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Vanessa Ponte de Freitas

Língua Portuguesa I

Vanessa Ponte de Freitas Língua Portuguesa I

Jouberto Uchôa de Mendonça Reitor

Amélia Maria Cerqueira Uchôa Vice-Reitora

Jouberto Uchôa de Mendonça Junior Pró-Reitoria Administrativa - PROAD

Ihanmarck Damasceno dos Santos Pró-Reitoria Acadêmica - PROAC

Domingos Sávio Alcântara Machado Pró-Reitoria Adjunta de Graduação - PAGR

Temisson José dos Santos Pró-Reitoria Adjunta de Pós-Graduação e Pesquisa - PAPGP

Gilton Kennedy Sousa Fraga Pró-Reitoria Adjunta de Assuntos Comunitários e Extensão - PAACE

Jane Luci Ornelas Freire Gerente do Núcleo de Educação a Distância - Nead

Andrea Karla Ferreira Nunes Coordenadora Pedagógica de Projetos - Nead

Lucas Cerqueira do Vale Coordenador de Tecnologias Educacionais - Nead

Equipe de Elaboração e Produção de Conteú- dos Midiáticos:

Alexandre Meneses Chagas - Supervisor Ancéjo Santana Resende - Corretor Claudivan da Silva Santana - Diagramador Edivan Santos Guimarães - Diagramador Fábio de Rezende Cardoso - Webdesigner Geová da Silva Borges Junior - Ilustrador Márcia Maria da Silva Santos - Corretora Matheus Oliveira dos Santos - Ilustrador Monique Lara Farias Alves - Webdesigner Pedro Antonio Dantas P. Nou - Webdesigner Rebecca Wanderley N. Agra Silva - Designer Rodrigo Sangiovanni Lima - Assessor Walmir Oliveira Santos Júnior - Ilustrador

Redação:

Núcleo de Educação a Distância - Nead Av. Murilo Dantas, 300 - Farolândia Prédio da Reitoria - Sala 40 CEP: 49.032-490 - Aracaju / SE Tel.: (79) 3218-2186 E-mail: infonead@unit.br Site: www.ead.unit.br

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F866l

Freitas, Vanessa Ponte de Língua portuguesa I / Vanessa Ponte de Freitas. – Aracaju :

Gráf. UNIT, 2010. 160 p.: il.

Inclui bibliografia

1. Língua portuguesa I I. Titulo Univer- sidade Tiradentes (UNIT) Núcleo de Educação à Distância - NEAD

CDU : 811.134.3

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Apresentação

Prezado(a) estudante,

A modernidade anda cada vez mais atrelada ao tempo, e a

educação não pode ficar para trás. Prova disso são as nossas disci- plinas on-line, que possibilitam a você estudar com o maior conforto

e comodidade possível, sem perder a qualidade do conteúdo.

Por meio do nosso programa de disciplinas on-line você pode ter acesso ao conhecimento de forma rápida, prática e eficiente, como deve ser a sua forma de comunicação e interação com o mundo na modernidade. Fóruns on-line, chats, podcasts, livespace, vídeos, MSN, tudo é válido para o seu aprendizado.

Mesmo

com

tantas

opções,

a

Universidade

Tiradentes optou por criar a coleção de livros Série Série

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Bibliográfica Unit como mais uma opção de acesso o ao ao

Bibliográfica Unit como mais uma opção de acesso o ao ao conhecimento. Escrita por nossos professores,

conhecimento. Escrita por nossos professores, a obra obra

ao conhecimento. Escrita por nossos professores, a obra obra contém todo o conteúdo da disciplina que

contém todo o conteúdo da disciplina que você está está cursando na modalidade EAD e representa, sobretudo, a nossa preocupação em garantir

o seu acesso ao conhecimento, onde quer que você esteja.

o seu acesso ao conhecimento, onde quer que você esteja. Desejo a você bom aprendizado e

Desejo a você bom aprendizado e muito sucesso!

Professor Jouberto Uchôa de Mendonça Reitor da Universidade Tiradentes

Sumário

Parte 1: Língua Portuguesa: Unidade versus diversidade

11

Tema 1: Variedades linguísticas do português

13

1.1 O mito da unidade linguística

13

1.2 Conceitos básicos

22

1.3 Mudança e Variação

31

1.4 Noções de sociolinguística aplicadas ao estudo do

português do Brasil

40

Resumo

47

Tema 2: Norma padrão

49

2.1 A Gramática Tradicional

49

2.2 Normas linguísticas

57

2.3 A construção da noção de “erro”

65

2.4 Por que ensinar gramática?

74

Resumo

80

Parte 2: O estudo científico da língua portuguesa

83

Tema 3: O estudo descritivo da língua portuguesa

85

3.1 O estudo descritivo

85

3.2 As modalidades oral e escrita

94

3.3 O estudo das normas populares

101

3.4 O estudo das normas cultas

109

Tema 4: Estruturas básicas do português do Brasil

117

4.1 Níveis de análise linguística

117

4.2 Os termos da oração

126

4.3 Características fonético-fonológicas

do português do Brasil

134

4.4

Características morfossintáticas

do português do Brasil

141

Resumo

Referências

149

151

Concepção da Disciplina

Ementa

Variedades linguísticas do português: O mito da unidade linguística; Mudança e variação; Noções de sociolinguística apli- cadas ao estudo do português do Brasil. Norma padrão: A gra- mática tradicional; Normas linguísticas; A construção da noção de “erro’; Por que ensinar gramática? Estudo descritivo da língua portuguesa: O Estudo descritivo; As modalidades oral e escrita; O estudo das normas populares; O estudo das normas cultas; Estruturas básicas do português: Níveis de análise linguística; Os termos da oração; Características fonético-fonológicas do PB; Características morfossintáticas do PB.

Objetivos

Geral

Estudar a língua portuguesa sob a perspectiva da diversi- dade linguística.

Específicos

• Identificar variedades linguísticas do português; • Distinguir modalidades oral e escrita e suas característi-

cas;

• Apresentar noções de língua, linguagem, dialeto, etc.;

• Proporcionar ao aluno senso crítico e conhecimento dos fatores sociais que influenciam a variação linguística no portu- guês do Brasil.

Orientação para Estudo

A disciplina propõe orientá-lo em seus procedimentos de estudo e na produção de trabalhos científicos, possibilitando que você desenvolva em seus trabalhos pesquisas, o rigor metodo- lógico e o espírito crítico necessários ao estudo.

Tendo em vista que a experiência de estudar a distância é algo novo, é importante que você observe algumas orientações:

• Cuide do seu tempo de estudo! Defina um horário regular para acessar todo o conteúdo da sua disciplina disponível neste material impresso e no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Organize-se de tal forma para que você possa dedicar tempo suficiente para leitura e reflexão;

• Esforce-se para alcançar os objetivos propostos na disci-

plina;

• Utilize-se dos recursos técnicos e humanos que estão ao seu dispor para buscar esclarecimentos e para aprofundar as suas reflexões. Estamos nos referindo ao contato permanente com o professor e com os colegas a partir dos fóruns, chats e encontros presencias. Além dos recursos disponíveis no Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA. Para que sua trajetória no curso ocorra de forma tranquila, você deve realizar as atividades propostas e estar sempre em contato com o professor, além de acessar o AVA.

Para se estudar num curso a distância deve-se ter a clareza que a área da Educação a Distância pauta-se na autonomia, res-

ponsabilidade, cooperação e colaboração por parte dos envolvidos,

o que requer uma nova postura do aluno e uma nova forma de

concepção de educação. Por isso, você contará com o apoio das equipes pedagógica

e técnica envolvidas na operacionalização do curso, além dos re-

cursos tecnológicos que contribuirão na mediação entre você e o

professor.

LÍNGUA PORTUGUESA:

UNIDADE VERSUS DIVERSIDADE

Parte I

1 Variedades linguísticas do português

As diferenças entre os muitos falares que encontramos no Brasil são facilmente percebidas. Para isso, não é preciso fazer algum estudo mais aprofundado. Mas o que devemos pensar da variação linguística? Nesse tema, apresentaremos a você diversos conceitos relacionados ao estudo da variação linguística. Além disso, você estudará a relação entre os estudos da linguística moderna e o trabalho do professor em sala de aula.

Bom estudo!

1.1 O MITO DA UNIDADE LINGUÍSTICA

Nesse tópico, após sabermos a situação atual da língua portuguesa no mundo, iremos investigar as línguas faladas no Brasil. Dessa forma poderemos, fugindo do senso comum, nos posicionar quanto ao mito da unidade linguística do Brasil.

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Língua Portuguesa I

Situação atual da língua portuguesa no mundo

Depois do processo de expansão marinha, a língua portu- guesa passou a ser falada nos cinco continentes. Hoje é uma das sete línguas mais faladas do mundo e tem cerca de 200 milhões de falantes. Além de ser falado em Portugal e no Brasil, o português é língua nacional e língua oficial desses dois países. Em Portugal, é língua oficial desde 1290; no Brasil, desde 1757/1758.

Preste atenção a essa distinção:

Língua Nacional – língua que serve de instrumento de comu- nicação de uma nação ou de uma parte dela. Língua Oficial – língua utilizada em comunicações oficiais de um país.

O português é falado também em cinco países africanos, onde é língua oficial: Angola, Moçambique, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. O mesmo acontece em Macau – uma região administrativa da China, na Ásia – e no Timor-Leste, país da Oceania. Nesses locais o status da língua portuguesa é o mais variado: o português é língua oficial em alguns e compõe, juntamente com outras línguas nacionais, situação de bilinguis- mo. Esses aspectos da difusão do português serão estudados mais à frente, nas disciplinas que dão continuidade a esse curso.

As línguas faladas no Brasil

Desde pequenos, ouvimos falar da unidade da língua portuguesa. Ouvimos falar também que, mesmo com a vasta extensão territorial do Brasil, o português se propagou a partir da época do descobrimento e se manteve em nosso país até hoje,

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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não é? Mas será que os resultados dos estudos científicos sobre a língua portuguesa também apontam para essa direção? Será que o Brasil é ou já foi um país monolíngue? É o que veremos a seguir. Apesar de aprendermos ao longo da educação básica que no Brasil só se fala português, hoje, os estudos linguísticos nos permitem dizer que essa afirmação não condiz com a realidade do país. Aqui, atualmente, são faladas mais de 200 línguas: são além das línguas estrangeiras, como o japonês, chinês e árabe, também diversas línguas indígenas – mesmo após a drástica redução da população indígena do país. As línguas indígenas têm estatuto de línguas nacionais desde a Constituição de 1988. Nosso país hoje é oficialmente um país multilíngue, pois aqui existem e são reconhecidas diversas

línguas, distribuídas no país de forma localizada, ou seja, o multi- linguismo do Brasil é encontrado somente em locais específicos. Durante os séculos XVI e XVI, os portugueses que aqui chegavam passavam a viver com índias e os seus filhos falavam a língua das mães. Por muito tempo o idioma dos paulistas de São Vicente, vila fundada em 1532, foi o

mesmo idioma dos índios da região: os tupis. Do século XVII até meados do século XVIII a língua da população paulista era a língua geral, e não o por-

Língua geral é um termo utilizado para

designar línguas que surgiram em situações específicas de contato entre povos indíge- nas e portugueses entre os séculos XVI e

XVII.

tuguês. O mesmo se deu no Maranhão e no Pará, onde a língua falada era a dos tupinambás (RODRIGUES, 1996). Quando falamos em população indígena hoje, imaginamos que todas elas já adotaram a língua portuguesa e esqueceram seus antigos falares, mas não é bem assim. As línguas indígenas são em torno de 180 no território brasileiro, distribuídas por 221 povos que juntos somam cerca de 160 mil índios, segundo da-

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Língua Portuguesa I

dos de Ayron Dall’Igna Rodrigues, coordenador do Laboratório de Línguas Indígenas da UnB.

Os dados realizados pelas pesquisas do IBGE entre os

anos de 1991 e 2000 indicam um aumento do número de índios, que chegou a 734 mil. Esses resultados são diferentes dos dados tratados nas pesquisas acadêmicas, pois os pes- quisadores lidam com falantes de línguas indígenas. O crescimento repentino e inesperado da população indígena é justificado pelo próprio IBGE: pode ter se dado pela imigração internacional e pelo aumento do número de indígenas em zona urbana que antes não se declaravam in- dígenas e passaram a se declarar depois do censo de 2000. Confira os resultados da pesquisa do IBGE no site:

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noti-

cia_impressao.php?id_noticia=506

É certo que em muitas comunidades indígenas, princi- palmente os jovens, já falam mais o português do que as suas línguas originais. Mas, atualmente, escolas indígenas começam a se organizar em muitos lugares; nelas os povos indígenas apren- dem as línguas portuguesa e indígena e reafirmam suas culturas. Podemos ver na tabela a seguir exemplos do que acabamos de dizer. No estado do Tocantins, os grupos indígenas que manti- veram contato com a língua portuguesa rapidamente alteraram suas situações linguísticas.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Tabela 1 – Situação linguística de povos indígenas do To- cantins

POVO

INÍCIO DO CONTATO

SITUAÇÃO LINGUÍSTICA

AMANAYÊ

 

- Não se sabe se ainda falam

Século XVIII

a língua materna.

(apenas 4 famílias)

- Falam português.

   

- Apenas os homens mais

TEMBÉ-TURUWAYA

velhos

sabem a língua

(apenas 30 pessoas)

Século XVIII

materna.

- Falam português.

   

- Homens de mais de 40

anos sabem a língua mater-

ANAMBÉ

Meados do século XIX

na, de 20 a 30 anos ainda

entendem.

- Falam português.

   

- Homens de 30 a 40 anos

ainda falam a língua mater-

ASSURINI

Início do século XX

na, muitos jovens e crianças

só falam português.

   

- Todos falam sua língua.

- 80% dos homens, 60%

SURUÍ

Década de 1920

das mulheres, todos os

adolescentes e crianças

falam português.

   

Fundamentalmente mono-

PARAKANÃ

1971

língues.

-

Jovens do sexo masculino

falam português.

Fonte: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. O português são dois. São Paulo:

Parábola, 2004, p. 56.

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Língua Portuguesa I

Já vimos que em 1988 um grande passo foi dado em direção ao reconhecimento das línguas faladas no Brasil, mas veremos que as línguas de comunidades imigrantes não fo- ram consideradas perante a educação formal. Nas colônias de imigrantes, escolas mantidas pelo município ou pelo estado, a língua dos alunos, ou seja, a língua estrangeira, não é ensinada, o que representa um problema para esses grupos; mas não foi sempre assim. Os imigrantes começaram a se estabelecer aqui a partir do início do século XIX, e principalmente no sul do país formavam núcleos que favoreciam a sua manutenção. Dessa maneira, cada colônia podia manter sua religião, sua organização social e tam- bém o ensino da sua cultura, pois em cada colônia era estabeleci- da uma escola que ensinava a língua utilizada no país de origem dos imigrantes. Com o passar do tempo, o governo proibiu o uso de línguas estrangeiras em sala de aula e, no final da década de 1930, o Estado ordenou que as disciplinas de história e geografia do Brasil fossem dadas em todas as escolas. Em todas as áreas de colonização estrangeira os governos dos estados deveriam manter escolas nacionais, assim, as chamadas escolas-étnicas foram fechadas (KREUTZ, 2000). Essa pequena análise da situação de algumas línguas fala- das no Brasil já abre caminhos para nos desvencilharmos do mito da unidade linguística do nosso país. No decorrer dos nossos estudos, voltaremos a esse assunto, aprofundando mais nossa visão. Vamos ver agora a situação da língua majoritariamente falada no Brasil: a língua portuguesa.

Contrastes na língua portuguesa do Brasil

Acabamos de ver que, ao contrário do que pensava a maioria de nós, no Brasil não se fala só português. Já aceitamos que são faladas mais de 200 línguas no nosso país, entre línguas

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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indígenas e estrangeiras. Mas será que, quando falamos somente de língua portuguesa, é possível manter o conceito de unidade linguística? Uma das coisas que iremos aprender nesse curso e que deveremos levar por toda a nossa história como professores e estudiosos daqui pra frente é que todas as línguas mudam e que em todas encontraremos

muitas formas para se dizer a mesma coisa. Isso mes- mo! Todas as línguas são heterogêneas, dessa forma

Heterogêneo é o que é composto de dife- rentes elementos.

podemos falar somente de unidade em meio à heterogeneidade. Todos nós falamos português, mas cada um leva em seu falar características próprias de sua comunidade, de sua idade e de vários outros aspectos. Diversos estudos apontam para a grande diversidade de normas no português. Mais adiante, faremos um estudo mais detalhado dessas questões. Por enquanto, devemos observar o seguinte: no Brasil, as diferenças entre os falares são mais sensíveis quando ob- servamos as divisões socioculturais da sociedade. É mais fácil perceber como são diferentes os falares de uma pessoa esco- larizada e de uma não escolarizada que moram no mesmo local do que perceber diferenças na fala de duas pessoas com mesmo grau de escolaridade e que moram em regiões distintas do país. Apesar disso, a escolarização não é o único fator a influenciar a língua, outros aspectos sociais como a localidade do falante e a sua idade, por exemplo, são de extrema relevância para o estudo de várias línguas. Lembre-se sempre disso, pois opiniões baseadas nas im- pressões e no senso comum só atrapalham o estudo científico da língua portuguesa.

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Língua Portuguesa I

Texto complementar

O Português do Brasil, Língua Nacional

O estatuto de língua nacional coloca o português do Brasil, quan- to ao status sociopolítico, no mesmo nível que o português de Portugal, com a diferença fundamental de que o de Portugal é falado por mais de dez milhões de indivíduos e o do Brasil por mais de cem milhões. Como o de Portugal, o português brasileiro se mantém numa área estável. Pode-se dizer que, em geral, as fronteiras linguísticas brasileiras coincidem com as políticas, se quiser apagar da lembrança alguns pontos da fronteira sul, na qual avança o espanhol e o guarani, e pontos da fronteira amazônica em que

Morte de uma língua.

pontos da fronteira amazônica em que Morte de uma língua. diversas línguas indígenas se acantonam, refugiando-se

diversas línguas indígenas se acantonam, refugiando-se de glotocídios iminentes.

Diferentemente do português de Portugal, convive com múltiplas minorias linguísticas que se concentram, principalmente, nos grandes centros urbanos, na região sul do país, áreas de imigração e nas áreas de populações indígenas remanescentes que mantêm as suas línguas. O destino do português no Brasil se definiu nos meados do século XVIII, quando o Marquês de Pombal, por lei de 3 de maio de 1757, primeiro aplicada ao Pará e Maranhão e que depois se estende a todo o Brasil (CUNHA, 1981-92), dá início a uma nova política linguís- tica e cultural na colônia americana, ao criar a primeira rede leiga de ensino, expulsos os jesuítas, ao estabelecer um ordenamento jurídico e administrativo em que a língua portuguesa passa a ser obrigatória, proscrevendo-se o uso de quaisquer outras línguas (HOUAISS, 1985- 85). Esse fato histórico marcou definitivamente o fim de um processo que poderia ter definido outro destino linguístico para o Brasil. Pode-se admitir, pelos dados da história brasileira, que durante os dois primeiros séculos de colonização, a língua do colonizador não se impôs como majoritária na terra que aos poucos efetivamente do- minava.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Um rápido diagnóstico demográfico, baseado na síntese recente de Antônio Houaiss, O português no Brasil (1985), é um argumento que sustenta

a afirmativa anterior: no século XVI, na extensão ocupada do litoral brasileiro,

viviam cerca de trinta mil brancos e mestiços integrados, um ou dois milhões de indígenas (em rápido processo de decréscimo populacional) e cerca de trinta mil negros (desde a África, já na viagem, desarticulados de seus grupos de origem, como se sabe, e por isso sem condições de manter efetivamente

vivas as suas línguas de origem); já no século seguinte, a penetração interiora- na avançava, a população branca e mestiça integrada subia para duzentos mil,

a indígena ainda era significativa - um milhão e meio de habitantes - e a negra crescia para quatrocentos mil (HOUAISS, 1985, p. 44). O instrumento de intercomunicação verbal principal nesse perío- do histórico – pode-se deduzir teoricamente e dados empíricos da his- tória, embora rarefeitos, o confirmam – não seria a língua portuguesa, nem nenhuma das línguas africanas que aqui chegaram, pelo que antes se disse, mas sim uma língua geral de base indígena, com predomínio certamente da língua geral da costa, certamente marcada pela versão dos jesuítas missionários. Sabe-se que não é o português a língua das reduções e missões jesuíticas, sabe-se que nas fazendas e no ambiente rural em geral (e o que seria urbano, então, no Brasil?), na casa dos senhores e dos outros era uma língua, não a portuguesa transplantada, mas com interferên- cias certamente dela, que se constituía. De base indígena e com marcas africanas era aceita, entretanto, pelo poder leigo e da igreja, esta que foi

a legitimadora da língua geral para a catequese e domínio dos indígenas

nos primeiros tempos coloniais. Confluindo no século XVIII, entre outros, fatores demográficos significativos tais como o avanço da população branca e mestiça inte- grada (cerca de quinhentos mil) e alcançando um milhão a população escrava negra, associados à nova política colonial pombalina, se definiu por aquele século o português como língua dominante. Daí por diante, a escolarização em português, o processo de urbanização crescente, a vinda da corte para o Brasil no início do século

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Língua Portuguesa I

XIX, entre outros fatores, definiram a língua portuguesa como língua nacional e oficial. É óbvio que com suas marcas próprias, devidas não só a um processo natural de mudança intrínseca a qualquer língua, mas diferentemente marcada do processo de mudança do português europeu, não só pelas interferências das línguas indígenas como das línguas africanas que aqui se encontraram com o português.

Fonte: MATTOS e SILVA, Rosa Virgínia. Diversidade e unidade: a aventura linguística do português. Lisboa: Internet Instituto Camões de Portugal, 2002, v. 1, p. 1-29.

Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

O que você ouve falar da língua portuguesa do Brasil? Você

já escutou comparações entre o português falado aqui e o falado em Portugal? Analise o que você sabia até então e compare com o que você acabou de aprender e coloque suas impressões no AVA, lembrando de verificar as reflexões de seus colegas.

1.2 CONCEITOS BÁSICOS

Para trabalharmos com a língua, precisamos primeiramente aprofundar nossa visão com relação a alguns termos que vão nos acompanhar de agora em diante. São eles: linguagem, língua, sistema, norma, fala, dialeto e gramática.

É importante, a partir de então, fazemos a distinção entre

línguas naturais e não-naturais, pois as línguas naturais são alvo dos estudos linguísticos. Línguas naturais são aquelas que passaram pelos processos de aprendizagem comuns a todos os

Tema I

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seres humanos no período de aquisição da língua. O português,

o inglês, o italiano são línguas naturais, pois são adquiridas pelas crianças naturalmente. Você já ouviu falar, por exemplo, do Esperanto ? O Esperanto não é uma língua natural, pois foi criado para comunicação entre pessoas falantes de diferentes línguas. É como uma língua para situações especiais, aprendida em sua maior parte por adultos. Ela não passa pelos processos de aquisição por crianças, isto é, ela não tem falantes naturais, logo, não é uma língua natural.

Linguagem e língua

Toda ciência tem um objeto de estudo e precisa defini-lo. No decorrer da história dos estudos linguísticos, muitas foram as propostas de definição para os conceitos de linguagem e língua. Linguagem é como as muitas formas de comunicação que se realizam por meio de símbolos. Os símbolos e o valor deles

é algo convencionado pela sociedade. A linguagem verbal, a

linguagem gestual, as placas e os sinais de trânsito são exemplos de linguagens. A língua dos sinais é outro exemplo – é uma linguagem gestual. E cada um dos gestos que são utilizados na língua de sinais é convencionado, ou seja, faz parte de um acordo entre os membros que utilizam a língua dos sinais. Esse acordo não é realizado entre as pessoas como faze- mos acordos em reuniões; ele se faz pelo uso e pela aceitação de cada um dos itens utilizados na comunicação. O tempo todo estamos cercados de acordos desse tipo dentro da sociedade. Imagine se nós não aceitássemos as palavras que já são utiliza- das na nossa língua, se quiséssemos, um dia, usar outras pala- vras para designar as coisas que já têm nome. O que você acha que aconteceria? A compreensão do que dizemos seria muito dificultada, não é?

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Língua Portuguesa I

Então, se linguagem é uma forma de comunicação, o que é

a língua? Língua é uma forma de linguagem, mais precisamente,

linguagem verbal. Nós, seres humanos, aprendemos naturalmente a língua sem interferências normativas, somente com o convívio. Isso significa dizer que, para que uma criança em fase de aprendi- zado da língua aprenda a falar, não é necessário que seus pais apresentem para ela todos os termos que ela utilizará e quais suas funções, como fazemos quando ensinamos nossa língua a um estrangeiro, por exemplo. A criança aprende naturalmente porque está “programada” para aprender. Qualquer ser humano, em fase de aprendizagem, pode aprender qualquer língua, assim, nesse período especial em que a criança adquire a língua, não há línguas mais difíceis ou mais complexas que outras. Todas podem ser aprendidas da mesma forma. Ferdinand Saussure (1857-

a

Ferdinand Saussure (1857-1913). Após sua morte, seus alunos reuniram anotações feitas durante as aulas ministradas

Ferdinand Saussure (1857-1913). Após sua morte, seus alunos reuniram anotações feitas durante as aulas ministradas por Saus- sure e publicaram, em 1915, a obra Curso de Linguística Geral, leitura fundamental para os estudantes de linguística, pois é o marco inicial da linguís- tica moderna.

pois é o marco inicial da linguís- tica moderna. 1913), conhecido como “o pai da linguística

1913), conhecido como “o pai da linguística moder- na”, tratou a distinção entre língua e fala (no francês, langue e parole). A língua seria um produto da socie- dade que não poderia ser modificada pelo falante, é um fenômeno coletivo e externo ao indivíduo. A fala seria o ato individual

que se realiza quando uti- lizamos as possibilidades presentes na língua. Além disso, para Saussure, o verdadeiro objeto de estudo da linguística seria a língua, que deveria ser explicada por ela própria. O linguista deve investigar a relação entre os componen- tes do discurso e o valor dessas relações, em outras palavras, a

Tema I

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língua em sua estrutura, por isso essa teoria de análise linguística se chama estrutu- ralismo. Noam Chomsky, em

linguística se chama estrutu- ralismo . Noam Chomsky , em meados do século XX, nos apresenta

meados do século XX, nos apresenta dois novos con- ceitos linguísticos: compe- tência e desempenho. A competência lin- guística é o conhecimento que o falante tem das regras da língua, ou seja, é o que

Noam Chomsky, nas- ceu na Filadélfia em 1928, é professor de linguística e filosofia no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é também ati- vista político. Em 1957 publicou "Estruturas Sintáticas", livro no qual apresenta o modelo da gramática gerativa. Suas pesquisas revolucionaram os estudos da linguagem.

Suas pesquisas revolucionaram os estudos da linguagem. permite construir sentenças. É uma capacidade interna a

permite construir sentenças. É uma capacidade interna a todo ser humano. O desempenho é o comportamento linguístico, é um produto da competência e tam- bém de vários outros fatores tanto sociais como psicológicos. Para Chomsky, a linguagem é uma capacidade do ser hu- mano, toda criança recebe essa capacidade de adquirir uma lín- gua por meio da genética. Como essa é uma capacidade própria do ser humano, todos conheceriam as propriedades da língua. Essas propriedades são chamadas de universais da linguagem. Essa corrente linguística, chamada gerativismo, busca identificar as propriedades comuns a todas as línguas humanas para conseguir uma teoria que possa explicar a todas. Então, o papel do linguista, para o gerativismo, é determinar o que pode ou não pode ser dito em uma língua natural.

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Língua Portuguesa I

Sistema, norma e fala

1 Eugenio Coseriu (1921-2002), linguista romeno especiali- zado em filologia românica, ciência que hoje é
1 Eugenio Coseriu
(1921-2002), linguista
romeno especiali-
zado em filologia
românica, ciência
que hoje é associada
principalmente ao
estudo material e crítico dos textos. Dentre
suas principais obras estão Teoria da lingua-
gem e linguística geral e Sincronia, diacronia
e história, ambas publicadas em 1973.
2 Um conjunto de três coisas ou pessoas.

Alguns anos mais tarde,

Eugênio Coseriu 1 (1987) reformula a distinção feita por Saussure entre língua

e fala e propõe uma tría-

de 2 : sistema, norma e fala.

O sistema é o conhecimen-

to que o falante tem da sua língua, que está na mente de um só falante ou mes- mo de todos os falantes de uma comunidade que falam a mesma língua. É

onde encontramos todas as possibilidades da fala e é comum a todos. Norma é um fato de um grupo social, são hábitos linguís- ticos. Em cada norma linguística há características que podem distinguir os seus falantes dentro da comunidade. Observe este exemplo: No Brasil falamos o português e todos nós temos conhecimento do sistema da nossa língua, ou seja, das possibili- dades de estruturar ideias dentro do português. Mas cada grupo social escolhe determinadas estruturas e esse fato caracteriza a norma linguística daquele grupo. Fala é a maneira como o falante realiza o seu conhecimento linguístico, o sistema. A fala, para Coseriu, assim como na visão de Saussure, está na ordem individual. A fala é a única manifestação da linguagem que podemos observar, os outros conceitos – sistema e norma – se baseiam na observação da fala.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Uma das formas de observarmos as possibilidades da fala é por meio dos testes de gramaticalidade. Voltaremos a falar deles logo adiante, após discutirmos o conceito de gramática.

Dialeto

Dentro de cada norma linguística (também chamada de variante linguística) registramos variedades da língua conhecidas como dialetos. O dialeto não deve ser visto como uma variedade de língua menos importante ou inferior, e esse termo não deve ser utilizado com caráter pejorativo. Para Eugênio Coseriu (1981), uma língua histórica é “uma família histórica de modos de falar afins e interdependentes, e os dialetos são membros dessa família ou constituem famílias menores dentro de uma família maior.” Então, no âmbito da linguística, dialeto significa variante de uma língua histórica. A variedade padrão – aquela escolhida como o “bom falar” e mais prestigiada na sociedade – teve sua escolha baseada em motivos socioculturais e políticos.

Gramática

A palavra gramática deve ser interpretada primeiramente

em seu aspecto linguístico: ela é um conjunto de regras progra- madas em nosso cérebro. São elas que irão estruturar a língua e

fazê-la funcionar. E todos os falantes têm o mesmo acesso a ela, ou seja, todos nós somos bons conhecedores da nossa língua e temos a mesma capacidade de trabalhar com ela – para sermos entendidos e entender o que os outros querem dizer.

O livro se chama gramática porque, de uma forma ou de

outra, contém algumas dessas regras, mas as que são mostradas lá são para o funcionamento de uma variante da língua: a norma padrão (que será alvo dos nossos estudos no próximo tema).

28

Língua Portuguesa I

Texto complementar

Existe linguagem animal?

Um estudo clássico sobre o sistema de comunicação usado pelas abelhas, publicado em 1959 por Karl Von Frisch, revela que a

abelha-obreira, ao encontrar uma fonte de alimento, regressa à colmeia

e transmite a informação às companheiras por meio de dois tipos de

dança: circular, traçando círculos horizontais da direita para esquerda e vice-versa, ou em forma de oito, em que a abelha contrai o abdome, segue em linha reta, depois faz uma volta completa à esquerda, de novo corre em linha reta e faz um giro para direita, e assim sucessivamente. Se o alimento está próximo, a menos de cem metros, a abelha executa

uma dança circular; se está distante, realiza uma dança em forma de oito.

A mensagem transmitida pela dança em forma de oito é muito precisa,

porque indica a distancia em metros: para uma distancia de cem metros,

a abelha percorre nove ou dez vezes em quinze segundos a linha reta que

faz parte da dança. Quanto maior a distancia, menos giros faz a abelha (para 500 metros faz seis giros em quinze segundos). A direção a ser seguida é dada pela direção da linha reta em relação à posição do sol. Os dois tipos de dança apresentam-se como verdadeiras mensa- gens que anunciam a descoberta para a colmeia: ao perceber o odor da obreira ou absorvendo o néctar que ela deglute, as abelhas se dão conta da natureza do alimento; ao observar a dança, as abelhas desco- brem o local onde se encontra a fonte de alimento. Os estudos do zoólogo alemão fazem uma importante revelação sobre o funcionamento de uma linguagem animal, que permite ana- lisar pelo confronto a singularidade da linguagem humana, conforme assinala Benveniste (1976). Embora seja bem preciso o sistema de comunicação das abelhas – ou de qualquer outro animal cuja forma de comunicação já tenha sido analisada – ele não constitui uma linguagem, no sentido em que o termo é empregado quando se trata de linguagem humana, como se pretende demonstrar a seguir:

Tema I

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As abelhas são capazes de:

Variedades linguísticas do português

29

(a) compreender uma mensagem com muitos dados e de reter na

memória informações sobre a posição e a distancia; e

(b) produzir uma mensa- gem simbolizando – represen- tando de maneira convencio- nal 3 – esses dados por diversos comportamentos somáticos 4 .

Ou seja, por meio de convenção ou acor- do.

3

4

Que se somam.

Essas constatações evidenciam que esse sistema de comu- nicação cumpre as condições necessárias para a existência de uma linguagem: há simbolismo, ou seja, capacidade de formular ou inter- pretar um “signo” (qualquer elemento que represente algo de forma convencional); há memória da experiência e aptidão para analisá-la. Assim como a linguagem humana, esse sistema é válido no interior de uma comunidade e todos os seus membros são aptos a empregá-lo e compreendê-lo da mesma forma. No entanto, as diferenças entre o sistema de comunicação das abelhas e a linguagem humana são consideráveis:

(a) a mensagem se traduz pela dança, exclusivamente, sem inter-

venção de um “aparelho vocal”, condição essencial para a linguagem;

(b) a mensagem da abelha não provoca uma resposta, mas ape-

nas uma conduta, o que significa que não há diálogo;

(c) a comunicação se refere a um dado objetivo, fruto da experi-

ência. A abelha não constrói a mensagem a partir de outra mensagem. A linguagem humana caracteriza-se por oferecer um substituto à ex-

periência, apto a ser transmitido infinitamente no tempo e no espaço;

(d) o conteúdo da mensagem é único – o alimento, a única varia-

ção possível refere-se à distância e à direção; o conteúdo da linguagem humana é ilimitado; e

(e) a mensagem das abelhas não se deixa analisar, decompor em

elementos menores.

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Língua Portuguesa I

É esse ultimo aspecto a característica mais marcante que opõe a comunicação das abelhas à linguagem humana. Num enunciado linguís- tico como “Quero água” é possível identificar três elementos portadores de significado: quer- (radical verbal) + -o (desinência número-pessoal), água, denominados morfemas. Prosseguindo a decomposição, pode- se chegar a elementos menores ainda. No enunciado “Quero água”, a menor unidade, os segmentos sonoros, denominados fonemas, permitem distinguir significado, como se pode observar na substituição de /a/ por /e/ em água/égua. Essa é a propriedade da articulação, que é fundamental na língua humana, pois permite produzir uma infinida- de de mensagens novas a partir de um

Que fazem distinção.

de de mensagens novas a partir de um Que fazem distinção. número limitado de elementos sonoros

número limitado de elementos sonoros distintivos.

Em síntese, a comunicação das abelhas não é uma linguagem, é um código de sinais, como se pode observar por suas características:

conteúdo fixo, mensagem invariável, relação a uma só situação, trans-

missão unilateral e enunciado indecomponível [

].

Fonte: PETTER, Margarida M. T. Linguagem, língua, linguística. In:

FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2002, v.1, p. 15-17.

Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

Desde pequenos e durante toda nossa vida utilizamos a língua, mas definir o que é língua não é fácil. Pergunte a amigos e a pessoas da sua família “O que é língua?”. A partir daí e do que você estudou, reflita: como você define o que é língua? Lembre-se de colocar sua reflexão no AVA.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

1.3 MUDANÇA E VARIAÇÃO

31

Nos tópicos anteriores vimos que a visão da língua portu- guesa como a única falada no Brasil e como sinônimo de unidade não se sustenta quando nos cercamos de conhecimentos cientí-

ficos. Além disso, vimos que ao longo da história foram muitos os posicionamentos dos estudiosos sobre o estudo da variação

e da mudança linguística. Vamos, nesse item, ver como a variação linguística passou

a ser estudada e não mais ignorada e por que a mudança linguís- tica não pode ser vista como corrupção da língua.

Observe a cantiga a seguir de João Aires:

Desei’ eu ben auer de mha senhor,

mays nõ desei’ auer bê d’ela tal, por seer meu bê, que seia seu mal,

e por aquesto, par Nostro Senhor,

en que perdesse do sseu nulla ren, ca non é meu ben o que seu mal for

Ante cuyd’ eu que o que seu mal é que meu mal est, e cuydo grã razõ, por ê deseio no meu coraçon auer tal bê d’ela, per boa fé,

en que nõ perca rê de seu bon prez, nê lh’ ar diga nulh’ ome que mal fez,

e outro ben Deus d’ ela nõ mi de. [ ]

32

Língua Portuguesa I

auer

haver

aquesto

isto

nulla ren, nulha rê

nenhuma coisa, nada

ca

pois, porque

ante

antes, primeiramente

cuyd’

considero, penso

por ê

por isso

prez

mérito, dignidade, valor, reputação

ar

também, ainda assim

nulh’ ome

nenhum homem, ninguém

de

dê, v. dar

ia

já, desde este momento

uj

vi, v. ver

ssy

si, pron. Pessoal

cato

busco, atento

mays

mas

atal

tal

prol

proveito

ca de mi

do que o meu

bem

bem, fazer o bem: corresponder ao amor.

Que língua você acha que é essa? Você acertou se respon- deu que é o português, a língua que, depois de muitas mudanças,

é como falamos hoje. Você deve ter parado um pouco para pen- sar: como ela mudou tanto? Mudou por causa do tempo (essa cantiga é do período medieval) e por causa da variação.

Mas o que é variação? Variação é o ato de variar e, do pon- to de vista da linguística, é uma característica básica de todas as línguas humanas. Quando ouvimos uma pessoa de um estado diferente do nosso falar, percebemos rapidamente a diferença entre a sua fala

e a nossa, não é? Na maioria das vezes, reparamos nas palavras que as pessoas usam. Enquanto em boa parte do nordeste usa- mos aipim ou macaxeira para designar a raiz da qual fazemos farinha, no sul se usa a palavra mandioca.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

33

Também percebemos diferenças quando escutamos pessoas mais ou menos instruídas que nós, ouvimos palavras que não utilizamos com frequência ou até maneiras diferentes

de estruturar as frases. Tudo isso se dá não por uma corrupção da língua, como afirma o senso comum, mas por um simples motivo: o de que todas as línguas variam e de que a variação atinge os diversos níveis da língua. Vamos ver alguns exemplos do que estamos falando. No livro Como falam os

brasileiros (2002), as pro- fessoras e pesquisadoras Yone Leite e Dinah Callou publicaram os resultados das pesquisas feitas sobre alguns aspectos da norma culta do país, dentre eles:

O termo norma culta se refere à variedade de língua falada pelas pessoas de maior escolaridade, ou seja, pessoas com o ensino superior completo. Veremos mais profunda- mente esse conceito e as discussões que giram em torno dele no decorrer do livro.

A existência de artigo definido diante de nomes próprios:

(1) a. A Maria passou aqui em casa ontem.

b. Maria passou aqui em casa ontem.

A existência de artigo definido diante de pronomes possessivos:

(2) a. O meu pai trabalha aos sábados.

b. Meu pai trabalha aos sábados.

E a alternância entre as formas nós e a gente:

(3) a. Semana passada nós fomos ao cinema.

b. Semana passada a gente foi ao cinema.

Essas diferentes maneiras de falarmos a mesma coisa não passa por nós despercebida e mesmo assim não julgamos nenhuma das opções que foram mostradas como melhores ou piores. No caso dos exemplos apresentados em (3), julgamos

34

Língua Portuguesa I

como adequados ou não a situações de comunicação: o uso do pronome nós é mais comum em ocasiões formais enquanto o uso do a gente é frequente em ocasiões informais. Alguns outros conceitos serão muito utilizados por nós quando dermos seguimento aos estudos nesse livro, são eles os conceitos de variável e variante. Variante é como chamamos cada uma das diferentes formas de um fenômeno que varia. Variável é esse fenômeno. É por isso que chamamos a língua portuguesa do Brasil de variante brasileira, porque ela é uma das formas da língua portuguesa. Assim como há a variante brasileira, há a variante europeia.

Para fixar bem essas ideias, vamos relembrar um assunto de que já falamos aqui: a alternância nós/a gente no português do Brasil. O uso da primeira pessoa do plural é uma variável, pois

é um fenômeno que varia. Cada uma das formas que utilizamos

para a primeira pessoa do plural se chama variante. Dessa forma,

o pronome nós é uma variante e o pronome a gente também. Podemos simplificar essas ideias assim:

Variável (fenômeno que varia): primeira pessoa do plural

Variantes (formas possíveis de realização da variável):

O pronome nós

Ex.: Nós vamos comprar pão.

O pronome a gente.

Ex.: A gente vai comprar pão.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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A variável que acabamos de ver tem duas alternativas

possíveis, mas outras variáveis podem ter mais de duas alterna-

tivas. É o caso da negação em língua portuguesa, um fenômeno variável que possui três variantes. Observe os dados a seguir:

Variável: as estruturas de negação no português do Brasil.

Variantes:

• A negação antes do verbo Ex.: Pergunta: Você viu Maria sair da sala? Resposta: Não vi. • A negação depois do verbo Ex.: Pergunta: Você viu Maria sair da sala? Resposta: Vi não. • A negação antes e depois do verbo Ex.: Pergunta: Você viu Maria sair da sala? Resposta: Não vi não.

Esses são apenas alguns exemplos. Coseriu (1979) afirmou que a língua nunca está pronta, ela está se refazendo sempre. A cada nova geração de falantes surgem novas alterações.

Agora pense: se a língua muda tanto e sempre, o que permite que ela continue funcionando e que seus falantes continuem se entendendo?

O que permite isso são dois fatos. Primeiramente, a língua

não muda instantaneamente, de um dia para o outro. Toda mu- dança se dá de forma gradual. Em segundo lugar, a quantidade

de itens sofrendo variação em um língua é muito menor que a quantidade de itens em estabilidade.

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Língua Portuguesa I

Como já dissemos, a variação é comum a todas as línguas, e, para que ocorra a mudança linguística, é necessário primei- ramente que a variação aconteça. Em outras palavras, para que algo mude é preciso que passe por variação antes, assim, toda mudança resulta do processo de variação. Outro fato muito importante é o seguinte: nem sempre uma variação gera uma mudança. É certo que a heterogeneidade da língua e da própria sociedade origina a variação, mas nem todos dessa sociedade aceitam as inovações e começam a utilizá-las. Além disso, nem toda inovação dura. Você já percebeu como algumas gírias são esquecidas com

o tempo e outras parecem durar mais? É assim que acontece.

Vejamos o caso do pronome de segunda pessoa do plural vós. Hoje, no Brasil, ele só é visto nas gramáticas e em livros antigos, não é? Por um momento ele competiu com o pronome que usamos hoje, o você, e por algum tempo houve a variação: as duas formas competiam na fala das pessoas. Com o passar do tempo, o você passou a ser mais utilizado e o vós foi esquecido. Aconteceu a mudança.

O estudo da mudança.

Nem sempre a mudança e a variação orientaram os estu-

dos linguísticos, pelo contrário. Apesar de hoje se saber que toda língua varia, em muitos momentos essa propriedade foi excluída dos estudos científicos. Em determinada época, porque não era possível determinar o que a propiciava; para algumas correntes linguísticas, porque não era necessário levá-la em conta. A mudança esteve no centro dos estudos linguísticos no final do século XVIII e durante todo o século XIX, período em que se desenvolveu uma análise que comparava fatos linguísticos do sânscrito, na Índia, com as fases mais antigas do grego, do latim

e das línguas germânicas. Até hoje as constatações propiciadas

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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pelo método histórico-comparativo servem de base para a Lin- guística Histórica. Inaugurando o que chamamos de linguística moderna, Ferdinand Saussure, com a publicação do Curso de Linguística Geral, dá início à corrente linguística que passou a vigorar tem- pos depois, chamada estruturalismo. Essa corrente se preocupa- va com a análise da estrutura da língua – por isso o seu nome. Observando somente a estrutura, focada em captar somente o sistema, não era necessário pensar nos fatores sociais que in- fluenciariam o uso da língua. Saussure achava que havia necessidade de estudar a lín- gua em dois aspectos diferentes: em apenas um momento do tempo (o que chamamos de sincronia) e no intervalo entre dois momentos (chamado diacronia). Nessa época também são realizados estudos em outra corrente linguística, chamada dialectologia. Ela se refere ao ramo dos estudos linguísticos que se inicia com a publicação de Atlas linguistique de la France, de Jules Gilliéron, no início do século XX. Também chamada de geografia linguística, essa corrente tem por objetivo criar um modo de pesquisa do qual se possam tirar conclusões sobre a variedade linguística de uma determinada lo- calidade, essas conclusões podem definir um dialeto. Para isso, é necessário entrevistar pessoas do local, que moram lá há muito tempo e que não tenham saído de suas comunidades, pois elas revelam os traços linguísticos específicos daquele grupo social e daquela região. Em reação ao pensamento da corrente estruturalista, surge a corrente chamada gerativismo, iniciada por Noam Chomsky. O foco das pesquisas gerativistas está no conhecimento individual que o falante tem da língua, ou seja, a competência (tratada aqui no tópico 1.2). Essas suas visões, o estruturalismo e o gerativismo, não relacionam a língua e suas variações com a sociedade ou sua

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Língua Portuguesa I

heterogeneidade. Já a sociolinguística, iniciada por William La- bov, além de ter a variação como foco dos seus estudos, assume que a sociedade e sua composição heterogênea são pontos fundamentais para a análise da língua. São os conceitos da so- ciolinguística que vamos estudar no próximo item.

Visões sobre a mudança

Para complementar esse breve estudo da mudança linguís- tica, observe esse pequeno esquema que apresenta a visão que alguns estudiosos tiveram da mudança linguística. Lembre-se:

mudança não deve ser vista como progresso (desenvolvimento para melhor ou para pior) ou degeneração.

Início do século XIX – era defendido o caráter degene- rador da mudança: as línguas antigas estavam em estágio superior de desenvolvimento. Metade do século XIX – Augusto Schleicher, linguista e botânico, defendia a ideia de que a língua era um organismo vivo independente de seus falantes e sujeita ao desenvolvi- mento, maturidade e declínio. Fim do século XIX – Jespersen (influenciado pelo evolu- cionismo sociológico) defende que não há degeneração, mas progresso rumo às formas aperfeiçoadas. Início do século XX – Saussure formula a concepção de língua como um todo cujas partes estão em estritas relações de oposição e mútua dependência. As línguas passam de um estado de organização a outro (visão neutra da mudança). Sapir (1969) propõe tratar a mudança como submetida por uma força interna (traduzida por Câmara Jr. como deriva) que impulsionaria a língua a uma determinada direção.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Texto complementar

O contacto com outras línguas e com outras realidades sociais, culturais e políticas é uma das principais causas de mudança e de varia- ção, uma causa exterior que provoca alterações internas. As palavras estendem ou restringem o seu significado (a palavra estremecida, que outrora significava tremida e muito amada, mantém somente o primei- ro significado; meter é usado hoje, muitas vezes, em lugar de pôr por influência do francês mettre; capturar substitui, em certas circunstân- cias, captar, do inglês to capture). As frases alteram a sua construção (‘posso ter um copo de água?’ é inspirado no inglês ‘may I have a glass of water?’). O léxico acolhe novas entradas e esquece outras (chapéu entrou em português no século XIII, importado do francês antigo cha- pel; antanho, isto é, antigamente é desconhecido das novas gerações). No campo do léxico globalmente considerado lembre-se da importância das palavras que entraram no português pelo contacto, no Brasil, com as línguas ameríndias e com as línguas das comunidades imigrantes (alemão, japonês, holandês e quantas mais); lembre-se também da entrada de empréstimos das línguas nacionais africanas no português falado na África; na Ásia, considerem-se as palavras que emigraram para o português vindas das regiões longínquas onde chegaram os barcos portugueses. Na Europa, as línguas de prestígio também contribuíram para uma transformação do léxico: diariamente vamos integrando palavras que vêm escondidas na tecnologia, im- portada do inglês e em muitos campos da nossa vivência quotidiana. Enfim, de geração para geração as palavras mudam de forma [ As causas da mudança não são apenas exteriores. A mudança interna, endógena, também se dá. Os fenômenos fonéticos de su- pressão de consoantes e vogais, ou mesmo de palavras inteiras com menor corpo fonético (como, em português, as formas do acusativo dos pronomes pessoais, o, a, os, as, que são substituídas em alguns dialetos do português brasileiro por formas do nominativo ele, ela, você, etc.) desenvolvem-se muitas vezes pelo mero fato de a língua

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Língua Portuguesa I

ser falada, usada. A simplificação de um dos sistemas da língua pode constituir-se em fator de modificação e levar, por exemplo, à redução de várias formas verbais a uma única, o que sucede no português do Brasil com formas como tu fala, ele fala, nós fala, ou no inglês com as conjugações verbais [ Obs.: Os exemplos apresentados nesta seção pertencem ao português europeu.

Fonte: MATEUS, Maria Helena Mira. A mudança da língua no tempo e no espaço. In: MATEUS, M. H. M.; BACELAR, M. F. (org.). A língua portuguesa em mudança. Portugal - Lisboa: Caminho, 2005.

Para refletir

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Para refletir
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Converse com parentes e amigos sobre o que você acabou de aprender e, principalmente, com a ajuda dos de idade superior a sua, liste algumas palavras da nossa língua que não são mais utilizadas ou que passaram por mudança. Achar exemplos próximos do que estudamos nos ajuda a fixar melhor o assunto!

1.4 NOÇÕES DE SOCIOLINGUÍSTICA APLICADAS AO ESTUDO DO PORTUGUÊS DO BRASIL

Nesse item vamos ver noções de uma corrente linguística chamada Sociolinguística Laboviana e aplicar essas noções ao es- tudo da língua portuguesa. Esperamos assim dar exemplos mais concretos da variação que encontramos no português do Brasil.

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Você está lembrado dos conceitos de mudança e variação que estudamos no tópico 1.3? Revise-os porque precisaremos muito deles agora.

A Sociolinguística Laboviana é uma corrente linguística que

entende a variação como um princípio geral das línguas naturais. Essa corrente linguística considera em especial como objeto de estudo a variação, que pode ser descrita e analisada cientifica- mente.

Os estudos da so- ciolinguística se iniciam na década de 1960 a partir dos estudos realizados por William Labov – por isso o

dos estudos realizados por William Labov – por isso o Os estudos da mu- dança em

Os estudos da mu- dança em progresso realizados por Labov propiciaram uma nova teoria da mu- dança linguística, que foi formalizada entre 1966 e 1968 no livro Fundamentos Empíricos para uma Teoria da Mudança Linguística, de Uriel Weinreich, Willian Labov e Marvin Herzog.

nome de sociolinguística Laboviana. Labov relaciona fatores sociais, como sexo, origem étnica e atitude perante variáveis linguís- ticas ao comportamento linguístico dos habitantes

de Martha’s Vineyard. Assim, tem início uma nova teoria e metodologia, nelas a

língua deixa de ser vista como estrutura estática e que tem como objeto de estudo a mudança.

A sociolinguística entende a variação como princípio geral

e universal das línguas naturais humanas (um princípio que pode ser descrito e analisado). Ela parte da ideia de que a escolha por uma das formas de falar algo seria influenciada diretamente pelo que chamamos de fatores estruturais (ou internos à língua) e sociais (ou externos). Desta forma, um fenômeno variável (que

pode ser chamado também de variável), pode ser influenciado por um grupo de fatores estruturais e sociais. Contudo, como já dissemos, a variação não implica inevitavelmente em mudança

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Língua Portuguesa I

linguística, já que duas ou mais formas podem ser usadas ao mesmo tempo e durante um período de tempo bem longo. Po- rém toda mudança se origina na variação. É importante lembrar que as análises linguísticas nos apontam tendências, e não previsões das quais não podemos escapar. Não podemos dizer que um fenômeno será dessa ou de outra forma daqui a um determinado tempo, mas podemos dizer que, segundo nossos dados, o fenômeno tende a se comportar de um ou outro modo. Um dos interesses da sociolinguística é também a avalia- ção que o falante faz de uma ou de outra variante. Há variantes estigmatizadas pelos falantes – sobre as quais as pessoas fazem mau juízo – e há variantes prestigiadas – que são dotadas de prestígio na sociedade. Essas avaliações ajudam o pesquisador a saber por que uma forma é escolhida e outra é recusada pelos falantes em certas situações. Você lembra de que tínhamos falado que, para a sociolin- guística, os fenômenos linguísticos são influenciados por fatores internos e externos à língua? Veremos isso agora, estudando os fatores externos, ou seja, os fatores sociais. Os fatores sociais são vários. Quando falamos de variação de tempo, estamos falando de uma variável externa à língua, o mesmo acontece quando nos referimos às diversas classes so- ciais, às características das pessoas que compõem a sociedade ou às situações pelas quais as pessoas passam no momento de se comunicar. Em cada análise feita sobre o comportamento linguístico de um grupo encontraremos diversos aspectos da língua para serem estudados. Os fatores sociais podem ser organizados em grupos. Va- mos conhecê-los?

Tema I

Variação de tempo

Como seu próprio nome diz, esse tipo de va- riação se refere à passagem do tempo. Ela também é chamada de variação dia- crônica.

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Variedades linguísticas do português

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Dia é prefixo grego que significa “Através de”. –crônica se relaciona com cronologia (a ordem dos acontecimentos no tempo). Dessa forma, quando falamos de variação diacrônica, nos referimos à variação “atra- vés” do tempo.

Percebemos a influência da variação diacrônica quando investigamos uma variável durante algum tempo. Isso é possível na escrita se tivermos acesso, por exemplo, a cartas ou documen-

se tivermos acesso, por exemplo, a cartas ou documen- tos antigos e os comparar- mos com

tos antigos e os comparar- mos com escritos atuais. Observe o trecho retirado do conto A cartomante, de Machado de Assis, escrito em 1882.

Machado de Assis – Seu nome de batismo era Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908). Foi poeta, romancista, drama- turgo, contista, jornalista, cronista e teatrólogo bra- sileiro, e era considerado o maior nome da literatura brasileira.

e era considerado o maior nome da literatura brasileira. Hamlet observa a Horácio que há mais

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explica- ção que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

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Língua Portuguesa I

Percebeu alguma diferença entre palavras utilizadas na- quela época e hoje? O que hoje é chamado coisa antigamente era cousa. Assim, por esse trecho, percebemos pelo menos uma mudança que se deu da época em que Machado de Assis escreveu o seu conto e os dias de hoje.

Variação diatópica

O termo topos, em latim, designa lugar. Assim, variação

diatópica é a variação que se dá pela diferença de lugares. Ela também é chamada de variação espacial. Vejamos alguns exemplos de variação diatópica:

A fruta que no nordeste conhecemos como tangerina, no

sul é chamada de mexerica ou bergamota. O mesmo acontece com a pinha, que no sul é fruta-do-conde e, em alguns lugares do nordeste, como no Ceará, é ata. A variação diatópica não é percebida somente nas diferen- ças entre palavras. É claro que assim é mais fácil de enxergá-la, mas há estruturas na língua que sofrem variação quando anali- samos os lugares em que são utilizadas. É o caso do artigo em frente a nomes próprios ou a pronomes possessivos, que vimos rapidamente no tópico 1.3.

Variação diastrática

A variação diastrática se refere aos estratos da sociedade.

Dentro da variação diastrática encontramos outros aspectos que também variam, pois a sociedade pode ser analisada sob diferentes visões. Vamos ver algumas:

Geracional

A diferença entre gerações ou entre faixas etárias distintas

é responsável por boa parte da variação que percebemos no

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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nosso dia a dia. Quantas vezes você já falou com um conhecido ou parente mais velho que você e percebeu palavras que não são mais usadas? Ou percebeu que eles usam mais algumas palavras do que você?

Gênero

A depender do fenômeno que estudamos, podemos ver que

homens e mulheres falam diferente. Mas essas conclusões acerca da variação de gênero devem ser analisadas levando-se em conta os posicionamentos de homens e mulheres na sociedade. Nas comunidades rurais, por exemplo, em que as mulheres tendem a

cuidar da casa e os homens, em sua maioria, trabalham fora e até mesmo em outras cidades, eles usam mais do que elas as variantes inovadoras (aquelas que começaram há menos tempo a aparecer na estrutura linguística). Já em comunidades urbanas, em que mu- lheres trabalham tanto quanto os homens, não acontece o mesmo.

O uso de nós e a gente é um exemplo disso. Na zona rural

é mais comum que os homens usem mais o pronome a gente do que as mulheres, porque essa é uma variante inovadora, mais encontrada nos grandes centros urbanos.

Escolaridade Muitas estruturas da norma padrão só são aprendidas na escola, porque a língua portuguesa que estudamos na gramática é bem diferente da língua portuguesa que usamos no nosso cotidiano.

Variação diafásica

Essa é a variação correspondente a diferentes tipos de registros, isto é, o modo como o falante adéqua sua fala para determinadas situações. Os exemplos estão o tempo todo à nossa volta. Quer ver?

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Língua Portuguesa I

Quando você está em casa, com seus familiares, como você fala? Em ambientes íntimos, não temos tanta necessidade de monitorar nossa fala o tempo todo: é nesse momento que utilizamos a fala informal ou distensa. Quando falamos informal- mente utilizamos gírias, não é mesmo? Agora imagine o seguinte: você foi chamado para uma en- trevista de emprego. Como você irá conversar com o seu futuro chefe? Você usará gírias? Como você irá tratá-lo? Em situações formais, todos nós procuramos ajustar nossa fala, utilizamos formas que não utilizaríamos nas situações informais. Esses são apenas dois exemplos de registro: o formal e o informal; e, no caso da situação que acabamos de ver, registro oral. Mas há muitos outros tipos de registro, tanto na fala quanto na escrita.

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Agora que você já conhece diversos tipos de variação, procure pensar em outros fatores sociais que podem modificar a maneira como se fala.

RESUMO

Tema I

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Variedades linguísticas do português

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Que bom! Você chegou ao fim do primeiro conteúdo. No percurso que traçamos, investigamos o mito da unida- de da língua portuguesa do Brasil e descobrimos que aqui não se fala só português. Muitas outras línguas, de línguas estrangeiras a línguas indígenas ainda vivem na fala de seus representantes. Ao aprofundarmos nossa visão sobre os conceitos de língua, linguagem, dialeto, dentre outros conceitos importantes, contribuímos para a reflexão crítica da língua. Esse com certeza é um dos objetivos que você alcançou ao finalizar sua leitura. Além disso, podemos entender um pouco mais de uma questão estudada há muito tempo e por muitos pesquisadores. Você agora pode responder a pergunta Por que as línguas mu- dam? com embasamento científico. Na jornada rumo ao estudo das línguas, é muito importante fugir do senso comum e buscar em estudos e na opinião dos pesquisadores as respostas para nossas dúvidas. A influência dos fatores sociais precisa ser levada em con- sideração quando falamos de mudança, variação e também de ensino da língua. A tarefa do educador vai além da reflexão sobre seu material teórico. O educador deve treinar seu olhar para a realidade linguística da sua comunidade e do seu aluno. Esse será um dos temas abordados no próximo conteúdo. Até lá!

2 Norma padrão

Esse tema trata dos aspectos relacionados à norma-padrão, aquela que foi escolhida como o “bom falar”. Iremos investigar como ela alcançou o status que tem hoje e quais os fatores que influenciam a sua imposição na sociedade.

2.1 A GRAMÁTICA TRADICIONAL

Antes de começarmos nosso estudo, leia a poesia de Oswald de Andrade apresentada a seguir.

Pronominais

Oswald de Andrade (1890-1954)

Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido

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Língua Portuguesa I

Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso, camarada Me dá um cigarro.

Essa poesia foi escrita ainda no início do século XX, e as obras de seu autor pertencem a uma escola literária chamada modernismo. Já nesse tempo – e esse era um dos objetivos de muitas das obras da época – alguns autores chamavam a aten- ção para a distância entre o que era imposto pela gramática e o que era realmente falado aqui no Brasil. Você também já deve ter percebido algumas diferenças entre o que é cobrado pelas gramáticas e o que é dito. Já que cada um de nós, em algum momento, percebeu toda essa diferença, como então a gramática tradicional ganhou o status que tem hoje? Vamos descobrir isso aos poucos, inician- do agora nossa leitura sobre a história da gramática. A gramática tradicional (ou normativa, pois descreve uma norma) tem sua tradição iniciada no século III a.C. na cidade de Alexandria, no Egito. Naquela época, muitos estudiosos da literatura clássica da Grécia, preocupando-se com a manutenção da língua grega resolveram descrever as regras gramaticais das grandes obras e dos autores clássicos. Esses estudiosos, chamados filólogos, fizeram isso com a intenção de compor um modelo para aqueles que quisessem es- crever obras literárias, pois àquela altura o grego já tinha passa- do por muitas alterações. Aliás, a palavra gramática significa em grego “arte de escrever”. Como seu objetivo era o de prescrever as normas para se escrever bem, a gramática excluía a língua falada do seu estudo. As gramáticas romanas eram baseadas nas gramáticas gre- gas. A gramática latina mais antiga conhecida hoje é a gramática

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de Varrão, do século I a.C., mas as mais importantes foram as de Donato (no século IV d.C.) e a de Prisciano (no século VI d.C.). As duas descreviam o latim clássico e foram usadas no estudo do latim durante a idade média, pois o latim era a língua da igreja e do ensino (LOBATO, 1986). No século XVI muitas gramáticas baseadas nas greco- romanas foram publicadas pelo mundo. Foi nessa época que surgiu a primeira gramática da língua portuguesa. Logo após outras foram escritas. Observe a seguir:

1536: Gramática da linguagem portuguesa, de Fernão de Oliveira; 1540: Gramática da língua portuguesa, de João de Barros; 1574: Regras que ensinam a maneira de escrever e a orto- grafia da língua portuguesa, de Pero Magalhães de Gândavo; 1576: Ortografia e origem da língua portuguesa, de Duarte Nunes de leão.

Fonte: BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. São Paulo: Parábola, 2004, p.46.

Quando o Brasil começou a ser colonizado, por volta de 1532, havia uma grande necessidade dos portugueses de se comunicarem com os indígenas e de serem entendidos. Na intenção de alcançar esse objetivo e favorecer a propagação do cristianismo no Novo Mundo, o padre jesuíta José de Anchieta publica a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Essa gramática reunia regras gramaticais de um grupo de línguas que hoje é denominado tupi. A partir de então foi criado o que se chamou tupi jesuítico. A gramática, que se tornou fundamental para a cristianização dos índios da costa, contribuiu para o desa- parecimento de muitas línguas indígenas.

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5 2 Língua Portuguesa I José de Anchieta (19 de março de 1534 - 9 de

José de Anchieta (19 de março de 1534 - 9 de junho de 1597) foi um padre jesuíta espanhol e um dos fundadores de São Paulo. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/

Jos%C3%A9_de_Anchieta

A gramática de José de Anchieta não foi a única

gramática da língua in- dígena do Brasil. Depois dela, em 1699, publicou-se

a Arte da língua brasileira da nação cariri. (MATTOS

E SILVA, 2004a)

Diferente do que acontece

atualmente, houve uma época em quem poucas pessoas tinham acesso às gramáticas, só as que sabiam ler e escrever, ou seja, a aristocracia. E como esse grupo detinha o poder político, definia o que era ou não bom na vida social. Hoje, chamamos de gramática tradicional – referida sim- plesmente como GT – o ramo dos estudos que se volta para os usos literários dos grandes autores e que se dedica somente à língua escrita. Apesar de antes ser uma obra que orientava a escrita, com o passar do tempo, a gramática passou a se im- por também como uma maneira de falar bem. Segundo essa tradição, os exemplos exposto pelos autores das gramáticas no Brasil – mesmo as muito atuais – são retirados de autores do passado ou portugueses, o que não condiz com as necessidades dos nossos alunos, sejam eles do nível fundamental, médio ou superior.

Um olhar crítico sobre a GT

Até agora, falamos bastante de como a gramática se cons- tituiu até os dias atuais e que obras desse caráter não refletem a norma usada pela sociedade. Portanto, para expor realmente essas inadequações, vamos ver três aspectos da língua portu-

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guesa do Brasil (dois sin- táticos e um morfológico)

e o que a GT fala sobre

eles. Esperamos que, ao fim dessa exemplificação, você possa começar a ver também outros pontos da GT dignos de reflexão.

Vamos começar com duas análises de conceitos desenvolvidos no âmbito da sintaxe. Primeiro exem- plo:

De que grupo da sin-

Você se lembra dos níveis da gramática? Dois deles são a sintaxe e a morfologia, e a eles pertencem os exemplos que daremos agora. Vamos revisá-los? Sintaxe: é o nível da relação entre as pala- vras ou entre as orações. Um item pode ser classificado como sujeito, por exemplo, por sua relação com o predicado. Morfologia: é o nível do estudo da estrutura, da formação e da classificação das palavras. Na morfologia estudamos as palavras isola- damente – mas em alguns casos precisamos consultar demais palavras para identificar uma classe de palavras.

taxe fazem parte o sujeito e o predicado de uma oração? De um grupo chamado Termos

essenciais. A definição de essencial é necessário ou indispensá- vel. Dessa forma, o sujeito e o predicado nos são apresentados como itens indispensáveis a uma oração. Agora, vamos observar

as seguintes construções:

Relampejou ontem à noite. Tem pouca gente na praça.

A própria gramática tradicional classifica essas orações como orações sem sujeito: por tratarem, a primeira, de um fe- nômeno da natureza (verbo relampejar) e, a segunda, de uma oração existencial (verbo ter em sentido existencial). No caso da segunda oração, a palavra gente é classificada como objeto do verbo ter. Ora, se o sujeito é um termo essencial (necessário e indispensável) da oração, como pode haver, dentro da gramática tradicional, a classificação oração sem sujeito?

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Segundo exemplo: Qual o conceito de sujeito que en-

contramos nas gramáticas tradicionais? Segundo Celso Cunha

e Lindley Cintra, autores da Nova Gramática do Português

Contemporâneo (2001), “Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração”. Observe as seguintes frases, apresentados por Perini (1989):

(3) Carlinhos corre como um louco. (4) Carlinhos machucou Camilo. (5) Esse bolo eu não vou comer. (6) Em Belo Horizonte chove um bocado.

Nas duas primeiras orações, o sujeito é Carlinhos. Na ter-

ceira, o sujeito é eu e, na quarta, não há sujeito (estamos falando novamente de um fenômeno da natureza). O que Perini pretende mostrar com essas orações é que, se pensarmos bem, a análise que determina os sujeitos das duas últimas orações que mostra- mos não são compatíveis com a definição ‘ser sobre o qual se faz uma declaração’. Os dois pontos que vimos se relacionam com a sintaxe, pois trataram da classificação e da conceituação do sujeito da oração. Falaremos no próximo exemplo de aspectos morfológi- cos da língua. Terceiro exemplo: Quando uma pessoa concorda com outra (e não importa em que assunto), é comum ouvirmos a pessoa falar “Concordo com você em gênero, número e grau”, não é mesmo? Essa fala faz referência à concordância nominal.

A GT nos diz que os nomes se flexionam em gênero, número e

grau, mas uma das características da flexão é a obrigatoriedade. Observe os exemplos:

(7) O gato preto entrou em casa. (8) A gata preta entrou em casa. (9) As gatas pretas entraram em casa.

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No exemplo (7) o termo gato é acompanhado por artigo e adjetivo. Esses dois termos que acompanham gato concordam com ele - ambos estão no masculino e no singular. No exemplo (8) temos artigo e adjetivo no feminino, e no exemplo (9) artigo e adjetivo estão no feminino e no plural. Essas flexões que apresentamos (gênero e número) são obrigatórias na norma padrão. Vejamos agora outras duas frases.

(10) As gatinhas pretas entraram em casa.

Essa frase é perfeitamente aceita por qualquer falante e também pela gramática normativa, apesar de não ter sido feita a “concordância” de grau no adjetivo preta. Em outras palavras, não é obrigatório concordar As gatinhas com o adjetivo preti- nhas; fazemos essa concordância se quisermos. O primeiro estudioso a discutir a questão do grau no por- tuguês do Brasil foi Mattoso Câmara Jr., em 1970. Depois dele muitos outros deram suas contribuições à discussão, no entanto, as gramáticas tradicionais continuam apresentando o grau como flexão. Esses foram apenas três exemplos de como a gramática tradicional apresenta regras que podem ser facilmente contes- tadas.

Estudo normativo versus estudo descritivo

Muitos aspectos distinguem o estudo normativo, que dire- ciona a gramática tradicional, do estudo descritivo, aquele que, como o próprio nome diz, descreve as características da língua. Aqui, apontamos os principais.

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Estudo normativo

1. Observa um padrão ideal (o que a língua deve ser);

2. Prescreve: estabelece regras do bom uso;

3. Baseia-se na noção do “correto”. Define o que é próprio

e o que não é da norma padrão;

4. Objeto de estudo: norma padrão;

5. Considera a língua um objeto homogêneo e unitário;

6. Voltada para a língua escrita (tradição literária);

7. Não expõe necessariamente a sua metodologia e princí-

pios teóricos;

8. Bases: valores políticos, ideológicos e culturais.

Estudo descritivo

1. Observa a língua objetivamente (o que a língua é de fato);

2. Descritivo: não pretende interferir no comportamento

dos falantes;

3. Não trabalha com a ideia de “correção”. Todas as normas

de uso da língua são consideradas igualmente;

4. Objeto: todas as normas da língua;

5. Reconhece a heterogeneidade da língua: a variação é

própria da atividade linguística;

6. Voltada para a língua oral, a língua falada na atualidade;

7. Explicita o método através do qual apreende o seu objeto

e a teoria que orienta sua análise;

8. Bases: neutralizar influências políticas e ideológicas,

orientando-se por critérios exclusivamente linguísticos.

Fonte: esquema retirado de apontamentos de aula – Instituto de Letras, UFBA,

2001.

Guarde bem essas distinções, pois quando dermos prosse- guimento ao nosso curso elas serão muito necessárias.

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Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

Procure lembrar-se de fatos que você estudou na gramática tradicional e que geraram dúvidas. Analise-os com olhar crítico e procure perceber o que levou você a ter dificuldade.

2.2 NORMAS LINGUÍSTICAS

Vimos no tópico 1.2 desse livro que norma, para Eugênio Coseriu, faz parte da tríade sistema, norma e fala. Nesse con- texto, norma foi definida como hábitos linguísticos de um grupo social, características que podem distinguir os seus falantes dentro da comunidade. Vimos também que esse termo se baseia na observação da fala, ou seja, não é diretamente observável, como a fala. Há muito ainda para se falar de norma. E para estudarmos a língua portuguesa do Brasil, devemos aprofundar nossa visão sobre outros termos relacionados com essa palavra que iremos ver muito ainda. Você já ouviu falar, por exemplo, de norma cul- ta? E de norma-padrão? Sabe o que elas representam em nossa sociedade? Vamos desvendar todos esses mistérios agora. O termo norma tem dois significados diferentes; esse signi- ficado descobrimos quando analisamos atentamente o contexto em que a palavra é empregada. Norma pode se relacionar com o adjetivo normal, quando significa algo frequente ou habitual. Ex.: No século XXI, ter um carro é normal. Norma pode significar também regra; nesse caso, se relaciona com o adjetivo normativo. Assim, significa algo que segue um ideal, ou que segue uma regra. Ex.: Para o convívio social, respeitamos muitas normas. No âmbito da linguística moderna, podemos definir norma como o uso comum de formas da língua por determinados

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grupos sociais e também como um fator de identificação de um grupo. É comum sabermos de onde uma pessoa vem, por exemplo, pela sua fala, ou até mesmo julgarmos o falante como escolarizado ou não. Nossa sociedade, como é diversificada, tem inúmeras normas. As normas, contudo, não são inatingíveis; elas permitem uma troca de influências, algo como um intercâmbio cultural (FARACO, 2002). Dentre as normas existentes no Brasil, aqui um pouco do que pode ser dito sobre norma-padrão, norma culta e normas populares. Desde já, é importante termos bem gravadas as definições de norma-padrão e norma culta, pois esses dois termos são constantemente confundidos. Norma-padrão é a norma prescrita pelas gramáticas tra- dicionais. Essa norma teve como modelo a língua escrita de Portugal. Muitas pessoas acham que o modelo foi a língua falada de Portugal, contudo isso não pode ser considerado. Vamos pôr em prática o que vimos em itens anteriores: toda língua é heterogênea e varia, dessa maneira, toda língua tem inúmeras normas. Por que, então, o português de Portugal seria diferente? A língua falada em Portugal possui tantas variantes linguísticas quanto a língua falada aqui; seria necessário escolher uma só norma e descrevê-la – e isso leva muito tempo, pois os estu- dos de língua falada são bem diferentes dos estudos de língua escrita. Precisamos de tempo para colher dados, encontrar as ocorrências de cada aspecto que será estudado e descrito e analisá-las. Em resumo: é um trabalho que exige além de tempo uma base científica muito confiável. Não se pode descrever uma língua baseando-se somente em impressões ou no “achismo”. A norma culta diz respeito às estruturas usadas por um determinado grupo social; segundo Faraco (2002), o grupo dos que se ligam de forma mais direta às atividades de escrita e

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que usam essa norma nas situações mais formais. No caso de algumas pesquisas no âmbito da linguística moderna (como é

o caso do projeto NURC, do qual falaremos mais tarde), norma

culta é a norma daqueles que atingem o patamar mais alto de escolaridade na nossa sociedade: o nível superior completo. Apesar de ser chamada norma culta, isso não significa que ela se iguale à norma padrão. Há uma grande diferença – um abismo, diriam alguns estudiosos – entre essas duas normas. Para a norma

padrão a língua é estática e homogênea; a norma-culta, visto que

é utilizada também na oralidade, sofre constantes mudanças. Aliás, ainda não se conhece exatamente a norma culta do português do Brasil. Para que ela seja conhecida em todos os seus aspectos será necessário muito tempo ainda. Muito tem sido feito por diversos estudiosos interessados em esclarecer a nossa realidade linguística: já foram publicados cinco volumes da Gramática do Português Culto Falado no Brasil, resultado de vinte anos de pesquisa. Mas atenção: o fato de utilizarmos o termo norma culta NÃO significa que exista uma norma dos não-cultos, uma “nor- ma inculta”. Todos os termos de que falamos aqui deverão ser usados com consciência linguística, dessa forma não podemos afirmar que há falantes incultos ou que sabem menos da língua portuguesa. Todos os falantes têm conhecimento de sua língua (falaremos mais sobre isso quando tratarmos a questão do pre- conceito linguístico).

Guarde bem essa diferença! Norma padrão: norma prescrita pelas gramáticas tradicio- nais. – É idealizada e representa o que deve ser dito.

Norma culta: conjunto de estruturas usadas pelo grupo social que se liga de forma mais direta às atividades de escrita. - O que é realmente dito.

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Já sabemos um pouco de como a gramática tradicional foi criada. Mas por que será que as suas regras, sendo tão diferentes das regras do nosso falar, se tornaram modelo ideal da nossa língua? Maurizzio Gnerre (1985), no primeiro capítulo do livro Linguagem, escrita e poder, nos fala do percurso histórico pelo qual passou a norma-padrão. Na Idade Média, as comunicações escritas eram feitas em latim. Com o passar do tempo, a política e a cultura exigiram que uma variedade linguística fosse asso- ciada ao poder da escrita, numa intenção de afirmar a cultura da região. A preferência por uma ou outra estrutura se deu pela importância que tinha o grupo social que a utilizava. As variedades faladas então tiveram que se adequar ao modelo do latim para passarem a ser escritas. Passaram a ser usadas na segunda metade do século XV, associadas às regiões economicamente mais fortes. No caso de Portugal e da Espanha, começaram a ser utiliza- das no fim do século XVI. O uso da própria língua em comunica- ções escritas era ainda mais necessário, pois essas duas nações passavam pelo expansionismo ultramarino. Como o Brasil foi colônia de Portugal até 1822, seria normal que seguisse a norma lusitana até o ano da independência. Para que isso acontecesse, muitos esforços foram necessários. Um dos mais marcantes e decisivos para a história linguís- tica do nosso país aconteceu em 1757. Nesse ano, o Marquês de Pombal, então primeiro ministro português, proibiu o ensino de qualquer língua que não fosse a portuguesa. Essa atitude visava contribuir para a difusão da língua portuguesa no Brasil, pois até então as línguas mais faladas eram o tupi e o tupinambá, língua indígenas aparentadas. O ensino e a catequização dos índios eram feitos com a ajuda das línguas indígenas, graças aos es- forços do Padre José de Anchieta, que escreveu a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Além disso, a língua geral

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de base tupi era a língua materna, isto é, a primeira língua de quase toda população que se desenvolveu na região do estado de São Paulo. O que se pode perceber é que há muito tempo se associa língua e poder. O Brasil, na mente não só dos colonizadores, mas também da reduzida elite, não poderia ser conhecido como uma terra em que se falava língua indígena. Era mais apropriado que o Brasil fosse associado a uma imagem de civilização, e isso seria possível se seus habitantes falassem a língua dos civilizadores – uma língua europeia e mais bem vista que as línguas dos nativos. Já falamos da norma-padrão e da norma culta, de como diferenciá-las e de como são tratadas hoje. Você deve estar se perguntando “E as normas populares? Quando aparecem nessa história?” Bem, as normas populares aparecem bem no início. Nos primeiros séculos da história do Brasil, dois polos de comportamentos linguísticos bem diferentes se destacavam: de um lado, uma pequena elite colonial (de comportamento linguís- tico conservador); e do outro, o polo das camadas populares, em que o português era modificado em decorrência do seu contato com as línguas indígenas e africanas. Enquanto a elite colonial se voltava para a língua e a cultura da metrópole, o português era aprendido pelas camadas populares sem ação da escola, que, como já mencionamos, era restrita às classes altas (LUCCHESI,

2001).

Durante o período colonial, a maior parte da população migrou para o interior do país. A elite estava restrita a peque- nos centros urbanos localizados no litoral. No interior, a língua portuguesa convivia com variedades da língua geral de base tupinambá, e, depois de algum tempo, com predominância da mão de obra escrava no Brasil, com muitas línguas africanas. Somente no fim do século XIX, quando o processo de industrialização e urbanização do país se intensifica, a situação sócio-histórica e demográfica é profundamente modificada. A

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grande população rural se dirige para as zonas urbanas e se dá um intenso processo de urbanização do país. Enquanto isso, no sul do país, imigrantes de vários países como Alemanha, Polônia e Itália, estabeleciam-se em núcleos homogêneos, em que só havia pessoas da mesma etnia. Mas no estado de São Paulo, que recebeu o maior número de imigrantes,

eles não se organizaram em colônias; esses emigrantes foram inseridos na base da pirâmide social. Dessa forma, o modelo linguístico que eles tinham era do português popular (utilizado pelas camadas populares da sociedade). A expansão da mídia e a popularização dos meios de co- municação como rádio e televisão, com o tempo, começaram

a proporcionar às camadas mais baixas da sociedade acesso à

norma culta. O mesmo se deu com a vulgarização do sistema de ensino. Mas, isso não foi suficiente para que todos conhecessem

a norma culta. O ensino foi popularizado, mas era muito precário, além disso, os professores não tinham o preparo necessário para lidar com a variação na fala dos alunos.

Dica: Leia o texto “Nois mudemo”, de Fidêncio Bogo, dis- ponível no AVA. Apesar de ser um caso fictício, não é difícil imaginar que essa história já tenha acontecido muitas vezes, não é?

Assim, enquanto de um lado de nossa sociedade, uns sempre se preocuparam com a norma-padrão de base lusitana, outros aprendiam o português somente em contatos rápidos com os falantes dessa língua e sem a influência da escola. As normas populares foram tomando a configuração que têm hoje após um longo processo. Não imagine que antigamente todos no Brasil falavam como se fala em Portugal. Muito pelo contrário. As diferenças entre as normas daqui e as de lá sempre foram muito grandes. Imagine um território com a extensão do

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nosso país, em que no início do processo de colonização só contava com poucos centros urbanos de população europeia. Como seria possível difundir a língua portuguesa entre todos os

indígenas? Não era possível! Por isso José de Anchieta optou por usar a língua tupi para catequizar os indígenas.

E quando a mão de obra africana veio para cá, a situação

não mudou. Não era possível que todos os milhões de escravos negros trazidos para cá aprendessem a língua portuguesa perfei- tamente. Após a abolição da escravatura, foram eles, integrados às camadas populares, que difundiram a língua portuguesa pelo

país, pois a maioria dos índios havia há muito tempo sido exter- minada (MATTOS E SILVA, 2004c).

A maneira como a norma popular tomou a forma que tem

hoje (sem ação da escola ou pelo contato entre povos) não a desmerece em nada. Ela é tão legítima ou boa quanto as demais normas da nossa sociedade. Esse assunto é muito vasto. Por enquanto fizemos somente uma prévia de nosso futuro estudo, pois teremos muito tempo ainda, em outras disciplinas, para conhecer bem a fundo todos os fatores de formação das normas do Brasil.

Ainda há muito o que ser dito quando o assunto é história da língua portuguesa do Brasil. Nem tudo pode ser explicado dentro dessa disciplina. Se você quiser saber um pouco mais sobre a realidade linguística brasileira e a constituição histó- rica da nossa língua, acesse o site: www.vertentes.ufba.br

Chegamos ao fim de mais um conteúdo! E ainda temos muitas descobertas e novas análises pela frente. Descanse um pouco e se prepare para, no próximo conteúdo, desconstruir uma noção muito antiga e que atrapalha muito o professor e o aluno: a noção de erro.

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Língua Portuguesa I

Texto complementar

Aula de Português

A linguagem

na ponta da língua, tão fácil de falar

e de entender.

A linguagem

na superfície estrelada de letras, sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,

e

vai desmatando

o

amazonas da minha ignorância.

Figuras de gramática, esquipáticas, atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé,

a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Fonte: Carlos Drummond de Andrade, Obra Poética, 7º vol.

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Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

Você, assim como Drummond, também já viu a língua por- tuguesa como duas línguas diferentes? Agora que você conhece um pouco mais sobre as normas linguísticas, compartilhe o conhecimento adquirido com seus colegas no AVA e com outras pessoas.

2.3 A CONSTRUÇÃO DA NOÇÃO DE ERRO

Para você, quando falamos de língua portuguesa, o que é erro? Leia o diálogo abaixo e reflita um pouco sobre ele antes de prosseguirmos esse novo conteúdo.

pouco sobre ele antes de prosseguirmos esse novo conteúdo. Sabemos bem que, após a leitura dos

Sabemos bem que, após a leitura dos conteúdos anterio- res, sua visão de erro não é a mesma visão que você poderia ter antes. Você já foi apresentado aos conceitos de variação e mudança, além de já ter lido sobre os tipos de variação social. Então, como sabemos que agora você é um aluno mais esclare- cido quanto a alguns fatores da língua, vamos reformular nossa pergunta: Para o senso comum, o que é erro? Grande parte das pessoas acredita que erro é o que vemos nas tirinhas do Chico Bento, por exemplo. Que a personagem do

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Língua Portuguesa I

Mauricio de Souza fala assim (pr’eu e drumi) porque não estuda ou, pior, porque não sabe falar português direito. Na maioria

das vezes, as pessoas acreditam que diferença na pronúncia de algumas palavras ou na escrita são coisas de quem “fala tudo errado”, não é? Mas quando consultamos os estudos linguísticos realizados na área, tudo muda de figura. Os estudos modernos seguem uma direção bem distinta do senso comum ou dos estudos normativos no que diz respeito

à questão do erro. Na verdade, para os estudos linguísticos,

erro não existe – existem sim diferenças nos usos das regras das gramáticas ou, ainda, regras gramaticais diferentes para as diferentes normas. Observe os exemplos.

(11) Você vai para a feira hoje? (12) Você vai na feira hoje?

As duas frases apresentadas são igualmente aceitas pelos falantes de língua portuguesa, mas só o exemplo apresentado em (11) é considerado correto pela gramática tradicional, pois, segundo suas regras, o verbo ir é intransitivo e vem acompanha- do de adjunto adverbial de lugar. As preposições que indicam direção, para a gramática tradicional são a e para. O na (formado de preposição em + artigo a) deve ser indicado para tempo ou meio.

Mas, se o exemplo de (12) é tão aceito quanto o de (11), por que é considerado erro? A resposta é porque a gramática

tradicional segue outras regras para a construção das sentenças,

e as regras que orientam a língua falada são bem diferentes e

mais flexíveis. O que acontece é que não podemos acreditar que a lín- gua escrita é melhor do que a língua falada. O falante domina perfeitamente a sua língua materna e não deve ser um livro a determinar o que pode ou não ser dito.

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Erro é somente o que não atende às necessidades comuni- cativas dos falantes, ou seja, o que impede que a comunicação se concretize. Observe adiante o que, segundo os estudos lin- guísticos, seria um real exemplo de erro no exemplo (14).

(13) Ele é que eu não vou abraçar. (14) *Ele é que não que eu vou abraçar.

Enquanto uma frase como a mostrada em (13) é aceita e recorrente no português do Brasil, nenhum falante aceitaria o exemplo de (14). Isso acontece porque o falante tem intuição do que pode ou não ser dito e também tem consciência de como os termos devem se organizar para produzir sentenças que serão aceitas pelos outros falantes. Você percebeu o asterisco antes do exemplo (14)? Senten- ças bem formuladas e aceitas pelos falantes de uma língua são classificadas pela Linguística como gramaticais. Esse termo diz que foram respeitadas as regras da gramática da língua (não o livro, mas o conjunto de regras para o funcionamento da língua e que cada um de nós domina). Quando essas regras não são respeitadas, chamamos a

sentença de agramatical e utilizamos o asterisco para sinalizá-la.

O falante pode, com exatidão, identificar enunciados gramaticais

e agramaticais, até mesmo os que nunca passaram pela escola. Voltando à questão do erro, Marcos Bagno (2004, p. 28) nos alerta que erro de ortografia não deve ser considerado erro de português. A ortografia oficial é resultado de convenções políticas e de negociações. Nada na palavra define que ela deva ser escrita somente com essa ou aquela consoante. Assim, quando um aluno em idade de alfabetização escre- ve CAZA (para casa) ou FAMILHA (para família), por um lado, ele está tendo êxito em sua tarefa. Se na palavra casa o S é realizado com o som de Z, o aluno escreveu o que para ele representava

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Língua Portuguesa I

6 8 Língua Portuguesa I uma chance maior de acer- tar a escrita – o Z.

uma chance maior de acer- tar a escrita – o Z. O mesmo acontece com FAMILHA. Muitas pessoas pronunciam o grupo LIA como LHA. O aluno só transcreveu o que reconheceu na sua fala – o som do LH.

Como você já deve ter per- cebido, as letras do alfabeto português podem representar mais de um som da língua. Acompanhe o quadro abaixo em que apresentamos as consoantes do alfabeto e alguns exemplos de suas realizações.

do alfabeto e alguns exemplos de suas realizações. É claro que, mesmo que o professor conheça

É claro que, mesmo que o professor conheça a razão pela qual seu aluno preferiu determinadas formas, ele não deve deixar que as palavras continuem sendo escritas de maneira distinta da que prescreve as regras de ortografia. A questão é o modo como esse professor deve orientar o aluno em sua escrita.

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Também na fala estamos sujeitos a “erros”, principalmente pela nossa capacidade de associação e pela identificação de regras. Esses processos são básicos para qualquer criança em fase de aprendizagem da língua, até os mais novos. Admita a seguinte situação: A mãe de uma criança em

fase de aprendizado da língua pede para que seu filho junte os brinquedos deixados pela sala. A mãe pergunta “Você fez o que eu pedi?”; e a criança responde: “Eu fazi”.

A criança usou uma forma verbal que, para nós, não é pos-

sível com o verbo fazer, pois esse verbo é irregular e apresenta a

forma fiz para a primeira pessoa do singular no pretérito perfeito. Mas por que a criança escolheu essa forma?

É aí que entram a identificação de regras e a associação

de formas. A criança escuta falarem Eu escrevi, Eu li, Eu bebi e

tantas outras formas regulares dos verbos. Para ela, nada mais natural que o verbo fazer também possa se flexionar como os demais. Com o passar do tempo, a criança identifica as exceções à regra e passa a flexionar o verbo da maneira como os adultos fazem. Aplicar os velhos conceitos de “certo” e “errado” não incentivam o aluno, pois ele fez suas escolhas na tentativa de escrever o que pediram a ele – querendo acertar. O professor deve explicar ao aluno que, na variedade de língua que ele está aprendendo na escola, a grafia das palavras é outra, mas sem nunca desmerecer o esforço do seu aluno.

Os “erros” são sistemáticos

Bagno (2004, p. 27) nos afirma que os supostos “erros” são sistemáticos, isto é, seguem uma lógica quanto às regras gramaticais. É isso que faz com que muitas pessoas digam que “alguns erros são comuns”: se eles fazem parte de regras da nossa língua, vão aparecer com frequência.

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Língua Portuguesa I

Vamos ver mais exemplos do que é considerado erro pela GT, mas que é perfeitamente aceitável na fala por fazer parte das possibilidades da língua.

(15) Eu a vi ontem. (16) Eu vi ela ontem. (17) Eu vi ontem.

Para a GT, das duas opções acima somente a opção (15), em que há o pronome oblíquo a, é correta. As outras duas – (16), com pronome pessoal, e (17), com pronome oculto – são classi- ficadas como incorretas. O caso do uso do pronome pessoal, em (16), é ainda pior: essa variante é estigmatizada. Você já ouviu a frase “Vi ela é uma rua estreita”? As pessoas se utilizam dela para repreender o uso do pronome pessoal nesse contexto. Já para os estudos linguísticos as três frases são corretas e tem justificativas para serem utilizadas. A escolha pelo uso do pronome oculto, em (17), acontece porque o falante não quer parecer pedante usando a opção (15) e também não quer sofrer preconceitos usando a opção (16). Por causa disso, as pesquisas publicadas sobre esse fenômeno (o uso de pronomes para subs- tituir o objeto direto) apontam para um uso muito maior da opção (17) na norma culta, ou seja, uso maior do pronome oculto.

O que é o preconceito linguístico?

Preconceito linguístico é o que sofrem os falantes de nor- mas populares por parte daqueles que dizem deter a norma culta ou o conhecimento da norma-padrão.

Sugestão de leitura

Fonte: http://marciopereira.

site50.net/web_images/precon-

ceito_linguístico.jpg

Tema II

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Norma padrão

71

ceito_linguístico.jpg Tema II | Norma padrão 71 Preconceito Linguístico : o que é, como se faz.

Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. Nesse livro, Marcos Bagno esclarece as diferenças entre gramática normativa e língua. O autor consegue, com linguagem clara e objetiva, revelar as bases do preconceito que sofrem as variantes populares da língua.

Texto complementar

Deslizes de celebridade

Começo pelo óbvio, e gostaria que esta posição ficasse clara:

erro de grafia é erro. As gramáticas e todos os instrumentos que se destinam a assegurar o cumprimento das regras de grafia - que, no nos- so caso, são estabelecidas em lei - explicam quais as regras a seguir:

quando se usam maiúsculas, hífens, ss, sc, xc, cx, h, g, j, til, cedilha, etc. Portanto, quem escreve “sena”, referindo-se à cena de filme, novela ou peça teatral, cometeu um erro.

72

Língua Portuguesa I

Dito isso, é preciso pensar sobre o que significa cometer um erro, em geral considerado evidência de pouca instrução, mas quase nunca analisado criteriosamente, para entender o quanto a relação

entre letras e sons é complexa e quais os fatores que os condicionam.

E sobre a verdadeira mania (escolar e social) que é a caça aos erros.

Mais cruelmente, a caça às pessoas que cometem lapsos previsíveis e são tachadas de ignorantes ou disléxicas. São numerosas e demoradas as discussões sobre grafia. As comissões de especialistas consomem décadas para produzir uma proposta de sistema de escrita. Por que será que quase analfabetos se sentem autorizados a julgar a capacidade de pessoas que cometem erros ortográficos, sem demonstrar competência para a análise do sistema de escrita, análise que poderia explicar a natureza e a razão do erro, mostrando, muitas vezes, que se trata de problema banal, que uma canetada pode resolver? Consideremos o caso Sasha: a filha de Xuxa informou, pelo microblog twitter, que ia filmar uma “sena”. Uma multidão de seguidores saiu a campo desqualificando a inteligência da menina pela troca de c por s. [ ] Mas não é erro? É. Mas não grave. A avaliação da gravidade deve considerar um conjunto de critérios: idade e grau de escolaridade do escrevente; complexidade da relação som/letra; frequência da palavra; interferência da pronúncia (localidade, idade, etc.). E nem menciono as possibilidades de segmentação alternativas que ocorrem em função de outros fatores (como juntar “ser humano” ou “se acha” em “serumano”

e “siacha”, casos explicáveis!). Um termo como “cena” não oferece dificuldade. Bem menos que “exceto”, “salsicha” ou expressão que antes tinha, agora não tem ou talvez continue tendo hífen. O erro de Sasha não ocorre em segmento com pronúncias variáveis (“menino” pode provocar grafias como “mini- nu”; “maldade” vira “maudade”). Como está filmando (talvez o erro seja este!), o termo “cena” deveria ser-lhe familiar (mas nunca se sabe!). Ou seja: a palavra é fácil, boa para condenar o escrevente, para divertir-se

Tema II

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Norma padrão

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com seu erro, mesmo se ele for uma criança. [ ] Nossa cultura dá valor excessivo à grafia, elevada a símbolo de

domínio da língua. Mas, a rigor, erro de grafia nem é erro de português.

É só de escrita, desobediência a uma lei que não é lei da língua, tanto

que pode ser alterada pelo governo. É de natureza diferente dos erros de sintaxe ou de semântica. Graves mesmo são textos precários ou sem sentido. Se consultarmos textos de várias épocas, veremos que são grafados de maneiras diferentes. Poderíamos tratar os textos grafados de forma “ilegal” da forma como tratamos os de outras épocas: como textos que precisam de revisão. O erro de grafia não é, por si, prova de falta de domínio da escrita. É sintoma, não se pode duvidar. Mas não é

a verdadeira doença. A consulta a livros que analisam escritas populares mostra que

a diversidade de escrita não impede o exercício de muitas das funções

da linguagem. Em especial na escola, seria necessário clareza sobre as razões que levam a erros de grafia. Há razões linguísticas para eles. Mui- tas são ligadas à inconsistência do próprio sistema ortográfico (como

diversas grafias do fonema /s/). Outras são ligadas à variação linguística (como as que levam a ter problemas para decidir entre “mau” e “mal”). Mas há diversas interpretações de “unidades de fala”, cuja análise está longe de ser óbvia a quem não domina o léxico erudito e referências culturais mais sofisticadas do que as disponíveis na escola e na TV. Os professores deveriam ser capazes de entender de onde vieram os erros. Assim, seria mais fácil decidir como proceder para evitá-los. Se um aluno escreve “táquissi” ou “séquisso”, não basta rir ou mandar corrigir. Seria bom compreender que se trata de fato relativo à pronúncia de sílabas terminadas (na fala) em oclusivas (sek-so, tak-si), que são acrescidas de vogal (e que explica porque dizemos “futebol” e “esnobe”, não “futbol” e “(e)snob”).

Fonte: POSSENTI, Sírio. Deslizes de celebridade. Disponível em: http://

revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11852

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Língua Portuguesa I

Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

Como você acha que deve ser o tratamento da variação linguística em sala de aula? Agora que você já leu um pouco mais sobre a linguística, procure pensar em como o estudo da variação pode auxiliá-lo em seu trabalho como professor. Exponha suas reflexões também no AVA.

2.4 POR QUE ENSINAR GRAMÁTICA?

Em verdade, quando falamos de ensino da gramática tra- dicional, o problema não é o ensino da gramática, e sim, como salienta Perini (2000), a maneira como ele é aplicado: uma ma- neira que prejudica os alunos. Perini (2000), em sua Gramática descritiva do português,

desenvolve a ideia de que ao invés de levar os alunos a escrever

e ler melhor, essas capacidades acabam senso pré-requisitos

para o estudo da gramática, ou seja, é preciso primeiro saber ler

e escrever bem para estudar a gramática. Para o autor, é muito

difícil fazer com que um aluno fraco melhore o seu desempenho apenas com estudo das regras gramaticais. Ensinar a gramática com o objetivo de “corrigir” o aluno, valendo-se de nomenclaturas como certo e errado, é um pro- cedimento há muito tempo usado pela tradição escolar. Esse procedimento acaba desenvolvendo no aluno a ideia de que nem ele nem ninguém da sua família ou seus pais falam corretamente. Pois, se o professor censura o modo de falar do aluno e diz que está errado, e se os pais do aluno e a sua comunidade falam assim como ele, para o professor todos têm problemas com a língua portuguesa, não é? Como já vimos, essa questão do preconceito linguístico não passa de uma ideia atrasada e preconceituosa, que a maioria

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dos professores de ontem (e também de hoje) permitem que seja difundida. Mas, se o ensino da gramática tradicional é assim tão pre-

judicial, a solução seria somente abolir esse ensino das escolas, não é? Não! Retirar o ensino da gramática das escolas resolveria

o problema parcialmente, mas criaria outro muito maior. Essa

posição é assumida, por exemplo, por Mattos e Silva (2004a), que defende que deixar de ensinar gramática é algo incompatível com a sociedade em que vivemos e com as suas exigências. Ao retirarmos da escola qualquer possibilidade de acesso do aluno à norma padrão, estaríamos ajudando a afastar dos nossos alunos a possibilidade de conhecimento de outras nor- mas e, principalmente, da norma mais aceita pela sociedade.

Além disso, iríamos fortalecer o preconceito linguístico, derivado do fato de haver pessoas com mais conhecimento das normas cultas do que outras. Então, como encontrar uma solução para essa questão, se não podemos abolir o ensino da gramática tradicional das escolas, mesmo sabendo que os métodos empregados nela não favorecem conhecimento real da nossa língua? Esse é o questionamento de diversos estudiosos, entre eles Mattos e Silva (2004a), que levanta também outra questão: como operar uma transformação no ensino da língua se não há material pedagógico adequado (baseado em métodos linguísticos atuais) para o ensino básico? Para a autora, são três os caminhos a serem tomados para que possamos sair dessa situação:

a) seria necessário que todos os professores de língua tivessem um bom nível de preparação linguística;

b) deveria haver materiais pedagógicos que dessem supor-

te adequado para o ensino da língua; e

c) os linguistas deveriam se dedicar a pensar na questão do

ensino de língua.

76

Língua Portuguesa I

Nesses termos, Mattos e Silva desenvolve o argumento de que a língua falada deveria servir “de ponto de partida em

direção ao treinamento das variantes dialetais standart”. Ou seja,

o ensino deveria começar com a fala e com a variedade do aluno

e então partir para as variantes cultas da língua, mais aceitas pela sociedade. Por hora, enquanto não se reformulam os materiais de que dispomos, o que se discute muito é como abordar a gramática tradicional usada em sala da aula. A metodologia largamente empregada hoje desencoraja o aluno a aprofundar seus estudos em língua portuguesa. Marcos Bagno (2004) defende que o professor deve fazer o ensino crítico da norma-padrão, mas para isso é preciso ter um bom conhecimento da realidade linguística do Brasil. Ao invés de apresentar ao aluno um único modelo de língua, o professor

e a escola pode esclarecer ao aluno que a realidade linguística

do país é, nas palavras do autor, multifacetada, complexa e rica. Esse ensino crítico, defendido por Bagno (2004, p.59-60) e muitos outros autores, conduz o professor a questionar a norma-padrão e reconhecê-la como a forma mais prestigiada pela sociedade, mas nem por isso melhor ou pior. Stella Maris Bortoni-Ricardo (2005, p. 130) defende o papel relevante da sociolinguística no processo educacional. Para a autora, é preciso “contribuir para o desenvolvimento de uma

pedagogia sensível às diferenças sociolinguísticas e culturais dos alunos”. A autora, ao longo do livro “Nós cheguemu na escola, e agora?” (2005, p. 128), trabalha com o termo sociolinguística educacional, usado para definir um conjunto de propostas e pesquisas sociolinguísticas que tem o objetivo de contribuir com

o processo educacional e principalmente com o ensino de língua portuguesa.

Tema II

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Norma padrão

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Assim, um dos princípios da sociolinguística educa- cional é o de considerar a influência da escola nos estilos formais da língua (e não na fala mais espontânea). A questão da adequação do conteúdo à realidade dos alunos também exige uma mobilização por parte dos educa- dores. É necessário ainda que muito esforço seja empreendi- do por parte de educadores com o objetivo de aproximar os objetos de ensino da realidade do aluno. Você já viu alguma cartilha utilizada na alfa- betização de crianças e adultos? Agora reflita sobre o que vamos tratar. Você acha ade- quado que a mesma cartilha utilizada na alfabetização de crianças seja utilizada em qualquer lugar do país?

de crianças seja utilizada em qualquer lugar do país? Algumas cartilhas trazem, para exemplificar o som

Algumas

cartilhas

trazem,

para exemplificar o som da con- soante M, a imagem de um morango. A criança pode, sim, associar a letra ao som inicial da palavra, mas na realidade de uma criança do sertão, por exemplo, não existem morangos. Nada impede que as crianças sejam apresentadas a novos itens lexicais, mas a utilização de figu- ras conhecidas seria uma questão a menos para ser superada - a aprendizagem seria facilitada. Por que não apresentar a consoante como a iniciante de moringa, por exemplo?

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Língua Portuguesa I

Texto complementar

Quando “mais” não é “melhor”

Discute-se muito (ainda) sobre ensino de gramática na escola. Em geral, entende-se por ensino de gramática um tipo de trabalho que deveria produzir como resultado que “melhorem” a fala e a escrita dos atingidos. Quando se diz que alguém não sabe gramática, em geral se quer criticar o fato de que alguém diz “menas gente”, “as pessoa” ou “haviam pedidos”. É claro que casos assim têm relação com gramática, mas, tecni- camente, em sentido mais ou menos indireto, se considerarmos o que se estuda de fato sob esse rótulo - tanto na escola fundamental quanto nos cursos de pós-graduação. Nesses casos, mais do que corrigir, trata-se da análise de fatos, com base em uma metalinguagem (sujeito, predicado, passiva, infinitivo, etc.) e por meio de operações de análise, de dissecação (sublinhe o sujeito, qual a função sintática de, como se distingue uma oração explicativa de uma restritiva). Seria proveitoso dividir mais ou menos claramente a análise gramatical da prática linguística que deve seguir regras. Esta é regida por normas que são gramaticais, por um lado, mas também sociais ou históricas, como é o caso claro das regras e avaliações relativas a construções em desaparecimento e suas substitutas. Bom exemplo são os usos e as análises do verbo “assistir”:

considerado só seu uso, não há muito sentido em “defender” as es- pecificações que gramáticas e dicionários fornecem, já que médicos não assistem mais (eles tratam, operam) ninguém mais assiste (mora, trabalha) na rua tal. Em compensação, assistimos os jogos e os jogos são assistidos.

Regras reais Se aceitássemos claramente tal divisão, poderíamos ter aulas de gramática que analisassem quaisquer construções (e as “erradas” são as que mais permitem aprender gramática, de fato). Poderíamos com- parar, por exemplo, regras de concordância em uso efetivo; as diversas

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Norma padrão

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formas de orações adjetivas usadas de fato; o sistema pronominal de hoje e do passado; ou a conjugação popular (falada) com a culta (escrita). Descobriríamos regras, no sentido de leis, como as de física ou genética, e não meros erros, em sequências como “livro pra mim ler” (aqui, “mim” só ocorre após “para”, e o verbo que o segue está sempre no infinitivo) ou em construções como “menas gente” e “meia cansada” (“menos” e “meio” são flexionados só antes de termo feminino - talvez estejam mudando de classe gramatical). Fazer isso não implica ne- cessariamente aceitar que essas construções devam ser escritas (em relatórios administrativos, por exemplo). É exatamente a gramática, em outro sentido, que impede que sejam aceitos. Mas então saberíamos analisar Esse aprendizado pode ser útil até para corrigir gramáticas. Todas cometem o mesmo erro em análises do adjunto adnominal em grupos como “meu livro velho”. Consideram simplesmente que “meu” e “velho” são adjuntos adnominais de “livro”, sem considerar que a organização de uma sequência como esta é mais complexa, é hierarquizada. Pode-se discutir se “meu” é adjunto de “livro velho” (há diversos “livros velhos” e “meu” especifica um) ou se “velho” é adjunto de “um livro” (há diversos livros meus, e “velho” especifica um), mas está errado dizer que os dois adjuntos ocupam a mesma hierarquia em relação a “livro”. [ ] Em um sentido de gramática, alguém poderia dizer que uma das construções está certa (porque algum escritor a usou) e que a outra está errada (porque só o povo e os distraídos usam). No outro sentido de gramática, diríamos que se trata de duas estruturas gramaticais diferentes, cuja natureza poderia ser mostrada. O uso de uma ou de outra terá ou não apoio das autoridades

Fonte: POSSENTI, Sírio. Quando “mais” não é “melhor”. Disponível em: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11884

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Língua Portuguesa I

Para refletir

Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir
Para refletir

Analise o modo como você foi apresentado à norma-padrão e como os conhecimentos que você tem foram adquiridos. Você, em algum momento, questionou o ensino de língua portuguesa que recebeu? O que poderia ter sido melhor? Lembre-se de colocar suas reflexões no AVA.

RESUMO

Para ser um professor de língua, tão importante quanto conhecer a gramática tradicional é ter olhar crítico para poder diferenciar o que distancia as regras desse livro das regras do nosso falar. E para que o professor consiga esse olhar crítico é necessário estudar a origem da norma-padrão e o que deu a essa norma o status que ela tem na sociedade. Ou seja, é importante perceber que a gramática é um livro que tinha como objetivo regular a escrita, mas, com o passar do tempo, ela foi sendo utilizada para prescrever também as normas do “falar correto”. O conhecimento das normas linguísticas existentes no país facilita o trabalho com a variedade e proporciona ao aluno uma aprendizagem mais justa. Quando conhecemos o processo de formação das normas populares e das normas cultas percebemos que as pessoas falam uma variante que é produto de situações sociais existentes no Brasil há muito tempo. Analisando a noção de erro da perspectiva dos estudos linguísticos fica claro que o que é erro para a gramática tradi- cional nem sempre – ou poucas vezes – é erro para o falante de português. Além de constatar que erro de escrita não é erro de português, mas erro de ortografia, a linguística vem ajudar a reconhecer os motivos que levam os falantes a escolher uma ou outra forma linguística.

Tema II

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Norma padrão

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Mas, mesmo percebendo que a gramática prescreve regras bem diferentes das que usamos e que seria necessário mudar muito nela para que se adequasse aos propósitos do ensino de língua, não podemos deixar de ensiná-la. Não podemos negar aos alunos o conhecimento das regras aceitas pela sociedade. A grande questão é como isso deve ser feito. De modo que respeite a realidade do aluno e o leve a pensar no uso de sua língua. No próximo conteúdo apresentaremos de modo mais apro- fundado estudos sobre a língua oral e a língua escrita e sobre os estudos descritivos. Continue empenhado em seus estudos e descubra aspectos novos da sua língua portuguesa.

O ESTUDO CIENTÍFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Parte II

3 O estudo descritivo da língua portuguesa

Como nos diz John Lyons (1987, p.54), a linguística é descritiva, e não prescritiva. Isso é o mesmo que dizer que o estudo da linguagem foca-se em descrever como as línguas são, enquanto a tradição gramatical se preocupa em como as línguas devem ser. Agora damos continuidade a mais um tema: O estudo descritivo da língua portuguesa. Bons estudos!

3.1 O ESTUDO DESCRITIVO

Uma determinada corrente científica precisa ter bem defi- nidos seus critérios de análise, e o seu método tem fundamental importância para a confiabilidade dos seus resultados. A visão que fundamenta a pesquisa define o seu objeto de estudo. Já falamos da sociolinguística no tema 1, e você conheceu um pouco dessa corrente linguística e de como ela atua.

86

Língua Portuguesa I

Aqui, apresentaremos a você os métodos utilizados por ou-

tras duas das correntes linguísticas de maior projeção no Brasil:

a dialetologia e o gerativismo.

Dialetologia

Vimos nos nossos estudos que a dialetologia, também chamada de geografia linguística, se inicia com a publicação de

Atlas Linguistique de la France (ALF), de Jules Gilliéron, no início do século XX. A dialetologia é responsável por descrever os dialetos de uma determinada região. Os atlas linguísticos são conjuntos de mapas que apre- sentam como as pessoas realizam aspectos da língua em cada lugar. Esses mapas são chamados mapas e permitem visualizar

o aspecto linguístico e sua realização na região. Até então, os primeiros projetos no âmbito da geografia linguística não utilizavam documentadores para recolher os da- dos – o levantamento das características da língua era feito pelo envio e recebimento de questionários. Com o tempo, pesquisadores começaram a buscar seus dados nas localidades, ao invés de mandar questionários por

correios. Para extrair conclusões acerca da variedade linguística de um determinado local, os pesquisadores utilizavam dados da fala de um grupo de pessoas que, a princípio, tivesse influência de outros falares: homens mais velhos, da zona rural, que não saíam de suas comunidades. No Brasil, o marco inicial da dialetologia se dá em 1826, quando Domingos Borges de Barros, o Visconde de Pedra Bran- ca, escreve um estudo comparativo entre o português do Brasil

e o de Portugal, a pedido do geógrafo Adrien Balbi. Quase um

século depois, em 1920, inicia-se o estudo científico dos dialetos, com a publicação de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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No quadro a seguir, apresentamos as publicações que deram continuidade aos estudos dialetológicos no Brasil.

1957

- Guia para estudos dialectológicos de Serafim da Silva

Neto;

1958

e 1961 - Bases para a elaboração do Atlas linguístico do

Brasil, de Antenor Nascentes;

1963 – Publicação do primeiro atlas linguístico do Brasil, o

Atlas Prévio dos Falares Baianos – APFB (ROSSI et al., 1963);

1977 – Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais EAL-

MG, (RIBEIRO et al., 1977);

1984 – Atlas Linguístico da Paraíba – ALPB

(ARAGÃO & MENEZES, 1984);

1987 – Atlas Linguístico de Sergipe – ALS

(FERREIRA et al., 1987);

1994 – Atlas Linguístico do Paraná – ALPR

(AGUILERA, 1994).

As cartas que compõem o atlas são feitas da seguinte for-

ma:

O conjunto das localidades que serão estudadas é chama- do rede de inquérito – geralmente, são localidades rurais, pois lá as pessoas conservam mais suas características linguísticas. Os pesquisadores que exercem a função de documentar os fatos linguísticos são chamados documentadores. Eles entrevistam as pessoas fazendo diversas perguntas e depois levam as entrevis- tas para a análise. Cada carta é feita a partir de uma das questões feitas. Na carta vemos a pergunta feita e as respostas dadas em cada loca- lidade. Uma carta é apresentada abaixo. Nela, vemos a pergunta

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Língua Portuguesa I

“ ave preta que come carniça?”. Observe as resposta encontra- das nas localidades.

Observe as resposta encontra- das nas localidades. Carta do Atlas do município de Cândido de Abreu

Carta do Atlas do município de Cândido de Abreu - Paraná. (LINO, 2000 apud MILANI, 2006)

Com o aprimoramento de seu método, os procedimentos utilizados na recolha de dados foram inovados – hoje se usam gravadores e programas de tratamento e análise de áudio, além da ajuda de auxiliares durante a gravação dos inquéritos. Os objetivos dos Atlas também foram ampliados, pois antes eram preocupados somente com a variação geográfica. Hoje os Atlas também analisam outros aspectos sociais, como a variação de gênero, a variação diageracional ou diafásica. O Atlas Linguís- tico de Sergipe (ALS), por exemplo, que ficou pronto em 1973 e foi publicado em 1987, apresenta controle da variável gênero.

Tema III

Gerativismo

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O estudo descritivo da língua portuguesa

89

O gerativismo é a corrente teórica que busca descrever a

Gramática Universal. Essa corrente busca definir em que regras as línguas humanas são baseadas e quais variações são permiti- das dentro dessas regras. Os estudiosos dessa área postulam que a capacidade de falar uma língua (propriedade exclusiva do ser humano) é algo que tem conexão direta com a genética humana.

O ser humano possuiria no cérebro o que chamam de

faculdade da linguagem. Na faculdade da linguagem, teríamos compartimentos distintos para os diversos tipos de informações linguísticas (algo como órgãos especiais para cada informação) (MIOTO; SILVA; LOPES, 2007). Mas você já deve ter reparado que as línguas não são todas iguais – e não só com relação às palavras, também com relação à sintaxe. Se a faculdade da linguagem é propriedade genética de cada ser humano, como o Gerativismo explica as diferenças entre as línguas? Esta teoria descreve as línguas e suas diferenças tendo como base duas noções: Princípios e Parâmetros. Princípios são leis que valem para todas as línguas natu- rais; e Parâmetros são propriedades que as línguas podem ou

não exibir. Os parâmetros são responsáveis por fazer as línguas diferentes entre si.

A Gramática Universal (que no gerativismo é referida como

UG, por causa do termo em inglês) é o primeiro estágio da aqui- sição da língua pelo falante. Nela os princípios já existem, mas os parâmetros não estão definidos. Quando os parâmetros vão sendo fixados é que surge a gramática da língua. E como o Gerativismo reconhece quais são os princípios e

os parâmetros? Por meio dos testes de gramaticalidade. Vamos relembrar o que é gramaticalidade.

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Língua Portuguesa I

Na Linguística, as sentenças bem formuladas e aceitas pelos falantes de uma língua são classificadas como gramaticais. Esse termo significa que foram respeitadas as regras da gramática da língua (o conjunto de regras que cada um de nós domina e que faz a língua funcionar). Assim, há frases que por alguns motivos não são aceitas em determinadas línguas, são agramaticais. E as pesquisas têm a função de saber o porquê. Chamamos a sentença de agramatical quando essas regras não são respeitadas, assim utilizamos o asterisco para sinalizá-la nos estudos. O falante pode identificar, com exatidão, enunciados gramaticais e agramaticais, mesmo sem nunca ter tido instrução escolar. Ao comparar o comportamento linguístico de falantes de diversas línguas, pode-se chegar a um princípio. Estudando o comportamento do falante de uma só língua, podemos definir o parâmetro da língua em questão. A maneira de conseguir observar o comportamento lin- guístico do falante é por meio de um teste de gramaticalidade. Nesses testes, o objetivo não é selecionar o que poderia ser “certo” ou “errado”, mas sim o que você, como falante dessa língua, aceita ou não. Para julgar as opções, você não deve pensar se há sentido na frase, mas sim se ela foi bem construída e se um falante da sua língua utilizaria essa opção normalmente. Vamos então ver um teste de gramaticalidade. Os exem- plos apresentados aqui foram extraídos de Cavalcante (2007, p.

34-35).

Das opções apresentadas abaixo indique a(s) alternativa(s) que você não aceita, se houver.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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(18) a. O que (foi que) ele não fez?

b. O que (foi que) ele não fez não?

c. O que (foi que) ele fez não?

(19) a. Por que ele não saiu de casa?

b. Por que ele não saiu de casa não?

c. Por que ele saiu de casa não?

IMPORTANTE Futuramente, abriremos um tópico para discussão desses resultados no fórum. Fique atento e participe!

Texto complementar

Os estudos da Linguística Textual (LT) consolidaram-se no Brasil nas décadas de 80 e 90 com publicações de autores como Koch (1989, 1998), Koch e Travaglia (1989), Fávero (1991) e Marcuschi (1983). Como todo campo teórico, a LT desenvolve-se (re)definindo conceitos e o próprio objeto de estudo. Em um primeiro momento, o texto era visto como “um complexo de proposições semânticas”, um produto acaba- do. Nessa perspectiva, uma sequência de frases (ou um amontoado de palavras) era considerada texto se apresentasse textualidade, isto é, se tivesse coesão e coerência, marcas que estariam presentes no texto, que poderiam ser recuperadas a partir dele. Essa ideia foi afastada quando se observou a existência de se- quências que, apesar de construídas com elos coesivos, não veiculavam qual(is)quer sentido(s). Toma-se, então, a coerência como o traço defini- dor do texto, mas ainda considerando que ela seria uma propriedade do texto e não, como pensada atualmente, construída a partir dele. Depois, passa-se a uma concepção mais ampla, a de texto como um processo, lugar de interação entre autor e leitor, espaço de constru-

92

Língua Portuguesa I

ção de sentidos. Esse caráter processual fica evidente na resposta dada

por Koch à pergunta 'Qual é, afinal, a propriedade definidora do texto?'. Um texto se constitui enquanto tal no momento em que os parceiros de uma atividade comunicativa global, diante de uma mani- festação linguística, pela atuação conjunta de uma série de fatores de ordem situacional, cognitiva, sociocultural e interacional, são capazes de construir, para ela, determinado sentido (p.25). Koch, em trabalho mais recente (2006), explica que a noção de texto, assim como as de coesão e coerência, foi sofrendo mudanças significativas no decorrer do tempo. Além daquelas apontadas acima,

o critério de textualidade e a noção de coerência, a autora ressalta a

necessidade de não separar radicalmente os dois domínios, uma vez que esses, na maioria dos casos, aparecem imbricados. Um exemplo dessa intersecção é a retomada de um referente do texto por uma ex- pressão nominal (como em Pedro não gosta de barulho. O resmungão chegou há pouco.), em que é preciso fazer um “cálculo”, isto é, o texto (uma marca coesiva nele presente) demanda que o leitor preencha um vazio, um “espaço em branco” (no exemplo, fazer o link entre Pedro e

o resmungão). Do que foi dito até aqui, é importante ressaltar que as noções de texto, coesão e coerência são vistas hoje, no âmbito da LT, como indis- sociáveis da situação interlocutiva, o que implica dizer que não existem sentidos prontos, que estariam materializados no texto à espera de serem decifrados por um leitor passivo, mas que esses se constroem na interação leitor-texto-autor. A metáfora de texto como iceberg é significativa: só uma parte do texto está exposta, na superfície; a maior parte está submersa (os espaços em branco). No que diz respeito à produção de texto, a ideia de processo remete a um trabalho que envolve diferentes “etapas”, desde a escolha do que se pretende dizer (com a pesquisa sobre os diferentes pontos de vista sobre o tema), a seleção de recursos expressivos, a elaboração, revisão etc. Nessa perspectiva, o ato de escrever mobiliza fatores so- ciais e também fatores cognitivos (o conhecimento de mundo, textual e

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

93

genérico de que dispõe aquele que escreve). Outra observação importante: na LT, como em todo campo teó- rico, as discussões ocorrem tendo por objetivo a descrição e o estudo de fenômenos (texto, coesão, coerência, dentre outros). No entanto, quando esses migram para o contexto escolar, sofrem mudanças, são ressignificados. No caso dos conceitos de coesão e coerência, observa-se que passaram a critérios de correção de textos, assumindo um caráter normativo (cf. MENDONÇA, 2003). Não se pode negar, no entanto, que há um avanço em relação ao que predomina(va) na abordagem de textos de alunos, isto é, a chamada “higienização do texto”, uma operação de limpeza, na qual o papel do professor se reduz a apontar transgressões de ordem gramatical (ortografia, pontuação, concordância, etc.), a “contar os erros”.

Fonte: CAVALCANTI, Jauranice Rodrigues. O trabalho com textos na sala de aula. In: Revista de Divulgação Científica em Língua Portugue- sa, Linguística e Literatura. Ano 06 n.12. 1º semestre de 2010. [www. letramagna.com]

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Pesquise um pouco mais sobre a corrente teórica que mais lhe interessou. Você pode também pesquisar sobre mais corren- tes nos manuais de linguística. Fale um pouco desta corrente que escolheu no fórum do AVA e lembre-se de verificar as correntes escolhidas pelos seus colegas.

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Língua Portuguesa I

3.2 AS MODALIDADES ORAL E ESCRITA

Primeiramente, antes de começarmos a analisar a questão das modalidades orais e escritas da língua, precisamos estudar um pouco da relação entre essas duas formas de comunicação. Além disso, precisamos aprender a trabalhar com um termo muito usado quando falamos de comunicação, mas que poucos conhecem como vamos apresentá-lo: texto.

Reflita um pouco. O que você considera um texto?

texto. Reflita um pouco. O que você considera um texto? O texto é a unidade linguística

O texto é a unidade linguística básica da comunicação, pois

o que as pessoas dizem umas às outras não são só palavras ou só

frases isoladas, são textos (VAL, 1999). Texto é uma ocorrência

falada ou escrita, de qualquer tamanho. Além disso, o texto é utilizado na comunicação social e, por isso, deve ser organizado quanto ao aspecto formal – seus

constituintes linguísticos – e quanto ao seu aspecto semântico – ao seu significado. Dessa forma, uma carta é um texto, assim como um anúncio nos classificados também é. Uma redação é um texto, uma letra de música, uma receita de bolo e um bilhete também. Entrevistas

e falas também são textos. Não se esqueça disso.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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Fala versus escrita ou fala e escrita?

Por muito tempo, quando se falava em fala e escrita, era comum ver uma como derivada da outra ou, ainda, como mais ou menos importante que a outra. Historicamente, a escrita era considerada a verdadeira forma de linguagem, pois era vista como uma comunicação mais clara, enquanto a fala estava su-

jeita a interrupções e, ainda, variação. A fala instável (FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2007).

Com

as

pesquisas

realizadas no âmbito da linguística textual, já com-

realizadas no âmbito da linguística textual , já com- preendemos que as coisas não são bem

preendemos que as coisas não são bem assim. Fala e escrita têm muitas diferen-

Linguística Textual é uma vertente da linguística, que tem como foco o processo comunicativo que se estabelece entre o autor, o leitor e o texto em um determinado contexto.

ças, mas há também diversos fatores em comum. Segundo os autores acima citados, as diferenças são estru- turais. Dessa forma, temos diferenças quanto:

- ao modo de aquisição, pois a fala é adquirida naturalmente

e se inicia quando ainda somos muito pequenos; ao contrário da

escrita, adquirida por meio da escola quando estamos em idade para frequentá-la;

- às condições de produção, transmissão e reprodução – na

escrita não há interrupções, por exemplo; - e quanto ao meio através do qual é organizado, pois a comunicação por meio sonoro fornece possibilidades diferentes das que fornece a comunicação por meio oral. Observe o quadro abaixo, apresentado por Fávero, Andrade

e Aquino. Nele você poderá ver algumas características das con- dições de produção dessas duas modalidades de comunicação.

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Língua Portuguesa I

Quadro – Condições de produção

Fala

Escrita

-

Interação face a face.

-

Interação

a

distância

(espaço-

temporal).

Planejamento simultâneo ou quase simultâneo à produção.

-

- Planejamento anterior à produção.

- Criação coletiva: administrada passo a passo.

- Criação individual.

 

-

Impossibilidade de apagamento.

- Possibilidade de revisão.

 

Sem condições de consulta a ou- tros textos.

-

- Livre consulta.

 

-

A reformulação pode ser promo-

A reformulação é promovida ape- nas pelo escritor.

-

vida tanto pelo falante quanto pelo interlocutor.

- Acesso imediato às reações do interlocutor.

Sem possibilidade de acesso ime- diato.

-

-

O falante pode processar o texto,

-

O escritor pode processar o texto a

redirecionando-o a partir das rea-

partir das possíveis reações do leitor.

ções do interlocutor.

O texto mostra todo seu processo de criação.

-

O texto tende a esconder o seu pro- cesso de criação, mostrando apenas o resultado.

-

Fonte: FÁVERO, L. L.; ANDRADE, M. L. C. V. O.; AQUINO, Z. G. O. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 2000, p. 74.

Luiz Antônio Marcuschi (2001) fundamenta suas análises sobre a fala e a escrita na seguinte visão: não há nada da fala que faça dela algo pior, assim como não há nada na escrita que faça dela melhor. Fala e escrita também não possuem supremacia uma sobre a outra. Quanto ao tempo, sim, podemos dizer que há uma diferen- ça, pois a fala precede a escrita. Da mesma forma, podemos falar da escrita e do prestígio social. Como bem sabemos o uso da escrita garante a um indivíduo determinado status na sociedade em que vive.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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Marcuschi (2001) ainda faz mais considerações acerca da escrita que vale a pena discutirmos aqui. - A escrita não estigmatiza, ou seja, não condena ou marca

negativamente como pode ocorrer com a fala. Quando falantes de normas populares se expressam oralmente, é comum o pre-

conceito;

- A escrita também não serve como fator de identidade do indivíduo ou de um grupo, pois o comum na escrita é que marcas que possam identificar o escritor sejam apagadas. Com a fala acontece o contrário, o comum é encontrarmos marcas que nos dizem quem é o falante (no sentido de a qual classe social pertence, qual a faixa etária, entre outros). É importante percebermos que tanto a fala quanto a escrita se realizam sob o mesmo sistema linguístico, mas os meios de

que nos utilizamos para realizar cada um são diferentes, pois os meios também são diferentes (MARCUSCHI, 1986). Já vimos que seus meios de produção são distintos, mas muitas características são compartilhadas. Por isso não podemos falar de fala e escrita como modalidades opostas; como elas têm propriedades diferentes e outras parecidas, devemos tratá-las como complementares. Quer conhecer um fator em comum entre as modalidades de que falamos? A interação. A interação conduz a fala de uma maneira mais “visível”. A pessoa que fala molda seu discurso para quem vai recebê-lo,

e a pessoa que recebe esse discurso pode interferir, comentar e

também apresentar outro discurso. Na escrita também há interação. Quando alguém produz um texto, precisa moldá-lo de maneira que quem vai ler entenda perfeitamente sua mensagem. É preciso, de certa forma, pensar no que o leitor espera e também na sua realidade, caso contrário

o sentido do texto se perderá.

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Língua Portuguesa I

E como ensinar?

Todo aluno, na escola, aprende a escrever, mas é necessá- rio ensinar a falar? Não! Para Fávero, Andrade e Aquino (2007), não é necessário ensinar a falar, pois o aluno chega à escola já sabendo falar. A questão é ensinar que existem variedades do uso da fala. Você se lembra dos conceitos de variação social, que estudamos no tema passado? Devemos apresentar ao aluno a variação social, a língua em seus aspectos formais e informais. E isso pode ser aplicado tanto na fala quanto na escrita, porque a escrita pode também ser mais ou menos formal. Assim o aluno aprende a usar em cada situação o registro da língua adequado. Para dominar fala e escrita não são necessários apenas conhecimentos linguísticos. É claro que dominar a estrutura da língua é fundamental, mas a comunicação vai além disso. O texto (tanto oral quanto escrito) deve possuir uma estrutura linguística que proporcione o entendimento e também outras característi- cas, de ordem semântica.

Texto complementar

Os três berços da escrita

Um pouco antes de 3 000 a.C., três povos aprenderam simulta- neamente a registrar suas ideias com marcas feitas em tijolos de argila. Chineses e maias também inventaram letras. Ao longo da História, a escritura surgiu no Extremo Oriente e na América.

Egito, 3 400 a.C. Em dezembro de 1998, o alemão Gunter Dreyer surpreendeu o mundo com fotos de 180 etiquetas de barro com inscrições feitas por egípcios há pelo menos 5 400 anos. Encontrou-as em Abidos, na

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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beira do Rio Nilo, 400 quilômetros ao sul do Cairo, na tumba de um rei chamado Escorpião. Até então, os mais antigos hieroglifos do Egito eram de, no máximo, 5 000 anos.

Mesopotâmia, 3 100 a.C. Antes de Dreyer, a escrita mais arcaica era a das tábuas de argila do povo sumério, encontradas em 1913, em Uruk, no atual Iraque. Não há uma que possa ser considerada a mais antiga de todas, já que as datações não são confiáveis. Mas, em geral, considerava-se o ano de 3 100 a.C., há 5 100 anos, como a data inaugural do uso da escritura na região e no mundo.

Índia, 3 300 a.C. Já havia divergência e polêmica suficientes entre os especialistas antes de uma equipe americana encontrar em Harappa, na antiga Índia, atual Paquistão, em maio de 1999, este caco de 5 300 anos. Os arque- ólogos alegam que estes símbolos com forma de tridente usados pelo povo dravda aparecem, também, em textos mais recentes (de 2 500 a.C.) dessa cultura. Conclui-se que são “letras” da língua harappana.

3 200 a.C.

Surgem os primeiros escritos, no Egito, na Índia ou na Mesopo-

tâmia. A maioria dos pesquisadores tende a aceitar esta última como o berço inaugural, mas a confirmação das novas descobertas pode mudar tudo.

1 500 a.C.

Não há registro de que os chineses tivessem qualquer contato com as escritas do Oriente Médio. Mesmo assim, eles criaram seu pró- prio sistema, totalmente diferente, e depois o transmitiriam ao Japão. 300 a.C. Sem contato com a Ásia e a Europa, os olmecas, zapotecas e maias, do México e da América Central, criaram sua própria forma de registrar. Usavam muitas figuras e poucas letras. A tradução dessas línguas está longe de ser completada.

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Língua Portuguesa I

A função do escritor

Mesopotâmia

O escriba era o responsável pela distribuição dos bens da lavoura

e

dos rebanhos entre os cidadãos que não produziam comida. Com

o

tempo, isso foi lhes conferindo um poder imenso, principalmente

porque ninguém mais, nem mesmo o rei, sabia decifrar os registros.

Egito

O primeiro escritor daqui também foi um comerciante ou funcio-

nário do Estado. Depois, eles viraram uma classe de sábios, detentores

do conhecimento. Pela lei egípcia, o faraó era necessariamente um

escriba também.

Índia

Pouco se sabe sobre os escribas da antiga Índia. Os textos mais

antigos foram gravados em vasos ou carimbados neles com ajuda de

um molde. Isso indica que seus autores podiam ser artesãos ou comer-

ciantes.

Fonte: adaptado do texto Os três berços da escrita, de Denis Russo Burgierman. Revista Superinteressante. Disponível em: http://super.abril.com.br/historia/primeiro-dia-histo-

ria-437991.shtml

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Reflita sobre o status que a escrita oferece a uma pessoa dentro de uma sociedade. Quais são as vantagens que uma pes- soa que tem desenvoltura para escrever consegue? Coloque sua reflexão no fórum do AVA.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

101

3.3 O ESTUDO DAS NORMAS POPULARES

Estudaremos, agora, um pouco mais sobre as normas populares. Não é nosso objetivo aqui, e nem seria possível, descrever em sua totalidade as características dessa norma. Contudo, procuramos apresentar, além de um breve contexto de formação, traços das normas populares estudados por vários pesquisadores. Boa leitura!

A formação das normas populares

A origem do português popular está no centro de uma

discussão que se inicia na segunda metade do século XIX. Tanto

a independência do país quanto o movimento romântico contri-

buíram para esse debate. Dentro da literatura, a geração romântica inicia a cons- tituição de uma língua nacional. Como o país passava por um momento de afirmação e busca da sua identidade, uma língua própria simbolizaria uma ruptura com a tradição literária portu- guesa. Algum tempo depois, os modernistas buscaram na rea- lidade linguística brasileira a independência da língua do Brasil com relação à língua da ex-metrópole, retomando à defesa da existência de uma língua brasileira. Na primeira metade do século XX, a questão da língua por- tuguesa no Brasil sai do meio literário e vai ser discutida no meio linguístico. Então, outra questão torna-se tema de uma polêmica:

a influência das línguas africanas no português popular. Os posicionamentos perante essa questão são distintos: en- quanto alguns estudiosos acreditam que os falares africanos nada mais fizeram do que acelerar a ação das forças internas existentes na língua (forças estruturais), outros buscam as justificativas para essa influência na constituição histórica e social do Brasil.

102

Língua Portuguesa I

O que aconteceu para que o chamado português popular

se distanciasse tanto do português das classes mais altas?

A maior parte da população se deslocou para o interior do

país durante o período colonial. A elite se restringia aos centros urbanos do litoral. No interior, a língua portuguesa convivia com

variedades da língua geral, língua franca de base tupinambá. Posteriormente, com predominância da mão de obra escrava no Brasil, a população passou a conviver também com as línguas africanas (LUCCHESI, 1999). Mesmo com toda essa diversidade de línguas no país, a hegemonia da língua portuguesa se estabelece ao longo da colonização do Brasil, e só a partir de meados do século XIX a

situação de multilinguísmo, que predominava até então, dá lugar ao unilinguísmo (LOBO, 2003, p. 403).

A língua portuguesa sofria drásticas transformações sendo

aprendida e difundida pela população pobre de origem predomi-

nantemente indígena e africana (MATTOS E SILVA, 2004). Mas não devemos pensar em corrupção da língua. Lembre-se de que pensamentos como esses, fundamentados em preconceitos, não fazem parte e não contribuem com os estudos científicos. Quando se intensifica o processo de industrialização e

urbanização do país, no fim do século XIX, o panorama social, histórico e demográfico do Brasil é profundamente modificado. Assim, é iniciado um intenso processo de urbanização.

A tabela que apresentamos abaixo nos mostra dados do

censo demográfico, recolhidos por Bortoni-Ricardo (2005, p. 92). Esses dados demonstram o processo recente de reurbanização do país, sensível a partir dos anos 40 e 50, mas implementado em todo país na década de 80.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

103

Dados do censo demográfico entre os anos de 1890 e 2000.

ANO

POPULAÇÃO URBANA

1890

6,8%

1920

10,7%

1940

31,29%

1950

36,16%

1980

67,60%

1991

78,35%

2000

81,37%

Fonte: Bortoni-Ricardo (2005).

Hoje a grande maioria da população do país está nas zo- nas urbanas e há o que chamamos de vulgarização do ensino, além da popularização dos meios de comunicação em massa. No entanto, como afirma Lucchesi (1999), as marcas do portu- guês adquirido de maneira irregular (sem ação da escola e pelo contato entre todos os povos que vieram para o país) ainda são perceptíveis – foram apenas amenizadas.

O estudo científico da norma

São muitos os pesquisadores e os grupos de pesquisas que buscam em seus trabalhos caracterizar a norma popular. Essa norma também é chamada de não-culta ou norma estig- matizada – essas escolhas partem dos pesquisadores e das suas metodologias de trabalho. Dentre os que se destacam, selecionamos o PEUL, um programa de estudos do uso da língua, que em seu primeiro mo- mento estuda as variedades não-cultas do português falado no Rio de Janeiro. Esse projeto científico se utiliza da metodologia quantitativa. Assim, foram feitas 64 horas de gravação com fa- lantes distribuídos por gênero, faixa etária e escolaridade – essas gravações compõem o chamado Corpus Censo do projeto.

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Língua Portuguesa I

Você já imaginou quantos aspectos da língua podem ser descritos? Paiva e Scherre (1999) listam algumas das análises

realizadas por diversos pesquisadores no âmbito desse projeto. No nível fonético-fonológico destacam-se:

a) a tendência à monotongação dos ditongos decrescentes

ei (como em primeiro) e ou (como em pouco);

b) a alternância entre consoantes como em blusa > brusa e

a queda do [r] nos grupos consonantais (problema > pobrema);

c) o apagamento de /d/ nos gerúndios (correndo > corre-

no);

d) as muitas maneiras de realizar o /S/ depois de vogal;

e) a redução da preposição para: para > pra > pa; e

f) o apagamento do [r] depois de vogal, principalmente nos infinitivos dos verbos (saber > sabê, estar > está).

E no nível morfossintático, dentre tantas outras pesqui-

sas:

a)

a variação de concordância nominal (os homens e os

home);

b)

a variação de concordância verbal (eles querem e eles

quer);

c) a variação de concordância nos predicativos do sujeito e

particípios passivos (elas são bonitas e elas são bonita);

d) análise da regência do verbo ir (eu vou pra feira e eu vou

na feira);

e) alternância entre as preposições a e para com verbos

transitivos indiretos (deu a caixa a ele e deu a caixa para ele);

f) alternância entre seu/dele (Encontrei seu pai / Encontrei

o pai dele); e

g) alternância entre nós/a gente (Nós saímos/ A gente saiu).

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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Características fonético-fonológicas

Marcos Bagno, no livro Nada na língua é por acaso (2007, p. 142), lista quinze características da norma popular. O autor prefere usar “variedades estigmatizadas” a normas populares. Segundo o autor, esses traços linguísticos, típicos das variedades estigmatizadas, são rejeitados e evitados pelos falantes de outras variedades do português. Além de listar as características, Bagno (2007, p. 143) comenta o uso da cada uma, dando razões científicas para o fenômeno. Essas características compõem o que o autor chama de traços descontínuos, que são justamente aqueles fenômenos que sofrem mais discriminação na nossa sociedade.

Vamos ver aqui pelo menos seis das quinze listadas.

1. Apagamento da vogal que vem após a sílaba tônica. Ex.:

árvore > arvre; abóbora > abobra. Isso acontece por causa de uma tendência da língua portuguesa de transformar proparoxíto- nas em paroxítonas.

2. Perda da nasalização na sílaba que vem após a tônica. Ex.:

ontem ~ onte; souberam ~ soubero. É uma tendência da língua; muitas palavras do latim perderam a nasalização no português.

3. Troca do L pelo R em encontros consonantais, como em

claro > craro. É uma propriedade fonética chamada rotacismo. Muitas dessas palavras podem ser encontradas em documentos escritos do português medieval (BAGNO, 2007, p. 74)

4. Pronúncia do i em lugar do lh, como em telha > teia; velha > veia. Essa mudança aconteceu em muitas variedades do espanhol.

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Língua Portuguesa I

Você já percebeu, por exemplo, como o som do LL pode mudar de acordo com o país hispanohablante ou até mesmo com relação às regiões de um mesmo país?

5. Monotongação do ditongo átono no fim da sílaba, ou seja, ditongo sem força como em: notícia > notíça; paciência > paciença.

6. Eliminação do plural, que permanece dos determinantes. Ex.: os meninos > os menino. Ocorre também na norma culta e em situações não formais.

Apesar de serem características encontradas tipicamente na fala das camadas populares, não podemos dizer que são ex- clusivas delas. Algumas, como a eliminação da marca do plural, podem ser encontradas em outras variedades da língua.

Texto complementar

O desvio da concordância

Edgard Murano

[ ] Ao pé da letra, o que chamamos “concordância” é o princípio sin- tático segundo o qual as palavras dependentes umas das outras numa frase se harmonizam nas suas flexões. Adjetivos, pronomes, artigos e numerais concordam em gênero (feminino e masculino) e número (singular e plural) com os substantivos, numa “concordância nominal”. Já o verbo concorda com seu sujeito em número e pessoa. É o que gente do ramo chama de “concordância verbal”.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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A questão, no entanto, é que a falta de concordância parece ter

deixado de ser mero sinal de desvio gramatical ou de baixa escolarida- de, e é duvidoso que em algum momento tenha sido atributo exclusivo das camadas mais pobres do país.

A evidência empírica dessa constatação é relativamente recente,

mas categórica. O professor Ataliba de Castilho, da USP, foi um dos artífices do projeto Norma Urbana Culta (Nurc), que gravou 1.500 horas de falas em cinco capitais brasileiras, entre 1970 e 1978. A partir desse corpus de pesquisa, Ataliba e uma equipe de especialistas chegaram ao século 21 tendo percebido que muito do que se prega sobre concor- dância não passa de mito, marcado por artificialidades e juízos de valor.

Segundo Ataliba, a ideia de que o verbo concorda com o sujeito nem sempre se aplica, mesmo pela elite bem formada no idioma. - Na linguagem falada culta, o sujeito concorda quando vem antes do verbo. Quando vem depois, não ocorre com frequência. Se o verbo está no começo da sentença e o sujeito, no fim, com muitas ideias entre um e outro, ela não se observa. O brasileiro, sugere Ataliba, tende a falar “chegou” e não “chegaram” num exemplo como: “Chegou, depois de muita espera, reclamação e teimosia de minha parte, os exemplares do jornal que eu estava esperando”. Mesmo a pessoa culta já cancela esse tipo de concordância em uma conversa - constata o pesquisador. O professor acredita ser impossível postular regras de concordância categóricas para a variante brasileira do idioma. Encarando só o fato semântico, nada no sistema do idioma impediria a flexibilidade na concordância em situações de comunicação informal. Se alguém diz, numa conversa, “os menino saiu” ou “os meninos saí- ram”, o significado é o mesmo, não muda. Ocorre que, no português escrito e baseado na norma, a concordância se dá de forma repetitiva em quase todo elemento; mas, no registro oral, a regra costuma ser mais econômica e flexível. Na forma tida como “popular”, em “os meni- no saiu depressa”, só o primeiro elemento (o artigo “os”) está marcado pelo plural.

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Língua Portuguesa I

Para Ataliba, em outras línguas esse procedimento já virou pa- drão. O francês culto passou a pôr plural só no artigo, não em todas as formas da sentença. Incorporou a regra popular e hoje é comum dizer que “les homme froid” (“os homem frio”). Em inglês, não há espanto se alguém pronuncia “the bad boys” (os meninos mau). Vários casos do gênero se instauraram mesmo nas variantes escritas em idiomas do mundo inteiro. Os problemas envolvendo concordância talvez sejam o mais evidente exemplo brasileiro de que um idioma é, acima de tudo, fato social: mesmo quando linguísticamente o “erro” não contraria a índole da língua, mesmo se há evidências de que o brasileiro cancela a regra em sua fala, é alto o peso social no modo como os falantes encaram o problema. Para Maria Helena de Moura Neves, do Mackenzie e da Unesp de Araraquara, muito do que se diz sobre concordância em cartilhas e manuais é posto só em termos de regras a ser obedecidas. - Há um conjunto de normas instituídas que regem o domínio do que se considera a “norma padrão”. E em poucos casos são admitidas realizações variantes - diz a professora.

Fonte: Revista Língua.

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11841

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Escolha um dos aspectos que listamos e imagine as pos- síveis realizações para ele. Você, como falante de língua portu- guesa, pode perfeitamente listar o que é possível e o que não é em sua língua. Comente sua escolha com os colegas no fórum do AVA e troquem opiniões sobre as possibilidades que cada um encontrou.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

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3.4 O ESTUDO DAS NORMAS CULTAS

Você está lembrado das distinções entre norma padrão e norma culta que discutimos brevemente no tema 2? A norma culta diz respeito às estruturas usadas pelo grupo social dos

que se ligam de forma mais direta às atividades de escrita e que usam essa norma nas situações mais formais (FARACO, 2002). Enquanto a norma-padrão é a norma linguística prescrita pelas gramáticas tradicionais.

A norma padrão, para a gramática tradicional, é estática e

homogênea, ou seja, não sofre alterações. Já a norma culta sofre constantes mudanças porque é utilizada também na oralidade. Com essas distinções bem claras, vamos estudar mais sobre a formação e algumas características da norma culta pelo país.

A formação das normas cultas

Além dos processos de polarização pelos quais passou a língua portuguesa no Brasil (LUCCHESI, 2001), alguns outros, relacionados à construção da nacionalidade influenciaram a formação da norma culta brasileira. Pagotto (1998) diz que a norma culta foi construída a partir do modelo europeu, mesmo estando o Brasil em fase de afirma- ção da sua nacionalidade. Mas como isso era possível?

A partir da segunda metade do século XIX, dois fatos da

história do Brasil, um cultural e outro político, vão influenciar bastante a formação das normas padrão e culta: o movimento romântico e a independência do país. No romantismo, houve uma valorização da nacionalidade. Assim, houve uma vontade de que a língua do Brasil se desvincu- lasse da língua de Portugal. Como a língua utilizada na literatura sempre foi referência para a língua de um país, era necessário,

110

Língua Portuguesa I

no pensamento romântico, que se construísse um novo padrão para o Brasil (LOBO, 1994). Como nos diz Faraco (2002), o padrão construído aqui era artificial, porque mesmo que o Brasil estivesse passando por um movimento de valorização da sua nacionalidade, era necessário ter uma língua prestigiada como a da Europa. Assim, o padrão daqui foi feito baseado no de lá. Parece meio confuso pensar que, apesar de querer uma língua tipicamente nacional, os movimentos que aconteceram no

Brasil aproximaram o nosso padrão escrito do padrão de Portugal. Carlos Alberto Faraco nos explica que por trás dessa atitude estava

a vontade da elite de ser tal como a elite europeia. Para tanto era

necessário que essa elite tivesse uma norma tão prestigiada quanto

a da Europa. A maneira mais fácil de conseguir isso era fazer da nor- ma de Portugal a sua norma. Embora a norma padrão não possa ser confundida com a norma culta, pelas várias características típicas de uma e de outra, a norma culta está bem mais próxima da norma culta do que das outras normas (FARACO, 2002).

O estudo científico da norma

Por muito tempo os estudos sobre língua tinham como objeto a língua escrita. Com algum tempo, foi percebida a ne- cessidade de descrever a língua falada e suas diversas normas.

Vários fatores contribuíram para que, nas décadas de 70 e 80, se iniciassem esses estudos no Brasil. Dentre eles, como explica

o professor e pesquisador Ataliba T. de Castilho (2006), estão:

o crescimento dos cursos de pós-graduação em linguística, o surgimento de diversos projetos de pesquisa e o empenho dos linguistas em montar gramáticas e dicionários descritivos. Desde então, muitos projetos de pesquisa se formaram e vêm desempenhando um papel muito relevante para a descrição da nossa realidade linguística.

Tema III

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O estudo descritivo da língua portuguesa

111

Dentre os projetos de pesquisa que mais se destacam está

o Projeto NURC Projeto de Estudo da Norma Linguística Urba-

na Culta. Este projeto tem equipes locais em cinco estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Na época da sua constituição, após a primeira reunião organizada pelo Prof. Nelson Rossi, em 1969, os então coordenadores eram Albino de Bem Veiga, Isaac Nicolau Salum, Ataliba T. de Castilho

e o próprio Nelson Rossi. Vamos ver um pouco de como o acervo do projeto foi constituído. Foram realizadas, ao todo, entre 1970 e 1977, 1.870 entrevistas com 2.356 informantes de formação universitária, nascidos na cidade e com pais nascidos no local. Há o mesmo número de informantes para cada gênero; além disso, eles são distribuídos igualmente por faixa etária; são três faixas: 25-35 anos, 36-55 anos e de 56 anos em diante. Organizou-se então um conjunto de 18 entrevistas por cidade, que chamamos de “corpus compartilhado”. Corpus é um termo largamente utilizado no âmbito das pesquisas científicas para designar o conjunto de textos (orais ou escritos) que serve de base para uma análise. Muitos pesquisadores utilizam as entrevistas do NURC para realizar pesquisas sobre a norma culta falada nas cinco capitais que participam do projeto – Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salva- dor e Recife. É uma dessas pesquisas que iremos conhecer a seguir.

O português culto falado

Yonne Leite e Dinah Callou (2002) investigaram nove as- pectos da norma culta do país, por meio da análise do corpus do projeto NURC – de que já falamos. Desses aspectos, quatro são fonético-fonológicos, um é o padrão entoacial (algo como o ritmo com que as pessoas falam)

e outros três são sintáticos.

112

Língua Portuguesa I

Aqui veremos um aspecto fonético-fonológico: a realização das vogais pretônicas médias, ou seja, as vogais E e O na posição antes da sílaba tônica. Observe a palavra telefone. A sílaba tônica dessa palavra é

a terceira (fo). A vogal e