Você está na página 1de 6

Banco de Dados 10 passos para a criação de um modelo conceitual de banco de dados José Ferreira Prata

Introdução Existem notações e denominações diferentes para designar os componentes de modelo conceitual, principalmente no que se refere ao tipo de orientação do banco de dados, seja relacional, objeto-relacional ou orientado a objetos. O nosso foco será o modelo relacional. A correta identificação, principalmente das entidades e seus respectivos relacionamentos é dependente da capacidade de cada pessoa. Como a experiência só é obtida através do tempo e dos trabalhos realizados, durante esse período de aprendizado os projetos podem ter seus custos aumentados pelas correções de erros ou mesmo ter sua qualidade comprometida de forma irreversível. Como contornar esta essa dificuldade? Acredito que a resposta esteja em uma das melhores práticas da qualidade de software, que é o estabelecimento de um processo padrão que oriente e aprimore continuamente o desenvolvimento. É importante frisar que todo projeto de banco de dados deve começar sempre com requisitos bem descritos, que traduzam de forma adequada as necessidades e medidas de qualidade esperadas pelo cliente. Estes requisitos aliados a boas práticas de desenvolvimento aumentarão de forma considerável a probabilidade de o produto desenvolvido ter a qualidade desejada. Antes de iniciar as considerações sobre nosso processo de elaboração do modelo conceitual é necessário termos conhecimento do seguinte: Substantivos que designam alguém (fornecedor, cliente, funcionário, aluno); documentos (nota fiscal, pedido, conta corrente, estoque) ou ainda coisas (peças, produtos) representam objetos do mundo real que podem vir a fazer parte do modelo conceitual. Vale ressaltar aqui, que nem todos os objetos citados nos requisitos farão parte do modelo e para separá-los, podemos utilizar algumas regras simples das quais falaremos mais adiante. Verbos e preposições por sua vez servem para que identifiquemos o relacionamento entre as entidades, pois demonstram as ligações existentes entre elas. Por exemplo, quando lemos em um texto a frase “Listar empregados por departamento” concluímos que a entidade “empregado” tem um tipo de relacionamento que podemos chamar de “trabalha no” com a entidade departamento. A seguir apresentaremos um exemplo que servirá para demonstrar a sequência de utilização dos dez passos e depois iremos resolver dois exercícios tentando aplicar as regras apresentadas neste texto.

1/6

pois é equivalente a crime. que crimes determinada vítima sofreu e quais criminosos a atacaram em cada crime. Resposta: delegacia de polícia. relatórios. vítimas. Faça uma lista dos objetos grifados. Resultado: banco de dados. número de identificação. armas. coisas. 3) Descartando substantivos que servem apenas para entendimento do problema.. As armas quando for o caso.” Roteiro para elaboração do modelo conceitual 1) Identificando todos os substantivos que designam objetos. Mensalmente serão emitidos relatórios e estatísticas de acordo com a solicitação do chefe da delegacia. sistemas.Banco de Dados Exemplo “Um pequeno país resolveu informatizar a sua única delegacia de polícia para criar um banco de dados onde criminosos serão fichados. também deve possibilitar saber quais crimes determinados criminoso cometeu. Observem que registro de crime não foi listado. pois será através deles que serão identificadas as entidades que farão parte do modelo conceitual. Agora faça uma das seguintes perguntas: “se esse substantivo for transformado em entidade será um conjunto de apenas uma ocorrência?” ou “Caso essa entidade venha a se transformar em tabela terá apenas uma linha?” Caso a resposta seja afirmativa descarte esse substantivo. as vítimas também serão cadastradas e todas as armas apreendidas com os criminosos deverão ser fichadas para que não sejam reutilizadas. Mesmo as chamadas armas brancas tais como facas. receberão um número de identificação. Resultado: país. de vítimas e de armas. 2) Descartando substantivos que como entidade teriam apenas uma ocorrência. esse substantivo deve ser descartado. etc. não devem fazer parte do modelo conceitual como entidades. tais como pessoas. delegacia de polícia. Considere o substantivo apenas uma vez. controles. Elimine também aqueles substantivos que mesmo com denominações diferentes representam o mesmo objeto. estatísticas. Para identificá-las faça a seguinte pergunta: “preciso guardar informações sobre esse objeto?” Caso a resposta seja negativa. crime. banco de dados. julgamento. Mesmo substantivos que designam objetos podem servir apenas para entendimento do problema e. criminosos. país e chefe de delegacia. documentos. neste caso. O banco de dados além de fornecer dados pessoais de criminosos. Todo registro de crime deverá ter o visto do chefe da delegacia. Leia o texto e grife todos os substantivos que designam objetos do mundo real. visto do chefe. porretes. 2/6 . mesmo que ele apareça várias vezes. etc. chefe da delegacia. ficarão relacionadas ao crime cometido para possível utilização no julgamento do criminoso.

numero de identificação. 6) Listando os substantivos que se tornarão entidades Depois destas etapas temos a lista de substantivos que se tornarão as entidades do nosso modelo conceitual. Resultado: relatórios e estatísticas. faça a seguinte pergunta: “se essa entidade vier a ser uma tabela. O grau de relacionamento entre entidades demonstra o tipo de ligação física entre elas. citações a telas relatórios. quantas colunas teria?” Se a resposta for apenas uma. 5) Descartando substantivos que se transformados em entidades teriam apenas um atributo. Para isso. Normalmente no próprio texto identificamos as relações através de verbos ou preposições. Este substantivo na realidade deverá ser um atributo de uma possível entidade crime. estatísticas. assim chamado por representar a ligação entre duas entidades. vítima e arma. 3/6 . Resultado: visto do chefe. cálculos e tudo aquilo que signifique manipulação dos dados não deve ser considerado entidade. vítima sofre crime. 8) Estabelecendo o grau de relacionamento entre as entidades. Assim. criminoso comete crime. Algumas poucas vezes essas relações estão ocultas e precisaremos fazer uma análise mais apurada do texto. que ocorrem nos casos onde uma entidade se relaciona com o agrupamento de duas entidades ao invés de se relacionar com cada uma delas isoladamente.Banco de Dados 4) Descartando objetos que são referência a uma futura aplicação. também chamado de ternário. criminoso ataca vítima. Ligações físicas que futuramente irão permitir uma adequada extração dos dados armazenados no banco de dados. Resultado: crime. O grau de relacionamento mais comum é aquele chamado de grau dois ou binário. criminoso. porém isso não é a regra. Efetuando novamente a leitura dos requisitos: Resultado: arma usada crime. Tipos de relacionamentos são representados no desenho do modelo ER no formato de losangos e seus nomes devem representar da melhor forma possível qual é a ligação entre as entidades. Existem ainda casos onde podem ocorrer outros tipos de relacionamentos de grau três. verifique a qual outra entidade esse atributo deverá pertencer. 7) Identificando os relacionamentos físicos e definindo seus tipos através de verbos ou preposições que demonstrem relações de dependência ou existência entre as entidades. O nome do relacionamento é geralmente o verbo que melhor representa a ligação entre as entidades. mas não uma entidade independente. Em um projeto de banco de dados relacional não existe no modelo conceitual preocupações com os programas que acessarão ou manipularão os dados.

Muitas Armas Um criminoso PODE COMETER Muitos Crimes Um Crime PODE SER COMETIDO POR Muitos Criminosos Então: Muitos Criminosos – Muitos Crimes Um criminoso ATACA Muitas Vítimas Uma Vítima PODE SER ATACADA POR Muitos Criminosos Então: Muitos Criminosos – Muitas Vítimas Uma vítima PODE SOFRER Muitos Crimes Um Crime PODE TER Muitas Vítimas Então: Muitos Crimes – Muitas Vítimas 4/6 . Consideramos então só as duas últimas palavras das duas frases encontramos: . Por exemplo. Vamos destacar esta análise entre criminosos e vítimas organizando-a da seguinte forma: . Um criminoso ATACA Muitas Vítimas. muitas vezes nos confundimos com tais “um pra lá e muitos pra cá” ou “muitos pra lá e muitos pra cá”. Passamos a seguir para o outro lado do relacionamento: . Porém. Conforme será demonstrado nos resultados descritos a seguir. Muitas Vítimas – Muitos Criminosos A seguir temos a análise completa do nosso problema Resultado: Uma Arma PODE SER USADA em Muitos Crimes Um crime PODE TER Muitas Armas Então Muitos Crimes: . a forma de operar da organização. também devemos observar que uma vítima pode ser atacada por muitos criminosos. sugerimos visualizar sempre os dois lados do relacionamento. mesmo conhecendo o negócio. Uma vítima pode ser ATACADA por Muitos Criminosos. Esse relacionamento depende das regras de negócio. se observarmos que um criminoso ataca muitas vítimas.Banco de Dados 9) Estabelecendo a razão da cardinalidade do relacionamento entre as entidades. A razão da cardinalidade demonstra quantas ocorrências de uma entidade estão relacionados a uma ocorrência de uma outra entidade. ou seja.

data. cor. endereço} Vítima = Crime = Arma = {rg. Por exemplo. endereço. Um fornecedor tem o CNPJ.Banco de Dados 10) Identificando os atributos de cada entidade Todo objeto tem suas propriedades e há a necessidade de considerá-las na definição do modelo conceitual. Um estudante tem o número de matrícula. nome. local. peso. nome. Seguindo nosso processo teremos o seguinte resultado: Criminoso = {rg. o nome. descrição} Modelo conceitual – Exemplo rg nome endereço M Ataca M rg nome Vítima endereço Criminoso M número_bo M Comete Crime data local M Sofre M descrição M Usada visto_chefe M número descrição Arma 5/6 . Propriedades equivalem a características do objeto. etc. endereço} {número_bo. descrição. visto_chefe} {número. etc. razão social. uma pessoa tem como características a altura. etc.

Podem. a qual filial o cliente está vinculado e o total de horas de cada projeto. mas em cursos e conteúdos diferentes. não podendo uma filial prestar serviços à cliente da outra. nota e no final do semestre a respectiva média final. A escola também deseja extrair relatórios ou pesquisas sobre as matérias que o aluno cursa e vice-versa e ainda quais professores lecionam que matéria.Banco de Dados Exercícios: 1) Uma escola deseja disponibilizar em uma intranet as notas de seus alunos por matéria e por bimestre. bimestre. Também poderá consultar quais matérias cursa no semestre. 6/6 . sendo que em semestre sempre terá duas notas bimestrais e a média final do semestre será calculada pelo sistema. Para que não haja confusão entre matérias com o mesmo nome. porém. qual projeto pertence a qual cliente. horas de funcionário em cada projeto. Na página. as matérias possuirão um código próprio que as distinguirão por curso. o aluno poderá visualizar o código da matéria. a consultoria não dispõe de um sistema que aponte: que funcionários estão alocados em qual projeto. Como “em casa de ferreiro o espeto é de pau”. O professor pode visualizar quais matérias leciona em cada curso e lançar as notas de cada aluno. os funcionários de uma filial serem utilizados por outra quando isso for necessário. Cada filial dessa consultoria possui seus próprios clientes. a descrição da matéria. 2) Uma empresa de informática presta consultoria para vários clientes desenvolvendo projetos de sistemas envolvendo banco de dados. e respectivos professores.