MAGALHÃES, Selma Marques. Avaliação e linguagem relatórios, laudos e pareceres. São Paulo, Veras Editora, 2006.

O USO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO NO PROCESSO AVALIATIVO

“(...) instrumentos técnicos. (...) além de viabilizarem o trabalho a ser desenvolvido, vão caracterizar o estabelecimento de uma relação profissional e a existência de uma intencionalidade. Não é possível esquecer que o eixo técnico – operativo das profissões deve estar relacionado ao seu norte ético-político, pois mesmo no uso de um instrumento de apoio há uma intencionalidade. (p.47).”

“(...) No caso dos profissionais das áreas humanas, os instrumentos a serem utilizados nos processo avaliativo são variados, e não necessariamente exclusivos de determinada profissão. (p.47).”

“(...) instrumental é o conjunto articulador de instrumentos e técnicas que permitem a operacionalização da ação profissional. Nessa concepção, é possível atribuir-se ao instrumento a natureza de estratégia ou tática, por meio da qual se realiza a ação, e a técnica, fundamentalmente, à habilidade no uso do instrumental. (p.48).”

“A utilização do instrumental pressupõe interações comunicativas que podem ser efetuadas face a face ou por meio da escrita. No primeiro caso, estão a entrevista, o grupo, a reunião de equipe, a visita domiciliar e no segundo, os relatórios e os laudos. (p.48).”

Instrumentos utilizados na comunicação oral

Entrevista

“Um instrumento técnico muito conhecido é a entrevista, a qual norteia o trabalho dos profissionais em diversas instituições, mesmo nas chamadas atividades de plantão ou triagem. A entrevista implica relacionamento profissional em todos os sentidos: (...). (p.48).”

“Um bom entrevistador ouve muito e fala pouco; direciona as verbalizações do usuário para os objetivos do trabalho, isto é, retoma o eixo da entrevista ao perceber que o entrevistado está sendo prolixo e repetitivo. (...) As peculiaridades da linguagem devem ser observadas, porque fornecem indícios importantes para a avaliação. Tal fato não significa “falar igual” ou criticar o uso de uma linguagem diferente. (p.48-49).”

“(...) as linguagens são expressas também por gestos, olhares, tom de voz (...) O profissional não deve precipitar-se em interrompê-lo, mas aguardar e deixar que o próprio usuário retome a fala. (p.49).”

(p.50-51). o entrevistador deixa que o entrevistado fale e direciona essas falas para os objetivos da entrevista. O profissional deve conter sua importância ou precipitação e aprender a lidar com essa forma de mensagem..50).. Os cuidados a serem tomados são semelhantes aos da entrevista. (. não pode adquirir a feição de questionário.) os objetivos específicos do atendimento institucional são a linha mestra da condução do grupo.) Cabe ao profissional tão-somente coordenar as reuniões.. (.) é comum a utilização de um roteiro de entrevista. possibilita também sugestões quanto à busca de profissionais que possam ajudar o candidato a lidar com suas questões. Nas primeiras...51). supervisão. o entrevistado traz à tona o tema a ser discutido. sejam estas de cunho pessoal ou profissional. que consiste em dar ciência ao entrevistado do que foi constatado no decorrer da interação socioprofissional.49-50).) Contudo..) Configura-se como um momento que. dirigidas ou semidirigidas. (p. pelo coordenador.) a entrevista devolutiva (.” Grupo “O grupo é um importante instrumento de apoio no trabalho desenvolvido em instituições. e este é o ponto de partida para a interação (. Esse roteiro.. além de comportar reflexão e orientação. (p.) É necessário ainda competência profissional para lidar com esse instrumental... Esse tipo de entrevista é muito usado na finalização de um acompanhamento ou dos processos de seleção de candidatos a determinado cargo ou atividade. A entrevista semidirigida é o meio-termo entre as duas primeiras. O silêncio que emerge no grupo também é comunicação.” “(..50).. é importante que se desencadeie um processo reflexivo.. por essa razão.).” “(.” “As entrevistas podem ser livres. visando aproximar esse objetivos da proposta de trabalho a ser desenvolvida em determinada instituição. se possível. originado nas falas dos seus componentes.” “O coordenador de um grupo poderá aquecer a reunião por meio de técnicas de dinâmica de grupo (. (.50). dependendo do tipo de grupo.49). uma fala. Essa competência relaciona-se diretamente com o compromisso do profissional e envolve leituras. (. no entanto. O uso desse instrumento permite o atendimento de um maior número de pessoas. avaliação crítico-reflexiva das posturas adotadas e. Requer habilidade e treino do profissional. (p. pois é somente um norteador da ação ou da intervenção do profissional. Precisa ainda estar atento às conversas paralelas ou ao destaque de apenas um dos componentes... (p.“Quando o objetivo da instituição é muito específico..” “Existe ainda a chamada entrevista devolutiva. (p. (p.” .” “A criatividade e a observação mostram-se como fatores de relevância no manejo das situações grupais. Esse processo também pode iniciar-se a partir de uma queixa...) Nas entrevistas dirigidas. (p. o entrevistador conduz toda a entrevista para um objetivo específico e.. 51). um tema escolhido pelos membros do grupo ou. faz muitas perguntas.

” Visita “A visita tem um espaço próprio e peculiar. solucionar problemas.... O próprio grupo decide o momento de se dissolver.. (.. para que seus objetivos não se percam e a reunião não acabe se transformando em um encontro “social”(. principalmente na área do serviço social. (p. em termos de início e fim.) Os grupos podem ser abertos ou fechados.53). para a discussão dos atendimentos realizados e para o estudo de temas relacionados ao trabalho que está desenvolvido. pelos valores religiosos possibilitam observar o modus vivendi e as mediações sociais aí intervenientes. mesmo tratando-se de uma visita de inspeção (. a periodicidade das reuniões é definida pela equipe. (.) (p.) Entretanto.) os componentes valorativos estão relacionados não só às singularidades pessoais..” “O objetivo da visita é clarear situações.” “Essas reuniões assumem importante papel na superação das tramas do cotidiano institucional. como também às particularidades inerentes aos diferentes segmentos das classes sociais.). As relações sociais são construídas historicamente e suas mediações com a sociedade se dão no âmbito subjetivo. (. (.” “Reuniões de equipe não devem ser realizadas apenas para resolver problemas. (p. (p.55). (p. avaliar atividades ou simplesmente estudar.” “Considerando a reunião como parte do instrumental cotidiano. Como é considerado por muitos como característica dessa área. (p.. pois abrem espaço para a reflexão.54).” Reunião de equipe “Esse tipo de reunião também pode ser considerado um instrumento técnico.. no ambiente de convivência... cabe a cada profissional decidir qual será o seu instrumento de avaliação..) Nos grupos abertos. redimensionar o trabalho realizado. (.) As linguagens expressas pelos objetos.) é o assistente social quem define se deve ou não proceder a uma visita..” ..” “(. (p. podendo ser semanal.52). é importante que seja elaborada uma pauta com os assuntos a serem tratados.” “Visita-se com o objetivo de complementar dados observar relações sociais em sua singularidade.54).. mas fazer parte do trabalho.. Já o grupo fechado tem delimitados o tempo de duração e o número de membros.. o que resulta.) O objetivo da equipe passa a ser a melhoria do desempenho. (p.53). (p. (. certamente..54). quinzenal ou mensal. discutir casos. (.). 53).. utilizado com o objetivo de solucionar problemas na equipe.) Portanto... há a possibilidade de ingresso de novos membros e sua duração não é programada.54).. em benefícios para aquele que é a finalidade última de toda instituição: seu usuário. Jamais pode ser uma visita invasiva.“(. considerar o caso na particularidade de seu contexto sociocultural e de relações sociais..

. a observação engloba toda a instrumentalidade.) geralmente é elaborado um relatório de visita. Porém.. as possibilidades de dirimi-las certamente aumentarão. (. ou até mesmo “vidas” são definidas.. estudo do Estatuto e respeito aos visitados.56).. (p. (p..” “(.) (p. providências e decisões são tomadas.” . o profissional forense fundamentará melhor seu parecer quanto ao abrigamento ou à internação de uma criança ou de um adolescente. fazer uma reunião e utilizar todo o aparato técnico concernente a sua profissão. incluindo os dirigentes da instituição.” A importância da observação no manejo dos instrumentos “O profissional pode entrevistar. e assumem. não é. não poderá avaliar. no sentido lato da palavra. (.) É preciso muito tato e respeito ao efetuá-la. Também não cabe ao profissional “julgar” a existência de supérfluos como sendo desperdício ou prioridade não essencial..58). ao conhecer in loco as limitações e vantagens de determinada instituição. (. a partir do seu conteúdo. (.. corporificados sob a forma escrita. Além do mais.55-56).) essa visita (.” Visita de inspeção “(. a visita traz em si juízos de valor. (p.56).) contribui para a melhoria dos serviços prestados à população.. (.56). em si.” “Fazer visitas de inspeção exige profissionalismo. Ao serem diagnosticadas possíveis falhas nos atendimentos das instituições visitadas. bem como suas instalações físicas. pois. por exemplo. mas uma potencialidade a ser desenvolvida..) (p..57). uma técnica. em especial aquele que atua numa instituição forense. um papel de intervenção indireta. só usará instrumentos técnicos..” Instrumentos utilizados na comunicação escrita “A distinção entre relatório e laudo é muito tênue e propicia dúvidas ou até mesmo revela certo desconhecimento quando a esses instrumentos.. É preciso que o profissional esteja atento à conotação que está dando à visita domiciliar.. verificar o material eletrodoméstico para conhecer as dificuldades da família visitada.) a observação caminharia passo a passo com (. se não for um bom observador. (..) tem como finalidade verificar se o trabalho desenvolvido nas instituições.. É desnecessário. 57).“Como um instrumento de avaliação. Eles resultam de estudos de avaliações.” “(. ainda. realizar uma dinâmica de grupo. Portanto.. atendem aos objetivos aos quais elas se destinam.) as linguagens.....) a visita apresenta uma peculiaridade que lhe é inerente: ela traz em si os demais instrumentos que são também utilizados no seu decorrer.. (p..) (p.

. ainda. (.61). No laudo.. das conclusões obtidas em relação ao que foram consultados. deve ser apenas uma “ponte” para as respectivas análises e avaliações.” Laudo e relatório: uma tênue diferença “(. (p. fundamenta-se em análises e deve ser conclusivo...” .. (..60). fatos ou objetos. um parecer ou exposição dos fundamentos de um voto ou de uma apreciação ou.60). e não o enfoque primordial de seus trabalhos. qualquer exposição pormenorizada de circunstâncias.” “O laudo é o documento escrito que contém parecer ou opinião conclusiva do que foi estudado e observado sobre determinado assunto. Pode ainda conter informações acerca de providências tomadas em determinadas situações ou justificar encaminhamentos.” DO PONTO DE VISTA JURÍDICO “(.. ou seja. relacionando-os ao segmento de classe e às mediações sociais que permeiam essas relações.60).” Relatório e Laudo? DO PONTO DE VISTA LÊXICO “O relatório é a descrição ou o relato do que foi possível conhecer por meio do estudo. que vão analisar situações. (p.. Envolve uma avaliação mais detalhada do que foi estudado ou ainda a opinião de técnico relativa a um caso ou assunto.. porém.61).. e laudo seria..) Ambos resultam de um estudo feito.” “(. A diferença entre um e outro está na natureza da fundamentação técnica do prazer..) permitem-lhe a perceber aspectos pontuais que não são necessariamente exclusivos de sua área de competência. (p. a exposição.) processo avaliativo permite o olhar dos mais diversos profissionais. feita por escrito.) o relatório pode ser referente a uma pesquisa. Essa percepção.” “(. contendo diretrizes ou sugestões. (p.. (p. um escrito em que um perito ou um árbitro emite seu parecer e responde a todos os quesitos que lhe foram propostos pelo juiz e pelas partes interessadas.) estudo e relatório não têm significado específico. É portanto.) (p. pelos peritos.). contextos relacionais e pessoas à luz do seu conhecimento específico. os profissionais contaram com uma formação que lhe possibilitou acumular conhecimentos advindos de outras áreas do saber. Esses conhecimentos. (p. à apresentação das atividades desenvolvidas em determinado setor.58).) analisará aspectos socioculturais e econômicos. a visita realizadas.) independentemente do tipo de trabalho realizado no espaço institucional ou da forma contratual estabelecida. são frutos da avaliação de um profissional e podem apresentar um parecer sobre o que foi analisado.... conforme o Código de Processo Civil.. (.59). Um assistente social (.“(..

) (p. enfim aos locais onde os usuários interagem. (.62). (p..” “(. (p.“O conteúdo de um relatório deve extrapolar o burocrático e conter subsídios para uma primeira tomada de conhecimento.” RELATÓRIO DE VISITA DOMICILIAR “Os relatórios de visita domiciliar resultam das visitas dos profissionais à casa das pessoas (.... emitido após um breve relato da situação... abrigos. para informar algum. (p. Podem ainda ser utilizados nas atividades de triagem. (p. fato urgente ou novo. as intervenções feitas.” RELATÓRIO CIRCUNSTANCIADOS “Alguns profissionais que atuam em fóruns denominam de relatórios circunstanciados aqueles relatórios informativos que são feitos em situação de emergência (.) a escolas. (p.. (. que contém parecer fundamentado sobre determinado tema ou problemática. não será relatório...) o laudo denota um estudo mais aprofundado. em razão de suas peculiaridades.” “(.” “(.) as razões pelas quais foram avaliados como viáveis. mas explicar (.) O parecer... (p.64). Diante disso.64). podendo conter sugestões e também parecer.64). Podem ser utilizados no decorrer de um processo de acompanhamento..61-62).) relatórios ou laudos são frutos de um estudo avaliativo e comunicam o trabalho realizado. profissionalmente a informação ou o encaminhamento.63)... mas apenas “informe”.62). não basta somente informar ou encaminhar.” .) têm como objetivo informar dados ou fatos importantes.) esses relatórios muitas vezes extrapolam a simples informação e vêm acompanhados de parecer ou de sugestões sobre o caso que está sendo atendido naquele momento.” Tipos de relatórios RELATÓRIOS INFORMATIVOS “Os relatórios informativos. Caso contrário. é apresentado imediatamente ao juiz.. É um instrumento de comunicação e intervenção muito utilizado na área judiciária.. Ambos são sempre conclusivos. creches.

Detalhes devem ser evitados. no sentido de enfocar apenas o que é relevante para que os objetivos da avaliação sejam alcançados. sua natureza é eminentemente avaliativa e de follow up.65). (p. Sendo assim.“A descrição deve ser objetiva e apresentar os dados realmente significativos para a formação de juízo da situação.65).ou não – do trabalho desenvolvido com os objetivos que pretende alcançar. como por exemplo: as providências a serem tomadas.” RELATÓRIOS DE ACOMPANHAMENTO “Os relatórios de acompanhamento podem trazer informações.” .. 64). em seus registros.64). as possibilidades viáveis do que pode ser feito para dirimir possíveis falhas e a consonância . (p.” RELATÓRIO DE INSPEÇÃO “Os relatórios de inspeção devem contar.) Sua principal característica é a de ser um instrumento de comunicação voltado ao próprio profissional que realiza os atendimentos. com a exposição e a descrição daquilo que foi observado no decorrer da visita. (p.” “(. sem cansar o leitor. Devem ainda incluir um parecer profissional sobre a questão avaliada. e o profissional precisa desenvolver a disciplina intelectual.. (p. mas envolvem a intervenção profissional direta e o contato mais regular e assíduo com o usuário.

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