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Doze Contos Peregrinos

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Gabriel Garcia OTe “...0 esforco de escrever um conto curto é tao intenso como o de comecar um romance. Pois no primeiro paragrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, ritmo, longitude e, as vezes, até o cardter de ate personagem. O resto é o prazer de escrever, 0 mais intimo e solitério que se possa imaginar, e se a gente nao fica corrigindo o livro pelo resto da vida é argue o mesmo rigor de ferro que ee va para comega-lo se impoe na hora de termina-lo. O conto, for sua vex, nao tem principio nem fim: anda ou desanda. E se desanda, a experiéncia propria e a alheia ensinam que na maioria das vezes & mais saudavel comegé-lo de novo por outro caminho, ou joga-lo no lixo..."? LIT le ee ae ees Te aL | ECL BY ISBN 85-01 o4066, “Dore contos peregrimos OBRAS DO AUTOR ‘© AMOR NOS TEMPOS DO COLERA A AVENTURA DE MIGUEL LITTIN CLANDESTINO NO CHILE CEM ANOS DE SOLIDAO CRONICA DE UMA MORTE ANUNCIADA ‘O ENTERRO DO DIABO ENTRE AMIGOS OS FUNERAIS DA MAMAE GRANDE O GENERAL EM SEU LABIRINTO A INCRIVEL E TRISTE HISTORIA DA CANDIDA ERENDIRA E SUA AVO DESALMADA ‘AMA HORA (0 VENENO DA MADRUGADA) NINGUEM ESCREVE AO CORONEL OLHOS DE CAO AZUL © OUTONO DO PATRIARCA. RELATO DE UM NAUFRAGO TEXTOS DO CARIBE (2 volumes) Gabriel Garcia Mainquex, “Dore contos peregrinos Tradugao de ERIC NEPOMUCENO €DITORA RECORD CAP. Bral,Cualogayao- neon Sindieto Nacional ds Editres de Livtos, RU. ‘Garcia Marque, Gabi, ‘Dore conueprepins / Cave Garcia Mirae: tradueg de Ene Nepomuceno. — Rlo de ane Record, 1932 “Traduo de: Doce cuetospererins 1. Contos colombianos. I. Nepomuceno, Ei. “To. cD — se 93613 CU = seocs3 CE Titulo original espanhol DOCE CUENTOS PEREGRINOS SC / Ui DADE ESTADUAL DO CEARA FECLE BIBLIOTECA RACHEL OE QUEIROZ Le. Se3 ewes Copyright © 1992 by Gabriel Garcia Marquez eB. Direitos exclusives de publicagdo em lingua portuguesa no Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIGOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 — 20921-380 Rio de Janeiro, RJ — Tel.: 585-2000 ue se reserva a propriedade literria desta traduedo Tmpresso no Brasil ISBN 85-01-04066-5, PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL ‘Caixa Postal 23.052 — Rio de Janeiro, RI — 20922-970 Pr6logo .... Boa viagem, senhor presidente ... A santa .. oe avido da Bela Adormecida .. Me alugo para sonhar “6 vim telefonar”” ‘Assombragdes de agosto .. Maria dos Prazeres .. Dezessete ingleses envenenados ....... Tramontana. ....... es vero feliz da senhora Forbes ‘A luz € como a 8gua sees rastro do teu sangue na neve PROLOGO POR QUE DOZE, POR QUE CONTOS E POR QUE PEREGRINOS OF reais eias ives eases no cur- so dos iiltimos dezoito anos. Antes de sua forma atual, cinco deles foram crénicas de jornal ¢ rotei- ros de cinema, e um foi série de televiso. Outro con- tei, h4 quinze anos, em uma entrevista gravada, e © amigo a quem contei o transcreveu e publicou, e agora tornei a escrevé-lo a partir dessa versao. Foi uma rara experiéncia criativa que merece ser expli- cada, nem que seja para as criangas que querem ser escritores quando forem grandes saberem desde ago- ra como é insacivel e abrasivo 0 vicio de escrever. A primeira idéia me ocorreu no comeco da dé- cada de setenta, a propésito de um sonho esclarece- dor que tive depois de estar hé cinco anos morando em Barcelona. Sonhei que assistia ao meu proprio enterto, a pé, caminhando entre um grupo de ami- 808 vestidos de luto solene, mas num clima de festa. Todos pareciamos felizes por estarmos juntos. E eu mais que ninguém, por aquela grata oportunidade que a morte me dava de estar com meus amigos da América Latina, os mais antigos, os mais queridos, s que eu nao via fazia tempo. Ao final da cerimé- nia, quando comegaram a ir embora, tentei acom- 9 panhé-los, mas um deles me fez ver com uma seve- ridade terminante que, para mim, a festa havia aca- bado. ““Vocé € 0 tinico que nao pode ir embora”’, me disse. S6 ento compreendi que morrer é no es- tar nunca mais com os amigos. Nao sei por qué, interpretei aquele sonho exem- plar como uma tomada de consciéncia da minha identidade, e pensei que era um bom ponto de par- tida para escrever sobre as coisas estranhas que acon- tecem aos latino-americanos na Europa. Foi um achado alentador, pois havia termiriado pouco an- tes O Outono do Patriarca, que foi meu trabalho mais drduo e arriscado, e no achava por onde con- tinuar. Durante uns dois anos anotei os temas que iam me ocorrendo sem decidir o que fazer com eles. Co- mo nao tinha em casa um caderno de anotacdes na noite em que resolvi comecar, meus filhos me em- prestaram um caderno escolar. Eles mesmos o leva- vam em suas mochilas de livros em nossas viagens freqiientes, com medo de que fosse perdido. Che- guei a ter 64 temas anotados com tantos pormeno- res que s6 faltava escrevé-los. Foi no México, ao meu regresso de Barcelona, em 1974, que ficou claro para mim que aquele livro nao deveria ser um romance, como pensei no come- 0, e sim uma colecdo de contos curtos, baseados em fatos jornalfsticos mas redimidos de sua condi- ‘cdo mortal pelas astticias da poesia. Até entdo, ha- via escrito trés livros de contos. No entanto, nenhum 10 dos trés fora concebido e resolvido como um tod cada conto era uma peca auténoma e ocasional. Por- tanto, a escrita dos 64 podia ser uma aventura fas- cinante se conseguisse escrever todos com o mesmo trago, e com uma unidade interna de tom e de estilo que os fizesse inseparaveis na meméria do leitor. Escrevi os dois primeiros — ‘‘O Rastro do Teu Sangue na Neve” e “‘O Verdo Feliz da Senhora For- bes” — em 1976, ¢ publiquei-os em seguida em su- plementos literdrios de varios paises. Nao me dei nem um dia de repouso, mas na metade do terceiro con- to, que era alias o dos meus funerais, senti que esta- va me cansando mais do que se fosse um romance. A mesma coisa me aconteceu com o quarto. Tanto que nao tive folego para terminé-los. Agora sei por qué: o esforco de escrever um conto curto é tao in- tenso como o de comegar um romance. Pois no pri- meiro pardgrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, longitude, e as vezes até o carter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, 0 mais intimo e solitdrio que se possa imaginar, e se a gente nfo fica corrigindo o livro pelo resto da vida é porque o mesmo rigor de ferro que faz falta para comecd-lo se impde na hora de terminé-lo. O conto, por sua vez, nao tem principio nem fim: anda ou desanda. E se desanda, a expe- riéncia prépria e a alheia ensinam que na maioria das vezes & mais sauddvel comeg4-lo de novo por ou- tro caminho, ou jogé-lo no lixo. Alguém que ndo Iembro disse isso muito bem com uma frase de con- M1 solacdo: “Um bom escritor é mais apreciado pelo que rasga do que pelo que publica.” A verdade é que nao rasguei os rascunhos é as anotacdes, mas fiz algo pior: joguei-os no esquecimento. Lembro de ter mantido 0 caderno sobre a mi- nha mesa do México, ndufrago numa borrasca de papéis, até 1978. Um dia, procurando outra coisa, percebi que o havia perdido de vista fazia tempo. ‘Nao me importei. Mas quando me convenci de que ndo estava na mesa de verdade sofri um ataque de pAnico. Nao sobrou na casa um canto sem ter sido revistado a fundo. Removemos os méveis, desmon- tamos a biblioteca para termos certeza de que nao havia caido atrés dos livros, e submetemos os em- pregados e os amigos a inquisigdes imperdodveis. Nem rastro. A tinica explicagao possivel — ou plau- sivel? — é que em alguns dos tantos exterminios de papéis que faco com freqiiéncia Id se foi o caderno para o lixo. ‘Minha prépria reacdo me surpreendeu: os temas que havia esquecido durante quase quatro anos se transformaram numa questo de honra. Tratando de recuperd-los a qualquer prego, num trabalho tio 4rduo como escrevé-los, consegui reconstruir as ano- tagdes de trinta. Como 0 préprio esforgo de recordé- Jos me serviu de purga, fui eliminando sem coracdo 0s que me pareceram insalvaveis, e sobraram dezoi- to. Desta vez me animava a determinago de conti- nuar escrevendo-os sem pausa, mas logo percebi que tinha perdido o entusiasmo por eles. No entanto, ao, 12 contrério do que sempre havia aconselhado aos es- ctitores novos, no os joguei fora, tornei a arquiva- los. Por via das diividas. Quando comecei Crénica de uma Morte Anun- ciada, em 1979, comprovei que nas pausas entre dois. livros perdia 0 habito de escrever e cada vez era mais, dificil comegar de novo. Por isso, entre outubro de 1980 e marco de 1984, me impus a tarefa de escre- ver um texto semanal para jornais de diversos pai- ses, como disciplina para manter o braco aquecido. Ento pensei que meu conflito com as anotagdes do caderno continuava sendo um problema de géneros literdrios, e que na realidade elas nao deveriam ser contos e sim textos jornalisticos. S6 que, depois de publicar cinco anotagdes tomadas do caderno, tor- nei a mudar de opinido: eram melhores para o cine- ma. Foi assim que surgiram cinco filmes e uma série de televisio. que nunca previ foi que o trabalho de jornal ¢ cinema mudaria certas idéias que tinha sobre os contos, a ponto de que, ao escrevé-los agora em sua forma final, tive que tomar cuidado e separar com pingas minhas préprias idéias das que me foram da- das pelos diretores durante a escrita dos roteiros. Além disso, a colaboracao simultanea com cinco ctiadores diferentes me sugeriu outro método para escrever os contos: comegava um quando tinha tem- po livre, o abandonava quando me sentia cansado, ou quando surgia algum projeto imprevisto, e de- pois comecava outro. Em pouco mais de um ano, 13

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