Rafael MARCHESAN TAUIL

OS PRIMEIROS TRABALHOS SOBRE A QUESTÃO RACIAL NA CADEIRA I DE SOCIOLOGIA USPIANA: FLORESTAN FERNANDES, OCTAVIO IANNI E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO.

Trabalho apresentado à disciplina Pesquisas semestre de Seminário ao de 1° na

referente de

2011

Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

São Paulo, 2011

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO...........................................................................2 O ESBOÇO DE UMA INTRODUÇÃO...........................................3 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA.................................................17 BIBLIOGRAFIA A SER CONSULTADA.....................................23

mas sim pela centralidade que esta questão ocupará nesta dissertação e nas discussões sobre metodologia que serão feitas acerca dos próprios autores que serão analisados neste trabalho.2 APRESENTAÇÃO Este trabalho tem por finalidade compor o texto final que será utilizado como introdução na dissertação de mestrado que será escrita como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de mestre pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Nossa preocupação também se refere a que tipo de metodologia será utilizada na versão definitiva do trabalho e de que modo ela será exposta aqui uma vez que buscaremos não utilizar o formato de projeto apresentado inicialmente para o ingresso no programa já citado anteriormente. Desta forma nossas principais preocupações serão referentes ao conteúdo que teremos que expor em um trabalho que ainda se encontra em fase de elaboração. tentando demonstrar qual é o seu núcleo principal. Ainda que se trate de um esboço. mas que é também de grande importância. pelas professoras . pois buscaremos conferir certa importância a esta questão não somente pelas regras e normas requeridas pelo trabalho acadêmico.caso o esboço de apenas um capítulo fosse escrito – não conseguiríamos demonstrar a evolução do trabalho como um todo. Deste modo a intenção é a demonstração de um panorama geral de que mudanças ocorreram do projeto inicial até o ponto atual através das experiências vivenciadas nas aulas referentes à disciplina de Seminários de Pesquisa e através da arguição acerca deste trabalho pela professora Élide Rugai Bastos. apenas alguns dos aspectos do trabalho completo seriam tratados. quais são as questões adjacentes e que partes compõe apenas uma contextualização sumária que estará presente sem destaque. Optou-se pela escrita de um esboço da introdução. a preocupação de que estas duas esferas não se fundão e tornem o entendimento do trabalho complicado mas este é um ponto no qual prestaremos a devida atenção uma vez que uma confusão é possível se não forem tomados os devidos cuidados. pois do contrário . buscaremos trabalhar com certa lógica que possa nos auxiliar posteriormente na confecção da versão definitiva desta introdução. Teremos. claro. Esta preocupação se dá.

que era um estudo sobre os aspectos referentes às questões raciais trabalhadas pelos autores Florestan Fernandes. econômicos e sociais nos quais estavam inseridos – contextos estes que abordavam um largo espaço de tempo. o recorte que fizemos tinha a proposição do estudo de tudo aquilo que fora escrito pelos autores entre 1950 e 1972 – nossa intenção após alguns meses de reflexão e estudo é bem diferente. mas com o passar de algum tempo e no contato com uma realidade diferente – a da própria academia no nível em que nos encontramos no presente. suas influências e os contextos históricos. lógica e que possa se valer de uma condição de estudo confiável e valioso. na qual percebemos o quão importante é o aprofundamento em determinadas questões e o quão difícil é chegar a alguma conclusão diferente daquilo tudo que foi escrito. mesmo porque a própria pesquisa nos demonstra aquilo que não somos capazes de fazer. Nossa ambição neste momento é bem menor. de se aprofundar em determinados temas ou de desatar nós referentes a importantes questões do pensamento intelectual brasileiro tenham diminuído. Valioso não do ponto de vista de uma grande teoria. mas que tenha de alguma maneira um mínimo de contribuição ao campo de trabalho no qual estamos inseridos . Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso.percebemos que devemos nos limitar a recortes de objetos que sejam capazes de uma apreensão completa. Gabriela Nunes Ferreira e pelos demais colegas participantes deste mesmo programa. e não aquilo que somos capazes de alguma maneira. ou ainda que nem diferente do que foi produzido. suas interpretações. seus pressupostos teóricos. O ESBOÇO DE UMA INTRODUÇÃO Diferentemente do projeto inicial apresentado à comissão avaliadora do processo de seleção 2010 do programa de mestrado desta Universidade e à disciplina de Seminários de Pesquisa na mesma Universidade. suas perspectivas. mas sim de uma relevância com relação ao comprometimento do estudante com relação a tudo aquilo que ele poderia ter buscado. não que a vontade de investigar longos períodos.3 Maria Fernandes Lombardi. à toda metodologia que . políticos.

o universo a ser estudado está bastante reduzido. os primeiros trabalhos acerca da questão racial desenvolvidos por Florestan Fernandes. por fim. e estruturado com maior eloquência e inteligibilidade. Desta forma a intenção principal deste trabalho a partir de agora é compreender de que forma se deu a construção de uma pequena parte dos trabalhos que foram desenvolvidos pela Cadeira I de Sociologia Uspiana. demonstrar que o que estamos trazendo à tona é uma nova contribuição acerca do que já foi escrito a este respeito. Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. As Metamorfoses do Escravo (1962) escrito por Octavio Ianni como tese de doutoramento na mesma universidade e Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional (1962) escrito por Fernando Henrique Cardoso também como tese de doutoramento àquela universidade. Mais adiante nos utilizaremos de algumas fontes que poderão nos dar embasamento sobre isto que estamos falando. como resultado de uma pesquisa encomendada pela Unesco e pela revista Anhembi. demonstraremos através de diversos debates que se estabelecem no campo acadêmico da atualidade quais são as controvérsias e as semelhanças nos estudos desenvolvidos acerca do tema que estamos trazendo. A análise se dará em torno de quatro obras principais: Brancos e Negros em São Paulo (1955) escrito por Florestan Fernandes e Roger Bastide.4 este pudesse fazer uso e. de toda a seriedade com que deveria ter trabalhado. por que os autores escreveram sobre este tema. qual foi o contexto no qual foram escritos. Tentaremos entender diversos aspectos que nos levem a compreender de que modo se deram estes estudos. Cor e Mobilidade Social em Florianópolis (1960) escrito por Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Como se percebe. Nestas primeiras linha o intuito é de contextualizar aquilo que vem sendo . nos dá a ideia de que será melhor sistematizado. Assim se deu a mudança do objeto no qual trabalharemos daqui para frente. Isto porque a questão não se resume às quatro obras evidentemente. mais especificamente. Mas este é justamente o nosso desafio. Num primeiro momento parece visível que já temos a maioria das respostas para estas questões uma vez que muito já foi escrito sobre estes autores e sobre a Cadeira I de Sociologia Uspiana. como dissertação de mestrado dos dois alunos na Universidade de São Paulo. pelo contrário. mas isto não faz com que o trabalho perca importância. por que abordaram a questão deste modo etc.

A preocupação do autor neste parágrafo é de que modo se dão estas análises. 232) Deste modo. desde história das ideias que não passava de exposição monográfica das concepções de um autor sem a menor inquietação sobre a natureza da empreitada teórica e dos processos histórico-sociais dos quais – pensamento em pauta e forma de abordá-lo – são momento e expressão. inúmeros trabalhos sobre o pensamento político e social brasileiro foram e continuam a ser escritos nas Ciências Sociais brasileiras. Para se entender um conjunto de obras como este. P.” (BRANDÃO. muita coisa menor foi aí escrita. podemos incorrer em erros de interpretação e explicação. ainda que os tropeços sejam previstos ao longo de todo o caminho que será percorrido. Como ressalta Brandão no trecho acima. Isso sem falar nas tradicionais “explicações” de uma obra pela origem social do autor e nas moderníssimas reduções do conteúdo e da forma da produção intelectual às estratégias institucionais ou de ascensão profissional ou social das coteries. 2005. de resolver o problema da qualidade e da capacidade cognitiva e propositiva de uma teoria pela enésima remissão ao grau de institucionalidade da disciplina ou província acadêmica na qual ela surge. se nos escapam às mãos. Diversos serão os pontos abordados neste trabalho. até a pretensão de erigir a sociologia da vida intelectual ou a das instituições acadêmicas em sucedâneo da sociologia do conhecimento.5 trabalhado neste primeiro ano de estudo em toda a extensão da obra que se objetiva trabalhar. É justamente deste tipo de armadilha que tentaremos fugir. temos de nos ater a pequenos detalhes que. Ele coloca que são desde descrições superficiais sobre obras e autores sem nenhuma inquietação . O texto a seguir nos dá uma dimensão do cuidado que teremos que tomar para não incorrer nos erros descritos abaixo por Gildo Marçal Brandão: “Como em todo lugar. e de que modo se dá uma parte da formação de uma linha de pesquisa universitária pioneira como foi a “cadeira” qual estamos nos referindo. sabemos de antemão como deve se dar nossa tarefa.

Não podemos também dizer que seu interesse pelas questões sociais ou pela causa de determinadas minorias tenham se dado por conta de suas origens pobres. por exemplo. em que circunstâncias. ter influenciado o pensamento destes estudiosos. os lugares que ocupavam na estrutura social da época. em que contexto se deram. do início da carreira de Florestan Fernandes e fazer uma análise de sua metodologia funcionalista simplesmente levando em consideração os paradigmas metodológicos positivistas que o influenciaram. uma vez que esta . através de que atores. Da mesma forma. de que teorias e de que paradigmas científicos. Estamos tratando aqui de uma pesquisa acerca de parte dos primeiros trabalhos sobre a questão racial que foram desenvolvidos na Cadeira I de Sociologia Uspiana como já foi dito anteriormente. Isto não quer dizer que estes aspectos não possam nos dar pistas importantes acerca das obras e trajetórias do autor. O trabalho que desenvolveremos buscará como se deram estas influências. Sendo assim será de grande importância uma pesquisa que possa relacionar todo tipo de elemento que possa ser considerado importante nesta trajetória. Este é um detalhe importante a ser ressaltado uma vez que o estudo dos pensamentos intelectuais e suas correntes não são tarefas simples a ser desenvolvidas. Sendo assim. Como já dito anteriormente o trabalho que está sendo desenvolvido não trata especificamente do início da carreira individual dos três autores citados anteriormente. até textos que procuram as respostas sobre as obras de um determinado autor levando em consideração apenas aspectos como suas origens sociais. o trabalho busca mais dar conta de analisar uma linha de pensamento que vinha se formando entre as décadas de 50 e 60 na cidade de São Paulo do que as ideias particulares de cada ator individual. nem tampouco enxergar sua perspectiva a respeito das mudanças sociais acreditando que a leitura e estudo de Mannheim simplesmente o tenham levado a isto. não podemos fazê-lo com as obras de Ianni e Fernando Henrique Cardoso acerca das questões do desenvolvimento nacional tão presentes em suas obras já em meados da década de 50. suas condições econômicas e posições políticas. mas acreditar que isto por si só nos daria respostas consistentes é no mínimo enxergar a questão fazendo uso de apenas uma percentagem da visão.6 sobre o teor mais profundo destes. O que é possível e se espera fazer neste trabalho é tentar traçar um panorama geral daquilo que possa de alguma maneira. Não podemos tratar.

F. Florestan Fernandes e a sociologia como crítica dos processos sociais. pelos três autores tratados neste texto. O autor utilizou como recurso uma busca textual com o nome do autor na plataforma lattes de currículos acadêmicos. e estão devidamente documentadas.1998). desenvolvimento e crise na América Latina: para confronto crítico das contribuições de Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes. não com intenção de compreender a questão racial pós-abolição ou com vistas a Na versão final da dissertação será apresentado um levantamento de todas as obras que foram escritas. Tese de Doutorado. de Ernesto Renan Melo de Souza Freitas. por exemplo: A produção sociológica de Florestan Fernandes e a problemática educacional: uma leitura. MARIOSA. apresentado no XXVI Encontro Nacional de Economia (ANPEC) de 1998 em Vitória – ES. Nossa intenção é compreender de que maneira se deram os interesses de Florestan Fernandes. 1 . de Alberto Oliva (Tese de doutoramento pela UFRJ – 1986). especificamente.7 tarefa já foi desenvolvida em diversos outros trabalhos por outros estudiosos destes mesmos autores. entre outros. Nos deteremos. Deste modo daremos melhor embasamento acerca das argumentações sobre outros trabalhos aos quais estamos nos referindo. de Debora Mazza (Tese de doutoramento pela UNICAMP .1 Podemos citar teses acerca de Florestan Fernandes. Nossa pesquisa também não se forma a partir de uma perspectiva comparativa como é o caso de obras e trabalhos como Dependência. uma linha de pensamento que começou a se delinear e se fortalecer a partir de 1954 quando Florestan Fernandes assumiu interinamente a cátedra de Sociologia na FFCL-USP no lugar de Roger Bastide. Diversos trabalhos já foram escritos sobre a questão racial em Florestan Fernandes. Da mesma maneira ocorre com Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. outros tantos em Octavio Ianni e em número um pouco menor com relação a Fernando Henrique Cardoso que permaneceu por um tempo menor no tratamento deste tema em seus estudos. D. A Sociologia de Florestan Fernandes. Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso pelos temas que fizeram parte do início desta escola. Empirismo na Sociologia. aos primeiros trabalhos dos três autores. Parte deste levantamento já foi apresentado por Duarcides Ferreira Mariosa em sua tese de doutoramento sobre Florestan Fernandes defendida em 2007. Nossa tentativa é tentar compreender de que modo se criou e funcionou parte daquilo que ficou conhecido como Cadeira I de Sociologia Upiana. Avaliação Crítica dos Fundamentos Filosóficos da Sociologia Científica de Florestan Fernandes. (Tese de doutoramento pela PUC – SP – 1992). UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas – São Paulo. de Carlos Aquedo Nagel Paiva.

” Estudos de Sociologia. nossa análise levará em conta diversos aspectos. através de uma análise bem estruturada como a que se segue. 1997. tendo Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso como parte de seus principais participantes. Diversos foram os estudos desenvolvidos por estes três pensadores através de suas carreiras na academia.8 compreender de que modo se deu a desintegração do sistema escravocrata no Brasil e sua transição para a ordem capitalista. nº3. Como já dissemos anteriormente não poderemos nos apegar a questões particulares para tentativa de explicação de um todo complexo e cheio de nuances. mas tentaremos apreender o maior número de fatores que possam nos fazer capazes de entender de que modo se deu este “estilo de pensamento” inaugurado por Fernandes e seguido por seus dois alunos até determinado período de tempo. como foi o caso do Seminário do Capital liderado por José Arthur Giannoti. De qualquer modo não podemos negar a influência mútua compartilhada pelos três autores durante estes quase sete anos de trabalho sobre a questão racial. traçar um esboço e entender melhor de que maneira se deram aqueles estudos e por que motivos se chegaram a determinadas conclusões. Ano 2. A discussão teórico-metodológica nos marxistas acadêmicos do grupo d` “O Capital. É certo obviamente que não havia apenas uma pauta nas Ciências Sociais daquele momento. mas acreditamos possível.71-86. Luiz Fernando. . Neste curto espaço de tempo diferentes interpretações são feitas pelos três intelectuais mesmo sendo os três da mesma “escola de pensamento”. p.2 O trabalho passará também por questões a respeito dos paradigmas científicos que imperavam naquele momento e pela pauta da agenda que conduzia de certa maneira a trajetória das Ciências Sociais brasileiras naquele momento. A primeira obra escrita por Bastide e Fernandes tem uma abordagem diferente das utilizadas por Fernando Henrique e Ianni em suas obras referentes à tese de dissertação e mestrado. No caso de Florestan Fernandes a trajetória vai desde importantes etnografias desenvolvidas sobre a comunidade indígena dos Tupinambás até a “Sociologia 2 SILVA. Araraquara. mas sim de que maneira estas questões foram tratadas pelos três autores. desde a formação do projeto UNESCO e seus desdobramentos à confecção dos primeiros trabalhos sobre a questão racial desenvolvidos pelos três pensadores. Sendo assim. passando pelos tipos de estudos que influenciaram os três autores no que se refere a este princípio de trabalho intelectual. suas principais correntes de pensamento e até por grupos de estudos aos quais pertenceram.

3 No caso de Ianni e Cardoso as trajetórias se iniciam com questões relacionadas aos dilemas raciais e desenvolvimentistas no Brasil e culminam em análises sobre a globalização e à teoria da dependência respectivamente. estava um país onde os problemas raciais eram bastante problemáticos. pois através destas podemos olhar para o passado dos autores e tentar perceber de que maneira se deu esta trajetória de mudança. cultura e tradições religiosas. São Paulo: UNESP. Não só do ponto de vista dos principais aspectos abordados acerca da abolição da escravatura. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Maria Ângela (org. Esperamos através deste trabalho. Os primeiros trabalhos sobre a questão racial desenvolvidos por Ianni e Cardoso se distanciam largamente daquilo que vinha se desenvolvendo até então. Eliane Veras.). estava uma nação onde não só o problema racial tinha presença marcante. mas a intenção do nosso trabalho passa longe de fazer uma análise de todo este percurso e sim analisar como se deu o início de tudo isto. Ensaios sobre Florestan Fernandes.9 militante” como a denominam alguns autores das Ciências Sociais no Brasil. São Paulo: Cortez: D'INCAO. Por trás dos modelos de relação inter-raciais mostrados em Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre que fortaleciam o mito da democracia racial no Brasil. XIX a partir de uma ótica diferente. mas com relação à própria metodologia que vinha sendo trabalhada. mas também o problema socioeconômico sob o manto de problemas referentes à raça. que leve em consideração outras questões que não se refiram apenas às diferenças de cor. Ocorre que a “Sociologia da questão racial” naquele momento começava a passar por um tipo de transformação. A preocupação de Florestan 3 SOARES. transformação da qual Florestan e seus alunos eram causa e consequência. Desta forma o que parecia uma pesquisa com resultados já presumivelmente positivos se tornou um novo desafio para os estudiosos brasileiros que se debruçavam sobre a questão. Diferentemente de uma nação onde as relações harmoniosas entre indivíduos de diferentes raças estivessem presentes. As análises encomendadas pela UNESCO nas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil não tiveram o resultado esperado. compreender melhor os motivos que levaram os intérpretes da questão racial a adotar uma metodologia de estudo que busca compreender os conflitos e desdobramentos da questão racial provenientes das transformações ocorridas no final do séc. . O saber militante. (1997) Florestan Fernandes: o militante solitário. O conhecimento de parte destas obras é importante.

O tema do desenvolvimentismo tão presente naquele momento e já sendo tratado por Florestan começa a aparecer em Ianni e Cardoso ainda nas primeiras obras sobre a questão racial. Este grupo influenciou enormemente o resultado das pesquisas protagonizadas por estes intelectuais. 1955 4 . três anos antes da dissertação escrita a quatro mãos por Ianni e Cardoso já A obra acima se refere à BASTIDE. Soma-se a isto o fato destes dois sociólogos. 3°. no momento de estudo e dissertação de suas pesquisas. 1971. Desta forma se dará o estudo.4 Nos ajudará a compreender as diferenças presentes entre as obras Cor e Mobilidade Social em Florianópolis e Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional e As Metamorfoses do Escravo respectivamente. Brancos e negros em São Paulo. FERNANDES. O seminário do Capital esteve entre a primeira obra citada acima e as duas últimas o que faz com que a primeira obra tenha abordagens metodológicas diferentes das segundas. Este recorte faz parte de um momento delicado do ponto de vista das mudanças que foram ocorrendo na produção bibliográfica destes autores. trazendo novos elementos para a mudança paradigmática daquele tipo de análise. na análise de uma trajetória que aborda a primeira obra de Fernandes Brancos e Negros em São Paulo e as três últimas já citadas acima de Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. de uma perspectiva que pudesse livrar o estudo de uma visão atomizada e unicelular. Na edição da Revista Brasiliense n° 12 de 1957. 1º Ed. Florestan. o que fez com que as análises pudessem levar em consideração o problema da questão racial como um todo.10 Fernandes com a seriedade da pesquisa e com seu rigor metodológico em busca de uma Sociologia capaz de resolver os problemas práticos presentes na sociedade se une ao esforço de Octavio Ianni e Fernando Henrique. em uma busca feita em periódicos das décadas de 50 à 70 já encontramos obras de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni tratando da questão referente ao desenvolvimento nacional. Além de podermos perceber estas questões nas obras sobre as questões raciais. grupo de estudos sobre a obra de Marx liderado por José Arthur Giannoti. São Paulo: Companhia Editora Nacional. estarem vinculados ao Seminário do Capital.ed. 310 p. Roger. Este grupo de estudos sobre o Capital nos ajuda também a entender de que maneira se deu uma mudança metodológica nas obras de Ianni e Cardoso com relação à primeira obra desenvolvida por Florestan Fernandes após a encomenda da UNESCO. como extensão dos primeiros trabalhos desenvolvidos sob encomenda da UNESCO.

5 Através deste material temos claros indícios das mudanças que ocorriam nos estudos de Florestan e seus dois alunos. Civilização Brasileira e Sociologia. Educação e desenvolvimento Econômico. em 1957 escreve para o n° 14 da Revista Brasiliense Aspectos do Nacionalismo Brasileiro. na Revista Brasiliense os números de 1 à 55 (coleção completa) referentes ao período de setembro de 1955 à dezembro de 1963 e na Revista Civilização Brasileira os números de 1 à 22 (coleção completa) referentes ao período de março de 1965 à 1968. mas já no ano de 1958 outro artigo se destaca. mas já nos dá pistas de que linhas vinham sendo adotadas e que. em 1960 para o n° 30 do mesmo periódico contribui com o texto Fatores Humanos para a Industrialização no Brasil Este é um dos elementos que diferenciam estes primeiros estudos sobre raça. mas se faz necessária esta exposição para que fique claro o caminho que se vai percorrer para compreender como se deu o início desta linha de pensamento. Outra questão que é importante deixar clara é que procuraremos neste trabalho nos manter o mais afastado possível do objeto – as obras a serem estudadas – de modo a não tentar refazer o estudo que estes autores já fizeram. posteriormente. Mais uma vez ressaltamos que temos consciência de que estas questões não são novas no estudo dos três intelectuais. As questões serão melhor discutidas e mais bem elaboradas nos capítulos que desenvolveremos sobre estas questões. 5 . esta é uma das perspectivas que já aparecem neste conjunto de obras. Os arquivos foram consultados no CEDEM e na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP. Não se pode negar que entre a questão do escravo e da abolição estivesse presente a questão referente ao desenvolvimento do país. na mesma revista de n°17. Com Ianni não é diferente. Com relação à Revista Sociologia já foram consultados os anos de 1939 à 1946 mas a consulta ainda não foi concluída completamente. também nos debruçamos sobre as Revistas Anhembi. também de Fernando Henrique. mas falaremos mais sobre estas pesquisas a frente quando formos falar um pouco mais sobre a metodologia adotada por estes três autores.11 encontramos um artigo de Fernando Henrique Cardoso denominado Desenvolvimento econômico e Nacionalismo. Além do periódico acima pesquisado. iriam resultar em análises sobre a questão do desenvolvimento econômico e social do Brasil. por Na Revista Anhembi foram pesquisados os números de 1 à 144 referentes ao período de dezembro de 1950 à novembro de 1962. o problema do homem negro na nova sociedade de classes que estava se formando. Ao ler Florestan Fernandes. Não que isto fosse o único fator preponderante naquele momento.

como a abolição. Em minhas pesquisas e estudos isto ocorreu mais de uma vez. diferentes discussões deverão ser feitas para que seja possível a reconstrução deste caminho. Aproveitaremos o ensejo anterior para introduzir alguns pontos principais acerca dos recursos que serão utilizados para a realização deste trabalho e inferir desde já que discussões temos a intensão de desenvolver ao longo desta dissertação. Uma vez que o trabalho está orientado por uma reinterpretação acerca dos caminhos traçados por determinada escola de pensamento. A tentativa é a de não se deixar envolver com as questões durante as leituras uma vez que não faria sentido uma reavaliação deste fato em um trabalho como este que estuda uma trajetória intelectual e não um fato histórico. Acreditamos que este seja um deslize comum ao tratar de autores como os que estamos tratando. qual seja o desenvolvimento das Ciências Sociais no Brasil. Muito embora seja importante entender de que maneira se deram estas transformações no Brasil – e isto será feito – o entendimento destas será procurado apenas como recurso metodológico para que se possa ver de que modo os fatos ocorreram e por que prismas foram analisados pelos três intelectuais. e. A vida de Ianni ficou um pouco mais restrita à academia. Neste caso. Desde décadas anteriores . influenciado por suas perspectivas. Um por vir de família pobre e se tornar uma das maiores referências nas Ciências Sociais brasileiras além de sua tardia atuação política. no caso de Fernando Henrique. O objetivo é especificamente entender de que modo trataram a questão racial e não tentar entender esta questão em si. por sua trajetória como figura pública na política brasileira e Presidente do Brasil durante dois mandatos. portanto nos trabalhos escritos sobre ele os detalhes referentes aos outros feitos além da vida intelectual não são tão destacados como o são no caso dos dois primeiros autores. Não poderá ser levada em consideração apenas a trajetória da escola de Sociologia uspiana uma vez que seus pressupostos e elementos principais estão inseridos em um contexto maior. é tentador tentar tirar nossas próprias conclusões a respeito do modo como se deu a questão da abolição. ainda que cada interpretação enxergue a questão de uma determinada maneira. principalmente a vida pessoal de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso nos dariam muito que falar.12 exemplo. Também teremos a cautela de não escrever o trabalho dando foco mais na vida pessoal destes autores do que em suas próprias obras e trajetórias intelectuais.

Nina Rodrigues além de outros. mas um breve retorno a estes cânones do Pensamento Político Social Brasileiro é necessário para uma breve contextualização acerca do que eram as Ciências Sociais em Finais de XIX e início de XX. Algumas discussões também serão desenvolvidas acerca de obras que estavam sendo produzidas durante o mesmo período em que trabalhavam Florestan e seus dois alunos. Sérgio Buarque de Holanda. AZEVEDO. São Paulo. e o que eram as Ciências Sociais em meados do XX. Gilberto Freyre. Deste modo um breve retorno a estes modos de pensar serão necessários. Editora Anhembi. Thales (1955) As elites de cor: um estudo de ascensão social. Não é possível. Caio Prado Jr. Oracy (1955) “Relações raciais no município de Itapetininga” In. UNESCO. Nestor Duarte. NOGUEIRA. São Paulo. Oliveira Vianna. mas de modo a não deixar de lado algo que de alguma maneira tenha contribuído para o pensamento que se . por exemplo. São Paulo. Rio de Janeiro.13 diversas reflexões sobre o Brasil já eram desenvolvidos por importantes autores. por exemplo. Ruy Barbosa. tais quais Sílvio Romero. Do mesmo modo não se pode fazer uma avaliação a respeito das ideias desenvolvimentistas pelos três autores sem fazer um breve regresso às ideias acerca da unidade e desenvolvimento nacional presentes em Alberto Torres e Oliveira Vianna. WAGLEY et alii (1952) Race and class in rural Brazil. Joaquim Nabuco.. René (1956) Religião e relações raciais. Este é o caso. Não teremos. UNESCO.: FERNANDES & BASTIDE (1955) Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. Alberto Torres. Luiz de Aguiar (1953) O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança. é claro. Paris. RIBEIRO. Ministério da Educação e Cultura. Thales (1953) Les élites de couleur dans une ville brésilienne Paris. COSTA PINTO. Isto porque a explicação referente aos períodos aos quais estamos nos debruçando só será possível através de um trabalho de regressão àquilo que se passou neste campo intelectual durante fins do século XIX e início do século XX. Azevedo Amaral. AZEVEDO. Companhia Editora Nacional. grande espaço para estas discussões por conta do formato do trabalho a ser desenvolvido. Companhia Editora Nacional. Deste modo algumas discussões tem que ser estabelecidas ainda que de maneira sumária. compreender o pensamento de Florestan Fernandes sem saber qual era o pensamento de Gilberto Freyre durante a escrita de Casa Grande & Senzala e Sobrados e Mocambos. dos demais resultados provenientes das pesquisas acerca das questões raciais encomendadas pela UNESCO entre as décadas de 40 e 50 do século XX. Raymundo Faoro. Diversos trabalhos foram produzidos por conta desta pesquisa.

um dos primeiros participantes brasileiros naquilo que viria a ser o projeto UNESCO no Brasil. Desta forma não só o conceito de raça passava por uma grande transformação naquele momento. além disto. 1998 P. contaremos com alguns documentos primordiais da UNESCO escritos logo após o final da Segunda Guerra Mundial no ano de 1946. Como um braço da ONU. As contribuições de Luis Aguiar Costa Pinto. Naquele momento sentíamos também o impacto das transformações que vinham ocorrendo no campo científico. Acerca também dos detalhes a serem utilizados no trabalho. são de grande importância visto que se diferenciam em alguns pontos das obras de Florestan e seus alunos.” (MAIO. por exemplo. Esta é uma discussão que deve ser levada em consideração ainda que em segundo plano para que se possa sistematizar e entender o que ocorria no campo das Ciências Sociais no Brasil. “O Brasil atraiu a atenção da Unesco. Uma carta contendo uma discussão entre Oracy Nogueira e Florestan Fernandes. 19) . este impacto se fez sentir de maneira mais brusca a partir do momento que o Brasil foi escolhido como “laboratório de análises” para as pesquisas acerca das relações raciais da UNESCO. encontrada em uma edição da Revista Anhembi não foi encontrada em nenhum trabalho pesquisado até o momento e é também deste tipo de especificidade que procuraremos nos aproveitar para conseguir traçar um roteiro daquele momento de produção acadêmica. Apesar de não ser o foco do trabalho. Da mesma maneira a pesquisa desenvolvida por Oracy Nogueira no município de Itapetininga e até algumas querelas entre Nogueira e Fernandes a respeito de sob que liderança estavam sendo desenvolvidos os trabalhos serão levadas em consideração. Embasada no começo do século pelos paradigmas do positivismo a ciência do pré Segunda Guerra havia permitido que fenômenos como o nazismo viessem à tona. mas também a ciência se transformava. e de certa maneira. no mundo.14 formava naquela época. que o via como país onde prevaleciam relações raciais com reduzida presença de tensões. estes documentos apresentam riquezas de detalhes acerca das discussões que se travavam sobre o conceito de raça no mundo. a UNESCO estava incumbida de desenvolver projetos que pudessem demonstrar ao mundo que o conceito de raça que levava em consideração a “raça negra” como “raça inferior” estava completamente desatualizado e que esta questão deveria passar a ser tratada de outras maneiras.

Desta maneira pretendemos conduzir o trabalho. Não será possível.The Race Concept. Results of an Inquiry. Julian 1946 UNESCO _ its purpose and its philosophy.The Race Concept. Sendo assim cabe.7onde são também demonstrados os primeiros rascunhos acerca desta declaração e onde o nome de Luis Aguiar de Costa Pinto já estava presente. O trabalho de Florestan Fernandes foi profundamente impactado por estas questões uma vez que um de seus primeiros trabalhos sobre esta temática foram solicitados pela própria agência que buscava estas mudanças de visão. As mudanças de paradigmas citadas acima alteraram o modo qual a questão racial era tratada no Brasil. Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Results of an Inquiry. apenas para exemplificar de que modo serão sistematizadas estas pesquisas. Tese de doutoramento em ciência política. Além dos fatores contextuais e conjunturais serão também analisadas as trajetórias iniciais de cada um dos autores. um questionamento sobre os efeitos que estas influências exerceram sobre os trabalhos de Florestan e seus dois assistentes naquele momento.6. de certo modo. 7 6 . Uma magnífica sistematização deste trabalho já foi elaborada pelo autor Marcos Chor Maio em sua tese de doutoramento8. porém. Paris 8 Maio. alguns materiais como a declaração da entidade a respeito de suas propostas e filosofias no período de sua fundação após o término da Segunda Guerra Mundial: UNESCO its purpose and its philosophy. porém tentaremos analisar pontos de vistas diferentes dos quis foram analisados pelo autor uma vez que nossa tarefa diz respeito apenas à questão racial na escola uspiana. Rio de Janeiro. 1952 UNESCO The Race Question in Modern Science . Paris. Muito já foi escrito a este respeito.15 Utilizaremos como documentos da UNESCO. The International Social Science Bulletin. e o trabalho de Maio trata de uma perspectiva que leva em consideração a formação das Ciências Sociais no Brasil como um todo. Desta forma são muito importantes para o reordenamento da trajetória que estamos tentando reconstruir. também nesta mesma perspectiva uma de suas primeiras declarações sobre raça The Race Question in Modern Science . o que facilita nosso trabalho em conseguir discutir alguns pontos de vistas colocados por estudiosos do assunto. neste trabalho de Huxley. Marcos Chor 1997 A história do projeto Unesco: estudos raciais e ciências sociais no Brasil. e ocorrem muito próximas do período que estamos estudando. através de uma perspectiva que leve em consideração pelo menos os principais fatores que influenciavam as mudanças ocorridas naquele período.

contribuíram para o desenvolvimento de um País que teve sua evolução obstada pelas injurias e atrasos deixados por um injusto e antiquado sistema colonial. tampouco o será com relação aos diversos estudos posteriores de Ianni sobre a globalização e de Fernando Henrique sobre o desenvolvimento no Brasil. por exemplo.16 mestrado. uma reconstrução que leve em consideração os menores detalhes possíveis. A compreensão de parte de uma “escola de pensamento” que teve total importância na formação e na institucionalização das Ciências Sociais no Brasil. . A Sociologia engajada destes três autores contribuiu de forma definitiva para a apreensão dos problemas que atravancavam o desenvolvimento econômico e sócio-político da nação naquele momento e. Este é o escopo principal que se pretende neste trabalho. Até os dias de hoje o tipo de Sociologia fundada por Florestan Fernandes e seguida por seus dois alunos tratados neste trabalho continuam a exercer enorme influência nos trabalhos das Ciências Humanas como um todo no Brasil. da carreira de Florestan Fernandes como antropólogo algum tempo antes dos primeiros trabalhos a respeito da questão racial. ainda que a visão dos autores estivesse fortemente influenciada por determinados autores e linhas de pensamento que serão tratadas neste trabalho. mas de qualquer maneira acreditamos que alguma contribuição estará sendo dada se os aspectos levados aqui em consideração forem levados a sério e trabalhados com dedicação e disciplina.

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