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O Diabo - Xavier Léon-Dufour

Este documento resume a figura do Diabo na teologia cristã. Explica que embora o Diabo se preste a especulações fantásticas, a fé cristã o considera como um tema importante relacionado ao problema do mal. Revê as representações do Diabo na Bíblia como tentador e acusador, e como a Igreja tem mantido sua existência como adversário de Deus, embora sem definir sua natureza. Finalmente, analisa os papéis do Diabo nos evangelhos como opositor de Jesus e força do mal.
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O Diabo - Xavier Léon-Dufour

Este documento resume a figura do Diabo na teologia cristã. Explica que embora o Diabo se preste a especulações fantásticas, a fé cristã o considera como um tema importante relacionado ao problema do mal. Revê as representações do Diabo na Bíblia como tentador e acusador, e como a Igreja tem mantido sua existência como adversário de Deus, embora sem definir sua natureza. Finalmente, analisa os papéis do Diabo nos evangelhos como opositor de Jesus e força do mal.
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ELDIABLO.

1
XAVIER LÉON-DUFOUR
1

A figura do Diabo, ou Satanás, se presta a fantásticas elucubrações que em nada ajudam


à inteligência da fé, tarefa própria da reflexão teológica. É, por outro lado, um tema
incômodo, cujo tratamento facilmente se evita. Agora, como mostra o autor deste
artigo, o desconforto deste tema pode dever-se à sua relação com outro tema de maior
incomodidade ainda: o do problema do mal. E este tema não pode, nem deve, ser evitado.
Tudo isso faz com que o espinhoso tema do Diabo, em sua inegável relação com o problema
(ou, melhor, o Mistério) do mal deve ser enfrentado a partir da responsabilidade científica e ética
(que impede dar margem ao sensacionalismo). E, acima de tudo, desde a inabalável
confiança na vitória final do Crucificado e Ressuscitado sobre o mal.

Que Diable!, Estudos 349-363

E o diabo—aquele que no NT dispõe de um arquivo muito completo (Acusador, Belzebu, Besta, Dragão,
Inimigo, Homicida, Malvado, Satã, Sedutor, Tentador, etc.)—volta a estar na moda.
A imaginação popular dota o diabo de uma forma corporal aterrorizante ou grotesca constante na
iconografia: estas ingenuas representações, destinadas a dar medo ou bem a suscitar aversão ou riso,
não são levadas a sério. Algumas publicações pretendem manter a velha crença no diabo
em conivência com o apelo da nossa sociedade pelo irracional.
Há seitas que reclamam para si mesmas uma inspiração satânica e certas músicas são denunciadas.
como tais. Os pedidos de exorcismo aumentaram consideravelmente na França desde há
uns decénios. Ao mesmo tempo que se faz uma piscadela à credulidade, aproveita-se da situação.
Sim, por um lado, o tema do diabo tem audiência, nos espíritos prevalece a rejeição da crença no
demonio, como produto do obscurantismo. "Não se pode utilizar a luz elétrica, acudir a clínicas modernas
em caso de doença e acreditar ao mesmo tempo no mundo dos espíritos e nos milagres do NT" (Bultmann).
Muitos ficam perplexos diante do que pode ser dito sobre o diabo; a desmistificação ansiada está
alentada pelo desejo de não escapar de sua própria responsabilidade no mal.
A Igreja tem mantido constantemente a existência de um Adversário do desígnio de Deus, sem
pronunciar-se, não obstante, sobre sua natureza. Tal especulações não são objeto de definições conciliares.
O concílio de Latrão (1215) se pronunciou contra os cátaros para lembrar que os anjos são seres criados.
por Deus, sem precisar sua natureza. A encíclica Humani generis (1950) declara que o diabo é uma criatura
pessoal, sem precisar o conceito de pessoa. Para evitar o erro gnóstico, Paulo VI situou a questão do diabo
como "a interpretação cristã do mal".

DIANTE DO MISTÉRIO DO MAL


O mundo vai mal, não apenas por causa das doenças, catástrofes naturais e da morte, mas também
a causa das guerras e injustiças de todo tipo. Não deixamos de aspirar a um “mundo melhor” e contribuir
a sua vinda. Diante da experiência do sofrimento, o homem se fez a pergunta: “Se Deus é bom,
Por que todo esse mal?
Numerosas culturas antigas pensaram que o mundo, obra de um Ser supremo, sofre os ataques de um
Adversário, identificado de maneira diversa. Alguns evocaram maus espíritos encarregados de fazer o mal.
e outros transformaram essas representações em teoria: seja postulando a existência de um deus do mal,
ao lado do deus bom (Irã) ou considerando má a matéria da qual é feito o mundo visível e da qual
o homem é prisioneiro (platonismo decadente).
A fé judaica que se expressa no Primeiro Testamento rejeita todo dualismo ontológico, afirma a presença
do único Deus infinitamente justo e bom e exclui a dicotomia entre a matéria e o espírito: o corpo
é um dom do Criador.

1Léon-Dufour, Xavier. “O diabo”. Traduzido e condensado por Ana Rubio. Seleções de teologia. Vol. 41, 26 de março de 2019
[Link]
O DIABO–XAVIER LÉON-DUFOUR

Israel interpretou o sofrimento como uma sanção divina provocada pelos pecados dos homens.
O dilúvio pretende que a humanidade inteira comece de novo na justiça com Noé. O exílio na Babilônia
atribui-se ao esquecimento, por parte do povo escolhido, da Aliança. A sanção divina não tem caráter definitivo:
pretende que Israel tome consciência do seu pecado, a fim de que viva. Tudo passa entre Deus e os homens,
sem recorrer a intermediários como os poderes do mal que assediam o mundo.
Se o pecado é a causa do mal, Israel levanta um grave problema sobre a origem desse pecado.
Será devido ao pecador que comunicou o mal a seus filhos? Ezequiel exorcizou a ideia
de uma culpabilidade coletiva (18,2). Mas essa ideia continua sendo levantada nos tempos de Jesus (cf. Jo 19,2).
Esse comportamento é humano. Diante do mal exclamamos: o que eu fiz a Deus para que me trate assim?
Atribuindo a Deus o sofrimento que se segue, lança-se no pecado a responsabilidade pelo mal.
Para se livrar desse dilema, Israel recorreu à intervenção de terceiros personagens. O relato do Gênesis
exonera do pecado das origens tanto a Deus quanto a Adão, fazendo recair sobre uma criatura deste mundo
—a serpente—o papel de tentador. A tentação é compreendida como um teste da liberdade. A serpente
não é mencionado mais no Primeiro Testamento, exceto tardiamente em Sb 2,24. No Apocalipse
a identificação do diabo e da serpente será total (Ap 12,9).
O livro de Jó apresenta agudamente o problema sem resolvê-lo: vítima de todos os males possíveis,
seus "amigos" querem fazê-lo confessar que seu sofrimento vem do seu pecado, mas Jó se recusa a reconhecer
um pecado do qual não se sente culpado e prefere guardar silêncio. Diante do mistério do mal, reconhecemos
que existe um Adversário ativo, mas não podemos estabelecer suas características: não é Deus, nem também homem.

O ADVERSÁRIO
O termo grego "diabo" provém de um verbo que significa: "deixar de lado, dividir, acusar, caluniar".
e traduz a palavra hebraica Satanás na bíblia grega, cujo significado conheceu uma evolução.
Originariamente, não designa um personagem maléfico: é simplesmente um “adversário” humano que YHWH2
envia a Salomão (1Rs 11,14 e 23) o que o mensageiro do rei Antíoco envia aos Judeus (1Mc 1,36).
Em Jó (1-2) ele se torna um membro da corte divina que percorre a terra e coloca em dúvida a autenticidade
da conduta de Jó. Desempenha o papel de "acusador" (Za 3,1; Sal 109,6).
O termo Satanás é usado uma única vez como nome próprio: o Cronista atribui a Satã, e não a Deus.
a incitação feita a David para elaborar o censo do povo, empresa julgada culpada (1Cr 21,1;
cf. 2S 24,1). Satanás isenta a Deus de uma má ação.
A doutrina sobre o diabo, poder sem rosto que se manifesta por meio de seus efeitos, ganha forma nos
escritos intertestamentários. Segundo a regra da comunidade de Qumrân, "um espírito (ou anjo) de trevas"
foi criado por Deus ao lado de um 'Espírito de luz'. Também é chamado de Belial (2 Cor 6,15). É evidente
a influência do dualismo iraniano. Este personagem obscuro não é de rango divino, embora possa confundir
aos homens, a quem inveja (Sb 2,24). Essa linguagem era comum no judaísmo do século primeiro.
No NT, Satanás é o Adversário dos homens e de Deus que ataca a realização do projeto de Deus
atuante na missão de Jesus. Nos evangelhos e nas cartas paulinas, a ação atribuída a Satanás se dirige
contra Jesús e os discípulos encarregados de proclamar sua mensagem.

Evangelhos Sinópticos
O tema é apresentado na tentação de Jesus, onde o diabo aparece em pessoa (Mc 1,12s e par.). Esta cena
não é o filme de um fato pontual, mas representa em resumo as tentações que Jesus sofreu,
não já através de Satã, mas de seus próprios contemporâneos. Jesus é o verdadeiro Israel, absolutamente fiel.

2YHWH: transliteração do hebraico‫יהוה‬transliteração e pronúncia mais aceita Yahvé, variantes Jeová.[está nota de
ajuda, não faz parte do artigo original
2
O DIABO–XAVIER LÉON-DUFOUR

Livre diante do poder do mal, Jesus manifesta sua obra liberadora em ações surpreendentes, milagres
de cura e exorcismos. Esses relatos poderiam refletir as antigas crenças que atribuíam as doenças
aos demônios. O epiléptico, por exemplo, é vítima de um demônio (Mt 17,18-20). Os milagres simbolizam
a vida restituída inteiramente ao homem. A vitória de Jesus sobre as forças adversas e opressoras
se manifesta diretamente nos exorcismos (cf. Mc 3,23).
Ao proclamar: "o Reino chegou", Jesus sabe que está comprometido em uma luta com Satanás.
Deus age através do seu Enviado: um novo tempo começou, a salvação já está aqui. Jesus também
se sabe triunfador (Lc 10,18; 11,20). A vitória de Jesus sobre Satanás não só está atestada
pelos milagres e exorcismos de Jesus, mas também pela transformação daqueles que, através dele,
são descobertos perdoados: seu coração é profundamente renovado (Lc 7,36-49; cf. 8,2).
Jesus acreditava na existência pessoal de Satanás ou era, mais uma vez, a cifra do mal que separa o homem
de Deus? Para responder a esta pergunta é preciso distinguir a afirmação de seu pressuposto. Quando Jesus
Jonás não declara nada sobre sua existência, mas apenas mostra o alcance de sua pregação.
(Mt 12,39-42). Quando Pedro se opõe ao anúncio de que o Messias deve passar pela morte, sem ser Satanás
em pessoa, Pedro falou como um "adversário" do desígnio de Deus, situando-se assim no lugar do tentador
(Mc 8,23; Mt 16,23). Exceto para Lucas, que ignora o episódio, Pedro é um agente de Satanás. Não é que Satanás
seja uma pessoa: age na terra; neste caso, na pessoa de Pedro.

O quarto evangelho
O quarto evangelho traz uma mensagem importante para a tradição evangélica. Descartando a atividade
exorcista de Jesus que ataca a uma infinidade de pequenos demônios, concentra a atenção do leitor na luta
contra Satã, Adversário do desígnio de Deus, mencionado uma só vez ao entrar em Judas que vai entregar
a Jesus aos judeus (Jo 13,27).
Normalmente é o diabo quem é mostrado em ação (Jo 8,44). Aqueles que, rejeitando a luz, querem fazer
morrer a Jesus são chamados "filhos do diabo"; o próprio Judas é chamado de "diabo" (6,70). Aparentemente,
o diabo ganha a partida. Na verdade, vem a hora em que será "expulso" (12,31; 14,20). A ação
do "Príncipe deste mundo" continuará, mas já não será apremiante para os homens, pois o "Paráclito”3
fixará a "culpabilidade do mundo" no coração dos crentes. O Adversário aparece como "Príncipe
de este mundo”, a cabeça do mundo incrédulo. O mesmo mundo, no sentido joânico...

A visão paulina
San Pablo nomeia várias vezes a Satanás no papel do Adversário do desígnio de Deus e da atividade
apostólica. Segundo uma concepção judaica influenciada pelas mitologias orientais, Paulo fala, além disso, de "poderes
cósmicos” (principados, dominadores, tronos...), que continuam ignorando a vitória de Cristo, de tal maneira
que os crentes devem lutar contra eles. A menção destes poderes não desempenha um papel importante
na ensino moral de Paulo. Provenham da necessidade que o homem tem de povoar o mundo intermediário
de seres que encurtam a distância que separa Deus de sua criatura.
Além disso, introduza Pablo na descrição do combate espiritual como um ser que de alguma forma ocupa o lugar
de Satã: o Pecado, não identificável com nenhum ato individual do homem. Este poder aparece dotado de uma
verdadeira autonomia: entrou no mundo (Rm 5,12) e permanece nele; servindo-se da Lei, tomou
vida em mim, me seduziu e me deu morte (Rm 7,9-11). Aos olhos de Paulo, os pecados dos homens
são devidos ao Pecado. A descrição que Paulo dá de ele desemboca na morte (Rm.7), compensada,
no entanto, pela graça que age graças ao Espírito Santo (Rm 8) O combate descrito por Paulo
entre a carne e o espírito atualiza o combate misterioso que a Graça trava com o Pecado, e o que Jesus Cristo
libra com Satã.

3
“Paráclito”: do latim tardio paraclĭtus, e este do grego παράκλητος (paráklētos), que literalmente significa "aquele que é
invocado", é portanto o advogado, o mediador, o defensor, o consolador. (Jo 14,16). Costuma-se usar como qualificativo de
Espírito Santo.[esta nota não é parte do artigo original]
3
O DIABO–XAVIER LÉON-DUFOUR

O NT manifesta uma evolução real na linguagem, que se esforça para apresentar a ação de um ser
invisível, chamado Satã. À imaginação dos contemporâneos de Jesus sucede a interpretação metafórica
da ação atual do diabo.

O COMBATE CRISTÃO
Segundo a Bíblia, o crente, em sua condição de combatente a favor do desígnio de Deus, deseja conhecer
a seu Adversário.

À procura de um Adversário pessoal


Inspirando-se nos relatos evangélicos, no adversário vê-se Satanás, vencido por Jesus e que volta.
Embora não possa ser definido, a imaginação criou do Adversário um ser horrível, a quem se atribui
a inspiração de todos os crimes. Sua suprema astúcia consiste em fazer crer que não existe. Alguns
homens de Deus pensam tê-lo ouvido durante alguns exorcismos e conhecer melhor sua tática;
mas os céticos nesta área são numerosos.
Alguns santos teriam sido vítimas de malefícios de ordem demoníaca, por exemplo, o cura de Ars.
Os testemunhos de tais fenômenos podem manter uma crença real na atividade dos demônios, mas nunca
podem convencer objetivamente os céticos.
Sigue em pé que Jesus teve consciência de lutar explicitamente com Satanás. Também os pais do deserto
experimentaram a malícia do chefe dos demônios. Meus trabalhos me levaram a reconhecer que até mesmo
Francisco Javier teve experiência disso. O homem sozinho e abandonado, que se dispõe a levar a cabo
Uma função capital para o advento do reino de Deus chama a atenção do Adversário.
Estas experiências não são frequentes e só levam a reconhecer a realidade do combate. Não se pode
identificar a Satán com uma pessoa determinada. O diabo não é uma pessoa em relação a outras,
posto que é por excelência o ser “despersonalizante”: é, mais bem, uma não-pessoa (Un-person).
Satanás é o ato de dizer não, o que desfaz tudo, desfazendo a si mesmo. Como um louco que se afirmasse
matando a todo o mundo, para acabar matando-se a si mesmo (E. Pousset). Chame-se Satã ou diabo,
o importante é não se livrar da culpa se tornando um espectador do drama.

O caminho da metáfora
Juan Pablo II presupõe uma concepção autêntica da pessoa: não apenas como indivíduo consciente,
sino como um ser comprometido com a sociedade. Segundo ele, além do pecado pessoal, existe a realidade
de um pecado social na medida em que todo pecado pessoal tem "uma repercussão sobre toda a comunidade"
eclesial e sobre toda a família humana”. Esta dimensão social do pecado pode nos abrir a uma melhor
compreensão do que é Satã.
A via da metáfora é utilizada com muita frequência na Bíblia, começando pelo relato do Gênesis, que mostra
ao tentador como um ser inframundano, que não tem nada de espiritual. A serpente é uma metáfora do
Adversário de Deus e dos homens. Seja um anjo da corte divina ou o príncipe dos demônios,
sempre nos expressamos em uma linguagem metafórica.
O evangelista João conhece bem o Satanás que ataca Jesus de Nazaré, mas quando anuncia a presença
do Adversário em luta com seus discípulos após sua partida, chama-o de "Príncipe deste mundo", ou
incluindo o “mundo” no sentido negativo que frequentemente lhe é dado. O processo de Jesus continua hoje com seus discípulos,
assistidos pelo Paráclito (Jo 16,8.33).
São Paulo propõe outra metáfora: o Pecado intervém em nossa história como um ser que quer mudar
a situação. Encontra-se na origem da morte que nos afeta e provoca em nós ações que chamamos de
“pecados”. Não é o Pecado a máscara de Satanás, origem do mal? Satanás já não é um “ser” exterior a mim,
uma vez que o Pecado habita em mim (Rm 7,18-20). O fim da luta é uma vitória certa, pois Jesus
tem triunfado sobre o Pecado. O Espírito Santo habita em nós, realizando o mistério de nossa vida
cristiana (Rm 8,9). A luta contra Satanás não é contra um ser fora de mim: torna-se a luta
do Espírito contra o Pecado que ocorre em mim, ou seja, na luta do espírito contra a carne.
E é realizado pela comunidade daqueles que acolheram o Espírito.
4
O DIABO–XAVIER LÉON-DUFOUR

É inútil a hipótese de um Anjo caído que veio para corromper a natureza humana.
Estou diante de mim e do mundo em que me encontro. Não tenho ilusões sobre o pecado.
dosorigens. Fizemos plausível e concreta a existência do Adversário, mas de onde vem?
De onde vem o Adversário?
Qual é a origem do "mistério da iniquidade" que paira sobre a humanidade até o último dia
(2 Tes 2,6-12)? Segundo o relato da criação de Adão (Gn 2,7), o homem é um ser vivente não graças
à alma que possui, senão graças ao sopro divino que lhe é concedido hoje. Mantém-se viva por sua relação
com Deus que constitui o presente de seu ser. “O homem é infinitamente superior ao homem” (Pascal).
A meta do homem é expressar Deus presente nele. Segundo os Pais da Igreja, o projeto divino
é fazer com que o que não é Deus se torne Deus. Nesta busca por Deus, o homem deve se negar
a si mesmo, o que contraria seu desejo fundamental: situar-se no ser.
O homem não quer contradizer seu próprio ser. A convocação divina lhe parece paradoxal: Deus não é
a causa do pecado, mas sim sua ocasião imediata. Deus permitiria o pecado em face de um bem real. Não será isso
fazer do pecado um meio para o bem? Isso é insustentável. O projeto de Deus não termina com a criação.
sino que se realiza na encarnação. Deus não diz o que há que fazer: ele faz. Ele se faz homem. Até mesmo,
se fez Pecado (2 Cor 5,21).
Morrendo na cruz, Jesus se nega a si mesmo, realizando o projeto divino (Flp 2,6.11). Ele se torna
no novo Adão, príncipe e cabeça de uma nova humanidade. Doravante, todo homem expressará a Deus
em Jesus. O mistério da Cruz não fornece uma explicação racional para o mistério da iniquidade. Pelo contrário,
convida a que desapareça toda a racionalização do mistério.
O crente deve manifestar o valor das diversas metáforas que lhe permitem Atualizar o combate
com o Adversário (cf. 1 Jo 2,15s). Por sua parte, Paulo define em Rm 6,12 o comportamento que deve adotar
o que morreu para o Pecado.

Proposição
Sem ter resolvido o problema do mal, precisámos os idiomas nos quais se pode reconhecer
o mistério do mal atuante em nosso mundo. Na linguagem clássica, personaliza-se o Adversário como
um ser espiritual pertencente à categoria dos anjos. Isso ajuda a perceber sua presença concreta
e eficaz, mas recai sobre esse anjo a responsabilidade do mal. Da nossa parte, apresentamos
o Adversário como um ser caracterizado pela dimensão coletiva; sua ação não se limita a casos
extraordinários, senão que se exerce no cotidiano.
A primeira linguagem ainda é válida e necessária em certos casos, quando o Adversário se manifesta
especialmente contra o Desígnio de Deus. O segundo atualiza concretamente sua ação na vida ordinária.
Certamente, pode ser confundido pela experiência do mal no mundo, na medida em que "provém"
de outra parte e transforma o problema do mal em um "mistério" que só encontra sentido na Cruz de Cristo.
O diabo não se identifica com minhas más tendências, nem com a soma dos males que nos esmagam. O pecado
que me habita, como o Mundo (no sentido joânico) em que eu vivo, é um 'estranho' a mim mesmo.
Não posso desculpar meus pecados em Satanás, porque sou cúmplice da existência desta comunidade no mal,
e também vítima. Pecando, engendro e faço viver aquela realidade que poderia ser qualificada como "comunhão"
no pecado" em oposição à "comunhão dos santos". Mas, como o pecado é essencialmente divisão,
é melhor chamá-los de “a banda dos pecadores”.
Eu me encontro confrontado comigo mesmo, pecador e agraciado ao mesmo tempo. A luta, iniciada e transformada
em vitória por Jesus e seu Pai, se torna em nossa própria luta, animada pelo Espírito Santo, concedido
incessantemente por Jesus. São Paulo fala do “espírito” em oposição à “carne”, que não são duas realidades
sustanciales, mas dois poderes atuantes no homem. O espírito é o Espírito Santo atualizado em mim;
a carne, o Pecado atualizado em mim. São Ignacio de Loyola, herdeiro da tradição eclesial, sublinhou isso em
A meditação das Duas Bandeiras: o Caudilho envia seus demônios para contrabalançar o desígnio do maior
glória de Deus do “sumo e verdadeiro capitão”.

5
O DIABO–XAVIER LÉON-DUFOUR

Graças à dimensão coletiva que caracteriza a luta entre o bem e o mal, as "orações de libertação"
encontram seu verdadeiro sentido: um grupo de cristãos busca, mediante a oração, entrar em comunhão
com uma pessoa que se acredita prisioneira do mundo do mal. O combate não ocorre entre dois indivíduos,
sino entre “a comunhão dos santos” (o grupo da oração) e a banda dos pecadores.
A linguagem na qual nos expressamos pode variar conforme as épocas. Alguns continuam falando
do diabo como de um indivíduo nefasto; outros pensam que personifica o mal universal. O essencial, aos olhos
do cristão, é que Jesus o venceu. Embora o Príncipe deste mundo, o Pecado, aja sempre,
De diversas maneiras, a vitória está assegurada.4

Xavier Leon-Dufour.(1913-2007) Padre Jesuíta. Teólogo francês. Membro da Companhia de Jesus. Professor de Sagrada
Escritura, exégesis neotestamentária, em Enghien, Bélgica (1948-1957), Fourvière-Lyon (1957-1974) e desde 1974, em
Centro Sévres, de Paris. Trabalhou sobre o Novo Testamento. Em concreto, sobre os Sinópticos e o Evangelho de João e junto
a Bultmann sobre a historicidade do Evangelho. Esteve implicado em alguma controvérsia doutrinária pós-conciliar, Concílio
Vaticano II. Autor de: Vocabulario de teologia bíblica; Os evangelhos e a história de Jesus; Ressurreição de Jesus e mensagem
pascual1999;Os milagres de Jesus1979;Leitura do evangelho de João I, entre outros.
Texto compartilhado por Seleções de teologia([Link]), para ser distribuído de forma gratuita.
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