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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIN.E

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Betíencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXV

MAIO

1994

(O SUMARIO

I
w "Mulher, eisteu Filho!" (Jo 19,26)
ai
"Compreendendo a Nova Era"
(O
ai Horóscopo diminui duracao da vida

"O Biscoito da Morte"

(O "Tudo inventado"
<

ni
A Igreja contraria á saúde dos brasileiros?

m Acordó fundamental entre a Santa Sé e o Estado de Israel


g Irma Emanuela entre os deserdados
a.
PERGUNTEE RESPONDEREMOS MAIO DE 1994
Publicapao mensal N? 384

Diretor-Responsável SUMARIO
Estéváo Bettencourt QSB
Autor e Redator de toda a materia "Mulher, eis o teu Filhol'MJo 19,26) . . 193
publicada neste periódico
Um turbilhao complexo:
Diretor-Administrador: "Compreendendo a Nova Era" 194
D. Hildebrando P. Martins OSB Quem diría?
Horóscopo diminuí duracao da vida . .. 207
AdministracSo e distribuicao:
Propaganda Proselitista:
Edicoes "Lumen Christi"
"O BiscoitodaMorte" 210
Rúa Dom Gerardo, 40 — 5? andar — sala 501
Tel.: (021) 291-7122 Nos Evangelhos:

Fax (021) 263-5679 'Tudo inventado" 216


Mais um artigo de VEJA:
Endereco para correspondencia: A Igrejacontraria ásaúdedosbrasíleiros? 225
Ed. "Lumen Christi" Em que consiste?
Caixa Postal 2666 Acordó fundamental entre a Santa Sé
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ e o Estado de Israel 230
Impressao s Encadernapao
No Egito:
Irma Emanuela entre os deserdados. . . . 236

"MARQUES SARA1VA "


GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Tels.: (021) 273-9498/273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO
"Jesús, o Libertador (I)" (Jon Sobrino). — "O Amor Tudo Espera" (Bispos de
Cuba). — No Líbano: os Maronitas. — "A Verdadeira Vida em Deus" (Vassula
Ryden). — Aínda os Preservativos.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL PARA 1994 ~


(12 números) CR$ 12.000,00 - n° avulso ou atrasado CR$ 1.200,00

.O pagamento podará ser i sita escolto:.


1. Enviar EM CARTA cheque nominal ao Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro, cruza
do, anotando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO na conta do favoreci
do" e, onde consta "Cód. da Ag. e o N? da C/C", anotar: 0229 - 02011469-5.
2. Depósito no BANCO DO BRASIL, Ag.0435-9 Rio C/C 0031-304-1 do Mosteiro deS. Ben
to do Rio de Janeiro, enviando a seguir xerox da guia de depósito para nosso controle.
3. VALE POSTAL pagável na Ag. Central 52004 - Cep 20001-970 - Rio.
Sendo novo Assinante, é favor enviar carta com nome e endereco legfveis.
Sendo renovacáb, anotar no VP nome e endereco em que está recebendo a Revista.
'MULHER, EISO TEU

(Jo 19,26)

Pouco antes de morrer, Jesús pendente da Cruz tinha junto a Si María


SS., sua MSe, e o discípulo amado (cf. Jo 19,25-27). Dirigiu-se entao a Ma
ría com palavras densas: "Mulher, eis o teu filho" (aludía a Joao) e recipro
camente disse a Joao: "Eis a tua Mae". - Estes diz eres sffo ricos de signifi
ca cao.

Antes do mais, o fato de Jesús usar o apelativo "Mulher" pode causar


estranheza; ocorre também em Jo 2,4: "Mulher, que queres de mim? Ain-'
da ná*o chegou a minha Hora". Na verdade, trata-se de urna referencia a Gn
3,15 ("o primeiro Evangelho"), onde o Senhor Deus, logo após o pecado,
promete inimizade entre a serpentee a mulher (Eva, nome que significa
"MSe dos vivos"), devendo finalmente o Filho da Mulher esmagar a cabeca
da serpente. As palavras de Jesús Crucificado fazem eco ao texto de Gn
3,15, onde o título "Mulher" é honorífico; designa a MSe da linhagem san
ta e, por excelencia, do Messias. Por conseguínte, antes de morrer, Jesús
quis fazer de sua Mae a nova Eva, a Mae dos'vi ventes em sentido pleno; Ela
dera á luz o Messias, Senhor da Vida; exerceria para o futuro a maternida-
de espiritual em relacao a Joá*o e a todos aqueles que Joao representava.
Maria é, poís, constituida Mae de todos os homens, por ser Mae de Jesús, o
Cabeca de uma nova humanidade (cf. 2Cor 5,7).

A maternidade de María se torna mais clara aínda, se relacionamos


Jo 19,26 com outros textos bíblicos. Com efeito, em Jo 2,4 Jesús tam
bém chama Maria "Mulher". Ora, precisamente nessa ocasiao, Maria aparece
como a Mae de Jesús, que tem solicitude pelos homens; ela toma conheci-
mento de que falta vinho ñas bodas de Cana e pede a seu Divino Filho que
considere o embaraco do esposo; Jesús Ihe atende, dando a ver que Ela
pede algo de muito grande ou a antecipacSo de sua HORA (Hora de Jesús,
em Sao Joao, é o momento de sua plena revelacSo na Cruz e na Ressur-
reicao;cf. Jo 13,1,17,1).

Também os dizeres de Jo 16,21 merecem atencSo. Af Jesús fala tam


bém de hora. . ., da hora da mulher que está para dar á luz; sofre as dores
do parto, mas sofre-as com ¡mensa alegría, porque uma vida nova está para
nascer. Ora, em Jo 19,26 Jesús parece insinuar que chegou a Hora dessa
Ma*e que é Maria: sofre dores profundas porque assume a maternidade de
Jesús e dos irmSos de Jesus-Homem, mas assume-a com a alegría de quem
estí colaborando com a obra salvífica de seu Divino Filho.

Finalmente em Ap 12,1, aparece uma mulher gloriosa, que sofre do


res de parto. . . é Maria, a Má"e dos vivos, é a Igreja, que, continuando o
papel da Mae, padece com o Messias em prol da humanidade.
Saibam os cristítos recorrer a essa Santa Mae, especialmente no mes
de maio, que a piedade Ihe dedica com muito carinho)

E.B.

193
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXV - N9 384 - Maio de 1994

Um tuibilhSo complexo:

tt
COMPREENDENDO A NOVA ERA'

por Russell Chandler

- Em sin tese: A córtente filosófico-religiosa "Nova Era" é um amalgama de esote-


rísmo. hindú¡smo (com panteísmo e reencarnado), holismo, comunicado com os
monos, medicina alternativa, gnosticismo s também Cristianismo. Carece de nítida
estrutura de pensamento, como também de um governo central. Tem-se expandido
notavelmente. porque parece conciliar entre si modos diversos de pensar e agir. Pódese
dizer que Nova Era é a expressSo da insatisfacSo do homem moderno, que experimenta
o vazio causado pelo materialismo e as rápidas mudancas da sociedade contemporánea.
Os adeptos da Nova Era recusan) o que o mundo atual Ihes oferece, mas nada de positi
vo tém a por no lugar dos valores tradicionais, pois as mensagens do esoterismo, do
channeling, da ufologia, da gnose... sSb altamente fantasiosas e subjetivas; as emocdes
e os sentimentos prevalecem sobre a lógica e o raciocinio. — Aos fiéis católicos compe
te responder ao desafio da Nova Era mediante a transmissib integral e convicta da
mensagem crista"guardada na Igreja Católica; saibam associar palavra e conduta de vida,
pois o homem moderno se interesa grandemente pela coeréncia e sinceridade com que
os fiéis vivem sua arenca religiosa.

* * *

A corrente filosófico-religiosa dita "Nova Era" está sempre em foco, suscitando


novas e novas interrogacoes. Em 1993, foi publicado em portugués o volume "Com-
preendendo a Nova Era", da sutoria de Russell Chandler, escritor-jornalista do Los An
geles Times.1 Impressionadopelomovimento religioso norte-americano, R. Chandler
resolveu pedir oito meses de I ¡cenca ao seu jornal para estudar a fundo o fenómeno
"Nova Era". Aproveitou entao esse tempo para fazer urna pesquisa extensa e profun
da, entrevistando pessoas, lendo obras, assistindo a palestras..., que Ihe permitiram es-
crever o volume em pauta. - Realmente, a obra de R. Chandler fornece informacoss
múltiplas e preciosas sobre a Nova Era. Eis a razao pela qual a utilizaremos ñas páginas
subseqüentes para abordar o assunto já considerado em PR 379/1993,554'572. Dada

/ TraducMo do inglés por JoSo Marques Bentes. — Ed. Bompastor, Rúa Pedro Vicente
90-01109-010 SSo Paulo (SPJ. 160 x 230 mm, 421 pp.

194
"COMPREENDENDO A NOVA ERA"

a atualidade do tema e o interesse dos leí teres por claras noticias a respeito, pode-se ter
como oportuna mais urna apresentacáo do assunto enriquecida por dados novos.

Comecaremos por perguntar:

1. QUE É A "NOVA ERA"?

O autor assim abre o seu capítulo 1:

"Desencorajador! Este fot o adjetivo que demos a um ¡menso quebra-cabeca que


escothemos. certo feriado, dentro do armario cheio dejogos...

Quando, no verSo de 1987, planejei escrever um livro que fizesse sentido acerca
do amorfo movimento da Nova Era, isso tambán pareceu-meurna tarefa desencoraja-
dora. Havia tantas pecas e pedacinhos. Havia fron tetras incertas. Havia sempre novas
esferas de atividade. Havia um elenco giratorio de personagens...

Apesar de estar tao em moda, é muito difícil definir a Nova Era, pois suas fron-
teiras sá~o imprecisas. Tratase de um caleidoscopio sempre em mutacao de 'crencas,
hábitos adquiridos e rituais', conforme a revista Time observou com razio em seu arti
go de fundo da edicao de 7 de dezembro de 1987. New Age Harmonies" (pp. 15-17).

0 autor assim esboca o que seja Nova Era: é um amalgama ou urna confluencia
de varias correntes de pensamento heterogéneas, que tém ao menos um fio condutor
comum: a recusa, um tanto confusa e irracional, do pensamento e dos valores conven
cional, em favor de certas posturas teóricas e práticas novas (novas, porque "prove
nientes do além" ou do aprofundamento de elementos misteriosos). Daf a expressáo
"Nova Era". Mais precisamente: estaríamos na transicSo da Era de Peixes (era coloca
da sob o signo de Peixes) para a Era de Aquário ou Aguadeiro (jovem que traz um cán
taro de agua que ele vai derramar em sinal de bincao, conforme o Zodíaco e a Astro-
logia).

E quais seriam os elementos que confluem na Nova Era? — Podemos recensear


sete deles.

1.1. O Pensamento Hindú

Predomina ñas expressSes da Nova Era o hindúfsmo, muito voltado para a místi
ca e o invisível - o que corresponde a um anseio dohomem ocidental; varios mestrés
budistas tém feito escola no Ocidente, como também muitos cidadüos ocidentais tém
ido procurar na India alguma resposta para as suas aspiracoes.

0 hindú fsmo tem duas grandes notas características: o panteísmo e o reencarna-


cioniímo. O panteísmo identifica a divindade, o homem e o mundo entre si. Essa ¡den-
tificacSo condiz bem com o holismo, concepcao filosófica subjacente a muitas teses
da Nova Era: holon, em grego, significa todo; a Nova Era entende que todas as coisas
formam um só todo (holon). Este principio retorna freqüentemente nos escritos da
Nova Era:

195
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

"O antigo paradigma que divide, separa e ana/isa, precisa de ser descartado — até
mesmo apagado de forma terminante — para que se/a aberto espaco para a nossa supos-
ta unidade entre a realidade e o divino. Tudo é Uno; Deus é Tudo. e Tudo é Deus. A
humanidade é endeusada, a morte é negada, e a ignorancia — e nSo o mal — passa a ser
o inimigo" (p. 37).

A crenca na reencarnado é corolario lógico do panteísmo: se nao há Deus distin


to do homem e Salvador, é a própria criatura que se deve salvar... e ela o faz mediante
duas ou mais encarnacoes, necessárias para que se desvincule totalmente do apego das
pabcoes.

1.2. A Comunicacáb com os Morios

Chama-se, na Nova Era, "canalizarlo" a comunicacáo com os mortos;.os mé-


diuns sao "canalizadores" ou "cañáis". Estes poem-se em transe para poder entrar em
contato, como dizem, "com algum espirito, mestre desencarnado, habitante de outro
planeta ou mesmo com algum a entidade animal altamente evoluída" (p. 99).

As canal¡zacoes incluem a psicografia; poesía e pepas musicais sio assim captadas


do "fundo mental" dos mestres, como dizem. — Entre os cañáis de grande renome está
o brasileiro Luiz Antonio Gasparetto, que dirige um Centro Espirita para os pobres em
Sio Paulo e leva ao ar um programa semanal de televislo, durante o qual diz receber
cinqüenta artistas, "mestres amigos": Renoir, Picasso, Goya, Van Gogh e Toulouse-
Lautrec.. . Estes misturariam as tintas, as poriam ñas máos de Gasparetto, movimenta-
riam rápidamente os seus bracos e mSos sobre o papel ou a tela... É também canal de
grande fama o pastor protestante Neville Rowe, engenheiro eletricista formado, que
serve de canal para Golfinhos e também para Soli, um habitante de planeta distante das
Pliiadesl

Nossa Senhora do Rosario estaría falando através de Verónica Leuken, urna cató
lica ultra-tradicionalista. A Virgem SS. teria revelado que o Pe. Teilhard de Chardin
S.J. (1"I955) se acha no inferno e que o presidente John Kennedy está no purgatorio
"por nao ter manuseado direito acrise dos m foséis em Cuba" (p. 102). -

"Os protestantes conservadores geralmente identificam as entidades canalizadas


com maus espfritos ou demonios. De acordó com este ponto de vista, as entidades sSo
reais, mas mentem para as pessoas" (p. IOS).

Há, porém, quem julgue que "os médiuns estilo ludibriando propositalmente os
seus clientes, a fim de obterem fama ou lucro ou ambas as coisas" (p. 106).

1.3. Objetos Vo ad ores e Inteligencias Extra-Terrestres

É parte integrante do amalgama da Nova Era a aceitaclo de discos voadores


(OVNI) e de seres extra-terreestres (ETs).

"Os americanos sSo desesperadamente curiosos de coisas como os objetos voado


res nSo identificados (OVNI) e as Inteligencias Extra-terrestres (IETs)" (p. 1W).

196
"COMPREENOENDO A NOVA ERA"

Um médium da Nova Era, Darryl Anka, 'afirma que foi o primen o a detectar
Bashar, um ser extra-terrestre proveniente da constelacSo de Orion, quando ele (An
ka) e alguns amigos puderam ver físicamente, em plena luz do día. de perto, a nave de
Bashar sobre Los Angeles" (p. 111).

"Ruth Norman, de oitenta e seis anos de idade, a quem o People's Weekly cha-
mou 'a grande dama dos espfritos da Nova Era', éproprietíria desessenta e sete acres
ñas imediacoes de San Diego da California, onde, no ano de 1002, ela espera queater-
ríssem trinta e tres espaconaves interligadas, cada qual trazendo mil habitantes de ou-
tros planetas, inaugurando assim a era de UNARIUS (Universal Articúlate Interdimen-
sional Understanding of Science,/" (People Weekly, 26/01/1987, p. 31).

"No livro Out on a Limb, Shirley MacLaine "vé' veículos cheios de seres extra-
terrestres. Esses estarían) mencionados no livro do Éxodo, quando 'o povo hebreu saiu
do Egito e atravessou o Mar Vermelho' (14,19-22); e também percebe urna espaconave
na visao das rodas do profeta Ezequiel (Ez 1-10)" (p. 111).

"Urna pesquisa da Gallup, feita em 1987, mostrou que 50% dos americanos acre-
ditam na existencia de discos voadores — a mesma proporcSb dos que créem que os se
res extraterrestres sáb reais — e urna em cada dezpessoas disseram que ¡á tinham visto
algo que pensavam ser algum 0 VNI" (p. 112).

"Os filmes de Stephen Spielberg, como E.T. e Encontros do Terceiro Grau tém
fomentado a chamada ufologia (estudo sobre os objetos voadores nao identificados),
onde os visitantes do espaco exterior sáb sempre tipos amigáveis, sabios e benévolos.

Mas os relatos de seres malévolos também tém aparecido aos montSes. O livro
Communion, do escritor de fantasías Whitley Strieber, esteve entre os títulos mais
vendidos no verSo de 1987. A sinistra estaría, que Strieber insiste ser veraz, éseu rela
to de ter sido seqüestrado para o interior de urna espaconave por urna horda de aliení
genas com 90 cm de altura" (p. 112).

George King, o inglés que é a luz orientadora da Sociedade Aetheríus, sediada


em Los Angeles, afirma ter entrado em contato com o "Mestre Jesús" e com urna mul-
tidao de inteligencias espaciáis. E prediz que um "Novo Mestre" vira "em breve e pu
blicamente em um disco voador" (p. 115).

"Também há o culto Bo and Peep, algumas vezes chamados de 'Os Dois'. Em


meados da década de 1970, essa misteriosa dupla pmclatnou que, para escaparem da
vindoura catástrofe, os crentes precisavam vender tudo, abandonar seus familiares e
amigos e nSo se desgrudar de Bo and Peep, até que espaconaves, descendo a Térra, su-
gassem-nos todos para a seguranca em um redemoinho astral" (p. 115).

"Alguns grupos protestantes conservadores acreditam que os contatos com os


OVNIs e com as lETs sao causados pela atívidade demonfaca (a mesma explicacSo que
oferecem quanto as entidades canalizadas) — aquilo a que o observador de seitas, David
Fetcho, se referiu, ao falar em esp fritos demoníacos que obtiveram o poder de realizar
materializacOes reais no terreno físico" (p. 117).

197
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

1.4. Medicina Alternativa

A Nova Era fala de "saúde holfstica", ou seja, a saúde queenvolve todoohomem


em seus aspectos físico e espiritual. O pressuposto aquariano do holismo aplica-se tam-
bém a este setor, e leva a crer que as doencas tém fundo psíquico, devendo-se a falso
acumulo de energías; conseqüenternente, podem ser curadas pela sugestSo, por place
bos e pela emissSo de energías saudáveis.

"De acordó com a medicina oriental, a dor é entendida nSo como um síntoma,
mas como um acumulo de energía em algum local do corpo, energía essa que, se for
corretamente redistribuida, poderá restaurar a saúde e equilibrar hamonicamente o
corpo. A energía - energía psíquica - corrige ou equilibra as incorrecdes orgánicas"
fp. 206s).

"A acupuntura e suas terapias correlatas da acupressao fshiatsuj e da reflexote-


rapta tamben fazem uso da arenca de que o fluxo da energía pode ser rediredonado
para que ha/a um equilibrio de energías curativas, ou mediante a insercSb de aguífias
(acupuntura) ou por meio da aplicacSo depressáb {acupressSó e reflexoterapia) a pon-
■ tos específicos do corpo" (p. 207).

Além disso, varias outras táticas s3o aplicadas pela medicina holfstica:

— a reflexoterapia, que, efetuando massagens sobre pontos precisos dos pés, pro-
duz rápido alivio ñas partes do corpo em que isto se faga necessário;

— a iridologia ou disgnóstico da Cris: o olho, sendo o espelho da alma, a observa-


cao da iris pode detectar o que está errado na vesícula biliar ou em qualquer outro ór-
gao do corpo;

— a leitura da aura ou dos campos coloridos eletromagnéticos etéreos que cir-


cundam o corpo humano; disto se segué a massagem correta, a terapia pelos aromas,
pelas cores, pelos cristais, pelas vestes.'.. destinados a restaurar a vibracSo correta do
organismo;

— a ioga, a massagem de Rolfingpretendem expelir as energías negativas acumu


ladas no corpo físico;

— vitaminas, sais m¡rierais, dieta vegetariana, remedios homeopáticos "formam


raios adicionáis da bem azeitada roda holfstica da saúde. Essa revolucJo tem produzido
para a nacSo norte-americana mais de seis mil lojas de alimentos naturais, com vendas
calculadas em tres bilhoes e trezentos milhoes de dólares somente no ano de 1987"
(p. 209);

— a cirurgia psíquica ou por "médicos do espaco" tam bém é praticada;

— o recurso aos placebos ou ingredientes neutros, que sugestionam o paciente pa


ra que se sinta melhor ou curado:

"O Dr. Wayne Oates, professor e autor, publicou os resultados de treze estados
sobre pacientes onde um grupo de pacientes com dores crónicas recebeu apenas pf-

198
"COMPREENDENDO A NOVA ERA"

lulas apicaradas, enquanto outro grupo recebia medicacSo para aliviar as dores. Trinta
e cinco por cento dos pacientes que nao tomaram remedios, tiveram um alMo de, pelo
menos, metade da dor, porquanto tinham acreditado que estavam recebendo os medi
camentos certos" fp. 212).

"O psicólogo de Nova lorque, Larry LeShan, conta acerca de urna mulher que
Ihe telefonou pedindo que realizasse urna cura a longa distancia naqueia noite. No día
seguinte, ela tornou a telefonar e disse que seu alivio havia sido ¡mediato. Mas LeShan
esquecera-se de efetuar a cura!" (p. 212).

Até mesmo o cincer é tratado holisticamente. "Mediante o relaxamento, a medi


tado e a visualizado, há quem jglgue que a imaginado ativa do paciente pode por em
acSo o sistema ¡munológico do corpo a fim de destruir até mesmo os mais generaliza
dos tumores malignos" (p. 211)

'"Esforce-se por retratar mentalmente o cáncer', diz a voz do doutor em urna fi


ta gravada usada para instruir os pacientes. 'Imagine as células brancas do sangue
de seu corpo - um vasto exército que foiposto atipara eliminar as células anormais...
Veja esses fagocitos atacando as células cancerosas e levando-as para fora... Veja como
o cáncer está encolhendo.. . Veja como vocé está cada vez mais bem sintonizado com
a vida'" (Jonathan Kirsch, Can Your Mind Cure Cáncer? em New West Magazine,
3/01/1977,p.40).

1.5. Gnosticismo

Gnosticismo é urna corren te filosófico-religiosa que data dos sáculos IN/rV d.C.
e que se vem propagando, sob modalidades diversas, até nossos dias. Tem por base a
conviccao de que o conhecimento (gnosis) salva ohomem; trata-se, porém, deum co-
nhecimento oculto, reservado aos iniciados; quem o consegue, faz parte de urna élite,
que é muito superior ao comum dos homens:

"A premissa da Nova Era é que o conhecimento ou gnosis 6 a chave para sermos
despeños de nossa ignorancia da divindade. Osonotento '«/ superior'pode ser desper
tado. A criacao e a humanidade simplesmente sáb 'e/evadas'a um nivel divino,\através
da transformado pessoal" (p. 37).

"É inequívoca a influencia gnóstica sobre o pensamento da Nova Era. conforme


os seus líderes reconhecem livremente. O gnosticismo, que foi reputado urna heresia
pela Igreja crista" primitiva, assevera que os seres humanos estao destinados á reuniao
com a essencia divina de onde brotaran). Aqueles que estío 'no saber' (significado li
teral de gnosisj 'entendem que o homem é divino, que a sua origem e destino divinos
sepáramelo do resto da criapéo e que nao há limites aos seus poderes. A própria morte
éurna ilusSo', explica o notávelhistoriador Christopher Lasch" (p. 53).

1.6. Cristianismo

Também aparecem no conjunto das correntes da Nova Era elementos de Cristia


nismo. Jesús Cristo, por exemplo, é ai reconhecido como um avatar ou urna especial

199
8 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

manifestacáo da Divindade; deverá aparecer no mundo com o nome de Maitreya, dan


do inicio á Nova Era ou á de Aquário. Os adeptos desta corrente pretendetn criar "urna
eclética religiáo mundial, que se assemelhe de perto aos sistemas religiosos do Oriente
e nao ás crencas monoteístas ocidentais" (p. 38).

Este caráter eclético da Nova Era explica que tal corrente nao tenha urna chefia
única, uma organizacao central e urna sede de governo permanente.

"Ninguém fala pela inteira comunidade da Nova Era, disse Jeremy P. Tarcher,
porta-voz de uma firma de Los Angeles que publica livros da Nova Era. 'Dentro do mo-
vimentó nSb ha unanimidade sobre como defini-lo. nem há uma coesao significativa que
nos permita chamá-lo de movimento' (TJew Age as Perennial Philosophy, em Los An
geles Times Book Review, 7/02/1988.p. 15)" (p. 31).

1.7. Concepcoes Políticas

A Nova Era, segundo a sua visao holística do mundo, quer unificar politicamente
os povos da Térra; consoante esse modo de ser, "tornar-se-iam obsoletas as fronteiras
nacionais. Assim, a agenda da Nova Era requer uma emergente civilizacSo mundial e
um único governo central, ¡ncluindo ¡m pos tos planetarios e as NacSes Unidas como a
única agencia central de governo" (p. 38).

Essa unificaclo é baseada no pressuposto de que "os seres humanos estao fican-
do cada vez melhores, numa ordem bem mais elevada e ¡nterligada" (p. 242).

"Satín propoe um sistema de orientacao planetaria tSo completo que incluí até
mesmo um servífo de taxacao para a/udar a redistribuir riquezas ás nacdes mais pobres.
Em seu modelo político, nao há lugar nem para o socialismo nem para o capitalismo —
esse tipo de questdes deveria ser decidido pelas comunidades locáis — mas antes uma
economía orientada para a vida, composta principalmente de empreendimentos de es
cala humana" (p. 249).

S3o estes os principáis traeos de pensamento e ac3o que convergem para formar
o amalgama da Nova Era. Vé-se que está Ion ge de ser uma mensagem unitaria; por ter
muitas facetas (nem sempre compatfveis entre si), pode recrutar adeptos dos mais di
versos tipos.

2. EXPANSÁO DA NOVA ERA

"A Nova Era realmente tem influenciado cada faceta da vida contemporánea.
Seus propagandistas e su as crencas geralmente slo visfveis em nossos aparelhos de tele-
vislo, no cinema, em horóscopos impressos ou em lojas locáis de alimentos na turáis.
Até mesmo programas esportivos e de ginástica, de treinamento,de motivacao,de acón-
selhamento psicológico e de aulas religiosas servem de cañáis freqüentes para as nocSes
da Nova Era...

Trinta e quatro milhoes de cidadSos americanos estao interesados no desenvolví-


mentó interior, incluindo o misticismo, de acordó com a SRI Internacional, uma orga-

200
"COMPREENDENDO A NOVA ERA" 9

nizacSo de pesquisa de opiniSo pública em Menlo Park, Estado da California... Quase


metade dos adultos norte-americanos (42%) atualmente eré que estiveram em contato
com alguém que já havia morrido — em urna pesquisa nacional anterior, onze anos
atrás, essa taxa era de 27%" (p. 21).

"Cerca de sessenta milhoes de americanos — cerca de um em cada quatro — agora


acreditam na reencarnado, urna das doutrinas-chave da Nova Era; e 14% endossam o
trabalho dos médiuns espiritas, ou seja, aqueles que na Nova Era, de modq geral, sá"o
conhecidos como 'canalizadores de transes'" (p. 22).

"Em maio de 1988, a mfdia transbordou de relatórios - baseados sobre revela


res de um livro escrito pelo ch'efe de pessoal da Casa Branca, Donald T. Reagan, -
onde é dito que o Presidente e a Sra. Reagan muitas vezes liam previsoes astro
lógicas e que Nancy Reagan consultava astrólogos para ajudá-la a determinar o itine
rario das atividades e das viagens de seu marido.

Urna pesquisa da Nothern Illinois University também anunciou que mais da me


tade dos americanos pensa que seres extraterrestres tém visitado a Térra, urna crenca
corrente em muí tos círculos da Nova Era" (p. 23).

Examinemos agora

3. ORIGENS E EXPANSÁO DA NOVA ERA

O surto da corrente eclética dita "Nova Era" foi preparado de perto pela teoso
fía, escola de pensamento hindú fundada pela Sra. Helena Blavatsky <T1891) e desen
volvida por Annie Besant (T1933). A Sra. Alice Bailey (T1945) pos a m3o final nessa
heranca oriental.

"Parece que quem cunhou o nome 'Nova Era' foi Alice Bailey, o qual é usado
reiteradamente em seus escritos. Mas a grande popularidade da expressSo aconteceu
somente depois que a 'Nova Era' foi associada á música título do musical de 1960.
Hair, designada 'Age of Aquarius'" (p. 57).

Nos Estados Unidos o desencadeamento do processo se deu em 1971, quando


alguns impressos comecaram a ser difundidos juntamente com práticas alucinógenas.

"Pesquisas de ámbito nacional, feitas pela ¡organizado Gallup, corroboram as


descobertas de Greeley: as experiencias paranormais e as crencas nos pressupostos da
Nova Era estío em ascendencia, fazendo da Nova Era o sistema alternativo de crencas
de mais rápido crescimento no país, de acordó com os novos pesquisadores de assuntos
religiosos, Bob e Gretchen Passantino. Urna pesquisa de levantamento de opiniSo pú
blica, feita em 1978, indicou que dez milhSes de americanos estavam ocupados em al-
gum aspecto do misticismo oriental e nove milhdes em curas espirítuais... E essa mes-
ma organizacSo descobriu que, entre 1978 e 1984, a crenca na astrologia subirá de 40%
para 59% entre as criancas em idade escolar" (p. 22).

201
JO "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

4. REFLETINDO...

4.1. Porque Acontece o Fenómeno Neo-religioso?

1. Embora conste de correntes de pensamento variadas, a Nova Era, em seu áma


go, vem a ser a rejeicao do pensar filosófico e religioso tradicional para dar lugar a con-
cepcoes e práticas novas, um tanto misteriosas e irracionais; daC o adjetivo Nova que
qualifica a fase de tempo (Era) aguardada para breve ou para a época subseqüente ao
signo de Peixes no Zodíaco. A resposta de Nova Era aos anseios do homem tem um
qué de fantasioso e mágico, pois se deriva de foreas ocultas e de comunicacoes do alérh.

Este fato leva a refletir seriamente. O senso religioso dos homens ocidentais nao
se extinguiu, como proclamava a Teología da mor te de Deus na década de 1960, mas
vai procurar em fontes novas, pouco lógicas, a sua mensagem.

2. Que terá acontecido nos nossos países ocidentais, geralmente bercados pelo
Cristianismo? — Sejam ponderados os seguintes fatos:

a} O sáculo XX foi certamente urna era convulsionada; marcada por duas guerras
mundiais (1914-18 e 1939-1945, respectivamente), das quais a segunda causou 55 mi-'
Ihoes de mortes; até hoje sentem-se as conseqüencias da grande desordem assim acarre-
tada (tenham-se em vista as lutas na ex-lugoslávia e na ex-URSS). Seguiu-se a descolo-
nizacao na África e na Asia, com os conflitos da ídecorrentes a repercutir também no
Ocidente (migracao de africanos e asiáticos para a Europa e a América). Mu i tas espe-
rancas desfizeram-se, muitos valores desmoronaram, muitas pessoas foram, e estío
sendo, deslocadas.

b) Simultáneamente, vem-se registrando enorme progresso científico e tecnoló


gico. Se, de um lado, este é um fato positivo e alvissareiro, de outro lado acarreta cer-
to desatino e perplexidade;: a máquina é preferida ao homem, que sofre o desempre-
go em proporcoes avultadas; a máquina também ameaca o homem, pois Ihe pode cau
sar catástrofes dolorosas, se manipulada contra o homem. A ciencia pode tornar-se sel-
vagem para o homem; tenha-se em vista o que ocorreu na Genética: novas e novas ex
periencias reduzem o embriSb humano ao nivel de coisa, que é produzida artificial
mente e destruida quando nao tem valor pragmático; os criterios da ciencia definem
quem há de viver e quem há de morrer.

c) A corrida aos bens materiais na Europa e na América contribuí para "achatar"


o homem. O materialismo sufoca o senso místico natural ou congénito de todo ser hu
mano.

d) A córreme existencialista iniciada por Soren Kierkegaard (11855) tem lanca-


do o descrédito sobre a metafísica e os valores perenes e transcendentais. Um certo
antiintelectualismo no tocante á Etica, ao Oireito e á Religia'o progride ao lado do inte-
lectualismo das ciencias exatas; os sen timemos e as emocoes subjetivas prevalecem so
bre o raciocinio e a lógica objetiva. "Cada um na sua verdade ou Ética" é um adagio
popular bastante disseminado, que bem exprime o subjetivismo de certas concepcoes
relativas ao homem e ao seu destino.

202
"COMPREENDENDO A NOVA ERA"

e) Verifica-se que até mesmo o Cristianismo clássico foi atetado pelas ondas do
pensamento moderno no que este tem de negativo: o secularismo ou urna predomi
nante preocupado com as estruturas témpora¡s (sociais. económicas e políticas) des-
te mundo contribuiu para esvaziar o Cristianismo dos seus valors mais típicos ou dos
seus aspectos transcendentais. A "teología da morte de Deus", também dita "Cristia
nismo sem Deus" ou "Cristianismo arreligioso", proposta por autores das décadas de
1940-1960 (Dietrich Bonhoeffer, Harvey Cox, John Robinson, Altizer, van Burén...),
embora já tenha feito sua onda, deixou marcas; estas se refletem ainda ñas modalida
des extremadas da Teología da Libertado, que persiste até nossos dias, colocando em
eclipse a auténtica mística crísti, para enfatizar proposicSes e realizares de ordem
material.

Em conseqüéncia, um certo relativismo e um reducionismo cristológico e eclesío-


lógico tlm tornado anémicos o anuncio do Evangelho.

3. Estes fatores conjugados entre si provocam um grande vazío dentro do no-


mem ocidental. Todo ser humano precisa, ¡ncoercivelmente, de saber por que e para
que vive. Ora, somente a fé religiosa pode responder cabalmente a estas questSes.

Coi.'preende-se entSo que o senso religioso ¡nato do homem procura abastecer


se em fontes nao tradicionais, concebidas de modo confuso, irracional e fantasioso;
Buda, Maitreya, Moon ou "um outro Jesús" slo chamados a preencher a lacuna do
coragao humano, numa tentativa mais ou menos cega de satisfazer as aspirapóes deste.
Um gurú, um líder "car¡smático", um "profeta"... proporcíónam aparente seguranza
ou firmeza as pessoas inquietas. Novas comunidades oferecem acolhida e calor humano
aos desesperanzados. Estes julgam encontrar assim a soluc3o para os seus anseios.

Perde-se freqüen temen te a consciéncia de que a fé é um ato da inteligencia hu


mana (nao um ato cegó ou emocional) e, por isto, deve estar apoíada em credenciais
ou em motivos de credíbilidade (eu tenho que procurar saber inteligentemente por que
hei de crer nisto ou naquilo e n3o naquílo outro). O pulular de novos movimentos reli
giosos e seitas daí resultante levava André Malraux a escrever: "O problema capital do
fim do sáculo XX será o problema religioso".1 Este fenómeno, sem dúvida, revela a di-
mensSb religiosa perene do ser humano, mas é muito mais a recusa da irreligilo do que
a afirma<?3o da fé no sentido pleno desta palavra; é a atitude de quem rej'eita ser consi
derado como su jeito de parámetros da economía, explicável pelo intercambio entre
producao e consumo; parece ser mais um protesto (quigá modista) do que a restaura-
cao da auténtica atitude religiosa (esta, para ser plenamente humana, deve contar com
o apoío e a colaboracüo da inteligencia); é um síntoma da inquietado do homem que
perdeu o seu Norte e se senté angustiado porque aínda atraído por Ele sem saber onde
O encontrar; tal síntoma é, sem dúvida, sadio, mas ainda rudimentar ou incompleto.

Pode-se notar, outrossim, que, por vezes, o senso religioso se transiere para o cul
to de valores meramente humanos tidos como sagrados ou quase sagrados: osdireitos

1 Citado por Jean Vernette, no artigo "Sectes et Gnose. Néo-paganisme et Nouve/le


ñeligiosité. Le déplacement actuel des phénoménes religleux. question posee aux
Eglises", na revista "Esprit et Vie", 63/1986. p. 130.

203
12 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

do homem (em lugar dos direitos de Deus), a conservado da na tu reza cu a ecología


(com a veneracao da MSe-Terra), as reivindicacoes da Amnesty Internacional e o culto
á raga...

É ¡nteressante o comentario que Jean Vernette faz ao pulular religioso de nossos


días:

"O atrativo das novas gnoses e o fascfnio do maravilhoso revelam o pánico de


urna sotiedade altamente industrializada que se tornou incapaz de oferecer um sentido
da existencia apto a convencer os homens.

Traduzem a necessidade de crer, mesmo em pessoas formadas na mentalidade ci


entífica. A astrologia seduz, porque parece apoiar-se sobre leis científicas... As eren-
cas otológicas apoiam-se sobre fatos tidos como seguros; o espiritismo parece ter um
suporte experimental.

Todavía, essas modalidades de crer nSo tém a firmeza de urna fé consistente. Por
exemplo, a astrologia liberta da angustia existencia! porque parece oferecer certo do
minio sobre o futuro. Mas, dado que as previsdes nao sao sempre garantidas com cer
teza, as pessoas acreditara e nao acreditan) netas. Um traco de flou ou vago caracteriza
esse tipo de religiosidade" (art. citado, Esprit et Vis, 13/03/86, p. 150).'

Pergunta-se agora:

4.2. Que Fazer? Como Responder?

O Papa Paulo VI afirmou que o Espirito Santo fala, as vezes, pelos ateus. Por que
nao estaría falando através do vasto surto religioso, um tanto emotivo e ilógico, de nos-
sos dias?

Na base desta premissa, podemos dizer que a religiosidade arden te de nossos tem-
pos nao deve ser menosprezada, como se fosse urna onda vazia, mas há de ser tida co
mo um apelo da sociedade contemporánea aos fiéis católicos. 0 Evangelho conserva
hoje a forca e a capacidade de atrair que tinha nos primeiros sáculos: perseguido pelo
Imperio Romano, conseguiu vencer as pressoes sem ter dinheiro nem armas, mas única
mente pelo poder de conviccao da verdade; a beleza da mensagem cristS calou fundo
no coracao dos homens pagüos, a tal ponto que Tertuliano (t220)escrevia: "A alma
humana é naturalmente crista".

Em nossos dias, portante, o Evangelho, vivido durante quase vinte sáculos pela
Igreja de Cristo, há de poder responder aos anseios do homem moderno. Pergunta-se,
porem: será que os cristios créem no valor e na "loucura" do Evangelho, como as pri-
meiras geracóes acreditavam? NSo faltará aos fiéis católicos a tempera convicta e cora
josa que animava os amigos cristSos? O fenómeno religioso fervilhante e desorientado
de nossos tempos nao será o indicio de que existe urna lacuna no coracao dos homens,
que somante a Igreja pode preencher? 0 homem de hoje é sequioso do Transcendental,
como os pagSos eram sequiosos; nao estará faltando quem comunique a esses irmSos
a Palavra que Deus revelou precisamente para atender aos anseios de todo homem?

1 Verpp. 207-298 deste fascículo (N. da RJ.

204
"COMPREENDENDO A NOVA ERA" 13_

Imp5e-se, a quanto parece, a resposta positiva a estas perguntas; é forcoso reco-


nhecer que os fiéis católicos poderiam ser mais ardorosos na transmiss3o da mensagem
que eles receberam de grapa para comunicar de grapa Donde deduzimos as seguintes
conclusoes:

1) Faz-se mister anunciar o Evangelho - o que, alias, sempre foi um dever dos
fiéis católicos. Eis, porém, que as circunstancias atuais o exigem com tres modalidades
importantes:

— na integridade da fé católica. Nao haja receio de expor as verdades atinentes á


Eucaristía, ao pecado e ao sacramento da Reconciliacáo, ao Papa, aos novísimos...

— com seguranca e firmeza (o que nao quer dizer em atitude polémica ou agressi-
va). O homem moderno estima conviccoes sólidas e corajosas. Nao basta falar, mas é
preciso falar com persuasSo. Sao Paulo nao recorría aos artificios da retórica quando
pregava e escrevia, mas exprimia-se com o calor de quem sabe o que diz e ama a verda-
de proferida; isto o tornou o grande arauto da mensagem crista;

— de maneira que toque nao só a inteligencia, mas também os afetos e os anseios


do ser humano. É preciso saber falar ao coragao do homem, já que hoje as emocoes e
os sentimentos desempenham importante papel na vivencia religiosa.

2) Faz-se necessário cultivar e expor também o aspecto místico da vida cristS. A


experiencia de Deus se faz na oracao e pela oracao. O mundo de hoje procura lugar
de silencio e retiro, onde a pessoa se recomponha da vida dilacerada e agitada que leva.
O catolicismo tem bela tradicao mística, codificada ñas obras de mestres famosos: car
melitas, ¡nacíanos, beneditinos. . . É para desejar, porém, que nSo se confundam esta
dos psíquicos paranormais ou anormais com dons m ísticos ou gracas de cracao; em vis
ta disso, é preciso que se enfatize o papel da inteligencia e do raciocinio no progresso
espiritual; a fé nao é sentimento cegó, mas é um ato da inteligencia movida por creden-
ciais ou por motivos que justifiquem lógicamente o ato de fé.

O antiintelectualismo de mu ¡tas pessoas religiosas nSo condiz com a realidade


da mensagem católica. Esta interpela o ser humano como tal ou como criatura inteli
gente e pensante. Quanto mais estudado é o Evangelho, tanto mais saboroso e atraente
se torna.

3) Espera-se dos fiéis católicos um testemunho nao só de palavras, mas também


de vida.Urna conduta indefinida ou ¡ncoerente anula os efeitos da pregacao. O secula-
rismo é morte para o Cristianismo; Deus há de ser manifestado com toda a lucidez por
quem nele eré.

O fiel católico que se dispuser a tal testemunho, entregará a Deus a frutif¡cacao


dos seus esforcos, de acordó com a Palavra do.Apóstolo: "Eu plantei, Apolo regou,
Deus deu o crescimento" OCor 3,6). De resto, a experiencia ensina que, onde há vi
vencia plena do Catolicismo a se irradiar em zelo pastoral assíduo, as pessoas deixam
de ser atraídas por seitas e novos movimientos religiosos, pois a sua sede de Deus e do
Absoluto Ihes é adequadamente saciada.
* * *

205
U "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"384/1994

APÉNDICE

Á guisa de complemento, yaj aquí publicado um trecho de carta escrita por SIo
Francisco Xavier (1506-1552), rhfssionáricrnílndia, a S. Inácio de Loyola:

"Percorremos as aldeias de neófitos, que receberam os sacramentos cristaos, há


poucos anos. Esta regiSio nao é cultivada pelos portugueses, já que é muito estéril e po
bre; e os cristSos indígenas, por falta de sacerdotes, nada sabem a n3o ser que $5o
cristaos. Nao há ninguém que para eles celebre a Acao divin. ninquém que Ihes ensine
o Símbolo, o Pai-nosso, a Ave-Maria e os mandamentos da Le, de Deus.

Desde que aqui cheguei, nao parei um instante: visitando com freqüéncia as al
deias, lavando na agua sagrada os meninos ainda nao batizados. Purifiquei, assim, gran-
díssimo número.de criartcas que, como se diz, nao sabem absolutamente distinguir en
tre a esquerda e a direita. Estas criancas nao me permitíam recitar o Oficio Divino
nem comer nem dormir, enquanto nao Ihes ensinasse alguma oracao- foi assim que co-
mecei a perceber que destes é o reino dos céus.

A vista disso, como nao podia, sem culpa, recusar pedido tSo santo, comecando
pelo testemunho do Pai, do Filho e do Espirito Santo, ensinava-lhes o Símbolo dos
Apostólos, o Pai-nosso e Ave-Maria. Observei que sa*o muito inteligentes, e, se houvesse
quem os instruisse nos preceitos cristSos, n3o duvido de que seriam excelentes cristaos.

Nestas paragens, sá*o muitfssimos aqueles que'nao se tornam cristios, simples-


mente por faltar quem os faca tais. Veio-me muitas vezes ao pensamento ir pelas Aca
demias da Europa, particularmente á de Paris, e por toda parte gritar como louco e sa
cudir aqueles que tém mais ciencia do que caridade, clamando: 'Oh I como é enorme o
número dos que, excluidos do céu, por vossa culpa se precipitam nos infernos)'.1

Quem dera que se dedicassem a esta obra com o mesmo ¡nteresse que as letras,
para que pudessem prestar coritas a Deus da ciencia e dos talentos recebidosl

Na verdade, muitos deles, impressionados por esta idéia, entregando-se á medita-


cao das realidades divinas, talvez estivessem mais preparados para ouvir oque Deus di
ría neles; abandonando as cobicas e ¡nteresses humanos, se fariam atentos a um aceno
da vontade de Deus. Decerto, diriam de coracao: 'Senhor, eís-me aqui; que queres que
eu faca? Envía-me aonde quec que for de Teu agrado, até mesmo á india'".

Esta carta bem ¡lustra o senso religioso ¡nato do ser humano e o zelo apostólico
domissionário. Conserva sua atualidade.

/ A Teología, em nossos días, reconhece que aspessoas que de boa léprofessam urna
crenca nSo católica (até mesmo pagS) ¿So julgadas por Deus segundo a fidelídade á sua
consciencia candida, reta e sincera, e náb segundo os parámetros do Evangelho, que
nSo Ihes fol dado ouvlr. Cf. ConstltuicSb do Vaticano II "Lumen Gentíum", n° 16.
(Nota do Editor)

206
Quem diría?

HORÓSCOPO DIMINUÍ DURAQÁO DA VIDA

Em síntese: importante pesquisa realizada entre a populacao de origem chinesa


residente na California (USA) levou á conclusao do que os chineses que créem ñas sen-
tencas do horóscopo chinés (um pouco diferente da astrologia.ocidentalj tém a sua vi
da abreviada. A razao disso estaño fato de que o horóscopo chinésprédiz ao individuo
o seu provável tipo de molestia mortal e a data aproximada em que deverá ocorrer o
óbito. Ora, quem acredita nisso, se sugestiona, julgando-se condenado a inevitível fa
talidade, e perde as resistencias físicas e psíquicas que Ihe seriam necessárias para supe
rar as dificuldades da vida. A explicacao pela mera sugestSo é)confirmado pelo fato de
que os nao chineses da California que nasceram sob o mesmo signo que os chineses sáb
mais longevos do que os concidadaos adeptos do horóscopo chinés. '

* * *

A revista Science et Vie, de Janeiro 1994, pp. 6Os, apresenta um artigo de Gérald
Messadié intitulado "Les Preuves que les horoscopes abrégent la vie" (As Pravas de que
os Horóscopos abreviam a Vida). Esta afirmacSo, por mais surpreendente que seja, re
sulta de urna pesquisa feita em San Diego (California, USA) junto a 28.000 cidadlos de
origem chinesa. Vejamos em que consistiu.

1.0 FENÓMENO

Os chineses ou descendentes de chineses residentes na California conservam gran


de estima por suas tradicBes, entre as quais a do horóscopo chinés; este, diferente da
astrologia ocidental, parece-lhes ser um valioso produto da sabedoria dos antepassados.
Ora, a astrologia afirma que o destino de urna pessoa é influenciado pelo seu ano de
nasctmento. Cada ano, porém, está associado a um dos cinco elementos da mitología
chinesa: fogo, térra, metal, agua, madeira. Cada um desses elementos, por sua vez, está
associado a órgaos do corpo humano e ás doencas respectivas; assim, por exemplo, os
anos do metal predispQem ás molestias respiratorias nao cancerosas (asma, pneumonía,
gripe. . .); os anos da agua, ás doencas renais; os anos da madeira, aos males do f i'gado;
os anos da térra, aos diversos tipos de cáncer; os anos do fogo, aos disturbios cardíacos
e circulatorios. Por exemplo, já que o fogo é associado ao coraclo, urna pessoa nascida
em 1908, ano posto sob o signo do fogo, é tida como mais vulnerável as molestias car
diovasculares. A astrologia chinesa conhece urna rede muito complexa de relaciona-
mentos entre os anos, os cinco elementos enunciados e os órgaos do corpo humano.

207
J6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

A crenca na astrologia faz que os ch¡rieses aceitem os oráculos do horóscopo co


mo sen tencas definitórias. Além de conjugarem entre si os anos, os cinco elementos bá
sicos e os órgSos do corpo humano, os chineses julgam que cada ano é regido por um
dentre doze animáis, que compoem o bestiario astrológico chinés. Mais: a cada hora do
dia e da noite também corresponde um animal próprio; meia-noite, por exemplo, é a
hora do rato. Donde decorre o seguinte:

Se alguém nasceu em 1908 (que foi um ano do fogo) tende a sofrer disturbios
cardiovasculares, pois o fogo é relacionado com o coracSo. É de crer que, se ainda está
vivo, vá morrer num ano de fogo (o próximo ocorrerá entre 19/02/1996 e
1997). Se nasceu á meia-noite, cada meia-noite desse ano de fogo será altamente peri-
gosa, pois Ihe poderá acarretar a morte. Mais ainda: nesse ano do fogo as meias-noites
de um dos doze meses serao mais ameacádoras do que as outras, porque o animal
do ano tem su a preferencia por determinado mes; donde se segué que o dito individuo
corre serio risco de morrer no mes M de um ano de fogo á meia-noite ou pouco antes.

As estatísticas comprovam o que acaba de ser dito. Nao se conclua daf que, de
fato, os sinais do horóscopo tém influencia sobre a vida de cada pessoa, mas verifica-se
que a sugestao incutida pelo horóscopo (aceito como infalfvel) condiciona as pessoas
e Ihes tira as resistencias psíquicas e físicas necessárias para superar dificuldades e pro
blemas da vida; daí a capitulacao mais pronta e fácil diante dos desafios cotidianos.
Eis aiguns dados significativos:

Os estudos de epidemiologia indicam que as pessoas nascidas em anos de térra


(a térra rege os cánceres, como créem) e atetadas por um cáncer ñas vias digestivas
morrem aos 66,35 anos, ao passo que aqueles cancerosos nascidos em outro ano que
nlo ano de térra, morrem aos 67,46 anos, ou seja, vivem 1,16 ano mais. Quem éafetado
por cáncer linfático, tendo nascido em ano de térra, morre 3,86 anos mais cedo do que
os cancerosos linfáticos nascidos em outro ano. Vé-se assim que quem eré no horósco
po vive menos do que quem nao Ihe dá crédito; perde anos de vida...

A explicacao de tais fenómenos pela mera sugestao é confirmada pelo fato de


que as taxas de mortalidade ocorrentes em populacoes que naoconhecem a astrologia
chinesa sio bem diferentes.

Nao existe estudo correspondente entre os adeptos da astrologia ocidental. Caso


fosse efetuado, poder-se-ia verificar algo de análogo: a crenca no horóscopo influi, ás
vezes, nocivamente no curso de vida de um individuo, ao passo que outra pessoa, nas-
cida sob o mesmo signo, mas indiferente á astrologia, tem um cu rr leu I o de vida mais
tranquilo e inteligente (menos cegó e emotivo).

Reproduzimos, a seguir, urna tabela estatística muito significativa.

208
HORÓSCOPO DIMINUÍ DURAgAO DA VIDA 17

2. UMA TABELA EXPRESSIVA

Idade do falecimento de Idade do falecimento de


chineses cuja doenca chineses cuja doenca
Causa da morte está em sintonía com o nSo está em sintonía com
signo astrológico o signo astrológico
(em anos) (em anos)

Cáncer gastrenterológico 66,35 67,46


Cáncer respiratorio 67,61 69,21'
Cáncer do sei o 60,43 61,07
Cáncer geniturinário 68,51 68,70
Cáncer dos tecidos linfáticos
e da medula 59,72 63,58
Outro tipo de cáncer 61,77 63,01
Diabete 72,79 73,21
Úlcera gástrica 73,75 75,98
Cardiopatia aguda 72,43 73,56
Isquemia crónica 76,08 76,22

Notemos as diferencias de idade mais acentuadas: 3,86 anos nos casos de cáncer
linfático e da medula; 2,23 anos para os casos de úlcera gástrica.

A crenga na astrologia é especialmente nociva ás mulheres de origem chinesa re


sidentes na California. Obsérvele, por exemplo, o óbito por miocardite aguda: aschi-
nesas da California vivem 2,43 anos menos do que as niochinesas. Morrem 9.02 anos
antes do que as nao chinesas nos casos de molestias respiratorias crónicas; e 2,74 anos
antes, nos casos de cáncer.
As mulheres chinesas parecem mais sensíveis ao horóscopo do que os homens
chineses da California, pois estes, em circuntáncias idénticas, vivem um poucomais do
que as mulheres.

Registremos aínda um fato singular.

3. A SEDE DO DRAGÁO
A mentalidade chinesa que associa o tempo e o espapo a animáis, refletiu-se re-
centemente num fato concreto de enorme alcance:
Os chineses descobriram que o arranha-céu] ultra-moderno do Bank of China, em
Hong Kong, fora construido sobre urna "sede de dragao". Com efeito: os chineses nao
constroem sobre qualquer terreno; eles tém que averiguar, antes do mais, se o lugar es-
colhido nao é urna sede de dragoes subterráneos (tal averiguacao se faz mediante adivi-
nhos qualificados). Ora, em Hong Kong verificou-se que o majestoso arranha-céu inco-
modava o dragao sobre cuja caverna ele fora erguida Em conseqüéncia, os diretores do
Banco mandaram executar urna serie de exorcismos expiatorios. Isto, porém, sem pre-
judicar o funcionamento da sofisticada aparelhagem eletrónica do Banco!
Eis a que ponto pode chegar a credulidade humana quando nao orientada pela
razíio. Se o homem é dotado de inteligencia por Deus, deve utilizar esta sua faculdade
também para discernir a auténtica e a falsa Mística. Quem jamáis viu um dragSo? Onde
um zoólogo o classificaria na escala dos animáis? E que arqueólogo jamáis, em suas
escavacoes, descobriu um ninho de dragoes?

209
Propaganda Proselitista:

'O BISCOITO DA MORTE'

Em síntese: Foi publicado um folheto protestante que caricatura a S. Eucaristía


sob o título "O Biscoito da Morte". Quer derivar a Eucaristía de um pretenso mito
egipcio, cu/o herói seria o deus Sol Osiris; os sacerdotes egipcios consagrariam hostias
que se transformavam na carne do deus Osiris, segundo.o autor do panfleto. Ora, tal
mito nao existe; o deus Osiris era um deus que ressuscitava os morios. Ademáis, o au
tor do panfleto ousa dizer que os sacerdotes egipcios chamavam o dito milagre "tran-
substanciado" — o que é totalmente anacrónico, pois transubstanciacao épalavra lati
na composta pelos teólogos da Idade Media, inspirados em categorías de pensamento
grego aristotélico.

0 panfleto^encerra multas outras inverdades, que revelam a ignorancia e a agres-


sividade cega do autor. É de lamentar que um cristao possa recorrer a erros históricos
e a calúnias de tal monta para negar um dos artigos de fé mais enfáticamente contidos
na S. Escritura; as fórmulas "Isto é o meu corpo.. . Isto é o meu sangue" (Mt 2626-
28) nao podem ser tomadas em sentido metafórico, pois o sentido literal érespaldado
pela promessa do pao que é carne, em Jo 6,51-63.

■k * *

Está circulando em língua portuguesa um panfleto de origem protestante norte


americana intitulado "0 Biscoito da Morte". É uma sátira baixa e caricatural contra a
Eucaristía. 0 autor baseia-se em falsas premissase imaginarias suposicoes para denegrir
algo que está na própria mensagem da Escritura e que é muito caro aos fiéis católicos.
A obsessao agressiva cega o autor e leva-o a atestar sua ignorancia sob capa de erudic3o.
Infelizmente, porém, a ironía e a palhacada da apresentacao podem influir em leitores
pouco críticos, causando-lhes danos na fé. Verifica-se que o autor, proselitista como os
modernos sectarios, quer conquistar novos membros para o protestantismo, recorrendo
mesmo a mentira e á calúnia.

Eis por que passaremos em revista os principáis tópicos do panfleto.

LÁTESE DO AUTOR

0 autor apresenta a fé na real presenca de Jesús Cristo na Eucaristía como sendo


¡nvencao do Papa e de seus assessores. Está dito ai que se puseram a ensinar isso a fim
de conquistar poder sobre os fiéis; quem nao acreditasse, seria punido com a morte,

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"O BISCOITO DA MORTE'-'

como aconteceu na Inquisicao. A fé na real presenca de Cristo no pao eucarístico terá


sido derivada de um mito dos egipcios, segundo o qual os sacerdotes consagravam hos
tias que eram tidas como a carne do deus Sol chamado Osiris; assim como os sacerdo
tes eg/pcios terao conseguido dominar os crentes ensinando-lhes o sentido do biscoito,
assim o Papa terá conseguido dominar os cristSos. Todavia, a leitura da Biblia deveria
abrir os olhos dos católicos, fazendo que deixem a Igreja Católica e se tornem protes
tantes!

Detenhamo-nos sobre tal mito e as alegacoes do autor.

2. A ORIGEM DAS. EUCARISTÍA

2.1. O Mito de Osiris: Despropósitos

Antes do mais, é de estranhar a estória "das hostias transformadas na carne do


deus Sol Osiris". Por mais de um motivo:

a) nenhuma das mais abalizadas fon tes de mitología refere tal lenda de Osiris;

b) nem se encontra o binomio "Deus Sol = Osiris".

Na verdade, eis o que, sintéticamente, se pode apurar a respeito do mito de Osi


ris:

Osiris, em egipcio Ouser, deus do panteón egipcio, está envolvido no seguinte


enredo: Osiris era um bom rei da térra, que ensinava aos homens a agricultura, a viti
cultura e as artes. Sofreu a inveja de seu irma*o Seth, que, no decorrer de um banquete,
o encerrou num cofre e o atirou no rio Nilo; a sua irmSe esposa Isis encontrou-o no li
toral de Byblos (Fenicia) e o levou de volta para o Egito. Foi, dé novo, capturado por
Seth, que o esquartejou em quatorze pedacos, pedacos que foram espalhados pela térra
do Egito. Isis foi ent3o procurar esses resquicios de cadáver juntamente com sua irma
Nephthys (esposa de Seth} e, com a ajuda de Anubis, reconstituiu o corpo do deus
Osiris. Todavia, Isis e Nephthys foram transformadas em aves; abanaram com as suas
grandes asas o cadáver de Osiris para restituir-lhe a vida. Assim Osiris ressuscitou. Isis
concebeu entao um filho chamado Horas; educou-o secretamente nos pantanos do
delta do Nilo, receando o castigo que Seth, irmSo de Osiris, podia infligir ao menino.
Feito homem, Horus reclamou a sua heranca e provocou Seth para travarem um com
bate a dots. Nestas circunstancias. Re e o tribunal dos deuses puseram-se a julgar o
caso: decretaram que Horus receberia a realeza terrestre que tocava a seu pai, ao passo
que Osiris governaria o reino subterráneo dos bem-aventurados.

Desta lenda os egipcios deduziram urna I ¡cao importante: todo cadáver sobre o
qual sao praticados os ritos que foram aplicados ao corpo de Osiris, juntamente com as
mearías fórmulas mágicas, há de voltar á vida. Tal procedimento se chamava "osiriani-
zacao"; cada defunto podia tornar-se um novo Osiris. Assim, Osiris tomou-se o deus da
ressurreicio. Todos os anos, no mes de Khoiak, celebravam-se "misterios", isto é, re-
presentacóes sagradas que reproduziam o assassinato, o enterro e a ressurreicSo de Osi
ris. Cada egipcio era exortado a peregrinar, ao menos urna vez na vida, até um dos
grandes santuarios osirianos do Egito (Buris, Abydos...).

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20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

Como se vé, a estória está bem longe de mencionar hostias transformadas em car
ne de Osiris...

c) Além disso, note-se o disparate encontrado em outra passagem do panfleto:

"Os sacerdotes egipcios nhamavam esse mi/agre de 'transubstanciacSo', eopovo


comía seu Deus" (as páginas ao panfleto nao sSo numeradas}.

A palavra "transubstartciacao" é oriunda do latim transubstantiatio.e na*o do


egipcio. Os egipcios nao conheceram tal vocábulo latino (o latim é Iíngua posterior ao
idioma dos antigos egipcios) nem conheceram o conceito veiculado por tal vocábulo,
pois o conceito supoe a filosofía de Aristóteles (Í322 a.C.) desenvolvida pelos teólogos
escolásticos da Idade Media. Com efeito: substancia, no caso, significa o que sub-stat,
o que está sob os acidentes. Sim, Aristóteles distinguía, em cada ser visfvel, os aciden-
tes, que s5o mutáveis (cor, tamanho, odor, localizado, peso. ..) e aquilo que é o su
porte ou sujeito dos acidentes (tal seria a substancia, que fica sendo invisível). Em
conseqüéncia, a palavra transubstanciacao significa a mudanca (trans) da substancia
sem mudanca dos acidentes. É o que se dá precisamente na consagracSo eucarística:
ficam os acidentes (cor, tamanho, gosto, odor.. .) do pao e do vinho, mas a substan
cia do pao e do vinho se converte na substancia do corpo e do sangue de Cristo. Tal
nocao, supondo categorías de pensamento grego alheio aos egipcios, nunca foi profes-
sada pelos sacerdotes da mitología grega.

d) Outra falsa afirmacao relacionada com a mitología egipcia é a seguinte: "IHS


significan) fsis, Horo e Seth, deuses do Egito".

Quem diz isso mostra total ignorancia do assunto: IHS nao s3o caracteres egip
cios, mas, no caso, sao letras gregas: o H é a letra eta (e longo). IHS sao os caracteres
iniciáis dó nome grego 1HSOYS (Jesús); por conseguinte, nem na Iíngua egipcia nem
na latina se deve procurar o sentido de tal abreviatura.

e) O panfleto refere como sendo palavras da consagracao: "HocusPocusDomi


Nocus" — o que nada significa em Iíngua alguma. O leitor desprevenido poderá julgar
que é a fórmula latina da consagracao eucarística. Na verdade, a Eucaristia comecou
a ser celebrada no sáculo I nao em latim, mas em aramaico, grego e línguas orientáis;
a fórmula grega é a que se encontra nos Evangelhos sinóticos: "Touto estin to soma
mou e Touto estin to haima mou" (Mt 26,26.28).

2.2. As Fontes Bíblicas da Eucaristía

Os protestantes, que dizem seguir fielmente as Escrituras, iludem-se asi mesmos


e iludem seus seguidores. Com efeito, a origem da Eucaristia nao está numa época tar
día da historia da Igreja, nem está no Ocidente (em Roma, sede do Papa), mas está no
Oriente e na própria Biblia. Basta ler a Escritura Sagrada sem preconceitos e sem recor
rer á tradiclo de Lutero, Calvi no, Zvínglio, Knox, Smith, Wesley..., para perceber cla
ramente que Jesús quis deixar-nos um pao que é o seu corpo e urna bebida que é o seu
sangue. Tenham-se em vista os textos de Jo 6, 51-71: a promessa do p3o da vida; Mt

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"O BISCOITO DA MORTE"

26, 26-29; Me.14, 22-25; Le 22, 19s; 1Cor 11,23-25: os relatos da instituicaoda Eu
caristía.

2.3. Memorial

Os protestantes negam a real presenca de Jesús na Eucaristía, apesar da evidencia


decorrente dos textos sagrados, baseando-se na palavra memoria, citada em Le 22,19:

"Na última ceia, Jesús disse que. guando voces comem o pao e tomam o vinho,
devem fazer isso em memoria dele" (tradujo encontrada no panfleto).

A palavra memoria traduz,- no caso, o grego anamnesis e o hebraico zikkarón.


Ora, tais vocábulos, segundo a mentalidade semita que os concebeu, nao indicam mera
atividade psicológica (o nosso recordar-se), mas, sim, um recordar que efetua algo ou
que transforma a realidade. Tenhamos em vista os seguintes textos bíblicos, conforme
os quais Oeus se lembra de determinadas pessoas e Ihes concede a.sua grapa e misericor
dia: "Quando Deus destruiu as cidades da planicie, Ele se lembrou de Abraao e retirou
Lote do meio da catástrofe" (Gn 19,29); "Entao Deus se lembrou de Raquel; Ele a ou-
viu e a tornou fecunda" (Gn 30,22); "Lembra-te dos teus servos Abraao, Isaac e Jaco,
aos quais juraste por ti mesmo, dizendo: 'Multiplicare! a vossa descendencia como as
estrelas do céu...' Javé entao desistiu do castigo com o qual havia ameacado o povo"
(Ex32,13s). Vertambém Gn8.1;1Sm 1,11-19; 25,31.

Mesmo entre um homem e seu semelhante usava-se a fórmula "lembra-te", para


pedir um favor; assim disse José no cárcere do Faraó ao copeiro que seria libertado
em breve: "Lembra-te de mim, quando te suceder o bem, e sé bondoso para falar de
mim ao Faraó para que me faca sair da prisSo" (Gn 40,14).

O Novo Testamento é herdeiro dos conceitos de "memoria" e "recordar-se" do


Antigo Testamento. Assim, por exemplo, no canto de María se le: "Socorreu Israel seu
servidor, lembrado de sua misericordia" e no de Zacarías: "... para fazer misericordia
aos nossos pais, lembrado de sua santa al ¡anca... suscitou-nos urna forca de sal vacio"
(Le 1,69-72). Sao significativas tambám duas passagens da convenio de Cornélio, cen-
turiao romano: "Tuas oracoes e tu as esmolas se ergueram como memorial diante de
Deus" (At 10,4) e: "Tua oracáo foi atendida, Comélio, e de tuas esmolas a memoria es
tá presente diante de Deus" (Atl 10,31). As oracoes e as esmolas de Cornélio ficaram
quase como um monumento na presenca de Deus e prepararam a intervencSo benigna
do Senhor. — Também no Novo Testamento o homem, ao rezar, usa a fórmula "Lem
bra-te"; assim disse o bom ladrSo: "Jesús recorda-te de mim, quando chegares ao teu
reino" (Le 23,42). É á luz desse significado dinámico e criativo das palavras "memoria,
memorial, recordar-se" que há de ser entendido o mandato confiado por Jesús aos
Apostólos na última ceia: "Fazei isto em memoria (anámnesin) de mim" (1Cor
11,24s). Na base destes estudos lingüísticos, deve-se dizer que a celebracSo da ceia do
Senhor nos sáculos cristSos nao é mero símbolo evocativo do passado, mas vem a ser a
atualizacSo ou a re-presentacao (o tomar presente de novo) do sacrificio do Senhor
oferecido na Sexta-Feira Santa sobre o Calvario. Ver a propósito nosso Curso de Litur
gia, Módulo 8 (Caixa Postal 1362,20001-970 Rio - RJ).

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22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

3. A INQUISICÁO

O autor nao podia deixar de falar da Inquisicao:

"De 1200 a 1808 ¡ncontáveis torturas e mortes rondaram o mundo católico, fa-
zendo 68 milhoes de vftimas. Satanás mantinha a Igreja Católica Romana sob seu abso
luto controle."

Antes de qualquer outra observagao, notemos que os medievais e pós-medievais


até o sáculo XIX nlo faziam estatfsticas precisas dos casos examinados pela Inquisi-
pio. É inútil procurar nos arquivos da Inquisicáo dados numéricos que permitam urna
estimativa global. Encontram-se apenas relatórios ¡solados, cujos números sao muito
menos elevados do que aqueles que a fantasía dos historiadores tendenciosos tem apre-
goado. Tenhamos em vista os dois registros seguintes:

Consta que o tribunal de Pamiers, de 1303 a 1324, pronunciou 75 sen tengas


condenatorias, das quais apenas cinco mandavam entregar o réu ao poder civil (o que
equivalia á mor te); o Inquisidor Bernardo de Gui em.Tolosa, de 1308 a 1323, profe-
riu 930 sentencas, das quais 42 eram capitais; no primeiro caso, a proporcao é de
1/15; no segundo caso, é de 1/22.

De resto, a Inquisicao é fenómeno que só se pode entender devidamente no res


pectivo contexto histórico. Com efeito, os medievais tinham profunda consciéncia do
valor da alma e dos bens espirituais. Tao grande era o amor á fé esteioda vida espiri
tual) que se considerava a deturpacao da fé pela heresia como um dosmaiores crimes
que o homem pudesse cometer. Essa fé era tío viva e espontánea que difícilmente se
admitiría que alguém viesse a negar com boas ¡ntengoes um só dos artigos do Credo.
Tenham-se em vista as palavras de S. Tomás de Aquino (°it1274):

"É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a
moeda, que é um meio de prover á vida temporal. Se, pois, os falsificadores de moedas
e outros malfeitores sao, a bom direito, condenados á morte pelos príncipes seculares,
com muito mais razio os hereges. desde que sejam comprovados tais, podem nSo so-
mente ser excomungados, mas também em toda justica ser condenados á morte" (Su
ma Teológica /////, 11,3c).

A argumentacao do S. -Doutor procede do principio (sem dúvida, auténtico em


si) de que a vida da alma vale mais do que a vida do corpo. Se, pois, alguém pela here
sia ameaca a vida espiritual do próximo, comete maior mal do que quem assalta a vida
corporal; o bem comum entSo exige a remoclo do grave perigo (ver também S. Teoló
gica ll/ll, 11,4c).

4. CONCLUSÁO

É diffcü compreender que um cristSo possa atacar outros cristSos na base de


Unto odio e tanta falsidade. N3o é o genuino amor de Cristo que inspira tal atitude. É a
paixao preconcebida e obsessiva.

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"O BISCOITO DA MORTE" 23

A leí tura do panfleto mostra também como é erróneo o principio protestante:


"Sonriente a Biblia". A Biblia é inseparável da palavra oral, que a interpreta e atualiza;
ela, por si mesma, nao se explica nem elucida. Ora, os protestantes léem a Biblia dentro
da tradicSo oral iniciada pelos reformadores do século XVI, ao passo que os católicos a
léem dentro da TradicSo que emana de Jesús Cristo e dos Apostólos e chega até nos;
assim, no tocante á Eucaristía desde os primeiros decenios da Igreja, há testemunhos de
fé na real presenca de Cristo no sacramento do altar; essa fé foi sendo transmitida inin-
terruptamente até o século XX. Será que só no século XVI os cristáos comecaram a en
tender auténticamente as palavras de Jesús em Mt 26,26-29; Me 14,22-25; Le 22,19s;
ICor 11,23-25? Será que somente Lutero e seus companheiros de reforma entenderam
corretamente o sermá*o referente ao pío da vida em Jo 6J51-71? Será queum protes
tante tem o direito de ignorar a Biblia e a Tradicao a ponto de forjar urna lenda mal
alinhavada e inconsistente para querer provar que a Eucaristia teve origem noOciden-
te (em ambiente latino) numa época tardía da historia da Igreja?

A caridade crista para com sectarios t3o cheios de odio e falsidade manda que os
católicos rezem por eles, uninde-se á oblacSo de Cristo, que se oferece ao Pai em cada
S. Missa pela salvacáo do mundo (... também pela dos sectarios protestantes).

O texto deste artigo existe como opúsculo próprio intitulado "O Biscoito da
Morte". Pedidos á Escola "Mater Ecclesiae". Caixa Postal 1362,20001-970 Rio (FU).
Af também foi editado o opúsculo "Por que nao sou Aquaríano (Nova Era)?".

* * *

Nascimento de Deus. A Biblia e o Historiador, por Jean Bottéro. Tra-


ducao do francés por Rosa Freiré D'Aguiar. — Ed. Paz e Térra, Rúa do
Triunfo, 177,01212-010 Sao Paulo (SP) 1993,140 x 220 mm, 263 pp.

O título do livro talvez ¡mpressione mal o leitor cristao. Todavía, o


autor o explica, dizendo que ele tenciona apresentar o nascimento de Oeus
no espirito do homem, ou seja, nos documentos da historia que atestam o
surto e o desenvolvimento do monoteísmo no Patriarca Abraá*o e nos seus
descendentes (cf. p. 13). Com outras palavras, Bottéro a presenta a historia
religiosa do povo de Israel, percorrendo os livros sagrados do Antigo Testa
mento; pretende fazé-lo como historiador, prescindindo dos criterios da
fé. Está claro que esta atitude o impede de penetrar a fundo no significado
de tais livros, mas nem por isto Bottéro cede ao que se chama "a leítura
materialista da Biblia"; ele respeita os valores da fé e o senso religioso do
povo de Israel. As vezes, porém, cede a hipóteses gratuitas, que destoam
das clássicas interpretacoes dadasá Biblia; assim, por exemplo.á p. 48 jul-
ga que a entrega das Tábuas da Lei a Moisés se deu ná*o no monte Sinai, e
sim numa regiáfo vu (canica (por causa dos trovSes, relámpagos e nuvens
espessas), ou seja, na; térra de MadiS, ao Norte do Hedjaz (na Arabia Saudi
ta de hoje). Ao falar da criacá*o do mundo e do homem, Bottéro cita varios
(continua na pág. 229)

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Nos Evangelhos:

'TUDO INVENTADO'

Em sin tese: A revista VEJA de 19/01/94 publicou um artigo intitulado 'Tudo


inventado", com o subtítulo "Um livro publicado nos Estados Unidos sustenta que
só 1&í das palavras atribuidas a Jesús nos Evangelhos sSo auténticas". Jánestas pri-
meiras linhas a contradicSo existente revela o estilo tendencioso do artigo: ou tudo é
inventado ou se salvam 18%. Os exegetas autores do livro em foco sSo protestantes
liberáis norte-americanos, que propSem conjeturas e hipóteses como se fossem senten-
cas definitivas; do Pai-Nosso só a invocacSo inicial {em duas palavras) seria, sem dúvida,
proveniente dos labios de Jesús. - Urna leitura atenta do artigo verifica que se trata
de um noticiario pouco fidedigno, intencionalmente voltado para o sensacionalismo.

* * *

A revista VEJA, em sua edicao de 19/01/94, pp.76s, publicou o artigo "TUDO


INVENTADO", em que é apresentado o livro The Five Gospels (Os Cinco Evangelhos).
Um grupo de 74 estudiosos, constituindo The Jesús Seminar, encarregou-se de pesqui
sar o texto dos SS. Evangelhos e redigiu suas conclusSes negativas ou deletérias na obra
mencionada: perneas sentencas atribuidas a Jesús seriam realmente oriundas dos labios
do Senhor. Do Pai-Nosso sementé as duas palavras iniciáis proviriam certamente da
boca de Jesús.

A obra é, portanto, cética, e o articulista de VEJA a apresenta de modo a pertur


bar o leitor brasileiro. Eis por que I he dedicaremos as páginas subseqüentes.

1. OBSERVARES GERAIS

Logo de inicio duas observacoes se impoem:

1) 0 artigo de VEJA é evidentemente tendencioso, o que se depreende logo do


seu inicio. O título toa: 'Tudo inventado"; todavía, o subtítulo o contradiz quando
afirma: "Um livro publicado nos Estados Unidos sustenta que só 18% das palavras atri
buidas a Jesús nos Evangelhos $3o auténticas". Vé-se assim que o articulista visou a
causar sensacSo. O corpo do artigo revela um autor que pouco entende de religiáb, mas
tem em mira fazer sarcasmo e sátira. É de crer que a revista VEJA nao entregaría te
mas de engenharia, economía, física... |a quem nSo tenha pericia do assunto, mas nSo
se importa de confiar asuntos religiosos a quem é estranho á temática.

216
'TUPO INVENTADO" 25

2) O livro The Five Gospels (Os Cinco Evangelhos) é de lavra de autores protes
tantes. Estes percentem á ala liberal do protestantismo contemporáneo, que é mais ra
cionalista do que cristS; negando o transcendental nos Evangelhos, os autores vio pica-
retando o texto sagrado, de modo a esvaziar o seu conteúdo. Formulam hipóteses que,
no decorrer do estudo, sSo tidas como sentencas certas; estas se tornam base para
novas hipóteses, que pouco adiante sa*o tomadas como teses indiscutfveis; assim lancam
areia nos olhos do leitor desprevenido.

Examinemos agora os principáis tópicos do artigo de VEJA.

2. AS PALAVRAS DE JESÚS: AUTÉNTICAS OU NAO?

2.1. O Problema

Eis como se coloca o problema, segundo a noticia de VEJA:

"Apenas urna em cinco falas atribuidas a Cristo nos Evangelhos foí realmente
proferida pelo Nazareno... Frases célebres como 'Bem-aventurados os limpos de co-
racSo, porque verSó a Deus', do SermSb da Montanha, e 'Desatai-o e deixai-o ir',
da ressurreicao de Lázaro, nunca safram da boca de Jesús, segundo os pensadores"
(p. 76).

"A avaliacSo dos pesquisadores sobre o Evangelho de Marcos é cruel. Apenas


a famosa frase 'Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' mereceu ser tí-
da como indubitível palavra de Jesús" (p. 11). '

Que dizer a respeito?

22. A Fidelidade dos Apostólos

É certo que os Apostólos nao taquigrafaram nem gravaram as palavras que ou-
viam de Jesús. Todavia, é certo que procuraram guardar e transmitir com fidelidade
as ligues recetadas do Mestre. Em alguns trechos dos Evangelhos podem-se reconhecer
ipisissima verba Chrísti ou as mesmíssimas palavras de Cristo, com todo o seu\ sabor
aramaico. Assim, por exemplo, em Mt 16.117-19 as frases sSo tecidas de aramafsmos:

"Bem-aventurado és tu..." Este é um macarismo ou urna proclamacSo de bem-


aventuranca, muito usual ñas línguas semitas: cf. Mt 113,16; Le 14, 15; SI 41,2;
14,15...

Sima"o bar-Jona (Filho de Joáo) é outro semitismo conservado no texto grego,


mas geralmente traduzido para o vernáculo;

/ O Evangelho segundo Marcos refere numerosas sentencas de Jesús que tém parale
los emMte Le. Por conseguinte, os dizeres de Jesús "que nao se salvam em Me", tam-
bém náb se salvam em Mt e Le. Donde resulta que também Mt e Le sa~o, quase por
completo, anulados pela crftíca protestante.

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26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

Carne e sangue designam o homem com suas faculdades na turáis, segundo o mo


do de pensar semita; cf. ICor 15.50; GI 1.16; Ef 6,12; Hb 2,14...

Pai que está nos céus é expressSb semita recorrente em Mt 18,11; 5,45;

Kepha-Kepha {Pedro.. . Pedra): o trocadilho só pode ser feito em aramaico; o


grego diría: Petros petra.

As portas do inferno: a expressao supoe um lugar subterráneo que seja o reino da


Morte. Este reino tem suas munigoes e fortalezas junto ás respectivas portas. Donde
se depreende que portas do inferno sao as farpas da Morte ou do Maligno, que introdu-
ziu a Morte neste mundo;

Chaves do Reino... Esta expressSo lembra o uso semita segundo oqual o mordo-
mo trazia sobre os ombros as chaves do palacio real; cf. Is 22,22;

Ligar — desligar: outro semitismo usual entre os rabinos, significando condenar


ou proibir (ligar), absolver ou permitir (desligar).

Os exegetas reconhecem que o trecho de Mt 16,17-19 nSo foi composto por cris-
t3os de li'ngua grega, mas é o eco das palavras aramaicas de Jesús e dos primeiros pre-
gadores do Evangelho.

As próprias palavras de Jesús podem ser reconhecidas também no Sermlo das


bem-aven tu rangas (Mt 5,3-13; Le 6,20-26), no recurso freqüente a parábolas (género
muito freqüente entre os rabinos), na recomendacao feita aos Apostólos em Mt 10,
5b ("Nao toméis o caminho dos gentíos, nem entréis em cidade de samaritanos")1 na
resposta de Jesús á mulher cananéia (Mt 15,26-28; cf. Me 7,27: "deixa que primeiro os
filhos se saciem").

A preocupacao dos Apostólos em guardar com fidelidade a mensagem de Jesús


se depreende dos Atos dos Apostólos e das epístolas de S3o Paulo, como se percebe
das citacoes seguintes:

Em At 1,21, Sao Pedro, antes da eleicSo de Matías, expós os requisitos que um


Apóstelo deve preencher: "é necessário que, dentre os homens que nos acompanha-
ram todo o tempo em que o Senhor Jesús viveu em nosso meio, a comecar do Batismo
de Joao até o día em que dentre nos foi arrebatado, um destes se torne conosco teste-
mu nha da sua ressurreicSo".

Vé-se que o Apostólo é tido como testemunha, que refere o que viu e ouviu,
sem o alterar. Na verdade, os Apostólos preencheram esta funcao como decorre das
passagens abaixo:

/ Os pregadores crfetibs entenderán» que estas palavras de Jesús indicavam a priori-


dade dos judeus como destinatarios do Evangelho, sem exclusáb dos gentíos, que tam
bém deviam ser atingidos pela pregagSo (cf. Mt28,18-20).

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"TUPO INVENTADO" 27

At 2,32: "Deus ressuscitou Jesús dos morios, e disto nos todos somos testemu
nhas", diz Sao Pedro.

At 3,15: "Deus o ressuscitou dos monos, e disto nos somos testemunhas", diz
SSo Pedro.

At 5,32: "Nos somos testemunhas destas coisas, nos e o Espirito Santo", afir-
mam os Apostólos.

Gl 1,8s: Sao Paulo, tendo em vista falsos pregadores, exclama: "Se alguém, aín
da que nos mesmos ou um anjo do céu, vos anunciar um Evangelho diferente do que
vos anunciamos, seja ana'temal Vplto a dizé-lo agora: se alguém vos anunciar um Evan
gelho diferente do querecebestes, seja anatema!".

De modo especial, a epístola de Judas e a 2a. de Pedro manifestam o zelo que


os Apostólos tinham pela fiel conservacao da doutrina de Cristo.

2.3. Explidtacoes

Os Apostólos, conservando f idelidade a Cristo, nao deixaram de explicitar o sen


tido das palavras do Mestre, sempre que oportuno. Notemos que há dois tipos de me
moria ou duas maneiras de recordar o passado:

a) a memoria mecánica ou de gravador: é aquela que recebe fríamente, como má


quina muito exata, aquilo que foi dito;

b) a memoria vivencial ou pessoal: é aquela que dá um sentido concreto e exis-


tencial as palavras que ela refere.

Assim, por exemplo, urna coisa édizer: "Morrreu oSr. José Maria" num noticia
rio de radio ou televisSo. Outra coisa é dizer: "Morreu o Sr. José María, teu pai". A
segunda noticia explícita a primeira; acrescenta-lhe algo que a torna mais concreta e
significativa, sem a deturpar. Ora, é de crer que os Apostólos e discípulos, ao pregar,
tenham desdobrado a mensagem de Jesús de maneira auténtica. Como exemplos, apon-
tam-se os textos de

Me 8,11s: Jesús recusa qualquer sinal ou milagre aos fariseus, porque os vé


obcecados e indispostos. Em Mt 12,38-40 (texto paralelo), Jesús promete o sinal de
Joñas ou a sua ressurreicSo como testemunho da autenticidade de sua missao. Esta pe-
quena diferenca entre Me e Mt suscita conjecturas entre os exegetas. Há quem julgue
que Mt explicitou o pensamento de Cristo: nenhum milagre seria feito antes de Páscoa
para atender aos fariseus, mas certamente a ressurreicao de Jesús evidenciaria a sua mis-
sSb messiánica e salvadora.

Em Le 14,16-24 encontra-se a parábola dos convidados que rejeitam o convite


para as nupcias; o seu teor é claro. Em Mt 22,1-15 a mesma parábola (a quanto parece)
ocorre, enriquecida, porém, com um trapo novo, a saber: o rei mandou punir os convi
dados descorteses, enviando-lhes tropas que os mataram e incendiaran! as suas cidades

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28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

(cf. Mt 22,7); este tópico, segundo a conjectura de bons exegetas, terá sido acrescenta-
do pelos pregadores cristaos após a queda de Jerusalém em 70: os convidados displi
centes significavam os judeus, cuja cidade santa foi incendiada pelos romanos, os quais
também mataram grande número de israelitas.

Estes dois exemplos, aos quais outros poucos se poderiam acrescentar, ilustram
a afirmacao de VEJA (p. 76): "Os evangelistas comumente editaram aspalavrasde Jesús
a fim de acomodá-las ao seu estilo de escrever e aos seus pontos de vista". — Está claro
que, nao tendo taquigrafado, os evangelistas disseram com suas palavras aquilo mesmo
que Cristo disse; num ou neutro caso pode-se admitir que tenham explicitado o pensa-
mento de Jesús, a fim de Ihe dar significado mais concreto para os ouvintes. Isto é le
gítimo; além do qué, é de notar que a redacao dos Evangelhos, segundo ensina a fé,
nao foi obra meramente humana, mas ocorreu sob o carisma do Espirito prometido
por Jesús e penhor de fídelidade (cf. Jo 14,26; 16,13-15). O próprioSaoJoaonos diz
que, após a ressurreicao de Jesús, a pregacao doSenhor anterior á Páscoa apareceu aos
Apóstelos sob nova luz, que Ihes permitiu aprofundar os dizeres do Mestre {cf. Jo
2,18-22; 12, 14-16).

2.4. "Jesús nao costumava falar de si mesmo"

Em conseqüéncia, seria pouco provável que Jesús tenha dito: "Eu sou a luz do
mundo" (Jo 8,12).

Pergunta-se, a propósito: como podem os pesquisadores afirmar tais coisas t3o


categóricamente, quando só tém, como fontes de ¡nformacao, os próprios Evangelhos
em que Jesús fala de si mesmo? Com efeito, nao somente em JoSo, mas também nos
sin óticos, Jesús fala de si mesmo, como se depreende dos seguintes textos:

Mt 11,25: "Jesús pós-se a dizer: 'Bu te louvo. ó Pai, Senhor do céu e da térra,
porque ocultaste estas coisas aos sabios e doutores e as revelaste aos pequeninos"'.

Mt 16,24: Disse Jesús a seus discípulos: "Sealguém quer vir após mim, riegúese
a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".

Mt 5, 22.28.32.34.39.44: "Ouvistes o que foi dito aos amigos... Eu.porém, vos


digo...".

Mt 11,22.24: "Mas eu vos digo..."

Mt 9,13: "Nao vim chamar justos, mas pecadores..."

2.5. Plagio nos Evangelhos?

O artigo de VEJA acusa os evangelistas de plagiar, transcrevendo um do outro,


ou transcrevendo de autores pagaos ou dos manuscritos do Mar Morto (p. 76).

"Transcrever um do outro". O articulista parece ignorar o processo sinótico: Ma-


teus, Marcos e Lucas reproduzem os mesmos dizeres de Jesús porque, a quanto parece,
depender» de urna coletínea de sentencas de Cristo, chamada em alemlo Quelle (Q)

220
'TUPO INVENTADO" 29

= Fonte. Julga-se que o Evangelho comecou a ser parcialmente escrito antes que Ma-
teus, Marcos, Lucas e Jólo o fizessem. .., escritos sob forma de coletáneas de senten-
cas, de parábolas, de milagres, de altercacdes com os fariseus...; os sinótícos terlo uti
lizado essas fon tes; isto n3o se chama plagio.

"Transcrever dos manuscritos do Mar Morto". Em Qumran, a N.O. do Mar Mor-


to, foram encontrados em 1947 preciosos manuscritos ai deixados por monges judeus
ditos "essénios". Esses documentos revelaram urna face do antigo judaismo diversa da
do farisaísmo; trata-se de urna espíritualidade profunda, dada ao silencio, á oracao e ao
trabalho. Ora, nao nos surpreende o fato de haver algumas poucas semethancas entre os
documentos de Qumram e os Evangelhos: o senso místico do homem se exprime em
toda parte mediante termos análogos: "luz, vida, amor, trevas, pecado...".

"Transcrever proverbios de autores pagaos (Diógenes Laércioe Plutarco)".Seria


preciso provar a presenca de tais proverbios nos Evangelhos. O artigo de VEJA lembra
apenas: "Nao s5b os sadios que precisam de médico, mas os doentes" (Me 2,17). A pro
pósito, notemos que os proverbios brotam espontáneamente da experiencia dos ho-
mens: "Um dia é da capa, outro dia é do capador. Quem vai ao vento, perde o assento.
Em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Ninguém é profeta em su a patria. Santo de casa
nio faz milagre. . .". Estas sá"o verdades que afloram á mente de qualquer pessoa que
observe a vida cotidiana: um judeu, um pag3o, um cristio. . . podem dizer tais coisas
sem que precisemos de perguntar "quemeopiou quem" (cf. VEJA, p. 76). Assim, portan-
to, a sen tenga "quem precisa de médico nao sao os sadios, mas os doentes" é algo de
tao lógico e evidente que nao precisamos de admitir mes tres pagaos que tenham ensi na
do a Jesús ou aos evangelistas esta verdade.

2.6. Contradigo nos Evangelhos?

0 artigo de VEJA conclui-se nestes termos:

"Nos últimos anos surgiram varias obras mostrando as contradifSes existentes


entre os textos de cada um dos Evangelhos" {p. 76).

Na verdade, a questao da "concordia discordante" e da "discordia concordante"


dos Evangelhos nao é nova. Já S. Agostinho (t430) escreveu urna obra sobre o assunto.
N3o significa que tenha havido invenc3o por parte dos evangelistas. Se nos entregaram
os Evangelhos como hoje s5b, fizeram-no porque cada qual tem seus enfoques próprios
e, por isso, relata á su a maneira os acontecimentos. As pequeñas divergencias nao tém
valor decisivo, mas podem muito bem ser compreendidas por quem se dá a um estudo
mais profundo, levando em conta os géneros literarios e as particularidades do estilo
semita.

3. A ÉPOCA DE REDACTO DOS EVANGELISTAS

0 articulista de VEJA assim escreve:

"Todos os Evangelhos, canónicos ou nao, foram escritos bem depois da morte


de Jesús. Os estudos bíblicos mostram que nenhum evangelista chegou a conhecer Je-

221
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

sus pessoa/mente. O mais antígo dos Evangelhos, o de Marcos, é do ano 70 depois de


Cristo. Todos sao textos foseados em relatos de outras pessoas. É natural, portanto,
que pairem dúvidas a respeito das frases ditas por Jesús" (p. 77).

Dois pontos desta passagem merecem atencao:

1) "Nenhum evangelista conheceu Jesús pessoalmente. . .". A crítica abalizada


hoje em dia nao recusa ao Apostólo Joao a autoría do quarto Evangelho. Quanto a
Mateus, é o autor do texto aramaico original do primeiro Evangelho, segundo Papias
(t 138} e a boa crítica. O quarto evangelista, alias, faz questao de afirmar que viu e cu-
viu Jesús:

Jo 1,14: "E o Verbo se fez carne... e vimos a sua gloria, gloria que Ele tem jun
to ao Pai como Filho Único".

Uo 1,1-3: "O que era desde o principio, o que ouvimos, oque vimos com nos-
sos olhos, o que contemplamos e o que nossas m jos apalparam do Verbo da Vida...
Nos o vimos e Ihe damos testemunho... O que vimos e ouvimos, vo-lo anunciamos".

2) "Escritos bem depois da morte de Jesús". Entre Jesús e a redapSo dos Evange
lhos nao houve um hiato, mas a pregacáo do Evangelho se fez oralmente desde o dia
de Pentecostés, como atesta o livro dos Atos; assim se foi formando e redigindo o teor
daquiio que mais tarde os evangelistas coiocaram por escrito. Em consequéncia, quan
do os evangelistas escreveram, nao fizeram senao cristalizar urna tradiclo que vinha
ininterruptamente de Jesús através de auténticas testemunhas.

O artigo de VEJA, atribuindo a redacao do Evangelho de Marcos ao ano de


70, parece ignorar as importantes descobertas do Pe. José O'Callaghan S.J.: encontrou
na gruta 7 de Qumran um fragmento de papiro que, como tu do indica, reproduz Me
6, 52s; cf. PR 354/1991, pp. 482-494. Se tal conjectura é verídica (como aceitam bons
pesquisadores), o texto de Marcos é anterior ao ano de 50; comecou a ser redigido dez
e poucos anos após a Ascenslo do Senhor. O artigo de VEJA nao podía ter silenciado
tal descoberta da ciencia papirológica.

De resto, o Evangelho de Marcos é geralmente considerado pelos exegetas como


o mais próximo dos dizeres de Jesús, porque é o mais tosco, o mais vivaz dos Evange
lhos, o que mais parece fazer eco aos acontecimientos histórico. Existem mesmo passa-
gens dif icéis em Me, tidas como cruzes dos intérpretes (cf. Me 3,21; 6,5; 10,17s); nun
ca teriam sido inventadas por um faisário, precisamente porque causam problemas aos
estudiosos. Urna regra de sa" hermenéutica reza: quanto mais difícil é um texto, tanto
mais antigo deve ser, porque a tendencia natural e espontánea dos leitores é fazer de
um texto difícil um texto claro, e nio de um texto claro fazer um texto difícil.

4.0 QUINTO EVANGELHO

Os autores de The Five Gospels incluem o Evangelho de Tomé (e nao Tomás, co


mo diz o articulista de VEJA) no rol dos Evangelhos. Na verdade, o Evangelho de

222
'TUPO INVENTADO" 31

Tomé 6 um escrito redigido em 150 aproximadamente e encontrado no Egito em


1945. O texto original perdeu-se. Mas existem paráfrases e traducoes do mesmo em
grego, sirio e latim; sa*o fragmentos atribuidos ao Apóstelo S. Tomé, que se interessam
fantasiosamente pela figura de Jesús menino e adulto. Retoma textos dos Evangelhos
canónicos, mas em.perspectiva dualista, como se a materia fosse essencialmente má e o
espirito essencialmente bom - o que n3o condiz com a mensagem bíblica tomada de
ponta-a-ponta. Por isto, nao foi este livro reconhecido pela Igrejacomo Evangelho ca
nónico; é apócrifo. Sabemos, alias, que nao há criterio para se reconhecer a canonici-
dade de um escrito a nao ser a consciéncia da Igreja, que, assistida pelo Espirito Santo,
fala através do seu magisterio; nem o estilo nem o conteúdo nem os frutos espirituais
de algum livro sfo dados suficientes para se dizer que tal ou tal livro foi inspirado por
Deus.

5.0 PAI-NOSSO

O articulista de VEJA detém-se especialmente sobre o Pai-Nosso. Refere que, se


gundo os críticos norte-americanos, somente as duas palavras iniciáis sSo seguramente
dos labios de Jesús.

A propósito, observemos:

1) Há duas versoes do Pai-Nosso nos Evangelhos: urna em Le 11,2-4 (mais breve)


e a outra em Mt 6,9-13, com duas peticóes a mais: "Seja feita a vossa vontade assim na
térra como no céu" e "mas livrai-nos do mal". Estas duas peticSes nSosaosenaoaexpli-
citaclo da segunda ("Venha a nos o vosso Reino") e da quinta ("Nao nos deixeis cair
em tentacSo"); nada de novo acrescentam nem "¡nventam". Podem ter sido acrescenta-
das na Liturgia, cuja tendencia é geralmente solenizar e desenvolver a oracao. Corres
ponderá ao pensamento de Jesús.

2) Quanto as expressoes "perdoai-nos as nossas dividas" (Mateus) e "perdoai-nos


as nossas ofensas" (Lucas), pode-se crer que a primeira seja a que Jesús utilizou, diri-
gindo-se a um auditorio de judeus; Sao Lucas, escrevendo para pagaos, terá preferido
o vocábulo "ofensas", porque mais compreensivel a tais destinatarios. A troca de um
vocábulo por seu sinónimo nao é invencionice nem deturpacao: um carioca que vá para
o Norte, dirá macaxeira, em vez de mandioca; se for para o Nordeste, dirá ¡erimum, em
vez de abóbora; se for para o Sul, dirá bilhaem lugar de moringa... Algo de análogo
pode ter sido feito pelos evangelistas.

3) O artigo de VEJA reconhece apenas a invocacao Pai-Nosso como autentica-


mente oriunda dos labios de Jesús. Recusa peremptoriamente o aposto "que estáis nos
céus" e as peticSes "seja feita a vossa vontade assim na térra como nos céus" e "livrai-
nos do mal"; as demais peticSes seriam de autenticidade provável ou duvidosa. Tal dis-
secacio nao deixa de ser arbitraria; é notorio que a critica liberal costuma apresentar
hipóteses como sentencas seguras, iludindo seus leitores.

No tocante, por exemplo, á peticao "Perdoai-nos. . . como nos perdoamos", Je


sús contou a parábola do devedor inclemente (Mt 18,23-35), que bem ilustra tal peti-

223
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

cío: um servidor devia ao rei uma quantia tao grande que ele nSo a podía pagar. Foi,
porém, agraciado. Pouco depois, encontrou um companheiro que Ihe devia pouca coi-
sa; mas o servidor agraciado nao quis perdoar a divida como o rei Ihe havia perdoado.
En tao, o soberano mandou punir aquele que nao quisera agraciar oseu companheiro.
- De resto, mais de uma vez Jesús recomendou a generosidade para com o próximo,
"porque, com a medida com que medirdes, o Pai do céu medirá também a vos" (el.
Le 6, 36-38). Donde se vé que a peticao do Pai-Nosso relativa ao perdSo é bem típica
do ensinamento de Jesús; é arbitrario contestá-la.

Quanto á express3*o "Pai, que estás nos céus", também é usual na pregacao do
Senhor; ocorre dez vezes no Sermlo da Montanha (Mt 5-7); cf. 5,16.45.48; 6,1.9.14.
26.32; 7.11.21. Ver ainda

Mt 16,17: "Ni"o foram carne e sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que
está nos céus".

Mt 18,11: "Os anjos desses pequeninos véem continuamente a face de meu Pai
que está nos céus".

Estas observacoes evidenciam o caráter tendencioso da obra The Five Gospels


e do seu apresentador em VEJA. Esta revista destaca-se por seu estilo sarcástico e de-
letério em materia de religiao. O leitor, consciente disso, saberá fazer o devido descon
tó das noticias religiosas de VEJA. A crítica contemporánea é mais equilibrada do que
a de decenios atrás e reconhece a fidelidade histórica dos Evangelhos; através deles res-
soa a auténtica mensagem de Jesús Cristo.

* * *

ÍNDICE DE PR 1978-1993

ESTÁ PRONTO, DEVENDO SAIR DO PRELO EM BREVE, UM ÍNDICE GE-


RAL DE PR 1978 A 1993. TRATA-SE DE UM INSTRUMENTO DE TRABALHO
QUE FACILITARÁ A CONSULTA A PR. EVITANDO QUE O LEITOR TENHA
QUE FOLHEAR OS ÍNDICES ANUAIS PARA ENCONTRAR A ABORDAGEM DE
UM ASSUNTO QUE LHE INTERESSA. O AlDICE APRESENTARÁ OUTROSSIM
A LISTA DE EDITORI AIS É DE COMENTARIOS DE LIVROS OCORRENTES NOS
ANOS INDICADOS.

JÁ EXISTEM ÍNDICES ANTERIORES DE PR. INFELIZMENTE ESGOTA-


DOS: O DE 1957 A 1977 E O DE 1978 A 1982. ESSES DIVERSOS ÍNDICES
DEVEM-SE AO TRABALHO DE AMIGOS DEDICADOS, AOS QUAIS A DIRECÁO
DE PR CONSAGRA PROFUNDA AMIZADE E GRATIDÁO.

INFORMACÓES MAIS PRECISAS PODERÁO SER SOLICITADAS A LIVRA-


RIA LUMEN CHRISTI, CAIXA POSTAL 2666. RIO (RJ) CEP 20001-970. FONE:
(021) 291-7122, RAMAL 283.

224
Um artigo de VEJA:

A IGREJA CONTRARIA
Á SAÚDE DOS BRASILEIROS?

Em sfntese: A Igreja Católica, ao condenar o uso de preservativos, nao está con


trariando os interesses da saúde dos brasileiros, mas, ao contrario, está defendendo o
bem da populacSo. As camisinhas sao reconhecidamente falhas, porque deixam passar
o virus através de seus poros ou se rasgam no decorrer do ato sexual. A única maneira
de evitar o risco da AIDS é a disciplina sexual; Deus deu ao ser humano a genitaiidade
em vista da perpetuado da especie e da complementacao mutua do homem e da mu-
Iher; ora. estes va/ores só se obtém plenamente no matrimonio; fora deste há conces-
soes á natureza, que podem degradar a pessoa movida por impulsos passionais. — Esta
verdade vem sendo reconhecida por jovens norte-americanos, como tem noticiado a
imprensa. De resto, o respeito as leis da natureza épenhor de saúde e bem-estar para os
interessados, como atestam importantes figuras do mundo científico.

* * *

A revista VEJA, de 23/02/94, p. 73, publicou um artigo sob o título "Camisi-


nha é Pecado", tendo por subtítulo: "Na Campanha da Fraternidade deste ano a Igre
ja despreza os riscos da Al OS e volta a atacar os preservativos".

O corpo do artigo contém expressoes fortemente agressivas, tachando a posicao


da Igreja de "nociva e obscurantista", ou tendo-a como "pregacao deletéria, especial
mente quando atinge os jovens". "A Igreja deveria ficar calada em nome da protegió
da vida de milhares de pessoas".

Tais dízeres sugerem algumas reflexoes.

1. RESPONDENDO AO ARTIGO...

O articulista de VEJA parte da premissa de que a camisinha é garantía de sexo se


guro; seria um preservativo ¡nfalfvel, de modo que o n3o uso da camisinha implicaría
risco de AIDS. — Ora, deve-se notar que, de modo nenhum, a camisinha pode ser tida
como segura; as autoridades médicas reconhecem que, através da sua porosidade, ela
deíxa passar espermatozoides, é o que se depreende de urna noticia publicada pelo
JORNAL DO BRASIL, de 25/08/93,19 Cad., p. 9:

22S
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

"CAMISINHA TEM NOVAS NORMAS

BRASILIA - Os fabricantes de preservativos masculinos devem-se adaptar ¡me


diatamente á nova regulamentacao para o produto. O Ministerio da Saúde editou on-
tem portaría no Diario Oficial, em substituicao á que estava em vigor desde 1987...

A nova regulamentacao foi elaborada com base em testes feitospela Holanda, no


ano passado, com preservativos nacionais e estrangeiros vendidos no país, que detec-
taram que, em sua grande maioria, nSo eram eficientes nem para o controle de natali-
dade nem para a prevencSo a AIDS. Os testes foram pedidos pelo Departamento de De-
fesa do Consumidor e pelo Procon de Sao Paulo.

Entre as inovacdes da nova regulamentacao está a cautela contra a porosidade


das camisinhas, ¡á que a pesquisa descobriu que os preservativos nacionais deixavam
passar esperma pelos microporos. Outra novidadé é o teste da estufa, para averiguar a
resistencia das camisinhas ao aumento da temperatura. Antes, cinco délas tinham que
passar dois dias numa estufa de 70 graus centígrados. Pela nova Portaría, 50preserva
tivos f¡carao na estufa durante urna semana...

O texto ressalva que lubrificantes e antissépticos usados ñas camisinhas nao de-
ve/77 prejudicar as suas normas de uso."

Além desta noticia, deve-se citar o fato de que, na V Conferencia Internacional


de AIDS realizada em Montreal (Canadá), no mes de junho de 1989, foi demonstrado
que partículas microscópicas, com a dimensao do virus HIV, podem passar através dos
poros da maioria das camisinhas: há quem calcule que os preservativos sao ineficazes
em 15 a 25% dos casos. Nesse mesmo Congresso foi apresentada a obra de dois ilus
tres médicos - o Dr. K. April, de Zürich (Sufea) e o Dr. E. Schreiner, pesquisador da
Universidade de Harvard e professor em Zürich — obra intitulada "Preservativos. Ne-
nhuma garantía contra AIDS e outras doencas sexualmente transmissCveis". Mesmo no
Brasil já se denunciou a ineficacia da maioria das camisinhas, que além do mais, se rom-
pem com facilidade durante o ato sexual.

Aínda é de notar o seguinte: a partir de 1980 propagou-se nos Estados Unidos a


nocSo de Safe Ssx (Sexo Seguro ou isento de risco). A camisinha foi tida como o meio
mais recomendável para se evitarem as molestias decorrentes do uso do sexo livre. Veri-
ficou-se, porém, que a idéia de Safe Sex é um mito. O próprio médico General Koop
declarou: "O país está tomado pela manía docondom. N3o me sinto ufano pelo papel
que desempenhei na propaga;ao desta idéia. O condom é o último recurso a ser aplica
do" (Family Planning Perspectiva, 1986, p. 25).

Um dos fatos mais significativos para mostrar quanto é falho o uso da camisinha
foi divulgado pelo Journal of the American Medical Association em 1987: os pesquisa-
dores interessados em averiguar a transmissa*o da AIDS acompanharam casáis, dos quais
um dos cónjuges estava afetado pelo virus; averiguaran! que, nos casáis que usavam pre
servativos durante suas relacóes sexuais, houve transmisslo do virus na porcentagem de
17% em dezoito meses; ao contrario, nos casáis que se abstiveram de relacionamento
sexual, n3o se pode averiguar contagio.

226
IGREJA CONTRARIA ASAÚOE DOS gRASILEIROS? 35

Os estudos posteriores levaram a concluir que o preservativo (camisinha) é falho


em mais de 10% dos casos, quando usado para impedir a gravidez. Mais falho é ainda
quando utilizado como meio para evitar a AIDS, visto que o virus da Al OS é extrema
mente pequeño. Entre os jovens, que nem sempre s3o cautelosos na aplicacSo de tal re
curso, a porcentagem de falhas do preservativo chega a 18%.

Em conseqüencia, verifica-se que é falsa a premissa do artigo de VEJA, base de


acusacao levantada contra a Igreja: a camisinha nao é garantía de imunidade.

Alias, a quanto parece, a propaganda em favor das camisinhas nao é simplesmen-


te motivada por um pretenso interesse de saúde pública; é também impelida por inte-
resses financeiros de fabricantes.de tais produtos. O Governo, que distribuí preservati
vos, pode estar enriquecendo empreiteiras e empresas. Algo de semelhante já foi com-
provado com relacao aos anticoncepcionais: há interesses de firmas produtoras de pí-
lulas movendo urna propaganda que redunda em detrimento da saúde das usuarias, cf.
PR 319/1988, pp. 554-564;335/1990, pp. 177-181; 343/1990, pp. 561-571.

Examinemos agora outro aspecto da questao.

2. A AUTÉNTICA SO LUgÁO

Pode-se dizer, na base das ponderacoes anteriores, que os adversarios da saúde


pública nao sao os mensageiros da Igreja, mas os arautos dos preservativos. O risco de
Al OS só poderá ser evitado mediante a prática da disciplina sexual. A natureza deu ao
ser humano a genitalidade em vista da perpetuacao da especie e da mutua complemen-
tacao do homem e da mulher; ora, ¡sto só pode ser obtido na uniao conjugal ou numa
entrega total inspirada por amor. Fora do matrimonio a prática sexual é desmando que
atende a impulsos naturais, mas nao condiz com a dignidade racional do ser humano;
a sexualidade há de estar a servipo da inteligencia e do engrandecimento da pessoa; nao
pode ser tida como "aventura". A propaganda em favor das camisinhas dá a entender
que nada se opoe ao sexo livre, independen te do matrimonio, desde que os ¡nteressa-
dos se acautelem contra as possfveis conseqülncias negativas. Ora, esta suposiplo é
falsa.

A tomada de consciéncia desta verdade tem levado muitos jovens a reconhecer


o valor da castídade e da continencia pré-matrimonial, como noticiava o JORNAL DO
BRASIL de 24/02/94, Cad. 1°, P-14, em tom irónico (que nao anula o valor dos fatos
recenseados):

"A VOLTA DA CASTÍDADE

Clubes de virgindade e votos de castídade se multiplican» entre os Jovens ameri


canos, público-alvo de campanhas que os convidam á abstinencia sexual como forma
de lutar contra a Aids e a gravidez precoce.

No comeco do ano. a Igreja Católica lancou a campanha O grande amor espera.


Adolescentes assinam a declaracSo: 'Comprometo-me, diante de Deus, de mim, de mi-

227
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

nha familia, amigos, futuro cónjuge e filhos, a ser sexua/mentepuro ateo casamento'.
Milhares de jovens ja assinaram as cartas, que serSo apresentadas em uma manifestacSo
día 29 de julho, em Washington. Os pecadores fiquem tranquilos: quem já teve expe
riencias sexuais pode assinar a carta depoisde pedir perdSb a Deus.

A campanha para utilizado de preservativos /aneada pelo governo Clinton nSo


fica atrás: a carta afirma que 'a melhor maneira de protegerse da Aids éa abstinencia
sexual'. Segundo Maríe Mitche/I, coordenadora da campanha, somante na Georgia cer
ca de 4 mil alunos entre 13 e 14 anos sáb advertidos anua/mente sobre os perigos de
uma vida sexual precoce.

Em Maryland, os esforcos se concentram na prevencao da gravidez precoce. Car-


tazes nos muros advertem que um bebé custa US$ 474 dólares por mese que a absti
nencia torna o coracao mais temo.

Clubes de virgindade, como o Abstínence Girls (Garotas da Abstinencia), em Bal-


timore, conquistam cada vez mais adeptos. Entre outras coisas, os clubes tém como
objetivo discutir os meios de resistir ao demonio do sexo."

Em linguagem mais tranquila pode-se acrescentar: ha reía torios sobre a AIDS nos
Estados Unidos e na Suécia que chegam a afirmar que "a Al OS só poderá ser superada
por uma vida sexual harmoniosa dentro de um casal fiel e unido". "Neste setor como
em outros somente os tolos podem pretender ignorar a experiencia alheia",observa a
Comissao para a Defesa da Vida, da Arquidiocese de Buenos Aires.

A Igreja afirma que as leis da natureza s3b as leis de Deus. Contrariar a natureza é
sujeitar-se as tristes conseqüéncias daf decorrentes (nao é necessário que Deus "crie"
castigo para os infratores). A fidelidade á natureza e ás su as normas é garantía, sim, de
saúde e paz do coracao, como notam ilustres pesquisadores. Sejam aquí mencionados
dois depoimentos.

0 primeiro é extraído do jornal 0 LUTADOR, de 26/12/93 a 01/01/94, p. 8:

"No Congresso Mundial sobre a Crianca, havido em Roma no final do mes de


novembro, o Dr. Luc Montagnier, Diretor do Instituto Pasteur de París e da Fundacao
Mundial para Pesquisa e PrévencSo da AIDS, afirmou que está convencido de que a
Igreja tem razao, quando diz que 'na origem da AIDS está a dissociacio entre sexo e
procriacSo'. 'Essa dissociacao", continua ele, 'pode levar a uma sexual¡dade selvagem e
a relacionamentos nSoseguros. Com tris milh&es de adultos doentes, maisum miihao
de criancas atingidas pelo virus HIV, a AIDS corre o risco de tornar-seo elemento de
selecSo natural nos próximos decenios'."

Segue-se o testemunho do Dr. R.E.J. Rytíer, Médico-Consultor do Departamen


to de Endocrinología do Dudley Road Hospital (Birmingham B18 7QH, Inglaterra):

"Durante os días 20-22 de setembro Manchester devera abrigar o seguimento de


1993 da Eco 92 ocorrida no Rio de Janeiro. Naquele conclave recebeu conslderável
atencSo a ameaca da superpopulacSo mundial. O Catolicismo, porseoporao controle

228
IGREJA CONTRARIA A SAÚDE DOS BRASILEIROS? 37

da natalidade, foi reconhecido como urna ameaca particular. Isto foibaseado na nocSo
de que o único método aprovado pela Igreja - o planejamento natural da familia
(PNF) — nao é confiável, aceitável ou efetivo.

Nos 20 anos desde que E.L. Billings e colaboradores primeiro descreveram as


características do muco cervical associadas com a ovulacSo, o PNF incorporou essas
características e avancou consideravelmente. A ultrassonografia mostra que aquetas ca
racterísticas identifican} a ovulacSo com precisSb. De acordó com a OrganizacSo Mun
dial de Saúde, 93% das muiheres de qualquer parte do mundo podem identificar essas
características, as quais distinguem adequadamente as fases férteis e infartéis do ciclo
menstrual. A maioria das gestacdes ocorrídas durante as pesquisas do PNF\ocorreu
conseqüente a relacdes sexuais realizadas em períodos reconfiecidos como férteis pelos
casáis. Assim, o percentual de gestacdes dependeu da motívacSó dos casáis. Estilóos
adicionáis mostram que índices equivalentes aqueles obtídos com outros métodos con
traceptivos sSo fácilmente alcanca'veis no mundo desenvolvido e em desenvolvimento.
Além disso, um estudode 19.843 muiheres pobres feito na india mostrou um número
de gestacdes próximo a zero. O PNF é barato, efetivo. sem efeitos colaterais, e pode ser
particularmente aceitável e eficaz entre povos habitantes de áreas de pobreza." (Br.
Med. J. 307:723726, 1993.fi

SSo beneméritas as vozes que se fazem assim ouvir, preenchendo a funpao de


orientar jovens e adultos nao no caminho da busca do prazer, mas no da plena realiza-
pao da personalidade.

* * *

(continuacao dapág. 215)

textos de povos pagaos antigos para mostrar a singularidade ou originali-


dade dos relatos bíblicos javista e sacerdotal (cf. pp. 194-211); todavia,
nao aprofunda o significado específico do texto sagrado (cf. Gn 1,1 -3,24).
0 mesmo se dá com a narracá*o do pecado original: o autor nao a esvazia
nem escarnece, mas concluí: "0 relato do 'pecado original' demonstra cla
ramente que, mediante a fé e a admiracao por seu Deus o Javista foi o pri
meiro a refletir e compreender que o Homem é o único responsável por
suas próprias desgracas, algo que na época já abundava na Historia eque,
desde entío, vemos ilustrado á nossa volta de forma mais ou menos cruel,
sangrenta e insuportavel" (p. 231). Esta conclusSo é va'lida, mas insuficien
te aos olhos da fé.

Em suma, o livro é interessante como repertorio de documentos anti


gos interpretados por um historiador que respeita os valores religiosos, mas
nSo é manual de ¡ntroducao aos livros históricos do Amigo Testamento.

E.B.

1 Agradecemos ao Dr. Herbert Práxedes (Niterói) o texto ácima. (N. da R.)

229
Em que consiste?

ACORDÓ FUNDAMENTAL ENTRE


A SANTA SÉ
E O ESTADO DE ISRAEL

Em sfntese: Aos 30/12/93 foi assinadp um Acordó Fundamental entre a Santa


Sé e o Estado de Israel. Este fato nao significa o fim das diferencas entre judeus e cris-
tSbs, nem mesmo é a solucSo de todos os problemas jurídicos e políticos existentes en
tre as duas partes, mas é o inicio de um entendimento que será mais e mais aperfeicoado
nos próximos tempos. O Acordó Fundamental garante liberdade religiosa aos fiéis ca
tólicos; reconhece o direito ao culto divino nos santuarios a eles confiados, sem que
naja alteracao no status quo; latinos, gregos. armenios, etiopes, russos... continuarSo a
possuir e administrar seus mosteiros, conventos e lugares santos. Á fgreja Católica o
Estado de Israel reconhece o direito de manter escolas, hospitais, obras assistenciais,
meios de comunicacao social (radio, televisa!), imprensa escrita) em harmonía com as
leis vigentes em Israel. O Estado israelense reconhece também o valor das peregrinacSes
á Térra Santa; podem contribuir para aproximar estrangeiros e habitantes de Israel,
como também as diversas correntes religiosas domiciliadas na Térra Santa.

A assinatura do Acordó dependía do entendimento entre judeus e árabes palesti


nos, que foi finalmente obtido após arduas conversares aos 13/09/t993. A Santa Sé
nao queria entrar em Acordó com Israel sem ter a garantia de que os palestinos seriam
respeitados em suas justas reivindicares frente ao Estado de Israel.

* * *

Aos 30/12/1993, em Jerusalém, no Ministerio das Relacóes Estrangeiras do Es


tado de Israel, foi assinado um "Acordó Fundamental" entre a Santa Sé e o Estado de
Israel. Subscreveram-no os respectivos plenipotenciarios: da parte da Santa Sé, Mons.
Claudio María Celli, Subsecretario das RelacSes com os Estados Estrangeiros; e, da
parte de Israel, o Dr. Yossi Beilin, Vice-Ministro das RelacSes Estrangeiras. 0 acontecí-
mentó teve grande repercussao no mundo ocidental, pelo que merece ser explanado
ñas páginas subseqüentes.

1. ANTECEDENTES E SIGNIFICADO

Deve-se, antes do mais, notar que

- o Acordó nao versava sobre questdes teológicas, pondo fim ás diferencas en


tre judeus e cristSos, como noticiaram alguns meios de comunicacSo; o diálogo teológi
co entre judeus e cris tíos prosseguirá;

230
ACORDÓ ENTRE A SANTA SÉ E ISRAEL 39

— também nao foi a solucio de todas as questoes pendentes entre a Santa Sé e o


Estado de Israel, pois ainda nao houve unanimidade sobre Jerusalém, cidade santa para
judeus, cristSos e muculmanos.

O Acordó foi, sim, o primeiro ato em demanda do pieno estabelecimento de rela-


c&es diplomáticas entre a Santa Sé e Israel; fixou pontos jurídicos básicos que permiti
rlo dentro em breve o surto de urna Nunciatura Apostólica em Tel-Aviv e de urna Em-
baixada israelense junto á Santa Sé. Os ambientes diplomáticos do mundo inteiro vi-
ram com simpatía esse Acordó; também os israelenses o acolheram favoravelmente,
embora alguns tenham lamentado que n3o se tenha dado tal passomuitos anos antes.
O melhor intérprete do pensamento israelense a respeito foi o próprio Dr. Yossi Beilin,
que declarou: "É falso ignorar a demora de tantos anos, como também é falso permitir
que a demora nos ate as míos e determine o nosso futuro. . . A assinatura do acordó
foi urna vitória da sensatez do povo hebreu e do Estado de Israel" (II Messagero, 31/
13/1993).

Examinemos os porqués de tal demora para se chegar ao Acordó.

0 Concilio do Vaticano II, em 1S65, abriu novos horizontes para o diálogo entre
judeus e cristSos, como se depreende da DeclaracSo Nostra Aetate, da qual vai um tre
cho aqui transcrito:

"Se é verdade que a Igre/'a é o novo povo de Deus, nem por isto os hebreus de-
vetn ser tídos como rejeitados por Deus nem como malditos, como se isto decorresse
da S. Escritura. . . Além disso, a Igreja, que execra todas as perseguidas movidas con
tra quem quer que seja, lembrada do patrimonio que Ihe é comum com os hebreus e
inspirada nao por motivos políticos, mas por religiosa caridade evangélica, deplora os
odios, as perseguicoes e todas as manifestares do antisemitismo volado contra os ju
deus em qualquer época e por quem quer que seja " (n° 41.

Logo depois da origem do Estado de Israel (1947), tiveram inicio conversacoes


entre a Santa Sé e o Governo israelense em vista do reconhecimento mutuo. Havia, po-
rém, questoes de ordem ética e jurídica (nao religiosa nem teológica) a ser previamente
resolvidas:

— tratava-se, antes do mais, de definir a posicáo do novo Estado frente as comuni


dades cristis da regiao, que eram minoritarias e árabes;

— além disso, havia o caso dos palestinos (árabes que habitavam a Térra Santa e
de lá foram expulsos pelos judeus); estes, deslocados e sem térra, sofriam injusticas,
que se agravaram após a guerra dos Seis Días em 1967; embora os palestinos fossem
muculmanos em maioria, nao podiam ser esquecidos pela Santa Sé em suas conversa
coes com Israel. 0 Papa Paulo VI, aos 22/12/1975, exprimia o pensamento da Igreja
relativo a esses pontos cruciais, afirmando a legitimidade das aspiracoes do povo judeu
desejoso de ter sua patria própria, á revelia de tantos obstáculos impostos pela historia;
notava, porém, que tais anseios nSo deveriam deixar de levar em conta as legítimas rei-
vindicacoes do povo palestinense. Alias, a convivencia de israelenses e palestinos fora
até ent3o — e continuaría a ser — urna sucessffo de atos de terrorismo e de ataques mi
litares, que parecíam tornar insolúvel a situacSo do Próximo Oriente.

231
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

Nao obstante, por efeito da mediacao de nac3es estrangeiras, abriu-se em Madri


urna Conferencia de Paz aos 30/10/1992, sob o patrocinio dos Estados Unidos e da
Rússia. Pela primeira vez sentaram-se em torno da mesma mesa para tratar da paz re
presentantes de israelenses, palestinos e de outros povos do Oriente envolvidos na ques-
tao. Após a sessao inaugural, a Conferencia transferiu para Washington os seus traba-
Ihos. Estes tiveram de enfrentar reais difículdades para descobrir a via dos entendi-
mentos.

Em junho de .1993, as eleicóes políticas em Israel permitiram a formacSo de um


novo Governo, de maioria trabalhista, que passou a encarar o problema com especial
interesse; partía da premissa de que valia a pena "restituir territorios contestados para
obter a paz".

Enquanto prosseguiam as conversacoes em Washington sem resultados concre


tos, o novo Governo de Israel e os representantes da OLP (Organizado para a Liberta-
cao da Palestina) concordaram em abrir, no mes de julhode 1993, conversacoes secre
tas; contavam com a mediacao discreta, mas decisiva do Ministro do Exterior da No
ruega, o sr. Johan Joergen Holst, que faleceria poucos meses depois. Tais conversacoes
possibilitaram a redacao de um "Protocolo de Acordó", assinado em Washington aos
13/09/93. Assim, entre Israel e palestinos as relac3es se tornaram mais afáveis e pro-
missoras.

Quanto á Santa Sé, é de notar que, aos 29/07/92, decidiu constituir com o Go
verno de Israel urna ComissSo de Trabalho permanente no intuito de normalizar as re-
lacoes entre ambas as partes. No andamento desses esforcos teve repercussáb muito fa-
vorável o Protocolo de Acordó assinado por Israel e a OLP em 13/09/93; removia o
principal empecilho de bom éxito das conversacoes. As boas relacóes entre a Santa Sé
e Israel estavam ligadas ao bom relacionamento entre israelenses e palestinos. Assim é
que aos 30/12/93 pode ser assinado o Acordó Fundamental entre aquelas duas partes,
apesar das dificuldades oriundas na aplicacSo, em Gaza e Jericó, das decisoes tomadas
por Israel e palestinos.

2. O TEXTO DO ACORDÓ

O Acordó consta de um Preámbulo, quinze Artigos e um Protocolo complemen


tar.

Eis o seu Preámbulo:

"A Santa Sé o Estado de Israel,

— recordados do caráter particular e da importancia universal da Térra Santa;

— conscientes da índole singular das rehcSes entre a Igre/a Católica eopovohe-


breu, como tamben conscientes do histórico processo de reconciliacSo e de crescimen-
to na recíproca compreensao e na amizade entre católicos e judeus;

232
ACORDÓ ENTRE A SANTA SÉ E ISRAEL 41

- tendo decidido, aos 29/07/92, constituir urna Comissáb Permanente bilateral


de Trabalho, a fim de considerar e aprofundar conjuntamente questSes de interesse co-
mum, aptas a normalizar o seu relacionamento mutuo;

- reconhecendo que o trabalho da mencionada Comissáb produziu material sufi


ciente para um prímeiro e fundamental Acordó;

- retendo que tal Acordó forneceráuma base sólida e duradoura para continuar
a desenvolver o seu relacionamento presente e futuro e para levar adíame as tarefas
da Comissáb,

entram em acordó sobre os seguintes Artigos..."

Como se vé, o Acordó nao dá por resolvidos todos os problemas, mas afirma
criar "urna base sólida e duradoura" para o progresso do bom relacionamento entre os
dois Estados e para o prosseguimentodos trabalhos da Comissá'o bilateral.

Os principáis Artigos do Acordó rezam o seguinte:

1) 0 Estado de Israel reconhece á Igreja Católica o direito de exercer no pafs as


suas atividades religiosas, moráis, educativas e caritativas, dispondo das suas institui-
coes próprias; reconhece outrossim á Igreja o direito de formar, designar e destinar o
seu pessoal para atender as finalidades de tais instituicoes (art. 3).

2) O Estado de Israel se compromete a manter e respeitar o status quo dos lu


gares sagrados cristaos (igrejas, mosteiros, conventos, cemitérios...) e os respectivos di-
reí tos das comunidades cristas interessadas (art. 4, §§ 1-3}.

Como se sabe, os santuarios da Térra Santa est3o entregues á guarda dos cristaos
latinos (especialmente franciscanos), gregos, armenios, etíopes, russos, tendo cada co-
munidade seus direitos de a( viver e celebrar o cu I tu divino. Fatores históricos diver
sos definiram tal distribuicao. - Ora, o Estado de Israel se compromete a nao interfe
rir, mas respeitar a si tu agio. A Santa Sé, por su a vez, se compromete a nao retocar tal
ordem de coisas.

3) O Estado de Israel concorda com a Santa Sé em continuar a garantir a liber-


dade de culto católico (art. 4, n° 4).

4) A Santa Sé e o Estado de Israel estao interessados.em favorecer as peregrina-


coes cristas á Térra Santa. Para unto, cooperarSo entre si mediante algumas agencias
adequadas, que saber3o realizar consultas oportunas sempre que surgir alguma dúvida
a resolver para o bem dos peregrinos. Oesta maneira, esperam que peregrinos e habi
tantes de Israel mais e mais se estimem e as diversas confissSes religiosas do país mais
se aproximem entre si (art. 5).

5} é reafirmado o direito, da Igreja Católica, de fundar, manter e dirigir escolas


e centros de estudos em todos os níveis, em harmonía com a legislacSo de Israel relati
va á educacSo (art. 6).

233
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

6) A Santa Sé e o Estado de Israel reconhecem o valor do intercambio cultural


entre instituicoes católicas do mundo inteiro e instituicoes culturáis e de pesquisa de
Israel. Em vista disso, favorecerSo o acesso a manuscritos, documentos e fontes históri
cas, em conformidade com as respectivas leis (art. 7).

7) O Estado de Israel reconhece á Igreja Católica o direito á liberdade de exprés-


slo e, por conseguinte, aos meios de comunicacao social (imprensa escrita, radio e tele-
visSo) dentro das normas vigentes em Israel para a comunícaclo social (art. 8).

8} É reconhecido á Igreja o direito de exercer suas atividades caritativas median


te instituicoes de saúde e de asistencia social, em harmonía com as leis vigentes em Is
rael a tal propósito (art. 9).

O Acordó nao deixa de apontar problemas que deverao ser resolvidos através de
ulteriores negociacoes efetuadas "em boa fé" (art. 10, n° 2). Tais sao:

a) as instituicoes católicas que gozam de personalidade jurídica segundo o Direi


to Canónico, poderao ser reconhecidas como tais e obterqualifícacSo correspondente
no direito de Israel. Para estabelecer as condigoes adequadas a esta finalidade, nomear-
se-á uma subcomissSo de peritos de ambas as partes (art. 3, n° 3).

b) As questSes de propriedade, economía e impostos referentes a instituicoes ca


tólicas ser3o regulamentadas após estudos a ser feitos por uma subcomissSo específica
{art. 10, n° 1 e 2).

3. CONSIDERACÓES FINÁIS

Por ocasiao da assinatura do Acordó, Mons. Claudio Celli e o porta-voz da Sala


de Imprensa do Vaticano, o Sr. Joaquim Navarro-ValIs, ressaltaram que as conversa-
coes havidas entre a Santa Sé e Israel foram levadas a efeito em nome da Igreja Católi
ca apenas, embora varias das questSes abordadas interessem outrossim ás comunidades
cristas nao católicas. A Igreja Católica n3o quis, nem podia, falar em nome dos n3o ca
tólicos; espera, porém, que o bom éxito das negociacoes com Israel facilite o entendí-
mentó dos demais crist3os com os judeus.

A Santa Sé quis informar, a respeito das conversacoes e dos trámites que prece-
deram o Acordó, os embaixádores de muitos países acreditados junto ao Vaticano, es
pecialmente os dos países árabes (em maioria, mucuImanos). Quis assim significar que
o bom relacionamento entre a Santa Sé e Israel é conseqüencia do clima oriundo da
Conferencia de Madri—Washington. Mons. Jean-Louis Tauran, Secretario da Santa
Sé para as Relacoes Exteriores, percorreu o Marrocos, o Egito, o Líbano e a Siria, en-
contrando-se com os respectivos Chefes de Govemo e os Ministros do Exterior. A
Jordania foi visitada por Mons. Claudio Celli em' 1992 com o mesmo intuito de infor
mar os ¡nteressados.

No día seguinte ao da assinatura do Acordó, Mons. Celli encontrou-se com repre


sentantes palestinos na Orient House em Jerusalém-Leste. No dia 17 de Janeiro subse-

í 234
ACORDÓ ENTRE A SANTA SÉ E ISRAEL 43

qfiente urna, delegacífo de palestinenses esteve no Vaticano. Tais encontros deram á


Santa Sé o ensejo de reafirmar su a disponibilidade para contactar os palestinos dos ter
ritorios ocupados e da diáspora. O novo clima de diálogo que se instaurou entre a
Santa Sé e o Próximo Oriente fez prever a instaurado de relacoes diplomáticas entre a
Santa Sé e a Jordania dentro de breve espaco de tempo.

Como se vé, o texto do Acordó nSo faz referencia á cidade de Jerusalém. Este
silencio se explica por dois motivos:

1) deve-se discutir quem exercerá a soberanía sobre Jerusalém: o Estado de Is


rael e o Conselho dos Palestinos nao de o definir, de acordó com o Protocolo assinado
em Washington aos 13/09/93; ■

2) independentemente desta primeira questSo, é desejado um Estatuto especial


sustentado por acordos internacionais, que garanta a tutela aos enormes valores cultu
ráis e religiosos existentes naquela cidade. É principalmente a Santa Sé quem pleiteia
este Estatuto; ele será possfvel dentro de qualquer regime civil que se dé a Jerusalém:
a) quer Jerusalém se torne a capital de Israel, como querem os judeus (que praticamen-
te já estabeleceram o Governo do país em Jerusalém, e nao em Tel-Aviv); b) quer Je
rusalém seja governada por um Comité israelense-palestinos; c) quer a cidade venha a
ser considerada internacional e, por conseguinte, fique sujeita á jurisdicao da ONU.1

Embora o Acordó Fundamental nao ponha fim a todas as pendencias existentes


entre a Santa Sé e o Estado de Israel, é, sem dúvida, urna premissa importante para que
o relacionamento entre ambos se desenvolva sempre mais em clima humano sereno e
amistoso - o que será benéfico para a salvaguarda dos direitos humanos dos indivi'duos
atetados pela problemática da Térra Santa; ná*o só judeus e cristSos, mas também ára
bes das regiSes vizinhas estSo interessados no bom entendimento do Estado de Israel
com a Igreja Católica. De certo modo, todos os povos do Próximo Oriente e do Egito
desejam a paz e a fraternidade, que há quase cinqüenta anos Ihes tém faltado.

1 Já o Papa Paulo VI, aos 22/12/1967, fazia declarares, que estSo na base de outros
pronunciamentos posteriores da Santa Sé:
"Em termos gerais, a questao das relacoes entre a Santa Sé e Israel se apresenta
hoje, a nosso modo de ver, com dois aspectos essenciais que nao podem ser omitidos.
O primeiro refere-se aos lugares sagrados propriamente ditos e assim considera
dos pelas tres religioes monoteístas: a judaica, a crista e a muculmana. É necessário ga
rantir a Iberdade de culto, o respeito; a conservacSó e o acesso aos lugares sagrados.
Estes deverao beneficiar-se de especial imunklade grapas a um Estatuto próprio, cuja
observancia deverá ser garantida por urna ¡nstituicao de caráter internacional, dándo
se particular atencio á fisionomía; histórica e religiosa de Jerusalém.
O segundo aspecto da questSo refere-se ao livre usodos direitos civis e religiosos
que tocam legítimamente as pessoas, aos lugares e as atividades de todas as comunida
des presentes no territorio da Térra Santa."
A Santa Séjulga que a sua posicSo reflete o modo de ver da comunidade interna
cional, que se manifestou em termos muito claros na ResolucSo n? 181 (II) adotada
pelas Nacdes Unidas em 29 de novembro de 1947, quando a ONU reconheceu o direito
dos judeus a constituir o Estado de Israel na Palestina.

235
No Egito:

IRMA EMANUELA ENTRE OS DESERDADOS

Em sin tese: Ao lado de Madre Teresa de Calcuttí, destacase na Igreja de nossos


dias a figura da Irma" Emanuela Cinquin, belga, quepassou vinte e tres anos ñas favelas
da periferia do Cairo (Egito) e ho/'e se acha, com 85 anos de idade, retirada no SuI da
Franca, por ordem de suas Superioras Religiosas. Dedicou-se aos pobres, que viviam em
barracos, junto com porcos, ratos, jumentos, caes... recolhendo o lixo do Cairo ou
para como- detritos de alimentos ou para revendé-los a fábricas de reciciagem. Por sua
dedicacSo, conseguiu transmitir nocoes de higiene e limpeza a essas populacdes: assim
os barracos foram transformados em casebres; as escolas primarias e técnicas foram
sendo fundadas, as criancas vestidas de uniforme e aven tal. A Ir. Emanuela conseguiu
levantar o nivel de vida desses miseráveis, oferecendo-lhes o seu amor cristSo e sua ge-
nerosidade, pois sSo estas as forcas que nao vencem, mas con-vencem. É importante
que nossos leitores no Brasil tomem conhecimento dos fatos.
* * *

é conhecida, em todo o mundo católico, Madre Teresa de Calcuttá, a apóstola


dos doentes e miseráveis. Menos conhecida, mas também mijito notável, é outra Reli
giosa, de origem belga, que trabalhou no Egito entre as mais carentes populacoes, com
o neme de Irma* Emanuela Cinquin. Aos 85 anos de idade, em meados de 1993, retí-
rou-se para um lugar de repouso no Sul da Franga, a chamado de sua Congregacao Re
ligiosa; continua, porém, desejosa de voltar ao seu antigo campo de trabalho, nao obs
tante o peso dos anos.

Visto que é sempre interessante conhecer pessoas generosas, dispostas a aliviar a


miseria alheia, neste mundo em que tantos sao os casos de exploracáo e corrupcao,
aposentaremos, a seguir, trapos da personal¡dade e do trabalho de Ir. Emanuela.1 — A
riqueza humana da Igreja sao os seus Santos ou os seus membros que, com magnanimi-
dade heroica, vivem o Evangelho.

1. IRMA EMANUELA: QUEM É?

Madeleine Cinquin nasceu em Bruxelas aos 16 de novembrode 1908. Aos cinco


anos de idade, perdeu seu pai afogado durante um passeio marítimo. Todavía, sua míe
tinha tempera forte e soube dar digna educacSo aos filhos num ambiente abastado da
Bélgica.

1 As informacSes foram colhldas na revista italiana Famiglia Cristiana, n° 51, de


29/12/1993, onde se encontré o artigo de Roberto Zichittella intitulado "L'Angelo
degliStraccivendoli" (O Anjo dos TrapeirosJ, pp. 84-91.

236
IRMÁ~EMANUELA ENTRE OS DESERDADOS 45

Com vinte anos, Madeteine era urna jovem que se vestía e enfeitava segundo os
melhores padroes do seu tempo. Gostava de vida mundana, na qual se dava a excursoes
com amigos, ao esporte e á danca. Contudo, dentro déla outros atrativos se faziam sen
tir, como ela mesma recorda posteriormente: "Foi o Espirito que me atraiu, eme pe-
diu que me fizesse Religiosa. Pediu-o a mim, á jovem que viajava, dancava e se diver
tía. .. Respondí que sim".

Em 1929, ou seja, com vinte e um anos, Madeleine entrou, como postulante, no


Convento de Notre-Dame de Sion, em Paris. Escolheu essa Congregacao porque Ihe
dava a ocasiSo de ensinar e de conviver com criancas. Proferiu os seus votos religiosos
em 10/05/1931, tomando o nome de Irma* Emanuela (= Deus conosco). No fim desse
ano, foi enviada a Istambul para lecionar a meninas de sete a oito anos de idade. Exer-
ceu o magisterio na Turquía, na Tunfeia e de novo na Turquia durante varios anos;
dedicava-se as enancas tanto na escola como em visitas a lugares de seu interesse. Em
Istambul esteve algumas vezes com o Delegado Apostólico, Mons. Angelo Roncalli,
futuro Papa Joáo XXIII.

Eis, porém, que a Ir. Emanuela ouvia em seu íntimo aínda outro apelo. Tornou-
se consciente de que devia entregar-se aos mais pobres e indefesos. Apresentou seus no-
vos anseíos as Superioras, que de ¡mediato nao a quiseram dispensar. Todavía, a insis
tencia da Irma* obteve, finalmente, a permissSb de partir para o Egito em fevereiro de
1965. Comecou em Alexandria, onde ensinou Filosofía. Ainda nao era este o seu obje
tivo mais almejado. Aos poucos foi-se voltando mais e mais para a populacio carente:
em 1970 pós-se a trabalhar no Leprosario de Abu Zaabal e, por fim, foi para a perife
ria do Cairo, cidade de 13.000.000 de habitantes(se nao mais); nesta regiao vivem em
favelas milhares de zabaline (trapeiros ou vendedores de trapos) em.meio as imundf-
cies e aos dejetos recolhidos ñas lixeiras do Cairo.

Foi ai que, aos 62 anos de idade. Ir. Emanuela se fixou, morando num barraco
de fot has de metal e papelao, em meio aos ratos e aos porcos. Ela mesma comenta:

"Nesta favela, em meio a esta gente, encontré! o Cristo e, de repente, tornei-me


um deles."

Abriu escolas, ambulatorios, centros de formacao profesional. Mobilizou cop


tas1 e muculmanos, conseguindo dezenas de voluntarios. Principalmente doou amor e
respeito a pessoas desprezadas por todos e esquecidas pelas autoridades civis.

IrmS Emanuela ficou ali até meados de 1993. Atualmente, está retirada numa
casa do Sul da Franca, saudosa dos seus pobres deixados no Egito, a tal ponto que ela
declarou:

'Se eu recebesse um telegrama, convidando-me para retornar ao Egito, voltaria


para lá amanhS. Nao tenho problemas; a minha bagagem é muito leve. Mas fico conten
te por estar aquí; as Superioras mo pediram e estou de acordó com elas. Sem dúvida.

7 Os coptas sáb os habitantes do Egito anteriores á invasáb árabe muculmana do se


cuto Vil d.C. Sao crista~os que se separaram da Igreja no sáculo V por na~o aceitarem a
definifSó do Concilio de Calcedonia (451). Este rejeitou o monofisismo, segundo o
qual em Cristo a natureza humana teña sido absorvida pela natureza divina. Em nossos
dias esta diferenca cristológica tem pouca importancia, pois na prática os coptas pro-
fessamo que a Igreja professa: urna Pessoa (divina) e duas naturezas em Cristo.

237
46 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

pedi que me deixassem lá aínda por um pouco; mas acabei-me convencendo. Sou idosa.
No Egito eu andava de manhSá noite; tomava o metro, visitava os barracos, agüen tava
o calor e o frío. .. Em suma, eu preciso de descansar. Ademáis sei que no Egito estSo
as Irmas coptas, que falam o árabe melhor do que eu; há também médicos e volunta
rios. Tudo funciona bem;já nüo sou necessária."

A Irma dedica-se á leí tura da Biblia, da "Imitacaode Cristo" e ou tros documen


tos, gozando de saúde relativamente boa, pois, com oitenta e cinco anos de idade (em
1993), precisava apenas de tomar vitaminas; escreve cartas em resposta as muitas que
recebe e prepara seu livro de "Memorias". Á noite, depois das dez horas, quando as
suas companheiras se recolhem, diz ela:

"Eu me retiro para a capeta, a fim de rezar durante urna hora aínda. Este é o mo
mento mais belo, principalmente porque, quando eu estava no Cairo, eu meachava tSo
cansada de noite que muitas vezes nao conseguía rezar. Aquí, ao contrario, levo comigo
as cartas que me escrevem os prisioneiros, as pessoas tristes e desesperadas. Leio-as de
novo, frase por frase; assimilo a dor, apresen to ao Senhor essas desgrapas. Nao espero
milagres; sei que a vida é feita de alegrías e tristezas, mas Deus ajuda o homem a lutar;
faz que aceitemos o sofrimento e o transforma em abertura do coracao."
Acrescenta a lrmá*que essa oracao ainda n2o é o ato final do seu dia:

"Jé há anos que custo a adormecer, porque, quando me deito (e isto me aconte
cía mais ainda no Egito), levo comigo os problemas da ¡ornada. Visto que quero perma
necer lúcida, renuncie/' aos soporíferos. Entao, para conciliar o sonó, lelo os romances
de Agatha Chrístie; assim aprendo um pouco de inglés, relaxo-me e acabo adormecen-
do tranquila."
Eis mais algumas recordacoes da Irma*:
"A maíor satisfacao do meu trabalho no Egito foram as criancas. Quando che-
guei no Cairo em 1971, viviam em condicoes miserávels: sujas, chelas de parásitas,
em meio a porcos e llxo. Pavoroso! Procurei que as familias compreendessem a impor
tancia da escola, mas encontré! muita resistencia, porque os país predsavam da ajuda
dos filhos para recolher o iixo. Leve! dez anos para superar essa mentalidade. Assim,
atualmente, as crianzas, que outrora cresciam como selvagens, freqüentam escolas, ñas
quais se sentem respeitadas. Também as jovens nSb sao mais raptadas e tratadas como
escravas. Nos primeiros tempos que passeino Egito, dísse-me urna mufher: Tomos fei-
tos para ser manipuladas por nossos maridos'; ela nSo brincava, mas julgava dizer a ver-
dade."

Jamáis alguém ameacou ou agrediu a Irma" Emanuela, nem haveria por que o fa-
zerem. Diziaela:

"Mais envelheco e mais me dou conta de que amar éa única coisa que vale. Tai-
vez baste um olhar, um sorríso. . . Em París eu procurava sempre passar peno dos var-
redores, que sao todos ¿migrantes do Norte da África, e eu os saudava em árabe. Com
que alegría me agradeciam! Temos que mostrar aos outros que os amamos; todospreci-
sam de amor!"

Quando Ihe insinuaram, certa vez, que era urna Santa, respondeu:

"Imaginem um quarto escuro. É Emanuela. Acendam a luz; eis Emanuela com o


Cristo. A luz que véem brilhar em mim, nSo pertence a mlm; é a luz que Cristo me dá.

238
IRMA EMANUELA ENTRE OS DESERDADOS 47

Os Santos deixam que a luz de Deus entre em seus corafdes, mas o Santo 6 Deus, nao
sou eu."

2. MOKKATAM E ARREDORES

2.1. Mokattam

0 repórter Roberto Zichittella esteve em 1993, após a partida de Ir. Emanuela,


nos lugares em que ela trabalhava. E fez um relato de sua viagem, que assim pode ser
resumido:

"Mokattam é um quarteirao da periferia do Cairo no qual moram milhares de


egipcios (vinte mil ou mais), além de um número indefinido de ratos, pcrcos, gáneos, ju-
mentinhos, galinhas e caes 'vira-lata'." Todos, seres humanos e animáis, compartilham
o mesmo espago, que vem a ser um aglomerado de sujeira. Nem agua encanada, nem
luz elétrica, nem esgoto lá existem. O visitante fica estupefato por encontrar tal am
biente, mas quem vive lá se habí tu ou ao mesmo; sem esse acumulo de coisas sujas, o
povo local seria ainda mais pobre e perdería toda esperanca.

Pode-se assim dizer que a imundície é o tesouro de Mokattam. Os seus morado


res organizam-se em cooperativas e vao recolher o que se pode aproveitar do lixo do
Cairo. Transportam-no em carretas cambaleantes puxadas por burrinhos magros e tris
tes. A coleta de lixo ocupa a familia inteira: homens, mulheres, mangas; da manha á
noite, diariamente, lidam com restos de alimentos, latas vazias, sacos de plásticos, tra
pos. . . Quando o trabalho decorre bem, o pai de familia embolsa 60.000 liras italianas
por mes.

Em Mokattam, que o repórter qualifica como "inferno", mora urna Religiosa


copta, de nome Sara, que trabalhou durante dezoito anos com a Ir. Emanuela; tem 47
anos de idade, sendo nativa do Alto Egito (as margens do Nilo) no Egito Meridional.
Ela ocupa o lugar da Ir. Emanuela nao somente em Mokattam, mas também em Ezbet
El Nakhl e Meadi Tora.

Essa Irma* recebe o visitante, que bate á porta do casebre onde ela vive com ou-
tras Religiosas. Diante da.porta encontra-se um porco deitado em urna poca de excre-
""mentos, lama e lixo, que exala um fedor insuportável. O motorista de taxi, Zaki, que
levou o repórter através das ruelas atrabancadas de Mokattam, desloca o porco á custa
de pontapés e gritos. A'porta se abre e se apresenta urna IrmS, que saúda: "Salam
aleikum, A Paz esteja com os Srs.l" A Irma* Sara mostrou Mokattam ao visitante,
acompanhada por Bos Bos, o seu cita muito vivaz. Os barracos do quarteirao, aos pou-
cos, v3o sendo substituidos por alvenaria. Mas o terreno é frágil: na noite de 13 para 14
de dezembro de 1992 um abalo de térra sacudiu urna parte da favela, provocando a
morte de cinqüenta pessoas.

Sara levou o repórter ao ambulatorio, passando por entre jumentos e porcos. E


disse: "Imagine! Antes de nos nada havia aqui!" O adro do ambulatorio estava cheio de
mulheres e enancas. O Dr. Wasfi atendía aos enfermos; disse: "As doengas mais fre-
qüentes aqui sa"o as respiratorias (imagine o que é respirar a fumaca dos detritos que se
queimaml); há também molestias da pele e dos intestinos, principalmente gastroenteri-
te. Mas aqui a verdadeira doenca se chama pobreza". Ao que Sara acrescentou: "Aqui a
miseria está principalmente ñas condicoes de vida, nao tanto na falta de dinheiro".

239
48 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 384/1994

Na mesma rúa da casa das IrmSs e do ambulatorio está a escola; cerca de mil alu-
nos af estudam ou em nivel primario ou em nivel técnico. As criancas aprendem, antes
do mais, as nocóes básicas de higiene e limpeza; usam vestidos brancos com raias cor de
rosa e avental azul. Os alunos aprendem a ler, escrever, cantar, fazem experiencias cien
tíficas simples, semeiam plantas diversas e estudam as flores. Em suma, aprendem que
o mundo nao consta apenas de lixo, sujeiras e animáis irracional...; as aulas sá*o dadas
em salas limpas e arrumadas por professores jovens e sorridentes.

2.2. Ezket El Nakhl

Deixando Mokattam, o repórter, com a Ir. Sara, fo¡ para Ezbet El Nakhl, enfren
tando o tráfego superlotado do Cairo. Verificaram ter chegado quando sentiram o mau
cheiro e viram lama, animáis e barracos como em Mokattam. O nome dessa favela quer
dizer: Vila das Palmas; estas, porém, desaparecerán!. Em 1980 a Ir. Emanuela af inau-
gurou o Centro Salam (Paz), que compreende hospital, asilo, escola artesanal, escola de
corte e costura, ambulatorio e área de esportes. Ai também moram Religiosas coptas,
da Congregaclo das Filhas de María. Em torno do Centro Salam, circulam as carretas
portadoras de lixo, e funcionam botequins onde os homens fumam e bebem, e também
onde se vendem támaras, mangas e meloes, que fazem, por sua beleza natural, esquecer
os aspectos negativos do quarteirlo. — Os milhares de pessoas que vivem em Ezbet El
Nakhl, como as de Mokattam, provém do Alto Egito para fugir da pobreza lá existente;
é, para elas, melhor viver ñas imundfcies do Cairo do que ñas térras do Sul do país. Sao
quase todas de religiSo copta, mas nao faltam af muculmanos, que, apesar do Corao,
convivem com os porcos, merecendo assim o desprezo dos seus correligionarios orto
doxos.

Perto do Centro Salam, os colaboradores de Ir. Emanuela e as Irmis coptas fun-


daram urna loja de recuperacao do lixo. Diariamente no Cairo recolhem-se 10.000 to
neladas de lixo; 35% ficam para o Governo; 25% s3o levadas pelos favelados e o resto
é deixado ñas rúas. A frente da obra, está o engenheiro Gamal Zekril Bisada, que ensi-
nou aos jovens como recuperar os saquinhos de plástico: lavam-nos, estendem-nos ao
sol e os enviam para fábricas; Gamal passou dez anos trabalhando na favela e comenta:
"Para melhorar o nosso projeto, eu precisaría de muitos outros colaboradores. Mas
quem está disposto a isso? Todos querem os grandes escritorios, onde há ar condiciona
do e aparelhagem moderna; poucos estSo dispostos a fazer algum sacrificio".

2.3. Meadi Tora


Roberto Zichittella foi levado para outra favela, rhuito mais atrasada, passanao
ao longo da "cidade dos mortos vivos", amigos cemitérios habitados por centenas de
pessoas vivas desabrigadas. Chegaram a Meadi Tora, quarteirao que se identificava á
distancia pelo seu mau cheiro. Lá comecou a trabalhar Ir. Emanuela em 1985; aínda
nSo há casas, mas somente barracos. O calor é tal que as onze horas da manha as ativi-
dades escolares cessam; as criancas n3o vestem uniforme com o seu aventalzinho, como
em Mokattam e Ezbet El Nakhl, mas dizem as Irmas que já é urna grande Vitoria conse
guir que as criancas se sentem num banco de madeira para receber os ensinamentos
mais rudimentares.

240
Eis breves tragos da miseria em que vivem tantas criaturas humanas em nossos:
dias. Madre Teresa de Calcuttá e lrma*Emanuela vém a ser modelos de dedicacSo, dedi-
cacao que faz os Santos,.. . dedicagao que é o tesouro da Igreja. A forga dessas duas
mulheres nao está no plano físico nem no plano económico, mas na oferta do amor e
da generosidade abnegada; estes sSo valores poderosos quenaovencem, mascon-vencem
o próximo.

Estévao Bettencourt O.&B.

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5. O primado de Pedro — 6. Eucaristía: Sacrificio e Sacramento. 7 — A Confissao
dos pecados - 8. O Purgatorio - 9. As indulgencias - 10. María, Virgem e Mae
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J EM COMUNHÁO \
Revista bimestral (5 números: margo a dezembro)
(NOVA FASE A PARTIR DO N? 103)

Editada pelo Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, desde 1976


(já publicados 102 números), destina-se a Oblatos beneditinos e pessoas
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