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O ESTADO DE S. PAULO H SEXTA-FEIRA


10 DE DEZEMBRO DE 2004

ESPECIAL FOTOS: NIELS ANDREAS/AE

Metrópole vive 3.ª


Revolução Industrial
A face cosmopolita do
turismo de negócios
Curso Estado
de Jornalismo
Temporada profissional no Brasil Um francês, um japonês e um Este caderno foi produzido
serve de teste para estrangeiros, baiano comandam gastronomia de pela turma que hoje conclui
como o mexicano Alfonso Acosta. hotel cinco estrelas da cidade. o 15º Curso Intensivo de
q PÁGS. 2 e 3 q PÁG. 6 Jornalismo Aplicado.

ARQUIVO/AE DANIELLA SASAKI/AE

1984 2004

O trabalho ‘estrangeiro’ a
serviço da nova São Paulo
Emcontraste com antigos migrantes,que vinham para ficar, profissionais do setor terciáriofazem da cidade destino temporário

Essa São Paulo assistiu à emi- formal paulistano representa 0,4%. Reúne hoje 25% da con- lo tinha 8 mil flats em operação de bons e grandes espetáculos. O
MIGRAÇÃO
gração de plantas produtivas, um atrativo para os estrangei- centração de submoradias do e 17 mil em construção. Nas ci- convívio de temperos resultou
mas continuou abrigando seus ros e migrantes. Segundo da- município. Em 1992, a carên- dades próximas, as construto- na emergente cozinha contempo-
A expressão “cair no mundo” centros de planejamento e deci- dos do Dieese, em 1985, 14,1% cia nos bairros que formam o ras e incorporadoras lançam rânea paulistana, liderada por
significou, para levas de mi- são. A perda do emprego indus- das pessoas ocupadas da capi- distrito chegava a 425 creches, inúmeros condomínios fecha- chefs da cidade, migrantes e es-
grantes e imigrantes até os anos trial não resultou da redução da tal estavam no setor de comér- 61 escolas de educação infantil dos horizontais para receber al- trangeiros. Essa integração tam-
70, trocar a terra de origem por atividade na capital e nas redon- cio. Em 2003, o porcentual su- e 40 postos de saúde. tos executivos estrangeiros. bém se revela nas montagens mu-
São Paulo, conquistar um lugar biu para 16,5%. Entre 1973 e 1987, a popula- Os hotéis também se moderni- sicais e teatrais, das amadoras às
na indústria nascente ou no co- ção favelada em São Paulo au- zam para atender ao turismo de superproduções.
mércio crescente. Vir “de mala Expansão do setor SAGA mentou de 71,8 mil para quase negócios, impulsionado pelas fei- A onda da reestruturação da
e cuia” para ficar, fugindo da se- de serviços atrai A cidade é tão vibrante quanto 2 milhões de habitantes, em 1,9 ras, convenções e a própria roti- atividade produtiva atingiu ain-
ca e da fome do Nordeste, das antes. Torna-se paixão de mui- mil favelas. Outros 2,5 milhões na das multinacionais que torna- da escolas e universidades pau-
perseguições políticas e crises profissionais cada tos, que ainda decidem ficar. de pessoas ocuparam loteamen- ram comum o intercâmbio de listanas, hoje responsáveis pelo
econômicas de nações vizinhas vez mais qualificados Repetindo a saga dos que com- tos irregulares na periferia. No profissionais. A cidade recebe abrigo dos filhos de estrangei-
ou distantes, em busca do bási- puseram os mais intensos flu- ranking nacional, São Paulo 90 mil eventos de negócios por ros e pela formação de alto ní-
co para a sobrevivência ou das xos migratórios da história pau- ocupa o primeiro lugar em con- ano em 330 mil m² disponíveis vel daqueles que atuarão nas no-
melhores condições para o al- dezas, mas na sua moderniza- listana, formaram famílias e centração de favelas. nos centros de convenções. São vas companhias aqui instaladas
cance do sucesso, da riqueza. ção. O emprego se desindustria- transformaram São Paulo na O impacto urbano provoca- Paulo tem 1.153 hotéis de todos e de quem foi enviado para de-
Significou conquistar a “terra lizou. São Paulo ganhou uma maior concentração nordestina do pela reorganização do setor os tipos, dos quais quase 200 de pois ser um multiplicador de co-
das oportunidades”. Hoje, “cair nova indústria. fora do Nordeste, japonesa fora produtivo e pela vinda dos no- padrão internacional. Diferentes nhecimento nas nações em de-
no mundo” tem tantos destinos Entre 1998 e 2003, a cidade do Japão e italiana fora da Itá- vos moradores da São Paulo, ci- sotaques e idiomas se misturam senvolvimento.
quanto a vida permitir – um de- recebeu US$ 21,8 bilhões em lia, alguns milhares de migran- dade dos serviços, também é ex- São Paulo serve e é servida pe-
les, São Paulo. investimentos no setor de servi- tes e imigrantes ainda se unem, pressivo nos antigos bairros in- los novos migrantes e imigran-
Significa deixar a terra natal ços e US$ 3,4 bilhões na indús- a cada ano, aos parentes que dustriais, de galpões e vilas ope- Turismo de negócios tes. Assusta pela grandeza, pela
e aqui permanecer enquanto du- tria modernizada. Houve redu- aqui se instalaram ou aos ami- rárias, e nas vizinhanças dos ei- é atendido por 1.153 concentração dos prédios e atrai
rar o contrato de trabalho, o pro- ção de um terço no tradicional gos do novo ramo profissional. xos comerciais recentemente pelos shoppings, pela noite e pe-
jeto ou o curso escolhido. Signi- emprego industrial entre 1989 Os menos capacitados pulve- construídos para receber a cha- hotéis e movimenta la receptividade do seu povo. É
fica ser migrante flutuante, por e 1996. rizam ainda mais as pobres peri- mada indústria limpa e os edifí- R$ 8 bilhões por ano definida pelo colombiano Fre-
meses ou alguns anos, na nova Vagas enxutas na indústria e ferias, lotadas de barracos, mes- cios inteligentes das empresas ddy Guarín, gerente de marke-
terra de oportunidades, abando- exigência de qualificação cada mo de alvenaria. A carente re- de tecnologia. ting da indústria farmacêutica
nada pela velha indústria da vez mais abrangente fizeram os gião do Campo Limpo, na zona Sofisticados condomínios re- em um setor que movimenta R$ Pfizer como “uma loucura boa”.
transformação, mas reconquis- excluídos no processo de reor- sul, nunca deixou de crescer, sidenciais são erguidos para 8 bilhões por ano. Apesar de caótica, São Paulo
tada pela indústria da tecnolo- denamento produtivo – e seus apesar da estagnação da econo- quem quer morar perto do traba- A face cosmopolita é atendida se mantém como destino certo.
gia, dos softwares, dos serviços parentes – buscar no comércio mia. Aumentou 2,43% no perío- lho. Flats se multiplicaram so- pelo setor gastronômico, conside- “Embora sujo, cinzento e desor-
de tecnologia da informação, informal a chance de sobrevi- do de 1991 a 1996, enquanto o bremaneira para os funcioná- rado por muitos especialistas co- ganizado, é o lugar onde tudo
das telecomunicações, dos têx- ver. Ainda assim, o aumento no município, no mesmo período rios de médio escalão do setor mo um dos mais completos do acontece”, diz a professora ho-
teis, da química fina e outros. número de vagas no mercado registrou queda de 1,9% a de serviços – em 1999, São Pau- mundo, e pelo cultural, repleto landesa Carmen Sokker.●
H2 ESPECIAL
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SEXTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

Do chão de fábrica ao high tech


Parque fabril tradicional cede espaço para empresas de software, telecomunicações e financeiras na capital
NIELS ANDREAS/AE

INDÚSTRIA E SERVIÇOS HISTÓRIA ECONÔMICA

A indústria de transformação FIM DO SÉCULO 19


deu lugar às fábricas de software ●● Os lucros do café são utiliza-
e suas linhas de produção, de on- dos para financiar as primeiras
de despontam soluções tecnológi- indústrias de São Paulo. A ênfa-
cas que revolucionam a gestão se é dada nos setores alimentí-
empresarial. A privatização no se- cio e têxtil
tor de telecomunicações trouxe
grandes grupos multinacionais pa- 1910
ra a capital, onde ibéricos, italia- ●● A 1.ª Guerra Mundial e as difi-
nos e mexicanos transformaram a culdades econômicas dos países
telefonia. A internacionalização europeus favorecem a migração.
chegou aos bancos. Para “tocar” O movimento coincide com o de-
o novo setor de serviços, que se senvolvimento da indústria paulis-
impôs como a vocação atual da tana
capital paulista, chegam novos
profissionais, compondo um flu- 1920
xo de migração e imigração me- ●● As indústrias do município
nos intenso que o das décadas de de São Paulo já produzem
50 a 70, mas completamente hete- aproximadamente um terço dos
rogêneo. Reúne desde altos execu- bens industriais do país
tivos do setor financeiro, com am-
pla experiência mundial, a nordes- 1930
tinos aventureiros e sonhadores. ●● Cresce a indústria de bens de
Entre os anos de 1985 e 1996, consumo não-duráveis, como cal-
o Produto Interno Bruto (PIB) çados e alimentícia. O café perde
Municipal do setor industrial osci- importância econômica com a cri-
lou entre R$ 46,7 bilhões e R$ se de1929
49,6 bilhões. No setor de servi-
ços, a escalada partiu de R$ 42,1 1940
bilhões e atingiu R$ 76,9 bilhões, ●● A cidade já é o maior núcleo
segundo o Instituto de Pesquisa industrial da América Latina. A 2 .ª
Econômica Aplicada (Ipea). Guerra Mundial traz imigrantes
O setor de serviços, que se ins- japoneses e europeus para o país
talou em São Paulo substituindo a
indústria convencional, é movi- 1950
do, principalmente, pelas áreas de ●● A cidade emprega 56% da mão-
Tecnologia da Informação (TI), fi- de-obra industrial brasileira. Em-
nanceira e de telecomunicações. presas começam a migrar para o
Conforme a Fundação Seade, en- ABC – Santo André, São Bernardo
tre 1998 e 2003, as empresas de te- do Campo e São Caetano do Sul –
lecomunicações anunciaram in- e para o interior do Estado
vestimentos de US$ 2,3 bilhões
na capital. Entre as empresas de 1960
atividades ligadas à informática, a ●● Diminui o ritmo de crescimen-
previsão chegou a US$ 579,3 mi- to da indústria e o setor de servi-
lhões. Nesse período, foram inves- ços cresce. Grandes fluxos de
tidos US$ 21,8 bilhões em servi- mineiros e nordestinos come-
ços e US$ 3,4 bilhões na indús- çam a chegar à capital e tornam-
tria, de acordo com dados de 513 se operários
empresas contabilizadas pela Fun- ENCONTRO – O golfe aproximou o americano Anthony Bamhart, o indiano Sundeep Jinsi e o holandês Caspar van Rijnbach
dação Seade. ARQUIVO/AE 1970
O pólo industrial paulistano se ●● A indústria começa a empregar
transforma. As plantas tradicio- OS NÚMEROS
menos, graças à automatização e
nais reduziram sua participação ao aumento da produtividade. A
na produção nacional de 15% pa- terceirização se acentua. Os latino-
ra 9,4% entre 1985 e 2000, como
explica o professor de Economia
17,9 mil 65,4% americanos perseguidos pelas
ditaduras fogem para o Brasil
Aurílio Caiado, da Universidade Foi o acréscimo de estrangeiros Dos empregos na capital
de Sorocaba. O perfil do segmen- na capital paulista entre 2002 e paulista estão ligados ao setor de 1980
to também muda. Caiado afirma 2003, segundo Pesquisa serviços, de acordo com ●● O Produto Interno Bruto (PIB)
que a produção industrial da cida- Nacional por Amostra de informações de 2002 da do setor de serviços atinge
de ficou ainda mais seletiva. A Domicílios do IBGE Fundação Sistema Estadual de R$ 49,8 bilhões e supera o PIB
participação da indústria tradicio- Análise de Dados (Seade) industrial em R$ 900 milhões na
nal diminuiu e, ao mesmo tempo, cidade de São Paulo
a indústria tecnologicamente
mais complexa cresceu.
25 mil R$ 0,30 1990
Siderurgia e equipamentos ce- É o saldo da entrada e saída de ●● A produção industrial dimi-
deram espaço a microinformáti- imigração na década de 90. Trës A R$ 1 é o que ganha um nui, mas ainda supera qual-
ca, química fina (medicamentos, décadas atrás, o número boliviano por peça produzida nas quer Estado. Bolivianos come-
por exemplo) e telecomunica- era de 2,2 milhões, conforme oficinas têxteis da região central çam a chegar para trabalhar
ções. Para Caiado, a nova indús- dados do IBGE da cidade no ramo de confecções
tria se concentra em São Paulo,
pois a cidade se tornou um centro
340 mil 8%
2000
de pesquisa com as universidades ●● A 3 .ª Revolução Industrial se
e se confirma como maior merca- consolida com a expansão dos se-
do consumidor nacional. “É a 3.ª Estrangeiros chegaram ao Brasil Da mão-de-obra industrial do tores de telecomunicação, automa-
Revolução Industrial.” entre 1946 e 1953, o que superou município de São Paulo está ção e química fina. Permanecem as
Mesmo com esse avanço, o se- em 4,3 vezes a imigração nos empregada nos Bairros do Bom indústrias têxtil e automobilística,
tor de confecção se manteve, des- oito anos anteriores Retiro e do Brás da 1.ª e 2 .ª Revolução Industrial
de a 1.ª Revolução Industrial, co- QUEDA – Indústria tradicional paulistana vem perdendo espaço
mo um dos mais importantes des-
tinos da mão-de-obra. Em 2001, ção no conceito de migrante. Não gante. Passou a repetir um conse- em TI este ano, segundo estimati- vantamento ao Estado – outros principal razão para o crescimen-
empregava 61,7 mil paulistanos – existe mais somente o migrante lho para que pudesse mudar sua va da E-Consulting. A quantia su- não, “por segurança” –, dão pistas to. “As empresas terceirizadas
11,76% dos empregos da indús- de baixa renda. O novo migrante imagem. “Vai bem humilde, pelo pera em 8,5% o valor investido sobre a participação de estrangei- atendem à exigência de tecnolo-
tria local, segundo a Fundação é de classe média e média alta”, amor de Deus. Tira a Mont Blanc em 2003. As empresas de infor- ros na mão-de-obra capacitada. gia e maior qualificação no atendi-
Seade. afirma a socióloga Rosana Bae- e leva a Bic”, sugeria. Coincidên- mática registraram R$ 3,3 bilhões O JP Morgan tem 8 profissio- mento, o que as empresas, por si
As precárias oficinas têxteis do ninger, da Universidade Estadual cia ou não, após adotar a estraté- como valor adicionado (valor efe- nais de outros países entre 230 só, não poderiam cumprir”, expli-
Brás e do Bom Retiro, no centro de Campinas (Unicamp). gia, foi admitido pela companhia tivamente gerado na produção). funcionários. O Unibanco tem 79 ca o presidente da Associação
de São Paulo, abrigam a maior O engenheiro americano An- alemã SAP. Também em crescimento, o se- estrangeiros em São Paulo. Um Brasileira de Telemarketing
parte dos imigrantes. Os bolivia- thony Barnhart chegou em 2000 Apesar de deixar seu país, Bar- tor de telecomunicações contabili- deles é o português Tiago Neves, (ABT), Topázio Silveira Neto. Pa-
nos chegam à capital para fugir para dar um curso de 30 dias so- nhart conservou hábitos como o zou valor adicionado de R$ 7,7 bi- diretor-executivo, que chegou em ra ele, a formação heterogênea da
das dificuldades econômicas do bre a nova plataforma tecnológi- golfe. Foi no campo de golfe, lhões. Esse desempenho só foi 1995. “Em Portugal, a economia população da capital favorece a
seu país. Mas não conseguem es- ca da multinacional de TI onde aliás, que conheceu o indiano Sun- possível pela expansão da telefo- é estável, o que torna o trabalho qualidade no atendimento.
capar de longas jornadas de traba- deep Jinsi e o holandês Caspar nia no Brasil após a privatização. no Brasil desafiante e arrojado”, As operadoras de telefonia fixa
lho, baixos salários e clandestini- van Rijnbach, também casados O processo, em 1998, abriu espa- afirma. e celular também acolhem cente-
dade. “Recebem de R$ 0,30 a R$ Cidade de São Paulo com brasileiras e empregados do ço para a entrada de empresas es- nas de migrantes e imigrantes.
1 por peça produzida, trabalhan- tem 10 mil empresas setor de serviços. trangeiras de telefonia. A capital TELECOMUNICAÇÕES Dos 2 mil funcionários da Vivo
do de 12 a 15 horas por dia. Não Jinsi e Rijnbach também tive- paulista recebeu grupos de dife- Multinacionais de telecomunica- que atuam na capital paulista, 270
denunciam porque é a única chan- de TI, segundo dados ram que se acostumar com a cultu- rentes origens, como ibéricos (Te- ções, após a privatização, eleva- vieram de outros estados, a maior
ce de emprego deles”, diz a procu- de sindicato do setor ra brasileira. No primeiro dia de lefônica e Vivo), italianos (Tim) e ram a oferta de empregos. Na ca- parte (41%) do Rio de Janeiro,
radora-chefe do Ministério Públi- trabalho, Jinsi marcou quatro reu- mexicanos (Embratel e Claro). pital, o setor emprega 16,2 mil uma das antigas sedes da empre-
co do Trabalho em São Paulo, Al- niões. A primeira durou duas ho- A abertura econômica brasilei- sa. Na TIM, ocorre o contrário.
mara Nogueira Mendes. Segundo trabalhava. Uma falha, justamen- ras. “O cara só falava do Corin- ra nos anos 90 também trouxe in- Somente 20 entre os 1,5 mil fun-
o presidente da Câmara de Indús- te de tecnologia, mudou seus pla- thians. Com três reuniões marca- vestimentos estrangeiros aos ban- Por ser heterogênea, cionários no Estado vieram de ou-
tria e Comércio Brasil - Bolívia, nos. Uma semana antes de voltar das, eu só pensava: ‘mas, o que é cos. A Pesquisa da Atividade Eco- população paulistana tras partes do País ou do exterior.
Elio García, cerca de 60 mil boli- para casa, um caixa eletrônico ins- Corinthians?’.” nômica Paulista (Paep), da Funda- Giuseppe Glionna deixou há se-
vianos legais e ilegais moram na talado em um shopping engoliu Jinsi trabalha com vendas de ção Seade, mostra um intenso pro- favorece expansão do te anos a função de técnico na
capital paulista. seu cartão magnético. No termi- equipamentos para televisão. Pa- cesso de fusões e compras a partir telemarketing TIM Itália para vir ao Brasil. De
nal ao lado, a gaúcha Vanessa ra “quebrar o gelo” com as secre- de 1995. Dois anos antes, a partici- Belo Horizonte até a capital pau-
POSTOS ESTRATÉGICOS Acorssi teve o mesmo problema. tárias das empresas que visita, co- pação dos grupos estrangeiros lista, passou por engenharia e pes-
Bem distante das fronteiras de Co- Os dois esperaram pelo auxílio do meçou a ver novelas. “Quando vo- nos ativos do setor bancário no pessoas – 13 mil em telefonia fi- quisa até assumir a gerência terri-
rumbá (MS), por onde entra boa banco por quatro horas, tempo su- cê não sabe o que é novela, não sa- Brasil representava 8,35% do to- xa, conforme o Sindicato dos Tra- torial de rede. “Qualquer expe-
parte dos bolivianos, o Aeroporto ficiente para aproximá-los. Bar- be o que é cultura brasileira.” tal. Em 2001, subiu para quase balhadores em Empresas de Tele- riência em São Paulo é uma óti-
Internacional de São Paulo, em nhart desistiu dos Estados Unidos Barnhart, Jinsi e Rijnbach 30%. A capital, segundo a Funda- comunicação e Operadores de ma oportunidade na carreira.”
Cumbica, Guarulhos, é porta de e casou com a gaúcha. atuam no setor de TI, que reúne ção Seade, no mesmo ano, conta- Mesas Telefônicas no Estado de O benefício foi além da área
entrada para trabalhadores do se- A decisão obrigou o americano 10 mil empreendimentos na capi- bilizou R$ 204,1 bilhões em depó- São Paulo (Sintetel). profissional. Formado em Física,
tor de serviços e da nova indústria. a pedir demissão e começar a ba- tal, conforme o Sindicato das Em- sitos, 76,88% do movimento ban- A expansão também é observa- Glionna termina agora seu douto-
Profissionais de tecnologia ter às portas de empresas de TI. presas de Processamento de Da- cário estadual. da no telemarketing. Entre 1998 e rado em Física Quântica, pela Uni-
com alta qualificação e executi- Mas não conseguia uma vaga, dos e Serviços de Informática do Estrangeiros vieram para diri- 2004, a oferta no setor cresceu de versidade de São Paulo (USP) e
vos de diversos países desembar- apesar do bom currículo e do satis- Estado de São Paulo (Seprosp). gir as instituições. O segmento 200 mil para 550 mil empregos pela Universidade Federal de Mi-
cam em solo paulistano para ocu- fatório desempenho nas entrevis- As companhias dessa área em ex- não tem informações sobre imi- no País. Quatro em cada dez em- nas Gerais (UFMG). “Há um ní-
par cargos estratégicos e postos tas. Vanessa acredita que a nacio- pansão empregam aproximada- grantes, mas dados do Unibanco e pregados trabalham na capital. vel excelente de universidades,
que exigem alta capacitação. nalidade do marido fazia com que mente 30 mil pessoas. O mercado JP Morgan, únicos entre oito em- A terceirização de mais de pessoal preparado, boas bibliote-
“Nos anos 90, há uma redefini- as pessoas o considerassem arro- nacional investiu US$ 19 bilhões preendimentos que forneceram le- 30% das operadoras da capital é a cas e riqueza científica.” ●
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2004

NIELS ANDREAS/AE

Em São
Paulo, nem
todos que
vêm ficam
Senãoencontramemprego,migrantes
voltamparacasa,constatapesquisador

viço. “É a migração de retor-


INDÚSTRIA E SERVIÇOS
no”, define o economista.
Cristina Maria de Oliveira,
Longe dos rentáveis empre- de 36 anos, veio da Bahia há
gos nas companhias de tecnolo- um ano e arrumou um espaço
gia da informação, financeiras na casa da irmã, que sustenta
e de telefonia, milhares de mi- seis crianças com um salário
grantes fazem o serviço pesado mínimo. Como não conseguiu
da cidade. Estão em empresas emprego, Cristina quer voltar
de limpeza e manutenção pre- com seus quatro filhos. Falta o
dial. São garçons, porteiros e se- dinheiro das passagens para No- MUDANÇA – O baiano Arantes Menezes dos Santos, de 24 anos, trocou a roça no sertão por um emprego de garçom na capital paulista
guranças, na maioria, nordesti- va Colina, onde ficou o outro fi-
nos. “Antes, vinham muitos mi- lho. Com R$ 300 no bolso – me- mãos no sertão da Bahia. Não FRASES
neiros e paranaenses, agora são
mais baianos e cearenses”, diz
nos da metade do que precisa –
foi pedir dinheiro no Terminal
faz planos de voltar, mas tam-
bém não quer que a família ve-
Na limpeza da cidade, 70% são migrantes
o economista da Unicamp Cláu-
dio Dedecca.
Rodoviário do Tietê.
Mas quem consegue trabalho
nha para São Paulo. “O começo
aqui é muito sofrido.”
❝ O consenso é de que não TRABALHO PESADO: Excluída de rentes na fila para entrar”, diz. Fer-
A origem de quem vem a São haverá um fluxo migratório empresas que exigem alta escolari- racini veio de Ibiúna (SP), no come-
Paulo em busca de emprego mu- DESTINO TRADICIONAL como nos anos 70 ❜❜ dade e conhecimento de idiomas ço da década de 70. Foi motorista
dou com a intensidade do fluxo Para economista, Cláudio Dedecca destaca a
CLÁUDIO DEDECCA
e informática, a maioria dos recém- em uma empresa de manutenção,
migratório. A migração líquida ‘efeito escorregador’ área de serviços como destino chegados busca o trabalho braçal. supervisor, gerente, e resolveu
ECONOMISTA
(saldo da entrada e saída de mi- tradicional de migrantes. Mas Há 70 mil trabalhadores represen- criar a própria companhia.
grantes) caiu drasticamente. Na conduzia migrantes à antes, existia o “efeito escorre- tados pelo Sindicato dos Trabalha- Conforme o Sindicato das Empre-
década de 70, superava 2 mi- indústria nos anos 70 gador” que os levava à constru- ❝ Eu e meus primos dores em Empresas de Asseio e sas de Asseio e Conservação do
lhões de pessoas; nos anos 90, ção civil e às indústrias. Hoje, jogamos uma moeda Conservação e Limpeza Urbana Estado de São Paulo, a região me-
foi de cerca de 25 mil. o fenômeno perdeu força. para decidir se de São Paulo. Aproximadamente tropolitana da capital absorve
Os dados explicam por que o pretende ficar. Arantes Mene- A mudança no “efeito escor- 70% deles são migrantes e a qua- 70% da prestação desse tipo de
migrante não é responsável pe- zes dos Santos também chegou regador” começa na década de escolheríamos Argentina se totalidade dos demais é forma- serviço oferecida no Estado. Ape-
la elevação do índice de desem- a São Paulo em 2003. Cansado 80 e se acentua nos anos 90 ou Brasil. Deu Brasil ❜❜ da por filhos ou parentes de mi- sar disso, quase 90% das cerca
prego. “Para a dinâmica do mer- de trabalhar em roças de feijão com a estagnação econômica, grantes vindos há décadas, segun- de 2.200 empresas da área estão
GUSTAVO MOYA
cado, esse valor não é significa- e milho em Presidente Dutra que reduziu a oferta de empre- IMIGRANTE BOLIVIANO do estimativas da entidade. instaladas em outro município.
tivo. Com ou sem eles, a situa- (BA) sem perspectiva de futuro go na indústria e construção ci- No ramo há 32 anos, Joaquim Fer- A razão é a alíquota do Imposto
ção não seria diferente”, diz De- melhor, veio parar em solo pau- vil. Para Dedecca, a desacelera- racini, dono de uma empresa de Sobre Serviços (ISS). Até o come-
decca. listano porque tinha um primo ção do processo migratório de- ❝ Se o presidente Lula serviços de limpeza, conta que ço de 2004, a Prefeitura de São
Pesquisas mostram que o mi- aqui. Passou os três primeiros ve continuar. “O consenso é de ou eu, precisássemos sempre foi evidente o predomínio Paulo taxava em 5% o faturamen-
grante só vem à capital se tiver meses desempregado. “Sofri e que não haverá um fluxo migra- trabalhar na indústria de migrantes no setor. A oferta de to bruto da empresa prestadora
aqui uma rede social para ampa- cheguei a passar fome. Andava tório como na década de 70.” hoje, estaríamos mão-de-obra é ainda abundante do serviço. Na tentativa de frear a
rá-lo, como parentes ou ami- pela rua, olhava pra cima, pen- Hoje, quando o crescimento no segmento e a indicação de no- fuga das companhias para o Gran-
gos, e a sinalização de trabalho. sei que ia ficar louco.” Hoje é econômico ocorre, atinge vá- desempregados ❜❜ vos funcionários é feita freqüente- de ABC, a administração reduziu o
A taxa de desemprego entre garçom, ganha R$ 501 fixos rias regiões do País, o que per- PAULO PEREIRA DA SILVA mente por antigos empregados. imposto a 2% e passou a cobrar
eles é pequena, porque voltam mais gorjetas e manda boa parte mite ao trabalhador procurar PRESIDENTE DA FORÇA SINDICAL “Tem funcionário com até seis pa- do cliente.
para casa se não encontram ser- do dinheiro para os pais e três ir- emprego na sua terra.●

Bolivianos tentam a sorte nas Paulinho: Até Lula


oficinas do Brás e Bom Retiro ficaria sem emprego
Para sindicalista, ele e o presidente
Os dois bairros abrigam a maior parte dos imigrantes clandestinos de São Paulo não teriam chance na nova metrópole
NIELS ANDREAS/AE

Para os bolivianos que têm co- Brasiliano explica que o foco A exigência de alta qualificação A Pesquisa Nacional por Amos-
mo destino a confecção paulis- do Ministério Público do Tra- na nova São Paulo vocacionada tra de Domicílios (Pnad), do IB-
tana, não importa o relógio. balho mudou do problema da aos serviços era insignificante na GE, contabilizou, entre 2002 e
Nas escuras oficinas, eles dor- irregularidade para o aspecto antiga cidade, onde chaminés des- 2003, aumento de 35,1 mil na po-
mem, comem e trabalham dias social da questão. “Eles preci- pontavam no horizonte. Mesmo pulação de migrantes. Registrou,
e noites. O fim-de-semana nem sam de ajuda. Não queremos com escassa formação, migrantes ainda, crescimento no número de
sempre é sinônimo de descan- que sejam expulsos”. Um obs- e imigrantes conseguiam empre- imigrantes na nova São Paulo – o
so. Na feira ao redor da Praça táculo é o pacto de silêncio en- go sem dificuldades. “Se o presi- acréscimo foi de 19,7 mil.
Kantuta, no Pari, zona norte, a tre exploradores e explorados. dente Lula ou eu, que fomos operá- O mexicano Alfonso Guzman
legião boliviana se encontra Com medo, os bolivianos não rios, precisássemos trabalhar na in- Acosta, 34 anos, precisou de ape-
aos domingos para comer, be- denunciam e as poucas infor- dústria hoje, estaríamos desempre- nas duas semanas para decidir fi-
ber, comprar artesanato e se di- mações chegam pelo sindicato gados”, diz o presidente da Força car no País e engrossar essa estatís-
vertir com futebol e música. ou por terceiros. Sindical, Paulo Pereira da Silva. tica. O engenheiro da Volkswa-
Joaquin Dorado, 33 anos, autô- Além disso, a clandestinida- Lula e Paulinho contaram com gen no México veio em julho de
nomo no setor da costura, corta de traz prejuízos pela falta de a expansão da indústria na Grande 2002 e pediu a transferência para
cabelos em um salão improvisa- impostos arrecadados. Se a pe- São Paulo a partir dos anos 50. A São Bernardo do Campo. A espo-
do em duas barracas. "Fazer o quena oficina de confecção se escassez de mão-de-obra no pós- sa, Lizbeth, topou na hora. O casal
quê, tenho que aceitar essa rea- regulariza como microempresa guerra desencadeou um esforço não precisaria abandonar o espor-
lidade senão vou viver na rua." – com arrecadação até R$ 120 para trazer imigrantes. Entre 1946 te preferido, o “agility” – modali-
Disciplinados, os imigrantes mil mensais – paga à Receita e 1953, chegaram ao País 340 mil dade praticada com cachorro, di-
da Bolívia se encaixam no per- Federal de 3 a 5% do total de estrangeiros, 4,3 vezes mais do fundida no Brasil.
fil que patrões brasileiros, co- seu lucro. que nos oito anos anteriores. O retorno de Alfonso, porém,
reanos e mesmo bolivianos bus- Entre os imigrantes, há aven- “Com o fim da guerra, parte da está marcado para daqui a seis me-
tureiros que chegam sem desti- mão-de-obra européia precisava ses, quando vence o contrato de
no certo. “Eu e meus primos jo- emigrar. Isso coincidiu com a in- trabalho.”É muito bom atuar no
Base da mão-de-obra gamos uma moeda para decidir dustrialização do Brasil”, explica Brasil, mas as viagens fazem parte
barata para pequenas se escolheríamos Argentina ou Odair Paiva, historiador da Univer- da minha rotina.”
Brasil. Deu Brasil”, conta Gus- sidade Estadual Paulista (Unesp). Trabalhar no Brasil pode ren-
confecções de São tavo Moya, 43 anos, que dei- Na mesma época, milhares de der promoções na carreira interna-
Paulo vem da Bolívia xou a capital boliviana, La Paz, migrantes vieram atrás de oportu- cional. O americano Thomas
no início dos anos 80. Sem di- nidades na indústria e na constru- Brewer assumiu a direção de mar-
nheiro, passou noites nas Pra- ção civil. Segundo Paiva, enquan- keting da Ford, função antes ocu-
cam para suas confecções. “É ças da Sé e da República. Hoje, to grande parte dos imigrantes vi- pada por Barry Engle, atual dire-
uma mão-de-obra abundante e é gerente de uma loja de máqui- nha sozinha, os migrantes traziam tor da marca nos Estados Unidos.
barata, eficientíssima em traba- nas de costura na Luz, mas suas famílias. “O presidente Lula Brewer era gerente regional de
lhos manuais. Eles vêm atrás nem todos têm a mesma sorte. é o exemplo típico.” vendas em Detroit e, mesmo sur-
de emprego e não se queixam “Quando as promessas não se Aos 7 anos, em 1952, Lula de- preso, gostou da transferência. Ele
da quantidade de horas traba- concretizam, muitos voltam pa- BICO - Aos domingos, Joaquin Dorado troca a agulha pela tesoura sembarcou com a mãe e os 7 ir- e a esposa já tinham passado por
lhadas”, analisa o presidente da ra casa”, diz Elio Garcia. mãos no Estado, vindo do sertão nove mudanças, mas nunca fora
Câmara de Indústria e Comér- A maioria dos bolivianos vi- ram os coreanos. Para o geren- bre as irregularidades da vi- pernambucano. Dezoito anos de- do país. “Eu não sei se ficaria até o
cio Brasil-Boliviana, Elio Gar- ve na região do Bom Retiro e te do Departamento de Infra-es- da de imigrante. Há 15 anos, pois, Lula era um dos 735,6 mil final do contrato se minha família
cia. O secretário municipal do do Brás. Juntos, os dois bairros trutura e Capacitação Tecnoló- ela produz e vende roupas nordestinos na capital – 51,3% do estivesse infeliz aqui.” No Brasil,
Trabalho, Márcio Pochmann, detêm 8% da mão-de-obra in- gica da Associação Brasileira na Rua José Paulino, no contingente de migrantes. a esposa desfruta de vantagens, co-
completa a descrição do qua- dustrial paulistana. Essas re- de Indústria Têxtil e de Confec- Bom Retiro. Ela veio a São Nas duas décadas seguintes, o mo babá para os filhos e tempo pa-
dro. “Eles não estão 'roubando' giões exibem um perfil diferen- ção, Sylvio Napoli, muitos de- Paulo atrás de trabalho no se- número de nordestinos aumentou ra estudos e o voluntariado.
empregos de brasileiros, por- te do resto da cidade, com cer- les trouxeram conhecidos para tor têxtil, onde já atuavam 44,3 mil ao ano, conforme o IB- Brewer teve que se adaptar ao
que dificilmente um brasileiro ca de 40% de trabalhadores na ajudar nas confecções. “Infeliz- seus pais e primos. “Todos GE. Mais 11,2 mil brasileiros de mercado instável, taxas de juros e
aceitaria trabalhar assim.” indústria – os demais bairros mente, nem sempre de forma os coreanos fazem roupa. outros Estados completaram o risco país, o que o deixou mais fle-
Um emprego garantido, po- apresentam, em média, 14,5%, correta em relação às obriga- Brasil é terra grande, tem quadro anual de migrantes. Dados xível e sociável. “Aprendi que ven-
rém, pode não excluir uma de acordo com dados de 2001 ções trabalhistas.” mais chance. Coréia é difí- de 2003 mostram uma redução, der carros para americanos é mui-
grande dor-de-cabeça: a ilegali- da Fundação Seade. A coreana Keum Sook Park, cil, pequena, trabalho só em mas ainda há um desembarque sig- to diferente de vender para brasilei-
dade. A procuradora Cristina Antes dos bolivianos, vie- 46 anos, não gosta de falar so- fábrica”.● nificativo na capital. ros”, diz.●
H4 ESPECIAL
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SEXTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

Popular ou de luxo, comércio Migração e


economia
ainda alteram
oferece oportunidades a paisagem

URBANISMO
Migrantes e imigrantes ocupam quase um terço das vagas do setor
A mudança na atividade econô-
mica paulistana tem impacto
DANIELLA SASAKI/AE considerável no ordenamento
São Paulo. “Vim com a esperan- urbano. O endereço dos mi-
COMÉRCIO
ça de trabalhar numa loja de grife. grantes e imigrantes, das ve-
Mas, como não tenho curso supe- lhas e novas levas, influen-
Os sotaques de coreanos, chine- rior, só consegui vagas no comér- ciam a especulação imobiliá-
ses, árabes e nordestinos se mistu- cio informal.” Ao longo dos últi- ria, seja no setor comercial ou
ram nas ruas comerciais mais co- mos cinco anos, Carla já vendeu residencial. Os eixos escolhi-
nhecidas de São Paulo. Dos 430 bijuterias em várias ruas do cen- dos para a instalação dos pré-
mil empregados no comércio pau- tro. Com renda mensal de R$ dios inteligentes, que abrigam
listano, pelo menos 30% são mi- 300,00, planeja voltar para o Ma- as empresas de tecnologia e te-
grantes e imigrantes. Entre os es- ranhão no fim de 2005. “Quero es- lecomunicações, transformam-
trangeiros, a maioria é formada tudar para, quem sabe, realizar se em vizinhança disputada pa-
por chineses e coreanos. Os nor- meu sonho de trabalhar no comér- ra os condomínios de alto pa-
destinos continuam predominan- cio de luxo de São Paulo”. drão. A nova indústria é limpa
do entre os migrantes. Têm por A situação caótica no campo e não mais desvaloriza os arre-
destino o comércio popular, que burocrático e tributário brasileiro dores. A velha deixa a cidade
movimenta, somente na Rua 25 é apontada pelo presidente da As- e, nos lugares dos seus gal-
de Março, cerca de R$ 1 bilhão sociação Comercial de São Paulo pões, surgem novos empreen-
por ano, ou o comércio de luxo, re- (ACSP), Guilherme Afif Domin- dimentos.
presentado pelas maiores grifes in- gos, como um dos motivos que le- Locais como o centro comer-
ternacionais. vam muitos trabalhadores para o cial de Santo Amaro, o Brás e
Com a queda da atividade in- comércio informal. “Quanto mais o Bom Retiro são onde migran-
dustrial, a partir da década de 80, simplificado o sistema de legaliza- tes e imigrantes têm grande in-
o mercado paulistano se abriu pa- ção do comércio, mais fácil identi- fluência na composição urba-
ra o setor de serviços. As novas ficar as atividades ilícitas”, afir- na. O professor da Faculdade
empresas, ligadas sobretudo à tec- ma. Uma forma de resolver a ques- de Arquitetura e Urbanismo
nologia e telecomunicações, pas- tão seria diminuir a necessidade da Universidade de São Paulo
saram a importar funcionários es- de arrecadação de impostos pelo (FAU-USP) Eduardo Alberto
trangeiros para parte dos seus car- governo. “Além disso, serviços Cuce Nobre destaca que, em al-
gos executivos. Os novos migran- públicos de melhor qualidade fa- guns locais, o desenvolvimen-
tes, com nível superior, ocupam riam com que as pessoas estives- to urbano está intimamente li-
os escalões médios dessas compa- sem dispostas a abrir mão de parte gado aos grupos étnicos.
nhias. Aqueles que não possuem da renda”, explica o professor de O bairro do Brás, por exem-
Economia da Fundação Getúlio plo, teve como primeiro grupo
Vargas (FGV), Ciro Biderman. dominante os italianos, que
Entre os imigrantes, O comércio paulistano tem, ain- vieram trabalhar na indústria
chineses e coreanos da assim, espaço para quem vem de transformação. Hoje, a re-
de fora com a intenção de abrir o gião é ocupada por coreanos e
dominam a cena do próprio negócio. O bairro do nordestinos, envolvidos com a
comércio paulistano Bom Retiro, conhecido pela ocu- indústria têxtil. No Bom Reti-
pação italiana, hoje é o destino ro, os antigos judeus, que até a
dos asiáticos. Das 240 lojas da década de 70 dominavam o co-
qualificação são absorvidos pelos Rua José Paulino, 170 pertencem mércio, foram substituídos
serviços de manutenção. Os ex- a coreanos. Foi ali que a família também por coreanos e suas
cluídos desse mercado têm como Kim montou sua confecção, em empresas têxteis.
alternativa o comércio. 1982, e em seguida abriu uma lo- O diretor da Empresa Brasi-
Em São Paulo desde 2001, An- ja. “A Coréia é muito pequena e a leira de Estudos de Patrimônio
derson Santos, de 17 anos, traba- concorrência é grande”, conta (Embraesp), Luiz Paulo Pom-
lha há dois meses em uma loja de Lais Kim. A primeira atividade péia, diz que esse é um dos
armarinhos na Rua 25 de Março. de seu pai, Fernando Jung Ho poucos bairros em que as rela-
Saiu de Feira de Santana, na Ba- Kim, foi em uma indústria têxtil. ções entre as mudanças na po-
hia, com a mãe e quatro irmãos pa- Hoje, Lais é advogada e ajuda os POPULAR – Na Rua 25 de Março, o jovem baiano Anderson trabalha para ajudar no sustento da família pulação e na atividade comer-
ra encontrar o pai que já vivia na pais na loja nos finais de semana. NIELS ANDREAS/AE cial se firmaram em um proces-
capital. “Parei de estudar no pri- so completo. Outras regiões da
meiro ano do colegial para traba- PERFIL cidade, como a Mooca, que
lhar”, conta. Após a separação O perfil do comerciário é variado perdeu suas indústrias nos últi-
dos pais, tornou-se, com um ir- no mercado paulistano. A infor- mos anos, têm ainda a maior
mão, arrimo da família. O rapaz matização nos estabelecimentos parte dos galpões vagos. O
ainda tem esperança de voltar à es- contribuiu para essa mudança. O mercado imobiliário ainda não
cola. “Quero crescer mais na loja presidente do sindicato da catego- definiu a tendência de ocupa-
para depois buscar algo maior.” ria em São Paulo, Ricardo Pathá, ção do bairro.
Reduto do comércio de luxo, a cita o exemplo dos supermerca- O professor Nobre cita tam-
Rua Oscar Freire também atrai dos. “São lojas que exigem traba- bém o caso do bairro da Pom-
trabalhadores de fora da cidade. lhadores mais qualificados.” A es- péia, na zona oeste, onde, no
A participação de estrangeiros es- se novo perfil somam-se os anti- lugar das antigas vilas operá-
tá estampada nos nomes. Chris- gos, dos árabes e nordestinos. rias, foram erguidos grandes
tian Dior, Mont Blanc e Cartier Na mais famosa rua comercial edifícios, “cercados por altos
são algumas das grifes que domi- da cidade, a 25 de Março, há ára- muros”. Para ele, isso evita o
nam o mercado de confecções e bes receosos em ser árabes, nume- convívio social. “É uma carac-
joalherias sofisticadas. Vendedo- rosos e enigmáticos chineses, ar- terística anti-urbana”.
ra da Louis Vuitton, Raquel dos gentinos se passando por india- Em Santo Amaro, destino
Santos veio de Florianópolis há nos. No total, são 60 mil emprega- preferencial das primeiras le-
nove anos para fazer um curso téc- dos, com destaque para os nordes- vas de nordestinos vindos a
nico de prótese dentária. Mas foi tinos. Nos bastidores da multidão São Paulo, a região do Largo
o trabalho no comércio, na época que se amontoa em busca do pre- 13 foi tomada pelo comércio
fonte temporária de sustento, que ço mais barato, os donos e funcio- “especializado” para atender a
virou profissão. A catarinense nários das lojas se destacam pela esse público. “A maioria dos
conquistou independência e con- história de luta por dias melhores. GRIFE – Raquel saiu de Santa Catarina para estudar e hoje é vendedora em uma loja de luxo nos Jardins paulistanos nem sabe o que se
forto na sofisticação, tanto que O presidente de honra da vende lá”, aposta Pompéia.
confessa gastar com o supérfluo. União dos Lojistas da 25 de FRASES tem. O Sol nasce para todos.” LUXO
“Sou muito consumista”, admite, Março e Adjacências (Univin- Ao contrário da 25 de Mar- Para atender o público de FRONTEIRAS
aos risos. co), Rezkalla Tuma, afirma que ❝ Vim com a esperança ço, o Bairro da Liberdade so- maior poder aquisitivo, a fran- A partir da década de 80, outra
Nos últimos 20 anos, São Pau- a mudança de maior impacto freu uma mudança em sua es- cesa Claudine Nectoux foi modificação ocorrida na cida-
lo tornou-se destino para o novo nos últimos 10 anos foi no mo- de trabalhar numa loja de trutura. A predominância não contratada pela Louis Vuitton de foi a expansão rumo às fron-
fluxo de imigrantes – os latinos e delo de estabelecimento. A cria- grife. Mas, como não é mais de japoneses. Há tam- em 1989. "Ter a mesma nacio- teiras. Segundo Nobre, o de-
asiáticos. Os primeiros chegaram ção de minishoppings ou boxes tenho curso superior, só bém chineses e coreanos – pro- nalidade da marca conferiu le- senvolvimento foi alcançando
como refugiados das crises de de venda resultou em um novo consegui vagas no prietários de armarinhos, res- gitimidade à loja.” Hoje, ge- bairros como Tatuapé e Penha,
seus países e das perseguições perfil de comerciário. “Atual- taurantes e lojas de importados rente da joalheria Cartier, tornando-os alvo da especula-
das ditaduras, freqüentes na déca- mente, a colônia árabe represen- comércio informal❜❜ espalhados pelo bairro. Claudine conta que resolveu ção imobiliária. Isso empurrou
da de 70. Os asiáticos encontra- ta 60% do comércio da área. CARLA DE SOUZA O historiador e professor da ficar no País depois da abertu- as famílias mais pobres, mas
ram aqui mercado amplo para Mas esse número tem reduzido AMBULANTE Universidade Estadual Paulista ra do mercado aos produtos es- não necessariamente migran-
seus produtos, na maioria contra- nos últimos tempos, com a cres- (Unesp), Odair Paiva, lembra trangeiros durante o governo tes, para regiões extremas da
bandeados e vendidos por ambu- cente presença oriental no bair- que esses imigrantes vêm para Collor. Com mais grifes inter- capital. Com crescimento de-
lantes. ro”, afirma Tuma. De acordo ❝ Em cidade grande, a São Paulo há bastante tempo. nacionais, as possibilidades sordenado, sem infra-estrutu-
Nos anos 60, os migrantes que com a Univinco, em média, 300 gente tem mais chance❜❜ “O que ocorreu nas últimas dé- em São Paulo aumentaram pa- ra, locais como Guaianases e
chegavam a São Paulo eram inse- mil pessoas circulam diariamen- BETO CHEN cadas foi apenas a intensifica- ra os imigrantes. Guarapiranga tornaram-se
ridos no mercado formal após um te pela 25 de Março. O número COMERCIANTE TAIWANÊS ção desse fluxo.” O mercado de luxo da cida- grandes bairros dormitórios.
curto período de adaptação. “Ha- pode atingir 1 milhão às véspe- Há 15 anos o taiwanês Beto de virou referência pois está “A vinda de migrantes gera
via uma exclusão temporária, ras de datas comemorativas. No Chen está no Brasil. Aos 39 em expansão, e São Paulo é dois processos: ao chegar, em
mas logo a maioria deixava a in- local, existem 3 mil estabeleci- anos, tem uma loja de importa- um grande pólo consumidor. busca de emprego, vão morar
formalidade para atuar na indús- mentos comerciais – 60% con- COMÉRCIO EM NÚMEROS dos no Sogo Plaza Shopping, na Tanto investidores internacio- nas pensões da região central.
tria, principalmente na constru- centram-se nos shoppings e ga- Liberdade. Em Taiwan, ele já nais quanto donos de fran- Quando o dinheiro acaba, vão
ção civil”, explica a professora de lerias e 40% se referem às lojas trabalhava no comércio. Antes quias são atraídos pelo públi- para o lugar mais barato, onde
Sociologia da Pontifícia Universi-
dade Católica de São Paulo (PUC-
de rua e edifícios.
Símbolo do comércio da re-
R$185 bi de se tornar lojista foi vendedor
em outros lugares. A escolha
co bem informado, que valo-
riza a sofisticação. “Além dis-
não há infra-estrutura, que é a
periferia”, explica Pompéia.
SP), Mônica Souza. gião, Niazi Chohfi é dono de Valor movimentado pelo por São Paulo foi óbvia. “Em so, o Brasil está na moda”, co- Com a perda do perfil indus-
À medida que o perfil econômi- uma loja têxtil que leva seu no- comércio em 2003 uma cidade grande a gente tem menta Michelle Nasser, só- trial da cidade de São Paulo, al-
co da cidade era alterado, muitos me. Seus pais chegaram no Por- mais chances”, explica. O Sogo cia das lojas Empório Gior- gumas famílias foram prejudi-
migrantes perdiam o emprego – to de Santos em 1900, vindos da é um retrato do bairro oriental – gio Armani, D&G e Ermene- cadas. A aposentada Francisca
entre outros motivos, por falta de
qualificação para atuar no setor
cidade de Homs, na Síria. Segun-
do o comerciante, os sírios ti-
430 mil das 90 lojas, cerca de 20% são
propriedade de imigrantes.
gildo Zegna. Filha de um
egípcio e uma marroquina,
Marques Dias, de 62 anos, mo-
radora do Jardim Donária, no
de serviços. “Isso contribuiu para nham dificuldade em aprender a Pessoas estão empregadas no Para Ricardo Pathá, outra carac- Michelle nasceu na Suíça e, Jaraguá, vive desde os oito em
a expansão da informalidade nos língua portuguesa. “Tinha gente setor do comércio na capital. terística desses imigrantes é perpe- há 25 anos, vive no País. São Paulo. Vinda de São João
anos 80”, avalia a socióloga. que ensinava errado aos imigran- Desse total, 30% são compostas tuar as origens. “Os comerciantes Depois de sair do centro, do Piauí (PI), trabalhou no co-
Atualmente, prevalece no Estado tes. Um, por exemplo, ia para as de migrantes e imigrantes empregam pessoas de mesma na- nos anos 80, esse comércio mércio e o marido na indús-
de São Paulo a migração de um fazendas e gritava: ‘meia para o cionalidade.” Quando questiona- se estabeleceu em shoppin- tria. Durante esse período, a fa-
município para outro. Em menor pescoço, colarinho para os das sobre o fato de algumas lojas gs e regiões como a da Rua mília morou no ABC. Quando
escala, ainda se observa o movi-
mento tradicional, dos demais Es-
pés’”, conta. Aos 92 anos, Cho-
hfi não acha que a invasão orien-
300 mil só empregarem descendentes
com fluência em japonês, a lojista
Oscar Freire. “Por motivo
de segurança e conforto,
as fábricas em que o marido
atuou foram para outros muni-
tados para a capital paulista. tal e a constante presença de am- Pessoas circulam diariamente Midori Hommoto responde que não deve voltar tão cedo pa- cípios, a família, sem a mesma
A maranhense Carla de Souza bulantes no comércio da 25 de pela Rua 25 de Março, região pessoas idosas da colônia, em sua ra o centro”, avalia o diretor- renda de antes, foi obrigada a
sonha, desde 1999, em ter um em- Março esteja prejudicando sua central da cidade maioria, não falam português e só superintendente da ACSP, mudar para o Jardim Donária,
prego com carteira assinada em companhia. “Quem trabalha, vão às lojas em que confiam. Roberto Ordini.● onde está há três anos.●
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ESPECIAL H5
O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2004

NIELS ANDREAS/AE

Excelência
conquista
universitário
estrangeiro
Convêniosinternacionaisequalidade
reconhecidaatraemalunos para aUSP

países como Cabo Verde estão


EDUCAÇÃO
com a estrutura educacional em
construção. “Eles vêm a São Pau-
O paraguaio Rubén Darío Bar- lo em busca de formação acadêmi-
rientos pensou e decidiu pela Uni- ca nos níveis de graduação ou de
versidade de São Paulo (USP) pós-graduação.” Ruth sabe que
quando seus pais lhe disseram pa- seu esforço na faculdade é funda-
ra escolher qualquer país para es- mental para o crescimento de Ca-
tudar. A cabo-verdiana Ruth Ne- bo Verde. Por isso, não pretende fi-
ves dos Santos tinha Portugal e car, apesar de bem acolhida.
Cuba como opções para cursar A facilidade de adaptação in- LONGE DE CASA – A cabo-verdiana Ruth dos Santos e o paraguaio Rubén Barrientos pretendem voltar para a terra natal depois de formados
Medicina e também preferiu a fluenciou a escolha do paraguaio
maior universidade pública paulis- Barrientos. Em 2000, ele veio a do idioma francês e o estreitamen- NÚMEROS DA USP JOSÉ CORDEIRO/AE

ta. São dois dos 221 estudantes es- São Paulo para estudar Publicida- to de relações entre os países são
trangeiros que hoje freqüentam de e Propaganda. Optou pelo Bra- razões para o acordo. “Mas a prin-
um dos 189 cursos da USP. sil por achar que o ensino na Ar- cipal é o fortalecimento do currí-
O número é pequeno diante
dos 42.970 brasileiros matricula-
gentina seria semelhante ao de
seu país e por temer um choque
culo do estudante francês, que te-
rá um diploma globalizado, insti-
43.191
cultural maior na Europa ou nos tuído por excelentes faculdades”, Alunos estão matriculados
Estados Unidos. Quando se for- destaca. nos 189 cursos de graduação
Instituição recebe mar, no final do ano, voltará ao da universidade
principalmente alunos Paraguai. “O mercado paraguaio BRASILEIROS
recebe bem o profissional gradua- Além dos alunos estrangeiros, a
de países da África
e da América Latina
do no Brasil. Sair do país valoriza
o currículo”, acredita Barrientos.
USP também atrai gente de várias
regiões do País. São 2.706 estu-
221
Nem sempre os estudantes dantes de outros estados, sendo Estudantes vêm de
vêm ao Brasil para suprir carên- 1.027 de Minas Gerais. Entre eles outros países
dos na instituição, mas pesa. “A cias do ensino em seus países. O está Liliane Callegari, de 22 anos,
presença de estrangeiros leva à in- francês Arnaud Guérin, por exem- nascida em Uberaba, estudante
ternacionalização da universida-
de por meio do intercâmbio cultu-
plo, estuda na Escola Politécnica
da USP. O diploma será forneci-
de Arquitetura e Urbanismo. “Ti-
nha o curso na minha cidade, mas
54,29%
ral entre os alunos”, afirma a coor- do pela universidade paulista e pe- era particular, caro e não reconhe- São naturais de países africa-
denadora de Programas Interna- la École Centrale de Lyon, na cido pelo MEC”, afirma. Esco- nos ou da América Latina
cionais da USP, Hilza Godoy. França, onde começou a estudar lheu a USP pela formação mais
Cada caso traz uma peculiarida- Engenharia de Produção. abrangente e o alto reconhecimen-
de. Ruth é uma privilegiada em
seu país. Cabo Verde não tem fa-
A união curricular faz parte do
Programa de Mobilidade de Gra-
to no mercado. “Gosto de saber
que meu curso tem um papel na
2.706
culdades públicas e acordos inter- duação da USP. Alunos da Poli- história da arquitetura no Brasil.” Alunos vindos de outros
nacionais garantem vagas para os técnica terminam os estudos na Liliane sofreu para adaptar-se à estados do Brasil
melhores alunos do ensino médio. França ou vice-versa. Segundo vida paulistana. Veio sem conhe-
“A vaga na USP é uma das mais Hilza Godoy, o objetivo é elevar cer a cidade e, para não ficar só,
disputadas”, afirma. O acordo
com Cabo Verde integra o Progra-
o currículo dos estudantes. Ou-
tros nove franceses estudam nes-
acabou se aproximando dos cole-
gas da faculdade que também che-
37,95%
ma Estudantes Convênio (PEC), sas condições. garam de outros Estados. “Até ho- Desse total são mineiros
que recebe alunos principalmente O consulado francês tenta am- je não ando muito com o pessoal
da África e da América Latina. pliar o programa para outras uni- de São Paulo.” Apesar de sentir
A meta de Ruth vai além do di-
ploma de médica. São pessoas co-
versidades em São Paulo. Recen-
temente, a Fundação Getúlio Var-
falta da família, Liliane pretende
continuar na cidade depois de se
R$ 520 MÍMICA – Wu Kuang Yih recorre a gestos para ensinar mandarim

mo ela que vão desenvolver a inte-


lectualidade de seu país. A profes-
sora da Faculdade de Educação da
gas (FGV-Eaesp) acertou a dupla
diplomação com instituições fran-
cesas. Sebastian Roy, adido do
formar, mesmo insatisfeita. “Eu
queria paz, ter as coisas por perto,
não levar duas horas para chegar
É o valor que Ruth recebe por
mês do governo de Cabo
Verde para estudar na USP
Escola bilíngüe
USP Nilce da Silva explica que consulado, diz que a divulgação aos lugares. E queijo bom!”●
traduz a nova cidade
Discriminação cria barreiras Imigrantes e até brasileiros matriculam
seus filhos nos colégios internacionais

na convivência entre estudantes Em fundo vermelho, cor da sorte


para os chineses, os ideogramas
uma unidade há dez anos no
Brooklin, zona sul. Dos 140 alu-
prateados desejavam Feliz Ano- nos, 30% são estrangeiros, a maio-
Vítimas de preconceito, alunos têm dificuldades para entrar e permanecer na escola Novo. Trabalho caprichado de ria de expatriados. “Geralmente,
Bruno, de nove anos, aluno de são filhos de executivos.” A chile-
mandarim do Colégio Sidarta, lo- na Gretel Tardío chegou à pré-es-
NIELS ANDREAS/AE calizado em Cotia, a 20 quilôme- cola de seu filho indicada por ami-
A concorrência por uma vaga em FRASES tros de São Paulo. “Igualzinho!”, gos. Lucas, de dois anos, é educa-
universidades e escolas públicas elogiou o professor taiwanês Wu do em inglês e português. “Em
de São Paulo é muito maior do ❝ A turma mangava do Kuang Yih ao comparar o traba- qualquer país que a gente vá, ha-
que nos municípios de origem. jeito que ela fala❜❜ lho do garoto ao seu. verá escola em inglês.”
Da falta de estrutura das redes pú- A escola segue padrão interna-
blicas para atender os “estrangei- MARIA LUZINETE SILVA cional, com período integral e en- PROFESSORES
ros” ao mito de que os primeiros MÃE DA ESTUDANTE JAMIRE sino bilíngüe - português e inglês. Dominar o segundo idioma é obri-
lugares nos vestibulares são sem- É uma das instituições que aten- gação e as escolas de línguas proli-
pre dos descendentes de orien- ❝ Um funcionário disse dem filhos de imigrantes e da po- feram. Elas são atrativo para es-
tais, o preconceito é um dos prin- que não havia lugar nem pulação local. “Dominar o inglês trangeiros dispostos a lecionar pe-
cipais adversários de quem esco- é preocupação dos pais brasilei- la remuneração que assegura via-
lhe a cidade para aprender. para brasileiros, muito ros e as escolas suprem essa de- gens pelo País, como Maricar-
Características físicas ou cultu- menos para bolivianos❜❜ manda”, analisa Eliane Nogueira, men Álvarez. Formada em Letras
rais e até o sotaque podem fazer MARIA da Organização das Escolas Bilín- na Espanha, veio para dar aulas
dos candidatos a alunos vítimas COSTUREIRA BOLIVIANA
gües do Estado de São Paulo. particulares e, com o dinheiro, co-
do preconceito. “As peculiarida- Alguns colégios vão além. No nhecer o Nordeste.
des causam estranhamento”, ex- Sidarta, as disciplinas de cultura e Às vezes, uma estada curta
plica a professora da Faculdade ❝ Todos têm a mesma língua chinesas atraem brasileiros transforma-se em uma vida. Emi-
de Educação da USP Nilce da Sil- capacidade❜❜ como Bruno. “Não é muito difí- lio Fernández chegou, vindo da
va. Segundo ela, a língua serve CELSO TUTIYA
cil, tem de estudar os ideogra- Espanha, há 51 anos.Fugia do re-
como mecanismo de status social 1º LUGAR NO VESTIBULAR mas”, conta. Dos 414 alunos, ape- gime franquista. Apesar de não fa-
e um sotaque diferente pode pro- DE MEDICINA DA USP nas 12% são estrangeiros. lar português, conseguiu empre-
vocar rejeição. INTERAÇÃO – Professoras de escola no Pari tiveram aulas de espanhol A partir da 5ª série, os alunos go em uma semana. “Aqui havia
Nas redes municipal e estadual, optam entre o mandarim e o espa- chances e eu só queria sair daque-
oficialmente, a vaga está garanti- lei da 2ª para a 4ª série, mas conti- Para a professora Nilce da Sil- fessor de Biologia Ernesto Bir- nhol. A portuguesa Inês Vilares, la situação horrível ”, lembra. De-
da para todos, mas nem sempre a nuo atrasada”, lamenta Michelle, va, da USP, a inclusão proposta ner, do Anglo, lembra que con- de 14 anos, continuou estudando pois de vários trabalhos, deu au-
matrícula é certa. A boliviana Ma- hoje concluindo a 5ª. pelas secretarias pode configurar correntes usavam camisetas o idioma asiático. “É complicado. las e foi diretor do Instituto de Ar-
ria (nome fictício) tem dois filhos, Segundo a diretora da Secreta- exclusão. “Nas escolas públicas com a inscrição “Mate um ja- Cada ideograma tem quatro signi- te e Decoração, fechado no regi-
de 9 e 11 anos, nascidos no Brasil. ria Municipal de Educação Marí- há sul-americanos e nordestinos ponês e garanta sua vaga.” ficados.” Inês chegou ao Brasil há me militar. Atuou em publicidade
Mesmo assim, quase teve a vaga via Torelli, a lei estabelece que o que não têm acompanhamento Primeiro lugar em Medici- dois anos e meio. e, mais tarde, voltou a ensinar. En-
para o mais novo negada em uma aluno migrante ou imigrante deve especializado”, reclama. As go- na na USP, Celso Tutiya, de Mudar para um país desconhe- cantado pela cidade de São Paulo,
escola municipal no Pari, zona nor- passar por avaliação. As Secreta- zações fizeram a cearense Jami- 19 anos, não acredita em dife- cido deixou de ser novidade para Fernández, aos 76 anos, ainda le-
te. “Um funcionário disse que não rias Estadual e Municipal não têm re dos Santos Silva, de 15 anos, rença entre etnias. “Todos têm o argentino Ignacio, de 12 anos. ciona espanhol.
havia lugar nem para brasileiros, programas de acolhimento para abandonar a escola depois de bri- a mesma capacidade.” Para a Seu pai já trabalhou na Venezuela Um outro amor trouxe a holan-
muito menos para bolivianos.” quem vem de outras localidades. gar com colegas. “A turma man- coordenadora da Fuvest, Ma- e nos Estados Unidos. Aluno da desa Carmen Sokker ao País.
Com a baiana Michelle Silva, “Trabalhamos a diversidade cultu- gava do jeito que ela fala”, recor- ria Theresa Rocco, a crença de Graded School, no Morumbi, Ig- Apaixonada por um brasileiro,
de 14 anos, o problema foi mais ral na escola”, justifica Sônia Ma- da a mãe, Maria Luzinete Silva. que os primeiros lugares são nacio vê poucas diferenças entre formou família em São Paulo. Di-
grave. Quando chegou a São Pau- ria Silva, da Secretaria Estadual. sempre dos orientais é mito. as escolas pelas quais passou. “O vorciou-se e continuou na capital,
lo, estava prestes a cursar a 3ª sé- Em contrapartida, a sociedade pro- VESTIBULAR “Apenas 14% dos vestibulan- currículo é muito parecido.” onde se casou de novo e, hoje, en-
rie, mas voltou à 1ª. “O pai dela cura soluções. A ONG Presença Os estereótipos também se repe- dos são descendentes de orien- Além dos colégios tradicio- sina holandês. “Embora a cidade
não conseguiu mandar os docu- América Latina promove aulas de tem com os descendentes de tais. A carga genética nada nais, as pré-escolas bilíngües são seja suja, cinzenta e desorganiza-
mentos”, explica a mãe, Rosália espanhol a professores da rede orientais, que já foram alvo de tem a ver com a inteligência. um novo segmento da educação. da, admito que é o lugar do Brasil
dos Santos. “Um ano depois, pu- municipal, no Pari, zona norte. brincadeiras de mau gosto. O pro- É visão preconceituosa.”● A advogada Leila Palmieri abriu onde tudo acontece.”●
H6 ESPECIAL
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SEXTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

NIELS ANDREAS/AE

Emhotéisefeiras,
nemsóvisitantes
vêmdefora
ProfissionaisdetodooPaístrabalhamcomestrangeiros
dePortugal,Espanha,Itália,Alemanha,FrançaeJapão

hoje há mão-de-obra nacional qua- 4,5 milhões de pessoas visitam


TURISMO DE NEGÓCIOS
lificada, o que não ocorria nos os 90 mil eventos da cidade, en-
anos 70, quando as redes hotelei- tre eles, as feiras de negócios.
Em meio ao burburinho nos gran- ras chegaram. Para a consultora Em São Paulo, das 21 empre-
des hotéis e nos eventos de negó- Manuela Garni, da Hotel Invest- sas organizadoras de feiras asso-
cios, um ouvido atento percebe a ment Advisors (HIA), os hotéis ciadas à União Brasileira das Em-
mistura de sotaques e idiomas. preferem trabalhadores locais, ex- presas Promotoras de Feiras
Não só dos turistas, mas também ceto os recém-inaugurados. (Ubrafe), 6 são comandadas por
de migrantes e imigrantes que É o caso do Gran Hyatt São migrantes e 6 por imigrantes.
atuam no setor. É a babel paulista- Paulo, inaugurado em 2002. Cin- De Portugal, Holanda, Itália e
na no turismo de negócios, que co dos nove diretores são estran- Alemanha, mudaram-se para a ci-
movimenta R$ 8 bilhões anuais, geiros, como o francês Frédéric dade com a missão de ganhar di-
segundo o São Paulo Convention Boulin, que já rodou o mundo. nheiro para suas matrizes, mas
& Visitors Bureau (SPCVB). criaram raízes numa das metrópo-
Levantamento feito em alguns les mais cosmopolitas do mundo.
dos grandes hotéis da cidade mos- Migrantes comandam O holandês Joris Wan Wijk, de
tra que cerca de metade dos profis- metade das empresas 39 anos, casado com uma brasilei-
sionais é migrante – a maioria em ra, não quer voltar para a Holan-
cargos menos qualificados – e os que organizam feiras da. “Vim há dez anos a trabalho e
poucos estrangeiros, em geral, de negócios na cidade me apaixonei pelas pessoas.”
ocupam postos de chefia e vivem Os outros seis dirigentes vie-
há bastante tempo no Brasil. Os ram do Rio de Janeiro, Bahia, Pa-
imigrantes recentes são profissio- “O Hyatt preferiu trazer quem já rá, Minas Gerais e do interior de
nais de redes internacionais que, conhecia a cultura da empresa”, São Paulo. Segundo o presidente
como nômades, circulam por ho- explica o diretor de RH, o espa- do SPCVB, Roberto Gheler, a ci-
téis em vários países. nhol Miguel Bermejo. Os chefs dade recebe todo o Brasil, mas al-
No Intercontinental São Pau- especializados também foram im- gumas regiões predominam, co-
lo, 64% dos 180 funcionários portados: Pascal Valero (França) mo Minas e estados do Sul. “Do
são migrantes (camareiras, cozi- e Yasuo Isai (Japão). Já o chef da interior do Estado, chegam mui-
nheiros e garçons) e 4 são estran- cozinha italiana é o baiano Vin- tos estudantes também”, observa.
geiros. No Crowne Plaza, são cent Pellegrini. Ao todo, são cer- Gheler afirma, no entanto, que
160 – 2 estrangeiros e 40% mi- ca de 400 funcionários. “Eu pode- estrangeiros e brasileiros conti-
grantes, concentrados na cozi- ria falar que 50% é da cidade e nuarão a dividir espaço nessa
nha e governança. O Transaméri- 50% é de fora”, palpita Bermejo. área. “Desde que o Brasil abriu
ca tem 317 empregados – 158 mi- Executivos são os principais sua economia, a tendência é a in-
grantes e 2 estrangeiros. hóspedes dos grandes hotéis. O ternacionalização dos negócios e
Especialistas concordam que SPCVB estima que, por ano, o intercâmbio de profissionais.”● GLOBAL – Espanhol Miguel Bermejo trouxe francês, japonês e baiano para comandar cozinhas do Hyatt

Nova geração de chefs, antiga Tu, tchê, továrich:


safra de garçons e cozinheiros a arte é poliglota
Os ‘továrichi’ – camaradas, em russo – se
Chefs nacionais ganham espaço e nordestinos ainda são maioria nas cozinhas e salões misturam a santistas e gaúchos nos palcos
NIELS ANDREAS/AE

TEATRO
GASTRONOMIA CULTURA
Para o santista Éderson Marques,
saxofonista do musical Chicago,
Do berço miscigenado paulistano Participar de uma seleção rigoro- a cidade é sinônimo de trabalho.
está nascendo uma nova geração sa, mudar de país e viajar milha- O espetáculo, avaliado em R$ 10
gastronômica. A gaúcha Carla Per- res de quilômetros para ganhar, milhões, atraiu 100 mil pessoas
nambuco, a argentina Paola Caro- em média, R$ 6,6 mil por mês. de outras cidades em 9 meses de
sella e dois paulistanos, Alex Ata- Dos 109 músicos da Orquestra temporada. “Estou aqui por cau-
la e Cássio Machado, são o produ- Sinfônica do Estado de São Pau- sa do Chicago. Mas assim que
to e o futuro da gastronomia local. lo (Osesp), 35 fizeram esta esco- terminar, vou embora. Não me
Os migrantes e estrangeiros, prota- lha. Vindos do leste europeu – adaptei.”
gonistas de sempre, estão hoje jun- Rússia, Bulgária e Romênia, prin- No último dia 27, 31.483 es-
tos de paulistanos na chamada co- cipalmente – a maioria é especia- pectadores assistiam às 105 pe-
zinha contemporânea. O resultado lista em instrumentos de cordas. ças apresentadas na noite paulis-
da mistura não podia ser outra coi- De acordo com o professor de tana. Nelas trabalham, formal-
sa se não a mistura. música da ECA-USP, Ronaldo mente, menos de 2 mil profissio-
“Isso é saldo do convívio de di- Miranda, a Europa Oriental é um nais, estima a Associação de Pro-
versas culinárias na cidade de São pólo de “exportação” por ser re- dutores de Espetáculos de São
Paulo”, teoriza a especialista Cris- conhecida pelo bom ensino de Paulo (Apetesp).
tina Putz, autora do livro História violinos, violas e violoncelos. O número exclui as produ-
da Gastronomia Paulistana. É de- “Vale mais a pena tocar aqui ções amadoras, diz o ex-coorde-
la o conceito “cozinha contempo- do que em uma orquestra de uma nador do teatro amador da Se-
rânea paulistana” – a mistura das cidade menor dos Estados Uni- cretaria do Estado, Efren Co-
culinárias de São Paulo, do Brasil dos ou da Europa”, diz Miranda. lombani. “É impossível quanti-
e do mundo. “Mas questões pessoais também ficar os espetáculos da cidade.
Pioneiro entre os gourmets es- influenciam – sejam indicações Espaços abrem e fecham a ca-
trangeiros, o francês Laurent CONTERRÂNEOS – No restaurante Supra, a maioria dos funcionários vem de Pedro Segundo, no Piauí de amigos ou vontade de conhe- da semana, atraindo os profis-
Suaudeau comemora a nova gera- cer outros lugares”, completa. sionais. Desses, 40% são de fo-
ção. “O Brasil está evoluindo pa- encontraram um povo acostuma- Paulo. “A cidade reúne o que há FRASES A violista russa Olga Vasilevi- ra de São Paulo”, estima.
ra não importar mais tantos che- do às influências culturais que re- de melhor na minha área”, revela ch, 28 anos, passou em um concur- Segundo o Ministério do Tra-
fs”, sentencia. Há 24 anos no Bra- montam à origem colonial do Bra- a chef, eleita revelação do ano pe- ❝ Além de São Paulo, so para uma orquestra alemã há balho, 22.436 artistas estão re-
sil, prevê que, em 5 anos, um bra- sil. “Começou a aparecer a voca- lo Prêmio Gula 2004, o mais im- apenas Nova York atrai quatro anos, mas ao saber por um gulamentados no Estado e me-
sileiro será o melhor do País, dife- ção de São Paulo para abrigar portante do País. amigo russo da chance de tocar na nos de 10% está formalmente
rente do ocorrido até hoje. “Ou grande variedade de cozinhas”, Mas o que parece tendência ab- tantos chefes em busca Osesp, mudou de idéia. “Queria empregado. Ainda assim, a ci-
uma brasileira”, arrisca. explica Cristina Putz. soluta é exceção. Os principais de status e dinheiro❜❜ conhecer outros lugares. Arris- dade é a principal alternativa
A referência é clara. A gaúcha Tanto que em 1997 a cidade chefs em exercício na cidade são CRISTINA PUTZ quei, fiz o teste e passei”, lembra. para quem quer trabalhar com
Carla Pernambuco, 45 anos, do foi reconhecida como Capital estrangeiros. Nas cozinhas, a ESPECIALISTA EM GASTRONOMIA Foi seu primeiro trabalho profis- arte.
restaurante Carlota, é o ícone da Mundial da Gastronomia. “Chefs maioria ainda é nordestina. sional. “No começo, meus amigos O espetáculo Terça Insana é
geração. Morou em Porto Alegre,
Brasília, Rio de Janeiro, Nova
do mundo inteiro procuram Nova
York e São Paulo atrás de status e
A pequena cidade de Pedro Se-
gundo, no Piauí, com 35 mil habi-
❝ O principal chef do russos viajaram e fiquei sozinha.
Não falava português nem para
um exemplo da diversidade da
cena teatral da cidade. No elen-
York e São Paulo, e é capaz de dinheiro”, avalia Cristina. tantes, “exportou” 20 funcioná- País, daqui a mais ou comprar um pãozinho”, brinca. co, há dois paulistanos, um
misturar temperos e tradições da Antes de escolher o Brasil, a rios para o restaurante Supra. A menos cinco anos, vai Após quase quatro anos em baiano e três gaúchos, entre
cozinha brasileira com elementos gourmet argentina Paola Caro- tradição migratória se mantém: o ser um brasileiro. Ou São Paulo, aprendeu português, eles Gracie Gianoukas, em São
de outras culturas. “Como São sella, do restaurante Julia Cocina, pai traz o filho, que traz a irmã, uma brasileira❜❜ fez amigos e arranjou um namo- Paulo desde 1984. Para a atriz,
Paulo, Nova York reúne culiná- estava justamente em Nova York. que traz amigos. “Começou as- rado brasileiro. “A diferença o profissional qualificado pode
rias de todos os lugares”, conta. Com 32 anos, depois de trabalhar sim e hoje todos temos trabalho”, LAURENT SUAUDEAU daqui é o calor humano, o con- não acompanhar o ritmo daqui.
Os chefs estrangeiros chega- nos principais centros gastronômi- se orgulha a atendente Ivone Felí- CHEF FRANCÊS tato entre as pessoas. Na Euro- “São Paulo é uma entidade. Ou
ram na cidade nos anos 80, e aqui cos do mundo, se fixou em São cio, 32 anos - 8 em São Paulo.● pa cada um fica no seu canto.” ela te abraça ou ela te chuta.”●

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