Copyright © 2025 BRENDA GOMES
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desta obra. Seja total ou parcial, de qualquer modo ou quaisquer meios
eletrônicos, mecânicos, sistema de banco de dados ou algum processo similar
sem a devida autorização do autor. — Lei Nº 9.610/98, de 19 de Fevereiro de
1998.
Esta é uma obra de ficção. Os nomes, pessoas, lugares e fatos que
ocorrem no enredo, são produtos da mente do autor. Qualquer analogia com
pessoas e situações da vida real terá sido mera coincidência.
Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1º de Janeiro de 2009.
Capa: Giulia Rebouças @gialuidesign
Diagramação: Brenda Gomes / Giulia Rebouças
Revisão: Brenda Gomes / Eliandra Cristina
Betas: Eliandra Cristina / Thiago Almeida
Ilustrações: Samira @_smwayne / Sofia Gomes
Essa obra está disponível em formato digital EXCLUSIVAMENTE no
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meios diferentes, saiba que está consumindo conteúdo de forma ilegal. A
pirataria é um crime e prejudica diretamente o autor, comprometendo
seu trabalho e sua única fonte de renda.
Valorizo meus leitores e ofereço meus livros a preços acessíveis na
Amazon. Adquira de forma legítima e contribua para que eu continue
criando histórias para vocês!
NOTA DA AUTORA
ALERTAS E GATILHOS
PLAYLIST
DEDICATÓRIA
EPÍGRAFE
SINOPSE
ILUSTRAÇÃO 1
PARTE I
PRÓLOGO
01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
15
16
17
18
PARTE II
19
20
21
22
23
24
25
26
27
PARTE III
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
PARTE IV
43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
53
54
55
EPÍLOGO
BÔNUS 1
BÔNUS 2
ILUSTRAÇÃO 2
AGRADECIMENTOS
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SOBRE A AUTORA
Sejam bem-vindos a Dançando em Ruínas!
Antes de mergulhar nesta história, gostaria de compartilhar algumas
palavras sobre o que você encontrará nas próximas páginas.
Apesar da ansiedade de trazer eles ao mundo, esse livro me ensinou
muito a respeito do tempo. Entendi que se eu queria algo profundo, ia ter que
aceitar que o projeto ficaria maior do que eu esperava.
"Dançando em Ruínas" não é apenas uma história de amor, mas um
enredo carregado de dor, superação e escolhas difíceis. Aqui, os personagens
lidam com traumas profundos, segredos do passado e cicatrizes que a vida
lhes impôs.
Eliza é uma mulher que passou anos fugindo de um pesadelo que
parecia não ter fim. Criou sua filha sozinha, cercada pelo medo e pela sombra
de um passado que nunca a deixou completamente. Christopher, é um ex-
soldado marcado pelos horrores da guerra e por perdas irreparáveis,
precisando lidar com seus próprios fantasmas enquanto aprende que, talvez,
ainda exista algo pelo qual valha a pena lutar.
Por fim, "Dançando em Ruínas" é sobre reconstrução. Sobre
encontrar luz nas sombras e coragem no medo. Se você chegou até aqui,
espero que essa história toque seu coração da mesma forma que tocou o meu
ao escrevê-la.
Com carinho,
Este livro aborda temas sensíveis e potencialmente desencadeadores
para alguns leitores, incluindo violência doméstica, fome, abuso
psicológico, perseguição, assédio (não sendo entre os protagonistas)
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), sequestro e violência
física. Se algum desses temas for desconfortável para você, recomendo que
siga sua leitura com cautela.
Esse livro é um romance adulto, mas não possui ideia de ilustrar
conteúdo sexual explícito, porém, possui diálogos e cenas com descrições
apimentadas, com classificação 18+ e cenas descritivas não sendo
especificamente descrições do ato em si. Se você está procurando uma leitura
erótica, saiba que você não vai encontrar neste livro.
Meu objetivo nunca foi romantizar a dor, mas sim contar uma história
que reflete a realidade de muitos, mostrando que, mesmo em meio às ruínas,
ainda há esperança.
Aponte a câmera para o QR Code ou acesse a playlist no Spotify clicando no
link.
Para você, que acredita que o amor pode florescer até mesmo nas ruínas.
“Me diga todas as coisas terríveis que você já fez e me deixe te amar mesmo assim”
Edgar Allan Poe
Christopher Ford, é um Ex-integrante do corpo de Fuzileiros dos
Estados Unidos e está lidando com sua volta para casa acompanhado das
sequelas que a guerra deixou em sua vida, tanto físicas, como mentais.
Sofrendo com os sintomas do TEPT (Transtorno de Estresse Pós-
Traumático) ter Madelyn, sua irmã mais velha por perto, se torna um perigo,
quando ele a ataca durante a noite em uma de suas crises.
Agora, sem Madelyn por perto, a Residência Ford, que antes fora o
lugar de suas lembranças mais felizes, se torna o palco de terror e solidão.
Apesar de saber precisar de ajuda, Christopher não quer, nem se acha digno
da vida que agora tem longe dos destroços da guerra que viveu por bons anos.
Do outro lado, Eliza Fitz luta para sobreviver dia após dia ao lado da
filha de cinco anos, Aelin. Com a perda recente da avó e as dívidas batendo à
porta, quando o dono da casa em que ela mora, ameaça levar sua filha se a
dívida não for quitada, sua única saída é recorrer à prostituição.
É a quantia que ela precisa.
Ela só precisa de uma noite.
O que ela não esperava, é que o seu cliente, tem um pedido um tanto
quanto peculiar. Ele só quer que ela faça uma ligação e se passe por uma
psicóloga, para dizer a irmã dele, que ele está bem e avançando nas sessões.
Sem entender, ao certo, o que se passa com o homem de semblante
abatido, e olhos vazios, ela não faz perguntas.
Quando Eliza consegue um trabalho que paga bem como diarista. É a
oportunidade perfeita de pagar as dívidas e dar uma boa vida para sua filha.
O que ela não esperava, é que o dono da residência, é o último homem
que ela esperava ver. Mas é o trabalho que ela precisa e ela está disposta a
seguir todas as exigências da residência Ford.
PARTE I
“Não há bombas ou armas perto, mas eu posso ouvir
Minha mente é uma zona de guerra
E meu bunker está desabando
Minha mente é uma zona de guerra
E eu não acho que vou ganhar.”
WAR ZONE - NEENA ROSE
Sempre ouvi falar que situações desesperadas, geram reações
desesperadas. O fato é que ninguém te diz quando uma situação ultrapassa
essa linha tênue de desespero e quais reações são aceitas entre o que é
honesto e o que é desonesto.
No meu caso, a situação já ultrapassou a linha do desonesto e já está na
linha da sobrevivência. A verdade é que, você não sabe o que é capaz de
fazer para sobreviver, até se ver de frente com o que precisa ser feito. E neste
momento, talvez, essa seja a última coisa que eu pensaria em fazer se não
precisasse do dinheiro, já que, eu sei que depois que eu fizer, não vai ter mais
volta. Serei marcada. Não vou conseguir fingir que não aconteceu, mas não
tenho outra saída.
Não quero nem imaginar o que uma pessoa pode fazer em situações
catastróficas. Situações que a morte te espera do lado de fora. Em que você
precisa escolher sacrificar alguém para viver, ou o contrário.
Agora que estou de frente para esse dilema, já tenho a minha resposta.
Isso não é honesto. No entanto, outro algo que se aprende em situações
desesperadas, é que sendo honesto ou não, a escolha não é você quem faz.
Prova disso é este lugar que jamais imaginei estar.
Dou uma última olhada no espelho e não me reconheço.
Tenho certeza que se abrir essa porta, a verdadeira “Eliza” estará lá do
lado de fora esperando, com seu semblante completamente decepcionado
com o que irei fazer daqui a alguns instantes.
Acho que nunca me vi desse jeito. Se não fosse Sthefany, eu jamais
saberia como vestir essas peças sem que elas virassem um verdadeiro novelo
de lã, cheio de nó.
A cada minuto que passa, a vontade de chorar aumenta, e o nó em
minha garganta aperta ainda mais.
Não saberei se conseguirei ir até o final enquanto isso não começar de
uma vez.
Não estou aqui por mim.
Estou aqui por Aelin.
Somente por ela.
Porque ela é tudo o que eu tenho.
Porque não consegui um trabalho antes que ele chegasse.
Porque na vida real, se você não matar o seu leão todos os dias, ele
devora você e estar aqui hoje, é a prova de que não tenho mais forças ou
recursos para matar meus leões. Agora estou aqui na cova deles, pronta para
ser o prato principal.
Seco uma lágrima solitária que escorre pelo meu rosto. Uma lágrima
preta de máscara de cílios, misturada com o lápis de olho que Sthefany
passou na minha linha d’água.
Olho para cima e uso todas as minhas forças para engolir o choro.
Não posso desabar.
Não agora.
Posso deixar para fazer isso quando tudo acabar.
Prometi para Aelin que ia voltar com algo gostoso para comermos.
Ela está me esperando.
Preciso pensar positivo e seguir o conselho de Sthefany.
“Quanto mais obediente você for, menos vão te maltratar. Demonstre
que você está amando e mais rápido eles vão gozar.”
Prendo a respiração e encaro meu reflexo. A imagem diante de mim é
perturbadora: olhos fundos, cercados por olheiras que nenhuma maquiagem
consegue esconder por completo, e a pele tensa sobre os ossos, fina demais,
como se a qualquer momento fosse ceder. Me sinto magra, frágil, uma
boneca prestes a se despedaçar. As semanas sem comer direito deixaram
marcas evidentes, pequenas cicatrizes que conto em silêncio enquanto meus
dedos deslizam pelas costelas protuberantes.
Respiro fundo, o cheiro do perfume amadeirado que Sthefany me
emprestou, invade minhas narinas, pesado, sufocante. Ele não me pertence,
assim como a mulher que vejo no espelho não sou eu. A maquiagem é
exagerada, um escudo berrante que esconde minha atitude desesperada. Os
cabelos presos no alto da cabeça deixam meu rosto exposto, entregue,
enquanto o batom vermelho desenha meus lábios. A lingerie preta de tiras me
aperta, revelando mais do que esconde, como se eu fosse uma mercadoria
exposta à venda.
O tic-tac do relógio é uma voz que ecoa por todo o meu corpo, um
sussurro constante que lembra que cada escolha tem um preço. E o preço
dessa noite é maior do que qualquer pedaço de pão mofado ou fruta podre
que eu poderia encontrar no fim do dia. Mais uma batida na porta me traz de
volta à realidade, e meu coração dispara, um tambor descompassado que me
faz estremecer.
Chegou a hora de mostrar se você realmente faria de tudo pela sua
filha.
“Vai ser rápido. Você consegue”, repito para mim mesma, mas as
palavras se perdem no vão entre meus lábios e o espelho. Meus olhos estão
vermelhos, inflamados pela luta silenciosa de segurar as lágrimas. Outra
batida, mais forte, impaciente. Preciso abrir. Preciso enfrentar.
O reflexo não muda, mas sinto que uma parte de mim acaba de se
partir.
Giro a maçaneta e abro a porta para o cliente entrar.
É um homem de estatura mediana e barbudo.
O quarto está todo escuro, iluminado apenas por uma luz em neon
vermelha.
Dou alguns passos para trás, esquecendo tudo o que Sthefany havia me
orientado fazer.
Meu coração começa a bater mais forte e por mais que eu só queira
chorar apavorada, subo na cama ainda vestindo os saltos, que são um número
menor que meu pé. São de Sthefany também. Pretos em verniz.
Acho melhor vir para a cama, antes que ele invente algo que tenha a
ver, andar com eles. É certo que eu não sei dar tantos passos assim sem
tropeçar.
Sento, me encostando na cabeceira, observando o que ele irá fazer.
Ele me olha nos olhos e começa a desabotoar a camisa social que veste.
— Caramba, você é linda demais — ele me elogia, apressando-se ainda
mais para se despir.
O homem não diz mais nada e desafivela o cinto de couro da calça, em
seguida, desabotoa a calça de sarja escura que veste, ficando apenas de boxer
preta.
Reparo que ele usa uma aliança na mão esquerda, e isso só faz com que
eu me sinta ainda pior.
Ele sobe na cama, me puxando pelas pernas até a beirada e levanta meu
queixo, se posicionando em pé, na minha frente.
— Caramba, eu precisava tanto disso. — ele diz, tombando a cabeça
para trás, se posicionando de frente para a minha boca.
Não, não, não, não.
Isso não estava no pacote.
— Isso, não… — tento protestar, mas ele me cala com um tapa no
rosto, agarrando meu rabo de cavalo.
— Deixa para falar quando mandar, gracinha.
O tapa me pega de surpresa e eu tento afastar as mãos dele de mim,
mas ele força minha mandíbula, tentando abrir minha boca a todo custo.
A insistência dele faz com que eu tombe sobre a cama e ele me vira de
bruços, apressado, irritado, violento, e eu soluço, agarrando firme os lençóis,
fazendo de tudo para não relutar contra ele. Fazendo de tudo para ser alguém
agradável e ele ir embora logo, ao mesmo tempo, torcendo para nada
acontecer, por mais que eu saiba que será inevitável.
Um toque na porta me faz erguer a cabeça.
O homem para o que está fazendo e sem me soltar, rosna.
— Já está ocupado! — ele diz, irritado.
Outro toque mais firme interrompe ele novamente e ele me solta,
rumando até a porta do jeito que está, girando a maçaneta.
— Você não escutou que já está ocupado? — ele diz para a outra
pessoa, e paralisada, continuo na mesma posição que ele me colocou, mas
não consigo conter o choro.
Agarro os lençóis e afundo a cabeça no colchão, chorando baixinho.
— Acho que você confundiu o número do seu quarto — a voz do outro
homem desconhecido, soa pela primeira vez.
— O quê?
— Qual o nome da sua garota?
— Eu não sei, porra — o homem irritado que estava em cima de mim,
responde apressado.
— A minha se chama Liz — o desconhecido revela.
É o nome que pedi para Sthefany colocar.
— A recepção me informou que ela estava nesse quarto — ele
completa.
O homem que até então estava comigo, rosna. Não ouso erguer o rosto
para visualizar nenhum dos dois, fico ali na mesma posição como se estivesse
morta e ouço uma movimentação. Ele está vestindo as roupas e após alguns
minutos, a porta bate e ele se despede do desconhecido dizendo “vão se
foder.”
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
— Com licença. — O desconhecido diz, fechando a porta atrás de si,
girando a chave nela.
Silêncio.
Silêncio.
Ergo a cabeça, respirando fundo.
Tem uma mancha preta no lençol.
Droga, minha maquiagem derreteu entre as minhas lágrimas.
Sento no colchão e me apresso a limpar debaixo dos meus olhos.
— Desculpa, eu… — digo antes mesmo de enxergar o outro cliente. —
Acho que houve, um mal-entendido com ele — digo ainda com a voz
embargada, e me levanto, mas tropeço em meus próprios pés.
Duas mãos me seguram firme.
Eu não ouso olhar para ele.
Abaixo a cabeça.
— Vou me recompor. Por favor, pode esperar sentado se quiser.
Também posso dar um desconto por causa disso. Me desculpe, senh… — ele
me interrompe, erguendo meu queixo, mas as lágrimas não param de escorrer
pelo meu rosto. — Desculpa.
— Tira o sapato — ele diz, ignorando tudo o que acabei de dizer.
Assinto, me aproximando da cama onde sento e desafivelo os dois
saltos presos em meus tornozelos.
Se o outro de estatura mediana já me colocava medo, esse me deixa
paralisada. Ele é muito mais alto e forte. Conseguiria me imobilizar
facilmente, mesmo se eu lutasse.
Quando coloco os saltos de lado, ele se posiciona na minha frente, e
começa a tirar a camisa jeans que veste, assim como o outro homem fez, mas
diferente do outro, ele é muito mais forte e sua camiseta branca, fica agarrada
aos seus músculos do abdômen e braço.
Percebo que ele está suando, mas não está quente no cômodo em que
estamos. Talvez tenha usado alguma droga ou algo do tipo. Sua respiração
também é pesada, como se ele estivesse fazendo um esforço calculado para
mantê-la regulada.
— Você está bem? — ouso perguntar, mas ele não responde, apenas se
aproxima de onde estou sentada.
Deduzindo que ele fará a mesma coisa que o anterior, me antecipo.
— Não está incluso o oral, senhor — aviso, mas ele pega a camisa
jeans de mangas a qual acabou de tirar e me estende.
— Veste — ele diz e eu arqueio a sobrancelha. — Não vim fazer o que
pensa.
Silêncio.
Silêncio.
— Desculpa… eu… — começo a falar, encarando a camisa dele
estendida para mim e ele faz um gesto, insistindo que eu pegue e eu faço.
Visto as duas mangas da camisa que se torna um vestido no meu corpo
magro.
— Eu só preciso que você faça uma ligação e depois vou embora.
Assim que ele diz isso, meu coração dispara.
Ele não pode ir. É o único cliente que Sthefany conseguiu para mim de
última hora. Eu só tenho hoje para pagar pelo menos parte do aluguel que
devo e comprar algo para comer.
— Escuta eu… — começo a protestar, porém, não consigo soar brava e
sim aliviada, mas aí lembro que sair daqui sem o dinheiro, não é uma opção.
— Eu preciso do dinheiro, então… eu preciso…
— Não vou fazer nada com você. Só quero que faça uma ligação —
enquanto ele diz isso, sentado ao meu lado, vejo ele tirar um bolo de notas e
jogar na cama. — Pode ficar com o dinheiro.
Pego as notas e conto uma por uma.
— Você vai dizer que é minha psicóloga. Que comecei a ir às
consultas. Que não preciso dos remédios e que vou ficar bem sem eles. Que
conversou comigo, que me abri e que ela não precisa se preocupar. Vai dizer
que tem um grupo de apoio, que eu aceitei participar e que a sessão em grupo
terminou agora. Diz que ela não precisa se preocupar. — Ele me dá as
orientações e tira o celular do bolso, iniciando uma ligação para um número
salvo com o nome de uma mulher: 'Maddie'. — Minta seu nome quando ela
atender.
Não tenho tempo de processar o que ele me diz. Ele estende o celular
próximo aos meus lábios no viva voz e antes que eu faça perguntas, uma
mulher diz do outro lado da linha.
“Christopher?” é o que ela diz ao atender e deduzo ser o nome do
homem ao meu lado.
“Ah,” pigarreio, antes de começar a falar. “Oi, aqui é a Elizabeth, a
psicóloga do Christopher” digo, encarando ele e a voz feminina do outro lado
da linha, diz com sorriso na voz.
“Olá, doutora Elizabeth, aqui é a Madelyn.”
Ele faz um gesto para que eu continue.
“O Christopher me pediu para falar com você.”
Há um suspiro do outro lado da linha.
“Sim… Tem sido difícil lidar com ele.” ela diz num suspiro.
“Te liguei para dizer que não precisa se preocupar com o horário.
Nossa sessão em grupo terminou agora. Ele contou que você estava
preocupada, mas já começou a fazer as consultas” repito o que ele me disse.
“Doutora, você acha que ele está bem mesmo? Que ele não precisa de
remédios?”
Silêncio.
“Sim” confirmo, encarando o homem ao meu lado e ele desvia o olhar.
“Algumas medicações, se usadas por um período muito longo, pode causar
dependência, então com o psiquiatra dele, tomamos a decisão de ainda não
adicionar ao tratamento.”
“Ah, claro.” ela diz mais flexível.
“Christopher, já está indo embora” anuncio.
“Obrigada, doutora. De verdade.”
“De nada, Madelyn. Se quiser, podemos marcar um dia pessoalmente
para você vir ao meu consultório” ofereço e o homem que julgo se chamar
Christopher, desliga na cara dela.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
Nós dois observamos o registro de ligação do celular dele, em silêncio,
sem saber o que dizer um ao outro.
Pela foto do contato, Madelyn é uma moça muito bonita, já nos auge de
seus trinta e poucos anos, de olhos cor de mel enérgicos e um sorriso
contagiante.
Ele parece menos ofegante agora, e me olha como se não acreditasse no
que acabou de fazer. Olho para ele de volta e encolho os ombros.
— Você devia ser sincero com ela — comento.
— Em algumas situações, a sinceridade pode acabar ferindo mais —
ele responde.
Quero discordar, mas assinto. Eu também jamais seria capaz de dizer
que estou nesse lugar. Muito menos para alguém que eu amo.
— Você a ama? — pergunto.
— Pra cacete — ele diz.
— Não deveria estar aqui, então.
— Eu não tenho uma esposa ou algo do tipo, ela é a minha irmã — ele
se explica.
Fico ainda mais confusa.
— Não tinha muitos lugares para recorrer.
Solto um riso.
— É, eu também não — confesso, encarando meus próprios dedos. —
Mas espero que saiba, que se está precisando de ajuda, deveria ir atrás —
aconselho.
Ele, em resposta, apenas me analisa. Um olhar frio, sem qualquer
indício de emoção. Pela primeira vez, reparo que os olhos dele são cor de
mel, assim como os da irmã, mas não são nada quentes ou contagiantes.
Ainda assim, há algo nele que me atrai de forma perturbadora — uma aura
misteriosa que parece esconder segredos sombrios. Sua presença é magnética,
e mesmo sem um sorriso, ele exala uma beleza perigosa que faz com que,
meu nervosismo aumente.
Suspiro antes de quebrar o silêncio e desviar o olhar do dele.
— Obrigada pelo dinheiro. Vai me ajudar muito. — Agradeço,
segurando o bolo de notas.
Ele não diz nada, me olha por mais alguns constrangedores minutos e
se levanta, rumando até a porta.
— Você pode dormir aqui se quiser. Seu pacote é para uma noite —
digo, seguindo ele até lá.
— Pode ficar, eu vou para casa — ele diz, abrindo a porta.
— Eu… — começo a dizer antes que ele feche a porta atrás de si. —
Também vou para a minha.
Ele analisa o quarto. Parece que só agora realmente se deu conta de que
está em um puteiro e já são mais de dez da noite.
— Toma cuidado. Volto quando precisar de você novamente.
— Eu não vou estar mais aqui. Eu não… — por algum motivo, me vejo
obrigada a fazer com que ele saiba que eu não sou uma puta ou trabalho com
coisas desse tipo. — Eu tenho uma filha — começo a contar e ele, pouco
interessado, apenas assente. —, essa foi a minha primeira vez aqui.
— Você é muito bonita. Espero que o dinheiro ajude e você não precise
se submeter a isso novamente. Teve sorte. Os próximos podem não estar
precisando que você faça apenas uma ligação — ele diz, frio. Sem um pingo
de comoção, mas mesmo assim, agradeço sentindo meu rosto corar.
— Obrigada pelo conselho.
— Pode ficar com a blusa. Está meio frio lá fora.
Puxo as mangas, como as palmas das mãos.
— Obrigada.
Ele dá as costas e eu o observo sumir pelo corredor, torcendo que, por
mais que ele tenha salvado a minha vida, espero nunca mais o encontrar.
| UM MES ANTES |
A guerra sempre vai levar algo de você. Sendo inocente ou não, ela
cobra seu preço e geralmente, não é nenhum pouco barato.
Achei que estar de volta em casa, resolveria boa parte dos meus
problemas, mas desde que voltei, há quase um mês e meio, não sinto mais
que aqui é meu lar.
— Tem certeza que vai ficar bem? — Madelyn pergunta, acariciando
um lado de meu rosto.
Ela carrega um semblante preocupado e, ao mesmo tempo,
amedrontado. Madelyn é a cara da nossa mãe. Tem olhos bondosos, e os
lábios estão sempre esticados em um sorriso gentil.
Thomas está no carro, esperando por ela.
— Eu vou ficar bem — garanto enquanto ela me abraça.
Dou uma olhada para que, Thomas, o esposo dela, a aprece.
Não quero Madelyn sozinha nem tão cedo debaixo do mesmo teto que
eu. A noite passada foi um pesadelo. Apesar de saber que não iremos
esquecer disso tão cedo, forço a minha mente a acreditar que não quero
lembrar disso nunca mais, nem permitirei que aconteça de novo.
Se Thomas não tivesse chegado e tomado a faca da minha mão, não sei
onde minha irmã estaria agora. A mão enfaixada dele com alguns pontos, é a
prova de que não foi fácil me conter para salvar a sua esposa e o filho das
mãos do irmão louco.
Mas é assim que tem sido. Faz um mês e meio que voltei da maldita
guerra no Iraque, e essa despedida, é a prova de que a guerra não levou
apenas a minha alma. Também está levando as pessoas que amo para longe
de mim.
A cena não sai da minha cabeça. Minha mão, pressionando a faca
contra o pescoço da minha irmã, arrancando um fio de sangue enquanto ela
gritava por ajuda, intercalando com “Christopher! Sou eu, sou eu! Deus!
Alguém me ajuda, Christopher! Christopher, por favor, me solta.
Christopher, sou eu, Thomas, eu preciso de ajuda!”
— Chris? — a voz de Madelyn me chama e percebo que ela está
tentando se soltar do abraço.
Me afasto.
Ainda dá para ver o corte superficial que fiz em seu pescoço quando
nos esbarramos na noite passada.
Eu havia ido beber água, ela tinha se levantado no andar de cima para ir
ao banheiro, eu ouvi o barulho da descarga, e não consegui diferenciar a casa
com mais um episódio de TEPT[1]. Foi fácil interceptar ela quando ela saiu do
banheiro.
Por pouco eu não matei minha irmã e meu sobrinho que ela está
gestando.
Madelyn sabe que não direi mais nenhuma palavra, e ela suspira,
acariciando a barriga, posicionando a outra mão nas costas.
— Céus, essa barriga vai me matar — ela murmura e me dá uma última
olhada. — Nós estaremos perto, então se precisar de qualquer coisa, liga e eu
chego em cinco minutos, isso se não estiver trânsito.
Solto um riso com o comentário dela.
— Não precisa se preocupar.
Isso é o que mais tenho dito a ela, e o que ela mais tem feito desde que
voltei.
Observo Madelyn entrar no carro e aceno, forçando um sorriso, mas ela
retribui o olhar de despedida com o semblante preocupado e cabisbaixo. Isso
me quebra.
Sei que minha irmã jamais iria embora se a situação não fosse
preocupante e perigosa para o bebê, mas é melhor assim. Por mais que ela
seja minha irmã mais velha e sempre se veja na obrigação de cuidar de mim,
Madelyn não faz ideia da alma vazia que assumiu o corpo do irmão dela, e eu
tinha certeza que quando ela visse esse lado, a distância seria a melhor opção.
Agora o saldo de pessoas existentes na Residência Ford foi resumida a
“zero”. Não acho que eu seja um número importante.
Estando aqui sozinho, será melhor para mim. Sem barulhos, ruídos, ou
surpresas.
A Residência Ford já teve dias melhores. Dias em que Meredith e
Robert Ford eram vivos. Dias em que eu e minha irmã, Madelyn, corríamos
pelos corredores da casa de dois andares, implicando um com o outro quando
éramos crianças. Dias em que nem se passavam pela minha cabeça, que eu
serviria no exército.
Eu tinha vinte anos quando perdi meus pais em um acidente de carro;
Madelyn tinha vinte e três. Poucos meses depois, ainda com vinte anos, Sara,
minha namorada, me trocou pelo meu melhor amigo, Dustin.
Foi com a mesma idade, que larguei a faculdade de engenharia e fui
servir no exército como soldado. Eu estava passando pelo luto e pela traição
das pessoas que eu era mais próximo. Isso era tudo o que eu precisava.
Eu tinha sede da guerra. Estava com sangue nos olhos quando passei
pelos treinamentos. Era novo. Tinha vigor para estar na linha de frente.
Estava disposto a fazer qualquer coisa para afastar qualquer vestígio de
humanidade que ainda existisse em mim. Quando puxei o gatilho pela
primeira vez, sabendo que estava tirando uma vida, foi como se eu deixasse
de existir.
Eu não precisava mais pensar em Madelyn, meus pais mortos, minha
namorada que havia me traído, meu melhor amigo. Nada. Era só atirar.
Matar. Esquecer que eu tinha uma vida.
É nisso que a guerra te transforma. Em uma máquina que puxa o
gatilho para qualquer coisa que apresente ameaça para o pelotão. Você não se
sente mais digno de voltar para casa, só sente que merece aquilo.
Me pergunto se tudo compensou. Se todas as perdas de pessoas
inocentes valem realmente a pena em uma guerra.
Sangue, morte, destruição e noites em claro.
Quando você vivencia certos tipos de violências, realidades que você
não achava ser possível de serem vividas até ver com os seus próprios olhos,
deitar a cabeça no travesseiro, sabendo que no outro continente, ainda
existem pessoas que não vão dormir essa noite ou que não terão a mesma
refeição digna que você está tendo, ou roupas limpas, muda algo dentro de
você em proporções catastróficas. Você começa a sonhar acordado, ouve o
barulho dos tiros, acha que qualquer coisa caindo perto de você é uma
granada, tudo te deixa em estado de alerta, você começa a sentir que a
qualquer momento algo muito ruim vai acontecer e é melhor não se apegar
tanto aos seus colegas do pelotão, porque pode ser que em alguma das
missões, eles não voltem, ou pode ser que você tenha que escolher entre
salvar eles ou salvar a própria vida e sua mente entra em colapso.
Você tem que se policiar o tempo inteiro para piscar, e quando pisca,
faz isso de forma exagerada, porque sente que tudo, num piscar de olhos, se
você desviar sua atenção, pode voar pelos ares. Você acorda no meio da noite
ouvindo ruídos, e acha que o inimigo invadiu seu território, e quando se dá
conta, está dando uma chave de braço na sua irmã grávida, pressionando uma
faca no pescoço dela.
Tento regular minha respiração enquanto a ducha de água gelada cai
sobre a minha cabeça. Abraço meus joelhos, sentado no chão e meu corpo
treme devido à temperatura da água.
— Vai melhorar, vai melhorar, vai melhorar — digo enquanto meus
lábios tremem.
Era assim que eu ficava durante a noite, perto da hipotermia no buraco
de rato em que fiquei por dias escondido, sujo pelo barro, ao lado do meu
parceiro, tão apavorado quanto eu, sem dormir ou sequer baixar a guarda.
A Residência Ford pode parecer uma casa comum entre a vizinhança,
mas ela não passa de paredes frias e cômodos vazios que não serão capazes
de me proteger do que existe dentro da minha própria mente.
|AGORA|
— Não foi esse o valor que a gente combinou — digo no balcão e
Sthefany, mastiga o chiclete, espremendo os lábios insatisfeita. — Não é essa
quantia. Eu preciso de mais — digo séria.
— Eu sei, Liz, mas acho que você esqueceu que tem os descontos. A
lingeries, o sapato, a maquiagem, o perfume, e parece que o cliente da Camila
confundiu o seu quarto e foi embora. Vai ter que dividir esse valor com ela.
Você esqueceu de perguntar o nome. Acabou prejudicando sua colega.
Encaro o valor que restou em cima do balcão, enquanto ela conta o
restante das notas. Molhando a ponta do dedo da mão enrugada pela idade
nos lábios, ela parece estar satisfeita com seu lucro.
Conheci Sthefany por um acaso na rua alguns meses atrás, enquanto
vendia alguns doces no farol para conseguir alguma renda. Ela parou seu
carro do meu lado e abaixou os vidros, observando meu estado. Fiquei sem
jeito quando ela estendeu a mão sobre meus longos cabelos castanhos e os
acariciou como se estivesse avaliando a qualidade deles. Recuei, porque
apesar de diariamente precisar correr atrás de dinheiro e comida na rua, sabia
o quão perigoso era toda essa exposição, ainda mais estando sozinha, e tendo
o meu porte físico.
Eu já era acostumada com os comentários que recebia pela rua e os
assovios, por isso, optava sair com roupas mais humildes e largas.
Lembro que ela tirou os óculos escuros e me olhou nos olhos como se
tivesse encontrado ouro no final do arco-íris.
— Tenho um trabalho para você, garota — ela disse, soprando a
nicotina de seu cigarro ao falar. Sua voz soava rouca e desgastada. — Me
chamo Sthefany. Você mora por aqui?
Apenas assenti.
Permaneci em silêncio, enquanto ela retirava um cartão do porta-luvas
do carro e me entregava, com seu telefone. Ela não me disse com o que
trabalhava, mas afirmou que eu tinha perfil para a vaga e me daria bem.
O trabalho consistia em clientes e eu poderia ganhar até 100% de
comissões em cima dos valores das minhas “vendas”. O melhor de tudo, é
que eu não precisaria arcar com nada. Desconfiei na hora ser algo desonesto
pela forma que ela havia me abordado na rua.
Era parecido com algumas oportunidades que eu já havia recebido para
ser modelo, com promessas de que eu receberia o book gratuito para começar
em alguma agência que eles me colocariam.
Vovó sempre me alertava a nunca aceitar nenhum tipo de oferta assim,
porque geralmente estava ligado a um submundo totalmente ilegal.
O olhar de luxúria e interesse de Sthefany, era exatamente como outros
que eu já tinha visto antes, e nunca me pareceram boa coisa. Fora que era
uma oportunidade que veio muito fácil. A julgar também pela identidade
visual do cartão de visitas, — vermelho fosco com uma chama laminada —
não foi tão difícil deduzir o que poderia ser, ainda mais na região carente em
que eu moro.
— E essa camisa, aí? Seu cliente te presenteou? — ela debocha,
trazendo-me para a realidade.
Me encolho sobre o tecido jeans, lembrando do rapaz da ligação.
O tecido exala um cheiro forte, masculino que julgo ser da colônia dele,
mas não tenho muito tempo para pensar nisso, o riso de deboche da mulher
de pouco mais de cinquenta anos, me traz de volta.
— Pelo visto, deve ter se saído bem. Da próxima vez, tenta pedir
alguma gorjeta.
Não respondo à provocação dela. Recolho as notas e guardo no bolso
da minha calça jeans.
Dá para comprar algumas refeições para Aelin pela próxima semana,
mas não paga o aluguel e Simon está lá me esperando. Já foi um sacrifício ter
que deixar a minha pequena com ele e agora, não faço a menor ideia de como
vou explicar para ele que não consegui o dinheiro. Aliás, consegui parte dele,
mas entre pagar parte da dívida que tenho com ele ou comprar comida para a
minha filha, não preciso pensar muito para saber qual será a minha
prioridade.
Simon tem por volta de seus quarenta anos e é dono do pequeno
cômodo em que moro com Aelin, num bairro no subúrbio próximo de Nova
York. Na verdade, vovó alugou aqui primeiro, então não tive tempo de
conhecer quem ele realmente era. Ou talvez soubesse que ele era um agiota e
só tivesse me convencido de que faríamos de tudo para não termos grandes
problemas com o cara que dominava o bairro onde morávamos.
Tráfico de drogas, extorsão, dívidas que nunca terminavam... Ele tinha
homens trabalhando para ele, espalhados por cada esquina do nosso bairro,
garantindo que ninguém saísse da linha e eu, fiz uma promessa para mim
mesma que, quando nossa situação melhorasse, sairia daquele lugar assim
que pudesse. Na teoria, era o certo a se fazer, na prática, anos se passaram,
nossa situação não melhorou, o valor que ele cobrava era o que melhor nos
atendia e no fim, era isso o que Simon era.
Ele não emprestava apenas valores em dinheiro, Simon alugava alguns
cômodos que tinha no bairro e isso, era uma forma de enganar algumas
pessoas que recusavam a agiotagem.
Ele te dava a melhor opção e primeiro, se apresentava como um cara
amigável que fazia tudo nas melhores condições para você apenas para “te
ajudar”. Estendia prazos de pagamentos quando o aluguel atrasava e quando
você se dava conta, ele já sabia todos os horários que você saia e voltava para
casa, ou sabia exatamente onde você estava trabalhando e quanto estava
ganhando. Quando você estava prestes a pagar suas pendências, ele te
lembrava dos dias que esperou você acertar o valor e colocava juros absurdos
em cima da dívida, tornando quase um loop infinito de dívidas que te
impediam de ir embora.
Era assim que ele controlava todos que alugavam os cômodos
insalubres que ele mal se preocupava em dar manutenções, na teia de aranha
que, quanto mais você se mexia para tentar se libertar, mais acabava se
enrolando.
Isso quando ele não te colocava para fazer trabalhos para ele em forma
de pagamento, como fazia com a maioria dos rapazes ou quando mandava as
mulheres para casa de prostituição, como fez comigo, nos obrigando a
conseguir dinheiro rápido para ele.
Mesmo assim, ele não era de aparecer muito, tudo o que eu ouvia sobre
ele, vinha da boca dos outros como, por exemplo, o que ele fazia quando
alguém tentava se livrar disso. As histórias de torturas que ele fazia no meio
da rua para ficar de exemplo para o restante, as crianças que ele levava
embora, e até os vários finais dessas histórias que terminaram em morte
explícita, num cenário de horror para que todos vissem quem mandava
naquele lugar.
A polícia não se metia. O noticiário não dava exposição.
Essa era a realidade do lugar que eu e vovó nos metemos.
É por isso que sempre fiz o possível e o impossível para evitar
problemas. No entanto, nos últimos meses, com a vovó cada vez mais doente
e debilitada, sem conseguir cuidar de Aelin, tornou-se cada vez mais difícil,
para mim, manter os trabalhos temporários que conseguia e,
consequentemente, minha renda foi se esgotando.
Aelin tem cinco anos e, parte do dia, ela precisa de cuidados. A vovó
fazia isso, mas faz três meses que ela se foi e minha vida virou uma bola de
neve.
Não consegui um trabalho no horário da escolinha de Aelin e tive que
tirar minha pequena de lá, o lugar onde ela tinha comida e passava um tempo
para que eu pudesse ir atrás de algo, mas a professora começou a reparar e
Aelin inocentemente, começou a contar que tinha dias que ela só comia o
lanche do recreio, ou que não tínhamos luz para ela ver os desenhos
animados, ou que eu a deixava sozinha por algumas horas, e eu tive medo
que a professora acionasse a assistência social e levasse a minha pequena de
mim. Arrumei uma desculpa de que iríamos nos mudar e ela iria para outra
escolinha.
E agora, nós chegamos onde estamos. Ninguém te dá um trabalho se
você não tem com quem deixar a sua filha. Ninguém quer saber se o seu
aluguel está atrasado ou se vocês não têm o que comer. Ninguém quer saber
se você está vivendo o luto e usou todas as economias para enterrar seu único
ente-querido com dignidade.
São três meses de aluguéis atrasados. Desde que vovó morreu, não
consegui equilibrar as contas. Perdi meu trabalho de garçonete porque não
tinha onde deixar Aelin depois da escolinha, e não consegui arrumar mais
nenhum bico, me restando apenas pedir na mercearia algum alimento que eles
iriam jogar fora, ou alguns pães na padaria envelhecidos.
Era isso ou ter que pegar dinheiro emprestado com Simon. Dinheiro
esse, que se tornaria uma dívida infinita com ele.
Simon tinha me avisado que se eu não acertasse o aluguel, ele iria me
colocar no olho da rua, mas o que ele fez, foi muito pior.
Eu sempre soube que quando ele vai à casa das pessoas cobrar, algo
ruim sempre acontece, mas ameaçar levar a minha filha, foi o necessário para
que eu decidisse que, nem que custe a minha vida, acertarei tudo o que
preciso com ele e vou procurar outro lugar para ficar o mais rápido que eu
puder.
Giro a chave no cadeado com pressa e passo pela porta.
Do contrário de quando eu saí, Aelin não está chorando e eu a encontro
deitada na cama de solteiro que dividimos, agarrada a uma blusa minha.
Me aproximo dela, procurando qualquer sinal de algo que ele tenha
feito e nem reparo sua presença, sentado na cadeira que eu usava para colocar
os remédios da vovó perto da cama dela que não está mais aqui.
— Voltou mais rápido do que pensei, Angel — ele comenta com um
sorriso nojento no rosto.
— Não consegui o dinheiro — digo, me virando para ele, servindo de
barreira entre ele e Aelin. — Por favor, a minha filha não tem nada a ver com
isso. Ela é uma criança — me antecipo quando ele desvia os olhos para ela.
Simon ri pelo nariz.
— Tsc, tsc, tsc, tsc. — ele balança a cabeça, se levantando. — Não foi
esse o combinado, Angel. Sabe, sempre falei para todos daqui que você era
um exemplo a ser seguido, mas de uns meses para cá, você está me
decepcionando.
— Simon — tento continuar, mas ele me pega pelo pescoço.
— Caladinha — ele diz entredentes, num tom baixo. — Não quer que
a pequena acorde, né?
Balanço a cabeça negativamente.
— Por favor, me dá só mais uma chance — peço como uma prece e ele
sorri satisfeito.
— Sua vovó não está mais aqui para te defender, docinho — ele diz,
aproximando-se do meu pescoço, cheirando minha pele tão profundamente,
que fecho os olhos fortemente, como se ele estivesse sugando as minhas
forças. — Sempre tive curiosidade para sentir seu cheiro.
— Simon, por favor, a minha filha está aqui — choramingo, tentando
afastá-lo, e ele tira do bolso de trás um revólver, acariciando meu rosto com
ele. — Simon — imploro. — Ela só tem a mim.
— Amor, eu não quero machucar seu rostinho de princesa, você sabe,
né? — assinto de imediato. — Então você vai dar o dinheiro, ou escolher
entre você, ou ela.
Assinto enquanto as lágrimas escorrem facilmente pelo meu rosto.
— Por enquanto, vou me contentar com isso — assim que ele diz isso,
sela os lábios nos meus, mas eu não reluto para não acordar Aelin na cama ao
lado.
Deixo ele explorar meus lábios e me puxar pela cintura, se esfregando
em mim.
Apenas fechos os olhos e faço o que Sthefany havia me dito hoje mais
cedo. “Quanto mais obediente você for, menos vão te maltratar.”
Deixo que ele aproveite até me soltar com um sorriso de luxúria no
rosto, segurando meu queixo para encará-lo.
— Eu sempre te disse que você ia ser minha, não disse, Angel? — ele
diz com um sorriso satisfeito. — Então já que você não vai me dar o que
deve, vai começar a me dar o que eu quero — ele diz, despreocupado. —
Cuidado para as meninas da vizinhança não ficarem com ciúme de você, a
verdade é que, eu prefiro tirar uma casquinha de você, a ter que raspar seu
cabelo. Seria um desperdício.
Não me mexo ou retruco, apenas espero ele guardar o revólver no bolso
e sair pela porta. No instante seguinte, estou ajoelhada no vaso colocando o
pouco que comi no dia de hoje para fora.
— Mamãe? — Aelin me chama sonolenta e poucos segundos depois,
ela força a maçaneta da porta do banheiro, mas eu seguro a porta, impedindo
ela de abrir.
— Oi, amor, a mamãe já chegou — anuncio, tentando disfarçar minha
voz embargada.
— O tio Simon me deu chocolate — ela conta do outro lado da porta.
— Que legal, meu amor. Já estou saindo.
— Mamãe, hoje vai ter algo para comer? — a pergunta dela, arranca
mais algumas lágrimas dos meus olhos e eu assinto, mesmo sabendo que ela
não pode ver.
— Sim, meu amor. Hoje a gente vai comer pizza. — Dou a descarga no
banheiro e ilumino meu rosto com a lanterna do celular, jogando um pouco
de água gelada na tentativa de melhorar meu semblante.
— Pizza? A gente vai comer pizza? — ela pergunta sem acreditar.
Encaro as poucas notas em minha mão e abro a porta.
— Sim, amor.
— Mamãe! — ela comemora, abraçando as minhas pernas.
— Vem cá, vamos escolher o sabor — digo, chamando ela para cima
da cama, reparando seus pezinhos frios.
Após comermos a melhor refeição que tivemos essa semana, Aelin
dorme encolhida no canto da parede e eu orgulhosa demais para que ela me
veja chorar, me tranco no banheiro escuro, sentada na tampa do vaso, usando
a camisa jeans que o rapaz havia me dado para abafar meus soluços.
Não sei por qual razão choro. Se pela situação em que estou vivendo
com a minha filha, se pelo que Simon fez, se por ter achado que Sthefany
estava me ajudando por boa vontade a conseguir o valor do meu aluguel, se
pela falta que vovó me faz, ou se por tudo junto.
Todos os dias, nessa mesma hora, esse é o meu ritual. Me trancar no
banheiro, colocar um pano na boca para abafar meus soluços, chorar até não
ter mais forças e voltar para a cama para dormir e encarar o próximo dia com
um sorriso no rosto para Aelin sentir que estou dando conta de tudo e que é
só uma questão de tempo até a nossa situação melhorar.
A verdade é que, eu não sei quando vai melhorar, e a única força que
tenho de continuar é a pequena que nunca vi tão feliz como hoje, devorando
um pedaço de pizza.
Quando acalmo meus soluços, respiro fundo e lavo o rosto mais uma
vez com água gelada, repetindo as palavras que tem sido como uma oração
particular.
“Vai melhorar, vai melhorar. Uma hora vai melhorar.”
Quando deito e desligo a lanterna do celular, fecho os olhos, decidida
de que essa semana que se iniciará, irei arrumar um trabalho, não importa em
que lugar seja.
|AGORA|
— Foram cinco diaristas esse mês — Madelyn comenta, passando o
dedo sobre o móvel ao lado da minha cama, esfregando um no outro para
usar de indireta de que meu quarto precisa ser limpo o mais depressa
possível. — Você pretende viver assim até quando? — ela cruza os braços
por cima da grande barriga de oito meses e algumas semanas e estreita os
olhos para mim.
Suspiro.
Quando voltei para casa, Madelyn tinha o plano de passar um tempo
morando comigo para me dar apoio. Ela está grávida do meu sobrinho Noah
e Thomas, seu esposo, também achou que seria bom eles passarem um tempo
comigo até eu me acostumar novamente com “essa vida.”
Em outras palavras, minha irmã deixou a própria casa para cuidar de
mim na casa dos nossos pais — que agora é minha — porque percebeu que
eu estava diferente demais do que ela conhecia. Eles ficaram preocupados,
ainda mais quando viram o estado das cicatrizes que eu trouxe da guerra. Eles
só não contavam com o TEPT. Para falar a verdade, nem eu.
Não sabia o quão real era até quase matar a minha irmã e esfolar a mão
do meu cunhado.
Quando Madelyn foi embora com Thomas, eu havia deixado claro que
não queria ninguém na casa. Não até que as crises melhorassem.
Não queria correr o risco de que mais alguém presenciasse qualquer
comportamento meu. Achei que isso ia passar em alguns dias, mas claro que
sem ajuda psicológica, isso seria quase impossível acontecer.
Faz um mês que eles me deixaram sozinho e um mês que Madelyn está
tentando me convencer de que preciso de uma diarista para cuidar da casa.
Foram cinco que já passaram por aqui.
Ou são barulhentas demais ou puxam assunto demais comigo. Não
consigo me sentir à vontade sabendo que, a qualquer momento, posso
esbarrar com uma desconhecida em casa ou que elas correm o mesmo risco
que Madelyn viveu.
Minhas crises de TEPT tem sido tão constantes, que por mais durão que
eu tenha aprendido a ser no exército, confesso que tudo o que sinto é medo.
Então quase não saio do quarto e tenho evitado ao máximo sair de casa.
Faz dois meses e meio que voltei para casa e sequer tenho dormido
direito. Pelo contrário, as crises têm se tornado mais fortes, vindo não só pela
noite, mas em qualquer momento, apenas esperando eu dar uma brecha para
elas invadirem a minha cabeça.
Sei que a prioridade agora seria passar com um psiquiatra e fazer um
acompanhamento com o psicólogo, mas não me sinto preparado para isso.
Menos ainda para contar e me lembrar do que aconteceu na guerra, das coisas
que presenciei lá. Das coisas que fiz em nome da minha pátria.
— Já disse, não precisa contratar pessoas para cuidar de mim. Estou
bem. Você prometeu que não iria se preocupar — digo num resmungo.
— Mas a casa precisa de manutenção. Você emagreceu, não está
comendo. Elas me disseram que você só fica nesse quarto — minha irmã
reclama.
— Será porque falei que não queria ver ninguém? — digo o óbvio.
As diaristas que Madelyn contratou, só serviram para foder mais ainda
a minha cabeça. Foi o pior tipo de experiência que ela poderia me
proporcionar. E vai continuar assim, até ela desistir de uma vez por todas
dessa ideia.
— Cancelei o contrato com a empresa responsável por contratar as
diaristas. Eles vão mandar a última essa semana — ela começa a falar, mas
faço menção a recusar o que vem após isso. — Por favor — ela diz antes que
eu diga a primeira palavra. — Aceite isso por mim. Vamos tentar de outra
forma. Você faz as regras. Noah está próximo de nascer e antes disso, eu só
quero ter a garantia de que tudo estará sob controle aqui — ela junta as mãos.
— Por favor, faça isso por mim e se não der certo, eu desisto dessa ideia. —
ela barganha. — Essa será a última. Tenta pensar positivo, talvez conviver
com alguém pode ser uma porta de entrada para você voltar a ter relações
sociais. Christopher, por favor, não deixa eu ir para o hospital sem saber que
pelo menos vai ter alguém para fazer as compras pra você.
— Você falou com a psicóloga ontem. Ela disse que você não precisava
se preocupar e você está…
Madelyn faz um gesto para que eu não repita pela milésima vez que ela
está se preocupando demais.
— Maddie, estou fazendo tudo o que posso — sou insistente.
Até inventei que tenho uma psicóloga. Meu subconsciente lembra.
Não existem mais tantas pessoas das quais conheço desde que voltei
para pedir favores, ainda mais alguém que aceitasse mentir para Madelyn.
Se tem algo que ninguém tem coragem de fazer, é mentir para a minha
irmã, passar a perna nela, trair a confiança ou arrumar uma briga. Tenho
certeza que Madelyn é uma das poucas pessoas no mundo que já tem seu
lugar reservado no céu. Isso porque, existem poucas coisas ruins vinculadas a
ela. Madelyn é uma pessoa boa, exatamente como a nossa mãe era. Está
sempre cuidando e se compadecendo da dor dos outros. Minha irmã é o tipo
de pessoa que anula as próprias necessidades para dar uma mão amiga a
quem ela puder e é justamente por isso, que precisei passar ela para trás.
Ela estava insistindo demais para que eu começasse a terapia. Decidiu
por ela mesma que se eu fosse a um psiquiatra, talvez ele pudesse resolver as
minhas crises com algum remédio que me deixaria mais tranquilo e coisas
desse tipo que resumem nas entrelinhas que “talvez você devesse se cuidar
porque está agindo como louco.”
Eu arrumei uma psicóloga, só não no lugar que ela queria.
Pensando pelo lado bom, essa decisão me fez sair de casa, já que, eu
não dirigia desde que voltei da guerra.
Pelo menos ela vai demorar um tempo para descobrir que essa
psicóloga não existe.
Minha irmã está prestes a dar à luz ao seu primeiro filho. Ela tem trinta
e três anos e está ansiosa, cansada e preocupada com o parto. Ela se casou
com Thomas aos vinte e sete anos e desde então, eles vêm tentando
engravidar. Só conseguiram após seis anos. A última coisa que ela precisa,
agora, é se preocupar com seu irmão caçula de trinta anos.
Sou muito grato por ela ter encontrado um cara legal como Thomas
para construir uma família e dessa vez, ao que diz respeito a mim, quero
deixar ela de fora o máximo que eu puder.
A coisa mais sensata que passou na minha mente, foi ir em uma casa
noturna e pedir ajuda a qualquer puta que estivesse disponível para se passar
como psicóloga e dizer com todas as letras para a minha irmã, que eu estava
bem e não precisava se preocupar.
Foi uma boa ideia na teoria e péssima, na prática.
Precisei sair de casa, dirigir, ouvir muitos ruídos ao mesmo tempo, e
ainda me deparei com a pior cena que eu poderia pedir. Um cara prestes a
estuprar uma mulher.
Sei que os homens procuram aquele tipo de lugar justamente para sexo,
e as mulheres que trabalham ali, esperam que isso aconteça, mas não aquela
mulher.
Não da forma que vi da brecha da porta quando ele abriu um vão para
dizer que o quarto já estava ocupado. Não quando ela chorou baixinho
enquanto o canalha discutia comigo sobre estar no quarto errado. Não com os
olhos assustados que ela direcionou a mim quando tirei minha camisa jeans
para entregar a ela.
Existem poucas coisas na vida que tenho o costume de julgar, mas
aquela mulher não deveria estar ali. Ela mal sabia como tirar os próprios
sapatos. Não perguntou meu nome, sequer encostou em mim, e apesar de
estar sexy pra cacete com aquelas peças que deixavam quase todo seu corpo à
mostra, tenho certeza que ela não tinha costume de usar. Sequer combinavam
com ela.
Não era uma prostituta. Tinha rosto de anjo, falava como um, e tinha os
olhos azuis mais lindos que eu já vi na minha vida. Ela era uma divindade
perdida em uma toca de demônios.
Em outra ocasião, eu teria me interessado. Perguntaria o nome da filha
dela e o que aconteceu que ela havia recorrido àquilo tão desesperadamente.
Em outra ocasião, eu teria apreciado seu corpo frágil e feito daquilo algo que
nenhum homem, jamais profanaria. Em outra ocasião, ela não teria mentido
para minha irmã sob pressão em troca de dinheiro. Em outra ocasião, eu teria
desejado ela como um peregrino no deserto sedento por uma gota de água.
Mas a única coisa que eu queria, era fazer aquilo e sair dali o mais
rápido que conseguisse. Usando todas as minhas forças para conter os
tremores.
Era um quarto escuro. Eu não conseguia enxergar muitas coisas a não
ser as que estava perto. Desde então, é nisso que tenho pensado cada vez que
uma crise tenta invadir a minha mente.
No meio dos escombros, os olhos dela estão lá. No meio das ruínas, é a
pele dela que dou a vida para proteger dos estilhaços.
— Chris? — Madelyn toca meu braço e eu dou um passo para trás,
fechando os olhos. — Ouviu o que eu disse?
— Desculpe — digo e ela suspira, sentando em minha cama.
— Você precisa se esforçar. Tenho certeza que pode ser um primeiro
passo. Talvez se você conversasse com a sua psicóloga, ela concordaria.
Tenho certeza que você não contou para ela que já está aparecendo teias de
aranha na despensa — Madelyn tenta usar seu último fio de paciência para
me convencer, mas ao ver que isso não vai acontecer, ela se levanta,
preparando-se para ir embora. — De qualquer forma, é a última mesmo — ao
dizer isso, ela se prepara para deixar o quarto, mas barro ela.
— Eu faço as regras — digo e ela tenta conter um sorriso de satisfação.
— Tudo bem.
— Mas se ela descumprir, eu a mando embora e não vai ser nenhum
pouco agradável — garanto e Madelyn assente, sustentando meu olhar.
— Deixarei ela avisada.
— É a última chance que vou dar — aviso.
— Pode deixar. Eu mesma farei parte da entrevista.
— Separei alguns pães que sobraram do fim de semana — Clemente
diz assim que chega a minha vez na fila de fazer o pedido.
Sorrio para ela, agradecida.
Não sei o que seria de mim, sem ela. A senhora Clemente tem por volta
os seus cinquenta e poucos anos e trabalha na mercearia desde que vim para
Nova York com dezenove anos. Hoje tenho vinte e cinco e ela me olha com
os mesmo olhos bondosos de quando eu ainda estava grávida de Aelin.
Foi a vovó Celine que a conheceu primeiro. Lembro que eu ainda
estava grávida quando a vovó chegou em casa com alguns alimentos que ela
havia separado e entregue para que eu conseguisse ter ao menos três refeições
completas ao dia na minha gestação.
“Cuide dessa garota, Celine. Ela vale ouro.” é o que ela sempre dizia
para vovó quando minha barriga começou a crescer de tal forma que já não
dava para esconder. Desde então, ela nunca mais parou de nos ajudar da
forma que podia e nunca me fez perguntas sobre onde estava o pai do meu
bebê.
Não era difícil adivinhar. O semblante de exaustão que tomou conta da
minha vida após isso, foi o suficiente para que todos soubessem que Aelin
não teria uma figura paterna.
Ela também ajudou a vender a cama da vovó quando ela morreu,
anunciando para os clientes que passavam pela mercearia. Era uma cama boa,
que seria mais confortável para mim e Aelin, mas vovó ficou meses naquele
leito, até dar seu último suspiro. Eu só queria me desfazer daquela cama o
mais rápido possível. Além disso, era a cama de casal que ocupava boa parte
do cômodo em que moramos.
Agora, Aelin tem mais espaço para praticar novos passos de ballet e
também consegui comprar sua primeira sapatilha meia ponta. Eu sei que a
vovó ia querer isso. Tenho certeza que ela ia querer que em meio ao luto, eu
tentasse encontrar motivos para pensar positivo.
Vovó Celine era a minha força, e agora, preciso ser a força de Aelin.
— Hoje não viemos buscar as sobras.
— A mamãe me deixou pegar cereal e M&Ms! — Aelin anuncia,
pendurando-se no balcão enquanto passo nossas compras.
Clemente me olha orgulhosa.
— Conseguiu um trabalho? — ela pergunta.
Nego.
— Não, mas fiz um trabalho por fora e essa semana quero arrumar um
novo emprego — digo, colocando as compras na sacola.
Clemente ergue a sobrancelha, lembrando-se de algo.
— Tem anúncios de novas vagas na banca do Charlie. Estão
fresquinhas. Ele colocou hoje pela manhã. Guardou uma para você — ela
conta e eu aceno em agradecimento.
— Obrigada, senhora Clemente. Vou passar lá com Aelin agora mesmo
— digo, pagando as compras.
Entrego a sacola com o cereal e os M&Ms para Aelin segurar e saio da
mercearia em direção à banca de jornal do senhor Charlie. Ele sempre destaca
algumas vagas na lateral de sua banca, com telefone e e-mails das empresas
contratantes.
Observo todas com atenção e descarto a maioria que pede experiência
ou algum ensino superior. Infelizmente, não me enquadro nelas.
Eu tinha dezenove anos, quando uma caça-talentos me encontrou e fui
aceita na Juilliard School com uma bolsa integral. Saí do interior da Virginia
e vim para Nova York com a vovó.
O ballet era tudo o que eu tinha. Todas as minhas expectativas e
economias estavam nisso. É o que eu era boa em fazer. Era a oportunidade da
minha vida.
Até não ser mais.
Até eu engravidar dele.
Até meu sonho ser reduzido a ruínas.
Até eu perder a bolsa.
Até ele me abandonar.
Até ele apagar completamente qualquer chance que eu tinha para ser
quem eu havia nascido para ser.
— Bom dia, Moça-bonita. O que veio procurar hoje? — Charlie
pergunta, lançando uma piscadinha para Aelin.
— Mamãe comprou cereal! — Aelin conta, balançando a sacola para
ele.
O senhor Charlie sorri, dando um tapinha carinhoso na cabeça dela.
— Clemente disse que tinham novas vagas — comento e ele assente.
— Sim. Ela disse para eu guardar essa para você — ele diz, voltando
para trás da caixa registradora.
Eu o sigo, entrando na banca.
Ele me estende uma folha.
— As chances seriam poucas se eu colocasse lá fora.
Leio os dizeres da vaga ali mesmo.
É uma vaga de diarista. O salário é ótimo. Muito maior que de uma
vaga de diarista comum. Mas são muitas tarefas.
Limpeza da casa completa. Garantir que as compras do mês estejam
sempre feitas. Cozinhar todos os dias. Manter os serviços de jardinagem em
dia. Lavar as roupas. Limpeza de vidros e azulejos. Certificar de mandar as
contas da casa para a administradora.
São muitas tarefas para uma pessoa só fazer, mas a responsável está
pagando muito mais do que seria o suficiente para que eu e Aelin tenhamos
uma vida confortável.
Com esse valor eu conseguiria alugar um lugar melhor para ficar com a
minha filha e até conseguiria colocar ela em aulas de balett.
Vejo também que o início da vaga é imediato e o salário já é depositado
na conta após uma semana de início.
— Você tem crédito para ligar? — ele pergunta ao ver a esperança em
meu semblante.
— Posso usar seu telefone? — peço.
— Sim. Pode — ele assente e me estende seu celular.
Faço a ligação na mesma hora e na mesma pressa que ligo, outra
mulher atende do outro lado da linha. Como se estivesse ao lado do telefone.
— Oi, bom dia! — digo. — Estou ligando para marcar uma entrevista a
respeito da vaga de diarista na Residência Ford.
Marco a entrevista para o dia seguinte.
Simon não apareceu na noite passada, mesmo assim, não preguei o
olho, preocupada em ele aparecer. Esse é mais um motivo para que eu lute
com unhas e dentes na entrevista de hoje.
Aelin ficará com Charlie, o senhor da banca de jornal, até que eu volte.
A entrevista será feita em um edifício corporativo, então visto as melhores
roupas que tenho em meu guarda-roupa, penteio meus longos cabelos
castanhos em um rabo de cavalo e tento melhorar meu rosto com o pouco de
maquiagem que tenho. Não tenho muitos sapatos, então opto pelo único que
tenho. Está limpo, é isso que importa.
Deixo Aelin na banca e caminho até a estação do metrô mais próxima.
Faço o trajeto inteiro, imaginando como seria bom se conseguisse essa
vaga, eu conseguiria até colocar Aelin em uma escolinha em tempo integral
com o salário que posso ganhar lá.
Até chegar no prédio, ensaio mentalmente algumas falas para qualquer
tipo de pergunta que questione se realmente sou capaz de cumprir todas as
tarefas da descrição da vaga. Não quero que me olhem como uma coitada que
depende disso para sobreviver e oro com todas as minhas forças para que a
pessoa que irá me entrevistar, não tenha dó de me dar o trabalho.
Caminho pela avenida do centro de Nova York à procura do número do
prédio correspondente e quando encontro, me identifico na recepção, onde
recebo autorização para subir até o sexto andar e procurar por uma mulher
chamada Madelyn.
Enquanto as bolinhas que sinalizam os andares ganham cor a cada
andar, ajeito a minha postura, segurando com firmeza a alça da bolsa.
1°…
2°…
3°…
4°…
5°…
6°…
Plim
Você chegou ao seu andar.
Quando as portas se abrem, prendo a respiração e caminho até a
recepcionista.
— Bom dia. Vim fazer a entrevista com a Madelyn — informo.
— A Madelyn não conseguiu vir. Ela entrou em trabalho de parto essa
madrugada, mas o senhor Ford irá te receber. — A recepcionista diz e com
um sorriso simpático, aponta para a porta logo à frente. — Boa sorte. Você
vai precisar.
— Obrigada — agradeço, sem saber ao certo, se devo ser otimista ou
me sentir uma completa azarada.
Toco a maçaneta como se estivesse prestes a pisar num campo minado
e no momento em que ouço um “click”, fecho os olhos fortemente.
Esqueci de bater.
Respiro fundo e abro a porta com cuidado, encostando ela atrás de mim
como se fosse um segredo eu estar ali.
— Com licença — anuncio minha presença, visto que o homem ainda
não reparou que entrei na sala.
Ele está de costas, virado para a janela, segurando um copo de café nas
mãos. Só nessa hora, lembro que nem fiz isso pela manhã e minha barriga
ronca.
Estava tão ansiosa para vir, que esqueci de comer.
— Com licença — digo um pouco mais alto e ele se vira, totalmente
surpreso.
Eu arriscaria até a dizer, assustado.
O copo descartável vai parar no carpete e ele xinga um palavrão baixo,
curvando-se para pegar o copo e jogando-o no lixo.
— Desculpa, não vi que tinha entrado — ele diz, me olhando e dessa
vez, sou eu quem cambaleio para trás.
Não é possível.
Isso não deveria ser possível.
Balanço a cabeça, apavorada, enquanto ele contorna a mesa, e se senta
na imponente poltrona de couro.
— Você é Eliza Fitz? — assinto, ainda engolindo em seco, perplexa
demais para dizer qualquer palavra, ainda que seja “socorro”.
— Sim, mas pode me chamar de…
— Liz.
O ar parece faltar na hora em que ele diz meu apelido, mostrando que
ele sabe exatamente quem sou e de onde me conhece.
É o homem de semblante frio e olhos vazios. É o rapaz que me pediu
para fazer uma ligação aquela noite.
Agora, iluminado pela luz do dia, ele parece muito mais alto e bonito, e
eu muito mais envergonhada e exposta.
— Sou Christopher Ford. E você está contratada.
Ao dizer isso, ele se levanta e passa por mim, saindo pela porta,
deixando-me completamente sem reação.
Porra.
|HORAS ANTES|
Madelyn me paga.
Ela poderia ter marcado as entrevistas em qualquer dia, mas escolheu,
justamente, o dia em que Noah decidiu estourar a bolsa. Parece até que a vida
gosta de me pregar peças.
Minha irmã entra em trabalho de parto e sou eu quem preciso pagar
promessas.
“— Você vai prometer que fará as entrevistas hoje. — ela pediu antes
de entrar na sala de parto. — Se eu morrer, quero que você ao menos me
prometa que nosso acordo ainda está de pé. — Ela disse entre choramingos
e gemidos de dor de contrações.
— Maddie, será que você não consegue se preocupar consigo mesma
nem com a boceta dilatada? — falei carrancudo, e ela soltou um riso
sincero, enquanto Thomas e eu segurávamos as mãos dela.
— Só promete que você vai arranjar alguém.
— Tudo bem. Eu farei as entrevistas — prometi da boca para fora. —
E você não vai morrer. — garanti, pronto para soltar sua mão enquanto os
enfermeiros abriam as porta da sala de parto para que ela e Thomas
entrassem.
— Quando você tiver uma cabeça passando pela sua boceta, aí você
vai saber o que é morrer e ressuscitar toda vez que tiver uma contração.
— Bem que dizem que você é uma santa — disse eu, dando um beijo na
testa dela.”
E agora estou aqui na sala presidencial dando “Bom dia, está
dispensada.” para toda mulher que passa por essa porta.
São barulhentas.
Falam muito alto.
Fazem barulho a cada passo que dão.
Batem na porta muito forte.
Sinto o estresse me dominar a cada minuto que passa, ansioso para que
isso acabe logo.
Todas as janelas estão fechadas para impedir que o som da cidade lá
fora entre aqui, mas não é suficiente para fazer com que eu me sinta seguro.
Nunca passei tanto tempo fora de casa, desde que voltei, mas prometi
para Madelyn que arranjaria alguém para cuidar da casa. Ela só não conta que
talvez nenhuma delas se encaixe na vaga.
O critério para encontrar a pessoa certa para o trabalho é simples. Irei
aprovar quem eu julgar que dará o espaço que preciso e que, a meu ver, fará o
possível e o impossível para não nos esbarrarmos no casarão.
É injusto, eu sei, mas é a forma mais justa que encontrei de passar a
perna na minha irmã.
Sei que para mim isso é uma besteira, mas Madelyn fez um juramento
para a nossa mãe em seu leito de morte, que cuidaria de mim. Isso que ela
está fazendo, é só uma forma de garantir que eu não estarei sozinho caso
alguma besteira aconteça.
Falta apenas uma mulher para que eu finalmente volte para casa. Acho
difícil que essa se dê bem. Estou mal-humorado, não tomei café da manhã, e
o fato de estar na empresa dos meus pais, me deixa sufocado.
Nunca me vi assumindo os negócios da família. Madelyn assumiu a
construtora Ford quando meus pais faleceram. Hoje, ela e Thomas, tomam
conta de tudo. Fico imaginando como seria a minha vida se eu não tivesse
entrado para o Exército. Se minha mente estaria com menos rachaduras e o
meu corpo com menos marcas.
É uma resposta que nunca terei, mas que, também, não consigo me
imaginar sentado atrás de uma mesa projetando edifícios. Para falar a
verdade, nem sei se teria chegado ao fim da minha faculdade de engenharia.
Comecei o curso porque não conhecia outro caminho. Achava que
precisava trilhar os mesmos passos do meu pai para ter sucesso, mas nunca
me senti parte disso, já Madelyn, fazia tudo pela família. Faz até hoje. E é por
isso que estou aqui, me forçando a esse papel.
Tenho a impressão que todo mundo está onde deveria, menos eu.
Parece que todos pertencem a um lugar e o único lugar que ainda
consigo me enxergar é com um fuzil na mão, tirando vidas.
Será que eu nunca mais vou conseguir me encaixar em algum lugar?
Será que eu nasci para ser uma máquina de guerra?
Será que para permanecer vivo, eu nunca vou poder ligar meus
sentimentos de novo?
Será que nunca vou saber o que é sentir ao menos um pouco de
felicidade sem me sentir culpado pelas coisas que fiz?
Tamborilo os dedos na mesa e me levanto da poltrona para pegar um
café.
Não posso deixar esses pensamentos me dominarem agora.
Preciso distrair minha mente, ou tudo pode voar pelos ares de novo.
Não posso me lembrar daquele dia.
Não posso.
Não posso.
Não posso.
Não posso.
— Com licença. — Uma voz feminina me desperta do transe e eu viro
para a porta, mas percebo que ela entrou tão silenciosamente, que nem sequer
ouvi sua movimentação.
O copo de café vai parar no chão quando minha mente começa a
processar quem é a mulher parada à minha frente.
— Desculpa, não vi que tinha entrado — digo e ela, sentindo a mesma
surpresa ao me ver, tropeça nos próprios pés mesmo estando parada.
Eu reconheceria essa mulher até se ela estivesse vestindo uma burca.
O azul dos olhos é inconfundível.
A beleza dela é singular. A pele, os lábios, o nariz delicado, cada
maldito movimento que ela realiza.
Não sabia que tinha reparado tanto nela, até estar reparando novamente,
agora com a luz que entra através das persianas, tornando-a quase um ser
divino.
Merda. Preciso dizer alguma coisa ou ela vai achar que sou um
psicopata.
Parece até piada tê-la aqui na minha frente agora. Uma piada de muito
bom gosto, devo ressaltar.
— Você é a Eliza Fitz? — pergunto o óbvio e ela assente, engolindo
em seco, perplexa demais para dizer qualquer palavra.
— Sim, mas pode me chamar de…
— Liz — digo o nome que até então era o único que eu conhecia.
Ela não diz mais nada. Parece constrangida demais até para olhar em
meus olhos. No seu lugar eu também estaria. Já vi exatamente todas as curvas
que ela esconde debaixo dessas roupas.
Nessa hora, lembro exatamente do critério que eu ia usar para
selecionar a pessoa ideal para a vaga: alguém que me dará o espaço que
preciso e que, fará o possível e o impossível para não nos esbarrarmos no
casarão.
Ela é a pessoa perfeita para isso.
— Sou Christopher Ford. E você está contratada — digo sem sequer
começar a entrevista, e saio dali o mais rápido que posso.
Não quero conhecê-la, nem me aproximar. Só preciso de alguém que
vai fazer o trabalho sem entrar no meu caminho.
Tenho certeza de que ela se sairá bem nessa tarefa.
— Senhorita Fitz? — a secretária me chama, vendo que ainda estou
imóvel, petrificada no mesmo lugar desde que ele saiu.
Não é possível.
Essa só pode ser uma brincadeira de muito mal gosto.
— Senhorita Fitz? A senhora conseguiu a vaga. Pode me acompanhar,
por favor? Me chamo Beatrice e vou dar continuidade na sua contratação.
Essa deveria ser uma notícia que me deixaria feliz, mas neste momento,
estou longe de estar grata.
Deus! Que vergonha!
Ele não fez nenhuma pergunta. Deve ter achado que me contratando,
serei sua prostituta particular.
Meu Deus! Como serei capaz de olhar nos olhos desse homem que já
viu até os bicos dos meus seios de fora?
— Preciso desses documentos — a secretária diz, estendendo-me uma
folha impressa. Para a minha sorte, trouxe todos. — Vamos dar entrada na
contratação aqui na administração, mas seu registro acontecerá através da
empresa terceirizada. Isso porque eles precisam do seu serviço urgente.
— Já tem alguma data prevista para começar? — pergunto.
— Amanhã — ela responde com medo da minha reação. — Teria
algum problema?
— Não. Hã…
— Fica muito em cima pra você?
Com medo de perder a oportunidade, nego.
— Não, é que… eu tenho uma filha, mas posso dar um jeito.
A secretária me lança um olhar hesitante antes de tirar outra folha da
impressora.
— A senhora Ford pediu para entregar também algumas normas da
casa. Precisam ser seguidas à risca se quiser continuar lá — ela diz,
entregando a folha.
Observo a lista de exigências e me assusto com o que leio.
Basicamente, a lista se resume em nada de barulho ou qualquer coisa
que se aproxime disso. O senhor Ford também não quer ser incomodado em
nenhuma hora do dia, nem esbarrar com a suposta empregada pela casa.
Tudo é muito detalhado, até os equipamentos de limpeza que são
proibidos. Resumindo também: Todos que façam barulho.
São várias exigências até sobre deixar objetos caírem no chão ou bater
portas e janelas. Solados de sapatos que façam barulho também são
proibidos. Entre parênteses, há a informação de que um modelo de borracha
será disponibilizado.
É claro que não pensei ainda o que vou fazer com Aelin no período em
que eu estiver trabalhando, mas terei que dar um jeito. Não posso perder essa
oportunidade.
— Posso começar amanhã, sem problemas — confirmo após ler a lista
completa.
— Amanhã de manhã, você precisa comparecer neste endereço para
assinar o contrato e pegar o seu uniforme.
— Tudo bem — sorrio agradecida e ela me entrega mais uma folha
com o endereço e horário.
— E após preencher esse formulário com o seu endereço, tamanho de
roupa e dados bancários, está liberada — ela diz, também me entregando uma
prancheta.
Sigo todas as instruções que ela me passa, e após guardar todos os
papéis que ela me entrega, Beatrice me acompanha até o elevador.
— Parabéns pela vaga e boa sorte! — ela sorri, esperançosa, e quando
as portas do elevador se fecham, comemoro silenciosamente até as portas se
abrirem de volta no térreo do prédio.
Basicamente, o senhor Ford, precisa de um fantasma lavando, passando
e cozinhando e será um prazer para mim passar despercebida por ele.
Pelo que Charlie comenta comigo, Aelin se comportou, então peço
mais uma vez para que ele fique com ela amanhã.
— Ela não tem ido para a escolinha? — ele questiona.
— A professora dela está doente — minto.
— Bom, se ela ainda quiser, eu posso cuidar dela, mas não levo muito
jeito com criança. Elas se entediam fácil comigo — ele se explica.
— É só amanhã. Prometo. — Uno as duas mãos.
Não quero contar para Charlie que ainda não tenho com quem deixar
Aelin, mas também não posso levá-la comigo. Provavelmente, eu tenha que
deixar ela sozinha como já fizemos algumas vezes, pelo menos até colocá-la
em uma escolinha em tempo integral.
Aelin é obediente, sei que se eu prometer um saco de M&Ms no final
do dia, se ela se comportar sozinha, ela com certeza vai tirar de letra. Além
disso, ela nunca foi uma criança muito barulhenta, então até encontrar uma
escolinha onde ela possa passar o dia, não teremos problemas quanto a isso.
Apesar da lista de exigências do senhor Ford ter me assustado, não
existe a mínima possibilidade de deixar essa oportunidade escapar das
minhas mãos. Em outras ocasiões, eu teria recusado assim que visse ser ele o
meu novo chefe, mas não estou em posição de escolha. Pelo menos agora,
consigo garantir a Simon que pagarei a dívida do aluguel. É só uma questão
de tempo.
— Mamãe. Hoje a gente vai comer? — Aelin pergunta enquanto
caminhamos pela calçada de volta para casa.
São uma da tarde e ela ainda não almoçou.
Assinto para ela que segura a minha mão com seus pequenos dedinhos.
Não temos comida no armário, mas tenho ainda algum valor para pedir
um delivery.
— O tio Charlie deixou eu escolher um doce da banca dele — ela
conta.
— O que você escolheu? — pergunto curiosa.
— Um pacote de cookies para dividir com você — ela conta,
balançando a pequena sacola que traz consigo.
Olho para ela orgulhosa e penso até em chorar, porque Aelin já está tão
acostumada com a situação em que vivemos, que nossa sobrevivência, até
para ela, vem em primeiro lugar.
Não me permito derrubar uma lágrima sequer, ou me sentir menos mãe
com isso. Nossa situação de agora em diante vai mudar.
— Guarde para comer mais tarde, pequena. Agora irei pedir comida
para nós — digo, pegando as chaves do cadeado do pequeno cômodo em que
moramos. — Como foi ficar com o senhor Charlie? — tento saber, dando
passagem para ela entrar.
Ela dá de ombros, subindo na cama.
— Lá não tem muitas coisas para fazer, e eu fiquei sentada no
banquinho enquanto ele atendia as pessoas — ela diz.
— Mas você recebeu sua recompensa, não recebeu? — ela assente,
considerando meu argumento. — A mamãe conseguiu um trabalho, e você
ficará com ele amanhã novamente, tudo bem?
Ela não parece satisfeita com o que ouve, mas assente.
— Você vai demorar?
— Irei voltar o mais rápido que puder — prometo.
Ela assente, encolhendo os ombros.
— Quando a gente vai ter uma TV?
— Em breve, amor. Em breve, não estaremos mais aqui. Vamos morar
em outro lugar, mais legal e com mais espaço — conto, e os olhos dela
brilham enquanto abro a janela para deixar a luz do dia entrar e ventilar o
ambiente, que cheira a mofo e umidade. — Agora vá pegar suas sapatilhas
para praticar os novos passos que a mamãe ensinou, enquanto o entregador
não chega.
— Você me ajuda? — ela pergunta ao encontrar seu par de sapatilhas
meia ponta em uma caixinha no guarda-roupa de solteiro que dividimos. Em
seguida, senta-se na cama para colocá-las.
Aelin não tem muitos brinquedos para se entreter e desde que aprendeu
a andar, comecei a ensinar a ela o ballet. Essa é a única coisa que tenho para
deixar como legado para ela. É a única coisa que tenho e o que eu mais amo
depois dela. Hoje, essa é a nossa paixão em comum e sei que ela pode ter as
mesmas chances que eu quando crescer. Essas são as asas dela, e eu quero ser
a responsável por ensiná-la a voar quando a oportunidade aparecer.
Ela costuma praticar a maior parte do dia. Antes era a vovó quem a
assistia, agora ela só tem a mim para dar esse apoio. Aelin gosta de se sentir
em um espetáculo, ela odeia ter que praticar sozinha, então sempre estou a
observando e corrigindo seus passos e postura.
— Vamos começar com o plié hoje — digo, posicionando a haste da
cadeira que temos em casa ao lado dela para que use como apoio. — E não
vamos esquecer de alinhar a…
— postura — ela completa a minha fala enquanto mostro a ela a
postura correta e ela me copia, posicionando-se ao meu lado.
— Plié, Fondu, Adagio, Grand battement — enquanto digo, relembro
para ela como efetuar os passos.
Aelin me olha o tempo inteiro com os olhinhos brilhantes.
Após me ver demonstrar, é a vez dela fazer.
Damos apenas uma pausa para comer e decido não almoçar para deixar
a janta para ela. Preciso guardar o dinheiro que tenho para ir até a Residência
Ford, até que eles comecem a pagar minha passagem. Provavelmente terei
essa resposta amanhã na assinatura dos contratos.
E assim nós duas ficamos pelo resto da tarde. Fazendo passos de ballet
de mãos dadas como se fosse uma brincadeira.
Saio de casa às cinco da manhã, assino a minha contratação por volta
das seis, e às sete horas da manhã, chego à Residência Ford. A casa não é tão
assustadora como imaginei. Da forma em que foram descritas as tarefas,
achei que ela fosse uma fortaleza de muitos cômodos para uma só pessoa dar
conta. Do contrário que pensei, não é um mausoléu cercado. É uma casa
muito bonita, grande e com um gramado de dar inveja.
Fico parada de frente para a casa sem saber quais são os próximos
passos. Não sei se deveria bater e esperar o senhor Ford vir abrir para me
receber, por ser meu primeiro dia, mas também fico dividida, retirando da
minha bolsa, a lista de exigências, onde tudo se resume a não incomodar.
Pego a chave que me entregaram quando assinei o contrato antes de vir
para cá e caminho até lá. Obviamente, o senhor Ford já deve saber que hoje é
meu primeiro dia aqui.
Subo os pequenos degraus que levam à porta e insiro a chave na
fechadura. Agora, mais do que nunca, preciso me policiar. Uma, porque não
quero que ele reclame de mim para Madelyn e outra, que não quero trocar
nenhuma palavra com ele.
A primeira coisa que faço é ir em busca de um cômodo reservado e, no
andar térreo da casa, encontro o lavabo. Visto o uniforme por cima da minha
própria roupa, sem ver muita necessidade de tirar, já que estou apenas de
legging e regata branca.
Por mais que eu tenha preenchido o formulário com o meu tamanho de
roupa, parece que eles me deram o que tinha disponível. Um conjunto cinza-
escuro, com calça, camiseta e um colete de tecido grosso com bolsos, muito
maiores que a minha estatura. Ambos com detalhes em rosa bebê. Além de
não ser o meu tamanho ideal, estou abaixo do meu peso, então o uniforme
fica um pouco desengonçado em meu corpo. Tento pensar pelo lado bom:
não tenho muitas roupas para vir trabalhar todos os dias, então ao menos,
poderei repetir essa sem que me questionem. Troco meus sapatos pelos de
borracha que eles também forneceram e me preparo para começar meu
primeiro dia.
Resolvo começar explorando o andar térreo. Composto pelo Hall de
entrada, sala de estar, um espaço destinado à mesa de jantar e a cozinha
ampla, com uma ilha no centro. Seguindo nessa sequência, há um corredor
com duas portas. A primeira porta, é o lavabo onde vesti o uniforme e a
segunda, um quartinho de limpeza com tudo o que irei precisar. Tem baldes,
vassouras, aspirador, cortador de grama, VAP, escada, flanelas, panos,
produtos de limpeza dos mais simples até para limpezas mais pesadas.
Vou até o fim do corredor e exploro a área de serviço integrada à área
de lazer.
Empurro a porta de vidro e aprecio o espaço. É bem espaçoso. Contém
uma churrasqueira, um balcão de mármore com pia embutida, uma mesa com
seis cadeiras, guarda-sol, quatro espreguiçadeiras e uma piscina que há muito
tempo não é limpa. Reparo que nos pontos onde há grama, também não é
aparado há bastante tempo.
É uma casa bonita, mas precisa de manutenção. Parece ter ficado sem
moradores por um longo período. Por dentro, não está tão suja quanto eu
imaginei. Beatrice, a secretária que cuidou da minha contratação, comentou,
enquanto me dava as últimas instruções, que as últimas contratações não
duraram mais do que dois ou três dias.
Ainda não sei por onde começar, então resolvo subir as escadas para
explorar o andar de cima silenciosamente. Como ainda é cedo, não quero
correr o risco de acordar o senhor Ford, então tomo o máximo de cuidado até
ao pisar nos degraus, evitando segurar no corrimão de madeira branca,
receosa de que ele faça algum barulho e algum alarme soe pela casa inteira
dizendo que estou sendo demitida já no primeiro dia. Esse pensamento me
faz soltar um riso.
Mal cheguei e já estou ficando paranoica.
A verdade é que, estou curiosa para saber porque ele colocou essas
exigências, se nem chegou em seus quarenta anos ainda para ser tão
carrancudo.
Fecho meus olhos e balanço a cabeça, afastando essas teorias.
O motivo não é da minha conta. Não vim aqui para isso. Eu só quero
fazer meu trabalho e ganhar o dinheiro que estou precisando. Meu plano era
nunca mais encontrá-lo depois do nosso primeiro encontro, mas se ele precisa
de um fantasma na casa, farei essa tarefa impecavelmente.
Chego no andar de cima e deparo-me com um corredor e algumas
portas. A primeira está aberta sendo impedida de se fechar por um peso de
porta, é um pequeno escritório. A próxima porta, ao lado, também está aberta,
é um cômodo vazio sem nenhum móvel. Ando até a porta do outro lado do
corredor um pouco mais a frente e giro a maçaneta com cuidado. Não está
trancada, é um quarto que julgo ser o de hóspedes. Entro lá para dar uma
olhada e a informação do quarto de hóspedes se confirma, não tem sinal
algum de uso, nem itens de higiene pessoal. Não deixo de reparar na
banheira, da suíte, Aelin sempre quis tomar banho em uma.
A próxima porta, do outro lado do corredor, é um banheiro social.
Seguindo do mesmo lado do corredor, encontro outro quarto, também deve
ser para hóspedes, pois não tem sinal de uso. No fim do corredor, do outro
lado, há a última porta, mas hesito antes de caminhar até lá.
Ele deve estar lá.
Fico ali alguns minutos processando o silêncio da casa. Não é possível
que ele esteja aqui. Aliás, ele pode estar dormindo.
Suspiro, tirando essa ideia da cabeça.
Acho melhor seguir o que me orientaram. Ficar longe daquele cômodo
e não o incomodar.
Dou meia volta e desço as escadas.
Tiro da bolsa a pastinha com as tarefas que pedi para Beatrice imprimir.
Assim, consigo me organizar melhor com os horários e definir as prioridades.
Uso alguns ímãs e colo as listas de tarefas na lateral da geladeira.
Paro de frente para elas e observo por um instante.
“Às oito e meia da manhã, o café precisa estar pronto.” Tem uma lista
de itens, então decido começar com isso.
Abro a geladeira em busca do que preciso, mas a quebra de
expectativas é tão grande quando a abro e não encontro nada, que solto um
riso iludida.
— Primeiro passo: ir ao supermercado — digo para mim mesma,
retirando da pasta, o cartão bancário que recebi para comprar o que achar
necessário e saio, demorando mais do que deveria para fechar a porta e
trancá-la com a chave, com medo de que qualquer “click” me leve para a
cadeia.
Meus cálculos não são tão precisos quanto eu havia planejado. Demoro
mais do que deveria no supermercado e volto para a Residência Ford às 08:30
cheia de sacolas. Torço com todas as minhas forças que o senhor Ford perca a
hora e eu consiga me sair bem na primeira tarefa.
Deixo as sacolas em cima da ilha da cozinha e sem tempo para guardar
tudo, pego apenas o que preciso para preparar ovos mexidos, torradas, suco,
frutas, um iogurte natural, corto alguns pedaços de bolo e quando o relógio
marca oito e cinquenta, deixo tudo posto em cima da mesa de jantar.
Guardo as compras, fazendo o mínimo de barulho possível com as
sacolas, na expectativa de que, a qualquer momento, ele descerá pelas
escadas. Mas os minutos passam e nada.
Não ouço nenhuma movimentação no andar de cima e nenhum sinal de
que ele vai aparecer para tomar o café da manhã.
Começo a ficar inquieta durante a espera, então resolvo me ocupar indo
atrás de outra tarefa.
Observo mais uma vez a lista que fixei na geladeira e opto em colocar
as roupas para lavar, então caminho até a área de serviço nos fundos da casa.
Tem um cesto de roupas lá e eu separo todas antes de colocá-las na lava e
seca, porém quando aperto o botão para dar os comandos, percebo que está
desligada e para a minha surpresa, está sem o cabo da tomada.
Ele tirou.
Não está aqui.
— Uau — digo para mim mesma com ironia. — Nada de lava e seca.
Paro mais uma vez e suspiro.
Não haveria problema em lavar as roupas na mão, até porque, é assim
que faço com as minhas e as de Aelin, então lembro-me do cartão bancário e
que posso usá-lo sempre que precisar.
Vou até o aparelho Wi-fi e procuro pela senha, localizada na parte
debaixo. Conecto meu celular e pesquiso por lavanderias próximas aqui da
vizinhança.
Encontro uma a vinte minutos de distância, mas agora só preciso
descobrir onde colocar as roupas para levá-las até lá. Não acho nada no
quartinho de limpeza, então, para não perder tempo, coloco as peças em um
cesto menor. Pego o cartão, a chave e, fazendo o máximo esforço para não
fazer barulho, saio.
É horrível estar com o sentimento de que há algo de errado. Estou me
sentindo uma invasora naquela casa. Sei que ele não quer ser incomodado,
mas não foi dessa forma que eu havia imaginado meu primeiro dia.
Isso me contradiz de diversas formas, mas eu esperava ao menos um
tipo de conversa constrangedora entre nós dois antes de começar meu
trabalho. É certo que houve um contratempo com Madelyn e ela não
conseguiu me recepcionar por ainda estar no hospital, mas pensei que o
senhor Ford ao menos, teria o senso de assumir o papel dela.
Espero que ele goste ao menos do café que preparei.
Resolvo deixar as roupas na lavanderia e pagar um valor um pouco
mais alto para entregarem lá na casa quando as peças estiverem prontas e
volto para lá na caminhada.
São nove e meia da manhã quando me aproximo da casa e vejo que a
porta está escancarada.
Meu coração dispara em segundos.
Eu tranquei, tenho certeza disso. Jamais cometeria um erro desse no
meu primeiro dia.
Aperto o passo e percebo que tem um carro estacionado do outro lado
da rua. Ele não estava aqui quando saí.
— Ai, caramba — murmuro, olhando para os dois lados da rua antes de
entrar na casa.
Eu não estava preparada para enfrentar assaltantes justo no meu
primeiro dia.
Escaneio o andar térreo da porta em busca de alguma movimentação,
mas pelo que parece, não tem ninguém, então vou até o quartinho de limpeza
e pego uma vassoura empunhando ela como uma arma rumo as escadas que
levam até o andar de cima, mas dou meia volta e pego uma faca do faqueiro
que fica em cima da ilha da cozinha.
Paro no primeiro degrau para ouvir a movimentação no andar de cima e
vou subindo um a um, até parar na ponta da escada e encarar o corredor
vazio.
Respiro fundo e num movimento brusco, checo o escritório que está
com a porta aberta.
Não tem ninguém.
No cômodo vazio também não.
As outras portas, que estão fechadas, nem ouso tentar abrir. Caminho
até a última porta do corredor, que antes estava fechada, mas agora está
aberta, e ouço o som da ducha ligada no banheiro.
Caminho até lá sem fazer barulho e, no mesmo movimento, entro de
uma vez, com a vassoura em uma mão e a faca na outra. Não há ninguém. Só
escuto o som da água caindo e alguns soluços vindo do banheiro.
— Senhor Ford? — pergunto, caminhando devagar até lá, mas a cena
que vejo, é a última coisa que imaginava encontrar.
|HORAS ANTES|
No dia seguinte, vou cedo ao hospital visitar Madelyn e conhecer meu
sobrinho. Fico com ela até que Thomas possa ir para casa, tomar um banho,
comer e depois voltar para ficar com ela e o bebê.
— Ele é a cara do... — penso em ser sincero e dizer que Noah, meu
sobrinho, se parece com Thomas, mas Madelyn me fuzila com o olhar, e eu
me corrijo. — É a sua cara, Madelyn. — digo, e ela estreita os olhos para
mim.
— Quer segurar? — ela pergunta, fazendo menção a me entregar Noah,
que dorme em seu colo.
— Não, eu… acho melhor, não — nego e Madelyn não insiste.
Antes de ir servir no exército, eu até tinha certa afinidade com crianças.
Tinha vontade de ser pai, mas agora, tenho pavor até de chegar perto, ainda
mais de um ser tão pequeno como Noah é.
Minha irmã se frustra ao receber a minha negativa. Eu tinha certeza que
ela achou que Noah seria um recomeço, uma distração, ainda mais para mim,
mas desde que entrei no quarto, mal olhei para ele ou demonstrei o afeto que
ela esperava.
Noah, para minha irmã e Thomas, que são religiosos, foi como um
milagre. Tenho certeza que hoje é o dia mais feliz da vida deles e eu estou
frustrando todas as expectativas que ela tinha. Não julgo a minha irmã por
ficar chateada com o meu comportamento, mas ela vai continuar se
machucando enquanto não entender que o Christopher que ela conhecia, não
existe mais e que algumas pessoas vivem milagres, outras, tragédias.
Estamos vivendo em lados opostos da moeda, ela só está feliz demais
com a minha volta para perceber isso.
— Alguma notícia boa? — Madelyn me olha, quebrando o silêncio,
engolindo o que parece ser um nó em sua garganta.
Esses silêncios sepulcrais entre nós dois, acontecem frequentemente,
isso porque tem sido difícil para mim me manter por muito tempo no
presente. Geralmente minhas crises começam com esses devaneios, depois
com lembranças, depois com alguém pedindo socorro.
Eu não deveria estar aqui sozinho com ela, nem com um bebê indefeso.
— Acho melhor eu ir — digo, me preparando para sair do quarto.
— Christopher, não me faça levantar dessa cama e te impedir de fazer
isso — minha irmã diz e sua voz embarga a cada palavra que ela profere
magoada.
Permaneço de costas para ela, segurando fortemente a maçaneta da
porta, mas eu a giro e ouço Madelyn soltar o primeiro soluço.
— Já, já o Thomas está de volta — anuncio, saindo pela porta.
Começo a ofegar, mas permaneço dando passos largos até o elevador.
Quando a porta se abre, anunciando que o elevador está descendo,
deparo-me com três pessoas lá dentro, então não entro, opto pelas escadas de
incêndio.
Estou no oitavo andar, mas pouco importa quantos andares preciso
descer, já fugi em situações piores.
“Tenho que correr até o ponto de resgate, sem olhar para trás, sem parar, mesmo quase sem
aguentar o peso do próprio corpo.
Mesmo ouvindo o som da hélice tão perto e por mais que a força do vento que ela faz, cause
certa dificuldade de me aproximar mais rápido, ou respirar, não posso desistir ou desperdiçar essa
chance. Alguém perdeu a vida para que eu tivesse ela. Alguém que eu matei.”
Seguro firme no corrimão e fecho os olhos com força, recuperando o
fôlego.
— Não é real. Não é real. Não é real. Não é real — começo a repetir,
voltando a descer os degraus até o subsolo onde estacionei meu carro, e
quando entro no veículo, coloco o cinto de segurança, travando as portas.
Afundo a cabeça no encosto do banco e seguro fortemente o volante
com as duas mãos.
Não vou conseguir dirigir de volta para casa.
— Merda, não. Agora não — digo como uma oração, mesmo sabendo
que a única pessoa que vive milagres, é Madelyn.
Dou dezenas de socos no volante até ter certeza que a crise passou e ao
ver que estou de volta no estacionamento do hospital, encosto a testa no
volante e me permito chorar, sentindo meu peito descer e subir rapidamente,
enquanto tento conter meus soluços, antes de decidir que é hora de dar a
partida e voltar para casa.
Não entro com o carro na garagem. Deixo ele estacionado sem
manobrar do outro lado da rua e caminho até a entrada de casa, destranco a
porta e passo por ela como um furacão, subindo depressa as escadas,
rumando até meu quarto no final do corredor. Não me dou o trabalho de tirar
as roupas, entro no banheiro, e ligo a ducha na temperatura gelada, sentando
no chão, abraçando meus joelhos.
Fico ali pelo tempo que precisar até que os tremores de nervosismo
sejam substituídos por tremores de frio.
“— Soldado, como você se chama? — um dos socorristas presentes no helicóptero de resgate
pergunta para mim, estancando o tiro em meu ombro, mas o choque que percorre meu corpo é tão
grande, que não consigo responder uma só palavra.
Ele leva a mão até meu pescoço, mas não encontra o que procura.
— Cadê a sua Dog Tag[2]? Você está com a sua Dog tag em algum lugar? Escondeu em algum
lugar? — ele repete a mesma pergunta, na esperança de que eu processe a informações de alguma
forma, mas eu apenas meneio a cabeça. — Tinha mais alguém lá com você?
Confirmei com a cabeça.
Outro socorrista jogou água no meu rosto e quando as primeiras gotas tocaram meus lábios, foi
como acordar de um pesadelo. Eu havia sido resgatado, podia baixar a guarda, podia fechar os olhos
e sentir meu corpo relaxar a cada gole.
Foi a água mais gostosa que eu já havia provado na vida.
O socorrista continuou com as perguntas.
— Eles estavam vivos quando você saiu de lá? — neguei com a cabeça, enquanto, ao mesmo
tempo, o outro socorrista amarrava um garrote em meu braço e inseria um acesso, o que eu
descobriria mais tarde ser uma bolsa com soro e vitaminas. — Só tinha ele pessoal, vamos embora —
anunciou o socorrista para o piloto através do rádio preso em seu capacete. — Tudo bem, você foi
resgatado, pode descansar, soldado.
— Senhor Ford? Senhor Ford! — ouço uma voz feminina distante me
chamar e me deparo com Eliza, toda molhada, ao meu lado, me sacudindo
enquanto a água da ducha nos molha. — Você está bem? — ela pergunta ao
ver que estou encarando-a.
A mulher desliga a ducha e me encara ofegante como se quisesse ter
certeza que, seja lá o que ela achou estar acontecendo, passou.
— Quer que eu chame um médico? — ela pergunta, preocupada.
— Quero que você saia daqui — respondo, fazendo menção a levantar
e ela dá um passo para trás, só agora reparando que suas roupas estão
encharcadas.
— Desculpa, eu…
— Pode ir, eu estou bem — tento não soar tão rude como da primeira
vez, mas ela parece ainda estar assimilando o que acabou de acontecer e o
que fez.
— Certo — ela diz e dá as costas, deixando um rastro de água pelo
caminho.
Quando vejo ela deixar a suíte, encaro-me no espelho, segurando as
laterais do lavatório e solto um suspiro.
— Ótimas “boas-vindas” — declaro para mim mesmo, encarando-me
de frente para o espelho.
Encontro Christopher no chão do box, de roupa, abraçando os joelhos e
cabeça apoiada neles, soluçando, gemendo, seu peito subindo e descendo
como se a qualquer momento, fosse ir dessa para melhor.
Largo a faca e a vassoura em cima da cama e vou até ele.
— Senhor Ford? — chamo mais uma vez. — Tudo bem? Precisa de
ajuda? — pergunto, mas não obtenho resposta.
Fico alguns minutos parada sem saber o que fazer e apenas o vejo
balançar a cabeça, seu corpo treme de uma forma que eu nunca vi, e o
primeiro pensamento que tenho, é chamar uma ambulância, mas preciso ver
se ele está machucado, ou qualquer coisa, antes de acionar eles, ou não vou
saber explicar o que está havendo quando me atenderem.
Toco o ombro dele com cautela.
— Senhor Ford, consegue me ouvir? — não recebo nenhuma resposta,
mas ele também não me afasta. — Senhor? — chamo, abaixando-me e ergo
sua cabeça que pende para trás.
Cambaleio.
Meu Deus.
Ele parece estar delirando de olhos abertos, mirados no vazio,
preenchidos de pânico.
— Christopher — chamo, envolvendo o rosto dele.
Nunca vi uma pessoa nesse estado, então a primeira coisa que se passa
na minha cabeça é um infarto, AVC ou uma overdose. Eu me desespero,
tentando tirá-lo debaixo da ducha, mas ele é grande, forte e pesado demais
para que eu faça qualquer coisa. Seus músculos estão contraídos e ele parece
petrificado.
— Senhor Ford? Senhor Ford! — chamo mais alto, sacudindo ele e o
vejo piscar pela primeira vez desde que estou aqui. — Você está bem? —
pergunto ao vê-lo me encarar, por um minuto sem saber onde está.
Eu o solto, notando que, no desespero, o sacudi segurando-o pelo
colarinho da jaqueta que usa enquanto tentava ajudá-lo.
Desligo a ducha.
— Quer que eu chame um médico? — pergunto preocupada, ainda
tentando saber o que raios foi isso.
— Quero que você saia daqui — ele responde, fazendo menção a
levantar e eu dou um passo para trás, só agora, reparando nas minhas roupas
encharcadas porque fui burra o bastante para não desligar a ducha enquanto
tentava ajudá-lo.
— Desculpa, eu… — me interrompo, sentindo o nervoso me consumir.
Só queria dizer “que merda foi essa? Sabe o susto que me deu? Por
que ninguém me avisou que você tinha algum tipo de problema? Eu não sou
enfermeira, sou uma incompetente agindo sob pressão e você poderia ter
morrido se dependesse das minhas péssimas habilidades de socorristas”.
Mas eu não digo nada, porque ele é meu chefe e eu nem deveria estar aqui.
— Pode ir, eu estou bem — Ele repete, tentando não soar tão rude
como da primeira vez, mas ainda assim, continuo sem entender e gostaria de
mais do que um “estou bem” depois do que acabei de presenciar.
Se tem uma coisa que você não tá, é bem.
— Certo — digo e dou as costas, deixando um rastro de água pelo
caminho.
O que eu vou fazer com o meu uniforme encharcado, se vesti ele por
cima das minhas roupas e sequer posso usar a lava e seca? E se pudesse,
ficaria escondida pelada no quartinho de limpeza até que elas secassem?
Deus! Que péssimo primeiro dia.
Fecho a porta da entrada que também deixei aberta quando entrei e me
encosto nela, fechando os olhos e respirando fundo. Massageio o centro da
testa como se isso fosse estimular meu cérebro a pensar em algo e desfaço o
coque que segura meus cabelos por uma redinha. Eles estão encharcados.
Tudo em mim está e agora, todos os lugares por onde ando.
Olho a mesa posta que fiz para o café e solto um riso.
Ele não estava na casa desde que cheguei e o papel de palhaça só
aumenta quando lembro do esforço que estava fazendo pela manhã para não
fazer barulho.
Vou até os fundos da casa e me sento em uma das espreguiçadeiras.
É isso. Ficarei aqui pelo menos até minhas roupas escorrerem um
pouco.
Tiro os sapatos de borracha e os deixo escorrer também.
Se tem uma coisa de que preciso agora mais do que nunca, é falar com
a Madelyn sobre o ocorrido e entender o que ela realmente espera de mim,
porque esse homem poderia ter morrido facilmente nas minhas mãos se fosse
algo sério.
Procuro uma explicação lógica para o que vi, mas não chego a
nenhuma conclusão.
Desvio o olhar para uma das duas sacadas dos quartos da casa no andar
de cima e noto uma movimentação em um dos quartos. Ele está lá, tirando a
jaqueta ensopada, revelando uma camiseta branca por baixo, colada em sua
pele forte. Ele a retira também e não consigo ignorar algumas marcas que ele
carrega na pele.
São marcas de tiros. Duas no ombro, lado a lado, próximas à clavícula.
Quando ele se dirige ao cós da calça, seus olhos se encontram com os meus.
Me engasgo e finjo que não estava encarando cada maldito movimento
dele e observo a grama alta do lugar como se nunca tivesse visto uma grama
na vida.
Ele fecha a porta de vidro e a cortina, como se quisesse dizer que me
viu nitidamente bisbilhotando onde não devia.
Encosto-me na espreguiçadeira como se tivesse sido vencida pelas
primeiras horas desse dia, mas lembro de Aelin e decido ligar para Charlie e
saber se está tudo bem.
Volto para dentro da casa e vou em busca do meu celular.
Dou o primeiro toque a cobrar no telefone de Charlie e ele me retorna
no minuto seguinte.
— Moça-Bonita? — ele diz assim que eu aceito a chamada.
— Oi, Charlie, como está a Aelin? — pergunto e ouço a voz dela de
fundo dizer: “é a minha mamãe?”
Isso me faz sorrir e eu caminho de volta até os fundos, sentando-me na
espreguiçadeira.
— Oi, mamãe! O tio Charlie me deu M&Ms! — é a primeira coisa que
ela diz quando Charlie entrega o celular para ela.
— Oi, meu anjo, vê se não vai exagerar nos doces, hein — alerto.
— Eu sei, eu vou guardar pra você. Quais cores você quer? — ela
pergunta, animada.
— Pode ser… os marrons — digo como se tivesse feito um grande
esforço para decidir.
Aelin ama M&Ms, e ama mais ainda decidir quais cores ela vai comer
primeiro, mas ela não é muito fã dos marrons, então sempre que ela me pede
para escolher, escolho eles.
— Mamãe, você vai demorar muito? — Aelin pergunta.
— Não, amor, falta pouco para eu ir embora.
— Quantas horas?
Penso na resposta, mas antes de responder, ouço um pigarreio e viro-
me para ver.
É ele. Devidamente vestido com roupas secas.
Apresso-me para encerrar a chamada.
— A mamãe precisa desligar. Assim que eu terminar aqui, vou para
casa antes de anoitecer — prometo e encerro a chamada, colocando-me de pé.
Nós nos entreolhamos sem saber o que dizer e eu mostro o celular.
— Desculpa, era a minha filha, ela tem cinco anos. — digo.
— Separei umas roupas — ele diz, ignorando completamente o que
digo anteriormente.
— Ah, é…
— Desculpa por aquilo.
— Tudo bem.
— E sobre o café da manhã, só precisa preparar o café. Não precisa de
todos os itens da lista na mesa. Só garantir que encontrarei eles quando
precisar.
Engulo em seco.
— Não vai tomar o café? — pergunto ofendida, mas pigarreio, tentando
disfarçar o tom.
— Comi cedo no hospital quando fui visitar minha irmã.
Tensiono a mandíbula.
— Sendo assim, acho que poderia me avisar quando esse tipo de
coisa… — ele cruza os braços na defensiva enquanto digo — acontecer. —
Completo a frase e ele une as duas sobrancelhas, nitidamente insatisfeito com
o jeito que me refiro que isso é uma falta de consideração. — Quando não
estiver na casa também — já aproveito para dizer nas entrelinhas que não
fiquei nenhum pouco contente em ser feita de palhaça quando achei que ele
estava na casa.
— Quer dizer mais alguma coisa? — ele me desafia estupidamente e eu
respiro fundo.
— O que foi aquilo? No banheiro? Algum tipo de… alucinógeno? —
questiono e ele ri pelo nariz, balançando a cabeça.
Christopher dá as costas, mas eu o sigo.
— Ei! — chamo, seguindo ele. — Preciso saber se você é algum tipo
de viciado, ou… sei lá, aquela cena foi tudo, menos… — Christopher se vira
para mim e eu me interrompo. — menos normal — digo após limpar a
garganta.
É sempre difícil me manter firme quando ele está diante de mim. O
cara é enorme, tanto de estatura quanto no quesito músculo, sem contar na
presença imponente que tem.
— Não sou viciado ou… seja lá o que você esteja supondo, Eliza — ele
diz, nitidamente ofendido. — E já que estamos "supondo” coisas um do
outro, por favor, peço que respeite a minha privacidade.
— A porta da sacada estava aberta — me explico, porque parece que
ele insinua, nas entrelinhas, que me viu observando-o trocar de roupa. Faço
questão de deixar claro que não estava bisbilhotando por livre e espontânea
vontade.
Na verdade, estava, mas ele nunca vai saber disso.
— Devia investir seu tempo relembrando o que está escrito aqui, — ele
diz rude, apontando as listas que deixei fixadas na lateral da geladeira. —,
porque é nítido que você ainda não decorou que não deveria estar enchendo a
porra do meu saco.
A fala hostil dele me pega de surpresa e eu fico sem palavras.
Penso em ofendê-lo de volta, mas ele está certo. Já trocamos palavras
demais quando, na verdade, eu deveria estar fazendo o meu trabalho.
— Deixei as roupas secas no quarto dos hóspedes se quiser trocar por
essas antes de ir para casa. Seu primeiro dia aqui, acabou — ele finaliza o
assunto, voltando a subir as escadas e eu fico ali parada, tomando choque de
realidade sobre o porquê as outras diaristas só aguentaram trabalhar aqui dois
ou três dias.
Não é difícil deduzir que Madelyn está à frente das contratações porque
ele não faz questão de ter ninguém na casa e vai agir dessa forma até eu pedir
demissão.
A única coisa que ele ainda não sabe, é que essa opção não existe para
mim.
Eu: Você se deu o trabalho de fazer a lista do café da manhã, mas não avisou a diarista sobre o
TEPT?
Espero Madelyn responder enquanto estou sentado na minha cama,
ainda irritado com a conversa que tive minutos atrás com Eliza, antes de ela ir
para casa.
Parece ser mais fácil encontrar alguém para culpar do que assumir que
estou errado, mas não esperava que ela fosse me responder daquela forma.
Sei também que não sou a pessoa mais agradável do mundo, mas supor que
eu fosse algum viciado, ou bisbilhotar meu quarto enquanto troco de roupa, é
de foder.
Madelyn: Desculpa, acabei não detalhando isso para a Beatrice, também achei que seria
invasivo com você passar essa informação para a secretária.
Aconteceu alguma coisa? Se ela estiver fazendo muito barulho, posso mandar uma mensagem.
Tenho o telefone dela aqui.
Com o chat aberto, penso por alguns minutos se devo relatar a ela que
Eliza já foi para casa, mas chego à conclusão de que se eu disser isso a ela,
duvido muito que ela vá dormir de noite com essa nova preocupação, logo no
primeiro dia de Eliza aqui. Sem contar o que já aconteceu hoje cedo entre nós
dois lá no hospital.
Tenho a impressão que onde piso os pés, consigo acabar com o dia de
alguém, e isso é um porre.
Eu: Não precisa. Tudo bem.
Desculpa por hoje cedo.
Madelyn: Tudo bem, não é sua culpa.
Não é culpa de ninguém.
Quando eu tiver alta, posso ir com Noah aí, onde é mais tranquilo pra você :)
Eu: Tudo bem. Pode ser.
Madelyn: Assim que eu sair do hospital, vou marcar um dia para conversar com a Eliza
pessoalmente sobre você.
A forma com que ela diz, me faz sentir como um adolescente que não
sabe resolver nada e precisa dos pais para falar por ele.
Eu: Pode deixar que eu falo com ela.
Madelyn: Tem certeza?
Eu: Sim. De qualquer forma, tive que explicar que ela não precisava me servir café da manhã.
Madelyn: Ai meu Deus KKKKK
Ela fez isso?
Coitada.
Eu: É. Serviu a mesa digna daqueles comerciais de família feliz.
Acho que ela entendeu errado.
Madelyn: E você ao menos agradeceu?
Penso mais alguns minutos antes da próxima resposta.
Não. Fui um arrogante.
Merda.
Eu: Sim. E expliquei que só precisava do café.
Minto descaradamente.
Madelyn: Temos um progresso então <3
Eu: É.
Descansa.
Cuida do Noah.
Até mais tarde.
Amo vocês.
Madelyn: Também amamos você.
Fecho o aplicativo de mensagem e suspiro.
Não tenho outra opção a não ser me desculpar com Eliza por hoje mais
cedo.
Olho para o lado e vejo que ela esqueceu uma vassoura e uma faca aqui
no meu quarto. Deduzo que tenha pegado os dois objetos quando me viu
chegar, sendo pega de surpresa, mas não posso afirmar, já que só lembro de
estacionar o carro, entrar em casa e vir para debaixo da ducha.
Saio do quarto e no corredor, paro um momento para ouvir a
movimentação. Não ouço nada. Então caminho até a porta do quarto de
hóspedes ao lado, onde havia deixado as roupas para que ela trocasse, já que
suas roupas também estavam molhadas.
Bato uma vez e espero. Não obtenho resposta.
Bato outra vez. Não recebo nenhuma resposta, então entro.
Ela já foi e só agora, sozinho novamente na casa, me dou conta da
grande estupidez que cometi. Praticamente espantei a mulher por causa de
algo que eu fiz e agora, corro o risco dela querer falar com a Madelyn sobre
isso e minha irmã descobrir que ultimamente, a única coisa que tenho feito é
mentir para ela.
A verdade, é que, não fazia a menor ideia de como receberia aquela
mulher. Eu nem ao menos a entrevistei e ficou nítido que eu só a contratei
porque a havia visto em outra ocasião. Eu sequer pensei em tudo o que essa
contratação envolveria. Parece óbvio que só usei a cabeça de baixo para
pensar.
Eu nunca me interessei pelas contratações que Madelyn fez, e com
Eliza não será diferente. Tirando o fato de ter passado a noite em claro com
essa contratação na cabeça, me perguntando se havia feito a escolha certa,
cheguei à conclusão de que foi a atitude mais imbecil que eu poderia ter
tomado ao contratá-la.
Só pensei na parte boa, mas não cogitei o fato de que Madelyn será a
patroa dela, e corro o risco de em algum momento, ela contar à minha irmã
como me conheceu.
Se eu lembro qual era a parte boa?
Eu só queria alguém que não encheria o saco em casa e acabei
contratando alguém que pode me dar uma puta dor de cabeça e é óbvio que
ela não vai limpar a minha casa só de lingerie.
— Cacete — praguejo, indo até o escritório.
Agora terei que resolver isso antes que chegue até a minha irmã.
Mando um e-mail para Beatrice, a secretária que estava cuidando da
contratação dela e sem pensar demais, digito:
“Olá, aqui é o Christopher Ford.
Solicito, com urgência, o endereço da senhorita Fitz.
Atenciosamente,
C. Ford.”
Só quando passo com o carro na frente do lugar, dou conta que vir até
aqui, foi a atitude mais estúpida que eu poderia ter tido. Eliza mora em um
bairro bem humilde no extremo subúrbio de Nova York no Bronx.
Estaciono o carro e, imediatamente, sinto os olhares sobre mim. As
casas são simples, o asfalto maltratado, e meu carro parece um intruso aqui,
reluzente e chamativo demais. Eu deveria ter previsto isso. Sinto como se
estivesse sob um holofote quando crianças param de brincar para me encarar,
enquanto alguns moradores me observam das varandas, curiosos, talvez
desconfiados. Tento ignorar, mas é impossível. No retrovisor, dois
adolescentes cochicham e apontam na direção do carro, o que só aumenta
minha sensação de estar fora de lugar.
Pelo que observo, ela ainda não chegou, isso porque o trajeto até aqui,
sem dúvidas, deve ser mais rápido de carro do que de transporte público,
então, resolvo me afastar do lugar e estacionar de uma distância onde consiga
ver quando ela chegar.
Respiro fundo e aperto o volante, me perguntando, à medida que os
minutos se passam, se foi realmente uma boa ideia vir atrás dela. Tento
lembrar o motivo que me trouxe até aqui, mas, por um segundo, a dúvida é
mais forte.
Cada olhar parece uma confirmação de que eu não deveria estar aqui.
Quando vejo ela surgir no fim da rua, vestida com as minhas roupas,
travo. Ela está apressada, dando passos rápidos até a porta de ferro trancada
com um cadeado e corrente e ao invés de processar se devo abordá-la antes
que ela entre ou se devo esperar para bater, me distraio com o quanto fico
desconcertado ao vê-la com as minhas roupas.
Ela ficou muito mais bonita com as minhas roupas do que com o
uniforme que Madelyn escolheu da empresa terceirizada. Minha irmã pode
ter tido uma boa intenção contratando uma empresa para tratar desse assunto,
mas com o uniforme, não posso negar que eles fizeram um péssimo trabalho.
As duas peças parecem ser um número maior que a moça miúda e o
caimento, faz parecer uma roupa masculina.
A calça cinza, a camiseta e o colete com bolsos em detalhes rosa-claro
nas bordas, foram substituídos pela minha calça de moletom marrom, e
minha camiseta de algodão nude. Seus cabelos castanhos longos não estão
mais amarrados em um coque e sim em um rabo de cavalo. Os fios estão
quase secos, com ondas sutis bagunçadas.
Apesar das minhas roupas serem bem maiores que ela, não deixo de
reparar que eu preferia ela vestida assim todos os dias, do que com o
uniforme horroroso.
Se eu já não tivesse visto Eliza antes sem aquelas roupas - literalmente
-, seria difícil adivinhar que ela é uma mulher extremamente atraente sem os
trajes.
Deus, eu sempre me esqueço o quanto essa mulher é linda e o quanto
ela me desconcerta.
Ela entra antes que eu decida como abordá-la na própria casa sem
parecer um maluco. Então espero mais alguns minutos.
Pela pressa e o semblante frustrado, é nítido que ela não queria ser vista
andando por aí com as roupas de algum homem. A vizinhança já me parece
curiosa demais, e posso expor ela ainda mais se virem que o dono do carro
vai bater na porta dela.
— Que merda você veio fazer aqui, Christopher? Parece que está atrás
de um rabo de saia — resmungo para mim mesmo, colocando um óculos
escuro, como se ele fizesse parte do disfarce perfeito.
Tomo a minha decisão.
Dou a partida e manobro o carro.
Posso muito bem esperar até amanhã e me desculpar, como uma pessoa
normal faria.
Assim que chego em casa, me apresso para trocar de roupa e ir buscar
Aelin na banca do senhor Charlie. Não queria ser vista com essas roupas por
mais nenhum segundo.
Só Deus e eu sabemos o ódio e o arrependimento que sinto quando
lembro de todas as respostas que poderia ter dado àquele cara hostil. Não sei
se devo ligar para Madelyn e explicar o ocorrido ou se ele mesmo irá fazer
isso. De momento, não sei o que pensar ainda sobre hoje, porém, a única
coisa que não posso perder, é o domínio próprio e esquecer que, por mais
grosseiro que ele seja, é o trabalho que eu precisava e justo no primeiro dia,
não durei nem até às uma da tarde.
Enquanto visto outra roupa para ir buscar Aelin, tomo a minha decisão.
Ainda é cedo demais para fazer qualquer queixa à minha patroa. Isso se ele já
não fez. De qualquer forma, hoje foi um dia ruim, não quer dizer que os
demais serão.
Com esse pensamento, saio pela porta de ferro e volto a passar a
corrente e o cadeado na fechadura.
— Liz! — ouço a voz conhecida de Ângela, a vizinha da frente, chamar
por mim.
Viro-me para ela.
— Oi, Ângela!
— Você está bem? — ela pergunta, olhando para um dos lados da rua
com desconfiança.
— Sim, por quê? Aconteceu algo? — pergunto, também olhando na
mesma direção.
— Pouco antes de você chegar, um carro parou aí em frente. Um
carrão — ela dá enfase.
Simon é a primeira pessoa que vem à minha cabeça.
— Ele manobrou o carro e ficou parado na esquina. Depois, você
chegou e ele foi embora. Era um rapaz — ela conta, preocupada, e tira um
papel do bolso. — Anotei a placa, caso sirva para algo. É bom ficar de olho,
porque você fica sozinha com a sua menina — ela me alerta, e eu assinto,
encarando os números da placa na folha de caderno.
— Ah, sim. Pode deixar que vou ficar de olho — agradeço.
— Você conseguiu um trabalho? — ela pergunta.
Assinto.
— Sim, eu comecei hoje, mas saí cedo para pegar a Aelin. Ainda não
arrumei ninguém para ficar de olho nela — comento.
— Olha, menina, se você quiser, posso ficar com ela, mas depende do
horário. Você sabe, né? Nunca sei quando o Sean vai chegar bêbado.
— Obrigada Ângela, mas não precisa. Vou colocar ela na escolinha —
conto.
— Tá bom, menina. Qualquer coisa, me grita aqui em casa — assinto,
me despedindo.
— Obrigada por ficar de olho — digo, acenando com o papel que ela
me entregou com a placa do desconhecido. — Vou ficar de olho.
Ângela seria uma ótima opção para ficar com Aelin. Ela tem por volta
de quarenta e poucos anos. Nos conhecemos desde que vim morar aqui com a
vovó, mas ela também tem seus próprios problemas para lidar, e não quero
ser um fardo para ela, que tem gêmeos autistas e lida com o alcoolismo do
marido. Eu jamais pediria para ela cuidar de Aelin, apesar de ser uma ótima
pessoa.
Também não gosto do jeito que Sean, seu marido, me olha, como se me
analisasse, sempre com um sorriso cafajeste nos lábios. É o tipo de coisa que
faz você caminhar mais rápido, evitar contato visual. Ela nunca viu isso, mas
tenho certeza que ele não olha assim apenas para mim. Não entendo como a
Ângela aguenta, como continua com ele. Ela parece tão alheia... ou talvez só
tenha se acostumado, ou não tenha alguma rede de apoio assim como eu e a
única saída, é se apoiar nos filhos e viver um dia de cada vez.
Encaro o papel que ela me entregou enquanto caminho até a banca do
senhor Charlie. Ela não colocou o nome do carro, apenas anotou a placa.
Acho estranho, porque deduzo ser Simon, mas Ângela já conhece o
carro dele e sabe quem ele é. Talvez ele tenha mandado alguém que trabalha
para ele.
— Mamãe! Você veio rápido! — Aelin anuncia, assim que me vê
chegar.
— Sim, amor. Eu disse que vinha antes de anoitecer — digo, abraçando
ela. — Se comportou? — ela assente, encarando Charlie para ver se ele tem
algo a dizer sobre ela.
— Ela é uma boa garota — ele elogia.
— Olha o que eu ganhei do tio Charlie! — ela diz animada, me
mostrando um brinquedinho surpresa que vem dentro de alguns doces.
Olho com repreensão para ele.
— Assim você vai me falir — digo, e o senhor de cabelos grisalhos
solta um riso, lançando um olhar cúmplice para Aelin.
— Esse é por minha conta — ele diz, lançando uma piscadinha para
ela.
— Agradeça pelo presente — peço e ela olha para ele sorridente.
— Obrigada, tio Charlie!
— De nada, menina.
— Obrigada, Charlie.
Depois de almoçar, com Aelin, tiro a tarde para ir com ela em
escolinhas que são próximas, para tentar matricular ela quanto antes, mas a
resposta que recebo de todas, é que ela ficará em uma lista de espera e
receberei uma ligação assim que uma vaga surgir e for a vez dela na fila. É
frustrante porque ainda não recebi meu primeiro salário para tentar uma vaga
em uma escolinha particular e isso quer dizer que Aelin ficará sozinha por
mais tempo do que imaginei.
Não tem outra saída e por mais animada que ela tenha ficado por saber
que voltará para a escolinha, terei que explicar para ela que vai demorar
alguns dias até isso acontecer.
De volta em casa, enquanto ela pratica alguns passos de ballet, sento-
me na beirada da cama e faço um gesto para que ela se sente ao meu lado.
— Precisamos conversar sobre amanhã — digo e ela me olha
assentindo. — Amanhã a mamãe vai trabalhar de novo e o tio Charlie não vai
conseguir ficar com você.
— Você vai me levar com você? — ela pergunta se animando, mas eu
balanço a cabeça negativamente.
— Preciso que você cuide da casa, como já fizemos algumas vezes.
Ela não discute, mas noto ela encolher os ombros.
Não é fácil para mim ter que fazer isso. Uma porque não é certo e por
ser perigoso demais. Outro ponto, é que ela é só uma criança que, na idade
que tem, não deveria receber tantas responsabilidades, mas não quero
atrapalhar Charlie ou que ele pense que estou me aproveitando da gentileza
dele. Me sinto uma péssima mãe por ter que fazer isso, mas tento pensar
positivo. Estou disposta a fazer esse trabalho dar certo e prometo para mim
mesma que é só uma questão de tempo até Aelin nunca mais precisar ficar
sozinha.
— É só uma questão de tempo até a mamãe te colocar em uma
escolinha, aulas de ballet… — começo a falar e ela volta a se animar.
— Aulas de ballet?
— Sim, amor — envolvo seu rostinho e beijo sua testa. — E vou
comprar para você um collant rosa, meia calça, o seu tutu — digo e ela se
levanta.
— Mamãe, mamãe! Você me leva junto para escolher?
— Sim, minha linda. Vou levar você comigo, mas para isso, você
precisa se comportar — dou as instruções. — Viu como nem demorei para
voltar?
Ela assente, sendo otimista.
— Tá bom, mamãe.
— Vou deixar meu celular com você e te ligar do trabalho — digo e ela
comemora. — E já sabe, né? Sem abrir a porta para ninguém, muito menos
sair na rua ou atravessar.
— E se alguém chamar, não é para responder — ela repete algumas das
instruções que já é acostumada a ouvir.
— Isso. Boa garota.
Por mais bem aceita que seja a ideia de ficar sozinha por Aelin, sei que
amanhã será um longo dia para mim.
Minha insônia durante a noite não é surpresa para ninguém. O que me
surpreende é que, desta vez, o motivo não foi a guerra, mas a estupidez de ter
achado que ir até a casa de Eliza para me desculpar era uma boa ideia. Agora,
preferiria morrer a deixar que ela descubra o que fiz.
São sete da manhã quando ela chega e, por mais silenciosa que ela se
esforce para ser, consigo ouvir a movimentação sutil no andar de baixo.
Não consigo ficar na cama até mais tarde, então entro no banho para
anunciar com o barulho do chuveiro que estou presente na casa. Não foi isso
que ela pediu na discussão de ontem? Avisar quando eu não estiver? Espero
que ela saiba que hoje estou bem presente aqui.
Não demoro muito no banho, isso porque tomei um de madrugada
enquanto lutava de todas as formas para relaxar meu corpo e conseguir
dormir algumas horas. Agora não sei dizer o que foi pior, ficar a noite toda
acordado, pensando na mulher que está neste exato momento no andar
debaixo da minha casa, ou ter dormido duas horas e ter sonhado com ela.
Saio do banho, enrolo a toalha na cintura e resolvo me barbear quando
me olho no espelho e me deparo com um semblante exausto e barbudo. Fazia
anos que eu não via meus cabelos chegarem ao tamanho que estão hoje. Eu
mal lembrava da cor que eles eram, isso porque viviam bem aparados, agora,
por algum motivo, me sinto incomodado com a minha aparência, então vou
em busca de uma navalha e a loção para barba, mas não encontro.
Ótimo, terei que sair para comprar.
Saio do banheiro em direção ao meu closet, mas me deparo com três
peças de roupa dobradas, uma em cima da outra, na minha cama. Checo a
porta do meu quarto. Está aberta, e eu a tranco com pressa. As três peças
deixadas ali são a calça de moletom marrom, a camiseta nude e a camisa
jeans daquela noite.
Sinto-me um pouco frustrado ao ver que ela também devolveu a camisa
jeans. Não precisava. Eu tinha dado a ela, isso porque não esperava que fosse
vê-la de novo, mas eu sequer me lembrava desse detalhe e jamais cobraria
que ela me devolvesse a peça.
E ainda por cima, sorrateira. Entrou no meu quarto na minha ausência,
mesmo sabendo que uma das exigências que fiz, era, em hipótese alguma,
entrar aqui.
Respiro fundo, pegando as três peças e levo até o closet para guardar
em seus respectivos lugares.
Escolho outra calça de moletom cinza, uma blusa de algodão preta de
mangas cumpridas e calço um par de tênis. Passo a toalha em meus cabelos
para dar uma secada nos fios e com a toalha pendurada nos ombros, desço as
escadas.
Não encontro ela no hall da entrada, sala nem na cozinha. Eliza está
lavando o banheiro social da casa. Ela não nota a minha presença, está de
costas para mim, distraída com a tarefa.
Eliza veste o uniforme horroroso e eu não sabia que ela conseguiria
seguir tão à risca as exigências que fiz sobre o barulho. Todos os seus
movimentos são precisos e delicados. Até a forma com que puxa a água com
o rodo, me surpreende. Se eu não estivesse aqui, vendo com os meus próprios
olhos, jamais acreditaria que um simples gesto, como um puxar de rodo,
pudesse ser feito com tanta graciosidade.
Decido dar bom dia e tentar, ao menos, tornar o clima entre nós dois,
menos pesado. Ontem, desisti da ideia de ter ido até a casa dela, não, a de
pedir desculpas.
Me aproximo da porta e fico ali até que ela note a minha presença.
No momento em que penso em chamá-la novamente, Eliza dá alguns
passos para trás e esbarra em mim, sobressaltando assustada e um grito agudo
ecoa por seus lábios quando ela se vira e vê que estou ali.
— Por Deus, senhor Ford! Há quanto tempo está aí?
— Não quis atrapalhar — justifico. — Bom dia.
— Bom dia — ela me cumprimenta e a medida que os segundos
passam, seu rosto começa a ganhar um tom vermelho. — Precisando de algo?
— Posso falar com você cinco minutos? — peço.
— Também é proibido se assustar? — ela se antecipa e eu encolho os
ombros.
Depois de tantos anos no exército, tinha me esquecido como é difícil
lidar com uma mulher após chateá-la.
— Vem comigo até meu escritório, por favor.
Passo por ela e subo para o escritório. Ela me acompanha em silêncio.
— Olha, eu… sinto muito se fui muito invasiva com você ontem, — ela
começa a falar enquanto subimos os degraus —, mas por favor, não me
manda embor… — interrompo ela assim que entramos no escritório.
— Desculpe por ontem — digo e ela engole em seco, sem estar me
esperando dizer isso. — Não deveria ter sido tão rude e sei que você só
estava tentando me ajudar. Só te chamei aqui para te explicar algumas coisas.
Ela parece sem reação diante do que acabei de falar, então apenas
prossigo, fazendo um gesto para que ela se sente na poltrona em frente à
minha mesa.
— Minha irmã era a responsável por te passar algumas orientações,
mas ela ganhou neném e eu não quero encher a cabeça dela com problemas
agora que ela está com o bebê.
Eliza assente em resposta.
Apoio os cotovelos na mesa e suspiro antes de falar.
— Tenho Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Voltei a menos de
três meses da guerra — Eliza ergue a sobrancelha, totalmente surpresa com a
informação e vejo seu rosto virar um tomate em poucos segundos.
— Ai, meu Deus, desculpe — ela diz na mesma hora. — Merda, eu…
desculpa se eu te chamei de viciado. Eu só nunca tinha visto aquilo na minha
vida.
Dou risada, quebrando o clima e ela encolhe os ombros.
— Sinto muito.
— Tudo bem. Aquilo que você viu, foi uma crise. Tenho tido algumas
desde que voltei, o episódio mais forte que tive foi quando ataquei a minha
irmã quando ela ainda estava grávida.
Eliza, mais uma vez, sem conseguir disfarçar, ergue a sobrancelha.
— Nossa, sinto muito.
— É por isso que peço para você não entrar no meu quarto nem tentar
me ajudar se isso acontecer de novo. Percebi que alguns ruídos me dão
gatilhos, por isso fiz essas exigências — explico. — As outras empregadas
que passaram por aqui não sabiam disso, então tomei a decisão de demiti-las.
Mas minha irmã tem estado muito preocupada comigo, e agora eu só quero
que ela foque no meu sobrinho. Prometi que me esforçaria com você, só que,
para isso, preciso que você siga as regras.
Eliza assente.
— Também quero dar uma olhada na sua lista de tarefas de novo.
Minha irmã dá uma exagerada às vezes.
Ela assente mais uma vez.
— Use a boca para responder — peço, mas meu pedido sai como uma
ordem e eu me corrijo. — Desculpa é que… foram anos no exército.
— Certo. Eu… vou seguir as exigências.
— Certo — repito sem ter mais o que dizer para ela. — Já pode ir — eu
a dispenso e ela assente, mas antes de se levantar, ela hesita, unindo as duas
mãos sobre o colo e encarando seus dedos.
— Sobre aquela noite… — ela começa falando.
— Ah, sim, é… não precisava ter devolvido a blusa.
— Achei que devesse, já que voltamos a nos encontrar.
— Se puder não comentar nada com a minha irmã… — começo a dizer
em tom sugestivo.
— Sim, claro! Só queria deixar claro que eu não faço aquele tipo de
trabalho — ela comenta, desviando os olhos novamente para os dedos das
mãos. — É… é que foi bem estranho a entrevista. — Ao dizer isso, percebo
onde ela quer chegar.
— Eliza, não te contratei por isso — concluo. — Pode ficar tranquila.
Não pensei na hipótese de…
Ficamos em silêncio.
Que conversa desconfortável.
— É constrangedor demais para mim saber que você já me viu… você
sabe. Só quero que saiba que eu não sou nenhuma… Eu precisava do
dinheiro e aquela era a única…
— Tudo bem se não quiser falar. Não é da minha conta e se te deixar
mais tranquila, estava escuro, eu mal enxerguei nada — minto,
tranquilizando-a e a este ponto, ela já está vermelha o suficiente para encerrar
o assunto e se levantar, completamente constrangida.
— Tudo bem, então.
Sem ter mais o que dizer, continuo sustentando o olhar dela e ela
abaixa a cabeça.
Deus, de onde essa mulher saiu? É a pessoa mais delicada, gentil e
angelical que eu já vi em todos os meus trinta anos de vida.
— Aproveitando que estamos conversando, queria saber se você
revisou as compras do supermercado que fiz ontem. Caso queira que compre
mais alguma coisa, vou aproveitar o caminho até a lavanderia para buscar as
roupas que deixei lá ontem. Eles ligaram e deixaram recado, dizendo que
vieram trazer, mas não foram atendidos.
Ergo a sobrancelha.
— Ah, é. Pode deixar que eu busco.
— Tem certeza? Não quero atrapalhar.
— Tenho. Eu vou de carro.
— Tudo bem — ela diz, pronta para sair da sala, mas mais uma vez,
hesita antes de ir. — Se importa se eu usar o telefone? Seria para falar com a
minha filha.
Assinto na mesma hora.
— Claro, não precisa nem pedir.
— Tudo bem.
— Tudo bem — repito divertido e ela sai, esforçando-se para não bater
a porta.
Quando estou sozinho no escritório, solto um longo suspiro,
massageando a ponte do nariz.
— O que você está fazendo, Christopher? Ela é só a empregada —
comento para mim mesmo, mas o alívio que sinto por ter conseguido ao
menos restaurar a paz da casa, me deixa mais tranquilo.
Não quero espantar Eliza daqui. Uma, porque é a única opção que
tenho para tirar Madelyn um pouco do meu pé, e outra, porque parece que
encontrei a pessoa certa.
A pessoa certa para realizar o trabalho que preciso.
Esse tipo de pensamento me faz suspirar novamente e subir a tela do
notebook sobre a mesa numa tentativa de afastar os pensamentos da mulher
dos olhos azuis. Abro meu e-mail e checo se meu coronel respondeu. Ainda
sem nenhuma resposta.
Meus dedos pairam sobre o teclado, hesitantes, como se pudessem de
alguma forma forçar uma resposta que nunca chega. Leio pela terceira vez o
último e-mail enviado, cada palavra escolhida com cuidado para soar
profissional e, ao mesmo tempo, desesperada. Implorando por algo que me
devolva uma fração do propósito que eu tinha antes.
"Coronel, espero que esta mensagem o encontre bem.
Estou me oferecendo para assumir qualquer tarefa administrativa ou logística que possa ser realizada
remotamente. Tenho plena disposição para ajudar e acredito que isso também será benéfico para
minha readaptação."
A tela ilumina meu rosto, mas o brilho frio só faz destacar as sombras
debaixo dos meus olhos, esculpidas por noites de insônia. Fecho os olhos por
um momento, tentando me lembrar de como era ouvir a voz dele no rádio,
recebendo ordens claras, sentindo a adrenalina correr por cada célula do meu
corpo. Cada decisão, cada tarefa, tudo parecia ter um significado, um impacto
direto na missão, na sobrevivência do pelotão. Aqui, neste silêncio vazio,
tudo o que sinto é a pressão esmagadora de não ter para onde direcionar
minha energia.
Solto um riso amargo e passo as mãos pelo rosto. Como é irônico
desejar trabalho, quando o que eu mais queria no campo era um momento de
paz.
A casa está completamente silenciosa, como sempre. O som do vento
sacudindo as cortinas é a única coisa que me acompanha, e mesmo isso,
parece zombar da minha existência estática. Eu sei o que Madelyn diria se
estivesse aqui: que o tempo livre pode ser uma bênção, uma oportunidade
para curar as feridas, aprender algo novo. Mas o que ninguém entende é que,
para alguém como eu, o tempo livre é o pior inimigo.
Meu peito pesa com a sensação de inutilidade. Eu deveria ser grato por
estar aqui, por estar vivo, mas até isso parece um fardo. A guerra deixou suas
marcas, mas não levou a parte de mim que precisa ser útil, que precisa de um
objetivo para não desmoronar.
Minhas mãos fecham em punhos ao lado do notebook. Preciso de algo
para fazer, algo que me distraia de tudo isso. Trabalhar em algum relatório,
organizar planilhas de inventário, revisar qualquer coisa. Qualquer tarefa
mecânica que ocupe minha cabeça. Porque é exatamente isso que não
consigo fazer aqui: esvaziar a mente.
Levanto-me da cadeira e dou uma volta pelo cômodo. A falta de
resposta do coronel queima como um insulto. Não por culpa dele, eu sei
disso. Provavelmente ele tem preocupações maiores. Mas a ausência de uma
resposta me faz sentir cada vez mais esquecido, mais irrelevante. Um soldado
que não pode mais lutar, um peso morto.
Volto para a mesa e encaro o notebook mais uma vez. O ponteiro do
mouse pisca, como se zombasse de mim. "O que você vai fazer agora?", ele
parece perguntar. Não sei a resposta. Só sei que, se esse silêncio continuar,
não vou suportar muito tempo.
Hoje é segunda-feira, e depois da conversa que tive com Christopher na
sexta-feira pela manhã, e ele me explicou sobre o TEPT não vi ele mais pelo
resto do dia. Quando o fim de semana chegou, tirei o sábado e o domingo,
meus dias de folga, para conversar com Aelin, sobre precisar ficar só mais
alguns dias sozinha até que alguma vaga na escolinha aparecesse, ou até eu
receber meu primeiro salário.
Obviamente, ela não faz noção de quantos dias teremos que viver dessa
forma e é difícil confessar que eu também não tenho essa resposta. O que me
conforta é que estou no meu quarto dia trabalhando na Residência Ford, o
que será um recorde se nada acontecer.
Estou aliviada pela conversa que tivemos, mas agora, mais do que
nunca, sinto-me de mãos atadas. Ele não vai me mandar embora porque fez
uma promessa para Madelyn. Só me pediu desculpas aquele dia, porque não
queria levar problemas para ela. Ele não me quer aqui. Só está aceitando a
situação para tirar a irmã da cola dele, enquanto se afunda nos próprios
problemas.
Nunca conheci de perto alguém que sofresse de TEPT, mas já ouvi
falar, principalmente das sequelas em soldados que vieram da guerra. A cena
que presenciei dele tendo uma dessas crises, não foi leve. Agora, sabendo do
que se tratava, tenho mais certeza de que ele precisa procurar ajuda,
conversar com algum profissional sobre e se necessário, até fazer o uso de
medicamentos psiquiátricos. Posso não entender muito sobre o tratamento,
mas sei que se isolar, não é uma boa opção.
— Como está aí, meu amor? — pergunto para Aelin, num tom de voz
mínimo, para que Christopher não ouça nossa conversa.
— Bem, mamãe. Estou quietinha — ela responde e eu sorrio com a
resposta dela.
— Certo. Assim que a mamãe sair daqui, ligo para te avisar, tudo bem?
— aviso.
— Tá bom — ela diz. — Você vai demorar?
— Não, meu bem. Brinca um pouco, pratique os passos que te ensinei,
que a hora vai passar rapidinho.
— Aí você vai me colocar na escolinha com as outras meninas?
— Vou, filha, mas para isso, a mamãe precisa trabalhar.
— Tá bom! — ela responde sem chateação.
— Agora preciso desligar.
— Posso desligar primeiro?
— Pode filha.
— Tá bom, tchau! Te amo! Beijo! Até mais tarde, mamãe! — a
despedida dela me arranca um riso.
— Tchau, amor. Te amo.
Quando ela encerra a ligação, encolho os ombros frustrada.
Sou tão grata por ter Aelin e, ao mesmo tempo, sinto que não a mereço.
A culpa por não conseguir dar a ela uma infância normal, têm me consumido
a cada dia que passa. Parece que quando mais eu tento dar a ela uma vida
confortável, mais difícil tem sido.
A casa de Christopher Ford parece estar sempre mergulhada em um
silêncio quase reverencial. Ao longo do dia, enquanto realizo minhas tarefas,
ouço apenas o leve som do vento batendo contra as janelas, o ranger
ocasional do piso sob meus pés e o barulho suave da água corrente enquanto
torço algum pano de chão ou encho algum balde com água. Tudo parece tão
controlado, tão contido, como se até o som tivesse medo de se fazer presente
nesse lugar.
Eu sei que é coisa da minha cabeça, que no meu primeiro dia, cheguei
aqui achando que ele era apenas um homem ranzinza, tentando dificultar para
mim. Existem regras para tudo — desde não deixar cair objetos no chão, até
evitar qualquer barulho desnecessário. E agora, sei que ele é apenas alguém
passando por gatilhos demais e que, na verdade, o silêncio que ele tanto
exige, é um pedido de ajuda.
O único problema, é que os meus pensamentos, faz um barulho que eu
desconhecia até vir trabalhar aqui.
Enquanto arrumo a mesa, algo me incomoda. Já passa do meio-dia, e
Christopher ainda não apareceu para almoçar, foi assim na sexta-feira
também. Também notei que ele não desce até o andar térreo da casa onde
estou durante o dia. Ele fica lá em cima, enclausurado, encarando
provavelmente o vazio ou perdido em pensamentos. É difícil ignorar o quanto
isso me preocupa, porque estou quase finalizando os trabalhos nesse andar, e
em breve, precisarei subir para limpar lá em cima também.
Vou até a área de lazer “bisbilhotar” sua varanda para ver se vejo
algum sinal dele, mas a porta de vidro está fechada, e a cortina também. De
manhã, ele também não desceu para tomar café, ou ao menos dar um simples
bom dia.
Será que ele está bem?
Será que está lá em cima desde sexta-feira passada?
Hoje pela manhã, não havia nenhum sinal de que ele havia sujado louça
no fim de semana, pegado algo na geladeira… Nenhum rastro, nada. Tudo
estava exatamente do jeito que deixei.
Será que aconteceu alguma coisa? Outra crise?
Suspiro, sentindo uma preocupação que não deveria ser real, levando
em conta as exigências dele. Eu deveria cuidar da minha vida e fazer o meu
trabalho.
Decido, então, tomar a iniciativa. Se ele não descer para almoçar, eu
posso levar algo para ele.
Preparo uma refeição simples: peito de frango grelhado, arroz e
legumes cozidos. O aroma quente da comida preenche a cozinha, uma quebra
bem-vinda no silêncio monótono da casa. Coloco tudo cuidadosamente em
uma bandeja, certificando-me de que não vai fazer barulho quando eu subir
as escadas.
Na ponta da escada, ouço o som de teclas.
Ele está no escritório.
Respiro fundo antes de bater na porta. Três batidas leves.
— Senhor Ford? — chamo por ele.
— Entre — a voz de Christopher soa abafada do outro lado.
Empurro a porta devagar e o encontro sentado na mesa, de costas para a
janela, com o rosto iluminado pela luz da tela do notebook. Sua postura rígida
e a expressão de cansaço no rosto me dizem tudo o que preciso saber. Aliás,
só aumenta meus questionamentos. Será que ele dormiu no fim de semana?
Comeu? Porque me parece que não.
— Trouxe o almoço. Achei que você não fosse descer. Também reparei
que você não tomou café da manhã e do jeito que a cozinha ficou intacta no
fim de semana, deduzi que deve ter comido fora, ou…
Ele levanta os olhos para mim, claramente insatisfeito pelas minhas
observações.
— Não precisava.
— É melhor comer enquanto está quente — coloco a bandeja sobre a
mesa ao lado do mouse dele. — Achei que seria bom para você... comer
alguma coisa.
Por um momento, ele não responde. Apenas observa a bandeja como se
fosse algo fora de lugar. Finalmente, solta um suspiro.
— Obrigado.
Enquanto ele pega o garfo, tomo coragem para falar o que está preso na
minha garganta desde que soube mais sobre ele.
— Sabe, eu... fiquei pensando muito no que deve ter sido sua vida antes
de voltar para casa. Não consigo nem imaginar o que você passou.
Christopher para de cortar o frango e levanta os olhos. Seu olhar frio
me corta, mas continuo.
— Eu sei que deve ser difícil. Ficar aqui, sozinho, com tanto tempo
para pensar... Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, eu quero que saiba
que pode contar comigo.
Ele coloca o garfo de lado, inclinando-se para frente.
— Eliza, não preciso de ajuda — a voz dele é firme, mas não agressiva.
É como uma parede que ele ergue para me afastar. — E muito menos da sua
pena, ou que cozinhe para mim, ou que… — interrompo antes que ele se
arme até os dentes com sua arrogância.
— Não é pena, Christopher. Eu só... sei como é lidar com coisas que a
gente não consegue carregar sozinho.
— Você não sabe — ele balança a cabeça, desviando o olhar. — E,
honestamente, não precisa saber. A conversa que tivemos já foi o suficiente.
Só... siga as regras, faça o seu trabalho, e vai ser melhor para nós dois. E eu
não “estou com tanto tempo para pensar” estou realizando algumas tarefas
administrativas do quartel remotamente, por isso, te peço que bata na merda
da porta apenas se a casa estiver pegando fogo e eu for a última pessoa que
precise sair.
Suas palavras me atingem como um balde de água fria. Tento esconder
a frustração, mas sei que ele percebe.
— Certo — murmuro e, pegando a bandeja de volta, tento disfarçar
minha expressão decepcionada. — Christopher… — começo a falar para me
desculpar, mas ele se levanta prepotente.
É nítido o quanto eu ter dito sobre ajudá-lo o deixou desconfortável e
agora ele só quer alguém para descontar a raiva.
Ele para de frente para mim, com a postura imponente, fazendo-me dar
um passo para trás e esbarrar na porta que bate contra a parede se abrindo de
vez.
O barulho parece fazê-lo se irritar ainda mais e ele massageia a ponte
do nariz, antes de arfar como um touro antes de correr até o alvo vermelho.
Ele respira fundo e fecha os olhos, como se estivesse engolindo em
seco o que estava prestes a dizer.
— Só sai daqui, Eliza. Agora.
— Desculpa, sinto muito — digo com pressa e dou as costas sem olhar
para trás.
Uma onda de lágrimas inunda meus olhos e eu mordo o lábio inferior.
Só queria tentar explicar que não era minha intenção causar qualquer
desconforto nele, ou fazê-lo pensar que é um pobre coitado. Só queria que ele
entendesse que essa situação é uma merda e não poder fazer nada, vai me
enlouquecer.
Na cozinha, tento focar em qualquer tarefa que distraia a minha mente.
Ele desce as escadas pisando firme e até chego a pensar que quer continuar a
discussão, mas Christopher sai pela porta e minutos depois, ouço o som do
motor de um carro na garagem. Instintivamente, olho pela janela para ver
Christopher manobrando o carro para sair.
Meus olhos se prendem na placa.
Meu coração para.
É ele.
A placa que Ângela anotou para mim. O número que ela anotou.
Christopher foi até a minha casa.
Por quê?
A dúvida martela na minha mente, uma onda de pensamentos
conflitantes me invadem. Ele estava me observando? Como conseguiu o meu
endereço? Por que ele quis o meu endereço?
Minha respiração acelera enquanto assisto o carro desaparecer pela rua.
Tento acalmar a mente, mas é impossível. Algo está fora do lugar, e agora,
mais do que nunca, preciso saber o que isso significa, porque se ele me odeia
tanto, não deveria ter dirigido até a minha casa.
Não jogo fora a comida que fiz para Christopher. Do contrário, pego
ela para o meu próprio almoço. A secretária que Madelyn designou para
cuidar da minha contratação informou que, após uma semana de trabalho, eu
receberia a bonificação pelos dias, além de um vale-alimentação e o
reembolso do transporte.
O combinado é que eu traria uma marmita para comer ou poderia sair
no meu horário de almoço. O problema é que para economizar essa semana,
decidi não trazer almoço.
Sou acostumada a ficar sem comer e consigo ficar sem almoçar. Meu
plano é tomar café pela manhã e beliscar algo durante a noite até receber
esses benefícios. Mas aproveito que ele recusou a comida e saiu, para comer
e não precisar jogar no lixo.
Levo o prato até a pia e lavo a louça que sujei para fazer a refeição.
Após isso, aproveito a ausência de Christopher para ligar para Aelin.
O celular é atendido no segundo toque.
— Filha? — pergunto.
— Mamãe! — Aelin diz, contente.
— Já almoçou? — pergunto. — Tudo bem, aí?
— Sim, o tio Simon trouxe o doce que você mandou pra mim!
Levanto-me na mesma hora, com o telefone sem fio preso à orelha.
— Você atendeu ele? — pergunto séria.
— Ele disse que você mandou ele trazer pra mim…
— Ele ainda está aí com você? — interrompo a fala dela.
— Sim.
— Deixa a mamãe falar com ele — peço, tentando não demonstrar o
nervosismo que faz meu corpo tremer.
— Estou te escutando, Angel — ele diz com a voz cheia de luxúria.
— Que porra você está fazendo aí? — por um momento, me esqueço
com quem estou falando, mas meus olhos transbordam de ódio e tudo o que
quero fazer, é gritar com ele.
— Ué, vim trazer o doce que você me pediu para trazer para Aelin,
como uns parabéns por ela estar se comportando, sozinha — ele enfatiza. —
Você não deveria deixar sua filha sozinha, ainda mais nesse lugar tão
perigoso em que vocês moram.
— Simon, eu estou trabalhando — digo em tom de súplica, como se
estivesse pedindo nas entrelinhas para ele ir embora.
— Nossa! Que excelente novidade! — ele diz sarcástico.
— Por favor, vai embora. É só uma questão de tempo até eu te pagar o
que devo.
— Não tá precisando de alguém para cuidar da sua filha? Posso fazer
isso para você se quiser. Não estou fazendo nada mesmo… — encerro a
ligação sem querer perder mais tempo e procuro um papel qualquer onde
deixo um recado.
“Precisei sair mais cedo. Algo urgente aconteceu. Peço desculpas por não avisar antes. Vou
compensar o tempo amanhã.”
Sem pensar duas vezes, pego minha bolsa e volto pra casa.
O trajeto de volta é uma tortura. Só consigo pensar em Aelin.
Quando finalmente chego, encontro a porta de ferro encostada, e um
arrepio sobe pela minha espinha ao ouvir a voz familiar de Simon vindo lá de
dentro.
Entro apressada e encontro os dois sentados na cama um do lado do
outro. Ele está contando a história da Chapeuzinho Vermelho e ela está
atenta, olhando para as páginas coloridas enquanto ele narra a cena.
— Querida, vá até a casa da Ângela. A mamãe precisa conversar com o
tio Simon sozinha — digo, antes mesmo dos dois repararem minha presença.
— Mamãe! — Aelin anuncia, me abraçando.
— Vai lá, amor. Depois a gente conversa. Vou te olhar atravessar daqui
— digo, guiando ela com a mão em suas costas.
Olho para os lados e faço sinal para ela atravessar.
Ângela está na janela, olhando preocupada e ao me ver, demonstra uma
reação aliviada. “Olha ela pra mim” digo baixo, mas ela lê os meus lábios e
responde com um “Pode deixar. Qualquer coisa me grita aqui”.
Por alguns segundos, volto a respirar, como se estivesse sufocada e
agora estivesse aliviada, mas logo volto a mesma postura tensa, porque o
homem que eu mais temo, ainda está sentado na cama que divido com minha
filha, com um sorriso presunçoso no rosto, como se estivesse completamente
no controle da situação.
— Finalmente, Angel — ele me chama pelo apelido que só ele usa, e
meu estômago revira.
— O que você está fazendo aqui? — minha voz sai firme, apesar do
medo que me consome.
Ele se levanta lentamente, como um predador prestes a avançar sobre a
presa.
— Só vim ver como vocês estão. Você saiu tão cedo em plena segunda-
feira... Imaginei que fosse importante vir checar se estava tudo bem com as
minhas garotas.
— Simon, chega. Já disse que não tem futuro nenhum entre nós. Eu
estou trabalhando agora. Só preciso de um pouco mais de tempo. Vou
conseguir pagar o que devo e vou embora com a Aelin.
— Tempo? — ele solta um riso curto e sem humor, balançando a
cabeça. — E como eu fico nesse tempo, Angel? Você acha que pode
simplesmente ir embora, resolver sua vida e deixar tudo para trás?
— Eu vou pagar, Simon. E vou embora daqui. Eu e a Aelin vamos
arrumar outro lugar para morar — digo decidida, sem recuar. — Você não
pode entrar aqui sempre que quiser.
O sorriso dele desaparece num instante, substituído por uma expressão
sombria.
— Ir embora? — ele inclina a cabeça, estudando meu rosto. — Você
acha que pode fugir de mim? Esse bairro é meu, Eliza. Todo mundo aqui me
deve favores, e todo mundo me conta tudo. Inclusive, que viram você
chegando em casa com roupas masculinas, semana passada.
Meu sangue gela.
— Não era nada, Simon. Só troquei de roupa para o trabalho.
Ele estreita os olhos, aproximando-se mais, até eu sentir o cheiro de
cigarro, impregnado em suas roupas.
— Quem era o cara, Angel? Não mente pra mim. Eu sei que alguém
estava atrás de você. Tinha um cara, em um carro, te procurando. Que
engraçado, né? Justamente na semana em que você começa a trabalhar.
Minhas mãos tremem, mas aperto os punhos, tentando manter a calma.
— Eu não sei quem era — minto, porque não quero citar Christopher e
acabar me prejudicando mais do que já me prejudiquei com ele.
Simon ri. Um som amargo, cheio de ameaça.
— Não sabe? — ele segura meu queixo com força, me obrigando a
encará-lo. — Você está mentindo pra mim. Se eu descobrir que está com
outro...
— Não estou com ninguém! — corto, minha voz subindo um tom.
— Não grita — ele aperta meu queixo, e lágrimas começam a se formar
nos meus olhos. — Eu não gosto de ser desrespeitado, Angel. Para quem está
trabalhando?
— Simon… — digo, numa tentativa de dizer nas entrelinhas que não
quero contar.
— Para quem está trabalhando? Onde? — ele exige. — Gostou do que
fez na casa noturna naquela noite? Porque se estiver trabalhando lá, eu pago
dobrado pra você ser minha, amor. Não precisa ir pra lá.
— Não é lá — digo enquanto ele aperta minha mandíbula, me
obrigando a olhá-lo nos olhos.
— Me fala onde é, então.
— É só um trabalho de diarista. Comecei semana passada. Simon,
deixa a gente em paz, por favor.
Ele me solta com um empurrão que me faz cair sentada na cama.
— Você acha que pode me mandar embora? Você acha que pode fugir
de mim? — ele passa a mão pelo cabelo, os olhos cheios de ameaça. — Se
você tentar ir embora, eu vou atrás de você. Não importa onde esteja, eu vou
caçar você e trazer você de volta.
Engulo em seco, com o coração disparado.
Ele se aproxima novamente, desta vez segurando meu braço com força,
me puxando com violência, seu rosto a centímetros do meu.
— Pode deixar que eu vou descobrir quem é o dono do carro que estava
aqui atrás de você. E se você estiver mentindo pra mim, vai se arrepender, tá
ouvindo?
— Eu não sei quem era, Simon. Trabalho para uma mulher ajudando
com os cuidados da casa. Ela ganhou bebê há poucos dias. Só isso. Só isso,
eu juro por Deus — digo com todas as letras, num choramingo.
— Não deixe outro homem se meter na nossa história, Eliza. Eu mato
você para servir de exemplo pros outros.
Ele me solta com um empurrão que me faz cambalear para trás, onde
tropeço na cadeira atrás de mim e bato o rosto na quina do encosto de
madeira. A dor explode como uma onda, e sem conseguir reprimir a dor,
solto um gemido seguido do outro entre os soluços.
Simon sai sem olhar para trás, batendo a porta com força. Fico no chão
por alguns instantes, ofegante, tentando processar o que acabou de acontecer.
Pressionando a mão onde bati a região abaixo da sobrancelha. Sangue escorre
pelos meus dedos, mão, pulso, antebraço e pinga no chão quando chega até o
meu cotovelo.
Quando finalmente me levanto, vou até o espelho do pequeno banheiro.
Há uma marca vermelha em meu braço e o corte no rosto, que logo vai inchar
mais, e além do corte, em breve vai ganhar a cor de um hematoma.
Sei que ele está falando sério. Ele vai me caçar se eu for embora daqui.
E agora, mais do que nunca, preciso proteger Aelin e garantir que ninguém,
nem mesmo Christopher, se envolva nesse inferno que só vai acabar quando
eu estiver morta ou me render a Simon de uma vez.
Dirigir até a casa de Madelyn me traz uma mistura de alívio e
desconforto. Por mais que eu saiba que ela é minha irmã e nunca vai desistir
de mim, toda vez que converso com ela, sinto como se carregasse o peso de
mil julgamentos. Não dela, mas de mim mesmo.
O caminho até lá é silencioso. Meu rádio está desligado, e o ronco
baixo do motor é o único som que me acompanha. Enquanto dirijo, minha
mente insiste em voltar à conversa que tive com Eliza. A expressão no rosto
dela, quando eu disse que não precisava de ajuda, continua gravada na minha
cabeça. Não era só frustração ou raiva; era algo mais profundo, como se ela
quisesse dizer que eu a interpretei mal.
Sei que me servir o almoço foi uma boa iniciativa e reconheço a
gentileza, mas ela deveria ter parado ali.
Chego à casa de Madelyn e estaciono no mesmo lugar de sempre, perto
do pequeno jardim que ela insiste em manter impecável. Antes mesmo de
desligar o motor, Thomas aparece na porta com Noah no colo.
— Madelyn vai achar que é um milagre você estar aqui — ele brinca,
enquanto desço do carro.
É, parece que as orações de Madelyn para me tirar de casa têm
funcionado, porque mesmo sabendo que Eliza não me importunaria mais,
algo simplesmente me inquietou e decidi dar uma volta de carro, porque o
simples fato de saber que ela está debaixo do mesmo teto que eu,
extremamente magoada por minha causa, me deixa louco.
— Maddie está na cozinha. Vou buscar umas coisas no carro —
Thomas avisa antes de sair — Leva o Noah lá para dentro — ele pede, me
estendendo o bebê, sem nem perguntar se quero ou não segurar.
Não digo que não, apenas deixo que ele aconchegue o bebê em meus
braços, enrolado em uma coberta quentinha verde em um tom pastel. Fico por
alguns segundos imóvel, como se qualquer movimento, fosse ser responsável
por me fazer deixar Noah escorregar dos meus braços.
Ele é tão pequeno e frágil, que me dá medo.
— Vai lá, cara. Pode entrar. Daqui a pouco você se acostuma. Eu
também tinha medo de pegar — Thomas me incentiva e eu sigo para dentro
com Noah, dando passos cuidadosos.
Limpo os pés no capacho, anunciando minha presença e Madelyn
aparece logo em seguida, carregando um pano de prato. Seus olhos passam
de Noah para mim, avaliando a nós dois com um semblante surpreso e
emocionado.
— Parece que hoje é um bom dia — ela comenta, sem esconder o tom
de surpresa.
— Só decidi vir ver como você está — respondo, colocando Noah no
carrinho dele antes que ele comece a se mexer demais e acorde.
Ela se aproxima, encostando-se na bancada da cozinha.
— Como estão as coisas na casa?
— Em ordem — digo, pegando um copo de água. — A nova diarista
está fazendo o trabalho dela.
— Você deveria ser mais grato — ela estreita os olhos para mim, mas o
tom é mais de preocupação do que de repreensão.
— Eu não preciso de ninguém cuidando de mim. Já disse.
— Isso não é sobre você, Chris. É sobre a casa. Você mal sai do quarto,
não come direito, e ainda quer me convencer de que está tudo bem? O que
fez no final de semana?
— O Coronel Thompson, respondeu meu e-mail. Ele aprovou meu
pedido de serviços remotos, me mandou algumas tarefas administrativas.
Madelyn não se anima, pelo contrário, encolhe os ombros.
— Chris…
— Eu sei que preciso descansar. É o que estou fazendo em casa —
justifico. — Mas também posso ajudar no quartel à distância.
Madelyn suspira, insatisfeita.
— Você sabe muito bem o que eu acho disso. Você foi a-fas-ta-do —
ela sibila como se isso fosse me fazer entender, de uma vez por todas, que
não faço mais parte do pelotão. — Você quase morreu e simplesmente não
consegue fazer mais nada do que só pensar nisso e agora, descubro que está
trabalhando nisso de novo! — enquanto ela expõe sua indignação, seus olhos
transbordam e a voz embarga. — Deus! — ela leva a mão à testa. — Quando
é que isso vai acabar de uma vez? Quanto tempo vai demorar até você voltar
para aquela merda de novo? Até morrer? O Thompson enfiou a noção dele no
cú?
— Madelyn — repreendo, porque são raras às vezes que ela diz
palavrões, ou que aprove esse tipo de palavreado. — Está fazendo bem para
mim.
Ela seca os olhos, balançando a cabeça, sem acreditar.
— E as crises?
— Nenhuma, desde…
— Desde?
— Desde o primeiro dia da Eliza.
Madelyn arregala os olhos. Minha resposta parece ser muito pior do
que ela imaginou.
— Ai, meu Deus — ela começa a dizer, preocupada.
— Mas está tudo bem. Eu tentei te falar.
— Tentou me falar? Quando?
— Quando eu te questionei sobre não ter falado com ela sobre o TEPT
— digo o óbvio, mas parece que ficou óbvio só para mim.
Madelyn ri de nervoso.
— Você é inacreditável, Christopher, inacreditável.
— Já disse que está tudo sob controle.
— Não tem nada de “sob controle”, Christopher — ela retruca,
transitando entre chateação, raiva, ódio e tristeza, tudo ao mesmo tempo. —
Isso precisa parar.
— Parece que você só está enxergando o pior. Acabei de falar que
fazem dias que eu não tenho uma crise, porra.
— “Porra?” — ela repete meu palavrão, inclinando seu queixo para
mim, como se ainda não tivesse reparado no nível da nossa briga. — Tá de
brincadeira. Eu só enxergo o pior? O que de bom tem para enxergar? Você
ainda sem dormir? Sem comer? Voltando a trabalhar pro Thompson?
Omitindo de mim as informações com a minha funcionária? Sua perda de
peso excessiva? Ou será que devo fechar os olhos para tudo isso e te
parabenizar porque você não teve mais nenhuma crise depois de quase três
meses que você voltou da guerra?
— Três meses não é tanto tempo — lembro.
— É muito tempo para quem ficou anos sem o irmão e agora está
esperando que ele ao menos faça qualquer coisa que seja normal de um ser
humano fazer, como, por exemplo, conversar sem parecer que está no quartel,
com essa postura impassível, indiferente e arrogante de merda! — Madelyn
diz e sua voz falha aos poucos quando ela termina de falar e cai no choro.
Fico sem reação.
Ela simplesmente se derrama aos prantos, acordando Noah, que
também começa a chorar. E eu fico sem saber o que fazer, tentando controlar
minha respiração, que desregula a cada vez que o relógio diz “tic-tac”
marcando os segundos.
Respiro fundo e olho minhas mãos trêmulas.
De repente, o relógio de ponteiro, pendurado na parede da cozinha, está
fazendo “tic-tac” alto demais e eu só queria ir até ele e socá-lo até ele
desmontar e parar de fazer “tic-tac”, “tic-tac”, “tic-tac”, imitando time de
uma granada com temporizador e parece que a qualquer momento a casa vai
voar pelos ares.
Thomas volta lá de fora e observa a cena.
Eu me levanto, encarando a porta, mas ele diz.
— Abraça sua irmã — ele diz, pegando Noah no colo. — Anda logo,
Christopher — ele me apressa, e eu me viro para ela, abraçando-a enquanto
ela diz:
— Me desculpe, eu tenho estado tão sensível desde que o Noah nasceu.
— Eu também não tenho dormido direito, eu te entendo.
— Mas eu também estou preocupada com você.
— Eu não quero que você volte para a guerra e morra.
— Você precisa melhorar, Christopher, ou não vou conseguir ser forte
por nós dois de novo, igual quando nossos pais morreram no acidente.
— Eu fiquei sozinha, e você me deixou.
— Não me deixa de novo. O Noah precisa de um tio.
— Você sempre quis ser tio, lembra?
Thomas percebe meu estado e ao acalmar Noah, coloca ele de volta no
carrinho e envolve Madelyn.
— Vem, querida. Dorme um pouco. Eu dou uma olhada no bebê. Vai lá
descansar — ele diz, guiando a esposa escada acima e eu simplesmente fico
parado no mesmo lugar, com a camiseta molhada pelas lágrimas dela,
sentindo o cheiro da comida que queimou.
Thomas volta e me dá um copo de água.
— Cara, você não tá nada bem — ele diz, quando recuso o copo e ainda
deslocado, ando até a porta, mas ele não me deixa sair. — Senta um pouco.
Vou terminar o almoço e você vai comer um pouco — suas palavras saem
como uma ordem, mas eu balanço a cabeça.
— Não precisa, obrigado.
— Sim, precisa — ele insiste. — Sua irmã já está passando por coisas
demais, o que ela menos precisa, é saber que você desmaiou de fome no
caminho para casa enquanto dirigia. Olhe só pra você.
Não debato. Fico sentado no sofá, encarando a TV desligada.
Depois de alguns minutos, Thomas volta e o almoço é servido. Apesar
do cheiro agradável da comida, mal consigo comer. Cada garfada parece
pesada, e minha mente insiste em voltar para Eliza e Madelyn.
— Eu não consigo mais — digo e Thomas, sem estar esperando que eu
puxe algum assunto, desvia os olhos do prato.
— Não consegue o quê?
— Não consigo simplesmente evitar que alguém se machuque por
minha causa — confesso.
Thomas encolhe os ombros.
Desde que voltei, não trocamos muitas palavras e parece que ele não
esperava isso acontecer tão cedo, mas após alguns segundos, pensando no
que dizer, ele suspira antes de falar.
— Olha Christopher, eu sei que esse negócio da guerra te transformou
em outra pessoa. Eu já vinha conversando com a Madelyn quando fomos te
encontrar. Ela disse estar preparada. Que você era o irmão dela independente
da forma que voltasse, mas é nítido que a Madelyn não faz a menor ideia das
coisas que você passou e pelo visto, é nítido que você não aceitou ainda que
se não se esforçar para tentar ao menos amenizar as sequelas da guerra, você
vai se render a ela de novo e a Madelyn não vai aguentar se isso acontecer. A
sua irmã precisa de você aqui, não lá. Não com a cabeça lá. Não com os
pensamentos lá.
— Eu sei, mas eu não sei se consigo mais.
— Você não está nem tentando, Christopher.
O assunto morre quando nenhum de nós dois fala mais nada.
Finalizo minha comida, lavo meu prato e checo se as chaves do carro
estão no meu bolso, numa tentativa de dizer a ele que estou indo embora.
Ele me leva até a porta e me dá um abraço.
— Aparece mais vezes — ele diz.
— Vou tentar — respondo.
— Era isso o que eu queria ouvir de você — ele diz com sorriso gentil
no rosto e acena quando entro no carro e dou a partida.
Quando o carro entra em movimento, uso todas as minhas forças para
não olhar pelo retrovisor a expressão frustrada de Thomas ao me ver partir.
Quando chego em casa, é por voltas dás três da tarde. Fecho a porta
atrás de mim, tranco as fechaduras, e o som das chaves ecoa no vazio.
Subo as escadas em direção ao quarto, mas paro quando vejo algo na
cozinha. Um pedaço de papel está fixado na porta da geladeira com um ímã.
É um bilhete de Eliza.
“Precisei sair mais cedo. Algo urgente aconteceu. Peço desculpas por não avisar antes. Vou
compensar o tempo amanhã.”
Meus olhos percorrem o bilhete mais de uma vez, e um nó se forma no
meu estômago. Algo na forma apressada como foi escrito, na falta de
detalhes, me deixa inquieto.
Coloco o papel de volta no balcão, mas a sensação de alerta me
consome. Olho ao redor, como se pudesse encontrar alguma pista que
explique por que ela saiu tão de repente. Não encontro nada, mas o peso no
meu peito não diminui. A culpa me consome.
Ela lavou a louça e consequentemente o prato que usou para me servir.
Olho no lixo, mas está vazio, então vou em busca de algum recipiente onde
ela tenha guardado a comida do prato, na intenção de comer e dizer nas
entrelinhas amanhã para ela, que comi a refeição que ela fez na boa vontade,
mas também não há nada na geladeira.
Ela comeu.
Na mesma hora, lembro. Ela ainda não recebeu o ticket. Será que está
precisando de alguma coisa? Será que está almoçando?
Suspiro.
Enquanto subo as escadas, o bilhete de Eliza pesa na minha mão. Tento
afastar a sensação de inquietação, mas não consigo. Meu peito está apertado,
como se algo estivesse fora do lugar e eu ainda não soubesse o que é.
Em todo o caso, agora só verei ela amanhã. É o respiro que eu preciso
até precisar pedir desculpas para ela novamente.
A casa parece ainda menor quando Simon vai embora. As paredes
parecem que vão me engolir. O ar ainda carrega o cheiro de Simon, o cheiro
nauseante do perfume forte amadeirado, misturado com cigarro. Tudo parece
ainda pior agora aqui dentro. Me sinto em um cativeiro, um lugar que nunca
será minha casa, que nunca terei paz.
Minhas pernas tremem enquanto me seguro na pia do banheiro, o lado
esquerdo do meu rosto lateja de dor. Meu reflexo no espelho é um lembrete
cruel do que acaba de acontecer.
O corte acima da minha sobrancelha ainda sangra, uma trilha grossa
escorre pela lateral do rosto. Pego uma toalha velha, molho com água fria e
pressiono contra a pele. Aelin está na casa de Ângela ainda, provavelmente
brincando com os filhos dela e nem deve lembrar que precisa voltar para
casa.
Meus dedos tremem enquanto troco de roupa, escondendo a camisa
manchada de sangue no fundo do cesto de roupas para lavar.
Aelin não pode me ver assim.
Eu vou para um hospital.
Com o pano pressionado no corte, pego minha bolsa e saio sem nem
avisar Ângela que ficarei ausente por talvez mais duas ou três horas. Porém, o
desespero, a vergonha de mim mesma, não me deixa caminhar até o outro
lado da rua e dizer que ele me machucou. O fato de Aelin me ver
desmoronar, me apavora, então decido resolver sozinha.
No hospital, mantenho a cabeça baixa e a história pronta. "Caí em casa.
Sou desastrada", explico à enfermeira, que me olha com uma mistura de
ceticismo e indiferença. Eles não fazem perguntas demais, e isso me traz um
alívio amargo. Quem se importa com uma mulher sozinha, mãe solteira, com
um corte no rosto?
Recebo dois pontos na sobrancelha e algumas instruções básicas de
cuidado. Volto para casa antes que Aelin se dê conta da minha ausência. Na
cabeça dela, eu estava o tempo inteiro em casa conversando com Simon e caí
sem querer.
Ângela deduz o que aconteceu, mas não faz perguntas. Todos que
moram por aqui, devem algo para Simon. Ela não é burra de se intrometer e
arrumar para a cabeça também.
O que me deixa mais aliviada é que no hospital, recebo um atestado de
dois dias para ficar em casa.
Tenho dois dias inteiros antes de precisar encarar Christopher. Não sei
o que ele pensaria se me visse assim. Apesar das regras claras da casa, ele
sempre parece observar mais do que deveria, como se pudesse enxergar além
das máscaras que visto.
É o tempo que eu preciso até me reerguer novamente. Então envio uma
mensagem para Madelyn com a foto do atestado fixado e digo que me
machuquei em casa por ser estabanada demais. Peço desculpas pelo
imprevisto, mas também tranquilizo sobre a casa estar em ordem.
Quem responde é o marido dela, Thomas, com uma mensagem curta,
direta, mas carregada de significado.
Madelyn: Oi Eliza, boa tarde! Aqui é o Thomas, esposo da Madelyn. Pode deixar que avisarei
ela. Quanto à casa, fique tranquila. O Christopher disse que você está fazendo um ótimo trabalho. Se
precisar de algo, nos avise. Bom repouso.
Leio mais de três vezes a segunda parte da mensagem.
O Christopher disse que estou fazendo um ótimo trabalho?
A mensagem me faz rir, o que é uma contradição em meio ao dia
infeliz que tive hoje.
No dia seguinte, alguém bate no meu portão. É um entregador com um
envelope da Residência Ford, com um cartão dentro. O cartão que me deram
para comprar itens essenciais para casa está lá dentro, junto com uma nota
simples escrita a mão:
“Para qualquer necessidade que surgir, use ele até seu ticket chegar. Já falei sobre isso com a Madelyn.
Espero que esteja se recuperando.”
- Christopher Ford.
Sento-me na cadeira. A mesma responsável pelo meu corte no rosto e
encaro o papel. O gesto inesperado traz lágrimas aos meus olhos, mas elas
não são de alívio. São de frustração. Estou tão acostumada a carregar tudo
sozinha que qualquer sinal de ajuda parece um lembrete cruel de como minha
vida saiu dos trilhos, e eu não sei como consertar mais isso sozinha.
Na quinta-feira de manhã, o dia em que volto ao trabalho, decido que
preciso compensar a segunda-feira em que saí mais cedo. Simon pode ter
levado um pedaço da minha coragem, mas não vai levar o resto do meu
sustento. Não posso falhar nesse trabalho. Não existe essa opção para mim.
Bato na porta da Ângela, com Aelin ao meu lado.
— Eu sei que é de última hora, mas você pode ficar com ela hoje? —
pergunto, tentando soar confiante. — Volto hoje ao trabalho, mas quero
compensar as horas como um pedido de desculpas.
Ângela me estuda por um momento. Seus olhos param no curativo
acima da minha sobrancelha, mas ela não comenta, ao invés disso, me abraça
em silêncio.
— Claro que posso — ao me soltar, ela se agacha para ficar na altura
de Aelin e sorri. — Vamos brincar muito, não vamos, querida?
Aelin balança a cabeça animadamente, e eu sinto um peso sair do meu
peito.
— Obrigada. De verdade — seguro as mãos dela com firmeza. — Vou
chegar um pouco mais tarde, mas, se for incomodar, já conversei com a
Aelin. Ela pode me esperar em casa no fim do dia.
Aelin assente.
— Não vai incomodar. Já te disse.
Durante o trajeto até a Residência Ford, minha mente gira com os
acontecimentos dos últimos dois dias. A lembrança de Simon é uma sombra
que me persegue, sempre presente, sempre ameaçadora. Cada vez que penso
no sorriso dele, meu estômago revira.
Chego à casa de Christopher mais cedo do que o habitual e me esforço
para manter o foco nas tarefas. Por um breve momento, pego-me
agradecendo pelas regras da casa. Aqui, pelo menos, há silêncio. Não há
gritos, não há ameaças.
Mas o silêncio também amplifica meus pensamentos, e cada som — o
estalo de um móvel, o ranger do piso — me faz suspirar. Meu corpo está
alerta, sempre esperando por algo, mesmo sabendo que Simon não está aqui.
Porém, se ele ao menos desconfiar que Christopher é o dono do carro…
Deus, eu não deveria nem ter citado Madelyn e o bebê. Não posso pensar
nem minimamente na hipótese de colocar essa família em perigo.
Quando olho para o relógio, percebo que o dia está apenas começando.
Fecho os olhos e respiro fundo, tentando ignorar a dor latejante na
sobrancelha. A médica receitou antibióticos, mas não comprei porque não
quis usar o cartão que Christopher me enviou. Por falar nisso, preciso
devolver e dizer que foi muita gentileza da parte dele, mas não estou
precisando de nada.
De nada que seja da conta dele.
Sempre dei conta de tudo. Não quero que ele tenha dó de mim ou ache
que estou precisando.
Quando foi que transpareci isso para que ele suspeitasse?
Os dois dias sem Eliza na casa, se arrastaram como se tivesse mais
horas do que deveria. Madelyn veio aqui em casa no dia seguinte depois da
nossa discussão se desculpar. Ela chorou mais, mas Thomas havia me
mandado uma mensagem antes, avisando que “ela estava vindo aqui e o
resguardo havia deixado ela muito sensível, então se eu pudesse apenas
ouvi-la, sem me ofender, seria bom para ela.”
No fim, ela só veio se desculpar por ter chorado e falado tantas coisas
do passado que não importavam mais. Eu tentei ser mais compassivo e disse
que “tudo bem, eu também sentia falta dela e me esforçaria para ser um bom
tio para o Noah”. Também me esforcei para ficar mais tempo com ele no
colo, porque percebi que ela achava isso um bom sinal.
Não que eu estivesse mais tranquilo com isso, pelo contrário, me senti
em pânico, pedindo mentalmente para que nenhuma crise me atingisse
enquanto eu segurava aquele bebê e fiz promessas para o Deus da Madelyn,
que se ele me livrasse de uma tragédia dessa, eu iria qualquer dia desses na
igreja dela assistir ao culto. Seria um bom sinal para ela também, certo? Se
fosse, eu estaria disposto a ir, mesmo que tudo dentro de mim, estivesse
prestes a se romper.
Fingindo que não estava reparando na arrumação e limpeza da casa,
pela primeira vez em semanas, Madelyn não passou o dedo pelos móveis e
reagiu com uma cara desgostosa.
Minha irmã não fez nenhum comentário, mas sua expressão satisfeita
foi o suficiente para que eu soubesse que ela estava, de certa forma, aliviada
com a organização da casa.
Na quarta-feira, o silêncio da casa me abraçou, mas eu consegui lidar
bem com isso, realizando os trabalhos que o Coronel Thompson delegou para
mim remotamente.
“Precisei sair mais cedo. Algo urgente aconteceu. Peço desculpas por
não avisar antes. Vou compensar o tempo amanhã.” Li essas palavras mais
vezes do que deveria nesses últimos dois dias que Eliza ficou de atestado
médico. Algo ali não parecia certo.
O que aconteceu quando ela saiu daqui?
Será que se machucou aqui, ficou constrangida e disse que caiu em
casa?
Ou será que ela inventou alguma desculpa para ir embora após mais
aquela situação de merda entre nós dois?
Essas foram as perguntas que o silêncio da casa não conseguiu me
responder, mas que fizeram um enorme barulho na minha mente nos últimos
dois dias.
Na quinta-feira, pela manhã, meus ouvidos captam o barulho dos
passos dela no andar debaixo da casa, mais cedo do que deveria. Leves, quase
tímidos, como sempre. Eu a escuto começar o trabalho na cozinha, e minha
intenção inicial é deixar que ela siga o dia sem interrupções, mas algo me
impulsiona.
Se ela realmente se machucou, quero saber o que de tão grave
aconteceu que deixou ela afastada e ocasionou seu primeiro contato com a
minha irmã por mensagem.
Desço as escadas e a encontro de costas, inclinada sobre a pia enquanto
lava a refeição que fiz com Madelyn e a janta que fiz ontem propositalmente
para que hoje, ela visse que estou comendo e ela não precisa se preocupar
com isso. Quando Eliza se vira ao ouvir meus passos, minha atenção vai
direto para o curativo sobre a sobrancelha dela.
Paro imediatamente.
— O que aconteceu? — minha voz sai firme, sem nem antes dar bom
dia como eu havia ensaiado num tom mais gentil.
O incômodo que sinto ao ver o estado dela, fica evidente na minha voz.
Ela desvia o olhar por um segundo antes de responder.
— Nada demais. Eu caí em casa.
A mentira é tão transparente que quase me sinto ofendido por ela tentar
usá-la. Me aproximo, sem quebrar o contato visual, como se pudesse
encontrar a verdade nos olhos dela.
— Não parece nada. E você saiu mais cedo na segunda. Isso tem
alguma coisa a ver? Você caiu aqui?
— Não, senhor Ford. Foi só um acidente — ela tenta continuar com a
tarefa, mas sua postura entrega o desconforto. — Desculpa se te acordei
muito cedo. Quero compensar as horas de segunda-feira.
— Eliza... — minha voz sai baixa, mas ela me corta antes que eu
continue.
— Já está resolvido, senhor. Não precisa se preocupar.
Minha mandíbula trava, mas eu recuo. Não é o momento para
pressionar, mesmo que tudo em mim diga o contrário.
— Certo. Mas não precisa compensar hora alguma — minha frase fica
no ar, e ela balança a cabeça rapidamente.
— Não é você quem decide — ela diz, mas não num tom de afronta e
sim, num suspiro cansado.
Enquanto volto para a sala, meus pensamentos se agitam e eu volto o
caminho.
— Recebeu o cartão que enviei?
Ela para o que está fazendo, parece que tinha se esquecido disso.
— Recebi, sim. Mas não precisava disso — sua voz tem um tom
defensivo, como se aceitar ajuda fosse uma ofensa. — Não preciso da sua
ajuda, nem da sua pena — ela repete as mesmas palavras que usei contra ela
no dia em que ela me serviu o almoço
— Eu quero que use. Até o seu ticket chegar.
— Não sei o que te faz pensar que preciso.
— Eliza, você não precisa me contar se não se sentir confortável. Eu sei
que não é da minha conta. Só use a merda do cartão.
— Não preciso da merda da sua ajuda, Christopher — ela diz com tom
firme, porém embargado, sustentando meu olhar, mas não por muito tempo,
porque não consigo encarar seu curativo e o hematoma em seu rosto,
comprando a ideia de que ela simplesmente caiu e rasgou a cara e ela sabe
disso.
Sabe que não vou cair na mentira dela.
Eu estava na guerra, porra. Eu sei que uma ferida desse tipo, não se
abre numa simples queda. Não se estivessem querendo machucá-la de
propósito.
Puta que pariu, eu não esperava por isso. Não esperava mesmo. Ela não
parece confortável. Parece estar com dor. Exausta. Sem dormir. Preocupada.
Cabisbaixa.
Fico em silêncio, analisando-a.
— Se tiver acontecido algo e você queira me falar… — começo a
sugerir, mas ela bufa e dá as costas.
— Quero fazer o meu trabalho sem perturbações. E leve o cartão com
você — ela diz de forma fria como nunca ouvi ela falar antes, mas não recuo.
— Não vou a lugar algum. Estou na minha cozinha e vim tomar meu
café da manhã — uso uma desculpa.
— Ótimo. Que bom pra você. — Eliza rebate mais uma vez, dando as
costas. E eu, sem saber como reagir ou penetrar a muralha que ela ergueu
entre nós dois, abro a geladeira, como se a resposta para o que aconteceu com
ela estivesse lá dentro.
Mas não está.
Não sei o que aconteceu.
Ela não quer me falar.
Nem na minha cara quer olhar.
E é tudo muito pior do que achei que estava.
Tomo meu café em silêncio enquanto abro o extrato bancário no
celular. Ela não usou o cartão. Então tiro algumas coisas a mais da geladeira e
deixo no prato propositalmente. Sei que isso vai irritá-la, mas preparo ovos
mexidos, corto algumas frutas, dou apenas uma colherada no iogurte, tiro
uma lasca do pedaço de bolo, dou apenas um gole no suco e finjo que perdi a
fome enquanto comia. A mesa fica posta e eu subo.
Torço para que seja coisa da minha cabeça, mas fico à espreita no
escritório e espero ela subir para começar a limpeza nos quarto do andar de
cima. Quando desço para a cozinha, olho na geladeira. Não tem nada.
Olho no lixo. Também não.
Ela não guardou o que deixei na mesa.
Ela comeu.
Pode ser apenas um comportamento normal de alguém que não quer
jogar comida no lixo, mas tive mais diaristas do que posso contar e esse tipo
de comportamento me preocupa, ainda mais de alguém como Eliza.
Ela é magra demais. Isso ficou claro desde o primeiro dia em que vi ela
quase nua. Não o tipo de magreza saudável que você vê em quem se cuida ou
pratica exercícios. É outra coisa. Como se ela tivesse deixado de cuidar de si
mesma, como se carregar o peso da vida tivesse consumido tudo o que ela
tinha.
A maneira como suas roupas parecem sempre um pouco largas, como
se fossem feitas para outra pessoa. A forma como seus dedos finos e pálidos
seguram os panos de limpeza, como se qualquer esforço pudesse quebrá-los.
Sei que não é coincidência isso, com o lugar em que nos conhecemos.
O jeito desesperado em que tudo estava acontecendo naquela noite. A
tentativa de ganhar dinheiro rápido. O jeito que ela queria explicar que nunca
tinha feito aquilo, que só precisava do dinheiro. E seus olhos... Eles dizem
muito mais do que ela jamais admitiria. Há algo ali que não combina com a
postura educada e esforçada que ela tenta manter.
A ideia de que ela talvez não esteja comendo direito me irrita mais do
que deveria. Eu mesmo não sou exemplo de saúde. Perdi peso desde que
voltei, e Madelyn me lembra disso sempre que pode. Mas é diferente. Minhas
razões estão nas noites sem dormir, nas memórias que me assombram. Já
ela... Não sei o que está acontecendo em sua vida, mas algo me diz que é
mais grave do que ela deixa transparecer.
Talvez seja só coisa da minha cabeça, mas, por algum motivo, a ideia
de que Eliza está carregando algo sozinha me incomoda mais do que eu
gostaria de admitir.
Por mais que tente não me envolver, isso me incomoda. Não sei por
quê. Talvez por ver nela algo que reconheço em mim: alguém lutando para se
manter inteiro em meio a uma guerra que ninguém mais pode ver.
Enquanto trabalho de frente para o notebook, penso que ela não vai
aceitar minha ajuda tão facilmente, mas isso não significa que vou parar de
tentar e agora, mais do que nunca, tentar descobrir quem está por trás de sua
“queda”.
O meu pedido ao Deus da Madelyn dessa vez, é que ele não me deixe
descobrir se existe algum desgraçado por trás disso, porque se realmente
tiver, ele vai desejar uma morte rápida, e isso será tudo o que não darei a ele.
A sexta-feira começa com um peso familiar sobre os meus ombros. O
sol mal atravessa as cortinas do cômodo, mas já me sinto exausta. Desde que
tudo aconteceu com Simon, cada novo dia parece um teste. Ontem foi difícil
o suficiente, ter que esconder o curativo e mentir para Christopher sobre o
que aconteceu. Mas hoje... Hoje não posso vacilar.
Aelin ainda dorme quando me levanto. Suas feições tranquilas são meu
único consolo ultimamente. Por ela, coloco um pé na frente do outro, mesmo
quando tudo em mim quer parar. Entro no banheiro e encaro o espelho. O
curativo sobre a sobrancelha é pequeno, mas impossível de ignorar, já que, o
impacto da batida causou um hematoma ao redor meus olhos e até deve ter
estourado um vaso sanguíneo, causando uma bolsa de sangue acumulado na
minha pálpebra.
Toco-o com cuidado, sentindo o corte ainda sensível. Talvez eu
devesse tentar cobrir com a pouca maquiagem que tenho. E é o que eu faço.
Me forço a passar um corretivo nos olhos e uma camada de base e pó
compacto, selando tudo. Quando me encaro no espelho após terminar,
encolho os ombros frustrada. Preciso de um antibiótico, ou uma bolsa de
gelo. Isso resolveria mais do que maquiagem.
Meu semblante é de alguém exausta, desanimada, fracassada e
quebrada. Eu sei que não sou assim, que sempre consegui disfarçar bem, mas
depois do que aconteceu com Simon, parece que me rendi à guerra. Não faz
mais sentido lutar. O que ele fez, foi só uma amostra de que ele é capaz de ir
até o final para ter o que quer.
O que será que Christopher achou de ontem? Será que percebeu algo
além do que eu deixei transparecer?
Depois da conversa passivo-agressiva que tivemos ontem pela manhã,
tudo foi como sempre é. Não nos esbarramos mais. Não trocamos mais
nenhuma palavra e o silêncio nunca incomodou tanto.
Ângela aparece na porta assim que coloco a cabeça para fora de casa.
— Vou deixar Aelin com você de novo, tudo bem? — pergunto, já
antecipando sua resposta.
— Claro que sim, querida. Só espero que você esteja se cuidando — ela
lança um olhar rápido para o curativo, mas não diz mais nada.
Por um momento, me pergunto o que Angela sabe. Talvez ela
desconfie, mas prefira não se envolver. Ou talvez veja em mim o mesmo que
os outros: uma mãe que está apenas tentando sobreviver.
O caminho até a Residência Ford é tranquilo, quase silencioso. A
ausência de trânsito deveria me relaxar, mas, na verdade, chego cedo,
novamente e a casa está mergulhada em um silêncio profundo.
Começo meu dia na cozinha, limpando as superfícies e reorganizando
os armários. O trabalho mecânico me ajuda a afastar os pensamentos ruins.
Quando termino, passo para a sala, espanando os móveis e ajustando os
objetos em seus devidos lugares.
Estou concentrada, quase esquecendo o mundo lá fora, quando ouço
passos firmes atrás de mim. Não preciso me virar para saber que é
Christopher.
— Bom dia — sua voz grave corta o silêncio.
— Bom dia, senhor Ford — respondo sem desviar o olhar do que estou
fazendo.
— Como está a sua sobrancelha?
A pergunta me pega de surpresa. Hesito, mas tento soar casual.
— Está melhor. Obrigada.
Ele não responde imediatamente, mas sinto o peso de seu olhar.
Quando finalmente fala, sua voz é firme, mas não agressiva.
— Se tiver qualquer problema, quero que me avise.
Assinto, sem saber o que dizer. Ele espera por uma resposta, mas,
quando percebe que não vou dar uma, se afasta, deixando-me sozinha
novamente.
O resto do dia, passa devagar. Cada minuto parece mais longo do que o
anterior, e a tensão no meu corpo aumenta com o passar das horas.
Christopher parece estar mais presente na casa hoje, indo e vindo entre os
cômodos. Ele não fala muito, mas sua presença é inconfundível.
Perto do final da tarde, enquanto termino de lavar o chão da sala, ele
aparece novamente. Desta vez, está parado na porta, observando-me.
— Recebeu o ticket alimentação?
Paro o que estou fazendo e olho para ele.
É verdade. Hoje faz sete dias que já trabalhei na casa.
Vou olhar minha conta mais tarde. Obrigada.
Ele me observa por um momento, como se quisesse dizer mais alguma
coisa.
— Certo — ele se vira para sair, mas para na porta. — Termine por
hoje. Já fez mais do que o suficiente.
Viro-me para ele. É certo que ele reparou que não fiz nenhuma pausa.
Nem na hora que ele desceu para fazer seu almoço.
— Semana que vem, irei começar lá em cima, então se tiver alguma
exigência de horários…
— Não. Tudo bem. Obrigado por avisar.
Ficamos em silêncio enquanto termino de secar o chão para ir embora.
Ele continua ali observando tudo, por tempo demais. É só nessa hora que
encontro seu verdadeiro foco. Meus pés.
Retirei o sapato de borracha para não escorregar na água e ele, agora,
está encarando meus pés como se nunca tivesse visto os pés de uma bailarina
na vida. É justo que quase ninguém nunca viu de perto. Não é uma vista
bonita. Eu sei disso. Mas acho que a última coisa que ele vai associar são os
meus pés aos de alguém que dançou ballet por anos.
— É falta de educação encarar os pés de uma bailarina — comento,
revelando de uma vez, antes que ele levante um julgamento de pena.
Ele força uma tosse, sendo pego de surpresa e coça a nuca.
— Ãhm. Desculpe, é que…
— São horríveis, eu sei.
— Não sabia que era bailarina — ele comenta, curioso.
— Era — dou ênfase no passado e encolho os ombros, recolhendo o
rodo e o balde que usei para lavar o piso e retirar a água.
Christopher me segue até o quartinho de limpeza e para na porta, ainda
processando a informação que dei a ele.
Organizo tudo como se ele não estivesse ali, e após, estender o pano
que usei, e colocar o rodo no suporte, viro-me para ele que permanece na
minha passagem.
— Com licença — peço e ele, desconcertado, me dá passagem para que
eu vista os sapatos de volta e pegue a bolsa para partir.
— Se quiser, eu posso te levar — ele se oferece. — O dia foi bem
puxado pra você hoje — ele diz, me acompanhando até a porta, mas balanço
a cabeça negativamente. — E não é pena. Vou até a casa da minha irmã. É
caminho — ele se antecipa, mas aproveito o momento para esclarecer
algumas coisas com ele.
— Por que você foi até a minha casa? Na semana passada. No meu
primeiro dia? — pergunto, deixando claro que sei exatamente o que ele fez.
Christopher dá um passo para trás, sem estar esperando por isso.
Ele não consegue disfarçar o constrangimento. Fica alguns segundos
em silêncio, envergonhado, como se tivesse esquecido disso.
— Eliza, eu… — ele começa a se explicar, mas não perco tempo.
— Christopher, seja lá o que você está tentando fazer… pare. E pare
rápido. Você está invadindo a minha privacidade. Hoje passou o dia inteiro
me inspecionando. Me mandou aquele cartão quando não deveria e agora
está me oferecendo uma carona que eu não preciso e que claramente não é
caminho até a casa da sua irmã — enfatizo irritada, tentando afastá-lo, mas
ele sequer esboça alguma reação. — Você me pediu para respeitar o seu
espaço, mas não está respeitando o meu, porra! — sou grossa, rude, estúpida,
seja lá o que ele queira chamar, mas só preciso que ele me deixe em paz.
— Bem — ele diz, cruzando os braços, mais grossos que minhas duas
coxas juntas. —, posso ser bem sincero com você? — assinto, irritada.
— Por favor — uso o sarcasmo, apertando fortemente a alça da minha
bolsa.
— Estou preocupado com você — ele diz, sincero, como se não fosse
uma surpresa pra mim. — Sabe por quê? — nego, porque é bem óbvio que eu
não sei porque ele se importa tanto com a faxineira da casa dele. — Estou
preocupado, porque você não está se alimentando direito, e não é preciso ser
um especialista em IMC para saber que se você continuar desse jeito, vai ter
uma anemia, isso se já não estiver. Estou preocupado porque não é normal
você sair daqui cedo, falando que teve um imprevisto, ficar dois dias
afastada, voltar com o rosto assim, e achar que ninguém pode fazer nenhuma
pergunta a respeito. E eu não estou seguindo você até a sua casa. Está certa
quando diz que fui até lá, mas errada ao achar que estou de alguma forma,
tentando fazer seja lá o que você está achando. Fui até lá te pedir desculpas
por estragar seu primeiro dia, mas voltei atrás antes que você me visse,
porque não queria invadir a sua privacidade e parecer um psicopata. Te
mandei aquele cartão porque reparei que você comeu meu almoço, então
havia me lembrado que você ainda não tinha recebido o seu ticket e lembrei
que quando nos conhecemos, naquela noite, você estava desesperada por
dinheiro, disse que tinha uma filha…
— Para — interrompo ele, com os olhos transbordando. — Você não
tem o direito de achar que porque está preocupado, pode se meter na minha
vida.
— Você está deixando a sua filha com quem? Com que dinheiro está
pagando uma babá se ao menos tem o dinheiro do próprio almoço? — ele me
enche de questionamentos.
Balanço a cabeça e dou as costas.
— Quer saber de uma coisa? Eu não te devo satisfações — digo, com
voz embargada.
— Certo, Eliza. Você tem o direito de fazer o que quiser, mas não vai
mandar no que eu sinto ou deixo de sentir.
Viro-me para ele na mesma hora.
— Então pare de sentir! Só para. Eu e a minha filha estamos bem. Não
precisamos de você — finalizo o assunto, saindo pela porta e batendo ela
atrás de mim.
Ele não vem atrás e eu agradeço por isso, soltando um suspiro trêmulo.
Minhas mãos ainda estão apertadas ao redor da bolsa, e meus passos são
rápidos, quase como se estivesse fugindo.
No transporte de volta pra casa, tento me convencer que isso foi o
melhor. Que afastá-lo foi a escolha certa, mesmo que dentro de mim, algo se
agite, me convencendo que nossa conversa não acabou aqui.
PARTE II
“Eu não consigo dormir
Porque meus pensamentos devoram
E pensamentos sobre você me consomem
Porque estou sendo vencido nesta guerra de corações.”
WAR OF HEARTS - RUELLE
A manhã de sábado não traz nada de novo. A luz entra preguiçosa pelas
frestas das cortinas, lançando sombras alongadas pelas paredes do quarto.
Estou acordado há horas, sem coragem de levantar.
Estou tentando manter uma rotina nesses últimos dias. Fazer exercícios
pela manhã, ler algum livro que Madelyn insistiu em me emprestar onde
todos os dias, leio uma mensagem de ânimo para o meu dia, preencho
planilhas ou qualquer tarefa que me enviem do quartel. Mas hoje não
consigo. Algo na forma como o dia começa me deixa inquieto, como se
houvesse um peso pendurado sobre mim que não consigo definir.
Ou melhor, até consigo. Cansaço mental, e noites mal dormidas.
Juro que se pudesse, arrancaria meu cérebro e deixaria no congelador
durante a noite, só para não lidar com o turbilhão de coisas que venho
tentando evitar e, inevitavelmente, meus pensamentos retornam a Eliza.
A maneira como ela enfrentou minhas perguntas ontem, como tentou
erguer um muro entre nós, me incomoda mais do que deveria. Eu sei que não
deveria me importar, mas não consigo evitar. A verdade é que a vejo como
um reflexo de mim mesmo. O mesmo olhar cansado, os mesmos passos
cuidadosos, como alguém que tem muito a esconder.
Depois de um tempo, decido me mexer. Ficar na cama só torna os
pensamentos mais intensos, e a última coisa que preciso é afundar ainda mais
na minha cabeça.
Lavo o rosto com água fria, tentando afastar a apatia que parece me
dominar. Visto uma calça jeans e uma camisa polo. Nada demais.
É então que o telefone vibra na mesinha ao lado da cama. Madelyn.
— Christopher! — ela fala com um tom animado, antes mesmo que eu
diga alô. — Bom dia! Espero que esteja com disposição, porque quero que
você vá à igreja hoje comigo.
— Maddie, você sabe que isso não é minha praia.
— Vai te fazer bem. Um ambiente diferente, boas energias... E você
pode passar mais tempo com o Noah.
Enquanto ela diz essas palavras, só consigo entender “barulhos,
barulhos, ruídos, pessoas, muitas pessoas, forçar simpatia, passar mais
tempo segurando Noah.”
Sinto a resistência subir como uma parede automática, mas, ao mesmo
tempo, sei que ela está tentando ajudar e eu também tinha feito aquela
promessa boba ao Deus dela, sobre ir a um culto caso ele me ajudasse a não
fazer nenhuma besteira enquanto segurava Noah.
Bem, ele me ajudou. Agora eu devo uma pra ele.
— A gente fica sentado no último banco — Madelyn negocia, ao
perceber que não dei mais nenhuma resposta.
— Tudo bem. Que horas?
— Passa aqui em quarenta minutos. E nem pense em voltar para casa
cedo. Planejei uma programação para nós o dia inteiro hoje.
Nós?
Dia inteiro?
Fala sério.
Pedi um culto e vou receber, um dia em família.
Que esse Deus da Madelyn fique sabendo que não estou indo lá
agradecer.
Ela desliga antes que eu possa mudar de ideia. Solto um suspiro longo e
desço para a cozinha, preparando um café forte para clarear a mente e mais
uma vez, me pego fazendo promessas.
“Por favor, que nada aconteça.”
“Por favor, só me deixa passar mais esse dia sem estragar nada.”
“Por favor, o Noah só precisa de um tio normal.”
“Por favor, a minha irmã precisa de um descanso disso.”
A igreja é pequena, aconchegante. Não é o tipo de lugar que me faz
sentir confortável, mas me esforço para parecer um pouco mais receptivo. Por
mais que estejamos sentados no último banco, percebo que todos sabem
quem Madelyn é, e consequentemente, eu também.
Madelyn está radiante, com a minha presença. Noah está no colo dela,
dormindo mesmo com o som do coral louvando lá na frente. As pessoas
cantam, algumas com os olhos fechados, outras de mãos levantadas. Tento
prestar atenção, mas minha mente se perde na multidão. É difícil não me
sentir deslocado em lugares assim.
Me sinto um estranho, intruso, mesmo que cada um dos membros me
lancem olhares gentis e receptivos. Tenho certeza que minha irmã explicou
minha situação pelo menos para alguns deles.
Então vejo Sara, minha ex-namorada — alguém que eu acreditava ser
apenas um borrão na minha mente. Ou, pelo menos, era o que eu achava.
Mas, ao vê-la com as marcas que a idade trouxe à sua pele de vinte e nove ou
trinta anos, percebo que ainda me lembro exatamente por que gostaria de tê-
la esquecido definitivamente. Ainda me recordo, com clareza, do dia em que
ela me trocou pelo meu melhor amigo — e isso não fazia nem um mês desde
que eu havia perdido meus pais.
Ela está sentada algumas fileiras à frente, segurando um bebê no colo.
Ao lado dela está Dustin, de olhos fechados, como um anjinho que não rouba
namoradas do melhor amigo.
Fala sério, que merda eu tô pensando?
O ar parece sair dos meus pulmões de uma vez, e por um momento,
tudo o que consigo fazer é ficar parado, encarando a cena.
Madelyn percebe minha tensão imediatamente.
— Christopher... Você está bem?
— Estou — minto, desviando o olhar, mas ela encontra o casal em que
eu estava focado.
— Não lembrei que Sara e Dustin vinham aqui. Se soubesse...
— Está tudo bem, Maddie. Não se preocupe.
Ela parece querer insistir, mas decide me deixar em paz.
Depois do culto, por estarmos no último banco, penso que
conseguiremos sair sem sermos vistos ou abordados por ninguém, mas é
claro que eu estava errado.
Minha irmã parece uma prefeita. Todos vêm falar com ela, ver Noah,
perguntar da ausência de Thomas, e consequentemente, me cumprimentar
também, com sorrisos gentis e frases do tipo “seja bem-vindo”, “volte mais
vezes”, “Madelyn fala muito de você”.
É. Tenho certeza que ela fala mais do que a boca.
Quando estou andando ao lado de Madelyn até o carro, cruzamos com
o casal de anjinhos. Sara se aproxima primeiro, o sorriso no rosto, parecendo
mais um pedido de desculpas do que um cumprimento.
— Christopher — sua voz está hesitante, quase nervosa.
— Sara — respondo, mantendo a expressão neutra.
Dustin se aproxima, estendendo a mão como se nada tivesse
acontecido.
— Bom te ver, cara.
Eu deveria ignorá-lo. Parte de mim quer virar as costas e sair dali sem
dizer nada. Mas, em vez disso, aperto sua mão, firme, mantendo meu olhar
fixo no dele.
— Vocês estão bem? — pergunto, mais por educação do que por
interesse.
Sara balança a cabeça, sorrindo.
— Estamos. Esse é o nosso bebê: Peter. Madelyn nos contou sobre
você. Sinto muito pelo o quê aconteceu. Saiba que nós oramos por você.
Acredito que esse dia foi marcado para que pudéssemos te pedir perdão. Nós
nunca pedimos então… — Sara só não continua seu monólogo, porque
Madelyn toma a frente da conversa, abrindo um sorriso amarelo.
— Nós estamos de saída, então… acho melhor…
— Tudo bem, Madelyn — tranquilizo ela, num tom indiferente. — Se
eles querem me pedir perdão. Vamos lá — incentivo, mas parece que eles
não esperavam que eu fosse obrigá-los a isso.
— Christopher — Madelyn me repreende.
— Sorte a de vocês eu estar aqui. Já pensou, queimarem no fogo do
inferno por não conseguirem me pedir perdão? Já explodi várias pessoas na
guerra e… — faço uma pausa dramática, colocando as mãos nos bolsos. —
Dói bastante, imagine queimando na eternidade? — uso o sarcasmo, mas
Madelyn me arrasta dali até o carro, sussurrando um pedido de desculpas
apressado para os dois.
— Qual o seu problema? Tá maluco em falar uma coisa dessas? — ela
me repreende quando assumo o volante, enquanto ela, ainda no banco de trás,
aconchega Noah no bebê-conforto.
— Foi, mal. Só entrei no clima — digo com um risinho.
Madelyn entra no banco da frente e respira fundo, tentando ignorar
Sara e Dustin, que ainda estão parados no mesmo lugar, atônitos,
constrangidos e assustados.
— Tira a gente daqui logo — ela diz, fazendo o máximo para não
mover os lábios e eles façam a leitura labial.
Dou a partida no carro e assim que viramos a rua, ela solta um riso
sincero. Uma gargalhada que acorda Noah enquanto ela afunda a cabeça no
encosto do banco. Paro no farol, encarando ela gargalhar e gargalho com ela
também.
— Meu Deus, você foi péssimo. Péssimo. Péssimo! — ela diz entre as
gargalhadas. — Mas eles mereceram.
Gargalho em resposta, dando de ombros.
— Vou para o inferno mesmo — respondo e faço menção a parar o
carro para ela acalentar Noah, que chora no banco de trás, mas ela não para
de gargalhar, então encosto o carro e fico ali, observando ela rir, até que a
primeira lágrima escorra pelos seus olhos.
— Você odiou — ela diz, cobrindo o rosto. — Odiou ter ido lá.
— Madelyn — tento acalmá-la, mas ela soluça.
— Aqueles imbecis acham que são quem para…
— Tudo bem. Eu já disse que está tudo bem.
— Como pude me aproximar dos dois enquanto você estava na guerra?
Eles foram os culpados por você ter ido. Sara te traiu com ele. São traidores.
Partiram seu coração quando você ainda estava passando pelo luto dos nossos
pais e eu… simplesmente achei que seria bom ser amiga deles, como uma
cadela. Sou uma hipócrita por ter levado você lá — ela começa a dizer entre
as lágrimas.
Deixo que ela coloque tudo para fora e lembro que Thomas havia
conversado comigo sobre ela estar sensível aos acontecimentos devido ao
puerpério. Ainda assim, ela permanece piedosa.
Por um momento, não sei o que dizer. Minha mente trava, mas a
resposta sai antes que eu possa processá-la.
— Não se culpe por perdoá-los. Você é uma boa pessoa.
— Você também. Será que não consegue ver?
— Madelyn, eu já sou um homem condenado.
— Não é. Você é bom. Um bom irmão, um bom tio, vai ser um bom
pai, vai ter uma família…
— Quanto mais você demorar a enxergar, mais vai doer em você. Nós
não somos iguais. Eu nunca vou ter uma família. Sara fez certo em ter me
trocado, ou não teria um filho hoje. Não teria nada. Eles não têm culpa de eu
ter ido para a guerra. Fui porque eu quis. Não existe um culpado. E você não
agiu como uma cadela perdoando eles. Fez isso, não por mérito deles, mas
porque tem um bom coração. É a pessoa que mais merece estar naquele lugar
— envolvo o rosto dela. — Madelyn, eu disse na cara deles nas entrelinhas
que poderia explodi-los.
Ela ri em meio às lágrimas.
Nos olhamos cúmplices enquanto seco o rosto dela.
— Nada de se culpar, certo? Você é ótima. Eu amei o culto, amei o
coral, amei ver que você é alguém querida, amei saber que todos lá amam
Noah e amei que todos foram gentis — deixo claro. — Agora vá lá para trás,
que eu vou te deixar em casa.
Antes que ela proteste, continuo.
— Você conseguiu me fazer sair de casa hoje, mas já é hora de voltar.
— Tudo bem — ela se rende. — Mesmo assim, hoje tivemos um
avanço.
— É. Tivemos um avanço — concordo.
Volto para casa mais cedo do que planejava, ignorando o convite de
Madelyn para almoçar. Preciso de tempo para processar tudo longe dela. A
igreja, o casal de anjinhos, a piada fora de hora, as gargalhadas, o choro, o
desespero por ser uma péssima irmã e ter se tornado amiga dos traidores que
pelo que parece, agora são anjinhos, minha irmã achando que ainda tenho
salvação, achando que um dia serei um bom pai…
Valeu Deus da Madelyn. Você é ótimo no quesito me meter em
problemas.
Por um lado, ver a vida através dos olhos da minha irmã, me deixa
aliviado. Fico feliz por ela ter algo em que acreditar. Algo que a incentiva a
ser boa, a continuar vendo algo de bom em mim que nem eu mesmo enxergo,
mas, ao mesmo tempo, só chego a conclusão de que é melhor que eu não me
aproxime demais.
Estou longe de ser alguém bom como ela acha. Se Madelyn ouvir meia
hora do que eu já fiz na guerra, sequer me deixaria pegar seu filho no colo de
novo. Minha irmã pode ter sua fé e se o Deus dela existe ou não, tenho
certeza que viu tudo o que eu fiz. Toda vez que nem hesitei em puxar o
gatilho ou puxei o pino de uma granada.
Quando estaciono na garagem, percebo que algo está diferente. Há
mais ruídos do que deveria ter em uma casa que deveria estar vazia.
Meu estado de alerta se aguça e eu desço do carro ao invés de apertar o
botão do portão automático da garagem. Desço do carro e me esgueiro no
muro, antes de girar a maçaneta da porta. Ouço passos rápidos lá dentro,
como se fosse de alguém correndo.
Procuro meu rádio.
Espero um sinal para avançar.
Posso até ouvir meu coração bater na minha garganta.
Preciso esperar mais um pouco, ver se tem mais uma pessoa, porque se tiver, preciso interceptar
cada um sem que o outro veja e usar um silenciador. Atirar sem que o outro me ouça. Estar preparado
para caso os dois me ataquem, atirar sem hesitar. Na cabeça.
Espero mais alguns minutos.
Tem duas pessoas lá dentro.
Uma correndo e outra, um pouco mais cautelosa.
Tomo a minha decisão.
Vou interceptar a que é mais cautelosa, lenta e depois derrubo a mais rápida.
Entro e deixo a porta aberta para não correr o risco de ser identificado.
Espero à espreita. Só preciso de um golpe e se ele for suficientemente letal, não precisarei nem
de usar o silenciador.
Espero.
Os passos cautelosos se aproximam, eu a puxo através da escada e a prenso no corrimão que
leva até lá em cima.
— Christopher,
— Como sabe meu nome? — sussurro entre dentes, imobilizando-a. —
Quem te mandou aqui?
— Christopher, calma.
— [Link]é.Aqui?
— A Madelyn, ela… Christopher, você está me assustando.
Aperto mais meu antebraço contra o pescoço dela.
— Chris…
Olho em seus olhos azuis, vejo ela ficar ofegante, com a passagem de
ar bloqueada pela pressão do meu braço. É mais um olhar que vai ficar
gravado pra sempre na mente, para me lembrar o monstro que eu sou,
lembrar de mais uma vida que irá se esvair pelas minhas mãos.
— Christopher! — sou empurrado contra a parede e por um momento,
a vejo correr para longe de mim, enquanto eu ainda tento reconhecer o lugar
em que estou.
Tento controlar minha respiração e vejo Eliza na minha frente,
assustada, enquanto uma garotinha corre até ela para ver o que está
acontecendo. Seus olhinhos me encaram curiosos e ela sorri para mim, meiga
e gentil.
— Oi, tio… — ela diz, acenando para mim com uma boneca na mão.
|HORAS ANTES|
O sábado amanhece com uma tensão que parece ter dormido ao meu
lado. Aelin ainda está adormecida, seu corpo pequeno enrolado no cobertor
enquanto respira suavemente. Fico parada à beira da cama por alguns
minutos, observando-a. Ela não tem ideia do que acontece ao nosso redor. E
talvez seja melhor assim.
Minha cabeça ainda está cheia da conversa com Christopher. Suas
palavras insistem em ecoar, misturadas à irritação que me acompanha desde
ontem. Ele acha que pode me julgar, fazer perguntas que não são da conta
dele, como se eu devesse satisfações.
Mas, apesar da raiva, uma parte de mim sente outra coisa. Vergonha.
Vergonha de ter sido rude com alguém que só parecia estar tentando ajudar.
É por isso que decido o que farei hoje. Preciso mostrar a ele que não
devo nada. Nem o ticket alimentação, nem as horas dos dias que me afastei.
Vou compensar tudo. Não por ele, mas por mim.
A primeira coisa que faço, é digitar uma mensagem para Madelyn.
Eu: “Bom dia, senhora Ford. Eu gostaria de me desculpar pelo atestado que precisei entregar
e me colocar à disposição para compensar as horas neste final de semana, caso seja possível. Sei que a
casa precisa de atenção, e estou disposta a trabalhar hoje e amanhã, se for necessário.”
Envio a mensagem antes que possa pensar muito sobre o tom. Sei que
soa formal, mas quero deixar claro que não estou pedindo nada. Estou apenas
me colocando à disposição.
Poucos minutos depois, a resposta chega.
Madelyn: “Eliza, não precisa se desculpar. Entendo perfeitamente que você se machucou, e é
natural precisar de um tempo. Mas se você realmente deseja compensar, pode trabalhar hoje.
Christopher estará fora o dia inteiro, então será tranquilo.”
Respiro aliviada, mas antes que possa colocar o telefone de lado, outra
mensagem chega.
Madelyn: “Ah, e se você não tiver com quem deixar sua filha, pode levá-la com você. Não será
problema. Vou manter meu irmão ocupado. Acho até bom que você aproveite para dar uma limpada no
quarto dele, enquanto ele não estará”
Madelyn: “Fique tranquila. Pagarei as horas extras.”
Não é comum que empregadores permitam esse tipo de coisa, e por um
momento, fico hesitante. Aelin nunca esteve comigo em um dia de trabalho, e
não sei como ela vai se comportar. Mas Madelyn parece sincera, e a oferta é
tentadora. A última frase me pega de surpresa.
— O que acha, pequena? Quer conhecer onde a mamãe trabalha hoje?
— murmuro, olhando para Aelin ainda despertando.
Ela não responde, mas o sorriso que surge no rosto dela, enquanto
processa as palavras, me faz tomar a decisão.
Chegamos à Residência Ford pouco depois das nove. Aelin está
empolgada, segurando minha mão com força enquanto carrega sua boneca
preferida.
— Mamãe, aqui é grande! — ela exclama assim que entramos pela
porta, os olhos brilhando enquanto olha ao redor.
— Sim, é — respondo, deixando que ela explore a casa.
Começo a organizar tudo o que irei precisar para limpar lá em cima,
explicando a Aelin que ela pode brincar na sala enquanto eu trabalho. Ela
parece mais interessada nos detalhes do lugar do que na boneca, e isso me
deixa apreensiva.
Levo um tempo para criar coragem de subir ao andar de cima. Hoje,
porém, estou mais aliviada. Christopher não está em casa, e isso me dá
liberdade para fazer as coisas sem o peso do olhar atento dele ou das
perguntas inesperadas.
Depois de garantir que Aelin está entretida com a boneca na sala, subo
lentamente as escadas, carregando o balde de limpeza e um pano. O silêncio
no andar de cima é quase absoluto, e por um momento, fico parada no
corredor, escutando o som abafado do riso de Aelin lá embaixo.
Começo pelo quarto de hóspedes, onde a cama está bem arrumada e há
pouco o que fazer além de passar um pano nos móveis e aspirar o chão. A
tarefa é rápida e quase reconfortante. Faço o mesmo no outro quarto de
hóspedes, e banheiro social. Parece que o trabalho mais pesado já foi feito,
que era lá no andar debaixo.
Quando termino, fico diante da porta do quarto de Christopher. Sei que
ele é reservado, mas hoje, assim como Madelyn havia dito, é a oportunidade
perfeita para fazer uma limpeza mais profunda ali.
Sempre tive receio de invadir esse espaço quando ele está por perto.
Respiro fundo e empurro a porta com cuidado.
O quarto é exatamente como eu imaginava: organizado de um jeito
quase metódico. A cama está feita com precisão militar, os lençóis esticados e
sem um vinco fora do lugar. As paredes são pintadas em um tom neutro, e o
único elemento pessoal é uma foto emoldurada sobre a cômoda. Aproximo-
me sem pensar, como se algo na foto chamasse minha atenção.
Na última e única vez que estive aqui, pela circunstância, mal havia
reparado nesses detalhes.
É uma imagem antiga, com Christopher de uniforme, ladeado por
outros soldados. Ele deve ter vinte e poucos anos. Ainda tem rosto de menino
que mal sabia o que lhe esperava. Todos parecem exaustos, mas há um
sorriso sincero em seus rostos. Ele está no centro, segurando um rádio com
uma expressão séria, mas os olhos carregam um brilho de determinação que
não vejo nele agora.
Coloco a foto de volta no lugar e começo a limpar a cômoda, tomando
cuidado para não derrubar nada. Há poucos objetos ali: uma luminária, um
relógio de mesa e alguns suplementos. Tudo está organizado com uma
precisão que reflete sua personalidade reservada.
Deus! Tenho certeza que ele vai saber que passei por aqui. Duvido que
consiga organizar tudo com tanta precisão como ele.
A sensação de estar neste quarto, sozinha, é estranha. É como se eu
estivesse entrando em um território proibido, conhecendo uma parte dele que
ele nunca mostrou a ninguém.
Depois de limpar os móveis, começo a aspirar o chão, movendo-me
devagar para não deixar nenhum canto para trás. O som do aspirador ecoa
pelo quarto, mas é quase reconfortante.
Quando termino, vou até a cama. Troco os lençóis, dobrando os antigos
com cuidado antes de colocar os novos. É uma tarefa simples, mas que
considero de nível elevado após ver como ele faz. É algo que exige
concentração, para deixar igual e por isso, me ajuda a manter os pensamentos
longe das preocupações do dia a dia.
Enquanto ajeito os travesseiros, minha mente retorna ao que aconteceu
ontem. A forma como Christopher me confrontou, as perguntas que ele fez, o
tom na voz dele. Ele parecia tão... genuinamente preocupado. Não que isso
justificasse a invasão, mas é difícil ignorar que, eu havia me esquecido como
é se sentir cuidada ainda que de longe por alguém.
"Por que ele se importa tanto?" A pergunta surge novamente,
acompanhada de uma irritação que tento empurrar para longe. Eu não preciso
da preocupação dele. Não quero depender de ninguém, muito menos de
alguém que mal conheço.
Quando termino de arrumar a cama, olho ao redor do quarto mais uma
vez. Está impecável, mas há algo na atmosfera que me faz hesitar. Talvez seja
a presença dele, mesmo quando ele não está aqui. Ele vai odiar saber que
estive aqui. Que vi sua foto, seus pertences de forma tão vulneráveis.
Desço as escadas, satisfeita com o trabalho. Ao entrar na sala, Aelin
corre para mim, segurando uma boneca e sorrindo como se não tivesse uma
preocupação no mundo.
— Você terminou, mamãe? — ela pergunta, os olhos brilhando.
— Quase, meu amor. Vou só organizar essas coisas e já vamos embora
— aviso, carregando tudo o que usei, de volta ao quartinho de limpeza. — E
pare de correr, você pode tropeçar, machucar, e quebrar alguma coisa —
alerto.
Guardo tudo o que preciso e começo a trocar de roupa para ir embora.
Agora que já recebi os meus dias trabalhados, quero passar em um
supermercado e comprar algumas coisas para casa. Também agilizei os
trabalhos para não ficar muito tempo aqui. É certo que, por mais que
Madelyn me disse que Christopher ficaria o dia fora, não consigo acreditar
que ele seja tão sociável a esse ponto. Então prefiro não arriscar tanto.
Assim como previ, quando pego minha bolsa e checo se tudo está no
lugar, o carro de Christopher, para em frente de casa.
— Aelin! — chamo. — Vem cá! — digo, enquanto o observo sair do
carro com as sobrancelhas arqueadas. — Fica aí — coloco ela sentada em um
monte de pano de chão dobrados um em cima do outro e saio, observando ele
pela janela da cozinha.
Ele não entra. Fica vários minutos parado ao lado da porta em estado de
alerta.
— Mamãe, a gente já vai? — Aelin vem ao meu encontro, correndo.
— Volta pra lá — ordeno num sussurro e ela volta, correndo até o
quartinho de limpeza.
Ele abre a porta quase sem que eu perceba e corre até a escada.
— Christopher? — chamo indo até lá, vendo que ele deixou a porta
aberta, mas não tenho tempo de reação.
Ele me puxa para a escada, me prensando no corrimão com um olhar
mortal que eu nunca vi em seu rosto.
— Christopher,
— Como sabe meu nome? — ele sussurra entredentes, mantendo-me
imobilizada. — Quem te mandou aqui?
— Christopher, calma — peço com cautela, ao ver se tratar de uma
crise de TEPT.
— [Link]é.Aqui? — ele sibila as palavras com voz grossa
e firme.
— A Madelyn, ela… Christopher, você está me assustando.
Ele aperta mais meu antebraço contra o meu pescoço, numa tentativa
de me silenciar e eu vejo que se não usar a força contra ele, não vou
conseguir pedir ajuda se ele decidir dar continuidade em seja lá o que está
pensando em fazer.
— Chris…
Ele olha no fundo dos meus olhos, me asfixiando com toda a força que
tem. Sem opção, eu o empurro bruscamente.
— Christopher! — berro, me afastando o quanto puder dele, que ainda
fora de si, olha em volta, reconhecendo o lugar.
Aelin percebe nossa movimentação e vem até mim, encontrando
Christopher nos degraus, ainda ofegante.
— Oi, tio... — ela diz, acenando para ele com a boneca na mão, mas eu
a coloco para trás de mim.
— Volta pra lá, Aelin — digo em tom de repreensão e ela, sem saber o
que está acontecendo, me obedece.
Christopher fica ali mesmo, sentado nos degraus, cobrindo o rosto.
— Que merda vocês vieram fazer aqui? — ele pergunta baixo, com as
mãos trêmulas, e voz prestes a embargar. — Eu machuquei você?
Minha reação é pegar um copo de água para ele, mas ao ver que estou
me aproximando, ele se esquiva e sobe as escadas.
— Christopher — chamo, subindo as escadas atrás dele, mas ele me
para no corredor, transtornado.
— Hoje é sábado, Eliza. Sábado. Sua folga — ele lembra, como se algo
estivesse fora do lugar.
E está. Se eu não estivesse aqui, isso não teria acontecido.
— A Madelyn. Eu falei com ela — tento justificar.
— Por acaso é ela quem mora aqui?
— Christopher,
— Não fode, porra. Responda.
Dou um passo para trás e ele percebe a minha retidão, então parece se
lembrar na merda de minutos atrás e balança a cabeça, massageando a testa,
numa tentativa de se forçar a raciocinar.
Ele dá as costas, rumando até seu quarto e proferindo antes de bater a
porta atrás de si.
— Pega a sua filha e vai embora daqui.
A batida alta da porta me faz sobressaltar e sem querer mexer no
grande tornado que Christopher é, acato à sua ordem. Sabendo que aqui não é
seguro para mim e Aelin.
Nenhum lugar é.
A casa está em silêncio novamente, mas não do tipo que me traz paz. É
o silêncio que pesa nos ombros, preenchendo cada canto com lembranças que
eu gostaria de apagar. Estou sozinho, mas não consigo encontrar alívio nisso.
A cena com Eliza ainda está gravada na minha mente, como um filme que se
repete sem parar.
Sento-me na beira da cama, as mãos trêmulas pressionando os joelhos
enquanto tento regular a respiração. O gosto amargo da culpa é tão forte que
parece sufocante. Eu poderia ter matado ela. A ideia me consome como um
fogo lento e destrutivo.
Ando de um lado para o outro enquanto o telefone de Madelyn chama.
— Chris? Você está bem? — A voz dela é cheia de preocupação, como
se soubesse que algo está errado.
— Não. Não estou — respondo, minha voz soando mais áspera do que
eu pretendia.
— O que aconteceu?
Respiro fundo, tentando organizar os pensamentos.
— Eliza estava aqui. Hoje. Com a filha.
Madelyn faz uma pausa.
— Eu sei. Ela me mandou uma mensagem mais cedo. Ela só queria
compensar os dias que ficou afastada. Eu aceitei, porque tinha planos de te
manter fora de casa o dia inteiro…
— Porque você não me avisou? Eu perdi o controle — corto-a, minha
voz trêmula.
O silêncio do outro lado é quase pior do que qualquer resposta.
— Chris... O que você quer dizer com isso?
— Eu a ataquei, Maddie — as palavras saem como um veneno que
queima ao ser expelido. — Achei que ela era alguém... alguém que veio me
machucar. Tive uma crise.
Madelyn inspira audivelmente.
— Meu Deus... Ela está bem? E a filha dela? Alguém se machucou?
— Elas saíram da casa. Mas eu... não posso continuar assim. Não posso
manter alguém aqui enquanto não estou bem, Madelyn.
— Ah, Christopher… Isso não é culpa sua.
— É sim — respondo, minha voz ficando mais embargada. — Não sei
que merda fazer agora.
— Vou falar com ela. Mas, Chris, você precisa de ajuda. De verdade.
— Não. Eu só preciso ficar sozinho. Liga para ela, vê se ela está bem e
eu quero que você a demita.
Há silêncio da parte dela, então continuo.
— Ela precisa muito do trabalho. Quero que você a contrate. Ela pode
trabalhar na sua casa. Você sabe que ela faz um bom trabalho. Mas aqui...
Aqui não é seguro para ela.
Madelyn suspira, sua voz carregada de tristeza.
— Prometa que fará isso — insisto.
O silêncio do outro lado da linha é pesado, mas ela finalmente cede.
— Está bem. Mas me ligue se precisar de qualquer coisa.
— Obrigado.
Desligo o telefone e fico parado, segurando o aparelho na mão
enquanto o peso do que aconteceu me atinge novamente, então subo para o
escritório e sento-me de frente para o notebook aberto. Minha mente está em
um caos, mas um pensamento claro emerge no meio disso tudo.
Preciso voltar.
Meu lugar não é aqui.
Abro o e-mail e começo a digitar uma mensagem para o coronel. As
palavras saem hesitantes, mas com uma determinação crescente.
"Senhor, preciso de uma oportunidade para voltar ao campo. A vida aqui não está funcionando, e
sinto que ainda tenho algo a oferecer ao serviço. Estou pronto para qualquer posição que estiver
disponível."
Paro, olhando para o texto na tela. Meu dedo paira sobre o botão de
enviar.
Se eu voltar, talvez consiga consertar o que está quebrado em mim.
Talvez o peso da guerra seja mais suportável do que o peso da culpa.
Mas, por enquanto, não consigo apertar o botão.
Fecho o notebook e me inclino na cadeira, cobrindo o rosto com as
mãos. O silêncio volta a preencher a casa, mas agora ele não traz vazio. Ele
traz o eco da minha própria falha, repetindo-se indefinidamente.
Aelin dorme profundamente no meu colo, a cabeça encostada no meu
ombro enquanto o ônibus balança levemente nas ruas esburacadas. Seus
cabelos macios roçam o meu queixo, e eu fecho os olhos por um momento,
tentando absorver o calor e a tranquilidade dela.
O banco é desconfortável, mas é o menor dos meus problemas agora. O
trajeto de volta para casa nunca pareceu tão longo, cada parada aumentando o
peso que carrego no peito.
A cena na casa de Christopher não para de se repetir. O olhar perdido
dele, o som da respiração pesada e, principalmente, o momento em que ele
avançou como se não fosse mais ele mesmo. Meu coração ainda está
disparado, como se o medo estivesse entranhado na minha pele.
Desço do ônibus com cuidado, o peso de Aelin aninhada contra mim,
trazendo uma estranha sensação de conforto e responsabilidade.
Quando finalmente chego em casa, fecho a porta atrás de mim com um
suspiro pesado. Coloco Aelin na cama com todo o cuidado que posso reunir,
cobrindo-a com um cobertor fino. Ela se mexe levemente, mas não acorda,
sua respiração suave ecoando no pequeno cômodo.
Por um momento, fico ali parada, olhando para ela. Minha garotinha,
sempre tão cheia de energia, agora tão vulnerável e tranquila. Tento encontrar
alguma força nessa visão, mas as lágrimas que estive segurando começam a
cair.
Vou para a pia, precisando de algo para ocupar minhas mãos. Enquanto
encho um copo com água, ouço batidas na porta. Meu corpo fica tenso
imediatamente, e por um instante penso que é Christopher, mas logo descarto
a ideia.
Abro a porta com cautela, e vejo Madelyn ali, seu rosto sério e
preocupado.
— Eliza — ela diz, sua voz baixa, mas cheia de emoção.
— Madelyn — respondo, surpresa, mas sem saber o que mais dizer.
É a primeira vez que vejo ela sem ser por foto, e seu rosto, empático, as
linhas de expressão no formato do sorriso, e os olhos gentis, são exatamente
iguais ao da foto que ela tem no perfil do seu contato. Por mais cansado que
esteja seu semblante, ela se esforça para se mostrar como alguém que deixou
os problemas pessoais em casa e está aqui tentando resolver o meu.
— Christopher me ligou — ela começa. — Ele me contou sobre o que
aconteceu hoje.
— Ah, — é o que consigo dizer ao me lembrar. — Não precisava ter
vindo. Eu estou bem. Sei que aquilo não foi… — as palavras faltam e ela me
abraça sem cerimônia, pegando-me de surpresa.
— Ah, querida… — ela diz numa forma de me consolar, mas não
choro, sequer consigo esboçar alguma reação enquanto ela me conforta. —
Ele está destruído. Me pediu para vir ver se você estava bem.
As palavras dela me pegam de surpresa. Encolho os ombros sem saber
o que dizer quando ela me solta.
Observo o carro parado em frente ao meu endereço.
Tem um rapaz lá dentro, provavelmente, deve ser o esposo dela.
— Você quer entrar? — convido, dando espaço na porta.
Ela hesita. Olha para o rapaz no banco do motorista e diz para ele “eu
já volto” antes de aceitar meu convite. Madelyn entra tímida e ao encontrar
Aelin na cama, dormindo, sorri.
— É a sua neném? — ela pergunta.
Sorrio.
— É, sim. Se chama Aelin.
Ofereço a ela a única cadeira que temos em casa para que ela se sente e
constrangida, Madelyn nega educadamente.
— Obrigada. Não pretendo demorar.
Percebo que Madelyn passa os olhos pelo local pequeno e abafado e
depois, para seus olhos em mim, analisando o curativo em minha
sobrancelha, como se estivesse tentando montar o quebra-cabeça do que
aconteceu.
— Mora com mais alguém aqui? — ela pergunta, encolhendo os
ombros.
— Não, eu… moro só eu e minha bebê.
— Nossa, você é… linda, com todo o respeito. Agora entendi porque
meu irmão…
Ergo a sobrancelha como se estivesse incentivando ela a terminar a
frase.
Ela solta um risinho.
— Digamos que meu irmão está bem perseverante com a sua
contratação.
Coro com a suposição dela.
— Senhora Ford, nós não… Eu só vou até lá fazer o meu trabalho.
Estou me esforçando para seguir as regras dele — justifico e ela balança a
cabeça.
— Não duvido disso. Fui lá este final de semana e a casa estava
impecável.
Sorrio agradecida.
— Obrigada — agradeço e uno as mãos de frente para o corpo.
— Bem, é… — ela começa falando. — Meu irmão pediu para que eu te
oferecesse um emprego na minha casa.
— Ele quer que eu saia de lá? — pergunto, minha frustração
transparecendo. — Ele me demitiu?
— Não é isso — Madelyn balança a cabeça. — Ele acha que está te
colocando em perigo, e não quer que isso aconteça novamente.
As palavras dela ecoam, mas é difícil processá-las. Parte de mim
entende a preocupação de Christopher, mas outra parte sente que estou sendo
empurrada para longe, como se minha presença fosse um problema que ele
não quer lidar.
— Você pode trabalhar na minha casa, se quiser. Por um tempo apenas,
até eu… até o meu irmão estar bem de novo com essa ideia.
Ela tenta soar encorajadora, mas a situação inteira me deixa ainda mais
perdida.
— Eu não sei o que fazer — admito, minha voz tremendo.
Madelyn coloca a mão no meu ombro, apertando levemente.
— Eliza, você realmente pode trabalhar na minha casa, se quiser —
Madelyn diz com um tom gentil. — Não quero que você se sinta pressionada,
mas sei que Christopher só quer garantir que você e sua filha fiquem bem.
— Eu posso dar um jeito se realmente quiserem me demitir. Não
precisa ficar com pena — respondo, minha voz saindo mais baixa do que
pretendia. — Mas agradeço muito pela oferta.
Ela assente, parecendo compreensiva, mas antes que possa dizer mais
alguma coisa, ouço o som de passos se aproximando da porta. Meu coração
para por um segundo, e o aperto familiar no peito retorna.
A porta é aberta antes que eu possa ir até lá atender, e Simon entra
como se fosse dono do lugar. Seu rosto se ilumina com um sorriso que eu
conheço bem, aquele que ele usa quando quer parecer amigável, mas que
nunca chega aos olhos.
— Angel! — ele exclama, usando o apelido que sempre faz minha pele
arrepiar. Seus olhos passam de mim para Madelyn, e ele levanta uma
sobrancelha em curiosidade. — Temos visitas?
Madelyn se vira para ele, surpresa, mas mantém a expressão amigável.
— Sou Simon, um amigo da família.
Engulo em seco, tentando controlar a expressão no meu rosto. Ele me
olha como se quisesse que eu confirmasse a informação, então assinto.
— Simon sempre ajuda com Aelin — digo rapidamente, forçando um
sorriso enquanto olho para Madelyn.
Meu corpo inteiro está tenso, mas mantenho o sorriso, sabendo que
qualquer hesitação pode fazer Madelyn questionar algo.
— Então, Angel... — Simon começa, virando-se para mim. — Você
trabalhou hoje?
— É, eu… Fiz algumas horas extras — respondo, por algum motivo,
me sentindo exposta demais pelo olhar dos dois.
— Você que é a patroa dela? — ele pergunta, sua voz carregada de um
tom casual, mas seus olhos analisam Madelyn com cuidado.
— Sim — ela responde, analisando ele, assim como havia feito
comigo, e após isso, olha Aelin dormindo na cama do outro lado do cômodo,
depois direciona seu olhar para mim e percebe meu corpo rígido, a postura
ereta como sempre fico quando ele está por perto.
Tento disfarçar, cruzando os braços.
— Deve ser ótimo ter Simon por perto para ajudar com a garota.
Concordo com a cabeça, sentindo meu estômago revirar.
— Sim, é ótimo. Ele é muito presente.
Simon sorri para Madelyn, aproveitando a oportunidade para reforçar a
farsa.
— Eu tento ser. Aelin é como uma filha para mim. Quero garantir que
ela tenha tudo o que precisa.
A mentira é tão convincente que até eu quase acredito por um
momento.
Madelyn estreita os olhos por uma fração de milésimos, mas logo sorri
satisfeita.
Sentindo que preciso encerrar a conversa antes que ela vá longe
demais. Interrompo.
— Bom, então nos vemos segunda, Madelyn — digo num tom de
despedida.
Madelyn assente, mas Simon entra na conversa novamente.
— Se puder me dar o endereço. Será um prazer levá-la de carro.
Madelyn me olha, e depois encara ele novamente, dessa vez, com
semblante sério.
— A Eliza já tem — ao dizer isso, ela dá um breve sorriso, mas logo
assume a expressão séria novamente. — Se precisar de algo, me manda
mensagem, querida — ela profere a mim, com voz baixa, mas carregada de
um algo que não consigo entender.
Madelyn caminha até o carro onde o rapaz a aguarda e me lança um
último olhar, preocupada, antes de entrar e ele dar a partida. Simon acena
para ela, mas ela finge não ver.
Quando o carro parte, ele se vira para mim, o sorriso falso,
desaparecendo instantaneamente.
— Quem era ela?
— Madelyn. Ela é a minha chefe, como eu te falei.
Ele me encara por um momento, seus olhos estreitos como se estivesse
processando a informação.
— Que horas você sai para trabalhar na segunda-feira? — ele pergunta
e eu hesito, mas antes que ele diga mais alguma coisa, dou a ele a resposta.
— Não precisa, Simon. Estão me pagando a passagem.
— Tá escondendo algo que não posso ir lá?
Se Simon descobrir onde eles moram, é o meu fim. Não poderei ir
embora daqui sem que ele saiba onde eu trabalho e ameace essas pessoas que
estão sendo tão generosas comigo.
— Seis da manhã — respondo com os olhos transbordando.
Ele dá dois tapinhas na minha cabeça, como se eu fosse um cachorrinho
bem adestrado.
— Boa garota. Me espere. Eu venho para te levar — ele decreta, saindo
pela porta.
Passo a corrente pelo portão de ferro e me encosto sobre ele, soltando o
ar que nem percebi que estava segurando.
Vou até onde Aelin está despertando, e me sento ao lado dela,
entrelaçando os dedos pelas mechas dos seus cabelos castanhos.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — murmuro, mais uma vez, tentando
convencer a mim mesma.
Mas agora, mais do que nunca, tenho dúvidas de que isso seja verdade.
Passo boa parte do que resta da tarde, sentado no sofá, a cabeça
enterrada nas mãos, com a mente passando e repassando a cena de Eliza me
olhando assustada depois de me empurrar para longe.
Eu poderia tê-la machucado. Poderia ter machucado a filha dela.
É só isso que passa na minha cabeça.
O som de batidas na porta me puxa de volta à realidade. Meu corpo se
tensiona automaticamente. Eu sei quem é antes mesmo de olhar.
Madelyn.
Ela havia insistido que viria, mesmo quando pedi para que não o
fizesse. Eu me levanto lentamente, respirando fundo antes de abrir a porta.
Ela está ali, com aquele olhar familiar de preocupação que só me deixa mais
desconfortável.
— Chris... — Sua voz é baixa, quase cautelosa.
— Maddie, eu disse que não precisava vir.
— Eu precisava.
Por um momento, penso em dizer que não estou em condições de
conversar, mas sei que ela não vai embora sem falar o que veio dizer. Dou
um passo para o lado deixando-a entrar. Thomas está no carro, olhando Noah,
que dorme no bebê-conforto.
Ela caminha para a sala, observando o ambiente como se estivesse
tentando medir meu estado de espírito.
— Sente-se — digo, apontando para o sofá, antes de me sentar na
poltrona ao lado.
O silêncio entre nós é pesado, até que eu, finalmente, tomo coragem
para contar o que aconteceu.
— Eu perdi o controle, Maddie. Achei que ela era... alguém do
passado.
— Mas não era. Era a Eliza. — Madelyn diz suavemente, mas suas
palavras cortam como uma lâmina.
— Eu sei — respondo, minha voz mais áspera do que gostaria.
Ela cruza as pernas, inclinando-se ligeiramente para frente.
— Chris, você sabe que precisa de ajuda.
— Não vamos fazer isso de novo, Maddie. Eu estou lidando com isso
do meu jeito.
Ela suspira, balançando a cabeça.
— E como exatamente você está lidando com isso? Se isolando?
Empurrando as pessoas para longe? Você nunca mais comentou sobre a
psicóloga.
Fico em silêncio.
Madelyn se levanta na mesma hora ao deduzir o que meu silêncio
significa.
— Chris… Não acredito que você…
— Parei de ir — minto mais uma vez, porque o que menos preciso
agora, é arranjar mais problema com ela.
Ela suspira, como se estivesse exausta, então me antecipo.
— Mas eu vou voltar. Prometo.
Ela estreita os olhos para mim e eu fico em silêncio, incapaz de encará-
la nos olhos.
Madelyn vai até a cozinha e abre a geladeira, servindo dois copos de
suco. Um para mim, outro para ela. Com certeza, numa tentativa de provar
para ela mesma que ao menos um copo de suco, me nutriu antes da noite
chegar.
— Tem mais uma coisa — ela hesita, voltando para a sala. — A Eliza
comentou com você algo sobre… — ela faz uma pausa, voltando a se sentar.
— uma figura paterna?
Minha atenção se fixa nela imediatamente.
— Figura paterna?
— Simon. Ele se apresentou como um amigo da família, mas... havia
algo estranho nele.
Minha mandíbula se aperta.
— O que ele disse?
— Não muito. Só o básico. Mas ele chamou Eliza de "Angel". Ele disse
que a garotinha da Eliza era como uma filha para ele. E... bem, Eliza parecia
desconfortável. Não foi algo que ela disse, mas o jeito que ela reagiu. Como
se não quisesse que eu soubesse de algo.
O nome Simon traz uma sensação de alerta que não consigo ignorar.
— E o rosto dela… nossa, eu nunca tinha visto uma moça tão bonita
igual ela — Madelyn comenta e eu evito concordar para não criar qualquer
ideia de que eu tenha observado demais. —, mas o hematoma daquele dia
ainda está bem feio, né? A casa dela é bem humilde — Madelyn continua de
uma vez só, como se ainda estivesse processando tudo o que viu.
Tento fingir que não faço a menor ideia de onde ela mora. É certo que
nunca entrei lá dentro, mas dá para deduzir da vez que fui até lá.
— E a filhinha dela… — ela responde, a preocupação evidente em sua
voz. — Reparou algo de estranho na Eliza por esses dias?
Solto um longo suspiro, sentindo o peso da conversa aumentar.
— Só o curativo e uma explicação, que não me desceu muito bem —
confesso.
Madelyn concorda.
— O corte parecia profundo, e estava claro que ela tentou esconder o
quanto doía.
— Ela disse que caiu — respondo automaticamente, mas as palavras
soam vazias, até para mim.
— Chris... você acredita nisso?
Minha mente volta ao momento em que vi o machucado pela primeira
vez, a maneira como ela desviou o olhar, o tom apressado com que tentou
encerrar a conversa.
— Não — admito, finalmente.
Madelyn me encara, seus olhos cheios de preocupação e algo mais.
— Não sei, mas… aquele homem não me passou segurança. — ela
divaga, massageando o peito, como se houvesse um incômodo ali. — Se ela
está sendo machucada, você sabe que precisa fazer algo, certo?
— Eu não posso — respondo, balançando a cabeça. — Não posso
resolver os problemas dela. Nem me meter na vida dela. Nós mal nos
conhecemos.
— Mas você pode apoiá-la. Pode mostrar que ela não está sozinha.
Fico em silêncio, sem querer concordar.
Madelyn sempre foi melhor em lidar com pessoas do que eu. Ela vê
coisas que ignoro, entende situações que prefiro evitar.
— Ainda estou tentando entender o que tentei fazer com ela dentro da
minha própria casa. Não posso defendê-la se eu…
— Não fale nem de brincadeira uma coisa dessas. Você jamais
machucaria alguém em outras circunstâncias. Christopher, pelo amor de
Deus, você evoluiu bastante desde que ela veio trabalhar aqui e agora vendo
ela…
— Não fala merda, Madelyn. A Eliza e eu… a gente mal conversa, se
olha ou temos qualquer interação — repreendo ela de qualquer comentário
malicioso.
— Bom, então acho que você deveria começar a observar mais,
conversar mais, se inteirar mais. Se algo realmente estiver errado com ela,
precisamos ajudar. Só pense nisso, está bem?
Assinto, embora sem certeza se estou pronto para fazer o que ela está
pedindo.
Quando ela finalmente se levanta para ir embora, a casa parece ainda
mais vazia do que antes. As palavras dela continuam comigo, como um peso
que não consigo afastar.
Depois que fecho a porta, vou até o escritório. O notebook está sobre a
mesa, e por um momento penso em terminar aquele e-mail para o coronel,
mas meus olhos pesam e eu sinto um relaxamento que não sentia há algum
tempo.
Esfrego os olhos, tentando fixar os olhos na tela, mas as palavras viram
borrões.
Pego o celular e abro o chat de mensagem me encaminhando para meu
quarto. No mesmo instante, uma mensagem da minha querida irmã, apita na
barra de notificações.
Madelyn: “Tenta descansar hoje sem pensar em nada. Coloquei um negocinho no seu suco
pra você dormir bem. Amanhã me agradeça.”
Me jogo na cama sem nem conseguir raciocinar o que vou responder a
ela. E é com o corpo relaxado e pálpebras pesadas demais para eu manter os
olhos abertos, que sou envolvido pela escuridão.
Por mais errada que seja a atitude dela, agradeço por Madelyn ter
passado a perna em mim. Só isso consegue apagar a minha mente por
completo.
No dia seguinte, desperto num súbito, como se tivesse ressuscitado dos
mortos. A sensação de alívio é tão estranha quanto o peso que parece ter
sumido momentaneamente do meu peito.
O celular está no chão ao lado da cama, caído durante a madrugada.
Estico o braço para pegá-lo e, quando a tela se acende, me assusto. Já são
uma da tarde.
Suspiro, sentando-me na beirada da cama. Fazia muito tempo que eu
não dormia tanto. E mais tempo ainda desde que tive um sono tão
restaurador. A sensação é quase desconfortável, como se meu corpo não
soubesse o que fazer com essa trégua inesperada.
Enquanto encaro o vazio, duas batidas leves na porta, quase inaudíveis,
chamam minha atenção. Ainda meio grogue, levanto-me e assumo que só
pode ser Madelyn.
— Pode entrar — digo, a voz ainda rouca de sono.
A porta se abre devagar, hesitante, revelando uma figura que não
esperava.
Eliza.
Ela está parada na brecha, uma expressão contida no rosto, como se
estivesse incerta sobre a recepção.
— Bom dia... — ela começa, com a voz baixa.
Minha mente luta para processar o que está acontecendo. Não deveria
ser Madelyn aqui? Não consigo reagir de imediato, então apenas fico olhando
para ela.
— Vim ver se… estava tudo bem. Não sei se sua irmã te falou, mas eu
vim cobrir os dias que estive de atestado. Ontem e hoje — Eliza explica,
como se precisasse justificar sua presença.
Levo a mão à nuca, coçando-a enquanto tento despertar de verdade.
— Ah, é... eu dormi demais. Tudo bem. Ela disse — minto, mesmo
sem ter certeza se Madelyn realmente mencionou isso ontem.
Eliza olha para os pés por um momento antes de erguer os olhos
novamente.
— Hoje é meu último dia aqui, então... se precisar que eu faça mais
alguma coisa... — ela sugere, com hesitação. — Já finalizei tudo.
— Aceitou trabalhar na casa da Madelyn? — pergunto, direto,
observando sua reação.
Ela encolhe os ombros, evitando meu olhar.
— Na verdade, eu... achei melhor pedir demissão.
Minha testa franze involuntariamente.
— Eliza…
— Não precisava pedir para ela me contratar, Christopher. — Sua voz é
firme, mas há uma ponta de frustração nela. — Se não vai conseguir ter
alguém aqui, tudo bem. Precisarei lidar com essa decisão.
Suspiro, deixando meu corpo cair para a beira da cama novamente. A
frustração é evidente em cada gesto meu, mas eu não tento esconder.
— Preciso me desculpar por ontem. Aquilo foi uma merda. —
Confesso, encarando as mãos apoiadas nos joelhos.
Ela fica em silêncio, me observando. Sinto seu olhar em mim, mas não
consigo levantar a cabeça.
— Sua filha viu tudo? — Pergunto, a voz saindo mais baixa do que
esperava.
— Não. Ela estava longe — sua resposta vem rápida, quase ansiosa
para me tranquilizar.
Eu assinto, aliviado, mas ainda sinto o peso da culpa.
— Quero que entenda que o problema não é você. Você é ótima, Eliza.
Mas eu não posso tolerar isso da minha parte. Não estou apto para ter a
companhia de alguém. Se eu tivesse te machucado…
— Mas não machucou. Foi só um susto — ela interrompe, a voz calma,
mas firme.
— Mesmo assim, vai ser melhor para você trabalhar com a minha irmã.
Ela balança a cabeça, parecendo desconfortável com a ideia.
— Não posso aceitar. Ela nem deve estar precisando. Já deve ter
alguém que a ajude.
— Meu cunhado está em casa esses dias e, em breve, ele precisará
voltar a tocar a empresa. Minha irmã vai precisar de alguém de confiança.
Percebo que um leve rubor subir por seu rosto ao ouvir isso. Pigarreio,
tentando quebrar o silêncio.
— Não me leve a mal.
Ela assente, olhando para mim como se estivesse avaliando cada
palavra, cada gesto.
O silêncio entre nós parece carregar um peso maior do que deveria,
como se ambos estivéssemos dançando ao redor de algo que nenhum de nós
quer nomear. Finalmente, ela dá um passo para trás, segurando a porta.
— Acho que já fiz tudo o que podia aqui. Preciso ir.
— Eliza... — chamo antes que ela possa sair.
Ela para, esperando, mas não se vira completamente.
— Obrigado. Por tudo.
Ela apenas assente, e então desaparece pelo corredor, mas antes que ela
vá. Vou atrás dela.
— Sua filha veio com você hoje também? Se quiser eu levo vocês em
casa.
Eliza se vira, sem estar esperando pela pergunta.
— Não. Ela está… uma amiga minha cuida dela. E ela não cobra nada,
antes que você duvide disso — ela volta a se armar.
— Achei que ela ficava com um amigo da família, Simon — revelo o
que Madelyn me contou e percebo a expressão no rosto dela se transformar.
Medo.
Tensão.
É tudo o que vejo.
Sei que ela vai dizer que isso não é da minha conta, mas o curativo e o
hematoma em seu rosto, me lembra a todo instante que preciso que ela me
conte a verdade.
— Ele é o pai da Aelin? Certo? — tento saber com cautela.
Eliza espera alguns segundos para responder.
— Não. Ele… quem te falou sobre… — ela tira as próprias conclusões.
— Foi a Madelyn que te contou?
— É. Ela me contou que você tinha alguém — mudo completamente o
que sei, mas uso isso para saber o que me interessa.
— Christopher — Eliza solta um riso. — Ele não é… Simon é só um
amigo da família.
— Madelyn comentou que você não parecia amiga dele — cruzo os
braços e ela arqueia a sobrancelha, claramente desconfortável com o assunto.
— E o que você tem a ver com isso?
— Você caiu mesmo em casa? — toco novamente neste assunto, ela
gagueja antes de dizer com firmeza.
— Por Deus, tira isso da sua cabeça — ao dizer isso, Eliza caminha
rumo às escadas.
Eu a sigo pelos degraus.
Ao chegar na sala de estar. Ela pega a bolsa e se encaminha até a porta,
mas eu a barro.
— Por favor, aceite o trabalho na casa da minha irmã. — insisto. —
Pelo menos lá, saberei que você está bem.
Eliza encolhe os ombros, visivelmente chateada e exausta. Parece ter
algo a mais ali, ela só não quer me falar.
— Eu sei que você precisa. Não seja orgulhosa.
Ela não responde, mas os olhos marejando, parecem querer gritar algo,
eu só não consigo identificar o que.
Ergo o queixo dela para me olhar e o contato pega ela de surpresa. A
mim também, porque realizo a ação sem pensar, numa tentativa de insistir
que ela confie em mim para dizer seja lá o que ela quer contar.
— Por que você se importa tanto? — ela pergunta. — Nem me conhece
direito. Nos vimos pela primeira vez num prostíbulo.
— E isso importa? — acaricio de leve seu rosto tão delicado e
aproximo meu polegar em seu hematoma.
Ela fecha os olhos por conta do incômodo.
— Poderia ter te conhecido até no inferno, Eliza. Mesmo assim, teria
certeza que seu lugar não é ali — continuo e ela se permite, nem que seja
apenas hoje, baixar a guarda.
— Você tem seus problemas e eu os meus. Você não deveria perder seu
tempo. Eu e Aelin estamos bem — ela diz baixo, evitando contato visual
comigo. — Talvez, você só esteja procurando algo onde não tem. Sua mente
está desejando algo para se manter afastada dos seus traumas.
A fala dela faz algo dentro de mim se quebrar.
— Não é isso.
— Sim, é. — ao dizer isso, ela segura a minha mão e afasta de seu
rosto. — A oportunidade que você me deu, foi ótima para mim, mas tem
coisas na minha vida agora, que me impedem de trabalhar aqui — ela diz,
dando um passo para trás, abrindo entre nós dois a distância que já estamos
acostumados a ficar e isso não parece mais o certo a se fazer.
— Se estiver acontecendo algo, por favor, me fala. Eu posso resolver.
Você sabe que sim.
— Desculpa. Eu não posso — ela responde com voz falha e se afasta,
dando as costas.
— Então fica. — As palavras escapam da minha boca antes que eu
tenha tempo de processá-las.
Eliza para com a mão ainda na porta. Ela não se vira de imediato, mas
seu corpo se tensiona, como se a proposta tivesse sido uma surpresa. Respiro
fundo, tentando juntar a coragem para continuar.
— Vamos colocar uma pedra no que aconteceu — digo, minha voz
soando mais firme do que esperava. — Eu vou... dar um jeito. Nós vamos
ficar bem.
Ela se vira lentamente, seus olhos presos nos meus, como se tentasse
desvendar a intenção por trás das palavras. Sinto meu rosto esquentar e coço
a nuca, desconfortável com o peso do momento.
— Não precisa pedir demissão — acrescento, a voz agora mais baixa.
— Eu volto atrás na minha palavra.
Por um instante, vejo algo mudar no rosto dela. Um pequeno fio de
esperança brilha em seus olhos, mas desaparece quase tão rápido quanto
surgiu.
— Mantemos tudo do jeito que está — continuo, quase implorando.
Ela solta um suspiro pesado, desviando o olhar.
— Não, Christopher. É melhor não.
Sua resposta me atinge como um soco.
— Eliza... — tento argumentar, mas ela já está balançando a cabeça.
— Você está tentando fazer o certo, eu sei — sua voz é suave, mas
firme. — Mas preciso manter minha decisão.
Antes que eu possa responder, ela se vira novamente e abre a porta.
Quando ela fecha a porta atrás de si, o silêncio retorna. Não o silêncio
reconfortante que eu costumava buscar na casa vazia, mas um silêncio
pesado, cheio das escolhas que fiz e das que não tive coragem de fazer.
Sento-me no sofá, passando as mãos pelo rosto. As palavras que não
disse ficam presas na garganta, formando um nó que parece impossível de
desatar.
Ela precisa me falar o que está acontecendo. Em um dia, está
determinada a manter o trabalho e no outro, simplesmente desistiu, mesmo
lidando bem com o que aconteceu ontem, mesmo nós dois baixando as
armas, mesmo eu implorando pra ela ficar. Não sei como ajudá-la, e isso me
destrói mais do que qualquer outra coisa.
Não parece certo mais viver em um mundo onde nunca mais verei ela.
Só preciso encontrar a resposta do porquê quero tanto isso, e se realmente for
o que estou pensando, sei que no momento em que confessar em voz alta,
estarei condenado a viver em um mundo onde ela nunca poderá ser minha.
A madrugada parece arrastar-se, mas quando o despertador toca às
cinco, sei que é hora de levantar e, na verdade, nem havia pegado no sono.
Mesmo exausta, meu corpo obedece, movendo-se automaticamente enquanto
me levanto com cuidado para não acordar Aelin. A pequena ainda dorme
profundamente, os cabelos ondulados, espalhados pelo travesseiro e sua
expressão tranquila contrasta com a tempestade em minha mente.
Meus dedos deslizam pela tela do celular, hesitantes, até encontrar o
número de Madelyn. É agora ou nunca.
Ela atende no segundo toque.
— Eliza? Está tudo bem? — sua voz é tão preocupada, ainda baixa de
sono.
— Está, sim. Eu só... queria avisar que tomei uma decisão — respiro
fundo, tentando manter a voz firme.
— E o que decidiu? — ela pergunta, a atenção na voz dela me encoraja,
mas também aumenta o peso no meu peito.
— Vou me desligar do trabalho. É melhor assim.
Há uma pausa do outro lado, e eu quase acho que ela desligou.
— Eliza, você tem certeza?
— Tenho — digo, mesmo que a palavra pese como chumbo. — Não
posso mais trabalhar para vocês. Agradeço pela oportunidade, mas... é a
melhor decisão.
Madelyn respira fundo.
— Eu respeito isso, mas quero que saiba que você sempre terá um
espaço aqui.
— Obrigada, Madelyn.
Desligo antes que minha voz vacile, antes que ela perceba o quanto
essa decisão me machuca. Mas o que eu poderia fazer? Como impediria
Simon?
Encosto o celular contra o peito, sentindo as lágrimas ameaçarem cair,
mas as engulo. Não tenho o luxo de desabar agora que a decisão já foi
tomada.
Perto das seis, ouço as batidas na porta. Não preciso nem olhar para
saber quem é. Abro devagar, e lá está Simon, como sempre. O olhar
avaliando os meus ombros rígidos, como se estivesse carregando o peso de
um mundo que ele mesmo escolheu criar.
— Pronta? — ele pergunta sem rodeios, já esperando que eu o siga.
Seguro a porta com mais força do que o necessário, tentando não
transparecer o nervosismo.
— Não vou mais trabalhar lá.
A confusão no rosto dele é clara, mas rapidamente dá lugar à suspeita.
— O quê? Por quê?
— Fui demitida — respondo, mantendo o tom firme. — Por conta do
atestado.
Ele inclina a cabeça, os olhos estreitos enquanto eu observo.
— É mesmo?
— Sim — sustento o olhar dele, torcendo para que a mentira funcione.
Por alguns segundos, Simon parece ponderar, como se estivesse
decidindo se deveria acreditar ou não. Então, com um dar de ombros, ele
finalmente recua.
— Bem, você tem sorte de ter a mim. Veremos o que faremos agora
com a sua dívida.
— Eu vou dar um jeito — respondo, tentando parecer indiferente,
embora minha mente esteja em alerta.
Ele me encara por mais um momento antes de sair, murmurando algo
inaudível. Fecho a porta com força assim que ele desaparece de vista,
soltando um suspiro trêmulo.
O dia se arrasta. Tento preencher o vazio com tarefas pequenas, mas
tudo parece inútil. Aelin, como sempre, é minha única fonte de luz. Enquanto
ela brinca no chão com seus livros e lápis de cor, eu lavo os pratos pela
segunda vez, apenas para manter as mãos ocupadas.
— Mamãe, olha o que eu desenhei! — a pequena corre até mim,
segurando um papel com rabiscos coloridos que formam um coração torto.
— Que lindo, meu amor. É para mim? — pergunto, forçando um
sorriso que espero parecer convincente.
— Sim! Porque você é a melhor mamãe do mundo!
Abraço ela com força, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.
— Você é tudo pra mim, sabia? — digo, beijando o topo de sua cabeça,
tentando disfarçar a voz embargada.
Ela assente, sorri, e volta para seus desenhos enquanto continuo lutando
para manter o controle.
A noite cai rápido, trazendo consigo um tempo fechado que parece se
infiltrar pelos cantos da casa. Estou na cozinha preparando algo simples para
o jantar quando ouço a batida na porta novamente, um som firme, assim
como os pingos grossos da chuva que caem do lado de fora. Meu corpo
congela por um momento antes de eu largar uma colher e ir atendê-la.
Simon está lá, como imaginei.
— Esqueci minha carteira aqui de manhã — ele entra sem esperar por
convite, os olhos vasculhando a sala como se estivesse avaliando minha vida.
— Não vi nenhuma carteira — respondo, tentando manter o tom
neutro. — E você nem entrou aqui de manhã.
— Está aqui em algum lugar — ele responde, começando a revirar as
coisas sem que eu consiga barrá-lo.
A tensão na casa é palpável, e Aelin, percebendo isso, se encolhe na
cama, cobrindo a cabeça. Ele começa a revirar o pequeno cômodo, tirando as
coisas do lugar, propositalmente. Abre nosso guarda-roupa e começa a revirar
tudo jogando no chão.
— Simon! — repreendo, tentando pará-lo, mas vejo que está bêbado,
então me aproximo da cama em que Aelin está. — Simon, por favor, vá
embora. Não tem nada seu aqui — tento explicar e ele se vira para mim,
desistindo de procurar seja lá o que perdeu.
Ele me lança um olhar de desdém e dá de ombros.
— Acho que vou ficar um tempo aqui — ao dizer isso, ele se senta na
cadeira e me olha amparar Aelin. — Quem é o pai da pirralha? — ele
pergunta e eu o fuzilo com um olhar de repreensão.
Me forço a manter a calma e invento uma mentira fácil. A que contei
para Aelin.
— Ele morreu — digo e ele balança a cabeça, se negando a acreditar.
— Morreu de quê? Acidente? Mal súbito?
— Simon, acho melhor você ir embora — digo entredentes. — Já
chega disso.
Ele solta um riso.
— Queria saber o nome do cara que te fodeu. Você o amava?
— Simon — repreendo novamente.
Ele levanta os braços como sinal de rendição.
— Só quero entender porque você não quer alguém. Porque é nítido
que você precisa de um homem na sua vida. Mal da conta de tudo sozinha e
agora… está desempregada novamente.
Me levanto irritada, marchando até a porta e a abro.
— Sai agora, ou vou chamar a polícia. Cansei de você, cacete — digo
firme, mas sem conseguir evitar que as lágrimas escorram pelos meus olhos.
— Minha filha não vai ouvir mais nenhuma merda que sai da sua boca,
Simon. Anda. — aponto para fora, mas ele gargalha arqueando a sobrancelha.
— Quem decide se vai embora ou não, sou eu, Angel.
Numa tentativa de ameaçá-lo, alcanço uma faca de cozinha ali perto do
escorredor da pia e aponto para ele.
— Sai agora. — Ordeno e ele se levanta. — Você não tem o direito de
fazer o que quiser dentro da minha casa.
Ele se levanta e caminha até mim, sustentando meu olhar, enquanto me
mantenho firme, com a faca apontada na direção dele.
Simon falta me atropelar como um trator, segurando minha mão com a
faca, e me prensa sobre a porta de ferro, nos trancando dentro do cômodo.
— “Sua” casa, Angel? — ele diz junto ao meu rosto. — Aqui é minha
casa. Está ouvindo? Minha — ao dizer isso, com a outra mão, ele segura meu
pescoço e me faz encará-lo. — Portanto, posso entrar e sair quando quiser.
Ouço Aelin dizer de onde está, encolhida em sua coberta favorita “tio
Simon, solta a minha mamãe”, mas ele a ignora.
— Acho que você ainda não entendeu que esse lugar é meu e tudo o
que tem dentro dele também, Angel. Você é minha, sua filha, é minha, suas
roupas, são minhas, — ao dizer isso, ele tira a faca da minha mão e rasga meu
vestido de cima a baixo. — Seu corpo é meu…
— Simon, por favor — tento contê-lo, me soltar de suas mãos, mas ele
continua falando, porém, o som de alguém batendo na porta de ferro em que
estou encostada, corta a tensão como uma lâmina.
Meu coração acelera, e por um momento, a esperança e o medo se
misturam. Sinto batidas firmes na porta, que vibram sobre as minhas costas e
Simon estreita os olhos para mim quando nós dois ouvimos uma voz grave do
outro lado dizer:
— Eliza? Eliza! — a voz masculina chama pelo meu nome e pela força
que usa ao bater, tenho certeza que se essa porta não for aberta agora,
Christopher irá arrombá-la.
|HORAS ANTES|
A manhã começa como qualquer outra, mas minha mente está mais
inquieta do que o habitual. Estou terminando o café, olhando para o jardim
pela janela, quando o telefone toca.
Eu deveria estar satisfeito por finalmente ter um pouco de paz, mas a
conversa com Eliza ontem continua girando em minha cabeça. O jeito que ela
me olhou… Algo nela me preocupa mais do que estou disposto a admitir.
O som insistente do telefone corta meus pensamentos. Coloco a xícara
na pia e pego o aparelho no balcão. O nome de Madelyn aparece na tela, e eu
solto um suspiro longo, já imaginando o que ela quer.
— Maddie? — atendo, tentando parecer neutro.
— Bom dia, Cris! — a voz dela está tão gentil como sempre, mas há
algo no tom que me deixa em alerta.
— Bom dia. O que houve?
Ela faz uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Queria te avisar... A Eliza me ligou hoje cedo.
Meu corpo fica tenso, e a inquietação que vinha tentando ignorar se
transforma em um aperto no peito.
— Sobre o quê?
— Ela disse que vai se desligar do trabalho.
Por um momento, fico em silêncio, absorvendo o que ela acabou de
dizer. Não é uma surpresa total, considerando a conversa que tivemos ontem,
mas ouvir isso em voz alta tem um impacto diferente.
— Eu já sabia — respondo, tentando não parecer tão afetado quanto me
sinto.
— Sabia? — Madelyn fica surpresa, mas não continua.
— Ela me contou ontem. Disse que achou melhor assim.
Madelyn solta um suspiro do outro lado da linha, e posso quase
imaginar a expressão dela chateada.
— Eu entendo a decisão dela, mas… Sabe, Chris, estou preocupada.
Ela parecia precisar do trabalho.
Fico em silêncio por alguns segundos, tentando processar o que ela está
dizendo.
— Você comentou sobre o tal Simon no sábado — digo, finalmente. —
Tem algo nele que me incomoda também.
Meu subconsciente grita que o incômodo que sinto também vem de um
ciúme infundado, mas imaginar que Eliza não estava confortável na presença
dele, me deixa louco sem nem nunca ter visto a cara do imbecil.
— É isso — ela concorda rapidamente. — Algo nele não me pareceu
certo no sábado. E o jeito que ele chamou ela de "Angel"... É estranho,
Christopher. Estranho de um jeito possessivo e até… nojento.
— Domingo perguntei se ele exercia alguma figura paterna, se ele era o
pai da filha dela. Ela disse que não — minha voz sai mais dura do que
pretendi.
Madelyn respira fundo.
— Eu só… e se a gente fosse na casa dela, tipo… para conversar?
— Eu já tentei de todas as formas extrair algo sobre isso, sobre a queda,
mas ela tem medo de algo. Não acho válido irmos pressionar mais. A Eliza
tem problemas de confiança.
— Então o que você sugere?
Fico em silêncio.
— Cuida do Noah. Vou resolver isso sozinho.
— Christopher… — Madelyn diz, preocupada.
— Preciso pensar em algo primeiro, mas sem precisar pressionar ela —
justifico.
— Certo. Me mantém informada.
— Tá bom — digo, mas antes que ela se despeça, completo: — Você
tem mais daquele negocinho que colocou no meu suco? Vou precisar de
mais.
— Minha psiquiatra receitou quando passei com ela após ganhar o
Noah. Acho que se você passasse com ela também e explicasse a situação,
ela te receite também.
— Certo. Me manda o contato dela.
Não espero nenhum tipo de comemoração da parte dela, ou indício de
que falei exatamente o que ela queria ouvir. Encerro a ligação e espero depois
de menos de um minuto, Madelyn encaminhar o contato nomeado como Dra.
Renovato.
Fico parado na cozinha, com a cabeça cheia de pensamentos. Com o
café esfriando na xícara abandonada na pia, o desconforto cresce. Madelyn
está certa em uma coisa: algo não está certo e eu preciso entender o que é.
Madelyn sempre teve um bom instinto para as pessoas, e se ela está
preocupada, talvez eu deva estar ainda mais atento.
O resto do dia segue em um ritmo que, em outros momentos, talvez me
trouxesse tranquilidade. Normalmente, a rotina das tarefas administrativas do
quartel seria suficiente para ocupar minha mente, mas hoje, nem isso parece
funcionar.
Depois de revisar os e-mails, encontrei uma nova mensagem do
coronel. Ele agradece pela colaboração recente e anexa um arquivo com
tarefas específicas: análise de relatórios de missões passadas e a consolidação
de dados sobre suprimentos logísticos. É o tipo de trabalho que exige atenção
aos detalhes, algo que geralmente me ajuda a excitar a mente.
Abro o arquivo e começo pelo primeiro item: revisar os relatórios
operacionais de uma missão de escolta em uma zona de conflito. As palavras
estão cheias de jargões que conheço bem — termos como “posição segura”,
“resposta ao contato inimigo” e “avaliação pós-missão”. Enquanto leio, tento
manter o foco nas informações, mas minha mente continua vagando.
Os relatórios não apresentam nada incomum: uma missão bem-
sucedida, sem baixas significativas. Faço as anotações possíveis, destacando
pontos de melhoria para futuras operações.
O próximo item envolve uma revisão de planilhas de inventário.
Combustível, munições, ração. É algo pequeno, mas merece atenção. Marco
o problema com um comentário e envio um e-mail ao responsável pela
logística.
Normalmente, a rotina administrativa me traz um tipo estranho de
conforto. É um lembrete de que ainda posso contribuir, mesmo estando longe
do campo. Mas hoje, cada tarefa parece apenas uma distração frágil para a
conversa que tive com Madelyn mais cedo.
É nisso que se resume meu dia e enquanto preencho os campos da
planilha, minha mente continua a voltar para Eliza. As palavras de Madelyn
ecoam como um lembrete desconfortável: “E o jeito que ele chamou ela de
"Angel"... É estranho, Christopher. Estranho, de um jeito possessivo e até…
nojento.”
Tento desviar a atenção, revisando os detalhes do treinamento, mas o
rosto de Eliza continua aparecendo em minha mente.
Perto do meio-dia, na hora do meu almoço, desço para preparar algo, e
mais uma vez, é na dona dos olhos azuis que penso. Enquanto faço minha
refeição, me pergunto se ela e a filha estão comendo, se o valor dos dias que
ela trabalhou foi o suficiente para ajudá-la financeiramente, e a resposta é
óbvio que não.
Minha distração me faz deixar cair o copo de suco, o líquido se espalha
rapidamente pela mesa e escorre até o chão.
— Droga — resmungo, afastando o prato e pegando o copo vazio antes
que role para fora da mesa.
Levanto-me apressado, pegando alguns guardanapos para tentar conter
o estrago, mas percebo que não será suficiente.
— Que ótimo — murmuro, caminhando até o quartinho de faxina em
busca de um pano de chão.
Abro a porta rapidamente, o cheiro sutil de produtos de limpeza
misturado com a sensação de vazio me cumprimentam. Desde que Eliza
anunciou sua saída, não entrei aqui, e há algo estranho em ver tudo tão
organizado, mas sem o toque dela.
Abaixo para pegar um pano na pilha perfeitamente dobrada por Eliza e
arqueio a sobrancelha ao deparar-me com uma boneca ali.
Uma boneca meio escondida, encostada em um balde, como se tivesse
sido esquecida em meio à correria. Pego-a nas mãos.
Aelin.
A memória da garotinha brincando com essa mesma boneca enquanto
Eliza trabalhava, surge na minha mente. Por um momento, fico parado,
segurando a boneca e tentando processar o que fazer com ela. Eu deveria
fazer alguma coisa?
Suspiro, porque ter algo delas comigo, só aumenta o peso da situação.
Levo a boneca para a cozinha, e ponho sobre a ilha, onde ela fica como uma
lembrança silenciosa de que algo está fora do lugar.
“Bom, então acho que você deveria começar a observar mais,
conversar mais, se inteirar mais. Se algo realmente estiver errado com ela,
precisamos ajudar. Só pense nisso, está bem?”
As palavras de Madelyn ecoam como um alerta constante enquanto
tento me manter focado no trabalho.
O relógio na parede marca seis da tarde, e minha mente está exausta
enquanto tento me convencer de que isso não é da minha conta, que Eliza
sabe lidar com a própria vida. Mas a verdade é que não consigo ignorar a
sensação de que talvez essa boneca seja o que eu preciso para vê-la
novamente.
E pelas próximas horas, não são táticas de treinamento de pelotões que
começo a traçar e sim, uma estratégia de como abordá-la em sua casa. Eu só
tenho uma chance. A última.
Quando a noite começa a cair, envio a última tarefa e fecho a tela do
notebook. Me encaminho para o banho. De repente o relógio começa a correr
rápido e eu me vejo em uma corrida, porque chego à conclusão que, quanto
mais tarde bater na porta dela, mais estranho vai ser.
Quando termino de vestir uma roupa, estou devidamente pronto e por
algum motivo, sentindo-me ansioso. Coloco a boneca em uma sacola, pego
minha jaqueta e saio pela porta.
A viagem até a casa dela é curta, não pela distância, ou tempo que
demoro a chegar lá. É curta, porque quando estaciono na frente da casa dela,
percebo que não tracei uma estratégia efetiva. O plano que tenho, é apenas
entregar a boneca e puxar um assunto que eu ainda não sei qual é.
Paro atrás de um carro que está estacionando à minha frente. As luzes
estão acesas, mas há algo estranho na atmosfera. Um som abafado vem de
dentro — difícil de distinguir à distância por causa da chuva forte que cai lá
fora —, mas o suficiente para me deixar em alerta.
Saio do carro devagar, segurando a sacola com a boneca. Dou alguns
passos em direção à porta, mas paro quando ouço vozes.
São duas. Uma é dela, isso é claro. A outra, grave e agressiva, só pode
ser o tal Simon.
O tom da discussão se intensifica, e os barulhos dentro da casa ficam
mais altos. Meu coração acelera, e a sensação de que algo está errado me
atinge em cheio, enquanto, pouco a pouco, os pingos da chuva umedecem
minhas roupas.
Fico parado por um momento, tentando decidir o que fazer. Então,
antes que eu possa pensar, minha mão já está levantada, batendo na porta.
— Quem é? — Simon pergunta, cobrindo a minha boca, tentando ver
pela pequena janela, mantendo-me imobilizada na porta.
Ao não obter uma resposta da minha parte, Christopher continua a
bater.
— Se não abrir a porta, vou ser obrigado a derrubá-la. Quero falar com
a Eliza — Christopher anuncia, claramente irritado.
Simon, em resposta, me encara e com os lábios cobertos pelas mãos
dele, apenas balanço a cabeça em negação querendo dizer que não sei quem
é.
— Tio, ajuda a minha mamãe — Aelin diz num choramingo, ao ver que
tem outra pessoa do lado de fora e as batidas começam a ficar mais fortes.
Enquanto Simon se move para verificar, eu fico parada, tentando
processar o que está acontecendo. Ele não tem outra alternativa que não seja
me soltar para abrir a porta, e no momento em que ele me solta, corro até
Aelin para protegê-la.
— Quem é você, merda? — Simon pergunta, abrindo a porta e a
primeira coisa que Christopher faz, é rolar os olhos pelo cômodo, me
procurando.
Ele vê meu estado e a reação que tem, é travar a mandíbula e encarar a
faca na mão de Simon, o instrumento responsável por rasgar meu vestido.
— Que porra tá acontecendo aqui? — é a primeira coisa que ele fala,
estufando o peito, sem medo algum do homem à sua frente.
Por um minuto, prendo a respiração. Parece que Simon ainda está
processando quem é Christopher, já que nunca o viu.
— Cai fora você daqui. Esse lugar é meu — Simon diz, dando um
passo à frente, num gesto territorialista. — Elas são minhas — Simon se
coloca na frente de mim e Aelin, como se quisesse dizer que não vai deixar
ele interferir.
— Porra nenhuma é sua aqui — Christopher o enfrenta.
Simon, leva as mãos até o cós da calça e retira de lá uma arma, que até
então era desconhecida por mim.
— O que disse? — ele desafia Christopher, apontando a arma
diretamente para ele.
Christopher me lança um breve olhar, como se quisesse dizer que as
coisas vão ficar feias aqui. Agarro Aelin pelo braço e a puxo bruscamente
para dentro do banheiro ao nosso lado. Fecho a porta e cubro os lábios dela,
impedindo-a de chorar mais alto.
O diálogo entre os dois continua do lado de fora.
— Tudo bem, querida, tudo bem — digo entre sussurros, ninando ela
em meu colo, numa tentativa falha de acalmá-la.
— Vou contar até três para você dar o fora daqui, cara — Simon
ameaça. — 1…
— Vai fazer o quê? Atirar? Vai em frente, de onde eu vim, uma arma
desse tamanho não costuma me por med…
O primeiro disparo é feito.
Não consigo conter um grito agudo de desespero, sem saber o que está
acontecendo lá fora ou se Christopher foi atingido.
Deus! Se algo acontecer com ele, eu jamais me perdoaria.
O que ele veio fazer aqui?
Algo bate na porta, como se uma luta corporal estivesse acontecendo.
Coloco Aelin para trás de mim enquanto ela grita aterrorizada.
Não estou com meu celular, para sequer chamar a polícia, então a única
coisa que posso fazer, é esperar algo acontecer, mas torço com todas as
forças, que nada aconteça com Christopher.
Ouço uma sequência de mais quatro tiros e tudo fica em silêncio.
Cubro a boca de Aelin e com o pé, bloqueio a porta de ser aberta.
— A próxima é na sua cabeça — ouço a voz de Christopher do outro
lado da porta e fecho os olhos aliviada, derramando algumas lágrimas
facilmente.
— Eu só quero que ela me pague o que deve — Simon diz, como se
tivesse levantado bandeira branca.
— Quanto você quer? — Christopher pergunta autoritário. — Anda!
Quanto você quer para desaparecer da vida dela? — ele apressa.
— São três meses de aluguel — Simon responde. — Vai fazer quatro
já.
Abro a porta devagar fazendo sinal para Aelin ficar agachada ao lado
da privada e vejo a cena de Simon, no chão, enquanto Christopher aponta a
própria arma de Simon na testa dele. Tem quatro buracos no chão do lado
dele, mostrando que se Christopher quisesse, haveria um cadáver dentro da
minha casa agora.
Cubro os lábios, mas minha mão não é o suficiente para conter o soluço
que escapa da minha boca.
A cadeira que Aelin usa de apoio para treinar ballet está em pedaços,
duas portas das quatro do nosso guarda-roupa de solteiro estão caídas ao lado,
e a pequena bancada do armário de cozinha está partida ao meio, como se um
deles tivesse sido arremessado ali em cima. O que mais me choca é a forma
atônita e fria com que Christopher encara Simon com o dedo no gatilho. Ele
não treme, não pisca ou sequer demonstra alguma hesitação, ou sinal de
misericórdia.
— Chris… — começo a dizer, mas o olhar que ele me lança, me faz dar
um passo para trás e eu me interrompo antes de dizer seu nome com todas as
letras.
— Pega a garota e me espera no carro — ele ordena, mas ainda estou
paralisada. — Anda, Eliza.
Quando ele diz isso, assinto, secando o rosto e volto para pegar Aelin
no colo.
Passo pelos dois, cobrindo os olhos dela e Christopher usa a outra mão
para tirar as chaves do carro do bolso da calça. Ele me entrega e eu saio dali
rapidamente.
Está chovendo e eu demoro um pouco até conseguir destravar as portas
e entrar no banco de trás com Aelin. O tempo inteiro repito o mais doce e
calma possível “calma meu amor, está tudo bem, está tudo bem.”, mas ela
não se convence. Minha filha treme freneticamente, agarrada a mim, que
tento permanecer firme diante do medo dela. Eu a abraço, cobrindo os
ouvidos dela para que ela não ouça mais nenhum tiro caso aconteça a
qualquer momento e olho ao redor.
A rua está escura, iluminada por apenas dois postes de iluminação que
ainda tem lâmpada e não tem ninguém na rua, sequer espiando pelas janelas,
mas tenho certeza que os vizinhos sabem que os tiros vieram de onde eu
moro.
Deus, o que vai acontecer amanhã?
Vejo uma movimentação vindo de dentro da casa. É Christopher saindo
de lá. Ele caminha até o carro, abre a porta do motorista e entra, acionando a
luz automática da abertura de portas. Observo tudo em silêncio, respirando o
mínimo possível.
Christopher está com o revólver de Simon e o guarda no porta-luvas,
em seguida, coloca o cinto de segurança e pega a chave que deixei no porta-
copos. A luz automática se apaga e nós voltamos a ficar no escuro.
Christopher ainda sequer fez menção de girar a chave na ignição para
dar a partida. Ele se recosta no banco e afunda a cabeça no apoio, respirando
tão fundo e expirando tão rápido, que penso que está com falta de ar. Seus
ombros estão colados no banco enquanto ele tenta controlar a respiração, nem
parece ele, aliás, parece tudo aquilo o que ele luta para não ser dia após dia.
Como uma besta enjaulada, apenas tomando impulso para sair da cela que foi
aberta.
Não sei o que fazer.
Não sei se ele quer que eu faça algo.
Não sei se eu deveria fazer algo.
Então fico ali ninando Aelin dizendo bem baixinho “shhh”, “shhh”,
“tudo bem”, “tudo bem”, sem saber se estamos seguras aqui também.
— A dívida está paga — Christopher diz, quebrando o silêncio.
— Obrigada — digo baixo e dessa vez, sou eu quem encosto a cabeça
no apoio do banco, mordendo o lábio, impedindo eles de tremerem para que
eu não chore aqui e agora.
— Você quer pegar as coisas de vocês agora, ou amanhã? — ele
pergunta e sem entender muito bem o que ele quer dizer com isso, balanço a
cabeça, vendo pelo retrovisor do meio que ele me olha através dele pela
pouca luz que tem no interior do carro.
— Amanhã eu venho pegar — digo com voz embargada. — Obrigada
— agradeço mais uma vez.
— Eu venho com você — ele diz, afundando a cabeça novamente no
encosto do banco.
— Christopher, leva a gente embora daqui, por favor — peço num
choramingo.
— Não sei se consigo agora — ele confessa. — Só quero voltar lá e
garantir que aquele desgraçado nunca mais faça com outra mulher o que fez
com você.
— Você não é essa pessoa — digo em incentivo, mas ele balança a
cabeça em afirmativo.
— Sim, Eliza. Você não imagina o que eu sou capaz de fazer com esse
cara se eu voltar lá.
— Christopher! Só tira minha menina daqui — peço, pouco importando
se ele quer matar Simon ou não.
Aelin está encharcada com a chuva, com medo e agarrada a mim
apavorada.
— Por favor — peço, sem conseguir conter o choro e ele gira a chave
na ignição, dando a partida, tirando de mim, um suspiro de alívio.
Christopher reserva um dos três quartos de hóspedes para nós duas, o
maior que tem cama de casal com suíte e se retira, nos deixando sozinhas.
Dou um banho em Aelin e percebo que ela fez xixi nas calças, então
lavo as roupas dela no banho e quando volto com ela para o quarto, enrolada
em um roupão de banho adulto, encontro duas peças de roupas masculinas
em cima da cama, uma camiseta rosa bebê, e outra, uma camisa social de
botões branca e uma calça de moletom cinza. Dá para ver que ele tentou se
esforçar para vestir nós duas.
Visto a camiseta rosa bebê em Aelin e coloco ela na cama,
aconchegada com a coberta e o edredom de casal. Fico ali deitada ao lado
dela mesmo ainda sem ter tomado banho e sentir minhas roupas úmidas pela
chuva que tomamos. Meu corpo ainda treme, não sei se pelo frio, ou se pela
tensão do que aconteceu.
— Nós vamos morar aqui agora? — ela pergunta, sonolenta.
— Dorme, meu amor — ignoro a pergunta dela, tentando deixar as
novas preocupações para amanhã.
Não podemos simplesmente morar na casa dele. Sequer tenho esse
direito, após ter pedido demissão.
Aelin pega no sono e de fininho, vou para o banheiro tomar um banho,
torcendo para que ela não acorde ou tenha pesadelos enquanto estou longe.
Sei que a noite será longa hoje.
Pego também as roupas que Christopher deixou para substituir meu
vestido rasgado e até cogito encher a banheira onde dei banho em Aelin, mas
ignoro qualquer luxo e entro debaixo da ducha quente, me permitindo relaxar
os ombros.
No momento em que isso acontece, as lágrimas se formam facilmente
nos meus olhos.
Meu Deus, o que eu vou fazer agora?
Eu devia ter tentando conversar com Simon. Tentado conversar mais.
Agora estou devendo uma boa quantia para Christopher.
Por que ele foi atrás de mim essa hora da noite?
Noto que meu braço ganhou a marca do toque forte de Simon e desligo
o chuveiro na hora, tirando o vapor do espelho para me olhar. Meu pescoço
também está marcado, e só agora, que a preocupação com Aelin passou, sinto
minha sobrancelha latejar ainda mais, então tiro o curativo para ver o estado
dos pontos. Estão longe de estar melhorando.
— Meu Deus — digo num choramingo.
Olho para o teto, soltando todo ar dos meus pulmões e fecho os olhos,
respirando fundo.
Enrolo uma toalha nos meus cabelos e dou um nó no roupão, saindo do
banheiro, mas dou um passo para trás ao ver Christopher ali, sentado na
beirada da cama com uma necessaire com uma cruz vermelha estampada
nela.
— O que… — solto um riso. — Não precisa. Eu estou bem. —
tranquilizo ele.
— Trouxe analgésicos também — ele diz, analisando meu rosto de
longe e constrangida, volto para o banheiro.
De canto de olho, vejo ele se levantar de mansinho, para não acordar
Aelin.
— Te espero lá embaixo — ele diz, saindo do quarto sem bater a porta,
e parece que veio muito a calhar, nossa regra de fazer silêncio.
Após vestir a camisa social de Christopher, me olho no espelho do
guarda-roupa e suspiro. Não ficou curto ou indecente. Christopher tem a
estatura alta e o corpo forte. O tecido da blusa engole meu corpo magro e
baixo.
Dou uma olhada em Aelin, que dorme debaixo da coberta felpuda e do
edredom volumoso e sorrio. Ela está dormindo tão confortável que duvido
muito que vá acordar tão cedo.
Deixo o quarto, encostando a porta e desço as escadas, evitando fazer
barulho. Christopher está sentado no sofá, segurando a cabeça entre as mãos.
Sei que está transtornado e vejo que ainda se esforça para acalmar sua
respiração desregulada.
Ele só repara na minha presença, quando solto um pigarreio.
Christopher ergue a cabeça e suspira, me encarando com sua camisa.
Sento-me ao lado dele e ficamos em silêncio por alguns minutos, como
se isso já fosse o suficiente para sabermos o que o outro quer dizer.
— E agora, como vai ser? — quebro o silêncio.
Christopher, me dá uma breve olhada e suspira, balançando a cabeça.
— Não sei, Eliza e, de verdade? Não quero pensar nisso agora. Estou
tão bravo com o que vi, que parece que vou explodir a qualquer momento —
ele confessa, em meio a uma lufada de ar.
— Obrigada pelo que fez.
— Não precisa agradecer.
Fico em silêncio, sem saber o que dizer.
Ele se vira para me olhar.
— Fui lá para levar a boneca da Aelin. Ela esqueceu aqui.
Cubro o rosto.
— Meu Deus — digo, tentando conter as lágrimas.
— Se não fosse isso, Eliza. Não sei o que teria acontecido. — ele
confessa.
— Nem eu.
— Desde quando esse cara faz isso com você? — ele pergunta e em
resposta, apenas balanço a cabeça.
— Ele é o dono da casa.
— E por isso achava ter direito de fazer o que fazia com você?
— Christopher…
— Você poderia ter me dito, Eliza. Se algo pior te acontece… Não sei
o que teria feito. Agora vou perguntar pela última vez, o que aconteceu na
sua sobrancelha foi um acidente mesmo? Uma queda? — ele pergunta com
voz firme.
— Ele me empurrou. Eu caí. Bati o rosto na quina de uma cadeira.
Christopher se levanta, cobrindo o rosto, transtornado.
— Sabe o que eu deveria ter feito? Descarregado a arma inteira na cara
dele — ele diz, arrependido.
— Christopher — o repreendo, enquanto ele massageia a testa.
— Não sei o que vamos fazer, mas para lá, você não volta — ele
decreta.
Eu respiro fundo.
Não tenho uma resposta para isso, então apenas fico em silêncio.
Ele percebe que está alterado e senta novamente ao meu lado,
suspirando.
— Sinto muito. Não queria estar desse jeito, mas saber que ele estava
fazendo aquilo com você… Eu teria incendiado aquela casa se ele não tivesse
aberto a porta.
Não sei o que dizer, apenas cubro o rosto.
— Não mereço que você seja tão generoso comigo e Aelin. Você não
deveria ter que assumir uma responsabilidade por nós duas, eu… — me
interrompo com um soluço.
Ele se vira para mim e segura meu rosto com as duas mãos.
— Eliza, não existe mais a possibilidade de eu abrir mão disso.
Balanço a cabeça.
— Por quê? A troco de quê? Não temos nada a te oferecer. Pelo
contrário, como você vai conviver com uma criança? Comigo? Na situação
em que você est…
— Não sou egoísta a esse ponto.
— A gente nem se conhece.
— Mas já sei o suficiente para saber o que eu quero.
Há silêncio da minha parte.
— Quero ajudar vocês. E não, Eliza, nem todo mundo precisa de algo
em troca por oferecer ajuda.
As palavras de Christopher ecoam na minha mente com uma clareza
que me deixa desconfortável. Ele é tão firme, tão convicto, como se
realmente acreditasse no que está dizendo. Mas aceitar ajuda ainda parece
errado. Sempre foi. Desde que eu me entendo por gente, a ajuda que recebi
veio com um preço. Um preço que, na maioria das vezes, era alto demais para
pagar.
Da última vez que aceitei ajuda de um homem que mal conhecia, entrei
de cabeça em um pesadelo. Simon parecia tão genuíno no início, tão
prestativo. Eu me deixei enganar porque queria acreditar que ainda existiam
pessoas boas, pessoas que se importavam sem pedir nada em troca. E onde
isso me levou? Num buraco tão profundo que, se não fosse Christopher, eu
ainda estaria lá — morta ou com cicatrizes muito piores do que as que já
carrego.
É muito difícil confiar agora.
Olho para Christopher, e ele me enfrenta de volta com aquela
intensidade que sempre me desarma. Não há nenhum traço de dúvida em seus
olhos, como se ele estivesse tentando mostrar que é diferente, que ele não é
como Simon, nem como ninguém que já conheci antes.
E talvez ele realmente não seja.
Mas a forma como ele consegue fazer partes dentro de mim se
agitarem, partes que eu nem sabia que ainda existiam, me assusta. É como se
ele estivesse acendendo algo que enterrei há muito tempo, algo que eu tinha
certeza de que estava morto. Porque, quando entreguei meu coração ao único
homem por quem me apaixonei, ele me quebrou da pior forma que alguém
pode ser quebrado. Não só destruiu minha confiança, mas também
transformou minha carreira como bailarina em cinzas. O pai de Aelin, fez
questão de apagar qualquer brilho que eu pudesse ter, me transformando no
nada que sou hoje.
E agora, aqui estou eu, diante de Christopher. Um homem que desperta
sentimentos que não entendo, que mal sei nomear. Ele me olha como se
enxergasse algo em mim que nem consigo ver mais. Algo que se perdeu, mas
que ele parece determinado a recuperar.
Isso me aterroriza, porque entrar nesse campo minado que Christopher
é, significa explorar um sentimento desconhecido que, um dia, já foi íntimo.
Significa permitir que alguém chegue perto demais, permitindo que toque nas
partes de mim que ainda estão quebradas.
Sei que ele não é Simon, que não é como o pai de Aelin, e talvez esse
seja o problema. Ele não é o tipo de homem que destrói, é o tipo de homem
que reconstrói, mesmo que dentro de si, tudo também esteja em pedaços.
— Eu tenho medo — confesso e ele me olha em dúvida.
— De mim?
— De nós dois — assim que confesso em voz alta, ele tensiona a
mandíbula.
— Não posso expor minha fragilidade para alguém que mal conheço.
Eu tenho a Aelin e se eu me quebrar de novo… Christopher, eu tenho uma
filha. Não posso me render tão rápido a… isso. — antes que ele entenda
errado, continuo. — Eu não posso confiar tão fácil em você, e isso não é por
mim, é pela Aelin.
Ele assente, compreensivo.
— Quem eu preciso convencer, então? A “Eliza-mãe-da-Aelin?” — ele
pergunta e meus olhos transbordam.
— Não tem Eliza, se não tiver a Aelin. — deixo claro.
— Então não será nós dois. Será nós três — fecho os olhos, como se
Christopher tivesse jogado um bálsamo nas minhas feridas inflamadas.
Ainda com os olhos fechados, sinto ele encostar sua testa na minha e
dizer baixo, calmo e compreensivo.
— Vou respeitar o espaço de vocês. Eu posso… — ele começa a
explorar as possibilidades. — Te alugar um quarto se você se sentir mais
segura. Você volta a trabalhar aqui. Vai ter seu dinheiro. O valor que paguei a
Simon do aluguel… Nós vemos um acordo. Você terá sua independência. Eu
só não quero que volte para lá, Eliza.
Suspiro e assinto.
— E quanto a confiança… — ele começa. — Você sabe que pode
confiar em mim desde a primeira vez que nos vimos.
Suspiro, lembrando-me do prostíbulo.
Deus! Que situação de merda.
— E eu sabia que se tivesse a chance, não deixaria mais nenhum
monstro daquele tipo te violar. Isso foi uma promessa que fiz a mim mesmo.
— Não diz isso — suspiro e ele ergue meu queixo, tão próximo ao meu
rosto, que um mínimo movimento, me faria sentir o sabor dos seus lábios.
— Não vou dizer. Quero que você peça.
A fala dele me faz ofegar pelo simples fato de imaginar a possibilidade
dele me beijar.
Por um momento, eu esqueço como respirar e ele direciona meu queixo
na direção dos lábios dele.
— Sem armas, confrontos, mentiras, crises… Só peça e eu faço.
— Christopher… — sopro contra os lábios dele como um alerta de que
isso é perigoso demais para mim.
Parte de mim já começa a pensar no amanhã, quando eu estiver com
Aelin e precisar dar explicações a ela. Penso em Madelyn, na rotina do dia a
dia, nas minhas inseguranças e preocupações, e em todas as oportunidades
que não teremos além desta. No silêncio. Na luz fraca que emana de um
pendente. No resto da casa mergulhada em escuridão, penso no quanto eu
quero isso, mesmo que ainda pareça recente e desconhecido demais.
Preciso saber o que é isso. Se é alguma coisa. Se é o que eu costumava
sentir antes de cair de um precipício. A diferença com Christopher, é que nós
dois já estamos quebrados o suficiente para que eu saiba que esse beijo tem o
sabor de algo que conhecemos bem.
Ruínas.
— Eu quero.
Minha voz sai tão baixa que duvido que ele tenha ouvido. O ar parece
denso, pesado, e meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ele pode
ouvir. Por um segundo, Christopher permanece imóvel, como se estivesse
absorvendo minhas palavras, mas então ele se move.
Seus olhos, intensos e sombrios, capturam os meus, e antes que eu
possa me preparar, ele fecha a distância entre nós.
Seus lábios encontram os meus de maneira firme, mas, ao mesmo
tempo, quase hesitantes. É como se ele estivesse esperando por isso, mas
também tivesse medo de cruzar essa linha. Sua mão toca minha nuca, os
dedos firmes, mas extremamente gentis, segurando-me no lugar como se
temesse que eu pudesse fugir.
Mas não fujo.
O calor que irradia de sua pele me desarma, queimando todas as minhas
defesas. Quando sua língua toca a minha, um arrepio percorre meu corpo
inteiro, um calor tão intenso que sinto como se tivesse sido consumida por
um incêndio. É um choque elétrico, algo que nunca senti antes, e uma
necessidade que não sabia que tinha, toma conta de mim.
Minhas mãos se movem quase por instinto, subindo até seus ombros
fortes, os dedos se fechando no tecido de sua camiseta. Sinto os músculos
tensos sob meus dedos. Por um momento, esqueço onde estamos, esqueço
quem sou. Não há problemas, não há Simon, não há peso na minha vida. Há
apenas o jeito como Christopher me segura, como se eu fosse algo precioso,
mas, ao mesmo tempo, algo que ele não tem certeza se merece.
Ele aprofunda o beijo, e tudo dentro de mim cede. O medo, a
insegurança, até a culpa. É como se, naquele momento, eu pudesse
finalmente ser livre de tudo o que me prende.
Quando ele se afasta, é devagar, como se relutasse em quebrar o
momento. Sua testa toca a minha por um breve instante, nossas respirações
pesadas preenchendo o silêncio entre nós.
Abro os olhos e encontro os dele me observando. Há algo que nunca vi
antes, uma vulnerabilidade que contrasta completamente com a força que ele
sempre exala.
— Se não pararmos aqui… Vai ser difícil controlar os próximos passos
— Ele murmura, a voz rouca, mas cheia de sinceridade e desejo.
— É, eu… acho que não estou preparada pra… continuar ainda —
respondo, antes que ele possa dizer mais alguma coisa.
Christopher me observa por mais um momento, seu olhar se
suavizando, e então vejo algo raro: um sorriso. É pequeno, quase
imperceptível, mas está lá.
— Tudo bem — ele assente. — Posso fazer seu curativo? — Dessa vez,
sou eu quem confirmo com a cabeça positivamente.
Christopher pega a necessaire de primeiros socorros de cima da
mesinha-de-centro da sala, abre e tira de lá, uma cartela de analgésicos. Ele
destaca o comprimido e me entrega.
— Toma isso.
Após isso, ele se levanta e vai em busca de um copo de água, mas de
tudo isso, o que me chama atenção, é o volume por baixo do tecido de sua
calça, que ele esconde puxando a barra da camiseta para cobrir. Finjo não
reparar, desviando os olhos quando ele volta para me entregar o copo de
água.
Não digo nada, apenas sigo as instruções dele e deixo que ele aproxime
uma gaze embebida a um antisséptico para limpar a área e fazer um novo
curativo.
Christopher parece saber bem o que está fazendo. Ele limpa tudo sem
hesitar, e faz um curativo com um algodão e esparadrapo.
— Tudo bem? — ele pergunta.
— Sim — digo e nós dois, mergulhamos novamente no silêncio.
Nos entreolhamos e mais uma vez, pego ele me analisando vestida em
sua camisa social.
— O que vamos falar para a Madelyn? — quebro o silêncio novamente.
— Eu vou resolver — ele diz com tranquilidade. — Minha irmã é o
menor problema que vamos ter. Ela vai entender.
Levanto-me do sofá, me preparando para voltar para o quarto.
— Obrigada — agradeço enquanto ele organiza a necessaire para
fechá-la. — Boa noite.
— De nada. Boa noite.
Subo os degraus da escada com ele logo atrás, o som das nossas
passadas ecoando pelo corredor silencioso. Meu coração está acelerado, mas
tento me concentrar na tarefa simples de chegar ao andar de cima. Não
deveria estar apreensiva, mas estou.
Chegamos à porta do quarto, e eu paro, hesitando antes de entrar. A
maçaneta fria em minha mão parece pesar mais do que deveria, como se
exigisse uma força que eu não tenho no momento. Christopher para ao meu
lado, sua presença tão imponente que é impossível ignorá-lo.
Ambos desviamos o olhar, o silêncio entre nós é tão profundo que
quase consigo ouvi-lo. Quero dizer algo, qualquer coisa, apenas para
preencher o vazio, mas minha mente está tão confusa que as palavras
parecem fugir.
Finalmente, digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
— Estaremos aqui, mas vou conversar com Aelin para fazer o mínimo
de ruídos possíveis — a frase sai rápida, quase automática, como se eu
estivesse tentando reafirmar que tenho controle da situação, mesmo que isso
esteja longe da verdade.
Ele assente, o olhar distante, mas há algo na maneira como ele me
observa que me faz estremecer.
— Ah, sim. Vai ser bom pra mim.
O silêncio volta a nos envolver, e eu temo que ele consiga ouvir meu
coração bater depressa. Tento respirar fundo, mas sinto como se o ar não
fosse suficiente.
— Bom... eu... — aponto para o quarto, tentando encerrar a conversa
sem deixar o desconforto evidente.
Christopher coça a nuca, um gesto que já percebi ser comum nele
quando está desconfortável.
— Vai lá.
— Tá bom — empurro a porta, que estava apenas encostada, pronta
para me refugiar dentro do quarto e colocar uma barreira física entre nós, mas
antes que eu possa entrar, ele dá um passo à frente.
Viro-me instintivamente, uma surpresa estampada no meu rosto, mas
não tenho tempo de reagir. Christopher está ali, tão próximo que consigo
sentir o calor de sua respiração. Ele me encara por um breve instante, como
se estivesse avaliando algo, e então me agarra, sua mão segurando minha
cintura enquanto a outra toca minha nuca.
— Chris... — tento dizer seu nome, mas a palavra se perde quando ele
me puxa para mais perto.
— Acho que ainda não falei o quanto você está me deixando louco,
vestida com a minha camisa — ele diz num suspiro, como se manter o
autocontrole fosse uma prova de resistência para ele.
Seus lábios encontram os meus com urgência, e o mundo ao meu redor
parece desaparecer. É um beijo que carrega uma intensidade que me atordoa,
mas, ao mesmo tempo, é gentil.
Minha mente grita para que eu recuse, para que eu me afaste, mas meu
corpo não obedece. Minhas mãos sobem até seus ombros, segurando-o como
se fosse a única coisa que me mantém em pé e ele me dá impulso para que eu
suba em seu colo e contorne minhas pernas em seu quadril.
Ele me segura sem dificuldade, ali encostada contra a parede ao lado da
porta, aprofundando o beijo, sinto um calor subir pelo meu corpo, um arrepio
percorrendo minha espinha. É como se, por um momento, ele estivesse
tocando algo muito mais profundo do que apenas a minha pele.
Arfo contra a boca dele, quebrando o beijo e, nos olhamos sem fôlego.
Ele ainda está próximo, sua mão firme na minha cintura, os olhos cravados
nos meus como se estivessem esperando um acontecimento.
— Não precisa nem se dar o trabalho de ir andando pra minha cama, eu
te levo no colo — ele diz, a voz baixa e rouca como uma súplica, de olhos
fechados e testa colada na minha. — Diz que já está preparada agora —
assim que ele diz isso, solto um riso, apoiando a testa no ombro dele.
— Boa noite, Christopher.
Ele responde com um suspiro e um encolher de ombros.
— Boa noite.
— Já pode me pôr no chão — peço com voz divertida e assim ele faz.
— Vou deixar a porta do quarto aberta, caso mude de ideia.
O convite dele paira no ar enquanto abro a porta para entrar. Ele fica
parado por mais um instante, observando-me, antes de finalmente dar um
passo para trás, permitindo que eu siga.
Mesmo depois de fechar a porta, a sensação de sua presença ainda
permanece intensa e palpável, como se ele estivesse ali, apenas esperando. É
como se, mesmo sem palavras, ele estivesse me pedindo para cruzar a linha
que separa o que somos do que queremos ser de uma vez.
E, embora eu já tenha tomado a decisão de que hoje ainda não é a hora
certa, sei que é só uma questão de tempo, até o que queremos, se tornar real.
PARTE III
“Estou vendo a dor, estou vendo o prazer
Ninguém além de você, além de mim, além de nós
No lugar que sentimos as lágrimas
No lugar para se perder os medos
Um lugar que é tão puro,
tão sujo,
tão bruto
É nosso paraíso e nossa zona de guerra.”
PILLOWTALK - ZAYN MALIK
O silêncio da manhã é confortável, quebrado apenas pelo som suave da
cafeteira. Estou na cozinha, tentando manter os movimentos discretos
enquanto preparo o café. A casa ainda está adormecida, mas não consigo
ignorar a presença delas aqui, dormindo no andar de cima.
Eliza e Aelin.
As duas estão sob meu teto, e isso traz uma sensação estranha, quase
inexplicável. Há muito tempo, minha casa não abriga ninguém além de mim.
Não sei se é conforto ou ansiedade o que sinto, mas sei que não posso errar
com elas.
O cheiro do café começa a se espalhar pela cozinha, misturando-se ao
som rítmico do pão tostando na torradeira. Tento concentrar nas tarefas
simples: encher as xícaras, organizar a mesa, mas é inútil.
Minha mente não para.
As lembranças da noite anterior vêm com força, invadindo cada
pensamento. O jeito que nós dois queríamos tanto aquilo, mas a hesitação de
onde poderíamos chegar, era bem maior. Eu entendo ela. Entendo a
hesitação, a insegurança, mas caramba, eu teria chutado o balde se ela
dissesse que sim.
Solto um suspiro profundo, tentando me recompor. Não consigo parar
de pensar no beijo, nas pernas dela rodeando a minha cintura, no seu toque
delicado…
Beijar Eliza foi como abrir uma porta que mantive fechada por anos,
um lugar dentro de mim que pensei que nunca mais seria acessado. E o mais
assustador de tudo, é que ela parecia sentir o mesmo.
Lembro-me do silêncio depois que nos afastamos — apenas o som de
nossas respirações entrecortadas preenchendo o corredor. Ela não disse nada,
mas também não precisou. O olhar dela já disse muito: dúvida, confusão...
talvez até medo.
“Eu tenho medo de nós dois” — A voz dela ecoa na minha mente,
firme, mas cheia de algo que parecia medo de confiar em mim.
Passei a noite inteira acordado, esperançoso que a qualquer momento
ela passaria pela minha porta, e mesmo sabendo que talvez isso não
acontecesse, não houve um minuto sequer que meu pau não a desejasse. E
agora, aqui estou eu, tentando fingir que não estou completamente bagunçado
por dentro.
A torradeira apita, me puxando de volta à cozinha. Pego o pão quente,
coloco-o em um prato e continuo montando a mesa.
Mas os diálogos da noite anterior continuam, como se meu cérebro se
recusasse a deixá-los de lado.
"Então seremos nós três.”
Essa frase foi minha, mas ainda não sei se consigo cumprir totalmente o
que ela implica. Eliza é um campo minado, uma mulher que carrega mais
peso do que deveria, e eu... sou alguém que mal consegue lidar com os meus
próprios fantasmas e que não faz a menor ideia de como lidar com uma
garotinha.
Quando penso nela, no olhar que me lançou antes de entrar no quarto,
no jeito que parecia quase se render, mas não totalmente... Algo dentro de
mim quer tentar.
Eu não deveria, e talvez não consiga, mas ainda quero.
Solto outro suspiro, esfregando a nuca enquanto encaro a mesa posta.
Tento afastar os pensamentos, mas eles permanecem, tão persistentes quanto
o cheiro do café que agora permeia toda a cozinha.
Um ruído leve atrás de mim me faz virar rapidamente num susto.
É Aelin.
Ela está na entrada da cozinha, os cabelos castanhos ainda bagunçados
pelo sono e um olhar curioso no rosto. Parece tão pequena ali, usando minha
camiseta rosa-claro que, claramente, engole seu pequeno corpinho.
— Oi — digo, tentando manter a voz baixa para não assustá-la, embora
ainda soe grave.
Ela hesita por um momento, mas entra na cozinha, seus passos suaves
no piso de madeira.
— Oi — ela responde, sua voz fina e infantil, mas cheia de curiosidade.
Agacho-me para ficar na mesma altura que ela, observando enquanto
ela me encara como se estivesse avaliando quem eu sou.
— Está com fome? — pergunto.
Ela acena timidamente, seus olhos desviando para a mesa, onde alguns
pães e frutas já estão dispostos.
— Pode se sentar ali, se quiser — aponto para a cadeira. — Vou
preparar um copo de leite. Você gosta de leite com chocolate?
Aelin se move devagar, subindo na cadeira com cuidado. Enquanto
preparo o leite, sinto o olhar dela em mim. Quando volto, ela já está
segurando uma fatia de pão com as mãos pequenas, mas não morde.
— Você é amigo da mamãe? — ela pergunta de repente, pegando-me
de surpresa.
Penso por um momento antes de responder, tentando encontrar as
palavras certas.
— Sou.
Ela inclina a cabeça, me observando como se estivesse tentando
decifrar o que isso significa.
— A mamãe disse que estamos aqui porque é seguro.
Assinto, sentindo um peso nas palavras dela.
— É, sim.
— Posso pegar? — ela aponta para a espátula e direciona o olhar para o
creme de amendoim.
— Quer que eu prepare pra você?
— É. Pode ser — ela assente, estendendo a fatia de pão de forma.
Quando termino de montar o pão, ela parece satisfeita com o que vê e
começa a comer, mastigando devagar. Por um momento, ficamos em silêncio
enquanto ela observa todos os meus movimentos.
— Sabia que eu sei fazer espacate? — ela puxa assunto, me analisando
como um adulto em uma entrevista de emprego. — Depois eu posso te
mostrar se você quiser.
— Sim, claro que eu quero ver — respondo, tentando soar curioso e ela
estreita os olhos.
— E você?
— Eu o quê?
— Como que é seu nome mesmo?
— Christopher.
— O meu é Aelin.
— Legal.
Aelin faz uma pausa e eu aproveito para perguntar de Eliza.
— Sua mãe ainda está dormindo? — pergunto.
— Sim, eu acho que ela está cansada — ela responde. — Tio, você
mora aqui sozinho?
Assinto.
— E a sua mãe? Mora aonde?
— A minha mãe é uma estrelinha — respondo com algo que sempre
ouço as pessoas dizerem ao falar sobre a morte com crianças.
— Tio… — Aelin solta um riso, como se quisesse dizer que não é
besta. — Não tem como as pessoas virarem estrelinhas. Ela tá morta?
O questionamento dela me pega de surpresa e agradeço mentalmente ao
ouvir passos descendo as escadas. Eliza surge.
— Aelin, chega de tantas perguntas logo cedo — ela diz e eu me viro
para ela, que sonolenta, se posiciona atrás da cadeira de Aelin, observando a
mesa.
— Está servida? — pergunto.
— Bom dia. Obrigada por ter preparado o café para ela — Eliza diz,
em tom agradecido.
— Preparei para você também — respondo, colocando uma xícara de
café na frente dela, enquanto ela se junta à mesa conosco.
Eliza dá um sorriso breve antes de se sentar ao lado de Aelin, passando
a mão pelos cabelos da filha.
— Já fez amizade com ele, minha pequena?
Aelin assente, com os lábios sujos de leite.
— Depois eu vou mostrar para ele como fazer espacate, mamãe.
— E o que ele acha sobre isso? — Eliza responde, mas há um tom leve
de preocupação na voz dela, como se não tivesse certeza de como se sente
sobre essa interação.
Enquanto Eliza se serve, penso no que preciso fazer hoje. Tenho que ir
buscar as coisas delas e, de alguma forma, preciso convencer Eliza a me
deixar ir sozinho.
Observo Aelin por um momento e, ao ver que ela está entretida com as
frutas na pequena tigela onde cortei, me levanto e chamo Eliza para fora do
alcance dos ouvidos da menina.
— Precisamos buscar as coisas de vocês. Eu posso ir sozinho —
começo falando.
Eliza balança a cabeça no mesmo instante, uma ocorrência tão imediata
quanto previsível.
— Não. Eu prefiro ir junto.
Suspiro, já antecipando o que ela vai dizer.
— Eliza, é melhor eu ir. É mais seguro assim.
Ela cruza os braços, claramente relutante em ceder.
— Christopher, eu agradeço, mas... não sei o que esperar do Simon
depois do que aconteceu — sua voz treme levemente ao mencionar o nome
dele, o que faz algo em mim apertar. — E eu sei onde estão as coisas. Vai ser
mais rápido comigo lá.
A ideia dela voltar àquele lugar, de ficar cara a cara com o tal Simon de
novo, me revira o estômago. Não quero que aquele cara coloque os olhos nela
nunca mais.
— Não é sobre ser rápido — respondo com firmeza. —, é sobre te
proteger. Você não precisa voltar para lá. É mais seguro se você ficar aqui
com a Aelin. Ele não sabe onde eu moro.
Seus olhos encontram os meus, e percebo o momento exato em que
minhas palavras começam a fazer sentido para ela. Ainda há resistência, mas
também um cansaço evidente, como se, no fundo, ela soubesse que estou
certo.
— Tudo bem — ela finalmente cede, soltando um suspiro derrotado. —
Mas, não precisa trazer tudo, pode ser algumas coisas específicas.
Espero que ela continue.
— As sapatilhas de ballet da Aelin. Elas estão no canto do guarda-
roupa, dentro de uma bolsa rosa. E... uma caixa de madeira que está na parte
de cima.
— Só isso? — pergunto, mantendo uma voz suave.
— Temos duas malas, pode colocar nossas roupas nelas e o que mais
tiver no guarda-roupa. Tudo o que temos de valor está lá.
Assinto novamente, observando o rosto dela por um momento. Mesmo
tentando parecer firme, Eliza não consegue esconder completamente o medo
que a situação desperta.
— Vou trazer tudo. Não se preocupe. O carro é grande, vai caber e se
não couber, volto lá quantas vezes forem necessárias. — garanto, tocando seu
ombro por um instante, uma tentativa desajeitada de transmitir alguma
tranquilidade. Ela não recua, mas também não relaxa completamente.
Quando me afasto, preparando-me para ir, lanço mais um olhar para
ela. Eliza se sentou ao lado de Aelin, de volta à mesa, e vejo como segura a
mão da filha, como se aquele pequeno gesto fosse a única coisa mantendo-a
de pé.
— Vai ficar tudo bem — ela murmura, embora pareça que está
tentando convencer a si mesma mais do que à menina.
Enquanto pego as chaves e me preparo para sair, sinto o peso da tarefa
à minha frente. Não é só procurar roupas ou objetos. É sobre enfrentar um
pedaço do passado dela que nunca deveria ter existido e, acima de tudo,
garantir que ela nunca mais precisará pisar os pés lá novamente.
Quando paro o carro em frente à casa de Eliza, algo parece
imediatamente errado. Saio do carro, as chaves balançando levemente na
minha mão, enquanto olho ao redor. A porta da frente está destrancada, e ao
abrir, a visão que me recebe, é um soco no estômago.
A casa está devastada.
Os móveis foram revirados, os travesseiros rasgados, os brinquedos e
as roupas de Aelin espalhados pelo chão como se fossem jogados sem
qualquer cuidado. Não é só bagunça, é algo pessoal, uma destruição com
intenção.
Caminho lentamente pelo cômodo, desviando dos objetos caídos e dos
papéis espalhados. A cada passo, minha raiva cresce, assim como minha
preocupação. Tento manter o foco na tarefa, mas a destruição ao meu redor é
impossível de ignorar.
O guarda-roupa está aberto, as gavetas arrancadas e jogadas ao chão.
Roupas rasgadas, espalhadas como se alguém tivesse feito questão de tornar
tudo inutilizável.
Travo o maxilar enquanto começo a vasculhar o que sobrou. Esse é o
tipo de coisa que só alguém cheio de ódio faria.
Simon. Não há dúvida de quem foi.
Levo mais tempo do que gostaria para encontrar algo intacto.
Finalmente, vejo a bolsa rosa que Eliza havia citado. Está parcialmente
escondida debaixo de uma pilha de roupas destruídas. Pego-a e limpo o
tecido com as mãos antes de colocá-la de lado, aliviado por, ao menos, ter
encontrado isso.
A próxima tarefa é localizar a caixa que Eliza havia citado.
Procuro entre móveis derrubados e objetos espalhados. Meu olhar
finalmente a encontra no canto do quarto, tombada e com a tampa
entreaberta. Quando me aproximo, percebo imediatamente que algo está
errado.
Abro a caixa, e o que vejo, me deixa cheio de raiva.
Dentro dela, há pedaços de tecido cortado. Quando os retiro por
completo, percebo que se tratam de um tutu de bailarina e um collant, agora
reduzidos a tiras irregulares. Também encontro sapatilhas surradas,
claramente usadas por anos, mas agora destruídas pelas marcas de uma
tesoura.
Entre os tecidos destruídos, algumas fotografias chamam minha
atenção. São imagens de Eliza mais jovem, dançando. Ela está sorrindo em
algumas delas, capturada em momentos de leveza e alegria. Mas até as fotos
não escaparam. Algumas rasgadas, outras amassadas, como se Simon tivesse
tentado apagar não só as coisas, mas também as memórias que elas
representavam.
Fico parado, segurando a caixa, enquanto a raiva borbulha dentro de
mim. Não é apenas a destruição física, mas o que isso simboliza. Ele não só
tentou feri-la, mas também arrancar qualquer traço de felicidade, qualquer
vestígio de quem ela já foi.
Enquanto me preparo para guardar tudo, algo mais chama minha
atenção no banheiro. No pequeno espelho, escrito com algo vermelho, que
julgo ser um batom, está uma mensagem escrita:
"Eu vou encontrar você, Angel."
Levo um momento para absorver as palavras, e quando o significado
delas me atinge, sinto meu corpo inteiro se tensionar. A letra é irregular,
quase como se tivesse sido feita com raiva, mas a ameaça é clara.
Respiro fundo, lutando contra a vontade de socar algo, de descontar a
raiva que Simon claramente queria provocar e conseguiu.
Pego a caixa e, com cuidado, guardo as fotos junto com os restos do
tutu, do collant e das sapatilhas. Com a bolsa rosa de Aelin em uma mão, a
caixa no outro braço, e as poucas peças que encontrei intactas no ombro, olho
uma última vez para a casa. A destruição, o recado, tudo isso não é só um
ataque. É um aviso.
Enquanto volto para o carro, prometo a mim mesmo que Simon vai
pagar por isso. E ele não vai escapar quando a oportunidade chegar
novamente.
Quando volto para o carro, a mensagem de Simon ainda está gravada
em minha mente: "Eu vou encontrar você, Angel". As palavras parecem ecoar
como uma sugestão ameaçadora, cada letra pulsando como um lembrete da
raiva e do perigo que ele representa.
Coloco a bolsa de Aelin cuidadosamente no banco de trás com as
roupas e coloco a caixa no assento ao meu lado. Antes de ligar o carro, fico
ali parado, segurando o volante com força.
Eliza precisa saber desse recado?
A pergunta bate contra meus pensamentos como um martelo. Parte de
mim sente que deveria contar, que esconder algo assim é perigoso, até
irresponsável. Mas enquanto penso nela, no olhar que vi esta manhã, cheio de
preocupação e cansaço, percebo que a verdade só vai pesar ainda mais sobre
ela.
Ela já está carregando tanto.
Se eu contar sobre a mensagem, o medo vai dominá-la novamente. Vai
deixá-la ainda mais inquieta, mais presa ao terror que Simon claramente quer
infligir. Ele quer que ela saiba, quer que ela sinta que não pode escapar dele,
mesmo não estando mais lá.
A ideia de colocar esse peso em Eliza me incomoda mais do que a
própria ameaça. Ela já vive em alerta constante, já está preocupada com Aelin
e com o que pode acontecer se Simon reaparecer. Dizer a verdade agora não
vai ajudar.
Aperto o volante com mais força, o nó dos meus dedos ficando
brancos. Não vou deixar Simon chegar perto delas novamente. Isso é algo
que posso prometer a mim mesmo. Não preciso envolver Eliza nisso, não
preciso que ela saiba daquelas palavras.
O motor do carro ronca quando o ligo, mas minha mente ainda está
presa naquela mensagem, nas letras que parecem ter sido escritas para
intimidar.
Olho para o retrovisor, vendo a casa destruída ficando para trás, e me
obrigo a focar no que importa agora. Proteger Eliza e Aelin. Esse é meu único
objetivo.
Quando finalmente chego à minha casa e vejo uma janela aberta, penso
nela esperando lá dentro. Ela confia em mim, mesmo que ainda não tenha
admitido isso para si mesma.
Respiro fundo antes de sair do carro.
A bolsa de Aelin e a caixa de madeira, são lembretes tangíveis do caos
que acabei de deixar para trás. Respiro fundo, tentando afastar a raiva que
ainda sinto. Preciso manter a calma, por Eliza, por Aelin.
Ao entrar, vejo Eliza na sala. Aelin está sentada no tapete, distraída
com a única boneca que por sorte lhe restou, mas Eliza se levanta assim que
me vê. Há algo nos olhos dela, uma mistura de apreensão que me faz hesitar.
— Conseguiu? — ela pergunta diretamente, seu olhar passando de mim
para o que carrego.
Levanto a bolsa rosa de Aelin e mostro para ela.
— Encontrei uma bolsa — digo, colocando-a sobre o balcão.
Ela relaxa levemente, mas seus olhos se fixam na caixa que seguro na
outra mão.
— E a caixa? — ela pergunta, a voz tensa, quase como se tivesse medo
da resposta.
Por um momento, fico parado, segurando a caixa como se ela fosse
mais pesada do que realmente é. Minha mente está presa à imagem do que vi
dentro dela, à mensagem que Simon deixou na parede.
— Podemos conversar sobre isso a sós? — sugiro num tom calmo.
Eliza franze a testa, claramente não gosta da minha hesitação, mas ela
olha para Aelin e entende.
— Claro.
Pego o controle da televisão e ligo em um canal infantil.
Agacho-me para falar com ela.
— Aelin, que tal assistir um pouco enquanto converso com sua mãe lá
em cima?
Ela assente animadamente, já esquecida do resto do mundo enquanto
mexe na boneca, com a atenção dividida com o desenho animado que passa
na TV.
Eliza me segue silenciosamente até o andar de cima, o som de seus
passos ecoando pelo corredor enquanto nos dirigimos ao quarto. Assim que
fecha a porta, ela se vira para mim, os braços cruzados.
— Christopher, o que aconteceu?
Seguro a caixa com mais força, tentando encontrar as palavras certas.
— A casa... — começo, mas paro por um momento, olhando nos olhos
dela. — Foi destruída, Eliza. Simon esteve lá.
Ela aperta os lábios, seu rosto fica mais pálido.
— Ele revirou tudo. Rasgou a maioria das roupas. Foi como se... como
se quisesse apagar vocês daquele lugar.
Eliza se senta na beira da cama, levando as mãos ao rosto.
— E a caixa? — ela pergunta, sem tirar as mãos do rosto. — Pode me
dar a caixa?
Minha hesitação deve dizer mais do que qualquer palavra, porque ela
levanta a cabeça rapidamente, os olhos buscando os meus.
— Christopher, o que tem na caixa?
Não digo nada de imediato. Apenas caminho até ela e coloco a caixa
em suas mãos. Ela olha para mim por um momento antes de abrir.
Assim que a tampa cai sobre o chão, vejo o momento exato em que a
realidade a atinge.
— Não... — Eliza sussurra, seus olhos arregalados enquanto observa o
conteúdo.
Na caixa estão os restos do tutu de bailarina, o tule picotado e o collant,
rasgado em tiras desiguais. As sapatilhas, já surradas, estão ali, mas
danificadas além de qualquer uso. As fotos, algumas amassadas e outras
cortadas, parecem tão desoladas quanto o estado em que foram encontradas
no chão do quarto dela.
— Fiquei em dúvida se trazia ou não, mas acho que era importante pra
você.
Eliza pega uma das fotos com as mãos trêmulas, alisando-a como se
pudesse recuperar o estrago.
— Ele fez isso... — sua voz quebra, e então as lágrimas começam a
cair.
Fico ali, sem saber exatamente o que fazer, até vê-la se prostrar no
chão, derrubando a caixa e todo o conteúdo de dentro.
— Eliza... — murmuro, me ajoelhando à sua frente. — Sinto muito.
Ela balança a cabeça, segurando a foto com força enquanto as lágrimas
escorrem pelo seu rosto.
— Ele destruiu tudo — diz ela, com a voz carregada de dor. — Sabia
que ele não ia me deixar sair de lá sem cobrar um preço. — Eliza diz
balançando a cabeça. — Ele não vai deixar isso barato, Christopher. Não tem
como fugir do Simon. Ele vai me caçar.
A forma com que ela faz as afirmações sobre Simon, só confirma a
minha decisão sobre não contar sobre o recado que ele deixou.
— Eliza, esse cara…
— Simon é perigoso, Christopher. A dívida de uma pessoa com ele só
acaba quando ele decidir que acabou e a minha… pelo visto… só aumentou.
A fala de Eliza me pega desprevenido.
Sei bem sobre o que ela está falando. Ele não é apenas o dono da casa
que ela morava de aluguel. Simon é um criminoso e eu quase atirei na cara
dele.
Devia ter atirado, pelo menos assim, não estaríamos passando por isso
agora.
— Essas coisas ainda são suas, não importa o que ele tenha feito com
elas — respondo suavemente, mudando o assunto, torcendo para que o
problema desapareça se não falarmos sobre ele.
Eliza me encara por um momento, a dor em seus olhos azuis quase
insuportável de se ver. Mal vejo o brilho da íris, o azul tão intenso parece ter
desaparecido de um instante para o outro. Isso me quebra numa proporção
que jamais imaginei.
— Isso era tudo o que eu tinha antes de… antes de tudo. Simon sempre
encontra um jeito de me destruir.
— Ele não vai mais — digo com firmeza. — Eu prometo, Eliza. Ele
nunca mais vai fazer isso com você ou com a Aelin.
Ela desvia o olhar, mas não protesta. Ficamos ali, sem silêncio,
enquanto ela segura os pedaços do que Simon tentou destruir e lamenta aos
soluços.
Fico com ela ali no chão pelo tempo em que ela precisar. Ela abraça a
peça com tanta dor, que chego a cogitar ir em busca de um remédio que cure
isso, mas não tem. Eliza está ferida mais uma vez e eu não posso fazer nada
para ajudá-la, protegê-la, tirar isso dela e, de novo, Simon é o culpado.
— Você precisa fazer uma denúncia — digo e ela balança a cabeça,
amedrontada apenas por pensar nessa hipótese.
— Christopher…
— Eliza — interrompo, envolvendo o rosto dela. —, você precisa pelo
menos de uma medida protetiva contra ele.
— Eu não tenho nenhuma informação sobre ele, Chris.
— Mesmo assim, você pode registrar a denúncia e dar as características
físicas dele — tento convencê-la, e ela parece considerar.
Eliza não me dá uma resposta, então sem querer pressionar, continuo.
— Nós vamos dar um jeito nisso e de qualquer maneira, ele não sabe
onde moro, nem vou deixar que ele se aproxime de você — garanto. —
Consegui encontrar algumas roupas das poucas que salvaram, mas vamos
precisar ir comprar mais — antes que ela se negue, envolvo seu rosto. — E
nada de debates. Eliza, me deixa ajudar, por favor.
Dois toques apressados na porta, nos faz sobressaltar e Eliza recolhe
rapidamente as coisas da caixa do chão e guarda de volta lá dentro.
Abro a porta e Aelin está lá, procurando Eliza com os olhos. Ela corre
até Eliza e abraça suas pernas.
— Mamãe, ele te machucou igual o tio Simon? — a fala dela pega nós
dois de surpresa e nos entreolhamos.
— Claro que não, meu amor — Eliza diz sem hesitar, se agachando
para ficar da altura dela.
— Então por que você está chorando?
— Porque estou feliz — Eliza diz e me olha por um instante. — O tio
Chris vai nos levar para comprar roupas novas.
Aelin se vira para mim.
— Roupas? — ela me questiona, animando-se.
Assinto e ela comemora, batendo palminhas, mas Eliza a contém ao
perceber que ela está fazendo barulho demais.
— Vou buscar lá no carro o restante das coisas que consegui trazer. —
anuncio.
Quando estou de volta no carro, aproveito para abrir o chat do celular e
mandar uma mensagem para o contato da psiquiatra que Madelyn me passou.
Agora, convivendo com a pequena Aelin, mas do que nunca, vou precisar de
ajuda com o TEPT.
A casa não é mais silenciosa. Agora tem uma voz infantil que ecoa
abafada no andar de cima. Aelin gosta muito de conversar com Eliza e apesar
dela sempre ter alguma pergunta para fazer, Eliza prontamente tem uma
resposta.
Elas estão no quarto, se aprontando com as poucas roupas que consegui
trazer para elas, e eu, parado na cozinha, ainda não consigo engolir o que
Simon fez. Chego a conclusão de que Eliza consegue ser bem mais forte que
eu nesse quesito. Ouço ela conversar com a filha como se a vida fosse um dia
ensolarado e ela não tivesse nenhum problema daquela porta para fora.
Eu sei que ela tenta, de todas as formas, não passar a frustração e o
peso que carrega para Aelin. E ela consegue com êxito separar a maternidade
dos outros problemas.
A caixa com os pedaços do passado de Eliza ainda persiste em minha
mente, e a ideia de que Simon destruiu tudo o que ela tinha me corrói de uma
forma que eu não consigo explicar.
Pego minha carteira em cima do balcão, ao lado da bolsa rosa de Aelin
e tiro o cartão de crédito. É um gesto simples, mas carrega um peso imenso.
Eliza não vai gostar, eu sei disso. Ela tem uma força que admiro, mas
também uma teimosia que às vezes me faz questionar como ajudar sem
parecer invasivo.
Quando subo para entregar o cartão, encontro Eliza sentada na beira da
cama, com Aelin ao lado, entretida com a boneca.
— Eliza — chamo, me encostando no batente da porta.
Ela levanta os olhos, ainda inchados por ter chorado há minutos atrás,
mas há algo de resoluto neles.
— Sim?
Caminho até ela e estendo o cartão.
— Vou deixar vocês no shopping e depois você me liga para ir buscar
vocês.
Ela olha para o cartão como se fosse uma arma.
— Não é caridade, Eliza. É o mínimo que posso fazer. — Minha voz é
firme, mas não ríspida. — Lembre-se, depois se você quiser, descontamos do
salário.
Ela me encara por um momento, claramente lutando contra o impulso
de recusar. Finalmente, ela solta um suspiro e pega o cartão com dedos
hesitantes.
— Tudo bem. Mas vou pagar cada centavo de volta.
Sorrio de leve, porque já esperava algo assim.
— Faça o que precisar.
Aelin, que até então estava ao lado dela, olha para mim com
curiosidade.
— A gente vai comprar coisas novas, mamãe?
— Vamos, meu amor — Eliza responde, puxando a filha para um
abraço apertado.
Deixo as duas sozinhas no shopping mais próximo e volto dirigindo em
silêncio até a casa de Madelyn. O trajeto é curto, mas minha mente está cheia
de pensamentos. Preciso falar com ela, entender como podemos lidar com
essa situação sem que Eliza se sinta desconfortável demais.
Quando chego, Madelyn já está na porta, como se estivesse me
esperando.
— Christopher — ela me atende, o olhar cheio de preocupação. —
Tudo bem?
— Preciso conversar com você — digo enquanto, ela me conduz até a
sala.
— Aconteceu alguma coisa?
— Muitas, na verdade — admito, e ela me lança um olhar preocupado.
Madelyn está sozinha em casa com Noah. Nos sentamos no sofá, e ela
me olha apreensiva.
— Fui na casa da Eliza — começo contando. — Você tinha razão, tinha
algo de errado com aquele cara — conto, e, ao ouvir isso, minha irmã leva a
mão ao peito, como se pudesse sentir um aperto palpável.
— Meu Deus, Christopher.
Faço uma pausa, formulando uma forma resumida de contar tudo o que
aconteceu, mas ela me apressa, se levantando.
— E o que houve?
Começo a explicar o que aconteceu na casa de Eliza ontem e vejo a
expressão dela mudar de preocupação para raiva contida.
— Esse homem é um monstro — ela diz, cruzando os braços. — Mas e
a Eliza? Como ela está lidando com isso?
— Ela perdeu tudo, Maddie. Eu voltei lá onde ela morava, hoje. Ele
destruiu tudo. Está tentando manter a calma por causa da Aelin, mas... —
suspiro, passando a mão pelo cabelo. — Não quero que ela pise lá nunca
mais. Eliza é orgulhosa, e eu sei que, por mais que ela saiba que estou certo,
ela não vai ficar confortável. Eu sei disso.
Madelyn me observa por um momento antes de soltar um suspiro
profundo.
— Que bom que você foi até lá — ela começa, aliviada. — E você tem
razão quando diz que ela não deveria voltar lá, mas eu a entendo quanto à
questão do desconforto. Lá não é a casa dela, ainda mais com ela fazendo as
tarefas e ganhando um salário. Talvez ela se sinta mais confortável se... vocês
tivessem mais espaço.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que, nesses primeiros dias, talvez seja melhor ela vir
trabalhar aqui em casa — Madelyn sugere, com um tom cuidadoso.
— Não sei... — respondo, incerto. — Ela vai pensar que estou tentando
afastá-la, ou vai se sentir desconfortável por eu ter aberto a situação para
você.
— Você não está. Está apenas tentando dar a ela um pouco de
autonomia. Ela é orgulhosa, Chris, e isso é uma forma de você respeitar isso.
Penso por um momento. Faz sentido, mas ainda assim, parece que
estou empurrando Eliza para longe.
— E Aelin? — pergunto, mudando o assunto.
Madelyn dá um sorriso pequeno, quase como se estivesse esperando
essa pergunta.
— Bom, você vai cuidar dela.
Meu olhar se fixa no dela, surpreso.
— Eu? Tá ficando louca?
— Sim, você. Não me olhe assim. É só por algumas horas. Aelin vai
ficar bem, e você vai fazer isso por elas.
Suspiro, balançando a cabeça.
— Isso parece uma ideia terrível.
— Ou pode ser a melhor coisa que você pode fazer pela Eliza.
— Ou a pior — contraponho.
Madelyn revira os olhos.
— Christopher, o TEPT só vai dominar a sua vida, se você deixar.
Endireito a postura de forma irônica.
— Nossa, agora que você disse isso, me sinto curado — digo, usando o
sarcasmo, e ela estreita os olhos para mim.
— Você entendeu muito bem o que eu quis dizer — ela me lança um
olhar firme. — Não deixe o TEPT te impedir de viver novas experiências.
Quando percebo que ela vai querer se aprofundar nesse assunto, me
vejo sem outra opção.
— Tudo bem — concordo finalmente.
Madelyn sorri e, pela primeira vez em dias, sinto que talvez as coisas
estejam começando a fazer algum sentido.
— Você falou com a psiquiatra? — ela pergunta.
— Mandei uma mensagem.
— Certo. E as sessões com a sua psicóloga? — a pergunta dela me
arranca um riso genuíno.
Ela arqueia a sobrancelha, desconfiada.
— Seria melhor se você me encaminhasse o contato de alguma
também.
Porque a minha psicóloga de mentirinha, em breve, será minha
mulher.
Meu subconsciente completa.
Com o cartão que Christopher me dá, compro só o necessário. A
maioria das coisas são para Aelin. Fazia um tempo que nós duas não saíamos
para comprar roupas, muito menos no shopping onde os valores são mais
altos. Mesmo vendo a felicidade dela, sinto-me deslocada. Claramente, não é
um lugar onde me encaixo, mas me sinto feliz ao vê-la realizada escolhendo
roupas novas, sem saber que estamos fazendo isso, porque Simon destruiu
todas as poucas coisas que tínhamos.
Esse pensamento me leva de volta à minha caixa de lembranças. Só
Deus sabe o quanto ver o estado do meu tutu de bailarina destruído me
abalou. Só quero que anoiteça e Aelin pegue no sono, para que eu possa
sentir essa dor por completo. Parece que só agora, vendo tudo em pedaços,
que percebi finalmente que meu sonho foi despedaçado.
Não tem como voltar no passado, mesmo que o meu, estivesse em uma
caixa.
Sabia que Simon não ia deixar eu sair de lá numa boa. Ainda mais da
forma com que aconteceu.
Christopher só pode estar maluco se acha que irei abrir uma denúncia
contra Simon. Ele me caçaria e me encontraria onde quer que eu me
escondesse.
Pessoas como Simon não aceitam afrontas e deixam barato. Eu tive
sorte. Não vou pagar para ver de novo. Se tudo continuar do jeito que está.
Para mim já está ótimo.
Christopher pode não ter medo de gente como Simon por ter
experiência militar, mas eu não posso brincar com esse tipo de coisa quando
tenho Aelin e sei exatamente o que acontece com quem mexe com esse tipo
de gente.
Quando termino de comprar tudo o que Aelin precisa, desde roupas a
shampoo e sapatos, almoço com ela e após isso, dou um toque no celular de
Christopher. Agora tenho o número do celular dele e poucos minutos depois,
ele está na entrada do shopping, nos esperando em seu carro.
Aelin entra no carro animada, ela quer mostrar tudo para ele e eu
percebo que ele até acha engraçadinho, mas ainda se mostra recluso. Ela é
agitada, conversa sobre tudo, já ele, tenta ser o mais compreensivo e escuta
tudo o que ela tem para dizer, em seguida, responde sempre com um “legal.”
Isso me arranca um riso.
Quando chegamos de volta à casa, Aelin sobe para o quarto para
organizar as coisas dela e eu, fico no andar debaixo com Christopher.
Entrego a ele o cartão e todas as notas das lojas.
— Vou acertar tudo quando receber — garanto. — Mais o valor que
você deu para o Simon.
Ele me lança um olhar duro.
— Por favor, se quisermos fazer isso, um de nós terá que ceder e essa
pessoa não será, eu — sou firme e ele assente.
— Se isso fizer você se sentir mais confortável… tudo bem, mas não
precisa das notas, eu tenho o extrato do banco — ele também responde firme
nas palavras e eu encolho os ombros.
Quase não o reconheço comparado a ontem e eu sei que não é culpa
dele e sim, minha, mas não posso baixar a guarda e deixar que ele tome a
frente de tudo.
— Conversei com a Madelyn — ele quebra o silêncio antes que eu vá
atrás de Aelin.
Viro-me para ele.
Ele cruza os braços, o gesto tão natural vindo dele, que parece uma
tentativa de se preparar para um confronto.
— Contei que vocês vão ficar aqui.
Minha expressão resiste imediatamente.
— Ainda não tinha parado para pensar se isso realmente é uma boa,
mas…
— É a única coisa que podemos fazer agora — ele me interrompe antes
que eu termine, e o tom calmo na voz dele me surpreende. — Sei que morar e
trabalhar aqui pode ser estranho pra você, principalmente nesse início, mas
vamos dar um jeito.
Não sei como responder. Ele não está errado. A casa dele não é minha
e, por mais que ele tente fazer eu me sentir segura, estar aqui, faz com que eu
constantemente me sinta uma intrusa.
— E o que você sugere?
— Madelyn sugeriu de você trabalhar lá na casa dela.
— Na casa da sua irmã?
— Sim — ele confirma, o olhar firme, mas sem julgamento. —
Madelyn acha que seria bom para você. Um pouco de espaço para não
estranharmos esses primeiros dias.
Sinto minha garganta ser pressionada. Ele está tentando me dar espaço,
não me afastar, mas isso não torna a ideia menos desconfortável.
— E quem vai ficar com Aelin? — pergunto, cruzando os braços de
novo.
Por um momento, ele hesita, e isso me deixa ainda mais apreensiva.
— Eu.
A palavra sai confiante, mas a ideia me atinge como um choque.
— Você?
— Sim, eu — ele repete, mais calmo agora. — É só por algumas horas
enquanto você trabalha. Aelin gosta de mim, e acho que podemos nos virar
bem.
— Christopher... — começo a protestar, mas ele levanta uma mão para
me interromper.
— Eliza, confie em mim. Não estou tentando tomar decisões por você,
mas acho que isso pode funcionar. Você vai trabalhar, vai estabelecer uma
rotina, e eu fico com a Aelin.
Olho para ele, procurando alguma falha no plano, algo que me dê uma
razão para recusar, mas a confiança que ele me transmite, me faz considerar.
— E se ela... — minha voz falha. — E se ela ficar muito no seu pé?
Você tem as atividades do quartel e às vezes ela consegue ser bem barulhenta
para chamar atenção. Tenho medo disso acarretar alguma crise de TEPT, ou
algo pior.
— Vou deixar ela à vontade brincando. Em todo o caso, ela não precisa
de alguém para conversar, só precisa de alguém para ouvi-la, acho que exerço
bem esse papel — ele diz com a voz despreocupada. — Sobre o barulho,
acho que vai ser um processo de bastante conversas com ela.
Suspiro, sentindo o peso de tudo o que aconteceu nos últimos dias.
Parte de mim quer recusar, quer continuar lutando sozinha, mas outra parte
sabe que ele está certo.
— Tudo bem — respondo, com voz baixa, ainda incerta. — Em todo o
caso, ela consegue se comportar sozinha. Eu posso deixar algumas tarefas pra
ela fazer sem fazer barulho.
Christopher concorda, determinado.
— Vai dar certo, Eliza. Prometo.
Quero acreditar nele. Eu realmente quero, mas, por enquanto, tudo o
que posso fazer é tentar.
Durante a tarde, Christopher vai para o escritório e eu decido tirar essas
horinhas a sós com ela, para conversar sobre como será nossa rotina a partir
de agora.
— Vamos passar um tempo aqui na casa do tio Christopher, tudo bem?
Ela franze a testa, confusa, mas não diz nada, apenas assente.
— A mamãe vai trabalhar em outro lugar, então o Christopher vai
cuidar de você. Preciso que se comporte, está bem? Sem muita bagunça ou
perguntas.
— Tudo bem, mamãe — ela responde, com uma determinação que me
faz sorrir. — Ele é o nosso amigo agora? — assinto para a pergunta dela.
— Sim, amor.
— Ele é bravo? — ela pergunta hesitando, provavelmente, se
lembrando do que aconteceu ontem.
— Ontem, o que aconteceu, não vai se repetir. Não vou deixar nunca
mais o Simon fazer o que fez.
— O tio Simon não é mais nosso amigo?
— Não, amor. Nós não vamos vê-lo mais, e o Christopher vai nos
ajudar para não precisarmos voltar para lá.
— Mamãe, mas e a minha sapatilha?
— O tio Chris já trouxe, não se preocupe — digo, abraçando ela por
alguns instantes. — Não precisa se preocupar com nada — garanto e ela
assente.
— Foi o tio Simon que te machucou?
— Não, filha. Esquece isso. Já passou, tá bem? — envolvo o rosto dela
e ela assente.
— Fiquei com medo. Ele rasgou sua roupa, por isso fomos comprar
novas?
As perguntas dela me atingem como se algo dentro dela ainda estivesse
agitado e processando o que ela presenciou. Isso me preocupa, porque Aelin
é o tipo de criança que está sempre tentando entender o que está sentindo e
faz isso através de perguntas para nós, buscando uma explicação plausível
para algum acontecimento e a noite de ontem, é algo que eu gostaria de
apagar da mente dela.
— Quer ver uma coisa? — mudo o assunto.
Ela se anima.
— Sim!
— Mas vamos combinar de parar de fazer perguntas sobre isso, certo?
O que aconteceu ontem, já acabou. A mamãe está aqui e está tudo bem. O tio
Chris é uma boa pessoa.
— Que tal se eu mostrasse pra ele que eu sei fazer espacate? — ela
sugere.
— Acho que seria uma boa ideia — concordo. — Mas quando ele
estiver no escritório, não é para interrompê-lo, nem quando ele estiver no
quarto dele. Não quero que entre lá, tudo bem? — começo dando algumas
instruções enquanto subimos até o andar de cima da casa.
Levo ela até o quarto do andar de cima que está vazio, sem nenhum
móvel e quando ela se depara com o espaço, ela me olha como se quisesse
que eu confirmasse a ela que realmente é real.
— Que tal? — começo falando enquanto ela adentra ao cômodo como
se estivesse medindo o espaço com os olhos.
— Mamãe, aqui é tão espaçoso — é a primeira coisa que ela pergunta.
— Nós podemos dançar juntas?
Assinto para ela, fazendo seus olhinhos azuis brilharem.
— Vai lá buscar suas sapatilhas — digo, mas seguro o braço dela antes
que ela saia correndo. — Lembre-se do que eu disse, sem correr e sem fazer
barulho — ela assente, aquietando-se.
— Espera paradinha, aí. Eu já volto — ela sussurra como se fosse um
segredo só nosso. — Mamãe? Que tal se você pegasse a sua sapatilha
também? — ela pergunta e eu encolho os ombros, lembrando-me do estado
em que Christopher as encontrou hoje.
— Não precisa, amor. A mamãe dança descalça — digo agradecida, e
ela deixa o quarto, voltando em menos de cinco minutos depois, com sua
bolsinha rosa de onde tira suas sapatilhas.
Ela as veste com pressa e me olha como se estivesse esperando eu
colocar uma música, mas me antecipo.
— Sem músicas, o tio Chris está no trabalho, lembra? — digo também
em tom de sussurro e estendo a mão para ela.
Aelin pega minha mão com as suas pequeninas, e nós duas nos
movemos para o cômodo vazio. O chão de madeira é frio sob meus pés
descalços, mas não me incomoda. É um espaço perfeito, sem móveis, apenas
uma janela grande que deixa a luz da tarde entrar e iluminar suavemente o
ambiente.
Ela me segue até o centro do cômodo, segurando minha mão com
força, como se precisasse da minha orientação.
— Vamos começar devagar, está bem? — sussurro, enquanto nos
posicionamos lado a lado.
Subo nas pontas dos pés, e Aelin imita o movimento com um sorriso
concentrado. A lembrança do passado, das horas de ensaio, da leveza que um
dia eu senti ao dançar, ameaça me engolir, mas o sorriso dela é um lembrete
de que este momento não é sobre mim.
É sobre nós.
Erguemos os braços juntos, formando arcos suaves enquanto damos
pequenos passos pelo espaço vazio. Aelin ri baixinho quando quase perde o
equilíbrio, e eu a seguro, rindo junto com ela.
— Assim, amor. Devagar. Controle o movimento — digo, ajustando
sua postura levemente com minhas mãos.
Ela tenta de novo, a língua entre os dentes enquanto se concentra. Desta
vez, seu movimento é mais fluido, e vejo o orgulho em seus olhos.
— Estou fazendo certo, mamãe?
— Está perfeito — respondo, meu coração se abre com a simplicidade
da pergunta.
Ela solta minha mão e dá um pequeno giro, os braços abertos enquanto
gira pelo espaço. Eu a sigo, deixando meus pés deslizarem pelo chão, o
movimento tão familiar que parece parte de mim.
— Agora você, mamãe! — Aelin diz, parando para me observar.
Dou um passo à frente, erguendo um braço enquanto o outro
acompanha a curva natural do meu corpo. Faço um giro simples, mas quando
paro e vejo os olhos dela brilhando, é como se tivesse feito a performance de
uma vida inteira.
— Você é a melhor bailarina do mundo, mamãe!
— Acho que você me superou — respondo, puxando-a para um abraço
rápido antes de voltarmos a dançar.
Por alguns minutos, esquecemos tudo. Não há Simon, não há medos,
não há perdas. Só há o som suave de nossos movimentos no chão de madeira
e o riso baixo de Aelin enquanto ela se esforça para imitar cada passo que
faço.
Quando finalmente paramos, ofegantes e sorrindo, ela se joga no chão,
tirando as sapatilhas com cuidado.
— Foi a melhor dança de todas, mamãe.
— Também acho — digo, me deitando no chão ao lado dela e
encaramos o teto, rindo cúmplices.
Ela se aninha no meu colo, segurando minhas mãos no ar.
— Podemos dançar de novo amanhã?
— Sempre que você quiser — respondo, beijando o topo de sua cabeça.
— Mas primeiro, a mamãe vai…
— Trabalhar — ela completa e eu assinto.
— Isso. Boa garota.
Ficamos ali no chão por alguns minutos, o silêncio confortável nos
envolvendo. Aelin está aninhada no meu colo, brincando com as fitas das
sapatilhas, enquanto eu passo os dedos pelos cabelos dela, tentando prolongar
esse momento de calma.
— Mamãe… — ela começa, sua voz quase um sussurro. — Quando
você dançava de verdade, você era feliz?
A pergunta me pega de surpresa, o peso dela caindo sobre mim como
um soco inesperado. Meu corpo fica tenso, mas me forço a sorrir para ela.
— Sim, eu era muito feliz.
Aelin me olha, seus olhos cheios de uma curiosidade, que parece ver
mais do que deveria para sua idade.
— Por que você parou?
As palavras dela apertam algo dentro de mim. Como explicar que parei
porque minha vida foi arrancada de mim, pedaço por pedaço? Que parei
porque o que antes era minha paixão se tornou uma lembrança dolorosa de
tudo o que perdi?
— Às vezes, as coisas mudam, Aelin — digo finalmente, escolhendo as
palavras com cuidado. — Mas isso não significa que eu não seja feliz agora.
Ela parece considerar isso por um momento, mas minha resposta não é
suficiente.
— Então por que você sempre chora?
Fico em silêncio, mas ela ergue a cabeça para me olhar.
— Às vezes eu acho que você não é feliz.
Suspiro me sentando.
— Às vezes os adultos choram um pouco, sabe? Mas isso não quer
dizer que a gente sempre está triste.
— Até o tio Chris, chora?
— Sim, até ele.
— Igual uma mulherzinha? — solto um riso com isso e ouço um riso
grave ecoar no corredor.
Minha atenção se volta para a porta e consigo ver o ombro de
Christopher, ali, escutando tudo. Ele percebe que foi flagrado e solta um
pigarreio.
— Tio Chris! — Aelin vai até ele e ele, constrangido pelo flagra, leva a
mão até a nuca. — A mamãe falou que você chora igual uma mulherzinha —
ela me dedura e nós três rimos.
— Aelin! — repreendo.
— Sabia que qualquer adulto pode chorar de vez em quando? —
Christopher se agacha para ficar da altura dela.
— Até homens grandões iguais a você? — ela pergunta.
Christopher assente.
— Então por que eu nunca vi você chorar?
Nós rimos de novo.
— Porque agora, é hora de ataque de cósquinhas — Christopher
anuncia, agarrando ela entre seus braços fortes, atacando ela com cósquinhas.
Ela começa a gargalhar.
Por um instante, ele direciona seu olhar para mim e eu sussurro um
“obrigada” para ele e ele diz de volta “de nada”, sendo pego desprevenido
por Aelin que tenta fazer cósquinhas nele de volta.
Olhando a interação dos dois de longe, é impossível não acreditar que
Aelin pode fazer bem para ele, assim como ela tem me feito aguentar tudo
desde que nasceu.
Acerto com Madelyn que irei começar a trabalhar na casa dela amanhã.
Ao anoitecer, dou um banho em Aelin e levo ela para a cama. Ela dorme
rápido, mas ainda é cedo para que eu vá dormir com ela também, então vou
para o banho, tirando esses minutos para ficar sozinha com os meus próprios
pensamentos.
A água quente escorre pelo meu corpo, enquanto fecho os olhos e apoio
a testa contra o azulejo frio, tentando silenciar os pensamentos que insistem
em me consumir.
A caixa de madeira aparece na minha mente como um lembrete cruel.
Quando abri e vi o estado do tutu, das sapatilhas, do meu collant, as
fotografias… foi como se Simon tivesse cortado partes de mim, não apenas
dos objetos.
Essas coisas não eram apenas lembranças. Era parte de quem eu fui
antes de tudo desmoronar, antes de me tornar uma mulher que vive com
medo e luta, dia após dia, para proteger minha filha. Ele sabia exatamente o
que estava fazendo. Sabia que isso iria me atingir.
Sinto um aperto no peito e respiro fundo, tentando afastar esse peso. A
água ainda cai, quente, mas a sensação de frio dentro de mim é impossível de
ignorar.
E então, há Christopher.
A imagem dele surge sem aviso, mas não é surpresa. O jeito como ele
lidou com Aelin hoje, o cuidado, a paciência… Ele não é o tipo de homem
que imaginei que existisse, não depois de tudo o que vivi. É confuso e
assustador pensar nisso.
Quando ele me deu aquele cartão para comprar coisas para mim e para
Aelin, vi algo diferente em seus olhos. Não era condescendência, nem
caridade. Era... genuíno. Sem esperar nada em troca.
Mas aceitar ajuda é algo que ainda me machuca, mesmo que venha de
alguém como ele.
Abro os olhos e desligo o chuveiro, o som da água sendo substituído
pelo silêncio abafado do banheiro. Enrolo-me na toalha e me encaro no
espelho. Meus olhos estão vermelhos, não sei se pelo calor do banho ou pelas
lágrimas que forcei a segurar o dia inteiro.
O corte na sobrancelha deu uma desinchada e o hematoma está
clareando.
Quando saio do banheiro, a casa fica silenciosa, como era antes de
Aelin vir para cá. Coloco uma roupa simples e prendo o cabelo ainda úmido
em um coque rápido antes de respirar fundo. Preciso falar com Christopher.
Desço as escadas e o encontro na cozinha, onde ele parece estar
limpando o balcão após terminar sua refeição, provavelmente só para se
manter ocupado. Ele levanta o olhar assim que percebe minha presença.
— Podemos conversar? — pergunto, hesitante.
Ele assente.
— Sobre amanhã — começo. — Só quero garantir que está tudo certo...
com a Aelin sozinha aqui com você.
Ele cruza os braços, encostando-se na ilha da cozinha.
— Está tudo certo. Vou ficar com ela enquanto você trabalha na casa
da Madelyn.
— Eu agradeço — digo, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas
quero que saiba que ela pode ser um pouco... intensa às vezes.
Christopher dá um pequeno sorriso, o tipo que quase não se percebe,
mas está lá.
— Acho que consigo lidar com isso.
— Se ela perguntar de mim, diga que volto logo e se ela ficar inquieta,
tente distraí-la com algo que ela goste. Ela adora dançar, então hoje mostrei a
ela o cômodo vazio. Caso ela te encha demais o saco, é só colocar as
sapatilhas nela e… — faço um gesto e ele assente, soltando um riso.
Christopher ouve cada palavra com atenção, como se estivesse
anotando tudo mentalmente.
— Eliza, vai ficar tudo bem — ele diz, interrompendo minha tentativa
de listar mais instruções.
— Eu sei — respondo, embora minha voz não carregue tanta convicção
quanto eu gostaria. — Mas tem o TEPT e…
— Falei hoje com uma psiquiatra e a Madelyn me passou o contato de
uma psicóloga — ele diz, me pegando de surpresa. — Só que dessa vez, uma
psicóloga de verdade.
Nós nos entreolhamos e soltamos um riso.
— Fico feliz que tenha decidido isso. Mas… porque decidiu assim, de
uma hora para a outra, buscar ajuda? — tento saber.
— Não quero colocar vocês duas em perigo, nem quero que você se
afaste de novo — ele é sincero e isso me pega de surpresa. — Quando eu
disse que não existia a possibilidade de abrir mão de você, estava falando
sério e isso inclui, resolver meus problemas para conseguir cuidar de vocês
duas.
Não consigo disfarçar um sorriso.
— Ah… nossa… — sou sincera ao demonstrar que não esperava essa
fala dele. — Que bom, mas… Christopher, você acha que está fazendo isso
por mim, ou por você?
— Por você — ele diz sem pensar muito e não sei dizer se a resposta
dele é boa ou ruim. — Eu quero você, Eliza e quero ser digno disso. Por
mérito, não por pena.
— Chris…
— Tenho certeza do que eu quero e se você ainda precisa desse tempo,
tudo bem, mas quero estar pronto quando você decidir dizer “sim” ou “não”
para nós dois.
Envolvo o rosto dele com delicadeza.
— Não existe a hipótese de eu dizer não para você — digo e ele solta
todo ar que parecia ter segurado.
— Então você é minha?
Ele é direto e sem conseguir ser rápida como ele no raciocínio, assinto
antes de processar uma resposta à altura.
O silêncio que segue é cheio de coisas não ditas. Olho para ele e vejo a
mesma firmeza de sempre, mas também algo mais: uma felicidade contida ao
saber que não irei a lugar algum, o que me desconcerta.
— Aelin gosta de você — digo finalmente, minha voz mais suave.
— Eu gosto dela também. Ela é... especial.
Sorrio, porque sei que ele está sendo sincero.
— Obrigada, Christopher. Por tudo.
Ele me observa por mais um momento antes de balançar a cabeça,
quase como se quisesse desviar o elogio.
— Vai dar tudo certo amanhã — ele diz novamente.
— Espero que sim.
Por um breve instante, nossos olhares se encontram. Há tanto que quero
dizer, mas não consigo encontrar as palavras. Então apenas dou um pequeno
sorriso e volto para o andar de cima, mas ele profere.
— Está se sentindo melhor?
Viro-me para ele.
Ele não explica o porquê da pergunta, então deduzo que ele se refira ao
momento em que ficou comigo enquanto eu me debulhava em lágrimas,
abraçada ao meu tutu despedaçado.
Dou meia-volta, preparando-me para falar.
— Aquele foi o tutu que eu usava nas apresentações — começo
falando. — Era tudo o que eu tinha para me lembrar de quem eu era antes,
mas eu vou superar.
— Sinto muito, Eliza.
Suspiro.
— Tudo bem. Era só um tutu idiota.
Christopher balança a cabeça, discordando.
— Não parecia ser idiota pra você. Eu vi as fotografias. A sapatilha. Vi
você dançando com a Aelin. Vi o quanto essa ainda é a sua paixão, então não
ouse dizer que era uma coisa idiota. É quem você é — ele começa a dizer e se
aproxima, envolvendo meu rosto. — Não sabia que poderia me apaixonar
mais por você, até ver você dançando com a Aelin hoje — ele confessa com
todas as letras, me olhando nos olhos.
Encolho os ombros.
— A Eliza que estava naquela caixa, morreu.
— Não diz isso. Não diz isso, amor. Não deixe te resumirem a uma
caixa.
Assinto, tentando acreditar no que ele diz e ele seca minhas lágrimas.
— Aquele não será o seu último tutu. Sua última sapatilha. Compro
quantas você quiser se esse for o problema. Faço um closet de tutu e collant
pra vocês duas, se isso fizer você se sentir melhor — Christopher garante,
mas balanço a cabeça, negativamente.
Subo as escadas e ele me segue, segurando a minha mão. Entro no
quarto que estou dormindo com Aelin e pego a caixa sem fazer barulho,
depois, nos direcionamos até o quarto dele.
Sento-me na beira da cama ao lado de Christopher e abro a caixa.
— Eu cresci no interior da Virginia, numa cidadezinha pequena e
simples. Nunca conheci a minha mãe. Ela morreu no parto, então a vovó me
criou. Ela diz que desde criança eu queria ser bailarina, então assim que pode,
ela me colocou numa escolinha de ballet perto de casa. Eu cresci fazendo
isso. Pratiquei e estudei tanto, que quando os anos se passaram, tinha que me
policiar para andar com a sola dos pés no chão — enquanto conto a ele,
mostro o meu álbum de infância, vestida de collant, coque e saias de tule.
Christopher folheia o álbum curioso, com atenção, vendo minhas fotos
de adolescente, com amigas em apresentações de eventos de caridade da
escolinha de ballet e até fotos me apresentando em eventos regionais da
cidade. Agora, a maioria delas está amassada.
— A vovó trabalhava muito para me manter na escola de ballet. Ela
fazia o possível e o impossível para que eu sempre tivesse uma sapatilha de
ponta boa, um tutu para as apresentações e sempre me dava collant novos,
bordados por ela — quando digo isso, tiro da caixa o único collant, que foi
picotado, com agressividade por uma tesoura.
Uma lágrima escorre pelos meus olhos.
— Eu tinha dezenove anos, quando um caça-talentos me encontrou. Ele
conversou com a vovó, disse que eu tinha talento e que conseguiria me
arrumar um teste na Juilliard School e que tinha certeza de que eu passaria e
ganharia uma bolsa integral. Disse que estava disposto a investir em mim e
que a vovó poderia me acompanhar. Que eu faria bastante sucesso e tinha
uma carreira promissora — mostro a Christopher a foto amassada do dia em
que fui fazer o teste. — Nós viemos para Nova York. A vovó largou tudo só
para me trazer para cá.
— E o que aconteceu depois disso? — Christopher tenta saber.
— Eu comecei a morar no campus da Juilliard. Estudando Belas Artes
em dança com especialização em ballet. Consegui um trabalho como
garçonete para ajudar a vovó, mas… — suspiro.
— Mas…? — Christopher me incentiva a continuar.
— Zion achava que eu deveria focar nos meus estudos, ou não teria
tempo para praticar. Os professores eram bem rígidos e ele me falava que se
eu não focasse, ia demorar mais para conseguir viver só do ballet. Que se eu
quisesse ser bailarina, não deveria dar espaço para ser garçonete. Ele se
ofereceu para me dar aulas particulares e eu aceitei. Larguei o trabalho como
garçonete e mergulhei de cabeça nas aulas.
— E por que você parou?
— A vovó começou a ficar mal. Precisava de alguém para ajudar nas
tarefas. Teve uma vez que ela caiu e eu só soube disso, depois que ela havia
voltado do hospital com o braço quebrado. Aquilo começou a me
desestabilizar. Ela só tinha eu, e, Nova York não fez bem para ela, que era
acostumada com a nossa cidadezinha lá no interior da Virgínia. Então
comecei a ter problemas com o Zion. Ele exigia muito de mim e eu comecei a
cometer erros graves nas aulas, nas provas, nas matérias.
— Ele te tirou? — Christopher deduz.
Balanço a cabeça negativamente.
— Não. Eu comecei a me abrir com ele. Explicar meus problemas, as
minhas preocupações com a vovó e dizer que, talvez, era melhor eu voltar
para a Virgínia com ela, ou parar com as aulas particulares dele e encontrar
um trabalho de novo para ajudar a vovó com as despesas, mesmo ela achando
que eu deveria focar nos estudos. Ele começou a me ajudar. Tanto
emocionalmente, quanto financeiramente. Começamos a passar muito tempo
juntos e eu… me apaixonei por ele.
Há silêncio quando faço uma pausa para engolir o nó que se forma na
minha garganta. Christopher aperta meu ombro para mostrar que está ali sem
me julgar.
— Começamos a nos envolver e ele alegava que precisava ser às
escondidas, porque ele era meu professor. Ele tirou minha virgindade e
depois disso, foi um precipício após o outro. Eu perdi meu foco. Minha vida
começou a girar em torno disso, do nosso relacionamento escondido, das
“aulas” particulares, das promessas de um futuro juntos e então, eu
engravidei. Depois disso, minha vida virou de cabeça para baixo. Ele dizia
que eu deveria esconder a gravidez, que não era para contar para ninguém
sobre nós dois, que ele estava preparando tudo para a gente poder se assumir,
mas… foi questão de dois meses até as pessoas começarem a perceber. Meu
rendimento começou a decair e antes, a aluna que sempre estava no topo,
começou a ser ultrapassada pelas outras. Todo mundo começou a comentar
que o Zion havia ficado mais ausente, ele começou a faltar nas aulas, disse
que teve problemas financeiros e não poderia me ajudar mais com a vovó…
— minha voz começa a embargar. — Até o dia que recebemos a notícia que
ele tinha sido transferido para uma escola na França. Ele tinha se mudado
com a família. A esposa e um menino de treze anos.
— Ah, Eliza… — é tudo o que Christopher consegue dizer quando um
soluço sai dos meus lábios.
— Eu fiquei completamente desesperada, assustada, com medo… sem
saída — confesso. — Liguei atrás dele, tentei dizer a verdade para a esposa,
mas ela não acreditou. Os collants começaram a ficar apertados, eu vivia
passando mal nas aulas, não conseguia me concentrar nas provas práticas e
isso se perpetuou até o dia que eu comecei a reprovar e perdi a bolsa.
“Fui morar com a vovó na casa do Simon e eu não sabia que ele era
agiota até realmente ir morar com a vovó e saber o que ele fazia com as
pessoas da vizinhança. O meu plano era nunca precisar dele a ponto de pegar
valores. Eu só não sabia que a maioria das agiotagens que ele fazia, era
alugando os cômodos que tinha distribuídos pelo bairro. Ele vivia me
rodeando quando estava grávida, começou a trazer presentes para Aelin, mas
sempre respeitou a gente quando a vovó ainda era viva. Aí o tempo foi
passando, ele tentava uma investida ali, aqui, aí a vovó adoeceu, os alugueis
começaram a atrasar, eu não consegui dar conta de tudo… e chegamos no dia
em que ela morreu. Depois disso, ele dominou tudo. Simplesmente achou que
eu… devia algo a ele além dos aluguéis e eu não consegui pôr um freio. Se
você não tivesse aparecido, Christopher, não sei o que teria acontecido. Não
sei mesmo.”
Christopher fica sem palavras. Demora um tempo para que ele encontre
as palavras certas, então continuo.
— Não dá para voltar no passado e consertar tudo. Minha oportunidade
já se foi, a única coisa que eu quero é que Aelin tenha essa chance também.
— Eliza, você é nova, pode prosseguir com o seu sonho. Eu posso te
ajudar.
— Mesmo assim, não me vejo mais fazendo isso — digo cabisbaixa. —
Eu só estou te contando isso, porque não quero que você pense que me
comprar o mundo vai ser o suficiente para apagar isso — aponto para a caixa.
— Quem eu fui antes e tudo o que aconteceu, é impossível de ser apagado,
Christopher. Essa caixa, era o lembrete que eu tinha para sempre me lembrar
que eu já fui alguém, já tive escolhas, já conquistei sonhos, e é isso o que eu
quero deixar para Aelin também. O que Simon fez, foi intencional, porque ele
sabia do meu passado. Sabia que eu me agarro nele todos os dias para dançar
nas ruínas que minha vida se transformou.
— Se você disser que de alguma forma isso pode ficar um pouco
melhor com ele morto, me fala que eu resolvo isso sem me afetar.
— Não.
— Mando caçar esse tal de Zion, faço ele engolir os próprios dentes,
piso na cara dele até…
— Christopher, não — viro-me para ele. — Zion nunca teve interesse
na Aelin e eu quero que tudo continue assim. Eu só quero que me garanta que
aqui é um lugar seguro, que possibilite ela crescer sem tantas memórias da
mãe dela triste.
Ele para, me olha, encolhe os ombros e assente, como se esse fosse um
pedido fácil demais para ele cumprir, como se ele quisesse dizer “ué, só
isso?”, como se ele fosse capaz de fazer isso de olhos fechados e eu sei que
sim.
— Eliza — Christopher diz, envolvendo meu rosto. —, eu servi dez
anos no exército e só parei, porque em uma missão nós fomos interceptados e
eu passei quase um mês em um buraco com meu amigo, esperando que o
resgate fosse chegar ou atento a qualquer rota de fuga.
“Ele ficou preso nos escombros, nós só tínhamos uma granada. Nesses
quase trinta dias, não houve um dia em que eu não tivesse me perguntando o
que eu estava fazendo ali, qual era o meu propósito e a troco de que, meu
amigo morreria por mim. Não tinha uma resposta e cheguei à conclusão de
que passei dez anos da minha vida, sendo treinado para não ter propósito
algum. Para a minha irmã que estava aqui, eu era o herói da pátria, lá, eu só
matava pessoas inocentes por comandos de um rádio que eu carregava. Vi
meu amigo viver os últimos dias de vida dele, preso nos escombros de uma
explosão, dizendo para mim, dia e noite, que era só eu correr. Era só esperar
o momento certo, porque eles achavam que nós dois estávamos presos
naqueles escombros, e eles nem vigiavam tanto a gente, mas eu fiquei lá,
tentando tomar essa decisão, porque sabia que, no momento em que eu desse
as costas, meu amigo explodiria aquela base, seria o herói, morreria com
honra, e eu? O que eu seria?”
“Todos os dias quando eu acordo, me pergunto porque estou aqui. E
agora com vocês na minha vida, ouvindo tudo o que você passou… Eliza,
minha missão de vida é fazer com que nunca mais você se sinta desse
jeito.”
Assinto para ele, colocando a caixa de lado.
— Você não precisa de uma caixa para se lembrar de quem você é.
Agora você tem a mim para te lembrar todos os dias o quanto você é uma
ótima mãe, uma mulher linda, e ainda é uma excelente bailarina. Você é. Isso
não ficou no passado.
O jeito convencido de que ele me diz isso é diferente de tudo que já
ouvi antes. Não há piedade, não há falsidade. Apenas uma verdade simples,
direta e tão poderosa que faz meu peito transbordar.
Passei tanto tempo sobrevivendo, que nunca parei para olhar o
propósito dessa luta. Sempre foi por Aelin, mas nunca pensei em mim. Nunca
achei que houvesse algo além de simplesmente seguir em frente, um passo
após o outro, sem cair.
Olho para ele, o rosto forte, marcado pelo cansaço, mas com olhos que
carregam mais do que ele deixa transparecer. A diferença entre mim e
Christopher é clara. Eu ainda tenho algo pelo que lutar: minha filha, meu
futuro. Ele, no entanto, parece perdido, como se a guerra tivesse tirado isso
dele.
Isso é tão triste.
— Sinto muito pelo seu amigo — digo finalmente, quebrando o
silêncio. — Mas você não é alguém sem propósito.
Christopher desvia o olhar, sua mandíbula se aperta, mas eu não paro.
— Se ele não tivesse salvo sua vida… eu e Aelin… — minha voz falha,
e eu respiro fundo antes de continuar. — Sei que você deve achar que a
guerra te tirou tudo, e principalmente o seu propósito de vida, mas você é um
homem bom, Chris.
Ele balança a cabeça levemente, como se não quisesse acreditar, mas
coloco minha mão em seu rosto, forçando-o a olhar para mim.
— Mesmo que seja difícil para você enxergar isso, eu também estarei
aqui todos os dias para te lembrar.
Enquanto acaricio seu rosto, vejo as lágrimas começarem a se formar
nos olhos dele. Ele tenta contê-las, mas falha. Elas deslizam por suas
bochechas silenciosamente, como se cada uma carregasse o peso de uma dor
que ele nunca deixou ninguém ver.
São lágrimas de chateação, de alguém que não consegue enxergar que
merece admiração ou cuidado.
— Você é bom — repito, minha voz mais baixa agora, quase um
sussurro.
Ele fecha os olhos por um momento, e quando os abre novamente, algo
mudou. Há uma vulnerabilidade ali que ele nunca me mostrou antes.
— Obrigado, Eliza — ele murmura, a voz rouca, transmite emoções
que ele claramente não sabe como expressar.
Antes que eu possa responder, ele segura minha mão que ainda está em
seu rosto. Seus dedos são quentes e firmes, mas gentis, como se quisesse ter
certeza de que eu estou realmente ali.
— Eliza… — ele começa, mas não termina. Em vez disso, se inclina,
seus olhos presos nos meus, como se procurasse permissão.
Não hesito. Não desta vez.
Quando nossos lábios se encontram, é diferente do beijo no corredor.
Não há urgência, apenas uma ternura silenciosa, um compartilhamento de dor
e conforto que parece tão natural quanto respirar. A mão dele desliza para
minha nuca, me puxando levemente para mais perto, e sinto uma onda de
calor que começa no meu peito e se espalha por todo o meu corpo.
O beijo é lento, mas carregado de algo que não precisa de palavras. É
uma promessa silenciosa, um entendimento mútuo de que, mesmo quebrados,
podemos construir algo juntos.
Quando finalmente nos afastamos, ambos estamos sem fôlego, mas não
há desconforto. Apenas o silêncio reconfortante de duas pessoas que
encontraram um pouco de paz uma na outra.
— Você vai ficar bem — digo, minhas mãos ainda em seus ombros.
— Espero que sim — ele responde, com um pequeno sorriso que quase
não se forma, mas está lá.
Sem dizer mais nada, ele me puxa para mais perto, nossos corpos
relaxando um contra o outro. Deitamos na cama, e ele me envolve com um
braço firme, mas gentil.
Por um momento, ouço apenas sua respiração, lenta e constante, e sinto
o calor do seu corpo ao meu lado.
Pela primeira vez em muito tempo, adormeço com a sensação de que
estou exatamente onde deveria estar.
No dia seguinte, desperto antes do despertador tocar. Abro os olhos
devagar, sentindo a luz tímida do amanhecer invadir o quarto. Por um
momento, fico onde estou, tentando prolongar a calma que sinto ao ouvir a
respiração tranquila e quente de Christopher. Estou deitada no peito dele,
enquanto seu braço envolve meu corpo, me mantendo junto a ele.
A noite anterior é uma lembrança que me faz sorrir. A conexão e o
conforto, é uma sensação de que ainda estou me acostumando.
Viro-me cuidadosamente para olhar para ele. Seu rosto está relaxado,
os traços firmes suavizados pelo sono. É raro vê-lo assim, livre das
preocupações que parecem sempre pesá-lo.
Mas o relógio na mesa de cabeceira me lembra que o dia já começou.
Levanto da cama com cuidado, tentando não fazer barulho. Aelin
continua dormindo no quarto dos hóspedes, e sem querer acordá-la tão cedo,
pego minha roupa que deixei dobrada em cima da cômoda e sigo para me
trocar, sem fazer barulho, sentindo uma mistura de nervosismo e expectativa.
Visto meu uniforme, aproveitando que não o devolvi e penteio meus
cabelos, deixando-os soltos. Quando termino de fazer o restante da minha
higiene, me olho de frente para o espelho.
Trabalhar na casa de Madelyn hoje, parece de alguma forma, um
recomeço.
Ao sair do quarto, encontro a casa silenciosa. Desço até a cozinha e
preparo um café rápido. Enquanto a cafeteira termina, uma pontada de
ansiedade me atinge.
Pego minha xícara de café e sento-me à mesa por um momento,
saboreando o líquido quente. É um breve momento de paz antes do dia
começar de verdade.
— Deveria ter me acordado.
A voz de Christopher me faz levantar o olhar. Ele está parado na
entrada da cozinha, ainda usa uma camisa de mangas curtas e calça de
pijama. Seus cabelos estão bagunçados, e há algo relaxado em sua postura
que contrasta com o homem tenso que conheci.
— Não queria acordar você — digo, dando um pequeno sorriso.
Ele se aproxima, pegando uma xícara para si, se juntando comigo à
mesa.
— Preparada para hoje? Para aguentar a minha irmã? — solto um riso
com a pergunta dele.
Dou de ombros, tentando parecer mais confiante do que realmente me
sinto.
— Acho que sim.
Ele me observa por um momento antes de falar novamente.
— Vai dar tudo certo.
— Espero que sim — respondo, dando um gole no café.
Quero agradecer pelo que ele fez ontem, por cuidar de mim de uma
forma que ninguém mais fez, mas as palavras não saem.
Sempre é difícil expressar o que sinto. Ele percebe isso e deve entender
depois da conversa que tivemos ontem.
— Aelin ainda está dormindo — ele comenta, como se soubesse que eu
estava prestes a perguntar.
— Vou acordar ela daqui a pouco. Quero deixá-la pronta antes de sair.
— Eu cuido dela — ele diz, tranquilizando-me.
Olho para ele, e o sorriso em seu rosto é pequeno, mas genuíno.
— Obrigado, Christopher.
Ele concorda, mas não diz mais nada.
Quando termino o café, levanto-me e começo a organizar minhas
coisas. O dia está apenas começando, mas pela primeira vez em muito tempo,
sinto que estou pronta para enfrentá-lo.
— Madelyn já me deu o endereço, então acho que já vou me preparar
para ir — anuncio.
Christopher assente.
— Posso te mandar mensagem caso tiver dúvida em alguma coisa com
a Aelin? — a pergunta dele me arranca um riso.
— Sim, deve — confirmo.
Christopher caminha comigo até a porta e antes que eu possa pensar
demais, ele se inclina. Seus lábios encontram os meus com uma gentileza que
quase me desmonta. Não há pressa, apenas um toque firme e caloroso de
despedida.
Minha mão sobe até seu peito, segurando a camisa como se precisasse
de apoio, enquanto ele coloca uma mão delicadamente em minha nuca,
puxando-me para mais perto. O mundo ao nosso redor desaparece, e por um
momento, tudo o que existe é ele.
Quando finalmente nos afastamos, ele ainda está perto, sua testa quase
encostando na minha, e seus olhos procuram algo nos meus.
— Vai dar tudo certo — ele repete, sua voz um sussurro agora.
Pela primeira vez, realmente acredito nisso.
Com relutância, dou um passo para trás e abro a porta. O ar fresco da
manhã me atinge, mas não faz nada para dissipar o calor que ainda sinto.
— Até mais tarde — me despeço, lançando um último olhar para ele
antes de sair.
— Até mais tarde — ele responde, e há algo em seu tom que parece
uma promessa.
Enquanto caminho pela rua, sinto o peso da manhã se dissolver um
pouco. Talvez, só talvez, as coisas realmente estejam começando a mudar.
O endereço que Madelyn passou, fica no bairro ao lado em que
Christopher mora, a uma distância que considero perto. É em uma área
tranquila e arborizada, muito diferente das ruas caóticas e desgastadas que eu
costumava percorrer quando morava na antiga casa.
A casa dela é imponente, mas não extravagante. Há algo acolhedor
nela, como se refletisse a personalidade de Madelyn. Toco a campainha e
espero, ouvindo o som abafado de passos vindo em minha direção.
Madelyn abre a porta ainda com seu pijama de dormir. Uma calça azul-
marinho e uma blusa de amamentação.
— Eliza! — ela exclama, surpresa e dá uma olhada para o interior da
casa, onde julgo ficar o relógio. — Entra.
— Eu te acordei? Desculpe — respondo, tentando esconder meu
nervosismo.
— Imagine, eu nem dormi ainda — ela comenta e meu peito pesa com
essa fala, me lembrando de quando Aelin nasceu e as noites que fiquei
acordada cuidando dela. — Sente-se um pouco, vou preparar o café.
Nego na mesma hora.
— Se não se incomodar. Posso fazer isso para você descansar um
pouco mais.
— Não está cedo demais para começar? Se quiser pode descansar um
pouco mais antes de começar os trabalhos.
O som de choro de bebê ecoa pela casa e ela encolhe os ombros.
— Preciso ir. Descanse até as oito, aqui em casa não trabalhamos com
muitas regras, então pode ficar tranquila.
— Madelyn — chamo.
Ela se vira.
— Pensando bem, se você quiser um apoio com o…
— Noah — ela completa a frase. — Ele se chama Noah.
Sorrio.
— Se quiser que eu te dê algum apoio com ele… Posso fazer isso,
enquanto você descansa.
Madelyn me olha como se eu fosse um anjo e sorri.
— Vai ser ótimo se você fizer isso — ela une as mãos. — Thomas, meu
esposo, ficou a noite inteira acordado comigo, mas precisou tirar uma soneca
antes de ir para a empresa. Ele vai precisar de pelo menos duas horas de sono
sem interrupções.
— E você também — acrescento e ela me olha agradecida, mas
hesitante.
— Noah está lá em cima — ela conta e eu a acompanho escada acima.
Sigo Madelyn até uma porta que leva ao quartinho de Noah. Assim que
ela a abre, o choro do bebê se torna mais alto, e vejo a tensão e o cansaço,
marcados no semblante dela.
Madelyn o pega do berço, embalando-o com suavidade enquanto
sussurra palavras de conforto. Ela parece saber exatamente o que fazer, mas é
evidente que está exausta.
— Tem certeza que você dá conta? — ela pergunta, num tom leve, mas
sem esconder a preocupação. — Às vezes parece que ele quer toda a atenção
só pra ele.
— Sim, eu dou conta — respondo com um sorriso tranquilo, pegando
Noah em meus braços com cuidado.
Seguro-o como fazia com Aelin quando era menor. Para minha sorte,
ele não estranha.
— Pode me dar uma blusa sua? Com o seu cheiro — peço. — Vou usar
para acalmá-lo.
Madelyn assente de imediato.
— Claro, só um minuto — ela sai rapidamente, voltando com uma
camiseta simples, mas limpa.
Acomodo Noah com o tecido junto ao meu peito. Seus olhinhos atentos
me observam, e ele parece relaxar quase que imediatamente.
— Acho que vai dar certo — Madelyn comenta, observando a cena
com uma mistura de admiração e alívio. — Bom, eu vou… tomar um banho,
lavar o cabelo, tentar me organizar.
— E dormir um pouco — completo.
Ela ri, quase sem jeito.
— É. Dormir um pouco. E… — hesita por um instante antes de
continuar. — As mamadeiras estão lá embaixo. Você sabe esquentar?
— Sim, não se preocupe.
— Ah, claro. Você é mãe — ela encolhe os ombros, mas antes de sair,
vira-se novamente, parecendo insegura. — Você amamentou a sua filha?
— Sim — respondo, mantendo o tom neutro.
Ela não parece feliz com a resposta, o que me faz perguntar:
— E você?
— Bem… — ela hesita, o olhar cabisbaixo. — Noah não consegue
mamar, então eu tiro e deixo reservado, mas acho que meu leite está secando.
Enquanto observo Noah, noto que ela desvia os olhos para o chão,
tentando disfarçar uma lágrima rápida que escapa.
— Ele tem chorado tanto ultimamente. Parece que está insatisfeito com
tudo. Talvez seja isso.
— Madelyn — digo em tom de repreensão suave. — Não pense assim.
Você está sem dormir, exausta. É normal se sentir sobrecarregada, mas não
deixe isso fazer você duvidar de si mesma.
Ela assente, um sorriso tímido, surgindo em meio às lágrimas.
— Obrigada.
— Não tenho dúvidas de que você está fazendo o seu melhor.
— Thomas acha que devíamos contratar alguém, mas eu quero dar
conta, sabe? — ela confessa, o tom de voz vacilante. — Eu saí da presidência
da empresa justamente para isso.
— Acho que você precisa de um tempo para descansar. Depois, talvez,
consiga pensar nisso com mais clareza.
Ela não responde, mas parece considerar minhas palavras.
— Tá bom. Vou dar uma descansada. Obrigada.
Com Noah ainda embalado junto ao meu peito, me concentro em
primeiro colocar ele para dormir e após colocá-lo no berço, passo o início da
manhã organizando o quartinho. Apesar do cuidado óbvio de Madelyn com
os detalhes, o espaço reflete o cansaço e o desespero de dias intensos com um
recém-nascido.
Recolho cueiros sujos, toalhas úmidas e separo as roupinhas para lavar.
Aproveito para retirar o lixo acumulado e encontrar lugar para descartar
cotonetes e embalagens de lenços umedecidos. Tudo feito no maior silêncio
possível para não acordar o bebê, uma habilidade que aperfeiçoei na casa de
Christopher.
Quando Noah acorda com resmungos suaves no berço, encontro um
wrap sling[3] e o uso para mantê-lo confortável no meu colo enquanto preparo
um banho para ele. No banheiro, ajusto a água até a temperatura ideal, desço
para preparar uma mamadeira e volto com tudo pronto para começarmos.
O banho começa com alguns protestos, mas logo Noah relaxa na água
morna. Depois, troco ele com cuidado, envolvo-o em uma coberta macia e
dou a mamadeira, que ele devora sem hesitar.
Noah adormece novamente, e um leve toque na porta me faz olhar para
cima enquanto estou repousando ele no berço. O homem que vi no sábado,
quando Madelyn foi à minha casa, aparece. Ele está ajeitando o laço da
gravata, mas para ao me ver e pergunta, analisando o quarto com atenção.
— Tudo bem aqui?
— Sim. Está tudo sob controle — respondo com um sorriso breve.
Ele se aproxima do berço, suspira e balança a cabeça como se tirasse
um peso das costas.
— Sou o Thomas, esposo da Maddie. Obrigado pela força. Não tem
noção do quanto a Madelyn está cansada.
— Dá para perceber.
— Deus que me perdoe, mas ainda bem que você veio para cá. Sei que
o
Chris está precisando também, mas… parece que ele deu uma melhorada, né?
Solto um riso baixo.
— Talvez vocês devam conversar sobre conseguir mais ajuda.
Thomas assente.
— Madelyn gosta de ser a super-heroína. Já tentei dizer que temos
condições de contratar quem ela quiser, mas acho que ela sente que seria
como admitir que não está dando conta.
Faço um som de compreensão, mas não digo nada.
Ele continua:
— Fico feliz que você esteja aqui. Ela só aceitou essa ideia porque
Christopher pediu. Espero que seus dias aqui, a convença.
Ele hesita antes de se despedir:
— Bem, vamos ver o que acontece. Obrigado mais uma vez.
Thomas sai, fechando a porta com cuidado, e volto minha atenção para
Noah, que dorme tranquilo.
Enquanto ele dorme, começo a realizar algumas tarefas da casa e
percebo o quão sozinha Madelyn parece estar. Não é uma solidão física —
ela tem o esposo que parece ser alguém presente, tem o apoio de Christopher,
mesmo que ele esteja lutando com seus próprios demônios, mas há algo em
sua postura, na maneira como ela faz tudo com eficiência, que grita sobre o
peso que ela carrega sozinha.
E então, me dou conta.
A vida não para.
Enquanto Christopher e eu estamos lutando para encontrar uma nova
rotina, para consertar os pedaços quebrados de nossas vidas, o mundo ao
nosso redor continua girando. Madelyn, apesar de tudo, está se mantendo em
movimento, encontrando maneiras de lidar com a maternidade, sem uma
figura feminina para ajudá-la, ainda mais sendo mãe pela primeira vez.
Começo a perceber que aceitar trabalhar aqui não foi só uma decisão
prática, foi a decisão certa. Madelyn precisa de alguém, não apenas para
aliviar sua carga física, mas talvez também para compartilhar um pouco das
suas inseguranças de mulher e desafios que tem enfrentado.
São onze da manhã quando ela acorda e vem ao meu encontro
desesperada, como se tivesse cometido um crime por dormir tanto. Eu estou
com Noah, nós estamos bem e ela parece aliviada ao ver isso.
— Deus! Você não sabe o quanto eu estava precisando desse sono —
ela diz num tom de desabafo.
— Eu e Noah fazemos uma boa equipe — digo para ela, que observa a
arrumação do quarto, satisfeita e grata.
— Nossa, como você consegue? Tem dias que eu ao menos consigo ir
ao banheiro direito — ela confessa, encolhendo os ombros, numa tentativa de
me elogiar.
— Os primeiros dias são assim mesmo — tranquilizo ela. — Você não
tem nenhuma rede de apoio que não seja o Thomas? — ela nega. — Bom,
prazer — digo ela sorri, com a expressão de alívio.
Ajudar Madelyn não vai consertar minha vida, nem vai apagar tudo o
que aconteceu, mas pode me dar uma direção, um propósito e, enquanto faço
isso, também posso dar a Christopher o espaço que ele precisa para lidar com
Aelin e, talvez, com ele mesmo.
Quando Noah solta um pequeno som e se aconchega em meus braços,
sinto uma pontada de algo que não sentia há muito tempo: esperança.
Talvez, só talvez, esse seja o primeiro passo para uma vida que não seja
apenas sobre sobrevivência.
Depois que Eliza sai, fico parado por um momento na sala, sentindo-
me… deslocado. Não tenho ideia de como vai ser o dia com Aelin. Não é
como se eu tivesse experiência com crianças ou um manual de instruções
para lidar com situações assim.
Decido começar pelo básico: o café da manhã.
Vou para a cozinha, organizo a mesa com o que consigo encontrar para
tornar o café atrativo para ela. Coloco pão na torradeira, separo a manteiga,
pego leite e chocolate em pó.
Quando o cheiro da manteiga derretida no pão tostado preenche o
ambiente, junto com os ovos mexidos, é como se fosse mágica, sinto uma
pequena presença se aproximando.
Levanto os olhos e vejo Aelin na escada, me espiando com curiosidade.
Ela está usando um pijama azul-turquesa com estrelinhas amarelas, e sua
expressão é ao mesmo tempo, tímida e intrigada, como se não soubesse
exatamente como agir comigo.
— Oi — digo, embora ela ainda sinta que eu não havia visto ela.
Ela põe a cabeça um pouco mais para fora, olhando ao redor,
claramente procurando Eliza.
— A mamãe já foi? — ela pergunta, sua voz baixa, quase sussurrada.
Assinto e puxo uma cadeira para ela, tentando parecer o mais natural
possível.
— Sim, ela já foi. Nós vamos passar o dia juntos hoje, lembra?
Aelin caminha lentamente até a mesa e sobe na cadeira que indico. Ela
parece menos animada hoje e mais tímida. Tento não demonstrar que isso me
preocupa, mas é difícil não me perguntar se ela está sentindo minha
insegurança.
— O que você quer que eu faça para você hoje? — pergunto, tentando
soar casual, enquanto coloco o pão e a manteiga sobre a mesa.
Ela brinca com a borda da toalha da mesa por um momento antes de me
olhar com olhos grandes e sonolentos.
— A mamãe vai demorar?
A pergunta dela me pega de surpresa. É simples, mas a forma como ela
a faz, com uma expressão que mistura esperança e medo, quase me desmonta.
Por um instante, penso que ela vai chorar. Minha primeira ocorrência é
me afastar um pouco, dar espaço para ela respirar.
— Não vai, não — digo, mantendo minha voz calma e segura. —
Quando você menos esperar, ela estará de volta.
Aelin me encara, seus olhos buscando algo no meu rosto, como se
quisesse encontrar a verdade por trás das palavras. Tento não desviar o olhar,
mantendo meu tom firme e reconfortante.
— Você promete? — ela pergunta, quase numa sussurrada.
Respondo sem hesitar:
— Prometo.
Isso parece ser suficiente por enquanto. Aelin pega um pedaço de pão e
começa a comer, embora ainda pareça distante. Eu a observo por um
momento, tentando entender como tornar o dia mais leve para ela.
Sei que não posso substituir Eliza, nem quero tentar. Mas posso estar
aqui, pelo menos hoje, e garantir que ela se sinta segura até que sua mãe
volte.
O silêncio é instalado na cozinha, mas não é desconfortável e, enquanto
penso em como lidar com o resto do dia, percebo que isso já é um bom
começo.
Depois do café, tiro a mesa enquanto ela vai para sala em busca da sua
boneca.
— Bom, eu… — quando começo a falar, ela ergue os grandes olhos
para me olhar, a expressão quase idêntica a de Eliza. Isso me desconcerta.
Só agora me dou conta de que Eliza deixou uma parte de si para trás e
confiou essa parte a mim. Sei que ela não é de expressar seus sentimentos em
palavras, mas, durante todo esse tempo, confiar Aelin a mim, foi sua maior
demonstração.
— Tio? — Aelin me traz de volta, esperando o que eu tenho para falar.
— Vou subir para o escritório, se precisar de alguma coisa… — ela me
interrompe.
— Vou poder ficar de pijama o dia todo? — ela questiona animada e no
momento em que ela diz isso, percebo no tom dela, que estamos quebrando
as regras que parecem ser da Eliza. — Sem escovar os dentes? — ela diz,
quase comemorando. — E sem pentear o cabelo?
— Pensando bem… — considero, levando a mão a nuca. — Acho que
pelo menos escovar os dentes… seria uma boa ideia. — digo e ela encolhe os
ombros. — Vem — chamo ela para o andar de cima. —, depois você brinca.
Subimos para o andar de cima da casa e eu a observo da porta escovar
os dentes usando uma escova dos Minions. Em seguida, ela caminha até mim
com uma escova cor de rosa e um elástico de cabelo.
Sem fazer a menor ideia de como começar a pentear o cabelo dela, faço
um sinal para que ela espere e desço até o térreo da casa, em seguida, abro o
YouTube e digito “Como amarrar cabelo de menina?” e assisto um vídeo
curto de tutorial.
Quando volto até o quarto, ela está com cara de entediada, me
esperando com a escova e o elástico.
Observo a juba castanha dela e junto o cabelo inteiro em uma das
minhas mãos, depois com a outra, laço o cabelo com o elástico, descartando a
escova. O cabelo dela vira uma moita presa e eu molho a mão e passo na
parte presa para conter os fios rebeldes, depois, vou no meu quarto, pego um
pouco do meu gel de cabelo da marca “Macho-Alfa” e passo para garantir
que o cabelo dela vai passar o dia inteiro no lugar.
Ela se observa no espelho.
— E aí, o que achou? — pergunto inseguro.
— Nada mal — ela diz satisfeita. — Posso ir assistir agora?
— Sim, vai lá. Vou estar lá no escritório — anuncio antes dela descer
as escadas.
Com os dedos ainda cheirando gel de cabelo masculino, subo a tela do
notebook, torcendo para que o resto do dia continue tranquilo assim.
No meu aplicativo de mensagens, a psicóloga que Madelyn me indicou,
já entrou em contato marcando um horário para uma consulta online e isso
me inquieta. Posso estar com boas intenções com Aelin e Eliza, ter procurado
auxílio psicológico e até aberto para Eliza um pouco do que passei, mas isso
não anula o quanto me assusta ter que mexer na casa de marimbondo que
minha mente é.
O escritório está em silêncio, exceto pelo som do teclado enquanto
digito relatórios que o coronel me pediu. A concentração na tarefa me ajuda a
afastar os pensamentos sobre tudo o que está acontecendo fora dessas
paredes.
A casa parece tranquila, e Aelin, até onde sei, está entretida na sala com
seus desenhos animados. Isso me dá um raro momento para focar
completamente no trabalho — ou pelo menos tento me convencer disso.
Estou revisando um relatório sobre alocação de suprimentos em bases
remotas, quando sinto uma presença perto da porta. Não levanto os olhos
imediatamente, mas sei que é ela. Aelin não bate, fica ali parada por vários
minutos, e achando que ela tem algo importante para falar, abro a porta para
ela.
— Está precisando de algo? — pergunto para ela que adentra o
escritório, curiosa.
— Oi, tio Chris — a voz de Aelin ecoa no cômodo.
Volto a me sentar na cadeira e encaro ela, segurando uma boneca com
os olhos cheios de curiosidade.
Ela acena com a cabeça, mas não se move.
— O que você tá fazendo?
— Trabalhando — respondo, tentando soar simpático.
Ela puxa a cadeira de frente para a minha mesa e sobe nela, apoiando
os cotovelos no tampo, com a boneca agora esquecida no colo.
— O que é o seu trabalho?
A pergunta me pega de surpresa. Fico em silêncio por um momento,
tentando pensar em como explicar para uma criança de cinco anos o que faço
no quartel, especialmente de forma que não pareça sombrio.
— Bom... Eu ajudo outras pessoas a organizar o que precisam para
fazer seus trabalhos.
— Tipo o quê?
— Tipo garantir que tenham comida, roupas, lugares seguros para
morar e ferramentas para trabalhar.
Ela me observa atentamente, a cabeça inclinada para o lado.
— E eles não conseguem fazer isso sozinhos?
Sorrio com a simplicidade da pergunta.
— Às vezes, não. Eles estão em lugares onde é difícil conseguir essas
coisas, então precisam de alguém que ajude a organizar tudo.
— Então você ajuda eles a não ficarem com fome?
— É, mais ou menos isso — respondo, impressionado com a facilidade
com que ela entende tudo.
— Então por que você nunca ajudou eu e a minha mamãe? — a
pergunta dela é como um chute no estômago, e ela balança a cabeça, como se
desaprovasse o que acabei de dizer.
— É que as pessoas que eu ajudo, estão na guerra — revelo, olhando
para ela.
Aelin pega a boneca novamente, mexendo nos cabelos dela, enquanto
me olha de novo.
— Na guerra?
— Sim. Eles lutam pelo nosso país.
— Você já foi na guerra também?
Dou um sorriso.
— Já, sim.
Ela parece satisfeita com a resposta e, por um momento, ficamos em
silêncio.
— Você gosta do seu trabalho, tio Chris?
A pergunta me pega de surpresa novamente. Olho para ela, para
aqueles olhos brilhantes e curiosos, e percebo que essa é uma questão que
não me respondo há muito tempo.
— Gosto, sim — respondo finalmente, embora minha voz carregue um
peso que ela, felizmente, não percebe.
— Você gosta de ajudar as pessoas, por isso está ajudando eu e a minha
mamãe?
— É, pequena — digo, e pela primeira vez em muito tempo, percebo
que isso é verdade.
Aelin sorri e se levanta da cadeira.
— Vou deixar você trabalhar agora, mas você não pode esquecer de
brincar comigo depois.
— Prometo que não esqueço — respondo, vendo-a sair do escritório
com a boneca nos braços.
Quando a porta se fecha atrás dela, a pergunta ainda ecoa na minha
cabeça: "Você gosta do seu trabalho?" olho para o monitor, mas minha mente
não está mais no relatório. As palavras borradas na tela não fazem mais
sentido. Não é a pergunta em si que me prende, mas o que ela implica.
Quando foi a última vez que realmente pensei sobre isso? Sobre o que faço,
sobre por que faço?
Talvez não seja o trabalho em si, mas o que ele representa: a ideia de
que, de alguma forma, estou ajudando. De longe, mas ainda assim, fazendo
algo que importa. Sempre achei que esse era o único propósito que me
restava, a única maneira de justificar minha existência depois da guerra,
depois de tudo o que perdi.
Mas hoje, algo mudou.
Aelin, com suas perguntas simples e sua curiosidade genuína, me
mostrou algo que não percebia até agora: não preciso estar fazendo atividades
do quartel para sentir que tenho um propósito.
Olho para o lugar onde ela estava sentada, ainda consigo ouvir o eco da
voz infantil e firme, perguntando sobre meu trabalho, como se estivesse
avaliando se eu era digno. Não era julgamento, era interesse puro, a
curiosidade de alguém que vê o mundo de forma tão inocente e
descomplicada.
Foi ela quem me lembrou que talvez meu propósito esteja aqui, não no
quartel, nem no campo de batalha, mas com elas.
Solto um suspiro, passando a mão pelos cabelos enquanto me inclino
na cadeira. A ideia me atinge como um soco no peito: eu posso ser
importante aqui, para elas. Não como um soldado, não como alguém que
organiza recursos para um batalhão, mas como alguém que está presente.
Pela primeira vez em muito tempo, a sensação de vazio dá lugar a algo
mais. Algo que quase não reconheço, mas que parece certo. Não sei o que
vem depois, não sei como será o amanhã, mas sei que quero estar aqui para
descobrir e é a primeira vez, desde que voltei que sinto isso.
De alguma forma, essas duas encontraram um jeito de me lembrar que
ainda há algo pelo que vale a pena lutar.
E isso é tudo o que eu preciso por agora.
A casa está tranquila quando Eliza chega por volta das quatro da tarde.
Aelin está na cozinha, preparando o lanche da tarde comigo, os pés
balançando no ar pela altura da cadeira enquanto ela canta baixinho uma
música que inventou. O dia foi mais simples do que eu imaginava.
Confesso que fiquei nervoso ao acordar e percebi que seria responsável
por ela, mas a verdade é que Aelin tornou tudo mais fácil. Ela é educada,
engraçada e tem uma curiosidade capaz de desarmar qualquer um.
Ela passou a maior parte do dia brincando e vendo desenho na TV.
Também tivemos nossos momentos de conversa, e mesmo esses foram
reconfortantes, como se ela já soubesse que estar aqui comigo é seguro.
Agora, enquanto coloco a mesa para o café da tarde, ouço o som da
porta se abrindo. Aelin levanta os olhos rapidamente, jogando a tarefa que dei
a ela de lado, correndo em direção ao hall de entrada.
— Mamãe! — ela grita, sua voz cheia de animação.
Sigo até a sala e vejo Eliza se abaixar para pegar a filha nos braços. O
sorriso que ela dá para Aelin é genuíno, mas cansado. Seus ombros estão
caídos, e há algo nos olhos dela que me faz parar.
— Como foi lá? — pergunto, me aproximando.
Eliza coloca Aelin de volta no chão, acariciando seus cabelos antes de
me olhar.
— Foi... bom — ela responde, mas há algo em seu tom que não me
convence.
— Mamãe! O tio Chris me deixou ficar o dia inteiro de pijama! —
Aelin conta.
— É, amor. Eu reparei — Eliza diz com tom de voz brincalhão e me
lança um olhar de repreensão.
Apenas dou de ombros em resposta.
— Cheira meu cabelo — Aelin pede para ela.
Eliza se inclina sobre a cabeça da filha e arqueia a sobrancelha.
— Ele passou o gel do cabelo dele em mim — Aelin conta, como se
Eliza precisasse de uma explicação.
Eliza me olha de novo.
— Foi só um toque para manter tudo no lugar — explico, levantando as
mãos como sinal de rendição.
— O que acha de tomar um banho agora? — Eliza sugere a ela.
Aelin assente.
— Vai lá, a mamãe já, já te alcança — Eliza orienta a pequena, tirando
o elástico de cabelo da cabeça dela.
Enquanto Aelin sobe as escadas, Eliza se senta no sofá, suspirando.
— Estávamos fazendo o café da tarde. Quer vir para a mesa? —
pergunto, mas ela balança a cabeça.
— Podemos conversar primeiro? — ela pergunta de volta, e algo no
tom de sua voz me faz perceber que há mais por trás do que está dizendo.
— Claro — digo, sentando-me ao lado dela.
Eliza hesita antes de começar a falar, percebo que o silêncio entre nós
não é desconfortável, mas cheio de algo esperando para ser dito.
— Então... como foi hoje lá na Madelyn?
Ela suspira, cruzando os braços como se quisesse se proteger.
— Foi difícil.
— Difícil como?
Eliza hesita, mas logo começa a falar.
— Ela está tentando fazer tudo sozinha em casa. E mesmo com seu
cunhado por perto, parece que ela está constantemente tentando dar conta de
tudo sozinha.
— Isso é a cara dela — respondo, o rosto de minha irmã vindo à mente.
Eliza me observa, como se quisesse medir minha reação antes de
continuar.
— Madelyn precisa de ajuda. Não só com a casa ou com Noah, mas...
emocionalmente também.
— O que quer dizer com isso?
— Não sei ao certo — ela admite, sua voz mais baixa. — Mas hoje,
enquanto eu estava lá, vi uma mulher que está tentando se manter inteira, mas
está claramente sobrecarregada e deprimida. Ela não está conseguindo
amamentar o Noah e isso está abalando bastante ela, não sei se é por causa do
estresse…
Fico em silêncio, deixando suas palavras pairarem no ar.
Conheço Madelyn. Sei que ela é forte, mas até os mais fortes têm
limites.
— Você acha que a preocupação comigo contribuiu para isso? —
pergunto e ela assente na mesma hora.
— Não tenho dúvidas — Eliza diz. — Nesses últimos dias ela esteve
bem envolvida com o que aconteceu com a gente. Foi até minha casa…
— É. Eu deveria ter tido mais… — as palavras me faltam. — O meu
cunhado Thomas havia me dito que ela estava mais sensível nesses dias. Eu
deveria ter me atentado a isso.
— Sim. Mas tudo bem. Hoje eu fiquei bastante com o Noah. Ela teve
um bom descanso, mas acho que não deveríamos mais deixar ela tão a par do
que está acontecendo aqui, porque ela e o Thomas, estão bem
sobrecarregados — Eliza me aconselha. — Quero ajudá-la o quanto puder,
então... fizemos certo ao separar as coisas.
— Eu posso ajudar em algo também? — pergunto finalmente.
— Não — Eliza garante. — Acho que a Madelyn precisa de uma figura
feminina com ela. Ainda mais nesse período em que ela está mais vulnerável.
Sensibilidade é algo que Eliza entende mais do que ninguém.
— Vocês não têm mais nenhum familiar próximo? — Eliza pergunta
com cuidado.
— Não. Nossos pais morreram num acidente de carro. Temos tios, mas
nenhum tão próximo. A verdade é que nossos pais eram empresários, donos
da construtora que Madelyn e Thomas tocam hoje, e depois que eles
morreram, apareceram vários familiares interessados em nos dar suporte. No
fim, foi melhor mantê-los longe. Depois eu fui para o exército e ela ficou
sozinha. A minha irmã sempre foi bem independente em relação a isso, mas
você está certa, ela estava precisando de uma figura mais delicada perto dela.
Eu e Thomas a amamos, mas ainda assim, deixamos esses detalhes passarem
despercebidos.
— Sinto muito pelos seus pais — Eliza lamenta. — Bom, e você e a
Aelin? — ela pergunta, mudando o foco do assunto.
Sorrio de leve.
— Bem, ela começou o dia me espionando.
— Espionando? — Eliza ri, e é um som que me surpreende pela
suavidade.
— Sim — confirmo, acenando com a cabeça. — Estava descendo a
escada devagar, achando que eu não tinha percebido, mas ela não é tão
discreta quanto pensa.
— Ah, sim — Eliza responde, sorrindo. — Ela tem esse hábito. Gosta
de observar antes de se aproximar.
— Bom, funcionou por um tempo. Mas quando o cheiro do café e do
pão na torradeira começou a dominar o ambiente, ela apareceu.
Eliza cruza os braços, inclinando a cabeça como se quisesse avaliar
cada palavra que estou dizendo.
— E depois? — ela tenta saber, como se fosse importante saber tudo o
que aconteceu no nosso dia.
— Foi tranquilo. Comemos juntos, e depois ela começou a me fazer
perguntas sobre meu trabalho.
— Sobre o seu trabalho? — Eliza pergunta, parecendo preocupada.
— Sim. Ela queria saber o que eu faço — dou uma risada baixa,
lembrando da conversa. — Tentei explicar de forma simples, mas ela parecia
muito interessada. Até disse que eu ajudo as pessoas a não ficarem com fome.
— Isso soa como algo que ela diria — Eliza murmura, sua expressão se
suavizando.
— Também descobri que preciso ver alguns tutoriais sobre penteados
de cabelo. Aí tive que passar um gel para dar uma disfarçada. Também não
sabia se ela sabia pôr a roupa sozinha, então preferi deixar ela de pijama
mesmo. Esquecemos de conversar sobre isso — respondo. — Mas tirando
isso, o dia foi tranquilo.
— Isso me deixa aliviada — Eliza diz, relaxando os ombros e vejo a
emoção em seus olhos enquanto ela absorve minhas palavras. — Obrigada
por isso, Christopher. Por cuidar dela.
— Não precisa me agradecer — digo suavemente. — Foi um dia bom,
para mim também.
Ela me observa por um momento, como se estivesse tentando decifrar
algo em meu rosto.
— Ela gosta de você, sabe? — diz finalmente, a voz baixa.
— Eu também gosto dela — respondo com sinceridade.
Olho para Eliza e vejo o cansaço em seus olhos, mas também algo mais
como gratidão, talvez, ou esperança.
— Senti sua falta — digo finalmente, quebrando o silêncio.
— Achei que ficaria aliviado.
— Claro que não. Me acostumei com você, com seu silêncio, seus
passos cuidadosos pela casa — começo a dizer e vejo seu rosto corar
enquanto ela desvia o olhar, mas eu não deixo, viro seu queixo para mim.
Quando ela volta a me encarar, há um pequeno sorriso em seus lábios.
— Também senti sua falta — ela confessa, abaixando os olhos, tímida.
Quando estamos perto de nos beijar, Aelin grita do banheiro.
— Mamãe! Esqueci a toalha!
Colamos nossas testas sorrindo cúmplices.
— Sempre vai ser meio complicado com ela acordada, sabe? — Eliza
diz sem jeito, mas eu balanço a cabeça.
— Não precisa se preocupar, temos a noite toda — digo baixo e ela
assente, suspirando ao dar as costas, um suspiro de alguém que adiantaria as
horas do relógio se pudesse.
A noite se aproxima, a casa fica em um silêncio confortável, quebrado
apenas pelo som suave da televisão na sala. Aelin está deitada no sofá,
coberta por uma manta, vendo seu desenho animado favorito: Minions.
Desde que viemos para a casa de Christopher, ela não desgruda da TV,
talvez porque não tínhamos uma e agora, vejo a falta que fazia para ela.
Lavo os últimos pratos do jantar, enquanto minha mente vagueia pelos
eventos do dia. Christopher ficou quieto desde que terminamos de comer,
mas quando aparece na cozinha, seu rosto parece carregado por apreensão.
— Vou ter minha primeira consulta hoje. Com uma psicóloga — ele
diz isso com uma firmeza que parece restrita, como se estivesse tentando me
convencer de que está tudo bem, mas seus ombros tensos e a maneira como
ele evita meu olhar, dizem o contrário.
— É mesmo? — respondo, animada, secando as mãos no pano de prato
enquanto me aproximo dele.
Ele assente, cruzando os braços e solta um suspiro, como se o simples
fato de anunciar uma consulta já fosse um peso.
— Vai ser online, no quarto. Pedi para marcar à noite para não
atrapalhar minha rotina com a pequena.
— Não se preocupe — digo suavemente. — Vou manter Aelin aqui
embaixo.
— Obrigado. Acho que não vai demorar tanto.
Christopher não espera por mais perguntas e sobe as escadas. Fico
parada por um momento, observando-o ir, antes de voltar minha atenção para
Aelin.
— Amor, que tal ouvir uma história antes de dormir? — pergunto,
abaixando o volume da TV. — Acho que você já viu TV demais por hoje,
não?
Ela me olha, pensativa, antes de pular do sofá e correr para pegar seu
livrinho de histórias que compramos quando fomos ao shopping.
Passo os próximos quarenta minutos distraindo Aelin. Lemos um conto,
depois outro. Ela ri suavemente enquanto brinco com as vozes dos
personagens. Quando finalmente começa a bocejar, pego-a no colo e a levo
para o quarto.
— Mamãe, o tio Chris ainda está trabalhando?
— Sim, amor. Ele está ocupado agora.
— Eu queria dar boa noite para ele.
— Pode deixar que eu mando o recado para ele — digo, cobrindo ela
com o edredom.
Aelin não debate, apenas aceita a resposta e se vira para o lado se
aconchegando nas cobertas. Quando ela está com os olhos quase se fechando,
beijo sua testa, murmurando um "boa noite".
O silêncio, desta vez, parece mais pesado, mas tento ignorá-lo e vou
para o banho, onde lavo meus cabelos. Essa é a hora do dia que sempre me
permito apreciar sem pressa. Minha rotina com Aelin sempre foi assim.
Gosto de dar o máximo de atenção para ela e então, quando ela dorme, faço o
que preciso fazer com calma.
Quando saio do banho, percebo que Christopher ainda não saiu do
quarto. Não há som de passos no corredor, nem a luz do andar de baixo está
acesa. Algo dentro de mim me impulsiona a verificar.
Paro em frente à porta do quarto dele, hesitando por um momento antes
de bater levemente.
— Christopher?
Nenhuma resposta.
Bato novamente, desta vez com um pouco mais de força.
Ouço um soluço abafado do outro lado, e meu coração aperta. Giro a
maçaneta e empurro a porta devagar, encontrando-o sentado na beira da
cama, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa.
— Chris? — minha voz sai suave, quase um sussurro.
Ele levanta o olhar, e o que vejo nos olhos dele, me faz esquecer
qualquer hesitação. Não é apenas cansaço, é um abismo de dor, algo que ele
tenta esconder, mas que escorre pelos olhos dele em forma de lágrimas.
— Foi mais difícil do que eu pensei — ele murmura, a voz rouca, o tom
de voz de alguém que falhou.
Entro no quarto e fecho a porta atrás de mim, aproximando-me com
cuidado.
— Quer falar sobre isso?
Ele balança a cabeça, mas não me manda embora.
— Não sei como colocar em palavras. Foi como abrir uma caixa cheia
de coisas que mantive trancadas por tanto tempo... e de repente, tudo saiu.
Sento-me ao lado dele, respeitando o espaço que ele parece precisar,
mas ainda perto o suficiente para que ele saiba que estou aqui.
— Às vezes, abrir essa caixa é o único jeito de seguir em frente.
Ele solta uma risada baixa, sem humor, passando a mão pelo cabelo.
— Só que eu nem sei o que fazer com tudo o que saiu dela.
— Você não precisa resolver tudo de uma vez — digo, colocando uma
mão no braço. — É um processo, Chris. Um passo de cada vez.
Ele me olha, e por um momento, parece que vai desmoronar.
— Você acha que tem jeito pra mim? — A pergunta sai tão baixa, tão
cheia de dúvidas, que meu peito aperta.
— Claro que tem — respondo, sem hesitar. — Olha para o quanto você
já evoluiu. Você é forte, mesmo que não veja isso agora.
Ele me encara por um momento antes de balançar a cabeça, lentamente.
— Você pode ficar um pouco aqui? — Christopher pede, a voz baixa,
quase um murmúrio.
Seu pedido me pega de surpresa.
— Claro — respondo, apertando levemente o ombro dele em um gesto
de conforto. — Aelin já foi dormir.
Ele concorda, os olhos pesados de cansaço e algo mais, algo que ele
não está dizendo. Christopher passa a mão no rosto, secando os vestígios das
lágrimas que ele acha que não vi.
— Se algo acontecer... — ele começa, abrindo uma gaveta ao lado da
cama. — Acha que consegue usar isso?
Minha respiração falha quando vejo o que ele tira da gaveta: uma arma
de choque.
— O quê? Por quê? — questiono, minha voz saindo em tom de
negação automática.
— Sabe usar? — ele insiste, ignorando meu tom.
— Não — respondo imediatamente, balançando a cabeça.
Christopher mantém a calma, mas a rigidez em sua postura e as mãos
trêmulas, me obrigam a escutá-lo.
— É só apertar aqui do lado — ele diz, mostrando o botão e colocando
o objeto em minhas mãos.
O peso da arma de choque é desconfortável, quase como se queimasse.
Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, ele se afasta e entra no banheiro,
deixando-me sozinha com o objeto.
— Christopher... — começo, mas ele já encostou a porta.
Sigo até a entrada do banheiro, hesitando por um momento antes de
empurrar a porta entreaberta.
Ele está sentado no chão, debaixo da ducha ligada. A água escorre
sobre ele, encharcando seus cabelos e a camiseta, que ele se prepara para
tirar. Quando o vejo sentar-se novamente, desta vez só de calça, abraçando os
joelhos e enterrando a cabeça entre eles, algo dentro de mim se parte.
— Ah, Christopher... — murmuro, incapaz de segurar o lamento que
sai da minha garganta.
Meus olhos rapidamente se enchem de lágrimas, e eu respiro fundo,
tentando me recompor antes de me aproximar mais um pouco.
— Chris... — chamo baixinho, sem querer invadir mais do que ele
permita.
Ele não responde, mas também não me manda embora.
— Estou aqui — digo, minha voz embargada.
Fico ali por um momento em silêncio, apenas observando, esperando
que ele sinta que não precisa enfrentar isso sozinho.
Depois de alguns minutos, decido tomar uma iniciativa. Largo a arma
de choque no lavatório e me aproximo dele, como fiz no meu primeiro dia de
trabalho aqui.
Sento-me no chão ao lado dele, enquanto o som da água ainda cai,
misturada ao choro dele ecoando pelo banheiro. Christopher continua ali,
encolhido sob a ducha, os ombros tremendos com soluços silenciosos. Meu
peito aperta ao vê-lo assim, tão vulnerável, tão distante do homem firme e
controlado que ele sempre tenta ser.
Por um momento, fico em silêncio, respeitando o espaço que ele
claramente precisa. Ao mesmo tempo, não posso ignorar o impulso de ajudá-
lo, de mostrar que ele não está sozinho. Então eu o puxo para mim e o abraço.
— Tudo bem, tudo bem — digo, acariciando seus cabelos.
A missão era para ser simples. Uma infiltração em uma base suspeita, seguida de uma coleta
rápida de informações. Não foi a minha primeira vez em território hostil. A equipe estava qualificada,
ou pelo menos achávamos que estávamos.
Kevin e eu estávamos juntos desde o início daquela missão, designados como dupla por conta da
nossa sincronia. Ele era o estrategista, o cara que sempre planejou um passo à frente. Eu era a força
bruta, o executor.
Entramos na área de operação ao anoitecer, usando o manto da escuridão para nos camuflar. A
base era menor do que esperávamos, mas bem protegida. Nosso trabalho era mapear os pontos de
entrada e saída, identificar os movimentos do grupo inimigo e transmitir os dados para o comando
central.
Tudo estava indo bem até que percebemos o movimento estranho. Homens se deslocando com
rapidez, posicionando-se como se soubessem exatamente onde estávamos.
— Algo não está certo — Kevin sussurrou através da rádio, e eu concordei, o estômago
apertando com a sensação de que estávamos sendo observados.
Decidimos recuar e aguardar reforços, mas foi aí que tudo desmoronou.
Explosões ecoaram ao nosso redor, cortando a noite com flashes de luz e ondas de choque que
nos jogaram no chão. O solo sob nossos pés tremeu, e a poeira encheu o ar, dificultando a visão e a
respiração.
— Merda! — Kevin berrou.
Tentei puxá-lo para um abrigo improvisado, mas outro estrondo nos jogou contra a parede de
concreto que marcava o limite da base. Foi aí que percebemos que a situação era muito pior do que
pensávamos.
— É uma emboscada — murmurei, meus olhos varrendo a área em busca de movimento.
Kevin balançou a cabeça, os olhos brilhando de frustração.
— Eles sabiam que viríamos.
Nossa rádio estava estática, cortada. O comando central não tinha ideia do que havia
acontecido. Estávamos sozinhos.
Tentamos nos reorientar, mas a situação só piorava. Durante uma confusão, uma explosão
maior atingiu uma estrutura onde estávamos nos abrigando, desmoronando parte do teto e nos
prendendo.
Kevin foi o primeiro a perceber a gravidade da situação.
— Chris... minha perna.
Olhei para baixo e vi a viga que o prendia. Ele tentou se mover, mas era impossível.
— Calma, vou tirar você daí — eu disse, minha voz mais firme do que me senti por dentro.
Comecei a tentar erguer a viga, mas era inútil. Cada tentativa só fez Kevin gritar de dor.
— Para! — ele berrou, respirando com dificuldade. — Você vai acabar me matando antes dos
inimigos.
Olhei ao redor, procurando uma saída, mas estávamos presos. As explosões deixaram o local
cheio de destroços.
— Eles acham que estamos mortos — Kevin disse, sua voz cansada, mas ainda analítica. — Essa
é a nossa vantagem.
Eu sabia que ele estava certo. O grupo que nos emboscou não estava mais ali. Para eles, éramos
apenas mais dois soldados eliminados ou se ainda vivos, não durariam muito.
— Chris, escuta — Kevin continuou, apontando para a granada que ainda estava presa no meu
colete. — Quando chegar a hora, você vai usar isso — ele disse, em tom de ordem, me mostrando uma
granada. — Vai abrir caminho e sair daqui.
— Não — respondi automaticamente, mesmo sabendo que ele estava pensando no plano mais
lógico.
— Você não tem escolha — ele insistiu, seu olhar sério.
Ficamos ali pelo tempo que ele precisar, até meu corpo começar a
tremer de frio por causa da ducha fria, mas não me importo, deixo que ele se
agarre a mim até seus soluços diminuírem e ele se dar conta novamente de
onde está.
Christopher levanta a cabeça lentamente, os olhos vermelhos e o rosto
molhado, não apenas pela água, mas também pelas lágrimas. Em silêncio,
desliga a ducha e encolhe os ombros.
— Desculpe — ele murmura, quase inaudível.
— Não peça desculpas — respondo, inclinando-me um pouco mais
perto. — Não por isso.
Ele solta um suspiro trêmulo.
— A psicóloga disse que são crises de ansiedade. Que se eu aprender a
reconhecer quando elas estiverem se iniciando, eu consigo controlar os
ataques de pânico que sempre vêm a seguir e o TEPT vai melhorar. Ela falou
que preciso ver uma forma positiva de encarar isso. Ressignificar essas
lembranças. Que preciso identificar qual é o gatilho que sempre me traz para
cá. Ela disse que o TEPT não tem cura, mas que a gente pode controlar, e isso
só depende de mim, se eu quiser. Eu só queria que isso acabasse de vez,
porque eu quero que você e a Aelin fiquem seguras comigo e agora, eu nunca
vou poder te garantir isso — ele diz sem pausa, angustiado, como se tivesse
chegado ao fim da linha.
— Ei — envolvo o rosto dele. — Nós vamos ficar bem.
Ele nega, desacreditado.
— Eu sei que você não quer isso para a sua filha, Eliza — ele admite, e
a honestidade crua em sua voz me tira o ar.
Levanto-me devagar, pegando a toalha e estendo, colocando-a sobre os
ombros dele, mas ele não se levanta.
— Você não precisa fazer isso sozinho — digo, segurando o tecido da
toalha para que ele a mantenha sobre si. — Eu estou aqui, e não vou em lugar
nenhum. Não deixa isso te abalar. Você e a Aelin tiveram um dia ótimo
sozinhos. Eu confio em você.
Ele olha para mim, por um momento, arrependido. Vejo nos olhos dele
a dúvida, o medo.
— Talvez seja melhor... — ele começa, mas sua voz falha.
— Um dia de cada vez — completo suavemente, interrompendo-o
antes que ele termine a frase. — Pode ser? Um dia de cada vez?
Christopher hesita, como se estivesse lutando contra algo maior do que
ele.
— Não vou desistir de você. Não agora — digo, e percebo o tom de
desespero na minha própria voz, com a simples hipótese dele me afastar de
novo.
Christopher repara em mim. As roupas molhadas grudadas enquanto
permaneço de joelhos ao lado dele, segurando uma toalha em seus ombros
nus. Ele me observa, como se só agora, tivesse percebido a proporção que
esse momento tem.
É exatamente como o primeiro dia que vim trabalhar aqui, só que
agora, a atração que sentimos um pelo outro, é nítida, impossível de ser
ignorada.
— Eliza... — ele murmura, mas não o deixo completar.
Antes que ele possa dizer mais alguma coisa, me inclino para ele,
deixando que meu rosto se aproxime. Minhas mãos ainda seguram a toalha,
mas agora estão paradas, indecisas. O calor que emana do seu corpo molhado
me faz estremecer, mas não é o frio que me atinge, é o calor dele.
— Estou aqui — digo, minha voz um pouco mais baixa, mas num tom
de súplica.
Suplicando por algo que não sei nomear.
Ele fecha os olhos por um momento, como se estivesse tentando se
convencer de que é seguro se render. E então, algo nele cede.
Christopher se inclina para frente, seus lábios encontrando os meus de
forma lenta, quase hesitante. É um toque suave no início, como se ele ainda
estivesse testando os limites, mas eu não hesito. Minhas mãos sobem para
seus ombros, segurando-o com firmeza, enquanto a toalha desliza para o
chão.
O beijo se intensifica, e é como se algo dentro de mim se quebrasse e,
ao mesmo tempo, se reconstruísse. Não é apenas desejo, é necessidade, a
busca por calmaria em meio ao caos que estamos.
Ele me puxa levemente para mais perto, suas mãos firmes encontrando
a minha cintura. Quando subo no colo dele, sinto seu corpo reagir ao meu, o
calor de sua pele úmida pressionada contra mim, e meu coração dispara.
Christopher faz uma pausa, os olhos encontrando os meus com uma
intensidade que me faz esquecer de respirar.
— Tem certeza que quer isso agora? — ele pergunta, sua voz rouca,
ainda contém hesitação.
— Tenho — respondo sem pensar, porque não há mais dúvidas em
mim.
Seus lábios encontram os meus novamente, desta vez com mais fome,
mais urgência. Minhas mãos descem por suas costas largas, sentindo seus
músculos. Quando suas mãos deslizam pela lateral do meu corpo e se fixam
na curva da cintura, um arrepio percorre a minha espinha.
Com um movimento firme, ele me ajusta sobre ele, em seu colo, e um
suspiro escapa dos meus lábios quando sinto a pressão que ele faz
propositalmente sobre mim. Meu corpo reage automaticamente, movendo-se
contra o dele, e o som rouco que ele solta contra minha boca, intensifica
ainda mais o calor que se espalha por mim.
Eu o ajudo a desabotoar seu jeans, meus dedos levemente trêmulos
enquanto deslizo os botões com cuidado. Ele não diz nada, apenas me
observa, seus olhos fixos nos meus com uma intensidade que quase me faz
hesitar, mas não há dúvidas em mim, não agora.
Com um movimento decidido, ele se levanta suavemente para facilitar,
e eu afasto a calça junto com a cueca que ainda nos separa.
Christopher desliza suas mãos até a barra da minha blusa, agora
ensopada e grudada ao meu corpo. Ele hesita por um momento, os olhos
encontrando os meus como se pedisse permissão. Assinto levemente, minha
respiração irregular, e ele a remove com cuidado.
O ar frio do banheiro toca minha pele exposta, enviando um arrepio
pela minha espinha, mas logo é substituído pelo calor de suas mãos. Suas
palmas grandes e firmes deslizam por minhas costas, me puxando para mais
perto.
— Você é linda — ele murmura, quase como se fosse para si mesmo,
mas as palavras me atingem com força.
Sinto meu rosto aquecido, não pelo constrangimento, mas pela forma
sincera como ele diz isso, como se estivesse enxergando algo que eu há muito
tempo não consigo ver.
Meus dedos encontram o caminho de volta aos seus ombros, subindo
até seus cabelos molhados, e puxo-o para mais perto. Ele responde sem
hesitar, suas mãos descendo por minha cintura até os quadris, onde ele me
segura com firmeza.
Christopher afasta meu short de dormir para o lado e quando eu me
ajusto novamente sobre ele, não há mais barreiras entre nós. O ar parece sair
dos meus pulmões em um gemido longo. Ele me segura com firmeza, mas
seus toques são delicados, quase reverentes, como se estivesse com medo de
me machucar.
Sinto o calor do seu corpo contra o meu, enquanto ele me preenche.
Cada toque intensificado pela proximidade. Ele desliza uma mão até meu
rosto, segurando-o gentilmente, e me beija.
Não há pressa, apenas profundidade, como se cada movimento fosse
uma promessa silenciosa. Suas mãos percorrem minhas costas, explorando
cada curva, enquanto eu o abraço mais forte, meu coração batendo
descontroladamente.
Meus quadris começam a se mover contra ele, quase instintivamente, e
um suspiro escapa dos meus lábios ao sentir o contato íntimo entre nós. Ele
também não disfarça o quanto isso é bom para ele e solta um som baixo,
rouco, que vibra contra minha pele, e suas mãos apertam minha cintura,
guiando meus movimentos com um cuidado que me faz sentir segura,
desejada.
O calor entre nós cresce, cada movimento é como uma dança que
parece tão natural quanto respirar. Ele sussurra meu nome, sua voz
transmitida de emoção, enquanto eu enterro meu rosto na curva de seu
pescoço, sentindo o cheiro de sua pele misturada ao calor que emana de sua
pele, chamando pelo nome dele como uma oração particular.
Nós intensificamos os movimentos e é como se o mundo ao nosso
redor desaparecesse. Cada movimento, cada toque, é uma afirmação
silenciosa de que, apesar de tudo, estamos juntos. Seus braços ao meu redor
são firmes, protetores, enquanto meus dedos encontram o caminho por suas
costas, segurando-o como se eu nunca mais quisesse soltar.
— Eliza... — ele murmura novamente, como um aviso com a voz
entrecortada, contendo algo mais profundo do que desejo.
— Chris… — respondo, com voz ofegante, contra a pele dele.
Nos movemos juntos, cada gesto reafirmando que estamos exatamente
onde deveríamos estar.
Quando finalmente chegamos ao clímax juntos, estou ofegante, mas
meu coração está estranhamente calmo. Ele me segura como se temesse que
eu desapareça, suas mãos ainda firmes em minha cintura enquanto seu rosto
permanece próximo ao meu.
Apoio minha testa contra a dele, sentindo sua respiração se acalmar
gradualmente. Não há palavras entre nós. O silêncio carrega tudo o que
precisamos dizer.
— Olhe para mim — ele pede.
Levanto o rosto, meus olhos encontrando os dele, e o que vejo ali quase
me desmonta. Não é apenas desejo, é algo mais profundo, algo que faz meu
peito transbordar.
Ele repousa a testa contra a minha, os olhos fechados, enquanto a
respiração de ambos tenta voltar ao ritmo normal.
Por um momento, ficamos assim, em silêncio, e deixo meus
pensamentos vagarem. Não consigo deixar de pensar em como somos como
dois pedaços de algo quebrado, encontrando forma em meio àquilo que
parecia irrecuperável.
— Um passo de cada vez — quebro o silêncio, mais para mim mesma
do que para ele, enquanto meus dedos percorrem lentamente o contorno de
seus ombros, sentindo a firmeza dos músculos e a tensão que, aos poucos,
começa a se dissipar.
— Sim, um passo de cada vez — ele repete, concordando.
— Acho que estamos conseguindo.
— Conseguindo o quê? — ele pergunta, sua voz carregada de incerteza
e esperança ao mesmo tempo.
Sorrio levemente, inclinando meu rosto até que nossos lábios quase se
toquem.
— Dançar em ruínas — respondo.
Ele fecha os olhos novamente, respirando profundamente, como se
essas palavras fossem o suficiente para acalmar as tempestades dentro dele.
Apoiando a cabeça no peito dele, sinto o batimento de seu coração,
constante e firme, como um lembrete de que, mesmo em ruínas, ainda
estamos vivos. E, de alguma forma, ainda estamos dançando.
A luz da manhã entra suavemente pela janela, iluminando o quarto com
um brilho dourado. Acordei há algum tempo, deitado em silêncio, sentindo o
peso de Eliza ainda descansando contra meu peito. Sua respiração é leve e
ritmada, o som mais tranquilo que já ouvi em semanas.
Meu braço está ao redor dela, mas não me movo. Não quero acordá-la,
não quero quebrar o momento de paz que parece tão raro para nós dois.
Enquanto observo o teto, meus pensamentos começam a fluir, caóticos,
mas, ao mesmo tempo, focados em uma única ideia: o que vem depois?
A noite passada foi... algo que eu não esperava. Algo que eu nunca
imaginei que pudesse acontecer entre nós. Pelo menos, não agora. Não foi
apenas sobre desejo; foi sobre confiança, entrega. Eu a deixei ver uma parte
de mim que costumo manter trancada, até de mim mesmo.
Ela se mexe levemente, murmurando algo em sonho, e isso me traz de
volta ao presente. Não posso ficar aqui parado pensando que não aconteceu.
Há coisas para fazer, responsabilidades esperando.
Com cuidado, deslizo para fora da cama, tentando não acordá-la. Pego
uma camiseta no closet e visto enquanto caminho em silêncio para fora do
quarto.
Sei que pelo horário, já, já Aelin vai estar de pé e acho que Eliza ainda
não quer revelar para a pequena sobre nós dois. Vai ser mais difícil ainda
omitir nosso caso se a menina, nos pegar na cama juntos.
A casa está quieta quando desço as escadas. Aelin ainda deve estar
dormindo, e isso me dá um momento sozinho para organizar a mente
enquanto preparo o café. Quero fazer isso todos os dias e isso é mais pela
Aelin. Quando eu era pequeno, sempre via meu pai servir minha mãe, nunca
o contrário. Quero fazer isso com elas. Ter momentos à mesa, como uma
família normal teria.
Enquanto a cafeteira faz seu trabalho, olho pela janela, vendo o jardim
iluminado pela luz suave da manhã.
Será que é isso? O começo de algo novo?
A ideia me assusta mais do que eu gostaria de admitir. Nunca pensei
que poderia encontrar algo como isso de novo, um lugar onde me sinto útil.
Presente. Importante.
Então penso em Eliza, no que ela passou, no que ainda estamos
enfrentando. Simon ainda está lá fora, e isso é um lembrete constante de que
essa paz é temporária.
Quando estou terminando de colocar a mesa, ouço a voz suave de Eliza
no corredor.
— Bom dia.
Viro-me para encontrá-la, os cabelos levemente bagunçados e o rosto
ainda marcado pelo sono, mas ela nunca me pareceu tão bonita.
— Bom dia — respondo, tentando esconder o sorriso que surge
automaticamente.
Ela caminha até a mesa, passando os olhos pelas xícaras e pelo café que
preparei.
— Acordou cedo.
— Hábitos difíceis de quebrar — digo, dando de ombros.
Eliza pega uma xícara e serve um pouco de café para si. Por um
momento, ficamos em silêncio, apenas dividindo o espaço de forma tranquila.
— A noite passada… — ela começa, mas para, como se estivesse
escolhendo as palavras.
— Eu gostei — digo rapidamente. — Mas vamos continuar indo com
calma.
Ela me olha, e há algo em seus olhos que parece aliviado, mas, ao
mesmo tempo, cauteloso.
— Eu também gostei.
Antes que continuemos, o som de passos pequenos ecoa no corredor, e
logo Aelin aparece, esfregando os olhos enquanto carrega a boneca pela mão.
— Bom dia, mamãe. Bom dia, tio Chris — ela murmura, ainda meio
sonolenta. — A mamãe te mandou o recado que eu pedi ontem? — ela me
questiona e eu assinto, mesmo sem saber qual recado é esse.
— Ela pediu para eu te dar boa noite — Eliza se entrega, se explicando
na frente de Aelin.
— Ah, claro! — respondo à pequena. — Ela me deu sim o seu “Boa
noite”, por falar nisso, até tive bons sonhos depois do recado — digo, e Aelin
sorri satisfeita.
Eliza me fuzila, tentando conter um risinho.
— Bom dia, amor — ela responde com um sorriso, enquanto a pega a
menina no colo e a beija na testa.
Eu me aproximo e passo a mão pelos cabelos bagunçados de Aelin.
— E você, dormiu bem, pequena?
Ela assente, abrindo um pequeno sorriso antes de se aconchegar mais
nos braços de Eliza.
Enquanto observo as duas, algo dentro de mim se acalma. Talvez o que
estamos construindo aqui ainda seja frágil, mas é real e isso é o suficiente
para mim por enquanto.
— Já preparei seu leite com chocolate, pequena — digo, apontando
para a mesa e Eliza coloca ela na cadeira, no lugar onde ela sempre senta.
Parece que agora esse é oficialmente o lugar da Aelin na mesa, assim
como Eliza já tem o seu lugar fixo e eu também. Reparo nisso em silêncio,
observando as duas tomarem seu café da manhã e me lembro da noite de
ontem, com a mulher sentada ao meu lado e também lembro-me do dia que
tive com a filha dela e o quanto ter sido bem-sucedido no quesito “pai de
menina” foi importante para mim.
Eliza está certa, cada dia é como se fosse um passo na direção de nos
tornarmos uma família.
O dia começa como esperado: Aelin e eu em casa, enquanto Eliza
trabalha na casa de Madelyn. A pequena está com energia de sobra desde o
café da manhã, e eu já me questionei como vou manter o ritmo.
— Tio Chris, o que vamos fazer hoje? — ela pergunta, sentada no sofá,
balançando as pernas enquanto brinca com uma de suas bonecas. Eu me
preparo para subir as escadas até o escritório.
Sorrio, mas tento ser honesto.
— Hoje, eu preciso trabalhar um pouco.
Aelin faz um biquinho, claramente decepcionada, mas não reclama.
— Tá bom — responde, suspirando dramaticamente antes de se deitar
no sofá, a boneca ainda nas mãos.
— Vou para o escritório. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar
— digo, apontando para a direção do cômodo no andar de cima.
— Tá bom — ela responde novamente, sem muita animação.
No escritório, ligo o notebook e começo a revisar os relatórios que o
coronel me encaminhou. São tarefas que normalmente me ajudam a manter a
mente focada, uma sequência de números, tabelas e descrições detalhadas
sobre movimentação de suprimentos e alocação de recursos em áreas
remotas.
Leio atentamente uma análise sobre a logística de envio de
equipamentos médicos para uma base isolada no exterior. Faço anotações,
ajusto algumas projeções e envio recomendações de otimização. Depois
disso, abro outro arquivo que detalha os pedidos de reforço de pessoal para
uma operação específica.
As solicitações são diretas, mas há sempre uma complexidade nas
decisões que envolvem recursos limitados e necessidades urgentes. Isso
costumava ser fácil para mim — decisões rápidas e lógicas, baseadas nos
dados, mas hoje, parece mais difícil manter a concentração.
Enquanto digito as respostas e formulo sugestões, meus pensamentos
continuam se desviando para a pequena no andar de baixo. Não é como se eu
esperasse problemas. Aelin é esperta e independente para a idade, mas o
silêncio constante na casa me deixa inquieto.
Revisando mais um relatório, minha mente começa a questionar o que
Aelin está fazendo. A última vez que ela esteve tão quieta, estava planejando
algo que provavelmente envolvia bagunça ou perguntas que eu ainda não
sabia responder.
Olho para o relógio no canto da tela. Já faz mais de duas horas que não
ouço nada.
Fecho o notebook com um suspiro, passando a mão pelos cabelos antes
de me levantar.
— Muito silêncio — murmuro para mim mesmo, enquanto saio do
escritório para procurar Aelin.
É aí que a encontro no quarto vazio, eu a observo da porta, dançando
com uma saia de tule cor-de-rosa sobre o pijama. Ela está nas pontas dos pés,
usando uma sapatilha de ballet, girando lentamente, os braços erguidos em
forma de arco, concentrada em manter-se equilibrada.
— Até que você é boa — elogio, interrompendo o silêncio.
Aelin para imediatamente, surpresa por me ver, mas logo dá um sorriso
largo.
— É! A mamãe me ensinou!
Entro no quarto, cruzando os braços enquanto a observo.
— E a mamãe disse que me levaria para uma escolinha, junto com
outras meninas — ela continua.
A sinceridade em sua voz me pega desprevenido. Fico parado por um
momento, assimilando o que ela acabou de dizer.
Só agora me dou conta. Aelin não está frequentando nenhuma escola.
Isso me deixa extremamente preocupado porque ainda não conversei sobre
isso com Eliza e acho que ela nem se lembrou depois de tudo o que
aconteceu.
— Você não está indo para a escolinha? — pergunto suavemente.
Aelin encolhe os ombros, segurando as pontas da saia.
— Não, porque a mamãe… Acho que ela não consegue... sabe, pagar.
Algo em mim aperta ao ouvir isso. Eliza está fazendo de tudo para criar
Aelin da melhor maneira possível, mas sei que há coisas que ela ainda não
pode oferecer, mesmo assim, existem escolas públicas.
Tento não pensar o pior de Eliza e decido que hoje, falarei com ela
sobre isso para tentar entender.
Aelin volta a dançar e fico impressionado com os movimentos que ela
realiza. Não são nada amadores.
— Sua mãe que te ensinou? — pergunto.
Ela assente orgulhosa.
— Sim! A mamãe é a melhor bailarina de todas. Um dia eu quero ser
igual a ela. Quando ela me colocar numa escolinha, vou ter um tutu e as
sapatilhas iguais aos dela. — Aelin diz com admiração.
— Você quer muito fazer aulas? — pergunto, abaixando-me para ficar
na altura dela.
— Quero — ela responde, os olhos brilhando com expectativa.
— Então vamos fazer isso acontecer.
Aelin me encara, confusa por um momento, mas quando percebe o que
estou dizendo, um sorriso enorme se forma em seu rosto.
— Sério, tio Chris?
— Sério — Confirmo, me levantando e estendendo a mão para ela. —
Quer ir dar uma volta de carro comigo?
— Sim!
— Então troque de roupa. Vou te esperar lá embaixo, tudo bem?
Ela assente de prontidão.
— Pode ser um vestido?
— Sim, pequena.
Depois de uma pesquisa rápida no celular, encontro uma escola
próxima das redondezas que também dá aulas extras de ballet. Aelin está
radiante, pulando de empolgação enquanto seguimos para o carro.
Ao chegarmos à escola, sou recebido por uma recepcionista simpática
que me explica como funcionam as aulas e os valores. A diretora me convida
para fazer um tour com Aelin e quando paramos no espaço reservado para as
pequenas bailarinas que ficam para a aula depois do período, a pequena fica
encantada.
— Acha que a mamãe vai deixar? — Aelin pergunta, puxando a minha
camiseta.
— Você é pai dela? — a diretora me pergunta.
— Não. Sou um… — hesito antes de responder. — Amigo.
A diretora parece saber bem o que o “amigo” se trata e apenas assente.
— Você quer fazer um pré-cadastro da matrícula dela e depois você
traz a mãe dela para visitar a escola? — confirmo.
— Sim, pode ser.
Inscrevo Aelin sem pensar duas vezes, e ela é imediatamente
encaminhada para uma sala com uma professora particular que avaliará qual
é o grau de ballet dela, enquanto preencho algumas burocracias e acerto
alguns valores para que ela possa receber seus primeiros materiais de estudo.
Ver Aelin entrar no estúdio com a professora, é como assistir ao
nascimento de algo especial. Ela parece tão feliz, tão confiante, que quase
esqueço que não sou exatamente o "pai" dela.
Já no final da tarde, dirijo até a casa de Madelyn para buscar Eliza.
Quando ela entra no carro, percebo que ela está exausta, mas seus olhos se
iluminam quando vê que Aelin não está no banco de trás.
— Onde está a Aelin? — ela pergunta, alarmada.
— Calma. Ela está segura — digo, sorrindo.
Eliza me lança um olhar desconfiado, mas não insiste.
— Para onde estamos indo?
— Só... confie em mim.
Ela não gosta disso, mas fica em silêncio enquanto dirijo. Quando
estaciono em frente à escola, vejo a surpresa em seus olhos.
— Christopher, o que...
— Só vem — digo, saindo do carro e caminhando para a entrada.
Dentro da escola, guio Eliza até uma sala com grandes janelas de vidro.
Lá dentro, Aelin está no meio de um grupo de crianças um pouco mais velhas
que ela, tentando seguir as instruções da professora com um sorriso de orelha
a orelha.
Eliza leva a mão à boca, seus olhos brilhando com lágrimas.
— Christopher...
— Ela me disse que você prometeu isso a ela. Achei que estava na hora
de cumprir.
Ela não consegue falar, mas o olhar que me dá, diz tudo o que preciso
saber.
— Obrigada — ela murmura, sua voz embargada.
— Ela vai estudar pela manhã e, no final do período de aulas, vai vir
para essa parte ter aulas de ballet — explico, observando atentamente a
reação de Eliza. — Ela passou por uma avaliação, e a instrutora disse que o
grau dela de ballet já está muito mais avançado para as garotinhas da mesma
idade, então foi colocada em uma turma mais velha. Mas não se preocupe, a
professora me garantiu que isso não muda nada. Ela tem capacidade para
acompanhar as outras garotas.
Eliza me olha com os olhos brilhando, e antes que eu possa dizer mais
alguma coisa, ela dá um passo à frente e me abraça.
— Obrigada — ela repete contra o meu pescoço, sua voz embargada,
cheia de emoção.
Sinto o aperto em meu coração ao perceber o quanto isso significa para
ela. Minhas mãos sobem automaticamente para segurar seu rosto,
envolvendo-o com cuidado, e encosto minha testa na dela, mantendo-a perto.
— Não chore, amor — peço suavemente, tentando acalmá-la.
Mas é inútil. As lágrimas começam a escorrer silenciosamente por seu
rosto, traçando linhas delicadas que me atingem de um jeito que eu não
esperava.
— Eu estava esperando meu primeiro pagamento cheio para pagar uma
escolinha para ela — ela confessa, sua voz trêmula. — Fui em escolas
públicas, mas ela entrou em uma lista de espera.
Cada palavra dela carrega um peso que eu sei que ela tentou esconder
por tanto tempo. Eliza está sempre tentando carregar o mundo, como se fosse
errado depender de alguém.
— Podia ter falado comigo — digo, minha voz mais firme do que eu
pretendia. Quero que ela entenda que não precisa mais fazer isso sozinha. —
Pode contar comigo agora, amor.
Ela me encara por um momento, como se estivesse tentando processar
o que estou dizendo.
— Eu não queria... incomodar.
— Eliza — interrompo, segurando seu olhar. — Aelin também é
importante para mim. Vocês duas são. Não é incômodo. Nunca será.
Suas mãos sobem até os meus braços, segurando-me com força, como
se estivesse buscando algo para se apoiar.
— É difícil aceitar isso, sabe? Depois de tudo... — ela começa, mas não
termina a frase.
— Eu sei — respondo, entendendo exatamente o que ela quer dizer. —,
mas você não está sozinha. Não mais.
Ela assente levemente, e eu a puxo para outro abraço. Ficamos assim
por um momento, deixando o silêncio entre nós falar mais do que qualquer
palavra poderia dizer.
— Obrigada, Christopher — ela sussurra novamente, e eu sinto um
alívio profundo ao saber que, pelo menos por hoje, fiz algo certo por ela e por
Aelin.
Ao longe, consigo ouvir o som suave das crianças dançando na sala ao
lado, e sei que, de alguma forma, isso também vai me ajudar a sentir que
Aelin estará mais segura aqui, do que sozinha comigo em casa o dia inteiro.
O sol entra pelas amplas janelas da sala da Madelyn, iluminando o
espaço com uma luz acolhedora. Estou de joelhos no chão, limpando os
cantos da base do sofá, enquanto Noah, no carrinho, balbucia alegremente,
entretido com um brinquedo.
— Você tem jeito com crianças — Madelyn comenta, sua voz vinda da
cozinha.
Sorrio, olhando para Noah, que me devolve um sorriso banguelo.
— Aelin me treinou bem — respondo, brincando, mas sei que há
verdade nas minhas palavras.
Madelyn se junta a mim na sala, e se senta no sofá que acabei de
limpar. Ela pega Noah no colo, aconchegando-o contra si com uma
naturalidade que só uma mãe dedicada tem. Hoje, ela parece mais disposta.
Quando cheguei pela manhã, fizemos a mesma rotina dos dias
anteriores. Madelyn descansou enquanto fiquei de olho em Noah e organizei
algumas coisas pela casa. Agora que ela acordou, a energia dela transparece.
É uma boa mudança em comparação ao cansaço que ela carregava no começo
da semana.
— E o Chris? — ela pergunta casualmente, mas há uma preocupação
evidente em sua voz.
Levanto o olhar, tentando decifrar se ela quer detalhes ou apenas uma
garantia de que ele está bem.
— Ele está se saindo bem — respondo com sinceridade, dando um
pequeno sorriso. — A Aelin adora ele.
Madelyn solta um suspiro, como se estivesse aliviada, mas seus olhos
continuam me observando com atenção.
— Ele falou alguma coisa sobre... como está lidando com as coisas?
Paro o que estou fazendo por um momento, limpando as mãos no pano
que estou usando.
— Ele teve uma consulta online anteontem à noite — digo, medindo as
palavras com cuidado. — Foi difícil para ele, mas acho que foi um bom
começo.
Ela assente lentamente, seus dedos brincando com os cabelos ralos de
Noah.
— Ele sempre teve dificuldade em se abrir, mesmo antes de tudo isso
— Madelyn comenta, seus olhos fixos em algum ponto distante da sala. —
Mas desde que voltou, parece que ele construiu uma barreira ainda maior.
— Acho que ele está tentando melhorar — respondo suavemente. —
Às vezes, parece que ele quer guardar tudo só para ele, mas está começando a
deixar as pessoas ajudarem.
Madelyn me olha por um longo momento, como se estivesse medindo
minhas palavras. Há algo no olhar dela que não consigo identificar
imediatamente, mas logo sua expressão se suaviza.
— As pessoas, no caso, você — ela conclui, e meu coração dá um salto
inesperado.
Madelyn disfarça um sorriso ao notar minha reação e cruza as pernas,
segurando Noah com mais firmeza.
— Dá para perceber. Você está ajudando ele de um jeito que ninguém
mais consegue — ela comenta casualmente, mas suas palavras me pegam
desprevenida.
— Eu... não sei se estou fazendo tanto assim — respondo, tentando
manter o foco no trabalho, mas sinto meu rosto corar.
— Está — ela insiste, e há uma certeza em sua voz que me faz sentir
exposta. — Acho que meu irmão gosta de você, Eliza.
Encolho os ombros, incapaz de esconder um sorriso tímido.
Ela me faz sinal para me sentar ao lado dela no sofá, e faço isso
relutantemente, enquanto ela ajeita Noah no colo.
— Você e Aelin trouxeram algo de volta para ele. Algo que eu pensei
que estava perdido. Ele se preocupa muito com vocês.
Levanto o olhar para encontrá-la. A sinceridade nos olhos dela me faz
sentir ao mesmo tempo, grata e nervosa.
— Eu e o Christopher... — começo, hesitando por um momento. —
Acho que estamos iniciando algo.
Madelyn arregala os olhos, e não consigo decifrar se é surpresa ou
animação.
— Nós dois... — tento explicar, mas ela se antecipa, uma expressão de
súbita compreensão tomando conta de seu rosto.
— Você já transou com meu irmão? — a pergunta sai tão direta que
fico sem palavras, meu silêncio denunciando a verdade.
Madelyn solta uma risada e se levanta do sofá, balançando Noah
levemente como se fosse um tipo de comemoração.
— Eliza!
— Está tão na cara assim? — brinco, tentando aliviar a tensão.
Ela ri novamente, mas logo sua expressão se torna mais séria.
— Ele é um homem bom, Eliza. Só precisa de tempo para superar a
guerra.
— Ele tem me ajudado tanto que, às vezes, fico sem saber como
retribuir — confesso.
Madelyn sorri, balançando a cabeça.
— Só o fato de ele ter buscado ajuda já é um sinal de que agora ele tem
pelo que lutar. Saber que o motivo é você e sua filha me deixa extremamente
feliz.
— Ele também está me ajudando a me reconstruir — digo, a voz baixa.
— Sou extremamente grata por tudo o que ele tem feito pela Aelin. Sei que,
agora, ele não consegue enxergar o quanto isso significa para mim, mas Aelin
já está completamente apegada a ele.
— Que bom, querida — Madelyn responde suavemente. — Espero que
vocês continuem avançando.
Assinto, voltando minha atenção para o trabalho, mas as palavras dela
continuam ecoando em minha mente.
Enquanto termino de limpar a sala, uma coisa fica clara: talvez eu
esteja ajudando Christopher, mas ele também está me ajudando. Muito mais
do que ele imagina.
O sol está começando a se pôr quando vou à escola para buscar Aelin.
O dia tinha sido relativamente tranquilo.
Aelin é uma das últimas a sair, segurando sua pequena bolsa rosa e com
as sapatilhas de ballet no ombro. Assim que ela me vê, corre até mim com um
sorriso que, por um breve momento, dissipa qualquer cansaço que eu estava
sentindo.
— Mamãe! — ela chama, pulando nos meus braços.
— Ei, amor. Como foi o seu dia? — pergunto, segurando-a firme e
deixando que o som alegre da voz dela me acalme.
— Foi legal! Eu fiz um desenho! — ela responde animada, tirando da
bolsa um papel dobrado e me mostrando um desenho colorido de nós duas
dançando ballet juntas e mais um homenzinho desenhado, mas distante de
nós duas, observando por trás de algo que julgo ser o vidro igual ao do
estúdio onde ela está fazendo as aulas.
— É lindo! — digo, sorrindo. — E esse aqui? É o tio Chris?
Ela balança a cabeça negativamente, mas sua expressão muda
rapidamente.
— Não. Esse é o tio Simon, eu vi ele hoje.
Por um momento esqueço como respirar.
— Viu ele? — pergunto, mantendo o tom leve, mas meu coração
acelera e não consigo disfarçar o tom sério e preocupado em minha voz.
— Ele estava me vendo na aula hoje, pelo vidro.
— O Simon? — pergunto para ver se ela tem certeza.
Aelin para, olhando para o corredor do estúdio e assente.
— É. Eu acho que era ele.
— Aelin — me agacho para ficar da altura dela. —, como assim,
“acha”? Era ele ou não? — pressiono.
Ela me olha com dúvida e, ao mesmo tempo, preocupada ao ver minha
reação.
— Responde! — insisto e ela começa a chorar, me mostrando que
passei do limite.
— Ele parecia com o tio Simon — explica ela, num choramingo. —
Estava do outro lado do vidro, assistindo à aula. Aí, vi que era ele, dei um
tchauzinho, mas, quando olhei de novo, já tinha ido embora.
Meu coração dispara. Seguro Aelin com mais firmeza, olhando
discretamente ao redor antes de tomar o caminho de volta para casa de
Christopher. Tento manter a calma enquanto seguro sua mão firme, para que
ela não se solte.
— Está tudo bem, amor. Tenho certeza de que era só alguém parecido.
Ela parece convencida, mas minha mente está um turbilhão. Cada passo
que damos em direção de volta para casa de Christopher, parece mais pesado,
e meus olhos se movem rapidamente, examinando as sombras ao nosso redor.
Quando chegamos em casa, Christopher já está lá. Ele está na cozinha,
mexendo no celular enquanto termina de limpar a pia com louças de alguma
refeição que fez
— Oi, meninas — diz ele, lançando-nos um sorriso caloroso.
Aelin corre até ele, e aproveitando sua distração, dobro a folha com o
desenho dela e escondo na minha bolsa.
Enquanto eles conversam, subo para o andar de cima, temendo que ele
perceba minha inquietação. O rosto de Simon não sai da minha mente.
E se Aelin realmente o viu? E se ele estava lá, nos observando?
Christopher percebe meu silêncio.
— Tudo bem? — ele pergunta, quando desço as escadas e vou ao
encontro dos dois.
Forço um sorriso e aceno.
— Sim, só cansada. O dia foi longo.
Ele me lança um olhar cético, mas não insiste.
Quando Christopher pergunta sobre a escola para Aelin, ela responde
com uma excitação falsa, e isso não passa despercebido por mim.
— E como foi o ballet hoje? — ele pergunta, sorrindo enquanto corta
um pedaço de frango no prato.
— Foi legal — Aelin responde, mexendo distraidamente na comida
com o garfo.
Christopher franze levemente a testa e lança um olhar para mim, mas
finjo não perceber, concentrando-me no meu próprio prato.
— Legal como? O que vocês aprenderam? — insiste ele, tentando
engajá-la.
— A professora ensinou a gente a girar no plié — ela responde, mas
sua voz é desanimada.
Christopher se recosta na cadeira, estudando-a por um momento.
— Você está bem, pequena?
Aelin levanta finalmente o olhar, hesitando antes de responder.
— Estou.
— Tem certeza? — ele pressiona suavemente, mas ela apenas concorda
e volta a mexer na comida.
— Acho que ela está só cansada — digo por ela, tentando encerrar o
assunto.
Christopher me encara por um instante, como se soubesse que há mais
do que isso, mas não insiste.
Quando terminamos de comer, ele se oferece para lavar a louça
enquanto eu ajudo Aelin a tomar banho e se preparar para dormir. A rotina
familiar e tranquila deveria ser reconfortante, mas a tensão dentro de mim só
aumenta.
Depois de colocar Aelin na cama e ouvir suas histórias desconexas
sobre o dia, fico um momento sentado ao lado dela, observando-a adormecer.
Ela parece tão pequena e vulnerável, e meu coração aperta ao pensar que
Simon pode estar se aproximando novamente.
— Mamãe? — ela murmura, com os olhos quase fechados.
— Sim, amor?
— Você vai ficar aqui com o tio Chris para sempre? — sua voz soa
sonolenta, mas a pergunta me pega de surpresa.
— Por quê, meu amor?
— Porque eu gosto daqui — ela diz, antes de fechar os olhos de vez.
Fico ali por mais alguns minutos, absorvendo as palavras dela e
tentando ignorar a sensação de que, por mais que eu queira proteger minha
filha, há coisas que não consigo controlar.
Aelin dorme profundamente, os traços delicados do rosto estão
relaxados. Tento me convencer de que tudo ficará bem, mas a sombra de
Simon paira na minha mente como uma ameaça constante.
Quando finalmente desço as escadas, Christopher está no sofá, com
uma expressão distante enquanto vê uma partida de futebol americano. Ele
levanta o olhar ao me ver e, por um instante, penso que vai perguntar o que
está me incomodando, mas ele apenas dá um pequeno sorriso.
— Aelin já dormiu?
— Sim — respondo sem olhar, tentando esconder a inquietação que
ainda sinto.
— Ela parecia... quieta hoje — ele comenta, e seu tom carrega uma
nota de preocupação que me faz parar o que estou fazendo.
— Talvez só esteja cansada — digo, mantendo a voz firme. — As
crianças têm dias assim, não têm?
Christopher me observa em silêncio por um momento, seus olhos me
avaliando. Ele é bom em perceber quando algo está errado, e eu sei que ele
não acredita completamente em mim, mas felizmente, ele não pressiona.
— Se precisar de alguma coisa, sabe que pode me falar, certo? — ele
diz, sua voz mais suave agora.
Assinto, tentando engolir o nó na garganta.
— Eu sei.
Ele volta a olhar para a TV, mas eu o conheço bem o suficiente para
saber que a preocupação ainda está ali. Subo novamente para o quarto,
tentando ignorar a sensação de que o peso do dia ainda não terminou, que há
algo pairando no ar, esperando o momento certo para cair sobre nós.
Quando entro no quarto, deixo escapar um suspiro longo, tentando
aliviar a tensão que parece estar presa no meu peito desde que Aelin
mencionou Simon. Pego meu pijama e vou direto para o banheiro, ligando a
água quente do chuveiro.
Enquanto a água escorre sobre mim, fecho os olhos e tento apagar os
pensamentos que continuam me atormentando. A imagem de Simon,
observando minha filha de longe, não sai da minha cabeça. Não posso
permitir que ele nos machuque de novo.
Depois de me vestir, saio do banheiro e deito na cama, mas o sono não
vem. Fico olhando para o teto, ouvindo os sons suaves da casa. Um barulho
de passos no andar de baixo me faz lembrar que Christopher ainda está
acordado, e por um momento, considero descer para falar com ele.
Mas não vou. Não quero contar algo que Aelin nem tem certeza.
— Tá acordada? — ouço Christopher abrir a porta de leve e encarar a
escuridão do quarto, mas eu não respondo e deixo que ele pense que já
adormeci.
Sem obter uma resposta da minha parte, Christopher deixa o quarto e
eu fico ali, no escuro, sozinha com meus pensamentos, torcendo para que o
dia de amanhã seja mais leve e que Simon se torne nada mais do que uma
sombra de um passado que estou tentando deixar para trás.
O sábado começou tranquilo e devo ressaltar, mais silencioso. Antes de
descermos para o café, conversei com Aelin sobre a menção de Simon.
Expliquei que era para ela deixar para lá a informação sobre ter visto Simon e
que não era para ela desenhar mais ele.
Depois do café, tento ocupar minha mente com tarefas simples: lavar a
louça, organizar os armários e passar um pano no chão. Também noto que
Christopher manteve a limpeza da casa durante a semana, então não preciso
fazer uma limpeza pesada.
Essa é a forma que encontro de retribuir a hospitalidade dele.
A presença de Christopher na casa é inegável, mesmo que ele respeite
meu espaço. Ele está na sala, mexendo em algo na antena da TV, pelo que ele
diz, parece que o canal de esportes que ele gosta está com interferência, mas
posso sentir seu olhar em mim de tempos em tempos.
Não trocamos muitas palavras durante a manhã, e eu faço o possível
para me manter ocupada e evitar essa troca.
O que Aelin me contou sobre Simon ter ido até a escolinha ainda me
deixa inquieta, mas decido não falar nada com Christopher até ter uma prova
concreta de que isso realmente aconteceu. Não quero aumentar a tensão entre
nós, especialmente quando ele parece estar tentando encontrar alguma paz
depois da consulta que teve com a psicóloga.
— Eliza — ele chama, a voz baixa, mas firme.
Olho para ele, parando de secar uma xícara que está na minha mão.
— O que acha de almoçarmos fora hoje? — ele sugere, os olhos fixos
nos meus.
Por um momento, considero a ideia, mas penso na possibilidade de
estar frente a frente com ele por muito tempo e não conseguir disfarçar minha
inquietação, por isso, uso a desculpa dos estímulos e ruídos que o incomodam
em lugares públicos. Balanço a cabeça, dando um pequeno sorriso de
desculpas.
— Acho melhor não — digo, tentando ser gentil. — Lugares externos
podem ser muito... intensos para você.
Christopher parece querer argumentar, mas não insiste, apenas assente,
voltando sua atenção para o cabo da antena. Ele concorda com a parte dos
ruídos e fica nítido que fez o convite para me agradar e tentar quebrar o gelo
que estamos desde ontem quando cheguei e o silêncio entre nós ficou mais
pesado do que de costume.
Termino de secar a última xícara e guardo no armário. Quando volto
para a sala, vejo Aelin sentada no chão, mexendo em suas sapatilhas de
ballet. Ela calça com cuidado e se levanta na ponta dos pés, testando o
equilíbrio.
— Mamãe, você pode dançar comigo? — ela pergunta, olhando para
mim com aquele brilho inocente nos olhos, cheia de energia.
— Amor, estou ocupada agora — digo automaticamente, mas a
verdade é que estou apenas tentando evitar que eu me conecte com algo que
me lembre do passado, ainda mais depois das perguntas que ela me fez na
última vez que fizemos isso.
Aelin, no entanto, insiste.
— Só um pouquinho? Por favor?
Christopher, que está mexendo na antena, desvia o olhar para nós. Ele
percebe que hoje não estou muito a fim de interagir com Aelin como sempre
costumo.
— Acho que sua mãe hoje está um pouco atarefada, Aelin — ele
responde por mim, tentando acalmar os ânimos dela.
— Então vem você, tio Chris! — Aelin diz, determinada, puxando ele
pela mão.
— O quê? Pra onde? — ele pergunta, surpreso, mas já se levantando,
como se soubesse que não resiste quando Aelin quer alguma coisa.
— Vem dançar comigo, eu te ensino!
Eu quase rio ao ver a expressão dele — uma mistura de pânico e
diversão. Ele olha para mim, como se pedisse socorro, mas apenas dou de
ombros, aproveitando a oportunidade de vê-lo fora da zona de conforto.
— Está por conta dela agora — digo, tentando não rir enquanto Aelin o
arrasta para os fundos da casa.
Vou até a porta, de onde tenho uma visão clara da área de lazer. A
piscina reflete o sol do meio-dia, e Christopher está parado ali, claramente
sem saber o que fazer, enquanto Aelin explica os passos básicos,
acompanhando cada um com gestos exagerados.
— Primeiro, você tem que fazer o plié — ela diz, se posicionando com
os pés em primeira posição e dobrando os joelhos suavemente.
Christopher observa, tentando imitar os movimentos.
— Assim? — ele pergunta, meio desajeitado.
— Não! — Aelin exclama, balançando a cabeça. — Seus pés têm que
ficar assim, ó!
Ela o corrige, empurrando suavemente os calcanhares dele para fora.
Ele tenta de novo, mas quando tenta se abaixar no plié, perde o equilíbrio por
um segundo, se endireitando rápido para não cair.
Eu não resisto. Solto uma risada baixa e saio pela porta de vidro, me
aproximando deles.
— Acho que você precisa de ajuda, soldado — brinco, cruzando os
braços enquanto Christopher me lança um olhar de quem claramente não
pediu para passar por isso.
— Essa mini-instrutora aqui é exigente — ele rebate, apontando para
Aelin, que parece muito orgulhosa do papel de professora.
— Mamãe, mostra pra ele como faz! — Aelin pede, apontando para
mim.
Respiro fundo antes de tirar os sapatos e caminhar até eles.
— Tudo bem — concordo. — Christopher, primeiro precisa alinhar os
pés na posição certa. Isso é a primeira posição, e daqui você faz o plié —
demonstro o movimento lentamente, dobrando os joelhos e mantendo o
tronco firme.
Ele tenta de novo, mas quando faz o movimento, seus joelhos parecem
ir para frente, sem flexibilidade alguma e Aelin cai na gargalhada.
— Você precisa manter os calcanhares no chão! — explico, tentando
conter o riso enquanto o corrijo.
— Quem inventou isso? Isso não é natural de um ser humano fazer! —
ele reclama, mas tenta novamente.
— Não precisa ser perfeito. Só tente não parecer que está sendo
dobrado ao meio — provoco, fazendo com que ele me lance um olhar
estreito.
— Ah, é assim? Tá certo. Vamos ver quem se dobra ao meio agora —
ele brinca e avança em minha direção, fingindo que vai me levantar.
Dou um passo para trás, rindo, mas depois retomo o controle e decido
ensinar outro movimento.
— Vamos tentar algo diferente — digo, levantando os braços acima da
cabeça e mostrando a posição de braços em forma de círculo.
— Isso é uma quinta posição de braços. Agora tente fazer um relevé —
digo, ficando na ponta dos pés com os calcanhares juntos.
Christopher tenta repetir o movimento, mas balança um pouco ao
erguer o corpo.
— É questão de equilíbrio e leveza — explico.
Ele bufa.
— Leveza não é exatamente o meu ponto forte — resmunga, fazendo
Aelin rir de novo.
— Vamos lá, soldado — provoco. — Se consegue manter equilíbrio em
exercícios do exército, consegue aqui também.
Ele me lança um olhar desafiador, mas quando tenta o relevé
novamente, seus pés escorregam levemente na borda da piscina, e antes que
ele perceba, tropeça e cai na água com um splash alto.
Aelin grita de surpresa e cai na gargalhada, batendo palmas.
— Ah, meu Deus, Christopher! — corro até a beirada, tentando ver se
ele está bem.
Ele emerge da água com o cabelo grudado na testa e um olhar
incrédulo.
— Isso definitivamente não estava no cronograma! — ele diz, tossindo,
enquanto Aelin continua gargalhando.
— Você está bem? — pergunto, ainda segurando o riso.
— Melhor do que minha dignidade — ele resmunga, nadando até a
borda.
Antes que eu possa ajudá-lo a sair, Aelin corre até mim com um brilho
travesso nos olhos.
— Sua vez, mamãe!
— O quê? Aelin, nem pense nisso! — tento voltar, mas já é tarde.
Ela me empurra com força suficiente para me desequilibrar e, em
questão de segundos, estou na água ao lado de Christopher.
Quando volto à superfície, a risada de Aelin ecoa ao nosso redor.
Christopher está parado ali, me encarando com um sorriso travesso. Ele me
ajuda a tirar meus cabelos molhados do rosto, mais perto do que Aelin está
acostumada a nos ver.
— Isso foi uma conspiração! — respondo, jogando água nele, o que só
o faz rir mais.
— Foi ela — ele aponta para Aelin, que se senta na borda da piscina
balançando as perninhas.
Por um momento, esqueço tudo. Simon, os medos, as preocupações. É
só riso, água, e Aelin sorrindo como se nada pudesse detê-la.
Christopher se aproxima, estendendo a mão para me puxar para mais
perto.
— Acho que posso abrir a mão do ballet por enquanto — ele brinca.
— Ótima ideia — respondo, rindo.
Quando nossos olhos se encontram, há algo mais ali. Algo mais
profundo do que essa leveza passageira. É nesse momento que percebo que,
mesmo com todas as incertezas que nos cercam, talvez eu esteja começando a
encontrar meu equilíbrio de novo.
— Mamãe! Acho que o tio Chris, quer beijar você! — Aelin anuncia,
soltando um risinho, mas me apresso para sair da piscina.
Enquanto subo as escadinhas, Christopher sibila atrás de mim.
— Acho que Aelin entende mais do que simples passos de ballet.
O incidente na piscina me deixou risonho de uma forma que não ficava
há bons anos. Nunca pensei que iria dançar ballet e que a professora seria
uma garotinha de cinco anos.
Durante algumas horas, parecia que os problemas haviam ficado do
lado de fora da casa. A risada de Aelin, a forma como Eliza sorria sem
perceber… tudo isso era como um respiro em meio ao caos que vinha nos
cercando.
Depois que tomamos banho, eu me ofereci para grelhar hambúrgueres
enquanto Eliza preparava as batatas fritas. Aelin, cheia de energia como
sempre, insistiu em organizar os talheres na mesa, colocando-os
perfeitamente desalinhados. Não corrigi nada; o momento era sobre a leveza.
Durante o almoço, o clima continuou descontraído.
— Então... — começo, após uma mordida em meu lanche. — Podemos
declarar oficialmente que você é uma péssima instrutora de ballet? —
provoco Eliza, lançando um sorriso que sei que vai irritar.
Ela estreita os olhos, balançando a cabeça.
— Ou você é um péssimo aluno — ela retruca de imediato, e Aelin cai
na gargalhada, balançando os pés suspensos pela altura da cadeira.
— Eu acho que ele foi bem — Aelin me defende, me lançando um
sorriso cúmplice.
— Viu? — digo, triunfante, lançando um olhar para Eliza. — Tenho
aprovação da especialista aqui.
— Só porque você caiu na piscina — Eliza me provoca de volta,
tentando conter o riso.
— Bom, vou te dar um crédito e dizer que você é boa em ensinar —
comento, e vejo o olhar dela mudar por um instante. — É sério — insisto. —
Já deu aulas antes? Sem contar o que ensinou para Aelin?
— Óbvio que não — Eliza responde, como se a ideia fosse absurda.
Aelin, no entanto, concorda comigo.
— É verdade, mamãe! Você é uma ótima professora ballet.
Eliza tenta disfarçar o sorriso, mas consigo perceber.
— Para de comprar as ideias dele, querida — ela diz, fingindo desdém,
mas claramente tocada pelas palavras.
Após o almoço, Aelin pede para deitar um pouco, e Eliza a leva para o
quarto. Fico sozinho na cozinha, organizando o que sobrou. É uma tarefa
simples, quase automática, mas que me dá uma sensação momentânea de
controle. Pego um dos copos lavados e seco-o lentamente, colocando no
escorredor.
Enquanto meus movimentos seguem no piloto automático, minha
mente começa a vagar.
Nunca imaginei que minha vida pudesse parecer… normal outra vez.
Não como agora, com Eliza e Aelin. Os dias têm sido mais leves, e essa
leveza me assusta quase tanto quanto me conforta, porque, no fundo, ainda
sinto o peso do que carrego.
O transtorno de estresse pós-traumático é uma sombra que nunca
desaparece completamente. Posso passar dias sem sentir seus efeitos diretos,
mas basta um gatilho — um som, um cheiro, a fumaça da grelha, até mesmo
um pensamento de alegria para que ele volte com força total. É como um
animal à espreita, esperando o momento certo para atacar.
Nos últimos dias, no entanto, percebo algo diferente. A convivência
com Eliza e Aelin trouxe uma espécie de equilíbrio que eu achava impossível
de recuperar. A risada de Aelin, o jeito como Eliza cuida dela e, agora, de
mim… É como se, aos poucos, eu estivesse me permitindo sentir coisas que
antes pareciam inalcançáveis: alegria, pertencimento, até mesmo esperança.
Mas o medo de perder o controle ainda está lá. Sempre.
Seguro o copo que estou secando com mais força do que o necessário,
o som do vidro quase quebrando me traz de volta ao presente. Solto um
suspiro pesado, apoiando as mãos no balcão.
Tenho medo. Não só de perder o controle e machucar alguém, mas de
me deixar acreditar que essa vida — essa paz — pode durar. Porque, no
fundo, ainda acho que não mereço.
Olho para a pia cheia de pratos e respiro fundo.
Eliza e Aelin mudaram algo em mim. Não sei dizer o que exatamente,
mas sei que estou tentando por elas. Pela primeira vez, quero mais do que
apenas sobreviver ao próximo dia. Quero algo maior, algo que me faça sentir
inteiro de novo.
Mas e se eu falhar? E se o que estou tentando construir com elas
desabar por minha causa?
Esses pensamentos ecoam como um mantra na minha cabeça enquanto
termino de organizar a cozinha. A solidão momentânea é perigosa; é quando
os demônios encontram espaço para sussurrar mais alto.
Ouço passos leves atrás de mim e me viro. É Eliza, voltando do quarto
de Aelin.
— Ela dormiu — diz, com aquele tom suave que parece sempre
acalmar a tempestade dentro de mim.
Sorrio de leve, tentando afastar os pensamentos.
— Que bom — respondo, colocando o último copo no escorredor.
Meu olhar fica preso nela. Não sei se ela percebe o quanto tem sido
importante para mim, o quanto me fez evoluir apenas por estar aqui. Mesmo
assim, o medo de estragar tudo nunca desaparece completamente.
E agora, algo está diferente entre nós desde ontem. O jeito como ela
evita me encarar por muito tempo, como tenta se ocupar com qualquer coisa
para evitar uma conversa mais profunda.
— O que foi? — ela pergunta, cruzando os braços como se já esperasse
que eu fosse dizer algo.
Demoro um momento antes de me aproximar.
— Eu quem pergunto isso para você — respondo. — O que está
acontecendo, Eliza?
Ela desvia o olhar, e vejo o movimento sutil de sua respiração
acelerada.
— Nada.
— Não minta para mim — minha voz sai firme, mas baixa, sem querer
assustá-la. — Desde ontem, você está diferente. Fechada. Nem parece a
mesma pessoa que passou a manhã rindo na piscina — observo para que ela
saiba que notei seu comportamento. — Acha que estamos indo rápido
demais? — sugiro.
Ela suspira, os ombros caindo como se carregasse um peso que não
pode dividir comigo.
— Não. Claro que não. Eu só estou com muitas coisas na cabeça — ela
admite, mas sei que não é tudo.
Dou mais um passo em sua direção, até que eu possa sentir o calor dela.
— Coisas como o quê?
Ela engole em seco, e por um momento penso que vai me contar. Mas
então vejo a barreira voltar, aquela muralha que ela construiu ao longo dos
anos.
— Christopher, eu só preciso de um tempo para organizar meus
pensamentos. É só isso.
Balanço a cabeça, frustrado, mas, ao mesmo tempo, sei que pressionar
não vai funcionar. Preciso respeitar o espaço dela.
— Você continua achando que precisa lidar com tudo sozinha — digo,
minha voz mais baixa, mas compartilhada de sinceridade.
Ela tenta desviar o olhar de novo, mas levanto o dedo e toco seu
queixo, guiando seu rosto para o meu.
— Confie em mim para te ajudar — sussurro, meus olhos fixos nos
dela.
Por um instante, tudo fica em silêncio e então, sem pensar, minha mão
desliza para a nuca dela, e quando nossos lábios finalmente se encontram, é
como se algo em mim explodisse.
O beijo começa devagar, hesitante, mas logo se torna algo mais intenso.
Suas mãos encontram meu cabelo, puxando levemente, e isso só me faz
querer mais. Eu a puxo pela cintura, segurando-a contra mim, como se
precisasse dela para respirar.
— Chris... — ela sussurra quando nossos lábios se separam, a
respiração entrecortada.
Eu não a deixo terminar. Volto a beijá-la, dessa vez com mais urgência.
Suas mãos exploram minhas costas enquanto eu a levanto com facilidade e a
coloco sobre a ilha.
— Tem certeza de que a Aelin está dormindo? — pergunto, minha voz
rouca contra a pele dela, enquanto beijo seu pescoço.
— Tenho — ela responde, e isso é tudo o que preciso ouvir.
O olhar de Eliza encontra o meu, carregado de algo que me puxa para
mais perto dela. Desejo, sim, mas também vulnerabilidade. Essa combinação
que me faz hesitar por um segundo, buscando a certeza de que ela realmente
quer isso tanto quanto eu, porque dessa vez, não estou disposto a ir com
calma.
Eliza não viu ainda metade do que eu quero fazer com ela se ela deixar.
— Me faz esquecer tudo isso de novo — ela sussurra, os olhos
fechados, como uma súplica que atravessa qualquer barreira que eu ainda
possa ter.
Em um movimento rápido, envolvo minha mão na cintura dela e a
levanto, o corpo dela se encaixando no meu de uma forma que parece natural.
As pernas de Eliza se apertam ao redor da minha cintura enquanto eu a
seguro firmemente, cada toque dela me incendiando ainda mais.
Subo as escadas em direção ao meu quarto, cada passo no silêncio da
casa, apressado e decidido.
Empurro a porta com o pé, fechando-a sem tirar os olhos dela. Coloco
Eliza na cama com cuidado, mas há uma urgência em meus movimentos que
não consigo disfarçar.
Ela me olha de um jeito que me desarma, os olhos brilhando sob a luz
suave do quarto e sem que eu peça, ou tome iniciativa, ela tira a blusa,
revelando um sutiã branco de renda por baixo.
— Você é linda, sabia? Não me canso de dizer isso — digo, minha voz
saindo rouca, porque ela realmente é. Não só por fora, mas por tudo o que
representa para mim.
Não espero por uma resposta. Meus dedos encontram a barra da
camiseta que estou usando, e com um movimento rápido, puxo o tecido pela
cabeça, jogando-o no chão. O olhar dela percorre meu peito, e a intensidade
nos olhos de Eliza apenas aumenta a necessidade de tê-la quando suas mãos
exploram minhas costas, descendo até a linha do cós da minha calça, que
logo também está no chão.
Quando me inclino para beijá-la novamente, não há hesitação. Meu
corpo cobre o dela, e cada toque é mais firme, mais intenso do que antes.
Minhas mãos deslizaram por suas coxas, subindo lentamente, sentindo a
maciez de sua pele sob meus dedos e para a minha satisfação, ela reage a tudo
com um grunhido ou um gemido manhoso.
— Christopher... — ela murmura, mas a voz falha quando meus lábios
alcançam seu pescoço, deixando uma trilha de mordidas suaves que fazem
seu corpo se arquear contra o meu.
— Você tem sorte em ter a Aelin aqui, amor. Minha vontade era marcar
você todinha com a minha boca.
Minhas mãos continuam explorando, movendo-se para os botões de sua
calça. Cada camada retirada é uma barreira a menos entre nós, e isso me
deixa ainda mais faminto por ela só de calcinha.
Ela parece estar com pressa, faminta, ansiosa… Eu pelo contrário, não
pretendo adiantar nenhuma etapa.
— Não estou com pressa, baby — digo, acariciando seu queixo.
Na primeira vez que fizemos isso, sequer apreciei seu corpo, suas
curvas, suas peças íntimas, suas expressões, agora não estou com pressa.
Desde a primeira vez em que a vi, a comparei com uma divindade e hoje,
farei desse quarto seu santuário e da minha cama, seu altar para adorá-la pelo
tempo que eu achar necessário.
Meus lábios descem pelo seu abdômen, parando para saborear cada
parte. Pressiono beijos suaves na curva de seus quadris, enquanto as mãos
dela encontram meu cabelo, puxando levemente, como se precisasse de algo
para se agarrar.
Levo minhas mãos até suas costas e abro o feixe de seu sutiã. Espero
alguma reação que demonstre hesitação dela, mas o que recebo é seu olhar,
submisso, que me impulsiona a continuar, a me perder nos seios dela de
maneiras que nunca achei possíveis.
Subo lentamente, meus lábios traçando o caminho de volta até os dela.
Cada beijo é mais intenso que o anterior, mais faminto, como se eu quisesse
consumir tudo o que ela é.
Minhas mãos deslizam por suas coxas, até chegar em sua cintura. Eu a
puxo mais para perto de mim.
— Quero você — ela confessa contra os meus lábios, sua voz quase um
sussurro. — Agora.
Antes de realizar o pedido dela, pego uma camisinha no aparador ao
lado da cama porque, por mais que eu esteja louco para encher ela, ainda não
tivemos uma conversa decente sobre isso e nem pretendo fazer isso agora.
Sem contar que, na última vez, não fomos nada responsáveis.
Quando me posiciono entre suas pernas, Eliza tenta desviar os olhos,
talvez insegura, mas eu a faço me olhar.
— Quero que me olhe dessa vez — digo num tom de ordem, e vejo um
rubor subir por seu rosto antes que eu a beije novamente, profundo e
possessivo.
Eu a puxo para mais perto, meus dedos firmes deslizando por suas
costas e se ancorando na curva de sua cintura. O ritmo que estabelecemos é
lento no início, quase torturante, mas não consigo deixar de apreciar cada
movimento dela — o jeito como ela arqueia o corpo contra o meu, se
acostumando com o meu tamanho, os gemidos suaves escapando, apesar de
seus lábios tentarem contê-los…
— Olha para mim, Eliza — murmuro, a voz rouca.
Ela obedece, e os olhos dela encontram os meus, brilhando com uma
mistura de vulnerabilidade e fome. Isso me salva de um jeito que nada mais
poderia. Minhas mãos apertam suas coxas, puxando-a mais para mim,
enquanto eu me movo dentro dela com mais intensidade.
— Chris… — ela sussurra meu nome, e o som é uma maldita
recompensa.
Perco o controle por completo. Meu corpo responde ao dela como se
fôssemos feitos para isso. Meus lábios encontram o pescoço dela, deixando
beijos e mordidas que fazem sua respiração acelerar. Ela desliza as mãos
pelas minhas costas, arranhando levemente, e o arrepio que isso me provoca
faz gemer contra sua pele.
— Você é incrível — digo entre os movimentos, minha voz grave,
enquanto minhas mãos exploram cada centímetro do corpo dela.
Eliza se agarra a mim, seus dedos firmam no meu cabelo, enquanto ela
inclina a cabeça para trás, me dando mais espaço para explorá-la. Eu
aproveito, descendo os lábios pelo seu pescoço, pelo colo, saboreando cada
pedaço dela.
— Meu Deus, Christopher… — ela diz genuinamente, como se isso
fosse o ápice de qualquer coisa que ela pudesse dizer.
O ritmo se intensifica, nossos corpos se movem em perfeita sincronia.
Cada toque, cada suspiro, cada gemido nos leva mais perto do limite, e não
consigo mais pensar em nada além dela, da forma como ela responde a cada
movimento meu, da sensação de tê-la completamente para mim.
Quando finalmente chegamos ao ápice, é como se o mundo ao nosso
redor desaparecesse. O quarto está quente, nossos corpos colados, e tudo o
que ouço é uma mistura de nossas respirações pesadas.
Eu seguro o rosto dela com as mãos, puxando-a para um último beijo,
mais suave, mas ainda carregado de tudo o que não consigo colocar em
palavras.
— Como é bom ter você, Eliza — digo contra seus lábios, minha voz
rouca, mas cheia de certeza.
Ela me olha, ainda ofegante, e sorri tímida de um jeito que faz meu
peito apertar.
Deito ao lado dela, ainda com a mão perto, porque não quero largá-la.
Não agora. Nem nunca mais.
A manhã de domingo chega silenciosa, mas minha mente está longe de
estar tranquila. Estou acordado antes de todo mundo, sentado na beira da
cama, considerando algo que há dias vinha adiando. Preciso conversar com
minha irmã sobre Eliza e Aelin, expor alguns fatos que ela ainda não sabe
sobre o novo Christopher.
É uma conversa que achei que conseguiria ter com ela quando voltasse
da guerra, mas que sua reação tão feliz ao me reencontrar, me travou de tal
forma, que não achei que fosse relevante.
Agora estou aqui, acordado primeiro que todo mundo na casa,
refletindo sobre a relação que construí com Eliza e a maneira como parece
que tudo mudou de um jeito que nem eu sei ainda como processar.
Sei que isso só aconteceu por conta da mulher por quem me apaixonei e
também sei que minha irmã sofreu a maior parte do tempo em que Eliza não
esteve aqui.
Se existe alguém a qual eu devo um esclarecimento, esse alguém é a
minha irmã.
Nesse horário, tenho certeza que ela está se preparando para ir à igreja,
e antes que eu comece a reunir todos os motivos para não ir até lá, respiro
fundo e me levanto, decidindo que não vou pensar demais nisso. Apenas vou.
Depois de um banho rápido, visto uma camisa polo e uma calça jeans,
algo simples, mas decente. Quando saio do quarto, vou até o quarto onde
Eliza ainda dorme com Aelin, os dois corpos pequenos aninhados juntos na
cama. Uma visão que faz algo dentro de mim se aquietar.
Deixo um bilhete na mesa da cozinha explicando onde estou indo e
pego as chaves do carro, dirigindo em direção à igreja onde Madelyn e
Thomas costumam ir.
Ao chegar, sinto uma pontada de nervosismo ao ver os carros
estacionados e o movimento de pessoas entrando no local. Respiro fundo
novamente e decido que, se vou fazer isso, é melhor entrar logo.
O culto começa com cânticos e orações, e embora eu me sinta
deslocado no início, algo no ambiente começa a me acalmar. Não é sobre
religião, percebo, mas sobre a comunidade, o apoio. As palavras do pastor
não são pregações severas, mas reflexões sobre recomeços e perdão, temas
que tocam em partes de mim que eu nem sabia que ainda existiam.
Minha irmã não me vê e eu nem espero que isso aconteça, já que
assisto ao culto inteiro na parte de cima da galeria da igreja, apenas quando
termina, encontro ela na saída, cumprimentando algumas pessoas.
— Christopher? — ela pergunta, surpresa evidente em sua voz. Seus
olhos brilham, e ela abre um sorriso largo. — O que veio fazer aqui?
— Vim confessar meus pecados — respondo, tentando parecer casual.
— Não temos um padre aqui — ela me corrige, mas sem se ofender e
eu dou de ombros.
— Vim só agradecer — sou honesto, mas não sei ao certo o que quero
dizer com isso.
Madelyn me puxa para um abraço apertado.
— Isso significa muito para mim — ela diz, soltando-me e enxugando
discretamente uma lágrima.
— Para mim também — admito.
Enquanto caminhamos para o estacionamento, paro de andar como se
tivesse esquecido algo.
— E o Thomas? — pergunto.
— Vai ter um evento hoje à noite aqui. Ele vai ficar para ajudar a
arrumar as coisas.
Decidimos ir até a casa dela para conversar mais. Madelyn está com
Noah, e eu levo eles até a casa dela no meu carro, visto que eles deixaram o
dele em casa.
No caminho até a casa dela, Madelyn não se contém e solta um risinho,
observando-me dirigir.
— Você parece… diferente — diz, como só uma irmã mais velha sabe
fazer.
— Você acha, é? — desvio o olhar da estrada e analiso ela também. —
Eu também soube que você está diferente.
— Bom, acho que nossa conversa vai ter um nome em comum. Eliza
— Madelyn começa. — Parece que vocês levaram a sério a expressão "Tirem
as crianças da sala” — ela diz em tom brincalhão.
Estreito os olhos para ela.
— Não fizemos na sala, ainda.
Madelyn me dá um soco fraco no meu braço.
— Bem, acho que veio atrás de mim, pedir dicas, né?
— Pensando bem…
Madelyn me interrompe com outro soco.
— Na verdade, quero apresentá-las a você como minha família — digo
de uma vez.
Madelyn paralisa no banco do passageiro, claramente pega de surpresa.
Por um momento, ela não diz nada, apenas processa minhas palavras. Eu não
olho para ela; mantenho o foco na estrada até chegarmos à casa dela.
Descemos do carro em silêncio, e ainda não sei se ela está tentando
encontrar as palavras ou se simplesmente não sabe o que dizer. Quando nos
sentamos no sofá da sala, finalmente a encaro e vejo seus olhos vermelhos,
prestes a derramar algumas lágrimas.
Respiro fundo e começo:
— Não comentei nada sobre isso com a Eliza porque a gente ainda não
conversou sobre quando vamos contar para a Aelin, porém, acho que a hora
está chegando e eu não... — minha voz falha ao ver Madelyn secando o rosto,
fungando, me olhando com um jeito emotivo que nunca vi antes. — Maddie,
eu não vou te abandonar quando digo que elas serão minha família —
acrescento, tentando tranquilizá-la.
Antes que eu consiga processar, ela se inclina para me abraçar,
apertando-me com força.
— Deus! Nunca achei que esse momento chegaria! Estou tão orgulhosa
de você! — ela exclama, a voz embargada de emoção.
Eu me desvencilho suavemente, segurando os ombros dela para manter
o foco no que realmente quero dizer.
— Maddie, isso não significa que eu esteja ignorando o que está
acontecendo com você. Eu sei que você está sobrecarregada, e isso é algo que
precisa mudar.
Ela franze a testa, surpresa com a mudança de tom.
— Como assim?
— Eliza comentou — confesso. — Ela disse que você precisa de uma
rede de apoio. Eu vejo isso também. Thomas está sempre tentando ajudar,
mas você carrega muita coisa sozinha.
Madelyn suspira e desvia o olhar, como se estivesse buscando as
palavras certas.
— Eu tento, sabe? Tento manter tudo equilibrado. O Thomas agora está
dando conta da empresa por nós dois, e eu sinto que preciso dar conta da
casa, e do bebê, sozinha. E aí você voltou da guerra e…
— Eu sei, eu também não facilitei para você. Ainda estou lidando com
tudo isso e você não precisa se preocupar mais — digo, apertando a mão dela
com firmeza. — Também entendo que é inevitável para você não se
preocupar, mas quero que você assuma na minha vida o papel de irmã. Não
precisa cuidar de mim como se fosse a nossa mãe. Nós crescemos, Maddie.
Acho que agora chegou minha vez de fazer isso por você e estou dizendo que
você precisa de aceitar ajuda.
Não adianta, minha fala arranca mais lágrimas dela e sempre fico na
dúvida se isso é bom ou ruim. Dessa vez, parece ser um bom sinal, porque ela
assente, e vejo que minhas palavras estão começando a alcançar o que ela
precisa ouvir.
— Sente que os dias que a Eliza esteve aqui te ajudou?
Minha irmã assente.
— Nós podemos manter como está, então, mas preciso te adiantar que,
a Eliza não vai ficar por tanto tempo. Não é o que planejo. Quero ajudá-la no
que diz respeito ao que ela ama fazer.
Madelyn assente, me olhando com um leve sorriso.
— Ela tem um jeito incrível com crianças. O jeito que ela cuida do
Noah é a prova disso.
— Sim, e por isso, você precisa começar a procurar uma outra pessoa
— digo, vendo que ela está desviando o assunto. — Eu não quero parecer
ruim, Madelyn, mas quanto a condição financeira que você tem, não faz
sentido querer dar conta de tudo sozinha.
— Está certo. Talvez eu precise aceitar isso.
Ficamos em silêncio. Eu sem saber como emendar no próximo assunto
e ela esperando eu terminar o que vim conversar com ela.
— Tem mais uma coisa — acrescento, hesitante.
— O que foi?
— Realizei a primeira consulta com a psicóloga — faço uma pausa e
ela permanece em silêncio. — O TEPT não tem bem uma cura, mas muitas
pessoas conseguem viver de forma plena e funcional com tratamento
adequado, conseguindo alcançar a remissão dos sintomas — explico para ela,
desviando o olhar para a estante decorativa da sala.
Ela segura minha mão, numa forma de dizer que está aqui comigo.
— O psiquiatra também passou os antidepressivos, que estão ajudando
com a ansiedade e insônia. O que quero dizer com isso, é que… por mais que
você tenha convivido pouco com o antigo Christopher, quanto mais cedo
você aceitar que ele não vai voltar, melhor vai ser para a nossa relação — ao
dizer isso, lanço um olhar sincero para ela. — Alguns dias são mais difíceis
que outros, e nos dias melhores, farei de tudo para ser um bom tio para o
Noah, cuidar de você… ser mais presente, mas vai ter dias, em que… só a
Eliza sabe o que eu passo — confesso e minha voz vacila por um momento.
— Ah, Chris…
— E isso também não quer dizer que estou te deixando fora, mais uma
vez, mas sim, que prefiro que seja desse jeito — Madelyn assente.
— Você está mudando, Chris e eu estou feliz por isso. Estou feliz que
você está buscando compreender tudo. Espero que um dia possamos
conversar sobre o que você passou, mas enquanto esse dia não chega, tenho
certeza que Eliza cumpre bem o papel dela no quesito apoio.
— Sim — concordo. — Estar com a Eliza torna tudo mais leve. Com
Aelin então… Ontem eu dancei ballet com elas — conto e Madelyn abre um
sorriso.
— Daria tudo para ver isso — ela gargalha e o clima, mais uma vez,
volta a ficar leve entre nós.
Quando me despeço dela depois do almoço, há uma leveza que não
sentia há muito tempo. É um passo em direção ao que sempre quis para nós
dois: uma relação onde possamos cuidar um do outro, sem desgaste ou
conflitos.
O céu começa a mudar assim que deixo a casa de Madelyn. O vento já
não é mais uma brisa leve; agora é cortante, carregando folhas e poeira pela
rua. Olho para cima e vejo as nuvens se acumularem, escuras e ameaçadoras,
prenunciando uma tempestade.
Dirijo devagar, tentando manter o foco na estrada enquanto o vento
balançava os galhos das árvores de um lado para o outro. Não sei se é o clima
ou algo mais, mas sinto uma inquietação crescendo no meu peito.
Chego em casa um pouco antes das primeiras gotas começarem a cair.
O som da chuva é suave no início, mas logo se intensifica, batendo contra o
telhado e as janelas. Assim que entro, o ambiente parece diferente. Aelin está
no sofá, vendo o filme da Moana e Eliza está aconchegada à filha.
— O tempo virou rápido — digo, anunciando a minha presença.
— Eu notei. Parece que vai ser uma tempestade forte. Recebi um alerta
no celular — Eliza diz, estendendo o celular para que eu veja. — Fiquei
preocupada de você não chegar antes.
Aelin olha para mim, empolgada.
— Tio Chris, você viu como o céu está escuro? Parece um filme de
terror!
Sorrio levemente, tentando manter a atmosfera leve, mas algo no som
dos trovões ao longe já começa a despertar um desconforto familiar.
— Sim, mas nada de filmes de terror para você, mocinha — respondo,
bagunçando o cabelo dela de leve.
Enquanto o vento uiva lá fora e os trovões ficam mais próximos, a casa
começa a ficar mais escura, como tremulando a cada instante. É apenas uma
questão de tempo antes de…
A TV se apagar e um trovão explodir no céu.
— Ah, não! — exclama Aelin, olhando ao redor.
— Calma pequena, foi só uma queda de energia. Já, já volta — digo,
tentando soar calmo, mas meu coração já está acelerado.
Testo os interruptores da sala. Nada.
— Que bom que ainda não escureceu — Eliza comenta, tentando ser
otimista, talvez reparando na minha tensão.
— Vou me certificar se a porta dos fundos está bem fechada, por causa
da ventania — anuncio, levantando-me rapidamente, precisando de uma
desculpa para me mover.
Eliza me observa, mas não diz nada. Caminho até a cozinha, onde os
flashes dos relâmpagos iluminam brevemente o espaço. O som da chuva é
garantido agora, e cada estrondo de trovão parece mais alto que o anterior.
Paro por um momento, segurando a pia para me equilibrar. Minha
respiração está curta, e minha mente está começando a se encher de imagens
que não pertencem a este lugar.
— Chris?
A voz de Eliza me traz de volta. Me viro para encontrá-la na entrada da
cozinha, segurando uma vela na mão.
— Está tudo bem? — ela pergunta, a preocupação evidente em sua voz.
— Sim — respondo, mas minha voz é mais áspera do que eu pretendia.
Ela não acredita em mim.
— Vamos sentar um pouco — ela sugere, mas não é exatamente uma
pergunta.
Respiro fundo e a sigo até a sala, onde Aelin agora, está encolhida
debaixo de sua manta cor-de-rosa. Provavelmente, também está com medo.
Eliza me guia até o sofá e senta ao meu lado.
— O que está acontecendo? — ela pergunta suavemente, mantendo o
tom calmo para não alarmar Aelin.
Demoro um momento para responder, minha mente ainda dividida
entre o presente e o passado.
— Os trovões. Eles me lembram… coisas — digo, minhas mãos
esfregando os joelhos nervosamente.
Eliza coloca a mão na minha, um gesto simples, mas que ajuda a me
ancorar.
— Você está aqui, Chris. Não lá — ela diz, a voz firme, mas cheia de
empatia.
Olho para ela, mas lembro do dia em que eu a ataquei achando ser outra
pessoa e me recolho dali, levantando-me rapidamente.
— Preciso de um tempo sozinho — murmuro, afastando a minha mão e
subo as escadas com presa, sem dar a ela a chance de vir atrás de mim.
Ao fechar a porta, sinto o peso do dia inteiro cair sobre mim. Cada
trovão lá fora é um lembrete constante, uma batida surda no fundo da mente
que traz de volta memórias que tento enterrar há meses.
Deito na cama, tentando controlar minha respiração, mas quando fecho
os olhos, o passado me alcança.
O calor era insuportável, abafado e sufocante. O cheiro de poeira e suor misturava-se ao
sangue seco que já não conseguíamos limpar. Kevin estava encostado na parede de terra, seu rosto
pálido e os olhos fundos.
— Chris… — ele chamou com a voz fraca. — Você acha que eles ainda estão procurando?
Eu não sabia o que dizer. Fazia vinte e três dias que estávamos ali, presos nos escombros de
uma explosão que desmoronou parte da base inimiga onde nos infiltramos. Nosso plano foi por água
abaixo no instante em que fomos interceptados.
Nosso cantil de água havia acabado e só bebíamos água quando chovia. O que também não era
uma coisa boa, já que ficamos à beira da hipotermia quando isso aconteceu.
— Claro que estão — menti, tentando manter a esperança viva, mesmo que eu mesmo não
acreditasse mais.
Kevin soltou uma risada curta, amarga. Se o grupo inimigo não nos encontrasse, íamos morrer
de fome.
— Sempre foi péssimo mentindo.
Olhei para ele e vi o estado em que estava. Sua perna esquerda estava presa sob uma viga de
concreto, esmagada até o ponto de ele não conseguir se mover. Sabíamos que, mesmo que o resgate
chegasse, as chances de ele sair dali eram mínimas.
Eu estava inteiro, pelo menos fisicamente. Tinha liberdade para me mover, mas isso só tornou
minha situação pior. Eu poderia sair. Podia fugir. A base estava parcialmente abandonada, com pouca
vigilância, porque nossos captores acreditavam que nenhum de nós tinha conseguido escapar.
Então, por não ter nos encontrado, fomos deixados para trás.
Todas as noites, Kevin e eu discutimos o mesmo plano.
— Você vai — ele disse, apontando para a saída improvisada que havíamos identificado.
Kevin tirou sua dog tag do pescoço e colocou na palma da minha mão. Em seguida, dobrou
meus dedos entre a corrente.
— Quero que leve isso com você.
— Kevin… — comecei a protestar, mas ele me interrompeu.
— Quando estiver longe o suficiente, eu uso a granada e o nosso pelotão vai identificar que a
explosão aconteceu onde eles perderam nosso sinal. Vão vir resgatar você.
— Não — respondi automaticamente, como fazia sempre.
Ele me encarava, os olhos cansados, mas certos.
— Chris, você tem uma chance. Não desperdice isso. Se não decidir isso logo, não vai ter forças
para fugir. Vai morrer de fome.
O que ele não entendeu, ou talvez entendesse bem demais, era que a ideia de deixá-lo para trás
me dilacerava. Ele estava lá comigo em todas as missões, o amigo que sempre me fazia rir, que me
ajudava a encontrar forças mesmo nas situações mais desesperadoras.
— Eu não vou te deixar aqui — eu repetia, mesmo sabendo que era uma promessa que talvez
não pudesse cumprir.
Os dias se arrastavam, e cada um deles trazia a mesma rotina cruel: fome, sede e a espera
constante pelo resgate que nunca vinha.
Certa noite, Kevin segurou meu braço com mais força do que achei que ele fosse capaz.
— Chris, escuta. Eu vou morrer aqui — ele disse, a voz tremendo, mas firme. — E isso está tudo
bem. É o meu trabalho, o meu propósito. Mas você precisa viver.
Fechei os olhos, incapaz de responder. A verdade era que eu não sabia como poderia "viver"
longe daquele lugar, da guerra. Passei dez anos sendo moldado para cumprir ordens, para ser uma
engrenagem em uma máquina que eu nem compreendia completamente.
— Você tem uma família esperando. Uma irmã que você ama, que acha que você é o herói da
porra toda. Não jogue isso fora.
Eu queria acreditar nele, mas, no fundo, tudo o que conseguia sentir era que eu era um
assassino e, na verdade, estava sendo há dez anos, mas parece que a ficha só tinha caído, porque
Kevin ia morrer por minha causa e essa, era uma culpa que me assombraria pelo resto da minha vida.
— Christopher! — a voz de Eliza me desperta para o presente de uma
vez só e eu sento bruscamente, mas antes de qualquer reação que eu possa
ter, sinto uma dor aguda na costela.
Ela usou a arma de choque em mim.
A energia não volta, e Christopher também não.
Estou sentada no chão do quarto dele, a única iluminação sendo a
chama trêmula da vela ao meu lado. O som da chuva está moderado, mas os
trovões ainda ecoam à distância, como se o céu se recusasse a ficar em
silêncio.
Olho para a cama onde ele está deitado, o peito subindo e descendo em
um ritmo constante. O choque da arma o derrubou, mas só porque ele havia
pedido isso. Ainda assim, não consigo evitar o nó na garganta.
— Desculpa… — murmuro para mim mesma, apertando as mãos
contra os joelhos.
O tempo parece se arrastar até que, finalmente, vejo Christopher
mexendo os dedos, um sinal de que está acordando. Levanto-me rapidamente,
segurando a vela com cuidado e me aproximando da cama.
— Christopher? — chamo baixinho, vendo seus olhos se abrirem
lentamente.
Ele leva um momento para focar o olhar em mim, e quando o faz, há
confusão e algo mais que não consigo identificar imediatamente.
— O que aconteceu? — ele pergunta, a voz rouca.
— Você pediu para eu usar uma arma de choque se algo acontecesse —
digo, hesitante, sentando-me na beira da cama. — E aconteceu.
Ele fecha os olhos por um momento, respirando fundo.
— Eu lembro — ele murmura.
— Me desculpe — digo, com voz embargada. — Eu não queria fazer
isso, mas a Aelin estava lá embaixo e eu tive medo de você fazer alguma
coisa.
Christopher balança a cabeça levemente, um pequeno sorriso amargo
surgindo em seus lábios.
— Você fez o que eu pedi. Não tem por que se desculpar. Cadê ela? —
ele pergunta.
— Cochilou. Eu a trouxe para o quarto.
Por um momento, ficamos em silêncio, apenas o som distante da chuva
preenchendo o quarto. Decido quebrar o silêncio.
— Quer falar sobre o que aconteceu?
Ele abre os olhos e me olha por um longo tempo antes de responder.
— Tem coisas que contei pra você, que nunca contei a ninguém. Nem
para Madelyn. Nem para o coronel Thompson.
A intensidade em sua voz me prende, e eu assinto levemente,
incentivando-o a continuar.
— Todos sabem da história sobre a missão que deu errado, sobre
Kevin… — ele começa, a voz hesitante. — Mas a parte que nunca contei
para eles, é que
Kevin ainda estava vivo quando eu escapei de lá.
Christopher se senta na cama, os olhos fixos na vela que seguro, como
se a luz fosse o único ponto de estabilidade no momento e abre a segunda
gaveta do pequeno móvel que fica ao lado de sua cama, tirando de lá uma
dog tag.
— Antes que eu partisse, Kevin tirou a dog tag dele e colocou na minha
mão — ao dizer isso, ele olha para as duas plaquinhas de metal entre seus
dedos e encolhe os ombros, soltando um longo suspiro. — Ele falava pouco
da família dele que era composta da mãe e do padrasto, mas pelo que parecia,
Kevin não tinha muito contato com a mãe desde que ela casou com o cara.
Ele preferiu morrer a cogitar voltar para casa.
A confissão me pega de surpresa, e vejo seus ombros caírem, como se o
peso do que está dizendo fosse insuportável.
— Ele me deu a tag dele, Eliza. E eu a guardei. Nunca disse para
ninguém que ele morreu como um herói. Preferi que todos achassem que ele
havia morrido no momento da interceptação, a ter que dizer que sacrificou
tudo para que eu pudesse sair. Não contei a verdade para ninguém porque
sabia que, se contasse, teria que admitir para a mãe dele, que Kevin escolheu
salvar minha vida a ter que voltar para a família e eu, simplesmente, quis
apagar a história que ele deixou com honra, porque não queria que me
olhassem como um coitadinho. Porque fui covarde.
Minha garganta seca, e coloco a vela no cômodo ao lado da cama, antes
de pegar a mão dele.
— Talvez seja hora de começar a perdoar a si mesmo, Christopher.
Tenho certeza que Kevin já te perdoou.
É tudo o que consigo dizer e acredito ser o melhor que ele precisa
ouvir.
Ele não responde de imediato, apenas aperta minha mão de volta, como
se estivesse tentando absorver minhas palavras.
Antes que ele diga algo, o som de pequenos passos quebra o silêncio.
Olho para a porta e vejo Aelin parada ali, os olhos cheios de sono e um
pequeno cobertor nos braços.
— Mamãe, a luz não vai voltar? — ela pergunta num choramingo
manhoso.
— Já, já, vai voltar, amor — minto, apenas para tranquilizar ela.
— Tio Chris? — ela chama, a voz baixa.
— Oi, pequena — ele responde, sua voz suavizando instantaneamente.
— Estou com medo. Posso dormir aqui com você hoje?
Christopher olha para mim, como se estivesse pedindo permissão, e eu
apenas dou um pequeno sorriso, assentindo.
— Claro que pode — ele diz, estendendo a mão para ela.
Aelin sobe na cama e se aconchega no peito dele quase como se esse
gesto lhe fosse familiar e nós dois nos entreolhamos. Christopher me entrega
a dog tag de Kevin que ainda estava entre seus dedos e eu a guardo no
mesmo lugar em que estava, enquanto ele, ainda sem saber onde pôr as mãos,
acaricia os cabelos bagunçados de Aelin, todo sem jeito.
A cena faz algo em mim transbordar, mas também sinto uma calma
inesperada.
Enquanto eles se ajeitam, apago a vela e me levanto, pronto para deixá-
los.
— Tem espaço para você também — Christopher me chama.
— É, mamãe, o tio Chris é quentinho.
Penso em responder que eu sei disso, mas guardo o comentário para
mim e me deito ao lado deles, deixando Aelin entre nós dois.
— Tio Chris, você já teve uma família? — Aelin começa a divagar com
suas perguntas enquanto encaramos o teto no escuro.
— Ele tem uma família, Aelin — corrijo ela. — Eles só não moram
juntos — explico.
— É porque caso ele não tivesse, a gente podia chamar ele para fazer
parte da nossa — ela diz em tom de sugestão e mesmo que estejamos em
pleno breu, sei que Christopher está me olhando, esperando que eu dê a ele
essa permissão.
Aelin cochila rápido, mas o silêncio que fica entre nós dois, diz mais do
que se verbalizássemos.
Estamos prontos para nos tornarmos uma família.
PARTE IV
“Mas você nunca estará sozinha
Eu estarei com você do anoitecer ao amanhecer
Eu estarei com você do anoitecer ao amanhecer
Amor, eu estou bem aqui
Eu vou te apoiar quando as coisas derem errado
Eu estarei com você do anoitecer ao amanhecer
Eu estarei com você do anoitecer ao amanhecer
Amor, eu estou bem aqui.”
DUSK TILL DAWN - ZAYN FEAT. SIA
É perto da meia-noite, quando o toque alto do celular de Christopher
ecoa pela casa silenciosa. Ainda sonolento, ele estica o braço e pega o
aparelho que ilumina seu rosto com o nome de Madelyn no visor.
Percebo que ela nem espera ele dizer “alô” ao atender e começa a
contar o que ouve.
— O quê? — ele pergunta, sua voz de repente tensa, sentando-se na
cama.
Faço o mesmo gesto e, mesmo sem saber do que se trata, pelo horário,
não me parece coisa boa.
— Estou indo — ele diz, encerrando a chamada e ligando a lanterna do
celular para iluminar o caminho dele até o closet, onde ele caminha com
pressa em busca de uma roupa.
Eu o sigo.
— O que aconteceu? — pergunto, sentindo meu peito apertar.
— Madelyn acabou de chegar da igreja. De tarde, ela teve que sair de
casa de carro para buscar o Thomas que havia ficado na igreja. A chuva
derrubou algumas árvores no caminho da casa deles, então eles se abrigaram
na igreja para esperar. Retiraram há pouco tempo as árvores, e quando eles
chegaram em casa, há alguns minutos, encontraram a casa toda revirada —
ele diz, sua voz carregada de preocupação. — Parece que alguém invadiu
enquanto eles estavam fora.
Meu coração acelera.
— Levaram algo? — tento saber.
— Não sei. Ela nem deve ter reparado nisso ainda. Acabaram de
acionar a polícia — Christopher responde rapidamente. — Ela e Thomas
pareciam assustados. Vou ir até lá — ele anuncia, mas eu o barro antes que
ele pegue as chaves do carro.
— Deixa eu ir também — peço e ele encara Aelin na cama dele, num
sono profundo. — Ela fica no carro — negocio e ele assente.
Em poucos minutos, enrolo Aelin em sua manta cor-de-rosa e nos
preparamos para sair com ela no colo, soltando alguns resmungos.
Enquanto Christopher dirige até a casa de Madelyn, a tensão é palpável.
Aelin, dormindo no banco de trás, parece alheia ao que está acontecendo, mas
eu não consigo evitar o turbilhão de pensamentos que invadem minha mente.
O carro de Christopher estaciona em frente à casa de Madelyn, e o
primeiro detalhe que noto é a presença de uma viatura policial no meio-fio. O
motor ainda está ligado, e as luzes azuis piscam. Madelyn e Thomas estão
parados na calçada, ambos visivelmente abalados, enquanto conversam com
dois policiais uniformizados. A energia no bairro ainda não voltou e a casa
dela está mergulhada no breu.
Christopher desliga o carro e respira fundo antes de abrir a porta.
— Fique no carro com a Aelin — ele diz, mas balanço a cabeça.
— Não. Vou com você.
Ele hesita, olhando para Aelin no banco de trás.
— Você fica aqui, tá bom, amor? — digo para ela, tentando manter
minha voz calma. — Não saia do carro, filha.
Ela nem escuta, está encolhida no banco, com os olhinhos fechados.
Christopher verifica se o carro está trancado e seguirmos juntos até
Madelyn e Thomas do outro lado da rua. Alguns vizinhos estão na calçada,
com lanternas de celulares acesas, preocupados, tentando se atualizar do que
aconteceu.
Quando nos aproximamos, vejo que Madelyn está segurando Noah nos
braços, tentando acalmá-lo enquanto ele resmunga inquieto. Sua expressão
está carregada, o rosto pálido, como se ela ainda estivesse processando o que
aconteceu.
— Madelyn — Christopher chama com voz preocupada.
Ela se vira imediatamente, e o alívio em seu rosto ao vê-lo é inegável.
— Chris! — ela diz, a voz trêmula. — Foi horrível. Quando chegamos
da igreja, encontramos tudo assim — Madelyn faz um gesto em direção à
porta da casa, sem conseguir terminar a frase.
— Calma — Christopher diz, colocando uma mão no ombro dela. —
Vocês estão bem?
— Estamos — responde Thomas, mas seu tom é grave. — Não levaram
nada de valor, mas a casa está completamente revirada.
Christopher franze o cenho, olhando para os policiais que ainda fazem
anotações.
— Eles disseram alguma coisa?
— Por enquanto, nada conclusivo — responde Thomas, cruzando os
braços. — Perguntaram se tínhamos desavenças com alguém ou se
suspeitamos de algo, mas...
— Mas o quê? — Christopher pressiona.
— Sinto que isso não foi um roubo comum — Thomas responde,
olhando para Madelyn, que assente nervosamente.
— Está tudo revirado — Madelyn confirma, sua voz falhando. — A
cozinha, a sala, o escritório… parece que estavam procurando algo.
Meu estômago se revira. As palavras dela ecoam em minha mente, cada
detalhe se encaixando de forma perturbadora. Não é difícil imaginar quem
poderia estar por trás disso. Simon.
Mas não digo nada. Ainda não.
— E vocês? Viram algo estranho antes de saírem? — Christopher
pergunta.
— Não — Madelyn responde. — Eu saí de tarde de carro para buscar o
Thomas na igreja, na hora que começou a tempestade, mas não deu tempo de
voltar, o vento forte derrubou algumas árvores no caminho de volta, e a única
alternativa, foi esperar lá na igreja a chuva e os ventos passarem. Quando eles
retiraram as árvores e voltamos, encontramos tudo assim.
Um dos policiais se aproxima, interrompendo a conversa.
— Senhor e senhora Ford, vamos precisar de mais algumas
informações. E seria bom se pudessem nos mostrar o que acham que foi
revirado ou danificado.
Madelyn lança um olhar nervoso para o policial antes de responder:
— “Mostrar o que foi revirado ou danificado?” que tal… a casa inteira?
— ela responde irritada.
— É difícil listar o que não foi danificado, senhor policial — Thomas,
comenta, como se estivesse reformulando a fala de Madelyn.
— Conseguiram acessar as câmeras? — o policial pergunta.
Thomas balança a cabeça negativamente.
— Não. O bairro todo está sem energia. Ninguém conseguiu imagens.
— Algum vizinho comentou algo sobre ter visto alguém entrando?
Thomas olha ao redor.
— Podemos perguntar, mas a maioria só ouviu barulhos.
Christopher me lança um olhar, ouvindo o depoimento que eles dão.
— Quero dar uma olhada — Christopher diz, firme.
Ele olha para mim, como se quisesse me pedir para ficar de fora, mas
balanço a cabeça antes que ele diga qualquer coisa.
— Eu quero ver também — peço, minha voz mais firme do que
esperava, ligando a lanterna do meu celular.
Christopher suspira, mas não insiste.
Madelyn aperta Noah contra o peito enquanto entramos na casa. Assim
que cruzo a porta, o caos toma conta da minha visão. O lugar está
completamente revirado. Gavetas abertas, almofadas rasgadas, papéis
espalhados pelo chão. O cheiro de algo queimado ainda paira no ar, e vejo a
expressão de Christopher endurecer ao observar a cena.
Parece até que a tempestade bagunçou mais na casa do que do lado de
fora.
— Meu Deus… — sussurro, levando uma mão à boca.
— Foi isso que vimos — diz Madelyn, tentando manter a calma,
embora ainda claramente abalada.
Christopher caminha pela sala, inspecionando cada canto com um olhar
atento. Ele para em frente à estante de livros, onde alguns volumes foram
jogados no chão, e se ajoelha para recolher um papel amassado.
— Não acho que estavam procurando algo — ele murmura, quase para
si mesmo.
Minha mente começa a girar com as possibilidades. Será que isso tem
algo a ver com Simon? O padrão é o mesmo do que aconteceu comigo: um
rastro de destruição, mas nada de valor material levado.
Madelyn balança a cabeça, os olhos se enchendo de lágrimas.
— Por que fizeram isso?
Christopher se levanta, segurando o papel que recolheu.
— Parece que só queriam destruir.
Thomas assente, olhando para Madelyn, preocupado.
Christopher volta seu olhar para mim, sua expressão séria.
— Eliza, você pode ajudar Madelyn a pegar o que ela precisa? Vocês
podem passar a noite lá em casa. Não sabemos se quem fez isso pode voltar.
A voz de Christopher carrega uma urgência silenciosa que faz meu
estômago revirar.
— Claro — respondo sem hesitar, lançando um olhar rápido para
Madelyn, que ainda parece em choque.
— Pode deixar que vou ficar de olho no carro daqui — ele
complementa, referindo-se a Aelin, que continua dormindo no banco de trás,
alheia ao que está acontecendo.
Madelyn respira fundo antes de seguir na frente, subindo as escadas
com passos incertos. A luz das lanternas dança contra as paredes conforme
avançamos pelo corredor, cada sombra projetada aumentando a sensação de
que alguém passou por aqui. Alguém que não foi convidado.
Quando chegamos ao quarto de Noah, um arrepio percorre minha
espinha.
O cômodo está irreconhecível.
O berço, que antes ficava encostado na parede, agora está tombado, o
cercado de madeira partido ao meio. Gavetas abertas, roupas de bebê jogadas
pelo chão como se alguém tivesse revirado cada peça deliberadamente. Os
pequenos brinquedos que antes enchiam o espaço de cor e alegria estão
quebrados, alguns com as peças espalhadas, outros pisoteados até perderem a
forma.
Mas é o colchão rasgado que me faz prender a respiração.
A espuma interna está exposta, retalhada por cortes longos e
irregulares, como se tivessem sido feitos com uma lâmina afiada.
Madelyn suspira profundamente, segurando Noah ainda mais perto de
si, como se o simples contato com o filho fosse capaz de dar forças para
processar o que está diante de nós.
— Vamos pegar algumas coisas para vocês, tá bom? — minha voz sai
suave, tentando oferecer algum conforto diante do caos.
Ela apenas assente, mas seus olhos começam vagando pelo quarto, a
expressão compartilhada de incredulidade e medo.
Me abaixo para pegar algumas que ainda estão intactas, dobrando-as da
melhor forma possível, e percebo que meus dedos tremem suavemente
enquanto tento focar na tarefa, mas o peso da situação é sufocante.
O silêncio é absoluto. Até mesmo a respiração de Madelyn parece mais
pesada. Então percebo que ela está estática, os olhos fixos na parede atrás do
berço destruído.
— Eliza… — sua voz sai hesitante, quase sem ar.
Sigo seu olhar e direciono a lanterna para iluminar o que quer que tenha
prendido sua atenção.
E é então que vejo.
Meu coração dispara.
O papel de parede azul-claro de Noah está rasgado, mas não é isso que
faz meu sangue gelar.
São as palavras rabiscadas ali, gravadas diretamente na parede de forma
agressiva, como se cada letra tivesse sido esculpida com um objeto afiado.
“Eu avisei que iria te encontrar, Angel.”
O mundo ao meu redor parece se dissolver.
O som da chuva fina do lado de fora desaparece. O peso do celular na
minha mão. Tudo se resume a essas palavras, ao nome que só uma pessoa me
chama.
Simon.
Meu peito se contrai tão forte que preciso me apoiar na cômoda para
não perder o equilíbrio.
Ele estava aqui.
Ele fez isso.
A confirmação me atinge como um golpe seco, arrancando o ar dos
meus pulmões.
Minha visão se torna turva, mas não por lágrimas. Pelo medo. Pela
culpa.
Sinto meu corpo reagir antes mesmo de conseguir formular um
pensamento coerente. Dou um passo para trás, depois outro, como se pudesse
criar alguma distância entre mim e aquelas palavras. Como se pudesse negar
a realidade diante de mim.
Mas não há negação.
Simon não quer apenas me assustar. Ele quer mostrar que conseguiu
chegar até mim. Que pode chegar até qualquer um que esteja ao meu redor.
Madelyn se vira para mim lentamente, seus olhos arregalados cheios de
pavor.
— Por que ele fez isso?
Minha boca se abre, mas nenhuma palavra sai. O nó na minha garganta
é tão forte que me impede de falar.
Como posso dizer a ela que isso é um jogo para ele? Que destruir
minha casa não foi suficiente? Que agora ele está destruindo tudo ao meu
redor como uma forma de me isolar, de me culpar? De se vingar?
Minha respiração está irregular, e Madelyn percebe.
— Eliza, se acalma… — sua voz treme, mas há uma urgência nela.
Fecho os olhos por um segundo, tentando controlar o pânico que
ameaça tomar conta de mim. Então, forço a mim mesma a encará-la.
— Foi ele — minha voz sai quase num sussurro. — Foi o Simon.
Madelyn aperta Noah contra o peito, o terror estampado em cada linha
de seu rosto.
O silêncio que se segue é devastador.
Não há mais dúvidas.
Simon está mais perto do que nunca.
E agora, ele não está apenas atrás de mim.
Está atrás de todos nós.
O carro desliza pela estrada quase deserta enquanto seguimos em
direção à minha casa. A tensão no veículo é quase palpável. Eliza está no
banco do passageiro e Aelin, dormindo no banco de trás, presa pelo cinto de
segurança. Inclusive, preciso comprar uma cadeirinha para ela.
Eliza mantém o olhar fixo pela janela, mas eu noto o aperto em suas
mãos, os dedos entrelaçados sobre o colo.
No espelho retrovisor, vejo o carro de Thomas e Madelyn nos
seguindo. Eles estão logo atrás, após tomarem a decisão de que ficar na
minha casa essa noite. É uma forma de proteger Noah de tudo o que está
acontecendo até sabermos do que se trata.
Depois que Eliza e Madelyn nos chamaram para ver a mensagem
deixada na parede do quarto de Noah, tive certeza que Simon não brinca
quando o assunto é ameaças.
Após explicar a situação para a dupla de policiais que estavam lá, eles
pediram que ao amanhecer, nós comparecêssemos à delegacia para formalizar
a denúncia e entrar com uma medida protetiva para Eliza até Simon ser
identificado e preso.
Apesar de ser o certo a se fazer, pelo silêncio dela, percebo que está
assustada com tudo isso. Eu sei que Eliza jamais imaginou que Simon faria
isso, ainda mais envolvendo Madelyn, mas não é culpa dela. Nunca foi.
Respiro fundo, mantendo os olhos na estrada. Desde que li o aviso de
Simon no espelho da antiga casa de Eliza, a preocupação não saiu da minha
cabeça. Agora, com a invasão na casa de Madelyn, tudo parece ainda mais
conectado.
Ele não vai desistir enquanto não se vingar de Eliza. Eu feri seu ego
naquele dia, e agora, enquanto ele não sentir que me atingiu, mesmo que
indiretamente, não vai parar.
Olho para Eliza de relance. Ela não disse uma palavra desde que saímos
da casa da Madelyn. Sei que ela está tentando manter a calma por Aelin, mas
o peso do medo está estampado em seu rosto.
— Vai ficar tudo bem — digo, quebrando o silêncio. — Nada disso é
sua culpa.
— É meio difícil acreditar nisso — ela vira o rosto para mim, os olhos
brilhando, prestes a lacrimejar.
Quando finalmente chegamos em casa, Thomas estaciona atrás de mim.
Saio do carro primeiro, dando a volta para abrir a porta de Eliza. Aelin ainda
dorme, então ela a carrega no colo enquanto eu sigo até a porta para
destrancar a entrada.
Madelyn sai do carro segurando Noah contra o peito, com Thomas logo
atrás, carregando algumas bolsas. Eles parecem exaustos, como se o medo
tivesse sugado toda a energia deles.
Assim que entramos, a casa parece maior e mais vazia do que o normal.
Madelyn agradece baixinho enquanto se dirige para o andar de cima para
colocar Noah num quarto de hóspedes. Thomas, no entanto, fica parado no
meio da sala, os braços cruzados, e eu sei que ele quer falar alguma coisa.
— Preciso perguntar — ele começa, e seu tom já me faz ficar tenso.
— O quê? — respondo, encarando-o.
Ele lança um olhar para Eliza, que está se encaminhando com Aelin até
o andar de cima também.
— Esse tal de Simon — ele abaixa o tom de voz, mas não o suficiente
para Eliza não ouvir, reparo com a visão periférica, que ela hesita com a
Aelin no colo enquanto sobe as escadas. — Ele é ex dela, não é?
Meu maxilar trava, e antes que eu possa responder, Thomas continua.
— E, pelo que parece, ele não aceitou bem o fim das coisas. Não acham
que deviam ter contado isso antes? Talvez fosse mais fácil tomar
providências contra ele.
— Thomas… — meu tom já é um aviso, mas ele não para.
— Eu estou dizendo isso, porque temos que pensar em proteção. Você
trouxe ela para cá, Chris. Trouxe ela e a filha dela para dentro da sua casa. E
agora, Madelyn e Noah estão envolvidos nisso também. O cara destruiu a
minha casa. Destruiu o quarto do meu filho, as coisas que minha mulher se
dedicou a gravidez inteira para arrumar. Você conhece a Madelyn, ela vai
lamentar isso, vai ficar mal, mas vai dizer para todo mundo que está tudo
bem, que vamos recuperar tudo, só que não tem nada bem, porra.
— A culpa não é da Eliza — rebato, minha voz mais grossa do que eu
pretendia.
Eliza continua parada no mesmo lugar, e vejo o jeito como ela encolhe
os ombros, claramente desconfortável com a conversa.
— Eu sei exatamente o que está em jogo aqui — continuo, mais baixo,
porém firme. —, mas a Eliza não precisa de julgamentos agora. Ela já passou
por coisas suficientes.
— Eu não estou julgando, só estou preocupado com a Madelyn e com o
meu filho — Thomas responde, agora tentando baixar o tom.
— Então mostre essa preocupação sem culpar ninguém — respondo,
cruzando os braços. — A última coisa de que ela precisa é se sentir culpada
por algo que não é culpa dela.
— Ele é o pai da menina? Ex-marido dela? Por que ela veio morar
aqui? O machucado no rosto dela, foi ele? — Thomas me enche de perguntas,
como se fosse direito dele saber e realmente, quero que se foda se é direito
dele ou não, mas não irei deixar que ele culpe Eliza sem nem ao menos
conhecê-la.
— Simon é alguém perigoso. Ele não é nada dela. Na noite em que eu o
vi pela primeira vez, eu o arrebentei e só não atirei na cara dele, porque Eliza
me parou. Eu feri o ego dele e agora, ele só vai parar quando eu fizer isso de
novo. Se tem alguém que você precisa culpar aqui, esse alguém, sou eu —
digo de uma vez, sentindo meu sangue ferver. — Agora, se você abrir sua
boca mais uma vez para levantar qualquer hipótese de que ela é a responsável
por tudo isso, serei obrigado a quebrar os seus dentes. A Eliza e a Aelin, são
da família agora e eu espero que você as trate com o mesmo respeito que eu
te trato. Simon não é ex-marido da Eliza, e o único pai que a Aelin tem, sou
eu.
O silêncio cai entre nós, e Thomas solta um suspiro pesado antes de
assentir.
— Tudo bem. Só não podemos baixar a guarda.
— Não vamos — digo, encerrando o assunto.
Eliza volta a subir os degraus com Aelin em silêncio e eu percebo o
quanto essa discussão a afeta, então subo atrás dela e a encontro numa
tentativa de girar a maçaneta do quarto de hóspedes em que ela está dormindo
com Aelin.
— Eliza — chamo, antes que ela entre. — Podemos conversar?
— Chris… eu… — ela começa, mas eu balanço a cabeça.
Ajudo ela com Aelin e fecho a porta atrás de nós dois.
— Não precisa dizer nada.
— Preciso, sim — ela insiste, setando-se na beira da cama. — Eu sinto
muito por ter trazido tudo isso para a sua vida… para a vida deles.
— Eliza, para — digo, segurando suas mãos. — Isso não é culpa sua.
— Então por que parece que tudo está desmoronando? — ela sussurra,
e eu vejo as lágrimas se formando nos olhos dela.
— Simon é um doente por poder. Esse cara é um criminoso — digo,
apertando suas mãos. — Por Deus, amor, isso não é sua culpa.
Ela assente, respirando fundo, e por um momento, apenas ficamos ali,
deixando o peso das palavras se dissipar.
— Vamos resolver isso. Juntos — prometo mais uma vez. — Não vou
deixar que ninguém te faça pensar que seria melhor se eu não tivesse vocês.
Eliza engole em seco, e algo em sua expressão muda.
— Christopher… — ela começa, mas sua voz treme.
Respiro fundo e coloco minha mão sobre a dela, incentivando-a a
continuar.
Ela fecha os olhos por um momento, como se estivesse reunindo
coragem e vai em busca de sua bolsa, ali em cima da cômoda, em seguida,
retira de lá uma folha com um desenho colorido e me entrega. De primeiro
momento, penso que ela irá mudar o assunto e dizer que Aelin nos desenhou,
mas ela volta a falar:
— A Aelin… Ela viu o Simon na escolinha.
Meu peito aperta com a revelação.
— Quando isso aconteceu?
— Na sexta-feira, quando eu fui buscá-la. Ela disse que viu alguém que
parecia com ele, mas não falei nada porque não queria alarmar você.
— Eliza… — começo, tentando controlar a raiva e a preocupação que
sobem à tona. — Isso não é algo que você pode ignorar.
— Eu sei — ela responde rapidamente, os olhos marejados. — Mas o
que eu deveria fazer? Aelin disse que não tinha certeza.
Seu desespero é evidente, e eu respiro fundo, tentando manter a calma.
— Vamos resolver isso, mas precisamos fazer isso juntos.
Ela balança a cabeça, parecendo mais perdida do que nunca. Decido
que também é melhor contar sobre o aviso que encontrei na casa dela, quando
fui buscar suas coisas.
— Ele deixou um aviso — começo falando e ela me olha alarmada.
— Quando? Onde?
— No espelho do seu banheiro. Eu vi no dia em que fui buscar as
coisas de vocês.
— O que estava escrito?
Hesito, sem ter certeza se ela precisa saber.
— O que estava escrito, Christopher? — ela insiste, dessa vez, com a
voz mais firme.
— “Eu vou te encontrar, Angel” — revelo e ela cobre o rosto.
— Meu Deus, Christopher, você devia ter me contado.
Aelin se meche na cama, e nós dois nos silenciamos por um breve
instante observando para ver se a pequena acordou.
Eliza se levanta e deixa o quarto para não acordar Aelin.
Eu vou atrás dela e a levo até o escritório ao lado e fecho a porta.
— Eliza, ele não vai encostar em você mais. Não existe essa
possibilidade.
— Você devia ter me dito. Eu poderia ter me encontrado com ele,
tentado conversar… poderia ter evitado o que aconteceu na casa da Madelyn.
A fala de Eliza me faz rir de nervoso e como reação a isso, cruzo os
braços e endireito a postura.
— “Poderia ter conversado com ele?” “Se encontrado com ele?” porra,
Eliza, fala sério — balanço a cabeça, processando o absurdo que ela diz. —
Me fala o que você teria dito a ele?
Como resposta, ela encolhe os ombros.
— Eu não sei… eu só… — Eliza trava, sem saber o que dizer e cobre o
rosto. — Não quero que mais ninguém se machuque.
Por mais que esteja bravo com ela, sei que Eliza não consegue enxergar
ainda que eu jamais deixaria ela ficar sozinha com Simon de novo.
— Não sei que tipo de obsessão Simon criou de você, mas ele não ficou
nenhum pouco feliz ao saber que estamos juntos, que eu te defendi naquela
noite, que paguei tudo o que você devia e que te livrei daquilo. Simon é um
homem com o ego ferido, Eliza e agora isso não é mais sobre você. Ele quer
me atingir, por isso fez aquilo na casa da Madelyn.
— Eu sei, mas ele vai tentar te atacar de todos os lados, Christopher.
Talvez o certo fosse… eu e a Aelin nos distanciarmos — ela diz, sua voz mal
saindo. — Eu conheço o Simon. Não conheço ninguém que teve uma dívida
com ele e saiu ileso sem que precisasse seguir as regras ou se submeter a ele.
Com o que aconteceu entre você e ele… ele não vai deixar barato.
As palavras dela me atingem como um soco.
Envolvo o rosto dela com as duas mãos.
— O que você está dizendo?
— Não quero colocar mais ninguém em risco. Você já está fazendo isso
por nós, mas talvez fosse melhor se fôssemos embora.
— Não — discordo, sem hesitar.
Dou um passo mais perto dela, segurando suas mãos.
— Não vou deixar você fazer isso.
Ela tenta desviar o olhar, mas eu a puxo suavemente, obrigando-a a me
encarar.
— Eliza, vocês estão seguras aqui e eu não vou permitir que Simon
machuque você de novo.
Ela morde os lábios, luta contra as lágrimas, mas assente levemente.
— Eu só quero proteger a Aelin — ela sussurra. — Talvez se… se a
gente se afastar e eu fizer o que ele quer, ele deixe vocês em paz.
— Você está de sacanagem com a minha cara, Eliza — digo, sem
conseguir me conter.
— Isso não é uma guerra, Christopher! Usa a merda da sua cabeça! —
ela retruca. — Ele vai perseguir sua família a troco de quê? Nem sempre um
lado precisa derrotar o outro para vencer, se render também é uma forma de
poupar vidas. Eu não vou viver com essa culpa de que pessoas se
machucaram por minha culpa. Se ele tem algo para resolver comigo, preciso
encarar e resolver de vez.
— Você não vai e eu não tenho medo dele.
— Mas eu tenho — a voz de Eliza vacila e ela se vira para que eu não
veja ela chorando.
Fico em silêncio, sem reação. Sem conseguir entender por que, merda,
ela não consegue se sentir segura aqui. Por que acha que ainda precisa
resolver essa situação sozinha.
Aquele cara não passa de um bosta para mim. Um bosta que coloca
medo na minha mulher e parece que não tem o que eu diga, ela não compra a
ideia de que eu posso resolver isso por ela.
— Isso me deixa fodido, Eliza — quebro o silêncio. — Fico fodido,
porque eu não sei mais o que falar para você entender que não está sozinha
mais. Você viu naquele dia que eu dou conta dele. Que só não matei ele,
porque você não deixou. Que porra eu sou para você, afinal de contas?
Ela balança a cabeça, como se eu estivesse entendendo tudo errado.
— Não vou me perdoar se algo acontecer com você.
— E ele vai fazer o quê? Atirar em mim? — solto um riso. — O cara
não tem coragem de bater na minha porta para tirar satisfação nem com uma
arma na mão. Tudo o que ele faz é com mulher, ou quando ninguém está
olhando.
Eliza continua balançando a cabeça, discordando de mim.
— Tem noção que está cogitando matar uma pessoa? — ela se vira,
com olhos vermelhos. — Isso é diferente de uma guerra, Christopher. Você
vai ser preso. Eu não quero estragar a sua vida.
— E vamos viver assim até quando? Até ele matar a minha irmã? Meu
sobrinho? Meu cunhado? A Aelin? Você? — questiono, cruzando os braços.
Dois toques na porta, interrompe nossa conversa.
É Madelyn.
Ela abre a porta devagar e põe a cabeça no vão.
— Posso falar cinco minutos com vocês?
— Madelyn, agora não — recuso, mas ela adentra o escritório e encosta
a porta atrás de si.
— Está tarde, por que não vamos dormir, esperar amanhecer e pedir
uma direção do que fazer na delegacia? — minha irmã diz, enquanto a
iluminação de uma lanterna de celular repousado em cima da mesa, ilumina a
discussão.
Eliza me olha magoada, com os olhos ainda lacrimejando e assente
para Madelyn.
— Madelyn tem razão — Eliza diz e suspira, como se estivesse
encerrando o assunto.
Minha irmã abre a porta e faz um gesto para nós dois sairmos.
Eliza passa pela porta e quando vou fazer o mesmo, Madelyn me
segura pelo braço e me puxa de volta para dentro do escritório.
— Que raios foi isso? — ela sussurra, irritada. — Gritando com ela?
Tá ficando maluco, garoto?
— Não estava gritando.
— Estava colocando ela contra a parede, como se ela precisasse te dar
uma solução para você não precisar matar aquele cara? — minha irmã tira
satisfações comigo e eu encolho os ombros.
— Eliza está cogitando que é melhor ela ir embora com Aelin e
resolver essa situação de vez com ele, sozinha — explico.
Madelyn encolhe os ombros.
— Ela está se sentindo culpada pelo que aconteceu na sua casa e ele
não vai parar, Madelyn. Alguém vai ter que colocar um ponto final nisso e
esse alguém não vai ser ela. Eu estava dizendo que eu dou conta dele. Não
tenho medo daquele cara.
— Christopher, isso é o trabalho da polícia.
— Eu sei, mas…
— Sem mais. Vai dormir, esfriar a cabeça e amanhã, abrimos a queixa.
— Certo.
A escuridão cai sobre a casa, trazendo um silêncio inquietante, agora
que todos já se recolheram. Após a discussão no escritório e a interrupção de
Madelyn, me recolho no quarto, que estou dormindo com Aelin.
O peso da conversa com Christopher ainda ecoa em minha mente. A
porta se abre suavemente, e Christopher entra, hesitante.
— Posso ficar aqui um pouco? — a voz dele é baixa, quase um pedido
de desculpas.
Assinto, e ele se aproxima, deitando-se ao meu lado. Por alguns
instantes, nenhum de nós fala nada. Apenas dividimos o mesmo espaço,
sentindo a presença um do outro.
— Me desculpa — Christopher quebra o silêncio. — Eu não devia ter
falado com você daquele jeito.
Viro o rosto para ele, observando sua expressão carregada de
arrependimento.
— Eu entendo. Está todo mundo tenso. Mas não quero que a gente
brigue, Chris.
Ele estende a mão, roçando os dedos nos meus.
— Eu também não — ele suspira. — Não quero que nada disso afaste a
gente.
Engulo em seco, sentindo o coração acelerar quando me lembro das
palavras dele mais cedo. Hesito, mas pergunto:
— Você falou sério quando estava falando com Thomas… sobre ser o
único pai da Aelin?
Christopher mantém o olhar fixo em mim, sem desviar.
— Sim. Eu falei sério — ele segura minha mão com mais firmeza. —
Eu quero dar a ela um lar seguro, estar presente para o que ela precisar. Você
não precisa mais assumir esse papel sozinha.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Nunca imaginei que alguém diria
isso para mim, que alguém estaria disposto a dividir essa responsabilidade.
Christopher não está apenas se comprometendo comigo, mas com Aelin
também.
Aperto sua mão em resposta, permitindo-me, pela primeira vez,
acreditar que não estou sozinha.
O amanhecer traz consigo uma sensação de urgência. Eu e Christopher
nos preparamos para levar Aelin à escolinha, mas ambos sabemos que o dia
será mais difícil do que o normal.
Não queria me distanciar dela hoje, porém vamos resolver coisas de
adultos e não queria que ela soubesse sobre tudo isso. Aelin é uma criança e,
o que menos deveria saber, é que tem um cara me perseguindo e ameaçando
todos ao nosso redor.
Agora que ela está tendo a rotina que uma criança normal de cinco anos
deveria ter, não quero quebrar isso. Nós vivemos por anos sobrevivendo
sozinhas, sempre precisei colocar responsabilidades que ela não deveria ter e
tudo o que eu desejo, é que essas lembranças desapareçam logo da cabeça
dela, não que façam parte da nossa realidade de novo.
— Precisamos ir à delegacia — Christopher diz enquanto espera Aelin
descer as escadas com sua mochila para partirmos.
Respiro fundo e concordo. Já passou da hora de tomar uma atitude
concreta.
Depois de deixar Aelin na escolinha, seguimos para a delegacia.
Thomas, que agora entende a gravidade da situação, decide ficar com
Madelyn em casa e vigiar. Quando chegamos lá, somos recebidos por um
policial que anota tudo com atenção.
— Preciso que você conte tudo. Desde o começo. — O policial pede,
olhando para mim.
Sinto o peito apertar, mas decido não esconder mais nada.
— Simon é um agiota e a vovó alugou um dos cômodos que ele tem
espalhados pelo bairro. Nessa época, ela ainda era viva. Ele nos ajudou
quando viemos morar aqui. Eu morava no campus, mas acabei engravidando
e indo morar lá com a vovó também. Na primeira vez que ele me viu, ficou
nítido que ele havia se interessado, mas ele nunca tentou nada, ainda mais
com a vovó lá. Quando ele soube que eu estava grávida, começou a dar
presentes para a minha bebê. Relevou alguns meses de aluguéis que não
podemos pagar, no período em que eu fiquei em casa para cuidar da minha
bebê… Mas quando a vovó morreu, e eu fiquei sozinha com a minha filha,
ele se tornou mais presente, eu me enrolei com as contas porque não tinha um
trabalho fixo, nem consegui ninguém para cuidar da minha filha para
trabalhar. Simon tomou conta da casa. Ele começou a me ameaçar, a chegar
perto demais, a dizer que se eu não pagasse, ele ia me cobrar de outra
forma… — faço uma pausa para desviar os olhos do policial. — E então
começaram os assédios. Ele dizia que eu era dele, que coisas ruins iam
acontecer comigo e com a minha filha se eu não me submetesse a ele…
Christopher aperta minha mão debaixo da mesa, um gesto sutil de
apoio.
— E então, chegamos na noite em que ele disse que levaria minha filha
se eu não desse um jeito de pagar ele. E fui obrigada a… recorrer a uma casa
noturna. Foi lá que eu e Christopher nos conhecemos.
O policial olha para nós dois, mas não diz nada e faz um gesto para
continuarmos.
— Dias depois, Christopher me contratou para trabalhar na casa dele e
nos apaixonamos lá.
— E esse hematoma no seu rosto? — o policial observa.
— Foi ele — Christopher afirma. — Fui até a casa dela uma noite, após
esse episódio e o encontrei prestes a…
— Me estuprar na frente da minha filha — verbalizo e minha voz treme
enquanto as lembranças invadem a minha mente.
— A dívida que ela tinha com ele, foi paga aquela noite — Christopher
enfatiza. — e agora, ela está morando comigo. Ele já havia deixado uma
ameça dias atrás na antiga casa dela, dizendo que ia encontrá-la, e agora,
aconteceu aquilo na casa da minha irmã e havia um recado na parede
parecido com o primeiro — Christopher diz e mostra a foto da parede na casa
da Madelyn para que o policial possa ver.
O policial anota tudo e faz algumas perguntas adicionais. Embora a
denúncia formal seja feita, as evidências ainda são poucas para deter Simon
de imediato e o delegado, é rapidamente acionado para conversar conosco
sobre o caso.
— Bom dia, senhores. Sou o delegado Carter e tomarei a frente do caso
de vocês — ele se apresenta apertando minha mão e a de Christopher. — De
início, vamos colocar uma viatura patrulhando a área, mas, por enquanto,
sugiro que vocês redobrem a atenção — ele alerta. — Como não temos o
endereço dele, vamos abrir um mandado de busca e irei abrir uma medida
protetiva para que a senhora se sinta mais segura. O importante, é que vocês
aguardem nosso processo e não vão atrás dele sozinhos. Simon não é apenas
um abusador obsessivo, mas também um traficante que controla uma parte da
criminalidade local, especialmente drogas e extorsão em bairros mais
carentes como o em que Eliza morava. Nós o conhecemos, mas ele sempre
escapou da prisão por falta de provas concretas ou por ameaçar testemunhas
para retirar queixas.
“Já lidamos com alguns casos assim, e perder Eliza, para alguém como
ele, é como perder parte da sua “propriedade”. Provavelmente, o que
aconteceu entre ele e Christopher, já reverberou pelo bairro e foi visto como
uma quebra na autoridade que ele tinha com todos ali. Quando Eliza foi
embora e dívida foi paga, não foi como uma espécie de ciúme do rapaz que
ele sentiu, mas foi como perder o respeito e o poder. Agora ele não vai parar
enquanto não reestabelecer isso. Por isso, eu sugiro que não vão atrás de
nada. É exatamente isso que ele quer e provavelmente, já está preparado.”
Após abrir a medida protetiva contra Simon e o delegado conversar
conosco sobre o que será feito nos próximos passos, ele nos libera e diz que
qualquer novidade, vai entrar em contato para nos atualizar.
Ao sairmos da delegacia, Christopher está tenso, a mandíbula travada.
— Isso não é suficiente — ele murmura.
— Quero ir à escolinha da Aelin conversar com a direção também para
não deixar nenhum desconhecido ir assistir às aulas, ou ir buscar ela, que não
seja eu ou um familiar.
— Se a polícia não pode fazer mais nada agora, precisamos agir por
conta própria — Christopher diz, como se não estivesse escutado nada do que
o delegado disse.
— Christopher, você ouviu o delegado. Vamos esperar. Simon é
perigoso.
— Vou proteger você e Aelin, mas você vai precisar confiar em mim,
Eliza.
Assinto, mas uma sombra de medo ainda paira sobre mim. Porque, no
fundo, sei que Simon não vai parar até conseguir o que quer.
E também sei que Christopher foi treinado para eliminar qualquer coisa
que traga ameaça para ele.
Christopher não foi treinado como uma pessoa comum que recua diante
de uma ameaça. Isso que Simon fez, para ele, foi só um incentivo.
O peso da incerteza paira sobre a casa. Com a polícia incapaz de fazer
algo imediato contra Simon, percebo que não posso apenas esperar. Se ele
estiver à espreita, precisamos estar um passo à frente.
Quando a energia volta, em torno das dez horas da manhã, Thomas bate
na porta do meu escritório, onde estou adiantando algumas atividades do
quartel.
— Tenho um amigo que trabalha em uma empresa de segurança
bancária. Ele pode tentar algo no limite do que é legal ou próximo disso —
ele responde, cauteloso. — Tipo checar movimentações bancárias. Talvez
possamos usar para prever o próximo passo desse desgraçado — Thomas diz
determinado. — É um amigo de confiança.
— Se ele conseguir algo, vai nos ajudar bastante — digo em tom de
agradecimento.
— Queria aproveitar também para me desculpar pela nossa discussão.
Sei que a Eliza é tanto vítima quanto qualquer um aqui — ele diz, sem jeito.
— Não é para mim que você precisa pedir desculpas. Eliza ouviu o que
você disse. Cogitou até ir embora — ao dizer isso, ergo o rosto para encará-
lo.
— Sinto muito mesmo. Estava de cabeça quente.
Não respondo mais nada, apenas me viro de volta para o notebook e
volto ao meu trabalho. Hoje é segunda-feira e o coronel me enviou algumas
tarefas do quartel para revisar. Quero fazer tudo o mais rápido possível para
ficar com a Eliza.
Sei que ela está com minha irmã agora no andar de baixo,
provavelmente ajudando ela com Noah, mas preciso de um tempo com ela.
Aproveitar que temos algumas horinhas antes de buscarmos Aelin na
escolinha.
Enquanto espero alguma atualização, ligo para a empresa de instalações
de câmeras e peço para eles instalarem mais algumas pela casa.
Principalmente na área de lazer nos fundos da casa em pontos estratégicos.
Com a presença de Madelyn, Thomas e Noah aqui, a segurança precisa
ser redobrada. Não posso correr riscos com eles, nem com Eliza e Aelin.
Preciso estar pronto para qualquer coisa. Isso porque não consigo estar em
todos os lugares ao mesmo tempo.
Não almoço. Fico vidrado em resolver tudo o que posso o quanto antes
e só percebo que o tempo passou mais rápido do que eu gostaria, quando
Eliza bate suavemente à porta do escritório.
Ao levantar os olhos do notebook, vejo-a parada ali, segurando uma
bandeja com um lanche da tarde. Seus olhos analisam meu rosto com um
olhar hesitante.
— Sei que não gosta de ser interrompido, mas você está trancado aqui
desde de manhã quando voltamos da delegacia — ela entra, repousando a
bandeja sobre minha mesa.
Solto um suspiro e encolho os ombros, recostando-me na cadeira. Ela
está certa, claro.
Eliza contorna minha cadeira e posiciona as mãos nos meus ombros,
iniciando uma massagem lenta e firme. Seu toque é quente e reconfortante, e
sinto a tensão começando a se dissipar sob seus dedos.
— Você precisa descansar — sua voz sai suave, mas firme, e percebo
que seus olhos deslizam rapidamente pela tela do meu notebook.
Por sorte, não há nada ali sobre Simon, apenas planilhas e relatórios
administrativos do quartel. Não quero que ela saiba o que estou fazendo. Sei
que vai ser contra eu dar qualquer passo sem a polícia e não quero vê-la mais
alarmada do que já está.
— Se soubesse antes que iria ganhar essa massagem, eu mesmo teria
chamado você — murmuro em meio a um suspiro, virando-me levemente
para encará-la.
Eliza arqueia a sobrancelha e sorri de canto.
— Já está terminando aí? — pergunta, deslizando para o meu colo sem
cerimônia.
Minhas mãos encontram sua cintura, segurando-a firme.
— Já terminei. Já ia descer para tomarmos café da tarde.
— Já, já é hora de buscar Aelin. Eu queria chegar lá uns minutinhos
antes de todas as crianças saírem. Sabe, para ficar de olho — sua
preocupação é evidente.
Aproximo meus lábios de seu pescoço, distribuindo beijos lentos pela
pele macia, sentindo seu corpo relaxar contra o meu.
Ela fecha os olhos, suspirando baixinho.
— Pensando bem, acho que eu gostaria de comer algo mais… gostoso
do que esse café da tarde — sussurro em seu ouvido, deslizando a alça do seu
vestido lilás pelo ombro delicado.
Eliza se ajeita no meu colo, mordendo o lábio.
— Chris, sua irmã e seu cunhado estão lá embaixo.
Sua voz sai em um aviso fraco, sem nenhuma real intenção de me
parar.
Faço menção de levantar e ela sai do meu colo, me observando passar a
chave na porta, garantindo que não teremos interrupções. Coloco a bandeja
na estante, abaixo a tela do notebook e me viro para encará-la.
Seus olhos me estudam, incertos, mas cheios de expectativa.
Acaricio seu queixo, mantendo contato visual intenso, e dou um leve
tapinha na mesa.
— Senta aqui — minha voz sai mais baixa, mais carregada. — Quero
trabalhar no meio das suas pernas agora.
Eliza solta uma risada abafada, mas obedece sem questionar,
deslizando-se sobre a madeira fria da mesa enquanto minhas mãos percorrem
suas coxas, por baixo do tecido leve do vestido.
Subo a mão até encontrar o tecido rendado de sua calcinha e volto a me
sentar na cadeira de frente para ela.
— Eles vão ouvir, tenho certeza — Eliza diz, segurando minha mão.
— Não vão não, amor. Eu já te ensinei a fazer silêncio — digo,
terminando de tirar sua calcinha.
E, naquele momento, a única coisa que existe para mim, é ela.
No fim da tarde, Eliza e eu saímos para buscar Aelin na escolinha. O
céu está carregado de nuvens escuras, e o vento sopra forte, sacudindo as
árvores. Fazia tempo que dividir o silêncio com ela não me trazia conforto.
As coisas estão mais leves entre a gente, e isso me deixa mais tranquilo.
— Como foi o dia com a Madelyn? — pergunto, mantendo os olhos na
estrada.
— Foi bom. Ela está mais calma agora que a polícia está ciente do que
está acontecendo — Eliza responde, mas sua voz tem um tom distante. —
Noah também nos distraiu bastante.
— E você? — insisto, desviando o olhar rapidamente para ela.
Ela suspira, hesitando antes de responder.
— Estou tentando não pensar no pior.
— E nem precisa. Amanhã, a empresa de segurança vem instalar mais
câmeras e um gerador caso a energia caia de novo.
— Você ligou lá?
— Sim — digo repousando a mão em sua coxa, por cima do tecido do
vestido. — Disse que ia dar um jeito de proteger vocês.
— Obrigada, Christopher.
Aperto levemente o volante. Sei que, no fundo, ela está preocupada
com Simon, mas, por enquanto, não pressiono, nem quero ficar lembrando
disso toda hora.
— Só quero que a gente viva esses dias como uma família normal —
comento e ela assente.
Quando chegamos à escolinha, Eliza pede para descer do carro alguns
minutos antes do horário de saída das crianças. Quero argumentar, dizer que
ela não precisa se preocupar, mas sei que essa é a forma dela se sentir no
controle. Então apenas assinto e deixo que ela vá.
Aelin sai correndo minutos depois, sorridente ao ver a mãe, e quando
entram no carro, o clima parece aliviar um pouco. A pequena começa a falar
animadamente sobre o dia, e percebo que, pelo menos por enquanto,
conseguimos manter a normalidade para ela.
No meio dessa história toda, Aelin está feliz e só quero que Eliza viva
isso também, sem precisar vestir uma máscara toda vez que a filha vier
abraçá-la.
A noite cai, e a tensão na casa ainda é palpável. Madelyn tenta manter a
normalidade, brincando com Noah, e Eliza está na cozinha preparando um
chocolate quente para Aelin beber antes de dormir. Aproveito a quietude para
ir até a sala, onde Thomas está sentado, encarando a TV onde o noticiário
passa.
Ele me lança um olhar breve antes de soltar um suspiro pesado.
— Christopher, preciso falar com a Eliza.
Franzo o cenho, mas assinto.
— Ela está na cozinha. Vai lá.
Acompanho com o olhar enquanto ele caminha até lá. Eliza está de
costas, mexendo na água quente, e só percebe a presença de Thomas quando
ele pigarreia.
— Precisa de algo, Thomas? — ela o encara com surpresa e um pouco
de cautela.
— Eu queria pedir desculpas — ele começa, coçando a nuca. — No
começo de tudo isso, quando as coisas começaram a desmoronar, eu pensei
que… bem, eu cogitei que talvez você tivesse alguma culpa no que estava
acontecendo.
Eliza mantém os olhos fixos nele, sem dizer nada.
Penso em ir até lá para mediar a conversa, mas me mantenho no mesmo
lugar, dando privacidade aos dois, mesmo conseguindo ouvi-los.
— Eu fui um idiota — ele continua. — Não considerei o que você
estava passando, só fiquei preso na minha própria preocupação com Madelyn
e Noah. Agora vejo a situação com outros olhos. Simon é um problema sério
e você não deveria ter que passar por isso sozinha.
Ela respira fundo, soltando o ar devagar antes de responder.
— Obrigada por dizer isso. Eu não esperava ouvir isso de você, mas eu
entendo sua preocupação com sua família — seus ombros relaxam
levemente.
Thomas balança a cabeça, parecendo aliviado por finalmente ter dito
aquilo.
— Não quero só pedir desculpas. Quero ajudar. Vamos acabar com isso
juntos.
Eliza assente, e pela primeira vez em dias, vejo um vislumbre de alívio
em seu rosto.
Enquanto observo a cena, sinto que estamos finalmente alinhados para
enfrentar Simon. Agora, só precisamos encontrar um jeito de detê-lo antes
que ele faça algo pior.
Quando a casa volta para o silêncio do descanso da noite, Thomas me
aborda quando percebe que Eliza já foi dormir com Aelin. Nós ainda não
estamos dormindo todas as noites juntos, isso porque ainda não conversamos
com Aelin sobre nossa relação.
— Meu contato disse que Simon fez um saque em espécie ontem à
noite. Pelo horário do extrato, ele fez isso depois que fez aquilo na minha
casa. Um valor consideravelmente alto. Isso significa que ele está se
movimentando, mas tentando evitar qualquer rastro digital mais para frente.
Cruzo os braços, sentindo meu maxilar travar. Isso não é um bom sinal.
Se ele está se precavendo financeiramente, é porque tem um plano.
— Precisamos estar preparados — murmuro para mim mesmo. — Ele
já deve ter algum plano.
Quando saio do banho e observo a cartela de remédios que a psiquiatra
com a psicóloga me receitaram para tomar na hora de dormir, decido que não
é uma boa hora para relaxar.
Preciso estar em alerta, e agora, mais do que tudo, encontrar um jeito
de deter Simon, antes que ele faça algo pior.
O sol da manhã atravessa as cortinas do quarto, e o despertador toca,
anunciando que chegou a hora de acordar Aelin para se arrumar e ir para a
aula. O silêncio na casa, indica que, por algum milagre, todos conseguiram
dormir algumas horas seguidas depois dos últimos dias turbulentos.
Deixo Aelin dormir mais alguns minutos e após fazer minha higiene
pessoal, saio do quarto e caminho até a última porta do corredor, mais
conhecida, como o quarto de Christopher.
Bato de leve e como se estivesse me esperando, ele abre a porta, suado
e sem camisa.
Arqueio a sobrancelha, vendo ele ofegante. Olho ao redor e encontro
um pequeno colchonete no chão.
— Bom dia — digo, ainda tentando processar o que ele estava fazendo.
Abdominais.
— Bom dia — ele diz, dando-me um beijo e voltando para a posição
em que estava antes de eu chegar.
Ele faz uma série e se senta no colchonete, dando um gole na garrafa de
água.
— Christopher, você dormiu? — pergunto, cruzando os braços,
reparando na cama, que não tem nenhum sinal de alguém que tirou um sono
profundo.
— Consegui descansar — ele omite e eu encolho os ombros.
Decido não discutir.
O suspiro longo que sai dos meus lábios, é o suficiente para que ele
perceba que isso não me deixa nenhum pouco contente, mas essa é uma
discussão que decidimos não iniciar.
— O que acha de tirarmos o dia para nós dois hoje? — ele pergunta,
como se quisesse me agradar. — Vamos levar Aelin para a escolinha e os
instaladores das câmeras chegam logo depois. Adiantei todas as minhas
tarefas do quartel, então acho que a gente podia… tirar o dia para nós — ele
informa, passando a mão pelo rosto.
Ao ouvir “instaladores”, sinto meu estômago revirar levemente. Não
deveria ser nada além de um procedimento de segurança, mas depois de tudo
o que aconteceu, a segurança reforçada é necessária, especialmente agora.
— E o que você está pensando em fazer hoje? — pergunto e ele dá de
ombros.
— O que você quiser — ele diz, vindo em minha direção os cabelos
pingando de suor. — Hoje eu sou todo seu.
— Hmmm — digo, pensativa. — Que tal começarmos com você
tomando um banho, antes que Aelin se atrase para o colégio? — dou a
sugestão e ele assente, caminhando até o banheiro.
Quando Aelin está pronta, descemos e encontramos Madelyn na
cozinha, segurando uma xícara de café forte. Noah dorme tranquilamente no
carrinho ao seu lado, alheio à tensão que parece pairar sobre todos nós.
Thomas já está na porta, ajustando o relógio de pulso e conferindo algo no
celular.
— Vou resolver as pendências com o seguro da casa agora de manhã
— ele diz para Madelyn, pegando as chaves. — Não sei quanto tempo vai
levar, mas te aviso quando estiver voltando.
Madelyn assente, passando a mão pelos cabelos em um gesto cansado.
Quando Thomas sai, ela se vira para mim e Christopher.
— Vocês podem passar na minha casa depois de deixar a Aelin?
Preciso de algumas coisas para o Noah. Fraldas, roupinhas... algumas
mamadeiras ficaram lá também.
— Vamos direto na escolinha e depois passamos na sua casa.
Christopher se inclina contra o balcão, pegando as chaves do carro.
— Os instaladores das câmeras vão chegar daqui a pouco. Você pode
recebê-los?
Ela assente de imediato.
— Claro. Se isso ajudar a aumentar a segurança, melhor ainda.
Com a confirmação da instalação das câmeras, sinto um desconforto no
peito se esvair. Madelyn percebe isso e segura minha mão por cima do
balcão.
— Conseguiu conversar com a direção da escolinha?
Suspiro.
— Sim, eles disseram que não vão autorizar a entrada de ninguém para
assistir às aulas de ballet que não sejam os familiares das crianças — conto.
— Então não se preocupe, Eliza. Sua pequena vai estar segura lá. E
aqui também, depois que eles instalarem mais câmeras.
Tento pensar positivo assim como Madelyn e ela me abraça, num gesto
solidário que só ela teria em meio ao caos que estamos vivendo.
Pouco tempo depois, já estamos no carro. Aelin está no banco de trás,
cantarolando baixinho, distraída com um dos brinquedos que trouxe consigo.
Tento focar nela, na sua inocência, na tranquilidade que sua presença
transmite, mas não consigo afastar a sensação incômoda de saber que Simon
ainda não foi localizado pela polícia.
Só uma mãe sabe, como é difícil ficar longe de seu pequeno, ainda mais
numa situação de perigo assim. Por mim, ficaria de guarda lá, da hora em que
ela entrasse, até a hora que ela saísse.
Christopher também está mais calado do que o normal. Seus dedos
tamborilam contra o volante, um sinal de que sua mente está inquieta. Eu sei
que parte disso é devido à minha preocupação. Tenho certeza que se ele
pudesse, tomaria de mim esse sentimento, mas é inevitável não ser tomada
por esse aperto.
— Depois que os caras terminarem a instalação, acho que a casa vai
ficar mais segura — ele comenta, me tranquilizando como se estivesse lendo
meus pensamentos.
Cruzo os braços e olho pela janela, observando as nuvens pesadas no
horizonte.
— Espero que sim — murmuro, incapaz de dissipar a sensação de que
Simon está perto, só esperando a oportunidade certa para agir novamente.
Ao chegarmos, estacionamos e descemos para levá-la até o portão.
— Tchau, mamãe! — Aelin dá um beijo no meu rosto.
— Tchau, amor.
— Tchau, tio Chris! — ela acena para Christopher e depois corre para
dentro, onde as professoras a recebem.
Ficamos observando até ela desaparecer.
Christopher segura minha mão e a aperta levemente.
— Vamos buscar as coisas do Noah — ele diz, e eu assinto, sentindo
um alívio momentâneo ao ver todas as crianças entrando e o portão sendo
fechado.
A próxima parada, é na casa de Madelyn. A energia já voltou, mas a
casa ainda carrega o peso da invasão de Simon. O cheiro abafado e um leve
resquício de umidade pairam no ar do lugar fechado.
Subimos direto para o quarto de Noah. Christopher pega um pacote de
fraldas e um cobertor, enquanto eu recolho algumas roupinhas e mamadeiras
dentro de uma bolsa. Tudo acontece em silêncio, como se o peso da casa, nos
tomasse as palavras ou qualquer outro assunto descontraído.
Ao me virar para sair do quarto, meu olhar é atraído involuntariamente
para a parede. A mensagem ainda está lá.
"Eu avisei que iria te encontrar, Angel."
Os rasgos no papel de parede continuam ali, como se esperassem
pacientemente para serem lidos novamente.
Minha respiração trava.
Christopher percebe na mesma hora minha mudança de postura e se
vira.
— Queria que esse cara aparecesse na minha frente só mais uma vez.
Eu só queria cinco minutos com ele — ele murmura, cerrando o maxilar. —
Filho da puta...
Não tenho muito o que dizer. Apenas ficamos ali, encarando a ameaça
deixada para mim, como se ela pudesse ganhar vida a qualquer momento. No
fundo, acredito que Christopher não diz essas palavras da boca para fora. Eu
vi o que ele fez com Simon naquele dia. A experiência militar que
Christopher tem, não me deixa dúvidas que se ele tiver a oportunidade, vai
matar Simon sem hesitar, e é isso que me assusta.
Christopher verifica o relógio.
— Precisamos ir. A essa hora, a companhia de segurança já está lá.
Assinto, engolindo em seco, e termino de pegar as últimas coisas de
Noah. Quando saímos do quarto, Christopher lança um último olhar para a
parede antes de fechar a porta.
Lá fora, o vento já está mais forte, fazendo as árvores balançarem e
folhas secas rodopiarem pela calçada. Entro no carro, enquanto Christopher
coloca as sacolas no porta-malas.
Ele liga o motor e começa a dirigir, mas o silêncio dentro do carro é
denso.
Quando voltamos para a casa de Christopher, no momento em que ele
desliga o motor e adentramos na sala, algo parece errado. A casa está...
estranhamente silenciosa. Nenhum som de Madelyn se movendo, nenhum
choramingo de Noah.
— Estranho… Era para os instaladores estarem aqui já — Christopher
comenta.
Encontro o carrinho de Noah vazio atrás da ilha da cozinha e
Christopher pega a frauda de boca dele caída perto da escada que leva até o
andar de cima.
Nós nos entreolhamos.
O aperto no meu peito se intensifica, e meu coração martela contra as
costelas.
— Madelyn? — Christopher chama, sua voz firme, mas carregada de
urgência.
Nenhuma resposta.
Ele se adianta e sobe as escadas de dois em dois degraus.
Subo atrás dele e o silêncio no andar de cima da casa é pior do que eu
esperava, mas o que me faz engolir em seco são os objetos da estante de
decoração do escritório de Christopher, que estão arremessados no corredor.
No escritório também há desordem. O notebook está no chão, a cadeira
tombada e quando Christopher se depara com isso, ele avança sobre os
quartos, abrindo as portas, escaneando todos os cômodos.
— Madelyn! — ele grita, a voz ecoando pelas paredes.
Nada.
Ele desce as escadas correndo, mas fico para trás, ali, congelada,
incapaz de me mover. Meu olhar se fixa nos objetos caídos pelo chão.
O cobertor de Noah está no chão, amassado, pisoteado, como se tivesse
caído e sido a menor preocupação enquanto Madelyn tentava se defender de
alguma coisas, de alguém.
Meu corpo treme, e uma sensação de vertigem me atinge.
Não. Não. Não.
— Eles não estão aqui — a voz de Christopher vem lá de baixo.
Desço ao encontro dele.
— Ela não está aqui. Nem atende a merda do telefone.
Quando ele diz isso, ouvimos o toque do telefone dela no andar de
cima.
Christopher encerra a chamada, balançando a cabeça, a expressão
carregada de fúria e medo.
É então que vejo.
Em cima da mesa, há um papel, amassado, sujo de café derramado.
Meus dedos tremem ao pegá-lo. Meu nome está rabiscado na parte
superior, como se fosse um bilhete deixado especificamente para mim.
"Angel, fui te buscar na casa da “sua patroa” e descobri que você é uma
vaca mentirosa, por isso tive que fazer aquilo na casa dela, para você
trabalhar de verdade, arrumando tudo. Eu avisei que se colocasse um
homem no meio dessa história, eu ia matar você, não disse? Mas pelo visto,
você tem um protetor agora. Bem, acho que ele não pode proteger todo
mundo ao mesmo tempo. Espero que esteja feliz agora."
Sinto o ar escapar dos meus pulmões.
— … Trabalho para uma mulher ajudando com os cuidados da casa. Ela ganhou bebê há
poucos dias. Só isso. Só isso, eu juro por Deus — digo com todas as letras, num choramingo.
— Não deixe outro homem se meter na nossa história, Eliza. Eu mato você.
O flashback faz meu estômago revirar.
Christopher pega o bilhete da minha mão, lendo rapidamente. O
silêncio que se segue é denso, sufocante.
Então, em um movimento brusco, ele soca a mesa com tanta força,
rachando o vidro do tampo entre seus punhos.
— Desgraçado — ele rosna, sua respiração pesada, os punhos cerrados
ao lado do corpo.
Minhas mãos cobrem a boca enquanto luto para conter o desespero.
Simon levou Madelyn e Noah.
E agora, tudo mudou.
Cada segundo sem notícias de Madelyn é como um golpe direto no
meu peito. Desde que voltamos para casa e encontramos tudo vazio, minha
mente trabalha a mil por hora.
Seguro o mouse com força assistindo às imagens das câmeras da minha
casa. Simon, nos arredores, observando. Alguns minutos se passam e o carro
da companhia de instalações de câmeras chega. Madelyn atende a porta e
recebe três homens.
Ela volta para dentro da casa com Noah nos braços, a porta fica aberta
enquanto os técnicos entram e saem, pegando equipamentos e cabos no carro
em que vieram. Simon se aproxima e fica próximo fingindo estar no telefone.
Isso acontece num intervalo de quinze minutos.
Ele entra sem ser visto pela porta que fica aberta, provavelmente se
escondeu na casa até os técnicos irem embora.
Se passam mais quinze minutos até que os técnicos da instalação
terminem o trabalho. Eles instalam duas câmeras na área dos fundos.
Madelyn sai com eles na porta. Eles dão partida no carro. Ela entra e
fecha a porta.
A câmera volta a gravar o dia que deveria ser normal, até que em
menos de cinco minutos, a porta se abre e Simon sai de lá arrastando
Madelyn que tenta segurar Noah.
Ela luta.
Ele a agride, numa tentativa de domá-la.
Simon caminha com ela por alguns metros e desaparece num ponto em
que a câmera não grava mais.
Encerro a gravação, socando a tela do notebook. Cubro o rosto, com os
cotovelos na mesa.
— Filho da puta! — Thomas brada, socando a parede.
Eliza está em pé, atrás da cadeira em que estou sentado, aterrorizada.
— Não devíamos ter deixado ela aqui — praguejo. — Não devíamos
ter tentando ter um dia normal… não devíamos ter feito nada.
Eliza não concorda, nem discorda, simplesmente não consegue reagir.
Eu sei que ela está se culpando, mesmo sem dizer nada. Nós esperamos
demais na escolinha. Ficamos esperando todas as crianças entrarem até o
portão se fechar. Nós nos distraímos com a porra da parede da casa da
Madelyn com aquela ameaça. Poderíamos ter chegado aqui antes, talvez até
encontrado com ele ainda.
Thomas anda de um lado para o outro, a mandíbula travada de pura
tensão. Sua gravata está desajustada no pescoço e a camisa, por fora da calça,
desalinhada e amassada. O ambiente está carregado, como se o ar estivesse
mais pesado, sufocante.
— Precisamos de um plano — ele finalmente fala, cruzando os braços.
— Precisamos fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Eu preciso achar a
Madelyn e acabar com aquele cara.
— Vamos levar as imagens das câmeras, para a polícia — digo,
tentando manter a calma, mas a cada segundo que passa sem uma resposta,
minha paciência se esgota. Sinto um nó no estômago, aquela sensação de que
algo terrível está prestes a acontecer.
Eliza levanta o olhar, hesitante.
— E se... ele levou ela para a minha antiga casa? — a voz dela é baixa,
carregada de culpa e medo.
Troco um olhar com Thomas e, sem precisar de mais palavras, pego as
chaves do carro. O tempo lá fora parece refletir nossa inquietação, com
nuvens escuras se acumulando no céu e o vento uivando contra as janelas.
Não podemos perder mais tempo.
— A gente passa lá primeiro e depois vamos até a delegacia — digo
enquanto descemos as escadas de volta até a garagem.
Nós entramos no carro. Thomas no banco do passageiro e Eliza no
banco de trás, porém, antes de dar a partida, abro o porta-luvas e tiro de lá um
revólver. O mesmo que tomei de Simon no dia em que dei uma surra nele.
Checo se está com munição e dou uma breve olhada pelo retrovisor
central do carro. Os olhos de Eliza estão sobre mim.
Ela sabe o que eu vou fazer, mas não diz nada. Seus olhos dizem. Os
meus também: Se eu tiver a chance, vou fazer exatamente o que quis fazer na
noite em que ela me impediu.
Não perco tempo indo primeiro na delegacia. Dirijo até a casa em que
Eliza morava.
A casa de Eliza parece ainda mais abandonada do que da última vez.
— Eliza, fica no carro — ordeno e ela apenas obedece em silêncio.
Guardo o revólver no cós da calça e saio acompanhado de Thomas.
A porta continua com as marcas da invasão anterior, e um cheiro de
mofo se mistura ao ar pesado. O silêncio do lugar é perturbador, como se a
própria casa guardasse os resquícios do terror que já aconteceu ali.
Caminhamos com cuidado, atentos a qualquer sinal de movimentação.
— Madelyn? — chamo, minha voz ecoando pelo espaço vazio.
Nada.
O eco da minha voz morre no silêncio absoluto. Cada passo dentro
daquela casa parece mais denso, como se estivéssemos andando em areia
movediça. Thomas engole em seco, os olhos varrendo cada canto com uma
mistura de ansiedade e raiva.
— Ele não está aqui — Thomas murmura, soltando um suspiro pesado,
passando a mão pelo rosto. — Merda. Agora estamos no escuro — ele
esfrega as têmporas, visivelmente frustrado.
A raiva cresce dentro de mim, mas preciso me controlar. Se perder o
controle agora, não vamos a lugar nenhum. Preciso pensar. Preciso agir.
Fecho os olhos e aperto a ponte do nariz, segurando a frustração que
ameaça transbordar. Parece que nesse instante, tudo ao meu redor acontece
em câmera lenta, rodando, como um borrão.
— Vamos até a delegacia. É o que resta — digo, voltando para o carro.
Eliza está no carro, apreensiva e ao nos ver sair do cômodo com a
expressão frustrada, encolhe os ombros e se abraça, como se estivesse se
confortando.
O caminho até a delegacia é rápido e o atendimento quando chegamos
lá também, mas as respostas, nos afunda ainda mais.
Não temos nada para fazer além de esperar.
E esperar nunca foi algo que eu soube fazer bem.
No caminho de volta para a minha casa, aperto o volante com força. O
silêncio dentro do carro pesa, carregado de tensão e medo.
Observo Eliza o tempo inteiro pelo retrovisor. Ela olha pela janela, os
lábios tremem, mas ela os comprime, numa tentativa de impedir que qualquer
som saia deles, porém as lágrimas deslizam facilmente pelos seus olhos e eu
odeio vê-la assim sem poder fazer nada.
Se pudesse, explodiria o mundo e acabaria de vez com essa história.
— Vamos encontrá-los — digo, mantendo a voz firme, quebrando o
silêncio no carro.
Por mais desesperado que eu esteja agora, minha experiência no
exército me ajuda a manter o controle e a frieza. É nítido que com Thomas e
Eliza, o peso da situação os desestabilizou fácil. Não que eles deveriam se
manter firme, mas porque sei desligar meus sentimentos em momentos que
precisam do meu estado em alerta.
Ter Eliza perto, me distrai.
Minha mente vagueia entre fazer o que precisa ser feito e a
preocupação em mantê-la de pé.
— Madelyn é esperta. Ela sabe que precisa ganhar tempo. Ela sabe que
eu vou achá-la — garanto, tentando tranquilizar os dois, mesmo sabendo que
há uma hora dessas, minha irmã já deve ter falado demais e Simon deve estar
arrependido por vê-la chorar tanto.
Eliza solta um suspiro trêmulo.
— Eu quero ir buscar a Aelin — ela diz, decidida. — Preciso da minha
filha perto de mim.
Ela não pede, não ordena, nem sugere; apenas diz, como se precisasse
ouvir isso de si mesma para voltar a raciocinar.
Eliza me olha pelo retrovisor.
— Quero pegar a Aelin na escolinha, Christopher. Agora.
— Se quer ficar com a sua filha… Se acha que vai ser melhor, então
estou com você — meu tom de voz sai mais frio do que eu imaginava e ela
percebe.
Na verdade, ela estranha.
Ela não conhece esse Christopher.
Não sabe o quão frio posso ser quando estou em uma missão.
Não sabe o quanto não vai me afetar se ela tiver uma crise de choro.
Tenho um problema para resolver e a última coisa que vou fazer
agora, é consolá-la.
Thomas dá um toque em meu braço quando percebe que estou com os
olhos vidrados nela pelo retrovisor e não passo a marcha para passar na
lombada.
Eliza desvia os olhos.
Massageio as têmporas, respirando fundo.
— Desculpa, é que… — começo me desculpar, mesmo sabendo que ela
não ouviu nenhum desses pensamentos, mas sei que os dois percebem que a
situação, é o maior gatilho que eu poderia dar ao TEPT.
O que me fode, é que não existe forma melhor de lidar com isso.
— Eu conversei com a direção. Só autorizei os familiares. Mostrei a
foto do Simon. Eles não vão deixar ele entrar, mas eu quero pegar ela mais
cedo — Eliza quebra o silêncio novamente.
Quando chego no colégio, estaciono do outro lado da rua e Eliza desce
apressada.
Desço do carro e barro ela, antes que atravesse a rua.
Thomas fica no carro.
— É inevitável agir de outra forma… — começo falando e ela assente,
como se não quisesse ouvir o que tenho para dizer. — Preciso que saiba, que
existe um lado meu, que não é nenhum pouco bonito e admirável, Eliza. E eu
nunca quis que você visse ele.
— Eu sei. E eu sei que não é sua culpa.
— E eu também não quero que minta para si mesma, falando isso. Se
eu fizer algo, é porque eu quis fazer. É o que eu faço, Eliza. Me treinaram
para isso.
Eliza não responde, apenas fica parada, sustentando meu olhar.
— Só não me afasta depois que isso acontecer. Não tenta afastar as
pessoas que te amam por causa disso depois. Não se afunda de novo,
Christopher.
— Não vou — garanto. — Vamos encontrar Madelyn e Noah e
resolver isso antes que ele sequer tenha a chance de chegar perto da Aelin.
Ela fecha os olhos e assente lentamente, como se quisesse acreditar nas
minhas palavras, mas o medo ainda está ali, visível em cada traço do rosto
dela.
Christopher quer ir até o portão comigo, mas eu insisto para que ele
fique no carro. Ele já está preocupado o suficiente com Madelyn e Noah.
Além disso, Aelin precisa ver um rosto familiar quando sair da aula e não o
semblante vazio dele.
Respiro fundo, forçando meus pensamentos a se acalmarem. Estou
nervosa por tudo que aconteceu, mas tenho que assumir a postura de "mãe da
Aelin”. É assim que passei anos encarando todos os problemas que enfrentei
sozinha até aqui. Não consigo sem ela. Eu preciso da Aelin comigo.
Só preciso pegá-la e levá-la para casa, onde vou manter meus olhos
nela o tempo inteiro.
Ando apressada e atravesso o portão principal, caminhando até a
direção onde procuro os responsáveis para buscar ela em sala antes do
término das aulas.
A diretora me cumprimenta com um sorriso caloroso ao me ver do
outro lado do vidro.
— Oi, Eliza! — ela diz, parecendo confusa. — Aelin esqueceu alguma
coisa?
Minha respiração falha.
— Como?
A testa dela se franze.
— Aelin esqueceu alguma coisa?
O chão some sob meus pés.
— O quê? Como assim?
— Ela foi embora com a tia, há mais ou menos vinte minutos — a
diretora responde, me mostrando o caderno de assinaturas dos responsáveis.
Meu estômago se revira enquanto procuro o nome de quem veio buscar
ela.
Madelyn Ford.
— Você autorizou que apenas familiares a buscassem, então...
Meus joelhos quase cedem. O ar some dos meus pulmões.
Madelyn.
Madelyn que estava com Simon.
Ele usou ela para vir buscar Aelin.
— Não — sussurro, minha visão escurecendo por um instante. — Não,
não, não...
A professora segura meu braço.
— Eliza? O que está acontecendo?
Minha mente está em caos. Meus lábios tremem, mas consigo apenas
uma frase:
— Ele pegou minha filha.
Sem perder mais um segundo, corro de volta para o carro de
Christopher do outro lado da rua, mas antes que eu chegue lá, ele desce do
carro e me segura antes que meus joelhos cedam.
— Pegaram a Aelin — solto as palavras em desespero. — Simon pegou
a minha filha.
Da parte de Christopher, não recebo nenhuma resposta.
Porque não existe resposta para isso.
Simon ganhou.
Ele tinha me avisado.
Eu deveria ter me entregado a ele. Deixado ele fazer o que quisesse
comigo. Doeria menos do que saber que agora, por minha causa, todos vão
pagar.
A noite cai, mas ninguém pensa em dormir. A polícia circula pelo
bairro, coletando informações, tentando rastrear qualquer pista. O silêncio de
Christopher é ensurdecedor.
Ele e Thomas passaram o dia inteiro fora, fazendo rondas. Depois que
saímos da escolinha da Aelin, ele me trouxe para casa. A polícia colocou uma
viatura para ficar de guarda.
Desde então, não consegui reagir a nada, mal processei o que está
acontecendo. Dá hora que cheguei, estou sentada no sofá, de frente para o
meu celular repousado na mesinha-de-centro, encarando o vazio à espera de
que ele toque com alguma notícia de Madelyn, Noah e Aelin.
Minha mente fantasia que isso é só um pesadelo e já, já, irei acordar,
mas as horas passam, Thomas se recolhe para o quarto depois de comer algo
em silêncio, e Christopher desce para apagar as luzes da casa, também
cheirando a sabonete e loção pós-barba.
— Eliza, você precisa comer algo, tomar um banho, descansar… — ele
diz, parando de frente para mim.
Não respondo. Ele já sabe a minha resposta.
Christopher pega minhas duas mãos e me força a levantar.
— Me deixe ficar aqui, por favor. Vocês ficaram o dia na rua, pode ir
deitar. Se tiver alguma notícia, aviso vocês — digo, me recusando a sair dali.
Meu corpo treme de exaustão e desespero, mas minha mente não
desacelera. Não quero dormir. Quero ficar aqui, de alerta.
Christopher me observa por um momento. Ele encolhe os ombros e dá
as costas subindo as escadas, depois de alguns minutos, volta com uma manta
e um travesseiro e me cobre, em seguida, vai até a cozinha, prepara um
lanche e traz até mim, repousando a bandeja em cima da mesinha de centro.
Ele se senta ao meu lado e suspira, apertando meu ombros.
— Não consigo nem imaginar o que você está sentindo, mas se te
conforta, Madelyn está lá também. Ela vai cuidar da Aelin — a fala de
Christopher arranca o primeiro soluço que sai da minha boca no dia. E depois
que o primeiro escapa, é quase impossível segurar os outros.
Cubro o rosto desabando e Christopher me ampara, em silêncio, sem
dizer nada.
— Por que ele não sequestrou a mim e acabou logo com isso? — me
pergunto. — Por que ele não me matou logo naquela noite?
— Eliza…
— Por que ele está fazendo esse jogo? Por que ele acha que tem o
direito de acabar com a minha vida?
— Eliza, a única resposta é não procurar por um motivo. Simon faz isso
por poder. Por obsessão e controle. O sequestro da Aelin, Madelyn e Noah é
uma forma de mostrar para os outros que ele ainda tem poder absoluto. Por
ego — Christopher diz, envolvendo meu rosto.
— A polícia teve acesso à ficha dele. Simon já fez isso com várias
pessoas que tentaram se livrar dele, ir embora… — digo em meio aos
soluços. — Ninguém conseguiu. Ele vai ganhar, Christopher.
Christopher não contrapõe meu ponto. É nítido que ele está exausto.
Sem saída também.
Ainda assim, é difícil acreditar que isso está acontecendo, ou evitar
pensar que se eu pudesse voltar no tempo, teria feito as coisas diferentes para
mudar o cenário de agora.
Christopher fica ali comigo, acariciando meus cabelos, respeitando o
turbilhão de pensamentos que invadem a minha mente, sem se esforçar em
melhorar a situação. Ele sabe que nada do que disser vai me acalmar, então só
fica ali, me fazendo companhia até eu pegar no sono de tanto chorar.
A noite é densa, e o silêncio da casa parece mais pesado do que nunca.
Virei na cama inúmeras vezes, sem conseguir pregar os olhos. Minha mente
está inquieta, repassando tudo que aconteceu durante o dia, cada pista
perdida, cada decisão errada. Cada palavra, cada olhar trocado com Eliza
parece ter mais peso agora, como se, em algum ponto, eu tivesse falhado em
ver o que ela realmente precisava de mim.
A sensação de impotência me engole. Eu sei que ela está se afastando,
se fechando, mas o que mais me dói é não saber o que está acontecendo
dentro dela. A raiva, a culpa… O medo. Tudo isso a impulsiona para longe de
mim, e eu não sei o que mais fazer para trazê-la de volta.
O que me consome agora não é o vazio entre nós. É a presença dela no
meio desse caos todo. Madelyn, Noah e Aelin, estão envolvidos nessa
história, e mesmo que eu queira me concentrar apenas em Eliza, sei que não
posso ignorar que outros estão em risco. O que aconteceu com Simon não é
apenas um erro pessoal dela — agora está afetando todos ao redor, todos os
que eu juraria proteger.
Levanto-me sem fazer barulho, decidido a ir até o quarto de Eliza.
Talvez vê-la dormindo me ajude a encontrar um pouco de paz. Talvez eu
consiga entender algo mais, sentir que ela está segura, mesmo que seja
apenas por um momento.
Assim que abro a porta do quarto, sinto um frio percorrer minha
espinha.
O quarto está vazio. Não há sinal dela. A cama está desarrumada, como
se ela tivesse se levantado com pressa, como se algo tivesse puxado ela para
fora do descanso. Olho em volta, buscando qualquer sinal, e vejo a porta do
guarda-roupa aberta, como se ela tivesse mexido ali, feito algo
apressadamente.
Minha respiração se torna mais irregular. Algo está errado. Eu sei
disso.
O que mais me angustia não é a ausência de Eliza. Não é o fato de ela
ter ido embora sem me avisar. É o bilhete. Um bilhete que está ali, na mesa
de cabeceira, com o meu nome rabiscado na frente, como se fosse algo
esperado. Algo que ela sabia que eu encontraria. Minhas mãos, agora
trêmulas, se estendem até ele, abrindo-o devagar, como se, de alguma forma,
isso pudesse me dar uma resposta que eu nem sabia que precisava.
"Provavelmente você encontrará esse bilhete quando amanhecer e tudo estiver terminado. Sinto muito,
Chris, mas eu jamais me perdoaria se você sofresse as consequências na justiça por ter matado Simon.
É por isso que preciso resolver isso sozinha. Preciso voltar para onde nunca deveria ter saído."
Cada palavra é um soco no estômago, e a frieza com que ela escreveu
aquilo me atravessa, tomando-me por uma onda de desespero.
Ela foi até Simon sozinha e, pior ainda, com a intenção de resolver tudo
sem me envolver.
O pior é saber que Madelyn, Noah e Aelin estão no meio disso tudo. Eu
não posso deixar nada acontecer com eles. Não posso.
Fecho os olhos por um segundo, tentando recuperar o controle da
minha respiração. Não consigo. Eu a perdi, e ela sabe que não posso ir atrás
sem colocar tudo em risco.
— Merda! — o grito explode da minha garganta, e o eco dele reverbera
pela casa vazia.
Meu sangue ferve, e toda a calma que eu tentei manter se desintegra,
dando lugar a um nervosismo urgente.
Ela foi para a antiga casa, e eu sei o que isso significa. Ela acha que
está resolvendo tudo se for se render, mas não faz ideia do que está por trás
disso. Eu sei. E se ela não perceber a tempo, Simon vai destruir tudo o que
restou.
A raiva, a frustração e a impotência se misturam em mim enquanto
desço as escadas rumo ao telefone. Meus dedos trêmulos discam rapidamente
o número da delegacia. Não me importo com burocracia ou protocolos. Não
tenho tempo para isso. O medo, agora, é insuportável.
— Eliza foi atrás dele sozinha. Preciso de uma viatura para a casa onde
Eliza morava! — minha voz sai rouca, carregada de urgência.
Ele tenta me acalmar, como se isso fosse possível.
— Senhor, precisamos que…
Não tenho paciência.
— Não temos tempo pra essa merda burocrática! — a raiva surge,
implacável. Eu não vou esperar. Vou agir.
Desligo o telefone e corro para o carro, com as palavras do atendente
ainda ecoando na minha mente.
Eles não têm ideia do que está em jogo.
Thomas aparece na garagem, seus olhos arregalados de sono, mas a
expressão dele muda quando vê a pressa em meu rosto.
— O que houve? Aonde vai? — ele pergunta, confuso.
— Eliza foi atrás do Simon sozinha. Ela deixou um bilhete.
Provavelmente ele entrou em contato com ela. Eliza vai tentar fazer alguma
coisa, Thomas. Se eu não sair agora, posso chegar tarde demais. — No
momento em que essas palavras saem da minha boca, algo me corrói por
dentro e me arrasta para uma realidade ainda mais escura.
Abro o porta-luvas e confirmo o que temia.
A arma não está ali.
Ela levou a arma.
Ela não foi se entregar.
Ela foi para matar Simon.
O vazio se instala dentro de mim. E se eu não chegar a tempo? E se ela
já tiver tomado uma decisão que não há mais como voltar atrás?
Thomas olha para mim, preocupado, mas não diz nada. Ele entra no
carro sem hesitar, e, com um tranco, arranco a garagem para fora. Eu sei o
que preciso fazer. Preciso encontrá-la, antes que ela faça algo que não possa
mais consertar.
|UMA HORA ANTES|
O toque do meu celular corta o silêncio, me despertando.
Estou no meu quarto. Christopher me trouxe para a cama, mas não é
isso o que me faz despertar num súbito.
Meu celular vibrando na mesa de cabeceira, faz meu coração saltar no
peito. A tela não mostra um número salvo. Apenas um número desconhecido.
Minha garganta seca. Eu já sei quem é.
Atendo com as mãos trêmulas.
— Finalmente, Angel. Te acordei? — A voz de Simon ecoa fria e
carregada de triunfo.
Observo a hora no visor. São duas da madrugada.
Seguro o telefone com tanta força que sinto meu próprio pulso latejar.
— Aonde você está? — minha voz sai trêmula, mas firme. — O que
você quer? O que pretende com isso?
— Ah, Angel, você já sabe o que eu quero. Você. Só você. Desde o
começo. Mas você continuou fugindo, fingindo que poderia escapar de mim.
E agora, olha só... Eu tenho sua filhinha. Madelyn também. Até o bebezinho
fofo. Quer vê-los de novo?
Meu coração aperta em meu peito como se fosse explodir.
— Se encostar neles, Simon, eu juro que...
— Shhh… Não queremos acordar o soldado, queremos? — ele me
interrompe com um tom de diversão doentia. — Você não está em posição de
fazer promessas. Eu, por outro lado, posso fazer algumas. Como essa: se
você não vier até mim sozinha, Eliza, eles vão pagar o preço. Você achou
que ia fugir de mim e viver uma vida normal? Eu sou o rei dessa merda,
Angel. Você desafiou as minhas regras.
Assinto na mesma hora, mesmo sabendo que ele não pode ver.
— Tudo bem — digo com voz submissa e mansa. — Eu vou. Aonde
vocês estão? — apresso, me levantando.
Apoio o celular no ombro e enquanto isso, visto uma blusa de frio e
calço as sandálias.
— No lugar onde tudo vai acabar. Onde começou a nossa história,
meu amor — sua voz sai arrastada, cruel. — No nosso lar. Mas venha
sozinha, e eu libero a mãe e o bebê. E você e a Aelin, voltam para onde
nunca deveriam ter saído.
— Tudo bem — concordo, tentando soar calma.
A linha cai e o silêncio e a escuridão me abraça enquanto encaro o
celular se apagar.
Fecho os olhos e inspiro fundo.
Eu sei que Christopher nunca me deixaria ir sozinha. Ele nunca
aceitaria isso. Mas Simon foi claro: se eu obedecer ele, tudo vai voltar para
onde sempre deveria ter ficado e ninguém vai se machucar. Pelo menos,
nenhum deles.
Não posso permitir que mais ninguém sofra por minha causa.
Quando volto a abrir os olhos, já sei o que preciso fazer.
Duvido muito que Christopher esteja dormindo e duvido mais ainda
que ele não vá me ouvir saindo, mas é desse jeito que nossa história deve
acabar.
E são com os mesmos passos cuidadosos e o silêncio com que fui
obrigada a entrar em sua vida, que agora saio, sem olhar para trás.
O vento frio da madrugada corta minha pele através do vidro do carro
de aplicativo que anda pelas ruas desertas. O motorista dirige em silêncio
absoluto, como se soubesse para onde está me levando e o que vai acontecer
quando eu chegar lá. Meu corpo inteiro treme, não sei se pelo vento frio que
bate no meu rosto, se pelo nervosismo, ou se pelo simples motivo de ter um
revólver no bolso da blusa de moletom que visto.
Meus dedos se fecham com força ao redor da arma dentro do bolso do
casaco. Não posso hesitar. Sei exatamente o que preciso fazer. Não posso
falhar, ou vai ser muito pior.
Nunca usei uma arma, mas não deve ser tão difícil apontar e apertar o
gatilho. Eu sei que o tiro gera pressão forte, então eu só preciso segurar com
as duas mãos e manter a mira nele.
Se Simon quer um jogo, pois bem, ele está prestes a perder.
Quando o carro se aproxima da rua, nos deparamos com um outro carro
bloqueando a passagem e dois rapazes estão ao lado, como se estivessem de
guarda.
— A rua está fechada, cara. Ninguém sai e ninguém entra — um deles
informa ao motorista, batendo com o cano de uma arma no vidro.
O motorista gela, olhando-me pelo retrovisor central.
— Tem certeza que este é o caminho? — ele pergunta, preocupado.
Confirmo.
— Sim. Pode me deixar aqui — anuncio e ele destrava as portas,
finalizando a viagem. — Obrigada — digo, antes de descer, mas ele está em
choque demais para me responder de volta.
Os dois rapazes que estão fazendo o controle da rua, portam armas e eu
me aproximo deles para me identificar.
— Simon está me esperando — informo e eles me olham por um
momento com pena, mas logo voltam à postura fria e me escoltam até a
minha antiga casa.
A cada passo que dou me aproximando de lá, meu corpo treme ainda
mais. Não faço a menor ideia do que Simon vai fazer. Eu já ouvi histórias
suficientes das vezes em que ele aplicou uma ‘correção’ em quem tentou
fugir das mãos deles. A diferença é que ninguém tinha um ex-soldado para
defendê-los, que deu uma surra nele e só não atirou na cara dele porque você
não deixou. A diferença, também, é que ele caçou essas pessoas e as trouxe
de volta. No meu caso, ele sequestrou as pessoas que não tem envolvimento
algum com o que fiz para me atrair de volta.
Isso aumenta a minha apreensão, porque para mim, não interessa o que
ele vai fazer comigo. Eu só quero que ele liberte, Aelin, Madelyn e Noah.
Paro em frente ao portão enferrujado da casa onde morei por anos. A
visão da fachada decadente, as janelas escuras e a porta entreaberta me fazem
parar antes de me aproximar demais.
A rua está deserta, e o silêncio é ensurdecedor, como se os moradores
demonstrassem respeito pelo que quer que Simon esteja prestes a fazer. É
evidente que todos observam de suas janelas, sem sequer cogitar intervir.
No pequeno cômodo, o silêncio também impera, a ponto de me fazer
duvidar que eles estejam aqui. Então, pela brecha do portão entreaberto, eu o
vejo.
Simon.
Respiro fundo e dou o primeiro passo para dentro do lugar que foi meu
inferno particular por muito tempo e ele me dá passagem.
O ar dentro da casa é pesado, úmido, carregado com o cheiro de
madeira velha e poeira, é difícil enxergar em meio à escuridão. O ambiente
parece menor do que eu lembrava, como se as paredes tivessem se fechado ao
redor de nós. Cada passo que dou, meu coração bate num ritmo apressado.
A luz da lâmpada amarela se acende, mas a luz fraca, mal ilumina o
ambiente, e enfatiza as sombras dos móveis destruídos pelas paredes
rachadas. Meu estômago se revira quando meus olhos varrem o espaço ao
redor.
E então, os vejo.
Madelyn está sentada no chão, encostada contra a parede oposta, com
Noah protegido nos braços e seus olhos encontram os meus com um misto de
alívio e desespero.
E Aelin…
Meu peito aperta ao vê-la encolhida ao lado de Madelyn. Ela está com
um pano velho amordaçando sua boca pequena, os joelhos dobrados contra o
peito estão ralados, mostrando que de alguma forma, ela lutou, as mãozinhas
estão agarradas ao braço de Madelyn. Ela está assustada, os olhos arregalados
refletindo o pouco de luz no cômodo, inchados pelo choro.
— Meu amor… — digo, atraindo sua atenção.
Ela mal havia processado minha presença, mas, quando seus olhinhos
azuis encontram os meus, seu corpo se agita, como se sua salvação
finalmente tivesse chegado. Isso apenas confirma que vir até aqui, foi a
escolha certa.
Solto o ar com dificuldade.
Simon está em pé, a poucos passos delas, como se fosse um guarda
vigiando seus prisioneiros. Ele veste um casaco escuro, e seus olhos negros
brilham com a mesma satisfação doentia de sempre.
— Foi mais rápido do que pensei, Angel. Sabe… achei que ia trazer seu
príncipe junto, mas você é inteligente, como eu imaginava.
— Deixe-os ir — minha voz sai mais firme do que eu esperava.
Ele sorri, um sorriso frio e vazio.
— Eu vou. Assim que tivermos terminado aqui.
Meus dedos se apertam ao redor da arma dentro do bolso do casaco,
mas ainda não é a hora de usá-la. Meu corpo está tenso, meu coração
martelando no peito. Não posso demonstrar medo.
Simon passeia o olhar entre Madelyn, Noah e Aelin, como se analisasse
suas peças em um tabuleiro. O sorriso torto que se forma em seus lábios me
dá nojo.
— Sabe, Angel, eu sempre fui um homem justo — ele diz, caminhando
lentamente ao redor das vítimas, como um predador saboreando o momento
antes do ataque. — Sempre te dei escolhas, não é? Mas você sempre escolheu
fugir.
Meu coração martela contra meu peito. Minhas mãos tremem dentro do
bolso do casaco, mas seguro a arma com mais força.
— Do que você está falando, Simon? — minha voz sai tensa, mas
firme. — Você queria que eu viesse, e agora já estou aqui. O que mais você
quer que eu faça?
— Tsc, tsc, tsc, tsc… Mudei de ideia, Angel — ele diz, a voz gotejando
veneno. — Sabe, Eliza, seu príncipe também deveria pagar, mas eu prefiro
que ele viva sabendo que você teve uma escolha aqui e essa escolha vai
acompanhar vocês dois pelo resto da vida. Eu sempre disse que não ia te
machucar porque seria um desperdício com esse seu rostinho bonito, lembra?
Ele ergue uma sobrancelha, satisfeito com minha reação.
— Estou te dando mais uma escolha agora — ele aponta para Madelyn
e Noah com um gesto teatral, e depois desliza o olhar para Aelin. — Você
pode salvar a sua amiguinha e o bebê dela… ou… a sua filha.
Minha respiração falha.
— O quê? — A palavra sai num sussurro, porque meu cérebro se
recusa a aceitar o que ele está dizendo.
— Você ouviu — ele ri, como se estivesse se divertindo. — Uma delas
vai sair viva daqui. Você decide quem.
Meus olhos se arregalam e eu balanço a cabeça, negando.
— Não. Não, Simon…
— Sim, Eliza — ele inclina a cabeça, fingindo simpatia. — Você
queria um acordo? Eu te dou um. Escolha quem vive.
Meu corpo inteiro congela.
— Você é doente — praguejo, com um tom de nojo na voz.
— E você é previsível — ele dá de ombros. — Aposto que já está
pensando em alguma saída brilhante pra enrolar tempo e esperar aquele
soldadinho te encontrar, mas adivinha só? Eu também sou inteligente e se
você não escolher agora, mato todos eles.
Madelyn solta um grito sufocado quando ele a empurra para trás,
fazendo-a tropeçar e quase cair com Noah nos braços.
Aelin chora baixinho, sem saber para onde correr. Ela está longe de
mim e Simon ainda está entre nós duas.
— Escolhe logo, porra! — ele me apressa e sem conseguir raciocinar
direito, saco a arma do bolso da blusa com pressa e olhos lacrimejando.
Ele não esperava por isso, mas sua reação, não é a que eu esperava.
Simon não se sente ameaçado, pelo contrário, puxa os três para a frente
dele usando-os como um escudo.
Aelin me olha como se implorasse para eu acabar com essa história de
vez. Com os lábios amordaçados, ela soluça enquanto olho fixamente para
Simon, mirando a arma nele.
— Vamos, Angel. Atira em mim. Duvido que já tenha feito isso — ele
me desafia.
Madelyn está agarrada ao bebê como um sinal de que ela não vai deixar
nada acontecer com ele sem antes passar por ela e Aelin está agarrada nas
pernas dela.
— ANDA, PORRA! ATIRA! — Simon me incentiva mais uma vez e
sua voz grave retumba sobre as paredes.
Eu atiro para o alto, mas também sou pega de surpresa pelo estrondo e
pela pressão da pistola contra meu pulso.
Simon gargalha, tirando da cintura sua arma.
— Demorou demais para escolher, Angel.
Antes que eu raciocine, outro disparo é feito e no segundo seguinte,
estou no chão. Ele atingiu minha coxa com um disparo.
Não consigo ser tão rápida e agarrar o meu revólver de volta. Simon
chuta ele para longe e me pega pelos cabelos, me puxando até o outro canto
do cômodo perto da pia, de onde puxa uma faca de cortar carne e num
movimento só, ele passa rente ao meu elástico de cabelo.
Quase não sinto ou processo sua ação. Apenas fico exatamente onde
estou, sentindo a bala latejar sobre a minha coxa, enquanto ele sacode meu
rabo de cavalo na minha frente como um prêmio.
Não tenho reação ao ver que Simon cortou meu rabo de cavalo. A única
coisa que consigo ouvir são os gritos de Aelin, depois que Madelyn a livra da
mordaça, pedindo socorro e implorando para que alguém ajude a mamãe
dela.
A dor na minha perna me faz ver tudo embaçado, mas ainda consigo
sentir o peso de cada respiração. Os gritos de Aelin, de Madelyn, e a risada
insuportável de Simon... tudo se mistura em um turbilhão. A pressão da bala
contra minha coxa, a sensação de estar completamente vulnerável, esmagada
pela inevitabilidade do que está por vir. O terror se espalha por meu corpo,
mas a maior dor é saber que falhei. Que não sou capaz de proteger ninguém
como pensei ser.
Tudo o que resta é o som da respiração pesada de Simon e as lágrimas
de Aelin, que agora parecem distantes. A escuridão da casa engole tudo ao
meu redor, e de repente, o silêncio me assusta mais do que qualquer grito.
Mas então, algo muda. Um ruído. Algo súbito e breve, como um leve
estalo de algo tocando o chão, quase imperceptível.
Meus sentidos, apesar da dor e do medo, se aguçam. Minha respiração
prende na garganta. Sinto uma presença. Não é Simon. Não é a tensão de
antes, a ameaça iminente que ele representa. É algo... diferente. Uma
sensação quase palpável, como se o ar ao meu redor tivesse mudado. A
leveza de um passo, o silêncio que se sobrepõe ao caos.
É como se alguém estivesse ali, observando. Não posso ver, não posso
ouvir mais nada além do som de Simon, mas há algo nos meus nervos, uma
agitação no meu peito que me diz que não estou sozinha na escuridão.
Eu conheço essa sensação. É quase como quando eu limpava a casa de
Christopher e sentia que ele estava prestes a descer as escadas.
A sensação é tão forte que minha respiração acelera, mas eu não me
movo. Algo está ali, mas não sei o quê. Não posso me dar ao luxo de olhar,
de confirmar o que sinto, porque posso fazer Simon desconfiar também.
Apenas sei que algo está prestes a acontecer. Algo que pode mudar
tudo, mas eu ainda não sei como ou quando. A adrenalina no meu sangue é
tão grande que parece que estou entrando em curto-circuito.
E nesse último fio de lucidez, a pergunta martela na minha mente:
quem vou escolher para sair desse jogo?
Será que Christopher vai me perdoar algum dia?
— Te matar seria pouco para o que o soldado merece, Angel. Porque
ele se apaixonaria por outra mulher depois de um tempo, mas será que ele vai
conseguir te olhar nos olhos de novo quando souber que você jamais
escolheria a sua filha para pagar por vocês?
Antes que eu possa pensar em um outro plano, Simon puxa Aelin para
perto dele e encosta a lâmina de um canivete contra o pescoço dela. Minha
reação, desesperada para que ele solte minha filha, apenas confirma qual será
minha escolha se não encontrarmos uma saída.
É nessa hora que Simon consegue exatamente o que queria.
Fazer com que eu assuma o papel de vilã da história.
O carro desliza pelas ruas vazias da cidade, e a única luz que me guia é
o farol embaçado que corta a escuridão. O motor rugindo, a pressão do
volante nas minhas mãos, mas nada disso consegue aliviar a tensão que se
instala dentro de mim. Cada curva que faço parece mais lenta do que a
anterior, e mesmo a velocidade com que acelero não é suficiente para acalmar
o tumulto dentro da minha cabeça.
Eliza está indo até lá, sozinha, no lugar onde tudo começou. Eu posso
sentir o peso de cada decisão que ela tomou até aqui, como se estivesse
carregando todo o peso do mundo como sempre fez. Mas eu nunca imaginei
que ela fosse até lá com a intenção de matar Simon. Isso muda tudo.
Eu vi o medo, o desespero nos olhos dela todos esses dias, e eu sei que
ela tem muito a perder. Eu a conheço. Eliza não faz as coisas sem medir as
consequências. Mas o bilhete... é o que me dá a sensação de que tudo pode
dar errado. Ela sente que precisa terminar com isso, sozinha, para que eu não
pague o preço. Mas ela não sabe o que está enfrentando. Não mesmo eu sei.
O som das ruas vazias é abafado pelo meu coração martelando no peito.
Só consigo pensar no tempo, e no quão preciosos são os minutos que
escorrem como areia. Toda a estrada até a casa parece mais longa do que
nunca, e eu fico contando as curvas, as avenidas, as luzes apagadas. Cada
segundo é uma eternidade.
Eu e Thomas seguimos em silêncio, nossos corpos tensos enquanto o
carro atravessa as ruas vazias, o som dos pneus raspando no asfalto escuro
quase abafado pela tensão no ar. Sei o que está em jogo, e a única coisa que
importa agora é chegar lá antes que Simon decida que as vidas de Aelin,
Madelyn, Noah e Eliza não valem a pena.
À medida que nos aproximamos da rua da antiga casa de Eliza, abaixo
os faróis como é de costume em bairros assim e desço os vidros. O som do
motor do carro se mistura com o sussurro das árvores, mas algo não está
certo. Eu sinto isso antes de ver qualquer coisa.
Desacelero o carro quando vejo a silhueta de dois capangas perto da
entrada da rua. A rua está bloqueada por um carro atravessado.
Thomas, que já percebeu a situação, me lança um olhar preocupado.
— Merda, Christopher, está bloqueado — ele diz, a tensão em sua voz
evidente.
Não respondo de imediato. Minha mente já está trabalhando,
procurando uma forma de sair dali sem ser descoberto. Um de nós vai ter que
ficar para trás.
— Eu vou descer. Você assume o volante — digo, em voz baixa, o tom
urgente. — Você distrai os dois. Eu passo sem ser visto.
Thomas hesita, mas não dou tempo a ele. Trocamos de lugar
rapidamente. Pulo para o banco de trás e ele assume o volante. Ele acelera um
pouco e diminui logo em seguida, estacionando o carro em uma posição onde
parece que sou seu passageiro e estou sendo deixado em meu endereço. Os
capangas ainda não percebem nossa intenção. Entro em um beco próximo, e
na intenção de chamar a atenção dos capangas, Thomas segue em frente
como se não soubesse o que o bloqueio à frente significa.
Eu me agacho, me esgueirando no beco logo atrás, vendo que os
capangas ainda estão atentos ao movimento do carro. Ao que parece, eles não
deram muita atenção para o caminho que segui. Enquanto isso, Thomas, que
sabe exatamente o que fazer, começa a movimentar o carro em direção ao
bloqueio.
— Ei! — Thomas os chama com a cabeça para fora do vidro. — O que
está acontecendo aqui?
A atenção dos dois capangas se volta para o carro de Thomas. Um
deles dá um passo à frente, enquanto o outro começa a se aproximar,
claramente irritado com a interrupção. O momento é perfeito.
Eu, ainda me esgueirando pelas sombras e as árvores, dou passos
rápidos em direção à casa. Me agacho algumas vezes, contornando os
veículos estacionados pelo meio-fio, tentando avançar o mais rápido possível.
O medo de ser visto faz minha respiração pesar, mas a adrenalina me mantém
alerta.
Minha mente está totalmente focada, o resto do mundo desaparece à
medida que me aproximo mais e mais do ponto de entrada da casa. A
respiração está curta, mas a adrenalina mantém meu corpo em movimento.
Cerca de trinta metros à frente, a casa de Simon está iluminada, e
enquanto penso em qual será meu próximo passo, me mantenho distante.
Não sou acostumado a decidir os próximos comandos. Kevin fazia isso
por mim, eu era apenas quem executava, agora aqui, sozinho, sem uma arma
e sem Kevin, agindo sob pressão, o tempo parece passar mais depressa que o
normal.
Já ouvi histórias de soldados que estiveram à beira da morte. Na
enfermaria, depois de se recuperarem, eles contavam sobre como sempre
sabemos qual é a missão da nossa vida. Você sente. Você sabe quando a
missão não é sobre você.
Geralmente é a missão em que algo sai do planejado e você se vê
sozinho precisando fazer escolhas, sem muito tempo para colocar tudo o que
você já viveu em uma balança. Você só avança. É como se algo te puxasse
para onde você precisa estar, independente se o fim desse caminho é na mira
do inimigo.
Ouço um disparo seguido dos gritos de Aelin e Madelyn ao longe, e
isso só aumenta a minha urgência. O som é como um campo magnético que
me atrai como um ímã.
Chego perto da casa e me agacho para que minha sombra não reflita na
janela. Observo o caminho que fiz até aqui. Os capangas estão distraídos com
Thomas e nem suspeitam que estou tão perto. Thomas está manobrando o
carro para dar meia-volta, mas está dando um trabalhinho para os dois,
fingindo ser um péssimo motorista.
Agachado, olho pela brecha da porta de ferro entreaberta. Eliza pegou
minha arma, estou desarmado, e pelo diálogo que escuto deles — diálogo
esse que só Simon fala com frases decoradas — vejo de longe algo de metal
reluzindo. A arma está no chão. Longe o bastante para que eu a alcance, por
mais rápido que eu consiga ser. Simon balança um revólver na mão. Já Eliza
está fora da minha vista. Madelyn e Aelin, estão do outro lado do cômodo,
também fora do meu alcance. Só consigo ver pela brecha, Simon.
Eu conseguiria atirar nele se a arma estivesse comigo. Colocaria um
fim rápido nele, mas agora, preciso pensar em algo rápido.
— Te matar seria pouco para o que o soldado merece, Angel. Porque
ele se apaixonaria por outra mulher depois de um tempo, mas será que ele
vai conseguir te olhar nos olhos de novo quando souber que você jamais
escolheria a sua filha para pagar por vocês?
A fala de Simon me pega de surpresa e isso apaga qualquer plano que
eu estava prestes a traçar. Ele vai fazer ela escolher entre Madelyn e a filha
dela.
Porra.
O som dos gritos ao fundo ressoa como uma faca cravada na minha
mente. Cada palavra que Simon diz, parece um punhal.
Simon está ocupado com suas palavras, jogando com a mente delas. Eu
me esgueiro ainda mais. Uma lâmina afiada me atravessa: se ele perceber que
estou aqui, tentando tramar contra ele, vai matá-las sem hesitar. Vai acabar
com elas sem pensar duas vezes.
Eu não tenho escolha. Se não o enfrentar agora, Eliza, Madelyn, Noah e
Aelin vão pagar o preço.
A lembrança de minha última missão vem à tona. Kevin, que não
hesitou em tomar a decisão de dar sua vida para me salvar. Que aceitou que já
era um homem morto. Fez a única coisa que podia para salvar minha vida.
O peso da sua morte ainda me persegue, e agora, aqui estou eu, diante
de outra escolha, outra vida que posso perder.
Simon quer deixar o rastro de mais uma pessoa que não pude salvar na
minha mente.
É a primeira vez que consigo entender a decisão de Kevin. Agora que
ela está na minha frente, é bem mais simples entender o que você é capaz de
fazer por quem você ama.
Agora eu entendo Kevin. É muito mais fácil salvar a vida de uma
pessoa quando você vê que ela viveria muito melhor que você se tivesse a
chance.
Kevin sempre foi meu companheiro de missão e nunca, NUNCA,
jamais vi ele hesitar e considerar se render. Até o dia em que ele se sacrificou
para me salvar. No fim, Eliza sempre esteve certa. Nem sempre um lado
precisa derrotar o outro para vencer. Se render também é uma forma de
poupar vidas. E é justamente isso o que irei fazer.
Levanto da minha posição. Com os músculos tensos, ergo as mãos, me
colocando na visão de Simon. Ele estreita os olhos de imediato.
Abro a porta de ferro com cuidado e sigo para dentro da casa cauteloso.
Dando a ele, tempo suficiente para ver que não estou armado.
— Fazendo visitas essa hora, saldado? — ele sorri de maneira cruel,
como se fosse um jogo para ele.
Meu olhar é firme. Não vou recuar.
— Estou aqui — minha voz sai baixa, controlada, mas as palavras
carregam um peso que só quem já viu a morte de perto pode entender.
Passo o olhar pelo cômodo e meu olhar para em Eliza.
Ela está de um lado do cômodo.
Madelyn está perto da outra parede, segurando Noah contra o peito.
Aelin está nos braços de Simon e ele segura uma faca contra o pescoço
dela.
Meu corpo gela.
Tudo dentro de mim grita para arrancá-la dali.
Não posso deixar Simon se aproveitar delas, mas, ao mesmo tempo,
estou ciente do que está em jogo.
— Veio me matar, soldado? — Simon questiona, um sorriso cínico em
seus lábios.
— Não. Eu vim fazer uma troca. — Ao dizer isso, vejo a surpresa em
seu rosto.
Ele não esperava isso. Simon pensa por um momento. Claro que pensa.
Tudo para Simon é uma negociação. Ele não acredita em sacrifícios reais. Ele
acredita em barganha.
Dou um passo à frente, minha decisão tomada.
— Me deixe no lugar delas. Eu fico. Sou o alvo que você quer, não
elas. Deixe-as ir, e vamos resolver isso como homens — digo com uma
calma que me assusta.
— Christopher, não faz isso… — Eliza tenta intervir, mas não
demonstro reação alguma ao escutá-la.
Ela está ferida no chão, tentando conter os gemidos de dor. Isso me
quebra mais do que qualquer coisa.
Vai ser pior se eu der ouvidos a ela.
Eliza é o meu ponto fraco. Só preciso dela longe disso.
Simon me observa com um brilho maligno nos olhos, avaliando minhas
palavras, calculando. Ele sabe que tenho algo a oferecer, e isso o faz se
aproximar, tão previsível quanto uma peça teatral.
Já percebi que quando o assunto é seu ego, ele está disposto a negociar
o que for.
— E por que você faria isso, soldado? — ele ri, e a risada parece
preencher cada canto da sala. — Você realmente acha que sua vida, vale mais
que as delas?
Não hesito, e não deixo que o medo tome conta de mim. A dor do meu
passado, o peso da morte do meu amigo, tudo isso se mistura com a
necessidade desesperada de salvar aquelas que, mesmo em um momento tão
sombrio, ainda são minha única razão de viver.
Não vale a pena dizer meus motivos a ele. Aliás, isso pode acabar
causando um efeito rebote e ele recusar fazer essa troca.
Simon ri novamente, ao achar que não tenho um argumento para ele.
— Você realmente acha que isso vai resolver algo, soldado?
— Liberte elas e resolva as coisas comigo. A polícia chega em breve,
Simon — digo, numa tentativa de apressá-lo.
— Eles não vêm. Eles nunca vem — Simon se gaba, vitorioso. — Você
sabe, sou eu quem mando nesse bairro e você deveria saber quando abriu
uma denúncia contra mim. Falaram com quem? Com o delegado Carter? —
Simon debocha, soltando um riso. — Ele ama pegar esses casos que enchem
o bolso dele de dinheiro vivo. Inclusive, numa hora dessa, ele deve estar na
casa dele, contando todas as notas de dinheiro que dei na mão dele mais cedo.
— Tire as mãos da criança. Você não é tão covarde assim — minha voz
sai grave, cortante, mais ameaçadora do que nunca.
Ele desliza a lâmina devagar pelo pescoço de Aelin, como se estivesse
saboreando o momento.
Enquanto isso, Eliza orienta Aelin a não se mexer. A pequena obedece
em silêncio, mas seus olhinhos inchados pelo choro estão fixos em mim,
como se implorasse, sem palavras, para que eu a tire dali o quanto antes.
— Tem certeza que está disposto a se render assim, soldadinho? —
Simon ri, me provocando, mas não vou cair nessa.
Já ouvi coisas muito piores em momentos de resgate, e nenhuma delas
me fez sair da minha posição tática.
— Tenho.
— Christopher, não! — Madelyn fala pela primeira vez, a voz firme,
como uma irmã mais velha falaria se visse seu irmão caçula disposto a se
sacrificar.
— Deixa elas saírem daqui. Não quero que a Aelin veja isso — peço
convicto, ignorando Eliza e Madelyn implorando para que eu não faça isso.
— Não é essa a regra, Simon? Você precisa fazer isso com quem te desafiou.
Ou prefere que sua fama se espalhe pelo bairro como alguém que só age
contra mulheres? Matar um militar soaria melhor para você, não é?
A visão de Aelin ali, com a lâmina pressionada contra seu pescoço, me
dá forças, mas também me empurra para um abismo de impotência. Eu sei
que, no fundo, esse sacrifício que estou oferecendo é a única chance de salvá-
las. Não tenho mais nada a perder. Ao mesmo tempo, sei que Simon não se
importa com isso. Ele quer me ver perder. Ele quer me fazer pagar. Não vai
ser simples.
— Você acha que vou cair nessa? — Simon fala, com um sorriso cínico
que me faz sentir o peso da raiva acumulada.
Ele ainda não acredita, mas há algo em sua voz que me faz perceber
que ele está começando a considerar a possibilidade. Ele já deve ter ouvido
de muitos homens prontos para morrer por uma causa, mas nenhum deles
tinha um passado como o meu. Nenhum deles tinha as cicatrizes invisíveis
que carrego. Nenhum deles já viu a morte de perto de maneira tão pessoal
quanto eu.
A escolha de Kevin, a perda dele, agora me guia. Eu sei que se ele
estivesse aqui, faria a mesma coisa. Isso não é apenas sobre salvar uma vida.
É sobre a honra que carrego comigo, uma honra que vem de quem eu era
antes de tudo desmoronar.
— Você sabe que chegamos no fim. Se você quiser que isso termine do
jeito que planejou, é comigo que você precisa fazer isso.
Simon passa a mão pela lâmina da faca, sentindo a tensão, talvez até
gostando da ideia de poder testar minha coragem até o fim. Ele olha para os
outros, como se estivesse analisando se vale a pena aceitar minha oferta ou
seguir com seu teatrinho.
— Você ganhou, Simon.
— Christopher, por favor, não faz isso — Eliza choraminga, mas ela
sabe que não existe outra alternativa.
— Não vai me dizer que ficou com medo de matar um militar? —
continuo, numa tentativa de apressar as coisas.
Ele não está acostumado com esse tipo de desafio. Está acostumado a
manipular, a fazer as pessoas temerem suas ordens. Mas ele não sabe o que
fazer quando se depara com um homem que não tem medo de morrer.
Dou um passo à frente, mais confiante do que nunca.
Não. Eu não quero morrer, mas vou fazer isso por elas. Porque a única
coisa que importa é que elas saiam daqui vivas.
Simon inclina a cabeça, avaliando minha proposta. Seus dedos
deslizam pela lâmina da faca, como se saboreasse a tensão no ar.
Por um segundo, acho que ele vai aceitar. Por um segundo, acho que
posso convencê-lo.
Então, ele sorri. Um sorriso cruel, torto, doentio.
— E quem disse que eu gosto de escolhas fáceis, soldado? — Simon
murmura, virando-se abruptamente e agarrando Aelin.
Meu coração congela no peito.
Antes que eu possa reagir, ele puxa a menina para mais perto,
pressionando a lâmina contra sua pele delicada.
— Se é para eu me divertir, então vamos começar pelo seu ponto-fraco
— ele rosna.
Quando Simon avança com a faca contra Aelin, sem pensar, avanço
contra ele, meu corpo se movendo por instinto. Ele percebe meu movimento
tarde demais. Tenta me bloquear, mas minha força é maior do que ele espera.
Eu sou um soldado, fui treinado para reagir dessa forma, e agora, não há mais
chance para negociações.
Me lanço contra ele, derrubando a faca de sua mão. Aelin cai para trás,
fora de perigo imediato, e eu me coloco entre ela e Simon.
Dois disparos ecoam pelo cômodo.
Olho para o lado, e vejo Eliza, com a arma na mão. Seu rosto carrega
uma mistura de pânico e desespero, mas, no momento seguinte, sinto uma dor
aguda em meu lado. Aquela maldita dor.
Um tiro. A sensação de calor intenso no meu corpo quase me derruba,
mas permaneço firme de pé.
Nós dois nos entreolhamos. Ela não queria isso, mas o que importa é
que o outro disparo acertou Simon também. Ele cai para trás, com um grito
de dor, sua expressão de surpresa congelada no rosto. Ele está fora de
combate, mas ainda está vivo.
Vejo o sangue escorrendo de mim, e, mesmo em meio à dor, há uma
estranha sensação de alívio. Mesmo ainda sentindo a região em que o tiro me
acertou queimar, não paro. Pego a arma do cós de Simon sem dar a ele a
chance de revidar.
Aelin corre para os braços de Eliza, chorando, enquanto Madelyn
continua no mesmo lugar, paralisada pelo medo.
Com Simon caído, minha visão começa a embaçar, mas ainda consigo
sentir a fúria dentro de mim. Eu não vou deixar ele escapar.
Quando ele começa a se mexer, seus olhos brilham com um ódio
profundo. Ele tenta se levantar, mas não consegue. A última coisa que ele
sente é a lâmina que eu cravo em sua garganta, uma lâmina que simboliza
todo o peso de minha impotência, minha perda, e a minha tentativa de dar
sentido a esse inferno em que estamos.
A lâmina afunda até o cabo, e o corpo de Simon fica imóvel. Eu fico
por ali. De joelhos, levando a mão até onde a bala me perfurou.
Na lateral do meu abdômen.
— Porra.
Eliza corre até mim com o medo visível em seu rosto. Ela tenta me
segurar, mas estou fraco demais. Cada respiração se torna mais difícil, e a dor
parece cada vez mais insuportável.
Ela se ajoelha ao meu lado, a arma ainda em suas mãos, como se
estivesse em choque. Os olhos dela brilham com lágrimas, e ela tenta
desesperadamente controlar as emoções. Eu não posso olhar para ela assim.
Não posso ser o peso dela.
— Você... você vai ficar bem, Christopher, por favor... — ela suplica,
com a voz falhando.
Não, Eliza. Não é assim que a coisa funciona.
— Eu vou ficar bem — minto, para não causar desespero, mas não
aguento muitos minutos nessa posição.
Perco a força para levantar e caio para trás.
Sorrio, um sorriso cansado e triste. Ela não me vê, não vê a dor em meu
rosto, não vê a batalha que travo dentro de mim. Eu escolhi isso. Ela não
precisava ser a culpada.
— Chris, Christopher! — Madelyn me chama ao ver que tudo acabou.
Ouço o choro de Noah no colo dela, mas minha irmã o repousa ali no
chão.
Ela envolve meu rosto com as duas mãos e cola nossas testas.
— O Thomas vai levar vocês para casa — digo para ela, tentando abrir
um sorriso para tranquilizá-la, mas Madelyn se levanta e ouço a voz dela ao
berros na rua pedindo socorro.
Eliza continua ali o tempo inteiro agarrada a mim. Tentando reverter a
situação do disparo com as mãos ensanguentadas.
Com a mão fraca, toco o rosto dela, sentindo a suavidade de sua pele.
Se for para morrer, que seja com ela ao meu lado.
— Olha para mim, amor — minha voz é quase inaudível.
Eu quero que seus olhos sejam a última coisa que verei antes de tudo
se apagar.
Ela chora ainda mais, e, mesmo em meio ao caos, isso me acalma. É a
última coisa que vou ouvir antes de tudo escurecer.
Por fim, ouço a voz doce de Aelin envolver o meus cabelos.
— Tio Chris, vamos para casa — ela diz com medo e eu solto um riso.
— Já, já, pequena. Deixa só o tio descansar um pouco — ela assente
inocente, mas depois de alguns segundos, pergunta de novo.
— E agora, a gente já pode ir? Que tal se você deixasse para descansar
no seu sofá?
— Pode fazer uma coisa por mim? — peço, esforçando-me para
respirar, mas a cada segundo, se torna uma tarefa cada vez mais difícil.
— Te ajudar a levantar? — ela sugere.
— Quero que você cuide da sua mãe e seja a companheira dela e
sempre lembre ela que ela é uma ótima bailarina.
— Tio Chris, você quer ser da nossa família? Para eu te chamar de
papai? — a pequena pergunta com pressa e voz embargando, como se
soubesse o que está acontecendo.
A pergunta dela me pega desprevenido, mas não tenho mais forças para
responder.
Achei que a pior cena que eu já havia presenciado foi na noite em que
livrei elas das mãos de Simon e as levei para a minha casa. Até agora. Até vê-
las chamar pelo meu nome aos prantos, agarradas ao meu corpo, sujas de
sangue, desesperadas.
Mas por algum motivo, fecho os olhos sentindo paz.
Elas estão a salvo.
E Simon terá minha companhia no inferno pelo resto da eternidade.
As sirenes da polícia ainda ecoam na minha cabeça como um grito
agudo. O barulho metálico se mistura às luzes vermelhas e azuis piscando, e
tudo parece um borrão em meio ao caos. Meu corpo ainda está preso àquela
cena. O rosto de Christopher, pálido e inerte, gravado na minha mente como
uma marca impossível de apagar.
O mundo à minha volta desmorona. Nada faz sentido. Nada parece real.
Eu não consigo entender, não consigo aceitar, não consigo processar quase
nada que as pessoas dizem ao meu redor.
Depois que tudo aconteceu, vi o tempo passar como um borrão.
Quando Madelyn saiu para fora para pedir socorro e os capangas viram do
que se tratava, eles fugiram no carro de Simon que estava bloqueando o
acesso da rua.
No fim, como eu sabia, eles estavam apenas seguindo ordens. Agora,
ficou nítido que Christopher não apenas livrou eu, Aelin, Madelyn e Noah.
Ele livrou todos que estavam nas mãos de Simon.
Thomas avançou com o carro, e numa corrida contra o tempo pela
espera de uma ambulância, ele carregou Christopher para dentro do carro e
foi na frente até o hospital.
Não tivemos notícias mais. Nós nos separamos naquela hora.
A dor que sinto do tiro que Simon deu na minha coxa, não se compara
com a dor da incerteza de não saber se Christopher está bem.
— A Aelin… cuida da Aelin… — murmuro com a voz embargada,
enquanto sou colocada às pressas em uma maca.
Madelyn segura minha mão com força. Seu rosto está molhado de
lágrimas, mas ela tenta se manter forte.
— Eu estou com ela, Eliza. Ela está bem. Eu prometo.
A adrenalina ainda percorre minhas veias, mas já não é o suficiente
para me manter acordada. Meus olhos pesam, a dor em minha coxa lateja de
forma insuportável, e meu corpo finalmente cede ao choque.
O cheiro forte de antisséptico invade minhas narinas antes mesmo que
eu consiga abrir os olhos. A luz branca do quarto é incômoda, e a sensação de
algo apertando minha perna me faz lembrar o que aconteceu. O tiro. O
sangue escorrendo quente pela minha pele.
Minha respiração falha quando minha mente desperta de vez. O medo
me invade antes mesmo que eu consiga me situar completamente.
Christopher.
Meus olhos se abrem de súbito e encaro o teto branco, piscando
algumas vezes até que minha visão se ajuste. O som dos monitores ao meu
redor me faz perceber que estou no hospital.
Estou viva.
Mas e ele?
— Eliza?
A voz de Madelyn me traz de volta, e quando me viro para o lado, a
vejo sentada em uma poltrona ao lado da minha cama. Ela está pálida, o rosto
cansado, mas aliviado por me ver acordada.
— O que…? — minha voz sai fraca, e minha garganta parece seca
como areia.
Ela se inclina para frente, pegando um copo de água no aparador ao
lado da cama e trazendo o canudo até meus lábios. Dou um gole pequeno,
sentindo a água refrescante escorrer pela garganta.
— O que aconteceu? Onde… onde está Christopher? — pergunto, meu
coração acelerando.
Madelyn respira fundo antes de responder, e isso me faz sentir um frio
cortante na espinha.
Ela fecha os olhos por um segundo, como se reunisse forças para
continuar.
— Ele perdeu muito sangue. Os médicos o levaram direto para a
unidade de tratamento intensivo. Ele está instável, o estado ainda é grave.
Meu peito se aperta. Um nó se forma em minha garganta e sinto o ar
faltar.
— Eu preciso ver ele… — tento me mover, mas a dor na perna me faz
gemer, e Madelyn me segura pelos ombros, me impedindo de forçar demais.
— Você passou por uma cirurgia, Eliza. Seu corpo ainda está se
recuperando. Os médicos disseram que você teve sorte. Nenhuma artéria foi
atingida. Eu prometo que assim que os médicos permitirem, vamos ver ele,
mas agora, você também precisa repousar.
Sorte.
É engraçado ouvir essa palavra depois de tudo.
Respiro fundo, tentando processar as informações. Ele está vivo. Ele
sobreviveu. Mas não está fora de perigo.
— E as crianças? — minha voz sai trêmula.
— Noah está bem, não se machucou. Já a Aelin… — Madelyn engole
em seco. — Ela está assustada, mas está com Thomas agora. Ele disse que
vai trazer ela mais tarde para te ver.
— E o Simon? — pergunto, sentindo um peso no peito.
Madelyn hesita por um momento antes de responder.
— Está morto. O golpe do Christopher foi letal…
Fecho os olhos por um instante, permitindo que as palavras afundem
em minha mente. Simon está morto. Ele não pode mais nos machucar.
Eu deveria sentir alívio, mas tudo o que sinto é um vazio enorme, como
se todo o caos dos últimos dias tivesse deixado um buraco dentro de mim.
Minha mente está cansada, sobrecarregada. A última coisa que lembro
é do desespero, do medo de perder tudo. Mas no meio de toda essa dor, há
um pensamento insistente de incerteza em relação a Christopher, um que me
faz apertar as mãos com força sobre o lençol.
Madelyn aperta minha mão, mostrando apoio.
— Vai ficar tudo bem, Eliza. Vamos crer que sim — ela diz, tentando
me tranquilizar, enquanto abre a bolsa que traz consigo e retira de lá uma
corrente de prata.
É a dog tag do Christopher.
Madelyn coloca na palma da minha mão.
— As duas plaquetas ainda estão aqui. Eles não pediram. Christopher
ainda está conosco, Eliza.
Por enquanto, a guerra acabou. Mas as cicatrizes vão continuar.
E a maior delas é a incerteza de quando Christopher vai acordar.
O tempo no hospital segue um ritmo diferente, mais lento, arrastado. A
semana passou, mas cada minuto à espera de notícias de Christopher pareceu
uma eternidade, cada batida do meu coração, uma contagem regressiva
silenciosa na esperança de que ele finalmente abrisse os olhos.
Madelyn me atualizou sobre tudo que aconteceu enquanto eu estava
desacordada, mas nada do que ela disse diminuiu o peso esmagador no meu
peito. O pior já passou, Simon está morto. Ainda assim, sinto que há algo
preso dentro de mim, um nó que não consigo desatar.
O médico entra no quarto e Madelyn se endireita na cadeira ao meu
lado.
— Notícias do Christopher, doutor? — Madelyn pergunta antes mesmo
que ele possa falar.
O médico suspira.
— Ele segue estável. Ainda está sedado por conta da entubação, mas
conseguimos conter a hemorragia. O trauma interno foi extenso, então ele
permanecerá na UTI até termos certeza de que não há complicações.
Meu peito aperta.
— Posso vê-lo?
Madelyn aperta minha mão, sabendo que eu não aceitaria um "não"
como resposta.
O médico hesita por um momento antes de responder.
— Por poucos minutos. Mas apenas se você conseguir se levantar e não
forçar demais a perna.
Assinto de imediato.
— Eu consigo.
— Você tem certeza disso? — o médico questiona, preocupado.
— Eu preciso vê-lo, doutor — respondo, e isso basta.
O médico me lança um olhar de advertência antes de sair do quarto.
— Vou pedir uma cadeira de rodas para você — ele anuncia.
Com ajuda de Madelyn e uma enfermeira, sou colocada na cadeira de
rodas sentindo a dor pulsante na coxa. Meu corpo está fraco, cada movimento
um lembrete de que também estou ferida, mas nenhum obstáculo é maior do
que minha necessidade de ver Christopher.
O caminho até a UTI parece interminável.
Quando finalmente chegamos à porta, a enfermeira nos dá permissão
para entrar.
O cheiro de álcool e desinfectante me atinge primeiro. O bip constante
dos monitores médicos ecoa no silêncio frio da sala.
E então, vejo Christopher.
Deitado na cama, pálido, coberto por fios e sondas. Há um curativo
grande sobre seu abdômen, e a máquina ao lado monitora cada batida de seu
coração.
O alívio por vê-lo vivo é quase tão forte quanto a dor de vê-lo assim.
Madelyn aproxima a cadeira de rodas lentamente ao lado do leito dele,
e permanece ao meu lado, sem dizer nada.
Seguro a mão de Christopher, fria contra a minha pele.
— Ei, soldado — murmuro, minha voz falhando. — Você conseguiu.
Meus olhos se enchem de lágrimas, mas eu as seguro.
— Você sempre diz que dá conta de tudo… que só precisava de cinco
minutos… mas parece que agora, sou eu quem vou precisar esperar — solto
um riso fraco, olhando para o homem que colocou sua vida em risco por nós.
— Você vai dar conta disso. Eu sei — aperto sua mão um pouco mais. —
Então, por favor, não desiste agora.
O silêncio responde. Apenas o bip dos aparelhos preenche o ambiente.
Respiro fundo, ignorando o nó em minha garganta.
Ele não pode me ouvir, mas preciso dizer mesmo assim.
— Você prometeu que não ia me afastar depois disso — sussurro. — E
eu prometi que não ia deixar você se afundar.
Madelyn por sua vez, se aproxima e apenas ajeita uma mecha do cabelo
dele sobre a testa.
— Ele vai voltar. Eu sei disso — é tudo o que ela diz, com lágrimas nos
olhos.
Ficamos ali por alguns minutos até a enfermeira nos avisar que
precisamos sair.
Antes de soltá-lo, levo sua mão até meu rosto, fecho os olhos,
aproveitando seu toco físico por um momento.
Ao sair da UTI, uma parte de mim fica lá, agarrada à esperança de que
tudo ficará bem.
As horas seguintes passam em um estado nebuloso entre cansaço
extremo e uma espera insuportável. Meu corpo dói de todas as formas
possíveis, mas a dor física não chega nem perto do vazio que se instalou
dentro de mim desde que saí da UTI.
Estou de volta ao meu quarto, mas não consigo descansar. Meu olhar
está fixo na porta, como se esperasse que alguém entrasse com notícias de
Christopher a qualquer momento.
Madelyn se senta ao meu lado, com Noah aninhado em seus braços.
Aelin está aqui também. Thomas a trouxe para me ver no horário de visitas.
Ela segura minha mão o tempo inteiro, deitada no meu peito.
Parece que ela ainda não processou completamente tudo que aconteceu.
Faz quatro dias que estou aqui, é sábado, e já consigo perceber que ela
está sentindo minha falta. Nunca ficamos tanto tempo assim longe uma da
outra.
— Mamãe, quando o tio Chris vai acordar? — Aelin pergunta, sua voz
baixa, hesitante.
— Logo, meu amor — respondo, forçando um sorriso para tranquilizá-
la.
Sinto um nó apertar minha garganta.
Percebi também que nesses últimos dias que ela veio me visitar, ela tem
sentido a falta de Christopher. Parece que ele era uma figura imbatível para
ela e agora, depois de todo o caos que aconteceu, a imagem dele
ensanguentado, caído, no chão, mexeu com a cabeça dela.
— Ele vai voltar pra casa com a gente? — ela inclina a cabeça,
esperando minha resposta. — Por que eu não posso ver ele também?
Troco um olhar com Madelyn, que também parece afetada pela
pergunta.
— Assim que ele melhorar, você vai poder vê-lo de novo — digo,
porque não sei dar outra resposta.
Aelin assente, satisfeita, e então se aconchega em mim, como se
estivesse dizendo nas entrelinhas, que hoje ninguém vai enganá-la e levá-la
de volta para casa sem mim.
Madelyn suspira.
— Preciso te contar algumas coisas que o Thomas me passou — ela
começa, sua voz carregada de cansaço.
— O quê?
— A polícia já quer encerrar a investigação — ela diz, seu tom sério.
— Nem você, nem o Christopher, irão enfrentar nenhuma acusação. O caso
foi classificado como legítima defesa.
Solto o ar que nem percebi que estava prendendo.
— Eles chegaram a essa conclusão rápido…
— Os policiais disseram que os capangas do Simon estão
desaparecendo. O bairro todo sabia do terror que ele colocava sobre as
pessoas, e ninguém quer lutar para manter o império dele de pé.
— Faz sentido — murmuro. — Mas isso quer dizer que estamos
seguros?
Madelyn hesita.
— Quanto a Simon, sim. Mas ainda há muita coisa para ser resolvida.
Eles não sabem se Simon compartilhava do poder com mais pessoas e se
essas pessoas vão dar continuidade no que ele começou.
A tensão em seus olhos me diz que nem tudo está terminado.
Agora, a única coisa em que consigo pensar é em Christopher, e em
como tudo o que quero, é vê-lo acordar.
Na semana seguinte, recebo alta, mas Christopher continua na UTI. Os
médicos garantem que sua recuperação está progredindo bem, mas isso não
diminui a angústia de vê-lo desacordado. Meu corpo também está
melhorando, mas a cicatriz em minha perna é um lembrete constante do que
aconteceu.
Agora, meu tempo se divide entre cuidar de Aelin e ajudar Madelyn
com Noah, enquanto Thomas lida com toda a burocracia da invasão à casa
deles e acompanha de perto a investigação.
Pelo que Thomas me contou, não foi encontrado nada que desse
respaldo de que Simon tinha sucessores.
O delegado Carter também está sendo investigado e segue preso por ter
aceitado propina de Simon para abafar nossa denúncia.
Após isso, não houve mais nenhum movimento diferente. A polícia nos
garantiu que estamos seguros. E pelos boatos que se seguiram após a morte
de Simon, no bairro em que eu morava, não houve mais nenhuma extorsão
com ligação a Simon.
Todos os dias, nos horários de visita da UTI, estou lá. O cartão de
acompanhante colado ao peito, e a corrente de Christopher repousando sobre
minha clavícula, como se fosse um peso e um consolo ao mesmo tempo.
Mas não há descanso. Meu corpo nunca parece relaxar o suficiente,
minha mente trabalha sem parar, dia e noite. O sono é fragmentado e
inquieto. Aelin começou a ter pesadelos constantes, e agora não desgruda
mais de mim. A psicóloga infantil recomendou que ela ficasse afastada da
escola por alguns dias, até conseguirmos trabalhar melhor o trauma que ela
viveu.
Tento seguir em frente, me agarrar ao fato de que o pior passou, mas
uma sombra insiste em pairar sobre minha mente, sussurrando sempre a
mesma pergunta: E se eu não tivesse pegado aquela arma e disparado?
Será que Christopher teria dado conta sozinho?
Ele estaria aqui agora?
Teríamos superado isso juntos, como uma família?
Mas eu atirei.
Eu tomei essa decisão.
E por isso ele está nessa situação.
Se ele tivesse morrido… Eu jamais suportaria o peso dessa culpa.
Então, em uma tarde silenciosa, tudo muda.
Estou sentada no corredor do hospital, segurando um copo de café frio,
perdida nos meus próprios pensamentos, esperando para entrar no horário de
visitas da UTI, quando vejo um dos médicos se aproximar. Meu coração
aperta, e imediatamente me levanto, segurando firme a borda da cadeira.
— Doutor… alguma novidade?
Ele sorri, o que me dá um alívio imediato.
— Sim. Christopher está estável, e conseguimos reduzir a sedação.
Como já retiramos a ventilação mecânica, ele será transferido para um quarto
em breve.
Sinto meu peito se expandir com o ar que nem percebi que estava
prendendo.
— Ele vai acordar? — minha voz sai embargada.
— Sim, mas pode demorar um pouco. O corpo dele passou por muito
estresse, e ele ainda está sob os efeitos da medicação. Mas agora é só questão
de tempo.
Passo as mãos no rosto, tentando processar. Ele está fora de perigo. Ele
sobreviveu.
— Obrigada, doutor — minha voz sai quase um sussurro.
— Vamos organizar a transferência e, assim que ele estiver no quarto,
você poderá ficar com ele.
Eu apenas assinto, sem conseguir conter as lágrimas que brotam nos
meus olhos. Assim que o médico se afasta, puxo o celular do bolso e ligo
para Madelyn.
Ela atende no segundo toque.
— Eliza? Alguma notícia?
— Christopher saiu da UTI — digo de uma vez, minha voz trêmula
com a emoção. — Ele vai para o quarto.
— Graças a Deus… — ela suspira, e eu ouço o alívio na sua voz.
— Vou ficar mais um tempo aqui — continuo, engolindo em seco. —
Cuida da Aelin por mim?
— Claro, fica tranquila. Ela tá bem. Só… volta pra casa depois, tá?
Você precisa descansar também.
Murmuro um "sim" automático, mas sei que provavelmente não vou
conseguir sair daqui tão cedo.
O quarto de hospital é silencioso, iluminado pela luz do dia que entra
pelas frestas das persianas. Christopher parece em paz, sua respiração agora
ritmada e estável.
Aproximo-me devagar e seguro sua mão. Ela está quente, diferente de
como estava na UTI.
— Você conseguiu, Chris… — murmuro, passando os dedos pelo
dorso da sua mão.
Ele parece tão diferente assim, vulnerável. Alguém que carrega tantas
cicatrizes, que sobreviveu a tantas batalhas, agora deitado ali, respirando com
dificuldade, mas vivo.
Me sento ao lado dele e apoio a cabeça na lateral da cama, sem soltar
sua mão. Meu corpo está exausto, mas me recuso a dormir. Preciso estar aqui
quando ele acordar.
E então, depois de algumas horas de silêncio, estou tirando um cochilo,
ou pelo menos tentando, quando ouço um murmúrio.
Meu olhar se ergue na mesma hora.
Os dedos de Christopher se contraem levemente.
Meu coração dispara.
— Chris? — chamo baixinho.
Por um momento, nada acontece. Mas então, seus olhos piscam
devagar, como se lutasse para emergir da escuridão.
Seguro sua mão com mais força.
— Ei… você tá me ouvindo?
Ele solta um som rouco, quase um resmungo.
— Eliza…
O alívio me atinge como uma onda. Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Sim. Eu tô aqui.
Ele pisca algumas vezes, tentando se situar.
— Onde…?
— No hospital — explico rapidamente, tentando conter a emoção. —
Você está se recuperando.
Ele tenta se mexer, mas solto sua mão e coloco a palma no seu peito.
— Não se esforça. Você está bem. Tá tudo bem.
Christopher inspira fundo, fechando os olhos por um instante. Quando
os abre de novo, sua voz sai rouca, mas firme.
— Cadê a nossa filha?
Solto um riso emocionado com a fala dele e colo nossas testas,
acariciando seu rosto.
— Ela não está aqui, mas ela está bem.
Ele tenta se sentar, mas eu o mantenho na posição em que está.
— Chris, você não pode levantar agora.
— Chama um médico pra me dar alta. Eu já tô bem.
Solto outro riso enquanto minhas lágrimas caem, mas dessa vez não são
de desespero.
São de alívio.
Ele está vivo.
Ele voltou para mim.
Madelyn chega pouco depois de Christopher voltar a dormir. Fico ao
lado da cama dele, ainda segurando sua mão, enquanto ela o observa em
silêncio. Há um brilho nos olhos dela, um misto de alívio e emoção.
— Eu achei que fosse perder ele — ela sussurra, cruzando os braços.
— Eu também.
Por um tempo, ficamos ali, apenas olhando para ele, absorvendo a
realidade de que ele sobreviveu.
— Talvez seja melhor eu ir embora.
— Tem certeza que já quer ir? Aelin está bem — ela pergunta, sem
entender o real sentido da minha fala — Noah também. Estão com uma
pessoa de confiança.
Engulo em seco e encaro as próprias mãos.
— Madelyn…
Madelyn vira a cabeça para me encarar, a expressão chocada.
— Você não está pensando em ir embora, está? Ir embora da nossa
vida.
Desvio o olhar.
— Eu não sei se ele precisa de mim agora.
Madelyn suspira e se aproxima, me puxando para um abraço.
— Ah, Eliza… Nada disso foi sua culpa, nada disso…
— Tem sido difícil concordar com isso — confesso.
— Sabe o que ele me disse no dia em que foi na minha casa? No dia
antes da tempestade?
Viro-me para encará-la.
— No dia em que ele saiu cedo para ir te encontrar na igreja?
— Sim. Eu até estranhei. Ele foi até minha casa depois disso.
Meu peito aperta.
— O que ele disse?
Madelyn inspira fundo, como se buscasse as palavras certas.
— Ele foi até lá para me falar sobre a conversa que teve com a
psicóloga sobre o TEPT. Dizer que eu não precisava assumir papel de mãe
dele ou me preocupar tanto com isso mais. Que alguns dias são mais difíceis
que outros, e nos dias melhores, ele faria de tudo para ser um bom tio para o
Noah, cuidar de você… ser mais presente, mas ia ter dias, em que… só você
sabia o que ele passava — ela faz uma pausa, me lançando um olhar
significativo.
Encolho os ombros ao ouvir o que ela diz.
— Ele não me contou sobre essa conversa. Nós enfrentamos dias
difíceis mesmo. O Chris ainda tem muitas questões que precisa superar sobre
o que ele passou com o Kevin do período em que os dois passaram sem
resgate — conto.
— Mas teve uma coisa que ele falou que eu nunca esqueci.
— O quê? — minha voz sai quase num sussurro.
— Ele disse que você e Aelin eram a família dele.
Engulo em seco.
— Madelyn…
— Não, Eliza. Você precisa ouvir isso. Ele me disse que não importava
o que acontecesse, vocês eram a família dele.
Meus olhos ardem, e eu aperto a dog tag dele presa em meu pescoço.
— Ele merece uma vida tranquila, Madelyn. E isso foi tudo o que não
dei a ele.
Ela solta uma risada sem humor.
— Ah, então é isso? Você acha que ele quer uma vida tranquila? — ela
balança a cabeça. — Christopher nunca quis uma vida sem lutas. Se ele
quisesse paz e monotonia, não teria se alistado. Ele escolheu isso. Escolheu
lutar. Ele deixou todas as questões dele em segundo plano, para lutar por
vocês.
Minhas lágrimas rolam silenciosamente.
— Eliza, era isso o que Simon queria que você fizesse.
Essa afirmação me atinge como um soco.
— Se tem uma coisa que eu aprendi sobre meu irmão, é que ele nunca
desiste das pessoas que ama. Então não faz isso com ele agora. Ele estava
disposto a dar a vida dele por você.
A respiração pesa em meus pulmões.
Madelyn segura minha mão.
— Fica com ele, Eliza. Não vai embora. Tudo aquilo já passou.
Christopher está vivo. Está bem.
Eu fecho os olhos e, pela primeira vez, deixo a culpa escorrer junto
com as lágrimas.
Ela me abraça ali ao lado do leito onde Christopher está num sono
profundo, ainda dopado pelos remédios e eu me permito desabar nos braços
dela.
Madelyn está certa.
Eu não posso fugir. Não dessa vez.
— Vem, vou te levar pra casa. Você precisa descansar.
Olho para Christopher mais uma vez antes de assentir.
O caminho até o carro é silencioso. Quando entramos e Madelyn dá a
partida, o som do motor parece preencher o espaço pesado entre nós.
Nenhuma de nós sente necessidade de falar, como se estivéssemos
absorvendo tudo o que aconteceu nas últimas semanas.
Quando chegamos à casa de Christopher, ela me acompanha até o
quarto onde estou ficando com Aelin. Meu corpo pesa assim que me deito, o
colchão macio me acolhendo depois de tantos dias sem um descanso real.
Para minha surpresa, Madelyn se deita ao meu lado. Ficamos assim,
lado a lado, encarando o teto, deixando o silêncio reinar por alguns minutos.
Mas, dessa vez, não é um silêncio carregado de medo ou incerteza. É um
silêncio de alívio. Algo que não sentíamos há muito tempo.
— Contratei uma babá e uma diarista para me ajudar quando minha
casa estiver habitável de novo — Madelyn quebra o silêncio, sua voz leve,
quase sonolenta. — Vou voltar para o meu cargo na presidência da
construtora Ford.
Viro o rosto para ela, estudando sua expressão.
— Você está em paz com essa decisão?
Ela solta um suspiro profundo antes de responder.
— Você e Christopher estavam certos. Não quero mais dar conta de
tudo sozinha. Preciso de umas doze horas de sono para começar.
— E as crianças?
— A babá e a diarista vieram para cá, ficaram com elas enquanto fui te
encontrar no hospital. Está tudo sob controle.
Uma pequena pausa se instala entre nós, antes que eu faça uma
proposta para ela.
— Que tal começarmos a contar essas doze horas de sono agora?
Estendo a mão para ela.
— Fechado — ela responde, apertando minha mão como se selasse um
acordo silencioso.
E então, viramos para o lado, nos permitindo, finalmente, descansar.
Pela primeira vez, fecho os olhos sem que a preocupação me corroa.
Pela primeira vez, me permito respirar sem medo do amanhã.
Os dias que se seguiram à transferência de Christopher para o quarto
foram marcados por um misto de alívio e espera. Cada pequeno progresso,
cada novo exame confirmando que ele estava se recuperando bem, era um
lembrete de que estávamos finalmente saindo do caos.
Mas a recuperação nunca é tão simples quanto esperamos.
Christopher odiava estar preso a um hospital. O simples fato de
depender dos enfermeiros para trocar os curativos, precisar de ajuda para se
levantar, tudo isso o irritava de uma maneira que ele tentava esconder, mas
que eu percebia nos pequenos gestos impacientes quando ia vê-lo.
Alguns dias, fui visitá-lo, consegui ficar um pouco com ele, mas nada
que desse para nós realmente conversarmos sobre tudo. Isso porque, na
maioria dos dias, me dediquei mais à Aelin. Precisei redobrar a atenção
quando ela voltou para a escolinha, para observar o rendimento dela e
fizemos aulas de reforço nos horários fora de aula, sem contar que o
rendimento dela nas aulas de ballet, decaíram, por isso, a psicóloga pediu que
eu ficasse o mais presente possível para passar segurança para ela. Então,
comecei a assistir todas as aulas de dança que ela tinha, para mostrar apoio.
Como resultado disso, ela tem conseguido se sair bem no ballet
novamente.
Por um lado, os últimos dias, me fizeram sentir que eu estava me
distanciando de Christopher, por outro, tive que colocar um limite na minha
mente e em toda essa autossabotagem. Minha filha precisava de mim. Eu
precisava estar do lado dela. Christopher sabe disso.
Madelyn foi me atualizando de todos os boletins nos dias que precisei
ficar ausente e então, depois de dias que pareciam se arrastar, os médicos
finalmente confirmaram a alta dele.
O processo é demorado. Ele precisa assinar papéis, receber
recomendações sobre os cuidados, e neste dia, faço questão de estar presente
para ajudar com tudo isso.
Vou até o hospital com Thomas, enquanto Madelyn e Aelin ficam em
casa, preparando tudo para receber Christopher. Com a ajuda da babá de
Noah, ficou mais fácil organizarmos as coisas sem precisar nos preocupar em
trazê-los conosco a todo momento.
Quando Christopher me vê, é nítido que ele sentiu o peso da minha
ausência, quando apareço na porta do quarto e o vejo na hora em que Thomas
está o ajudando com os sapatos.
— Como estão as coisas? — pergunto, puxando assunto.
— Não precisava vir, já estamos indo embora — ele diz, não rude, não
arrogante, mas desconfortável em saber que estou vendo a cena de Thomas o
ajudando com as coisas.
O médico que está cuidando dele, adentra o quarto, dessa vez, com um
semblante mais otimista.
Ele folheia o prontuário antes de nos encarar com um semblante
tranquilo.
— Bom, Christopher, depois de alguns dias críticos, você finalmente
está liberado para ir para casa, mas preciso reforçar alguns pontos sobre sua
recuperação — ele começa, ajustando os óculos. — A bala entrou na lateral
do abdômen, atingiu a borda inferior do seu baço e causou uma hemorragia
significativa. Felizmente, conseguimos conter o sangramento sem precisar
removê-lo, mas foi necessária uma cirurgia para conter a lesão.
Ele faz uma pausa breve, deixando tempo para absorver as informações
antes de continuar.
— Você perdeu bastante sangue e o trauma afetou seu corpo mais do
que imagina. Passou uns bons dias na UTI para estabilização e recebeu
transfusão. Agora que a infecção foi descartada e seus sinais estão estáveis,
podemos liberar você, mas com algumas restrições.
Christopher cruza os braços, já desconfiado do que vem a seguir.
— Por pelo menos quatro semanas, nada de esforços físicos. Sua
musculatura abdominal precisa de tempo para cicatrizar.
— Mais Tempo? — Christopher usa o sarcasmo, claramente
insatisfeito.
— Evite levantar peso e fazer movimentos bruscos — o médico diz,
apertando o ombro dele. — As dores nos primeiros dias são normais, e você
pode sentir fadiga enquanto seu corpo se recupera da perda de sangue.
Também recomendo fisioterapia leve para evitar complicações na circulação
vascular.
— E quando posso voltar ao normal? — Christopher pergunta,
impaciente.
O médico solta um riso curto.
— Isso depende do seu corpo e de seguir as orientações corretamente.
Se tentar acelerar as coisas, pode acabar prolongando a recuperação.
Ele assente, não parecendo muito convencido.
— Ah, e outra coisa — o médico acrescenta, lançando um olhar para
mim. — Ele pode ficar um pouco irritadiço. É comum pacientes com traumas
como esse, sentirem frustração por não conseguirem retomar a rotina
imediatamente. Então, paciência com o soldado aqui.
Thomas lança um olhar para mim.
— Mais irritadiço do que ele já é? — Thomas brinca, e nós soltamos
um riso.
Christopher também não consegue disfarçar a expressão de que
concorda.
Quando finalmente saímos do hospital, o ar fresco parece mais leve,
mas Christopher não relaxa completamente. Sei que ele não gosta da
sensação de fragilidade, de precisar ser amparado até o carro, de ter que
admitir que ainda não está totalmente recuperado.
O caminho de volta para casa é silencioso. Thomas dirige, Christopher
está no banco do passageiro ajustado para que ele siga a viagem mais
confortável, e eu fico no banco de trás.
Quando finalmente chegamos, eu e Thomas descemos primeiro para
pegar as coisas e abrir a porta para Christopher. Tento ajudá-lo a sair do
carro, mas ele solta um suspiro impaciente.
— Eu consigo andar, Eliza.
Cruzo os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Christopher, você não pode se curvar.
Ele me encara, desafiador, mas quando faz o primeiro movimento para
sair do carro, solta um xingamento baixo, sentindo seu abdômen contrair.
Solto um suspiro e me aproximo novamente, passando um dos seus
braços sobre meus ombros para ajudá-lo. Ele resmunga alguma coisa, mas
aceita o apoio.
— Não precisa fingir que é invencível — murmuro, enquanto
caminhamos devagar até a entrada.
Ele não responde, mas sinto seus dedos apertarem meu ombro com
mais força.
Assim que empurro a porta e entramos na sala, um coro de vozes
masculinas ressoa pelo ambiente:
— Bem-vindo de volta, soldado!
Christopher para no mesmo instante, os olhos vasculhando o cômodo.
O Coronel Thompson está ali, de pé ao lado do sofá, junto a alguns homens
que julgo ser velhos companheiros de farda do Christopher. Homens com
cicatrizes visíveis e invisíveis, que compartilham com ele o peso de um
passado que poucos entenderiam.
Christopher pisca algumas vezes, como se processasse a cena à sua
frente. Então, com um meio sorriso cansado, solta um suspiro e balança a
cabeça.
— Merda... Isso é uma emboscada?
O coronel sorri de lado.
— Você passou por coisa pior, Ford. Agora cale a boca e sente essa
bunda no sofá antes que precise voltar para o hospital.
Os homens riem, e Christopher, apesar do cansaço, deixa escapar um
pequeno sorriso de canto e lanço um olhar agradecido ao coronel.
— Obrigada por ter considerado meu e-mail, coronel Thompson.
— Imagine, nós quem agradecemos por você ter nos mandado notícias
dele. Christopher estava fazendo um excelente trabalho remoto.
Christopher apenas faz um gesto com a cabeça. Ele não precisa dizer
nada, todos ali sabem o que ele sente.
Conforme ele se acomoda no sofá com a ajuda dos amigos, percebo que
aquele momento significa muito mais para ele do que qualquer um deles
possa imaginar. Não é apenas uma recepção, é um lembrete de que ele
sobreviveu.
O Coronel Thompson se aproxima, e o que acontece em seguida, faz
Christopher prender a respiração.
O coronel tira do bolso um pequeno estojo de veludo azul e o abre,
revelando um broche dourado reluzente, com detalhes gravados.
— Eu e os rapazes achamos que você merecia isso — o coronel fala,
em um tom mais baixo e sério. — É um Distinguished Service Cross, uma
das maiores honrarias concedidas a militares dos EUA por bravura em
combate. Mas essa não é uma condecoração formal por suas ações no campo
de batalha, e sim, pelo que fez aqui fora.
Christopher encara o broche como se não acreditasse que aquilo fosse
para ele. Ele abre a boca, mas não diz nada. Apenas aceita o estojo, os dedos
deslizando pelo metal frio.
— Você sempre foi um soldado, Ford. Mas, desta vez, você lutou por
algo maior do que uma bandeira ou um país — o coronel continua, mantendo
os olhos fixos nele. — Você lutou para proteger as pessoas que ama. A sua
família.
Antes que Christopher possa responder, um movimento ao lado da
porta chama nossa atenção. Aelin, que até então estava encolhida atrás de
mim, observando os homens com um misto de curiosidade e timidez, dá um
passo hesitante para frente.
Os olhos dela brilham de expectativa e nervosismo ao encarar o
ambiente cheio de pessoas que não conhece. Mas então, como se reunisse
coragem suficiente, sua voz suave preenche a sala:
— Bem-vindo de volta, papai.
O silêncio que se segue é tão absoluto que posso ouvir o ar sendo
sugado dos pulmões de Christopher.
Ele congela no sofá, os olhos arregalados ao encarar a menina que se
mantém de pé no meio da sala, balançando levemente os dedos sobre a saia
de tule rosa.
O broche do coronel ainda está em suas mãos, mas sem hesitar,
Christopher o coloca de lado e abre os braços, chamando Aelin para perto.
— Vem aqui, pequena. Eles são grandalhões, mas não mordem.
Aelin não espera uma segunda chamada. Ela corre até ele, jogando os
bracinhos ao redor do pescoço dele com força. Christopher fecha os olhos e a
segura firme contra o peito, soltando um suspiro trêmulo.
— Esse aqui — ele diz, levantando o rosto e olhando para os homens
ao redor — é o maior título que eu poderia receber.
Os soldados trocam olhares cúmplices e respeitosos. Alguns sorriem,
outros apenas assentem, compreendendo o peso daquelas palavras.
O coronel se inclina levemente para frente, observando a menina nos
braços de Christopher.
— Parece que você ganhou uma nova missão, soldado — o coronel diz.
— Dizem que ser pai de menina é mais difícil do que uma missão
suicida — comenta outro deles, em tom brincalhão.
— E dessa vez, não pretendo falhar.
Christopher sorri de canto, ainda segurando Aelin com força.
— Pelo visto, a prova de fogo, vai ser do pretendente — o coronel diz e
todos damos risada.
Aelin se aconchega mais em Christopher, sem entender ao certo do que
estamos falando, mesmo assim, ela assente concordando, fechando os olhos e
soltando um suspiro satisfeito.
Eu e ele trocamos um olhar cúmplice e neste momento, por mais que
ainda haja feridas para cicatrizar e batalhas internas a enfrentar, sei que
Christopher finalmente encontrou seu verdadeiro propósito: nossa família.
FIM
|QUATRO SEMANAS DEPOIS|
O sol da manhã filtra-se pelas copas das árvores, lançando sombras
suaves sobre a toalha xadrez estendida na grama. O som distante de risadas
infantis e pássaros cantando, compõe o pano de fundo perfeito para um dia
que, meses atrás, eu jamais imaginaria que teria.
Aelin corre pelo gramado com os braços abertos, girando ao redor de si
mesma como se estivesse tentando capturar o vento. Seu vestido floral
esvoaça com o movimento, e os cabelos castanhos refletem a luz do sol.
Eliza senta-se ao meu lado, organizando as frutas e sanduíches sobre a
toalha quadriculada. Seus olhos seguem cada movimento de Aelin com um
brilho tranquilo, um que há muito tempo não via. Ela se estica para pegar a
garrafa de suco e, quando se vira para mim, um sorriso pequeno, mas
genuíno, curva seus lábios.
— Ela parece feliz — murmura, observando Aelin.
Deslizo minha mão sobre a dela, sentindo sua pele quente sob a minha.
— E você? — pergunto, estudando seu rosto.
Ela demora um segundo para responder, como se estivesse absorvendo
a pergunta.
— Pela primeira vez, em muito tempo, também estou — seus olhos se
voltam para mim. — Chega a ser estranho.
Não há hesitação em sua voz.
Se há alguns meses alguém me dissesse que estaríamos aqui, eu
duvidaria. Tudo o que passamos... os momentos em que achei que perderia
tudo... Mas agora, vendo as duas comigo, percebo que, pela primeira vez em
anos, estou exatamente onde quero estar.
Desde que voltei do hospital, evitamos falar sobre aquela noite, como
se tocar no assunto fosse trazer tudo de volta. Mas eu sei que é inevitável. Sei
que precisamos conversar.
Nas últimas semanas, nos concentramos em reconstruir nossa rotina.
Aelin, afetada por tudo o que aconteceu, teve dificuldades na escola. Mas,
com o suporte da psicóloga infantil, as coisas estão melhorando
gradativamente.
Também retomei minha terapia para o TEPT. Durante meu tempo de
repouso, aumentei a frequência das consultas e, pela primeira vez, sinto que
estou no caminho certo.
Madelyn também tem seguido em frente. Finalmente seguiu nosso
conselho e contratou não apenas uma babá, mas também uma diarista para a
casa. Com isso, acredito que em breve, ela pretende voltar para a presidência
da Construtora Ford.
Estou feliz por ela.
Minha irmã é engenheira. É isso o que ela ama fazer.
Mas, enquanto todos parecem estar avançando, percebo que Eliza ainda
se mantém no piloto automático. Ela está sempre ocupada, cuidando de mim,
da Aelin, da casa, preenchendo cada minuto do dia como se estivesse
tentando evitar pensar.
Sei que essa é a forma dela de demonstrar amor, através de seus atos de
serviço, mas o que me incomoda é que ela quase nunca verbaliza o que sente,
e isso me faz questionar se está realmente satisfeita.
Por isso, preciso ter essa conversa.
Ao terminar de organizar o que trouxemos para o piquenique, Eliza
acena para Aelin voltar do balanço para comer. No entanto, antes que Aelin
perceba, abaixo delicadamente a mão de Eliza.
— Que tal aproveitarmos que a pequena está entretida para
conversarmos?
Ela me olha, hesitante.
— Pode falar — responde, sem fazer ideia do que vou dizer.
Minha garganta se aperta, mas eu me forço a continuar.
— Já faz mais de dois meses que tudo aconteceu e…
— Chris… — Eliza tenta me interromper, mas continuo.
— Sei que tudo parece ter voltado ao normal. Estamos bem, estamos
felizes. Aelin está evoluindo, Madelyn seguiu em frente, eu estou melhor
lidando com o TEPT... Mas e você?
A expressão dela muda. Ela não esperava essa pergunta.
— Eu preciso saber como você está lidando com tudo, amor. Ajudar a
todos não é uma forma de lidar, é uma forma de fugir.
Ela encolhe os ombros, encarando os próprios dedos.
Por um longo tempo, ficamos assim. Eu espero, sem pressioná-la, até
que ela encontre uma resposta.
O peso dos últimos meses ainda nos envolve, mas, pela primeira vez,
não precisamos carregá-lo sozinhos.
— Nós precisamos conversar sobre o que aconteceu — continuo,
minha voz suave. — Como foi para você. O que passou enquanto eu estava
na UTI. Como lidou com tudo.
Eliza observa Aelin no balanço.
A resposta dela vem em forma de lágrimas.
Quando vejo a primeira rolar por seu rosto, solto um suspiro e apenas a
abraço, deixando que ela se aninhe contra meu peito.
Seus braços me envolvem na mesma hora, segurando-me firme,
enquanto sua respiração quente bate contra minha pele.
— Shhh… — murmuro, deslizando os dedos por seu cabelo curto,
agora batendo na nuca. Minha outra mão pousa firme em sua cintura. — Está
tudo bem agora. Eu tô aqui. A gente tá bem.
Eliza apenas assente, incapaz de verbalizar qualquer coisa.
Por um longo tempo, o silêncio reina. Até que ela diz, baixinho:
— Você estava mesmo disposto a morrer por nós?
— Sim — respondo sem hesitar. — Eu morreria por você, Eliza. Será
que ainda não percebeu? Passei a vida toda atrás de um propósito, e depois
que te conheci, minha forma de ver o mundo perdeu o sentido se não tiver
vocês.
Ela me encara, enxuga o rosto e espreme os lábios numa tentativa de
impedir que tremam.
— Eu pensei em ir embora — ela confessa, num sussurro. — Quando
você foi transferido da UTI para o quarto, achei que fosse melhor
desaparecer.
Não reajo de imediato. Apenas assinto lentamente, como se já
soubesse.
— Por quê?
— Porque achei que você ficaria melhor sem mim.
Balanço a cabeça negativamente.
— Sabe qual foi a pior parte de não estar aqui com você?
Ela balança a cabeça.
— A pior parte foi não saber se, quando eu acordasse, você ainda
estaria aqui. Eu sabia que isso passaria pela sua cabeça. Que pensaria em ir
embora com a Aelin.
Eliza fecha os olhos, incapaz de sustentar meu olhar.
— Eu tive medo. Eu sempre tenho. E não sei como evitar isso.
— Eu sei que teve. Eu também tive — sou honesto, compreendendo
completamente o lado dela. — Mas não precisa mais sentir isso. Sei que o
seu passado foi um inferno, que é difícil acreditar que agora é pra valer. Que
não tem mais Simon. Que a gente vai se casar. Que você tem um lar agora
e…
Ela paralisa.
Aproveito o momento e tiro do bolso uma pequena caixinha.
— Quero que seja minha esposa, Eliza. Com direito a vestido, buquê e
tudo o que quiser. Você não precisa achar que minha vida seria melhor sem
você.
Ela ainda parece em choque enquanto abro a caixinha, revelando um
anel de noivado.
— Eu te falei quando vocês foram morar comigo que eu nunca mais
abriria mão de vocês. E não vou. Se precisar ouvir isso sempre para se sentir
segura, eu repito quantas vezes forem necessárias. Quero casar com você.
Sou seu soldado, Eliza. Escolhi lutar por vocês e farei isso sempre que
precisar.
Ela me encara, e agora vejo tudo: emoção, alívio, felicidade, convicção.
— Só diga que aceita ser minha esposa, e eu resolvo o resto.
Seus olhos marejam.
— Sim. Eu aceito.
Ela estende a mão, e eu deslizo o anel em seu dedo.
Assim que a joia se ajusta ao seu dedo, Eliza encara a aliança como se
precisasse de um segundo para processar o que acabou de acontecer.
Então, sem hesitar, ela agarra minha nuca e sela nossos lábios, com
uma intensidade que me faz perder o fôlego. Não há mais medo ou hesitação,
apenas a certeza do que queremos.
Seguro seu rosto entre minhas mãos, aprofundando o beijo, sentindo
cada fragmento de sua entrega. Ela não está fugindo. Não está se protegendo
atrás de muros invisíveis.
Ela está aqui. Comigo.
Quando nos afastamos, seu olhar encontra o meu, brilhando com algo
que não vejo há muito tempo: liberdade.
— Eu te amo — ela sussurra, e as palavras se cravam em mim como
uma bala.
Meu polegar traça um caminho suave por sua bochecha enquanto
sorrio.
— Eu também te amo, amor.
E, pela primeira vez, não há mais sombras nos seus olhos.
Ela não vai mais fugir.
Ela escolheu ficar.
E eu nunca vou deixar de lembrá-la disso.
O quartel tem o cheiro característico de terra batida e metal aquecido
pelo sol. O som de vozes firmes e passos sincronizados preenche o ar
enquanto caminho pelo pátio, carregando algo que me pesa há muito tempo.
A dog tag de Kevin repousa fria contra minha palma fechada.
Ela sempre esteve comigo. Durante anos, escondida no fundo da
gaveta, como um lembrete silencioso de tudo o que perdi. De tudo o que
Kevin perdeu. Agora, cada passo que dou parece ecoar com o peso da
promessa que fiz a mim mesmo: contar a verdade.
Quando chego ao prédio administrativo, respiro fundo antes de bater à
porta do escritório do coronel.
— Pode entrar — sua voz grave ecoa do outro lado.
Empurro a porta e avanço. O coronel me recebe com um olhar
avaliador, os olhos percorrendo minha farda casual, a forma como me porto.
Ele acha que sabe por que estou aqui.
— Ford — ele assente com a cabeça, gesticulando para que eu entre. —
Como passou seus dias de repouso?
Fecho a porta atrás de mim, minha respiração controlada.
— Acho que eu e a minha cama somos oficialmente inimigos —
brinco, tirando dele um breve riso.
— Não precisava vir até aqui. Podia ter me enviado um e-mail para
voltar para as suas atividades remotas — ele diz, inclinando-se levemente
para frente.
Minha mandíbula se contrai. Esse não é um e-mail que eu poderia
escrever.
— Coronel, na verdade, estou aqui para contar a verdade sobre Kevin.
Meu tom sério muda a expressão dele. O coronel se endireita na
cadeira, cruzando as mãos sobre a mesa, os olhos atentos.
— Estou te ouvindo, Ford. Pode falar.
Então, eu conto.
Cada detalhe. Cada decisão. Cada segundo da escolha que Kevin fez
naquele dia.
Não há mais espaço para culpa. Kevin merece ser lembrado como o
homem que foi. Como o soldado que tomou a decisão mais difícil que
alguém pode tomar. Ele olhou para mim e soube, que só um de nós sairia
vivo dali e não hesitou.
O coronel escuta tudo em silêncio, sem me interromper.
Quando termino, minha garganta está seca, e minha respiração é mais
pesada do que quando entrei. Com cuidado, coloco a dog tag sobre a mesa.
— Ele não deveria ter morrido como apenas mais um nome em uma
estatística — minha voz sai firme, mas carregada de algo mais profundo. —
Eu menti quando disse que ele morreu no ataque. Kevin passou dias vivo, me
fazendo companhia e decidiu que se eu não saísse dali, morreria com ele.
O coronel encara a plaqueta sobre a mesa antes de erguer os olhos para
mim. Por um momento, ele parece ponderar, absorver tudo. Então, se levanta,
pega a dog tag e a segura com firmeza entre os dedos, sentindo o peso
daquela história.
— Ford... — sua voz é mais baixa, mais pessoal agora. — Eu conheci
muitos homens como Kevin. E conheci muitos como você.
Minha mandíbula se aperta.
— Homens que sobreviveram quando achavam que não deveriam. Que
voltaram, mas deixaram alguém para trás. Que carregam a culpa como se
fosse um fardo eterno. Mas deixa eu te dizer uma coisa, filho...
Ele se aproxima um pouco mais, o olhar firme no meu.
— Honrar alguém não é carregar a dor dele para sempre. Não é viver
preso no que aconteceu. É seguir em frente, sabendo que ele deu a vida para
que você pudesse fazer isso. Siga em frente. Você tem sua família agora.
Tenho certeza que ele não ia querer que você vivesse carregando essa
memória.
Minha respiração falha por um segundo.
— Vamos garantir que o nome dele seja lembrado pelo sacrifício que
fez, mas isso não precisa mais ser um fardo para você.
A tensão nos meus ombros diminui um pouco, mas não desaparece
completamente.
Não é redenção, é o justo com Kevin.
Antes que eu me levante para sair, o coronel me observa por um
instante e então fala:
— E agora que você voltou à ativa, vai continuar com suas funções
remotas?
Minha resposta deveria ser automática. Durante anos, essa foi minha
única vida, minha única realidade. Mas agora, as palavras não vêm com a
mesma facilidade.
— Eu ainda acredito na missão, senhor. Sempre vou acreditar —
encontro seus olhos, mantendo minha voz firme. — Mas minha missão agora
é outra.
O coronel assente, parecendo já esperar essa resposta.
— Sempre achei que ia perder você para o campo de batalha — ele diz,
um toque raro de humor na voz. — Mas estou feliz que, pela primeira vez,
você está tomando essa decisão por conta própria.
Seus olhos percorrem meu rosto e sua expressão suaviza.
— Você merece isso, Ford. Talvez mais do que qualquer outro homem
que já conheci. Me lembro até hoje quando vi sua ficha pela primeira vez.
Perdeu os pais, trancou a faculdade de engenharia e deixou a irmã mais velha
para servir.
Assinto concordando.
— Quando olhei para você, pensei na mesma hora que ia pegar no seu
pé mais do que dos outros meninos, para você se tocar que fez a escolha
errada e voltar para casa logo e ir atrás de uma psicóloga para superar o luto.
Você ficou por dez anos e se tornou com Kevin o melhor soldado que eu
tinha na minha linha de frente — ele diz, numa tentativa de me elogiar do
jeito dele. — Fugir para o campo de batalha nunca será a melhor opção e
você teve a sorte de conseguir voltar vivo, filho. Agora eu quero que você
cuide daquela menina. Recupere o tempo com a sua família. Sirva eles da
mesma forma que se dedicou aqui.
Ele se levanta e estende a mão.
— Você serviu com honra. Se quiser, podemos encaminhar sua
aposentadoria militar.
Eu aperto sua mão com firmeza.
— Obrigado, senhor.
Quando me viro para sair, ele me surpreende puxando-me para um
breve abraço, um gesto que nunca imaginei receber dele.
— Sentirei sua falta.
— Eu também, senhor.
Por meses, achei que minha missão tivesse terminado no campo de
batalha.
Mas, agora, finalmente entendo.
Minha missão nunca foi apenas sobre sobreviver, mas sobre seguir em
frente, sem sombras, sem fantasmas. Apenas o presente e o futuro que estou
construindo com Eliza e Aelin.
|DOIS ANOS DEPOIS|
O som das sapatilhas deslizando pelo chão de madeira se mistura com
as risadinhas infantis e a melodia suave que ecoa pelo estúdio. O espelho
reflete pequenas figuras se esforçando para imitar meus movimentos,
algumas mais graciosas, outras completamente descoordenadas, mas todas
determinadas a acertar o passo.
— Isso mesmo, meninas. Pontas dos pés esticadas, postura reta —
minha voz soa calma, mas firme, enquanto caminho entre elas, ajustando um
braço aqui, uma postura ali.
As luzes do estúdio iluminam o brilho nos olhos de cada uma das
pequenas bailarinas, e algo dentro de mim se aquece.
A pequena Manu franze o cenho, concentrada em seu plié desajeitado.
Ela é uma das alunas mais esforçadas, mas também uma das mais inquietas.
Seu corpo ainda não compreende a disciplina do ballet, mas sua alma brilha
com a dedicação de quem realmente ama dançar.
— Assim, querida. Isso, muito melhor!
Ela me olha e sorri, feliz por ter acertado.
— Obrigada, senhorita Fitz — ela agradece, mas se distrai e sai da
postura quase imediatamente.
A cena me arranca um riso genuíno.
— Concentre-se, Manu. Sua mamãe está te assistindo bem ali —
aponto para o vidro que contorna a nossa sala, onde alguns pais observam
atentos a evolução das pequenas bailarinas.
Por um momento, minha mente viaja no tempo.
A primeira vez que coloquei os pés em um estúdio de ballet, eu era
como Manu. Pequena, insegura, mas fascinada com a arte que transformava
movimentos em sentimentos. O ballet foi minha primeira forma de fuga. E,
por anos, foi meu lar — até que não foi mais.
Até que tudo foi tirado de mim.
Pisco algumas vezes, afastando a lembrança antes que ela me engula.
Nunca imaginei que um dia estaria aqui novamente. Que o ballet, que
um dia foi um pedaço da minha dor, se tornaria parte da minha cura.
Depois de tudo o que aconteceu, demorou um pouco até que eu me
sentisse pronta para retomar qualquer coisa que fosse sobre mim mesma.
Cuidar de Aelin, reestabelecer nossa rotina, garantir que Christopher se
recuperasse completamente… tudo isso parecia muito mais urgente do que
qualquer outra coisa.
Foi então que, algumas semanas depois, em uma tarde qualquer,
quando fui buscar Aelin na escolinha, a diretora me chamou para conversar.
Ela disse que uma das professoras de ballet infantil estava se mudando para
outra cidade e ia deixar a escolinha no final do mês, comentou que Aelin
sempre falava para as amiguinhas que eu também era bailarina e que queria
ser como eu quando crescesse.
Ela terminou o comentário me perguntando se eu nunca tinha pensado
em ensinar.
A pergunta me pegou de surpresa.
Não, eu não pretendia voltar a dançar. Eu havia enterrado essa parte da
minha vida junto com tudo o que Zion destruiu. Mas ensinar? Eu já tinha
escutado Christopher dizer que eu era boa nisso, e Aelin vivia falando que eu
era uma ótima professora, mas nada que tivesse despertado em mim a ideia
de atuar nessa área. Por muito tempo, o ballet foi uma fonte de dor para mim.
Um lembrete do que perdi, do que fui forçada a abandonar.
— Eu… não sei — confessei, sem saber ao certo se isso era uma boa
ideia.
A diretora sorriu.
— Você tem formação em ballet comprovada?
Assenti.
— Então traga seu currículo enquanto pensa nisso.
Suas palavras ficaram presas na minha mente pelo resto do dia.
Quando cheguei em casa naquela tarde e comentei com Christopher
sobre a proposta, ele me apoiou na mesma hora.
— Você nasceu para isso, Eliza — ele disse, com a convicção que
sempre tem quando fala sobre mim. — Não pense nisso apenas como um
emprego. Mas como uma forma de se reconectar com algo que sempre foi
seu.
Mas eu não tinha tanta certeza.
Relutei no começo. Passei dias ponderando se realmente deveria voltar.
O medo de reviver o passado ainda me assombrava. Eu tinha aprendido a
seguir em frente, mas será que estava pronta para voltar para algo que esteve
tão entrelaçado à minha dor?
— O ballet não foi o que te machucou, Eliza — Christopher disse certa
noite, enquanto eu, inquieta, fingia ler um livro ao seu lado na cama. — Zion
tentou tirar isso de você, mas ele nunca teve esse direito. Isso sempre foi seu.
Ele estava certo.
Por muito tempo, enxerguei a dança como algo que me foi arrancado à
força. Como algo que simbolizava o que eu não poderia mais ser. Mas, pela
primeira vez, percebi que ela ainda podia ser minha. Não como uma
lembrança do que perdi, mas como um novo começo.
Foi assim que eu aceitei.
Foi assim que eu encontrei um novo propósito.
E, dessa vez, fui eu quem escolhi.
— Por hoje é isso, meninas! — digo, voltando ao presente. — Tirem as
sapatilhas, coloquem os sapatos e estão liberadas.
As pequenas não perdem tempo, correm até a sapateira com risadinhas
animadas, algumas conversando entre si sobre os exercícios do dia, outras
distraídas tentando puxar as fitas das sapatilhas com mais força do que
deveriam.
— Com calma, Laurinha — digo rindo, enquanto a menina se esforça
para soltar o laço que parece mais apertado do que deveria. Me abaixo para
ajudá-la e, assim que consigo desfazer o nó, ela solta um suspiro aliviado.
— Obrigada, senhorita Fitz! — ela diz, sorrindo, antes de calçar os
sapatos e correr até sua mãe.
Me aproximo da porta, sorrindo ao ver os rostos familiares dos pais que
já aguardam ansiosos do lado de fora. Alguns trocam olhares orgulhosos
entre si, observando as filhas saírem com os rostinhos corados de esforço,
outras mães acenam discretamente para mim como um gesto de gratidão pelo
trabalho que faço ali.
— Senhorita Fitz! — a voz animada de uma das alunas me chama antes
que eu possa sair da sala.
Me viro e encontro Sofia, uma das meninas mais dedicadas da turma,
segurando um papel colorido com as duas mãos pequenas, os olhos brilhando
de empolgação.
— Eu fiz um desenho pra você!
Surpresa, abaixo-me para ficar em sua altura e pego o papel
delicadamente. No centro da folha, rabiscos coloridos mostram uma bailarina
de coque, usando um collant cor-de-rosa — exatamente a roupa que estou
vestindo. Ao seu lado, algumas menininhas desenhadas de forma desajeitada
tentam imitar seus movimentos, como um reflexo da aula que acabamos de
ter.
Meu coração se aquece.
— Sofia… está lindo! — digo com sinceridade, observando cada
detalhe. — Foi você quem fez sozinha?
Ela balança a cabeça animadamente.
Olho novamente para o desenho em minhas mãos e, por um instante,
um calor suave se espalha pelo meu peito.
Por muito tempo, achei que nunca mais pisaria em um estúdio. Nunca
mais voltaria a sentir essa conexão com o ballet. Mas ali, segurando aquele
papel colorido feito com tanto carinho, percebo o quanto esse caminho que
escolhi tem me curado pouco a pouco.
E pela primeira vez, eu me permito acreditar.
Sempre vou pertencer a isso. Não importa quanto tempo passe.
— Senhorita Fitz?
Levanto o olhar e vejo uma das mães sorrindo para mim.
— Só queria agradecer por tudo. A Sofia nunca teve tanta confiança em
nada como tem no ballet. Acho que encontrou alguém para admirar.
Meu peito aperta de leve com a emoção.
— Fico muito feliz em ouvir isso — respondo, sentindo um sorriso
genuíno se formar em meus lábios.
Ela me agradece mais uma vez antes de sair segurando a filha pela
mão. Respiro fundo, sentindo a energia do dia pesar nos meus ombros, mas
de uma forma diferente. Não é exaustão. É gratidão.
— Mamãe!
A voz animada de Aelin me arranca dos pensamentos.
Ela está na porta do estúdio, já vestida com sua saia de tule lilás, os
cabelos presos em um coque desajeitado — claramente feito por Christopher.
Algumas mechas se soltam, rebeldes, caindo ao redor de seu rosto, mas ela
nem se importa.
Sorrio.
— Oi, meu amor. Já terminou a aula? — pergunto, me agachando para
ficar do tamanho dela.
— Já! E você?
— Também.
Ao levantar o olhar, vejo Christopher encostado no batente da porta, os
braços cruzados e um sorriso de canto nos lábios. Ele me observa como se
estivesse memorizando cada detalhe do que vê.
— Eu disse que você era boa nisso.
Reviro os olhos, mas não consigo segurar o riso.
— E eu disse que você precisa aprender a fazer um coque decente na
Aelin.
Ele solta um suspiro exagerado.
— Sem a autorização para usar o gel de cabelo de macho-alfa, isso
pode levar anos de treinamento
Dou uma risada baixa e me aproximo, sentindo seu braço envolver
minha cintura.
— Como foi hoje lá no centro de apoio? — pergunto.
Ele dá uma pausa antes de responder, como se estivesse processando as
palavras.
Após o coronel assinar sua aposentadoria, não demorou muito para
Christopher se sentir entediado em casa. Foi em um desses dias de
inatividade que ele começou a trabalhar em um novo projeto.
O Kevin Moore, nomeado em homenagem ao amigo que ele perdeu, é o
centro de apoio fundado por Christopher no quartel, com o aval do coronel
Thompson, com o objetivo de ajudar os veteranos que retornam da guerra e
enfrentam os desafios do Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
O centro está localizado no quartel, um espaço onde os soldados podem
se sentir acolhidos, em um ambiente onde a dor não é julgada, mas
compreendida. O programa oferece suporte psicológico, terapia em grupo e
sessões obrigatórias com psicólogos, além de treinamentos para a
reintegração à sociedade e acompanhamento médico especializado para
aqueles que lutam para se readaptar à vida civil e mais importante ainda,
veteranos experientes ajudam a guiar os mais novos, criando uma rede de
apoio essencial para quem retorna de missões de alto impacto.
Christopher respira fundo, como se a carga emocional de tudo aquilo
fosse especial para ele.
— Está indo bem. Mas, como sempre, há muito a fazer — ele responde,
a voz baixa, o olhar um pouco distante. — Sempre chegam soldados
precisando de suporte. Estamos começando a pensar em integrar mais
psicólogos ao programa.
Me aproximo, orgulhosa, sentindo seu braço envolver minha cintura.
— Tenho certeza de que você vai conseguir adequar todos da melhor
forma possível — digo, tentando tranquilizá-lo.
— Vamos para casa, minha esposa? — ele pergunta, a voz rouca e
baixa perto do meu ouvido.
Dou uma última olhada para o estúdio, as sapatilhas esquecidas no
canto, os desenhos infantis ainda colados no quadro de avisos, e para a
enorme parede de espelhos que, por tanto tempo, refletiu apenas dor para
mim.
Agora, reflete algo novo.
Minha vida. Minha escolha.
Me volto para Christopher e Aelin, que já corre na nossa direção,
animada, segurando sua mochilinha.
— Sim. Vamos para casa, meu esposo.
E dessa vez, eu sei que esse é o meu lar.
Não esqueça de deixar sua avaliação registrada!
Obrigada!
☆☆☆☆☆
Mais uma fez, colocando ponto final em um projeto. É dolorido me
despedir deles, mas a cada vez que digito as três letras “FIM”, me sinto
honrada por ter a oportunidade de contar história e saber que pessoas vão ler,
se conectar e se emocionar com ela.
Christopher e Eliza, eu espero com todo o meu coração que vocês voem
alto e que mais do que isso, que vocês chegue nas mãos das pessoas da forma
certa.
De uns tempos para cá, meus livros vem sendo pirateados e isso me fez
questionar diversas vezes se todo meu esforço, investimento (tanto de tempo
e financeiro), tem valido a pena. E isso, querendo ou não, desanima quem
vive da escrita.
Quero agradecer a cada pessoa que chegou até aqui. Cada vez que
você, caro leitor, chega nos agradecimentos do meu livro, saiba que meu
sonho se torna cada vez mais real.
Christopher e Eliza vieram numa fase da minha vida que estava meio
turbulenta. A ideia da história deles me atropelou e eu tive que parar um
projeto que já estava em andamento, para passar eles na frente.
Acho que eu precisava de esperança naquela hora e hoje estou aqui
escrevendo esses agradecimentos a eles. Essa fase turbulenta passou, assim
como a deles. Eu estou em uma nova fase da minha vida em que tudo deu
certo, me livrei de coisas que desgastavam meu psicológico, encerrei ciclos
que não faziam mais sentido e ainda dei vida a eles.
Tenho certeza que o Chris e a Eliza vão marcar alguém, assim como
me marcaram.
Eliandra Cristina, minha beta que sempre me acompanha do início ao
fim, obrigada por segurar minha mão em mais um livro. Você sempre bate
cartão nos meus agradecimentos, né? kkkk
Thiago, meu esposo que não curte livros de romance, mas que terminou
a parte I do livro e disse “ué, cadê as putarias?” obrigada por me apoiar no
meu trabalho KKKK
E Cristina Castro, que surtou com quase todos os parágrafos do livro,
eu amei te conhecer, e principalmente: amei ver você conhecendo o
Christopher KKKKK
Vejo todos vocês no próximo lançamento.
Com amor,
LEIA TAMBÉM:
Duologia “Oceanos”
NO OCEANO DAS NOSSAS MEMÓRIAS (1)
NO OCEANO DAS NOSSAS PROMESSAS (2)
LIVROS ÚNICOS:
MAUS HÁBITOS
FERA
CONTO NATALINO:
LAST CHRISTMAS
SOBRE A AUTORA
Brenda Gomes tem vinte e quatro anos, é paulista e redatora
publicitária. Começou a escrever com 12 anos e encontrou na escrita sua
melhor forma de expressão. Nascida em 2 de outubro de 2000, publicou seu
primeiro livro no Wattpad em 2015. Ao conquistar quase meio milhão de
leituras através de uma fanfic, ela nunca mais parou. Apaixonada por contos
de fadas e livros, ela é conhecida por suas narrativas dramáticas, de tirar o
fôlego e algumas lágrimas de quem se permite mergulhar em suas histórias.
Suas bebidas favoritas são danone e suco de laranja (uma informação que
para ela é inútil, mas útil para quem quiser saber).
Hoje ela vive a realização de ter um cantinho para escrever, e tem uma
pequena (para alguns), mas grande comunidade de leitores e fãs em seu
Instagram que admiram seu trabalho, mora com seu esposo que a inspira a
escrever sobre mocinhos apaixonados e claro, seus dois gatos, Luke e Nick.
Os primeiros leitores de seus rascunhos.
[1]
Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
[2]
Uma dog tag é uma placa de identificação militar que contém o nome e os dados básicos de um
soldado. As dog tags são um símbolo de honra e respeito à memória dos guerreiros e são penduradas no
pescoço através de um cordão. Em caso de falecimento durante uma batalha, uma chapinha é recolhida
e a outra fica com o corpo.
[3]
Ele é uma faixa de tecido que se adapta ao tamanho do bebê, permitindo o uso desde o nascimento
até bebês de até 15 kg. O bebê fica aninhado à mãe como um canguru