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Ginástica fortalece Neurônios


A regra das 12 horas, descoberta
nos laboratórios brasileiros,
identifica um dos mais sofisticados
mecanismos da memória. Mas para
os que lutam contra os vazios do
esquecimento, a ciência também
tem como dar mais uma forcinha. E
essa é para quem está disposto a
suar a camisa.

Os equipamentos de musculação
sempre foram usados para modelar o corpo, definir os músculos, melhorar a silhueta.
Mas agora os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
descobriram que na academia também dá para exercitar os neurônios.
Definitivamente, a ciência derrubou aquele mito preconceituoso de que quem tem
músculo não tem cérebro.

Oxigênio. Peso-pesado. Pesquisadores anotam tudo, não perdem nenhum


detalhe, em um laboratório avançado de pesquisa para estudar cérebros com mais de
60 anos.

"Estou colocando minha cabeça para funcionar. A sensação é de que estou


desenferrujando", descreve o aposentado Shih Chieh Chan.

Os resultados do suor que desenferruja a cuca são medidos em uma sala. Depois
de puxar ferro, hora de encarar os testes de memória do professor de educação
Ricardo Cassilhas. As conclusões são reveladoras: quem faz exercícios durante a vida
tem menos chance, por exemplo, de desenvolver o Mal de Alzheimer. E a memória sai
ganhando.

"Claro que adianta fazer exercício quando já se está mais velho. Inclusive, no
nosso estudo, seis meses foram suficientes para indivíduos que nunca fizeram
musculação melhorar a função cognitiva. Isso mostra que mesmo se você deixar de
fazer a vida inteira e começar a fazer quando estiver idoso, já vai ter um ganho",
garante Ricardo Cassilhas.

Os pesquisadores acreditam que a oxigenação do sangue provocada pelos


exercícios atua no cérebro. Mas, para o senhor Shih Chieh Chan entrar na academia
foi como embarcar em uma máquina do tempo. "É como se eu estivesse gravando em
um vídeo. Você se lembra de tudo quando assiste a um videotape: o que fez, o que
deixou de fazer. E isso é muito bom", comemora.

A viagem em busca da memória perdida na velhice já levou os cientistas a uma


certeza: a falha de uma única enzima – a telomerase – seria responsável pelo
envelhecimento de todos os circuitos cerebrais.

"Se conseguirmos controlar ou regular os mecanismos de ação dessa enzima,


talvez consigamos dar um salto na expectativa de vida humana para os 120, 150 anos
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de idade", adianta o neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).

Estaria nessa enzima a explicação para a extraordinária memória da escritora


Maria Augusta Machado? Enquanto os cientistas investigam, ela escreve. Quer passar
para as próximas gerações tudo o que testemunhou na vida.

"Carregar na cabeça o que hoje muita gente só aprende no livro da escola me dá


uma sensação muito gratificante porque eu vivi aquilo. Não sei quanto ainda na minha
cabeça. Que pode garantir que tem espaço?", finaliza.

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Médicos Ensinam Teste que Identifica um AVC
Minutos que podem salvar. Uma pequena artéria do cérebro entupiu ou se
rompeu. Enquanto os médicos correm para tentar abrir caminho na circulação
sanguínea, milhares de frágeis neurônios estão morrendo, literalmente, sufocados pela
falta de oxigênio. É o temido Acidente Vascular Cerebral (AVC). No ano passado, a
cena se repetiu 168 mil vezes no Brasil. Trinta mil pessoas não sobreviveram.

Não há tempo a perder. Tensão nos corredores da emergência do Hospital de


Clínicas de Ribeirão Preto. A tomografia fica pronta em minutos. Na sala dos exames,
a primeira surpresa: a situação é grave. Aos 74 anos de idade, não é o primeiro AVC
da mãe do porteiro José Luiz Gonçalves.

"Existem pelo menos três infartos prévios. E ela fez outro infarto no cerebelo. O
AVC é um infarto cerebral. É a mesma coisa que acontece com um infarto do coração.
No infarto existe uma obstrução, um entupimento da artéria coronária no coração. No
AVC, existe um entupimento de uma artéria cerebral. Ou seja, um AVC também pode
ser chamado de infarto cerebral. E ela nem sabia", conta o neurologista Octávio
Marques Neto, da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto.

Nem ela e nem o médico dela. José Luiz lembra da mãe reclamando de tonturas
e de dor de cabeça e também do que ouviu quando esteve no consultório. "Havia uma
suspeita de labirintite. O médico falou isso e passou um remédio. Não sabíamos como
acontece um AVC", conta.

A surpresa de José Luiz foi a mesma do doutor Octávio Marques Neto ao


concluir uma pesquisa reveladora: de cada dez brasileiros, nove não têm nenhum tipo
de informação sobre a doença que mais mata no país. Por isso, aprender a identificar o
AVC a tempo pode salvar uma vida.

"Primeiro, pedimos para a pessoa dar um sorriso e verificamos que um lado da


boca não está mexendo. O segundo teste é pedir para o paciente levantar os dois
braços. A queda de um braço é sinal de alerta de um AVC. O terceiro teste é pedir
para o paciente falar uma frase simples. Sugerimos 'o Brasil é o país do futebol'. Se a
pessoa tiver dificuldade para pronunciar essa frase ou não conseguir entender o
comando, é sinal de alerta de um AVC", explica o neurologista.

E o socorro é uma corrida contra o tempo. Em um AVC, os neurônios só


agüentam quatro horas antes de começarem a morrer. Em Porto Alegre, o bancário
Ricardo Leffa teve sorte. "Eu estava sentado e levantei. Senti a primeira tontura e caí
de novo sentado. Quando eu levantei para ver se eu estava bem, fui até a pia e não
consegui botar o copo em cima dela. O copo quebrou", lembra.

AVC aos 29 anos de idade. A extensa área afetada no cérebro era o prenúncio de
seqüelas irreversíveis. Fala comprometida? Movimentos limitados? Como seria a vida
de Ricardo dali para frente? Sem querer, a mais pura sorte pôs o bancário no caminho
de uma pesquisa inovadora. No hospital para onde ele foi, trabalhava o neurocientista
Maurício Friedrich, da PUC do Rio Grande do Sul. O médico lidera uma equipe que
investiga: o que aconteceria se fossem injetadas células-tronco em uma região do

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cérebro atingida pelo AVC? Ricardo conseguiu uma vaga no grupo de 20 voluntários
que se submeteram à experiência.

Normalmente, de 50% a 70% das pessoas que têm AVC não sobrevivem. Mas
metade das pessoas tratadas com células-tronco pela equipe do doutor Maurício
Friedrich apresentaram uma inexplicável melhora de 100%.

Imagens feitas na semana em que Ricardo teve o AVC mostram fala


comprometida e capacidade de escrever perdida. Três anos depois, ele brinca com o
filho em casa. O que devolveu Ricardo à vida normal depois de ter quase um quarto
do cérebro comprometido pela falta de oxigênio? Nem o pesquisador sabe ao certo o
que aconteceu.

"Não é possível dizer que esse resultado está diretamente ligado ao tratamento
com células-tronco. Nós só podemos dizer que observamos esse resultado, e que esse
resultado em geral não se observa", diz Maurício Friedrich.

A equipe de cientistas tenta agora decifrar que poder oculto nas células-tronco
pode ter possibilitado a recuperação de Ricardo. Ele continua a ser observado pelo
médico, que avisa: apesar do aparente milagre, a ciência ainda não está nem perto de
transformar as células-tronco em remédio contra o AVC.

"Ou seja, existe um longo caminho entre o início dessas pesquisas e o resultado
prático da população que tenha um real benefício, que é o que nós esperamos", diz
Maurício Friedrich.

A medicina já sabe: o melhor tratamento para o AVC ainda é a prevenção.


Menos estresse, controle da pressão sangüínea, exercícios e uma vida longe do
cigarro. Tudo isso ajuda. Mas existem outras doenças do cérebro que vêm sem aviso.

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Cirurgia Retarda o Mal de Parkinson
Sempre foi difícil encontrar o aposentado Silas Moreira parado em casa.
Freqüentador das peladas de futebol da quadra ou então dos jogos de dominó com os
amigos em mesinhas. Ir à padaria? Missão para seu Silas. Ir ao banco, levar alguém ao
médico, reunir pessoalmente todo o time de futebol do bairro nos campeonatos de
domingo também.

Bater perna por aí sempre foi um dos maiores prazeres de seu Silas. Mas em
2001 surgiram os primeiros sintomas do Mal de Parkinson. Há dois anos a doença se
agravou, prendeu seu Silas dentro de casa e trouxe a tristeza de ter que acompanhar a
vida agitada dos amigos só pelo álbum de fotografias.

As fotos eram para lembrar dos momentos de vitória, de alegria. Mas por quase
sete anos viraram as únicas companhias de um homem que definhava.

"Sempre joguei bola, sempre tive um fôlego danado. Jogava terça, quinta,
sábado e domingo", lembra o aposentado.

De figura fácil nos campinhos do bairro a prisioneiro na própria casa. Quando a


depressão aumentou por causa do Mal de Parkinson, foi a médica que sugeriu: o caso
dele era indicado para cirurgia.

Seu Silas faz parte de um grupo de pacientes seleto: por ano não passam de cem
o número de pessoas que entram no centro cirúrgico para tentar eliminar os tremores
do Mal de Parkinson.

O Globo Repórter acompanhou um desses casos no Hospital Brigadeiro, em São


Paulo. Quem estava na maca era seu Rubens, de 58 anos. Às 9h45, os médicos já
haviam preparado o paciente para a cirurgia para tentar encontrar uma pequena área
dentro do cérebro dele que tem pouco mais de dois milímetros de comprimento. Ao
encontrar essa posição, os médicos tentariam desligar os neurônios para fazer parar os
movimentos involuntários de seu Rubens. Ele ficou acordado o tempo todo, ajudando
a equipe.

Não há como entrar no cérebro sem ser abrindo caminho pelo crânio. Mesmo
assim, é preciso anestesia local, só para a superfície da cabeça. Lá dentro, o cérebro,
apesar de frágil, não dói. Assim, os médicos podem introduzir, sem que o paciente
sinta, uma agulha de quase 30 centímetros que gera impulsos elétricos diretamente
nos neurônios desejados.

Através de pequenos estímulos elétricos em seqüência, os médicos vão


posicionando a agulha. Ela passa perto da região da visão. O neurocirurgião José
Oswaldo de Oliveira Jr. pede ajuda para seu Rubens: "Feche os olhos que eu vou
estimular. O senhor vai falar que sentiu um clarão".

Depois de duas horas, o ponto exato é encontrado. O aparelho é regulado para a


temperatura na ponta da agulha subir a 60 graus por um minuto. Os neurônios com

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defeito são eliminados. E a perna de seu Rubens parou de tremer.

Os tremores se foram, mas a doença continua. O Mal de Parkinson não tem cura,
e a operação só adia o reaparecimento dos sintomas. Quase sempre, eles voltam em
uns cinco anos. Mesmo assim, quem enfrenta o centro cirúrgico ganha bem mais do
que a firmeza temporária dos movimentos.

Seu Silas também passou por tudo isso. Sem os tremores, pôde abrir de novo,
sozinho, o portão da própria casa e ganhar de volta a liberdade nas ruas do bairro. É na
padaria, a poucas quadras dali, rodeado pelos amigos, que se percebe: o sorriso no
rosto e a alegria no olhar revelam que já não há limites para o zagueiro dos campinhos
de São Miguel Paulista.