BERSERK - Fé, Niilismo e Redenção
Introdução - O Homem Contra o Mundo
Guts, o Espadachim Negro, é um homem moldado pela violência, rejeição e perda. Ele não
é um herói clássico — está muito além disso. Em um mundo onde os deuses se alimentam
do sofrimento humano, Guts não busca glória nem redenção. Ele luta por sobrevivência, por
dignidade, e às vezes apenas por teimosia.
Ele é o homem que encara o absurdo e diz: “Eu não vou cair.”
O Eclipse é a paródia macabra da cruz de Cristo. Onde Jesus se entregou para salvar os
outros, Griffith entrega os outros para se tornar um deus. Ele é um anticristo literal e
simbólico: belo, carismático, adorável… e completamente entregue ao mal.
Mesmo em meio ao inferno, há resquícios de luz. O vínculo entre Guts e Casca, o cuidado
com o pequeno grupo que o segue, sua recusa em se render ao destino — tudo isso ecoa
uma fé sem palavras.
Guts é uma espécie de Jó, não mais em oração, mas em fúria. Ele clama contra o céu,
contra o destino, contra os apóstolos infernais que deformaram sua vida. E nesse clamor,
há algo de profundamente cristão: a recusa em deixar que o mal tenha a última palavra.
Cristo, por outro lado, também sangra, também caminha sozinho, também sofre traição.
Mas Ele não empunha uma espada — carrega uma cruz. Onde Guts resiste, Cristo se
entrega. E nessa tensão entre cruz e lâmina está o dilema central de Berserk e da fé: lutar
contra o mal ou absorvê-lo por amor?
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Capítulo 1 - Casca: A Cruz da Memória Perdida
Casca não empunha a espada como Guts, nem molda destinos como Griffith. Ela é, antes
de tudo, uma mulher marcada pela guerra e pelo trauma. Em sua jornada, vemos não o
niilismo destrutivo, mas a consequência silenciosa da violência: a perda de si mesma.
No Eclipse, Casca é violentada diante do homem que amava, marcada para o inferno, e
quebrada por dentro. Desde então, vive como uma sombra — uma mulher sem palavra,
sem identidade, sem defesa.
Mas em meio a essa dor, há algo profundo: Casca é a representação da graça silenciosa.
Mesmo em seu estado quebrado, ela é cuidada por Guts, protegida por Farnese, e amada
por aqueles ao redor. Ela é a lembrança de que o sofrimento não elimina o valor de uma
alma — ao contrário, o revela.
Casca é, simbolicamente, a Igreja ferida. Como o corpo de Cristo após a crucificação —
marcado, rasgado, mas não destruído. Sua recuperação lenta e dolorosa não é só pessoal:
ela representa a possibilidade de redenção para todos os que foram esmagados pelo mal.
E quando sua mente retorna — com dor, medo e resistência — ela não volta como antes.
Casca renasce com cicatrizes, e isso é profundamente cristão. Afinal, até o Cristo
ressuscitado mantinha os furos dos cravos.
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Capítulo 2 - Farnese: A Fogueira Que Purifica
Farnese de Vandimion é apresentada como uma fanática. Líder da Santa Sé, encarna a
rigidez moral, o dogma cego e a perseguição em nome de uma "fé" que ela mesma não
entende. Ela queima mulheres vivas, caça hereges e afirma fazer tudo “em nome de Deus”.
Mas por trás da armadura religiosa, Farnese é frágil, assustada, e perdida. Sua fé é fachada
— uma muralha contra o caos interior. E quando essa muralha rui ao conhecer Guts, Puck
e, depois, Casca, Farnese se vê despida. Literal e espiritualmente.
Farnese representa a religião sem fé, a máscara que treme diante do sofrimento real. Ela é
como os fariseus que Jesus confronta — zelosos por fora, mas ocos por dentro. Sua
jornada, no entanto, não termina aí.
Ao cuidar de Casca — a mulher marcada pelo inferno — Farnese começa a descobrir o que
é compaixão. Abandona sua espada, seu título, seu orgulho. Aprende a amar, a ouvir, a
servir. É a conversão de Saulo em Damasco, mas ao invés de uma luz dos céus, ela
encontra sentido nos silêncios e gemidos de Casca.
Ela nos lembra que o caminho cristão é menos cruzadas e mais cruz. Não se trata de
destruir o pecado dos outros, mas de carregar os próprios fardos, como em Gálatas 6:2.
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Capítulo 3 - Griffith: O Lúcifer Encantador
Griffith é talvez um dos vilões mais sutis e complexos da ficção moderna. Bonito,
carismático, brilhante — ele personifica a perfeição. Mas por trás do olhar de anjo há algo
profundamente torcido: a recusa de ser humano.
Seu sonho é absoluto: ter um reino. Um desejo que não aceita limites, nem mesmo o amor.
Quando a realidade ameaça esse sonho, ele escolhe abandonar a carne, os laços e a alma.
O Eclipse é seu batismo profano. O momento em que ele renuncia à humanidade em troca
do divino — mas não o divino de luz e salvação. Ele se torna Femto, um deus entre
demônios. O preço? A vida dos que o amavam.
Griffith é o Lúcifer elegante. Como o diabo bíblico, ele aparece com beleza, com propósito,
com lógica. É a mentira original do Éden, reembalada em palavras doces.
Ele é a antítese de Cristo. Onde Jesus recusa o poder, Griffith aceita. Onde Jesus morre
pelos amigos, Griffith mata os amigos para viver. Ele é o filho das trevas que sorri — o
anticristo que brilha mais do que qualquer profeta.
E sua nova “encarnação” como o salvador do mundo apenas reforça essa perversão: ele
oferece ordem, mas ao custo da liberdade. Paz, mas sem alma.
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Capítulo 4 - Entre Cruz e Espada: O Redentor Ferido
Em Berserk, não há salvação fácil. O mundo está corrompido desde a raiz. Deuses não são
misericordiosos — são máquinas de sofrimento. É um universo onde a fé parece uma piada,
a esperança uma doença, e a justiça um cadáver que ninguém enterrou.
Mas, mesmo assim, Guts anda.
Não como um herói, mas como um redentor ferido. Ele não salva com palavras, mas com
feridas. E o mais brutal: ele continua a amar. Mesmo marcado. Mesmo amaldiçoado. Ama
Casca sem esperar retribuição. Protege Farnese e os outros. Ele não acredita em destino
— mas seu caminho é mais cristão que o dos apóstolos do falso deus.
Casca, quebrada mas viva, representa a graça que sobreviveu ao estupro espiritual do
mundo. Farnese, convertida pela dor real, mostra que a fé nasce do esgoto, não da
catedral. Griffith nos lembra que o demônio não quer nos destruir — quer que acreditemos
que devemos destruir tudo por um sonho.
No meio disso tudo, Berserk nos mostra um cristianismo encarnado, sem púlpito. Um
evangelho escrito em carne rasgada. A fé não aparece como luz triunfal, mas como uma
vela vacilante no meio do abismo.
Talvez o que salve o mundo seja só isso: um homem se recusando a odiar. Escolhendo
amar, mesmo quando amar parece burrice.