REVISÃO

REVIEW

Candidíase
Candidiasis Leonardo S Barbedo1& Diana BG Sgarbi2
RESUMO A candidíase ou candidose é uma micose oportunista primária ou secundária, endógena ou exógena, reconhecida como doença sexualmente transmissível (DST), causada por leveduras do gênero Candida. As lesões podem variar de superficiais a profundas; brandas, agudas ou crônicas; envolvendo diversos sítios, tais como boca, garganta, língua, pele, couro cabeludo, genitálias, dedos, unhas e por vezes órgãos internos. Espécies desse gênero residem como comensais fazendo parte da microbiota normal do trato digestório de 80% dos indivíduos sadios. A epidemiologia da candidíase depende da predisposição do hospedeiro (imunodepressão), carga parasitária e virulência fúngica, logo, quando estes três fatores estão presentes, as espécies do gênero Candida tornam-se agressivas, portanto, patogênicas. Das quase 200 espécies, aproximadamente 10% são consideradas agentes etiológicos, sendo que as principais de interesse clínico são C. albicans, C. parapsilosis, C. tropicalis, C. glabrata, C. krusei, C. guilliermondii e C. lusitaniae, porém casos de espécies emergentes como C. dubliniensis, C. kefyr, C. rugosa, C. famata, C. utilis, C. lipolytica, C. norvegensis, C. inconspicua, C. viswanathii, dentre outras, estão sendo relatados devido à alta frequência com que colonizam e infectam o hospedeiro humano. O diagnóstico laboratorial da candidíase baseia-se essencialmente na presença de blastoconídios no exame direto e observação da cultura leveduriforme de coloração creme e aspecto pastoso em ágar Sabouraud. Quanto às manifestações clínicas, podemos dividi-las em cutâneo-mucosas, sistêmicas e alérgicas. As lesões são úmidas e recobertas por uma pseudomembrana esbranquiçada que, ao ser removida, apresenta fundo eritematoso, quando em mucosas; e lesões-satélites eritematosas de aspecto descamativo, quando cutâneas. A retirada dos fatores predisponentes e o restabelecimento da imunidade, combinados com derivados azólicos e poliênicos, são os principais tratamentos da candidíase. Palavras-chave: candidíase, candidose, Candida albicans, Candida spp. ABSTRACT The candidiasis or candidosis is a secondary or primary opportunistic mycosis, endogenous or exogenous, recognized as a sexually transmitted disease (STD), caused by yeasts of the genus Candida. The lesions can vary from superficial to deep; moderate, acute or chronic; involving several sites such as mouth, throat, tongue, skin, scalp, genitals, fingers, nails and sometimes internal organs. Species of this genus reside as commensals taking part of normal microbiota of the gastrointestinal tract of 80% of healthy individuals. The candidiasis epidemiology depends on the host predisposition (immunosuppression), parasitic load and fungal virulence, so when these three factors are present, the species of the genus Candida become aggressive, therefore pathogenic. From the nearly 200 species, approximately 10% are considered etiological agents, the main of clinical interest are C. albicans, C. parapsilosis, C. tropicalis, C. glabrata, C. krusei, C. guilliermondii and C. lusitaniae, but cases of emerging species how C. dubliniensis, C. kefyr, C. rugosa, C. famata, C. utilis, C. lipolytica, C. norvegensis, C. inconspicua, C. viswanathii, among others, are being reported due to the high frequency that colonize and infect the human host. The laboratory diagnosis of candidiasis is mainly based on the presence of blastoconidia on direct examination and observation of the culture yeast of cream colored and doughy aspect on Sabouraud agar. The clinical manifestations can be divided into mucocutaneous, systemic and allergic. The lesions are moist and covered with a whitish pseudomembrane which, when removed, shows an erythematous background, while in mucous and; erythematous satellite lesions with aspect scaly, while cutaneous. Remove the predisposing factors and the restoration of the immunity, combined with azole and polyene, are the main treatments for candidiasis. Keywords: candidiasis, candidosis, Candida albicans, Candida spp.

INTRODUÇÃO
Doenças causadas por fungos passaram a receber maior atenção no século passado, principalmente nas 2 décadas finais, com o advento da aids, avanços nas terapêuticas de doenças de base, maior uso de antibacterianos, aprimoramento de técnicas de transplantes, enfim, com a maior sobrevida de pacientes de variadas enfermidades. A descoberta de que a redução da população dos linfócitos CD4+ predispõe os pacientes a várias infecções fúngicas flagrou uma nova área na suscetibilidade do hospedeiro às doenças. Dentre os fungos responsáveis por doenças em indivíduos imunodeprimidos, e nos aparentemente sadios, encontramos as espécies do gênero Candida1.

DST, restringiríamo-nos aos casos de candidíase vulvovaginal, balanite e a candidíase oral, e deixaríamos à parte o potencial das diversas espécies em se adaptar a diferentes ambientes do hospedeiro e causar variadas manifestações clínicas, incluídas as DST. Na atualidade, não podemos analisar uma doença infecciosa de forma limitada às manifestações clínicas específicas às localidades anatômicas, desde que o agente causal possa ter capacidade de disseminação, especialmente em pacientes imunodeprimidos, levando a quadros fatais. Nosso objetivo, com base na pesquisa de literatura atual, é de enfatizar a importância desse agente infeccioso, oportunista sim, Candida spp.

OBJETIVO
Este trabalho é uma revisão bibliográfica sobre candidíase e atualização das espécies emergentes de Candida isoladas, descritas em casos clínicos, assim como complicações decorrentes de agravamento de pacientes e suscetibilidade ou resistência antifúngica das diferentes espécies. Se retratássemos a candidíase apenas como
Mestrando em Microbiologia e Parasitologia Aplicadas da UFF, bolsista REUNI. 2 Professora Associada de Micologia, MIP/UFF.
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MÉTODO
Foi feita pesquisa bibliográfica dos últimos 30 anos, utilizando as bases de dados CAPES, SciELO, BIREME, HighWire e PubMed; livros e o site da ANVISA. O critério de escolha para inclusão dos artigos priorizou os trabalhos de revisão, artigos mais recentes, todos esses com busca pelas palavras-chave: Candida, candidiasis e candidosis.

Candidíase
Candidíase ou candidose é uma micose causada por leveduras do gênero Candida, em que a lesão pode ser branda, aguda ou

DST - J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 - ISSN: 0103-4065 - ISSN on-line: 2177-8264

entre eles. portadores de doenças degenerativas e/ ou neoplásicas5. No primeiro ciclo celular da pseudo-hifa. krusei. o fungo ainda pode exibir uma variedade de morfologias durante seu crescimento. algumas considerações devem ser levadas em conta. brotamento e filamentação. e ao aspecto. glabrata. C.12. albicans é uma levedura diploide com história de dimorfismo fúngico invertido. com a formação de um septo composto principalmente de quitina. C. DST . albicans comporta-se de modo contrário6. ela é considerada uma micose oportunista. albicans.10. albicans. antes da formação do septo. é chamada de tubo germinativo. albicans apresenta diferentes aspectos. A maioria dos estudos mostra que esta espécie constitui 60% dos isolados de amostras clínicas. A primeira divisão nuclear não ocorre entre a célula-mãe e a célula-filha. A partir da célula leveduriforme. que requer genes homozigotos para o locus MTL. Esse fenômeno entre células brancas e opacas. pode ser endógena. Morfologia e Ciclo Celular (Modelo C. como variação de temperatura e de pH7. dentre outras. quando há uma ruptura no balanço normal da microbiota ou o sistema imune do hospedeiro encontra-se comprometido. está limitado a apenas algumas linhagens. o anel do septo aparece entre a célula-mãe e a célula-filha antes do surgimento do broto. C. C. O termo hifa refere-se a toda não ramificação e aos filamentos que contêm mais de um septo e ausência de constrições. As células leveduriformes “brancas” são ovoides e formam colônias geralmente de cor creme.4. As leveduras do gênero Candida têm grande importância. já pseudo-hifas possuem a constrição entre a célula-mãe e o comprimento do filamento7. albicans. C.9. não existem muitas diferenças. enquanto células leveduriformes “opacas” mostram características de metabolismo oxidativo9. pois o núcleo migra para fora da célula-mãe e divide-se no prolongamento. são formadas quando o fungo se encontra em um local onde não há todos os nutrientes necessários para seu desenvolvimento. Todavia. como por exemplo. A formação de clamidoconídios sob condições específicas é uma das maneiras eficientes de se distinguir C. A formação da hifa verdadeira é mais distinta. Clamidoconídios (clamidosporos) são estruturas de resistência encontradas em C. enquanto na formação do tubo germinativo de hifa verdadeira a orientação é determinada tanto pelo polarissoma como pelo spitzenkorper (estrutura responsável pelo crescimento e desenvolvimento polarizado encontrada apenas em hifas verdadeiras)9. C. permitindo a formação do septo.3. C. Quanto à origem. representando um grande desafio aos clínicos de diferentes especialidades devido às dificuldades diagnósticas e terapêuticas das infecções causadas por tais agentes. com exceção do alongamento e da separação da célula por completo. A hifa que se projeta do primeiro ciclo celular. lusitaniae.8. acometendo pacientes expostos a uma grande diversidade de fatores de risco. albicans de C. A fase unicelular leveduriforme pode gerar um broto e formar hifas verdadeiras. tropicalis. logo há a formação do primeiro septo entre o alongamento do broto e não entre a célula-mãe e a célula-filha. meios de cultura feitos à base de arroz e milho. As células leveduriformes “opacas” são alongadas e formam colônias acinzentadas. pela alta frequência com que infectam e colonizam o hospedeiro humano. termo que deveria ser usado para descrever o alongamento que desenvolve a hifa. Porém. o estado leveduriforme pode evoluir para filamentoso. a partir da fase leveduriforme surge o tubo germinativo antes do ciclo celular. mas com pequenas alterações locais de resposta do hospedeiro no sítio da infecção. na formação da hifa verdadeira não há a constrição entre a célula-mãe e o filamento. cerca de 20 a 30% apresentam colonização por Candida vaginal. A biologia de C.9. C. dubliniensis9. Diferença maior entre a hifa verdadeira e a pseudo-hifa está na organização de seus ciclos celulares. superficial ou profunda. como nas leveduras e pseudo-hifas. brilhoso ou opaco. ou exógena. como uma DST1. e de espectro clínico bem variável. infecções sistêmicas por Candida podem comprometer vísceras como resultado de disseminação hematogênica. o gênero Candida responde por cerca de 80% das infecções fúngicas documentadas. O critério para a diferenciação entre hifa verdadeira e pseudo-hifa está na observação da formação do tubo germinativo (hifa verdadeira). logo finda a mitose e instala-se o septo no tubo germinativo7. a habilidade de se apresentar com distintas morfologias. kefyr. complicações infecciosas estas geralmente documentadas em pacientes críticos. Mudanças na micromorfologia ocorrem em função da expressão genética. que na realidade são leveduras alongadas unidas entre si. famata. Em se tratando de ciclo celular de pseudo-hifa e levedura. albicans. enquanto outros fungos se encontram na natureza na fase miceliana e causam doenças no homem na fase leveduriforme. Em C. Entre esses dois extremos. como nas leveduras e pseudo-hifas. a orientação do tubo germinativo em estado leveduriforme e pseudo-hifa é determinanda pelo polarissoma (complexo de proteínas envolvidas na orientação do crescimento do tubo germinativo). guilliermondii. ou até mesmo uma mescla de células fúngicas leveduriformes e filamentosas7. O principal agente das candidíases é a C. O fenômeno de switching tem sido muito investigado nos últimos anos em C. Uma vez que esta levedura faz parte da microbiota humana.Candidíase 23 crônica. tornando-se patogênicas. fazendo parte da microbiota normal dos indivíduos sadios. como por exemplo: C. as espécies do gênero Candida tendem a manifestações agressivas. Infecções de pele e mucosas podem ser documentadas em pacientes saudáveis. inicialmente identificado como uma transição celular. e frequentemente na literatura encontramos outros agentes da candidíase. células leveduriformes “brancas” possuem estilo de vida fermentativo. que pode ser do branco ao creme. Espécies de Candida são encontradas no tubo gastrointestinal em 80% da população adulta saudável. e em hospitais. quando se completa. como o industrializado corn meal.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 . Entre as mulheres. albicans. albicans. quando oriunda da microbiota. parapsilosis. Espécies de Candida residem como comensais. albicans) C. sendo que na pseudo-hifa as formações do septo e da constrição coincidem no mesmo ponto. Infecções por Candida envolvem um espectro amplo de doenças superficiais e invasivas oportunistas. que se reflete na macromorfologia do desenvolvimento leveduriforme quanto à cor. Por outro lado. as células separam-se. pastoso. O processo de mitose é iniciado e. os termos hifa e tubo germinativo são considerados frequentemente sinônimos. A diferença não fica somente na morfologia. formando assim as pseudo-hifas. Recentes evidências estabeleceram que este fenômeno está ligado à “sexualidade” de C. sendo que todas estas espécies têm sido isoladas de casos clínicos2. C.11. No entanto. Em C. A mudança na morfologia de fase leveduriforme para filamentosa pode ser induzida por uma variedade de condições ambientais. viswanathii.

24 BARBEDO & SGARBI De Comensal a Patógeno Numerosos fatores contribuem para as infecções fúngicas. As principais espécies de interesse clínico são: C. Espécies do Gênero Candida Nos últimos anos. Colombo e Guimarães5 relataram que até aquele momento eram conhecidas cerca de 17 espécies de Candida (gênero com quase 200 espécies conhecidas) causadoras de micoses superficiais ou invasivas em seres humanos. Filo Ascomycota. que codifica diferentes glicoproteínas de superfície celular implicadas no processo de adesão em superfícies do hospedeiro17. guilliermondii. Esta espécie é naturalmente sensível a todas as drogas antifúngicas de uso sistêmico. tropicalis. C. ambas as formas são de grande importância na patogênese. vem aumentando o número de micoses causadas por espécies de Candida não albicans. A seguir. albicans. Habitualmente se considera que a origem de C. adaptação ao ambiente oxidativo. Alterações dos mecanismos de defesa do hospedeiro podem ser decorrentes de mudanças fisiológicas características da infância (prematuridade) e do envelhecimento ou. morfogênese (dimorfismo fúngico). stellatoidea (C. C. C. Em 2003. Isto não é apenas o primeiro passo para a transição de comensal a “agressor”. resistência a antifúngicos. segundo a taxonomia. extremos de idade (recém-nascidos e idosos).29. é bem provável que genes selecionados associados à virulência sejam importantes para tipos específicos de candidíase. A transição do estado comensal para “parasita” requer um hospedeiro suscetível.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 7. imunodeficiências congênitas ou adquiridas e imunodepressão induzida por atos médicos5. C. quimioterapia. 2. variação de temperatura e do pH. sobrevivência dentro de fagócitos19. levedura. longo tratamento com antibióticos.24. norvegensis. utilis. A expressão gênica de C. hifa verdadeira e clamidoconídios7. fenômeno de switching)11. albicans. Em 1963. parapsilosis. Apesar de uma morfologia flexível ser uma contribuição para a virulência fúngica. e 10. incluindo as emergentes. kefyr. Mas essa hipótese não tem sido muito avaliada. A adaptação do fungo in vivo provavelmente reflete sua variabilidade frente a microambientes e à natureza em que esses oportunistas sobrevivem15. 5. os relatos são mínimos5. stellatoidea) e C. . como queimaduras ou procedimentos médicos invasivos. tem sido progressivo o relato de casos de doenças superficiais e invasivas relacionadas a espécies emergentes de Candida. e as fosfolipases. glabrata.18. que hidrolisam os fosfoglicerídeos17. mas casos de resistência adquirida a azólicos são conhecidos em pacientes expostos prolongadamente a estes medicamentos. 9. em que genes são temporariamente induzidos ou reprimidos em função do óxido nítrico21. dubliniensis. transplantes. albicans foi o primeiro fungo zoopatogênico que teve o seu genoma sequenciado (organismo diploide com oito pares de cromossomos). devido à diversidade de fatores de virulência descobertos. associadas a doenças degenerativas. como comensal e como patógeno em hospedeiros humanos e animais. C. defeito na imunidade mediada por células. albicans causadora de infecções seja a microbiota do trato digestório humano (organismo comensal). porém diversos casos têm sido relatados de forma horizontal.12. C. exposição direta aos fungos. Candida albicans C. são consideradas absolutamente indicativas de saprofísmo ou infecção em determinado sítio no hospedeiro. a extensão com que os fatores de virulência contribuem para a colonização ou para o processo de doença não está definitivamente esclarecida26. modulação do sistema imune. albicans tem sucesso em ambos os casos. Considerando-se que as condições diferem muito nos diversos sítios de infecção. tais como: 1. localizam-se em: Reino Fungi. determinada pelo genoma selvagem de C. por sua morfologia arredondada. descrevemos um resumo das principais espécies patogênicas. lusitaniae. inconspicua.17. que hidrolisam ligações peptídicas. desnutrição aguda. albicans var. dentre os quais podemos destacar: o rompimento das barreiras cutânea e mucosa. Classe Saccharomycetes. DST . por conseguinte. ou seja. variação fenotípica (tipo conjugante sexuado. dentre outras5. lipolytica. mas também um processo de ativação. as principais enzimas produzidas são as proteinases. a patogênese depende de uma expressão coordenada de múltiplos genes de uma forma apropriada para as condições do sítio de infecção e fatores ligados ao hospedeiro. a espécie mais frequentemente isolada de infecções superficiais e invasivas em diversos sítios anatômicos e como causa de candidíase em todas as partes do mundo. Sabe-se que nenhum fator de virulência é dominante. As espécies do gênero Candida. albicans) o ferro a partir da tranferrina22. mais frequentemente. Além disso. neoplásicas. albicans. albicans é. disfunção dos neutrófilos. Programas transcricionais associados à transformação de estado leveduriforme para estado filamentoso contribuem também para a invasão no hospedeiro. toxinas (cândida-toxina)25. Família Saccharomycetaceae28. C. componentes cruciais para adaptação a diferentes sítios no hospedeiro23. rugosa. famata. principalmente na expressão dos genes. albicans. C. 8. parapsilosis. 6. incluindo C. enzimas hidrolíticas. C. Portanto.30. eram conhecidas apenas cinco espécies de Candida como causadoras de doenças em humanos. É a espécie de Candida com maior conhecimento patogênico. principalmente na candidíase hematogênica. guilliermondii e C. é a melhor para a disseminação eficiente. nenhum dado molecular deixou claro e estabelecido que a morfogênese fúngica junto com outros fatores de virulência. dentre outros13. um grande avanço na biologia deste fungo. desordem metabólica. Os microrganismos comensais tornam-se patogênicos caso ocorram alterações nos mecanismos de defesa do hospedeiro (imunodepressão) ou o comprometimento de barreiras anatômicas secundárias. Em geral. sem dúvida alguma. a forma de levedura predomina durante a colonização no hospedeiro sadio. devido ao seu desenvolvimento filamentoso. albicans é regulada por uma interação entre hospedeiro e patógeno. o que possibilita uma variedade de experimentos e. podendo colonizar em larga extensão diferentes sítios anatômicos. como por exemplo a família do gene ALS (agglutinin-like sequence) em C. krusei. tropicalis. pseudo-hifa. a fase leveduriforme. C. envolvendo isolamentos de C. C. Ordem Saccharomycetales. nem as formas específicas de Candida. sequestro de ferro. C. Enquanto a hifa é a morfologia que melhor transpõe barreiras. Quanto à resistência a anfotericina B.27. C. C. uma vez que elas são requeridas em diferentes situações no hospedeiro16. A patogênese da candidíase é facilitada por vários fatores de virulência envolvidos em funções.17. mananas e manoproteínas são capazes de regular (ativar e desativar) a ação das defesas do hospedeiro20. C. enquanto as hifas surgem frente a deficiência do sistema imune. 3. C. 4. Entretanto. aderência às células do hospedeiro pelas adesinas. em que é capaz de adquirir (C. mas prepara a Candida para os subsequentes passos da infecção14. C.

todavia. ciferrii é resistente ao fluconazol31-33. produção de clamidosporos. e métodos baseados em ácido nucleico são utilizados para distinguir as duas espécies. apesar de uma alta taxa de mortalidade. Muitos casos de infecção por C. dubliniensis. Irlanda) é uma espécie de levedura patogênica fenotípica. Apesar de pacientes com infecções sistêmicas por C. glabrata. C. incluindo laticínios. glabrata podem ocorrer em pacientes previamente expostos a anfotericina B. fungemias.50. C. Outro aspecto sobre a epidemiologia deste patógeno é sua maior ocorrência em pacientes idosos5. Candida glabrata C. glabrata demonstra uma baixa virulência em modelos de infecções com animais. C. guilliermondii (levedura haploide e comensal humana) ainda não são frequentes. glabrata apresentam menor sensibilidade ao fluconazol. Mais especificamente a mortalidade é em torno de 50% em pacientes com câncer e 100% quando em complicações de transplante de medula óssea. sendo que a primeira descrição dessa levedura foi realizada em 1965. C. alveolites. e especialmente não forma pseudo-hifas em temperaturas acima de 37ºC. infecções em imunodeprimidos e uma forma disseminada em um paciente com leucemia mieloide aguda. albicans eram na verdade C. estudos mostram uma menor sensibilidade também para anfotericina B. dubliniensis é responsável por cerca de 2% das candidemias. guilliermondii foi subdividida em mais duas espécies. Para alguns autores. C. pacientes com infecções pelo HIV e paciente diabéticos. C. e com outros gêneros como Cryptococcus e Trichosporon. dubliniensis (identificada em 1995 em Dublin. A diferença entre ambas as espécies se faz por provas de assimilação de carboidratos. Índia e Brasil. A assimilação de inositol é uma característica quase exclusiva desta espécie. albicans41. embora seja identificada como comensal em cavidade oral de uma minoria de indivíduos saudáveis. famata é um patógeno oportunista que habita a cavidade oral do homem como comensal. guilliermondii demonstra semelhança com C.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 Candida famata C. Isolados clínicos de C. Muitas linhagens de C. Candida guilliermondii Infecções por C. Os blastoconídios de C. C. Comparando-se a mortalidade entre outras espécies de Candida não albicans. principalmente em ambientes hospitalares. albicans está bem longe de acontecer. guilliermondii são morfológica e bioquimicamente semelhantes à C. pode ser mais severa e mais difícil de ser tratada que infecções por C. glabrata associados aos azólicos. consequentemente. e em pacientes em tratamento intensivo. albicans. compartilhada com poucas deste mesmo gênero. No ser humano já foram descritos casos de onicomicoses. recentemente se observou que C. resultando assim em menores níveis de colonização e invasão tecidual34-36. C. albicans são alvos de investigações detalhadas (modelos de estudos com animais). glabrata emerge como um notável agente patogênico de mucosa oral e pode promover infecção concomitante com C. C. UNIFESP. C. Diferentes pesquisas em fungemias humanas revelaram que C. Em estudo realizado com 548 amostras armazenadas no banco de leveduras do Laboratório Especial de Micologia. chegando a ser o segundo ou terceiro patógeno em casos de candidíases. Antes se pensava que C. associada à infecção orofaringeana. famata não fosse patogênica para os seres humanos. sobretudo para imunodeprimidos. C. brilhantes. Além dos problemas terapêuticos de infecções por C. porém quando em meio de Sabouraud. dubliniensis e C. peritonites. O tratamento pode apresentar problemas. dubliniensis é comumente associada a mucosa oral. ciferrii é uma levedura cujo estado teleomorfo corresponde ao Stephanoascus ciferrii. dos quais se diferencia facilmente pela hidrólise da ureia. famata (também conhecida como Debaryomyces hansenii e Torulopsis candida) é usualmente encontrada em alguns alimentos. C. glabrata tem sido observado em diferentes grupos de pacientes com exposição prolongada ao fluconazol. albicans. apresenta-se como blastoconídio tanto no ambiente como quando patógeno.2 a 2% do total de casos. De forma surpreendente. Apesar de serem bem próximas. este índice pode chegar a 10% dos casos46-48. As razões pela grande diferença entre a virulência de C. como qualquer outra espécie de Candida43. sendo que estas três espécies são bioquimicamente indistinguíveis. guilliermondii49. famata é menos suscetível aos azólicos38-40. glabrata pode ser considerada como saprófita e não patogênica na microbiota normal de indivíduos sadios. transplantes. albicans e. coloração das colônias no meio chromagar Candida (para alguns autores. albicans. genética e filogeneticamente semelhante à C. um aumento nos índices de colonização e infecção por C.37. C. porém é um agente de candidíase que vem sendo descrito como emergente. guilliermondii ocorre em 2% dos casos de candidemia. ciferrii pode ser isolada do solo e de animais. infecções no mediastino e no sistema nervoso central. pois uma grande porcentagem de linhagens vem diminuindo em sensibilidade para várias classes de agentes antifúngicos (principalmente o fluconazol e o itraconazol). dubliniensis tem a capacidade reduzida de produzir hifas. últimas décadas. como consequência de drogas imunodepressoras e com o advento da aids. carpophila. em relação a outras espécies de Candida. temperatura de crescimento. Em comparação com C. Na verdade. guilliermondii estão associados a onicomicoses. diferenças antigênicas e por sequências de DNA. candidemias. glabrata aumentou significativamente como agente de infecções em seres humanos.Candidíase 25 Candida ciferrii C. casos clínicos desta levedura têm sido relatados como onicomicoses.44. já havia sido descrito que infecções por C. verificou-se que 2% das amostras armazenadas originalmente como C. Globalmente. DST . a da C. endoftalmites (retinopatias). C. Recentemente. não é um fungo dimórfico. lusitaniae in vitro na resistência para o fluconazol e a anfotericina B. Caspofungina e micafungina são fungicidas e pouco se conhece sua atividade contra C. pacientes com câncer.42. diferentes tons de verde sugerem a distinção entre elas). este incidente por C. famata é responsável por 0. dubliniensis tem maior facilidade em desenvolver resistência a azólicos5. albicans é significantemente mais patogênica. pacientes acometidos de cirurgias. glabrata são menores que os de C. fermentati e C.45. famata. a C. formam colônias homogêneas. porém nas duas . de coloração creme. dentre outras. como Candida curvata e Candida hellenica (leveduras de origem ambiental). Relatos de casos demonstram que C. neutropênicos. em paciente com câncer ou HIV-positivo. glabrata é relativamente alta. Candida dubliniensis C. todavia em determinadas regiões geográficas como Itália. dubliniensis terem se recuperado.

inconspicua não está associada a pacientes com câncer55. Recentemente. Na sequência. Muitos autores têm reportado um avanço em infecções por C. kefyr. possibilitando assim ao organismo adaptar-se a diferentes sítios no hospedeiro e também selecionar genes que podem estar relacionados à resistência antifúngica71. kefyr é extremamente rara. tem sido isolado de carnes refrigeradas. krusei é um problema para o tratamento de pacientes em geral. como C. lusitaniae. haemulonii é complicada devido à semelhança fenotípica com C. famata e C. lusitaniae. e para a caspofungina observou-se uma ótima suscetibilidade. observou uma interação entre a 5-fluorocitosina e o fluconazol em 60 isolados clínicos de C. e o grupo de antifúngicos equinocandinas (caspofungina. na Argentina). C.73. e assim como a C. gastrointestinal e urogenital) é isolada em menos de 1% das amostras nosocomiais. pseudo-haemulonii. lipolytica possui menor virulência. inconspicua. albicans e C. DST . pseudotropicalis (porém muitos trabalhos ainda são publicados com este nome). no parentesco ao nível de DNA e em características fisiológicas. assim como em outras espécies de Candida. podendo causar fungemias. Noel et al. krusei tem sido reconhecida como um patógeno fúngico resistente a um amplo repertório de antifúngicos. O primeiro isolado humano ocorreu em 1984. porém esta espécie é sensível ao fluconazol. As amostras demonstraram ser resistentes a 5-fluorocitosina e sensíveis ao fluconazol em experimentos separados.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 . C. haemulonii em sete neonatos no Kuwait. nos pulmões (secreção de brônquios). glabrata. com hanseníase. Desenvolve resistência a anfotericina B durante terapias (alguns autores sustentam que a elevada resistência à anfotericina B seja uma das formas de se distinguir C. e que faleceu apesar de terapia com anfotericina B e 5-fluorocitosina. isolado este que foi resistente à anfotericina B e aos derivados azólicos. lusitaniae de outras espécies de Candida). Quando patógeno. haemulonii foram reportados em pacientes com câncer (1986. O fenótipo de multirresistência exibido por C. derivados de petróleo. infecções orais ou esofágicas. C. na urina. principalmente devido a sua resistência intrínseca ao fluconazol. Candida inconspicua C. lipolytica não é um agente frequente de infecção oportunista. dentre outros) e fungemias. Os isolados de C. Em 2003.52 descreveram fungemias por C. Candida krusei C. Lehmann et al.26 BARBEDO & SGARBI Candida haemulonii C. plantas e solo. Estudos prévios demonstram que C. albicans demonstraram que C. C. trato respiratório.52. Em 2007. na França) e anemia megaloblástica (2002. itraconazol e anfotericina B. paroníquias e candidíase vaginal em pacientes debilitados em geral. Estes dois últimos autores demonstram a alta emergência de C. é encontrada na cavidade oral. Candida lusitaniae C. krusei apresenta uma plasticidade com respeito a desenvolver resistência a antifúngicos. que foi isolada do sangue de um paciente na Tailândia. Após estes relatos. materiais de agricultura. um ácaro. na República Tcheca. HIV-positivo. Quando as células resistentes ao fluconazol na presença de 5-fluorocitosina foram expostas somente ao fluconazol. com leucemia. resistentes a anfotericina B. haemulonii tem sido responsável por onicomicoses. em 2006. Majoros et al. antigamente conhecida como C. esofagites e ocorrer em pacientes imunodeprimidos com câncer. no trato genital feminino. um trematódeo. isolou-se este fungo do sangue e cateter de um paciente pediátrico com câncer e de pacientes diabéticas e não diabéticas com candidíase vaginal. e nos intestinos. e o mecanismo genético deste fenômeno ainda é desconhecido. Todavia. testaram fluconazol. Posteriormente. Em 1993. do sangue de um paciente que dependia de hemodiálise devido a sua insuficiência renal. e quando encontrada (pele. autores vêm relatando uma diminuição da sensibilidade para o voriconazol e as equinocandinas. haemulonii foi originalmente descoberta em 1962. 5-fluorocitosina e caspofungina51. a partir do intestino de Haemulon scirus. em três diferentes trabalhos com isolados de C. Para a anfotericina B. é considerada uma importante espécie a ser monitorada com relação à resistência antifúngica63-67. principalmente laticínios. principalmente grupos comprometidos (neutropênicos. guilliermondii. infecções vaginais e em pacientes com diabetes mellitus. podendo gerar infecções assintomáticas. chegando a 2% das fungemias. a sensibilidade foi restabelecida.56-58. C. haemulonii demonstraram um aumento na resistência para fluconazol. e esteve associada a uma epidemia em laboratórios que mantinham adultos de Ornithodoros moubata. anidulafungina e micafungina) tem demonstrado excelente atividade in vitro. Recentemente. krusei. Para o fluconazol observou-se uma alta suscetibilidade aos diversos métodos empregados. Khan et al. Organismo ubíquo. O fenômeno de switching é encontrado em C. A identificação de C. haemulonii como patógeno oportunista em pacientes imunodeprimidos. Para a 5-fluorocitosina. a maioria dos resultados foi resistente. é comumente encontrada em certos produtos industrializados. inconspicua é relatada em pacientes imunodeprimidos com infecções virais. sugerindo assim um complexo C. glabrata.54 descreveram uma espécie nova. 5-fluorocitosina e caspofungina por diferentes métodos. em um estudo in vitro. lusitaniae é uma espécie de levedura que não é frequentemente encontrada como comensal humana. krusei entre pacientes que receberam terapia com fluconazol e anfotericina B. doenças hematogênicas e leucemias59-62. anfotericina B. dois casos de fungemia por C.72. Candida kefyr C. e estudos comparativos de virulência feitos em camundongos (observou-se ausência de mortalidade e de lesões viscerais) com C. A resistência ao fluconazol ocorreu somente na presença de altas concentrações de 5-fluorocitosina. Em 2005. todos os isolados foram suscetíveis.53 estudaram 25 isolados clínicos de C. O voriconazol é usado com sucesso em infecções por C. no esôfago. lipolytica pode causar candidemia associada a cateter. Sugita et al. haemulonii e descreveram dois grupos geneticamente distintos com base no perfil isoenzimático. porém são suscetíveis a voriconazol. fluconazol e itraconazol. esta espécie foi isolada da pele de golfinhos e da água do mar da costa de Portugal. Candida lipolytica C. Como nativo da microbiota humana e como patógeno. C. combinada com a baixa sensibilidade para anfotericina B e a 5-fluorocitosina. lipolytica é suscetível a anfotericina B e aos derivados azólicos68-70. haemulonii.

Estudos mostram que C. Outros autores dividem C. em pacientes que sofreram procedimentos cirúrgicos e pacientes com endocardites. norvegensis não são comuns. tropicalis é associada à infecção. lusitaniae é uma das espécies haploides do gênero Candida que tem o seu ciclo sexuado conhecido. Isto é amplamente aplicado em uma variedade de biotecnologias na indústria farmacêutica e na de alimentos. e em sequência. Em alguns hospitais infantis. albicans. C. Candida stellatoidea C. Isolados de C. e para alguns autores um mutante de C. seis episódios de candidemia causada por C. temos a produção de mananas89. gerando assim comportamentos semelhantes91. enquanto a C. Candida parapsilosis C. especialmente em pacientes com linfoma. não. enquanto para outros é apenas uma variação dentro da mesma espécie. lusitaniae podem ser C. respectivamente. eletroforese de isoenzimas. Lipases de C. krusei. rugosa (antigamente conhecida como C. C. O primeiro caso verificado de infecção clínica ocorreu em 199075. norvegensis num período de 25 anos foram identificados na Dinamarca. podendo ser transmissível de pessoa a pessoa no ambiente hospitalar. e pacientes que recebem nutrição parenteral e prévia terapia antifúngica. metapsislosis) com base em diversos critérios. é raro encontrar esta espécie em neonatos (colonização mucocutânea). (levedura diploide de reprodução assexuada) é a segunda ou terceira na causa de candidemias em adultos. C. a 5-fluorocitosina. C e D. habilidade de produção de biofilmes. dubliniensis). norvegensis pode ser de difícil identificação quando em presença de C. Em contraste. A habilidade de produção de biofilmes está intimamente ligada à doença. albicans. sobretudo em neonatos. Trinta e cinco isolados de C. Esta espécie é mais frequente em infecções na corrente sanguínea. artrites e peritonites. inconspicua e a C. B. pulcherrima74. C. aproximadamente 70 anos atrás. incluindo análise de DNA. que está associada à microbiota. stellatoidea. krusei.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 Candida rugosa Embora seja raro um caso de infecção fúngica invasiva. urina. tropicalis. logo muitas espécies tidas como C. e é morfologicamente diferente de C. albicans. pacientes transplantados. em certas instituições84. O primeiro isolado foi na Noruega. Há autores que não concordam com o status de espécie para C. diabetes mellitus e câncer. culminou em peritonite. stellatoidea. norvegensis hidrolisa a esculina. C.92. dentre outras. parapsilosis torna-se predominante em candidemias. albicans pela perda da assimilação da sacarose.78. albicans. como agentes flavorizantes86-88. rugosa é citada como um possível patógeno fúngico emergente. A identificação por métodos tradicionais pode ser contraditória. Fungemia devida a esta espécie de Candida foi reconhecida antes de . C. albicans em quatro sorotipos. Candida norvegensis Infecções por C.85. Uma correlação entre a sensibilidade antifúngica também é vista neste grupo (C.Candidíase 27 A hipótese dos autores foi de que a 5-fluorocitosina se comportou como um inibidor competitivo do transportador do fluconazol. possuindo assim propriedades similares aos sorotipos B e A de C. leucemia. sendo que o sorotipo C é formado pela união dos sorotipos A e B. e isto não é incluído no banco de dados de sistemas de identificação. stellatoidea. quando contaminações por meio de cateteres foram relatadas em duas diferentes instituições nos Estados Unidos. Diferentemente de C. 1985.80-83. com manifestações clínicas que incluem fungemias. norvegensis são mais frequentemente isoladas (trato respiratório. stellatoidea é vista por alguns autores como sinônima de C. e endêmica. C. rugosa coloniza frequentemente pacientes de alto risco e exibe uma redução da sensibilidade a poliênicos e ao fluconazol. Recentemente. norvegensis pode tornar-se resistente a anfotericina B. C. parapsilosis. O sorotipo II de C. tropicalis apresenta-se mais virulenta que C. rugosa foram reportados no Brasil. Antes da descoberta dos dois sorotipos de C. reações de esterificação e transesterificação de triacilgliceróis em outros ésteres hidrofóbicos. orofaringe e genital) na Dinamarca e Noruega. inconspicua e C. dentre uma dessas propriedades semelhantes. salvo por análise de DNA. stellatoidea é considerado sacarose-negativo. C. stellatoidea e C. em três pacientes com asma. quando um quadro de doença invasiva. na água e nas plantas79. e o sorotipo D na verdade é C. Dois novos casos (de um total de sete pacientes) de infecção por C. 44% de 32 episódios consecutivos de fungemia foram localizados em hospitais brasileiros. orthopsilosis e C. cylindracea) são versáteis biocatalisadores que catalisam hidrólises. Em sequência. sequências de DNA mitocondrial. complicações hematológicas malignas. stellatoidea por três nucleotídeos e um aminoácido na sequência do gene do citocromo b90. stellatoidea podem ser encontrados em vaginites sintomáticas ou assintomáticas. endoftalmites. e estas infecções usualmente ocorrem em associação a procedimentos invasivos ou dispositivos protéticos. a detecção de C. e somente o tipo I seria considerado C. esta espécie era diferenciada de C. pulcherrima. e que este mecanismo pode manifestar-se em outras espécies do gênero Candida. espécies de C. parapsilosis é um microrganismo ubíquo comumente isolado do ambiente no solo. Esta espécie emerge como um importante patógeno nosocomial (comensal. A. Estudos mostram que C. Candida tropicalis Recentes estudos comprovam que C. parapsilosis pode-se dividir em três grupos distintos (C. quando em indivíduo sadio) associada a cateteres. albicans difere de C. rugosa foram relatados em pacientes que recebiam tratamento tópico com nistatina em outro hospital dos Estados Unidos. associadas a cateteres. eletroforese de cariótipos. endocardites. De acordo com a bioquímica. alcoólises. dubliniensis. norvegensis apareceram em 1996. A morfologia e a fisiologia de C. stellatoidea é dividida em dois cariótipos (tipos I e II). albicans. lusitaniae é comparada com C. morfotipos. 15 episódios de candidemia por C. Em estudos recentes. albicans. em paciente imunodeprimido devido a transplante renal. C. e à maioria dos derivados azólicos77. na cavidade oral. do que em outros locais76. episódios estes que se mostraram resistentes a nistatina e tiveram a sensibilidade diminuída à anfotericina B e ao fluconazol. Isolados clínicos desta espécie são sensíveis a anfotericina B e aos derivados azólicos5. porém o potencial de transmissão nosocomial é considerado. albicans em pacientes com complicações hematológicas malignas DST . pois em seus estudos esta diferença seria em apenas dois pares de bases91. C.

dentre outros. além de C. Em 1999. infecções sistêmicas por C. em provas de assimilação de carboidratos. sem deixar ferver. com uma alta taxa de mortalidade. vaginal ou anal. líquor. uma porção da amostra a ser examinada. pelo período de 1 semana. em um paciente neutropênico com HIV. outras espécies de Candida. é feita uma suspensão em tubo de ensaio contendo 0. albicans100-102. e após 20 minutos em microscópio óptico comum. o segundo caso foi descrito por Bougnoux et al. seguida da de 40 x. Entre adultos com ou sem câncer. Segundo a literatura. submetida ao laboratório de micologia. como análise macro e micromorfológica. sangue. A candidíase persistiu por um período de 3 anos. e se houver formação de clamidósporos (clamidoconídios). Espécies do gênero Candida tendem a apresentar coloração branca ou creme. Este prazo é importante porque. porém os fabricantes. O exame direto visa à observação de blastoconídios e pseudo-hifas. Para tanto.28 BARBEDO & SGARBI e infecções disseminadas. septadas e ramificadas é característica do gênero Candida. para intensificar a clarificação. tecidos obtidos por biópsia. o ID 32C®. tropicalis e C. deverá ser utilizada para isolamento do agente etiológico e observação da macromorfologia. utilis é capaz de utilizar álcoois como fonte de carbono. Sistemas manuais e automatizados: baseiam-se. Coloca-se uma gota de KOH (aquoso a 20%) em uma lâmina de microscopia. por reações enzimáticas específicas. A leitura é feita pelo halo de turvação resultante do crescimento. albicans. podendo ser em tubos ou placas de Petri. A presença de pseudo-hifas e hifas hialinas. em colônias leveduriformes homogêneas de textura cremosa e superfície lisa100. durante a preparação do meio básico. PAS. dentre outras100.5 mL de soro humano (pode-se usar também soro estéril de bovino. Chromagar Candida: meio de isolamento cromogênico que possibilita a identificação presuntiva das espécies do gênero Candida.101. limitando-se apenas ao gênero100. Seu princípio é a produção de cor nas colônias. utilis ocorreu na década de 1980. observa-se inicialmente com objetiva de 10 x. não aidético e não associado a cateter. C. em paciente hospitalizado não neutropênico. a fermentação é revelada por formação de bolhas de gás. A levedura é semeada em cada tubo e após um período de até 15 dias a 25°C. colônias de coloração verde. portanto. e o AUXACOLOR®. em geral. resultando assim em diversos compostos orgânicos (certos aminoácidos e enzimas). DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O tipo e a qualidade da amostra biológica. Procedimentos para a coleta de amostras são estabelecidos de acordo com a sintomatologia clínica. Os sistemas manuais mais conhecidos são o API 20 AUX®. Cobre-se a preparação com uma lamínula e. e as pro- . Candida utilis C. Como patógeno. krusei geram.98 descreveram um caso de infecção nosocomial (crônico em unidade de tratamento intensivo) por C. secreção do trato respiratório. Giemsa. formam também tubo germinativo. coloração branca a rosa103. o primeiro caso de infecção por C. C. porém em geral é resistente a 5-fluorocitosina93-95. recomendam a realização de provas adicionais. contendo meio básico líquido.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 a superfície do meio de cultura sólido. Após incubação à temperatura ambiente ou 25°C. C. a levedura irá assimilar e crescer ou não em volta de determinadas fontes. Prova do tubo germinativo: a partir de uma alçada da colônia isolada. em 1993. na forma de pequeno filamento que brota do blastoconídio. cobrir com lamínula e examinar ao microscópio óptico com objetiva de 40 x. Para o zimograma.96. o acetaldeído. A presença de tubo germinativo. é extremamente rara em fungemias (de baixa virulência. A assepsia antes da coleta e a quantidade da amostra são fatores básicos para o sucesso do diagnóstico fúngico por leveduras do gênero Candida100. a mistura é aquecida ligeiramente. além do processamento para evidenciação pelo exame direto. e indica prova de assimilação positiva para a respectiva fonte. como também facilita o reconhecimento de culturas mistas. essencialmente. diversas fontes de carboidratos são colocadas em tubos respectivos. utilis no trato urinário (com presença de piúria) de um paciente idoso. respectivamente. exsudatos espessos e outros materiais densos. sendo possível sugerir a espécie através do estudo da presença e disposição dos blastoconídios e pseudo-hifas (método de Dalmau). indica C. então. Independentemente da amostra. e sobre esta. Cultura em ágar Sabouraud e ágar Mycosel: a amostra biológica. e em cultura gera um distinto aroma que se assemelha ao de pera96-99. azul e rosa rugosa. unha. cavalo ou coelho). Prova do microcultivo: possibilita o estudo micromorfológico das leveduras em meio ágar-fubá-Tween 80. com um substrato cromogênico do meio. parapsilosis. após esse período. Em alguns casos. associado ao uso de cateter. Esses sistemas consistem em galerias plásticas contendo microcúpulas com carboidratos desidratados. sobre a chama de um bico de Bunsen. são fatores importantes no sucesso do isolamento e na identificação do agente etiológico. C. uma gota da suspensão sobre lâmina. Provas bioquímicas: são divididas em assimilação (auxanograma) e fermentação (zimograma). urina. Incuba-se a 37ºC durante período máximo de 2 a 3 horas. colocados previamente. a exemplo temos os fragmentos de pele e unhas. Exame direto: é usado para pele. assim diferentes espécies possuem distintos perfis de assimilação e fermentação100. e as demais. sem formar constrição com a célula-mãe. Hazen et al. tropicalis estão associadas a taxas mais altas de mortalidade e disseminação do que por infecções devidas a C. podendo ser encontrada no trato digestivo de pacientes hospitalizados). No auxanograma. porém alguns laboratórios de micologia não fazem de rotina a identificação por espécie. dependendo da amostra. albicans100. utilis é uma levedura amplamente empregada na indústria. lesões com suspeita de leveduras do gênero Candida devem seguir as etapas descritas a seguir. de acordo com o metabolismo característico da sua espécie. como por exemplo. raspados de mucosa oral. Depositar. A técnica baseia-se no princípio de que a incubação neste meio estimula a produção de conídios e filamentação. pode-se usar as colorações de Gram. não acomete indivíduos imunocompetentes. fezes. Os resultados do auxanograma e do zimograma são comparados a tabelas existentes na bibliografia. tropicalis é frequentemente sensível a derivados poliênicos e azólicos. deverá ser semeada sobre DST . permite a identificação presuntiva de C. observadas dentro de tubos de Durhan. onde se inocula a suspensão da levedura e incuba-se sob temperatura e tempo adequados. diferentes fontes de carbono mais as de nitrogênio são dispostas em alíquotas sobre a placa de Petri onde a levedura foi semeada previamente. principalmente em reações de fermentação não alcoólica. albicans.

sistêmicas e alérgicas. albicans de 70 a 90%. é o principal tratamento104. A erradicação de C. C. resistentes a diferentes agentes de uso comum27. albicans pode causar uma seleção de espécies. requerendo a combinação de uma terapia intensiva tanto sistêmica como local.114. pseudotropicalis. A partir desse relato. Candidíase vulvovaginal As micoses vulvovaginais foram descritas pela primeira vez por J. A candidíase oral foi descrita como doença associada no primeiro caso de aids publicado. a candidíase pode-se manifestar de diferentes formas3. A retirada dos fatores predisponentes. Geralmente esses fungos habitam a mucosa bucal como leveduras saprófitas. C. em 1949. candidemia. glabrata está entre 5 a 15% dos casos de segunda espécie mais frequente nas candidíases vulvovaginais. trocas de epitélio. eritemas. Os métodos automatizados mais difundidos são o Microscan® e o Vitek®. o papel de determinada espécie na etiologia da doença é de difícil avaliação104. corrimento. ao estabelecer uma relação entre a existência de fungos na vagina com a aparição de vaginites. glabrata. neste caso. pseudotropicalis e C. alterações de barreira de mucosa. associadas à Candida. Em alguns casos se inclui propor a possibilidade de instaurar um tratamento profilático com derivados azólicos.109. os tecidos mais atingidos são os do trato digestório e as genitálias. A quantidade de leveduras na lesão é geralmente alta e. albicans. A candidíase oral não é uma enfermidade mortal. constituindo parte da microbiota normal. laringeanas e sistêmicas104-106. dentre outras. tropicalis.112.111. anticoncepcionais orais e o dispositivo intrauterino (DIU). condição que resulta em intensa coceira. No entanto. vem sendo observado um aumento de detecção de espécies não albicans em uma maior taxa de recorrências dos episódios vulvovaginais. albicans.102. caracterizada por uma pseudomembrana de coloração do branco ao creme que. apresenta fundo avermelhado. alterações nutricionais e imunológicas. nefrite e outros. Apesar dos excelentes resultados com antifúngicos azólicos orais. e isto se deve ao fato da generalização de terapias inadequadas. sendo o resultado comparado com um banco de dados fornecido pelo fabricante. alterações salivares. A candidíase oral é a porta de entrada para complicações da candidíase do tipo orofaringeanas. frequentemente. ao provocar moléstias de diferentes níveis. inconspicua. outras formas clínicas como a eritematosa e a queilite angular. dispareunia e desconforto vaginal27. tabagismo. C. os quais são reidratados com a suspensão da levedura.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 Candidíase oral Desde o nascimento. são alguns dos fatores predisponentes para as candidíases vulvovaginais115. como C. endocardite. peças íntimas de tecidos sintéticos. em que geralmente os antifúngicos tópicos apresentam resultados eficazes.116. C. uso contínuo de roupas apertadas. interdigitais das mãos e dos pés e as unhas. Espécies de Candida apresentam características acidogênicas e heterofermentativas. combinada com derivados azólicos ou poliênicos (nistatina). albicans é a mais importante espécie de levedura encontrada no trato genital feminino.110. os conhecimentos foram evoluindo progressivamente. C. e os resultados das provas bioquímicas são automaticamente interpretados102. mantém este pH baixo109. são alguns dos fatores que predispõem a candidíase oral104. já que não são todas as vaginites causadas por espécies pertencentes ao gênero Candida.2 em 48 horas.Candidíase 29 vas positivas podem ser traduzidas pela turvação das microcúpulas ou pela mudança de sua coloração. levando a uma diminuição do apetite. Em torno de 20 a 25% das mulheres sadias e completamente sem sintomas são positivas para culturas de C. No entanto. A candidíase bucal pode ser causada por diferentes espécies do gênero Candida. causando candidíase pulmonar. S. C. Porém. podem assumir a forma patogênica invasiva filamentosa. são também frequentes na atualidade104. glabrata. terapia hormonal exógena e aids113. entre elas C. a cavidade oral é colonizada por leveduras do gênero Candida. mesmo que. ardor ao urinar. e a maioria dos componentes ácidos da saliva como são piruvatos e acetatos. a infecção pode atingir diversos órgãos. durante os últimos anos. Na candidíase mucosa. já a alérgica (candidides) se caracteriza por diversos quadros. que incubam painéis contendo os substratos desidratados. designamos como vulvovaginites micóticas aquelas provocadas por fungos leveduriformes. axilas e dobras da pele em geral. A forma de pseudomembrana (conhecida no Brasil com a denominação popular de “sapinho”) é a apresentação mais conhecida. krusei. C. Wilkinson. .109. Extremos de idade (recém-nascidos e idosos). particularmente sob condições ricas em carboidrato. compromete o paladar e a deglutição. C. Atividade sexual (traumas de mucosa). nos casos de imunodepressão o problema maior está na alta taxa de recorrências ou recidivas. Atualmente. na cutânea. alterações hormonais. as áreas intertriginosas da pele como virilhas. Dependendo da localização. O tratamento da candidíase oral é simples nos pacientes imunocompetentes ou com imunodepressão leve. na sistêmica. odor. como nos pacientes com HIV. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS As formas clínicas podem ser divididas em cutâneo-mucosas. e constitui a infecção fúngica mais frequente nos pacientes HIV-positivo107. prurido. imunodepressão. gravidez. Tratase de sistemas controlados por computador. onde se observam lesões cutâneas do tipo vesiculosas a lesões eczematoides. A recorrência na candidíase vulvovaginal também denota infecção secundária de outras enfermidades. tropicalis. diferentes tipos de proteção menstrual e substâncias de higiene íntima. dentre outros. DST . Neste sentido. guilliermondii. com prevalência de C. Considera-se que até 90% dos indivíduos infectados pelo HIV sofrerão pelo menos um episódio de candidíase orofaringeana104. mais de uma espécie é isolada.108. principalmente C. Cerca de 75% das mulheres adultas tiveram episódios de candidíase vaginal durante a vida. krusei. uso de próteses dentárias. e cerca de 5% dessas pacientes apresentarão episódios de recorrência.5 a 3. como diabetes mellitus. C. Outras espécies detectadas em infecções ginecológicas com menos frequência são C. C. esofágicas. encontramos formas clínicas de candidíases orais crônicas rebeldes ao tratamento. principalmente nos casos de pacientes HIV-positivo ou pacientes hospitalizados e idosos. parapsilosis. O desenvolvimento da Candida na presença da saliva é acompanhado de um rápido declive no pH de 7. sob determinadas condições. quando removida. albicans. induzindo o aparecimento de lesões que são frequentes em crianças ou pacientes imunodeprimidos8.

M. couro cabeludo. Balanite A balanite (ou balanopostite. invadindo a unha normal. e usualmente não causam dor. com apenas uma leve coceira. albinas é a espécie isolada com maior frequência. Infecções orais e vaginais por Candida são comumente encontradas em pacientes com candidíase mucocutânea crônica. As lesões podem-se estender ao escroto e às pregas da pele.126. dolorida e por vezes esponjosa) é considerada a mais frequente doença associada à unha. Pacientes com candidíase mucocutânea crônica raramente desenvolvem infecções disseminadas ou invasivas por Candida ou outros microrganismos. extremidades (palmas das mãos e solas dos pés) e dobras da pele são as áreas mais acometidas. e paroníquia (enrijecimento da pele de coloração parda a avermelhada) é também uma das mais comuns enfermidades dermatológicas. Ambas. vírus do herpes e herpes zoster. como relações sexuais com parceiro infectado. descontrole no diabetes mellitus. e que o tratamento seja estendido ao seu parceiro27. Agentes tópicos são complicados pelo contato com a roupa. Esses casos apresentam-se clinicamente como onicólise ou paroníquia. destacamos: erupções generalizadas. porém raros na candidíase mucocutânea crônica. Em alguns casos. em geral afetam mulheres. principalmente em pacientes com candidíase mucocutânea crônica e imunodeprimidos. C. fissuras. Podem também atuar como patógenos secundários em unhas acometidas por psoríase e líquen plano e por outras dermatoses127.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 O papel da imunidade celular no controle da infecção causada por Candida tem sido bem demonstrado em modelos experimentais. distorção e fragmentação da unha. edema. A candidíase cutânea congênita. Onicomicose e paroníquia Onicomicose (unha enrijecida. Existem diversos fatores que predispõem os pacientes a desenvolver a balanite. mas alguns pacientes são observados com suscetibilidade a infecções por organismos como Staphylococcus aureus. O principal fator que gera a candidíase cutânea congênita é a candidíase vulvovaginal na mulher durante a gravidez. ou sintomática. krusei. sobressaltadas. As lesões típicas na pele são geralmente avermelhadas. eritema generalizado. que comumente estão expostas a traumas de trabalho . pois terapias orais tendem a ter bons resultados. parapsilosis e C. com inchaço crônico da falange distal120. Candidíase cutânea Espécies do gênero Candida são frequentemente encontradas como sapróbios. onicomicose e paroníquia. erosões. situação que consiste em persistentes e recorrentes infecções de membranas mucosas. nos quais a dicotomia da resposta imune do tipo CD4+ Th1 e CD4+ Th2 é considerada um fator importante para a suscetibilidade ou resistência à infecção por Candida. A candidíase cutânea frequentemente ocorre quando há condições de umidade e temperatura. C. e em pessoas obesas na prega suprapúbica) produzindo intenso eritema. com frequência são patógenos secundários. está relacionada com suscetibilidade a este patógeno124. Microabscessos na epiderme são comuns na candidíase cutânea aguda. Na maioria dos casos. como o hipoparatireoidismo. recente terapia antibiótica. com uma variedade de manifestações. e o completo cumprimento da mesma é mais acessível ao paciente do que por agentes tópicos118. produzindo acentuado engrossamento. inflamação aguda ou crônica da glande do pênis) pode ser assintomática. embaixo das fraldas de recém-nascidos. e que geralmente coexistem). O tratamento convencional da balanite consiste em aplicações tópicas (derivados azólicos e poliênicos) num período de 1 a 2 semanas. condição caracterizada sobretudo pela deficiência de células T helper. A candidíase cutânea congênita pode evoluir para uma forma disseminada. Mycobacterium avium. invadindo a unha previamente alterada por trauma. paroníquia e onicomicose. Uma alternativa à terapia tópica seria por via oral. produzindo raramente uma desordem conhecida como candidíase mucocutânea crônica. causar uma uretrite transitória. virilha. guilliermondii são encontradas com menor frequência. Dentre as principais lesões na pele. extensas regiões eritematosas (presentes em achados iniciais). é indispensável a remoção dos fatores predisponentes. Candida albicans é o patógeno mais comum. A candidíase cutânea aguda pode-se apresentar de diferentes formas: intertrigo (localizado nas dobras da pele como axilas. exudato purulento e pústulas. sendo comum em homens não circuncidados117. O envolvimento da unha pode ser severo nesta condição. dessa forma. As leveduras do gênero Candida podem-se comportar como patógenos primários. porém regiões como as costas. C. infecções superficiais podem-se tornar severas e de difícil tratamento. para que se possa ter boa conduta terapêutica102. Já em pacientes imunocompetentes. A candidíase mucocutânea crônica também está associada a endocrinopatias e fenômenos autoimunes. Leveduras do gênero Candida são comumente encontradas nas unhas. DST . o que pode levar ao não cumprimento do tratamento pelo paciente. prega submamária. principalmente em pacientes com HIV).123. gerando placas pseudomembranosas. colonizando superfícies de certas membranas e mucosas no homem. como as dobras da pele. erosão interdigital. Diabetes mellitus e HIV também estão associados a candidíases cutâneas. IL-5 e IL-10. a resposta tipo Th2. C. quase toda extensão do recém-nascido é tomada de lesões. com presença de prurido. e com hiperqueratinização. e em climas tropicais ou durante meses de verão. pele e unhas. Cada caso deve ser analisado individualmente. várias medidas em conjunto são aventadas para controle da infecção. tropicalis. forma esta que gera muitas mortes de recém-nascidos128. hiper-hidratação ou irritação por contato com substâncias químicas.118. iniciando-se com vesículas no pênis que evoluem nos casos intensos. dor.30 BARBEDO & SGARBI A candidíase vulvovaginal é usualmente tratada com derivados imidazólicos tópicos ou sistêmicos. por espécies do gênero Candida. Uma variedade de fatores locais e sistêmicos predispõe a infecções fúngicas superficiais. Nos pacientes com candidíase cutaneomucosa. pústulas superficiais na glande e no sulco balanoprepucial. intensa coceira. associados a medidas que visam a melhorar a imunidade celular. que descreveremos melhor a seguir119-122. foliculite (infecção do folículo piloso. Enquanto uma resposta tipo Th1 com produção de IFN-γ e IL-2 está relacionada com a resistência à Candida. e em alguns casos. hipotireoidismo e anemia hemolítica autoimune125. intracellulare. deve-se utilizar antifúngicos tópicos e sistêmicos. apresenta-se nos primeiros dias de vida do recém-nascido. e suas mãos. Histoplasma capsulatum. entretanto. sulco interglúteo. com secreção de IL-4. vesículas. pápulas e pústulas (lesões de morfologias variadas que representam diferentes estágios de evolução. Cryptococcus neoformans.

C. traumatismos. Todavia. krusei.7%. prática de natação. A candidemia é observada particularmente entre pacientes hospitalizados por longos períodos que são expostos a antibióticos. albicans. paroníquias e candidíase mucocutânea crônica. que invade a unha sã ou associada a pacientes com lesões preexistentes na unha. tropicalis. quando bactérias estão associadas.28%.137. Em 2007.135.78%. 0. A invasão da unha pode ser distinguida da colonização do espaço subungueal. envelhecimento.6%. C. sendo muitas vezes considerada infecção secundária. a aparência física e o desempenho social. são parte integrante da estrutura sensorial da mão.2%. porém com diagnóstico confirmado para 247.59%. C. Entretanto. C. entre julho de 1996 e dezembro de 1999. cozinheiras. bem como a investigação dos fatores predisponentes. C. formas e estilos de vida são alguns dos fatores predisponentes a onicomicoses.2%. C.1% e pododáctilos com 42. sobretudo em pacientes que não removem as causas predisponentes. incluindo-se constrangimento constante. Enfermidades crônicas. 21. sendo considerada patógeno primário em onicólise de unhas das mãos. Profissão.9%. rugosa. espécies de Candida têm tido importância significativa. infecções micóticas não ungueais dos pés e das mãos. A onicomicose do pé pode causar dor e desconforto.61%.132. zeylanoides com 1. das quais C. C. nistatina e medicação antibacteriana. como componentes da extremidade dos dedos.138. krusei e C. andar e praticar esportes. dentre outras). tropicalis. E de acordo com a ocorrência de fungos leveduriformes (142 casos) dentre as espécies de Candida foram encontradas C.132. rugosa e uma mista de C. na Divisão de Dermatologia e Micologia EPM/ UNIFESP. algumas afecções cutâneas (psoríases). C. 6. Em quirodáctilos. tropicalis como agentes de candidíase não albicans como patógenos emergentes. Paraná. com 47. preocupação com a aparência e receio de situações íntimas134. particularmente em portadores de doença vascular periférica e síndrome de Cushing. 2. o exame laboratorial deve ser realizado seguindo todos os critérios de inclusão. E concluíram demonstrando um aumento de C. Souza et al. parapsilosis com 0.6%. tropicalis. C. dentre outros. e C. e C. 63.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 . parapsilosis. fatores genéticos. o tratamento é de alto custo e existe uma alta taxa de mortalidade140. 11 espécies do gênero Candida. terapias imunodepressivas. Martins et al. em comparação com as das mãos. 0.3%. observaram que. Miranda et al.. C. C. esta última correspondeu a 52% dos casos. C. tornando difícil permanecer em pé. dão bons resultados em intervalo de 2 a 6 meses102. A infecção pode também resultar em prejuízo significativo para a saúde geral. onde os organismos não afetam a queratina da unha. kefyr. num estudo epidemiológico e micológico no Hospital-Escola de São José do Rio Preto. Por vezes. albicans. perturbações circulatórias periféricas. para identificação do agente causador e seu adequado tratamento132. clima. afetou principalmente o leito ungueal e a matriz proximal. 14. rugosa. Alto custo devido ao longo tratamento e recidivas em função do insucesso terapêutico são outros fatores de dificuldade associados à onicomicose.3%. C. albicans originaram-se de acometimento distal lateral e distrofia total. albicans. obtendo 190 destas leveduras. As onicomicoses são difíceis de tratar por fatores intrínsecos da própria unha. A onicomicose pode ter consequências psicológicas importantes. C. empregadas. lavadeiras. lusitaniae. Dentre DST . O estudo mostrou uma predominância nas unhas das mãos do sexo feminino. coletaram materiais biológicos de diferentes regiões do corpo de pacientes do Laboratório de Micologia da Universidade Federal de Goiás. em 84% dos casos. O tratamento muitas vezes é moroso. Entre dermatófitos. 1. duchas comunitárias. C. outros filamentosos e leveduras. C.85%. guilliermondii. 7. em 2007131. 0. a unha dos pododáctilos correspondeu à área mais afetada. 14. A onicomicose por leveduras costuma estar associada a infecções cutâneas. Candida spp. com consequente limitação da destreza manual. Derivados imidazólicos. 9%. ansiedade.98%. 20%. a diferença entre infecção primária ou secundária não é completamente clara. em 2009136. A fungemia por Candida é geralmente difícil de diagnosticar. dentre outros achados em virilhas. C. depressão. Junto a isso. guilliermondii. 9. dentre elas. causando redução da autoestima e possivelmente afetando o potencial de trabalho. em estudo de onicomicoses por leveduras em Maringá. C. câncer. C. 0. imunodeficiências. 7%. e procedimentos invasivos múltiplos.141. Godoy-Martinez et al. glabrata. albicans com C. segun- do agente mais comum.. para a identificação das espécies do gênero Candida. albicans. Em 2005. durante o ano de 2003. A onicomicose pode exercer impacto adverso importante na qualidade de vida dos indivíduos afetados.5% cada. como atividades laborais que molham constantemente as unhas comprometidas. no melhor dos casos. salvo nas infecções por Candida133.. parapsilosis. 4.57%. parapsilosis foi mais prevalente em distrofia total e/ou área distal lateral. O estudo também demonstrou uma predominância em quirodáctilos com 42. 2.3% de espécies do gênero Candida.28%. guilliermondii. Cabe ao médico fazer a avaliação clínica adequada. Atualmente. 0. e C. stellatoidea.2% cada. parapsilosis.5%.Candidíase 31 (governantas. Candidíase hematogênica Existem várias evidências e trabalhos que sugerem que a infecção da corrente sanguínea por Candida é um grande problema na maioria dos hospitais em todo o mundo. parapsilosis e C. enquanto C. As unhas. O termo onicomicose está associado a infecção fúngica primária causada por patógenos. tropicalis. C. krusei e C. disfunção hormonal.6%. observaram um alto número de onicomicoses por leveduras. já que está presente na microbiota normal.28%. albicans.57%. é preciso um esquema de tratamento diferenciado. nutrição parenteral. e os dermatófitos são geralmente considerados patógenos primários neste caso. C. lusitaniae. C. 0.5% cada.9%. parapsilosis. tem-se observado muitas formas de infecções na unha não associadas a candidíases cutaneomucosas ou paroníquia129-132.139. guilliermondii. 3. C. C. É relevante ressaltar que a presença de Candida nem sempre está associada ao desenvolvimento de onicomicose. lusitaniae com 0. coletaram amostras de 588 pacientes com suspeita de onicomicose. uso de calçados apertados e de material sintético (principalmente em praticantes de esporte). a onicomicose envolve mais comumente as unhas dos dedos dos pés. 47%. C.52%. 13. e isto se resume a que nem todos os agentes causadores são sensíveis às mesmas drogas ou. parapsilosis e C. e as espécies encontradas foram C. 44. O estudo ainda mostrou a prevalência para o gênero feminino e para os quirodáctilos. são ditos como fatores de manutenção das onicomicoses131. 2.6%. 18. A perda da margem livre das unhas pode reduzir drasticamente a capacidade sensorial dos dedos. lipolytica. famata.

morfologia no meio corn meal e assimilação de carboidratos. dentre outras42. Lima et al. krusei e. krusei. frequentemente negativas em pacientes com infecções sistêmicas por leveduras. parapsilosis é responsável por candidemias não albicans mais frequentes em uso de cateteres e nutrição parenteral.145. C. parapsilosis e C. porém as infecções podem tomar diversas formas e localizações (septicemia. e HIV-positivo. to do local afetado pela Candida. um C.8%. definiu a presença de C. A razão para a emergência de espécies não albicans não está ainda completamente entendida. C. krusei. a febre é a mais comum. famata. uso de cateteres. pneumonia. albicans. 69. Diversos fatores condicionam o aparecimento dessas candidides. glabrata entre as espécies não albicans. culturas sanguíneas são. inconspicua. colonização do trato digestivo. um C. C. relataram um caso de paciente (18 anos de idade) do sexo masculino hospitalizado com leucemia linfoblástica aguda. dentre outros. um último. nos dois grupos estudados. encontraram C.2%. alimentação parenteral.. krusei e C. que com lavado broncoalveolar no meio Sabouraud. que são resistentes. A correta identificação da espécie e a prova de suscetibilidade para antifúngicos são informações necessárias no que se refere à provável sensibilidade no tratamento das candidemias144. C. miosites. Em 2006. alguns estudos têm reportado uma mudança na etiologia das candidemias. dubliniensis. HIV.9%) que no grupo-controle (50%). Semelhanças entre espécies podem não evidenciar tal fato. guilliermondii e C. Uma semana depois.6%. 5. são alguns dos fatores predisponentes a fungemia por espécies do gênero Candida141.5% e outras espécies (C. norvegensis. krusei é mencionado em todo o mundo. duas de C. dentre outras)140. artrite. na América do Sul observa-se predomínio de C. albicans e C. sete indivíduos (14%) apresentaram diferentes combinações de espécies configurando dupla colonização: dois deles portavam C. formação de biofilmes. albicans. um C. com um total de 1. O estudo ainda mostrou que os pacientes mais acometidos eram os com menos de 1 ano de vida e aqueles com mais de 60 anos. Já no grupo com HIV. terceiro e quinto quirodáctilos esquerdos) distrófica parcial com paroníquia crônica e já havia feito uso de fluconazol para tratamen- Candidides As candidíases alérgicas caracterizam-se por apresentarem lesões cutâneas do tipo vesiculosas. sphaerica) que juntas alcançaram 0. tais como a irritação do foco por medicação inadequada e a intradermorreação por candidina. C. glabrata. Enquanto a C.143. duas de C. Kalkanci et al. com raios X normais e febre nos primeiros dias no hospital. C.5%. tropicalis5. e passado 1 mês de tratamento o paciente veio a falecer por hemorragia intracraniana. Nos últimos 10 anos. transplantados. kefyr por métodos convencionais como testes de tubo germinativo. que possuem a sensibilidade reduzida. tropicalis está mais associada a câncer e pacientes neutropênicos. famata. tropicalis. A taxa de isolamento de Candida foi significantemente maior no grupo com HIV (76. albicans e C.32 BARBEDO & SGARBI as manifestações clínicas. blankii. relataram um caso de paciente do sexo feminino (41 anos). norvegensis com 0. neutropenia. duas de C. Rodrigues et al. em um estudo entre 1991 e 2003. quimioterapia para o câncer. enquanto uma cepa de C. guilliermondii.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 . osteomielites. residentes na região nordeste paulista. Em 2007. albicans foi resistente a todos os derivados azólicos testados (fluconazol. glabrata e C. inconspicua. C. No grupo-controle. meningites. C. todavia.. albicans e C.146-148. documentadas em diferentes países. Sandven et al.6% cada. glabrata. e uma de C. O isolamento de espécies do gênero Candida do sangue não é somente uma das dificuldades envolvidas no diagnóstico da infecção.7%. Enquanto a C. as cepas de Candida não albicans foram: três de C. parapsilosis. dubliniensis. A maioria das espécies de Candida é sensível a anfotericina B (associada ou não a 5-fluorocitosina). em 2005146. glabrata estão mais associadas à prévia exposição de azólicos140. encontradas sobretudo nos espaços interdigitais das mãos ou em outras partes do corpo. INFECÇÕES MISTAS Infecções mistas por espécies do gênero Candida são encontradas mais facilmente em indivíduos imunodeprimidos e hospitalizados. tropicalis. albicans. e C. os raios X e a tomografia computadorizada revelaram uma cavidade fúngica no pulmão direito. candidíases orais. C. sake e C. C. tropicalis e uma de C. cetoconazol e itraconazol). dois antifúngicos mais comuns no tratamento da infecção invasiva por Candida. 13. krusei e C. nas regiões onde são observadas as candidides. albicans e C. três indivíduos (7%) apresentaram dupla colonização. glabrata. parapsilosis. As cepas de Candida não albicans isoladas a partir da mucosa oral dos pacientes com HIV foram: duas cepas de C. Já no grupo-controle. uma de C. no qual se observaram células leveduriformes na cultura sanguínea.415 casos de candidemia.147 avaliaram as espécies de Candida e suas sensibilidades antifúngicas na mucosa orofaringeana em 52 portadores de HIV e 52 não portadores de HIV. peritonites. famata. Há variações geográficas significativas no padrão etiológico de infecções invasivas por Candida spp. 1. Tratamento com antibióticos de amplo espectro. endocardites. um C. Foram feitos testes de antifúngicos. tropicalis. o aumento das taxas de candidemia por C. que desaparecem com o tratamenDST . em 2008148. papulosas e/ou eczematoides estéreis. parapsilosis. albicans é ainda considerada a espécie mais comum causadora de candidemias. uma terapêutica com corticosteroides tópicos. Foram isoladas cerca de 79% de cepas C. uma de C. dubliniensis. O fluconazol também é ativo contra a maioria das espécies de leveduras. dubliniensis. Diversas espécies de Candida isoladas do sangue possuem um padrão de sensibilidade à anfotericina B e ao fluconazol. C. glabrata e C. mas algumas condições médicas podem possuir impacto no risco de se desenvolver a candidemia por estas espécies. pode ser associada102. fungemias. porém existem algumas exceções como os isolados de C. krusei e C. e primeiro. 6.142. A paciente apresentava onicomicose (primeiro e segundo quirodáctilos direitos. guilliermondii. albicans e C. lusitaniae. parapsilosis e C. inconspicua. dubliniensis. C. mas espécies bem mais facilmente distinguíveis podem ser encontradas em diferentes combinações em onicomicoses.8%. uma de C. enquanto um terceiro apresentou C. 0. na Noruega. A levedura foi identificada como C. kefyr. de dois deles foram isoladas cepas de C. Todas as cepas obtidas foram sensíveis a anfotericina B. Enquanto na América do Norte se nota o predomínio de C. C. e alguns de C. albicans e 21% de não albicans. preconiza-se a utilização de drogas antifúngicas para tratamento do foco primário (quando este é evidente) assim sendo. C. Nesses quadros.

J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 BIOFILMES Nosso conhecimento clássico de percepção de microrganismos como uma forma de vida unicelular está baseado em culturas simples e em seu modo de crescimento.155. a meningite por Candida é geralmente decorrência de contaminação de procedimento neurocirúrgico. o biofilme de C.82.158. hialinas e pseudo-hifas. O envolvimento ósseo é reconhecido por dor local. albicans produz mais biofilme que outras espécies de Candida. Quando espécies de Candida são recuperadas de isolados abdominais de DST . sobretudo em pacientes com longos tratamentos e ventilação artificial. visto que o tratamento deve ser instituído por período mais prolongado e eventualmente há necessidade de cirurgia para controle do processo5. albicans e C. COMPLICAÇÕES DA CANDIDÍASE Endocardite por Candida ocorre geralmente como complicações de pós-operatório de troca valvar.19. celulose). aderidos às superfícies e não agindo como um organismo livre. Kuhn et al. Em contraste. sendo poucas vezes documentada como complicação de candidemia. Raramente a endocardite é registrada como complicação isolada de candidemia em paciente não submetido à cirurgia cardíaca5. parapsilosis. dentre outros. observaram que C. O envolvimento do sistema nervoso central ocorre com grande frequência em prematuros que desenvolvem candidemia. pseudotropicalis e C. Sintomas incluem borramento visual. escotomas e dor bulbar. No exame microscópico direto de escamas ungueais das mãos. quando ocorre endoftalmite. albicans. Esta complicação parece ser mais frequente em crianças que em adultos. em cultura após crescimento. cateteres. e indução de superfícies expressas por genes de resistência. albicans possui uma diferença na morfologia do biofilme em contraste com outras espécies. particularmente C. febre e alterações radiológicas compatíveis com osteomielite. a investigação de meningite em caso de candidemia é necessária. Os mecanismos de resistência a agentes antimicrobianos por biofilmes ainda não são compreendidos. Possíveis mecanismos incluem a restrita penetração das drogas através da matriz. C. blastosporadas. A habilidade de formar biofilmes está intimamente associada à capacidade de causar infecções.151. parapsilosis. implantes. glabrata. manchas de Roth e uveíte. durante cirurgia ocular. particularmente as principais. em 2002154. Em biofilmes encontramos leveduras. Endoftalmites podem ocorrer em cerca de 10 a 30% dos casos. uso de antibióticos. Isso tem significado especial. O trabalho apontou que peculiaridades apresentadas por diferentes espécies de Candida justificam a necessidade de se identificar leveduras ao nível de espécies. o índice de mortalidade de peritonite é de aproximadamente de 25%. Apesar do avanço nos tratamentos. imunodeprimidos e em usuários de drogas ilícitas intravenosas. tem-se reportado que espécies não albicans. porém. albicans com C. Articulações também podem ser acometidas. pois biofilmes estão associados à resistência contra o sistema imune do hospedeiro e a antifúngicos149.153. são alguns exemplos de estruturas que podem ser colonizadas por biofilmes de Candida149. sendo esta variação na prevalência dependente das condições do hospedeiro (é mais rara em neutropênicos). C. Esses biofilmes são definidos como uma estrutura microbiana comunitária que adere a superfícies e fica revestida em uma matriz de material exopolissacarídico.Candidíase 33 to de candidíase oral.159. bem como determinar o perfil de sensibilidade aos antifúngicos. Ambas as espécies apresentaram resistência ao fluconazol e ao itraconazol. múltiplas hemorragias retinianas. Entretanto. posto que esses modelos de desenvolvimento são tradicionais e predominantes no estudo da fisiologia e patogênese microbiana em pesquisas de laboratório. Nesta população. dentre outros. desde microrganismos em suspensão que podem ser diluídos em células individuais e estudados em cultura líquida. Em adultos. variações fenotípicas resultantes de decréscimo do desenvolvimento ou limitações de nutrientes. Como consequência de candidemia. Outra sugestão é de que um pequeno número de células seria responsável pela resistência152. Isolados de C. com a finalidade de orientar uma melhor abordagem terapêutica e minimizar a exposição desses pacientes a condições de risco de uma infecção disseminada. acrílico. a terapia é difícil e a incidência de sequelas é alta.150. Todavia. nos quais a concentração de glicose é geralmente elevada152. Por outro lado. albicans). tropicalis e C. podem produzir uma quantidade significante de biofilme quando em presença de glicose. comparando os biofilmes de C. próteses em geral. e sob microscopia óptica. consistindo em uma camada basal de blastoconídios com uma densa matriz composta de exopolissacarídeos e hifas.156. parapsilosis. Peritonite secundária é uma condição clínica comum observada em centros cirúrgicos e unidades de tratamento intensivo. da espécie de Candida envolvida. Em casos de persistência e recorrência. tropicalis. tubos endotraqueais. pacientes com septicemia por Candida que evoluem a óbito apresentam lesões fúngicas no sistema nervoso central em até 20% dos casos5. comparados com C. bem como da presença ou não de oftalmologista na avaliação do paciente. Usuários de heroína também têm maior risco de apresentar candidemia com complicações osteoarticulares5. foram observadas células de leveduras arredondadas. parapsilosis possui menor volume e é composto exclusivamente de grupos de blastoconídios. muitos microrganismos em seus sítios naturais são encontrados no ecossistema. o índice de mortalidade pode aumentar para 50%. Candida pode infectar as estruturas oculares por disseminação hematogênica ou inoculação direta. substratos de germânio. poliestireno. Todas as estruturas oculares podem ser afetadas. O reconhecimento do envolvimento ocular em pacientes com candidemia é fundamental. possuem menor desenvolvimento de biofilme. Esta habilidade pode ser requerida quando em pacientes que recebem nutrição parenteral. segundo dados obtidos em séries de necropsia. .157. muitas vezes até 16 meses após o suposto episódio de fungemia. hifas verdadeiras e pseudo-hifas (em C. já que a proporção da formação de biofilmes em infecções em humanos é bem significante149. duas espécies de Candida foram identificadas como C. e dentaduras. o envolvimento osteoarticular é raro. mas pode surgir como complicação tardia. As anormalidades oftalmológicas são caracterizadas por lesões algodonosas na retina e no vítreo. A maioria das informações sobre a formação de biofilmes de Candida provém de experimentos com uma variedade de substratos (plástico. e pode ser considerada um importante fator de virulência. particularmente heroína. formando o que chamamos de biofilmes.

com margens irregulares e possível necrose. A relevância de um diagnóstico certeiro. e é difícil discernir se são as responsáveis pela pneumonia ou contaminantes. muitas espécies diagnosticadas como C. com menos frequência. não é mero detalhe micológico. Quando leveduras são isoladas. no sentido de reconhecer pacientes com infecção urinária alta ou baixa166. O tratamento é realizado por meses. mas também em relatos de coleções de culturas mantidas. albicans. incluindo neutropenia prolongada. Candidíase hepatoesplênica é uma forma incomum de infecção pelo gênero Candida. dados de 1. A disseminação do fungo no pulmão resulta em broncopneumonia aguda ou em diversos nódulos. krusei. pode levar a uma colonização de espécies de Candida em locais que normalmente não contenham essa população. incluída também como DST.6% (15). particularmente nos casos de pielonefrite adquirida por via hematogênica decorrente de candidíase sistêmica. e facilitar um acesso para a expressão de fatores de virulência levando à patogenicidade. não há consenso entre os autores sobre o valor de corte específico para a interpretação de culturas quantitativas de urina. pulmões e ossos.167. ao nível de espécie. Espécies de Candida são frequentemente isoladas de amostras de brônquios. 43. Pacientes infectados com Candida (por aspiração ou disseminação hematogênica) demonstram rápida evolução dos sintomas clínicos. Os autores concluíram que os pacientes com graves lesões no pâncreas. Indivíduos normais raramente apresentam candidúria. dor no tórax e taquipneia. em mais de 40% das peritonites são encontras espécies do gênero Candida em culturas oriundas de infecções cirúrgicas160. parapsilosis. desde a uma simples contaminação da coleta de urina até candidúria assintomática. que envolve primariamente o fígado e o baço e.165. tais como o avanço da medicina levando à sobrevida de pacientes. pacientes imunodeprimidos e de difícil tratamento devido à neutropenia coexistente nesta população. via biliar. Apesar do predomínio de C. apresentam manifestações clínicas e micromorfologias similares. sendo o diagnóstico definitivo baseado em histologia evidenciando a presença de leveduras no tecido pulmonar por biópsia ou autópsia. C. glabrata. depende da rota. podem causar ampla gama de danos ao paciente. pois situações novas propiciam a adaptação fúngica às condições do hospedeiro debilitado. glabrata. A incidência de pneumonia por Candida é variável. incluindo: C. febre.J bras Doenças Sex Transm 2010: 22(1): 22-38 como o crescimento de espécies do gênero Candida em culturas de urina coletadas por técnicas apropriadas. C. foram os mais propensos. eventualmente nos rins. secundário a hepatoesplenomegalia.161-163. da presença de outros patógenos e de aspirado gástrico. albicans foram reclassificadas como C. bola fúngica ureteropélvica ou candidíase disseminada com manifestação renal. a mortalidade pode ficar entre 60 e 70% quando não tratadas. com flexibilidade para adaptar-se em diferentes sítios anatômicos que. albicans. contagens inferiores podem ser encontradas em pacientes com infecção do trato urinário por Candida. CONCLUSÃO Candidíase é uma micose de importância em saúde pública. Em 2007. Este achado laboratorial traz dilemas em relação a sua interpretação. do sistema imune do hospedeiro. que serve como porta de entrada para as espécies de Candida. em que os rins funcionam como filtro e podem refletir contagens baixas na urina. tratados com fluconazol e intervenções cirúrgicas. e suas diferentes modalidades. Trata-se de infecção com curso crônico. tem havido um aumento na incidência de espécies de leveduras não albicans como agentes de infecção do trato urinário. tropicalis. acompanhada por aumento do volume abdominal.1%. já que é mais confirmado seu isolamento e sua identificação. Como qualquer infecção oportunista. C. que não necessariamente envolve a presença de sinais e/ou sintomas de infecção urinária. Infecções no pâncreas por Candida antes eram consideradas incomuns. pode ser definido DST .34 BARBEDO & SGARBI casos de peritonite. com características sutis ou maiores que as diferenciam. São diversas as espécies já reconhecidas como agentes causais. podendo agravarse nos casos em que o paciente volte a apresentar neutropenia. krusei. Trata-se de um evento muito frequente entre pacientes expostos a fatores de risco.9% (18). porém relatos foram reportados nos últimos anos. com penetração das leveduras nos túbulos proximais e consequente excreção na urina. Alguns autores sugerem que exista maior relação entre candidúria e infecção urinária quando a contagem de colônias na cultura de urina atinge valores da ordem de 1. O mais provável é que a candidíase hepatoesplênica se desenvolva como consequência da neutropenia prolongada e quebra da barreira mucosa do trato gastrointestinal.000 UFC/mL. 36. C. uso de cateteres vasculares. Esta síndrome ocorre habitualmente em pacientes em tratamento intensivo para leucemia aguda. rins.000 a 10.295 autópsias de dois hospitais (oncologia) em Baltimore mostraram incidência de 2. A incidência estimada de candidíase hepatoesplênica em pacientes com leucemia aguda é em média de 5%. Há formação de abscessos em fígado e baço. tropicalis. sendo comum a ocorrência de anorexia e vômitos. mucosite e administração de antibióticos de amplo espectro. visto que pode corresponder. A disseminação hematogênica oriunda da pneumonia por Candida pode resultar em múltiplos nódulos com colônias de leveduras ao redor de bolsas de sangue164. há formação de microabscessos no córtex renal. observaram 41 (12. O termo candidúria. Entretanto.1% (7) e C. Uma questão importante: Surgem cada vez mais espécies emergentes em decorrência do oportunismo ou são as condições de aprimoramento diagnóstico decorrentes de pesquisas que favorecem um melhor panorama de identificação? Acreditamos que ambas as hipóteses sejam verdadeiras e simultâneas. pois dependendo das condições .4% (1). Alguns fatores de risco têm sido associados à candidíase hepatoesplênica. As seguintes espécies foram encontradas: C. embora a mais bem estudada seja a C. C. Esta síndrome se manifesta pelo surgimento de febre após melhora da neutropenia. Havendo envolvimento renal como complicação de fungúria. A prática sexual. C. cistite ou pielonefrite. particularmente pacientes em unidades de terapia intensiva. sendo que até 20% dos pacientes hospitalizados podem apresentar candidúria ao longo de sua internação.2%) casos provocados pelo gênero Candida. Chakrabarti et al. 17. em uma investigação entre janeiro de 2000 a maio de 2003 (Índia) com 335 pacientes com pancreatite aguda. candidíase renal primária. 2. dependendo de condições predisponentes do hospedeiro. As diferentes espécies. tais como tosse. Portanto. ou seja. guilliermondii. sendo o resultado terapêutico geralmente reservado5. dubliniensis. albicans. lusitaniae e C.

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