas àuniã o e mesmo o deus
Espantalho nã o pode assustá-las, já que foram abenç oadas na criaç ã o.

Entre a descendê ncia de Izanagi e Izanami estã o marcos geográficos, como deus das
Cachoeiras, deus das Montanhas (Ôyama Tsukimi no Kami), deus do Fogo (Watatsumi no
Kami) Espírito das Á rvores, deus das Ervas, deus dos Ventos, além dos espíritos de todas as
ilhas japonesas (Dai Yashimagumi). O deus dos Ventos foi responsável pela criaç ã o de muitas
ilhas, pois era ele que dissipava névoa densa e revelava regiões desconhecidas.
O primeiro filho do casal foi abortado, supostamente por causa de uma ofensa da parte de
Izanami àcerimô nia de casamento e a criatura semelhante a um peixe-geléia foi colocado no
mar. Todos os outros filhos sobreviveram.

ORIGEM DA VIDA E MORTE NA TERRA – O último filho do casal a nascer, após uma
sucessã o de ilhas terem sido formadas e povoadas, provocou a morte da mã e. Era o deus do
Fogo (Watatsumi no Kami). Izanami adoeceu com febre ardente e acabou morrendo. Para
apaziguar seu espírito, os homens construíram um altar e ofereceram flores (conforme os
adeptos do shintô estaria aí a origem do ikebana).

Izanami morre e parte para Yomi, o mundo dos mortos. O deus Izanagui, cheio de desgosto,
vai visitá-la. A deusa falecida nã o quer que ninguém veja como perdeu a beleza, dando
mostras de vaidade feminina. Mas, apesar de suas súplicas, Izanagui acende uma tocha, olha
para ela, fica assustado com o estado de decomposiç ã o de seu corpo e foge. Ofendida com a
reaç ã o de seu esposo, Izanami e outras criaturas da terra dos mortos perseguem Izanagui, mas
ele consegue escapar, atirando para trás trê s objetos, que se transformam em outras coisas. Ele
entã o coloca uma grande pedra bloqueando a passagem da caverna no local denominado
Yomotsu Hirasaka.

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Do lado de dentro, Izanami lanç ou aos gritos uma maldiç ã o: – "Oh! Meu adorado esposo, se
você age assim, eu a cada dia estrangularei mil habitantes de seu país". Izanagui entã o
respondeu que faria nascer 1.500 pessoas diariamente.

Izanagui manteve sua palavra e depois submeteu-se a um ritual de purificaç ã o (Mizogui) para
se livrar dos efeitos de sua descida ao Mundo dos Mortos (Anoyomi). Enquanto purificava se
lavando, gerou várias divindades. As mais importantes delas sã o: Amaterassu Omikami, a
Augusta Deusa Sol, que nasceu enquanto ele lavava o olho esquerdo; Tsukiyomi no Mikoto, o
deus Lua, na lavagem do olho direito; e Takehaya Suzano-o no Mikoto, o deus Tempestade,
enquanto ele lavava o nariz. Estas divindades sã o as chamadas "filhos nobres", a quem ele
escolheu para reinar, respectivamente: a Amaterassu coube Takama no Hara (Alta Planície
Celeste), a Tsukiyomi foi dado governar Yoru no Ossukuni (País do Reinado da Noite) e para
Suzano-o, Una Hara (Planície Marinha).

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